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O LONG READ

Vegetarianos portugueses de há um século: O estranho caso de uma amnésia coletiva – e de uma memória a reconstruir TEXTO FÁTIMA VIEIRA ILUSTRAÇÃO SÉRGIO CONDEÇO

Amnésia coletiva Acabou de me chegar pelo correio a 2.ª edição (1918) de Culinária Vegetariana, Vegetalina e Menus Frugívoros. Percebo que os €35 que dei pelo livro foram excessivos: as páginas estão muito escuras, a costura do livro lassa, algumas páginas ostentam rasgões de manuseio e às páginas 17 e 18 falta um pedaço de papel, mesmo por cima das ilustrações com a legenda “Pé atroiado pelo calçado elegante” e “Pé normal e formato do Calçado Racional”. Mesmo assim, confesso-me satisfeita: é meu, o livro de receitas que Julieta Adelina Menezes Rodrigues escreveu em 1916, dois anos depois de se ter casado com Jerónimo Caetano Ribeiro – um enlace anunciado no periódico O Vegetariano como o primeiro casamento eugénico do mundo. Recordo bem as palavras do Dr. Amílcar de Sousa quando fez o elogio do casamento, em 1914: “O Eugenismo é uma doutrina nova e útil que tem por im aperfeiçoar a espécie humana, regenerando, em primeiro lugar, os progenitores, para que os seus descendentes, libertos o mais possível das taras e vícios das heranças passadas, possam formar uma geração sem mácula e sem estigmas.”1 Aprecio, nesta edição “muito aumentada” de 1918, a foto do ilho do casal: Fernando Meneses Rodrigues Ribeiro, que aos seis meses pesa sete quilos e meio, um bebé robusto, sem dúvida destinado a ser frugívoro como os pais. A família Ribeiro é apenas uma das muitas famílias vegetarianas que viveram em Portugal há mais de cem anos e cujas histórias foram partilhadas no periódico O Vegetariano – Mensário Naturista Ilustrado, publicado ininterruptamente entre novembro de 1909 e outubro de 1935, num total de duzentos e oitenta números. Em agosto de 1915, a publicação terá atingido o número impressionante de 3.814 subscritores, maioritariamente de Portugal Continental e Ilhas, contando embora com um número signiicativo de leitores nas antigas colónias e no Brasil. Note-se 1 O Vegetariano, vol. V, 5.ª série, junho de 1914, pp. 220. Doravante, todas as referências a esta publicação omitirão o seu título, indicando-se apenas o volume, o número e as páginas em causa.

que este número não corresponde diretamente a indivíduos interessados no regime vegetariano, mas a um círculo alargado à família dos subscritores e muitas vezes aos seus amigos e vizinhos; importará ainda notarmos que o periódico se encontrava disponível para consulta em bibliotecas de instituições públicas e privadas, bem como de associações e clubes recreativos. Eram, pois, milhares, em Portugal, os indivíduos familiarizados com a dieta vegetariana, sendo muitos os praticantes deste regime. E, contudo, ninguém parece lembrar-se destes nossos antepassados vegetarianos. Trata-se de um estranho caso de amnésia coletiva: um país cuja identidade cultural se airma pelas mil maneiras de cozinhar bacalhau, pelo peixe fresco da costa, pelas papas de sarrabulho e pela carne de porco à alentejana, e que recalca a memória de um período da sua história em que um número considerável de indivíduos optou por não ingerir nem carne nem peixe por razões de ordem cientíica, moral e sentimental, como justiicava Ângelo Jorge, autor da novela naturista Irmânia (1912), a sua conversão ao vegetarianismo.2 Esta amnésia parecerá ainda mais estranha se tivermos em conta que o vegetarianismo, bem como as suas formas mais radicais, o vegetalismo e o frugivorismo, mais do que um regime dietético, implicavam toda uma ilosoia e um modo de vida. Esta é uma história que importa conhecermos melhor para compreendermos por que motivo teve o vegetarianismo tantos adeptos nas primeiras décadas do século XX, e por que razão não temos hoje memória dos nossos antepassados vegetarianos. 1. O Vegetariano: Revista Mensal Ilustrada O periódico, propriedade do Prof. Manuel Teixeira Leal, foi fundado no Porto em 1909 por um “grupo de [homens] dedicados propagandistas e praticantes do regime de alimentação por Vegetariano conhecido”. O n.º 1 resume bem os objetivos: 1) colmatar a falta de uma publicação destinada à defesa e propagação das suas conceções; 2) tornar-se o “órgão oicial dos vegetaristas 2

N.º 1, vol. 1, novembro de 1909, p. 11.

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O "1.º casamento eugénico do mundo", de Julieta e Jerónimo Caetano Ribeiro.

