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Jornal de Letras e Artes Japonesas Edição 01 - Curitiba - Novembro de 2009 LEMINSKI _ WABI SABI _ FERNANDA TAKAI _ NENPUKU SATO _ SHOUJO


Jornal de Letras e Artes Japonesas Edição 01

Isshin Denshin: Mais zen

O GATO WABI SABI Siamês, angorá ou uma nova espécie hibrida ? Não se trata de um cruzamento genético inusitado. É a “tentativa de contemplação e aceitação silenciosa da realidade em toda a sua finitude.” por Lina Saheki

No início deste ano eu e meu marido adotamos uma gatinha para nos fazer companhia. Seu nome é Foo. Não que Foo signifique alguma coisa, apenas gostamos da sonoridade do nome quando a veterinária comentou que no momento que a levássemos para casa a nossa outra gatinha iria fazer “foo” para ela por um bom tempo. Rimos, e acabamos adotando o nome. Bem, a verdade é que Foo, quando chegou, estava bem longe de ser um modelo de beleza felina. Mestiça de siamês com angorá, ela é uma gatinha bege com manchas marrons irregulares, com a orelha direita ligeiramente maior do que a esquerda e caprichosamente vesga. Na época, ela estava gripada e com fungos que deixavam crostas e buracos na pelagem. Por suas características, logo a apelidamos de “gato wabi-sabi”. Wabi-sabi é uma percepção estética muito própria da cultura japonesa. Considerado de difícil, senão impossível, definição – é muito mais uma tentativa de contemplação e aceitação silenciosa da realidade em toda a sua finitude. O olhar wabi-sabi busca reconhecer na impermanência e na imperfeição inerente à natureza, a consagração da beleza em sua totalidade. Dito assim, esse conceito embora possa parecer de fácil compreensão intelectual, na vida prática prova ser um desafio de aplicação, ainda mais na sociedade contemporânea que parece ter uma sede insaciável pelo novo, moderno e jovem. Conseguir contemplar e aceitar a beleza das marcas deixadas pelo tempo -seja na cerca da casa que está com a tintura desbotada, seja no bule que já está enferrujado e torto, ou nos sinais de nossa própria velhice que

lidade, como nos remete com freqüência o símbolo do Tao. A vida perfeita é aquela que contempla e aceita as imperfeições, e não aquela que não possui imperfeições, pois essa última é incompleta e, portanto, nãoperfeita. Assimétrica, irregular e impermanente assim é a natureza da vida, e assim é a estética wabi-sabi. Perceber a beleza do imperfeito e superar esse próprio conceito de imperfeito, nesse mundo que busca a “perfeição” a qualquer custo. Será que conseguimos? Enquanto busco respostas para o meu desafio diário de viver uma vida mais wabi-sabi, a minha gatinha, sem consciência desses paradoxos ou de sua falta de simetria brinca feliz – soberana e perfeita – em toda a sua imperfeição. É, tenho muito a aprender com ela. Lina Saheki é diretora do Centro Cultural Orienta Tomodachi, professora de japonês, especialista em ética e mestre em Direitos Humanos.

não tarda em chegar, - prova ser um exercício constante de meditação.

Aceitar a beleza das marcas deixadas pelo tempo - no bule já enferrujado e torto, ou nos sinais da própria velhice prova ser um exercício constante de meditação. Nesse sentido, aceitar a beleza como um todo que supera a dualidade bonito/feio, jovem/ velho, bom/mau parece nos aproximar, inclusive, da própria percepção taoísta de tota-

Dizia-se, do nipólogo Donald Richie, que ele tinha adquirido uma “febre japonesa”, quando abandonou a carreira militar e resolveu morar no Japão. Richie se tornou um importante interlocutor da cultura japonesa e ajudou a divulgar artistas japoneses no Ocidente, como o cineasta Yasujiro Ozu. Richie, Lafcadio Hearn, Donald Keene são apenas alguns americanos que foram contagiados pelo MEMAI – a vertigem pela cultura japonesa. Muitos artistas continuaram caindo nesta vertigem, como o poeta Paulo Leminski, que amava a cultura japonesa. Em 2009 completamos 20 anos sem o polaco zen. Faixa preta de karatê, frequentemente posava usando um quimono, como na foto da capa, feita num momento de descontração pelo fotógrafo Carlos Alberto Zanello (Macaxeira). Como conta em seu perfil, o jornalista Célio Yano, o tradutor de Sol e Aço conhecia a língua japonesa apenas cantando de ouvido, o que não o impediu de recriar o haicai com lirismo e humor brasileiros e o sabor adstringente japonês. Outra que se rendeu ao niponismo foi a cantora Fernanda Takai, vocalista da banda pop Pato Fu. A artista plástica Sandra Hiromoto (fã confessa) revela o lado japonês da dona de voz macia, uma das mais afinadas do pop nacional. Nesta edição ainda lançamos o personagem Chibi Seto, criado pelo cartunista Guilherme Match. Chibi Seto é uma homenagem descarada ao “padrinho” do JORNAL MEMAI: o múltiplo Claudio Seto. E também relançamos o Concurso de Haicai Nenpuku Sato. O certame, realizado no Centenário da Imigração Japonesa, foi rebatizado com o nome do poeta grafado á japonesa. A partir da próxima edição publicaremos os melhores haicais recebidos, julgados pela haicaista Teruko Oda. Mais novidades? É só folhear o jornal. Agora com 16 páginas: mais leitura vertiginosa!

言 葉

Kotoba

CONTAGIADOS PELA FEBRE JAPONESA

Marilia Kubota Equipe: Editora: Marília Kubota - Colaboradores: Carlos Alberto Zanello (Macaxeira), Célio Yano, Ignácio Dotto Neto, José Marins, Guilherme Match, Lina Saheki , Mylle Silva, Sandra Hiromoto, Simonia Fukue, Suzana Inokuchi, Tereza Yamashita e Teruko Oda. Montagem de Sandra Hiromoto sobre fotos de Macaxeira e Gabriela Lima (Capa) Programação visual: Diogo Saito Takeuchi Apoio: Curso de Letras Japonês da Universidade Federal do Paraná e Associação Paranaense de Ex-Bolsistas Brasil- Japão. Contatos: - 2 - contato@jornalmemai.com.br – Correspondências: Av. Jaime Reis, 28 - sobreloja - 8050-010 - São Francisco - Curitiba – PR. - Assinaturas: 4 edições R$ 25


SUMĂ RIO

LEITURAS Naomi ĂŠ uma obra com elementos tĂ­picos de Junichiro Tanizaki, nomeadamente na temĂĄtica da obsessĂŁo, que tem um lugar de destaque qualitativo na generalidade da obra. Passa-se no inĂ­cio do sĂŠculo 20 , era do “desenvolvimentoâ€? e da “modernizaçãoâ€? do JapĂŁo atravĂŠs da aceitação de modelos ocidentais. O livro ĂŠ percorrido por um forte simbolismo nas relaçþes entre o Ocidente e o JapĂŁo espelhadas na relação amorosa de Naomi e de Joji. É o fascĂ­nio pelo Ocidente que une o casal protagonista da histĂłria e ĂŠ essa relação que faz deste livro uma obra peculiar e muito simbĂłlica.

ISSHIN DENSHIN: GATO WABI SABI 























































































































YUGEN: O POLACO NEGRO ZEN 



















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Sara F. Costa, Escritora e Mestranda em LĂ­nguas e Culturas Orientais pela Universidade do Minho, Portugal.

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SHI: HAIKU PIMENTA COM ASAS LIBÉLULA SEM ,







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Com o coração do outro lado do mundo, de Tânia Alexandre Martinelli, com ilustraçþes de Mozart Couto ( Editora Saraiva, 2009, 128 påginas, 4ª edição), Ê um ótimo livro juvenil. Nele a autora conta a história da separação da adolescente Laís e de seus pais, que resolvem ir trabalhar no Japão. Baseado em um caso real, Tânia abordou o tema com muita sensibilidade e poesia. No romance, temos a difícil fase da vida: a adolescência, agravada pela ausência dos pais.

