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MEMAI w w w. j o r n a l m e m a i . c om . b r

Letras e Artes Japonesas - Edição 04 - Curitiba - Primavera de 2010

ALICE K., A INQUIETUDE Teatro Nô, Capoeira e Dança

04

CONCURSO DE MANGÁ É o I Concurso Minami Keizi

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O DILEMA DA GENTILEZA Ser Gentil ou Não ?

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UKYO-E, O MUNDO

flutuante

A arte japonesa que encantou ocidentais 08


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要 約

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KOTOBA A CULTURA DA SOMBRA

SUMÁRIO

MEMAI

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ENTREVISTA: ALICE K. A INQUIETUDE EM CENA

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PERFIL: SHUSAKU ENDO UM ESCRITOR JAPONÊS CATÓLICO

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ARTES UKYO-Ê,O MUNDO FLUTUA EM ENCANTO

HAICAI CONCURSO NENPUKU SATO CARTAS | VERTIGEM

CINEMA: JUN OKAMURA A IMIGRAÇÃO JAPONESA VISTA POR DENTRO Por Suzana Tamae Inokuchi

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Por Jorge Miyashiro

Por Geraldo José de Paiva

Por Simonia Fukue Nakagawa

LANÇAMENTOS MANGÁ CONCURSO MINAMI KEIZI FICÇÃO AKIKO YOSANO VIDA GENTILEZAS E VERDADES Por Lina Saheki

A CULTURA DA SOMBRA

UMA PALAVRA

por Marilia Kubota

No livro Em Louvor da Sombra,

engloba não apenas refinamento

fenômeno de moda ou a ponta de

o escritor japonês

estético

iceberg do exotismo.

Junichiro

-

vem

de

uma

Tanizaki comenta a preferência

mentalidade de resignação: não

O progresso sensacionalista que

dos

sombra,

nos queixamos do escuro, mas

traz uma novidade atrás de outra

pela penumbra e escuridão, em

resignamo-nos com ele como

e evita a reflexão deve ser evitado.

contraponto ao gosto ocidental

algo inevitável. E se a claridade é

Aquele que desvenda um novo

pela luz, pela claridade e pela

deficiente, imergimos na sombra

horizonte é o que buscamos.

brancura:Para o escritor , faz

e descobrimos a beleza que lhe

Um horizonte cultural em que se

parte da natureza do oriental

é inerente.

situam manifestações de denso

valorizar, preservar e glorificar

O escritor escreveu o ensaio

significado,

objetos marcados por constante

nos anos 30, numa espécie de

japonesa Ukyo-ê, o Teatro Nô, o

manipulação, fuligem, chuva e

manifesto contra a modernidade.

Haiku, o Tanka, a Cerimônia do

vento, e amar tudo que tenha a

Outros

japoneses,

Chá e outras Artes. Procurarmos

cor ou o brilho de tais objetos.

como Yukio Mishima e Yasunari

olhar estas manifestações de

ao

Kawabata também amavam a

forma não estereotipada e não

conceito de sabi: a elegância do

cultura clássica e repudiavam

exótica, mas reconhecendo seu

envelhecimento. Para o autor de

a mentalidade progressista que

sabi.

As Irmãs Makioka, este conceito

tomou a cultura japonesa como

Equipe Editora Geral: Marília Kubota Editora de Arte : Sandra Hiromoto Editor Palco : Jorge Miyashiro Convidada especial: Alice K. Colaboradores: Geraldo José de Paiva, Gustavo Morita, Guilherme Match, Joba Tridente, Jorge Yamawaki, Nelson de Oliveira, Rodrigo Wolff Apolonni, Simonia Fukue Nakagawa, Eliége Jachini. Colunistas: Lina Saheki e Suzana Tamae Inokuchi

Impressão: Gráfica O Estado do Paraná Tiragem 2000 unidades Primavera de 2010

A

japoneses

glorificação

pela

remete

Projeto Gráfico: Sandra Hiromoto Design/Diagramação: Raphael Krüger Crédito capa: Ukiyoe no mi. Museu de Okayama-Japão

escritores

Email:

contato@jornalmemai.com.br

MUDAMOS DE ENDEREÇO! Correspondência:

Rua Mateus Leme, 314 – Apto. 301 CEP: 80510-190. Curitiba/PR

como

a

gravura

ASSINATURAS

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EDIÇÕES

R$ 25 (nacional) R$ 50 (internacional)


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O MUNDO DA NÉVOA DE KAWABATA da mão”, como dizia o autor. Sua prosa sensual e sensorial, por vezes impressionista, mexe com nossa noção de tempo. Ler Kawabata é desacelerar. Voltar muitas décadas e tocar um Japão de névoa e sonho. O desejo, jamais a razão, é o que comanda a ação de seus personagens impulsivos e passionais. O neosensorialismo de Kawabata promove, assim, o encontro do Oriente com o Ocidente: do sensualismo da arte japonesa com a filosofia de Schopenhauer. Yasunari Kawabata, prêmio Nobel de literatura em 1968, tem diversos títulos publicados no Brasil. Sua principal tradutora é Meiko Shimon, responsável pelo delicioso Contos da Palma da Mão. A coletânea reúne 122 narrativas curtas e delicadas, que “cabem inteiras na palma

Nelson de Oliveira é escritor e professor de literatura brasileira. Tem prêmios de literatura nacional e internacional, como o Casa de Las Américas (1995), e lançou 27 títulos, entre romances, novelas, contos, ensaios e coletâneas

PEREGRINAÇÃO PELO JAPÃO

Sendas do Oku (Oku no Hosomichi) é a obra central do mestre haicaista Matsuo Bashô, em que ele descreve sua viagem pelo interior do Japão feudal. Bashô viveu na época em que conhecemos como Ukyiô, ou

Era Edo, governada pelo xógum Toguwava. Era um período de paz, em que os samurais começaram a ascender socialmente. Bashõ revitalizou a arte poética japonesa quando esta arte se torna um jogo de salão. Ele deu os primeiros passos para estabelecer a forma do haicai como conhecemos hoje. Jorge Yamawaki é presidente da Associação Cultural e Beneficente Nipo-brasileira de Curitiba e empresário.

CARTAS

III CONCURSO NACIONAL DE HAICAI Nesta edição, a poeta Teruko Oda selecionou os cinco poemas a seguir, por ordem de classificação:

cumprimentá-la e a toda sua equipe. Profa. Estela Okabayashi Fuzii Diretora Núcleos Estudos da Cultura Japonesa Universidade Estadual de Londrina Professora Estela, agradecemos o incentivo ao JORNAL MEMAI.. Professores, pesquisadores e alunos do Núcleo de Estudos da Cultura Japonesa estão convidados a colaborar com o nosso periódico.

俳 句

Cafezal em flor – Velho imigrante saudoso Do seu monte Fuji. JOSÉ ALBERTO LOPES SÃO PAULO - SP

Bisneto a caminho. As mãos trêmulas tricotam Luvinhas de lã. SILVIA MARIA SVEREDA IRATI - PR

Manhã de geada. Estarão ainda vivas As flores de ontem? ELISSON THOMAS SVEREDA IRATI - PR

Roxas, amarelas flutuam as folhas secas ao sabor do vento. EDGLEY SILVA GONÇALVES SÃO PAULO- SP

Mais um beija-flor. Ou será outra visita de um freguês antigo? FRANKLIN MAGALHÃES RIO DE JANEIRO – RJ

LONDRINA Prezada Jornalista Tivemos a grata surpresa de obter por repasse do Museu Histórico de Londrina / UEL, exemplares da publicação MEMAI, edição 03, Curitiba. Não conhecíamos este jornal. Ele é deveras valioso para nossos alunos e professores com seu enfoque em letras e cultura japonesa. Parabéns pela iniciativa diferenciada de divulgar a tessitura da cultura japonesa no Brasil. Com certeza a publicação terá uma longa jornada de existo, e é o que desejamos ao

NENPUKU SATO

REGULAMENTO: WWW.JORNALMEMAI.COM.BR ATENÇÃO: CARTAS PARA O CONCURSO NENPUKU SATO DEVEM SER ENVIADAS PARA: RUA MATEUS LEME, 314 – APTO 301 CEP: 80510-190. CURITIBA/PR OBS.: Os trabalhos que não puderem ser encaminhados para julgamento por falta de tempo hábil (de entrega no correio/problemas administrativos) serão automaticamente inscritos no próximo concurso.

