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Ficha Informativa sobre Cesário Verde Características realistas

Características modernistas

Características estilísticas

Características temáticas

TEMÁTICAS

Enquadramento QUANDO TUDO Estético-Literário da A cidade Linguagem e Estilo ACONTECEU... A poesia de Cesário eo (Biografia) humilhação Verde campo A Busca da A imagética perfeição Feminina formal

Resumo Questão Social

Múltiplos olhares sobre a obra de Cesário Verde

O Impressionismo adaptado ao Real

Características realistas: • Supremacia do mundo externo, da materialidade dos objectos; impõe o real concreto à sua poesia. • Predomínio do cenário urbano (o favorito dos escritores realistas e naturalistas). • Situa espacio-temporalmente as cenas apresentadas (ex: «Num Bairro Moderno» - «dez horas da manhã»). • Atenção ao pormenor, ao detalhe. • A selecção temática: a dureza do trabalho («Cristalizações» e «Num Bairro Moderno»); a doença e a injustiça social («Contrariedades»); a imoralidade das «impuras», a desonestidade do «ratoneiro» e a «miséria do velho professor» em «O Sentimento dum Ocidental». • A presença do real histórico: a referência a Camões e o contexto socio-político em «O Sentimento dum Ocidental». • A linguagem burguesa, popular, coloquial, rica em termos concretos. • Pelo facto da sua poesia ser estimulada pelo real, que inspira o poeta, que se deixa absorver pelas formas materiais e concretas. • •

Características modernistas: «A poesia de Cesário Verde reflecte a crise do naturalismo e o desencanto pela estética realista. O poeta empenha-se no real, é certo, porém a instância da visão subjectiva é marcante ao ponto de fazer vacilar a concepção de Cesário Verde como poeta realista.» (Elisa Lopes). Mesmos nos textos mais frequentemente citados como realistas, encontramos já um olhar subjectivo (porque selectivo), valorativo, que se manifesta num impressionismo pictórico, pois mais do que a representação do real importa a impressão do real, que suplanta o real objectivo. A realidade é mediatizada pelo olhar do poeta, que recria, a partir do concreto, uma super-realidade através da imaginação transfiguradora, metamorfoseando o real num processo de reinvenção ou recontextualização precursora da estética surrealista. Abre à poesia as portas da vida e assim traz o inestético, o vulgar, o feio, a realidade trivial e quotidiana. A. C. Monteiro chama-lhe «o pendor subversivo».


Forte componente sinestésica (cruzamento de várias sensações na apreensão do real), de pendor impressionista, que valoriza a sensação em detrimento do objecto real. • Um certo interseccionismo entre planos diferentes, visualismo e memória, real e imaginário, etc, (concretizado muitas vezes em hipálages sugestivas). Características estilísticas: • A estrutura narrativa dos seus poemas, em que encontramos acções protagonizadas por agentes/actores (ex: «Deslumbramentos», «Cristalizações» e «Num Bairro Moderno»). • A estrutura deambulatória que configura uma poesia itenerante: a exploração do espaço é feita através de sucessivas deambulações, numa perspectiva de câmara de filmar, em que se vão fixando vários planos (ex: «Cristalizações», em que se configuram vários planos, e «O Sentimento dum Ocidental», em que há um fechamento cada vez maior dos cenários apreendidos pelo olhar). É uma espécie de olhar itinerante e fragmentário, que reflecte o passeio obsessivo pela cidade (e também no campo em alguns poemas); uma poesia transeunte, errante. Exemplos mais significativos são os poemas «Num Bairro Moderno», «O Sentimento dum Ocidental», que definem a relação do poeta com a cidade. • O olhar selectivo: a descrição/evocação do espaço é filtrada por um juízo de valor transfigurador, profundamente sinestésico (ex: «Num Bairro Moderno»). • O poeta é como um espelho em que vem repercutir-se a diversidade do mundo citadino. • O contraste luz/sombra: jogo lúdico de luz em que as imagens poéticas se configuram em cintilações, descobrindo, presentificação e recriando a realidade (ex: «O Sentimento dum Ocidental»). Tanto pode ser a luz do dia como a luz artificial, como a luz metafórica que emana da visão da mulher. A incidência da luz é uma forma de valorizar os objectos, entendendo-se a luz como princípio de vida. • Automatismo psíquico: associações desconexas de ideias, visível nas frases curtas, na sequência de orações coordenadas assindéticas, que sugerem uma acumulação, uma concatenação aleatória de ideias (ex: «Contrariedades», «O Sentimento dum Ocidental). • Adjectivação particularmente abundante e expressiva, com dupla e tripla adjectivação, ao serviço de um impressionismo pictórico. • Os substantivos presentificadores da realidade convocada, frequentemente em enumeração, que sugere uma acumulação, um compósito de elementos, característicos da construção pictórica. •

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Características temáticas: Oposição cidade/campo, sendo a cidade um espaço de morte e o campo um espaço de vida – valorização do natural em detrimento do artificial. O campo é visto como um espaço de liberdade, do não isolamento; e a cidade como um espaço castrador, opressor, símbolo da morte, da humilhação, da doença. A esta oposição associam-se as oposições belo/feio, claro/escuro, força/fragilidade. Oposição passado/presente, em que o passado é visto como um tempo de harmonia com a natureza, ao contrário de um presente contaminado pelos malefícios da cidade (ex: «Nós»). A questão da inviabilidade do Amor na cidade.


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A humilhação (sentimental, estética, social). A preocupação com as injustiças sociais. O sentimento anti-burguês. O perpétuo fluir do tempo, que só trará esperança para as gerações futuras. Presença obsessiva da figura feminina, vista: → negativamente, porque contaminada pela civilização urbana mulher opressora – mulher nórdica, fria, símbolo da eclosão do desenvolvimento da cidade como fenómeno urbano, sinédoque da classe social opressora e, por isso, geradora de um erotismo da humilhação (ex: «Frígida», «Deslumbramentos» e «Esplêndida»), em que se reconhece a influência de Baudelaire; → positivamente, porque relacionada com o campo, com os seus valores salutares - - mulher anjo – visão angelical, reflexo de uma entidade divina, símbolo de pureza campestre, com traços de uma beleza angelical, frequentemente com os cabelos loiros, dotada de uma certa fragilidade («Em Petiz», «Nós», «De Tarde» e «Setentrional») – também tem um efeito regenerador; - mulher regeneradora – mulher frágil, pura, natural, simples, representa os valores do campo na cidade, que regenera o sujeito poético e lhe estimula a imaginação (ex: as figuras femininas de a «A Débil» e «Num Bairro Moderno»); mulher oprimida – tísica, resignada, vítima da opressão social urbana, humilhada, com a qual o sujeito poético se sente identificado ou por quem nutre compaixão (ex: «Contrariedades»); - mulher como sinédoque social – (ex: as «burguesinhas» e as varinas de «O Sentimento dum Ocidental» como objecto do estímulo erótico mulher objecto – vista enquanto estímulo dos sentidos carnais, sensuais, como impulso erótico (ex: actriz de «Cristalizações»).

