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Edição 01 O Tédio Escolar “A educação é um processo social, é desenvolvimento. Não é a preparação para a vida, é a própria vida.” John Dewey A escolaridade tem sido levada como obrigação. Não para menos. Instituições de ensino transmitem com excelência os conhecimentos das ciências, mas também dão suporte à experimentação. O dinamismo entre a teoria e sua aplicação prática lhes é sempre pertinente. A formação do indivíduo como cidadão é o objetivo da educação no contexto global. Na contramão, salvo exceções, muitas escolas, atualmente, têm buscado a transmissão desses conhecimentos, mas de forma mecânica. Logo chegam os operários, diga-se, professores, e a “máquina” é ligada. A matéria-prima é o conteúdo teórico, que cabe ao docente usar de "recheio" nas ainda breves mentes de seus pupilos. E provas. E provas. E provas. E, no último dos anos do ensino básico, isto é, infantil, fundamental e médio, os produtos atualizam-se de estudantes a vestibulandos e a escola preocupa-se em capacitá-los ao vestibular. Mais uma vez, o trabalho com o lado humano mantém-se em segundo plano. Não é esse o cenário da nossa escola. Ferramentas de concentração de conteúdos necessários e estipulados pelo sistema educacional, as instituições de ensino transmitem de forma mais abalizada os conhecimentos científicos e não se limitam ao papel social de estreito alcance. Proporcionam também vivências e experiências de seus alunos. Poucas instituições, não obstante, têm investido na área prática. Não é assim a nossa escola. Os professores são, sem dúvida, uma das partes mais importantes da estrutura de ensino. Transmitem, de forma crítica, os conteúdos. Ademais, seu preparo, somado ao do sistema de ensino, influencia positivamente o relacionamento entre os alunos; facilitam, pois, o acesso ao nível superior. Intrigas, brigas e grupos excludentes são comuns. As instituições escolares tomam, às vezes,

medidas prejudiciais aos alunos; separam os de médias altas em salas direcionadas potencialmente ao vestibular, fazendo do número de vestibulandos aceitos propaganda da instituição. Em outros casos, há professores que comparam diferentes turmas, gerando competições nada saudáveis. Também não é esse o caso de nossa escola. Na nossa escola, denota-se a importância de atividades extras ao conteúdo, além da questão prática. Excelentes exemplos são debates, que só podem ocorrer com estudos coletivos e discussões. Promovem-se integração e crescimento coletivo, intelectual e cultural. É um tipo de laboratório que abrange várias áreas de uma só vez, dependendo da pauta. O aluno cresce como ser pensante e como ser político. Além de atividades extracurriculares, a tecnologia faz-se necessária às metodologias de ensino em século 21. Materiais virtuais como filmes, vídeos, músicas e textos que podem ser obtidos instantaneamente na internet complementam as aulas de forma significativa. Trazem mais informações e auxiliam imensamente a compreensão do conteúdo. Dificilmente, porém, encontram-se instituições que ofereçam esses recursos de boa qualidade. E que não se detenha a melhora do processo educativo! Explorem-se, por isso, as várias áreas de conhecimento e seus laboratórios, seja de física, seja de química, seja de português, etc. Desse último, faz-se grandiosa a atividade que originou este jornal, o Olímpia, criado em 2013, na Escola Henriqueta Vialta Saad, sendo esta sua primeira edição, que consta deste editorial. O Olímpia dá aos alunos a chance de viver a escrita, muito além de aprendê-la tecnicamente. Por meio dele, tem-se a possibilidade de transmitir opiniões e ideias, além de haver leitores, que podem, por sua vez, responder aos artigos, seja em concordância, seja em discordância, através da sessão Carta ao Leitor. O fato é que o Olímpia é real, transcendendo a volátil necessidade de escrever em troca do reconhecimento por notas e da aptidão a fazer a prova do vestibular. Ademais, não se deixe de citar a

interação dos escritores, participantes do jornal. Fazem diversas reuniões; discutem os assuntos dos artigos e informam-se das mais diferentes ideias. Interagem-se uns com os outros. É incalculável a importância de atividades como essa. Além do acúmulo de experiência por si, possibilita aos alunos o conhecimento aprofundado das áreas e, por conseguinte, maior autoconhecimento. As opções para faculdades tornam-se, com isso, mais claras, mais possíveis e mais acessíveis. Dinamiza-se o processo educacional e pondera-se entre a teoria e sua aplicação, contando -se com professores de excelência e metodologias de integração; assim, a formação escolar deve superar-se e romper com sua industrialização. Ademais, a aplicação de um laboratório, como este presente, o Olímpia, só tende a promover o surgimento de muitos outros. E, dessa forma, romper, também, com o tédio escolar. Por Douglas Moraes