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KARUMI: SUPER SENTAI 4





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KARUMI: SHOUJO .

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Tereza Yamashita ĂŠ designer grĂĄfica e escritora infantojuvenil.

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FU: FERNANDA TAKAI 4





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Obras mais famosas de Kawabata: O País das Neves, O País das Belas Adormecidas, Mil Tsurus, Dançarina de Izu, Contos da Palma da Mão.







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HĂĄ um teatro delicado no gestual e nas falas do texto de Yasunari Kawabata. NĂŁo fossem alguns raros sinais de modernidade -o telefone, por exemplo-, lerĂ­amos uma obra sem idade sobre figuras arquetĂ­picas. O que sentimos de contemporâneo ĂŠ justamente a indefinição, a inconclusĂŁo das cenas, a neblina que suaviza o drama e transforma a todos em figuras de sonho, sob a sombra exigente de mil anos de histĂłria. Como se frisou no discurso de recepção do PrĂŞmio Nobel que Kawabata recebeu em 1968, quatro anos antes de se suicidar, encontra-se nele uma clara tendĂŞncia de â&#x20AC;&#x153;nutrir e preservar uma tradição de estilo genuinamente nacionalâ&#x20AC;?. (Reprodução de artigo publicado no jornal Folha de S.Paulo, em 13/08/2006)

CristĂłvĂŁo Tezza, escritor , autor do romance O Filho Eterno, que arrebatou os maiores maiores prĂŞmios literĂĄrios do paĂ­s.

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Jornal de Letras e Artes Japonesas Edição 01

Yugen: Paulo Leminski

O POLACO NEGRO ZEN Distante do lugar-comum, Paulo Leminski uniu genialidade a influências de toda sorte e, vinte anos após sua morte, segue como um dos principais difusores do haicaísmo em terras brasileiras por Célio Yano

Duas décadas após a morte, ainda é estudado e cultuado como o núcleo de um movimento cultural único que passou pelo país. Nasceu como Paulo Leminski Filho, filho de Paulo Leminski e Áurea Mendes Campos. Ainda criança, morou em Itapetininga, São Paulo, e em Itaiópolis, Santa Catarina, antes de retornar à capital das araucárias. Entre os 13 e os 14 anos viveu no mosteiro de São Bento, em São Paulo, onde estudou, entre uma aula de ensino religioso e outra, latim, francês e hebraico. E no mesmo reduto beneditino, por meio de D. João Mehlmann, teve os primeiros contatos com as chamadas “filosofias orientais”, segundo relata o jornalista e amigo Toninho Vaz, biógrafo do escritor. Poliglota, estudava japonês na década de 1960 quando começou a se interessar pela poesia de Helena Kolody, que desde os anos 40 trabalhava com o haicai. Gostou da distinta forma de literatura e dedicou-se aos estudos e sua produção, embora não tenha se tornado fluente no idioma japonês, como muitos acreditam até hoje. “Ele identificava alguns ideogramas, apenas”, afirma a poeta Alice Ruiz, casada com Leminski durante 20 anos. Aos 18 anos participou da Semana Nacional de Poesia de Vanguarda, em Belo Horizonte, e conheceu os irmãos poetas Augusto e Haroldo de Campos e o professor Décio Pignatari, representantes do movimento concretista e que, de imediato, fascinaram-se pela precocidade do jovem curitibano. Dali, foi apenas um ano para Leminski publicar seus primeiros poemas na revista concretista Invenção. Até sua morte, foram 13 livros, de prosa, poesia, biografia e fotografia. Chegou a cursar Direito na Universidade Federal do Paraná (UFPR), mas desistiu e direcionou sua formação para a área de Filosofia, curso que concluiu em 1965 pela Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUCPR). Em 1968 casou com Alice Ruiz, com quem teve três filhos – Miguel Ângelo, Áurea e Estrela – antes de se separarem. Além de poeta e escritor, trabalhou como professor de história e redação em cursos pré-vestibulares, diretor de criação e redator em agências de publicidade, jornalista, crítico literário e tradutor. Fez até roteiros de histórias em quadrinhos para a extinta editora curitibana Grafipar.

Samurai zen-budista O escritor, poeta, tradutor, filósofo, publicitário e etcétera Paulo Leminski foi tudo, menos o óbvio. Fugiu das regras desde o início, quando, em 24 de agosto de 1944 veio ao mundo: apesar de nascer em Curitiba, deslanchou e teve seu trabalho reconhecido a partir da capital paranaense, numa época em que poucos nomes de fora do eixo Rio-São Paulo despontavam nacionalmente. Filho de pai polonês e mãe negra, foi um dos principais difusores brasileiros da hoje mais conhecida forma de poesia japonesa: o haicai.

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Em abril de 1977, época em que escrevia para o Diário Popular, confirmava sua paixão pela cultura oriental ao publicar oito koans em uma edição especial do suplemento Anexo. O tema do caderno era ‘Zen e as artes marciais japonesas’. Seis anos mais tarde, lançou Matsuo Bashô, biografia do poeta


japonês que codificou e estabeleceu a forma entre outros. A mais ouvida canção é prováclássica do haicai. vel que tenha sido Promessas Demais, que era Abra-se um parêntese. Eclético no reproduzida diariamente na Rede Globo, na sentido amplo da palavra, Leminski não se abertura da novela Paraíso, de 1982. deixava influenciar apenas pelos japoneses. Alternativo ao extremo, teve por A prosa poética Metamorfose, por exemplo, diversas vezes o nome ligado à cultura pop. surgiu a partir de seu interesse pelos mitos Com Guilherme Arantes assinou a trilha sogregos. Como tradutor, verteu para a língua nora de Pirlimpimpim 2, programa infantil portuguesa obras, do francês, como Superexibido na emissora de Roberto Marinho. macho, de Alfred Jarry, do inglês, como PerSe entre os jovens de hoje poucos leram o gunte ao Pó, de John Fante, e Um atrapalho Catatau, sua obra-prima lançada em 1975, no trabalho de John Lennon, e até do latim, é difícil encontrar alguém que desconheça como Satyricon, de Petrônio. a Pedreira Paulo Leminski, que desde 1990 Em 1985, com assessoria de Elza Taacolhe espetáculos do clássico ao rock, do sereko Doi e Darci Yasuko Kusano, traduziu Sol tanejo ao religioso. E até as crianças devem e Aço (‘Taiyo to Tetsu’), que Yukio Mishima se lembrar de ao menos um dos poemas do escrevera em 1968. No ensaio, o japonês, que cachorro louco que eram lidas no Castelo Rácometeria o harakiri em 1970, faz um tratado Tim-Bum, da TV Cultura. sobre o corpo e fala sobre a morte prematura. Dor Elegante Ciente ou não de que o esgotamento precoce seria seu próprio destino, Leminski nunca deiPersonagem de uma vida tão ou mais xava de se envolver pelas obras por que passava. interessante que a própria obra, deu um fiQue motivos o levaram ao interesse nal típico de romance europeu do século 19 pelo arquipélago do outro lado do mundo, para sua biografia. Entusiasta do budismo ninguém sabe. Mas a ligação com o Japão do apesar de polaco, era boêmio apesar de erusamurai zen-budista, como se autointitulava, dito, e desde cedo trilhou não se restringia à literatura. Duas décadas após a um caminho sem volta pelas “Tudo começou com o inmorte, ainda é estudavias do alcoolismo. O gatilho gresso dele no judô, aos 22 anos”, conta Alice Ruiz, que do e cultuado como o para a aventura derradeira foi lembra que culinária japone- núcleo de um movimen- a morte prematura do filho primogênito, Miguel Ângelo sa estava entre as preferências to cultural único que Leminski, que, em 1979, aos do ex-companheiro. E, de passou pelo país. 10 anos de idade, deixou o fato, até os últimos anos de pai órfão em consequência de sua vida, contam os amigos, um câncer. orgulhou-se de ser faixa preta Amigos tentavam de todas as formas na arte marcial. demovê-lo das pás etílicas que cavavam seu É na década de 1980 que surge a detúmulo, mas Leminski parecia ter a mais plefinição samurai zen-budista, que soma-se a na consciência de seu destino. Em seus úloutros epítetos, como a besta dos pinheirais timos anos gostava de enaltecer a figura de e cachorro louco. Por Haroldo de Campos Mishima, como forma de justificar atentados o denominava Rimbaud curitibano, e o cicontra a própria vida, ainda que involuntáneasta Júlio Bressane, caipira cabotino. Para rios. Morreria em uma fria noite do inverno Toninho Vaz foi o bandido que sabia latim. de 1989, vítima de cirrose hepática e possiO Rio que Vai velmente tranquilo como vivia. “Quanto à morte, eu sou nipônico. Eu nunca me conLetrista e músico foram outras atrifrontei com situações limites mas não tenho buições que o poeta kamikaze cumpriu com medo da morte”, disse certa vez. habilidade, em parcerias que fez com Caetano Célio Yano é jornalista do Site RPC e estudante de Veloso, Moraes Moreira, Zeca Barreto, CarLetras-Japonês da Universidade Federal do Paraná los Careqa, Ivo Rodrigues, Arnaldo Antunes,