CESÁRIO VERDE TEMÁTICAS

A cidade e o campo • A natureza, ávida mas “honesta”, “salutar” e sempre jovem, aparece-nos pintada nos seus poemas como nas evocações da pintura geral (“pinto quadros por letras, por sinais”) – característica impressionista, porque é nas letras como um artista plástico. • Identifica-se com a cidade presente, deambulando pelas ruas e becos; revive por evocação da memória todo o passado e os seus dramas; acha sempre assuntos e sofre uma opressão que lhe provoca um desejo “absurdo de sofrer”: ao anoitecer, ruas soturnas e melancólicas, com sombras, bulício...; o enjoo, a perturbação, a monotonia (“Nas nossas ruas, ao anoitecer,/ Há tal soturnidade, há tal melancolia,/ Que as sombras, o bulício do Tejo, a maresia/ Despertam-me um desejo absurdo de sofrer.” – Sentimento de um ocidental) • Do campo capta a vitalidade e a força telúrica; não canta o convencionalismo idílico, mas a natureza, os pomares, as canseiras da família durante as colheitas.


• A cidade surge viva com homens vivos; mas nela há a doença, a dor, a miséria, o grotesco, a beleza e a sua decomposição fatal... No campo há a saúde, o refúgio durante a peste na cidade... • “Ao nível pessoal, a cidade significa a ausência, a impossibilidade ou a perversão do amor, e o campo a sua expressão idílica. Ao nível social, a cidade significa opressão, e o campo a recusa da mesma e a possibilidade do exercício da liberdade.” • No campo, a vida é activa, saudável, natural e livre, por oposição à vida limitada, reprimida e doentia na cidade. (“Que de fruta! E que fresca e temporã./ Nas duas boas quintas bem muradas, /Em que o Sol, nos talhões e nas latadas,/ Bate de chapa, logo de manhã” – Nós) • As descrições de quadros e tipos citadinos retratando Lisboa em diversas facetas e segundo ângulos de visão de personagens várias (Num Bairro Moderno; Cristalizações; O Sentimento dum Ocidental). • A invasão simbólica da cidade pela vitalidade e pelo colorido saudável dos produtos do campo (como por exemplo, a “giga” da “rota, pequenina, azafamada” rapariga em Num Bairro Moderno).

Binómio cidade/campo O contraste cidade/campo é um dos temas fundamentais da poesia de Cesário e revela-nos o seu amor ao rústico e natural, que celebra por oposição a um certo repúdio da perversidade e dos valores urbanos a que, no entanto, adere. è A cidade personifica a ausência de amor e, consequentemente, de vida. Ela surge como uma prisão que desperta no sujeito “um desejo absurdo de sofrer”. É um foco de infecções, de doença, de MORTE. É um símbolo de opressão, de injustiça, de industrialização, e surge, por vezes, como ponto de partida para evocações, divagações

è O campo, por oposição, aparece associado à vitalidade, à alegria do trabalho produtivo e útil, nunca como fonte de devaneio sentimental. Aparece ligado à fertilidade, à saúde, à liberdade, à VIDA. A força inspiradora de Cesário é a terra-mãe, daí surgir o mito de Anteu, uma vez que a terra é força vital para Cesário. O poeta encontra a energia perdida quando volta para o campo, anima-o, revitaliza-o, dá-lhe saúde, tal como Anteu era invencível quando estava em contacto com a mãe-terra. O campo é, para Cesário, uma realidade concreta, observada tão rigorosamente e descrita tão minuciosamente como a própria cidade o havia sido: um campo em que o trabalho e os trabalhadores são parte integrante, um campo útil onde o poeta se identifica com o povo (Petiz). É no poema Nós que Cesário revela melhor o seu amor ao campo, elogiando-o por oposição à cidade e considerando-o “um salutar refúgio”. A oposição cidade/campo conduz simbolicamente à oposição morte/vida. É a morte que cria em Cesário uma repulsa à cidade por onde gostava de deambular mas que acaba por aprisioná-lo.

A humilhação -

a humilhação sentimental: • a mulher formosa, fria, distante e altiva (Esplêndida; Deslumbramentos; Frígida); • a mulher fatal da época/a humilhação do sujeito poético tentando a aproximação (Esplêndida); • a mulher burguesa, rica, distante e altiva/a humilhação do sujeito poético que não ousa aproximar-se devido à sua baixa condição social (Humilhações); • a mulher fatal, bela e artificial, poderosa e desumana/a consequente humilhação do poeta (“Milady, é perigoso contemplá-la (...)/ Com seus gestos de neve e de metal.”, Deslumbramentos);


• a mulher fatal, pálida e bela, fria, distante e impassível que o poeta deseja e receia/a humilhação e a necessidade de controlar os impulsos amorosos (Frígida). - a humilhação estética: • a revolta pela incompreensão que os outros manifestam em relação à sua poesia e pela recusa de publicação por alguns jornais (“Arte? Não lhes convém, visto que os seus leitores/ Deliram por Zaccone”; “Agora sinto-me eu cheio de raivas frias/ Por causa dum jornal me rejeitar, há dias/ Um folhetim de versos.”, Contrariedades). - a humilhação social: • o povo comum oprimido pelos poderosos (Humilhações); • o abandono a que são votados os doentes (“Uma infeliz, sem peito, os dois pulmões doentes (...)/ O doutor deixou-a...”, Contrariedades); • o povo dominado por uma oligarquia poderosa (a “Milady” de Deslumbramentos é uma representante dessa oligarquia).  A BUSCA DA PERFEIÇÃO FORMAL Cesário busca a expressão clara, objectiva e concreta; As suas descrições têm pouco de poético – prosaísmo lírico –, pois procura explorar a notação objectiva e sóbria das graças e dos horrores da vida da cidade ou a profunda vitalidade da paisagem campestre – características de um realista. A preocupação com: • a beleza e a perfeição da sua poesia (a musicalidade, a harmonia, a escolha dos sons...); • o vocabulário – a expressividade verbal, a adjectivação abundante, rica e expressiva, a precisão vocabular (chega mesmo a usar termos técnicos), o colorido da linguagem...; • os recursos fónicos – as aliterações, que contribuem para a musicalidade e para a perfeição formal; • os processos estilísticos – abundância de imagens, as metáforas, as sinestesias...; • a regularidade métrica, estrófica e rimática (na métrica, preferência pelo verso decassilábico e pelo alexandrino; na organização estrófica, a preferência evidente pela quadra que lhe permitia registar as observações e saltar com facilidade para outros assuntos).

