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MEMAI w w w. j o r n a l m e m a i . c om . b r

Letras e Artes Japonesas - Edição 03 - Curitiba - Inverno de 2010

A HAIJIN TERUKO ODA O Hacai tradicional visto por sua maior mestra no Brasil

ENTRETENIMENTO NO JAPÃO NÃO É BRINCADEIRA Como funciona a indústria do Mangá e Animê

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KI WO TSUKAWANAIDE: QUANTA ENERGIA! Um universo novo de gentileza, respeito e encanto 16

ALICE YAMAMURA E A POESIA DO BARRO A pequena notável com coração imenso | 08


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SUMÁRIO

要 約

MEMAI

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KOTOBA A VERTIGEM DE CONHECER

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PERFIL: ALICE YAMAMURA CERÂMICA EM FORMA DE POESIA

HAICAI CONCURSO NENPUKU SATO (outono)

Manhã de sol -Na praia os caminhantes Também as libélulas. Mahelen Madureira Santos/SP

ENTREVISTA: TERUKO ODA UMA VIDA EM BUSCA DE KIGOS Por Marilia Kubota

Por Sandra Hiromoto

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TRADUÇÃO TRADUÇÃO ARTESANAL, UMA PAIXÁO

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MANGÁ ENTRETENIMENTO NO JAPÃO NÃO É BRINCADEIRA

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LANÇAMENTOS

Por Suzana Tamae Inokuchi

Por Mylle Silva

CINEMA Akira Kurosawa VIDA KI WO TSUKAWANAIDE: QUANTA ENERGIA ! Por Lina Saheki

A VERTIGEM DE CONHECER

UMA PALAVRA

por Marilia Kubota

Fazer cada edição do JORNAL MEMAI tem proporcionado pequenas grandes alegrias. Sentimos motivação ao escrever, fotografar, ilustrar, diagramar, editar e criar a capa para nosso jornal. A motivação vem de uma só fonte: o kokorô – a palavra japonesa para designar o coração, ou o amor à vida. Nem pensamos na possibilidade de o projeto não dar retorno financeiro. Agimos com o método empírico com o qual é realizado

os matsuri e outros eventos em muitas pequenas comunidades nipônicas do Brasil. O empirismo motivado pelo entusiasmo inicial cria as condições para a sustentação de nosso projeto. Os espiritualistas apregoam: Quem mais dá, mais recebe. A beleza de espírito, apregoada aos quatro ventos em manuais de auto-ajuda é inócua sem aplicação. Comprovamos na prática que para fazer um jornal não é preciso ter planos

Equipe Editora Geral: Marília Kubota Editora Assistente: Mylle Silva Editora de Arte : Sandra Hiromoto (capa) Convidada especial: Teruko Oda Colaboradores: Carlos Roberto Zanello de Aguiar (Macaxeira), Denise Somera, Gustavo Morita, Guilherme Match, Jorge Yamawaki, Nelson de Oliveira, Raphael Faria Krüger, Simonia Fukue Nakagawa, Yasodara Heike, Walkyria Novais, Andriette Setogutte, Gerson Carvalho, Sada Mohad. Colunistas: Lina Saheki e Suzana Tamae Inokuchi

Crédito capa: Obra premiada de Alice Yamamura no 10°. Salão Paranaense de Cerâmica, 1991. Foto: Carlos Roberto Zanello de Aguiar.

Projeto Gráfico: Sandra Hiromoto Design/Diagramação: Raphael Krüger

Impressão: Gráfica O Estado do Paraná

mirabolantes. Mas apenas o desejo. É o desejo de conhecer e se comunicar com o mundo a motivação para artistas, cientistas, médicos, engenheiros, donas de casa e outros trabalhadores de espírito. Venham sentir a vertigem. Marília Kubota Editora

Esta edição é dedicada à memória do escritor Wilson Bueno, assassinado no dia 31 de maio de 2010, em Curitiba.

Tiragem 2000 unidades Inverno de 2010

Email:

contato@jornalmemai.com.br

Correspondência:

Av. Jaime Reis, 28. Sobreloja CEP: 80510-010. São Francisco. Curitiba/PR

Assinaturas

4 edições

R$ 25 (nacional) R$ 50 (internacional)


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CONCURSO NACIONAL DE HAICAI

NENPUKU SATO

Freada no escuro -Entre as cruzes das encostas luz de pirilampos. Regina Alonso Santos/SP

Roto e esfarrapado espantalho sem comando -Pássaros em festa. Alberto Murata São Paulo/SP

Avisos aos concorrentes: 1º. Trabalhos que não seguem o regulamento do concurso estão sendo desclassificados. Por isto o concorrente deve ler atentamente as regras publicadas no jornal e no site.

Praça do Japão Sob o olhar de um Buda pássaros namoram. Sérgio Francisco Pichorim São José dos Pinhais/PR

Cor avermelhada Entre os dentinhos de leite -Ah, café cereja! Neide Rocha Portugal Bandeirantes/PR

2º. Alguns concorrentes não entraram na seleção enviada para julgamento nesta estação. Seus envelopes, postados no dia 31 de abril , foram recebidos com muito atraso do correio. Estes trabalhos estão automaticamente classifcados para o concurso de agosto.

Silêncio na estação Sobre o trem que parte A chuva de outono. João Toloi Guarulhos/SP

Lembro de meu pai Debruçado na janela Noitinha de outono. Elisson Thomaz Svereda Irati/PR

Sete poemas foram premiados nesta estação. Os livros, de haicai e literatura japonesa são uma cortesia de Teruko Oda e editoras Estação Liberdade e Companhia das Letras. Parabéns aos vencedores. Continuem participando.

俳 句 HAICAI

MEMAI

Consulte o Regulamento no site: www.jornalmemai.com.br

CUBA E JAPÃO

Qué enorme alegría recibir, leer MEMAI. Para empezar, qué bello descubrimiento la obra de Tomie Ohtake, el zen me convence que es la clave de la longevidad. felicítale por favor en mi nombre. Este número es bello y lo iré distribuyendo entre amigos y lectores de acá, que sé lo disfrutarán y irán encontrando en lo brasileño japonés una fuente de creación. Están haciendo un hermoso trabajo, labor del espíritu y de la gracia, de la elegancia. El poema mío con su traducción quedó impecable, gracias por el espacio (doble): español y portugués, y agradece, mucho a Zapparoli su magnífica traducción y a Eliége Jachini la hermosa ilustración. Estoy (soy) feliz: muitos beijos José Kozer, Miami, Florida, EUA Kozer, você é um dos maiores mestres da poesia neobarroca latinoamericana. Divulgar uma criação sua que através do sincretismo cultural, alude ao contexto do mundo contemporâneo é um prazer. O JORNAL MEMAI está de portas abertas para divulgar seu trabalho.

SINTONIA COM O HIBRIDISMO

Acabo de receber as edições 01 e 02 do Jornal Memai e gostaria de parabenizála pela alta qualidade editorial, tão raro nos veículos dedicados aos assuntos japoneses no Brasil. O JORNAL MEMAI está sintonizado com a orientação da Fundação Japão, de promover projetos dedicados à divulgação da cultura japonesa, dedicando espaço aos cruzamentos e hibridismos, fenômeno cultural que comprova a boa parceria das complementações de idéias e tendências. E dirige-se ao grande contingente de interessados em cultura

japonesa em sua expressão plena, não focando especialmente as comunidades japonesas e suas festas típicas, mas tratando a cultura com a dignidade que lhe é pertinente.Manifesto meu entusiasmo em constar que existe uma publicação como esta. Com meu desejo de que a publicação obtenha muito êxito e seja conhecido em todo o Brasil envio minhas cordiais saudações. Jo Takahashi, São Paulo, SP Jô, agradeço os cumprimentos em nome da equipe do JORNAL MEMAI. Ficamos felizes em saber que a linha editorial do jornal coincide com a orientação das atividades e projetos da Fundação Japão para divulgar a cultura japonesa no Brasil. A nossa equipe é jovem e agrega nikkeis e hi-nikkeis. Graças a esta miscelânea conseguimos, com poucos recursos e muita criatividade, gerar um veículo que busca dar uma ideia da diversidade da cultura japonesa, disseminada fora do Japão.