手 紙 CARTAS

VERTIGEM

HAICAI

MEMAI


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MEMAI

イ ン タ ビ ュ

dei adeus ao emprego. Quis outro tipo de trabalho, que me fizesse sentir mais viva.

ALICE K.

A INQUIETUDE EM CENA A mistura de várias linguagens cênicas e corporais é a marca da diretora, atriz, pesquisadora e pedagoga teatral Alice K., que há 20 anos pesquisa sobre a arte do ator no Oriente e no Ocidente.

Crédito: Gustavo Morita

ENTREVISTA

por Jorge Miyashiro

O Teatro Nô é um dos s eixos de inspiração de Alice K.

Há anos acompanha as companhias de teatro japonesas que aportam por aqui, fala japonês fluentemente e traduz as exigências dos artistas japoneses para calejados e sisudos técnicos das salas de espetáculos brasileiras. Alice Kyomi Yagiu, ou, ALICE K, compreende o teatro e o modo japonês em sua medula. É uma atriz que esteve no meio da vanguarda paulistana na década de 80. Participou do emblemático Grupo Ponkã, liderado por Paulo Yutaka. Alice ainda atua, dirige e dança e encontra tempo para seguir a carreira acadêmica. JORNAL MEMAI - Você agora é professora? ALICE K. - Sou docente do departamento de Artes Cênicas da Unicamp, há quase sete anos e as minhas disciplinas são:Improvisação:O Silêncio, Projetos Integrados de Criação Cênica (Montagens) e

Laboratórios (Corpo, Direção e Interpretação) MEMAI - Antes do teatro você tinha outra formação? ALICE - Sou formada na FGV (Fundação Getúlio Vargas), em Administração de Empresas. A virada foi acontecendo aos poucos. Quando me formei decidi dar um respiro antes de encarar o trabalho. Já fazia dança, fiz um curso de mímica com a Denise Stoklos que voltava ao país depois de uma longa estada fora. Na mesma época voltava o Paulo Yutaka de Amsterdã e também fui conhecendo outros que desenvolviam um trabalho mais físico no teatro. Fui me envolvendo em oficinas, cursos, ao mesmo tempo que trabalhava num banco japonês. Ainda tive outros dois, três empregos. Chegou uma hora que não dava mais para ter vida dupla, e aí quando já estava na montagem do Pássaro do Poente, em ´87,

MEMAI - Foi quando você trabalhou com o Grupo Ponkã, uma companhia com base estética na dança teatro, pesquisa. ALICE - No início dos anos 80, Paulo Yutaka voltava de Amsterdã depois de um exílio com o Grupo Oficina na década anterior. Trazia o espetáculo solo “Bom dia Cara” que trazia questões sobre crise de identidade, do ser mestiço (meio japonês, meio brasileiro) e estar fora de lugar (de seu país). Aqui Yutaka encontrou com Luíz Roberto Galízia, que retornava de Nova York depois de um período pesquisando as obras de Bob Wilson. Em fins de 1982, em conjunto com outros atores, Yutaka realizava, em criação coletiva, apresentações experimentais como Tempestade em Copo d’Água, sob a coordenação de Galizia. O espetáculo trazia a dificuldade de harmonizar conceitos ocidentais e orientais de ética, filosofia e comportamento. Nascia o Manifesto Ponkã, escrito por Ubiratã Tokugawa (Paulo Yutaka), em 1983. Da fundação participam Paulo Yutaka, Celso Saiki, Carlos Barreto, Ana Lúcia Cavalieri, Milton Tanaka, Hector Gonzales, Graciella de Leonnardis e o Galizia. Seguiram-se ponkãlipse, O Próximo Capítulo, o Ballet da Informática e O Primeiro Capítulo. Eu entrei no grupo em fins de ‘85, quando iniciava-se a montagem Pássaro do Poente, um texto de Carlos Alberto Soffredini, extraído de uma lenda japonesa, sob a direção de Marcio Aurélio.

Fizemos uma adaptação de cinco narrativas de Kyogen-(comédia do século 15) sem ninguém do grupo ter visto, ao vivo, uma peça. Aquilo me deixava doida. Resolvi entrar no mestrado só para tentar ir para Tóquio. Queria estudar Nô e Kyogen na fonte. Deu certo. A montagem teve grande repercussão e foi apresentada também em Portugal.O grupo era composto por filhos e netos de imigrantes orientais e ocidentais e


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MEMAI

MEMAI - Então você fez parte fez parte de uma segunda geração no elenco do Ponkã? ALICE - Segunda geração de que? Nissei, sansei? MEMAI - Não, uma segunda leva de pessoas no grupo. As companhias de teatro dificilmente mantêm elementos originais, os pioneiros. Foi uma troca gradativa? Houve um reavivamento com a entrada de novos integrantes? ALICE - Pode ser um segundo momento do próprio Ponkã, quando começa a entrar dramaturgia, pois anteriormente os trabalhos do grupo eram pautados em temas, cenas e linguagens corporais. Com a montagem do Pássaro do Poente, o grupo abriu para a entrada de outros profissionais: o diretor Márcio Aurélio, o cenógrafo Takashi Fukushima, o autor Soffredini, uma equipe de preparação como a Beth Lopes, especialista em máscaras e Mariana Muniz, coreógrafa. MEMAI … e o elenco. E que elenco, 60% da diminuta constelação de astros nipobrasileiros.Depois do Ponkã você se formou e partiu para o mestrado e viajou para o Japão? ALICE - Já fazia o mestrado

O rakugo-ka é um ator-performercantor-dançarino que desenvolve narrativas, acompanhado de shamisen no Japão. É maravilhoso acompanhar a narrativa em que as personagens são interpretadas por um único performer. quando ganhei uma Bolsa da Capes para o Japão. O Ponkã estava apresentando o QioguemLoucas Palavras e eu fazia parte do elenco. Fizemos uma adaptação de cinco narrativas de Kyogen-(comédia do século 15) sem ninguém do grupo ter visto, ao vivo, uma peça. E aquilo me deixava doida. Resolvi entrar no mestrado, na ECA-USP, só para tentar ir para Tóquio. Queria

estudar Nô e Kyogen na fonte. Deu certo. Fiquei lá um ano e meio vendo as peças, realizando treinamento com mestres e atores da nova geração. Voltei depois com uma bolsa da Fundação Japão para pesquisar o Rakugo, a arte do contador de histórias.

como uma parte do todo que é o bunraku, constituído de bonecos, manipuladores e o joruri. As três partes precisam estar bem integradas para acontecer o evento Bunraku. O rakugo-ka é um artista solo, está sozinho no palco e dele parte a situação, as cenas, o mundo. Ele dá o ritmo,

Crédito: Gustavo Morita

o Ponkã, tal como a fruta mestiça da mexerica e laranja, buscou articular uma síntese teatral que expressasse essa condição.

A diretora e o grupo no ensaio da peça “O Caderno da Morte”

MEMAI Como é o Rakugo, é a mesma forma dos contadores de histórias daqui? ALICE - Não, o rakugo-ka, o contador de histórias no Japão, é um ator-performercantor-dançarino que desenvolve as narrativas. Geralmente ficam sentados num zabuton (almofada), tem acompanhamento de shamisen e conta uma entre quase três centenas do repertório de estórias, em 20 minutos. Floresceu na Era Edo (século 18), quando havia centenas de casas de Rakugo. É maravilhoso acompanhar uma narrativa em que as personagens são interpretadas por um único performer. Fui iniciada nessa arte e depois de aprender várias narrativas, apresentei-me em algumas casas e subi no koza (palco de rakugo). Com isso recebi o nome artístico Kyoko Yanagiyam filha de Sankyo Yanagiya, meu mestre de Rakugo. MEMAI - Qual a diferença de um jojuri e um rakugo-ka? Por função são bem semelhantes... ALICE - Um joruri é um narrador, presente nas peças de Bunraku, o teatro tradicional de bonecos japonês. Ele faz o diálogo dos bonecos e narra os acontecimentos. Participa

a dinâmica, o imaginário das narrativas. MEMAI - Foram então duas viagens ao Japão. Com quais os mestres você se encontrou? ALICE - A primeira vez que fui para pesquisar na fonte, me direcionei para o Nô e Kyogen. Tive mestres inspiradores como o Mansaku Nomura e Tôjiro Yamamoto de Kyogen; o mestre Hajime Sano de Nô. Além disso tive um encontro com a coreógrafa e bailarina de Butoh, Anzu Furukawa, cuja amizade e se estendeu por muitos anos. Anzu veio a falecer em 2001, prematuramente aos 49 anos e acabei fazendo uma montagem em sua homenagem, a Oversized, em 2008. MEMAI - O que mais te surpreendeu nessas viagens? ALICE - Em geral, os aprendizes, acompanham os mestres em apresentações para observar e aprender. Saímos depois para jantar e os mestres sempre pedem algo que surpreende. Lembro quando um deles pediu o Unagidôfu. Bem, unagi é enguia e dôfu, é tôfu. O preparo é assim: coloca-se uma enguia viva na água, dentro da panela, com um pedaço grande de tôfu. Põe a panela no fogo e deixa a água esquentar. À medida que a água