A imagética Feminina è A mulher fatal, altiva, aristocrática, “frígida” que atrai/fascina o sujeito poético, provocandolhe o desejo de humilhação. É o tipo citadino artificial, surge portanto associada à cidade servindo para retratar os valores decadentes e a violência social. Esta mulher surge na poesia de Cesário incorporando um valor erótico que simultaneamente desperta o desejo e arrasta para a morte conduzindo a um erotismo da humilhação (Esplêndida, Vaidosa, Frígida). è A mulher angélica, “tímida pombinha”, natural, pura, acompanhada pela mãe, embora pertencente à cidade, encarna qualidades inerentes ao campo. Desperta no poeta o desejo de protecção e tem um efeito regenerador (Frágil).

Questão Social O poeta coloca-se ao lado dos desfavorecidos, dos injustiçados, dos marginalizados e admira a força física, a pujança do povo trabalhador. O poeta interessa-se pelo conflito social do campo e da cidade, procurando documentá-lo e analisá-lo, embora sem interferir.


è Anatomia do homem oprimido pela cidade è Integração da realidade comezinha no mundo poético

O Impressionismo adaptado ao Real “A mim o que me preocupa é o que me rodeia”

A poesia do quotidiano despoetiza o acto poético, daí que a sua poesia seja classificada como prosaica, concreta. O poeta pretende captar as impressões que os objectos lhe deixam através dos sentidos. Ao vaguear, ao deambular, o poeta percepciona a cidade e o “eu” é o resultado daquilo que vê. Cesário não hesita em descrever nos seus poemas ambientes que, segundo a concepção da poesia, não tinham nada de poético. Cesário não só surpreende os aspectos da realidade como sabe perfeitamente fazer uma reflexão sobre as personagens e certas condições. A representação do real quotidiano é, frequentemente, marcada pela captação perfeita dos efeitos da luz e por uma grande capacidade de fazer ressaltar a solidez das formas ( visão objectiva), embora sem menosprezar uma certa visão subjectiva – Cesário procura representar a impressão que o real deixa em si próprio e às vezes transfigura a realidade, transpondo-a numa outra.

Linguagem e Estilo: Cesário Verde é caracterizado pela utilização do Parnasianismo que é a busca da perfeição formal através de uma poesia descritiva e fazendo desta algo de escultórico, esculpindo o concreto com nitidez e perfeição. O parnasianismo é também a necessidade de objectivar ou despersonalizar a poesia e corresponde à reacção naturalista que aparece no romance. Os temas desta corrente literária são temas do quotidiano com um enorme rigor a nível de aspecto formal e há uma aproximação da poesia às artes plásticas, nomeadamente a nível da utilização das cores e dos dados sensoriais. Através deste parnasianismo ele propõe uma explicação para o que observa com objectividade e, quando recorre à subjectividade, apenas transpõe, pela imaginação transfiguradora, a realidade captada numa outra que só o olhar de artista pode notar. Cesário utiliza também uma linguagem prosaica, ou seja, aproxima-se da prosa e da linguagem do quotidiano. A obra de Cesário caracteriza-se também pela técnica impressionista ao acumular pormenores das sensações captadas e pelo recurso às sinestesias, que lhe permitem transmitir sugestões e impressões da realidade. A nível morfossintáctico recorre à expressividade verbal, à adjectivação abundante, rica e expressiva, por vezes em hipálage, ao colorido da linguagem e tem uma tendência para as frases curtas. • Vocabulário concreto • Linguagem coloquial • Predomínio do uso do decassílabo e do Alexandrino • Uso do assíndeto que resulta da técnica de justaposição de várias percepções • Técnica descritiva assente em sinestesias, hipálages, na expressividade do advérbio, no uso do diminutivo e na utilização da ironia como forma de cortar o sentimentalismo (equilibrar).

CESÁRIO VERDE (Poeta: 1855 – 1886) QUANDO TUDO ACONTECEU... 1855: A 23 de Fevereiro, num prédio da Rua da Padaria (junto à Sé de Lisboa), nasce José Joaquim CESÁRIO VERDE, filho de Maria da Piedade dos Santos Verde e de José


Anastácio Verde. – 1857: Peste em Lisboa; a família Verde refugia-se na sua quinta de Linda-a-Pastora. – 1865: Os Verde passam a morar na Rua do Salitre (Lisboa). Cesário conclui a instrução primária e começa a estudar inglês e francês. – 1872: Cesário começa a trabalhar na loja de ferragens do pai, na Rua dos Fanqueiros. Com 19 anos, tuberculosa, morre Maria Julia, irmã de Cesário. – 1873: Cesário matricula-se no Curso Superior de Letras, onde conhece e se torna grande amigo do escritor Silva Pinto. Publica os seus primeiros poemas no Diário de Notícias. – 1874: Publica mais poemas no Diário de Notícias (Lisboa) e nos jornais do Porto Diário da Tarde e A Tribuna. Ramalho Ortigão crava-lhe uma Farpa a propósito do poema Esplêndida. Boémia revolucionária no “Martinho”. – 1875: Cesário conhece e faz amizade com Macedo Papança (futuro conde de Monsaraz). Continua a publicar poemas no Mosaico (Coimbra), n’A Tribuna e n’O Porto. Começa a dirigir a loja da Rua dos Fanqueiros e a quinta de Linda-a-Pastora. – 1876: Desenvolve negócios. Frequenta a casa de Papança, na Travessa da Assunção, onde se cruza com Guerra Junqueiro, Gomes Leal e João de Deus. Os Verde mudam-se para a Rua das Trinas. – 1877: Volta a colaborar no Diário de Notícias. Queixa-se dos primeiros sintomas de tuberculose. – 1878: Passa a viver em Linda-a-Pastora. Nos jornais publica Noitada, Manhãs Brumosas, Em Petiz. – 1879: Publica Cristalizações no primeiro número da Revista de Coimbra. É atacado pela republicana Angelina Vidal n’A Tribuna do Povo e pelo monárquico Diário Ilustrado. – 1880: Publica O Sentimento dum Ocidental no número do Jornal de Viagens (Porto) dedicado ao tricentenário de Camões. Os Verde exportam maçãs para Inglaterra, Alemanha e Brasil. – 1881: Cesário participa no “Grupo do Leão” e convive com Abel Botelho, Alberto de Oliveira, Fialho de Almeida, Gualdino Gomes e com os pintores José Malhoa, Silva Porto, Columbano e Rafael Bordalo Pinheiro. – 1882:

Morre,

tuberculoso, Joaquim Tomás, irmão de Cesário. – 1883: Cesário viaja para França, numa tentativa malograda de exportar vinhos portugueses. – 1884: Publica Nós. Deixa de frequentar os meios literários. Activa negócios, produz, compra e exporta frutas. Recolhe-se a Linda-a-Pastora. – 1885: Agrava-se o seu estado de saúde mas regressa a Lisboa e continua a trabalhar na loja da Rua dos Fanqueiros. – 1886: Extremamente doente, instala-se em Caneças. Vai depois para casa de um amigo, no Lumiar (às portas de Lisboa), onde vem a morrer a 19 de Julho. – 1887: Silva Pinto edita O Livro de Cesário Verde. PESTE


José Anastácio Verde tem uma loja de ferragens na Rua dos Fanqueiros, em Lisboa. É um comerciante bem sucedido e dono ainda de uma quinta em Linda-aPastora (a uns quinze quilómetros da capital). Em 1852 casa com Maria da Piedade dos Santos. O casal vai morar num andar de um prédio na Rua da Padaria, próximo da velha Sé de Lisboa. Em 1853 nasce-lhes Maria Julia, a primogénita. Em 1855 o segundo filho, José Joaquim CESÁRIO. E no ano seguinte, Adelaide Eugénia, menina que morrerá com 3 anos. Em 1858, Joaquim Tomás, o quarto filho. E em 1862, Jorge, o quinto e último filho. Próximo da Rua da Padaria há um arco escuro onde se acumulam excrementos e cabeças de peixe. A Baixa de Lisboa é toda assim, não lhe faltam focos de infecção em becos e vielas. No Verão de 1857 irrompe a febre amarela, peste a ceifar a vida dos lisboetas. Os Verde abandonam a capital, refugiam-se em Linda-a-Pastora. Cesário evocará a fuga: (...) Foi quando em dois verões, seguidamente, a Febre E o Cólera também andaram na cidade, Que esta população, com um terror de lebre, Fugiu da capital como da tempestade. Ora meu pai, depois das nossas vidas salvas, (Até então nós só tivéramos sarampo) Tantos nos viu crescer entre uns montões de malvas Que ele ganhou por isso um grande amor ao campo! Se acaso o conta, ainda a fronte se lhe enruga: O que se ouvia sempre era o dobrar dos sinos; Mesmo no nosso prédio, os outros inquilinos Morreram todos. Nós salvámo-nos na fuga. (...) Sem canalizações, em muitos burgos ermos, Secavam dejecções cobertas de mosqueiros. E os médicos, ao pé dos padres e coveiros, Os últimos fiéis, tremiam dos enfermos! Uma iluminação a azeite de purgueira, e noite, amarelava os prédios macilentos.


Barricas de alcatrão ardiam; de maneira Que tinham tons d’inferno outros arruamentos. (...) E o campo, desde então, segundo o que me lembro, É todo o meu amor de todos estes anos! Nós vamos para lá; somos provincianos, Desde o calor de Maio aos frios de Novembro! MARIA JÚLIA Aos 10 anos Cesário conclui a instrução primária e começa a estudar francês e inglês, prepara-se para ser o correspondente comercial da firma do pai. Entretanto os Verde tinham-se mudado para um prédio da Rua do Salitre. Os ares, por ali, são mais saudáveis do que os da Rua da Padaria ou da Rua dos Fanqueiros (onde a família também chegara a morar). O que não evita que Maria Julia, aos 19 anos (1872), morra tuberculosa. Cesário irá recordá-la, sempre: (...) Unicamente, a minha doce irmã, Como uma ténue e imaculada rosa, Dava a nota galante e melindrosa Na trabalheira rústica, aldeã. E foi num ano pródigo, excelente, Cuja amargura nada sei que adoce, Que nós perdemos essa flor precoce, Que cresceu e morreu rapidamente! Ai daqueles que nascem neste caos, E, sendo fracos, sejam generosos! As doenças assaltam os bondosos E - custa a crer - deixam viver os maus! (...) E que fazer se a geração decai! Se a seiva genealógica se gasta! Tudo empobrece! Extingue-se uma casta! Morre o filho primeiro do que o pai!


Mas seja como for, tudo se sente Da tua ausência! Ah! Como o ar nos falta, Ó flor cortada, susceptível, alta, Que assim secaste prematuramente! Eu que de vezes tenho o desprazer De reflectir no túmulo! E medito No eterno Incognoscível infinito, Que as ideias não podem abranger! (...)

UM POEMA E UMA FARPA O desprazer de reflectir no túmulo... Estar ocioso é estar doente, trabalhar é ter saúde! Aos 17 anos Cesário arregaça as mangas na loja da Rua dos Fanqueiros: escreve cartas para o estrangeiro, lança débitos e créditos, calcula a conversão das moedas, recebe caixeiros viajantes, compra e vende, pesa pregos e parafusos, monta e oleia fechaduras, experimenta ferramentas, atende valadores, calafates e marceneiros, ao balcão ouve, entende e vive as aflições do povo miúdo que labuta para ganhar a vida, muitas vezes a sobrevida. Consome intensamente o dia. Nos fins de tarde, e à noite, gosta de ler, escreve poemas. Mas detesta abstracções, acha que o pensamento é o patamar superior dos sentidos, tangem-no excitados, sacudidos, o tacto, a vista, o ouvido, o gosto, o olfacto. Acha que um poema deve ser um cristal, superfícies várias, cada verso a reflectir uma das faces do real. Para escândalo do pai (literatos são ociosos...), em 1873 Cesário matricula-se no Curso Superior de Letras (como se elas lá estivessem...). Temor infundado, o de José Anastácio: Cesário é alérgico à retórica, à literatice impingida e, poucos meses depois da matrícula, arma umas discussões e abandona o Curso. Cesário tem o furor da discussão, diz sempre o que pensa e bate-se por aquilo que acha certo, incansavelmente, não concilia. Mas quando reconhece que está errado, não hesita em dar o braço a torcer, frontalidade. Esta sua postura irá atrair antipatias em vários meios, principalmente nos literários. Da sua passagem pelo ateneu sobra-lhe apenas a amizade de Silva Pinto, candidato a escritor, cujo pai, um industrial, o expulsara de casa porque ousara liderar


