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Ano 15 Novembro 2012 R$ 10,90 www.revistacult.com.br

A trajetória do jornalista, escritor, professor e empresário que percorreu os diversos caminhos da comunicação.

PERFIL

Caio Túlio Costa O primeiro ombudsman brasileiro

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LEITURA PRIVILEGIADA.JORNALISMO CULTURAL INDEPENDENTE CRÍTICO

Uma possível face de Caio Túlio Costa

Redação: Débora Dias, Jessica Fiuza, Larisse Alves Fotografia: Jessica Fiuza, imagens de arquivo pessoal e divulgação. Revisão: Vicente dos Anjos Diagramação: Eleonora Branco e Jessica Fiuza Impressão: InPrima Soluções Gráficas Orientação: Fabio Silvestre Cardoso

Descobrir a verdadeira personalidade de Caio Túlio Costa, o primeiro ombudsman brasileiro, e apresentá-lo ao leitor da Revista Cult mostrou-se uma tarefa complexa, porém instigante – mesmo contando com depoimentos de amigos e familiares ou com as palavras do próprio perfilado. Falar de um jornalista que se destacou como um ícone de sua época, e cuja atuação estendeu-se a tantos segmentos da comunicação, é propor-se a abordar uma variada gama de assuntos e discussões, isto porque até mesmo os amigos mais íntimos o descrevem como uma figura controversa, portadora de diversas faces e feitos. Caio Túlio Costa não dispôs de muito tempo para os encontros e entrevistas, tanto pela agenda cheia de compromissos, quanto pela resistência em expor alguns aspectos de sua vida pessoal. Ser o personagem principal talvez o tenha deixado apreensivo, incomodado, ou até mesmo irritadiço e, de maneira contrastante, lisonjeado. Nesse período, a equipe presenciou momentos em que se mesclavam humildade, arrogância e timidez, e, aos poucos, o jornalista foi justificando com as próprias atitudes a complexidade não só de sua carreira, mas de seu modo de ser: transgressor de limites e, em contrapartida, conservador em sua ideologia. Devido ao caráter multidisciplinar de Caio Túlio Costa, torna-se inviável classificar o ombudsmanato – cargo que lhe deu maior visibilidade – como o ápice da carreira, pois o jornalista não parou por aí e, ainda hoje, mantém uma postura inovadora e empreendedora no mercado. Nas próximas páginas, apresentamos a trajetória desse profissional e suas contribuições nas diversas áreas em que atuou, obtida com valiosos depoimentos de quem acompanhou de perto a trajetória de Caio Túlio Costa, o que ajudou, desta forma, a entender também algumas de suas características pessoais mais peculiares. Nas diversas entrevistas, foi possível conhecer e traduzir um pouco de cada traço de sua personalidade: do simpático e descontraído ao irritado e irônico, retraído e arredio. Há um Caio para cada contexto, para cada situação, do polêmico ao político. Talvez, ele corresponda apenas a uma destas faces, a nenhuma delas ou a todas ao mesmo tempo. Caio Túlio Costa nos surpreende a cada encontro e a cada história obtida de amigos, desafetos e familiares. O produto de tudo isso é um relato, pretensamente minucioso, de um Caio Túlio Costa indecifrável!


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De lagartixa a camaleão

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DA ECA à FOLHA DE S. PAULO

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ENTRE a CULTURA E oMBUDSMANATO: OS 21 ANOS DO GRUPO FOLHA

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A era digital: informatização da redação UOL e IG DIVERSAS FACES

ENFIM, CAIO!


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os 58 anos de idade, o jornalista Caio Túlio Costa mantém o mesmo olhar determinado e firme, o mesmo sarcasmo e irritação camuflados quando contrariado e, apesar dos cabelos agora já grisalhos, a mesma convicção em seus valores éticos e de seu papel como jornalista, de quando ainda era apenas um jovem ativista em início de carreira. Essas características marcantes lhe renderam amigos verdadeiros, algumas polêmicas e desafetos ao longo da trajetória. Em seus 40 anos como jornalista, tanto a sua carreira, como a sua personalidade podem ser consideradas paradoxais: não contente em atuar em uma única área, foi da redação à sala de aula sem deixar passar despercebidas suas realizações e contribuições em nenhum desses segmentos. O profissional persistente, com resquícios de teimosia e arrogância, de espírito empreendedor, inovador, e até mesmo revolucionário é, na verdade, o mesmo menino tímido, de atitude simples e personalidade doce, como é definido por alguns amigos íntimos.

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De lagartixa a camaleão

Enquanto era ombudsman da Folha de S. Paulo, Caio Túlio Costa comprou uma briga que lhe rendeu o apelido de lagartixa pré-histórica. Vinte e três anos depois, o jornalista mostra-se um “camaleão” adaptável aos diversos contextos e desafios enfrentados na profissão, até hoje.

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uem observa o jornalista Caio Túlio Costa trabalhando em uma sede de campanha eleitoral, na Rua Libero Badaró – Centro de São Paulo –, não imagina que está diante de um dos mais influentes jornalistas de sua época. Caio agora é um empresário de comunicação bem-sucedido, sócio da empresa MVL Comunicação, que, desde 2010, entre outros projetos de renomadas empresas, está envolvida com marketing político. Apesar da expressão cansada e compenetrada, Caio mantém uma atitude cordial e atenciosa. Sua camisa listrada, rigorosamente alinhada, e a pesada armação dos óculos sugerem seriedade. “O melhor momento do Caio é quando ele é menos pretensioso. Não acho que ele atinja o melhor na pretensão, mas sim com o pé no chão, menos sério”, afirma o jornalista Ubiratan Muarrek, amigo de Caio Túlio, que lhe foi apresentado por Bel Kranz, segunda esposa de Caio na época, e ex-colega de redação de Muarrek, na Folha da Tarde. O próprio Caio reconhece ficar irritado em receber críticas relacionadas às suas obras e emite uma resposta contraditória: “Eu fico puto às vezes. Bravo, penso que o cara não entendeu nada do que leu. (Risos). Mas eu sou um cara que lida bem

com as críticas. Sou um ser humano normal, mas acho que tenho um estômago mais preparado para receber críticas, pelo fato de criticar muito. Então, lido bem. Algumas coisas, sem dúvida, me emputecem, mas tudo bem. Não tenho grandes dificuldades com isso não”. Apesar da autoconfiança indicada pelos amigos, Caio Túlio mostra-se crítico em relação a si mesmo: “Acho que a teimosia pode ser um dos bons defeitos que tenho. Muitas vezes me apresso, no sentido de tentar resolver alguma coisa rapidamente. Isso faz com que as coisas não fiquem muito bem feitas”, afirma ele. O jornalista de ar professoral apresenta diferentes posturas e atitudes: da altivez e leve arrogância à humildade e descontração. São muitas as faces que compõe Caio Túlio Costa. Outra característica que lhe é peculiar é a reserva quando o assunto é a vida pessoal. Apesar da voz mansa de tom suave, a postura retraída e a irritação denotam contrariedade ao definir a própria personalidade: “Esse tipo de entrevista é meio sacal, né? Como jornalista, eu nunca fiz esse tipo de pergunta. Acho que sou uma pessoa chata”, afirma Caio, categoricamente.