O 1.º livro português de culinária vegetariana, de Julieta Ribeiro, teve 3 edições: 1916, 1918 e 1923.

portugueses, particularmente dos da região do Norte”; 3) contribuir para a transformação da sociedade, “fazendo da geração raquítica e nevrotizada de agora uma geração forte, equilibrada, normal, iel observadora das leis imutáveis da "Natureza"; 4) promover a “discussão dos vários sistemas conhecidos de tratamento racional das moléstias pelos quatro agentes naturais: o sol, a água, o ar e a luz”.3 Estava assim delineado um programa que viria a ganhar consistência nos 25 anos seguintes, respetivamente através de 1) artigos defendendo o regime vegetariano, descrevendo a sua lógica, lembrando nomes de vegetarianos famosos (de Platão e Sócrates a Tolstoi, de Buda a Santo Agostinho, passando por Bacon, Rousseau e Voltaire),4 oferecendo receitas, tabelas nutricionais e conselhos práticos e alargando o conceito de vegetarianismo a todo um modo de vida naturista e racional, que incluía o respeito pelos direitos dos animais; 2) a formação da Sociedade Vegetariana de Portugal (SVP) e do Núcleo Vegetariano de Lisboa, que assumiram o periódico como o seu órgão oicial; 3) a conceção de um verdadeiro plano utópico de transformação da sociedade, assumindo os desígnios eugénicos referidos pelo Dr. Amílcar de Sousa, apresentado como a única solução para se resolver os problemas da fome, falta de higiene e saúde pública e da falta de moralidade na sociedade; 4) artigos médicos prescrevendo os banhos de sol, ar e luz, aliados a um regime dietético simples, sem “despojos cadavéricos”,5 disponibilizando informação que permitiria que os leitores, como defendia o Dr. Amílcar de Sousa, se tornassem os seus próprios médicos. Ibidem, p. 3. A graia desta e de todas as citações foi atualizada para o português contemporâneo e em função do novo acordo ortográico. 4 Todos estes nomes são referidos por M. Teixeira Leal no artigo que assina para o 2.º número (dezembro de 1909, p. 20) de O Vegetariano. A recordação de grandes iguras da história que praticavam ou simpatizavam com o vegetarianismo era uma estratégia de comunicação recorrente no periódico. Jaime de Magalhães Lima citava amiúde Tolstoi, para quem havia uma relação óbvia entre o consumo de carne e a violência. 5 Esta expressão, que o Dr. Amílcar de Sousa aplica na descrição dos hábitos familiares do casal Ribeiro, é reiteradamente utilizada ao longo dos 26 anos de existência do periódico.

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Acima: Fernando, ilho de Julieta e Jerónimo Caetano Ribeiro. Ao lado: José Rodrigues. Ambas as crianças foram amamentadas só pelas mães que, durante o período de gestação e da amamentação, comeram apenas vegetais e frutos.

A publicação, nos seus primeiros números, não diferia muito de outros periódicos coevamente publicados em outros países da Europa e nos Estados Unidos, onde o movimento vegetariano se começara a airmar décadas antes. Observou-se, contudo, em Portugal um fenómeno inesperado – único, ao que sabemos: a participação ativa dos leitores, que não só contribuíam com testemunhos de curas miraculosas pela adesão ao regime vegetariano, mas enviavam também fotograias individuais ou da família inteira exibindo a sua robustez física. Numa altura em que a fotograia era valorizada pelo seu caráter documental, as fotos das famílias vegetarianas portuguesas eram publicadas quer como evidência do argumentado nos diferentes artigos de O Vegetariano, quer em separatas, em papel de melhor qualidade, sendo normalmente acompanhadas por um relato das circunstâncias de conversão ao vegetarianismo. As fotos acrescentavam, pois, ao testemunho histórico uma outra camada – uma “nova ordem de provas”, como esclareceu Roland Barthes a propósito da função da fotograia, autenticando os testemunhos, servindo de “certiicado de presença”, “ratiicando o que representavam”.6 Foi esse o caso, de entre dezenas de famílias portuguesas cujos retratos evidenciavam a eicácia do regime vegetariano e o crescente interesse que ele ia suscitando, de Maria Emília Cerdeira, “curada duma uremia pelo sistema vegetariano”, ou de António Gonçalves, “curado de uma ascite”;7 foi esse ainda o caso da família Barbosa, do Porto, cuja foto surge publicada juntamente com uma longa carta onde J. Barbosa explica as alições de que padecia outrora a sua mulher, fornece descrição detalhada do regime seguido pela família, indica as reduzidas despesas mensais com a alimentação da família, sublinha a poupança com a dispensa de consultas médicas, e fornece uma tabela discriminando o peso de cada membro da família antes e 6 Roland Barthes, A Câmara Clara: Nota sobre a Fotograia. Trad. Júlio Castañon Guimarães. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1980, pp. 119, 128, 129. 7 Separata do n.º 5, vol. V, maio de 1914.


Depois de cura de doença através da alimentação, Francisco de Resende abriu uma pensão naturista em Espinho.

O médico Amílcar de Sousa, o 1.º presidente da Sociedade Vegetariana de Portugal, fundada em 1911.

Consultórios médico-naturistas no Porto e em Lisboa.

depois da adesão ao regime vegetariano.8 Foi ainda o caso da família de Wiborg, residente em Benica, Lisboa, divulgado no estrangeiro9 como exemplo do singular sucesso do “frutivorismo” português, de que, segundo Jerónimo Caetano Ribeiro, B. Wiborg terá sido o fundador.10 O próprio Wiborg explicou a vida naturista e frugívora dos seus ilhos, em carta enviada à redação de O Vegetariano, salientando o exercício e os banhos de ar e de sol que tomam logo de manhã, os feitos desportivos e a capacidade intelectual (“o pequeno rapaz, por exemplo, de 9 anos, fala inglês, norueguês, alemão e português”), a alimentação apenas duas vezes por dia à base de peras, laranjas, avelãs e igos, e a economia que ela representa.11 Estes testemunhos evidenciam o caso singular de um periódico que se transformou no palco de encontro da comunidade vegetariana das primeiras décadas do século XX. Na verdade, assumindo-se como o “órgão oicial” da Sociedade Vegetariana de Portugal, a revista dava voz à comunidade naturista e à sua ilosoia racional, apresentada como fundamento para a visão utópica da construção de um novo mundo onde a mulher teria um papel importante a desempenhar, promovia atividades de N.º 1, vol. III, março de 1912, pp. 11-16. Entre outras possíveis notícias dando conta do caso da família Wiborg, poderá ser citado o artigo que é publicado em francês no n.º 1, vol. II, p. 13. Esse número, com o objetivo de homenagear o “vegetarianismo universal”, apresentava artigos em português, francês e inglês, destinando-se a um público internacional. 10 N.º 5, vol. V, maio de 1914, p. 180. 11 N.º 1, vol. II, p. 21. 8 9

