Page 1

1


O caso Investigar o desaparecimento de trĂŞs pessoas, em uma casa assombrada. NĂŁo existe nenhuma pista, ou testemunha.

2


Agentes envolvidos Miguel dos Anjos Vulgo: Spectrum-Ex Classificação: Cavaleiro da ordem da luz Habilidades: Espadachim e pistoleiro que possui o dom da revelação. Michel Almeida Vulgo: Machine Classificação: Armeiro Habilidades: Engenheiro e hacker Excalibur Vulgo: Excalibur Classificação: Curandeira

3


Diário do Cavaleiro Parte I Aconteceu numa tarde. Felipe e Fernanda foram finalmente conhecer a casinha do interior que apenas pelas fotos da internet tinham visto. A mãe de Fernanda chorou. - Que isso mãe... Já falei com o Felipe, vamos fazer um puxadinho e a senhora logo vem morar com a gente... Existem dons especiais nesse mundo que os céus reservam somente para as mães. Infelizmente costumamos não lhes dar importância quando nos dizem que seu coração está com um certo aperto. Aquele abraço apertado, daqueles bons demais de sentir, foi o último. - Dona Rosário... Estamos fazendo de tudo pra encontrar sua filha e seu genro. Nunca vimos algo assim... Até o corretor sumiu. Não existe uma pista sequer... Depois de meses, todos desistiram e tentaram fazer Dona Rosário seguir o mesmo caminho. - Criei minha filha sozinha... Varrendo chão... Limpando privada... Falando em privada... Vão à merda... Eu não vou desistir... E Dona Rosário continuou. Sempre continuava. Continuou quando amou e perdeu. Afinal tinha aquela inocente. A coisa mais linda que ele já tinha visto. Era um anjinho do céu. O mais bonito que tinha lá. Se o outro não conseguia enxergar isso? Que fosse embora mesmo? Não chorou quando o canalha fez as malas. Não implorou pra que ele ficasse. Não na frente dele... Foi só quando a porta bateu, que os joelhos foram parar no chão. Tapou a boca pro outro não ouvir o grito que veio da alma. Tantas promessas... Sentia-se uma otária... Acreditou mesmo que as estrelas do céu seriam suas... Que seria pra todo sempre e mais um pouco... O choro do anjinho parou seu próprio choro. Rapidamente ficou de pé. Secou as lágrimas. Pegou seu anjinho no colo. Sua filha. Seu verdadeiro amor. Cantou pra ela dormir. Cantava todas as noites. Era moça nova ainda. Se quisesse, bastava o decote e o batom, e muitos se jogariam a seus pés. Podia até estudar, virar doutora. Não precisava de nada disso. Não fez falta. Tinha aqueles pacinhos correndo em sua direção. Tinha os desenhos de coração, escrito errado: “mama eu ti amo”. Tinha todas guardadas. Não importava que ela não tivesse estudo, que falava errado, que se vestia mal, em casa ela era sempre a mulher-maravilha. Quem disse que rebeldia e adolescência andam juntas? Quem diz, nunca visitou o quinto barraco da rua sem nome. Se o tivesse feito teria visto duas guerreiras, lutando lado a lado, inseparáveis. Uma começava uma frase, a outra terminava. Fernanda sabia o real custo de cada livro no qual deitava os olhos para estudar. Quase foi expulsa da faculdade quando esfregou a cara da professora que disse pra sua mãe usar o outro elevador no chão. Dona Rosário viu cada segundo de sua existência valer a pena na festa de formatura, e na homenagem que recebeu de sua filha e dos colegas. A faxineira que criará uma doutora, que salvaria muitas vidas. Somos tão tolos, que quando fazemos nossos filmes, nossos livros, nossas histórias, Donas Rosário são sempre os personagens menos importantes, o retrato de que a vida de alguém não deu certo. Quantas fortunas foram criadas por filhos de pais pobres, mas que ensinaram o valor da integridade, quantas obras literárias de sucesso foram escritas por filhos de analfabetos, mas que ensinaram o valor da dedicação. Podemos não ter dinheiro para dar aos nossos filhos, mas se dermos a eles todo nosso amor, eles terão mais e chegarão mais longe do que a maioria que possui milhões. É verdadeiramente 4


uma pena que quem só tem amor para oferecer as pessoas, é completamente invisível, fracassado... Mesmo nós Cavaleiros da Ordem da Luz, nos esquecemos da importância dos mais simples. Vocês me chamam com urgência pra exorcizar mansões e casinhas de vilarejo são deixadas de lado. Por serem deixadas de lado, acabam vitimando muito mais inocentes. Inocentes que sequer são registrados... Punam-me se quiserem. O governador que se mude... Que ponha fogo naquela bosta... O casarão dele vai ficar pra depois que eu resolver o caso da Dona Rosário. Não tenho intenção de afrontar nenhum dos meus superiores, mas alguém tem que ajudar aquela senhora. Volto a repetir, não tenho intenção de ser rebelde, só quero ajudar aquela senhora. Vai ficar muito mais fácil se vocês estiverem do meu lado. Devolverei todo o equipamento que estou levando sem permissão e aceitarei humildemente todas as consequências dos meus atos, porém, só depois que tiver realizado a missão que vocês não autorizaram, mas que meu coração exige que eu cumpra...

