Issuu on Google+

Proust das Minhas Memórias Nelly Pereira Lima

1ª Edição

Câmara Brasileira de Jovens Escritores


Copyright©Nelly Pereira Lima

Câmara Brasileira de Jovens Escritores Rua Marquês de Muritiba 865, sala 201 - Cep 21910-280 Rio de Janeiro - RJ Tel.: (21) 3393-2163 www.camarabrasileira.com cbje@globo.com

Maio de 2010

Primeira Edição

Coordenação editorial: Gláucia Helena Editor: Georges Martins Produção gráfica: Fernando Dutra Revisão: da Autora Capa: reprodução da marinha “O Porto de Lorient” (43,5x73cm), quadro a óleo pintado por Berthe Morisot em 1869, pertencente ao acervo da National Gallery of Art, Washington DC, EUA.

É proibida a reprodução total ou parcial desta obra, por qualquer meio e para qualquer fim, sem a autorização prévia, por escrito, do autor. Obra protegida pela Lei de Direitos Autorais


Nelly Pereira Lima

Proust das Minhas Mem贸rias

Maio de 2010

Rio de Janeiro - Brasil


AGRADECIMENTOS

a Carmem Filgueiras (transcrição) Adriana de Azevedo (revisão)


À memória de meu inesquecível Eduardo, a Ronaldo e Cinda, meus filhos queridos, sem cujo estímulo este trabalho jamais teria sido publicado.


Proust das Minhas Memórias

PREFÁCIO Qualificar as memórias de Nelly Pereira Lima de proustianas equivale, obviamente, a chover no molhado. Ou, neste caso, a imitar um outro semi-letrado em Proust, o crítico literário Louis Menand da revista The New Yorker, que começou quatro vezes a leitura de “À la Recherche du Temps Perdu”, jamais foi além da metade do segundo volume mas nem por isto deixou de - ainda que docemente constrangido - adjetivar como “proustianos” vários dos livros que leu. Chova-se, pois, no molhado. Desde, digamos, Augusto Meyer, a língua portuguesa não ganhava um olhar tão sugestivamente proustiano quanto o de Nelly. A notória madalena que deflagra bruscamente a revivescência de instantes aleatórios de cenas passadas ressurge, aqui, representada ora na cadeira no quarto arlesiano de Van Gogh; ora no gatinho branco e peludo de Maria Carlota; ora no manto descolorado adquirido de um camelô nova-iorquino, que reproduz o próprio cobertor vermelho com que Proust se cobria nas suas crises de asma; ora na trilogia cinematográfica “Três cores” de Krystoff Kieslowski. Graças a Proust, que as introduziu numa cena de “No caminho de Swann”, o primeiro volume da “Recherche”, as madalenas figuram hoje nos cardápios mais populares. Até as lojas da rede Starbucks, por exemplo, servem o bolinho. Mas o biógrafo William Carter sustenta que a “Recherche” não foi inspirada por comestível algum e cita apenas, neste sentido, uma carta de 1898 como a mais antiga instância em que Proust descreveu qualquer experiência de reminiscências involuntárias: ali, o aroma de uma fumegante xícara de café teria evocado Prova 01 CBJE

9


Nelly Pereira Lima

no romancista o espírito de natais passados. Quem sabe, não estaria aí, efetivamente, a gênese da cena da madalena? Segundo Joshua Landy (autor de “A filosofia como ficção: autoengodo e conhecimento em Proust”), em nenhum dos 20 volumes de sua correspondência o escritor mencionou qualquer pâtisserie deleitosa. Outros estudiosos aduzem que, num episódio do livro anterior “Contra Sainte-Beuve”, ele teria transformado uma experiência real na cena em que o protagonista mergulha uma torrada no chá, ou na sopa, para umedecê-la. Mas “Contra Sainte-Beuve” nada prova. Afinal, não passa, também, de ficção. Metáfora à clef ou evocação real, o fato é que o bolinho é hoje um doce-clichê – ou clichê doce, como preferirão os amantes de trocadilhos. Ele tornou-se uma das referências highbrow que penetraram fundo a cultura pop, a literatura mainstream e os mais recorrentes lugares comuns. Num episódio da tele-série “Os Sopranos”, por exemplo, a simbólica madalena se materializa em uma fatia de salame napolitano defumado (a cappicola) degustada pelo poderoso chefão Tony Soprano. Voltemos aos contos de Nelly, em formato de crônica. Tal como o romance, a novela e a fábula, este popular gênero narrativo pertence a um acervo cultural e social que açambarca a ficção e a não-ficção, a literatura e o jornalismo. Tal como a notícia, documenta eventos e questões variadas. Ao contrário do (bom) jornalismo, ele não busca a exatidão da informação mas procura dar um colorido emocional aos fatos, mostrando ao leitor situações comuns vistas por um outro ângulo, singular. Em deferência a sua etimologia (Cronos é o deus grego do tempo), a crônica narra fatos, ou trata de temas de interesse atual. Funde assim o jornalismo e a literatura. De um, absorve a observação atenta da realidade cotidiana; da outra, o jogo daProva linguagem e a construção verbal. Nas crônicas, eventos 01 CBJE

10


Proust das Minhas Memórias

aparentemente banais ganham uma outra dimensão graças ao olhar subjetivo do autor. Outro aspecto importante: as personagens não são alvo de descrições psicológicas profundas, caracterizando-se antes por traços genéricos com os quais o leitor pode identificar-se. Aqui, as personagens tem nomes comuns: Sônia, a faxineira, o Solitário, Mané, Coronel Roberto etc. E o resultado é um políptico memorial de experiências marcantes e (data vênia para mais chuva no molhado...) marcadamente proustianas. A lembrança se transfigura em uma “realidade sentida” – como diria Proust. À auspiciosa estreante literária, de cuja proficiência no âmbito jornalístico (os seus programas culturais em ondas curtas) já éramos testemunhas desde os tempos de radialistas da United States Information Agency, nos congratulations les plus distinguées et chalereuses - como diria Proust. José Guilherme Correa

Prova 01 CBJE

11


Índice AGRADECIMENTOS ..................................................................................... 5 PREFÁCIO ....................................................................................................... 9 FANTASIA DE OUTONO .............................................................................. 15 A CADEIRA DE VAN GOGH ........................................................................ 19 A IGUALDADE É BRANCA .......................................................................... 25 A FRATERNIDADE É VERMELHA ........................................................... 29 A LIBERDADE É AZUL ............................................................................... 35 O MISTÉRIO DO EDIFÍCIO AQUI NÃO SE PODE ................................. 39 RENOVAÇÃO ................................................................................................. 45 TONINHO ...................................................................................................... 53 ENTREATO SOCIAL .................................................................................... 59 MATA LAÇADA ............................................................................................. 65 SALOMÉ ........................................................................................................ 71 MARGARIDA E O PROFESSOR .................................................................. 75


Proust das Minhas Memórias

FANTASIA DE OUTONO Era uma tarde morna com que o Rio às vezes nos castiga como uma compensação pelos muitos céus de brigadeiro. Cheguei à clinica e fui a primeira cliente, não havia ninguém. A recepcionista me disse que tinha havido vários cancelamentos e que eu seria atendida logo que o Dr. Paulo de Tarso chegasse. Só fiquei olhando as paredes, não havia outra coisa a ser vista. Eram de uma cor morta, um bege esmaecido pelo tempo; havia uma estante que eu nunca tinha notado, cinco prateleiras clarinhas sobre um fundo de parede azul, num tom chinês muito azul; e foi aí que, pela primeira vez, eu descobri nele uma certa magia. Era como se eu penetrasse aquela profundidade azul como se num túnel todo azul. No fundo, de repente, descobri a enseada de Botafogo: lá estavam os barquinhos a vela, a areia ao longe, as montanhas como moldura pungente. Foi um prazer imenso e inesquecível; continuei olhando e assim fuime distanciando de Botafogo e percorrendo oceanos e pradarias, até chegar a um pequeno campo e um lindo lago margeado de arbustos. O céu ficara mais sombrio. A vegetação, de um verde esmaecido. E lá estava ele – mas seria ele mesmo? Tentei aproximar-me, eram os mesmos olhos escuros, os mesmos bigodes escuros e um rosto lindo com um chapéu de feltro e sobrecasaca. Ele sorriu-me, tirou as luvas e, amavelmente, me estendeu a mão. Ouvi: – D. Nelly! D. Nelly! Era a recepcionista. Prova 01 CBJE

15


Nelly Pereira Lima

– D. Nelly! A senhora está bem? – Ora! - respondi - você me interrompeu no momento em que ele ia me apertar a mão. – Ele quem, D. Nelly? – O Marcel. O Marcel Proust... E ela: – D. Nelly, a senhora não está bem... Aceite um cafezinho. – Que horas são? – São seis horas. – Mas minha hora estava marcada para as cinco. Já sei, o Dr. Paulo ficou preso em alguma cirurgia. A recepcionista então não aguentou e respondeu, chorando: – D. Nelly, houve uma tragédia. A polícia acaba de me telefonar. Encontraram um morto na Av. Brasil com os documentos do Dr. Paulo de Tarso. – Meu Deus! – eu não tinha palavras, resolvi ir embora – amanhã você me telefona para combinarmos a hora da consulta com o médico assistente. Saí com dificuldade pela porta de vidro do consultório. Por acaso, o elevador estava ali, à minha espera. Entrei e apertei 1. Como sempre, ele foi até o 11º andar e só depois desceu ao térreo. Eu me via trêmula, como seria de se esperar. Adorava o Dr. Paulo de Tarso: bonito, elegante, simpático e competente. Tentei abrir a porta do elevador, mas não consegui. Ela abriu sozinha e ele estava lá... – Um fantasma?! Com licença... Coloquei o dedo no rosto do fantasma. Carne e osso. Ainda estava encarnado. Então ouvi aquela sua voz conhecida: Prova 01 CBJE

16


Proust das Minhas Memórias

– O que houve, D. Nelly? A senhora está bem? – Eu... – balbuciei – estou bem! – Não quer tomar um café? – Não, Dr. Paulo. É melhor o senhor subir depressa. Encontraram seus documentos com um acidentado (não consegui dizer ‘morto’). Dr. Paulo de Tarso respondeu em poucas palavras: – Então acharam aquele bandido que me assaltou na Av. Rio Branco! Eu saí, ele entrou no elevador. Desci os cinco degraus do edifício e cheguei à rua. Uma brisa fresca e um ligeiro sabor de maresia me tocaram o rosto, coisas assim, típicas, do Leblon. Um táxi parou à minha frente. Entrei e, meio sonâmbula, dei o endereço: – Balbec, por favor. O motorista retrucou: – Onde é este bairro? Perto do Meier? Respondi: – Deixei pra lá. Se não pode ir para Balbec, então vamos mesmo para Botafogo. O motorista disse: – Acho que a senhora não está bem! E eu: – É o outono. – Mas estamos na primavera. – É que, para mim, hoje em dia é como se fosse sempre outono... – concluí.

