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"Landau 66" Roteiro J.M.Trevisan Direção Fernando Sanches

Quarto Tratamento(10.08.07)


1 - INT. CARRO EM MOVIMENTO - NOITE Dois jovens dentro de um carro (um Landau), MATEUS e FELIPE. Idade entre 25 e trinta anos. Pessoas normais e completamente genéricas. A personalidade deles vai ficar mais clara ao longo do diálogo. MATEUS está dirigindo e FELIPE está sentado no banco da frente. A velocidade do carro não é alta. Os dois não parecem estar com muita pressa. Lá fora chove absurdamente. De fundo, dá pra ouvir a MÚSICA do RÁDIO ligado. No RETROVISOR há vários amuletos pendurados. Entre eles, um PÉ DE COELHO, FITINHAS DO SENHOR DO BONFIM, um CHAVEIRO EM FORMA DE FERRADURA e com mais destaque - um CRUCIFIXO. 
 Mateus Você teve a manha de esquecer o isqueiro... Felipe Esqueci, cara. Esqueci. Mateus (baixinho, puto) Cacete...

Eles passam por um carro batido jogado no acostamento, mas não o percebem. Tem que ser uma coisa muito sutil. Praticamente imperceptível.

Felipe Foi mal cara! Que que eu posso fazer? Mateus Tem cerveja ainda? Felipe Tem. Mateus Me dá uma e deixa a outra aí. Que saco. Felipe Beleza


FELIPE tira a garrafa de um saco, abre e entrega para MATEUS. Pelo vidro dá para ver um rapaz (CARONA, 25) parado no acostamento pedindo carona, usando um casaco com capuz. Talvez com algum tipo de mochila. A princípio não parece alguém de quem se deva desconfiar, tirando o fato de que é noite, chove e a estrada está deserta. Não parece estar mal vestido e não passa uma postura agressiva. Felipe (CONT'D) Tem um cara ali na frente.

O carro passa pelo CARONA.

Mateus (tomando um gole da cerveja) Ali aonde? Felipe (olhando para trás) Ali atrás. No acostamento. Felipe (CONT'D) (olhando pra frente de novo) Você não vai parar? Mateus Lógico que não. Felipe Por que não? Mateus Ninguém dá carona a uma hora dessas. Mateus (CONT'D) Alías, ninguém pede carona a uma hora dessas. Felipe Por isso mesmo. O cara deve tá precisando. Mateus Nem fodendo. Se fosse mulher pelo menos.


Felipe (rindo) Devolve a cerveja! MATEUS ri também. De repente o carro diminui a velocidade e começa a parar, no meio da estrada. No mesmo momento, o RÁDIO também desliga e a MÚSICA pára.

Mateus Merda.

MATEUS começa a conduzir o carro para o acostamento.

Felipe Que foi? Mudou de idéia? Mateus Eu não. O carro mudou. Felipe O que tem o carro? Mateus O motor. Parou.

MATEUS encosta o carro no acostamento 2 - INT. carro parado - NOITE

Felipe Do nada? Mateus Não. Já aconteceu antes. Essa merda é velha, esqueceu? Felipe


E agora? Mateus Tem um esquema que meu pai faz na fiação. Vai ver é isso. MATEUS deita no banco e começa a mexer em alguma coisa embaixo do painel como se estivesse fazendo uma ligação direta. MATEUS não entende nada de carros e acaba inventando essa história pra não passar por estúpido na frente do amigo.

Felipe Vai ver? "Vai ver" cê nem sabe o que tá fazendo. Mateus O que já é bem mais do que você, que até agora não fez porra nenhuma. Mateus (CONT'D) Abre o capô aí e vai lá fora ver o motor. Felipe Eeeu? Nessa chuva? Nem a pau. Eu nem entendo nada de carro. Felipe (CONT'D) Faz teu esquema com os fiozinho aí e vê no que dá. Mateus Meu caralho... Felipe (tomando cerveja) Mateus (mexendo inútil na fiação) Felipe A gente podia pedir ajuda pro cara. Mateus Que cara? Felipe


O da carona. Mateus Tá louco? Ele deve tá é puto por que a gente não parou. Felipe A gente não. VOCÊ não parou. Eu parava. Mateus Vai à merda. Felipe (toma mais cerveja) Mateus (continua mexendo nos fios)

FELIPE olha pra trás. Felipe Iiih...fodeu! Mateus (impaciente) Fodeu o que? Felipe O cara ta vindo! Mateus (tirando a cabeça debaixo do painel enquanto fala) Hein?!? Felipe O cara ta aí! Na janela do passageiro, onde está FELIPE, aparece o CARONA. Ele parece feliz. Aponta para a trava da porta e faz sinal de positivo, como se pedisse pra abrir a porta. Felipe (CONT'D) Não...você entendeu errado...a gente parou por causa do...


