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Uma viagem galatica pela freguesia de

Real


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Ficha Técnica:

Título: Uma viagem galática pela freguesia de Real Edição: Freguesia de Real, Penalva do Castelo Tlf.: 232 641 945 Tlm.: 925 884 045 www.real-pct.net Ideia Original e Fotografia: Pedro Pina Nóbrega Texto: Daniela Costa www.biografiasporencomenda.com Ilustração: Vera Guedes Composição e Paginação: Pedro Costa Impressão: Desigm, Lda

Setembro de 2013

ISBN 978-989-20-4117-9 DL 363341/13

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O livro que agora tens à frente contará a história de um grupo de amigos que vão conhecer a nossa freguesia, através de uma nave espacial, a Galáctica. A Galática existiu mesmo, fez parte da infância dos teus pais e de todos aqueles que nos anos 80 e seguintes passaram pela Escola Primária. Num tempo em que a televisão apenas tinha dois canais, onde os brinquedos escasseavam e computadores ou consolas nem se viam era a imaginação que ditava as brincadeiras das crianças. Aproveitando os ramos de carvalho existentes no morro da escola, as crianças brincavam às naves espaciais, inspiradas numa série de televisão da altura, sonhando com ataques e contra-ataques de naves espaciais inimigas, transformando o recreio num ambiente espacial e galático. Desejamos que este livro desperte em ti o gosto pela nossa freguesia, pelo seu património e pela sua riqueza natural. E lançamos-te um desafio... com os teus pais vai visitar algum destes lugares que não conheces e pede-lhes que te contem como eram as suas brincadeiras quando eram mais novos... vais ver que vai ser divertido!

Um abraço fraterno, Pedro Pina Nóbrega Paulo Jorge de Sousa Lemos António Manuel Correia Nunes

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Para não misturarmos fantasia com realidade, vamos aqui contar a história de uma freguesia que existe mesmo e se chama Real. Mas atenção porque pelo meio pode haver muita ficção! O que interessa neste caso não é descobrir o que é verdade e o que é inventado. Mais importante do que isso é divertires-te enquanto aprendes mais sobre esta terra.

E, já agora, conheces o Ludares? Já o farejaste por aí? E sabes alguma coisa sobre a Galática? É ela que te vai levar a viajar!

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indice uma viagem no tempo 9 i

minerio 17 levada da ribeira 23 cruzeiro da ribeira 33 santa luzia 39 ponte da baralha 49 cortes 57 cruz do alto da serra

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largo do eiro 71 s. marcos 81 escola 89 7


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Uma viagem no tempo - Já estou farto de te dizer para saíres da frente do computador. Não estás a pensar passar as férias todas a jogar, pois não, Rodrigo? - O queres que eu faça? Não há nada interessante para fazer… – queixavase o rapaz ao seu pai. O Rodrigo tinha 8 anos e estava completamente aborrecido com a ideia de passar os meses de verão na sua terra. Gostava de poder viver na vida real aventuras excitantes como as dos jogos de computador, mas já sabia que ali 9


não havia nada tão animado. Mas o pai não o deixou sem resposta: - Antigamente, não havia computadores nem nada dessas coisas e olha que nós divertíamo-nos e muito! O rapaz continuava de mau humor e resmungou, entre dentes, sem tirar os olhos do computador: - Deviam ter umas aventuras incríveis, deviam… - E tínhamos. Se queres saber, tínhamos. Até viagens ao espaço numa nave espacial nós fizemos – assegurou o pai, sem perder a calma, mas demonstrando já uma certa irritação. O Rodrigo desviou pela primeira vez a atenção, deixando o jogo em pausa, e murmurou: - Hum? Viagens ao espaço? - Sim. Gostavas de experimentar a Galática? 10


- Claro – respondeu o filho cheio de entusiasmo. - Então chama os teus amigos e preparem-se para descobrir o que é diversão pura. Encontramo-nos às 16h no recreio da escola – ordenou o homem. O Rodrigo mandou logo mensagens aos seus amigos. Uma hora depois, já estavam em sua casa o primo Marcelo, o João e as manas Renata e Daniela. Não se cansavam de fazer perguntas, estavam ansiosos por saber o motivo daquela convocatória de última hora, mas o Rodrigo também não sabia mais do que eles. Com um formigueiro na barriga, despacharam-se a chegar à escola, debaixo do sol escaldante de julho. No quintal, ficou o Ludares a abanar a cauda, triste com a indiferença da rapaziada que lhe costumava dedicar atenção redobrada durante as tardes preguiçosas de verão. O Sr. Paulo atirou bruscamente um capacete a cada um e lançou a provocação: 11


- Os valentes que se aproximem! Um a um, todos fizeram questão de passar para o lado dos corajosos que embarcavam numa aventura de olhos vendados. Foram conduzidos a uma nave espacial e quando já estavam bem instalados ficaram a saber que aquela era a Galática, uma fantástica máquina de viajar no tempo. Eles não queriam acreditar: de um momento para o outro, todo o imaginário dos seus filmes, livros e desenhos animados aterrava na sua aldeia pacata e eles eram os protagonistas principais! Luzes azuis, botões incríveis, comandos de todos os tipos e feitios davam vida à máquina perante a surpresa geral dos cinco pré-adolescentes. A Renata beliscava histericamente a Daniela, perguntando em surdina: - Tu não tens medo? Para onde é que nós vamos? - Qual medo, qual quê? – resmungou o Rodrigo que não pôde deixar de 12


ouvir os anseios da amiga. E acrescentou: – Estamos com o meu pai, tem de correr tudo bem. - Vamos lá, malta, toca a colocar o capacete. Vamos partir rumo ao primeiro destino – informou o Sr. Paulo. Trocando olhares cúmplices, os miúdos obedeceram. A máquina deu alguns estremeções, emitiu uns sons que mais pareciam a banda sonora de um filme de ficção científica e uns segundos depois anunciou: - Aterragem efetuada com sucesso. Podem retirar os equipamentos de segurança.