OMEDETOO

Embora tardiamente quero acusar e agradecer o recebimento da edições 02 do JORNAL MEMAI. Esta edição foi enriquecida com a entrevista da Sra. Tomie Ohtake. Gostei também do artigo da Poliane Brito sobre Haruo Ohara. Parabéns, Poliane. Muito interessante e a ideia é boa para se levar adiante descobrindo pessoas simples e talentosas pelo interior. Lembro que muitos pintores vagaram pelo interior de São Paulo para mais tarde projetaremse pelo mundo. Estou orgulhoso em poder receber o JORNAL MEMAI e desejo longa vida ao mesmo.Muito prazer, Senhor José Kozer. Mais uma vez, arigatô. Diodi Okamoto,São Paulo, SP

Diodi, ficamos contentes em contribuir com o seu passatempo favorito, que é a leitura de jornais . Agradecemos o envio de suas cartas, com crônicas anexadas, publicadas em jornais de São Paulo. Seu apoio nos estimula desde a edição 00.

CINEMA

Primeiramente gostaria de parabenizálos pelo belo trabalho de divulgação de vários aspectos da cultura japonesa. No entanto gostaria de apontar um equívoco cometido na seção de cinema, onde é apontado que em 20 anos só foram lançados dois filmes no circuito de cinema brasileiro, “A Partida” e “Tampopo”. Foram lançados, ainda que em pequeno número de salas outros títulos, como “Zatoichi”, de Takeshi Kitano, e a animação “A viagem de Chihiro”, de Haya Miyazaki. Obrigado pela atenção e pelo ótimo trabalho. André, São Paulo, SP A colunista Suzana Tamae Inokuchi responde: André, escrevi principalmente sobre grandes lançamentos de âmbito nacional (não incluindo cinema de animação), que chegam a cidades como Curitiba. Caso dos filmes citados, que chegaram em todas as grandes cidades, até em mais de uma sala. Eventos localizados não são percebidos, especialmente nos mercados periféricos. Vi Tora-san num cinema na Liberdade, quando criança, e isto não tem efeito de mercado. O fato é que o cinema japonês não tem espaço na realidade fílmica brasileira. O lugar pra se ver filme japonês é em festivais e mostras ou, agora, cada vez mais, nas locadoras, mas não nos cinemas.

手 紙 CARTAS

CARTAS


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MEMAI

TERUKO ODA

イ ン タ ビ ュ

Gustavo Morita

ENTREVISTA

UMA VIDA EM BUSCA DE KIGOS

Como um vagalume que tem luz própria, Teruko Oda é uma autodidata no haiku, o haicai tradicional japonês. Embora tenha convivido com Masuda Goga, seu tio, defensor da forma tradicional que preserva o kigo – o termo da estação – apenas a obstinação a tornou uma poeta respeitada. Com a experiência, foi deixando as ‘defesas apaixonadas’, cedendo caminho para a contemplação.

por Marilia Kubota

JORNAL MEMAI – Conte como foi sua iniciação no haicai. Tendo você haijins praticantes em casa, como teu pai e teu tio, Masuda Goga, foi um processo de desenvolvimento natural? TERUKO ODA – A iniciação não foi um processo de desenvolvimento natural, embora o assunto fosse conhecido desde a infância. Mas a prática, sim. Vencidas as barreiras iniciais que me engessavam ao modo ocidental de composição, capturar haicais tornou-se um processo tão natural na vida quanto dormir ou acordar. Assimilar conceitos e ensinamentos preconizados pelos grandes mestres japoneses foi a primeira etapa. O passo seguinte, a aplicação nos poemas em língua portuguesa. Vencidos esses desafios, a composição de haicais adquiriu aspecto lúdico. Fui praticando. Sem me dar conta, detalhes foram se transformando em significativos acontecimentos registrados em três versos.

MEMAI – Como era o relacionamento com seu tio Goga, um dos fundadores do Grêmio Haicai Ipê? TERUKO – Meu tio foi o responsável pela minha iniciação. Devo a ele todas as ferramentas que possibilitaram meu desenvolvimento nos caminhos do haicai. Ele me fez refletir sobre a possibilidade de manter a tradição japonesa do kigo, do qual era defensor obstinado, nas composições em língua portuguesa. A partir dessa reflexão, Goga começou a introduzir esse novo conceito nas produções do recém fundado Grêmio Ipê, de São Paulo. Inicialmente, a relação com Goga era de ‘tio e sobrinha’, diria até com um certo ‘distanciamento respeitoso’ conforme educação recebida de meus pais. À medida que os estudos avançavam, os encontros tornaram-se mais frequentes. A cada etapa, novas dúvidas iam surgindo. As reuniões fora do grupo Ipê propiciavam a oportunidade de amadurecer idéias, conceitos, analisar e reescrever

textos. Enfim, buscar caminhos com mais serenidade, longe das ‘defesas apaixonadas’ em que se transformavam as discussões em grupo. Entre mim e Goga formou-se um forte laço de amizade, confiança e respeito. A aproximação acabou por romper as barreiras da ‘etiqueta japonesa’, se posso assim definir a relação inicial. Até seu falecimento em 2008, desfrutei por duas décadas de seu convívio, período em que muito pude beber de sua sabedoria. Como sobrinha e discípula, serei sempre grata pelo carinho, ensinamentos e amorosa presença, decisivos para meu aprendizado. MEMAI – Que tipo de contato Goga teve com Nenpuku Sato? TERUKO – Sobre o contato com Nenpuku, pouco ou quase nada sei. Sato, de quem meu pai também fora discípulo, morava em Bauru e nós, em São Paulo. Faleceu em 1979. A essa época, meus encontros com Goga eram ocasionais, não tínhamos


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MEMAI interesses em comum. Uma das poucas lembranças sobre o assunto está relacionada com uma enorme quantidade da revista Kokague que ele preparava para postagem. Colaborava na distribuição da revista editada por seu mestre. E sempre que a ele se referia, se curvava numa demonstração de profunda admiração e respeito. MEMAI – Por que os haijin fundaram os grêmios literários? TERUKO – O primeiro grêmio voltado especificamente para a prática do haicai foi criado em 1987. O maior desafio era o estudo das possibilidades de sua composição em língua portuguesa, mantendo-se fiéis aos fundamentos dos grandes mestres do Japão, que incluíam a referência ao kigo, tradição ainda pouco valorizada entre nós