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MEMAI vai esquentando a enguia vai entrando no tôfu pois não agüenta o calor. Algum tempo depois você tem o tofu recheado de enguia. É só cortar. É chocante, tenho até vergonha de dizer que é uma delícia. MEMAI - Nhãm, nhãm...Embora eu veja uma forte matriz do Nô em seu trabalho corporal, há algo de dança teatro, capoeira, também. Acredito que você manipula um maior número de eixos que um ator Nô, Não? Como é lidar com isso? Com essa mistura? ALICE - Tem a ver com a minha formação, melhor, minha curiosidade em testar várias linguagens corporais. De saber como o meu corpo reage a determinados estímulos vindo de fontes distintas. E o fato de viver e trabalhar no Brasil, país de imigrantes, torna isso muito natural. E também pelo fato de eu não ter formação (graduação) em artes cênicas. Fiz pós em teatro, mas fui compondo a minha grade, digamos assim, de um curso que eu achava bom. Viajando e conhecendo o trabalho de mestres, pesquisando por conta própria, indo atrás de oficinas aqui e alí. Sempre fui de correr atrás. MEMAI - Você tem esse forte trabalho solo mas faz alguma parceria,. Mesmo acompanhada de bailarinos, músicos e até atores, mantêm a sua marca d’água. Numa palestra no SESCSP, em 1997, você disse que seu teatro era dança e seu gesto estava incorporado de totalidade. Como você descreveria sua carreira até aqui? ALICE - Creio que há uma marca minha em tudo que faço. Está na maneira de ver o todo e o detalhe, o concreto e o abstrato, o pequeno e o grande. Tem a ver com a vida, as relações entre as coisas, pessoas e como tudo isso mexe comigo. MEMAI - É a própria essência da arte. A arte se mistura em sua vida? E a técnica? ALICE - Cada vez mais. Acho que tem a ver com o amadurecimento. Quando jovens somos ansiosos, angustiados até. Hoje vejo a ansiedade dos jovens e vejo que estou em outro ritmo. Muda-se o olhar para as coisas, para a vida. A técnica é necessária, mas adquire outros contornos com o

passar do tempo. Não briga mais, fica incorporado na gente. MEMAI - Gostaria de insistir mais sobre a técnica. Ouço muito que a técnica tolhe o desempenho da arte que deveria fluir independente da técnica, algo assim. O que acha disso? ALICE - Depende do que você considera ser a técnica. Não pode ser um conjunto de procedimentos mecânicos para fins pré-determinados. Muitas vezes o conhecimento técnico pode queimar etapas para alcançar elementos que realmente interessa mais para frente. A técnica ensina a organizar nossos instrumentos e afiná-los.

O rakugo-ka é um ator-performercantor-dançarino que desenvolve narrativas, acompanhado de shamisen no Japão. É maravilhoso acompanhar a narrativa em que as personagens são interpretadas por um único performer. TRAJETÓRIA Iniciou como performer solo e participou, de 86 a 91, do Grupo de Arte Ponkã, que aliava modernos procedimentos performáticos com estruturas narrativas e fabulares da cultura japonesa. Intérprete na montagem premiada (Molière, APCA, Mambembe) Pássaro do Poente, 87), sob direção de Márcio Aurélio e de Quioguen, Loucas Palavras (Prêmio Fiat, 90). A partir de 91, aprofundou as pesquisas na fonte, em Tóquio com mestres da tradição clássica (Nô, Kyogen e Rakugo) e contemporânea (Butoh). Participou de duas montagens (Dengaku e Tiny Alice Festival, 91) e apresentações como story teller (Rakugo, 96). Realizou residência artística na Alemanha, sob orientação da coreógrafa de Butô, Anzu Furukawa (a “Pina Bausch japonesa”), e participou da montagem Mittsommernachtstraum (Sonho de uma noite de verão, 95) sob sua direção.

No Brasil realizou parcerias com artistas de várias áreas, entre eles, o poeta Haroldo de Campos (em Hagoromo O Manto de Plumas, Prêmio Jornada SESC de Teatro, 94), e Décio Pignatari (Temperamental, ópera Interativa, unidades do SESC, 93); com os músicos Danilo Tomic, Suba e Fernando Carvalhaes, o artista plástico Takashi Fukushima (Pássaro do Poente e Qioguem?!) e o grupo Lume (Afastem-se vacas que a vida é curta, 98). Coordenou e atuou em três peças Nô, em livre-adaptação: Hagoromo - O Manto de Plumas (Centro Cultural SP, 94), Vento da Espera (SESC Vila Mariana e regionais, ‘98) e Solitude (9º Festival de Teatro de Curitiba, 33º Festival de Inverno de MG; Mostra OFF-MIX do NExT, temporada no Centro Cultural São Paulo, 00 e apresentações nas regionais do SESC). Produções recentes: Qioguem?! (2005), direção. Prêmios Funarte Myrian Muniz e Fomento Municipal. Morte e Vida Severina (2006), direção. O espetáculo incorporou elementos do teatro Nô (teatro clássico japonês do século XIV) e o ViewPoints (técnica de composição cênica difundida por Anne Bogart). A Pérola (2007) é uma livreadaptação em teatro-dança do conto homônimo de Yukio Mishima. Carícias (2008), direção. Montagem baseada na peça homônima do dramaturgo catalão Sergi Berbel. Com a Cia. Versátil, da Unicamp. Gato sem rabo (2008). Direção. Baseada em duas palestras realizadas em 1928 pela escritora inglesa Virginia Woolf. Prêmio Funarte 2007. Oversized (2008), direção. Espetáculo em teatro-dança inspirada na obra da bailarina de butoh Anzu Furukawa (19492003). Prêmio Funarte Myrian Muniz 2007 e ProAC 2008. Caderno da Morte (2008/9), direção. Montagem inspirada no mangá Death Note, com a Cia. Zero Zero. Jorge Miyashiro

(jorge.miyashiro@gmail.com) é atorbonequeiro, diretor da Miyashiro Teatro de Bonecos, especialista no fantoche por onde produz textos, ensaios, peças e vídeos no miyashiroteatro.blogspot.com e fantochesrebeldes.blogspot.com.


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SHUSAKU ENDO

UM ESCRITOR JAPONÊS CATÓLICO

O ESCRITOR

Shusaku Endo nasceu em Tóquio em 1912 e morreu na mesma cidade em 1996. Foi batizado ainda criança, por insistência da mãe, prestes a morrer. Estudou literatura na Universidade de Keio e literatura francesa na Universidade de Lyon, especializando-se nos escritores católicos Paul Claudel, Julien Green, François Mauriac e Georges Bernanos. Em sua estada na França experimentou na própria carne a quase incompatibilidade do cristianismo/catolicismo europeu com a cultura japonesa. A maior parte de sua obra literária foi dedicada a explorar essa distância cultural e a tentar uma superação do conflito dela resultante. Endo, referindo-se a Graham Greene, sempre deixou claro que não era um escritor católico, voltado para uma literatura apologética ou propagandística da