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Minerio

A paisagem que eles observavam era lunática, cheia de pequenas elevações, pintada em tons de castanho e cinzento. O cascalho estava por todo o lado e dava um aspeto inóspito àquele lugar. Ainda assim, o Rodrigo e os seus amigos tinham a sensação que não estavam muito longe de casa, havia alguma coisa ali que lhes era familiar. De repente, apareceram uns miúdos que traziam ramos de giestas nas mãos, dirigiram-se para o cimo do monte e depois começaram a escorregar sentados 17


em cima dos ramos. Riam-se e divertiam-se. Algum tempo depois, repararam no grupo da Galática e foram chamá-los para se juntarem à brincadeira. Um pouco a custo, o Rodrigo e os seus amigos lá se decidiram a experimentar a adrenalina de descer os montes de terra, arriscando-se a rasgar as calças no rabo. - Onde é que nós estamos? – indagou o João. - Então não conhecem a vossa própria terra? Estamos em Real – respondeu um dos miúdos. Os miúdos da Galática não estavam a perceber. Aquelas crianças eram gente do mesmo planeta, mas vestiam-se e comportavam-se de uma maneira tão estranha... - Estamos em 1984. E vocês? O Rodrigo e os amigos perceberam então que tinham viajado no tempo. 18


Continuavam no mesmo local, mas há algumas décadas atrás. - Nós estamos em 2013. A nossa vida é muito diferente. O que é que vocês estão a fazer? – quis saber o Marcelo. - Aqui atrás há uma mina onde se explora feldspato. Para nós, é um sítio muito divertido porque a terra ainda está mole e vai adquirindo novas formas. Nós não temos muito tempo para brincar. Assim que saímos da escola, temos de ir rapidamente para casa para ajudar os nossos pais, por isso, aproveitamos todas as oportunidades que temos para inventar jogos e brincadeiras. - E parecem estar a divertir-se… – comentou a Renata. - Estamos, pois. Juntem-se a nós e vão perceber porquê. Rapidamente criaram amizade com aqueles rapazes simples e passaram a tarde a subir e a descer os montes de terra como se fossem alpinistas experientes que escalavam as mais impenetráveis montanhas. 19


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Levada da Ribeira Com as patas molhadas e o focinho esticado, o Ludares não parava de farejar, havia uma novidade à espera que alguém a encontrasse e este perspicaz cão de caça sabia que tinha de ser ele o primeiro a encontrá-la. A rapaziada decidira não lhe ligar nenhuma, mas ele ia descobrir o que se passava. Não se tratava de uma perdiz ou de um coelho, muito menos de uma arca cheia de moedas. Também não era um velho osso que ele tinha escondido há algum tempo atrás dentro da terra. Naquele dia, o seu faro prometia-lhe algo 23


diferente e o cão mexia-se agitadamente, procurando aqui e ali. Contornava fragas, espreitava os ninhos e explorava, escavando com as suas patas dianteiras, os buracos das toupeiras. Estava já cansado de tanto procurar, quando decidiu ir ao rio beber um pouco de água para se refrescar. Estava na Levada, junto à ponte da Ribeira, a decidir se ficava ali a descansar à fresca ou se continuava a sua busca, quando ouviu um estrondo. Correu a refugiar-se debaixo daquela ponte construída já na década de 30 do séc. XX. Quando teve finalmente coragem de abrir os olhos, viu o Rodrigo e o seu grupo a saírem de uma nave espacial. Ficou tão assustado que desatou a correr. Afinal era aquela a novidade que o seu nariz lhe indicara. Os miúdos desta vez identificaram logo o sítio onde estavam, na verdade, a paisagem não tinha mudado quase nada. Mas havia uma grande diferença: o 24


rio e as suas margens estavam cheios de crianças que se divertiam a tomar banho, sem qualquer vigilância dos adultos. Reconheceram o mesmo miúdo que conversou com eles no dia em que estiveram no minério e perguntaramlhe o nome. - Sou o Paulo. Não sabem ainda quem eu sou? - Não – responderam eles sem saberem o que ele queria dizer. - Quem é que vos fez embarcar nesta aventura? – insistiu o Paulo. - Foi o pai do Rodrigo. - Então acham que ele vos ia deixar sozinhos? - És tu, padrinho? – perguntou o Marcelo, que era afilhado do Sr. Paulo. - Sim. Faço questão de vos mostrar como era a nossa terra no meu tempo. Vou começar por vos falar deste rio, o Ludares. Umas vezes, leva mais água, outras menos. Tanto arrasta troncos e ramos com a força da sua corrente, 25


como fica quase vazio, sem água. O rio alimenta muitos animais e plantas e dessa forma proporcionou já o sustento de muita gente. - Mas ninguém come estas ervas – espantou-se a Renata. - Tens razão. Só que estas ervas são o alimento de muitos peixes que as pessoas habilmente pescam. É sobretudo em abril e junho que eles são mais procurados. As gentes daqui apreciam muito o petisco e dedicam-se à sua pesca com cesto, cana ou outro meio. Veem aquele senhor ali depois da ponte? Vamos até lá. Os miúdos obedeceram e quando chegaram junto do Tio Cândido, que era um senhor relativamente novo, mas que usava roupas como as dos avôs dos miúdos, ele cumprimentou-os e pediu-lhes ajuda, dizendo: - Quem é que me pode apanhar ali aquela boia de cortiça? O Rodrigo e o Marcelo correram a pegar cada um numa ponta da rede, não se 26


importando nada de molhar os calções, pois com aquele calor até sabia bem! Rapidamente o Tio Cândido encheu o seu balde de peixes, e, com um sorriso de satisfação, declarou: - Já tenho jantar para a minha família e ainda vou dar alguns peixes aos meus vizinhos. Têm de se comer hoje, se não, com este calor, estragam-se – explicou o pescador, afastando-se em direção à aldeia. - Vocês não têm frigorífico, pois não? – perguntou o João, sempre muito atento. - Não. Na quinta, nem sequer luz elétrica temos – confirmou o novo amigo. O Paulo explicou depois aos seus visitantes que ele e os amigos adoravam tomar banho naquele local e aproveitavam quase sempre quando não havia adultos por perto para darem valentes mergulhos. Mas aquilo não era para qualquer um, pois o local era perigoso, era necessário conhecer muito bem o rio. 27