O que me faz acreditar que estou diante de um haicai não é a forma externa do poema (três versos breves). É a apresentação do discurso poético, cujo ponto de partida é o kigo. MEMAI – Em sua opinião, por que o haicai se torna uma forma poética popular no Brasil e no mundo? TERUKO – Numa época em que as horas parecem passar mais rápidas (alguns afirmam que passam mesmo!) e o tempo faltar a todos, a brevidade, concisão e linguagem simples com enfoque cotidiano favorecem a sua prática e a rápida adoção popular. Por outro lado, a proposta poética voltada para a natureza parece vir de encontro ao ‘apelo ecológico’ como uma resposta para a ‘salvação do planeta’. Há, também, praticantes que chegam ao haicai em busca do novo, de uma linguagem menos ‘derramada’. Outros, por não se alinharem aos moldes da poesia concreta. MEMAI – Você é uma “militante” do haicai tradicional e atua em escolas. É importante divulgar a poesia japonesa entre crianças e adolescentes? TERUKO – Meu trabalho com escolas está relacionado diretamente com o haica i por acreditar na prática como instrumento de transformação interior. A poesia ocidental é essencialmente lírica. Sua fonte de inspiração (ou matéria prima) são os sentimentos. É poema que nasce de dentro para fora. Sua prática, pouca ou nenhuma influência exerce na mudança de atitudes. O haicai é

poesia que nasce de fora para dentro, em contato com a natureza e sem a interferência do ego, num misto de gratidão, ternura e reconhecimento da própria transitoriedade. Quem já não agradeceu a chuvinha que vai lavando a poeira do asfalto? Ou não se pôs a refletir sobre a brevidade da vida, vendo-se numa gota de orvalho?Não são apenas as grandes catástrofes que transformam. Pequenos momentos podem nos fazer melhores. A criança que se sentiu tocada pelo canto de um pássaro, jamais pensará num estilingue como brinquedo. O adolescente que se encantou com a florada de um matinho jamais será destruidor da natureza. O haicai ensina a ver a vida (e viver) com mais amor. A criança não é melhor poeta ou observadora da natureza que o adulto. Tem a seu favor a espontaneidade e o olhar limpo, livre de preconceitos.

MEMAI – O que acha das diferentes correntes de haicai que surgiram no Brasil? Acha que há distorções entre o haicai tradicional e o livre ou adaptado por outros poetas brasileiros, como Guilherme de Almeida? TERUKO – Todas as tentativas de ‘abrasileiramento’ são válidas. Haicais à ocidental, livres, adaptados, guilherminianos: cada autor com as próprias convicções e estilos. Alguns valorizam a forma externa do poema, rimas, título; outros valorizam o conteúdo; outros, a concisão. As distorções existem em decorrência do próprio entendimento de haicai. Pratico o haicai de tendência tradicionalista por entender que o kigo, conforme preconizado pelos grandes mestres japoneses, é a alma do haicai. O que me faz acreditar que estou diante de um texto denominado haicai não é a forma externa do poema (três


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MEMAI

POEMAS

Na boina de feltro, tesouro lá da infância, ovos de barata.

Mamãe lá do alto – Caracolzinho descansa grudado no banco.

Apesar do sol Meu gato não sai do sofá – Início de inverno

Sem ter o que fazer O guri brinca com as sombras Do dia alongado.

Chuva de primavera – Apoiando-se um no outro Seguem dois velhinhos.

Uma vida seca No meio de folhas secas – Borboleta morta.

> versos breves), mas a apresentação do discurso poético, cujo ponto de partida é o kigo. No caso do livre, penso que sem o kigo, disparador de emoções e sensações, o haicai não se realiza.

Não tentar escrever um bom haicai é um começo. Uma das máximas de Bashô é : As obras produzidas pelo espírito são boas, mas as produzidas apenas com artifícios de palavras não são dignas de respeito MEMAI – Você já foi convidada para julgar concursos internacionais de haicai. Fale um pouco sobre esta experiência TERUKO – A convite da Japan Airlines, escritório de São Paulo, participo do World Children’s Haiku Contest desde 1992 como professora e jurada. E desde 1998, também como coordenadora do concurso no Brasil.Trata-se de um evento bianual, destinado a crianças e adolescentes de até 14 anos, organizado pela JAL Foundation de Tóquio com o apoio da UNICEF e administrado nos cinco continentes pela empresa comercial Japan Airlines. Por motivos de reestruturação interna, a Japan Airlines (escritório de São Paulo) retirou o patrocínio e desde 2007 o Brasil deixou de inscrever seus alunos. Como se tratava de concurso mundial, os temas eram abrangentes: a água, a Terra, a casa, a escola.Inicialmente, os participantes eram bem poucos e o nível dos haicais deixavam a desejar. Com a fundação dos grêmios, principalmente no Paraná, o concurso ganhou destaque e muitos de nossos poetas mirins foram contemplados com publicação de poemas numa antologia trilingue editada pelos organizadores e distribuída às escolas participantes de todos os países. Esta experiência me possibilitou conhecer um pouco mais sobre o pensamento, o cotidiano, a vida e os sonhos de crianças brasileiras, muito semelhantes aos de outras crianças participantes. MEMAI – O que é preciso para escrever um bom haicai ? Como o praticante pode saber que escreveu um bom poema? TERUKO – Não tentar escrever um bom haicai é um começo. Os mestres ensinam, a esvaziar a mente e deixar o espírito fluir. Uma das máximas de Matsuo Bashô é : As obras

produzidas pelo espírito são boas, mas as produzidas apenas com artifícios de palavras não são dignas de respeito.Como saber se escreveu um bom poema? Entregando-o para a avaliação de outros praticantes. Desapego é a palavra-chave, dizia meu mestre. Não escrevo haicais para ser aplaudida. Escrevo pela alegria de estar viva e poder registrar o que está acontecendo ao redor.

OBRAS PUBLICADAS (Individuais) NOS CAMINHOS DO HAICAI, São Paulo, Aliança Cultural Brasil-Japão/ Massao Ohno, 1993. RELÓGIO DE SOL. São Paulo, Aliança Cultural Brasil-Japão/ Massao Ohno, 1994. ESTRELA CADENTE, São Paulo, Escrituras, 1996. CATA-VENTO. Belo Horizonte. Mulheres Emergentes, 2001. FRAGMENTOS. São Paulo. Casa do Novo Autor, 2002. FLORES DO ASFALTO. São Paulo, Neko Books, 2002. JANELAS DO TEMPO, Escrituras, 2003. Flauta de Vento, Escrituras, 2005. VENTO LESTE, Dulcinéia Catadora, 2008. Marília Kubota é escritora e jornalista, integrante de 6 antologias de poesia e crônicas, publicadas no Brasil, Argentina e Portugal. Foi organizadora da exposição Arte Nikkei no Centenário da Imigração Japonesa e Concurso Nenpuku Sato 2008, em Curitiba. É autora do livro Selva de Sentidos (2008) e organizadora da antologia Retratos Japoneses no Brasil – Literatura Mestiça.


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MEMAI

ALICE YAMAMURA

プ ロ フ ィ ル

Crédito: Arquivo Pessoal.

PERFIL

CERÂMICA EM FORMA DE POESIA

A pequena nikkei, conhecida como a artista dos corações, teve sua obra reconhecida em todo o Brasil. Entregou-se de corpo e alma à cerâmica, elaborando criações sofisticadas, que revelam a busca pelo desenho limpo e as formas puras.