religião. Podemos, novamente com Greene, pensar em Endo como um católico escritor, ocupado com os conceitos e os critérios da boa literatura. De certo, Endo não é o único escritor católico na literatura recente do Japão. O crítico literário norte-americano Van C.Gessel, da Universidade de Berkeley, Califórnia, destaca, entre uma vintena de escritores católicos, Rinzo Shiina, Toshio Shimao e Shusaku Endo. Característica de Endo é sua visão de Deus, e de Jesus Cristo, como mãe. A essa visão ele chegou paulatinamente. É possível acompanhar a elaboração literária da superação das tensões religiosoculturais de Endo distinguindo, em suas obras, duas fases: a primeira de nítida separação, na qual ele se mantém fiel ao catolicismo ocidental, de cunho paterno, e a segunda, bi-cultural, na qual ele inscreve a experiência católica no molde da cultura japonesa. Essa inserção se dá por via da atitude de amor incondicional, representado pela mãe e traduzida pelo conceito de amae. Por essa razão não se pode, sem mais, identificar o conflito religioso-cultural de Endo com uma forma qualquer de cristianismo. Seu embate era com o catolicismo, e a superação do conflito se deu mediante a figura feminina, tão presente nesse ramo cristão. Maria e as Marias dos evangelhos deram a Endo a chave para entender a Cristo (Iesu no shogai/Vida de Jesus, 1973) e a Deus. O contraste entre pai e mãe, na cultura japonesa, pode ser resumido nos termos de Takao Hagiwara: para a mãe, os filhos são todos bons, porque são filhos; para o pai, filhos são apenas os bons. É a diferença entre o amor incondicional e o amor condicional. Nessa concepção, Deus se aproxima da vertente materna da cultura japonesa, distanciandose da vertente paterna do entendimento ocidental. Não é aqui o lugar para se discutir se essas vertentes são mutuamente exclusivas ou complementares. É certo que para Endo o amor incondicional de Deus-mãe é o que satisfaz às aspirações religiosas do japonês. Essa ênfase no amor materno encontra correspondência na atitude de amae, enquanto a pessoa se sente em primeiro lugar amada, e só depois amante. Essa seqüência psicológica,

afim à seqüência freudiana do amor narcísico e do amor objetal, corporifica o caminho percorrido por Endo em seus conflitos. Essas considerações, que partiram do problema das traduções mas se encaminharam para a cultura e a religião, podem, talvez, despertar o interesse pela leitura de Shusaku Endo, que a publicação Japan Echo denominou de luz literária católica. Referência Paiva,G.J.de (2008). Psicologia cultural da religião: a evolução da percepção do catolicismo em três romances do escritor católico japonês Shusaku Endo. Revista USP, n.79, 183-195

Divulgação

O romancista Shusaku Endo, detentor dos principais prêmios literários do Japão, entre os quais o Akutagawa, cogitado para o Nobel, tem diversas obras traduzidas para o português: Admirável Idiota, O Silêncio, Mar e Veneno (Civilização Brasileira, 1979), Escândalo (Rocco, 1988) e Rio Profundo.Ganges (Mercuryo, 1995). Embora a leitura das traduções não ofereça grandes obstáculos, há casos em que até o título deixa perplexo o leitor, se comparado com o original. Admirável Idiota, por exemplo, corresponde a Obaka-san. Embora obaka esteja bem traduzido, pergunta-se o leitor de onde vem Admirável. Cheguei a sugerir que um título mais próximo à intenção do autor seria Sr. Cretino, em função do sentido quase teológico da idiotice do personagem. Não é minha intenção tratar das traduções para o português desse autor, embora um conhecedor do idioma japonês pudesse ter interesse em cotejar as traduções existentes e o original. Meu propósito é apresentar brevemente Shusaku Endo para o leitor brasileiro. E, de modo particular, para o leitor nipobrasileiro. O que torna Endo interessante para o leitor brasileiro é o fato de ser um escritor católico. Muitas vezes, com efeito, nos perguntamos como se daria o encontro da mentalidade japonesa com a mensagem religiosa cristã. Esse foi o interesse central da obra de Endo que, além dos romances acima citados, escreveu novelas e dramas relacionados com o modo de ser japonês comparado com o modo de ser ocidental.

por Geraldo José de Paiva

プ ロ フ ィ ル PERFIL

MEMAI

Endo foi “esquecido” pela nova onda de tradução Geraldo José de Paiva é professor titular do Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo. Autor de Introdução à Psicologia Intercultural e de”A Religião dos Cientistas. Escreveu diversos ensaios relativos à obra de Shusaku Endo, apresentados e/ou publicados no Brasil, na Escócia, no Canadá e no Japão.


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MEMAI

UKYO-E, O MUNDO FLUTUA EM ENCANTO O UKIYO-E fascinou pintores franceses do século 19, por retratar uma época de estabilidade entre guerras internas no Japão: paisagens, o erotismo entre cortesãos, retratos de artistas eram algumas cenas representada, em pinturas, ilustrações para narrativas e em cartazes do teatro kabuki  Por Simonia Fukue

vida (flutuante e fugitiva); a terra; este vale de lágrimas, este mundo miserável e cansativo; este mundo inconstante; o mundo atual, o mundo de agora; sociedade. yo: s., mundo. uki (uku, ukabu): v., transbordar. uku  (ukabu,  ukaberu): v., flutuar suavemente (na água, no ar); atravessar a água (como um navio); vir à tona, vir ao alto, ficar alegre, leve.  Diferentemente de como esta arte é  vista nos dias atuais, tida principalmente no ocidente como erudita, já  foi considerada popular, embora o termo não necessariamente possa ser entendido de forma pejorativa. As estampas, como são conhecidas as gravuras em seu estado impresso, podem ser classificadas em algumas categorias: - figuras bijin ou bijinga _ tematizam as figuras bonitas - figuras do teatro kabuki -figuras de pássaros e flores _ vegetação e animais locais de forma geral -figuras de monges e poetas famosos -algumas figuras na sua atividade profissional - e também figuras de monstros.   Embora o  ukiyo-e  seja uma arte conhecida como gravura japonesa, existe a possibilidade de a encontrarmos também como  nikuhitsuukiyo-e  ou  nikuhitsu-ga, ou seja, “desenhos-cuja-carne-é-o-pincel”, ou como a chamamos, pintura. Este tipo de  ukiyo-e  é menos difundido que a tradicional estampa. 

Simonia Fukue xilogravura a base d'água- 30cm X 30cm - 2010.

浮 世 絵 の 美

O primeiro contato que tive com o ukiyo-e  foi na faculdade, como uma aula extra sobre xilogravura. Somente na especialização me interessei por esta arte: quando pesquisava sobre mangá, vi que quem criou a palavra  mangá  foi um gravador, Hokusai. Como artista gravadora, e ainda, pesquisadora do  mangá, achei coincidência e resolvi ir em busca da técnica. Fui para São Paulo, USP, e lá encontrei a Madalena Hashimoto Cordaro, especialista sobre  ukiyo-e  no Brasil. Neste momento comecei entender não somente a técnica, mas as imagens que transforma. A sutileza de cada traço, a transposição das figuras na madeira (matriz), as cores, até chegar ao formato de estampa é um processo de reflexão e harmonia entre a vida e a arte.  Ukiyo-e é uma arte japonesa que retratou a cultura burguesa e toda sua beleza e prazeres que estavam emergindo no período Edo (1603-1867). Durante um longo período o Japão presenciou conflitos entre as províncias, e quando, surge uma concepção de alegria, os kanji 憂世絵 (ukiyo-e) que significam retrato do mundo das tristezas mudam para 浮世絵 (ukiyo-e): retrato do mundo flutuante, ou seja, da vida, do mundo de agora. 憂世 (ukiyo): s., este mundo miserável, este mundo cheio de eventos lamentáveis, que causa preocupações e compadecimento, que faz chorar e se lamentar. yo: s., mundo. uki (ui): adj., infeliz, triste, miserável, soturno, melancólico, fatigado. 浮世 (ukiyo): s., o mundo (transitório);


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Esta forma de ukiyo-e, como pintura, pode dizer que, começou no final do século 16, com o desenvolvimento dos  chonin  (artesãos e comerciantes), que passaram a escrever histórias, contos juntamente com desenhistas e criaram os  ehon, ou seja, livros com desenhos, ilustração. O  ukiyo-e  como gravura veio da necessidade de reprodução dessas obras.  Seu formato como ilustração em papel solto, ono-e  ou  ichimai-e  (pintura-uma-folha), surgiu logo após para representar os espetáculos do teatro kabuki. Um rolo de papel, além de apresentar narrativas de relatadas por um artista é composto por pinturas ukiyo-e. Rolos de pintura são a união artística da pintura e da literatura em forma de ‘livro ilustrado’. Mas não é livro ilustrado em que ilustrações são subservientes à narrativa. No caso do  ekimo  (pintura ligada à narrativa), as ilustrações são essenciais para a vida do livro. Dessa forma, entende-se que o  ukiyo-e  não somente é a representação de alguma coisa, mas está além, ou seja, representa o sublime na compreensão das palavras e objetos transcritos por linhas e cores. O mais famoso rolo de pintura é conhecido como  yamato-e, pintura de Yamato. Todo seu desenvolvimento artístico

visual se concerne com a poesia. Cada imagem é baseada em personagens históricos famosos, templos e narrativas budistas, santuários xintoístas, sonhos, milagres. No período Meiji, época em que o Japão passou a abrir novamente os portos para o ocidente, a gravura japonesa deixa de existir como uma arte difundida pelo povo, pois neste período os artistas ocidentais começam a despertar interesse pela técnica. O  ukiyo-e  começa a ter repercussão no ocidente, especificamente, na França. Os impressionistas passaram a ter contato com o  ukiyo-e  através de embalagens de produtos japoneses que aportaram nas cidades européias, e todo seu encanto passou a integrar a arte de artistas como Monet, Renoir, Van Goh. O ukiyo-e também influenciou

o cubismo chamando a atenção de Cézanne e Picasso para suas formas e perspectivas. Assim, deixando de ter fama no oriente o ukiyo-e foi tê-lo novamente no ocidente. 