Enquanto apreciavam as piruetas do Paulo e dos seus amigos, os viajantes da Galática tomaram banho e brincaram numa poça do rio com barcos de corcódoa, manualmente fabricados a partir de casca de pinheiro. Ao fim da tarde, quando já se tinham secado ao sol, deitados no penedo debaixo da ponte, quiseram saber porque é que aquele local se chamava Levada. O Paulo mais uma vez prontificou-se a explicar: - Porque daqui sai uma levada. Trata-se de um açude que os habitantes construíram para empresarem a água para os moinhos, para os canais de rega ou para regularem o caudal do rio e permitirem a passagem de uma margem para a outra. Dessa forma, puderam desenvolver muito a agricultura ao longo dos tempos, cultivando centeio, trigo, milho, batatas e produtos hortícolas. Estes lameiros nas margens do rio, por serem muito irrigados, produzem durante todo o ano erva fresquinha que as ovelhas, as cabras, as 28


vacas e os burros pastam tranquilamente. Como podem ver, o rio contribuiu muito para a alimentação das populações. - É verdade, nunca tinha pensado nisso – concordou a Renata. Estava quase a escurecer e eles tiveram de voltar para a Galática. - Amanhã voltamos a encontrar-nos? – perguntou o Rodrigo. - É claro que sim. Ainda têm muito que descobrir.

Eles foram descansar, mas o rio lá continuou a desempenhar o seu eterno papel. O Ludares era um velho sábio, daqueles que basta olhar para os seus olhos para se perceber que sabe todos os segredos do universo.

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Cruzeiro da Ribeira Todos os dias, depois da hora da sesta, os 5 amigos corriam para o recreio da escola, colocavam os seus capacetes, entravam na Galática e partiam em direção ao passado. Quando desembarcaram no Cruzeiro da Ribeira, reconheceram logo o local. Ainda não havia ali o parque de merendas nem o parque infantil, mas o cruzeiro era o mesmo. Era um monumento rústico e bonito, com uma cruz latina assente em cima de um dado liso. Em frente, havia um lameiro transformado em campo de futebol. Dois 33


grandes grupos de rapazes defrontavam-se entusiasticamente para saírem vencedores daquela partida. As balizas eram improvisadas, marcadas por pedras, e os limites do campo também não estavam bem definidos, mas isso não parecia incomodar ninguém. O Paulo dirigiu-se logo aos miúdos do séc. XXI, convidando-os para entrarem no jogo. Eles alinharam e na hora de serem escolhidos pelos capitães das duas equipas não perceberam porque é que ninguém escolhia a Renata e a Daniela. Os outros já estavam prontos para recomeçarem a partida, mas o Rodrigo lembrou-os: - Faltam as raparigas! As reações àquele aviso foram de riso e espanto e havia hostilidade marcada nos rostos de todos os rapazes. O Paulo tentou então explicar: - As raparigas não jogam futebol. - Ah, isso é porque vocês nunca as viram jogar. Se as conhecessem, iam querer escolhê-las logo. 34


O capitão da equipa do Rodrigo não perdeu tempo e deixou bem claro: - Não sei lá de onde vocês vêm, nem me interessa. Mas na minha equipa não entram meninas. Todos se riram tanto com aquela proposta maluca de deixarem entrar raparigas na equipa que as lágrimas se misturavam com o suor que já fazia estradas por entre o pó que se acumulara nas faces dos rapazes. - Tudo bem! Elas entram na minha equipa – declarou o Paulo que era o capitão da equipa adversária. O jogo começou e não tardou até a Renata e a Daniela mostrarem o que valiam. Os rapazes estavam admirados com as técnicas que elas usavam. Elas podiam não correr tanto como eles, mas dominavam a bola melhor do que qualquer outra pessoa em campo. No fim, venceu a equipa do Paulo e ele declarou: - Bem, malta, tenho de confessar. Desta vez, fomos nós que aprendemos convosco. Não sabíamos que as raparigas podiam jogar tão bem futebol. 35


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Santa Luzia Antes da hora marcada, já a Renata e a Daniela estavam sentadas na Galática, comentando todos os acontecimentos dos últimos dias. Aquelas férias estavam repletas de novidades e elas estavam a adorar! Entretanto, foram chegando os rapazes: primeiro o João, depois o Marcelo, ainda ensonado porque tinha acabado de dormir uma soneca, e finalmente o Rodrigo, que resmungava insistentemente com o Ludares. - Este cão anda impossível, não sei o que é que se passa com ele. Se os animais 39


tivessem sentimentos, diria que ele andava deprimido. - Se calhar também quer vir para a Galática – sugeriu o João. - Porque é que não o levamos connosco, Rodrigo? – perguntou logo de seguida a Dani. E a Renata rematou: - Ó Rodrigo, então tu não vês que agora não lhe damos tanta atenção. É normal que ele se ressinta. - Até compreendo, mas connosco ele não vem. Não quero arranjar problemas – rematou o Rodrigo, sem dar hipóteses de resposta aos amigos. Uns segundos depois, estavam a aterrar em mais um destino surpreendente. À medida que iam saltando da Galática, depois de a máquina dar sinal de aterragem com sucesso, iam observando com atenção o local para descobrirem as diferenças e as semelhanças relativamente à paisagem que eles conheciam. 40