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Da ECA à

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ara os familiares, era certo que o menino Caio Túlio Costa seguiria os planos de seus pais e se tornaria médico. Porém, segundo sua irmã mais nova, Lúcia Emília, desde pequeno ele já dava indícios de que escolheria outros caminhos: lia Manoel Bandeira e se interessava muito por literatura. Com 16 anos, após a morte do pai, Caio Túlio foi incetivado pela “Tia Léa” - professora e diretora teatral -, a seguir a carreira de jornalista. Desde sua atuação em Zé Latinha – jornal criado por Caio, ainda no colegial, e editado por ele com a ajuda da tia –, o adolescente já dava indícios do que mais tarde seriam consideradas duas suas principais habilidades: o olhar de editor nato e o interesse por tecnologia. Aos 18 anos, mais uma vez incentivado por Tia Léa, Caio Túlio deixou a farmácia na qual trabalhava desde os 11 anos e ingressou como redator e colunista em O Imparcial, jornal de Tupi Paulista, dirigido por Belmar Ramos. Também conhecido como “Bananeira”, Ramos foi o primeiro professor de jornalismo de Caio. O gosto pelo jornalismo tornouse evidente e, em 1974, aos 20 anos, Caio Túlio Costa ingressou na Escola de Comunicação e Artes, a ECA, da Universidade de São Paulo. Caio destacava-se pela determinação e esforço que se faziam necessários na época da universidade: “O Caio sempre teve uma característica muito marcante. Da nossa turma, ele era o único que

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precisava trabalhar para sobreviver. Nós éramos todos da classe média, nossos pais pagavam os estudos, mas o Caio não tinha essa condição. Ele saía de manhã da aula e, na hora do almoço, ia trabalhar”, recorda Matinas Suzuki, jornalista e amigo de Caio Túlio.

“Em

certo

momento,

durante o movimento estudantil, tivemos que- nos esconder. Todos nós demos nossos nomes na gráfica para imprimir o jornal Dois Pontos. Cutu- cávamos a onça com vara curta.”

Silvia Poppovic No mesmo período, o Brasil sofria repressão da ditadura militar. Nesse contexto, dentro das universidades, formavam-se agremiações dedicadas a lutar contra a censura no País. Ser jornalista e protestar contra a falta de liberdade de expressão certamente exigiria coragem, característica que foi essencial a Caio Túlio desde o primeiro dia de aula do curso de jornalismo, quando teve o primeiro contato com o movimento estudantil. Junto a muitos outros estudantes brasileiros, Caio Túlio participou também da Libelu (Corrente de Liberdade e Luta),

uma das organizações que permitiu impulsionar e estruturar o movimento etudantil. Criada em São Paulo, na década de 1970, a Libelu era uma corrente de esquerda, cujo propósito era denunciar o que seus integrantes acreditavam ser abusos da ditadura militar e combater a direita reacionária. Também delatavam o que na época era classificado por eles como a “farsa do socialismo burocrático” nos países do leste europeu, assim como os abusos de poder da esquerda em Cuba, conforme apontam os jornalistas Glauco Faria e Thalita Pires na revista Fórum, publicada em 2010. De base trotskista, a Libelu era contra todas as formas de repressão ou luta armada, enfatizava o direito à democracia por meio das publicações independentes impressas pelo campus da ECA. Nessa época, Caio Túlio ajudou a editar jornais estudantis de boa repercussão como o Dois Pontos e o Avesso (de 1975 a 1977) e colaborou com a criação do jornal alternativo O Beijo (1978), este último de cunho mais político. Segundo Matinas Suzuki, a personalidade forte e disciplinada e o olhar de editor rapidamente levaram Caio Túlio à frente das publicações: “O Caio sempre foi o cara que organizava o recebimento e o fechamento das matérias, mesmo naquela bagunça, basicamente sem disciplina nenhuma. Ele sempre teve o gosto de ajudar na diagramação, acompanhar na gráfica. De certa maneira, ele era um dos responsáveis pelos jornais saírem”.


Ao mesmo tempo em que se popularizava o jargão Abaixo a Ditadura, a repressão por parte do regime militar aumentava: “Em certo momento, durante o movimento estudantil, tivemos que nos esconder. Todos nós demos nossos nomes na gráfica para imprimir o jornal Dois Pontos, no qual utilizávamos a ilustração feita por um preso político. Cutucávamos a onça com vara curta. Obviamente que, na semana seguinte a polícia estava atrás de todos: resolvemos dar uma sumida e fomos pra minha casa de Ibiúna. Ficamos lá uns quatro ou cinco dias escondidos. Fazia um frio do cão, era mês de julho, uma umidade danada, e nós passamos os quatro dias ali. Caio, o Mario Sérgio, a Terezoca e eu, toda a turma que fazia o jornal”. A lembrança é de Silvia Poppovic, sobre uma das investidas policiais que o DOI-CODI (Destacamento de Operações de Informações – Centro de Operações de Defesa Interna) fez na USP, em busca dos responsáveis pela publicação. Silvia lembra que, pouco tempo depois, eles passaram por uma grande turbulência e enfrentaram um dos maiores medos que um militante daquele período poderia ter, o de ser interrogado pelo delegado Fleury. Sérgio Fernando Paranhos Fleury, também conhecido como Papa: um homem de estatura média, acima do peso, de olhar compenetrado e dominador, era delegado do DOI-CODI. “Levamos um susto, porque naquela época você entrava ali e não sabia se saía. Nós tínhamos um colega conhecido como Ceará. Ele tinha uma aparência mais pobre, mais rústica, e levou uns safanões do Fleury na cabeça porque foi mais bravão. Nós sentimos muito medo, mas também nos sentimos fazendo a diferença”, completa Poppovic. Fleury era famoso na caça aos comunistas e temido por suas requintadas técnicas de tortura, evidenciadas por casos como o de Frei Tito, que após ser torturado pelo delegado, enlouquecido, suicidou-se anos depois em um convento na França. Em 2003, Caio decidiu recontar a história de um dos momentos mais importantes do movimento estudantil por meio do livro Cale-se, no qual relata a saga de Alexandre Vannucchi Leme – um jovem ativista, torturado por Fleury e morto pela repressão.

A obra também retrata a importância das ações de militância estudantil organizadas pela Refazendo, movimento paralelo à Libelu. Ambas discutiam o socialismo utópico e tinham nas ações culturais uma forma de reivindicar a redemocratização. A truculência policial, a manipulação de informações por parte do Estado e a vulnerabilidade da mídia emergem das páginas do livro por meio de depoimentos de militantes e seus familiares, criando um ritmo quase cinematográfico e revelando grande potência narrativa. Registrar essas histórias foi ideia de Ary Perez, ex-militante da Refazendo e adversário político de Caio Túlio na época. Perez procurou Terezoca - amiga de Caio Túlio na época da ECA- pedindo para que ela escrevesse o livro: “Por que você não pede para o Caio? Ele está sem fazer nada mesmo”, respondeu ela. “Se prestar consultoria para clientes exigentes, dar palestras, ministrar aulas e ainda preparar as bases de uma nova empresa é fazer nada, então eu estava mesmo fazendo nada. Por isso, topei a tarefa quando o Ary me convidou para escrever essa história”, rebate Caio, bem -humorado. Aceitar o convite de Ary deu a Caio duas oportunidades: demonstrar que a rivalidade entre a Libelu e a Refazendo tinha ficado no passado e alfinetar Perez com uma velha brincadeira. “Teria que ser mesmo alguém da Libelu para contar a história da Refazendo, nem isso vocês conseguem!”, afirma Caio nos agradecimentos do livro, demonstrando o humor habitualmente irônico e sarcástico, con-

forme definido por amigos íntimos como característica específica de sua personalidade. “Eu acho que ele é uma pessoa muito engraçada. Você não sabe se ele está brincando ou falando sério. Essa ironia é quase inglesa: às vezes pode ser que ele esteja sendo altamente gozador e quem não conhece não percebe. É muito sutil. Ah, mas preste atenção! Pode ser que vocês já tenham sido vítimas sem terem notado”, diz Terezoca. Quem acompanhou a trajetória de Caio Túlio Costa sabe que, por trás do profissional sério e bem-sucedido, existem histórias com tom de humor, a exemplo da lembrança de Silvia Poppovic: “Eu tinha feito uma viagem para a Europa e, pela primeira vez, enfrentado neve para valer. Então, comprei uma botina que tinha um tamanho maior que o meu pé, mas comprei mesmo assim, porque era um sapato em que não entrava neve. Quando cheguei ao Brasil, não tinha o que fazer com aquilo, então passei pro Caio Túlio, que a usou por anos e anos. E a gente sempre brincava, ele adorava. Aquilo era importante pra ele e eu jamais iria usar aquilo outra vez”, conta Poppovic. Outra amiga da que recorda aventuras e dificuldades é Terezoca: “O primeiro automotor dele foi uma lambreta. A gente saía da USP e almoçava na casa da minha mãe. Depois, íamos trabalhar na Editora Brasiliense, de lambreta. Em uma das primeiras vezes, a lambreta empacou num cruzamento entreas avenidas São João e Rio Branco, foi um horror. Xinguei e fiquei brava. Foram bons momentos juntos”, relembra, com carinho.