MESTRES DO UKYO-E Katsushika Hokusai (1760-1849) foi um dos mais famosos artistas japoneses que trabalharam com o ukiyo-e.  Pupilo do mestre Katsukawa Shunshõ (um dos

Hishikawa Moronobu: Jovem casal

Vincent Van Gogh: “Retrato do Pai Tanguy (1887) (Imagens: Ingo F. Walther. “Impressionismo”. Editora: Taschen. 2006).

FORMATOS DIVERSOS

grandes artistas que gravaram imagens de atores), estudou em diversas escolas em busca de novos estilos, chegando a inspirar-se na pintura chinesa e ocidental. Depois dessa pesquisa, Hokusai, finalmente encontrou sua principal característica, a paisagem. É o autor da famosa obra “Trinta e seis vistas do Monte Fuji” (Fugaku Sanjûrokkei), que inclui a obra “A grande onda de Kanagawa” (Kanagawa oki nami ura).Uma curiosidade: foi Hokusai quem uniu os kanji 漫 (man=humor) 画 (ga=desenho) criando a palavra mangá (o acréscimo do acento na palavra surgiu nos meados da década de 70 aqui no Brasil, a autora desta inclusão é Sônia Luyten Bibe), para designar sua coletânea de ilustrações em volumes. Outro artista que merece destaque é Utagawa Hiroshige (1797-1858), pupilo de Utagawa Toyohiro (17731829). Diferentemente de Hokusai, as imagens de Hiroshige são mais calmas, românticas. Pode ser considerado um artista que bem trabalhou com os gêneros yakusha-e  (pintura de atores) e bijinga. Porém também fez uma série denominada “lugares famosos da capital oriental” (Tõtõmeisho), em que as obras foram classificadas como polêmicas. Hishikawa Moronobu foi o artista que iniciou o  ukiyo-e  não somente como pintura do mundo flutuante, mas para fazer desenhos para serem gravados e impressos, conhecidos como hanshita-e (pintura de baixo relevo para impressão).  Hishikawa também individualizou a estampa japonesa dos livros, que passou a ser avulsa. O processo do ukiyo-e não difere muito da xilogravura, mas o que mais chamou a atenção no ocidente foi à utilização da tinta à base d’água e a delicadeza nos traços do corte. Simonia Fukue Nakagawa é artista visual. Já trabalhou na área e atualmente trabalha com ilustração, gravura, fotografia artística e leciona mangá no Centro Cultural Tomodachi, além de pesquisar HQ e cultura japonesa.

“A grande onda de Kanagawa” (Kanagawa oki nami ura) Utagawa Hiroshige

Bibliografia consultada: Fahr-Becker , Gabriele. Japanese Prints. Edtora: Taschen, 2007, Hashimoto Cordaro, Madalena. Pintura e escritura do mundo flutuante: Hishikawa Moronobu e ukiyo-e, Ihara Saikaku e ukiyo-zôshi. Editora: Hedra, 2002.


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CINEMA

映 画

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JUN OKAMURA

A IMIGRAÇÃO JAPONESA VISTA POR DENTRO O trabalho solitário deste cineasta é registrar a vida de imigrantes japoneses no Brasil: dos desbravadores da Amazônia a um utópico padre que ajuda portadores de hanseníase no Norte do Paraná. Em seus projetos, ele faz tudo, da pesquisa à edição. E tem reconhecimento no Japão.

por Suzana Tamae Inokuchi

Divulgação

sobre temas variados como, por exemplo, a natureza amazônica. Okamura possui formação em arqueologia da cultura pela Universidade de Waseda, Tóquio. Em 1982 ingressou na NAV (Nippon Áudio Visual Production), produtora de documentários para a televisão japonesa, tendo atuado como diretor de programas como o SUBARASHII SEKAI RYOKOU (Our Wounderful World), SHIRAREZARU SEKAI (The Unknown World), nos quais realizou, principalmente, séries sobre a Amazônia.

Cena do filme Humanitas, sobre hanseníase A aventura heróica dos imigrantes japoneses rumo ao desconhecido é um tema que tem sido retratado e também, muitas vezes, ficcionalizado de diversas maneiras tanto pela literatura quanto pelo cinema. Os exemplos são vários, e podemos citar, na literatura, o livro Sōbō, do escritor japonês Tatsuzō Ishikawa, que em 1930 inscreve-se no programa de imigração para o Brasil. Sua idéia inicial era produzir apenas artigos para uma revista, mas a experiência de meio ano como imigrante foi tão chocante e avassaladora que resultou em um romance. No cinema, um exemplo é a diretora nipo-brasileira Tizuka Yamazaki, com seu blockbuster Gaijin, que conta com dois filmes, o primeiro realizado em

1980 tendo como subtítulo Os caminhos da Liberdade e o segundo, de 2005, com o subtítulo Ama-me como sou. Mesmo o diretor japonês Akira Kurosawa não consegue ficar imune ao tema, que é tratado, ligeiramente, como um tema secundário do filme Anatomia do medo (Ikimono no kiroku, 1955). Este mesmo tema transformou-se, há algumas décadas, no objeto de trabalho do documentarista japonês Jun Okamura – nascido em Tóquio em 7 de novembro de 1958 – e que havia sido enviado para a América do Sul e, em especial, para o Brasil, por emissoras de televisão japonesas por diversas vezes para produzir documentários encomendados. Ao todo foram 30 títulos

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Durante as suas várias estadas, Jun Okamura percebeu que havia coisas muito mais interessantes a tratar no Brasil do que aquelas que lhe eram encomendadas. Ele, então, emigrou também para o país em 1987 e, desde então, produziu, pelo menos, 11 documentários. A princípio ainda vinculado a emissoras de televisão japonesas e, desde 1997, totalmente freelancer no que se refere à realização de seus trabalhos. A exibição dos documentários se dá, por vezes, através de alguma emissora de televisão japonesa, como, por exemplo, a NHK, mas também em mostras individuais no Japão, organizadas por Okamura. Ele procura retratar o aspecto humano, os problemas sociais e a questão ambiental do tema da imigração, através dos relatos das experiências vida dos imigranes japoneses. As histórias contidas em seus filmes, segundo ele, são inéditas até mesmo para os brasileiros. A intenção do diretor está expressa na afirmação a seguir, que foi dita por ele ao ser questionado na época da Comemoração do Centenário da Imigração Japonesa:: para mim, todos os dias se comemora a imigração. Não existe uma data. Sempre é preciso registrar e mostrar a história da imigração.