Idílio da Conceição, atleta naturista.

D. Emília Cerdeira, curada pelo naturismo.

divulgação cientíica, culturais e recreativas, mantinha relações ativas com associações estrangeiras congéneres e anunciava, nas suas páginas, uma verdadeira rede de prestação de cuidados médicos, serviços de alojamento e alimentação e produtos adequados à vida naturista que importará aqui recordarmos. A rede vegetariana É verdadeiramente surpreendente a quantidade de anúncios que certiicam a existência de uma autêntica rede de apoio à comunidade vegetariana em Portugal. Os médicos naturistas, para além de contribuírem ativamente para a revista com artigos cientíicos, conselhos práticos e descrição de casos de cura de doentes desenganados pela medicina tradicional, publicitavam os locais onde davam consulta recorrendo a tratamentos alternativos: a própria Sociedade Vegetariana tinha um consultório no Porto, onde davam consulta os Drs. João Pinto Soares de Vasconcelos e Amílcar de Sousa, diretor de O Vegetariano; em Lisboa, os doentes podiam ser examinados pelos Drs. Indiveri Colucci, Adr. Vanderput, Bentes Castel-Branco, ou Ardisson Ferreira. Mas havia também médicos naturistas fora das grandes cidades: era o caso do Dr. Rodrigues de Sequeira, de Caneças, do Dr. António Nóvoa, da Régua, e do Dr. Francisco Maria Namorado, de Sabrosa, todos adeptos do regime vegetariano. As Caldas de Monchique, dirigidas pelo Dr. Ardisson Ferreira, bem como a Estância Termal do Seixoso, propriedade do Dr. Cerqueira Magro e tendo como diretor clínico o Dr. Eduardo de Freitas, proporcionavam tratamentos

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1914: Vegetarianos de norte a sul A consulta do número 1 do 5.º ano (janeiro de 1914) de O Vegetariano permite compreender o interesse que o regime dietético despertava então a nível nacional. Para além do Porto e de Lisboa, são mencionados como locais de residência dos subscritores as seguintes localidades: Alcobaça, Além do Rio, Algés, Aveiro, Barreiro, Caldas da Rainha, Canelas, Cartaxo, Cascais, Cazevel do Alentejo, Coimbra, Covilhã, Dálvares, Entroncamento, Estarreja, Faro, Ferreira do Alentejo, Figueira da Foz, Funchal, Guimarães, Lagos, Lourinhã, Mêda, Medrões, Mirandela, Monte de Caparica, Moreira da Maia, Nine, Oeiras, Ovar, Paço de Arcos, Ponta Delgada, Ponte de Sôr, Póvoa de Lanhoso, Redondo, Santo Tirso, Setúbal, Sines, Sinfães, Soure, Tarouca, Tavira, Torre de Couto, Torres Vedras, Tua, Vagos, Vale do Pereiro, Vila Franca de Xira, Vila Nova de Ourém, Vila Pouca de Aguiar e Vila Real. F.V.

adequados a naturistas e vegetarianos. Os artigos enviados para publicação em O Vegetariano por alguns destes médicos privilegiavam os métodos de cura natural, de que são exemplo a helioterapia (tratamento pelo sol) para a cura da tuberculose e a letcherização (insalivação dos alimentos até icarem em estado líquido, de acordo com o método do Dr. Fletcher) para resolver problemas digestivos. A notícia da existência de sanatórios naturistas no estrangeiro terá inspirado, em 1913, o projeto da criação de um sanatório semelhante no nosso país, dirigido pelo Dr. Amílcar de Sousa. Apesar de nunca ter sido concretizado, o plano terá suscitado o interesse de vários leitores, que escreveram para o periódico disponibilizando-se para a subscrição de ações.12 Alguns dos médicos naturistas portugueses distinguiram-se também na luta contra a vacinação, como prova o protesto apresentado às duas casas do Congresso Nacional, reclamando a derrogação da lei de 2 de março de 1899 que estabeleceu a vacinação e revacinação obrigatórias.13 A rede de apoio à comunidade vegetariana incluía também hotéis e restaurantes. O primeiro estabelecimento hoteleiro abriu no N.º 10, vol. IV, dezembro de 1913, p. 71. 13 N.º 12, vol. II, fevereiro de 1912, p. 486. 12

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A família Barbosa, do Porto, curou-se de várias maleitas através da alimentação crua: "Bendizemos a hora em que banimos o fogão!"

A família de B. Wiborg, apontado como o "fundador do frutivorismo em Portugal".