- Estamos na Ribeira. Olha ali a Santa Luzia – observou prontamente a Renata. - Pois, mas que capela é esta? – questionou-se também a Daniela - Não sei… – responderam os outros em coro. - Vamos procurar o Paulo para lhe perguntarmos – propôs a Renata ao grupo. Eles começaram a caminhar e viram que a capela estava aberta. Entraram e sentiram paz ali dentro, sentaram-se um pouco a interiorizar todas as experiências recentes. - Reparem, aquela é a imagem da Santa Luzia que agora está na rua – disse o João. O Marcelo, que ainda estava aborrecido, despertou finalmente, afirmando: - Já sei, esta capela onde agora estamos já não existe. Dirigindo-se até à porta principal, apontou para a rua e continuou: - Aquele é o sítio onde agora existe a capela nova e aqui continua a imagem de 41


Santa Luzia a relembrar que dantes havia aqui uma capela. Os outros acharam que aquela explicação fazia sentido, mas caminhavam agora pela rua na esperança de encontrarem o Paulo que era a pessoa que melhor lhes podia explicar tudo. Repararam que as casas eram bem diferentes das que eles conheciam, quase todas eram feitas de pedra e eram simples e pobres, mas as pessoas com quem se iam cruzando na rua não pareciam infelizes, pelo contrário, conversavam e sorriam umas com as outras e algumas estavam a cantar enquanto trabalhavam. Atrás de cada rosto e em cada casa, eles procuravam o rosto conhecido do Paulo, mas nem sinal do rapaz! Viram gente a acender lume num forno e depois viram as mulheres a introduzir lá massa em forma de broas. Não tardou até serem estimulados por um cheiro irresistível a pão quente e, quando lhes ofereceram um pouco de pão com chouriço, eles não foram capazes de negar. Comiam com tanta vontade que os 42


habitantes da aldeia, se se dessem a fazer comentários da vida alheia, diriam que aqueles miúdos andavam a passar fome. Com os estômagos bem satisfeitos, os viajantes do tempo ficaram com sede e foram até ao fontenário beber. Viram ali uma pedra com um aspeto engraçado e começaram a brincar: - Ficaste bonito no retrato, Rodrigo! – brincaram as raparigas, sugerindo que a imagem do rapaz estava retratada na gravura da pedra. - De facto, esta pedra pode simbolizar uma figura humana, um candelabro ou uma cruz. De uma coisa podem estar certos, todas as pedras como esta são bem antigas e todas elas demonstram como o homem sempre teve vocação para a arte – anunciou uma voz desconhecida. - Desculpa, acho que te conheço de algum lado, mas não sei de onde… – comentou o Rodrigo! - Sou o Tó, primo do Paulo. Jogámos à bola juntos há dias, lembram-se? Estava 43


a ajudar os meus pais e o Paulo deve estar a fazer o mesmo. Como ele já vos disse, nós não temos muito tempo para brincar. Estão a ver ali aquele carro de bois junto ao forno? Os outros afirmaram que sim com a cabeça e o Tó continuou: - Fomos buscar lenha ao monte e acabámos de a descarregar junto ao forno para que as mulheres possam cozer o pão. - Que está bem bom, por sinal – exclamou o Marcelo. - Sim, é muito saborosa esta broa, mas dá muito trabalho. Tudo o que é bom dá trabalho, não é verdade? Pois bem, para fazer pão é necessário cultivar o milho e o trigo, descascar as espigas, tirar os grãos, moê-los, preparar a farinha, amassar o pão e cozê-lo e para isso temos de ter muita lenha. Olhem, não posso conversar muito mais porque o meu pai acabou de descarregar o carro e vamos voltar para trazer mais tocos e giestas que já cortámos no mato. 44


- Podemos ir contigo… – sugeriu a medo a Dani. - Isso era uma ótima ideia, podia explicar-vos muita coisa pelo caminho. Nós temos umas bouças aqui perto e é para lá que vamos agora – concluiu o Tó. O Rodrigo e os seus amigos foram então com o rapaz e o seu pai e descobriram que muito mais emocionante do que viajar na Galática era percorrerem toda a aldeia da Ribeira, cujas ruas eram calcetadas ou em terra batida, em cima de um carro de bois. Riam-se com a trepidação e assustavam-se quando os bois faziam uma curva muito rente ao muro. O Tó é que não tinha medo de nada, dominando os animais com a máxima astúcia. E tinha tanta força que mais parecia um adulto, o grupo da Galática espantou-se com a capacidade que o rapaz tinha de levantar paus pesados e admiravam a alegria com que ele fazia tudo. Nunca o ouviam queixar-se. Ao lado dele, tudo era divertido, mesmo as tarefas mais duras e de grande responsabilidade. 45


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Ponte da Baralha Nova aventura levou os cinco amigos até à Ponte da Baralha, em Real, mesmo no limite com a freguesia de Castelo de Penalva. Ali ao lado, havia ovelhas a pastar, aparentemente sem pastor. Em cima da ponte, andava um cão a passear de um lado para o outro, o Rodrigo não conseguia vê-lo com nitidez, mas ia jurar que era o Ludares. As pedras que constituíam a ponte eram muito velhas e estavam bem ordenadas, tornando-a uma estrutura firme e segura. 49