Okamura procura retratar o aspecto humano e problemas sociais do tema da imigração, através de relatos dos imigrantes japoneses. Segundo ele, a histórias de seus filmes são inéditas até para os brasileiros. CINEMA NOVO? O processo de trabalho deste documentarista é solitário e digno da expressão uma câmera na mão e um sonho na cabeça, porque ele é o único responsável por todas as etapas da produção fílmica de seus documentários, que engloba desde a pesquisa, que


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ocorre na etapa de pré-produção de cada filme, até a finalização. No processo, ele desempenha também as funções de câmera, repórter, narrador e editor. Funções da área de produção, tais como os contatos e o agendamento da(s) viagens e entrevistas; a hospedagem e o transporte, a alimentação e outros detalhes também são decididas por ele. Apenas a tradução das falas e a legendagem – tanto de falas em português traduzidas para o japonês e de falas em japonês traduzidas para o português – podem necessitar, em alguns momentos, da assistência de outro profissional, devido a questões estritamente linguísticas. Esta forma de trabalho é muito diferente da imagem que se faz do cinema como uma atividade coletiva, que envolve muitos profissionais com diferentes atribuições, dentro e fora do set de filmagem. Okamura afirma que não planeja suas entrevistas com os imigrantes, preferindo o contato direto a pautas rígidas- o inesperado é um dos elementos com os quais conta para produzir seus filmes. Ele prefere não projetar ou imaginar o que acontecerá em cada entrevista, mas registrar o momento

Seu processo de trabalho é uma câmera na mão e um sonho na cabeça. Ele é o único responsável por todas as etapas da produção cinematográfica. Ele é câmera, repórter, narrador e editor. em sua totalidade. Além disso, o tempo de produção de cada título é longo, sendo constituído de vários anos de viagens para a coleta das raras histórias de vida dos imigrantes. Este é o caso do documentário Humanitas: 25 anos de atividades – companheiros da terra roxa (Akai daichi no chyūgentachi – Humanitas nijyūgonen no ayumi), o 11º documentário da fase do diretor no Brasil, que levou entre 7 e 8 anos para ser finalizado. Em 2002, foi editada a versão japonesa do filme, em 2005, uma versão com legendas em português foi preparada e em 2006, uma versão bilíngue foi disponibillizada. Este documentário retrata parte da vida do padre japonês e Haruo Sasaki, que, emigrou para o Brasil em 1957 e, mesmo sem conhecimento prévio sobre a hanseníase, empreendeu uma tarefa que ele mesmo define como “louca”, ao fundar, em 1977 um centro de tratamento para os portadores da enfermidade – a Sociedade Filantrópica Humanitas, São Jerônimo da Serra PR – ao perceber o isolamento em que estes portadores se encontravam. Este, também segundo o pároco, é o maior projeto de sua vida. Hoje, o centro ampliou as suas atividades, oferecendo, igualmente, atividades educacionais e profissionais para crianças e jovens carentes e meninos de rua da região, além de apoio a agricultores sem-terra. Acompanho o trabalho dele desde 1994 e acabei de editar o documentário em comemoração aos 25 anos do Humanitas, diz o diretor. OBRA O primeiro longa-metragem de Jun Okamura, Nos sonhos, a saudade (Kyōshū wa yume no naka de), foi finalizado em

1998 e reeditado em 2001, com reapresentações no Japão, em mostras individuais. Assim como em Humanitas, também neste filme, o diretor apresenta a vida de um único imigrante, Saichi Nishi. Durante uma de suas viagens por todo o território brasileiro em busca de idéias para seus filmes, Okamura ouviu falar de um velho imigrante japonês excêntrico que vivia em uma cidade do estado de Mato Grosso. Ao entrar em contato com este eremita, Okamura manifestou o desejo de registrar a história de Saichi Nishi, um japonês que imigrou para o Brasil antes da segunda guerra e que acabou criando uma teoria própria sobre o mundo. Isto porque Nishi havia abdicado do convívio com a sociedade e vivia, segundo a sua filosofia de vida O cineasta solitário Jun Okamura pessoal, em uma modesta cabana construída por ele mesmo. Estes e outros documentários do diretor somente podem ser vistos pelos Outro documentário Vídeo cartas do 40º espectadores brasileiros em mostras e ano – fase Amazonas (yonjyūnenme no festivais ligados à imigração japonesa video letter Amazon hen), de 2002, mostra ou relacionados, como a que ocorreu 14 passageiros do navio Argentina Maru no festival Imagem dos Povos - IV na atualidade. No total, o navio tinha 31 Mostra Internacional Audiovisual – que passageiros. Descobrimos que 10 deles aconteceu no ano 2008, que contou já morreram e outros não quiseram com filmes japoneses e amazônicos participar, revela o diretor. Segundo a em suas edições em Ouro Preto e Belo sinopse do filme, este navio trouxe 700 Horizonte. Este festival privilegia, a cada imigrantes japoneses para quatro países ano, uma diferente região do país e um da América do Sul em 1962, um momento país diferente do globo. É preciso ficar em que a imigração japonesa para este atento aos festivais e mostras de cinema continente estava em franco declínio. no país. Em Curitiba, o Centro de Estudos Quarenta anos depois, como estariam da Língua Japonesa do Sul do Paraná os passageiros do navio, que partilharam – em parceria com Consulado Geral do os mesmos sonhos e apreensões sobre Japão em Curitiba – trouxe o diretor para uma nova terra? As exibições do filme no a capital, em dois anos consecutivos, Japão trouxeram ainda uma oportunidade em 2008 e 2009. Quem sabe, haja uma de novas entrevistas, diz ele, estou terceira edição do Encontro com Jun aproveitando minha estada no Japão Okamura na cidade organizado por estas para visitar alguns dos passageiros do instituições também este ano. navio que acabaram voltando e hoje vivem aqui. Este filme, que se concentra Suzana Tamae Inokuchi apenas nos depoimentos das famílias (haikaisepoemas@hotmail.com)é graduada que permaneceram na Amazônia, é em Relações Públicas e Letras e mestranda apenas o primeiro do projeto Vídeo Letter: em Estudos Literários na Universidade O próximo passo é entrevistar a única Federal do Paraná, além de poeta e contista. família que ainda está em Guatapara e produz agáricos.

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LANÇAMENTOS, LITERATURA

DESBRAVADORES OU AMEAÇA SOCIAL Os Imigrantes Japoneses na Segunda Guerra Mundial: Bandeirantes do Oriente ou perigo amarelo no Brasil – Eduel, de Elena Shizuno, 208 páginas, Eduel. europeu, branco e católico, governado por brancos e para brancos”, segundo palavras da professora Marion Brepoh de Magalhães, que faz a apresentação da obra. Por isto, alguns membros da elite opunham-se radicalmente contra a entrada dos imigrantes japoneses. Artigos e caricaturas na imprensa vinculavam aos japoneses termos pejorativos como “amarelos”, “viciados”, “decadentes”, “imorais”. Os eugenistas defendiam a tese de que o japonês era “inassimilável” – ou seja, jamais se tornaria idêntico ao tipo brasileiro.

Durante a 2ª. Guerra Mundial os nipobrasileiros se viram acuados no Brasil. De um lado, o governo brasileiro restringia suas liberdades civis devido ao clima de tensão contra os países do Eixo. De outro, os “fanáticos” do governo japonês criaram associações de caráter nacionalista para defender valores do patriotismo japonês. Os imigrantes, pequenos agricultores, artesãos ou comerciantes, eram presos pela Polícia Política, suspeitos de agirem como espiões do governo japonês. Ao mesmo tempo, sofriam achaques de compatriotas, suspeitos de “prejudicarem o esforço de guerra” japonês. A dupla opressão é o que relata esta pesquisa feita pela historiadora Elena Shizuno, que investiga a a ambigüidade das expressões “Bandeirantes do Oriente” ou “Perigo Amarelo” – em opiniões registradas pelas elites brasileiras, sobre os imigrantes japoneses nos anos 40. . De um lado, um sentido aparentemente positivo do imigrante como desbravador do território, colonizador, similar aos bandeirantes paulistas. De outro, uma ameaça, segundo a estigmatização eugenista, em vigor desde o início da imigração japonesa. Nesta última representação, os japoneses eram vistos como “súditos” de uma potência imperialista. Nesta pesquisa, dissertação de mestrado pela Universidade Federal do Paraná, Elena pergunta por que o racismo, transformado em política oficial no Brasil a partir de 1934 organizou o ódio contra o imigrante – visto como o “Outro”, ou seja, o diferente. Antecedendo os fatos: durante o processo de imigração, uma ampla discussão nos jornais apresentava a face de “um país que ser queria

Quando o governo brasileiro declara guerra aos países do Eixo, os imigrantes japoneses, alemães e italianos passam a ser vistos com desconfiança, suspeitos de colaborar com seus países origem. Proibidos de se reunir publicamente, não podem falar, ler jornais ou ouvir rádio em sua língua nativa. E começam a ser vigiados de perto pelo DOPS – Departamento de Organização Política e Social. Examinando estas fichas, a pesquisadora descobriu que alguns japoneses sofreram acusações absurdas, como falar japonês, educarem os filhos em japonês, ouvir música japonesa. A repressão desencadeou uma reação interna nas comunidades nipobrasileiras. A desinformação causou o isolamento da comunidade e tornou propício o surgimento de organizações como a Associação dos Jovens Japoneses (Akenobo). Esta organização, de caráter fascista, buscava representatividade como “autoridade” dentro da comunidade,

criando boatos como o de que o hortelã pimenta era matéria prima para fabricação da bomba atômica. Deste modo, aterrorizava os agricultores queimando suas plantações. A verdade é que antes da 2ª. Guerra, os Estados Unidos importavam hortelã e seda do Japão e da China. Durante o conflito bélico, a matéria prima passou a ser importada do Brasil. Para os nacionalistas japoneses, os lavradores de hortelã e seda eram vistos como inimigos. Com o fim da guerra, a Akenobo e associações similares foram a semente para a criação da Liga dos Súditos do Imperador (Shindo Renmei). A organização, inspirada em ideologia nazista, dividiu a comunidade em “vitoristas” e “derrotistas”. Os primeiros, os kachi-gumi, acreditavam na vitória do Japão na guerra. Já os make-gumi sabiam da derrota. Os crimes cometidos pelos vitoristas contra os derrotistas pioraram a imagem da comunidade nipo-brasileira nos jornais brasileiros. A pesquisa de Elena alinha-se ao lado de análises de historiadores como Rogerio Denzen e Jeffrey Lesser, Claudio Seto e Maria Helena Uyeda para reconstituir páginas negras de uma história perversa. Estes episódios não devem ser vistos como um quisto num enclave étnico. Mas parte de uma história recente do Brasil, conseqüência de medidas tomadas contra as liberdades individuais de grupos vindos ao país na condição de colonos.