Prova 01 CBJE

17


Proust das Minhas Memórias

A CADEIRA DE VAN GOGH Era uma cadeira verde, comprada apressadamente às vésperas da minha volta definitiva ao Brasil, em Georgetown, Washington, depois de vinte e um anos morando na cidade. Tinha sido uma experiência de trabalho rica e gratificante, que tinha me proporcionado grande contato com a arte e a política internacionais. Na época, o salão oval da Casa Branca era o centro das decisões mundiais importantes. A arte, por sua vez, era uma presença marcante nos principais museus de Washington. Nesses magníficos lugares, tive a oportunidade de apreciar não só os acervos, como também interessantes exposições itinerantes. Assim, mantive contato, muitas vezes, com a sensibilidade artística da Europa, África e Ásia. A variedade de excursões, por sua vez, me permitia visitar a Europa todos os anos. Louvre, Versalhes e vários outros museus menores, antes tão distantes de mim, brasileira, se tornaram familiares. Amsterdã foi a cidade que mais me chamou a atenção, não só por seus museus, mas por sua topografia, seus canais, sua arquitetura com casas antiquíssimas e originais. Vi uma que jamais vou esquecer: três andares, a porta de entrada no térreo, uma janela no segundo andar e outra no terceiro. O prédio era exatamente da largura daquelas janelas antigas e estreitas. É assim, pelo menos, que eu me recordo dele. Estávamos em pleno verão, mas os dias eram nublados e a característica sombria da cidade, abaixo do nível do mar, certamente me levou a ter muita alegria ao sair de Amsterdã e voltar para Londres. Do Museu Van Gogh, porém, sempre me lembrarei em especial. Prova 01 CBJE

19


Nelly Pereira Lima

Aliás, de todas essas andanças pelos museus da Europa, nem sei o porquê, mas ficou em mim a lembrança marcante de um quadro daquele grande artista holandês. Era uma composição tão simples e tão intensa: uma cadeira, uma pequena mesa com vaso de flores e uma janela. Ao vê-la, veiome a impressão de que a cadeira, as flores e o horizonte estavam ali à minha espera – sensação que nunca me abandonou. Vem daí a minha obsessão pela cadeira verde, cópia da de Van Gogh, que eu tinha trazido de Washington. Sempre foi, desde então, o primeiro objeto que eu tinha como hábito olhar, ao me levantar pela manhã, e antes de me deitar à noite, já que ela ficava no meu quarto, próximo à cabeceira. O modelo era o mesmo, mas a cor verde tinha sido posta pelo artesão – segundo me informou a loja em Washington - a pedido de um estudante francês que a encomendara e desaparecera sem nunca buscá-la. O verde brilhante sempre me passou uma doce mensagem de esperança. Um dia, porém, Sônia, a faxineira, me comunicou assustada: – A cadeira do Gô (apelido mais fácil que ela encontrara para Gogh) deu cupim. Era preciso tomar uma providência rápida. Foi o Luiz (último funcionário do edifício, recém-chegado da Paraíba) que me socorreu: – Eu levo a cadeira e dou um banho de querosene – ele me disse – já fiz muito disso no nordeste, mata tudo. E assim foi feito. Uma semana depois, porém, ele bateu à porta, consternado. O assento da cadeira tinha ficado irremediavelmente estragado. Pediu-me muitas desculpas e insistiu em recusar o pagamento do trabalho. Contou-me que um técnico, que vinha mensalmente limpar a caixa d’água do Prova 01 CBJE

20


Proust das Minhas Memórias

edifício, tinha sentado nela com seus 110 quilos e que, sem que ele visse, tinha arrebentado a palha. – Agora – acrescentou - só serve para jogar no lixo. – Não, não. Eu vou dar um jeito – eu disse. Vamos comprar Cascola e, com paciência e habilidade, você conserta isso. Devolvi-lhe a cadeira e entreguei o dinheiro para o material. Durante duas semanas, não pensei mais nesse pequeno desastre. Até que novamente Luiz bateu à porta com outra notícia nefasta: – Eu não sei o que dizer para a senhora. Roubaram a cadeira! – Mas quem iria roubar uma cadeira velha, toda remendada, Luiz? – Eu acho que a senhora deve dar parte à polícia. O João, que fica na portaria, não viu ninguém sair com uma cadeira. Só pode ter sido alguém do edifício que fez isso para me prejudicar. Não fui eu. Minha ficha é limpa. A senhora pode chamar a polícia. – Não vou chamar a polícia por causa de uma cadeira velha. Sei que não foi você. Vamos esquecer o episódio e deixar isto para lá. – Sorrindo, ainda brinquei com ele – Não se preocupe, só desejo que a cadeira dê a quem a tirou o prazer que sempre me proporcionou de manhã e à noite ao contemplá-la. E pensei – mas sem dizer: ou então o tormento que provavelmente tinha inspirado seu desenho retorcido ao próprio Van Gogh. Esse, porém, foi um desejo súbito de que me envergonhei rapidamente e procurei esquecer para sempre. Dois meses se passaram e, novamente, Luiz bateu à minha porta: – Descobri quem foi. Uma Dona lá do quarto andar. – Do quarto andar? Prova 01 CBJE

21


Nelly Pereira Lima

– A Dona Léo. Parece que ela se aborreceu, quebrou todo o apartamento e os pedaços da sua cadeira estavam lá. A síndica chamou a polícia, já levaram ela na ambulância. Só então descobri acidentalmente o que tinha acontecido. Dona Léo era Leopoldina Maria Maia da Costa de Mauá de Abrantes. Ao sobrenome tão longo foi acrescentado Ramires, que era de seu ex-marido. A família de Leopoldina Maria tinha ligação direta com personalidades do Império. Jovem, Dona Léo se casou com Adriano Rodrigues Ramires, diplomata brasileiro que se projetou na carreira. Assim, Leopoldina Maria também ascendeu na alta sociedade diplomática europeia. Pelos retratos antigos, tinha sido loura, bonita e alegre. Até que, em Haia, um dia, precisaram de um intérprete para holandês, francês e português na embaixada. Foi então que apareceu Jacobeia, “alta, angulosa e nada bonita”, Leopoldina Maria comentou, na ocasião, com o marido. – Realmente – respondeu o embaixador – mas tem o olhar extremamente suave e é muito inteligente. Como intérprete de holandês e português, não há melhor. Foi naquele momento que Leopoldina Maria sentiu que tinha perdido a coroa. Ela, que antes adorava a Holanda, passou a odiar tanto o país que resolveu regressar ao Brasil. O embaixador continuou em Haia, aparentemente cada vez mais ligado à doçura do olhar de Jacobeia. Retornando ao Brasil dois anos depois, pediu o divórcio e, subsequentemente, aconteceu o casamento. Leopoldina Maria nunca conseguiu perdoar o embaixador e muito menos aceitar a substituta. Continuou alimentando a esperança de uma reconciliação, a volta aos braços de Ramires e às recepções luxuosas. Congelou o ressentimento e amargurou vinte anos em busca de um tempo perdido que jamais voltaria. Vivia sem amigos, sem família, isolada no apartamento até a explosão dessa angústia que a levou Provaà01clínica. CBJE

22


Proust das Minhas Memórias

Não pude deixar de pensar, penalizada, que minha cadeira de Van Gogh, roubada do corredor, lhe poderia ter avivado diariamente, durante dois meses, dolorosas recordações. Afinal, quem sabe até que ponto nos alcança a magia que certos objetos podem conter?

Prova 01 CBJE

23


Proust das Minhas Memórias

A IGUALDADE É BRANCA Uma noite, tive uma ideia. Sempre fui dada a conquistar pequenas vitórias. Então, por que não uma grande vitória como essa de subir o Monte Everest? Se em 1975 Junko Tabei o tinha galgado, por que eu não poderia fazê-lo em 2009? Não estava tecnicamente preparada. Mas, nunca me esqueci de Dulcina de Moraes em uma peça de Sacha Guitry, nos anos 1930, chamada Ciúme, apertando um limão e reafirmando: “Querer é poder, querer é poder, querer é poder!” É verdade que ela dizia isso para conter uma crise de ciúme agudo que a impedia de viver em paz e amor com o marido. A frase, porém, desde então foi uma constante nos momentos difíceis de minha vida. Assim, embarquei para esta grande aventura. Chegaria ao topo dos 8.884 metros e qualquer coisa? Claro que sim. Lá fui eu. Não foi fácil. O frio era intenso, o vento gélido e o monte – todo branco, como algodão de açúcar - parecia alongar-se a cada passo que eu dava. Mas eu continuava. Só quando cheguei à metade senti que era preciso parar. Eu tinha lido em algum lugar que não se deve dormir no meio do caminho, para evitar a hipotermia. O cansaço, porém, era irresistível. “Amanhã é quarta”, pensei. “E o curso? Ah, como seria bom agora um chá bem quente com madeleines!” Entre o sonho e o delírio, cheguei a pensar que talvez tivesse esquecido as botas e tivesse subido de havaianas, todo esse tempo. Só que eu nunca tive havaianas e não poderia têlas comprado à última hora, ao invés de botas. Lembro-me de que, no momento da compra dos acessórios, acompanhoume um01alpinista louro de olhos azuis. Acho que era sueco ou Prova CBJE

25


Nelly Pereira Lima

alemão, não sei. Só lembro que tinha cara de príncipe e físico de atleta. Mas meus pés continuavam gelados, gelados, gelados... Ouvi umas vozes. Devia ser alguém tentando prestarme socorro. Ou será que eu já tinha descido? Era uma voz que dizia: “Não vamos perder tempo.” Quem seria? A Rosinha? Mas não era dia de aula... Logo alguém falou: – É melhor ligar para o Ronaldo. Era Stela? Ou Rachel? Abri os olhos e, deitada, continuei vendo tudo branco. Mas a voz de Márcia me tranquilizou: – A senhora está bem. Eu usei o cobertor branco que a senhora estava guardando para dar para alguém que ficasse noiva. Aquele que a senhora trouxe de Nova York, se lembra? A senhora deu o vermelho para o Solitário aqui da esquina. O azul ainda está guardado. Abri bem os olhos: – O que houve? – Ontem estava muito quente. A senhora dormiu com tudo aberto, sem roupa e sem coberta. Uma tempestade derrubou a temperatura. Veio um vento frio e acho que a senhora começou a sonhar. Já passou. Já fechei tudo e agora vou buscar um chá de erva cidreira bem quentinho para a senhora. Depois me conta o sonho. – Falei alguma coisa? - perguntei. – A senhora chamou a Dona Rachel, a Dona Stela, a Dona Rosinha... – E o Proust? – Não, esse não. Ah, a senhora também falou muito da Dona “Recherche”. Mas o nome que a senhora falou mais foi “Everest”. Deve ter sido alguém muito importante na sua vida. Ela saiu e fiquei pensando nessa tão grande e penosa aventura. Tão penosa que não a desejo nem para alguém que me deteste. Não pude deixar de sorrir, aliviada. Puxei o Prova 01 CBJE

26


Proust das Minhas Memórias

cobertor branco, agasalhando-me mais. Branco como o Everest. Todo branco como a igualdade. Pensei no filme de Kieslowski, “A igualdade é branca”. Que seria, porém, do mundo se fosse todo branco?...

Prova 01 CBJE

27


Proust das Minhas Memórias

A FRATERNIDADE É VERMELHA Um domingo em Nova York sempre começava, para mim, pelo delicioso breakfast às dez da manhã, carinhosamente preparado por um amigo querido. Andar pelas ruas de Manhattan nas manhãs de domingo é quase penetrar numa cidade diferente. Nada do trepidar dos carros e de multidões caminhando. A ida a uma delicatessen de bairro e encontrar iguarias dos mais diferentes países pode ser uma aventura prazerosa. Depois, passear pela beira do Rio Hudson também é sempre uma emoção. Naquele dia, porém, eu desejava um pouco mais do que tudo isso: resolvi tomar o metrô e visitar o Metropolitan. Lá, além do acervo maravilhoso, sempre há uma exposição itinerante diferente. Dessa vez fui premiada com uma que examinava o fim da Belle Époque, prolongando-se até 1920. Lá estavam grandes pintores, retratos e obras de grandes escritores. Optei por essa exposição e me vi subitamente envolvida por uma reprodução perfeita daquela época, com seus pequenos salões e jardins parisienses - até um café, que nos fazia pensar em Toulouse-Lautrec e suas prostitutas de faces rosadas e roupas coloridas. Pissarro, Manet, Degas, Cézanne, Monet, Renoir, Gauguin, Van Gogh, Matisse. Todos eles representados com algumas de suas obras mais conhecidas. Deliciei-me contemplando As Dançarinas, de Degas, Duas Mulheres na Praia, de Gauguin, A Jovem ao Piano, de Renoir, Srta. Gachet em seu Jardim, do inconfundível Van Gogh, e muitos outros. A seguir, encontrei também, em outro aposento, Prova 01 quadros com pinturas e retratos de grandes CBJE