Silvia Poppovic, em seu apartamento em Higienópolis, relembra momentos vividos com Caio Túlio desde a época da ECA.

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Entre a cultura e o ombudsmanato:

os 21 anos de Grupo Folha C

onfesso admirador de poetas modernistas, como Manuel Bandeira e T. S. Eliot, e de cineastas como Godard, Caio Túlio Costa não esconde o interesse por literatura e arte: “Gosto de ler e quando há tempo sempre tenho um livro à mão”, diz ele. Aos 26 anos, ao lado dos jornalistas Claudio Abramo e Caio Graco Prado, Caio Túlio já dirigia book review: Leia Livros, uma publicação da Editora Brasiliense, que contava com colaborações mensais dos ex-colegas de ECA, Matinas Suzuki Jr., Rodrigo Naves, Renata Rangel e Mario Sérgio Conti. Nomes que, alguns anos depois, vieram a compor o quadro de funcionários do caderno Ilustrada da Fo-

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lha de S. Paulo, sob o comando de Caio Túlio, primeiro jornalista dessa geração da ECA a assumir um cargo de chefia no veículo. Em 1981, aos 27 anos, foi contratado pelo jornalista Boris Casoy: “Eu conheci o Caio quando ele me foi recomendado por pessoas amigas, porque ele era executivo de uma revista de resenha literária, a Leia Livros, que era muito bem feita. Uma das pessoas foi o Cláudio Abramo, que dirigia a publicação. Ele me disse que tinha um cara ótimo lá. A ideia era trazer o Caio para a Folha para ser editor da Ilustrada e, de fato, eu o trouxe para isso”, relata Boris Casoy, na época diretor de Redação da Folha de S. Paulo.

De fato, a Folha necessitava de um jornalista jovem, disposto a arriscar e que falasse com autoridade e agilidade sobre a agenda cultural, como lembra o próprio Caio Túlio “Até então, os outros jornalistas da Ilustrada tinham um certo desprezo pelo mercado. Desprezo esse que, de certa forma, as pessoas que eu levei para lá e eu combatemos. Nós colocamos o caderno no mercado. Nós nos preocupávamos com aquilo que as pessoas estavam consumindo. Não importa se você iria ser crítico ou não, mas teria que estar atento aos movimentos artísticos, mercadológicos, aquilo que estava acontecendo, tanto no Brasil quanto fora. Essa foi a grande mudança feita.”


O jornalista Pepe Escobar afirmou em entrevista a Marcos Augusto Gonçalves, publicada no livro Pós-Tudo: 50 anos de Cultura na Ilustrada na Folha, lançado em 2008 pela PubliFolha que: “Se Glauber Rocha, na década de 1960, tinha apenas uma câmera na mão e uma ideia na cabeça para reinventar o cinema, Caio teve um jatinho – como era conhecida internamente a Ilustrada – na mão e muitas ideias pra transformar a imprensa”. Caio Túlio ficou no cargo durante um ano – de dezembro de 1981 a dezembro de 1982 – e, segundo Boris Casoy, enquanto editor da Ilustrada foi responsável por uma transformação no caderno: “A Folha Ilustrada, que era voltada, a meu ver, para o passado, era uma espécie de apêndice da Folha, com pouquíssimo contato com aqueles novos tempos. O jornal dava pouca importância para ela. O Caio veio e, eu não teria problema em usar o termo, revolucionou a Folha Ilustrada. A Ilustrada de hoje é uma continuação do que o Caio criou. Ele deu um novo impulso e a inseriu na modernidade de artes e espetáculos. Em arte eu estou incluindo literatura. E, especialmente, trouxe gente muito competente”, analisa Boris. Matinas Suzuki Jr., um dos amigos de Caio chamado para compor a equipe da Folha, reafirma a constatação de Boris: “O Caio é muito organizado, ele é um cara de fechamento, e deu uma estrutura para a organização que funcionava tão bem, sem a qual, eu não teria conseguido fazer as coisas que eu fiz”, diz o sucessor de Caio Túlio e um dos principais editores da história Ilustrada. Outro jornalista que dá destaque às qualidades de Caio enquanto editor é Leão Serva, recordando um momento quando dava demonstrações dessa capacidade: “O Caio estava andando pela redação, então parou na minha mesa e me perguntou o que eu estava fazendo. Expliquei que estava escrevendo uma matéria sobre o Gil Gomes. Então o Caio falou: “Ah, é?

“O Caio veio e, eu não teria problema em usar o termo, revolucionou a Folha Ilustrada.” Boris Casoy

Aposto que não disse qual é o número da rádio dele no dial”. E eu não tinha posto o dial da rádio mesmo. Ele tinha uma capacidade, quase que espírita, de antever os defeitos mais decorrentes da redação e avisava. Com isso, ele antecipava problemas e conseguia também tornar mais harmônico o fechamento do jornal”. Além disso, o destaque dado por Caio Túlio ao colunista Paulo Francis levara a Folha a conquistar um de seus maiores fenômenos culturais: “O Caio percebeu que o Paulo Francis tava meio encolhido na coluna que ele fazia e abriu uma página inteira pra ele, com ilustração. Essa foi uma das coisas mais importantes que aconteceram naquele momento”, recorda Matinas. Esse tipo de atuação despertou a atenção do jornal que, em apenas um ano, promoveu Caio Túlio a secretário de redação: “a qualidade do trabalho dele o levou a isso”, observa Boris. O ex-chefe de Caio não dispensa elogios a ele, mas de maneira bem- -humorada relembra um “defeito” da época de Folha de S. Paulo: “Ele era um pouco gago. (Risos). É isso”. Enquanto foi secretário de redação, um dos desafios que o cargo lhe trouxe foi a informatização da redação em 1983 e a implantação do Manual de Redação em 1984. A despeito dessas conquistas, a responsabilidade trazida pelo cargo, somada aos desafios propostos e à pouca idade do jornalista fizeram com que ele se tornasse um chefe exigente e com dificuldades de relacionamento com a equipe. “O Caio era extremamente rigoroso, de um humor muito ácido. As pessoas lidavam com ele com muito medo, com angústia, com insônia, com nervosismo, mas ao mesmo tempo era um chefe muito eficiente, e contribuiu com o nosso aprimoramento

profissional, nós melhoramos muito graças a ele, a essas cobranças”. O próprio Caio reconhece que, na época, tinha pouca experiência no trato com seus subordinados: “Provavelmente, em função da idade, eu era muito inseguro, pela própria inexperiência, mas nunca tive dificuldade não. Eu me dei bem. Eu não tive dificuldade. As pessoas tiveram dificuldade comigo, pelo fato de me acharem muito autoritário, justamente pela insegurança proporcionada pela juventude”, pontua o jornalista. Apesar da postura de certa forma autoritária, na mesma época, alguns amigos de redação puderam vislumbrar outra face do jornalista. A face ousada e irônica: “Ás vezes ele incorpora o personagem Caio Túlio. Ele interpreta e é engraçado. Em 1986, estávamos no Festival de Cannes escrevendo para a Folha e teria uma sessão de estreia de um filme do Godard. Eu cheguei atrasado durante a sessão, e o Caio não conseguiu guardar um lugar pra mim. Então, fiquei em um mezanino no fundo do teatro. Quando acabou o filme, a sala ficou em silêncio e eu, lá de trás, pude ver o Caio se levantar e começar a bater palmas fervorosamente, olhando para os críticos com certo sarcasmo, como se só ele tivesse entendido o filme. Foi pura manifestação de cinismo do Caio Túlio. Só ele para fazer uma coisa dessas de forma engraçada”, revela Matinas. Em 1987, Caio deixou o cargo de secretário de redação e foi para Paris como correspondente internacional, com o objetivo de cobrir a reunião da cúpula do G8. Acabou ficando para a cobertura de todo o Bicentenário da Revolução Francesa e para a cobertura das eleições presidenciais que reelegeram François Mitterrand.