POEMAS aqui jaz um grande poeta. nada deixou escrito. este silêncio, acredito, são suas obras completas. aqui nesta pedra alguém sentou olhando o mar O mar não parou para ser olhado foi mar pra tudo que é lado

Tudo dito, nada feito, fito e deito

se nem for terra se trans for mar

ameixas ame-as ou deixe-as

Essa idéia ninguém me tira matéria é mentira

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Jornal de Letras e Artes Japonesas Edição 01

Shi: Haiku

PIMENTA COM ASAS LIBÉLULA SEM

O haicai no Brasil teve duas escolas, uma vinda da Europa, introduzida por Afrânio Peixoto e outra, do Japão, trazida por Nenpuku Sato. A via francesa, seguida por Afrânio Peixoto, ganhou muitos adeptos e o mais famoso discípulo é Guilherme de Almeida. As duas escolas geraram vários outros estilos. Neste artigo, o poeta José Marins situa o haicai no Paraná e mapeia os estilos da forma poética japonesa que se tornou expressão nacional.

OS CINCO ESTILOS DO HAICAI NO PARANÁ por José Marins

O primeiro haicai feito no Brasil tem raízes japonesas. Foi realizado a bordo do Kasatomaru, navio que trouxe a primeira leva de imigrantes do Japão. Em 18 de junho de 1908, o poeta Hyokotsu (Shuhei Uetsuka, chefe dos imigrantes), escreveu: karetaki o / miagete tsukinu / iminsen A nau imigrante chegando: vê-se lá no alto a cascata seca. (Tradução Masuda Goga)

O ESTILO JAPONÊS O estilo japonês de fazer haicai chega ao Paraná com os primeiro migrantes que saíram do estado de São Paulo e se fixaram no Norte (Londrina, Assai, Urai). O haicai continuará sendo escrito em japonês nas aulas de um mestre da arte haicaística: Nenpuku Sato. As características do estilo japonês são: ser vivencial (o poeta registra as sensações junto à natureza), sempre em língua japonesa, mantém na estrutura 17 sons, contém o termo de estação (kigo), não trazem rimas e uso de uma linguagem simples. Alguns haicais de NENPUKU : A lua se insinua na alvura perfumada do cafezal florido Sementes de algodão. Minhas mãos agora são as do vento Mudou a moça

que tira a água do poço – uma borboleta. Haicais de alunos de Sato: Depois dos sessenta minha voz está tranqüila. Mesma voz do outono. Mitio Suguimoto (Londrina) Outra primavera Com novo anel de guizo cobra sai da toca Shinshiti Minowa (Londrina) Hoje é Carnaval O quimono também serve como fantasia. Shigeo Watanabe (Assai) Parada de trem. com o vendedor de flores Vêm as borboletas Sôshi Nakajima (Assai) Estalos no alto, Ouço o som de pinhões caindo na tarde de sol. Seizo Watanabe, (Curitiba)

O ESTILO KOLODYANO Em 1941 a poeta Helena Kolody se torna a primeira mulher a publicar haicai no Brasil, ao lançar o livro Paisagem Interior, no qual havia três haicais. Destaco um deles, famoso:

Nas manhãs de frio a paisagem, tiritando, se veste de branco Delores Pires (Curitiba) Renovação Pessegueiro em flor Prenúncio de primavera Reprise de amor. Diva Ferreira Gomes (Curitiba) Noite No quadro-negro vou soletrando um alfabeto de estrelas O esquema: João Manuel Simões (Curitiba ) –––– A O ESTILO GUILHERMINO – B–––– B –––– A Guilherme de Almeida foi um dos poetas que mais auxiliou na divulgação do haicai no país. Porém, sua maneira de fazer haicai distanciou-se muito da origem do poema. (O que não quer dizer que isso fosse ruim. Os japoneses adoram os haicais guilherminos, um deles era o mestre Masuda Goga, amigo pessoal de Almeida). Guilherme de Almeida criou um modelo para se fazer o haicai, no qual entrava a métrica perfeita e quatro rimas. Duas combinavam-se no final do primeiro verso, com o final do terceiro. E duas, internas, rimavam-se a segunda sílaba com a sétima no segundo verso. O “haicai”

Arco-íris Arco-íris no céu. Está sorrindo o menino que há pouco chorou. Helena Kolody (Curitiba) Características do haicai kolodyano: Usa: título (elemento que não existe no estilo japonês); às vezes a métrica; noutras a rima; a personificação (antropomorfismo); e a linguagem poética (uso da metáfora). A maneira marcante de Kolody realizar seus haicais teve grande influência em alguns poetas. Geada

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Lava, escorre, agita a areia. E, enfim, na bateia fica uma pepita. Pescaria Cochilo. Na linha Eu ponho a isca de um sonho. Pesco uma estrelinha. História de algumas vidas Noite. Um silvo no ar. Ninguém na estação.E o trem passa sem parar.


Características do estilo guilhermino: Coloca acima do terceto um título; usa métrica exata; inclui quatro rimas elaboradas; sua linguagem é a do poema (personificação, metáfora). Alguns poetas que praticam o haicai Guilhermino no Paraná: Temendo o negrume da mata ao som da cascata, sigo um vaga-lume. Leonilda Hilgenberg Justus (Ponta Grossa) Fraternidade

Maresia O dia fugindo No ar um cheiro de mar. A noite vem vindo. Delores Pires (Curitiba)

O ESTILO HAICAI-LIVRE (Free-haiku) Paulo Leminski é quem encarna o principal líder desta forma, que nos anos 80 dominou a cena poética paranaense (curitibana, principalmente). Leminski tinha grande admiração pela cultura e literatura japonesas. Porém, quando praticava o haicai preferia um estilo livre, sempre portador de “haimi” (sabor do haicai). As principais características do estilo livre: Não usa métrica; pode usar rimas; busca o haimi; faz jogo de palavras; e, usa linguagem poética (metáforas, especialmente). soprando esse bambu só tiro o que lhe deu o vento lua na água alguma lua lua alguma jardim da minha amiga todo mundo feliz até a formiga Paulo Leminski (Curitiba) amigo grilo sua vida foi curta minha noite vai ser longa

tempo de jaboticaba nem bem começa já acaba Domingos Pelegrini (Londrina)

Entre os bóias-frias um casal já bem grisalho colhendo algodão. Neide Rocha Portugal (Bandeirantes) (Em itálico: kigos)

cheguei amargo minha flauta doce nem se toca Eduardo Hoffman (Curitiba)

O ESTILO CLÁSSICO (tradicional): Em 1987, Masuda Goga, juntamente com um grupo de haicaístas, funda em São Paulo o Grêmio Haicai Ipê, com o propósito de estudar e difundir o haicai clássico (com forte ligação com o haikai originário japonês). Alguns haicais de mestre Masuda Goga:

José Marins é haicaísta e escritor, autor de Poezen (haicai); Quiçaça (romance inédito); O Dia do Porco (romance inédito).