29


Nelly Pereira Lima

escritores da época: Baudelaire, Rimbaud, Verlaine, Zola, Anatole France, Roger Martin Du Gard. Os retratos traziam ao ambiente a magia da presença desses grandes vultos literários. Germinal, J’Accuse, Flores do Mal, A Vida em Flor e vários poemas de Rimbaud e Verlaine me levaram à memória personagens há algum tempo esquecidos. A exposição era tão perfeita que havia até um aposento todo dedicado a Marcel Proust. Lá estava seu famoso quarto de Paris. Tons de bege que iam do creme ao castanho, sobre a lareira um espelho quadrado, flores cobertas por uma redoma e um relógio dourado da época. Em uma pequena mesa, um gomil de porcelana. Havia também uma poltrona forrada de um pano sem brilho cor de ouro. A cama era o que mais chamava a atenção, com seu dossel e, bem próxima, uma mesinha com uma bandeja e um castiçal com uma vela. A ilusão de realidade era tão perfeita que, cerrando ligeiramente os olhos, tive a sensação de que Marcel Proust estava lá também, escrevendo a sua Recherche e que, a qualquer momento, a sua Céleste bateria suavemente à porta trazendolhe o café. Na saída, uma lojinha vendia a Recherche em francês, inglês e, inclusive, português. Folheei, embevecida, O Caminho de Swann, traduzido por Mário Quintana - meu volume predileto. Olhando o relógio, notei que, sem sentir, o tempo tinha voado. Já eram quase quatro da tarde. Peguei a bolsa para partir quando vi um kit com o chapéu e a gravata de Proust. Não resisti. Coloquei o chapéu e amarrei a gravata ao pescoço - afinal, era domingo, um dia que em NY qualquer traje é válido para a boemia jovem. Eu não era tão jovem, mas nesse dia me senti com vinte anos e saí alegre. E foi aí que, já na rua, vi um camelô com um monte de cobertores. Reproduções do cobertor que tinha envolvido Marcel Proust Prova 01 CBJE

30


Proust das Minhas Memórias

durante o inverno, em seus ataques de asma. O rapaz me mostrou também outros de cores diferentes, garantindo-me que eram “cópias autênticas”. Falou, falou e acabou me convencendo a comprar. Vermelhos, azuis e brancos. Insistia para que eu comprasse os três: “Cores da liberdade, fraternidade e igualdade”, dizia. Não pude resistir, comprei os três. Lembrei-me de um morador de rua da esquina da Praia de Botafogo com a Senador Vergueiro. Ele gostaria do vermelho. Num canto mais abrigado do edifício, nas tardes chuvosas de inverno, quando eu passava por ali, ele costumava estar deitado sobre papelão grosso e agasalhado por um velho cobertor vermelho. Já era tempo de substituir aquele cobertor vermelho por um outro mais novo e de um tom mais vivo, já que o vermelho tinha passado a marrom. Para o branco e o azul, eu acharia um destino adequado, quando chegasse ao Rio. Tomei o metrô de volta para o apartamento do meu amigo, onde deixei os cobertores e de onde partimos caminhando até o Greenwich Village, point da moda naquela época. Foi uma noite memorável em que, famintos, devoramos sanduíches com vinho tinto e, para terminar, uma sopa de cebola bem quente. No dia seguinte, tomaria o avião de volta ao Brasil. A chegada ao Rio, após os pequenos atropelos da alfândega e da bagagem até o táxi, transcorreu amena até o apartamento. Lá me esperava, carinhosamente, minha irmã; e o sorriso ornado de poucos dentes, mas amável, de Maria fez com que me sentisse em casa novamente. Era uma segundafeira. Só na terça, pela manhã, animei-me a ir até a esquina para entregar o presente ao Solitário. Estava sentado sobre o degrau de mármore do banco que praticamente tinha transfor mado em pousada particular. Agradeceu contentíssimo ao abrir o embrulho e ver o cobertor vermelho: Prova 01 CBJE

31


Nelly Pereira Lima

– Vou jogar o outro fora, – me disse sorrindo. Não pensei mais nisso. Uma semana depois, assumia meu posto no jornal e só lembraria do cobertor dois anos mais tarde, quando fui solicitada pela redação na qual trabalhava a fazer a reportagem de um hospital. Não sei se vocês já visitaram um hospital público na hora do rush. A visão me chocou a vista e o coração. Muitos doentes pelo corredor, à espera de vaga. Alguns sangrando, outros gemendo. Sangue salpicado pelo chão, pelas paredes, e o desespero reinando absoluto pelo ambiente. Amiga do administrador do estabelecimento, fui levada apressada e delicadamente ao laboratório e, depois, ao recinto onde estavam os aparelhos de ultra-sonografia, raios-X etc. – O hospital parece bem aparelhado – comentei. Mas a resposta foi cheia de desânimo: – Infelizmente há vários aparelhos fora de funcionamento. Faltam peças, acessórios e o hospital tem apenas um técnico para consertar tudo o que quebra. – Falta de verba? – perguntei. – Não exatamente isso – respondeu meu amigo, acrescentando – Desvio! Desvio de verbas! Saímos apressadamente do aposento em direção ao centro cirúrgico onde também soube que, para cada cem candidatos à cirurgia, apenas um poderia ser operado por dia. Não me explicaram porque. Daí, percorremos várias enfermarias e, de repente, em meio a toda aquela brancura de lençóis, chamou-me atenção um cobertor vermelho. Aproximei-me curiosa e lá encontrei adormecido meu velho amigo da esquina. Só aí me lembrei de que há dias não o via. – Está sedado. – informou-me a enfermeira. Agradeci e deixei o hospital decidida a voltar no dia seguinte Prova 01 para visitá-lo num momento melhor. O assunto da CBJE

32


Proust das Minhas Memórias

reportagem interessou à redação do jornal e, realmente, no dia seguinte, retornei, mas dessa vez acompanhada de um fotógrafo. Entre vários recantos do hospital, fomos direto à enfermaria onde, na véspera, tinha encontrado o meu amigo da esquina. Lá estava o cobertor vermelho. Ao me aproximar, descobri que o paciente coberto não era ele. Olhei para o leito ao lado e dessa vez, sim, era ele, sorrindo para mim amavelmente. – Que bom que a senhora veio. – Procurei por você na cama ao lado quando vi o cobertor vermelho. Você está melhor? – Bem melhor. – respondeu-me – Emprestei o cobertor porque ele tremia de frio e não havia nenhum outro na enfermaria. Despedi-me com alegria e pensei: “Como em Kieslowski, a fraternidade é vermelha”.

Prova 01 CBJE

33


Proust das Minhas Memórias

A LIBERDADE É AZUL Foi em uma manhã destas de sábado no outono do Rio de Janeiro – na qual o céu era bem azul, a enseada de Botafogo também e os jardins da praia muito verdes – que me levantei com aquela disposição de fazer algo inédito em minha vida. Achei que ir à feira de animais em extinção em Caxias seria uma boa. Para me levar lá, ninguém melhor do que Fogueirinha. Era um dos taxistas mais simpáticos que já conheci. Nascido e criado em Madureira, eu costumava dizer: – Você, Fogueirinha, é mais carioca do que o próprio Rio Carioca, que a urbanização e a poluição beberam. Moreno claro, cabelos ao mesmo tempo lisos e ondulados e aquele sorriso, seu sonho era fundar uma rádio (clandestina, naturalmente) com um programa completamente inovador no ramo. – Será um programa de strip-tease pelo rádio. Quando objetei que strip-tease pelo rádio não se pode fazer, explicou-me: – Vai ter uma garota que vai se apresentar e se despedir. A descrição do strip-tease eu mesmo vou fazer. Vai provocar a imaginação dos ouvintes. Como até hoje ninguém fez isso, vai ser um sucesso em Madureira. Quando chegou com o taxi e eu lhe dei o endereço, perguntou-me, admirado: – Mas o que a senhora vai fazer nessa feira de Caxias? Essa feira dá polícia! Argumentei que seria uma aventura como tantas outras na minha vida. Se ele não quisesse percorrer a feira comigo, podia Prova ficar 01 me esperando na esquina. CBJE

35


Nelly Pereira Lima

– Mas Dona Neli – nunca acertou dizer Nelly – lá é muito perigoso, tem muita escada... É no morro. O que seu filho vai dizer? Eu sei de outra feira que não é perigosa, a Max Morel, fica na Tijuca. – Tem animais em extinção? – Alguns. Lá a polícia chega mais mansa. Em Caxias o bicho pega. E assim fui parar na feira Max Morel, na Tijuca. Foi o Fogueirinha quem nos apresentou: – Esse aí é o Fujão. Não para em lugar nenhum. E há outros mais bonitos. Só que Fujão era simpático. Tinha pouco menos de um palmo de comprimento. Suas pernas eram azuladas, mas com o reflexo do sol, também ligeiramente arroxeadas. A cabeça era bem torneada e o olhar doce. Acho que não sorriu porque o biquinho não permitia, mas me conquistou de estalo. Havia araras azuis meio escondidas custando uma fortuna, um papagaio que gritava “Margarida, Margarida”, cachorrinhos dos mais diversos tamanhos, milhares de pássaros e até alguns animais que eu nunca tinha visto. Voltei, porém, com o Fujão em uma gaiola que comprei lá mesmo, espaçosa (a fim de que ele se sentisse mais cômodo), que o vendedor indicara. No dia seguinte, instalei-o num cantinho mais abrigado da varanda e, durante um mês, visitava-o pelo menos três vezes por dia. Não posso dizer que conversássemos porque nossa palestra era um monólogo. Só eu falava. Ele ouvia, mas garanto aos descrentes que o Fujão entendia. Com o bom trato, desenvolveu-se rapidamente e achei que, em breve, teria que lhe comprar um pequeno viveiro. Cheguei a marcar com o Fogueirinha o sábado em que iríamos comprar um novo lar para Fujão. Provao 01 CBJE

36


Proust das Minhas Memórias

A diligência, porém, não chegou a se efetuar. Nessa manhã, ao chegar à varanda, vi que a porta da gaiola estava aberta e que Fujão se encontrava serenamente pousado sobre o muro. Ao me ver, abriu as asas e voou. O céu estava azul e ele escolheu a liberdade. Era justo. Guardei a gaiola e por algum tempo, entristecida, pensei nele várias vezes. Passaram-se junho, julho, agosto, ventanias, tempestades, enfim chegou setembro. Um bem-te-vi que gritava incessantemente na janela “bem te vi! bem te vi!” despertoume para lembrar-me que a primavera tinha chegado. Levantei, tomei café e fui olhar a enseada de Botafogo como sempre faço. Tinha começado a amanhecer. Já havia alguns raios tênues de sol prateando a água. A enseada estava linda e poética como sempre, despertando-me os melhores pensamentos da manhã. Agradeci a Deus por um dia tão bonito que eu podia vislumbrar desta posição tão privilegiada - a minha varanda sempre tão gostosa. E aí, surpresa! Naquele mesmo cantinho em que eu o tinha agasalhado no ano passado, notei algo diferente. Lá estava ele, o Fujão. Desta vez com uma companheira. Tinha-se aconchegado ali como se soubesse que o abrigo era seguro e que poderia voltar e partir em busca da liberdade quando quisesse. Foi quando me lembrei do cobertor azul que tinha comprado de um camelô em Nova York, na ocasião da exposição da Belle Époque, e que havia trazido para o Rio. O vendedor tinha insistido que eu comprasse os três: “Cores da bandeira francesa”. O vermelho da fraternidade estava até hoje com o Solitário. O branco da igualdade eu tinha passado a usar. O azul da liberdade, porém, eu tinha guardado para um dia muito especial. O pensamento nessas horas é tão rápido que me lembrei de Kieslowski e sua trilogia. O azul era o símbolo da liberdade e seu terceiro filme, ligeiramente azulado, Provaum 01 título ainda mais simbólico: “A liberdade é azul”. tinha CBJE

37


Nelly Pereira Lima

Não sei porque, recordei também, rapidamente, a impressão que as janelas enfeitadas com colchas coloridas de São João del Rei tinham deixado em mim em noites de procissão. Neste dia, num impulso de alegria, fui buscar o cobertor azul e estendi-o sobre o muro, num gesto tardiamente juvenil. Afinal, esse alvorecer tão belo e a volta do Fujão haviam-me enternecido o coração. O céu era azul, as gaivotas começavam a aparecer em triângulo, o Fujão tinha voltado... Viva a liberdade!