Expediente Editorial

Douglas Mattos

Crônica

Manuela Mancilla

Artigo

Fernando Nogueira

Artigo

Glauber Medeiros

Resenha

João Andrade

Artigo

José Victor Gomes

Poema

Lucas Cunha / Douglas Mattos

Orientação

André Campos


Só Frida Kahlo

O país que investia

líder de um movimento que resgatava as raízes mexicanas, tal como a arte indígena e te-

decifrou algumas das leis da natureza. Venceu

mas históricos, buscando, as-

guerras. Andou pelos mares e cortou os ares. A-

sim, uma identidade nacional para à heterogênea sociedade mexicana. Isto com uma pitada

O ser humano, ao longo de sua existência,

tingiu inúmeros feitos. Descobrira o fogo, a eletricidade e a luz, mas Isaac Newton descobriu algo infindável vezes mais importante: a lei da vida. A

de fervor comunista, uma vez

toda ação corresponde uma reação de força igual e sentido oposto. Não isentos dessa lei, os Estados

que Diego acreditava na socie-

Unidos, já há algum tempo, sentem os reflexos de

dade extinta de classes sociais para o país do Taco e

Um grande reflexo disso foi a Bolsa de Valo-

seus atos.

res, que, como uma forte reação aos imensos investimentos americanos, gerou o crash de 29. Ho-

Era junho de 2013. Um avião da Lufthtansa desligava seus motores, no Aeroporto de Guarulhos, carregando a bordo uma passageira bem surrealista: Frida Kahlo. No auge dos seus 107 anos, Dona Rivera não andava, desfilava, coxa como era, em solo tupiniquim para prestigiar uma exposição no MAM (Museu de Arte Moderna) em homenagem a suas obras. Depois da exaustiva viagem México-Brasil, ela seguiu para o modesto Ibis da Paulista - afinal, ostentação não faz parte de vocabulário de uma comunista assumida. A noite iluminava a Capital e, também, iluminava as lembranças tristes da pintora, enquanto planejava seu figurino exótico,

de

inspiração

pré-

colombiana, para o dia da estréia -18 de junho. A recente morte de Diego Rivera – “el gorducho”, as dores na coluna e na perna, causadas por um acidente de ônibus quando jovem – uma barra de ferro atravessou sua pélvis, impossibilitando -a de gerar filhos e de andar normalmente - retornavam constantemente à mente de Kahlo, toda vez que se encontrava sozinha. Ela foi casada duas vezes com Rivera, o pintor muralista,

Mariachi. E, consequentemente, Frida foi influenciada pelo mari-

je, a situação não se encontra muito diferente, u-

do.

poderosos concorrentes no mercado mundial.

ma vez que a tecnologia americana, reagindo a todo o investimento, vem perdendo espaço para

Mas, naquela noite, as

Dessa forma, aplicando grandes investimen-

doloridas lembranças não estavam sozinhas. Estavam acom-

tos em montadoras, os Estados Unidos obtiveram espantosos resultados e dominaram, em seus a-

panhadas dos gritos da multidão de jovens, de adultos e de idosos que bloqueavam a Avenida Paulista, reivindicando não só o aumento de 20 centavos na tarifa do ônibus, mas também as enfermidades brasileiras; sejam elas na política, com a corrupção, sejam elas na economia,com os altíssimos impos-

nos dourados, o mercado automotivo mundial, com as poderosas General Motors, atual dona da Chevrolet, Opel, Cadillac, Buick, Hummer, Pontiac e GMC e Ford, atual dona da Lincon, Mercury, Volvo,