CONCURSO NACIONAL DE HAICAI NENPUKU SATO 2010

NENPUKU SATO 2010

Chuva de verão. Na luz, a jovem conduz o avô pela mão. Shyrlei Queiroz (Curitiba)

entre a espuma do mar e a nuvem toda branca o voo da garça Alice Ruiz (Curitiba)

Na folha de amora nutre-se o bicho-da-seda. A quem vestirá? A. A. de ASSIS (Maringá)

semente de ipê amadurecem nas vagens só o vento as leva José Marins (Curitiba)

O JORNAL MEMAI convida os participantes do 21º.Encontro Brasileiro de Haicai a participar do Concurso Nacional de Haicai Nenpuku Sato. Nos 102 anos da Imigração Japonesa ao Brasil o jornal resgata o concurso realizado no Centenário da Imigração Japonesa. Na edição 2010 haverá 4 concursos, com premiação em fevereiro (envio até 31/01), maio (envio até 31/04), agosto (data a ser publicada no site) e novembro (data a ser publicada no site). Os melhores poemas serão publicados na página de haicai do jornal. Não haverá premiação em dinheiro. Os vencedores receberão livros de literatura japonesa e nipo-brasileira enviados ao JORNAL MEMAI para efeitos de divulgação. Os poemas inscritos devem seguir as regras do haicai japonês, como descritos no Site Caqui (WWW.kakinet.com.br) e difundidos pelos grêmios de haicai em todo o Brasil.: ter um kigo, seguir a métrica, não ter título, rima nem subjetividade. Os trabalhos (até 3 poemas) devem ser enviados para:

Um salto no abismo e o mergulho na mata. Cascata na serra. Sérgio Francisco Pichorim (São José dos Pinhais)

JORNAL MEMAI: Concurso Nenpuku Sato Rua Jaime Reis, 28 – São Francisco 80.510-010 – Curitiba - PR

Libélula voando Pára num instante e lança a sombra no chão Inúmeras flores nos túmulos de Finados – Na alma só saudade.

No ar pétalas dançam Qual flocos de neve a cair Pereira em flor. Características do haicai clássico (haiku): É vivencial (experiência do poeta junto à natureza); sem título; usa métrica 17 sílabas; contém o kigo (termo designativo de estação); sem rimas; e, usa linguagem simples. tal a brevidade daquela estrela cadente fugiu-me o pedido

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Jornal de Letras e Artes Japonesas Edição 01

Karumi: Super Sentai

ESTES INCRÍVEIS GUERREIROS E SEUS ROBÔS GIGANTES Antes dos Power Rangers, os Super Sentai já faziam sucesso na tevê brasileira. Eram seriados em que os heróis usavam robôs gigantes como armas para salvar o planeta de terríveis ameaças. Caia de cabeça no maravilhoso mundo dos enlatados japoneses. por Danilo Hatori

Cinco guerreiros, cada um usando um uniforme de cor diferente, lutando para salvar o planeta Terra de monstros terríveis, exaltando valores como o trabalho em equipe e a amizade. Para os mais novos logo vem à mente a imagem dos Power Rangers. Já o pessoal com um pouco mais de idade lembra os seriados que passavam na extinta TV Manchete nos anos 80 e início dos anos 90, como Changeman e Flashman. O que poucas pessoas sabem é que essa história de guerreiros coloridos usando robôs gigantes combatendo o Mal é uma tradição japonesa, com mais de 30 anos de existência. São os Super Sentai (que pode ser traduzido como “Super Esquadrão”,) um dos seriados mais tradicionais entre os tokusatsus, (abreviação de tokushu satsuei: “filmes de efeitos especiais”), e representam o estilo de programas japoneses de heróis usando atores de verdade. Tudo começou em 1975, quando o famoso desenhista de mangá Shotaro Ishinomori, criador de séries como Cyborg 009 e Kamen Rider, concebeu a história de cinco jovens recrutas japoneses. Estes jovens eram membros de uma organização de defesa da Terra chamada EAGLE, e sobrevivem a um ataque terrorista de uma sociedade secreta que ameaça o planeta. Eles recebem trajes especiais, cada um de uma cor, ganhando poderes sobre-humanos e armas para defender a humanidade. Este é o enredo de Himitsu Sentai Goranger (“Esquadrão Secreto Goranger”), produzida pela Toei Company e exibida pela TV Asahi. A série é considerada precursora do gênero Sentai na tevê japonesa. Goranger foi um sucesso, tendo 84 episódios e terminando em 1977. Levou Ishinomori a criar, no mesmo ano, a segunda série do estilo: J.A.K.Q. Dengekitai (“Grupo Relâmpago J.A.K.Q.”). J.A.K.Q. não teve o sucesso da antecessora, sendo extinta no final do mesmo ano com apenas 35 episódios. Apesar de terem a mesma temática, estas séries ainda não eram consideradas Super Sentai. Não tinham robôs e monstros gigantes, elementos adicionados nas séries posteriores. Após o insucesso da última série, Ishinomori parou de criar heróis no estilo Sentai. O gênero foi retomado apenas em 1979. Neste período a Toei Company mantinha parceria com a empresa de quadrinhos Marvel, dos Estados Unidos, chegando a produzir uma versão nipônica em formato tokusatsu do Homem-Aranha. Nesta versão o herói aracnídeo usava um robô gigante, Leopardon, inexistente no Universo Marvel. A partir dessa parceria surgiu a terceira série dos Sentai, Battle Fever J, que reunia cinco heróis de diversos lugares do mundo. Incluía -8-

o líder, Battle Japan, inicialmente inspirado no herói da Marvel Capitão América, e a Miss América, dos Estados Unidos, homônima de uma das heroínas da empresa americana. A série foi a primeira a usar um robô gigante, artifício explorado em todos os pro-

A franquia Power Rangers usava cenas de luta das personagens japonesas e tinha roteiro mais próximo do Ocidente. gramas posteriores, sendo a primeira a receber o título de Super Sentai. Battle Fever J foi transmitida até o início de 1980, substituída por Denshi Sentai Denjiman (“Esquadrão Eletrônico Denjiman”), iniciando o rodízio anual das séries Super Sentai vigente até hoje, com a exibição do 33º programa do gênero, Samurai Sentai Shinkenger (“Esquadrão Samurai Shinkenger”).