Prova 01 CBJE

38


Proust das Minhas Memórias

O MISTÉRIO DO EDIFÍCIO AQUI NÃO SE PODE Era uma manhã ensolarada de outubro quando cheguei ao Aeroporto Santos Dumont. Voltava de São Paulo, onde havia passado uma semana visitando o que restou da família de minha mãe. Tinha ido lá para ver meus primos e na esperança de reencontrar as flores e o verde dos jardins da minha adolescência, durante as férias na casa de minha tia na Avenida Brasil. Porém, já fazia muito tempo. Não havia flores, nem jardins. De cidade provinciana e amena, São Paulo transformara-se em metrópole. Qualquer vegetação tinha problema para surgir nesta poderosa selva de pedras. Por isso, foi como uma sensação reconfortante que eu apreciei a chegada ao Rio. O céu azul, o mar mais azul ainda (segundo me pareceu), as montanhas me abraçando e o Cristo Redentor de braços abertos para me receber. A sensação foi tão inebriante que saltei do avião com dificuldade, como se tivesse acabado de saborear uma taça da deliciosa Veuve Cliquot. Peguei a minha mala, tomei um táxi e pensei: em dez minutos estarei em casa. Não se haviam passado nem dez quando cheguei à esquina e fui barrada pelo guardador de automóveis: – A senhora não vai poder entrar. A rua está interditada. Perguntei admirada: – O que houve? – Só a polícia sabe. É melhor a senhora pegar sua mala e esperar no botequim da esquina. Aliás, já é quase meio-dia e oProva almoço 01 por lá costuma ser muito bom! CBJE

39


Nelly Pereira Lima

Ele sorriu, fez sinal para o motorista e me vi obrigada a saltar no botequim. Só pude voltar para casa às três horas. Ainda a tempo de ver o Mané, faxineiro, chorando, ao entrar no carro da polícia. Perguntei ao detetive: – Que houve? Ele me respondeu simplesmente: – Uma tragédia, minha senhora! Bateu a porta do carro e partiu. Vários condôminos se encontravam na rua e o chefe da portaria também. Ele me contou o que tinha acontecido: morreram um morador e o advogado da administradora. – Mas como? – perguntei. A resposta foi: – Não sei, não, senhora. O Coronel Roberto morreu no apartamento e o advogado na saída do elevador de serviço. – E o Mané, por que a polícia o levou? – Não sei, não, acho que foi porque não conseguia parar de chorar desde que descobriu o corpo do advogado. – Isso chamou a atenção da polícia e eles o levaram. – acrescentou um morador que estava por perto. Tomei o elevador e subi ao meu apartamento. Abri a porta e entrei no meu reduto. É bom viajar. Voltar, porém, é sempre ótimo. Sentei-me na primeira poltrona que vi, envolvida pelo afago do colorido dos quadros e meu pensamento se voltou para vinte anos antes, quando eu tinha me mudado para cá. O Itaquabara era um edifício no estilo típico da arquitetura carioca da década de 1940. Varandas envidraçadas na frente, venezianas móveis nos fundos, alguns traços da arquitetura francesa e outros de Art Déco. Uma escadinha de quatro degraus de mármore conduzia ao hall, com chão e paredes revestidos de mármore cor-de-rosa, no caminho que levava ao elevador e de cada lado havia uma coluna, que nada Prova 01 CBJE

40


Proust das Minhas Memórias

tinham a ver com a decoração. Como, na ocasião em que comprei o apartamento, havia um síndico pouco cuidadoso, a passadeira era velha e puída, e a pintura das colunas gasta. Lembro-me, entretanto, de que, quando abri a porta do apartamento que estava à venda, me deslumbrei com a vista. Era tão linda, tão linda que, mesmo sem gostar tanto assim do apartamento, resolvi na hora que o compraria. Hoje, vinte anos depois, não me arrependo. Ao amanhecer e ao por do sol, mergulho sonhadoramente numa espécie de apoteose do belo. O edifício sempre fora tranquilo A maioria dos condôminos ou estava nele desde sua inauguração ou era descendente dos primeiros moradores. A esta categoria pertencia o Coronel Roberto Moraes, Influenciado pelo pai, cursara o Colégio Militar e depois a Escola Militar; reformouse já coronel, pouco depois da morte do pai. Dizia aos mais íntimos que tinha decidido dedicar-se à literatura. Estava escrevendo uma obra vasta e difícil sobre a sociedade brasileira na época da Guerra do Paraguai. Contudo, nunca esse trabalho nunca foi visto e nenhum resquício dele foi encontrado em seu apartamento. Ao lado de sua cama havia apenas uma tradução de Mário Quintana de um volume da Recherche de Marcel Proust e alguns libretos de ópera, como se a concepção dessa tão sonhada obra se tivesse perdido na sua solidão. Era um homem austero, pouco afável, que não chegava a ser antipático e nunca se cansava. O que teria acontecido para essa morte súbita? Por seu turno, o advogado da administradora era um rapaz de aproximadamente trinta anos, bonito, moreno, olhos bem escuros, que sempre aparecia de preto nas reuniões e de camisa de seda e jeans quando vinha fazer alguma comunicação particular Prova 01 a um condômino. Dizia-se que ele tinha conseguido CBJE

41


Nelly Pereira Lima

cursar a faculdade de Direito e, trabalhando como estagiário na administradora, acabou sendo contratado, com a recomendação de vários condôminos do Itaquabara satisfeitos com a sua atuação. O Coronel Roberto Moraes me contou uma vez que o pai tinha dispensado a vista da frente, preferindo a de trás. Na época, não havia grandes edifícios atrás, via-se perfeitamente o Flamengo e, em dias mais claros, até Niterói. Pensei no Mané. Devia ter uns quarenta anos, tinha chegado há dez de Paraíba e se adaptou perfeitamente ao ritmo de Itaquabara, onde porteiros e faxineiros eram todos paraibanos. Mas por que? Por que a polícia teria levado o Mané? Os dias se passaram e a curiosidade dos moradores do condomínio brotou como uma hera pegajosa e malévola concentrada em boatos absurdos e escabrosos. A síndica, uma mulher forte, grande, com a aparência de atleta, que na noite da tragédia se encontrava fora do Rio, de volta ao Itaquabara viu a necessidade de uma reunião de condôminos marcada para uma semana depois, com a presença do detetive. Dick William, era esse o nome dele, manteve-se calmo, com uma seriedade que me pareceu forçada, disposto a atender às perguntas. Todos indagavam ao mesmo tempo e finalmente eu consegui chegar até ele. Perguntei: – Qual foi a conclusão da polícia, detetive? – Não houve, minha senhora. – Mas como? Houve interrogatórios? – Minha senhora, este é um edifício extremamente familiar, de famílias conservadoras. Ninguém tem passagem pela polícia. Não há suspeitos. – E o Seu Giovano, o cantor? Ele era muito amigo do Coronel e do advogado J. Leron. O senhor falou com ele? Ele não sabe Prova 01 de nada? CBJE

42


Proust das Minhas Memórias

– Ele não mora mais aqui. A síndica se apressou a informar: – O apartamento está à venda. Ele viajou para a Itália na véspera da tragédia. Disse que ia tentar realizar seu sonho de infância, quando morava em um pequeno hotel, em Veneza, em que trabalhavam seus pais e à noite ouvia o canto dos gondoleiros. Aposentado, com cinquenta e seis anos, ainda queria cantar nas gôndolas de Veneza. – Depois de cantar no Municipal do Rio, de São Paulo, no Colón de Buenos Aires, resolveu ser gondoleiro! – ajuntou, sorrindo, um dos condôminos. – E por que levaram o Mané? - insisti. – Levamos porque ele chorava sem parar. – E o Coronel Roberto, morreu de que? – Excesso de sedativos. Ele sofria de artrose e possivelmente, nessa noite, não aguentou as dores. – Mas e o advogado da administradora, o Dr. J. Leron? – O Dr. J. Leron pode ter escorregado e quebrado a cabeça. – Na verdade – não pude deixar de acrescentar – aquela rampa, quando molhada, escorrega como sabão. Eu mesma propus que se pusesse um corrimão dos lados ou um calçamento antiderrapante. – É, mas nunca puseram. Por que? – Aqui não se pode. – disse a médica – Perdeu-se a planta do edifício e não se sabe bem o que tem embaixo dessa rampa. – A polícia não pode voltar a fazer um interrogatório minucioso para ver o que aconteceu? Foi aí que a síndica interferiu: – É difícil. É tudo gente antiga e honesta, a que mora no prédio. O detetive atalhou, com um sorriso irônico: Prova 01 CBJE

43


Nelly Pereira Lima

– É, aqui não se pode... E foi assim que nunca se soube exatamente porque o Coronel Roberto tomou tantas pílulas, porque o Dr. J. Leron quebrou a cabeça, porque o Mané chorou tão despropositadamente quando o viu morto. E mais: nunca se soube como as chaves do carro do Coronel Roberto Moraes foram parar no bolso do Dr. J. Leron.

Prova 01 CBJE

44


Proust das Minhas Memórias

RENOVAÇÃO Era um casal perfeito, ou assim o consideravam os amigos. Ambos psicanalistas. Ele, filho de pai libanês e mãe paulista. Ela, filha de pai judeu e mãe carioca. Não se conheceram na praia, onde tantos encontros se realizavam no Rio de Janeiro. Nem nos eventos para grupos solteiros. Conheceram-se, por incrível que pareça, num pequeno centro espírita no Jardim Botânico, numa delicada disputa pelo lugar na fila para a sala de passes. Na semana seguinte, voltaram a se ver no mesmo lugar e Rosinha, na saída, aceitou, sorridente, o convite de Jorge para um cafezinho na padaria da esquina. Daí para uma amizade mais estreita e o namoro foi uma questão de pouco mais de um mês. Logo descobriram os mesmos interesses profissionais, as mesmas alegrias e, em menos de seis meses, haviam granjeado a aprovação carinhosa dos respectivos filhos. Coincidentemente, ambos tinham um casal de filhos. Foram morar no Humaitá, num pequeno prédio, herança do avô de Jorge para o neto preferido. Resolveram, por causa dos meninos, que seria melhor se manterem cada um em seu próprio apartamento, mas, aos domingos, reuniam-se todos na casa de Rosinha. O lanche que ela preparava era sempre alegre e de sabor imbatível. Os anos se passaram, os meninos cresceram. Os rapazes se formaram. A filha de Rosinha se casou com um agrônomo e foi morar em Friburgo. A filha de Jorge resolveu se mudar para São Paulo, onde trabalharia com um tio libanês - abastado comerciante. Prova 01 CBJE

45


Nelly Pereira Lima

Rosinha e Jorge os visitavam uma vez por mês. Faziam planos de viagens maiores que nunca se materializavam porque Jorge, intensamente interessado na profissão, tinha adquirido fama e parecia nunca poder parar de trabalhar. Rosinha tinha uma clientela maior, que ela recebia num pequeno consultório em sua própria casa, e dividia o seu tempo entre a profissão e o lar. Como o apartamento de Jorge era no térreo, havia uma pequena área lateral descoberta onde ela tinha plantado, em potinhos, cebola, salsa, coentro, manjericão e, num pote maiorzinho, uma pimenteira. Havia também um pé de café plantado por Jorge, saudosista de sua infância no interior de São Paulo, que entretanto nunca dera frutos, apesar de ter crescido e banhado a pequena área com uma sombra gostosa. Era ali que o casal costumava se reunir nas noites quentes do Rio. Na verdade, foi ali que começou a paixão dos dois. E assim transcorreram dezoito anos de uma reunião aparentemente perfeita. Uma noite, porém, a paz foi interrompida. Caiu uma casca de banana na cabeça de Rosinha. Foi um susto que a levou às lágrimas. Jorge sorriu de forma benevolente e, acariciando os cabelos de Rosinha, disse: – Vamos, vamos! Também não é para tanto. Olharam para o prédio vizinho, viram uns cachinhos aloirados e ouviram umas risadinhas. – Pode deixar que amanhã eu passo lá e faço uma reclamação à síndica. Ninguém tem o direito de interromper esses nossos momentos agradáveis de recolhimento. – disse Jorge, conciliador. Mas, na noite seguinte, uma nova casca de banana caiu acompanhada de pedaços de laranjas, cachinhos loiros e risadinhas. – Você falou com a síndica hoje, Jorge? - perguntou Rosinha. Prova 01 CBJE