(Marilia Kubota)

Revistas da época retratavam japoneses pejorativamente


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TIGELA, BASTÃO E MURO Em Busca do Tempo Perdido, de José Angelo da Silva. Editado por Daniel Barbosa (Editora Caderno Listrado).Edição única (200 exemplares numerados e assinados pelo autor), 88 p.Curitiba, 2010. Contato do autor: ajsilva7@gmail. com As imagens clássicas associadas ao Koan (公案) e ao Satori (悟り) são, por certo, as do imaginário religioso japonês: monges de cabeças luzidias, tigelas, bastões e a atitude “tranquila e infalível” a que se refere Caetano Veloso em “Um Índio”. Nenhuma dessas imagens passa, definitivamente, pela metrópole efêmera, que não merece de seus habitantes maior atenção exatamente porque eles a vivenciam em uma pressa eterna. Pois é nesse cenário que o fotógrafo e sociólogo Angelo José da Silva descobriu e revelou uma série de possíveis Koans, apresentados no livro Em Busca do Paraíso Perdido, recentemente lançado em Curitiba. O núcleo da obra são imagens de Street Art – grafites, pichações, lambes, estênceis, stickers e suas combinações na cena urbana – que, ao serem capturadas, mostram uma insuspeita porção Koan. Isso porque, normalmente invisíveis, são capazes de revelar um poderoso conteúdo a quem abandona o olhar blasé. Como verdadeiro Koan-e-Satori, enfim, que não estala o chicote por um

Buda entronizado, mas por uma transformadora experiência de subjetividade. Alquimia – Se há Satori, é sinal de que o Koan foi bemsucedido. Partindo dessa premissa, encontramos no livro muitos traços de “iluminação”. As imagens que a ilustram, afinal, são leituras e devoluções elaboradas em termos ao mesmo tempo sutis e firmes, subjetivos, algo que transparece

no próprio processo de produção: inicialmente percebidas pelo olhar, depois fotografadas em filme, digitalizadas, convertidas em serigrafia e repostas no mundo como algo novo, original e precioso. Um trabalho, enfim, digno do aplauso de uma mão só. (Rodrigo Wolff Apolloni: rwapolloni@gmail.com)


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MEMAI

1º CONCURSO NACIONAL DE MANGÁ MINAMI KEIZI 2010 FICHA DE INSCRIÇÃO 1º CONCURSO NACIONAL DE MANGÁ

MINAMI KEIZI 2010

I - Dados pessoais Nome:__________________________________ Endereço:_______________________________ ______________________________nº_______ Complemento:___________________________ Bairro:

__________________________________

CEP:___________________________________ Idade:__________________________________ Telefone:

(_____)_________________________

e-mail:_________________________________ Representante Legal (somente para categoria Infantil ou menor de 18 anos)

Nome:___________________ _ _ _ _ _ _ _ _ __ _ _ _ _ _ II – Informações sobre a ilustração Título

da

Ilustração:________________________

Categoria: (___)INFANTIL.

(___)ADULTO

Tipo de Papel e Gramatura:___________________ ______________________________________________ ______________________________________________ Técnicas e material:______________________________ ______________________________________________

□ Li e concordo com todos os termos do Regulamento do 1º Concurso Nacional de Mangá Minami Keizi 2010. ________________________________ Assinatura do autor ________________________________ Assinatura do responsável (quando menor)

PARTICIPAÇÃO Este concurso cultural é realizado pelo JORNAL MEMAI - Letras e Artes Japonesas, com sede no Centro Cultural Tomodachi. O evento tem caráter exclusivamente cultural, não havendo qualquer modalidade de sorteio ou pagamento, nem está vinculado à aquisição ou uso de qualquer bem, direito ou serviço. As categorias do concurso serão as seguintes: I -INFANTIL - até 15 anos II-ADULTO - a partir de 15 anos de idade O resultado será divulgado na edição 04 do JORNAL MEMAI, a ser lançada em novembro de 2010. DA INSCRIÇÃO • Cada concorrente pode participar com 1(uma) ilustração. • Os participantes deverão preencher completamente a ficha de inscrição que se encontra ao final do regulamento e entregar com a ilustração, dentro de um envelope A4, lacrado. • Todos os trabalhos deverão ser recebidos até o dia 30/10/2010, às 18 horas, sendo que o JORNAL MEMAI não se responsabilizará por eventuais atrasos e extravios nos casos de cartas enviadas pelo Correio ou por terceiros. Após o término deste prazo não serão aceitos mais desenhos. • Todos os trabalhos enviados pertencerão ao JORNAL MEMAI, que se reserva o direito de utilizá-las, comercialmente ou não. Os trabalhos não serão devolvidos, sob nenhuma hipótese. DA APRESENTAÇÃO A ilustração deverá conter os seguintes requisitos gerais: • Obrigatoriamente seguir o estilo mangá • Ser criação própria e não cópia de obras já existentes, sob pena de desclassificação • Estar em papel tamanho A4 (21x29,7 cm; o tipo papel e da gramatura é livre)  • Título da obra e nome do autor no verso do papel • Temas eróticos, pornográficos ou que retratem cenas de violência são vedadas  • Desenhos que contiverem qualquer tipo de colagens serão automaticamente desclassificados  • É vedada a co-autoria em qualquer categoria do concurso  • Deve ser colorida à mão. Materiais e técnicas são livres (sem o uso de computador). O autor deverá especificar os materiais e as técnicas usadas na ilustração na ficha de inscrição • A organização do evento se

responsabiliza por materiais apresentados com defeito pelo participante. • O participante que ferir disposição legal pátria, responderá por seus atos, ficando a organização do evento, voluntários e colaboradores isentos de qualquer responsabilidade.  DO JULGAMENTO A avaliação dos trabalhos será feita por uma comissão julgadora formada por 03 (três) profissionais indicados pelo JORNAL MEMAI, que avaliarão a criatividade e a técnica, sendo a decisão soberana e irrecorrível. Serão anunciadas as primeiras colocações de cada categoria, sendo que as duas ilustrações vencedoras serão publicadas na capa do JORNAL MEMAI 05. As 20 melhores ilustrações serão expostas na Galeria Virtual do JORNAL MEMAI. INFORMAÇÕES E ENTREGA DAS ILUSTRAÇÕES JORNAL MEMAI / Centro Cultural Tomodachi - Av. Iguaçu, 2513, sobreloja (esquina com a R. Dr. Alexandre Gutierrez) - Curitiba/PR, CEP 80.240-030 Fone (41) 3022-3477 contato@jornalmemai.com.br. CONSIDERACÕES FINAIS • A inscrição dos participantes de até 18 (dezoito) anos só será considerada válida se acompanhada dos dados do menor e de seu responsável legal, bem como autorização por escrito, para a participação do menor neste concurso. • Os participantes e ganhadores deste concurso declaram que os trabalhos enviados são de autoria própria do participante, e, ao mesmo tempo, cedem e transferem ao JORNAL MEMAI, sem qualquer ônus para esta, em caráter definitivo, irrevogável, plena e totalmente, todos os direitos de reprodução, publicação e os demais incidentes sobre os trabalhos enviados, para qualquer tipo de utilização, inclusive para divulgação do resultado deste concurso. Os autores dos trabalhos e, quando menor, seu representante legal responsabilizam-se, isolada e exclusivamente, pelo conteúdo dos trabalhos e estarão automaticamente autorizando ao JORNAL MEMAI o uso de suas imagens e nomes de forma integralmente gratuita, seja para utilização em fotos, cartazes, internet, filmes e/ou spots, e em qualquer tipo de mídia.