por Sandra Hiromoto

Mãos delicadas, corpo pequeno, como professora primária. Assim os segredos e desvendava todos sorriso e alma enormes. Assim era de maneira quase intuitiva, as os mistérios da arte do fogo. Uma Alice Yamamura. Singular, com formas surgem espontaneamente, dedicação em que a cada queima se repetia a magia, com seus vestidos brancos, resultados ora inesperados meias coloridas e cabelos Alice constrói corações prá gente assimétricos. Até suas ora surpreendentes. fazer poesia. Se ele quer ser forte vestes revelavam o Ela tratava o fazer como o mármore, que brilhe até cerâmico como um ritual, compromisso com a características da arte estética, quase um refletir a lua. Se ele é de vidro e prolongamento de sua quebra, que tenham muitos ao nosso japonesa, em que os arte. artistas se envolvem mantendo Conhecida como a alcance, para que através deles, ainda inteiramente, possamos nos lembrar das estrelas. em sintonia o coração com artista dos corações, a respiração, aquietando a Alice encantou a todos Mas se ele é de terra, da terra, com com sua grandiosa obra. certeza tem diferentes sons e tons, vai mente. Reconhecida em todo o Mesmo sem um vínculo de onde a gente pega, vem de como preciso com as origens Brasil, foi com a cerâmica nipônicas, Alice mantinha que a ela entregou-se a gente vê. Oi Alice! Brinca que faz de corpo e alma criando coração e enche esse mundo de amor! algo de silencioso em sua as mais belas formas: obra. As formas simples, Cristina Mendes, artista plástica limpas e diretas revelam sofisticadas, puras em a sintonia com a arte sua essência, repleta de histórias e significados. Alice revelando os caminhos da Cerâmica oriental: o equilíbrio, o minimalismo produziu intensamente, muitos de Alice. A busca pelo desenho limpo contido em alguns trabalhos, de seus trabalhos tiveram como e as formas puras transparecem nas denotavam mesmo de forma não inspiração as “garatujas”. Estes idéias, na concepção e, sobretudo intencional, um lado zen, silencioso, rabiscos e manifestações infantis na beleza. Alice possuía um contemplativo, próprio da produção afloraram, talvez, de sua experiência grande domínio técnico, conhecia cerâmica japonesa.


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MEMAI Em seu atelier, Alice se dedicou, além da queima primitiva e de baixa temperatura, também à queima de rakú e à cerâmica stoneware (alta temperatura). Produziu tchawans, owans, hashiokis, canecas, vasos e tantos outros utilitários, de tamanhos grandes ou pequenos, vermelhos, cinzas, dourados, brancos... Inúmeras formas foram exploradas, sem contar as variações de materiais empregados, como o mármore e o vidro, além do barro. A cada peça um tratamento especial, ímpar, com o respeito que requer toda obra de arte. Segundo Gerson Carvalho, a produção artística de Alice invade e contamina seus utilitários, assim como os utilitários influenciam sua pesquisa plástica, podendo notar uma influência mútua, onde ambos são tratados com o mesmo apuro técnico e dedicação. Em Alice era nítida a integração nas diferentes fases, a passagem não significava ruptura, mas uma somatória.

“OI CORAÇÃO”

Crédito: Denise Somera

Muitos corações, mais de 200. De cores quentes ou neutras, em diversas formas, tamanhos e materiais, assim foi “Oi Coração”, uma das mais belas e marcantes instalações realizadas por Alice Yamamura na sala Theodoro de Bona do Museu de Arte Contemporânea de Curitiba. Se para o dadaísta Kurt

Trabalhando com os corações em seu atelier

Schwitters, criador das instalações artísticas - sua Merzbau (casa Merz) era um ambiente onde imperava algo próximo ao caos e desordem, para o poeta Octavio Paz a palavra MERZ referia-se também a Herz, ou seja, o coração. Coração tão recorrente na obra de Alice, que ao humanizar o espaço expositivo de forma tão poética, inventou seu universo paralelo, sensual e ao mesmo tempo conceitual, objetos que pulsam num mundo que parece seguir anexo ao nosso. Apesar do singelo nome “Oi Coração”, os elementos carregados de simbolismos, celebram paixões e amores, como num beijo, e eles aparecem por inteiros, inflados, acompanhados ou só. Flutuando.

Alice era antes de tudo uma artista universal, não se preocupava em estabelecer códigos que a identificassem como uma artista puramente oriental, ela trabalhou integrando arte e vida, não existia fronteira entre o utilitário e a obra plástica. Gerson Carvalho, companheiro

A artista então se desnuda, com sua visão do mundo e maneira de captar esse mundo e propõe uma interpretação contemporânea, um

novo olhar para os que achavam o coração uma forma banalizada e esgotada.

TRAJETÓRIA Nascida em 3 de maio de 1954 em Santa Isabel do Ivaí, mas registrada em Paranavaí, Alice aos 5 anos mudou com sua família para Maringá. Foi nesta cidade no noroeste do Paraná, que teve contato maior com a cultura japonesa. Nikkei, a artista frequentou nihongakko e Associações Japonesas, período em que manteve relação mais direta com a cultura nipônica. Já na adolescência Alice revelava sua paixão pela arte, influenciada pelo seu pai, que também possuía talentos artísticos. Formou-se em pedagogia pela Universidade Estadual de Maringá. Frequentou ateliês e passou a se aprimorar nas artes, mesmo tendo como profissão principal o magistério das séries iniciais. Em 1976 prestou concurso e admitida no Banco do Brasil, foi para Marechal Cândido Rondon, onde também ministrou cursos de arte no período noturno. Em 1978 foi transferida para Curitiba, logo que chegou à capital paranaense inscreveu-se no Centro de Criatividade do Parque São Lourenço. Assim, com um horário mais flexível, pode dedicar-se mais a arte. Participou de oficinas, encontros e festivais de inverno.


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MEMAI Em 1980, conheceu a cerâmica, atividade artística com a qual mais se identificou, recebeu orientações em modelagem e escultura de Lígia

Borba e Ana González. Manteve intensa atividade nos seus diversos ateliês, onde era possível encontrar entre o verde de seu jardim esculturas de seus corações, livres ao tempo, soltos, com suas formas arredondadas, infladas e pulsantes. Lá orientou importantes ceramistas como Sada Mohad, Celso Setogutte, Yumie Murakami, Elisa Maruyama, Gerson Carvalho, Danielle Jacob, Márcio Medeiros, Glauco Menta, entre tantos outros seguidores. Amigos, artistas e admiradores de sua obra, também frequentavam aquele espaço tão convidativo às artes e amizades. Estas relações não se limitavam ao ateliê, o envolvimento que a artista mantinha com todos que a cercavam ia além daquele espaço. Foi homenageada na 7ª e 11ª Edições do Salão Paranaense de Cerâmica e na 1ª. Mostra Sul-Brasileira de Arte Cerâmica (Criciúma-SC). Recebeu prêmios do Salão Paranaense de Cerâmica (2º,

Crédito: Denise Somera

Era bastante comum em exposições e vernissagens Alice estar sempre rodeada de grupos de alunos, fãs, amigos, ou simplesmente pessoas que se sentiam atraídas pela sua simplicidade e seu sorriso tão cativante. Andriette Setogutte

4º, 9º. e 10º. Edições), 5º. Salão de Cerâmica (MARGS, Porto Alegre, RS) e 4ª. Mostra de Escultura João Turin. Alice participava também como júri de salões de arte oficiais no

Alice compartilhou seus conhecimentos e experiências de forma generosa, revelava suas descobertas e incentivava os alunos em suas pesquisas. Sada Mohad, artista plástica

Paraná, sendo referência no Estado. Deixou um legado indiscutível nas artes visuais, cujo grande destaque é a beleza extraordinária de suas cerâmicas. Dessa forma, seu ateliê é

reconhecido como um dos principais espaços formadores de artistas em Curitiba. Alice, uma das mais brilhantes ceramistas que o Brasil já conheceu, era somente coração, hoje repleto de sentimentos de amor e saudade. Alice morreu em 29 de agosto de 2009, depois de passar meses adoentada. Para prestar homenagem a sua obra, o companheiro Gerson e alunos do atelier estão criando um projeto para instalar o Acervo Alice Yamamura, um espaço privado, pelo menos no início de preservação e divulgação da obra e da memória artística da Alice. Sandra Hiromoto é artista plástica e designer. Participou de mostras coletivas e salões de arte nacionais, recebeu diversos prêmios. Expôs em Ehime, Kumamoto, Yokohama e Kobe no Japão, Ceuta, Córdoba e Madri na Espanha.