Chove muito. O vidro está fechado. O CARONA faz sinal de quem não está ouvindo nada e pede que MATEUS abaixe o vidro. Enquanto FELIPE continua tentando se explicar, MATEUS se estica todo e abre uma fresta minúscula do vidro. Carona (feliz) Ainda bem que vocês pararam! Não tava mais aguentando essa chuva maldita...dá pra abrir? Mateus (calmo...meio cínico mas tentando parecer simpático) Você não entendeu. A gente parou por causa do carro. O motor já era.

Carona Como assim? Mateus (meio de saco cheio) O carro parou sozinho e eu encostei. Mateus (CONT'D) A gente tá preso aqui. O vidro não desce mais que isso e as travas são automáticas. Carona (divertidamente surpreso) Trava automática? Mateus (cínico) Isso. É um Landau 66. Carona se afasta e checa o carro. Carona (sorrindo porque sabe que não existe Landau 66. Ainda mais com trava automática) Landau 66. Mateus


É do meu pai. É de colecionador. Silêncio geral. MATEUS espera a reação da bobagem que acabou de dizer. FELIPE se pergunta mentalmente porque nunca tinha percebido as tais travas automáticas enquanto o CARONA parece pensar em algum plano. Carona Tá legal, vai. Carona (CONT'D) Eu entendo um pouco de carros. Abre o capô e eu dou uma olhada no motor. Carona (CONT'D) Se eu conseguir arrumar, vocês me dão uma carona. O que cês acham? MATEUS olha para a cara de FELIPE. Felipe É justo. MATEUS faz uma pausa antes de responder. Mateus (conformado) Beleza. MATEUS puxa a trava do capô no painel. O capô abre. O CARONA levanta o capô. Não dá pra ver o que acontece, mas parece que ele está realmente mexendo no motor. Ele fecha o capô e limpa as mãos nas calças. Em seguida, abre um sorriso e faz um sinal de positivo. Felipe Acho que é pra ligar o carro. Mateus (impaciente) Eu sei. MATEUS gira a chave na ignição...e o carro pega. MATEUS e FELIPE se olham incrédulos, mas felizes porque saíram da enrascada. Do lado de fora, o CARONA dá a volta no carro até a porta do passageiro.


Ele dá duas batidinhas no vidro com o punho, ainda sorrindo. Mateus (CONT'D) (sério) Abre pro cara. FELIPE abre a porta e o CARONA entra. Carona Não falei que dava certo? MATEUS dá uma acelerada no carro para testar o motor. O ronco é alto. Parece tudo bem. Felipe (ainda incrédulo) Não acredito, cara. Carona (sorrindo) Não falei? 3 - INT. cARRO EM MOVIMENTO - noITE

MATEUS arranca com o carro cantando pneu e volta para a estrada. MATEUS Pra onde você vai? Carona (relaxado) Pra onde vocês vão? Felipe (pegando a última cerveja) Lugar nenhum. A gente só saiu pra dar uma volta. Fumar um beque. Tomar umas breja. Mateus É. Mateus (CONT'D) E o imbecil aí fez questão de esquecer o isqueiro.


Os três dão risada. Carona Passa aqui que eu acendo. FELIPE passa o beque para o CARONA e se vira pra tomar mais um gole de cerveja. O CARONA acende e dá um trago, mas ninguém vê como ele acendeu. E em momento algum se ouve barulho de isqueiro ou fósforo. Felipe (pegando o beque e entregando a cerveja pra Carona) Aeee! Agora sim tua carona tá paga. Felipe (CONT'D) (esticando a mão para ligar o rádio) Vamo até ouvir um sonzinho pra comemorar! Mateus (sério) Nem. FELIPE pára o movimento no meio. Felipe Pô mano...só uma musiquinha pra animar o ambiente. Mateus (sério, mas não bravo) Desencana. É capaz de foder a bateria. Mateus (CONT'D) Passa o beque.