Mazda e Porém, em resposta, a reação

Troller. mundial em

meio à competição capitalista foi a criação de montadoras internacionais, surgindo a Fiat, atual dona da Ferrari, Dodge, Alfa Romeo, Maserati e Lancia; e a VolksWagen, atual dona da Porshe, Bentley, Bugatti, Lamborghini, Scania. Juntas, as 4 ocupam 89% do mercado automotivo internacio-

tos, sejam elas no social, com o preconceito às etnias. E Frida

nal, sendo 28% destinado à Volks, 26%

Kahlo mirou da janela do hotel,

Dessa forma, assim como ocorrido no setor automotivo, hoje os EUA também perdem espaço

para baixo, a rua lotada e efervescente com a energia dos manifestantes. A mesma energia que a contagiou, no início do século XX, contra as similares disparidades no México. E, então, decidiu: iria juntar-se aos revoltosos, em memória de seu Gorducho, e a um país mais justo perante aos seus cidadãos. E lá foi Frida, com sua

à

GM,

16% à Fiat , 12% à Ford e 12% às restantes.

no mercado eletrônico mundial. Grandes empresas como a japonesa Sony, as coreanas LG e Samsung ou a alemã Siemens têm conquistado mercado na economia das poderosas americanas Apple e Black Berry. Agregado à fadiga de suas tecnologias, em 2011, falece o gênio por detrás da poderosa Apple. Steve Jobs deixa seu lar, fazendo com que perca suas forças aos poucos. Com sua tecnologia já ultrapassada, a poderosa Apple se vê acuada em uma carroça, enquanto suas competidoras dirigem poderosas Ferraris e Lamborghinis, como demonstrado na tabela abaixo:

perna coxa e de saia estampada, incontáveis anéis, flores trançadas nos cabelos grisalhos, à rua paulistana. Gritou. Protestou. E percorreu os vários quilômetros da Paulista. Até o momento em que os brutos policiais chegaram.

Assim, a decadência eletrônica americana co-


As veias abertas da América latina

ropeia que descobre a América. Como é que va-

A América latina tem uma trajetória histórica de desigualdade. O mosaico de questões forma a complexidade de sua realidade e abrange temas como identidade, ditadura e liberdade de expressão. Garantir direitos individuais no contexto democrático é o grande desafio da América latina no século XXI. A professora e pesquisadora Fátima Toledo, doutora em História Social pela Universidade de São Paulo fala ao Olímpia sobre o tema em seus aspectos políticos culturais e econômicos.

lores com o individualismo e o liberalismo vão conseguir ser bem sucedidos, num mundo de tradição comunitária? Então muitos dos nossos problemas vêm daí. A América latina é cheia de contrastes. É claro que esses processos são históricos: cada povo constrói sua própria identidade. O México, por exemplo, tem um orgulho enorme da sua cultura, do seu passado. Sem dúvida, tem uma identidade, que mostra claramente o orgulho do ser mexicano. Ser mexicano é ser um revolucionário, que participou da Revo-

Fátima Toledo: Ele não concordaria com a falta de liberdade de expressão. Tenho certeza de que ele seria contra tudo isso. A mídia conhece pouco. Acho que a mídia está preocupada em mostrar apenas uma parte do Che Guevara. Claro, dentro de um contexto ideológico. Olímpia: E dentro desse contexto como você entende a figura do Hugo Chávez para a América latina?

lução Mexicana de 1910 e que mudou a estrutu-

Fátima Toledo:

ra agrária, historicamente injusta no México.

polêmica: há os que adoram e os que odeiam.

Olímpia: A senhora acha que o Brasil ocupa uma posição cultural hegemônica em relação aos outros países da América latina? Por quê? Fátima Toledo: Cultural?! Não, eu não acho. Porque a América latina, se a gente for pensar no seu processo econômico das últimas décadas, vive governos muito semelhantes. Vive governos progressistas com ideário e com projetos político-sociais semelhantes. Neste sentido, eu não acho que o Brasil se destaca. Eu não acho Por Douglas Moraes, Glauber Medeiros, Lu-

que o Brasil seja um país que esteja cultural-

cas Cunha e José Victor.

mente muito à frente da Bolívia ou do Equador,

Olímpia: Qual a importância dos artistas para o

com a imagem dele veiculada pela mídia?

por exemplo.