Porto, em 1913. Situado na Rua dos Caldeireiros, n.º 26, o Hotel Vegetariano – Pensão Naturista, oferecia quartos arejados, numa estrutura ventilada “por 25 janelas de frente e 25 de fundo”, servindo também “regimes dietéticos segundo as fórmulas dos Drs. Labbé, Humchard, Hayg, Kuhne, e Collière (Lácteo, Farináceo e Leguminoso)”.14 Mas já em janeiro de 1913 O Vegetariano anunciava a abertura do Restaurante Fruti-Vegetariano na Rua Sá da Bandeira, n.º 47, que, para além de uma “cozinha dietética para todos os sofrimentos”, prometia “café sem cafeína” e “sumo de uva (Vinho sem Álcool) da Sociedade Vegetariana”.15 O mesmo número do periódico anunciava, em Coimbra, a atividade da Pensão de Família, na Rua da Sé Velha, n.º 19, onde se podia encontrar alojamento e alimentação – “tratamento frugívoro e lácteo” –, e ainda a Cooperativa Frutariana de Lisboa, com sede provisória na Quinta de S. João, em Benica, propriedade do Sr. Wiborg. Ainda em Lisboa, pela mesma altura, abria na Avenida da Liberdade, n.º 100, a famosa Maison Vegétarienne, onde estavam à venda as edições da Sociedade Vegetariana e se davam consultas 14 Cf. anúncio publicitário publicado no livro de Julieta Ribeiro, Culinária Vegetariana, Vegetalina e Menus Frugívoros. Porto: Sociedade Vegetariana – Editora, p. 553. 15 N.º 11, vol. III, janeiro de 1913, secção de anúncios.


O primeiro hotel vegetariano de Portugal abriu no Porto, em 1913 Acima: Endereços úteis no estrangeiro para os vegetarianos portugueses em viagem não terem de transgredir o seu regime dietético.

Ao lado: Na praia de Espinho, "dotada das mais recomendáveis condições para a prática do naturismo", a Pensão Naturista recebia hóspedes em "amplos e higiénicos aposentos", servindo refeições preparadas pela "esposa do proprietário, vegetariana-praticante"

de medicina naturista. Deverá ser ainda dado destaque, em Espinho, à Casa das Boas Frutas – Pensão Naturista, do naturista frugívoro Francisco de Resende, que prometia a “prática rigorosa dos regimes Frugívoro, Vegetalino, Vegetariano e Fruti-Vegetariano”; em Lisboa, salientam-se o Hotel Leiriense, na Rua da Assunção, 52, que se prestava a preparar dietas “à vontade do cliente”, e a Pensão Naturista, na Rua de São Julião, n.º 53 – 3.º Dto, “recomendada pelos médicos naturistas” da capital.16 Faziam ainda parte desta rede de apoio à comunidade vegetariana, estabelecimentos que vendiam produtos para uma “Toilete Racional”, desde “sabonetes naturistas (…) fabricados com óleos vegetais, cinzas de plantas e essências de lores” a “talheres naturistas (…) com lâminas inatacáveis pelos ácidos das frutas”, passando por “sapatos e botas naturistas”, encomendados pela Sociedade Vegetariana a uma fábrica do Porto, “no seu formato natural, sem tacões e confecionados com tiras de cabedal formando um lindo tecido que permite uma ventilação completa”.17 O vegetarianismo como utopia Como explicava o Dr. Jaime de Magalhães Lima, presidente honorário da Sociedade Vegetariana de Portugal, o vegetarianismo não podia ser encarado “apenas como uma farmácia e dispensário de pronto alívio, cura infalível”; a adoção do regime teria antes de Cf. secção de anúncios do último número de O Vegetariano, de setembro e outubro de 1935 (número duplo, n.ºs 9 e 10, vol. 26). 17 Cf. a secção de anúncios do n.º 10, vol. IV, de dezembro de 1913. 16

Como noticiava o n.º 6 do Volume V de O Vegetariano, durante a estação de 1913 foi avultado o número de vegetarianos e frugívoros que procuraram a Estância do Seixoso, nela fazendo a sua cura e descanso.

decorrer “da obediência a leis físicas e morais superiores”.18 Esta é uma ideia que o escritor português e admirador do vegetariano e paciista Leão Tolstoi havia já defendido na conferência "O Vegetarismo e a moralidade das raças", apresentada ao Ateneu Comercial do Porto,19 onde estabelecera uma relação de causa-efeito entre o consumo de carne e a violência. Na verdade, se o vegetarianismo e o naturismo conseguiram forte implantação na sociedade portuguesa nas primeiras décadas do século XX, tal icou a dever-se a um programa de difusão das ideias criteriosamente preparado, traduzindo-se num conjunto signiicativo de publicações por parte da Sociedade Vegetariana Editora e por palestras apresentadas nos melhores círculos culturais das duas maiores cidades. Disso são exemplo as conferências que o Dr. Amílcar de Sousa realizou no Porto, no Ateneu Comercial, no Teatro Gil Vicente e na União Cristã Central da Mocidade Portuguesa, ou ainda na capital, no Ateneu Comercial de Lisboa.20 Será, contudo, relevante notarmos que o frugivorismo era também discutido nos meios cientíicos e académicos, como o prova a conferência do Padre Himalaya na Academia de Ciências de Lisboa, onde dissertou “sobre as causas orgânicas da decadência dos povos latinos e os meios cientíicos de a debelar”, o que terá N.º 5, vol. V, maio de 1914, p. 179. A conferência viria a ser publicada nesse ano pela Sociedade Vegetariana de Portugal num livrinho com o mesmo título. 20 Esta atividade do Dr. Amílcar de Sousa como conferencista encontra-se descrita em vários números da revista. Ver em especial a secção de anúncios do n.- 1, vol. II, de março de 1911; o n.º 12, vol. II, de fevereiro de 1912, p. 485; e o n.º 4, vol. III, de junho de 1912, p. 146. 18 19