46


Proust das Minhas Memórias

– Saí apressado, não deu tempo. Amanhã falo sem falta. – Pode deixar, então, que amanhã eu mesma vou cuidar disso. No dia seguinte Jorge chegou às dezoito horas e Rosinha meia hora depois, com uma bolsa do mercado. Jantaram, foram para a área, lá ficaram até dez e meia da noite, quando enfim se recolheram. Três meses se passaram e as noites voltaram a ser tranquilas e agradáveis. Numa sexta-feira, porém, Jorge se atrasou no consultório, chegou em casa às vinte horas e não encontrou Rosinha. Provavelmente foi ao mercado; tinha adquirido esse hábito de fazer compras à tardinha, pensou. Cansado, cochilou. Quando ouviu “Jorge, Jorge!”, procurou Rosinha ao redor e não a viu. E novamente “Jorge, Jorge!”. Olhou para a janela vizinha, de onde partia a voz, e lá estava Rosinha com as crianças. – Você encontrou meu bilhete? - ela perguntou. Jorge não tinha visto bilhete algum: – O que houve? – Me mudei para cá. Mas não quero que você pense que troquei você pelo Jacó. Não foi isso. Foram as crianças, estão precisando urgentemente de uma mãe, são órfãs. Os pais morreram no ano passado em um acidente de carro, numa estrada de Minas Gerais. As crianças se salvaram por um milagre. Não tinham com quem ficar. O avô foi buscá-las, mas tem pouco tempo para cuidar delas. Ele tem um brechó na rua Voluntários da Pátria, em Botafogo, onde trabalha o dia inteiro e me disse que a empregada daqui não para por causa das crianças. Quero deixar bem claro: não troquei você pelo Jacó. Foi um desejo irresistível de ajudar as crianças. Jorge teve dificuldade em acreditar no que ouvia. Magoado, sorriu rápido e falou com esforço, como se estivesse diante de um paciente: Prova 01 CBJE

47


Nelly Pereira Lima

– Pode ser o desejo de renovação da maternidade... Rosinha prosseguiu: – Nossos filhos estão criados. Você tem a sua clínica imensa, já não precisa de mim. Mas quero que saiba que ainda o quero bem. Jorge resolveu encerrar o assunto. Entrou e fechou a porta. Sentou-se, procurando raciocinar com mais frieza, mas a dor era tão forte quanto a punhalada desfechada inesperadamente por um jovem apanhado no momento em que roubava o dinheiro que lhe permitiria comprar mais alguma droga. Um desespero interior lhe invadiu a alma. Levantou-se sem saber o que fazer, procurou um analgésico, mas, em casa, Rosinha e ele costumavam encontrar nos chás de ervas o alívio para qualquer dor. Foi à cozinha, preparou um chá de camomila bem forte, tomou uma xícara, deitou-se ainda vestido e procurou dormir. Afinal, teria que esperar até amanhã às nove horas, para ligar para Beth, uma grande amiga. Foi uma noite desagradável, mal dormida, cansativa. Tomou café, fez a barba e a chuveirada fria conseguiu despertá-lo do torpor desagradável. Procurou analisar a situação friamente. Queria saber o que tinha mudado na relação com Rosinha, chegou à conclusão de que pouca coisa: a hora de fazer o mercado – que tinha passado da manhã para a tarde; o seu jantar – antes havia sempre alguma novidade na mesa, algum prato diferente e saboroso; nos últimos tempos, a comida previamente preparada era sempre esquentada no micro-ondas. À noite, Rosinha estava sempre cansada e, pela manhã, levantava-se mais tarde. Só os fins de semana continuavam iguais, com pequenos passeios pela praia ou pequenas viagens de visitas aos filhos. Lembrou-se que Rosinha, antes tranquila, se mostrava ultimamente impaciente. Contudo, Jorge atribuía à idade essas pequenas mudanças. Ela ia Prova 01 CBJE

48


Proust das Minhas Memórias

completar cinquenta anos e estaria provavelmente no início da menopausa – uma causa sempre atribuída irrefletidamente às mulheres de meia idade. O primeiro cliente estava marcado para as nove, mas ele ainda chegou ao escritório a tempo de ligar para Beth. – Sou eu, Beth, Jorge Assad. É para avisar que estou novamente em circulação. Quais são os eventos da semana? – Olá, Jorge, como vai a Rosinha? - Beth perguntou. – Acabou. – Terça-feira vai haver um jantar com velas e dança no Assírio. Quer que eu reserve o seu lugar? – Tudo bem. Estarei lá. Desligou e pensou: “A Rosinha nem se deu conta da dor que me causou.” Instintivamente recuou até a infância disciplinada pela mãe paulista, acarinhada pelo pai, professor e escritor que, em seu aniversário de vinte e um anos, o tinha presenteado com os sete volumes da Recherche de Proust. Lembrou-se de que, ao lê-la pela primeira vez, estava à espera de um grande romance vivido pelos personagens. Chegara a se decepcionar. Só quinze anos mais tarde, ao reler a obra, é que descobriu o sabor das alegrias e tristezas do relato e o emaranhado das baixezas e grandezas da sociedade francesa da época. Lembrou-se também de Albertina e confundiu automaticamente a sua imagem com a de Rosinha. Albertina ignorava o ciúme doloroso de seu amante e Rosinha também foi sempre assim. Nunca o tinha traído objetivamente, mas, subjetivamente, quantas vezes! Foi nesse momento que a secretária, admirada com seu abatimento, perguntou: – Nossa, o que houve, Dr. Assad? O senhor está pálido! – Estou me preparando para a busca. Prova 01 CBJE

49


Nelly Pereira Lima

– Que busca? – perguntou Grace. – A busca do tempo perdido. Assim se passaram algumas semanas, nas quais Jorge chegava em casa às nove da noite e saía no dia seguinte sem abrir as janelas que davam para o prédio vizinho nem as portas que davam para o pátio. Ligava o ar condicionado, tomava uma sopa, pegava um livro e procurava dormir. Mas, num sábado de sol quente e céu azul, resolveu encarar a realidade. Abriu tudo e foi para o pátio, varreu as folhas secas e retirou as plantinhas de Rosinha, que, sem serem regadas, haviam morrido. Restava apenas, ereto e belo, o pé de café. A alegria ao vê-lo foi tão grande que, instintivamente, acariciou-lhe docemente as folhas. Tomou seu café da manhã e se preparou para sair. O encontro para a excursão do grupo de Beth a Itacoatiara seria às onze da manhã na Av. Atlântica, em frente ao Hotel Othon. Antes de fechar as portas do pátio, ele olhou para as janelas do prédio vizinho. Todas fechadas. Saiu e caminhou para a rua Voluntários da Pátria em busca de um táxi, mas não conseguiu resistir à tentação de passar pela loja do Jacó. Queria apenas dar uma vista d’olhos. Surpreendeu-se com as portas arriadas e o vigia do prédio sentado num banquinho. Um anúncio de “Vende-se” chamou a sua atenção. – Moço, o senhor está interessado em comprar a loja? – perguntou o vigia – Eu tenho aqui o cartão da corretora. – Não, não – respondeu Jorge – só queria saber para onde a loja se mudou. – Seu Jacó foi embora com a patroa e as crianças. Não deixou endereço. Disse apenas “Antônio, o meu destino está nos livros.” Mas não me disse quais livros. Acho que ele não queria que eu soubesse para onde estava indo. Prova 01 CBJE

50


Proust das Minhas Memórias

Jorge se despediu do vigia sorrindo, tomou um táxi e partiu para Copacabana. Antes de encontrar a excursão, parou numa livraria. Comprou Quo Vadis?, de Henrique Sienkiewicz, sobre a fuga dos cristãos de Roma, e o Velho Testamento, à procura do Êxodo, sobre a fuga dos judeus do Egito sob a orientação de Moisés. Na praia, esperou o ônibus da excursão. Entrou e procurou um dos últimos bancos vazios. Mergulhou então o olhar no oceano e aspirou fundo a energia que lhe vinha, em pensamento, das ondas e do azul do céu nessa manhã tão límpida quanto uma água marinha sem jaça. Afinal, como nos disse Cazuza em tantas de suas canções, “é preciso sentir, gozar a vida, mesmo sabendo que depois virá o desespero.”

Prova 01 CBJE

51


Proust das Minhas Memórias

TONINHO Eu costumava passar férias em um sítio de amigos, na estrada que liga Teresópolis a Friburgo. Um local cheio de pequenas propriedades rurais, com plantações variadas de hortaliças, muitos restaurantes e antiquários procurados pelos turistas. O que me agradava em especial, ao chegar, era um bosque ao lado, com árvores nativas, um dos poucos terrenos ainda intocados. Mas, um dia, meu coração se entristeceu. As árvores haviam sido derrubadas e uma pequena construção se levantava ao lado. Conheci o arquiteto, que me explicou que seria construída, primeiro, uma casa pequenina, a qual seria futuramente a casa do caseiro. Com um quarto, uma sala, uma pequena cozinha e o banheiro. Os donos, impacientes em se mudar para o local, passariam ali os fins de semana até que a casa grande ficasse pronta. Esta, sim, teria várias suítes, uma grande cozinha aparelhada, uma sala de jantar com uma mesa para doze pessoas e uma grande sala de estar, com uma bela lareira. Seis meses depois, conheci o casal de aproximadamente cinquenta anos. Gostei de ambos, simpáticos e acolhedores, desde o primeiro momento. Explicaram-me que tinham quatro filhos e que queriam a casa maior para trazer amigos nas férias escolares. Foi uma relação duradoura. Meus amigos, com quem eu costumava ficar, e eu éramos frequentemente convidados para fettuccine à italiana e churrascos à moda gaúcha. Eram ambos gaúchos, mas tinham vivido alguns anos na Itália, onde ele tinha Prova 01 servido como adido militar e até na Líbia, onde, já CBJE

53


Nelly Pereira Lima

reformado, tinha trabalhado em empresas de petróleo. Talvez, devido a isso, a casa tivesse alguns toques do Norte da África. Quando os conheci, os meninos eram pequenos, ainda estavam no colégio. Mas o tempo correu mais rápido do que se poderia pensar. Em breve, estavam-se casando e os dois, Maria Carlota e Francisco, se deliciavam com os netos que chegavam. Nos fins de semana a casa era uma alegria só! Aconteceu, porém, que uma das filhas se mudou para a Austrália com a família. A outra, cujo casamento era aparentemente perfeito, se divorciou. Um dos filhos se mudou para os Estados Unidos e o outro resolveu ir para Londres, trabalhar para a emissora BBC. Carlotinha e Francisco viram com certa tristeza que os netos já adolescentes preferiam trocar a serra e a quietude do campo pela praia e a agitação dos calçadões. Resolveram, então, que seria melhor voltar às terras gaúchas, rever os parentes e as lembranças da infância e da mocidade. A chegada à estância foi um pouco decepcionante. A velha casa parecia nunca ter sido pintada. Toninho, o irmão de Carlota que administrava os negócios por lá, preocupavase mais com o gado e as vinícolas. A centenária Emerintina – que tinha deixado em Carlotinha tantas lembranças da infância, quando escondia suas travessuras para que a mãe não a castigasse – nem sabia ao certo a sua data de nascimento: estava com mais de cem anos, pelo menos isto é o que se comentava. Contudo, no momento em que viu Carlota, Emerintina a reconheceu e sorriu. Aí sim, foi um instante de alegria. Alegria que, no entanto, durou pouco. Dois dias depois, a anciã morria. Deixou, porém, uma lembrança para Carlota: parecia uma bolinha branca, peluda, dentro de uma sacolinha. Carlota se surpreendeu quando viu que era um gatinho com uma fita Prova 01 CBJE

54


Proust das Minhas Memórias

vermelha no pescoço – fruto do amor de uma gata siamesa com um gato do mato em uma noite de tempestade, segundo lhe contou Maria, a cozinheira. A gata siamesa tinha chegado à fazenda com um boiafria que tinha vindo de Minas, em um caminhão cheio de nordestinos. Toninho insistia em dizer que sua família era radicada no Brasil desde os tempos da colonização de Ouro Preto e Mariana. Seus olhos pretos e puxados, porém, e sua tez morena e amarelada, os cabelos pretos e muito lisos, faziam com que se referissem a ele como “japonês”. Tinha contado que a gata foi presente de uma turista francesa que passou por Ouro Preto em uma excursão. O presente de Emerintina passou a ser a alegria de Maria Carlota e a absorver a atenção de todos na casa grande. Maria, carinhosamente, deu-lhe o nome de Toninho (em homenagem ao ‘japonês’). O encantamento de Carlota pelo bichinho foi crescendo a cada dia a ponto de ela insistir para que a viagem de volta ao Rio fosse adiada por mais dois meses, a fim de que Toninho pudesse ir engaiolado no bagageiro do avião. No Rio, alugaram um carro e partiram para o sítio na estrada de Friburgo. Não seria exagero dizer que Toninho passou rapidamente a reinar na casa. Francisco costumava brincar que o gato ia, pouco a pouco, tomando o seu lugar no coração de Carlotinha. Havia na sala uma cestinha com um colchãozinho vermelho, onde Toninho repousava absoluto, dormindo ou com os olhos verdes bem abertos, fitando fixamente as visitas que chegassem. Nos primeiros meses, foi o ponto central de alegria na casa. Mas, com o tempo, cresceu tanto o seu prestígio que ele começou a irritar não só os empregados, mas até mesmo o próprio Prova 01Francisco. CBJE