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Quando alguém é pago para defender o leitor

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pós retornar da França, Caio assumiu o cargo que o tornaria conhecido como o primeiro ombudsman brasileiro. E foi com o título Quando alguém é pago para defender o leitor que o jornalista deu início, em 24 de setembro de 1989, à primeira coluna de seu ombudsmanato – nome dado ao período em que um jornalista exerce a função de ombudsman. Era a primeira vez que um veículo brasileiro criava um cargo como esse, no qual o profissional é pago exclusivamente para mediar o relacionamento entre o veículo e seus leitores, ouvindo suas críticas, representando-os na redação, defendendo seus interesses, trazendo as respostas dadas pelo veículo e, principalmente, apontando os erros do próprio jornal, visando, assim, ampliar a transparência e desenvolver um jornalismo cada vez mais preocupado com o seu papel na sociedade. Ou, pelo menos, esse era a o objetivo oficial da função. Mas o cargo não chegou por acaso às mãos de Caio Túlio. Em meados dos anos 80, Otávio Frias Filho, o Otavinho, filho do Sr Frias, há pouco tempo fora incumbido de dirigir a redação da Folha de S. Paulo e acompanhava rigorosamente o trabalho desenvolvido no jornal norte-americano, The Washington Post, e o espanhol El País, ambos então considerados como modelos de qualidade jornalística para a Folha. Ambas as publicações apresentavam um colunista com uma função até então não explorada em sua totalidade na imprensa brasileira, pelo menos não com direito a denominação importada e placa na porta, o Ombudsman. E foi em 1986, durante uma das reformas no prédio da sede da Folha de S. Paulo, na Barão de Limeira, que a placa foi fixada em uma das novas salas da redação, na Zona Sul, com direito a ar-condicionado, carpete e móveis novos. A sala permaneceu desocupada por três longos anos. Os demais jornalistas pouco sabiam sobre a nova proposta do jornal e a real funcionalidade dela.

O ombudsman era a versão sueca para o representante do povo, e se o conceito surgiu em 1713 para designar ouvidores públicos em geral, os norte- americanos, em 1967, conferiram a esta designação o press ombudsman, ou seja, criaram o ombudsman de imprensa. A ideia surgiu como uma alternativa para uma das crises de confiabilidade pela qual as gazetas norte-americanas passavam nos anos 1960. Já na década de 1980, o ofício havia se consolidado e o novo diretor de redação da Folha viu a possibilidade de inovar a estrutura do jornal. De certa forma, a crítica de mídia já havia sido testada na imprensa brasileira por Alberto Dines, em sua coluna “Jornal dos Jornais”, veiculada pela própria Folha de S. Paulo, na década de 1970 e, posteriormente, no Pasquim. A dificuldade em encontrar um jornalista disposto a ocupar a nova função fez com que a inauguração do cargo fosse adiada, até que por convocação, em 1989, Caio Túlio Costa foi incumbido de ocupar o posto vago. O próprio Caio Túlio afirma que, naquele momento, não tinha muito interesse em assumir a responsabilidade, pois estava trabalhando como correspondente na França e pretendia continuar mais tempo por lá, onde já havia realizado a cobertura do

Bicentenário da Revolução Francesa e das eleições para presidência que reelegeram François Mitterrand. Porém, segundo ele, a Folha de S. Paulo não deixou espaço para recusa: “Eu estava em Paris, pensando em ficar lá mais tempo, quando veio o convite para aceitar a função de ombudsman, que eu tinha tentado preencher com outras pessoas quando era secretário do jornal. Eu tinha convidado várias pessoas, que não aceitaram. Por mim, teria ficado na França, mas não foi bem um ‘oh, você quer?’ foi quase que um ‘você precisa aceitar, começamos em setembro’”, explica Caio. Apesar da visão idealista e definição um tanto quanto poética, na prática, o ombudsman desempenhou um papel muito mais comprometido com a crítica a outros veículos do que com a própria Folha, conforme afirma Leão Serva, amigo de Caio Túlio Costa e secretário de redação da Folha de S. Paulo no período de seu ombudsmanato. Leão aponta que o fato de Caio Túlio criticar outros veículos gerou algumas desavenças: “O Caio entendia que o ombudsman deveria criticar a imprensa como um todo, mas ele levou tanta porrada que, a partir de um certo momento, os outros ombudsmen não criticavam mais a imprensa”, comenta.

Em seu livro Ombudsman: O Relógio de Pascal, Caio Túlio faz uma avaliação da atuação de seus sucessores

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Logo nos primeiros meses, Caio Túlio encontraria resistência não apenas dos concorrentes, mas também dentro da própria redação, entre jornalistas e até mesmo do público. Muitos leitores não conheciam o verdadeiro objetivo do ombudsman, confundindo-o com o SAC – serviço de atendimento ao cliente –, e usavam o canal para queixas administrativas que variavam desde cobrança dupla da assinatura, até brindes extraviados. Em alguns casos, chegavam a ligar até mesmo à procura de emprego. Caio Túlio conhecia os desafios propostos pelo cargo, especialmente da dificuldade de assimilação por parte dos jornalistas, assim como a forte resistência às criticas. Segundo Caio, enquanto ainda era secretário de redação, teve a missão de observar e estudar os ombudsmen dos jornais de outros países para compreender seu comportamento e encontrar a melhor forma de inserir e adequar o cargo ao jornalismo brasileiro. O ombudsman seria responsável por atender os leitores e encaminhar uma possível solução para cada queixa prestada. Além disso, também teria de ler a publicação do dia anterior e criticá-la, apontando desde os erros gramaticais até erros de informação. E, por fim, compará-la com a publicação dos concorrentes. Sua atuação como primeiro ombudsman foi marcada por diversas críticas, polêmicas, erros e acertos. O jornalista ocupou o cargo por dois anos, tempo máximo de permanência na função. Entre os muitos críticos da mídia, jornalistas e pesquisadores, é quase unânime a opinião de que o cargo de ombudsman pode ser utilizado como uma estratégia publicitária, como afirma o jornalista e cineasta Mauricio Caleiro. Em 2009, Caleiro chegou a publicar um artigo ‘Ombudsman para quê?’ no Observatório da Imprensa, questionando a posição partidária dos jornalistas que assumiram o ombudsmanato: “No Brasil, com raríssimas exceções, a criação do cargo de ombudsman, ou ouvidor, nas empresas, pouco supera o mero truque de marketing”, diz. Caleiro ainda completa: “Defender o jornal e criticar seus concorrentes foram, desde a implementação do cargo de ombudsman, duas das principais distorções inerentes ao exercício de tal atividade na Folha de S. Paulo – e não por serem proibitivas a um ouvidor (pelo contrário), mas pelo modo excessivo e indisfarçado como passaram a substituir o que deveria ser um misto de visão autocrítica e de tradução das críticas dos leitores em relação ao jornal”. Na época, o principal concorrente da Folha de S.Paulo, o Estadão - dirigido pelo Jornalista Augusto Nunes - era o principal alvo das críticas e apontamentos feitos na coluna de Caio Túlio, e em pouco tempo uma piada passou a circular os meios jornalísticos: o Estadão já tem o seu ouvidor, falta a Folha arrumar o dela. O chiste resumia o desconforto com o qual era vista a crítica proposta pela Folha de S. Paulo, pois a função do novo cargo era apontar os erros da própria Folha e não os dos demais veículos.

