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Augusto Monterrosa

A Ovelha Negra ´ e outras historias


A Ovelha Negra e algumas histórias, Vol.I Autor: Augusto Monterrosa Ilustração: Daniela Pretorius Faculdade Belas-Artes Universidade de Lisboa 2010


A Ovelha Negra e algumas historias Volume I Augusto Monterrosa


A Ovelha

Negra

N

um país longínquo existiu há muitos anos uma ovelha negra. Foi fuzilada. Um século depois, o rebanho arrependido ergueu-lhe uma estátua equestre que ficou muito bem no parque. Assim, sucessivamente, de cada vez que apareciam ovelhas negras eram rapidamente trespassadas pelas armas para que as futuras gerações de ovelhas comuns e correntes pudessem exercitar‑se também na escultura.

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^ A boa consciencia

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xistiu no centro da Selva, há muito tempo, uma extravagante família de plantas carnívoras que, com o passar do tempo, tomaram consciência do seu estranho costume, principalmente devido aos constantes rumores que o bom Zéfiro lhe trazia de todos os cantos da cidade. Sensíveis È crítica, pouco a pouco foram ganhando repugnância À carne, até que chegou o momento em que não só a repudiaram em sentido figurado, ou seja, sexual, como por último se negaram a comê-la, a tal ponto enjoadas que a sua simples visão lhes causava náuseas. Então decidiram tornar-se vegetarianas. A partir desse dia comem-se unicamente umas às outras e vivem tranquilas, esquecidas do seu passado infame.

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~ que queria A Ra ~ ser uma Ra ^ autentica

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ra uma vez uma Rã que queria ser uma Rã autêntica, e todos os dias se esforçava por isso. No início comprou um espelho no qual se olhava longamente em busca da sua ansiada autenticidade. Algumas vezes parecia encontrá-la e outras não, segundo o humor desse dia ou da hora, até que se cansou disto e guardou o espelho no baú. Por fim pensou que a única forma de conhecer o seu próprio valor estava na opinião dos outros, e começou a pentear-se e a vestir-se e a despir-se (quando não lhe restava outro recurso) para saber se os outros a aprovavam e reconheciam que era uma Rã autêntica. Um dia reparou que aquilo que mais admiravam nela era o seu corpo, especialmente as suas pernas, de maneira que se dedicou a fazer flexões e a saltar para ter umas coxas cada vez melhores, e sentia que todos a aplaudiam. E assim continuava a fazer esforços até que, disposta a qualquer coisa para conseguir que a considerassem uma rã autêntica, deixava que lhe arrancassem as coxas, e os outros comiam-nas, e ela ainda era capaz de ouvir com amargura quando diziam que era uma boa Rã, que parecia frango. ~8~


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A mosca que sonhava que era ´ uma Aguia

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ra uma vez uma Mosca que todas as noites sonhava que era uma Águia e que voava pelos Alpes e pelos Andes. No início isto deixava-a louca de felicidade, mas passado algum tempo começou a causar-lhe uma sensação de angústia, pois achava as asas demasiado grandes, o corpo demasiado pesado, o bico demasiado duro e as garras demasiado fortes; enfim, que todo esse grande aparato a impedia de pousar confortavelmente sobre os deliciosos bolos ou sobre as imundices humanas, assim como de sofrer insistentemente indo contra os vidros do seu quarto. A verdade é que não queria andar nas grandes alturas, e nos espaços livres muito menos. Mas quando caía em si lamentava com toda a alma não ser uma Águia para sobrevoar montanhas, e sentia-se tristíssima por ser uma Mosca, e por isso voava tanto, e estava tão inquieta, e dava tantas voltas, até que lentamente, à noite, voltava a pousar a cabeça na almofada. ~ 10 ~


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Os outros seis

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iz a tradição que há alguns anos existiu num país longínquo um mocho que por força de tanto meditar e queimar as pestanas a estudar, a pensar, a traduzir, a dar conferências, a escrever poemas, contos, biografia, críticas de cinema, discursos, ensaios literários e algumas outras coisas, chegou a saber e a tratar praticamente tudo em qualquer género de conhecimentos humanos, de forma tão notória que os seus entusiastas contemporâneos depressa o declararam um dos Sete Sábios do País, sem que até à data tenha sido possível averiguar quem eram os outros seis.