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Uma pescetariana confessa-se Em casa dos meus pais, nunca foram servidos pato, coelho, cabrito ou leitão. Brincava com coelhos na quinta da minha avó, em Barcelos – como poderia pensar em comê-los? Na casa do Porto, dois patos – o Donald e o Patinhas – nadavam, inconscientes da sua condição de petisco, no lago do nosso jardim, até ao dia em que foram parar ao forno de uns homens que trabalhavam numa casa ao lado; vangloriaram-se do feito à empregada lá de casa, perguntando quando compraríamos mais um par para ser servido com laranja. Não me lembro de ver os mais pais tão furiosos – e tristes também. Só comíamos carne não identiicada – bifes de vaca ou costeletas de porco, que não faziam lembrar nenhum animal em particular. Transportei depois esse hábito para a minha casa e para os meus ilhos. O meu corte radical com a carne deu-se há cerca de doze anos, e deveu-se em grande parte às leituras dos textos dos vegetarianos de que aqui falo. Continuo, contudo, a comer peixe pelo menos duas vezes na semana. Sou pescetariana: faço uma alimentação que, embora de base vegetariana, admite peixe e marisco. Cheguei aos vegetarianos portugueses de há cem anos por via dos estudos sobre o utopismo português. Mas vegetarianos, em Portugal, há cem anos? E o que tem o vegetarianismo a ver com a utopia? São estas as questões que me proponho aqui abordar, por entre relexões sobre memória e esquecimento. F.V.

levado o Sr. Levy Bensabat a propor que a Academia elegesse “uma comissão incumbida de estudar a forma de criar um laboratório com o im deinido pelo Sr. Padre Himalaya” e o Dr. Betencourt Ferreira a aceitar “a hipótese de que o homem primitivo foi frugívoro”.21 Saliente-se ainda a tese sobre “Frugivorismo” apresentada pelo Dr. António Maria Afonso “como dissertação à Escola Médica de Lisboa”.22 Acreditavam os vegetarianos que, quando os seres humanos pusessem de lado os vícios do álcool e do tabaco e adotassem um regime que não incluísse “despojos cadavéricos”, se assistiria a uma evolução da raça, a nível físico e moral, sendo também resolvidos todos os outros problemas da sociedade; por isso, insistia Henri Collière, o “vegetarismo” era, antes de mais, “uma questão social”.23 A transformação requeria contudo um trabalho árduo de educação, tarefa que os vegetarianos coniavam às mulheres. A gloriicação do sexo feminino não implicava, no entanto, a sua libertação. Numa época em que em outros países europeus e nos Estados Unidos as new women saíam do espaço doméstico e começavam a airmar-se no mercado de trabalho, a utopia vegetariana reservava para a mulher o papel de esposa e de mãe, vigilante para que o regime dietético fosse escrupulosamente N.º 4, vol. III, junho de 1912, p. 133 N.º 11, vol. III, janeiro de 1913, p. 447. 23 Henri Collière, O Vegetarismo e a Physiologia Alimentar, trad. Ângelo Jorge. Porto: Sociedade Vegetariana de Portugal, 1911. 21

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cumprido e os ilhos crescessem de acordo com as leis do naturismo. É aliás nessa lógica que deve ser interpretado o elogio publicado na revista à Sr.ª Wiborg, descrita como um “nobre exemplo para todas as mães portuguesas”.24 O projeto vegetariano português adquiriu os contornos de uma verdadeira utopia quando o frugívoro Ernesto Borges partiu para o Brasil, em agosto de 1914, para ir ter com Pedro Gameiro e fundar em Boim, Rio Tapajós, no Alto Amazonas, uma Colónia Naturista, tendo-se mostrado pelo menos cinco pessoas dispostas a juntar-se-lhes logo que Borges conirmasse: “isto serve!”.25 O projeto terá mesmo avançado, não tendo embora atingido grande expressão, em parte por causa do falecimento do utopista Ernesto Borges, que terá sido devido, como foi noticiado exatamente um ano mais tarde, a “desvarios e erros de dietética incompatíveis com o naturismo”.26 O Vegetariano: alcance internacional O que é ainda hoje difícil de compreender é o alcance internacional do periódico O Vegetariano. Publicada no Porto, a revista era distribuída em Portugal Continental, nas Ilhas, nas antigas colónias ultramarinas e também no Brasil, onde conseguira forte implantação. Na verdade, muitos dos testemunhos e fotos recebidos na redação da revista chegavam do Brasil e a relação tornou-se ainda mais forte em 1914, quando O Vegetariano se tornou o órgão oicial da Sociedade Naturista Brasileira até que esta pudesse “naquele país publicar revista própria”.27 Em 1935, ano da publicação do último número, o título da revista evidenciava ainda esta cumplicidade com os leitores brasileiros: O Vegetariano: Revista de Portugal para Brasileiros e Portugueses. Para além de ter “delegados” no Brasil, a publicação contava com representantes em França, Inglaterra, Alemanha e América do Norte.28 Era evidente a ambição, por parte da equipa editorial, de que a revista se assumisse como meio de comunicação entre a comunidade de vegetarianos portuguesa e o estrangeiro. Este desígnio cumpriu-se em dois sentidos: 1) na publicação de notícias sobre livros e revistas, descobertas cientíicas e atividades dos vegetarianos no estrangeiro; e 2) na publicação de notícias em francês e inglês sobre atividades da comunidade vegetariana em Portugal. São muitos os exemplos da primeira categoria, desde a notícia, de 1914, sobre a iniciativa da Câmara Municipal de Utrecht de experimentar a alimentação vegetariana em 400 crianças que a Associação das Sopas Escolares socorria”29, a uma reportagem sobre o Hospital Frutariano “Lady Margaret”, incluindo seis fotogravuras da instituição britânica.30 Saliente-se ainda uma notícia sobre o Congresso Internacional de Vegetarianismo de 1913, realizado em Haia, para o qual o Dr. Amílcar de Sousa terá sido convidado em representação do nosso país, tendo-se contudo escusado a comparecer,31 ou ainda a carta enviada por Milda Wiborg, datada de maio de 1911, dando conta Separata do n.º 12, vol. II, fevereiro de 1912. N.º 8, vol. V, agosto de 1914, p. 333. 26 N.º 8, vol. VI, agosto de 1915, p. 286. 27 N.º 8, vol. V, agosto de 1914, p. 336 28 N.º 1, vol. III, março de 1912, p. 36. 29 N.º 5, vol. 5, maio de 1914, p. 184. 30 N.º 1, vol. 3, março de 1912, p. 25. 31 N.º 10, vol. IV, dezembro de 1913, p. 374. 24 25