55


Nelly Pereira Lima

Carlota, porém, continuava adorando o seu Toninho, que, por sua vez, rosnava enciumado quando alguém se chegava a ela. Sua beleza felina correu fama pela vizinhança próxima. Todos queriam ver o gato branco de olhos verdes e fitinha vermelha no pescoço. Todos pareciam respeitá-lo, com exceção do jardineiro, que, sempre que passava por ele, brincava “miau, miau” e punha a língua para fora - o que fazia com que recebesse, em troca, dois rosnados roucos e ameaçadores. Passou-se um ano em que o gato se tornava mais lânguido e cada vez mais agarrado a Carlota, acompanhandoa até o jardim quando ela saía para dar ordens ao jardineiro. A inimizade entre Lourenço e Toninho foi-se acentuando cada vez mais, a ponto de, um dia, Edelweiss, uma confeiteira descendente de austríacos cujas tortas eram apreciadas por toda vizinhança, falar com Carlota: – Esse gato parece gente. Se eu fosse a senhora, não confiava nele. Carlota riu e, mais tarde, comentou o assunto com Francisco: – Até nisso ela não deixa de ter razão. - disse ele sorrindo – É inteligente demais para um gato. Elegante, lânguido e observador. Seus olhos parecem analisar cada visita que vem aqui. Esse nome ‘Toninho’ realmente não combina com ele. Aliás, não sei se você já observou, Carlota, mas quando alguém o chama de Toninho, ele faz cara de poucos amigos. Proponho que, no domingo, quando chegarem nossos amigos de sempre para o lanche, se ponha este assunto em pauta. A conversa terminou com risadas de Carlota e carinhos e leitinho para Toninho. Três dias depois, a mudança de nome do gato foi alvo de muitas risadas e sugestões. Um amigo militar sugeriu o nome Ronon. Uma jovem sugeriu Romeu. Uma francesa Prova 01 CBJE

56


Proust das Minhas Memórias

sugeriu Antoine. Finalmente, entre risadas, venceu a proposta de Francisco, leitor inveterado, e Toninho passou a se chamar... Proust. Carlota adorou a ideia Era um nome pequenino que logo foi muito bem aceito pelo animalzinho. Cada vez que o chamavam pelo novo nome, recebiam um doce “miau”. Com o tempo, porém, só Francisco o chamava de Proust. Para Edelweiss, ele era Prui. Para Carlotinha, ele era Prupuzinho; e o jardineiro só o chamava de Tonipru. Os meses se passaram e, um ano depois, o gato desapareceu. Francisco, brincalhão, procurou amenizar a aflição de Carlotinha, dizendo que a lua cheia da noite anterior provavelmente o tinha levado para alguma namorada. No dia seguinte, Lourenço também não apareceu. “Não costuma faltar, mas talvez esteja”, pensou Carlota. Só à tarde o gato miou, à porta da cozinha. Edelweiss, assustada, correu para Carlota mostrando o gato com o focinho e os bigodes ensanguentados. Francisco observou: – Esfomeado, deve ter avançado sobre o primeiro pássaro que apareceu. Carlota lavou o gato carinhosamente, Edelweiss trouxe o seu leitinho morno e, nessa noite, todos foram dormir mais tranquilos. No dia seguinte, só às quatro horas da tarde tiveram notícias de Lourenço. Apareceu um policial. Tinham encontrado o corpo do jardineiro. Não se sabia bem ao certo a causa de sua morte. – Parecia – disse o policial – ter sido mordido no pescoço por um gato do mato ou um outro animal qualquer. Pediu que levassem Proust à delegacia. Lá, porém, o delegado o repreendeu: – Você me traz aqui um gatinho de estimação, um bichinho inofensivo? A violência do ataque só pode ter sido praticada Prova 01 por algum animal selvagem. CBJE

57


Nelly Pereira Lima

Carlotinha se lembrou do focinho ensanguentado de Prupru, mas resolveu não falar nada. Afinal, qualquer ligação entre um fato e outro seria absurda. Voltaram todos para casa e o caso se encerrou aí. Três anos depois, Carlotinha teve pneumonia, foi hospitalizada e morreu. Seu enterro foi acompanhado pela vizinhança (pois o casal era muito querido), por um padre, por Edelweiss e, naturalmente, por Francisco. Os filhos, no exterior, não compareceram. No cemitério, ao colocarem o caixão na cova, houve um incidente desagradável e inesperado: a tampa se abriu e Prupuzinho se atirou. Só então perceberam que o gato tinha acompanhado o cortejo. O coveiro procurou retirá-lo, mas ele rosnou ferozmente e avançou sobre suas mãos. Foi nessa hora que se percebeu o ciúme enrustido de Francisco. Ele disse: – Deixe-o aí. Ele quer ir com ela? Pois que vá! Irritado, virou as costas e se retirou. E assim se consumava o destino de Toninho, Proust, Prui, Tonipru e Prupuzinho.

Prova 01 CBJE

58


Proust das Minhas Memórias

ENTREATO SOCIAL Teresópolis, 1990. Era o final de uma tarde de maio em Teresópolis, às 17h30min. Já tinha sentido o cheiro do anoitecer de outono. Dirigimos o carro a caminho da casa do casal Rogério Freitas e Lucinha. À nossa espera estariam, provavelmente, uma mesa bem posta, florida e um lanche saboroso. Era assim que o casal sempre nos recebia aos domingos. A casa, acolhedora, possuía uma boa varanda na parte de frente e uma lareira que aquecia o ambiente interno. Também viriam para o lanche outros casais e Virgínia, uma inglesa que morava na cidade há muitos anos, viúva de um arquiteto brasileiro. Rogério não cheg ava a ser bonito, mas era encantadoramente sedutor. Tinha olhos escuríssimos e, segundo a esposa Lucinha, o olhar aveludado que a tinha conquistado quando jovem. Lucinha era clara, alourada e com os olhos azuis que, na juventude, tinham sido ainda mais azuis. Logo chegaram Maria Luiza e José Roberto e, logo depois, Madalena. Joseph Steiman, carinhosamente chamado de Jô, e a mãe de Lucinha, Dona Lúcia, filha de italianos, que tinha engordado com o passar dos anos, mas ainda conservava traços de uma beleza típica do norte da Itália, apareceram também. A reunião decorreu agradável. Rogério servindo drinques e a caseira oferecendo salgadinhos aos convidados. O perfume das hortênsias no jardim chegava até nós e a conversa Prova 01 transcorria alegre e descontraída. Uma hora depois CBJE

59


Nelly Pereira Lima

seria servido o lanche. As empadinhas de palmito e de frango pareciam ser as princesas da noite. Logo viriam os canelones recheados de queijo e pera, como sempre, deliciosos. Após um silêncio de cinco minutinhos, depois de todos se concentrarem na beleza da mesa e elogiarem o arranjo de flores e frutas, Dona Maria Lúcia iniciou a conversa: – Vocês não viram nada. No final, vamos ter o meu quindão! Dona Lúcia adoçara o coração de Giuseppe. Rogério relembrou esse ponto, sempre com aquele dom de fazer reviver algum momento agradável. – Ninguém – disse então – faz quindão como Dona Maria Lúcia. E esta retribuiu o elogio com carinho: – O Rogério é um sedutor. Aliás, quando apareceu na vida da Lucinha, todos ficaram encantados. O Giuseppe, meu marido, só teve uma restrição e disse que ele não nasceu para comerciante, não tem aquele dom de encontrar a qualidade e o preço convidativo de uma boa mercadoria. Isso, porém, não vai ter grande importância porque o pai é dono de uma fábrica e, quando morrer, os filhos ficarão com todos os bens. A Lucinha está apaixonada e vai herdar o nome de uma família de tradição no Rio de Janeiro. Lucinha e Rogério se casaram e agora aqui estamos todos juntos gozando este momento feliz. Curiosa, Madalena não se conteve e perguntou: – Dona Maria Lúcia, e a senhora? Como conheceu o Senhor Giuseppe? Maria Lúcia sorriu: – Foi no armazém de secos e molhados do meu pai em Curitiba. Ele apareceu procurando negociar bebidas. Era um italiano muito bonito. Acabei me sentindo atraída de relance eProva assim01começou tudo. CBJE

60


Proust das Minhas Memórias

– Foi um bom marido, não é? – perguntou Madalena. Dona Lúcia sorriu: – Como era bonito, ele me deu algumas grandes dores de cabeça, mas era um bom provedor. A mesa sempre foi farta e, no meu aniversário, eu sempre pude comprar o que quisesse na Casa Canadá da Rua Gonçalves Dias. Só uma noite é que ele não dormiu em casa. Chegou em casa no dia seguinte, ao meio dia. O ressentimento, porém foi logo amenizado com um embrulhinho da Bernac: dentro havia um estojinho de veludo azul marinho com um barrete de platina cravejada de brilhantes! – E a senhora aceitou? - perguntou Maria Luiza com a sua ironia de sempre. Dona Lúcia respondeu rapidamente: – Claro. Maria Luiza retrucou: – Eu não aceitaria se o Roberto aparecesse em casa no dia seguinte com um barrete. Eu não aceitaria. – Minha querida, já não se fazem barretes de platina cravejada de brilhantes – respondeu Dona Lúcia. – Mas felizmente ainda existem os perfumes franceses do Free Shop – interveio Virgínia, sorrindo, num lance de humor inglês. A risada foi geral, todos sentindo a necessidade de aliviar o peso momentâneo do ambiente. – Lucinha, o que você acha disso tudo? – perguntei. – Eu estou com a Virgínia: ainda bem que existe o Free Shop... – Tem viajado muito, Maria Luiza? – perguntou Madalena. – A última vez foi em setembro do ano passado. Estivemos Prova 01 em Paris, a cidade estava linda. Lá, jantamos com CBJE

61


Nelly Pereira Lima

Mariazinha e Carlos, que nos convidaram para o Tour D’Argent. Ela sorriu ironicamente, com os olhos em mim, e todos olharam também. Sabiam que Carlos e eu havíamos tido um caso difícil, apaixonado, delicioso e angustiante. Um caso profundo que durou alguns anos e se desfez devido às muitas dificuldades criadas pelo fato de ele ser casado. Mariazinha sempre soube e resolveu assumir a situação até o fim, mas eu acabei desistindo. Virgínia tentou rebater a farpa maliciosa de Maria Luiza: – E o seu netinho, Maria Luiza? Como vai? – Está ótimo! Lindo e robusto. Virgínia retrucou: – É raro um bebê com menos de sete meses, com quatro quilos, não ter que passar pela incubadora. Mas, com a habilidade de sempre, Rogério se dirigiu a mim e, mudando de assunto, perguntou: – Helena, você continua no seu curso? Ouvi dizer que se tornou uma fervorosa admiradora de Marcel Proust. – Realmente, respondi. A Recherche me fascina, com todos aqueles personagens tão envolventes. – Algum deles se parece comigo? – perguntou Madalena. – Bem, todos nós temos alguma coisa de alguns dos personagens. Todos eles são interessantes, com vestígio de alguma bondade e bastante maldade. São humanos e, justamente por não serem perfeitos, fascinantes. – Mas e eu? – voltou a insistir Madalena – Pareço com algum deles? – Estou pensando. O Jô, por exemplo, tem alguma coisa do Swann: o calor humano, a suavidade misturada com a intensidade de sentimentos. Pelo menos é assim que euProva o vejo. 01 CBJE

62


Proust das Minhas Memórias

– Ele é assim mesmo. E por isso me apaixonei por ele – disse Madalena, sorrindo. – Mas,quanto a você, Madalena, é muito diferente da Odette, a namorada de Swann. Proust, aliás, não poderia ter criado um personagem como você. – Por que? –Porque, Madalena, você é uma carioca legítima, daquelas que só são vistas em Copacabana. Tostada, olhos verdes, sensual e envolvente como as ondas do mar. Proust nunca veio ao Brasil. Morreu sem conhecer o Rio e sem conhecer Copacabana. Você tem coração. – A Odette não tinha? – perguntou Madalena. – Se tinha, eu nunca consegui descobrir, na Recherche. – Bom, chegou a hora do Crêpe Suzette – falou Rogério, levantando-se e pegando no bufê o aparelho de prata, o álcool, o conhaque, a massa já preparada e, ali mesmo sobre a mesa, preparando os crepes com os quais costumava brindar os amigos, sempre após o lanche. Foi uma delícia. Depois dos licores, todos, descontraídos, tivemos aquela vontade de voltar cada um para a sua casa. Agradecemos, nos despedindo, e partimos. Mas a lembrança do carinho, da generosidade e do olhar doce e aveludado de Rogério Freitas nesse fim de tarde em Teresópolis nunca me saiu da memória. 1

1

Nesta história, de pura ficção, os únicos elementos verídicos são o Prova 01 quindão e as Crêpes Suzette.