FELIPE passa o beque para MATEUS MATEUS dá um trago fundo, segura bem e solta a fumaça devagar. Só então passa o beque para o CARONA, enquanto olha pelo retrovisor. Mateus (CONT'D)


Você é mecânico? Carona Eu? Não. Carona (CONT'D) Mas meu pai mexe com peças. Monta umas coisas. Carona (CONT'D) Uma vez ele me botou de castigo porque eu roubei umas peças dele pra brincar. Felipe É? E você montou o que? Carona Ah...nada que prestasse. Carona (CONT'D) Mas acho que acabei pegando o jeito. Silêncio. Felipe Cara... Felipe (CONT'D) Não entendi porra nenhuma. O CARONA e FELIPE explodem de rir. MATEUS só sorri de leve, com o canto da boca. O CARONA passa o beque para FELIPE. Mateus Onde você vai querer ficar? Carona Onde você acha melhor? Não conheço nada por aqui. Mateus Vou seguir mais um pouco e depois pego o primeiro retorno. Tem um posto um pouco antes. Mateus (CONT'D) Deve ter algum motel ali por perto.


Carona Por mim tá ótimo.

Silêncio. Por alguns instantes a euforia cessa e os três, principalmente MATEUS, se dão conta da estranha situação na qual se encontram. Mateus (meio desconfiado) Tem que ter muita coragem pra viajar a pé numa chuva dessas. Felipe Verdade. De carro já é um saco. Carona (muito tranquilo) Nada. A chuva foi um acidente de percurso. Mateus Mesmo assim. Mateus (CONT'D) Não é qualquer um que se enfia numa roubada dessas. Carona Besteira. Carona (CONT'D) Olha só pra vocês. Aposto que tavam de saco cheio em casa. Nada na TV. Nenhuma mina pra telefonar. Só filme ruim no cinema. O pai, a mãe ou a avó...sei lá...berrando no ouvido. Felipe É bem por aí. FELIPE insinua passar o beque para MATEUS, mas ele faz um sinal leve de recusa. FELIPE estranha por um instante e passa para o CARONA. Carona Pois é. Comigo foi bem parecido.


Carona (CONT'D) Me enchi, mandei tudo à merda e saí fora. Carona (CONT'D) Quando eu voltar, tudo vai parecer menos chato. E aí dá pra aguentar a rotina mais um tempo. Mateus (meio rindo irônico) Então você é meio mecânico e meio filósofo. Felipe (rindo) E meio chapado! Carona (rindo) É sério. Todo mundo passa por isso. Carona (CONT'D) Tem gente que some por duas horas e meia pra dar um rolezinho. E tem gente que se joga na estrada sem dia pra voltar. Silêncio. Felipe (sério, porém chapado) Todo mundo passa por isso? Carona Claro! Carona (CONT'D) Lógico que tem gente que se conforma mais fácil com a vida que tem. Carona (CONT'D) Tipo minha família: boa parte dela mora no mesmo lugar desde sempre. Carona (CONT'D) Mas a maioria passa. Felipe


Sei não. Tua teoria é meio furada. Carona Tô falando... Felipe (olhando para o crucifixo no retrovisor) Quer ver só? Felipe (CONT'D) Deus por exemplo. Carona Que que tem? Felipe O cara não passa por essas parada aí. Felipe (CONT'D) Pensa. Se o maluco pode ter tudo, pode fazer tudo, pode ver tudo e tá em todo lugar ao mesmo tempo, como é que o cara vai ficar de saco cheio? Carona Vai ver que uma hora perde a graça. Felipe Perde nada. Felipe (CONT'D) O céu deve ser mó zona. Balada, droga, mulher à vontade. Felipe (CONT'D) O inferno é que deve ser um saco. Não é pra pagar os pecados? Então não pode ser legal! Felipe (CONT'D) É...tá aí. FELIPE passa a cerveja para o CARONA e pega o beque de volta. Felipe (CONT'D) Que será que o capeta faz quando tá de