Ângelo Jorge, autor da utopia vegetariana Irmânia, teve intensa atividade como autor e tradutor da editora da Sociedade Vegetariana Portuguesa.

da existência, na Suíça, de “uma Sociedade Vegetariana e um elegante estabelecimento onde se vendem artigos úteis aos adeptos do vegetarianismo”, airmando ainda que “há uma enorme quantidade de sanatórios e restaurantes que adotam esse regime”.32 Também o progresso do vegetarianismo na Rússia deverá ter enchido de admiração os leitores de O Vegetariano: como informava Samuel Perper, doutor em Medicina, em carta datada de maio de 1914, existiam dez Sociedades Vegetarianas no território que então dava pelo nome de Rússia, tendo-se realizado nesse ano em Moscovo um “Congresso do vegetarianismo”.33 E para que o leitor português não se visse obrigado a interromper o regime dietético quando estivesse no estrangeiro, O Vegetariano publicava regularmente uma lista com os nomes e contactos de restaurantes vegetarianos, pensões, sanatórios e estabelecimentos naturais em outros países.34 Como exemplos da circulação de informação em sentido contrário – isto é, sobre as estratégias para se dar a conhecer, no estrangeiro, aquilo que se fazia em Portugal – saliente-se o número inaugural do 2.º volume, de março de 1911, “dedicado às Sociedades e Revistas suas congéneres”, onde o artigo “Homenagem ao Vegetarianismo Universal” surgiu publicado primeiro em inglês, depois em francês e por im em português.35 De igual modo, no mesmo número, destaque-se uma “saudação aos médicos” feita exclusivamente em francês,36 e um artigo descrevendo a “alimentação natural” da família Wiborg, também escrito apenas naquela língua.37 Sublinhe-se por im o facto de O Vegetariano publicar, nas suas páginas, pedidos de permuta de revistas formulados em francês, sugerindo assim a expectativa de que o periódico fosse lido no estrangeiro.38 N.º1, vol. III, março de 1912, p. 17. N.º 6, vol. V, junho de 1914, p. 224. 34 Ver, p. ex., as listas publicadas na secção de anúncios dos n.ºs 1 e 10 do vol. III, respetivamente de março e de dezembro de 1912. 35 N.º 1, vol. II, março de 1911, pp. 4-8. 36 Ibidem, p. 8. 37 Ibidem, p. 13. 38 Cf., por ex., o n.º 12 do vol. III, de fevereiro de 1912, p. 476. 32 33

O Vegetariano, publicado ininterruptamente entre 1909 e 1935.

A estratégia de divulgação do periódico fora de Portugal terá sido bem-sucedida, a julgar pelas notícias transcritas de outras publicações. A título de exemplo, reira-se o artigo Le végétarisme progresse au Portugal, publicado em 1912,39 e ainda o pedido de permuta de revistas oriundo do County Mental Hospital, de Staford, na Inglaterra, interpretado pela direção de O Vegetariano, em 1935, como a demonstração do “interesse da Medicina britânica, desejosa de acompanhar o movimento médico-higiénico, em todas as esferas doutrinárias.40 O interesse pelo caso português era sem dúvida justiicado: como comentou o Dr. Amílcar de Sousa ao fazer um resumo dos avanços do vegetarianismo, “Portugal levará a palma em vista dos progressos que em tão pouco tempo tem obtido”.41 O im da utopia O falecimento do proprietário de O Vegetariano, Manuel Teixeira Leal, a 7 de setembro de 1935, ditou a extinção da revista que, ao longo de 26 anos, unira a comunidade vegetariana em Portugal e no Brasil. A leitura deste último número revela, contudo, a transformação que a publicação entretanto sofrera. Ela está, na verdade, praticamente irreconhecível: é certo que encontramos ainda a habitual lista de publicações relevantes para os vegetarianos; uma secção de anúncios no início e no im da revista; vários artigos sobre temas naturistas e vegetarianos (os benefícios de um banho de sol, tratamento de casos de tuberculose, os benefícios da uva e ainda da soja; os malefícios do álcool, a alimentação das crianças, a defesa dos direitos dos animais, a condenação das touradas); poemas e as habituais receitas. Falta, contudo, o elemento mais importante, que ditara a singularidades do caso português: a interação com os leitores, através da publicação de cartas ou de fotograias. N.º 4, vol. III, junho de 1912, p. 136. N.ºs 9 e 10 (número duplo), vol. XXVI, setembro e outubro de 1935, p. 104. 41 N.º 1, vol. V, janeiro de 1914, p. 22. 39