CBJE

63


Proust das Minhas Memórias

MATA LAÇADA Eram oito horas da manhã quando saí do apartamento da Lagoa e me dirigi ao metrô. Na UERJ se iniciaria, nesse dia, um seminário sobre jornalismo com grandes nomes especializados no ramo. Uma névoa fina pairava no ar úmido desse dia de abril. A bruma me envolveu, quase acariciante. Uma segunda-feira brumosa. Sorri comigo mesma. Se mamãe ainda estivesse aqui, ter-me-ia corrigido imediatamente: – Enevoada, minha filha. Pare de inventar palavras. Tinha sido assim muitas vezes, na minha adolescência. A verdade, porém, é que ela nunca me tinha conseguido corrigir esse hábito. Sorri com uma saudade doce e, ao mesmo tempo, triste, como em geral são todas as saudades de um tempo que não volta mais. Apressei o passo, entrei e desci rapidamente as escadas da Estação Cantagalo. Dirigi-me ao último carro da composição, em geral mais vazio, pelo menos até a Estação Botafogo. Realmente, havia apenas uma mulher no último banco da esquerda. Sentei-me no da direita e me distraí, olhando para ela vagamente. Deu para ver que o seu calçado era gasto, sua saia tinha sido preta e sua bolsa branca estava limpa. Seu rosto conservava traços que deveriam ter sido bonitos um dia. Seu cabelo era uma mescla de louro desbotado e branco, sem brilho nenhum. Tecia um pano com as mãos. Parecia um caminho de mesa de lã de várias cores, cujos novelos ficavam em uma pequena sacola de supermercado. Desviei o olhar, pensando na utilidade deste trem que, em menos de quinze minutos, me deixaria na Estação Prova 01 CBJE

65


Nelly Pereira Lima

Maracanã, um percurso que, de ônibus, levaria provavelmente uma hora. Voltei a fixar o olhar nas mãos da passageira vizinha, que manipulavam as lãs tão rapidamente como se fossem agulhas entrelaçando-se. Ela deve ter visto o meu interesse e perguntou: – Gosta? Respondi: – Muito interessante. É um trabalho sem agulhas, eu nunca tinha visto. – O nome é Mata Laçada. - disse - É uma tradição de família. Aprendi com minha mãe, que aprendeu com minha vó, que aprendeu com minha bisavó. Eu vou lhe contar. Ela sorriu amistosamente. Mas, por incrível que pareça, já estávamos na Estação Maracanã. Despedi-me depressa: – A gente se vê. Provavelmente nunca mais a veria nem saberia o resto da história. Uma pena, talvez fosse uma história interessante. No dia seguinte, levantei-me às oito horas da manhã novamente. Ao abrir as janelas do meu quarto, detive o olhar na Lagoa Rodrigo de Freitas e agradeci a Deus o privilégio de morar em frente a um dos cartões postais mais lindos do Rio de Janeiro. O seminário de hoje seria interessante, principalmente à tarde. Pela manhã, haveria debates entre alunos da faculdade de jornalismo e seus respectivos professores. À tarde, palestras especialmente interessantes com três de alguns dos mais famosos jornalistas do Rio de Janeiro: uma sobre o monopólio na imprensa, outra sobre a volúpia, o martírio e o êxtase de um jornalista, a terceira sobre a incontrolável violência nas artes em geral. Dirigi-me ao metrô por volta do meio dia. Caminhei como para o último carro, que a essa hora estaria vazio. Prova sempre 01 CBJE

66


Proust das Minhas Memórias

Mas me surpreendi. Lá estava ela com seu Mata Laçada. Sorriu quando me viu. Estendeu-me a mão. – Bonjour. Meu nome é Louise. – Coincidência, o meu é Luísa. Minha mãe era de São Luiz do Maranhão. Por acaso a sua também? – Não, a minha era francesa e eu nasci em Paris, na Ilha St. Louis. Olhei admirada. – E como é que veio parar no Brasil? – É uma longa história. Minha mãe trabalhava na casa de um ricaço da Alsácia Lorena, um nobre foragido dos nazistas e radicado na França. Eram tempos difíceis. A guerra tinha terminado em 1945. Ela entregou-se a ele em um momento de fraqueza e, nove meses depois, eu nasci. Naquela época tudo se passava, segundo minha mãe, entre momentos ainda de temores e incertezas. Conforme o retrato, ele era lindo. E também galanteador, ao que tudo indica. Um momento de arrebatamento se transformou em paixão no coração de mamãe. Tudo, porém, assim como tinha começado, terminou subitamente. Uma manhã, ao chegar ao trabalho, a concièrge lhe contou que ele tinha partido. Sempre que falava nisso, minha mãe chorava. Fruto desse amor, fiquei eu em sua vida. – E como é que vocês vieram para o Brasil? - perguntei. – Minha mãe se chamava Huguette. Foi uma pintora brasileira quem, ao vê-la chorando, sentada em um banco à beira do Sena, se enterneceu e, penalizada, levou-a para casa. Assim, arranjou um novo emprego e acabou aqui no Brasil. Um dia, ao chegar em casa vindo do colégio, eu soube que ela tinha sido atropelada por um carro e levada para o hospital. Depois dias depois, vi-me só no mundo. Tinha quinze anos. Tentei terminar os estudos, mas acabei trabalhando com a mesma Prova 01brasileira com quem a minha mãe tinha trabalhado. CBJE

67


Nelly Pereira Lima

Até que a pintora também morreu. Felizmente, encontrei Pierre. Você trabalha na UERJ? Pergunto porque esta é a segunda vez em que você desce no Maracanã com essa pasta na mão. Ele trabalha lá. – Não, mas estou indo para lá com o objetivo de assistir a um simpósio sobre jornalismo. Tchau, a gente se vê. Passaram-se dois dias, nos quais não vi nem pensei em Louise, envolvida do jeito que estava com o material colhido no simpósio. Na sexta-feira, último dia do seminário, me dei conta de que não a tinha visto mais. Contudo, com o encerramento das atividades e o coquetel de despedida, só voltei para casa às oito da noite. No fim de semana, porém, meu pensamento voltou a Louise e tive vontade de escrever sua história. Precisava saber mais detalhes. Na segunda-feira, voltei à Estação Cantagalo na mesma hora de costume, tomei o metrô e fui em direção ao último carro à procura de Louise, mas o banco no qual ela costumava sentar estava vazio. Decidi então procurar por Pierre. Saltei no Maracanã novamente, peguei a passarela e, chegando à UERJ, perguntei por ele na portaria. Indicaramme um trailer de sanduíches e refrigerantes. Ele parecia ter a mesma idade de Louise, era moreno e tinha os cabelos ralos e grisalhos. Admirou-se quando lhe perguntei por ela. – Partiu. Viajou para bem longe, não volta mais – disse-me. – Não me diga que ela voltou para a França? – perguntei. – Não, não. Foi para a grande viagem. Tranquila e sorridente como sempre. Adormeceu e não acordou. A senhora por acaso é a Luísa? – Sou – respondi. Prova 01 CBJE

68


Proust das Minhas Memórias

– Ela me falou na senhora e deixou isto aqui para que eu lhe entregasse. Tirou de uma gaveta um embrulho e dele um caminho de mesa colorido. – Ainda tem isso aqui. Era um manuscrito. – Dê a Luísa – ela me disse – é jornalista e talvez escreva sobre a minha vida. Seus olhos ficaram embaçados e, emocionado, ele me disse: – Estávamos juntos há tantos anos. Nos conhecemos num ônibus. Seus cabelos eram dourados, seu sorriso era doce. Ela tinha um sonho de escrever um livro. Eu tinha um sonho de ser letrista. Foi na época da Bossa Nova. Dois sonhos que só se realizaram em pensamento. Já faz tanto tempo... Desde então, nunca mais nos separamos. Vai ser duro! Despedi-me emocionada. Surpreendida, agradeci e me afastei. Só em casa examinei o embrulho. Jamais esquecerei meus rápidos diálogos com Louise no metrô. Quem sabe, algum dia eu conseguirei publicar a sua história. O dia seguinte amanheceu chuvoso e resolvi dedicarme à leitura do manuscrito de Louise. A narrativa era singela, a história dolorida. Houve momentos nos quais meus olhos se enevoaram, pensando em Louise, nos seus sonhos, suas amarguras. Mas acabei descobrindo em seu texto o nome da pintora que trouxera Huguette para o Brasil: minha velha amiga Lucíola Pontes, que eu não via há anos! Lucíola tinha grande coração e um humor pitoresco, às vezes até sarcástico, que marcavam a sua personalidade. Não pude deixar de sorrir quando me lembrei da mulher de um adido militar que eu tinha conhecido em Washington, em um almoço na Embaixada do Brasil. Prova 01 CBJE

69


Nelly Pereira Lima

Era uma senhora gorducha, de cabelos castanhos, olhos verdes e grandes pestanas – já que, na época, os cílios postiços estavam na moda. Ela falava sempre um pouco mais alto do que os demais e, durante o almoço, insistiu em contar que esteve em Brasília, em uma exposição de quadros de Lucíola. Ficou encantada e fez questão de visitá-la no Rio. Quando eu lhe disse que conhecia Lucíola, contou-me da recepção em seu apartamento e perguntou se conhecíamos Célestine. Como ninguém lhe perguntasse quem era, apressou-se a explicar: – A governanta que Lucíola importou da França. – e, levantando a voz para que todos ouvissem – Uma francesa descendente direta de Céleste, uma das mais importantes figuras na vida íntima de Proust. O assunto terminou aí, interrompido casualmente por um conselheiro falando sobre pintura brasileira contemporânea. Não pude deixar de sorrir. Eu tinha esquecido completamente este episódio. Só relendo o manuscrito relembrei-o: “Só Lucíola, com seu bom coração e seu humor sarcástico para trazer Huguette para o Brasil, apresentá-la como Célestine às amigas grã-finas e inventar essa história pitoresca para uma senhora gordinha e deslumbrada”.