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Os corvos bem-educados

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erto do Bosque de Chapultec viveu faz tempo um homem que enriqueceu e se fez famoso a criar corvos para os melhores parques zoológicos do país e do mundo e os quais saíram tão bem que depois de algumas gerações e por força da boa vontade e perseverança já não tentavam arrancar os olhos ao seu criador, mas pelo contrário especializaram-se em arrancá-los aos mirones que sem falta e dando mostras do pior gosto repetiam diante deles a vulgaridade de que não se deviam criar Corvos porque arrancavam os olhos.

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~ O cao que desejava ser um ser humano

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a casa de um rico mercador da cidade do México, rodeado de comodidades e de toda a espécie de máquinas, viva não há muito tempo um Cão que tinha metido na cabeça tornar-se um ser humano, e trabalhava nisso com afinco. Ao fim de vários anos, e depois de persistentes esforços sobre si mesmo, caminhava com facilidade sobre as duas patas e às vezes sentia que estava a ponto de ser um homem, excepto pelo facto de que não mordia e mexia a cauda quando encontrava algum conhecido, dava três voltas antes de se deitar, salivava quando ouvia os sinos da igreja e quando era noite subia para cima de um tapume para ganir longamente a lua.

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O macaco que queria ser um ´ escritor satirico

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a Selva viveu uma vez um Macaco que queria ser escritor satírico. Estudou muito, mas rapidamente percebeu que para ser um escritor satírico faltava conhecer os outros e aplicou-se a visitá-los todos e a ir aos cocktails e a observá-los pelo canto do olho enquanto estavam distraídos com um copo na mão. Como era muito divertido e as suas ágeis piruetas entretinham os outros animais, era bem recebido em qualquer parte e aperfeiçoou a arte de ser ainda melhor recebido. Não havia quem não ficasse fascinado com a sua conversa e quando chegava era recebido com júbilo tanto pelas Macacas como pelos esposos das Macacas e pelos outros habitantes da Selva, perante os quais, por contrários que lhe fossem em política internacional, nacional ou doméstica, se mostrava invariavelmente compreensivo; sempre, claro, com vontade de investigar a fundo a natureza humana para poder retratá-la nas suas sátiras. Chegou assim o momento em que de entre os animais ~ 18 ~


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era ele o maior conhecedor da natureza humana, sem que nada lhe escapasse. Então, um dia disse a si próprio “vou escrever contra os ladrões”, e concentrou-se na Pêga, e começou a fazê-lo com entusiasmo e gozava e ria e trepava de prazer às árvores por causa das coisas que lhe ocorriam acerca da Pêga; mas de repente lembrou-se de que entre os animais de sociedade que o recebiam havia muitas Pêgas e especialmente uma, e que se iam ver retratadas na sua sátira, por suave que a escrevesse, e desistiu de o fazer. Depois quis escrever sobre os oportunistas, e ficou com a Serpente debaixo de olho, a qual, por diversos meios que resultavam da sua arte adulatória, lograva sempre conservar, ou substituir, melhorando-os, os seus cargos; mas várias Serpentes suas amigas, e especialmente uma, sentir‑se-iam atingidas, e desistiu de o fazer. Depois desejou satirizar os trabalhadores compulsivos e deteve-se na Abelha, que trabalhava estupidamente sem saber para quê nem para quem; mas por medo que os seus amigos deste género, e especialmente um, se ofendessem, acabou por compará-la favoravelmente à Cigara, que, egoísta, não fazia senão cantar e cantar, dando-se ares de poeta, e desistiu de o fazer. Depois ocorreu-lhe escrever contra a promiscuidade sexual e dirigiu a sua sátira contra as Galinhas adúlteras que andavam todo o dia inquietas em busca de jovens Galos; mas tantas destas já o tinham recebido que temeu ofendê-las, e desistiu de o fazer. ~ 20 ~


Finalmente, elaborou uma lista completa das debilidades e defeitos humanos e não encontrou contra quem dirigir as suas baterias, pois todos estavam nos amigos que partilhavam a sua mesa e em si próprio. Nesse momento renunciou a ser escritor satírico e começou a dar-lhe para a Mística e o Amor e essas coisas; mas por causa disso, já se sabe como são as pessoas, todos disseram que tinha ficado louco e já não o recebiam tão bem nem com tanto gosto.