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MEMAI

TRADUÇÃO ARTESANAL, Nikkeis e escritores brasileiros amantes da literatura japonesa como Paulo Leminski e Valêncio Xavier se aventuraram na tradução direta de originais em japonês, dentro de um processo artesanal.

por Suzana Tamae Inokuchi

Exemplo de um título sob a responsabilidade de um expoente da comunidade nipo-brasileira que conseguiu a chancela de editora comercial é a coletânea Maravilhas do Conto Japonês, organizada por Antonio Nojiri e publicada pela Cultrix.

Desenho anônimo japonês do século 19.

TRADUÇÃO

UMA PAIXÃO

Imagem do livro Mimi Nashi Oichi, de Valencio Xavier, retratando um biwa hoshi Este artigo pretende investigar – como uma espécie de conclusão da investigação feita até aqui sobre vários momentos distintos vividos pela tradução de escritores japoneses para o português – o que mais havia no país além do processo da tradução indireta (de idiomas como o inglês ou o francês), descrito no artigo na edição 02. A tradução indireta predominou nas grandes editoras durante boa parte do século 20, embora outros esforços estivessem sendo delineados. E quais eram eles, visto que esta não era essa a única maneira pela qual um texto em japonês poderia se tornar acessível em português? O que acontecia, praticamente à margem do mercado editorial, nas editoras de pequeno porte e nas edições elaboradas por particulares? Antes do advento da tradução direta como realidade de mercado hegemônica (fenômeno dos anos 90, explicado na edição 01), houve um movimento de expoentes da comunidade nipo-brasileira, e

simpatizantes da língua e cultura japonesas para ampliar a gama de autores e títulos traduzidos. Estes artesãos da linguagem usavam processos de tradução direta.. Contavam com a ajuda de co-tradutores especializados na adequação dos textos ao português do Brasil, quando a proficiência com este idioma de saída se tornava insuficiente. Desta forma, havia um movimento para traduzir textos e autores não comportados no limitado perfil de escritores selecionados pelo mercado para a publicação no país. Investigar o processo de tradução é um pouco mais difícil que recorrer a títulos publicados por grandes editoras. Muitas dessas iniciativas se constituíam em edições alternativas, de pequenas tiragens, não distribuídas em larga escala. Algumas conseguiam o selo de uma editora de maior porte e maior visibilidade de mercado. A origem desses volumes era ainda a comunidade nipo-brasileira.

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Antes do advento da tradução direta como realidade de mercado um movimento de expoentes da comunidade nipobrasileira ampliou a gama de autores e títulos traduzidos, através de processos de tradução direta Percebe-se o esforço conjunto na elaboração do volume pelo elenco de tradutores, constituído por nomes de peso na publicação de títulos com temática japonesa, como José Yamashiro. Além dele e do próprio organizador da edição, há ainda, Albertino Pinheiro Júnior, Fuyou Koyama, Henrique Santo, Katsunori Warisaka, Konoske Oseki, Shinobu Saiki, Tejiti Suzuki e Yoshihiro Watanabe, totalizando 22 contos para 11 tradutores. O tradutor e poeta José Paulo Paes (falecido em 1998) e Rolando Roque da Silva completam o quadro de tradução, como co-tradutores. Na coletânea, cada tradutor foi responsável pela tradução de dois contos. Provavelmente, a supervisão foi feita pelos cotradutores na revisão de tradução, que homogeneíza o tom e resolve problemas específicos como o uso de certos verbetes, os falsos cognatos, e assim por diante. Outro exemplo de um livro obtido em português através de um esforço coletivo é Relato Autobiográfico, de Akira Kurosawa, traduzido por Rosane Barguil Pavam, Marina Naomi Yanai Heitor Ferreira da Costa e Izabella Sanches. Ao invés de partir apenas de um único idioma como ponto de partida para a tradução, estão listadas três edições, a japonesa Gama no Abura, de 1984; a norte-americana, Something Like an Autobiography, 1982; e a francesa, Comme une


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Autobiographie, de 1985. Há ainda indicação dos cotejos das edições japonesa e francesa. Um tanto nebuloso reconstituir o processo neste caso apenas por essas informações. Em que medida cada tradutor contribuiu para o resultado final do texto em português, e como foi o processo de trabalho entre eles? Em que proporção o texto original (em japonês, embora a sua edição seja posterior) e as duas traduções anteriores (para o inglês e o francês) se constituíram em texto de entrada para o texto final, traduzido para o português? Duas traduções de contos do escritor Ryūnosuke Akutagawa surgiram até o início dos anos 90. A primeira delas é Rashōmon e Outros Contos, traduzida por Antonio Nojiri, provavelmente uma tradução direta. O livro foi editado por Massao Ohno, na série: Clássicos Orientais vol. 1. A segunda tradução, intitulada Rashōmon e Outras Histórias, é uma tradução a partir do original em japonês, feita por Madalena Hashimoto e Junko Ota. A edição foi publicada pela Editora Paulicéia e antecipa o processo de tradução direta subseqüente, surgido com maior força a partir da publicação da versão traduzida de Musashi, em dois volumes, respectivamente, em 1998 e 1999.

SIMPATIA CULTURAL O

escritor, poeta, ensaísta e tradutor autodidata Paulo Leminski foi um entusiasta da cultura japonesa. Ele também se aventurou na tradução do escritor Yukio Mishima, com o romance Sol e aço, publicado em 1985. A aproximação de Leminski com a cultura e a língua japonesa se deu através do judô, que o tocou tanto pela filosofia quanto pelo aspecto físico. A partir desse momento, ele lê

autores japoneses, iniciando-se em leituras do Zen budismo, tais como Alan Watts, Teitarō Suzuki e Thomas Merton. Ele também se interessou por livros de poesia oriental, que emprestava da Biblioteca Pública do Paraná. Para melhor compreender os ideogramas, que o fascinavam pelo seu poder de síntese, contase que Leminski roubou uma bíblia traduzida para o japonês da BPP, e a usava como fonte de consulta. O fato é narrado por Toninho Vaz na biografia O Bandido que Sabia Latim. Como poeta, se aproximou do haicai, subvertendo-o ao ambiente urbano de Curitiba e seus bares, e escreveu a biografia de Matsuo Bashō. Outro escritor paranaense japonófilo foi Valêncio Xavier. Ele escreveu O Mistério da Prostituta Japonesa e fez uma versão do conto tradicional japonês Mimi Nashi Hōichi, que pode ser traduzido como Hōichi Sem Orelhas. Durante a pesquisa que resultou nestes dois textos, o escritor se aproximou da comunidade nipo-brasileira.

A aproximação de Leminski com a cultura e a língua japonesa se deu através do judô, que o tocou pela filosofia e pelo aspecto físico. A partir daí ele lê autores japoneses, iniciando-se no Zen budismo: Alan Watts, Teitarō Suzuki e Thomas Merton. Conheceu algumas lendas e aprendeu um pouco da grafia japonesa (um pouco dos alfabetos fonéticos e hiragana e katakana, e ideogramas básicos). O primeiro conto é sobre uma prostituta japonesa, que suscita

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MEMAI

Leminski, amante da cultura japonesa fascínio no protagonista ao falar em japonês com ele, transformando-se em um enigma. Este conto se tornou o mote para uma adaptação fílmica, realizada por Beto Carminatti e Pedro Merege, em 2005. O segundo conto apresenta um diálogo através do qual um dos personagens narra a história de Hōichi, um contador de histórias que cantava narrativas japonesas ao som do instrumento de corda japonês biwa. Em algumas versões, como nesta de Valêncio, ele é um noviço, mas em outras, vive no mosteiro, mas é leigo, não um aspirante a monge. Valêncio nomeia o personagem Oichi, abrasileirando e alterando a escrita e a pronúncia do nome. Essas iniciativas de tradução direta artesanal visaram suprir à necessidade de visibilidade dessa comunidade na realidade brasileira, antes que o mercado editorial nacional se desse conta do valor intrínseco da literatura japonesa. Que vai muito além do âmbito do exótico e da diferença cultural. Suzana Tamae Inokuchi é graduada

em Relações Públicas e Letras e mestranda em Estudos Literários na Universidade Federal do Paraná, além de poeta e contista.