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O que se modiicara, entretanto? Mudara o governo, como evidencia a informação, ostentada nesse derradeiro número, de que fora “visado pela Comissão de Censura”.42 E talvez em parte por causa disso, mas também porque Jerónimo Caetano Ribeiro subscrevia a política de Salazar, o último número de O Vegetariano mais parece ser o “órgão oicial” do Estado Novo. De facto, do início ao im deste número duplo, a palavra que mais ressalta é “Portugal”. Desde a notícia surpreendente de que “ainal foi um português quem descobriu a Austrália” (segundo um escritor neerlandês, a descoberta terá sido feita por um tal Queiroz ao serviço da coroa espanhola) à exaltação do “País da Saúde” (Portugal poderá ser o sanatório do mundo: montanhas, ar puro, água em abundância) e do “País Maior” (no âmbito das comemorações do 550.º aniversário da Batalha de Aljubarrota), passando pela celebração do “Desporto Português” (“fazer desporto equivale a dizer que caminhamos para um aperfeiçoamento rácico e social”), o discurso de O Vegetariano é de gloriicação da nação. Os artigos assinados por Jerónimo Caetano Ribeiro reiteram a grandeza de Portugal e a justeza da política salazarista: “Portugal não cede nem vende as suas colónias” é o título de um artigo que Ribeiro termina com um comentário esclarecedor: “Todo o bom português está de acordo com estas airmações do Governo Nacional. As nossas vidas e fortunas e os próprios ilhos são oferecidos, de bom grado, na defesa de Portugal Maior”.43 Mais adiante, num artigo sobre a publicação, por parte do governo, de decretos destinados a resolver o “problema do trigo”, Ribeiro remata de novo: “Abençoado Governo, aquele que consiga fazer do pão nacional o melhor do mundo!”44 E se dúvidas houvesse em relação à leitura que Ribeiro fazia das políticas do Estado Novo, o anúncio ao seu livro Salazar e a Economia Nacional,45 publicado cinco anos antes – tendo registado o “maior êxito editorial dos últimos tempos” – não poderia ser mais esclarecedor: “Alguns capítulos deste livro foram escritos dois anos antes da Ditadura Nacional. Salazar veio a realizar a doutrina ali expendida. Um grito de alarme patriótico”.46 Estamos sem dúvida muito longe das ideias políticas progressistas antes abertamente declaradas pelos mais proeminentes vegetarianos portugueses: Jaime de Magalhães Lima assumia-se como um anarquista católico; Amílcar de Sousa dizia-se libertário; José Peralta, curado pelo vegetarianismo,47 era um conhecido anarco-sindicalista; o Estado Novo cerceou a liberdade deste último de forma mais evidente ao proibir a nudez coletiva, que ele costumava praticar, nos anos 20, nas praias da Costa da Caparica. Da amnésia à reconstrução de uma memória Como explica Astrid Erll em Memory in Cultures (2011),48 aquilo a que chamamos “memória” é uma construção discursiva. A memória coletiva é construída a partir de diferentes versões do passado que resultam da interação, comunicação, contributo dos N.ºs 9 e 10, vol. XXVI, setembro e outubro de 1935, p. 113. Ibidem, p. 105. 44 Ibidem, p. 111. 45 Jerónimo Caetano Ribeiro, Salazar e a Economia Nacional. Porto: Machado & Ribeiro, 1930. 46 N.ºs 9 e 10, vol. XXVI, setembro e outubro de 1935, p. 135. 47 Conforme se lê na carta que remete à Direção de O Vegetariano – cf. n.º 1, vol. V, janeiro de 1914, p. 7. 48 London: Palgrave MacMillan. 42 43

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Um apelo No âmbito do Projeto Alimentopia, inanciado pela FCT (Fundação Para a Ciência e Tecnologia), propomo-nos reconstruir a história dos vegetarianos portugueses de há cem anos. Publicámos no nosso site as fotograias e os nomes dos vegetarianos mencionados no periódico O Vegetariano (1909-1935). Pedimos-lhe que o visite em alimentopia.oxys.pt e nos escreva para alimentopia@letras.up.pt no caso de ter informações sobre qualquer um deles. Este é um projeto “Ciência com a Sociedade”, isto é, que só poderá ser concretizado com o contributo da comunidade. Contamos consigo. F.V.