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Primeira coluna de Caio Túlio Costa como Ombudsman na Folha de S.Paulo.

Um dos casos que mais geraram alfinetadas entre os dois veículos ocorreu em 8 de outubro de 1989. Caio Túlio publicara em sua coluna uma crítica à influência da política editorial na cobertura das eleições para presidente, noticiando que a redação do Estadão teria se reunido com uma equipe da Gallup – Instituto de Pesquisa, Consultoria e Gestão de Negócios – para registrar análises sobre a candidatura de Afif Domingos à presidência. Augusto Nunes afirmou que essa reunião nunca existiu e que o fato não passava de invenção: “Não houve a reunião, eu não faria isso. Mas, como nós éramos amigos, eu mandei um bilhete”, reafirma o jornalista 21 anos após o incidente. Caio Túlio, no entanto, acreditou que aquela seria uma boa oportunidade para debater a resistência à crítica na imprensa brasileira e publicou o bilhete de Nunes na íntegra, atitude que desagradou muito o diretor do Estadão. Nos meses seguintes, muitas farpas foram trocadas entre os dois veículos, como acusações de que o Estado de S. Paulo “cozinhava” notícias de outro jornal; e de que a Folha ficcionava notícias, e até mesmo, a divulgação equivocada de um suposto ataque a Israel com armas químicas feitas pela Folha de S.Paulo.


Augusto Nunes 21 anos depois Augusto Nunes conhecera Caio Túlio Costa muito antes de virar diretor de redação do Estado de S.Paulo. Os dois se conheceram em uma viagem para Atlanta em 1986, em comemoração ao centenário da Coca-Cola. A lembrança de Nunes é diversos shows e bons jantares oferecidos aos grupos de jornalistas brasileiros. O coleguismo e a reputação profissional de Nunes, levou até mesmo á um inusitado convite naquele mesmo ano, feito por Caio Túlio. Durante um almoço, Caio ao lado de Otavio Frias Filho, convidara Nunes para ocupar o recém formulado cargo de Ombudsman na Folha de S.Paulo. Augusto Nunes tinha acabado de sair da Revista Veja, onde trabalhava há 13 anos, queria expandir sua experiência em uma redação de jornal. Mas não daquele modo: “A conversa foi ótima, mas eu achei que não me agradaria ocupar um cargo que só me permitiria interferir a posteriores no jornal. É muito fácil ser engenheiro de obras prontas” Mais tarde, já na época de seu defato com Caio Túlio - quando Túlio era Ombudsman da Folha - Nunes deixava claro seu descontentamento com o media criticism como uma das principais funções do Ombudsman. Em uma de suas cartas á Caio, Nunes escrevera: “No Estado o trabalho de um Ombudsman é feito por quem dirige a Redação. Se algum dia esse cargo existir por aqui, será contratado alguém que saiba escrever, não seja grosseiro e tenha independência: não é o seu caso, evidentemente. Não se esqueça de mandar cópia do seu bilhete ao Otavinho: ele talvez fique grato por tamanha sabujice. Um último conselho: esqueça o Estado e se preocupe com a Folha, ela merece.” Hoje 21 anos depois, é a primeira vez que Augusto Nunes conversa sobre o ocorrido, e reafirma sua posição: “Porque se você precisa de uma pessoa pra dizer no dia seguinte o que saiu de errado, e melhor você botar essa pessoa na direção de redação. E incumbi-la de invés de criticar a edição que saiu, impedir que saia o erro. Tantos anos depois, eu recusaria o cargo de novo”.

A acusação sobre o ataque a Israel aconteceu em 18 de novembro de 1989. Durante um plantão no Jornal Nacional, noticiário exibido pela Rede Globo, um correspondente internacional – cujo nome não foi divulgado – afirmou que o Iraque havia atacado Israel com armas químicas, porém, poucos minutos depois, essa informação foi desmentida. A redação da Folha de S. Paulo estava em horário de fechamento no momento do anúncio e de sua retificação, mas não corrigiu a notícia a tempo, por isso, parte da edição do dia seguinte circulou com a manchete: “Saddam lança armas químicas, Israel reage e entra na guerra”. Em resposta ao erro cometido pela Folha, Augusto Nunes publicou uma matéria no Estadão aproveitando a oportunidade para criticar não apenas o veículo, mas também o posicionamento do ombudsman: “Eu ilustrei a reportagem com a manchete e coloquei assim: Folha ataca Israel com armas químicas, mas não se preocupem que o ombudsman explica tudo no domingo”, recorda Nunes. Após o incidente, coube ao ombudsman da Folha de S. Paulo explicar a causa da distribuição de 80 mil exemplares, que correspondiam a 20% da tiragem, com a informação incorreta. Em sua coluna, Caio Túlio Costa registrou o erro por parte do secretário de redação: “Foi uma informação errada que nós demos ao leitor a partir do confuso e contraditório noticiário televisivo”, afirmou o jornalista. Outro jornalista que dispara fortes críticas com relação à atuação dos ombudsmen brasileiros é Celso Lungaretti. Ele trabalhou como jornalista da Folha de S. Paulo e, em 1970, foi preso após ser acusado

injustamente, inclusive pela grande mídia, de ser delator de um grupo antiditadura. A Folha demitiu o jornalista e, só após 34 anos, Lungaretti conseguiu provar que a acusação era falsa. Mesmo assim, o jornalista teve pouca assistencia da Ombudsman, Suzana Singer, para conseguir uma retificação : “Eu tive vários contatos com o ombudsman e o que me transmitiam era um sentimento de impotência e, realmente, o Frias Filho achou que aquilo daria certo valor à imagem da Folha, mas ele nunca respeitou a autonomia do cargo”, comenta Lungaretti. Além de polêmicas que envolviam outros veículos, o primeiro ombudsman brasileiro enfrentou problemas internos. Um dos mais conhecidos foi o que envolveu o jornalista Paulo Francis, o colunista da Folha mais lido da época, que escrevia sobre assuntos polêmicos de forma irreverente e audaciosa. Francis era dono de um humor cáustico e caráter pouco ortodoxo. Justamente por apresentar suas opiniões de forma nada moderada, Paulo Francis dividia relações de amor e ódio com os leitores e opiniões opostas bem delimitadas entre os críticos, o que lhe trouxe impasses, como com o então na época ombudsman da Folha, Caio Túlio Costa. Durante a campanha para as eleições presidenciais, no final de 1989 – primeira eleição com voto direto desde o fim da ditadura – o público dividia-se entre os candidatos Lula e Collor. A Folha de S. Paulo procurava imparcialidade, porém, Francis criticava duramente Lula e ao eleitorado petista, o que revoltou alguns dos leitores e trouxe uma série de reclamações ao ombudsman.