uma greve dos seus operários... Silva Pinto tem um ódio febril aos burgueses, é um republicano, é um socialista inflamado pela Comuna de Paris. Tudo nele é paixão, vê tudo a preto e branco, alto contraste, ou explorador ou explorado, ou isto ou aquilo, ou sim ou não. Começa por ter um desprezo radical por Cesário, Cesário arregaça as mangas na loja da Rua dos Fanqueiros: escreve cartas para o estrangeiro, lança débitos e créditos, calcula a conversão das moedas, recebe caixeiros viajantes, compra e vende, pesa pregos e parafusos, monta e oleia fechaduras, experimenta ferramentas, atende valadores, calafates e marceneiros, ao balcão ouve, entende e vive as aflições do povo miúdo que labuta para ganhar a vida, muitas vezes a sobrevida. Consome intensamente o dia. Nos fins de tarde, e à noite, gosta de ler, escreve poemas. Mas detesta abstracções, acha que o pensamento é o patamar superior dos sentidos, tangem-no excitados, sacudidos, o tacto, a vista, o ouvido, o gosto, o olfacto. Acha que um poema deve ser um cristal, superfícies várias, cada verso a reflectir uma das faces do real. Para escândalo do pai (literatos são ociosos...), em 1873 Cesário matricula-se no Curso Superior de Letras (como se elas lá estivessem...). Temor infundado, o de José Anastácio: Cesário é alérgico à retórica, à literatice impingida e, poucos meses depois da matrícula, arma umas discussões e abandona o Curso. Cesário tem o furor da discussão, diz sempre o que pensa e bate-se por aquilo que acha certo, incansavelmente, não concilia. Mas quando reconhece que está errado, não hesita em dar o braço a torcer, frontalidade. Esta sua postura irá atrair antipatias em vários meios, principalmente nos literários. Da sua passagem pelo ateneu sobra-lhe apenas a amizade de Silva Pinto, candidato a escritor, cujo pai, um industrial, o expulsara de casa porque ousara liderar uma greve dos seus operários... Silva Pinto tem um ódio febril aos burgueses, é um republicano, é um socialista inflamado pela Comuna de Paris. Tudo nele é paixão, vê tudo a preto e branco, alto contraste, ou explorador ou explorado, ou isto ou aquilo, ou sim ou não. Começa por ter um desprezo radical por Cesário, esse aprendiz de comerciante, esse burguesinho metido a escritor... Mas ao ler os seus poemas convertese no seu mais fervoroso admirador, no amigo para toda a vida. Cesário ampara-lhe os desequilíbrios, sensibiliza-o aquele amor alucinado aos oprimidos. - Como tu tens tempo, meu amigo, para sofrer tanto! E Silva Pinto responde-lhe:


- Como tu tens tempo, meu amigo, para me acompanhar no sofrimento! Eduardo Coelho é o director do Diário de Notícias. Em tempos idos fora caixeiro na loja de José Anastácio Verde e continua a respeitar o antigo patrão. É quanto basta para Cesário conseguir publicar no jornal os seus primeiros poemas. Um deles, Esplêndida, escrito ao jeito de João Penha (Vinho e Fel), paródia anti-romântica, merece a Farpa n.º 22 de Ramalho Ortigão: “(...) Averigua-se que o realismo baudelaireano está fazendo mais numerosas e mais lamentáveis vítimas do que o velho romantismo de Byron, de Lamartine e de Musset. (...) Tal é a deplorável influência (...) na poesia moderna representada na obra de um dos seus cultores, o snr. Cesário Verde, ao qual sinceramente desejamos que estas modestas observações contribuam para que continue a ilustrar o seu nome, tornando-se cada vez menos Verde e mais Cesário.” Uma farpa desperta instantaneamente a braveza de um touro. Esta Farpa irá certamente despertar o realismo instantâneo de Cesário.

BOÉMIA Silva Pinto arrasta o poeta para a boémia revolucionária no “Martinho” das mesas espelhentas. Alto, magro, louro, activo, sensual, Cesário tem boa figura, seduzem-no e seduz mulheres, mas as que mais o fascinam são actrizes, a Luísa Cândida - do “Condes” - , a Palmira de Souza - do “Variedades” - , e ainda a Tomásia Veloso, com quem, ao que parece, terá um romance. Fialho de Almeida irá descrevê-lo. Assim: “O tipo era seco, com uma ossatura poderosa, a pele de fêmea loura, rosada, de bom sangue, a cabeça pequena e grega, com uma testa magnífica, e feições redondas, onde os olhos amarelo-pardos de estátua, ligeiramente míopes, tinha a expressão profunda, rectilínea, longínqua, que a gente nota nos marítimos acostumados a interrogar o oceano por dilatadas extensões.” E aí vem uma actriz, talvez a Tomásia, a saltitar por entre as obras de uma rua: (...) E aos outros eu admiro os dorsos, os costados Como lajões. Os bons trabalhadores! Os filhos das lezírias, dos montados;


Os das planícies, altos, aprumados; Os das montanhas, baixos, trepadores! Mas fina de feições, o queixo hostil, distinto, Furtiva a tiritar em suas peles, Espanta-me a actrizita que hoje pinto, Neste Dezembro enérgico, sucinto, E nestes sítios suburbanos, reles! Como animais comuns, que uma picada esquente, Eles, bovinos, másculos, ossudos, Encaram-na, sanguínea, brutamente: E ela vacila, hesita, impaciente Sobre as botinhas de tacões agudos. Porém, desempenhando o seu papel na peça, Sem que inda o público a passagem abra, O demonico arrisca-se, atravessa Covas, entulhos, lamaçais, depressa Com os seus pezinhos rápidos, de cabra!

BAUDELAIRE...? O realismo baudelaireano... Sim, alguma coisa Cesário tomou de Baudelaire. Mas enquanto o francês fez da realidade um trampolim para alcançar os paraísos artificiais, o português vai bolinando por entre todas as coordenadas do real. A sua vida de comerciante e agricultor será a sua poesia. Até quando recorda Maria Julia, observa: (...) À procura da libra e do shiling Eu andava abstracto e sem que visse Que o teu alvor romântico de miss Te obrigava a morrer antes de mim. (...) Até quando passeia no campo, com uma prima, não se esquece de apontar: (...) Numa colina azul brilha um lugar caiado. Belo! E arrimado ao cabo da sombrinha,


Com teu chapéu de palha, desabado, Tu continuas na azinhaga; ao lado Verdeja, vicejante, a nossa vinha. (...) Ao escrever a Silva Pinto, então a morar no Porto, Cesário define, define-se: "A mim o que me rodeia é o que me preocupa.” Baudelaire ficou longe...

CONTROVERSAS E UM DUELO MALOGRADO Cesário continua a publicar poemas no Diário de Notícias, no Diário da Tarde e n’A Tribuna (ambos do Porto) no Mosaico e n’A Evolução (estes de Coimbra). O seu implícito republicanismo provoca um violento ataque do monárquico Diário Ilustrado. Cesário responde em verso: (...) Na praça, de manhã, havia, ó rei brutal! Montões de sordidez horrível e avinhada... - Nascera o Ilustrado - um vómito real! Contudo, a inexistência de retórica nos seus versos, leva um tal Juvenal Pigmeu a publicar n’A Tribuna do Povo um artigo insultuoso. Cesário desafia-o para um duelo e o ridículo vem à tona: Juvenal Pigmeu é pseudónimo de Angelina Vidal, pedagoga e activista republicana... Atacado por monárquicos e republicanos, singularidade, Cesário plantado para além do tempo que lhe cabe viver agora... Escreve ao seu amigo Bettencourt Rodrigues, estudante de Medicina em Paris: está farto, tem vontade de sair de Portugal, foco de mandriice e de asneiras... O SENTIMENTO DE UM OCIDENTAL O Hotel Pelicano fica na Rua dos Fanqueiros, perto da loja dos Verde. A vizinhança e o gosto pelas letras promovem a amizade entre o hóspede António de Macedo Papança (futuro conde de Monsaraz) e Cesário. Entretanto este vai tomando a direcção da loja e da quinta, desenvolve negócios, exporta maçãs para a Inglaterra, a Alemanha e o Brasil, escreve versos. Mais tarde, na sua casa da Travessa da Assunção, Papança promoverá saraus literários onde Cesário se cruza com Guerra Junqueiro, Gomes Leal e João de Deus.