media e instituições, tanto dentro de pequenos como de grandes grupos sociais. Uma memória não é uma reconstrução da história, é antes uma reconstrução feita a partir de reconstruções realizadas em momentos anteriores, e que passaram também por um processamento de factos, da sua seleção e hierarquização. A memória que hoje temos do início do século XX passou pelo iltro da Trilogia Nacional que Salazar se propôs implantar – Deus, Pátria e Família. Para Salazar, o país encontrava-se em crise como resultado de um esquecimento dos valores tradicionais; por isso se empenhou o regime salazarista em recordar aos portugueses o que signiicava “ser português”. O processo de “reaportuguesamento” impôs novas memórias, que obrigou ao esquecimento das memórias antigas; ainal, a memória coletiva funciona como a memória individual: o esquecimento é a regra, é ele que evita que o nosso “arquivo mental” bloqueie com a acumulação de “entradas”. A leitura de O Vegetariano torna óbvio que a memória que temos das tradições gastronómicas portuguesas é falsa, ou pelo menos incompleta. Temos a sorte de ter ao nosso dispor um arquivo, como diz Paul Ricoeur,49 constituído por testemunhos escritos e fotograias que conirmam um passado português vegetariano. Resta-nos interrogá-lo com a mente de um historiador, explorá-lo, e construir novas narrativas que o expliquem. Sempre com a consciência, porém, de que estamos também a processar factos, selecionar e hierarquizar – a reconstruir memórias. Pego no livro de Julieta Ribeiro que me chegou pelo correio. Esta segunda edição mantém a introdução que tanto me fascinou na primeira. Nela, Julieta Ribeiro argumenta que a adesão ao regime frugívoro, que consiste na ingestão de frutos crus, assegurará a libertação da mulher: livre dos tachos e panelas, poderá airmar-se como “a maior potência mundial”, o principal agente promotor do “revigoramento e da moralização das nações.” Infelizmente, Julieta Ribeiro ecoa as palavras que ouvira a seu marido, o conservador Jerónimo Caetano Ribeiro: “Só da mulher como esposa e mãe se poderá esperar a transformação social e o ressurgimento da nossa raça, hoje infelizmente tão decaída física e moralmente”.50 É pena – penso enquanto fecho o livro – que Julieta Ribeiro não tenha percebido que a libertação da mulher não começa quando sai da cozinha, mas quando nela entra o homem também. E 49 50

La Mémoire, l’Histoire, l’Oubli. Paris: Éditions du Seiul, 2000. Culinária Vegetariana …., p. 8.


Um vinho favorito: BSE, da José Maria da Fonseca. Um prato predileto: Qualquer coisa cozinhada num wok. Um livro, um disco e um ilme para levar para a ilha deserta da EPICUR: - A Tempestade, de William Shakespeare - Pulp Fiction, de Quentin Tarantino - A Night at the Opera, dos Queen Destino inesquecível: Líbano. Atravessei o Líbano de sul para norte e pude testemunhar o contraste de culturas: a muçulmana, cá em baixo, e a norte a cristã. Paisagens magníicas, gente hospitaleira e sabores inesquecíveis.

C Herberto Smith

Melhor experiência num hotel: Recentemente, na Quinta do Vallado, perto da Régua.

Fátima Vieira Na conversa que grassa fértil, enquadrada pela verdejante tela dos jardins da Fundação Calouste Gulbenkian, Fátima Vieira, professora na Faculdade de Letras da Universidade do Porto, reconhece «identiicar-se muito» com as mulheres pintadas por Gustav Klimt. Mas é o epíteto de «utópica» que melhor a retrata, ou não fossem os Estudos sobre a Utopia o seu terreno dileto de especialização. Deine-se como uma… Utópica. Tenho a felicidade de pertencer a um grupo de pessoas que olha para um copo e considera que está sempre cheio. E, sobretudo, de acreditar que é possível mudarmos as coisas. Qual a sua maior capacidade epicurista? A de tirar prazer das coisas simples da vida, particularmente da amizade e da cumplicidade. Uma ideia de felicidade: Não uma, mas duas: uma de natureza afetiva e outra de natureza intelectual. A de natureza afetiva é estar com a minha família e amigos e saber que estão bem. A de natureza intelectual passa por descobrir novas coisas e, de alguma forma, também contribuir para a sociedade. Descobrir que ainal faço a diferença e valeu a pena ter feito alguma coisa.

Pior experiência num hotel: Foi há quase 40 anos, com os meus pais e os meus irmãos. Estávamos a atravessar a Bélgica, o carro avariou e icámos numa aldeola perdida, durante um im de semana, à espera que chegasse uma peça. A pensão em que icámos era tão má que a minha mãe nos proibiu de nos metermos entre os lençóis. Passámos duas noites a dormir com as toalhas de praia em cima da cama para não tocarmos em nada. Restaurante de eleição (Portugal): Castas & Pratos, na Régua. Restaurante de eleição (internacional): Uma tasca na parte velha de Beirute, chamada Le Chef, onde encontrei os melhores legumes que alguma vez comi. O quadro para ter pendurado em casa: Queria o original daquele que tenho no meu quarto, o Danaë, de Klimt. Um prazer confessável: Viajar. Um ideal de beleza: Elegância. Encontro beleza nas pessoas, não nas suas feições puras, mas na sua elegância e na elegância das coisas. Uma peça herdada: Uma pulseira de ouro, que era da minha avó. A viagem da sua vida: Vietname, onde estive agora durante um mês. Estive a dar aulas, mas também tive oportunidade de explorar o país. Um vício bom: Comer comida saudável. A.R.L.

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Vegetarianos portugueses de há um século: O estranho caso de uma amnésia coletiva ...  

Vegetarianos portugueses de há um século: O estranho caso de uma amnésia coletiva – e de uma memória a reconstruir Artigo de Fátima Vieira...

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