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PERFIL

“Fico imaginando aquela cara ferrujosa de lagartixa pré-histórica se encolhendo às minhas pauladas.” Paulo Francis

Em resposta, Caio escreveu um artigo em sua coluna dominical, no qual procurava apaziguar os ânimos, afirmando que Francis escrevia crônicas – tipo de texto que não exige precisão jornalística - e que por isso não deveria ser cobrado exatidão de suas publicações. Para Francis, a atitude de Caio foi condescendente com o eleitorado petista, sentiu-se ofendido ao ser chamado de cronista pelo próprio amigo. A partir de então, passou a atacar fortemente Caio Túlio. Entre as ofensas, declarou que ele seria apenas um bedel de jornal e que estava “despontando para o anonimato”. Caio Túlio não deixava por menos e afirmava que Francis sofria de insegurança e desequilíbrio mental. “Fico imaginando aquela cara ferrujosa de lagartixa pré-histórica se encolhendo às minhas pauladas. Caio Túlio me causa asco indescritível, não posso garantir que se o encontrar não lhe dê uma chicotada na cara, ou, não, palmadas onde guarda seu intelecto”, afirmou Francis em um dos textos publicados em sua coluna naquele período. As ofensas passaram a ser constantes, e a revista Veja São Paulo chegou a publicar que raras vezes se viu esse tipo de ofensa na imprensa brasileira. A polêmica chegou ao fim em 25 de fevereiro de 1990, com uma intervenção da direção da Folha e com o pedido de demissão feito por Paulo Francis, após 14 anos escrevendo para a Folha de S. Paulo. Francis rompeu seu contrato e passou a escrever para jornal O Estado de S. Paulo. Atualmente, a Folha de S. Paulo é o único jornal impresso que conta com um ombudsman em sua redação. No entanto, a reavaliação de tantos anos não é muito positiva, ainda é possível se deparar com as mesmas controvérsias e questionamentos a respeito da independência de atuação. Segundo afirma Mauricio Caleiro: “Em termos de jornalismo, mesmo a experiência pioneira da Folha de S. Paulo, que, malgrado desde o início ter se mostrado passível de críticas e de ironias, tenderia a se destacar no horizonte, sofreu um retrocesso grave nos últimos quatro anos. Eu não estou afirmando que o ombudsman, como profissional, é uma inutilidade, mas apontando para o fato de que, sem liberdade para exercer sua tarefa e sem que seus pareceres efetivamente repercutam na conduta da publicação, sua função fica desprovida de sentido”.

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O jornalista e comentárista Paulo Francis Foto: Divulgação.

Apesar do caráter ético da função de ombudsman ser frequentemente colocado em cheque, foi justamente o cargo que levou Caio a pensar, discutir, escrever e, mais tarde, dar aulas sobre ética jornalística. Caio conta que a questão ética apareceu com mais intensidade quando ocupou o cargo de ombudsman, o que o fez voltar à discussão. Já lecionar foi algo fortuito: “O Eugênio Bucci foi chamado para assumir a Radiobrás, quando o Lula foi eleito, em 2002, e ele era professor de ética na Cásper Líbero. Tanto ele quanto o coordenador de jornalismo, que na época era o Mario Vitor Santos, me chamaram para preencher o buraco deixado pelo Eugênio. Então essa é uma aproximação que começou quando eu era ombudsman, e se aprofundou em função de eu ter aceitado o convite para dar aula de ética na Cásper Líbero naquele momento”. As amplas discussões sobre ética renderam a Caio Túlio uma tese de Doutorado – pautada pela ementa das aulas de Eugênio Bucci – e o livro Ética, Jornalismo e Nova Mídia, publicado pela Editora Zahar. Para Caio, a reflexão é importante porque, segundo ele, no mundo inteiro existem regras de conduta para os jornalistas: “Eu acho essas regras de conduta meio discutíveis, porque, quando você se aprofunda na questão da ética, se você faz alguma coisa para parecer ético, isso já não é ético. Se você faz com medo de não parecer que está sendo ético, também não é ético. Ético é aquilo que você faz porque tem a convicção, a certeza da correção daquela atitude que você está tomando em um momento que exige uma definição. Num momento em que há um dilema. É aí que a ética aparece”, enfatiza.


O ex-ombudsman afirma que os códigos de ética pecam um pouco por isso, e que são muito positivistas. Como se muitas vezes afirmações generalizadas e pouco substanciais dessem conta de explanar e justificar questões mais complexas, e conta que, durante os nove anos em que deu aula, nunca deu um código de ética para os alunos lerem: “No final, eles faziam um trabalho importante: a prova final era o juramento do jornalista, mas com base na discussão e nas ferramentas que eles aprenderam a usar no curso. Não era um curso de formação de caráter”, completa Caio. Dando continuidade à discussão, Caio acredita que há momentos em que é necessário usar uma câmera oculta, por exemplo. Mas a questão não é discutir se isso está certo ou errado: “Não é assim a vida. Se fosse assim, os códigos de conduta resolveriam todos os problemas de todas as sociedades. Se fosse assim, o imperativo categórico do Kant daria conta dos males do mundo. No entanto, o imperativo categórico não dá conta dos problemas do mundo. E o mundo é o mundo, uma maneira de vulgarizar é o cada caso é um caso”, finaliza Caio. O autor do livro Sobre Ética e Imprensa e integrante da banca da tese de Doutorado de Caio Túlio Costa, Eugênio Bucci é especialista em ética e compartilha da mesma análise de Caio: “Eu diria que o fundamental é o que está nas declarações da ONU (Organização das Nações Unidas), como as declarações sobre os Direitos Humanos, declarações sobre a tolerância e com a legislação do país, mas não é recomendável que a atividade seja exercida por lei. O jornalista não pode praticar um crime, mas isso já está disposto na legislação ordinária e nas normas constitucionais”. Bucci conclui sua reflexão lembrando que atualmente existe o Código de Ética do Jornalista Brasileiro, aprovado pela FENAJ (Federação Nacional dos Jornalistas): “O Código de ética não tem força de lei, deriva de uma éspecie de código de conduta, de etiqueta. Tem uma força moral. Portanto, a ética jornalística cuida exatamente daquilo que a lei não disciplina. É além da lei”, diz ele.

Leão Serva e Caio Túlio, no lançamento do livro Ética, jornalismo e nova mídia, em São Paulo

Já para Muarrek, o atual cenário do jornalismo brasileiro exige um código de ética bem pontuado: “Há uma visão romântica que cerca os jornalistas. A verdade é que hoje em dia você tem uma esfera pública dominada por novos atores - empresas de comunicação e assessorias - todos com direito de emitir suas informações no espaço público e o jornalista, que antes, representava uma determinada verdade, que hoje está cada vez mais questionada, torna-se um mediador de múltiplas verdades. Mas, de qualquer maneira, esse é um mercado novo, promissor do ponto de vista de trabalho, de remuneração, de desafios, de oportunidades, de tudo o mais. E precisa ser entendido e eventualmente ter um código de ética mais explícito”, observa. Os aspectos discutíveis são muitos, as questões éticas requerem análise profunda caso a caso, para que não se caia em dualismos ou generalizações. Além disso, a questão ética ainda pode e deve ser expandida para a atuação do jornalismo corporativo e sua influencia sobre o perfil do profissional multifuncional no século XXI. Uma das formas de inserir a ética como pauta fundamental para a prática do jornalismo é analisá-la continuamente, da universidade às redações. E apesar de não existirem respostas objetivas a maioria das questões éticas, o exercício crítico e o dialogo de uma forma analítica sobre o assunto - tanto entre os profissionais da área, como nos centros acadêmicos e entre o público - propõe criar abordagens mais próximas das demandas e expectativas.

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PERFIL

A era digital:

informatização da redação, UOL e IG Q

uando fala sobre os principais pontos de sua carreira, Caio Túlio não deixa de citar dois grandes feitos: a informatização da redação do jornal Folha de S. Paulo e o desenvolvimento do Universo Online, o UOL, primeiro portal de informações da América Latina. A informatização da Folha de S. Paulo data de quando ele ainda trabalhava como secretário de redação em 1987. Na época, o Brasil passava por um momento de transição, no qual os computadores começavam a chegar ao País, mas ainda não faziam parte da rotina das pessoas. Segundo Boris Casoy, trazer o computador para a redação e redefinir o método de trabalho foi uma tarefa complicada. Primeiro porque era algo novo, com o qual ninguém tinha experiência; e segundo porque havia rejeição por parte das pessoas que acreditavam que perderiam seus empregos sendo substituídas pela nova máquina: “Era uma grande novidade, e a Folha foi desbravadora nisso. Não tinha sistema de computadores nas redações e havia um preconceito muito grande, porque se imaginava que iria tirar muitos empregos. Nós havíamos feito uma tentativa de implantação com outras pessoas, mas realmente era uma tarefa muito complicada”, recorda Boris. Com o projeto concluído, uma das principais mudanças, na opinião de Caio Túlio, é que o cargo de revisor deixou de existir. Cada jornalista passou a ter o próprio computador e cabia a cada um escrever o próprio texto de forma correta. Segundo ele, isso foi bom, pois os jornalistas estavam desaprendendo a escrever: “O jornalista não se preocupava em escrever corretamente, pois sabia que o texto passaria por revisão. Com a chegada do com-