Os viajantes da Galática esperavam encontrar alguma novidade, mas não se via por ali ninguém. De repente, começou a chover, o que não era de esperar naquele início de verão. Correram a abrigar-se debaixo de um imponente pilar da ponte, sentindo o rio ali muito próximo. Quando lá chegaram, perceberam que já estava lá sentado também o seu amigo Paulo, que lhes disse efusivamente: - Bom dia, amigos, cá estão outra vez! - Bom dia! O que fazes aqui? – quis saber o João. - Nada. Quer dizer, vim dar uma volta com o meu cão, mas começou a chover e abriguei-me aqui – explicou o Paulo. Mas a Daniela, que era de todos a que mais medo tinha, desviou o assunto de conversa, comentando: - Já viram como estamos aqui há apenas alguns minutos e o caudal do rio já subiu tanto? 50


- É que quando chove todas as águas destes montes e colinas escorrem para o rio. Mas não se preocupem, venho muitas vezes para aqui e sei que no verão o caudal nunca chega até nós. - Como é que tu e os teus amigos brincam quando está a chover – perguntou o Rodrigo? - Procuramos um lugar abrigado como este e inventamos qualquer jogo, seja com paus, com pedrinhas ou com caricas. Arranjamos sempre qualquer coisa para fazer. Uma coisa é certa, em casa não ficamos nós muito tempo – afirmou o Paulo e depois lançou o desafio: - querem saber a história desta ponte? - Sim – responderam eles em coro. - A Ponte da Baralha já tem alguns séculos. Antes desta, havia outra ponte neste local, mas não era tão forte. Era uma ponte de madeira, o que a tornava vulnerável perante as águas fortes das chuvadas. Com o passar do tempo, 51


envelheceu e teve de ser substituída. Por essa antiga ponte, passaram reis e rainhas medievais que aqui atravessavam o rio em direção a Viseu. Foi atravessada também por cavaleiros, nobres senhores, homens da igreja e muitos pastores que gostavam de inventar flautas, sentados nas suas tábuas. Já esta nova ponte testemunhou o crescimento da aldeia e a construção de estradas e de novas pontes. Viu nascer uma escola e fábricas de queijo. Permitiu que por aqui passassem procissões, enterros, casamentos e batizados. Viu namorados a dar beijinhos às escondidas e meninos a nadarem aqui por baixo no verão. - Como é que a construíram? As pedras são muito pesadas… – quis saber o João. - No séc. XIX, quando a fizeram, não havia máquinas e por isso não foi fácil a sua construção. Primeiro, tiveram de arranjar pedras grandes e bem cortadas, 52


depois foi necessário transportá-las até aqui, o que tiveram de fazer com a ajuda de carros de bois. Por fim, tiveram de esperar que chegasse o verão para que o rio ficasse com o caudal muito reduzido. Contrataram muitos homens de Real e de outras aldeias vizinhas, havia os mestres que eram os mais entendidos e depois havia outros homens que trabalhavam sob as suas instruções. Foi assim que puseram de pé esta ponte! Parara de chover entretanto e os miúdos começaram a levantar-se para irem dar uma volta, mas o Paulo não saiu do seu lugar, do bolso tirou um canivete e depois começou a esculpir a casca de um pinheiro. - Estou a fazer um barco de corcódoa. Querem aprender? Passaram o resto da tarde ali debaixo da ponte a fazerem esculturas a partir de cascas de pinheiro. Estavam contentes por perceberem que não precisavam de brinquedos para se divertirem. 53


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Cortes

Naquele dia aterraram numa zona que não parecia pertencer à mesma freguesia, pois estava muito isolada e separada da restante povoação. Depois de dobrarem a primeira esquina, certificaram-se que estavam nas Cortes. Distraíram-se logo com um grupo de crianças que brincava efusivamente. E a razão de tanta alegria era simples: faziam corridas de carros com brinquedos construídos a partir de latas de sardinhas. O barulho do metal contra as pedras dava ainda mais emoção à competição e os miúdos descalços saltavam de 57


alegria de cada vez que ganhavam uma prova. O grupo da Galática nem deu conta que o tempo passava naquela tarde preguiçosa cheia de alarido das crianças. Quando se aproximaram de uma quinta com uma casa pequena no meio, ouviram uma voz a chamar o nome do Rodrigo e olharam para todos os lados até que descobriram um vulto atrás de uma janela que lhes fazia sinal para entrarem em casa. Era o Paulo que lhes queria mostrar o sítio onde vivia. Era um lar muito humilde, mas asseado. A casa era de granito e tinha portas de madeira muito gastas. A cozinha tinha uma lareira sem chaminé, com dois potes onde se cozinhava e dois bancos compridos de madeira. A sala só tinha uma arca que também servia de mesa e alguns bancos. Os quartos eram pequenos, mas dormiam lá os sete habitantes daquele lar. O Paulo quase não tinha brinquedos, mas mostrou-lhes com muito entusiasmo as suas relíquias que eram um carro de madeira e um pião feito pelo seu avô. Depois começou a explicar-lhes a origem daquele lugar onde se encontravam:

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- Esta é uma zona ao fundo do povo, onde, como podem ver, as casas são de pedra e um pouco antigas. Quanto ao nome, eu penso que o local se chame assim por aqui se localizarem as cortes dos animais, por ser um local afastado do povo. No entanto, havia um senhor a quem chamavam o Tio Bento que dizia que este lugar se chamava Cortes por ser aqui que se reunia a Câmara do concelho de Penalva do Castelo, quando a sede era na aldeia de Castelo de Penalva e não em Penalva do Castelo, como é agora. Depois desta explicação, o Paulo exortou os amigos: - E que tal se fôssemos dar uma volta? Apesar de pequeno, este lugar tem coisas bonitas para se verem e depois podíamos ir até ao sobreiro centenário e quem sabe passar na Quinta dos Passos. - Ah, já sei – percebeu o Marcelo, – é o sítio onde no nosso tempo construíram um parque de lazer. Eu também gosto de ir brincar ali. E assim terminou mais uma viagem fantástica dos miúdos galáticos de Real. 59


