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*19 abril/maio 2011

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corpo, mente, alma

Na hora certa A natureza é feita de ciclos. Nosso corpo não foge à regra. Veja por que uma rotina organizada colabora para a saúde – e decida a melhor forma de montar a sua texto J é s s i c a M a r t i n e l i ilustração F l a v i o M o r a i s

“POR CAUSA DE mais de 14 horas de trabalho por dia e muito fast-food, tive um princípio de infarto em setembro de 2010.” A confissão é do jornalista Wander Veroni, de apenas 26 anos, de Belo Horizonte. Além de se alternar entre dois empregos, ele ainda fazia extras nos fins de semana. Não sobrava tempo para cuidados básicos com a saúde. “Eu não me alimentava direito, era sedentário e dormia muito mal”, lembra. Um dia, o corpo não aguentou. O cardiologista de plantão não mediu palavras: Wander teria de reorganizar totalmente a própria vida. O primeiro passo foi largar um dos empregos. E então estipular hora certa para acordar, comer, praticar exercícios e dormir. Em poucos meses, ele já está notando as diferenças. “Eu sentia dores por ficar muito tempo sentado, além de uma fome enorme por não fracionar corretamente o que comia durante o dia”, lembra. Dos 120 quilos que pesava, já perdeu 8, e projeta chegar aos 90 até junho. “Sinto mais energia para acordar e trabalhar. A nova rotina se mostrou uma necessidade para minha qualidade de vida.”

Tic-tac biológico O organismo de Wander está agradecendo a agenda regrada. E é fácil entender o porquê. Nosso corpo é regido por ritmos biológicos. O mais básico é o circadiano

(do latim circa diem, “cerca de um dia”): a cada 24 horas, nosso organismo tende a seguir um roteiro-padrão, que envolve, por exemplo, liberação de hormônios, alterações na temperatura e na pressão, estados de disposição e de sonolência. Todos os seres vivos têm esse relógio interno. Ele é autônomo, mas funciona melhor com o auxílio de reguladores externos. O melhor exemplo é o sol. Por exemplo: quando anoitece, a retina percebe a diminuição da luz e informa o cérebro, que libera a melatonina, hormônio que causa uma sensação de relaxamento, nos preparando para o sono. “Nos humanos, as atividades sociais também exercem essa função”, explica o médico Denis Martinez, no livro Como Vai Seu Sono?. “Qualquer atividade com horário fixo serve para ajustar nosso relógio interno. Quem almoça sempre às 12 horas informa esse horário ao corpo, que pode assim se preparar para o que vem a seguir”, acrescenta o especialista.

Ponteiros livres Essa é a regra geral. Mas nem todo mundo se relaciona da mesma forma com esses ciclos. O paulistano Lex Blagus, de 32 anos, é um caso extremo. “Durmo quando dá sono, como quando dá fome. Não me prendo ao ponteiro do relógio, e sim ao que meu corpo pede e à carga


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que eu acho que ele deve ou consegue receber. E me sinto muito bem assim”, afirma o arquiteto de sistemas. Lex não tem um horário fixo de trabalho e acredita que isso o ajude a produzir melhor. “Quando a inspiração bate, tem de deixar a cabeça criar. Até mesmo o almoço eu corto nesses dias. Já quando não acordo inspirado, demoro mais na refeição, leio uma revista”, diz. Para os especialistas, esse comportamento pode ser perigoso. “Precisamos de ciclos bem definidos”, afirma Evandro Portes, médico da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia. Segundo ele, dormir menos que o necessário, não se alimentar nas horas certas e fugir a uma rotina de exercícios põe nosso organismo em uma situação de estresse constante. “O corpo fica em alerta, gastando energia para se manter funcionando fora do padrão”, explica. Além de provocar descompasso com o relógio interno, uma agenda caótica é um convite a maus hábitos. Quem come só quando sente fome fica propen-

Nosso relógio biológico é autônomo. Mas funciona melhor se realizamos as tarefas em horários-padrão, ajudando o corpo a se preparar para o que vem a seguir so a engolir qualquer besteira. E, sem horário marcado para praticar esporte, é muito mais fácil cabular a malhação. Lex sabe disso e se esforça para levar qualidade ao seu desregramento de horários: “Uso bicicleta como meio de transporte e pratico esportes de aventura, como trekking. Também como muitas frutas e evito gordura e industrializados”, conta.

Balanço das horas Entre o total desregramento de Lex e o rígido tratamento de Wander existe um amplo meio-termo. É aí que Railídia Carvalho, de 39 anos, se encaixa. Para conciliar o trabalho como assessora de imprensa, a vida de mãe e as tarefas de dona de casa, ela aposta em uma agenda organizada. “Não vivo de improviso. Os horários são bons para estabilizar”, diz.

Esse costume ela passa à filha Iara, que tem hora para acordar, estudar e até para ver TV – atividade que não pode tomar mais do que duas horas diárias. Mas a disciplina cede ao bom-senso. Uma vez por mês, Railídia se dedica à sua segunda profissão, cantora. Nesses dias, é inevitável dormir e acordar mais tarde. “Mas dá para organizar tudo dentro de um processo sem excessos”, diz. O médico Alberto Ogata, presidente da Associação Brasileira de Qualidade de Vida, lembra que horários são importantes, mas não bastam para garantir o bem-estar. “A saúde depende de questões físicas, como o sono, a alimentação e os esportes. Mas também de aspectos emocionais, sociais, profissionais e até espirituais”, diz. O importante, como sempre, é buscar o equilíbrio.


Revista Sorria #19