Hugo Chávez é uma figura

Eu não conheço a Venezuela, mas conheço gente que esteve lá e que ficou muito impressionada realmente com o apoio da população mais pobre ao Chávez e que sentiu que era uma coisa genuína, de fato. Defendo o socialismo as ideias sociais, mas acho complicado também a permanência no poder por parte de alguns políticos. Acho que a gente ainda não conseguiu compatibilizar as ideias sociais com a questão das liberdades de alguma maneira. Fátima Toledo: Esse é o grande lema do século 21. O grande desafio é como resolver a questão social sem ferir direitos e liberdades que foram conquistados. Como é que a gente vai compatibilizar isso sem cair num regime autoritário:

desenvolvimento cultural da América latina?

Olímpia: Ou da Venezuela?

Fátima Toledo: Dos mais importantes da histó-

Fátima Toledo: Ou da Venezuela, exatamente,

mas não fecho os olhos a medidas autoritárias.

ria. Na literatura temos muitos prêmios Nobel.

que soube muito bem cuidar das suas questões

A população tem o direto de votar e tirá-lo do

Borges, que inovou totalmente. Gabriel Garcia

políticas, do seu povo. Que está, de fato, preo-

poder, se for o caso. A ausência de liberdade eu

Marques... São responsáveis pelo gênero da li-

cupada com questões sociais, tentando implan-

condeno em qualquer regime. Em Cuba a au-

teratura que vai levar em conta não só o local,

tar um projeto político-econômico que tenha a

sência de liberdades é complicada: não concor-

mas o universal. Eles têm uma dimensão do u-

ver de fato com a sociedade e não apenas com

do com a Yoani Sánchez, a famosa blogueira de

niversal a partir do local. Se você ler Gabriel

o interesse de alguns grupos. Eu vejo o Brasil

Cuba. Não concordo com o conceito dela de li-

Garcia Marques, você pensa que está lendo só

igual a eles. Não acho que a cultura brasileira é

berdade: que vem da democracia liberal. Um

sobre a Colômbia. Não, ali tem questões univer-

superior ou inferior. Claro que economicamente

dos pilares da democracia liberal é exatamente

sais que eles conseguem transpor pra aquela

há diferenças: olha o tamanho do Brasil. Há

a livre concorrência. E o aspecto econômico é a

cidadezinha de Macondo, perdida na floresta

muita diversidade também. Se a gente for ver

competição. Quando ela fala da liberdade de

amazônica e tratar de questões universais. Isso

um país como o Chile, por exemplo, graças ao

Cuba, ou melhor, quando ela reclama da liber-

é fabuloso! Eu considero os nossos escritores

seu projeto político das últimas décadas, ocupa

dade, ela está reclamando da liberdade dela po-

latino-americanos entre os grandes nomes, real-

uma posição muito importante na América lati-

der comprar o que ela quiser e consumir o que

mente, da literatura mundial. Os escritores fa-

na.

ela quiser. Ela não está falando da liberdade da

zem a ponte da literatura com a história. Tenho muito orgulho de falar que eles são latinoamericanos, embora a gente, às vezes, acha que não tem nada a ver com eles; mas tem tudo a ver: toda uma história semelhante, uma cultura, no sentido de cultura política, de mentalidade, de formação cultural ibérica muito parecida com a nossa. Se fisicamente não temos os mesmos traços, culturalmente temos tudo a ver.

A

modernidade

da

literatura

latino-

americana tem a ver com temas que deveriam ser tratados no Brasil também. Olímpia: Como a senhora vê a questão da iden-

Olímpia: Hoje nós vemos que a questão burocrática no Brasil é complicada: as pesquisas mostram que a média de tempo para se abrir uma empresa no Brasil é de 140 dias, enquanto que, no Chile, em 24 horas. Seria isso uma consequência pós-Pinochet? Fátima Toledo: Olha, o caso do Chile é muito específico, porque, no governo Pinochet, houve experiências do neoliberalismo bem sucedidas. Bem sucedidas não, porque eu não considero o neoliberalismo (risos) exatamente bom, mas que vai atingir seus objetivos neoliberais no final

esse é o grande desafio. Então eu apoio sim,

democracia no sentido clássico, que vai muito além de você ter direito a consumo, de você poder comprar o que quiser e também de você votar nos seus representantes. Vai além disso. A democracia clássica, como tão bem escreve Marilena Chauí, de uma maneira tão clara, é uma sociedade na qual o conflito é legítimo: ela não escamoteia, não esconde as diferenças de classes. Olímpia: Sobre os regimes autoritários, o que a senhora falaria das ditaduras que os países da América latina tiveram?