Super Sentai no Brasil No final dos anos 80 e início dos 90 o Brasil passou um período em que os seriados japoneses eram moda na tevê. Grande parte do sucesso aconteceu graças a Dengeki Sentai Changeman (“Esquadrão Relâmpago Changeman”). O seriado, junto com O Fantástico Jaspion, abriu espaço para várias séries de tokusatsu. As redes de tevê brasileiras exibiram outras três séries: as sucessoras de Changeman, Choushinsei Flashman ( “Comando Estelar Flashman”) e Hikari Sentai Maskman (“Defensores da Luz Maskman”), e Dai Sentai Goggle Five (“Gigantes Guerreiros Goggle Five”). Esta, apesar de anterior à Changeman, foi a última a ser exibida no Brasil. Por ser transmitida para uma audiência saturada de tokusatsu e ter menos qualidade que as outras Super Sentai exibidas, já que foi produzida antes, Goggle Five teve

audiência menor, encerrando o ciclo de Super Sentai originais do Japão trazidas para o Brasil. O gênero voltaria a ter força entre os anos de 1993 e 1994. No lugar de personagens japoneses, os protagonistas seriam cinco estudantes americanos residentes na cidade fictícia de Alameda dos Anjos. Os heróis foram escolhidos pela entidade “Zordon” e o assistente robô Alpha para lutar contra a vilã extraterrestre Rita Repulsa. Era a série Mighty Morphin Power Rangers, produzida pela Saban Entertainment, baseada na 16º série Super Sentai do Japão, Kyoryuu Sentai Jyuuranger. Haim Saban, o dono da empresa, adquiriu, junto à Toei os direitos de exibição dos tokusatsu, mas resolveu produzir adaptações que usavam cenas de luta das personagens e tinham roteiro mais próximo do Ocidente. Assim iniciou a franquia Power Rangers, que usou o mesmo sistema para todos os Super Sentai produzidos a partir de Jyuuranger. Apesar de apresentar discrepâncias em relação ao original japonês, como no caso da Ranger Amarelo de Mighty Morphin Power Rangers - originalmente um homem,na adaptação se tornou mulher - a franquia fez sucesso. No Brasil as redes de tevê normalmente transmitem episódios com um ano de atraso em relação aos EUA , e o seriado continua a ser bem-sucedido entre as crianças. Mas não existe previsão para que as séries japonesas voltem a ser exibidas no formato original, obrigando os fãs a procurar material na internet e aguardarem nova fase para os tokusatsu na tevê brasileira. Danilo Hatori é estudante de jornalismo e já trabalhou no Jornal Paraná Shimbun, de cultura japonesa. Atualmente é colaborador do blog Tadaima e do site Sake com Sal. Mas só quando não está ensaiando com a Banda KANPAI


Karumi: Shoujo

SHOUJO, O MANGÁ QUE CONQUISTA ADOLESCENTES Enquanto no Japão as revistas Shoujo servem de vitrine de inúmeras propagandas para as adolescentes, no Brasil essas mesmas estórias fazem com que as meninas leiam mais quadrinhos. por Mylle Silva

Apesar de boa parte das meninas ler A Turma da Mônica durante a infância, a maioria delas afasta-se dos quadrinhos na adolescência. Ou melhor, afastava-se. Com o boom dos mangás no Brasil, notou-se um fenômeno muito interessante e que nada tem a ver com samurais, ninjas ou violência: as adolescentes começaram a ler mangás. Isso porque o mercado de mangás é bastante segmentado, ou seja, são publicadas histórias para todos os gostos e idades. O estilo Shoujo, voltado para meninas entre 10 e 18 anos, é capaz de prender a atenção de qualquer adolescente no mundo, por contar romances cheios de magia e dramas psicológicos – bem ao gosto da idade. O primeiro contato com o estilo Shoujo que as meninas tiveram foi através dos animês. Séries como Guerreiras Mágicas de Rayearth e Sailor Moon, exibidas em canais abertos na década de 90, foram bem recebidas pelo público. É interessante observar que essas histórias possuem em seu enredo elementos mágicos, bastante fantasiosos, como Dragon Ball e Cavaleiros do Zodíaco, por exemplo. Apesar de voltadas para meninas, havia uma preocupação em apostar em animações além de meros dramas psicológicos. Mangás como Sakura Card Captors e Guerreiras Mágicas de Rayearth foram alguns dos primeiros voltados para as adolescentes, ambos recheados de magia e estórias de fácil compreensão. Os animês sempre foram o termômetro para a publicação ou não de um mangá por aqui. No entanto, atualmente muitos dos títulos de Shoujo lançados no Brasil nunca tiveram as versões animadas exibidas. Ao todo foram publicados cerca de 30 títulos. Esse número tende a aumentar ainda mais. Muitos, como Nana, Kare Kano, Ouran High School Host Club, nunca foram exibidos nem em canais pagos nem em TVs abertas. Mesmo assim, esses e outros mangás chegaram aqui e fizeram sucesso entre as meninas, atraindo-as para o universo dos quadrinhos, já que algumas delas acabam descobrindo novas possibilidades de leitura através dos mangás. Assim como os espectadores de telenovela, as adolescentes esperam ansiosamente pelos próximos capítulos da estória – cuja publicação pode ser mensal ou bimestral. No mangá Sunadokei, a heroína, An Uekusa, passa por uma série de traumas na infância (separação dos pais, suicídio da mãe) e não sabe bem como lidar com as situações que vão aparecendo na vida. Para ajudar, é obrigada a mudar de cidade, separando-se do namorado. Também descobre que seu melhor amigo é apaixonado por ela, o que a faz sentir-se dividida. Qualquer semelhança com

folhetins televisivos não é mera coincidência, os elementos para se contar uma estória de sucesso são universais, o que muda é a mídia. Outro exemplo é Kare Kano, que começa com a história da divertida Miyazawa Yukino, uma menina que se finge de perfeita só para inflar o próprio ego e não admite que ninguém seja mais popular que ela. A situação muda quando encontra Arima Souichiro, um rapaz que aparentemente não faz nenhum esforço para se destacar e ainda por cima declara-se para ela. Depois de alguns desencontros eles ficam juntos e os dramas psicológicos ganham mais destaque, criando mistérios e histórias paralelas, assim como numa novela. Alguns desses títulos, como Colégio Feminino Bijinzaka e Galism podem não agradar as fãs de Sunadokei ou Kare Kano, mas estão conquistando novas leitoras: as mesmas que lêem revistas de horóscopo, por exemplo. A heroína de Colégio Feminino Bijinzaka, En Nomomiya, é atrevida, revoltada e se mete em confusões, fazendo contraste interessante com o que é mostrado sobre as jovens em outros mangás Shoujo – comportadas, apaixonadas e sofredoras. Uma personagem como En Nomomiya é mais parecida com uma adolescente brasileira do que An Uekusa, que mais se parece com uma jovem japonesa. A imagem de uma mulher decidida e independente está mais próxima de nossa realidade que a da moça submissa e indefesa, motivo pelo qual algumas leitoras deixarem de gostar do estilo Shoujo ao atingirem certa maturidade. Portanto é provável que mais títulos como Colégio Feminino Bijinzaka apareçam nas prateleiras tupiniquins.

Em contrapartida às estórias em que o enredo é mais próximo da nossa realidade, não faltam títulos mais fantasiosos e cheios de magia para embalar os sonhos das adolescentes. Vampire Knight, por exemplo, tem como heroína Yuuki Cross, adotada pelo diretor de uma escola para vampiros e não tem outra opção senão conviver com eles. A garota faz parte de um triângulo amoroso, uma vez que dois vampiros parecem ser apaixonados por ela, e muitos outros querem beber seu sangue. Com as facilidades da Internet, as fãs de Shoujo reúnem-se e trocam idéias em comunidades de sites de redes de amigos, blogs, fóruns, mensagens instantâneas ou quaisquer outros meios de comunicação online. A comunidade do Orkut CLAMP Brasil conta com mais de 15 mil membros – uma das maiores na rede sobre o assunto. Por ser um nicho vasto é quase impossível enumerar todas as estórias e estilos relevantes. Independente da proximidade com o universo real, é importante ressaltar que os Shoujos são estórias capazes de gerar certa reflexão por parte das leitoras, por conter tramas carregadas de temas comuns a todos: amor, família, separação, sexualidade, futuro, etc. A experiência da leitura é rica e prazerosa, além de ter o dinamismo característico dos mangás. Portanto, se você ainda não conhece o estilo Shoujo é só ir até a banca mais próxima e procurar por um dos vários mangás do gênero já publicados no Brasil. E tenha uma boa leitura! Mylle Silva é jornalista, criadora do evento AnimeXD e estudante de Letras Japonês da Universidade Federal do Paraná -9-