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MEMAI

MANGÁ,

漫 画

ENTRETENIMENTO NO JAPÃO NÃO É BRINCADEIRA

MANGÁ

Como foi montada e como funciona a indústria de entretenimento no Japão baseada no mangá e no anime. A arte seqüencial criada por Osamu Tezuka tem como fonte de inspiração conceitos da arte culta, presente no o dia-a-dia dos japoneses, que os tornam mais detalhistas do que os ocidentais.

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por Mylle Silva

Mangá é mania nacional dos japoneses Do ponto de vista histórico, a arte japonesa, ao contrário de países ocidentais, não foi feita apenas para ficar exposta em museus, longe da sociedade. Mas para conviver com todos. Assim é possível defini-la como a arte do dia-a-dia, presente em detalhes domésticos, como biombos, leques, papéis para embrulho, roupas, armaduras – esta útil na sociedade feudal. Os japoneses se familiarizam com conceitos como miyabi (elegância refinada), mono no aware (estreita ligação com a natureza), wabi sabi (beleza do imperfeito), entre outros. É natural que sejam mais ligados às artes e ao apelo visual no cotidiano, tornando-os mais detalhistas. No final da década de 40, depois da 2ª. Guerra Mundial, o Japão derrotado tinha muito para reconstruir. Mas não tinha dinheiro. A população ainda não resignada e ressentida com as tragédias precisava pensar num futuro mais feliz – mesmo fictício. Assim começou a indústria japonesa de entretenimento, que hoje impressiona e influencia

o mundo. Osamu Tezuka, com pouco mais de 20 anos começou a vender os akai hon - revistas de história em quadrinhos com personagens de olhos grandes e amendoados – até então nunca vistos. Ele foi o criador do estilo mangá como o conhecemos hoje e, por isso, é lembrado como o Deus do Mangá. Tezuka também influiu no lançamento dos animês (animações japonesas) para a televisão. Já em 1963 teve início, pela primeira vez no país, a transmissão de uma série de animação, adaptada de seu consagrado mangá Astro Boy. Na época o autor tinha sua produtora, a Mushi Production. Notando que os custos para produzir animê seriam muito altos, montou um esquema de arrecadação de verbas que as empresas adotam até hoje: a venda de produtos licenciados. A indústria japonesa de entretenimento não é brincadeira. A publicação de histórias em quadrinhos é feita em revistas de grande circulação e para um público bem segmentado: moças, rapazes, donas de casa, assalariados, crianças e por aí vai. Estas revistas podem trazer 12 histórias diferentes, em média, por fascículo. A periodicidade pode variar, mas em geral são semanais, quinzenais ou mensais. Uma enquete é feita a cada nova edição para saber que histórias o público gosta mais. Se o autor tiver a infelicidade de não estar entre os favoritos do público é cortado da publicação. Já as histórias mais votadas começam a ser alvo de fabricantes de brinquedos, jogos, colecionáveis, entre outros. O topo da pirâmide é a produção de uma animação para TV. Em cada temporada, cujo início coincide com o início de uma estação do ano,

são lançadas cerca de 40 novas animações. Só os bons títulos de mangá – ou melhor, os mais vendáveis – são laureados com a versão televisiva. Nessa fase, além dos brinquedos e jogos, são escolhidos cantores e bandas da moda para fazer parte da trilha sonora, com destaque para temas

Osamu Tezuka, com pouco mais de 20 anos começou a vender os akai hon - revistas de história em quadrinhos com personagens de olhos grandes e amendoados – até então nunca vistos. Ele foi o criador do estilo mangá como o conhecemos hoje e, por isso, é lembrado como o Deus do Mangá. de abertura e encerramento das séries. Uma infinidade de produtos podem ser encontrados com temas de animê, como: canecas, almofadas, cartas colecionáveis (como as de baralho, só que com imagens e informações sobre os personagens), figures (miniaturas fiéis aos personagens), jogos, fantasias, camisetas e demais acessórios que algum personagem usa, como um relógio de bolso ou um prendedor de cabelo. Para ajudar as vendas, muitos produtos são limitados. Ou seja, é lançada quantidade limitada de peças, e os fãs acabando pagando cada vez mais. Por ter bases tão bem estruturadas, indústria japonesa de entretenimento ainda pode durar muitos anos, independentemente de crises econômicas. A cultura pop japonesa hoje é das grandes difusoras da imagem positiva do Japão no mundo, atraindo turistas e consumidores curiosos em saber o que é que o Japão tem. Mylle Silva é jornalista, produtora de

eventos de cultura pop japonesa e estudante de Letras Japonês da Universidade Federal do Paraná.


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MEMAI

Lançamentos seus “pés de macaco”. A perseguição a mulheres jovens ou muito jovens, levada às últimas consequências, conduz o personagem de volta a traumas remotos. Através destes delírio alucinatórios que Yasunari Kawabata demonstra a perícia de sua técnica narrativa, brincando com as passagens de tempo e tecendo relações complicadas entre seus personagens.

O Lago, de Yasunari Kawabata, Tradução do japonês de Meiko Shimon, Capa:Midori Hatanaka, 164 páginas, Estação Liberdade. O Lago conta a história do professor Ginpei Momoi, um obcecado por seguir mulheres bonitas nas ruas. Ele sofre de complexo por causa do formato de

Sob o pretexto alucinatório o autor se diverte em criar jogos de ilusão que destroem as aparências de uma realidade acomodada: um roubo pode não ser visto como roubo, a jovem sustentada por um homem mais velho tem ciúmes da governanta dele, o assédio da aluna pelo professor é avalizado posteriormente pela vítima. Yasunari Kawabata (Osaka, 1899), prêmio Nobel de Literatura em 1968 pela criação do romance País das Neves, seguiu até o fim da vida os princípios delienados pelo grupo da revista literária Bungei Jidai, influenciada pelo surrealismo francês., que eclodiu

nos ideais da corrente neosensorialista (shinkankakuha). É o que se vê nesta narrativa. O romance parece ter sido montado como um labirinto de imagens, ou um redemoinho de águas de um lago, quando se joga uma pedra nele. Uma lembrança sucede a outra, vertiginosamente, e dentro desta há outra e mais outra. O escritor rompe com as noções de tempo e espaço construindo com coesão impressionante o retrato vigoroso de uma mente perturbada A obsessão pelo mundo feminino, sexualidade humana e o tema da morte (presente em sua vida desde cedo, sob a forma da perda sucessiva de todos os seus familiares) renderam antológicas descrições de encontros sensuais, com toques de fantasia, rememoração, inefabilidade do desejo e tragédia pessoal. Tudo isto está presente em Contos da Palma da Mão, A Dançarina de Izu, Beleza e Tristeza, A Casa das Belas Adormecidas, para citar alguns títulos publicados no Brasil. Kawabata suicidou-se em 1972. (Marilia Kubota)