dos anos 80. Esse segundo milagre econômico

Fátima Toledo: É um período muito triste da

do Chile, como ele é chamado, é um misto de

história da América latina. As décadas de 60 e

Fátima Toledo: o que é ser latino-americano

neoliberalismo com algumas medidas que reme-

de 70 foram um período que, na verdade, pre-

exatamente? É ter uma cultura europeia, impos-

tem ao estado de bem-estar social. Então, é um

parou às décadas seguintes.

ta a uma tradição indígena, pré-hispânica, e no

modelo diferente no Chile, mesmo durante a

caso do Brasil, a africana. Talvez a gente não dê

ditadura das mais tenebrosas que foi a do Pino-

a mesma atenção que os outros povos latino-

chet. Por uns anos, eles adotam uma política

americanos dão a esse tema. De uma maneira

econômica que não desmonta completamente o

geral, essa é uma questão muito importante a

estado. Basta pensar na mineradora de cobre,

ser resolvida. A questão de uma cultura política

que é a maior empresa chilena, estatal.

tidade na América latina?

europeia, por exemplo, implantada num terreno que é indígena, que é de tradições completamente diferentes da tradição greco-romana eu-

Olímpia: Chez Guevara concordaria com regime cubano de Fidel Castro? A senhora concorda

Olímpia: Para o neoliberalismo, a senhora quer dizer? Fátima Toledo: Preparou para o neoliberalismo nas décadas seguintes. Quando a gente estuda as políticas econômicas, dos diferentes períodos - as medidas econômicas da ditadura militar ou ainda antes de 1968, com medidas de governos mais recentes da década de 90 - é impressio-


Diários de motocicleta A abordagem do subcontinente sul-americano deve ser realizada de forma a despertar a consciência das pessoas quanto à identificação com o território em que vivem, rompendo com as rivalidades entre os diferentes países; tendo, em questão, a população nativa, a colonização, a cultura, a composição étnica, os fatores econômicos, além dos aspectos físicos - relevo, hidrografia, vegetação- . O filme "Diários de Motocicleta" consegue retratar de maneira precisa a realidade da América Latina. Baseado em fatos reais, aborda a viagem pela América do Sul, em 1952, de Ernesto Guevara de La Serna - Che Guevara - e seu amigo Alberto Granado. Os dois saem da Argentina com o intuito de percorrer o subcontinente em uma motocicleta. Durante a viagem, Ernesto questiona-se sobre a decisão que tomou: a de aventurar-se pelo continente sul-americano, sem levar sua namorada, a qual deixara na Argentina. Logo depois do final do sétimo mês, a moto de Alberto acaba

Preços e Valores

"As coisas que você possui acabam possuindo você" Clube da Luta. As pessoas estão cada vez mais presas às correntes da sociedade de consumo na qual estão inseridas. Compras desnecessárias se tornam rotineiras e essenciais à manutenção do estilo de vida. Poucos sabem das condições nas quais seus produtos adquiridos são fabricados. Tem-se, por exemplo, roupas de grife e eletrônicos, que são, em inúmeros momentos, produzidos sob condições desumanas de trabalho, que incluem jornadas exorbitantes e salários menos que suficientes à sobrevivência de um ser humano. Ainda assim, o mundo capitalista ensina a agradecer a oportunidade recebida e a não lutar por condições dignas, pois existem desempregados desejando a dura labuta. A vida dos indivíduos é assim consumida junto com seus produtos. ”Nós não podemos deixar que os terroristas atinjam o objetivo de aterrorizar nossa nação até o ponto em que as pessoas não comprem”. Essa frase foi dita pelo ex-presidente estadunidense George Bush e apresentada no documentário Surplus, cujo tema é

quebrando e a dupla deve seguir seu rumo por caminhadas ou por caronas.

nhecendo uma realidade, não pela teoria, mas pela experiência.