Nenhum prestará atenção aos seus poemas, onde já se viu um comerciante a poetar? Ainda por cima opinativo, conflituoso... 1880, comemorações do tricentenário da morte de Camões! O Jornal de Viagens, do Porto, lança um número especial: Portugal a Camões. Nele, entre inéditos de autores vários, vem publicado O Sentimento dum Ocidental, poema de Cesário em quatro cantos: I - Ave-Marias, II - Noite fechada, III - Ao gás, IV - Horas mortas. (...) O céu parece baixo e de neblina, O gás extravasado enjoa-me, perturba; E os edifícios, com as chaminés, e a turba, Toldam-se de uma cor monótona, londrina. (...) Semelham-se a gaiolas, com viveiros, As edificações somente emadeiradas: Como morcegos, ao cair das badaladas, Saltam de viga em viga os mestres carpinteiros. (...) Toca-se as grades, nas cadeias. Som Que mortifica e deixa umas loucuras mansas! O aljube, em que hoje estão velhinhas e crianças, Bem raramente encerra uma mulher de “dom”. (...) A espaços, iluminam-se os andares, E as tascas, os cafés, as tendas, os estancos, Alastram em lençol os seus reflexos brancos; E a lua lembra o circo e os jogos malabares. (...) Mas tudo cansa! Apagam-se nas frentes Os candelabros, como estrelas, pouco a pouco; Da solidão regouga um cauteleiro rouco; Tornam-se mausoléus as armações fulgentes. “Dó da miséria!... Compaixão de mim!...” E, nas esquinas, calvo, eterno, sem repouso,


Pede-me sempre esmola um homenzinho idoso, Meu velho professor nas aulas de latim! (...) E os guardas, que revistam as escadas, Caminham de lanterna e servem de chaveiros; Por cima, as imorais, nos seus roupões ligeiros, Tossem, fumando, sobre as pedras da calçada. E, enorme, nesta massa irregular De prédios sepulcrais, com dimensões de montes, A Dor humana busca os amplos horizontes, E tem marés, de fel, como um sinistro mar! Andam todos distraídos, ninguém repara neste caudal. Só decénios depois, muitos, Fernando Pessoa (um simples empregado de escritório, um bêbedo, um doido que julga ser poeta) é que irá induzir o seu heterónimo Álvaro de Campos a bradar: - Ó Cesário Verde, ó Mestre!

O GRUPO DO LEÃO Em 1881 começam as reuniões do Grupo do Leão (referência ao restaurante “Leão de Ouro”). Literatos muitos: Abel Botelho, Alberto de Oliveira, Mariano Pina, Fialho de Almeida, D. João da Câmara, Gualdino Gomes e Cesário, entre outros. Também pintores, tais como José Malhoa, Silva Porto e os irmãos Columbano e Rafael Bordalo Pinheiro. Fialho mostra-se insatisfeito com o naturalismo na pintura, afirma que a arte não deve ser uma cópia da natureza, antes a “expressão roaz do pensamento”. Cesário apoia Fialho, veemência. Mas os pintores discordam, estão ancorados no imutável céu azul, nas vaquinhas malhadas por entre os prados verdes, nas messes loiras, nos rebanhos ao entardecer, nos muros cobertos de musgo, nas pontes sobre os riachos, nos moinhos lá no alto das colinas... Mais tarde, ao pintar o Grupo do Leão, Columbano irá esquecer-se de colocar Fialho e Cesário entre os convivas. Esquecimento? Talvez não seja... E se alguém já sabe (e talvez Alberto de Oliveira saiba) das exposições impressionistas de Paris (a primeira ocorreu em 1874), cala-se! Do Grupo do Leão é um não-pintor, é Cesário quem antecipa o impressionismo em Portugal. O seu poema De Tarde é como tela de Renoir:


Naquele “pic-nic” de burguesas, Houve uma coisa simplesmente bela, E que, sem ter história nem grandezas, Em todo o caso dava uma aguarela. Foi quando tu, descendo do burrico, Foste colher, sem imposturas tolas, A um granzoal azul de grão de bico Um ramalhete rubro de papoulas. Pouco depois, em cima duns penhascos, Nós acampámos, indo o sol se via; E houve talhadas de melão, damascos E pão de ló molhado em malvasia. Mas, todo púrpuro, a sair da renda Dos teus dois seios como duas rolas, Era o supremo encanto da merenda O ramalhete rubro das papoulas! SE EU NÃO MORRESSE, NUNCA Mas afinal o anticlericalismo sempre está na poesia de Cesário: (...) Duas igrejas, num saudoso largo, Lançam a nódoa negra e fúnebre do clero; (...) Também ali está a sátira ao militarismo de opereta: (...) De súbito, na volta de uma esquina, Sob um bico de gás que abria em leque, Vimos um militar de barretina E galões marciais de pechisbeque. (...) Ali está a simpatia pelas classes oprimidas: (...) Povo! No pano ora rasgado das camisas Uma bandeira penso que transluz! Com ela sofres, bebes, agonizas. Listrões de vinho lançam-lhe divisas E os suspensórios traçam-lhe uma cruz! (...)