saco cheio? Carona (batendo no ombro de MATEUS) Não sei. O que você acha? Felipe É! Tenta aí vai. Cê tá quieto demais. Mateus Eu acho... Mateus (CONT'D) Eu acho que eu sei o que ele faz. Felipe (empolgado com o papo cabeçudo nonsense) Vai! Manda lá! Felipe (CONT'D) (se virando para Carona) Agora que eu quero ver! À partir daqui, MATEUS parece meio estranho. É uma mudança inicialmente sutil, mas definitivamente dá pra perceber que ele agora é uma pessoa "diferente" do começo da história. Mais introspectivo, para dizer o mínimo. Ao mesmo tempo, fica nítido pela primeira vez que, desde a entrada do carona, MATEUS tem dirigido numa velocidade bem acima da inicial, embora ainda dentro de um limite aceitável. É à partir daqui que a coisa começa a complicar... Mateus Acho que ele sai por aí. Como a gente saiu. Carona (interessado) Hmmmm. Felipe E daí? Mateus (ignorando o comentário de FELIPE) Sai por aí pra curtir. Pra procurar gente.


Mateus (CONT'D) Pra procurar mais almas pra levar embora. O carro acelera um pouco mais. Felipe (tirando barato) Nossa. Que tosco. Carona (rindo) Mateus (ignorando de novo) Mas ele não aparece como ele é de verdade. Mateus (CONT'D) O cara é o diabo. Pode ser quem ele quiser. O carro agora vai bem rápido. As luzes dos outros carros passam voando dos lados. Mateus (CONT'D) (apontando com a cabeça para o CARONA) Podia ser você. Mateus (CONT'D) (se referindo a FELIPE) Ou ele. Mateus (CONT'D) (Sorrindo de um modo assustadoramente normal) Ou eu. MATEUS vai com o carro para a outra pista, na contra-mão. Felipe (meio assustado. apagando o beque no cinzeiro do carro) Pára de zoar, cara. Sai daí. Cê tá na contra-mão. Carona


(assustado) Merda. Mateus Eu acho que faz sentido. Felipe Cara é sério! Mateus (meio nervoso.) Cê não acha que faz sentido? Felipe (assustado) Acho! Acho! Mateus (gritando) NÃO ACHA??? O carro sobe uma ladeira na estrada. Felipe (se cagando de medo) ACHO, CARALHO ACHO! Felipe (CONT'D) PÁRA ESSA MERDA PELO AMOR DE DEUS! O carro pára no alto da subida com uma brecada seca. Silêncio por meio segundo. 4 - INT. carro parado - NOITE Felipe (puto) CARALHO, MANO! PRA QUE ZOAR DESSE JEITO? Felipe (CONT'D) (se acalmando) Achei que cê não ia parar essa porra. MATEUS levanta a cabeça que estava encostada no volante depois da brecada.


Mateus (olhando pra FELIPE) Deixa de ser idiota. É lógico que eu tava zoando. Mateus (CONT'D) Mas não fui eu quem pa-Luzes. Buzina. A idéia é que uma carreta venha do outro lado da subida e acerte o carro em cheio, de repente. 5 - ExT. acostamento - noite O CARONA olhando os destroços. Ainda chove torrencialmente. O CARONA continua inteiro, sem nenhum arranhão. Ele enfia a mão no bolso do casaco e saca um maço de cigarros (Gudang Garan), tira um deles, dá duas batidinhas com o filtro no maço, põe na boca e o cigarro acende sozinho. Com o cigarro aceso e queimando apesar da chuva intensa, ele se afasta um pouco e, sorrindo de um modo extremamente inocente, volta a pedir carona. FADE OUT. Créditos. 6 - INT. CARRO EM MOVIMENTO - NOITE Duas garotas bonitas viajando de carro numa estrada. Elas ouvem alguma música do tipo extremamente comercial. Parecem estar curtindo muito a viagem. A passageira (GAROTA 1) dança movendo os braços enquanto a motorista (GAROTA 2) balança a cabeça no ritmo da música. De repente o carro pára. O rádio desliga e a música pára também. Garota 1 O que foi? Garota 2 O carro. Parou. FADE TO BLACK.


FIM.


Roteiro - Landau 66