Durante o filme, são mostrados os diferentes aspectos socioeconômicos do continente à medida que o estudante de medicina e o bioquímico avançam. Durante a viagem, Ernesto e Alberto deparam-se com diferentes

Se tomarmos pelo lado humano dos viajantes, notamos a angústia do protagonista em diversas cenas, como no momento em que eles conhecem os mineiros que são tratados como números. Lotes. Escravos. Tomado pela vontade de fazer algo, Che arremessa uma pedra contra o carro do convocador, que previamente havia chamado os mineiros a trabalhar como um mestre chama seus cães. Vemos, também, a cena de quando a dupla chega ao rio Amazonas: somos cúmplices da sua necessidade de se unir aos doentes naquela noite especial, ignorando a frígida água que a cercava, provocadora da asma de Alberto.

casos de famílias, com pessoas que têm vida dura e vivem com renda baixa. A realidade gera uma semente de dúvida e angústia em Ernesto, fazendo -lhe ter o sentimento de mudar aquilo que vê. Tanto Che Guevara quanto Alberto Granado convivem com os doentes sem qualquer tipo de discriminação e orgulho. O filme aborda as desigualdades socioeconômicas americanas com olhar crítico de quem está co-

a sociedade de consumo e seus efeitos. Mesmo não sendo devido às ameaças de ataques terroristas, o consumo foi reduzido, para desespero do mundo capitalista. Para evitar uma estagnação ainda maior, governos tiveram que injetar bilhões em companhias– quase US$17 bilhões pelo norteamericano somente na GM- com o objetivo de evitar que declarassem falência, o que causaria desemprego massivo e, consequentemente, a confirmação do temor de Bush. Efeitos do consumismo e do capitalismo em sua busca infindável por lucros são as condições de trabalho a que muitos trabalhadores são submetidos diariamente. A situação é preocupante. Até mesmo grandes marcas, como Le Lis Blanc e Apple, exploram seres humanos às condições análogas à escravidão para obterem maiores lucros. No caso Le Lis Blanc, ocorrido na cidade de São Paulo, no ano de 2013, 28 trabalhadores bolivianos foram resgatados de uma oficina, onde chegavam a trabalhar por 12 horas sem descanso. Além disso, foi caracterizado que houve tráfico de pessoas para fins de exploração de trabalho. Outro caso ocorreu na China, com a empresa Pegatron, fornecedora de peças da Apple. Ela explorava funcionários, que trabalhavam 11 horas - a R$1,50 a cada uma -, por dia e possu-

Podemos afirmar, por conseguinte, que a motivação de um jovem de mudar o mundo veio do próprio lugar onde vivia; de suas próprias crises; dos próprios problemas que foram o que motivaram Che a se tornar o líder que ele um dia foi. De uma maneira geral, o filme conseguiu criar um ambiente pré-guerra fria, bem convincen-

íam sua água disponível para consumo misturada com resíduos industriais. É espantoso o motivo pelo qual pessoas aceitariam essas condições desumanas de trabalho: simplesmente porque, somente na China, o desemprego afeta quase 50 milhões de pessoas - mais que a população do estado de São Paulo- não existindo espaço para reivindicações, pois as empresas possuem à sua disposição uma multidão à procura da labuta. O homem tornouse engrenagem da grande máquina que é o sistema produtivo. Agora, descartável, pode ser trocado facilmente, coisificou-se. Percebe-se que a manutenção do sistema atual é inviável. O ser humano não pode mais viver em um sistema em que a produção industrial é mais importante que seus outros semelhantes. Não pode mais viver em um sistema que tolere e que promova a miséria. Não pode mais viver em um sistema em que a exploração dos trabalhadores beneficie uma pequena elite. Não pode mais viver em um sistema em que tudo favoreça uma pequena elite. Todos fazem parte desse sistema. Entretanto, com pequenas ações, como, por exemplo, não trocar de celular toda vez que um modelo novo é lançado, pode-se melhorar a qualidade de vida de toda humanidade, rumo a um mundo em que o homem seja


Por detrás da inflação O conceito de inflação é recorrente no dia-a-dia mesmo dos estudantes e profissionais de áreas não relacionadas à economia. Popularmente a inflação é referida como o aumento geral de preços, mas também designada pelos economistas como queda do poder de com-

xo). Para se ter uma ideia, a nota cita- são de novas moedas. da, no mercado de câmbio, equivaleria a um mísero dólar americano. O caso foi tão agravante que resultou em praticamente no retorno ao sistema de escambo, no qual saia mais barato fazer uma fogueira com o dinheiro do que ir ao mercado e comprar carvão.