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Cruz do Alto da Serra No dia seguinte, aterraram no Alto da Serra. Aquele sítio eles já conheciam e não tinha mudado muito. Caminhavam movidos pelo instinto auditivo, pois ouviam um burburinho que anunciava a presença de crianças e brincadeiras nas redondezas. Finalmente, chegaram a uma clareira e viram um grupo de rapazes a jogar à bola. O campo não era muito regular, mas os rapazes seguiam entusiasmados o seu jogo. No meio deles, viram o Paulo e decidiram sentar-se à espera que a partida acabasse. 63


- Desta vez não lhes vão mostrar como se joga futebol? – disse o Marcelo às raparigas para as provocar. - Porquê? Querias ser da nossa equipa para saíres vencedor sem grande esforço, era? - Até parece… Mas o jogo acabou entretanto e os rapazes dispersaram. Só o Paulo se dirigia aos seus amigos. - Parece que se assustaram mesmo com a vossa presença – riu-se o Rodrigo. - Nada disso – respondeu-lhes o Paulo para salvar a honra dos amigos, ¬– só que nós quando vimos para o monte trazemos ovelhas, cabras ou outros animais para pastar e não podemos distrair-nos muito. O meu rebanho está ali perto do Cruzeiro do Alto da Serra, querem ir lá comigo? - Claro, vamos lá! E já agora sabes porque é que puseram lá o cruzeiro? – 64


interessou-se o João. - Por acaso, até sei. Tudo aconteceu por causa de um caçador chamado José Violante e já lá foi colocado quando os meus pais eram pequenos. - Quem era o José Violante? –quis saber o Rodrigo. - Olha, era um homem que tinha um problema de saúde, uma doença crónica nas vias urinárias. Era muito embaraçoso porque ele não conseguia urinar sem a ajuda de um objeto chamado algália. Um dia, porém, aconteceu que ele se esqueceu da algália quando foi para a caça. Andava por estas serras fora, quando teve uma crise, sentindo dores muito fortes, ao ponto de acreditar que já não conseguia regressar a sua casa. Como era um homem de fé, fez uma promessa: se conseguisse ultrapassar aquela situação, colocaria nesse exato local onde se encontrava um cruzeiro. E cá está ele! - E por que é que tem esta forma? – questionou a Renata. 65


- A cruz e é um dos símbolos mais importantes da religião cristã por se acreditar que Jesus Cristo foi mais forte do que a cruz onde morreu. Como o Sr. José Violante partilhava dessa fé, resolveu mandar construir uma cruz em sinal de agradecimento – explicou o Paulo. - Só é pena ficar num sítio tão isolado, onde não passa ninguém… – comentou o Rodrigo. O Paulo respondeu-lhe logo: - Só se for no teu tempo, agora exploram-se os Baldios, que são as áreas florestais comunitárias, para a apanha de lenha, folhado, tojos ou para pasto. E há sempre por aqui gente, quanto mais não seja, os caçadores vêm muito para aqui. - Nós já conhecemos esta serra reflorestada com eucaliptos e pinheiros – esclareceu o João. 66


Enquanto se despediam do Paulo para embarcarem novamente na Galática, o Rodrigo imaginava como seriam os dias daquele cruzeiro. Desde observar a lenta viagem de uma nuvem que nasce lá bem fundo no horizonte e se aproxima lentamente do outro extremo céu, cruzando-se e misturando com outras massas de água, até sentir as formigas que fazem carreiros por ele acima. Apesar de ser um ser inanimado, devia ser um monumento carregado de sabedoria, pensava o Rodrigo.

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Largo do Eiro v

Apanharam um susto valente quando a Galática começou aos soluços, emitindo sons estranhos, com vários botões a piscar ao mesmo tempo. Os miúdos tinham o coração aos pulos, pois nenhum deles sabia o que fazer para reparar a máquina e saírem daquela situação, mas o Rodrigo assegurava: - O meu pai há de aparecer para resolver a situação! E de facto o Sr. Paulo surgiu logo de seguida e explicou que a máquina 71


dessincronizou, mas eles não tinham motivo para se preocuparem, tudo o que iria acontecer é que quando aterrassem as horas seriam diferentes no tempo passado, mas ao voltarem tudo regressaria ao normal. Os amigos entreolharam-se e ninguém deu parte de fraco, resolveram viajar mesmo assim. Aterraram no Largo do Eirô, em Real, de noite. As ruas estavam iluminadas por candeeiros públicos e havia algo que se destacava no centro da aldeia. Uma fonte cheia de luz, toda feita de pedra, parecia no entanto que já tivera outros fins. E era verdade, aquela fonte era constituída por pedras que dantes tinham pertencido a um lagar da Quinta da Aveleira. - Que estranho, pensava que esta fonte era mais recente… – comentou o Marcelo. - E é mesmo, este lagar não tinha uma fonte iluminada na minha meninice – 72


respondeu-lhe um senhor que estava ali sentado. - Quem é você? – perguntou o Rodrigo, com a forte sensação de conhecer aquele estranho. - Sou o teu pai. Não se lembram de mim? Já cresci. Os miúdos estavam espantados, até ali tinham voltado sempre ao mesmo ano e agora tinham retrocedido menos no tempo. - Já sei o que aconteceu! – gritou entusiasmado o João e prosseguiu: – a máquina hoje não sincronizou bem e por isso não voltámos a 1984. - Deixem lá, posso explicar-vos as coisas na mesma – assegurou o Paulo. O dia estava a amanhecer solarengo e eles viram as primeiras vacas que se dirigiam para as pastagens a irem beber à fonte. Rebanhos de ovelhas tinham já seguido para a serra e várias pessoas estavam no campo a trabalhar àquela hora matinal. Nessa altura do ano, os dias eram os mais compridos 73