CARTAS DE AMOR OU NÃO O Fuzil de Caça, de Yasushi Inoue, Tradução do japonês de Jefferson José Teixeira, 112 páginas. Estação Liberdade. O tema de O Fuzil de Caça é clichê no gênero romanesco : o triângulo amoroso. Mas através da tradição do romance epistolar, o autor consegue criar uma leitura de ritmo veloz, que, abre espaços na mente do leitor ao final. Um caçador, Josuke Misugi, ao suporse retratado em um poema por um escritor, revela a ele facetas de sua vida íntima. Envia cartas remetidas por três mulheres diferentes, e à leitura de cada uma a trama vai se desenrolando. Através das cartas o escritor (e o leitor) vai sendo apresentado ao caso de adultério em que se envolve o caçador, sua mulher Midori e a prima Saiko. As cartas revelam as culpas ditadas pela própria consciência: Saiko inúmeras vezes escreve as palavras “ pecado”

e “morte” em seu diário; Midori se culpa por não ter tido coragem de, com um gesto, evitar o adultério; Shoko se arrepende por não ter destruído o diário que revela a traição ao pedido da mãe. De Josuke nada sabemos a não ser a descrição feita pelo poema do narrador. Nascido em 1907 no Japão, em Asahikawa, ao norte da ilha de Hokkaido, Yasushi Inoue foi poeta, contista, novelista e ensaísta.. Era formado em estética e filosofia. Trabalhou num dos maiores jornais japoneses, o Mainichi Shimbun. Aos 42 anos, ainda era promessa da literatura japonesa quando em 1949 publicou O Fuzil de Caça. No mesmo ano, lança Togyu, e o impacto pelo duplo lançamento fez com que em 1950 fosse agraciado com o Prêmio Akutagawa. Faleceu em 1991, deixando vasta obra que o coloca entre os principais autores da literatura japonesa do século 20. (Yasodara Heike )

LITERATURA

CRIANDO IMAGENS SEM FIM


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MEMAI MESTIÇAGEM JAPONESA NO BRASIL Retratos Japoneses no Brasil – Literatura Mestiça , coletânea de contos e crônicas de dez autores nipo-brasileiros., Organização Marilia Kubota, 144 páginas. Annablumme Editora. Pouca gente conhece, fora da comunidade nipo-brasileira, as histórias pelas quais passou etnia japonesa e seus descendentes no Brasil. Os tempos épicos foram retratados no filme Gaijim, de Tizuka Yamasaki e no diário do artista plástico Tomoo Handa, mais conhecido entre os historiadores da imigração. No plano da ficção, o editor Jiro Takahashi mapeou a produção poética Nikkei –os descendentes de japoneses – numa antologia publicada pela Estação Liberdade, em 1993. Retratos Japoneses do Brasil – Literatura Mestiça, denuncia, já, no subtítulo, algo além da diversidade cultural Trata-se de uma reunião de estórias de nikeis ora mais japoneses, como Itiro Takahashi e Simone

Toji, ora mais abrasileirados, como Adalgisa Naraoka, Alexandre Inagaki, Ricardo Miyake e Gabriela Kimura. Outros mantém a ambiguidade cultural como Marilia Kubota , Mirian Lie, Tereza Yamashita e Wilson Sagae, flertando com o drama da dupla identidade com a qual se debate todas as gerações de filhos de imigrantes. Os autores se debruçam sobre um tema tabu para os isseis (imigrantes japoneses) e nisseis (filhos de imigrantes): o amor. Demonstrar as expressões afetivas nunca foi o forte dos japoneses, que preferiam ritualizar os sentimentos. Com estes contos e crônicas, o leitor fica conhecendo um pouco sobre a sensibilidade japonesa embutida nos brasileiros seus descendentes. E tem um amplo espectro de mais uma comunidade a formar o cadinho cultural chamado Brasil. (YH)

QUINQUILHARIAS DO MUNDO POP Quinquilharias Nakano, de Hiromi Kawakami, Estação Liberdade, Tradução do japonês de Jefferson José Teixeira, 284 páginas. Uma pacata loja de artigos usados é o cenário para o livro de contos Quinquilharias Nakano, e a mais nova empregada do local, a jovem Hitomi, a narradora da história. Cada conto tem uma pequena trama, que juntos formam o grande tecido da narrativa em primeira pessoa, cheia de flashbacks – e flashbacks dentro de flashbacks –, de leitura leve e fluída. Além de Hitomi, acompanhamos a vida do senhor Nakano, dono da loja; da senhora Masayo, artista plástica e irmã de Nakano; e de Takeo, uma espécie de motorista “faz-tudo” do local. A ocidentalização da cultura japonesa, a rivalidade com a China e outras questões na ordem do dia compõem uma narrativa que faz o tempo correr maliciosamente, contextualizando a premiada Hiromi Kawakami entre as vozes ácidas e por vezes

dissonantes de uma nova literatura japonesa que se faz necessário difundir. Durante a leitura do livro o leitor é transportado Japão atual, com várias referências ao mundo pop japonês. São citados cantores, marcas e acontecimentos recentes. Quinquilharias Nakano não é uma loja de antiguidades, mas sim de usados – aliás, mesmo usados, sempre em ótimo estado. Há certo enfoque nos relacionamentos e na sexualidade das personagens, e medos e dúvidas. Este é o primeiro livro de Hiromi Kawakami a ser publicado no Brasil . A autora recebeu os prêmios Akutagawa (1996) e Tanizaki (2001), e é, hoje, das escritoras mais lidas do Japão. Jefferson José Teixeira, o tradutor, já traduziu Natsume Soseki, Haruki Murakami e Junichiro Tanizaki. (Mylle Silva)

MÚSICA PARA CAMALEÕES NOTURNOS, Kazuo Ishiguro, Companhia das Letras. Tradução: Fernanda Abreu, Capa: warrakloureiro, 216 pp. Nos cinco contos do livro, Kazuo Ishiguro narra estórias em que os protagonistas são músicos ou amantes da música, em diversas partes da Europa.. Na primeira estória, por exemplo, um velho crooner americano, Tony Gardner, apresenta o lado amargo do mainstream , invertendo os valores morais da sociedade convencional. Na retomada de sua carreira precisa despachar a mulher, que a duras penas o conquistou, dentro da lógica do underground social e cultural. Em outro conto, um professor de inglês que vive na Espanha vai a Londres visitar um casal de amigos, e descobre as verdades intimas deles. O bom humor dá a tônica neste conto, que nas entrelinhas faz uma crítica ao mundo globalizado. Na mesma cidade, outro outsider se emprega como garçom num café e casualmente encontra

uma oportunidade ao conhecer um casal de alemães. Nos dois contos finais, um saxofonista competente se rende à ideia de fazer uma plástica facial em Beverly Hills. Um violoncelista húngaro procura se estabelecer na Itália, mas é seduzido por uma americana. A primeira impressão ao ver o nome de Kazuo Ishiguro na capa e ler estórias tão ocidentalizadas é que aconteceu algum erro de impressão com o nome do autor. Depois de algumas páginas percebemos que se trata de um nikkei . Kazuo nasceu em Nagasaki, em 1954, e mudou para a Inglaterra aos cinco anos. Isto explica a sensação de deslocamento e porque seus personagens são todos outsiders. Mesmo sendo um japonês ocidentalizado, seu romance Os resíduos do dia, ganhou o Booker Prize (1989). (YH)


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MEMAI

CINEMA,

映 画 CINEMA

Nesta edição as dicas são todas de um único nome, o diretor Akira Kurosawa, pelo impacto surtido por sua filmografia no Ocidente e, igualmente, porque este ano, no dia 23 de março, foram comemorados os seus 100 anos de nascimento.