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putador, cada um passou a ser responsável pela qualidade de seu texto, eliminando assim o cargo de revisor”, diz. Já a criação do UOL data de 1996, mas teve início em 1995, quando, ainda no Grupo Folha, Caio, que era diretor da Revista da Folha – a revista foi idealizada por Caio Túlio e criada em 1992 – ao perceber que a internet era uma tendência em ascensão e uma oportunidade de trabalho, Caio Túlio deu forma e vida ao portal, em parceria com sua equipe e com a jornalista Marion Strecker. “Lembro-me de quando começamos a contratar as equipes que nos ajudaram a criar a empresa, das discussões sobre quais serviços prestaríamos, qual seria a arquitetura do portal e quais parceiros buscaríamos. Lembro-me de todas as dificuldades técnicas que enfrentamos no dia do lançamento e de todos os prêmios que ganhamos nos anos seguintes. O Caio gostava de reunir a equipe para buscá-los nas cerimônias e trazermos as estatuetas para a redação. Caio era um chefe que sabia agradar as equipes”, relembra Marion. Hoje é fácil dimensionar a importância da internet para a divulgação de informações. Porém, em 1995, o pioneirismo em propor a criação de um portal noticioso no Brasil era uma ideia inusitada, fruto de uma mente jovem e disposta a arriscar. Caio Túlio Costa, aos 45 anos de idade, deu forma e vida ao UOL. Há um consenso entre jornalistas, como Boris Casoy e Ubiratan Muarrek, de que a participação de Caio na diretoria do UOL foi um dos principais marcos de sua carreira: “O maior legado do Caio foi o UOL, pelo pioneirismo na área digital e a ousadia. Inclusive, considerei uma

certa irresponsabilidade quando ele escreveu um texto chamado O jornalismo acabou – eu fiz ele mudar esse título –, mas ele é um pioneiro nessa reflexão”, analisa Ubiratan. Caio foi diretor geral do UOL durante sete anos, de 1995 a novembro de 2002. E em 2006, assumiu a presidência do Internet Group – empresa da Brasil Telecom – onde administrava os portais IG, iBest e BrTurbo, deixando a empresa apenas em 2009, quando o Grupo OI passou a controlar o portal IG. Desde quando começou a trabalhar com a internet, o jornalista dedica-se a estudar a área, principalmente no que diz respeito às novas mídias. Em 2011, tornou-se professor de Informação e Comunicação na Era Digital, em um curso de pósgraduação da ESPM e, ao contrário do que muitos apaixonados pelo jornal impresso pensam, acredita que a facilidade de acesso às informações estabelece um risco para o meio impresso: “Significa um risco, porque hoje nós vivemos um momento de transição. Daqui a pouco a plataforma vai ser quase 100% digital. Nós estamos caminhando para isso”, analisa.

Propor a criação de um portal noticioso no Brasil era uma ideia inusitada, fruto de uma mente jovem e disposta a arriscar.


Edson Flosi foi demitido da Cásper Líbero, em 2012

Diversas

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urante muito tempo, era comum que profissionais colocassem seus cargos à disposição da chefia como forma de manifestar solidariedade a algum colega que fosse demitido por motivo injusto. Para quem se propõe a lecionar e discutir ética e ainda carrega consigo a ideologias e o companheirismo adquirido na época da ECA, certos valores são atemporais. Foi com essa convicção que, em março de 2012, o jornalista Caio Túlio Costa apresentou sua carta de demissão à Cásper Líbero, faculdade da qual era professor desde 2003. No texto apresentado por Caio, ele expõe sua indignação pela demissão do professor Edson Flosi, afastado de seu cargo na instituição mesmo estando doente – Flosi já lutava contra um câncer há dois anos, porém continuava exercendo funções administrativas. Além desse motivo, a carta de Caio ressalta seu descontentamento com outros problemas apresentados pela faculdade, principalmente no que dizia respeito à infraestrutura oferecida aos alunos: “Eu fiz uma carta em que dizia que o principal motivo era a demissão do Flosi, mas não era só isso. Tinha uma série de criticas à maneira como a escola estava sendo administrada. A demissão do Flosi não foi apenas a gota d’água, foi uma tempestade. Me senti muito mal em uma escola que tomou uma atitude como aquela, com um professor nas condições de doença, em que estava o Flosi”, explica Caio Túlio.

Para o professor Edson Flosi, a atitude de Caio veio como uma surpresa boa, pois os dois não conversavam há muito tempo: “Eu fiquei sensibilizado porque não combinei nada com ele, nós nem conversávamos muito e ele tomou essa atitude que eu considerei de uma solidariedade muito grande e de um perfeito professor de ética. Ele achou que o colega dele foi injustiçado e se solidarizou, pedindo demissão”, afirma Flosi. Ainda segundo o ex-professor da Cásper Líbero, a atitude de Caio serviu para mobilizar os alunos, que se reuniram para exigir melhorias na instituição: “Com as nossas demissões, o Centro Acadêmico Vladimir Herzog, grupo formado pelos alunos que representam o corpo docente (ou discente?), se levantou. Algumas pessoas dizem que os alunos da Cásper Líbero nunca tinham feito um movimento igual. Eles fizeram assembleias com 400, 500 pessoas”, disse. Para Silvia Poppovic, a atitude de Caio causou estranhamento e ganhou a atenção da mídia porque hoje as pessoas não costumam se solidarizar a esse ponto, porém, na época em que eles começaram a trabalhar, era uma atitude natural: “Para a nossa geração, isso era uma coisa muito comum. Muitas vezes as pessoas pediam demissão em solidariedade à outra pessoa. Era uma coisa assim: um por todos e todos por um. Essa mentalidade era muito constante em todos nós”, destaca.

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A exposição midiática do caso fez com que a Cásper Líbero se retratasse publicamente, convidando Flosi a retomar suas atividades, porém, ele não aceitou o convite: “A faculdade mandou uma nota para os jornais me chamando para voltar. Então, eu também fiz uma nota, dizendo que não aceitava e que eu entendia que aquele convite era apenas para abrandar o movimento dos alunos e esvaziar o movimento estudantil. Eu denunciei isso na nota e não aceitei voltar”, diz Flosi. Após sua demissão, Caio Túlio continuou lecionando no curso de pós-graduação da ESPM e dedicando-se à MVL Comunicação, em que assumiu uma posição diferente da que exercia nas redações e na sala de aula: o de executivo de comunicação. Sobre esse trabalho, alguns amigos afirmam que Caio tem as características ideais de um empresário: “Eu acho que ele tem tino, ele sabe se organizar. É muito disciplinado e estudioso. Agora ele tem experiência – passou por vários cargos de chefia – eu acho que ele tem total capacidade. É uma característica dele: ir atrás do que não sabe, tentar, fazer e conseguir”, comenta. Apesar da trajetória bem-sucedida, Caio afirma que foi levado a ser empresário da comunicação: “Eu fui sendo chamado para estas responsabilidades, e fui aceitando. Foi acontecendo”. Para João Batista Natali, jornalista, professor da Cásper Libero e amigo de Caio Túlio, isso ocorre pela facilidade de adaptação do perfil profissional jornalístico: “Eu diria, simplesmente, que os jornalistas são flexíveis em seus talentos. Ou seja, conseguem adaptar-se com maior facilidade a outros mundos que não sejam os das redações.” Outra opinião que reforça a imagem de um Caio Túlio empreendedor é a de Ubiratan Muarrek, que considera que as empresas de comunicação estão aproveitando uma oportunidade de mercado: “As empresas de comunicação atendem uma nova demanda do mercado, pois a sociedade precisa se comunicar mais”, diz.