Seja um Memaijin, assine o Jornal Memai Sim, aceito assinar o Jornal Memai por um ano - quatro edições - R$ 25,00 (vinte e cinco reais) a ser depositado na Conta de Marilia Kubota - Caixa Econômica Federal - Ag. 370 - Conta corrente 9357-3.

Nome: ________________________________________________________________________________________________ Endereço:_____________________________________________________________________________nº ______________ Complemento _______________Bairro_________________Cidade:____________________________________Estado____ CEP.: _________________________________________________________________________________________________ Fone: (___) _____________________email.: _________________________________________________________________ assinatura: ____________________________________________________________________________________________ Envie esse cupom para o Jornal Memai - Rua Mateus Leme, 314 – Apto. 301. CEP: 80510-190. Curitiba/PR, ou para o email: contato@jornalmemai.com.br, juntamente com o comprovante de depósito.


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MEMAI

FICÇÃO

AKIKO YOSANO (1878-1942) Tanka I

Uma das personagens mais notáveis no cenário da poesia japonesa. Escreveu poemas na forma tradicional (tanka), assim como em vesos livres (shi). Em 1890 Akiko entrou para a Sociedade da Nova Poesia e passou a contribuir para sua revista Myôjô, a convite de Yosano Tekkan (1873-1935), com quem casou-se em 1901, após Tekkan se divorciar de sua primeira esposa. Seu caso de amor com Tekkan a levou a produzir sua primeira e mais famosa coleção de tankas, Midaregami (Cabelos revoltos), editado por Tekkan e publicado pela Sociedade da Poesia Nova. Parte dos poemas aqui apresentados compõem o livro Midaregami (1901), que figura

entre as coleções de tanka mais importantes do Japão. O conteúdo romântico, erótico e dramático de seu trabalho representou significativa inovação na poesia tradicional. A atitude rebelde de Akiko nessa poesia de protesto, de amor, de emancipação das mulheres, de glorificação da sensualidade e do corpo feminino fez de Midaregami um livro histórico e moderno. Yosano Akiko publicou mais de 20 coleções de tanka. O poema em versos livres escrito para o irmão convocado para a guerra, “Kimi shi ni tamau koto nakare” (“Não morras, meu querido”), despertou forte crítica quando publicado na revista Myôjô em 1904, em meio ao fervor patriótico da guerra russojaponesa; é um poema bastante apreciado no contexto da literatura anti-guerra. Os poemas da autora estão incluídos em: PAISAGEM URBANA E POESIA JAPONESA CONTEMPORÂNEA, antologia de poesia japonesa, organizada por Raquel AbiSâmara, Sadami Suzuki e Leith Morton, a ser publicada pela Editora Cosac Naify, até o final deste ano. Tradução: Diogo Kaupatez.

À Kiyomizu cruzando Gion lindas flores de cerejeira na noite de luar as pessoas que passam por mim parecem todas lindas Tanka II O destino que Deus me deu ecoa em minha vida meu mundo se acaba escute o som do machado destroçando o koto Tanka III “Kyoto é um lugar de dolorosas recordações...” escrevi até aí quando olhei para baixo e notei a brancura do rio Kamo Tanka IV Quando os sinos dobram em Kyoto nesse dia, nesse instante esqueço de mim nesse dia, nesse instante contigo, penso nela Tanka V Não pensas em tais coisas? não me desejas em sonhos? ó jovem meus rubros lábios não queimam em teu coração? Tanka VI Quando um rapaz entra pelo portão da perfumaria numa noite de luar na primavera na Kyoto de baixo penso: que meigo!

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BRIGADEIRO TOWERS Rua Brigadeiro Franco 2190, entre Av. Visc.Guarapuava e Dr. Pedrosa ao lado do Shopping CURITIBA Plantão no local Tel.: 3232 6894

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Tanka VII Na ponte Shijô a dançarina de rosto maquilado golpeada em sua testa estreita pelo granizo miúdo do entardecer Tanka VIII Para punir os homens por seus numerosos pecados de pele pura e cabelos pretos e longos eu fui feita


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GENTILEZAS E VERDADES:

VIDA

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Percebi que confundia o sentido da palavra gentil – em português – com o da mesma palavra em japonês. Em Japonês, gentil/gentileza significa shinsetsu e envolve o conceito de pais, família com um sufixo que indica sinceridade, mabilidade, agudez.

por Lina Saheki

tia pediu para a gente fazer uma redação sobre nossas férias. Daí que a redação do Yu ficou boa, muito boa mesmo, e eu disse isso pra ele. - Nossa, parabéns!

Yu,

- E sabe o que ele disse? - Com os olhos imensos e meio sem ar, dispara:

Imagem do anime Meu vizinho Totoro

Como um pequeno furacão, Mochi entra na sala escancarando a porta. Traz aquela expressão de criança com raiva que só a inocência permite. - O que foi, meu amor? , pergunto, enquanto a ajudo a se livrar da carga de livros quase tão pesada quanto ela. - Foi o Yu, mamãe. Foi o Yu, ele me chamou de mentirosa. E eu não sou mentirosa! Não sou!, responde a irada Mochi. - Mas, como assim, filhinha?O Yuki é tão educado.Tenho certeza de que jamais diria uma coisa dessas. Vai ver foi só um mal entendido. – Afago seu rosto e a coloco sobre meus joelhos. Conta essa história direitinho, tenho certeza que ele não quis dizer isso. - Mas mãe, é isso mesmo que a senhora ouviu: men-ti-ro-sa! Eu? – Afogueada e agitando as mãos, ela começa a narrar os fatos. - Foi assim. Hoje, lá na escola, a

- Obrigado, você é muito gentil! -Vê se pode mamãe, me chamar de gentil, de gentil! – Por quê, mamãe, por quê? Eu nem fiz nada para ele... - Mas filhinha, foi só isso? – pergunto, ainda sem atinar para o motivo da zanga. - Só isso!? Você não ouviu, mamãe? Gentil! Ele disse que eu fui gentil, ah! (e sai rodando pela sala com as mãos para o alto). - Meu amor! – Trago seu corpo junto ao meu: Você por acaso sabe o que é gentil? - Sei sim, mamãe! Fui olhar no dicionário, quer ver? Com um pulo se levanta e corre para o escritório, de onde traz o dicionário. E vem recitando: – Gentil. 1 caráter ou qualidade do que é polido. 2 atitude gentil; cortesia, civilidade. Gentileza. 1 conjunto de formalidades, de palavras e atos que os cidadãos adotam entre si para demonstrar mútuo respeito e consideração; boas maneiras,

civilidade, cortesia. 2 o fato e a maneira de observar essas formalidades. - Viu só? Viu só? Ele me chamou de mentirosa! De mentirosa! Continua a protestar a pequena aprendiz da verdade, enquanto gotinhas de incompreensão brotam de seus olhos. -Você entende mamãe, entende? Não falei só para ser educada ou respeitar as boas maneiras: falei porque era verdade! Então, porque ele me disse aquilo? -– Eu não sou gentil! Não sou! E assim, enquanto a pobre menina que não quer ser chamada de gentil continua a soluçar, eu a abraço forte, com o sorriso terno de quem foi tocada por um anjo. P.S. Escrevi essa pequena história há algum tempo atrás, quando percebi que confundia o sentido da palavra gentil – em português – com o sentido da mesma palavra em japonês. Pois em japonês gentil/gentileza significa [ 親切]shinsetsu - e envolve em sua construção o conceito de pais, família [親] com um sufixo de adjetivação [切] que indica sinceridade, amabilidade, agudez. Assim, imaginem que quando alguém falava algo como:Fulana foi só gentil com ela. Ela não acha isso não, aquilo foi só para ser gentil. Eu na verdade entendia a frase, de forma completamente errada. Depois disso, já não consigo sorrir tanto quando alguém faz algo só por gentileza e opto por continuar a confundir em meu cotidiano ‘gentil por cortesia’ com ‘shinsetsu por amor a família’. Lina Saheki (lsaheki@gmail.com) é Diretora do Centro Cultural Tomodachi, professora de japonês e mestre em Direitos Humanos.

Jornal Memai - Edição 04  

Jornal de Letras e Artes Japonesas

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