Prova 01 CBJE

70


Proust das Minhas Memórias

SALOMÉ Quem passar pela Praia de Botafogo, quase na esquina da Senador Vergueiro, certamente encontrará o Solitário. Seu rosto sem expressão e sua roupa cor de pó quase se confundem com a tonalidade da calçada. É ali que ele mora, há quinze anos. Nunca ninguém o viu dormindo, nem bêbado nem esmolando. Nunca se descobriu quem o alimenta. A Prefeitura o levou duas vezes, mas ele retornou ao lugar de sempre e nunca mais saiu de lá. Como não dirige a palavra a ninguém, a recíproca é verdadeira e nenhuma pessoa a dirige a ele em troca. Seu olhar parece sempre fixo no horizonte. Sem ver ninguém, sem falar com ninguém, lá está ele, solitário. Mas não foi sempre assim. Eu o conheci no tempo do sorriso e da alegria, do olhar brejeiro e animado. Vendendo verduras e frutas na quitanda dos Santos (que tinha esse nome porque os dois donos, sócios, se chamavam Pedro e João Batista...), Pedro herdou o ponto e a loja do pai. João Batista entrou com cinquenta mil cruzados ganhos numa loteria de Natal. Eram apenas duas portas, mas as frutas e verduras frescas trazidas diariamente por João Batista do mercado atraíam a freguesia. Eu mesma ia lá quase diariamente à procura de alface fresquinha para a salada. Ao Pedro, competia cuidar do caixa, tarefa tranquila demais para o seu gosto. Mas a ida diária ao mercado também não o atraía. Dos dois sócios, era João Batista quem indiscutivelmente parecia mais feliz com o negócio. Filho único de um casal de caseiros de um pequeno sítio na beirada da estrada para Petrópolis, tinha passado a infância cuidando de bezerros, cabras e galinhas, até que a sorte o brindou na loteria de Natal. Prova 01 CBJE

71


Nelly Pereira Lima

Foi inesperadamente que uma Salomé mudou a sua vida e a de Pedro. Instalado no Largo do Machado por João Batista, o Mercado ‘Salomé’ conquistou, de início, as donas de casa, depois o bairro todo. Seu sucesso foi tanto que, ao lado, logo inauguraram um café que encheu de movimento e alegria não só o Manuel Romeu, dono do estabelecimento, que via o lucro aumentar dia a dia, mas a própria praça, o Largo do Machado. No fim de um ano, o Salomé tinha crescido tanto que inaugurou o anexo Hortifrúti, de mesmo nome. Entusiasmado, Manuel Romeu resolveu dar uma geral, pintou a sua própria loja toda de amarelo e, no fundo, sobre uma parede vermelha, desenhou ele mesmo a figura de uma grande sereia de cauda prateada. Dizia-se então que Salomé, muito branca, de seios pujantes, cabelos negros e encaracolados, era a imagem de uma “sereia” argentina que ele tinha conhecido em uma tarde de verão, em uma festa popular, no Aterro do Flamengo. Quando alguém gracejava sobre isso, Manuel Romeu sorria satisfeito e afirmava: “Não foi uma tarde só. Foram uma tarde e uma noite que valeram por dez”. “E a sereia?”, perguntava algum brincalhão. “A sereia nunca mais apareceu, sumiu no mar”, explicava Manuel Romeu. A ‘sereia’ Salomé cresceu tanto no imaginário popular que logo surgiram os mais diversos boatos a seu respeito. Dizia-se, por exemplo, que em noites de lua cheia ela se destacava do painel e, com uma saia longa e um xale feito de folhas de espinafre e cenouras penduradas cobrindolhe os seios, atravessava a Rua do Catete e entrava na praça com uma sacola, da qual tirava frutas variadas que distribuía aos mendigos que estivessem acordados. Em outras madrugadas, ela voltava com sementes de girassol, que Prova 01 CBJE

72


Proust das Minhas Memórias

distribuía aos pombos. Alguns contavam que ela estava ensinando os pombos a dizerem o nome de seu amado e que, ultimamente, todos eles procuravam enunciar “R... Romeu, R... Romeu, R... Romeu”. As lendas eram tantas que, uma madrugada, de volta de uma festa, resolvi ir ao Largo do Machado. Conversei com dois ou três mendigos que me garantiram que Salomé era um travesti. Um me garantiu também que seus cabelos eram verdes como ramos de agrião. Outro me disse que seu hálito exalava o perfumes de morangos. Perguntei a um garoto maconhado, encostado em uma árvore, se tinha visto Salomé alguma vez e ele disse que não lembrava. Mas um de seus companheiros de praça garantiu que ele nunca poderia ter visto Salomé porque, quando a sereia aparecia, estava sempre adormecido. Nessa noite, resolvi esperar até cinco da manhã. Senteime ao sereno, não vi nada e voltei para casa. Lá estava o Solitário na esquina. Não pude deixar de me entristecer. Se Salomé fez a prosperidade de Manuel Romeu e a alegria de muitos no bairro, também fez a tristeza das pequenas quitandas que foram, aos poucos, se extinguindo. A dos Santos não foi exceção. Fechou as portas inesperadamente. Pedro vendeu a loja, o ponto e comprou um táxi. João Batista recebeu de volta os cinquenta mil cruzados que a inflação tinha reduzido consideravelmente. Procurou emprego nos supermercados e até no próprio Mercado Salomé, mas, semi-analfabeto, não conseguiu trabalho. Passou a sentar-se no lugar que hoje ocupa e descobriu um talento que nunca soube ter. Como o tempo era longo e vazio, comprou uma cartolina e craions, passou a desenhar retratos de artistas de cinema e televisão. Eram cópias vendidas rapidamente aos antigos fregueses da quitanda que procuravam ajudá-lo Prova 01no que podiam. CBJE

73


Nelly Pereira Lima

Como copista, era bom. Eu mesma tenho um retrato de Proust copiado da capa de um livro, que eu lhe pedi que fizesse. Até hoje guardo-o como lembrança dos dias melhores de João Batista. Com o tempo, porém, os compradores se cansaram e se cansou também o próprio João Batista. Ele passou a viver então do nada para o nada. A não ver ninguém, a não falar com ninguém, a fitar apenas eternamente os jardins da Praia de Botafogo.

Prova 01 CBJE

74


Proust das Minhas Memórias

MARGARIDA E O PROFESSOR Ela chegou de manhã à minha casa, indicada por uma amiga. Era um sábado ensolarado. Tive a impressão, porém, de que o dia havia ficado ainda mais claro. Não sei se foi o sorriso, se os olhos grandes esverdeados ou o brilho do Sol batendo no cabelo louro. O fato é que ela me transmitiu a sensação de alegria e continuou assim todas as manhãs de sábado quando vinha. Cuidava das minhas unhas e logo se transforou de manicure em amiga indispensável. Nascida em um subúrbio do Rio de Janeiro, inteligente e estudiosa, Margarida galgou, pouco a pouco, os degraus da escolaridade, até que um dia se viu na Santa Úrsula recebendo o diploma de Letras. Lá mesmo, sentada no banco de um jardinzinho no campus da universidade, ele a descobriu. O professor Henrique contou a um colega que tinha sido amor à primeira vista. Não conseguira resistir ao sorriso e ao brilho esverdeado dos olhos da moça. Em menos de dois meses, casaram-se e se mudaram para Copacabana. A vida decorreu amena e agradável. A praia ficava apenas a uma quadra de distância. O apartamento, grande, mostrava-se claro, bonito, perto de tudo. A vida era tranquila, tão tranquila, porém, que a levou a pensar em ir além daquela tranquilidade doméstica. Conseguiu um emprego numa loja de roupas femininas na Rua Santa Clara. Adorou. A personalidade alegre e presenteira que possuía atraiu as clientes. Agradou, principalmente, pelo dom especial de descobrir a peça que ficaria melhor em cada uma delas. As vendas triplicaram. O dono, um árabe simpático e ganancioso, viu nela uma fonte preciosa de renda. Prova 01 CBJE

75


Nelly Pereira Lima

Seis meses mais tarde, ele promoveu-a a gerente com a condição de continuar trazendo lucros. O trabalho lhe estimulava a alegria. Tornando-se amigas, as clientes passavam, entravam para um papinho e saíam com alguma coisa (uma echarpe, uma blusa etc ). Um ano se passou. Um dia, ao chegar à loja, teve a notícia: o dono desconfiara da mulher dele, que trabalhava em frente, numa de suas lojas, só de roupas masculinas. Resolveu fechar a loja feminina e se transferir para lá. De repente, Margarida ficou novamente com a vida tranquila, vazia. Quituteira nata, passou a se distrair com bolos, empadões, bobó de camarão e pratos do gênero. Adotou o hábito de sair cedo, caminhar no calçadão e aproveitar o sol da manhã. Sentia-se só. O professor retornava tarde, os dias esticavam, lentos e longos. Lembrou-se de que, quando jovem, em seu bairro, fazia as unhas de algumas vizinhas e amigas. Para encher o tempo, resolveu voltar a tentar o mesmo. Uma tia serviu de cobaia e outras amigas dela apareceram. Cercou-se de clientes. Todas, senhoras abastadas. A clientela aumentou e tudo corria bem. No entanto, apareceu-lhe um problema na vista direita. Procurou um oftalmologista, que diagnosticou uma ameaça de perda de visão. Já não enxergava de um olho por causa de um pequeno acidente no passado. Apavorada, telefonou para uma cliente e, desmarcando a hora, contou o caso. A cliente a levou a uma clínica particular cujo médico detectou, de fato, um tumor na hipófise. Operada, recuperou a visão e voltou à vida normal. Tinha saído de um período durante o qual contou com o apoio e a dedicação do marido. No ano seguinte, nova operação. Desta vez, no útero. Voltou para casa com uma estranha sensação, Prova 01 como se o apartamento tivesse mudado. CBJE

76


Proust das Minhas Memórias

Na sua ausência, o professor passou a ir à praia para relaxar. Conheceu e se encantou com uma esteticista. A separação foi rápida, degradável, brutal como todas as separações. Como o apartamento era herança do pai de Henrique, ela saiu de lá ao meio dia de uma quinta-feira com as pernas bambas e a carteira lisa. Mergulhou naquele sol infinito com uma tristeza imensa no coração em revolta. Andava de tal maneira que nem sentia os pés. Entrou na Avenida Copacabana, no meio dos carros e do barulho de buzinas. Experimentou um arrepio e arregalou os olhos. Despertou novamente para a vida. Sorriu. De repente, a tristeza e a revolta, num abraço mútuo, haviam partido. Ela ergueu os olhos para o alto, para o céu azul e falou consigo mesma: – O que é isso, Margarida? Bola pra frente! Não era, afinal, o fim do mundo. Com o sorriso e a coragem de sempre, atravessou a rua e sumiu na multidão. Quanto ao professor, bem... As coisas não lhe correram assim tão fáceis. Após um mês de euforia e de amor ardente, uma tarde, chegando em casa, vestiu uma camisa nova amarela, de linho, e partiu para o apartamento da esteticista, a três quadras de distância. A caminho, comprou um botão rosa. Finalmente lá, cumprimentou o porteiro e se encaminhou ao elevador. Surpreendeu-se quando ouviu: – O senhor está indo para o 201, professor? – Sim. Por que? – Lá não tem ninguém não senhor. – Ela disse a que horas volta? – Mudou-se. Foi para Santos. Não deixou endereço. Henrique deixou o edifício e regressou a casa atônito. Não Provasabia 01 o que pensar. As três quadras nunca lhe haviam CBJE

77


Nelly Pereira Lima

parecido tão longas. O apartamento grande o recebeu maior ainda: frio e solitário. Ele recostou-se no sofá e adormeceu. Despertou às três da manhã com o pescoço doído, com fome e sede. Lembrou-se, com saudades, de um bolo de batata com carne que Margarida fazia. Resolveu ir ao botequim da esquina para tomar uma cerveja e comer alguma coisa. Nos dias subsequentes não foi à Faculdade. A paixão tinha-se transformado em fumaça. Restavam-lhe a praia, o mar azul, a areia branca e uma boa caminhada. Daí por diante, tocou a vida da casa para o trabalho e vice-versa. Mas as noites eram difíceis. Passou a percorrer os bares da orla. A conhecer gente nova: um mundo diferente, cheio de garotas bronzeadas e morenos musculosos. Fez camaradagem com eles, alguns surpreendentes e interessantes. Outros lindos e inconsequentes. A notícia correu e chegou à universidade. Um dia, quando subia no elevador para a sala de aula, encontrou o Fonseca, um de seus colegas. Expansivo, este o abordou brincando: – Eu já soube das novidades, meu caro! Você é um Charlus. Henrique saiu do elevador e sorrindo disse: – Que é isso!? A porta fechou e o ascensorista perguntou ao Fonseca, cheio de curiosidade: – Algum problema com a polícia? Ele trocou de nome? O apelido pegou. A brincadeira não desagradou nem ao próprio Henrique, envaidecido com a comparação com o personagem mais discutido de Proust. Daí por diante, resolveu se aprofundar na Recherche, virar especialista e estudar cada vez mais o personagem. Mudou de vida e até de personalidade. Passou a ser Charlus. Prova 01 Uma obsessão. Uma nova paixão. CBJE

78


Proust das Minhas Memórias

Os colegas riam, os amigos ironizavam. Tentou explicar-se. O espírito de Proust e da Recherche... Não lhes entrava na cabeça. Ele, Henrique, havia migrado para outra dimensão. De fato, tão intensamente se identificara com Charlus que virara exótico. Estava só, inteiramente só. Não se comunicava mais neste mundo e já não se reconhecia. O que lhe tinha acontecido? E quem era, finalmente, então?

Prova 01 CBJE

79


Livro produzido pela C창mara Brasileira de Jovens Escritores Rio de Janeiro - RJ - Brasil http://www.camarabrasileira.com E-mail: cbje@globo.com


PROUST DAS MINHAS MEMRIAS