Em outras palavras, as principais formas de ocorrer o aumento de preços estão nas mãos do governo. Governo que, ao emitir novas cédulas, induz os preços dos produtos a aumentar, já que ocorre uma maior circulação de capitais, e consequentemente, uma oferta maior

pra de uma moeda corrente. Varia con-

por

determinados produtos.

Governo

forme a abrangência em que se analisa,

que, ao inflacionar o dólar – enquanto

sendo, respectivamente, em escala na-

essa matéria está sendo escrita, o dólar

cional, dentro de um território pré-

está a R$ 2,38 – promove uma maior

estabelecido. Dada a definição de infla-

exportação frente à importação, já que

ção, existem duas variantes: são hipe-

estrangeiros com menor quantidade em

rinflação e estagflação, esta, menos po-

dólares conseguem comprar mais no

pular, denominada como estagnação na (nota de 100 trilhões de dólares zimba- mercado interno. Governo este que, ao produção e no consumo, e aquela, buanos) diminuir a taxa básica de juros, promoquando a inflação ultrapassa 50% ao mês.

Dadas essas circunstâncias, o índice inflacionário de um país revela como

ve uma fácil obtenção de créditos, por parte dos bancos, já que os bancos pe-

gam emprestado dinheiro para empresHistoricamente o Brasil sofreu di- as coisas andam por lá, pois se a inflaversos períodos de altas de inflação. Ve- ção é considerada fora dos padrões, sig- tarem a alguém, aumentando a produção e consumo massivamente, pois, coja o gráfico abaixo: nifica que algo não vai bem. Prova disso mo facilitador de crédito, estimula o é a própria história: todos os países que consumo. Em fatores nacionais são três durante determinado tempo passaram as formas de ocorrer inflação: Emissão por hiperinflação concomitantemente de Cédulas por parte do Estado, política sua economia e a política não eram das de câmbio e o que chamamos no Brasil melhores. A Hungria, por exemplo, logo de SELIC (Sistema Especial de Liquidaapós a Segunda Guerra Mundial, viu o ção e de Custódia). preço médio dos produtos subirem duas Em virtude disso, aos que instituem vezes por dia. Rússia, com a dissolução da União Soviética, sofreu hiperinflação. o governo brasileiro por práticas neoli(inflação no Brasil entre 1930 e 2005, Peru foi marcado pela má administração berais, devemos ter cautela, pois a polísegundo dados do IBGE) do governo de Alan García, membro do tica econômica e monetária brasileira se Se você, leitor, achar altos os 764% en- partido de centro-esquerda. Bolívia, com baseia nas concepções do livro de John tre os períodos de 1990/1995, veja só o o governo de Víctor Paz Estenssoro. O Maynard Keynes denominado: Teoria que ocorreu na Alemanha logo após a território da Polônia cem anos antes do Geral do Emprego, do juro e da moeda, Primeira Guerra Mundial, em que foi re- Tratado de Versalhes foi dividido entre e por Milton Friedman, o qual, apesar de gistrada uma das maiores inflações se Rússia, Alemanha e Império Austro- defender a regularização da economia posicionando apenas atrás da Hungria, húngaro, sendo assim o Tratado revitali- pelo mercado, é relacionado por Friedrientre os anos de 1914 e 1923. Os pre- zou a Polônia, mas gerou falta de orga- ch Hayek como um monetarista e não

“ a p e n a s ” nização econômica e política; hiperinfla- um neoliberal. Portanto, o mercado bra143.000.000.000.000% (143 trilhões ção. Áustria, pela reestruturação pós- sileiro é conceituado por ele como uma por centos). Mas o que faz com que o- Primeira Guerra Mundial. Grécia, duran- proposta absolutamente adversa às idecorram essas altas? Não é coincidência te a Segunda Guerra Mundial. Argenti- ologias neoliberais. Como demonstrando ç o s

s u b i r a m

que em ambos os casos, Brasil e Alema- na, por conta do congelamento geral de ao longo do texto, fica evidente quem é nha (ver quadro), os países estavam preços, em 1985 e da tentativa de re- o facilitador da inflação, e da má situapassando por fases turbulentas em esfe- forma monetária (Plano Austral). Na Iu- ção vivenciada por determinado país, na