Jornal de Letras e Artes Japonesas Edição 01

Fu: Fernanda Takai

NUNCA SUBESTIME FERNANDA TAKAI Seu primeiro flerte com o Japão veio com a música “Made in Japan”, sátira à mania tecnológica japonesa. A partir daí Fernanda Takai começou a estreitar o relacionamento com a terra dos avós paternos : fez shows lá, gravou uma versão de “O Barquinho”, em japonês e agora está lançando um trabalho em parceria com a vocalista da banda japonesa Pizzicato Five. por Sandra Hiromoto

por Gabriela Lima

Com a voz doce, afinada e com uma personalidade inconfundível, Fernanda Takai tem conquistado fãs nas mais diversas faixas etárias. Suas canções infantis cativam e envolvem os pequenos com a melodia suave e cheia de afeto. Adolescentes, jovens e adultos se identificam com a banda multinstrumental Pato Fu, da qual Fernanda é vocalista. Takaisan começou a cantar em 1988 e em 1991 se reuniu com os músicos no que seria mais tarde o Pato Fu. A banda, caracterizada por um pop rock criativo e contundente, brinca com as diversas sonoridades em arranjos incríveis e alcançou merecido sucesso no cenário musical. Em 2007, após convite do produtor e jornalista Nelson Motta, Fernanda se lança em carreira solo com o CD Onde Brilhem os Olhos Seus, um tributo a Nara Leão, que já fazia parte da sua memória musical. O CD foi bem recebido pelo público e pela crítica, sendo eleito um dos melhores lançamentos do ano.

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É assim que essa artista tão versátil foi considerada uma das 10 melhores cantoras do mundo fora dos EUA, segundo a Revista Times. A banda Pato Fu também levou junto o mesmo prêmio. Dessa forma, vãose acumulando os diversos prêmios, o mais recente da MTV, como melhor cantora de MPB e o melhor clipe para Kobune.

A bossa nova ainda é muito querida em vários lugatres do mundo e os japoneses talvez sejam um dos povos que mais gostam desse tipo de música Mas o universo de Fernanda Takai não gira só em torno da música. Em 2008 lançou o Nunca Subestime uma Mulherzinha, coletânea de contos e crônicas publicados pela autora nos jornais CORREIO BRAZILIENSE e O ES-

TADO de MINAS, em Belo Horizonte. Fernanda, de descendência japonesa, despertou para o idioma já adulta. Em férias com seu Oditchan e Obatchan, tinha um maior contato com a cultura, comida e costumes, mas sempre foi, segundo ela, de forma muito natural e o interesse no idioma aumentou depois de uma visita ao Japão em 2007. Agora, depois de lançar o CD e DVD ao vivo Luz Negra, Fernanda está produzindo um novo CD em parceria com Maki Nomiya (ex vocalista do Pizzicato Five).* JORNAL MEMAI - Quando surgiu a idéia de gravar músicas em japonês? FERNANDA TAKAI - A primeira vez foi em 1999. O Pato Fu já tinha feito músicas em inglês, italiano, espanhol, francês e justo eu que sou neta de japoneses não tinha tido essa idéia. Então surgiu Made In Japan. A letra foi feita em português e depois traduzida pro nihongo.

* Pizzicato Five – banda pop japonesa ativa de 1985 a 2001. Propagou o estilo shibuya-kei. Maki Nomiya entrou na banda em 1991. ** EP: formato digital que comporta entre 4 e 8 faixas de gravação musicail, com duração média de 15 a 35 minutos.


MEMAI - “Made in Japan”, um grande sucesso da banda teve alguma espécie de inspiração ou foi homenagem a alguém? FERNANDA -A letra fala da vingança tecnológica do Japão depois de sofrer com as guerras e especialmente com a bomba atômica. O assunto é muito sério, mas tocamos nele de uma forma mais leve, bem-humorada. Já no som, o arranjo é totalmente inspirado no Pizzicato Five. MEMAI - Como foi a escolha da música “O Barquinho” para tradução em “Kobune”? Você acredita que a bossa nova também tem a cara do Japão? FERNANDA -Essa era uma das canções que eu poderia ter gravado na edição brasileira do disco, mas como representantes da bossa nova já havia Insensatez e Estrada do Sol. Eu e Nelson escolhemos canções de todas as fases da Nara, não só essa pela qual ficou mais conhecida. Quando o disco ia sair no Japão, precisava ter uma faixa bônus, então pensamos em O Barquinho, porque é uma das mais famosas e não tinha uma versão em nihongo. A bossa nova ainda é muito querida em vários lugares do mundo e os japoneses talvez sejam um dos povos que mais gostam desse tipo de música. Acho que combina sim.

lho (clipes, shows, capas) e transita entre um público um pouco mais sofisticado. Por algumas vezes o Pato Fu foi tido como uma banda assim, meio cultuada aqui no Brasil. MEMAI -De que forma você consegue conciliar ser escritora, vocalista do Pato Fu e sua carreira solo? FERNANDA -Eu administro bem o meu tempo, sou uma pessoa muito disciplinada e tenho bom-humor no dia a dia. Isso ajuda bastante nessas multitarefas. Ainda tenho uma filha de 6 anos e gosto de cuidar da casa! MEMAI -Escrever um livro e crônicas para jornal foi um acaso ou a literatura sempre esteve presente em sua vida ? FERNANDA -Comecei a escrever por causa do convite de outras pessoas. Não pensava em ter uma coluna em dois jornais ou escrever textos pra diversas publicações do Brasil. Foi tudo por acaso. O livro é uma compilação dos textos mais significativos entre 2005/2007. Já tenho o dobro deles agora. Sempre fui mais leitora do que escritora. E sinceramente, ainda continuo assim. Essa minha outra atividade tem só 4, 5 anos. Na música me sinto mais à vontade porque já são 17 anos de carreira.

MEMAI - Em seu livro você aborda com ternura as relações com seus avós japoneses. Como MEMAI - Por que você decidiu lançar um eles influenciaram sua formação como artista ? EP** e não um CD do Pato -Acho que Tive vontade de aprender FERNANDA Fu com a banda japonesa de me influenciaram mais o idioma quando estive como pessoa mesmo e já Maki Nomiya ? FERNANDA -O EP saiu pela primeira vez no Japão. que a música vem dessa em outubro, pela Taiyo Gostei demais do país e das nossa bagagem de sensibiliRecord em parceria com dade, atenção, observação, a Road & Sky. É um pro- pessoas e achei que sendo recriação e rearranjo de elejeto solo meu e da Maki, neta de japoneses tinha a mentos diversos, a presença não é Pato Fu. O EP é obrigação de conhecer mais da minha família, não só um formato que dá certo do lado oriental, mas tamsobre a cultura. comercialmente no Japão bém a da minha mãe - que e para uma primeira experiência juntas, era é de origem portuguesa - me faz ser o que mais viável em termos de produção, tempo sou. e orçamento. Aqui no Brasil sairá apenas em formato digital. MEMAI -Sabemos que você tem frequentado nihongakko, como surgiu essa necessidade? MEMAI -Maki Nomiya citou vocês como uma FERNANDA -Frequentei a escola no pribanda estilo shibuyakei, Poderia nos explicar esse meiro ano e depois fiquei tomando aulas parestilo e como o Pato Fu se insere neste contexto? ticulares. Tenho até estado afastada das aulas FERNANDA -Quando fizemos nosso arrandesde o fim de maio porque minha agenda jo de Made In Japan, usamos o máximo de ficou bem complexa. Não gosto de ir à aula, elementos com referência ao Pizzicato Five sem estudar, é preciso fazer direitinho as lique é considerada a banda mais famosa do ções. Então combinei com minha sensei que estilo shibuyakei. Esse tipo de som se traduz assim que tivesse mais disponibilidade, voltanuma banda que tem bastante estilo, é moria à ela. Daí eu faço uma revisão sozinha por derna, cuida muito da parte visual do trabauma semana e volto ao ritmo normal. Tive

vontade de aprender o idioma quando estive pela primeira vez no Japão. Gostei demais do país e das pessoas e achei que sendo neta de japoneses tinha a obrigação de conhecer mais sobre a cultura. Nada como estudar a língua pra conhecer melhor um povo. MEMAI - Você se considera uma nikkei? Como isso influencia no seu modo de vida? FERNANDA -Sim, desde o uso do meu nome verdadeiro profissionalmente à admiração que tenho por minhas origens nipônicas. Gosto muito de pensar que tenho algumas das qualidades de um nikkei como a responsabilidade e dedicação verdadeira ao trabalho e à família. Agora os defeitos devo ter também, mas não precisamos listá-los, não é? Tento ser sempre uma pessoa correta e ao mesmo tempo me sinto feliz com tudo o que vou realizando aos poucos. Sandra Hiromoto é artista plástica e designer. Participou de mostras coletivas e salões de arte nacionais, recebeu diversos prêmios. Expôs em Ehime, Kumamoto, Yokohama e Kobe no Japão, Ceuta e Madri na Espanha.