Ali está o seu enlevo pelos frutos a vindimar: (...) Ó pobre estrume, como tu compões Esses pâmpanos doces como afagos! “Dedos de dama”: transparentes bagos! “Tetas de cabra”: lácteas carnações! (...) Mas também está o que a indolência das meninges não deixa perceber, a alucinada justaposição de dois instantes do real, abrangência: (...) E nesse mês, que não consente as flores, Fundeiam, como a esquadra em fria paz, As árvores despidas. Sóbrias cores! Mastros, enxárcias, vergas! Valadores Atiram terra com as largas pás. (...) Ali estão os aparelhos para descobrir e assinalar a realidade: (...) Eu tudo encontro alegremente exacto, Lavo, refresco, limpo os meus sentidos E tangem-me, excitados, sacudidos, O tacto, a vista, o ouvido, o gosto, o olfacto. (...) Ali está um advérbio a subverter o corriqueiro: (...) E sujos, sem ladrar, ósseos, febris, errantes, Amareladamente, os cães parecem lobos. (...) Também um adjectivo a perturbar: E os olhos de um caleche espantam-me sangrentos. Ali estão os pequenos prazeres quotidianos: Cheiro salutar e honesto ao pão no forno. Ali estão enjauladas as crianças da capital: Os querubins do lar flutuam nas varandas. Ali está um pormenor a ressoar durante a noite, cidade deserta: Um parafuso cai nas lajes, às escuras. Ali está a súbita associação de vegetais com as formas femininas: (...) Há colos, ombros, bocas, um semblante


Nas posições de certos frutos. E entre As hortaliças, túmido, fragrante, Como d’alguém que tudo aquilo jante, Surge um melão, que me lembrou um ventre. (...) Ali estão as trabalhadoras, as genuínas, não as que a Angelina pespegava em panfletos: (...) Vazam-se os arsenais e as oficinas; Reluz, viscoso, o rio; apressam-se as obreiras; E num cardume negro, hercúleas, galhofeiras, Correndo com firmeza, assomam as varinas. Vêm sacudindo as ancas opulentas! Seus troncos varonis recordam-me pilastras; E algumas, à cabeça, embalam nas canastras Os filhos que depois naufragam nas tormentas. (...) Ali está a sua mágoa, arredar o real o poeta não consegue: (...) Nas nossas ruas, ao anoitecer, Há tal soturnidade, há tal melancolia, Que as sombras, o bulício, o Tejo, a maresia Despertam-me um desejo absurdo de sofrer. (...) Contudo, está ali também a sua esperança, embora vã: (...) Se eu não morresse, nunca! E eternamente Buscasse e conseguisse a perfeição das cousas... (...) RIQUEZAS QUÍMICAS NO SANGUE... Em 1876 os Verde fogem do centro da capital, mudam-se para a Rua das Trinas. No mesmo ano o Dr. Sousa Martins avisa Silva Pinto: - O poeta Cesário Verde está irremediavelmente perdido. Em 1877 Cesário queixa-se:


- Agora trago sempre no pescoço umas escrófulas que se alastram, que se multiplicam depressa. Não sei se é resultado sifilítico, se o que é. Em 1882 morre, tuberculoso, Joaquim Tomás, irmão de Cesário. Como dez anos antes morrera Maria Julia... (...) Uma tuberculose abria-lhe cavernas! Dá-me rebates ainda o seu tossir profundo! E eu sempre lembrarei, triste, as palavras ternas Com que se despediu de todos e do mundo! (...) Pobre da minha geração exangue De ricos! Antes, como os abrutados, Andar com os sapatos ensebados E ter riquezas químicas no sangue. (...)

DEIXA-ME DORMIR Em 1883 Cesário vai a Paris numa tentativa malograda de exportar vinhos portugueses. Regressa. Sente-se debilitado mas continua a trabalhar na loja e na quinta, ficar ocioso é dar o flanco à doença. Em 1884, em Linda-a-Pastora, ainda tenta exorcizar a morte, esse medonho muro: (...) Oh! que brava alegria eu tenho quando Sou tal-qual como os demais! E, sem talento, Faço um trabalho técnico, violento, Cantando, praguejando, batalhando. (...) Em 1886, para fugir à humidade marítima de Linda-a-Pastora e aos consequentes acessos de tosse e hemoptises, vai para Caneças, a dois passos de Lisboa, porém serra, clima seco. Silva Pinto e António Papança visitam-no. Cesário tem apenas 31 anos mas já perdeu as ilusões: - Curo-me? Sim, talvez. Mas como ficou eu? Um cangalho, um canastrão, um grande cesto roto, entra-me a chuva, entra-me o vento no corpo escangalhado...


Resolve subitamente abandonar Caneças, fugir, fugir... Recolhe-se à casa de um amigo, junto ao Paço do Lumiar, às portas de Lisboa. No patamar da escada José Anastácio Verde e Silva Pinto encontram-se, abraçam-se, choram. A 19 de Julho, Jorge, o último dos irmãos, pergunta a Cesário: - Queres alguma coisa? - Não quero nada. Deixa-me dormir. São as últimas palavras do poeta. No ano seguinte Silva Pinto colige os versos e edita O LIVRO DE CESÁRIO VERDE, 37 poemas, cento e muitas páginas, 200 exemplares.

Cesário Verde Resumo Poesia: - parnasianismo: “arte pela arte” -> Tendência artística que procura a confecção perfeita através da poesia descritiva. Preocupação com a perfeição, o rigor formal, a regularidade métrica, estrófica e rimática. Retorno ao racionalismo e às formas poéticas clássicas. Busca da impessoalidade e da impassibilidade. - impressionismo: acumula pormenores das sensações captadas e recorre às sinestesias. As palavras antecipam a simbolismo. - poeta-pintor: capta as impressões da realidade que o cerca com grande objectividade; transmite as percepções sensoriais. - Pintura literária e rítmica de temas comuns e realidades comezinhas, escolhendo as palavras que melhor os reflectem. - Não canta motivos idealistas, mas coisas que observa a cada instante; descreve ambientes que nada têm de poético. - Não dá a conhecer-se, nem dá a conhecer o que sente -> oposto ao romantismo - recorre raramente à subjectividade -> imaginação transfiguradora - poesia do quotidiano: nasce da impressão que o “fora” deixa no “dentro” do poeta. - Interesse pelo conflito social do campo e da cidade. - Nível morfossintáctico: expressividade verbal, adjectivação abundade, rica e expressiva (hipálage), precisão vocabular, colorido da linguagem, frases curtas e acumulativas, quadras em versos dicassilábicos ou alexandrinos. - O mito de Anteu permite caracterizar o novo vigor que se manifesta quando há um reencontro com a origem, com a mãe-terra. É assim que se pode falar deste mito em Cesário Verde na medida em que o contacto com o campo parece reanimá-lo, dando-lhe forças, energias, saúde. Binómios e Dicotomias em Cesário Verde: Cidade Campo Mulher fatal Mulher angélica Morte Vida - Cidade: - deambulação do poeta; melancolia; monotonia; “desejo absurdo de viver”; vícios; fantasias mórbidas; miséria; sofrimento; poluição; cheiro nauseabundo, seres