ras políticas e econômicas, pós-ditadura goslávia, cujo governo de Slobodan Mi- qual, através de práticas intervencionismilitar e plena Primeira Guerra Mundial, losevic, principal líder do Partido Socia- tas, o governo desregula a economia. E, lista da Sérvia, inseriu cada vez mais ao tentar respaldá-la, acaba por afundárespectivamente. Transpondo para caso mais recente, a hiperinflação corroeu a economia de Zimbábue, em 2008, chegando a ser lançada, já em 2009, uma nota cujo valor de face era de 100 trilhões de dólares zimbabueanos (veja imagem abai-

moeda na economia, gerando dessa for- la ainda mais. ma uma inflação generalizada a fim de conter os ataques por parte da onda de manifestações por conta da desintegração da Iugoslávia, alcançando em 1993, quase 100% de todo o gasto governamental serem pagos pela simples emis-

Por Glauber Medeiros


CONVITE À POESIA O homem e sua sombra 1 Era um homem com sombra de cachorro que sonhava ter sombra de cavalo mas era um homem com sombra de cachorro e isto de algum modo o incomodava. Por isto aprisionou-a num canil e altas horas da noite enquanto a sombra lhe ladrava sua alma em pêlo galopava. O homem e sua sombra 2 Era um homem que tinha uma sombra branca que de tão branca ninguém a via. Mesmo assim ela o seguia e com ele dialogava. Tinha-se a impressão que uma coisa ausente lhe fazia companhia o duplicava quase seu guia. Na verdade ele era a sombra de sua sombra a parte da sombra que se via.

O sereno da Rosa "Ah, deixai-me dizer-vos Que é preciso que a mulher que ali está como a corola ante o pássaro Seja bela ou tenha pelo menos um rosto que lembre um templo." Vinicius de Moraes Posso provar que te amo? Creio que posso... Se não posso, tento. Com palavras direi nossa história : O meu olho já derramou ,às pétalas de sua corola, o sereno de amor Não só as pétalas sentiram o arder do amor, como o beija-flor Que levou não só o sereno de tal amor, mas também suas palavras afiadas. Simplórias palavras que causaram em mim imensa dor... Porém, antes dessas palavras houve um tempo o qual não havia palavras... Havia apenas o amor dos mais primitivos! Sentia sua alma por meio de sua mão ... Ainda sinto suas mãos entrelaçando os meus dedos em um jogo de sentimentos que vão além da ótica humana. Assim, se transforma e abrange os pensamentos derradeiros da minh'alma, o eterno amor . Depois de sua mão, ainda tento sentir o amor na mão de outras pétalas, mas só você fez meu coração se libertar! Nesse sonho nao sei se choro ou se te glorifico, mas só sei que quero-te mais que minha própria existência! Poema dedicado ao jornal Olímpia.

Os Raimundos desse mundo "Não, meu coração não é maior que o mundo. É muito menor. Nele não cabem nem as minhas dores. Por isso gosto tanto de me contar. Por isso me dispo, por isso me grito, por isso freqüento os jornais, me exponho cruamente nas livrarias: preciso de todos.” Mundo grande - Carlos Drummond de Andrade Se Drummond diminui-se pelo mundo, quem sou eu para não fazê-lo? Pensando bem, até poderia Mas não, não consigo. Gosto tanto de me contar, preciso de todos, ah!, preciso Mas não sei se é o mundo menos vasto que meu coração Ou se é o interesse de meu coração pelo mundo, ínfimo. Se as dores do meu peito apenas ponho As da humanidade maiores me causam Assim sendo não sou eu o produto de uma somatória infinita? E não é o infinito maior que o mundo? Se escrevo de mim, ora choro, ora rio Se escrevo do mundo, apenas choro Não é enfim, o fim da humanidade? A que devo satisfação por me preocupar? O coração-mente é mais vasto que o mundo Universo total dentro do próprio Universo Mas sendo o Universo portador de tantos cuore-mentes Não seria ele maior que todos os universos, pois todos esses suporta? Caminho no mundo sem dono Dono do mundo que a mim coube criar Caminham em meu mundo paradoxos Sentimentos de mundo, que no mundo não sabem andar. Engatinho por entre minhas linhas

Jornal olímpia saad 31 10