Em 2010, Caio Túlio dirigiu a campanha digital da candidata a presidência, Marina Silva. Uma das estratégias desenvolvidas pela equipe foi a de criar um jogo on-line, intitulado “Construa um mundo melhor”, expondo as prioridades sociais da plataforma de governo de Marina, por meio da web 2.0. Em junho daquele mesmo ano, Caio Túlio conheceu sua atual esposa, Stephanie Jorge. A publicitária, que hoje trabalha ao lado do marido como sócia na empresa MVL Comunicação, relembra: “Nós nos conhecemos na campanha da Marina Silva à presidência, em junho de 2010. O Caio era coordenador da campanha e eu trabalhei em sua equipe de mídias sociais. Ele é um excelente chefe, professor, seja na sala de aula ou na sala de reunião. E seja com um estagiário ou com um CEO, ele nunca critica uma ideia se ele não tem uma resolução melhor para o problema”. Pouco tempo depois, Stephanie começou a ler uma de suas obras, o que a aproximou ainda mais de Caio: “Quando não éramos casados eu li seu livro Cale-se. Enquanto eu lia o livro, nós trocávamos e-mails sobre as minhas impressões e ânsias. Era o escritor e o leitor lendo juntos a mesma obra. Foi uma experiência bastante bacana”. A experiência aproximou Caio e Stephanie e impulsionou o início de um novo relacionamento entre os dois. Em 2011, Caio Túlio Costa se casava pela terceira vez. Comenta Silvia Poppovic: “Depois que o Caio terminou o casamento dele com a Célia, ele casou-se com a jornalista Bel Kranz e ficou casado 30 anos com ela. Recentemente, eles se separaram e ele se casou com a Stephanie, uma moça bem jovem, quase 30 anos mais nova que ele. Quando fui ao último casamento, falei pra ele: é o seu terceiro casamento a que eu vou, então, chega de casamentos. Fui madrinha do primeiro e do segundo. Agora chega, né?”, conclui, com humor.

Caio Túlio e sua atual esposa, Stephanie Jorge

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Enfim, Caio! “

Como eu vou acabar os meus dias?

Provavelmente vai ser escrevendo, estudando e ensinando. Caio Túlio Costa

Palestra no FORO IBEROAMÉRICA – 2011

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PERFIL

CRONOLOGIA 1954

Nasce em Alfenas – MG

1976

É diretor do book review Leia Livros

1981

Se torna editor do caderno Ilustrada da Folha

1982

Secretário de Redação da Folha de S. Paulo

1989

Correspondente Internacional na França

1989

Assume o cargo de ombudsman, o primeiro no Brasil

1992

Cria a revista da Folha

1995

Fundador do Portal UOL

2003

Professor de ética jornalística pela Cásper Libero

2006

Assume a presidência do IG

2010

Dirige a campanha digital de Marina Silva à presidência

2010

Associa-se à MVL Comunicação

2012

Dirige a campanha digital de Gabriel Chalita à prefeitura de São Paulo

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LIVROS 1981

O que é anarquismo Lançado pela editora Brasiliense, da Coleção primeiros passos – série que explica diversos conceitos como cultura, rock e psicologia social – O Que é Anarquismo, primeiro livro de Caio Túlio Costa, propõe-se de maneira simples e didática explicar as correntes políticas que lutaram em defesa dessa ideia, narrando a história dessas lutas, na Europa e na América, de seus principais articuladores e da repressão às atividades, desmistificando desta forma, a ideia de anarquismo como desordem.

1991

Ombudsman: O relógio de Pascal – 1ª Edição Lançado pela Geração Editorial, o livro com os relatos e experiências de caio Túlio Costa, o primeiro ombudsman brasileiro. Por meio de uma narrativa minuciosa, Caio retrata os desafios e dificuldades do cargo, além de esclarecer as diversas polêmicas em que se envolveu nos dois anos (de 1989 a 1991) que esteve no cargo pela Folha de S. Paulo. O livro traz ainda uma perspectiva da imprensa brasileira e estrangeira, da época.

2003

Cale-se Um retrato sobre o Movimento Estudantil no Brasil, durante Ditadura Militar. A narrativa retrata a morte do estudante Alexandre Vanucchi Lemte, em 1973, e a influência do fato na reorganização e revitalização do Movimento. A morte de Leme resultou também num show clandestino de Gilberto Gil na USP, como forma de denúncia e protesto às prisões de estudantes, torturas e mortes da época. Baseado e depoimentos, a obra traz um panorama da época e retrata a luta de militantes contra a Ditadura.

2009

Ética, jornalismo e nova mídia, uma moral provisória Livro mais recente de Caio Túlio Costa, lançado pela editora Zahar, é baseado em sua tese de Doutorado. O livro traz à tona, de maneira pioneira, aliando arte, filosofia e dramaturgia, discussões sobre ética e o modo de fazer jornalismo. Sem estabelecer verdades absolutas, o autor leva o leitor a uma reflexão aprofundada sobre o modo de fazer jornalismo, os princípios e valores que regem a profissão e a influência das novas mídias neste processo. Uma análise aprofundada sobre o jornalismo atual e seus limites éticos.

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esde a infância na pequena cidade de Alfenas, MG, até o patamar atual, não faltaram mudanças, dificuldades, desafios, polêmicas e conquistas na vida de Caio Túlio Costa. O adolescente de futuro promissor não se tornou um médico, mas, seguindo outros caminhos, hoje também carrega o título de Doutor. A trajetória profissional é marcada por mais elogios do que críticas, mas, no âmbito pessoal, também é admirado pelos amigos: “Quando ele assumiu a direção da Folha e fez a primeira edição da revista da Folha, eu estava na televisão, num momento difícil. Ele falou que iria fazer uma capa comigo e orientou o fotógrafo para tirar uma foto minha – como se fosse uma atriz americana – com a escada, de cima para baixo. A gente se divertiu muito, sempre na base da confiança, sabendo que jamais iríamos prejudicar o outro. Nós temos uma relação de amizade, que se construiu na experiência de uma vida política e do aprendizado do que era o mundo adulto”, diz Silvia Poppovic. Muitas são as recordações citadas pelos amigos e colegas de Caio Túlio, que auxiliam na criação de um conceito sobre este profissional complexo: uma mescla de seriedade ao humor refinado, de exigência com os colegas de trabalho à doçura com os amigos pessoais. Inúmeras são, também, as contribuições e reflexões feitas por ele em todas as áreas em que ingressou. Após ter passado por tantos segmentos dentro da profissão que escolheu, hoje, Caio Túlio sabe mensurar a relevância de todas as suas realizações. Porém, contrariando o senso comum, reconhece a importância de seu trabalho como o primeiro ombudsman do jornalismo brasileiro, mas não o considera sua contribuição mais notável: “O ombudsman é o (cargo) que teve mais destaque, mas fiz outras coisas tão marcantes quanto. A função do ombudsman dá muita visibilidade e, como eu era o primeiro, uma novidade, eu era muito ‘cri-cri’, as pessoas não esquecem”. Atualmente, Caio faz parte de conselhos, como o da Fundação Padre Anchieta, do Transparência Brasil e do Instituto Vladimir Herzog. Também é frequentemente convidado para palestrar sobre mídias sociais, ética ou jornalismo na era digital. Quando reavalia sua trajetória profissional, na tentativa de definir se gostou mais de trabalhar na redação, como empresário ou professor, Caio conclui algo que confirma as impressões reveladas pelos amigos, colegas de trabalho e familiares: “Eu só assumo alguma coisa quando vejo que gosto de fazer aquilo. Então, eu gosto de tudo isso. Como eu vou acabar os meus dias? Provavelmente vai ser escrevendo, estudando e ensinando”.

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Perfil Caio Túlio Costa