Discografia Pato Fu: Rotomusic de Liquidificapum (1993) Gol de Quem? (1995) Tem Mas Acabou (1996) Televisão de Cachorro (1998) Isopor (1999) Ruído Rosa (2001) MTV Ao Vivo No Museu da Pampulha (2002) Toda Cura Para Todo Mal (2005) Daqui Pro Futuro (2007)

Discografia Fernanda Takai: Onde Brilhem os olhos seus (2007) Luz Negra: ao Vivo ( 2009 )

Livros: Nunca Subestime uma Mulherzinha, Panda Books, 2008


Jornal de Letras e Artes Japonesas Edição 01

Bungaku: Tradução

POR TRÁS DA TRADUÇÃO DE LITERATURA JAPONESA Durante bom tempo traduções de literatura japonesa chegavam ao público brasileiro através de versões intermediárias. Em alguns casos tratava-se de tradução de quarto ou quinto grau. A partir dos anos 90, com o pioneirismo de Leiko Gotoda, que traduziu o épico Musashi, tudo começou a mudar: melhor para os leitores e para a arte. Por Suzana Tamae Inokuchi

A publicação de escritores japoneses em português vive um momento de efervescência no mercado editorial brasileiro, com a predominância de traduções diretamente do japonês. Até o início dos anos 90 a maioria das traduções era indireta, de idiomas como o inglês e o francês. Além disso, no caso principalmente das edições norte-americanas, o texto era cortado e apenas as partes consideradas mais adequadas para o público leitor desses países eram conservadas. Assim, o leitor brasileiro estava sujeito a receber uma obra incompleta e voltada para um leitor diverso. Isso é coisa do passado e lá se vai pouco mais de uma década desde que ocorreu a virada nas traduções do japonês no Brasil, com o lançamento, em 1998 e 1999, do romance em dois volumes Musashi (Miyamoto

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Musashi em japonês). Este romance épico de Eiji Yoshikawa, narra a vida deste famoso samurai que viveu nos séculos 16 e 17. E foi traduzido diretamente do japonês por Leiko

Numa tradução bem feita, importa não apenas o conhecimento da língua em que o texto foi escrito, mas um conhecimento igual ou superior da língua para a qual deve ser traduzido. Gotoda que, inicialmente, destinou a obra apenas aos filhos. Esta edição lançada pela Estação Liberdade é um marco não apenas

para o contexto literário brasileiro, por ser a primeira a conter o texto integral de Yoshikawa em uma tradução feita no Ocidente. Nesses dez ou onze anos, muitos títulos apareceram no mercado, aproximando dos leitores brasileiros vários prosadores de origem japonesa, como Yasunari Kawabata (Prêmio Nobel de Literatura, 1968), Junichiro Tanizaki, Yukio Mishima, Ryu Murakami, Kenzaburo Oe (Prêmio Nobel de Literatura, 1994), Haruki Murakami e o contista Ryunosuke Akutagawa. Não é difícil, também, encontrar mais de um título por autor – Kawabata (7), Tanizaki (7), Yukio Mishima (3) e Oe (3 livros) – podendo-se perceber o estilo individual de cada escritor. Este momento editorial propício abre espaço também alguns escritores japoneses menos conhecidos no país, como Genichiro Takahashi (Sayonara, Gangsters, Ediouro), Hitomi Kanehara (Cobras e Piercings, Geração Editorial) e Soseki Natsume (Eu sou um gato, Estação Liberdade). Alguns nomes de tradutores se destacam nessa nova realidade. Além da precursora Gotoda (sobrinha de Junichiro Tanizaki), podemos destacar Meiko Shimon, Jefferson José Teixeira, Dirce Miyamura, Neide Hissae Nagae, Shintaro Hayashi, Madalena Hashimoto e Junko Ota. Vários deles relacionam-se com professores e/ou graduados em alguma das universidades com graduação de letras com habilitação em japonês ou do mestrado na área, existente na USP-SP. Cada um com seu estilo de tradução, mas com igual competência e conhecimento das duas línguas envolvidas, o japonês e o português. Esse é um ponto crucial em uma tradução bem feita, não apenas o conhecimento da língua em que o texto foi escrito, mas um conhecimento igual ou superior da língua para a qual deve ser traduzido. Isso porque a tradução deve englobar duas realidades complexas: o conteúdo e o estilo do escritor, no caso em japonês e, também, uma forma de transmitir as informações também na língua para a qual o texto deve ser traduzido, ou seja, em português brasileiro. Sem isso, entende-se o significado, mas fica-se com a impressão de que o texto contém sentenças que não são usuais na nossa língua, e isso é bem desconfortável para o leitor. Apesar da maioria desses títulos ser traduzido por um único tradutor, verifica-se, também, mas em menor número, a existência de traduções em conjunto. Há duas maneiras pelas quais isso pode ocorrer, a primeira é resultado do estudo conjunto de dois ou mais tradutores. Isso pode ser interessante, porque duas mentes se debruçam sobre o texto, em vez de apenas uma. A tradução do livro


Rashômon e outras histórias, de Ryunosuke ras japonesa e chinesa, foram contratados em Akutagawa (de 1992 e, portanto, anterior ao alguns estabelecimentos. Um deles é a Livraboom da tradução japonesa), parece ter sido ria do Chain, atrás do prédio da Reitoria da feita dessa maneira, porque os textos mantêm Universidade Federal do Paraná. Lá, os livros uma unidade textual. de escritores desses dois países estão dispostos Entretanto, há outra possibilidade, em prateleira separada e a atendente Amanda por uma necessidade de traduções em um é a responsável por eles. curto espaço de tempo, os tradutores poAlém da intermediação direta feita dem dividir o trabalho. O romance As irmãs por uma funcionária, outra maneira prática Makioka (Estação Liberde escolher, dentre este ledade, 2005) foi traduzido É preciso equilibrar ques- que de opções, é acessar a por Leiko Gotoda, Kanami tões de mercado com qua- internet antes de se dirigir a Hirai, Neide Hissae Naloja. Duas indicações lidade da tradução. Por uma gae, Eliza Atsuko Tashiro. úteis são os sites das livraEsse formato de tradução outro lado, esse dilema na rias Cultura (www.livrariafoi exigência da editora. adequação entre as exigên- cultura.com.br) e Travessa O que, a princípio, parece cias editoriais e a necessida- (www.livrariatravessa.com. um grande esforço de vábr), que possuem muitos rios profissionais no sen- de de boas traduções per- destes volumes. Um recurtido de empreender uma meia o processo com relação so interessante no primeiro tradução mais cuidada, a outras línguas, como o desses sites é o acesso ao tem o resultado contrário. primeiro capítulo de alguns inglês e o francês. Como cada tradutor ficou livros, uma espécie de apea cargo de aproximadamente um capítulo, a ritivo que incita a continuidade da leitura e unidade do texto foi um pouco prejudicada. equivale a folheá-los diretamente na livraria, Assim, a tentativa de devolver um mesmo ritsem deixar o conforto de nossas casas. mo ao texto ficou a cargo da revisão de traduSuzana Tamae Inokuchi é graduada em Relações ção. Públicas, está concluindo Letras na UFPR. Também É preciso equilibrar as questões de é poeta e contista curitibana de descendência nikkei, mercado com a qualidade da tradução. Por tendo sido selecionada em alguns concursos literáoutro lado, esse dilema na adequação entre as rios, dentre eles o do Instituto Euclides da Cunha, exigências editoriais e a necessidade de boas em 2001. traduções é uma discussão que permeia o processo com relação a outras línguas, como o inglês e o francês. Assim, o fato desta discussão surgir também no que se refere ao japonês apenas atesta que as traduções de títulos desse idioma alçaram o mesmo patamar ocupado pelas traduções em geral. Dentro da nova realidade da literatura japonesa no Brasil, algumas editoras investiram entusiasticamente neste novo segmento. Além da já citada Estação Liberdade, que reserva a metade de seus lançamentos para a literatura japonesa, a Companhia da Letras é uma das que mais investiram nesse novo filão, tendo lançado vários títulos de escritores japoneses. Também a Editora Globo, a Geração Editorial e a Ediouro lançaram títulos de escritores japoneses. Diferentemente da situação até meados da década de noventa, os lançamentos recentes são tantos que não podem ser encontrados na maioria das livrarias ou bibliotecas. Como a gama de títulos é bastante numerosa, funcionários especializados em literatura do extremo oriente, particularmente as literatu-