Trono manchado de sangue (Kumonosu-jō, 1957) – Adaptação da tragédia MacBeth, de William Shakespeare, para o feudalismo japonês, mais especificamente, para o período Sengoku (1392-1568). Taketoki Washizu (Toshirō Mifune) é um honrado samurai, um líder guerreiro a serviço do senhor feudal Kuniharu Tsuzuki. Uma profecia de um espírito maligno (mononoke) revela que ele será o senhor do Castelo do Norte e, depois, o senhor feudal. Assim, instigado pelas intrigas de sua ambiciosa esposa Asaji, ele toma o feudo do Castelo da Teia de Aranha (Kumonosu-jō). O Homem Mau Dorme Bem (Warui yatsu hodo yoku nemuru, 1960) – Retomada da tragédia shakespeariana Hamlet para o Japão do pós-guerra, no ano de 1960. Mostra a corrupção instaurada no país, que envolve o relacionamento escuso entre estatais e empresas do setor privado. Nesse contexto, o protagonista Kōichi Nishi (Toshirō Mifune) se casa com a filha do vicepresidente da Corporação Estatal Japonesa de Fomento de Terras Devolutas, com o intuito de vingar a morte do pai, que se suicidou em função de um escândalo anterior de corrupção. Ran (1985) – Adaptação da tragédia shakespeariana Rei Lear para o período Sengoku. O senhor feudal Hidetora Ichimonji, que anexou castelos aos seus domínios durante mais de 40 anos de guerras com outros senhores feudais, decide dividir seu feudo entre seus três filhos. Ao ser desrespeitado por Saburō, o mais novo deles, deserda-o e divide a propriedade entre Tarō e Jirō. Como conseqüência desta decisão, Hidetora será humilhado e traído.

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Rashōmon (1951) – Filme que projetou o nome do diretor (e do Cinema Japonês) no cenário internacional, ao vencer o Festival de Veneza de 1951. Adaptação dos contos “Dentro do Bosque” (Yabu no naka) e Rashōmon, de Ryūnosuke Akutagawa. Apresenta várias versões para a morte de um samurai, através dos depoimentos do bandido Tajōmaru (Toshirō Mifune); do policial que o prendeu; da esposa do samurai, que se encontrava no local; e do falecido, através de um médium (miko).

Cena do filme Rashomon primeiro sucesso internacional de Kurosawa Os filhos mais velhos tentarão fazer o pai abrir mão de seus soldados e armarão uma emboscada para ele em um dos castelos; continuamente instigados por Kaede, esposa o primogênito, e que se torna amante do cunhado após a morte do marido. Sonhos (Yume, 1990) – Constituído de 8 sonhos, supostamente do diretor, iniciados por “eu tive um sonho assim” (konna yume wo mita). Os temas estão, de alguma maneira, relacionados à cultura japonesa tradicional ou contemporânea, e vários deles possuem um alter-ego do diretor, o

ator Akira Terao. No primeiro deles, um menino (identificado também por alguns críticos com o diretor) presencia o casamento da raposa (kitsune no yomeiri), proibido para os seres humanos. O terceiro apresenta uma versão moderna da mulher da neve (yuki onna). O último apresenta um local idílico e atemporal, o povoado dos moinhos, preservado dos problemas da vida moderna. Destaca-se também o quinto episódio, em que o alter-ego do diretor se encontra com o pintor Van Gogh, ao entrar em um de seus quadros durante uma exposição. (STO)

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VIDA

MEMAI

KI WO TSUKAWANAIDE: QUANTA ENERGIA!

A paixão pela Língua Japonesa surgiu por acaso, com a oportunidade de ensinar. A cada dia veio crescendo. Desse momento em diante fui tragada por um universo novo de gentileza, respeito e encanto.

por Lina Saheki

Meu amor pelo japonês não foi juvenil, mas maduro. N a s c i d o mais da convivência e da estranha familiaridade com certos conteúdos que chegam com a idade adulta. Apesar de conhecer o idioma desde pequena, sua presença e uso eram tão naturais que eu não conseguia ver a beleza escondida por trás de seus traços e entonações. Pois o encontro (na verdade, um reencontro) não foi súbito, mas algo mais próximo de alguém que, por desconfiar de paixões avassaladoras e repentinas, costuma se afastar de movimentos muito bruscos. Gosto de coisas naturais, pari-passu, amores que surgem sem a gente perceber. Pois é: sou do tipo que se apaixona pelo sorriso de todos os dias, simplesmente porque ele me é dado todos os dias. Sou descendente de japoneses e durante a infância passei alguns anos no arquipélago. Assim, minhas primeiras vogais foram o “a-i-u-e-o” e não o “a-e-i-o-u”. Insisto: como tudo que nos é dado facilmente,

nunca tinha dado muito valor para o idioma de meus pais e avós. A vida seguia com minha visão “normal” sobre o Japonês até que um dia, há sete anos, precisei ensinar o idioma. Tinha 26 anos e estava em Madri para fazer um doutorado em Direitos Humanos. Perguntaram se eu conhecia alguém que pudesse ensinar japonês para funcionários espanhóis que participariam da Expo-Universal de Aichi em 2005. Disse, quase involuntariamente, que eu falava. E desse momento em diante fui tragada por um universo novo de gentileza, respeito e encanto. Acredito, hoje, que foi inevitável. Impossível não me deixar contagiar pelo amor ao idioma de meus pais. O que eles viam? Porque amavam tanto a cultura que lhes era estranha? Quanto mais tentava descobrir, mais eu via a beleza que sempre estivera ali. Desde então, sou fisgada continuamente por momentos quase búdicos de percepção do divino no cotidiano. Satoris do diaa-dia. Despretensiosas brechas do sagrado em nossas vidas. Não faz tempo, conversava com minha mãe quando, em determinada oportunidade, disse algo como “não se preocupe” - o que, em japonês, ficou “気を使わないで” (“ki wo tsukawanaide”). Eis que, de repente, percebi – relâmpago em dia de sol – que o que havia dito significava mais do que o que pretendera dizer. A expressão traduzida corriqueiramente como “não se preocupe” deitava raízes em significados mais profundos. O “ki” de “ki wo tsukawanaide” é o mesmo “ki” de “Aikidô”, “Reiki”, ou o “chi” chinês de “Taichi” ou “Chikung”. O “ki”, enfim, de energia vital – conceito

fundamental para os orientais, que acreditam que todos os seres compartilham de um mesmo elo,

O que eu estava dizendo para minha mãe, naquele momento, era literalmente: “Não gaste sua energia vital comigo”. um mesmo ciclo de vida e morte, e que merecem, portanto, o mesmo respeito. Tanto que o ideograma do “ki=気” tem origem nos ideogramas de rio “川= kawa” e campo de arroz “田=ta”, denunciando o vínculo da vida com a natureza. E a expressão “tsukawanaide” significa, literalmente, “não gaste, não despenda”. Então, o que eu estava dizendo para minha mãe, naquele momento, era literalmente: “Não gaste sua energia vital comigo”. Naquele instante tive um pequeno vislumbre das inúmeras vezes em que a havia feito gastar energia vital comigo, da gestação às minhas teimosias, e de quantas vezes mais ela ainda iria fazer isso. Tive vontade de chorar. Ao redescobrir a palavra na forma original japonesa, redescobri um sentimento de gratidão maior do que se pode expressar. Ao redescobrir “ki wo tsukawanaide” escondidinho em um prosaico “não se preocupe”, verti lágrimas de agradecimento. Mamãe, é claro, riu um bocado disso –e também chorou um pouquinho. Lina Saheki é Diretora do Centro Cultural Tomodachi, professora de japonês e mestre em Direitos Humanos.


Jornal Memai - Edição 03