do ano e já fazia muito calor, por isso as pessoas optavam por acordar de madrugada para irem regar pela fresca o milho, as batatas e as hortas. Depois, mondavam as suas culturas, retirando ervas daninhas, apanhavam frutos maduros e tratavam das hortaliças, sachavam as batatas e colocavam estacas nos feijões. Havia muito trabalho no campo. Mais tarde, no fim do almoço, os habitantes da aldeia dormiriam uma sesta para descansarem, depois voltavam ao campo para ceifarem o trigo e o centeio. Aproximaram-se da igreja e o Paulo explicou-lhes que aquele templo cristão tinha como padroeiro S. Paulo, por isso, no dia da conversão daquele santo, a 25 de janeiro, realizava-se na freguesia uma celebração festiva, seguida de procissão. Contou-lhes depois a história daquela conversão: Paulo dantes chamava-se Saulo e perseguia os primeiros cristãos. Um dia, quando viajava a caminho de Damasco, caiu do seu cavalo, nesse momento ouviu uma voz 74


que lhe anunciava: "Eu sou Jesus, a quem tu persegues, levanta-te e vai para a cidade". Paulo mudou completamente de vida e tornou-se um dos principais apóstolos de Jesus Cristo. Souberam depois que aquela igreja já tinha alguns séculos e conheceu várias gerações de pessoas que foram deixando diversas marcas na sua arquitetura e decoração. Conforme iam mudando os gostos, assim a igreja foi sendo embelezada com novos elementos. - Quer dizer então que era só no dia da conversão de S. Paulo que havia procissão aqui? – quis saber a Dani. - Não, o dia da conversão de S. Paulo em janeiro é o mais festejado, mas também o dia de Ramos é assinalado com uma grande procissão, em que depois se aproveitavam os ramos para fazer outros mais pequenos que são colocados no campo no dia de Santa Cruz, antes do sol nascer. E há 75


também outras ocasiões festivas ao longo do ano – continuou a explicar pacientemente o Paulo. O passeio por Real continuou depois pelo telheiro da fonte. No murete de um jardim ali ao lado, havia umas inscrições engraçadas. O Paulo começou então a contar-lhes uma nova história: - Há muitos, muitos anos atrás, talvez uns 500, viveram aqui nesta aldeia pessoas que tinham vindo de muito longe, de um país chamado Israel. Elas tinham-se instalado em Espanha quando, há quase 2000 anos, o seu país entrou em guerra e elas foram expulsas. Dada a sua origem geográfica, cultural e religiosa, essas pessoas costumam ser chamadas de “judeus”. Como explicava, os judeus viviam em Espanha, mas no final do séc. XV os Reis Católicos que passaram a governar o país vizinho expulsaram de lá todos os judeus, de modo que alguns vieram parar aqui a Real. Para que 76


pudessem cá ficar, eles tinham que dar mostras que tinham abandonado a sua religião e que passaram a aderir à fé católica e por isso esculpiram nalgumas pedras da sua casa alguns símbolos da religião católica, como as letras “JHS” que se leem naquela pedra ou a cruz que se vê naquela ali ao lado. - Então são pedras únicas na nossa freguesia? – perguntou logo a Renata. - Não propriamente, existem também outros cruciformes – o nome que se dá às gravuras com forma de cruz – noutros sítios. Olha, ali na Rua Cónego Jaime há uma pedra com uma gravura semelhante a esta aqui, com uma cruz em cima de um círculo que pode retratar um monte. Devido à avaria da máquina, os miúdos embarcaram com os primeiros raios de sol e chegaram ao seu tempo com o sol a deitar-se no horizonte. Foram dormir para no dia seguinte estarem preparados para uma nova viagem. 77


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S. Marcos

- Uau, que bela paisagem que se avista daqui…. – suspirou a Daniela. - Já sei onde estamos – concluiu imediatamente o Rodrigo, – aqui é S. Marcos. Por uns instantes, ficaram todos em silêncio a contemplar a vista sobre a Ribeira e o vale do Ludares. Ali sentados à sombra de uma árvore, sentiam que havia momentos de uma beleza tão inteira que pareciam borrachas a apagar todas as chatices e problemas do quotidiano. 81


Não tardou a juntar-se a eles o Paulo. O João brincou: - Conta-nos lá uma das tuas histórias, amigo! O Paulo riu-se, mas não se ficou: - Pois bem, vou-vos falar deste monumento, não se trata de um edifício como os outros, mas sim de um local sagrado porque as pessoas construíram-no para aqui dentro se aproximarem de Deus. Na verdade, toda a gente precisa de um pouco de recolhimento para encontrar alguma paz e verdade que as conduza até àquilo que é essencial. Como as pessoas de Real acreditam em Jesus Cristo, gostam de vir aqui para falarem com ele, para estarem perto de Deus. O culto é aquilo que elas fazem em conjunto para manifestarem o quanto estão agradecidas a Deus pelo que lhes acontece e também para lhe pedirem perdão pelo que ainda têm que melhorar. Estou a falar da Capela de S. Marcos ou de N. Senhora de Monserrate. Na nossa freguesia, existem 82