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Jornal de Letras e Artes Japonesas Edição 00 - Curitiba - Agosto de 2009


Jornal de Letras e Artes Japonesas Edição 01

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Jornal de Letras e Artes Japonesas Edição 01

Hosomi: Banana Yoshimoto

INTIMIDADE DENTRO DE UMA COZINHA Kitchen apresenta a visão de um Japão moderno num relato que coloca personagens insólitos em dramas cotidianos, narrados com sobriedade e sutileza Por Ignácio Dotto Neto

Em novembro de 1987, um livro com título em inglês escrito por uma garçonete de 24 anos, filha de um intelectual de esquerda vence o 6o Concurso Kaien de novos escritores no Japão. Em janeiro de 1988, esse mesmo livro vence o 16o Concurso Izumi Kyoka. Em 1997, o cineasta Yim Ho, de Hong Kong, adapta a obra para o cinema e a uma versão para a televisão, feita pela TV japonesa. Estamos falando de Kitchen, de Banana Yoshimoto, livro que já foi traduzido em mais de 20 idiomas desde seu lançamento. Banana Yoshimoto é o pseudônimo literário de Mahoko Yoshimoto, filha de Takaaki Yoshimoto - um dos mais famosos intelectuais japoneses de esquerda da geração 1960 – e irmã da cartunista Haruno Yoiko. Uma leitura apressada poderia resumir Kitchen como uma combinação leve de melodrama com mensagens de otimismo. Mas Kitchen é mais que isso. A começar pelo título, em inglês ao invés da palavra japonesa, daidokoro. É como uma placa que indica uma fronteira: a partir daqui, não espere um Japão tradicional, com cozinhas onde há sempre uma chaleira esquentando sobre um fogão a lenha e os utensílios são feitos de bambu. Um dos personagens é consumista de produtos eletro-eletrônicos, outro odeia tofu, quando a personagem principal pousa na casa dos amigos, eles lhe oferecem o sofá para dormir, não o tradicional futon. Mikage Sakurai é uma jovem universitária que perdeu os pais quando era muito pequena e foi criada pelos avós. A narrativa começa quando Mikage perde sua avó, a última de seus familiares, e vai morar na casa de Eriko Tanabe, uma viúva dona de um clube noturno e Yuichi, seu filho adolescente. Logo Mikage descobre que Eriko é na verdade o pai de Yuichi, que resolveu mudar de sexo quando faleceu a esposa para poder educar melhor o filho. Toda a história é contata pela ótica de Mikage e é aí que está o encanto do livro. O que Kitchen tem a apresentar ao leitor não é um enredo cheio de peripécias e surpresas ou mirabolantes reflexões metafísicas, é a maneira como Mikage observa o mundo e reflete sobre ele e sobre sua própria situação, seu “estar no mundo”. O olhar de Mikage é singelo, um pouco adolescente, mas em cuja singeleza e limpidez se refletem temas quotidianos e ao mesmo tempo profundamente humanos, singelamente humanos: a convivência com a morte, a perda e a solidão. A trajetória do personagem principal é uma sucessão de perdas. O filosofar de Mikagechan, embora sejam esboços de respostas a questões fulcrais da existência, não é um sistema retoricamente elaborado. É um modo de olhar para o mundo de um modo singelo. Entre uma perda e outra, mesmo nas cenas de pathos mais intenso, o a personagem nunca se perde em divagações ou nos sentimentos,

mesmo angustiantes, ela sempre apresenta descrições do céu, da paisagem. O tempo da personagem é o futuro, uma vez que o presente se apresenta como uma imensa solidão. Mas é um futuro no qual se aposta por pureza, não por convicções heróicas ou idealismo apaixonado. A cena final, onde poderíamos ver um “happy end” melodramático é apresentada como uma possibilidade, remota ou não de um futuro que leva o indivíduo ao contato com o outro. Mas por trás desse olhar singelo de uma personagem adolescente se encontram referências culturais de raízes mais profundas. A instituição família é o tempo todo questionada ou mesmo desacreditada, os personagens são todos ‘deserdados’ e sem laços familiares. Vale lembrar aqui das observações de Takaaki Yoshimoto em “A Comunidade ilusória” (Kyozo Gensoron) feitas nos anos 1960 sobre família e nação. Uma manhã, após beber seu suco de grapefruit Mikage Sakurai pensa consigo: Guardo comigo uma sensação indefinível, que as palavras poderiam dissolver. Há tanto caminho pela frente. Talvez na sucessão das noites e das manhãs que virão, até este momento se transforme num sonho. É evidente a citação, do início de Sendas de Oku (Oku no Hosomichi), de Matsuo Bashô: Os meses e os dias são viajantes da

eternidade. O ano que se vai e o que vem também são viajantes. [...] Pensei nos três mil ri de viagem que me aguardavam e meu coração se oprimiu. Enquanto via o caminho que talvez ia nos separar para sempre nesta existência que é como um sonho [...] Em outro momento de reflexão, Mikage estendida no sofá, pensa nas pessoas que perdeu e em seguida observa o céu: As pessoas verdadeiramente importantes emitem uma luz que aquece o coração de quem vive ao lado delas. [...] Talvez a luz de Eriko fosse de pequena grandeza. [...] No céu, na direção do ocidente, começavam a juntar-se nuvens escuras, levemente alaranjadas nas bordas pelo pôr-do-sol. Logo cairia a noite lenta e fria, penetrando fundo no coração. A referência aqui é uma canção infantil (Yuhi, Makaka ka sora no kumo / Minna no kaomo makaka) e a evocação desta canção apenas ressalta o sentimento de completa solidão da personagem. Ao contrário da canção que compara as nuvens avermelhadas do anoitecer ao rosto das pessoas, aqui há apenas a solidão junto à personagem. No Brasil, Kitchen é o único livro de Banana Yoshimoto publicado. A tradução foi feita não a partir do original japonês, mas da edição italiana. Até a metade da história, os personagens sempre bebem “taças de chá”, só na segunda parte é que começam a usar xícaras. Isso não é mais um detalhe da peculiaridade dos personagens. É a tradução apressada de um falso amigo: “tazza” em italiano é a palavra usada para designar xícara. (originalmente publicado no Jornal Nippobrasil, em agosto de 2008). Ignácio Dotto Neto é mestre em Teoria da Literatura da Unicamp, pesquisador e tradutor.

Jornal Memai - Edição 01  

Jornal de Letras e Artes Japonesas

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