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A sereia inconformada

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ez uso de todas as suas vozes, todos os seus registos; de certa forma ultrapassou os seus limites; ficou afónica quem sabe por quanto tempo. As outras rapidamente se deram conta de que pouco podiam fazer, de que o importuno e astuto Ulisses tinha dado mais uma vez o seu golpe, e com algum alivio resignaram-se a deixá-lo passar. Esta não; esta lutou até ao fim, inclusive depois daquele homem tão amado e desejado ter desaparecido para sempre. Mas o tempo é teimoso e passa e tudo se repete. Quando do regresso do herói, numa altura em que as suas companheiras, ensinadas pela experiência, nem sequer repetem as suas vãs insinuações, submissa, com voz apagada e convencida da inutilidade do seu esforço, continua a cantar. Por sua vez, mais seguro de si mesmo, como quem viajara tanto, desta vez Ulisses parou, desembarcou, estendeu-lhe a mão, escutou o canto solitário durante o tempo que lhe pareceu mais ou menos apropriado, e quando considerou oportuno possuiu-a ~ 22 ~


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engenhosamente; pouco depois, como era seu costume, fugiu. Desta união nasceu o fabuloso Hygrós, ou seja, “o Húmido” no nosso seco espanhol, posteriormente proclamado padroeiro que as companhias navais contratam para entreter os passageiros tímidos que à noite deambulam pelas cobertas dos seus vastos transatlânticos, os pobre, os ricos e outras causas perdidas.

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A Girafa que depressa compreendeu que tudo e´ relativo

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á muito tempo, num pais longínquo, viva uma Girafa de estatura média mas tão distraída que um dia saiu da Selva e se perdeu. Desorientada como sempre, pôs-se a caminhar ao acaso por aqui e por ali, e por mais que se baixasse para encontrar o caminho não o encontrava. Assim, deambulando, chegou a um desfiladeiro onde estava a decorrer nesse momento uma grande batalha. Apesar das baixas serem numerosas em ambos os lado, nenhum estava disposto a ceder um milímetro de terreno. Os generais acicatavam as suas tropas com as espadas em riste, ao mesmo tempo que a neve se tingia de púrpura com o sangue dos feridos. Entre o fumo e o estrépito dos canhões viam-se tombar os mortos de um e outro exército, com tempo apenas para encomendar a sua alma ao diabo; mas os sobreviventes continuavam a disparar com entusiasmo até que chegava também a vez deles e caíam com um gesto estúpido embora na sua queda considerassem que a História o resgataria como heróico, já que morriam para defender a sua bandeira; e, efectivamente, a ~ 25 ~


História resgatava os gestos do outro, já que cada lado escrevia a sua própria história; deste modo, Wellington era um herói para os ingleses e Napoleão era um herói para os franceses. Perante tudo isto, a Girafa continuou o seu caminho até que chegou a uma parte do desfiladeiro na qual estava montado um enorme Canhão, que nesse preciso instante disparou exactamente uns vinte centímetros acima da sua cabeça, mais ou menos. Ao ver a bala passar tão perto, e enquanto seguia a sua trajectória com o olhar, A Girafa pensou: “Ainda bem que não sou assim tão alta, já que se o meu pescoço medisse mais trinta centímetros essa bala ter-me-ia despedaçado a cabeça; ou melhor, ainda bem que esta parte do desfiladeiro em que está o canhão não é assim tão baixa, pois se medisse menos trinta centímetros a bala também me teria despedaçado a cabeça. Agora compreendo que tudo é relativo”.

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índice

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A Ovelha Negra A boa consciência A Rã que queria ser uma Rã autêntica A mosca que sonhava que era uma Águia Os outros seis Os corvos bem-educados O cão que desejava ser um ser humano O macaco que queria ser um escritor satírico A Sereia Incorformada A girafa que depressa compreendeu que tudo é relativo


Pocket book Tipografia Titulos Child’s Play corpo Mrs. Eaves Ilustração Daniela Pretorius


~ fbaul | 2010 | daniela pretorius ~

Ovelha Negra e Outras Histórias  

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