outras como a Capela da Ribeira, onde há também festas importantes, nomeadamente a de Santa Luzia que se celebra a 13 de dezembro e a de N.ª Sr.ª dos Remédios que acontece sempre no verão. Aqui, na capela de S. Marcos há uma romaria importante que acontece no dia 25 de abril, promovida pela família proprietária da capela. Nesse dia, os rebanhos costumam dar a volta à capela. Enquanto o Paulo falava, o Marcelo distraiu-se a perseguir um cão igualzinho ao Ludares e caiu num buraco. Muito assustado, começou a gritar por socorro. A Daniela e a Renata eram as que estavam mais perto e rapidamente o ajudaram a levantar-se. Ficaram todos admirados com aquela rocha de granito que, à primeira vista, era absolutamente normal, mas depois de repararem um pouco melhor, deram conta que no sítio onde o Marcelo caíra estava escavado um buraco com a forma de uma cabeça e 83


respetivos ombros. Tinha alguma água dentro devido à forte chuvada que tinha caído uns dias antes. - Agora é a minha vez de contar uma história – declarou o Rodrigo com ar triunfante! Os outros ficaram na expectativa, à espera da explicação do amigo e ele prosseguiu: - Vocês nunca tinham estado aqui? Eu já vim aqui algumas vezes e conheço a origem desta sepultura. Esta fraga deve ter milhões e milhões de anos, mas um dia, há cerca de mil anos atrás, quando por aqui vivia ainda muito pouca gente, foi necessário escavar campas para depositarem os defuntos e esculpiram esta sepultura para poderem albergar os restos mortais dos habitantes. Durante muitos séculos, a missão desta rocha era devolver à terra os corpos que aqui eram depositados. Mas não era a única, também 84


na Quinta da Aveleira e ali na Nogueira existem sepulturas semelhantes. Mais tarde, os mortos começaram a ser sepultados nos adros das igrejas e posteriormente nos cemitérios e as sepulturas ficaram abandonadas. - Tu sabes muitas coisas… – espantaram-se os amigos. - Aprendi com o meu pai. E todos acabaram aquela tarde com sonoras gargalhadas.

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escola

No dia em que o grupo da Galática aterrou junto ao moinho de vento, os miúdos tiveram um pressentimento de que algo de novo estava para acontecer. Era como se as partículas muito pequenas de pólen se entranhassem nos seus narizes e lhes causassem comichão. E esse cheiro era amarelo como as mimosas que enfrentam com audácia o frio de fevereiro. Naquele dia foi o João que quis assumir o papel de guia do grupo: - Este moinho era movido a vento e servia para transformar os grãos das 89


espigas em farinha. Aquele pão delicioso que comemos há uns dias atrás foi provavelmente feito com farinha que saiu deste moinho. E antigamente também havia moinhos movidos a água que ficavam junto ao rio, é claro. Os outros ouviam, mas continuavam a caminhar, melancólicos. Pararam na escola primária, onde tudo tinha começado. Ficaram admirados com o grande número de crianças que frequentavam aquele estabelecimento de ensino. Estavam no recreio e brincavam numa nave espacial chamada Galática. Muito divertidos, contornavam cometas, aceleravam em direção à lua e divertiam-se com as vistas espantosas que tinham sobre o planeta Terra. O grupo do séc. XXI estava muito confundido, tinham visto muitas coisas nos últimos dias nas quais nunca tinham reparado graças a uma fantástica máquina de viajar no tempo e afinal a Galática já existia no tempo dos seus pais. 90


Os meninos fizeram uma grande festa assim que viram os viajantes e convidaram-nos a subir, mas eles tinham receio de mais uma viagem ousada. O Paulo saltou então do seu foguetão e explicou-lhes: - Estão a ver a forma desta árvore? Não parece mesmo um meio de transporte intergalático? Nós também achamos e adoramos brincar aqui. - Mas afinal foram vocês que inventaram a Galática? – perguntou a Renata. - Sim, inventámo-la à nossa maneira! – riu-se o Paulo. - O que queres dizer com isso? – perguntou o Rodrigo. - Quero dizer que a vida é como os jogos de computador. Só acreditamos na realidade que conhecemos. Por isso, é tão importante descobrir a nossa História e o nosso Património. De um momento para o outro, aquilo que achamos aborrecido torna-se muito interessante –refletia o Paulo. - Estamos tristes, hoje. Pressentimos que estas viagens vão acabar… – 91


queixou-se a Daniela. - Tudo tem um fim, é verdade. Mas quando alguma coisa termina dá oportunidade a outra de começar. Ainda bem que há mudanças que nos provam que o passado não é melhor nem pior que o presente e que não temos de ter medo do futuro – continuou o Paulo. - Mas estas férias foram as melhores de sempre e nós gostávamos de continuar a viajar na Galática – reforçou o Rodrigo. - Pois, compreendo, mas talvez a Galática seja necessária noutra freguesia onde há meninos a quererem descobrir o seu passado. De qualquer modo, vocês podem continuar a ter aventuras incríveis com as quais nunca sonharam – aliciou-os o Paulo. - Como assim? – perguntaram todos ao mesmo tempo. - Acreditam em cães falantes, por exemplo? 92


- Pelo menos, até agora, não – esclareceu o Rodrigo. - Talvez esteja na hora de irem procurar o Ludares, ele anda muito solitário e acho que podem aprender alguma coisa com ele… ¬– insinuou o Paulo. - Mas vamos ter saudades tuas – choramingaram as raparigas. - Ah, não tenham, encontramo-nos em casa do Rodrigo muito em breve. Estou mais velho, é certo, mas continuarei a ter muita coisa para contar. As férias terminaram, mas o Rodrigo, a Daniela, a Renata, o João e o Marcelo não paravam de apaparicar o Ludares, sempre a sonhar com as aventuras que teriam em conjunto no verão seguinte.

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Uma Viagem Galática pela Freguesia de Real  

Livro infantil sobre a freguesia de Real. Autoria de Daniela Costa e Ilustrações de Vera Freitas. Pode encomendar em https://form.jotformeu....

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