humanos dúbios e exploradores; ricos pretenciosos que desprezam os humildes; incomoda o poeta e os trabalhadores que nela procuram melhores condições de vida. Mulher citadina: fatal, frígida, calculista, madura, destrutiva, dominadora, sem sentimentos, erótica, artificial, predadora, vampírica, formosa, fria, altiva. Subjectividade do tempo e a morte: cidade = certeza para a morte - Campo: - vida rústica de canseiras, vitalidade, saúde, liberdade, rejuvenescimento, vida, fertilidade, identificação do poeta com o povo campesino, local de trabalho onde acontece alegrias e tristezas (oposto ao local paradisiaco defendido por poetas anteriores). Mulher campesina: proporciona um amor puro e desconfinado, frágil, terna, ingénua, despretensiosa. Subjectividade do tempo e a morte: Salvação para a vida. Poemas: - “Bairro Moderno”: - Poema representativo da cidade - Transfiguração de elementos do campo para a cidade - Poesia do quotidiano - “Contrariedades”: - Poesia do quotidiano. - impressão que o “fora” deixa na alma do poeta (cruel, frenético, exigente, impaciente) - Alteração do estado de espírito -> causa: depravação nos usos e nos costumes; injustiça da vida pela doença que destrói a vizinha (abandono e exploração); recusa dos jornais em publicarem os seus versos; fim do poema: intervencionismo, denuncia e acusação do mundo injusto e pouco solidário. - “O sentimento dum Ocidental”: - Poema representativo da cidade em várias fases do dia - Poesia do quotidiano - Capturação de factos sem referir causa/efeito - opção pelas formas impessoais, construções nominais e sinestesias (materializar o abstracto/imaterial e o seu estado de espírito) - “Cristalizações”: - Poema representativo da cidade - Poesia do quotidiano - “Nós”: - Poema representativo do campo - Crítica à cidade - Campo: refúgio dos males da vida e recordação da família. - oposição entre sociedades indústriais e sociedades rurais - oposição entre proprietários e trabalhadores - “De Tarde” - Poema representativo do campo - “Em Petiz” - Poema representativo do campo “De Tarde” - tom irónico em relação aos citadinos - recordação do passado: companheira e campo - “Deslumbramentos” - Poema representativo da mulher citadina - “Vaidosa” - Poema representativo da mulher citadina - A mulher arrasta para a morte - “Esplêndida” - Poema representativo da mulher citadina - A mulher arrasta para a morte


- “Frígida” - “A Débil”

- Poema representativo da mulher citadina - mulher -> símbolo directo da própria morte - Mulher campesina retratada na cidade

Enquadramento histórico da poesia de Cesário Verde Transformações da sociedade portuguesa a partir de meados do séc. XIX 1- 1- Introdução No período em que viveu Cesário Verde (1855 a 1866 ), o Portugal velho está em profunda transformação. Vimos o longo período da crise provocada pelas invasões napoleónicas, pelas lutas liberais, pela perda da colónia brasileira, pela ascensão da burguesia ao poder, pela instabilidade política e governativa, crise essa que se caracterizou a primeira metade do século XIX em Portugal e em que se enquadrou o nosso Primeiro Romantismo. Vimos depois, que o levantamento militar de Saldanha, em 1851, introduziu um período de estabilidade política, sob a égide do partido regenerador, que encaminhou a sua actuação para os melhoramentos materiais, difundindo confiança no progresso. Baseando-se no crédito financeiro nacional ou estrangeiro, o governo da Regeneração deu primazia ao lançamento dos meios de transporte e de comunicação que conduziram ao desenvolvimento da agricultura, sem que a industria e a pequena burguesia urbana tenham sido alvo de idêntico apoio. O descurar dos sectores primário e secundário da economia e a tendência para a especulação desenfreada levaram á queda do governo regenerador em 1868 ( revolta da Janeirinha ) e conduziram á crise de 1876. Entretanto, neste período de aparente progresso inserimos a produção literária de Júlio Diniz, alheia ainda ao processo de industrialização, foi no segundo Romantismo. A terceira geração romântica surge nos anos 70 ( realismo) e coincide com o regresso ao poder de Fontes Pereira de Melo (1871-1877). Aquando da crise económica de 1876, surge o partido progressista que irá alternar com o regenerador até ao fim da monarquia, não tendo sabido nenhum deles resolver os grandes problemas sócio-económicos , entre outros, com que o país se deparava. É neste período que se insere a poesia de Cesário e, por isso, convém acompanhar mais detalhadamente as alterações, sobretudo as urbanas, sofridas pelo país a partir dos anos 70, algumas delas registadas nos seus poemas. 2- 2- Desenvolvimento capitalista e processo de urbanização em Portugal a partir de 1870 O Fontismo Regenerador ( 1871-1877) traz profundas transformações: incremento sensível da produção industrial, fomento agrícola, facilitação na comercialização dos produtos, aumento do consuma e das classes trabalhadoras assalariadas (operários da indústria e da construção civil), aumento dos transportes, desenvolvimento da mineração , das pescas, da indústria do tabaco... A multiplicação dos meios de transportes (caminhos de ferro, transportes urbanos colectivos) e dos meios de comunicação (jornal, telégrafo) favorece o desenvolvimento de todos os sectores da economia. Paralelamente, verificam-se migrações internas para a cidade uma enorme emigração para o Brasil, como sintoma das dificuldades no campo e do apelo exercido pelos meios urbanos. Lisboa conhece os problemas peculiares do rápido


desenvolvimento urbano a que o poder não sabe dar resposta, designadamente no que diz respeito á salubridade pública (tuberculose, febre amarela e peste). Assim, o desenvolvimento capitalista revela-se, desde o seu início, grosseiro e caótico, ainda mais em Lisboa do que nas outras cidades europeias industrializadas.

Enquadramento Estético-Literário da poesia de Cesário Verde Poeta da cidade, um dos maiores em qualquer tempo em qualquer língua, por isso mesmo que genuíno, original, profundamente renovador, quer ao descrever os quadros e os tipos citadinos, quer ao denunciar, em sóbrias palavras, as atitudes subjectivas provocadas pela vida exterior. Cesário tem o culto da descrição, da contenção. A sensibilidade e a fantasia são nele dominantes pela estética anti romântica, pela reserva irónica, pela sábia composição, pelo gosto de polir a frio os seus versos. Há certo candismo nesta fuga a ênfase e ao derrame lírico. Há também o propósito ser do seu temperamento, ostensivamente positivo e natural. Se bem ponderarmos Cesário só é anti-retórico no sentido da retórica tradicional, incontida e verbosa; a arte de escrever tomou para ele grande importância á medida que se descobriu como poeta: escrever bem era em Cesário ver bem, seleccionar e dosear as impressões, realçar as linhas e os volumes, o agradável e o acerbo, o nobre e o corriqueiro, por meio de alternâncias e contrastes premeditados que emitem o desfile descontínuo e o regresso obsessivo das ideias fortuitas. Sem dúvida, vivia em grande parte pelos sentidos, euforicamente, na cidade como no campo, antecipando-se á lição antimetafísica de Alberto Caeiro: Lavo, refresco, limpo os meus sentidos. E tangem-me excitados, sacudidos, O tacto, a vista, o ouvido, o gosto, o olfacto!


Ficha informativa sobre cesário verde  
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