Parte II Cheguei ao local dos fatos já era alta madrugada. Havia um sussurro no vento. Um lamento. Baixo. Quase impossível de se ouvir. Porém a cada passo em direção a casa, o lamento aumentava. Ao chegar à porta de entrada, o som era tão atormentador que fazia o coração acelerar a ponto de quase explodir. Cada parte do meu corpo gritava “Vá embora, desgraçado!!! Vá embora!!!”. Meus músculos paralisaram... Eu só tinha que girar a maçaneta... Apenas isso... Não conseguia... Em todas as minhas missões anteriores, eu tinha meus amigos, minha equipe de apoio, ali eu estava por minha conta, ninguém ia me salvar no último segundo. Ouvi Alexia, a vampira espachim que me treinou, rir da minha cara. - Sabe qual é a grande ironia das batalhas, moleque? Quem tem medo de morrer, se ferra primeiro, quem ergue a espada pro adversário e parte pra cima, tem mais chances de viver. Esqueça a porra da sua vida, cai dentro!!! Seu moleque!!! Você nunca vai ser um cavaleiro, e nem merda nenhuma... Ela repetia muito isso. Sempre quando eu estava todo arrebentado e sangrando. Todas às vezes ela me encarava como estivesse louca pra rasgar minha garganta. - Seja homem! Você é um cavaleiro exorcista, não é? Digo a mim mesmo e meto o pé na porta. - Hora da festa!!! A casa vai cair, suas assombrações de merda!!! Silêncio... A casa estava adormecida, ao menos parecia estar. Era como se o mal que ali um dia reinou tivesse partido, deixando para trás apenas um punhado de sombras cheias de peças pregadas pela imaginação. Era mentira. Eu podia sentir. Adentrei a escuridão da casa. Cada um dos meus sentidos estava em alerta. O mal estava lá. Eu sabia que estava. Iria achá-lo. Confrontá-lo. Derrotá-lo. Fazê-lo pagar a qualquer custo. Bastou um pensamento e a pedra de topázio azul do meu anel começou a brilhar. Usando-o como lanterna, comecei minha investigação, como a cômodo. - Vamos... Cadê você? Vem brigar comigo desgraçado... Nada. Olhei cada canto mais de uma vez. Seria possível? Não desisti. Ia fazer a coisa, fosse o que fosse se manifestar. Sabe, segundo meus companheiros, meu maior dom, é 5


ser irritante. - Tudo bem? Você não quer mesmo papo comigo... Covarde... Seu negócio é enfrentar gente que não pode se defender... Vou deixar uma lembrança pra você antes de ir... Coloquei “little king” pra fora e fiz xixi numa parede. - Até daqui a pouco, babaca... Vou voltar com dois galões de gasolina... Seu cafofinho de merda vai virar uma fogueira... Trouxa... Olha... Essa estratégia nunca falha. Ouço uma risada de criança. Passos. Olho para trás. Vejo uma boneca de porcelana. Vestido branco, chapéu rosa, cabelos loiros, olhos azuis, sorriso doce, era um brinquedo até que muito bonito. - Você tem que fugir... Uma voz infantil chama atenção trás de mim, me fazendo momentaneamente tirar os olhos da boneca. Foi um grande erro, como num desses jogos cheios de “jump scare”, a boneca se transformou em uma mulher adulta, morta-viva. Agarra-me pelo pescoço com as duas mãos, cheia de vontade. Suspende-me como se eu fosse de papel e chacoalha. Meu anel entra em ação. Uma luz branca envolve meu corpo. A coisa leva um choque e me solta. Não demora muito, estou vestindo minha armadura e empunhando minhas “sword-pistols”. Puxo o gatilho sem dó. Meus lasers transformam a entidade numa peneira. Penso que ela vai cair, me permitindo finalizar a noite, mas ai a infeliz faz algo tão desesperado quanto inesperado. Ela arranca o próprio braço esquerdo e usa como porrete, me acertando bem na cara, enquanto ri como se tivesse acabado de ouvir a melhor piada da face da terra. Tanto fantasma por ai... Pego logo um que sabe brigar. Depois de me atingir várias vezes, numa velocidade descomunal, minha inimiga salta e chuta com tanta força que atravesso a parede (eu sempre acabo atravessando as paredes, nunca uma janela, sempre a bosta de uma parede). Não posso ficar apanhando de graça, disparo meus lasers mais uma vez. Erro todos os tiros. E tome mais pancada do braço-porrete que a vaca improvisou. Fica claro que no tiro não vai rolar. - Sword Mode... Converto a pistola em espada laser e viro o jogo. Consigo fazer vários cortes na fantasma e decepo o outro braço. Não resisto e aplico nela o meu chute especial, só pra fazer a bichinha atravessar parede também (que sensação boa). Durona, ela tenta se levantar, converto minha espada em pistola e detono seus dois joelhos. - Vamos lá, coisinha feia de papai, cadê as pessoas que entraram aqui? O que você fez com elas? - Graaaarrrhhh... - Menina... Você precisa de um caminhão de bala de menta... A entidade escancara a boca anormalmente, emanando uma névoa escura. Uma tentativa de fuga. - Espectrum Eye... Ativo o visor especial do meu elmo. Vejo um portal para o outro mundo. Um tipo de baú antigo. Tampa aberta. Emitindo uma luz estranha. - Volta aqui! Mal educada... Você não respondeu minha pergunta... Corro e me jogo na luz. Acabo resolvendo o mistério sem querer. Estou no mundo sombrio. Através do nevoeiro do mundo dos mortos, vejo as pessoas desaparecidas grudadas nas paredes. Um grupo de mortos está sugando suas energias vitais como vampiros. A coisa com a qual lutei está no chão. Seu corpo começa a convulsionar. Os mortos que devoravam os três viventes, berram. Luzes saem de seus olhos e bocas. Os braços de 6


minha inimiga se regeneram. Seu corpo fica mais forte, maior. Ela se torna um tipo de ogro enorme. Os mortos se tornam bonecos e bonecas. - Tolo! Você entrou no meu reino... Sou muito mais forte aqui. Meus escravos vão arrancar sua armadura, depois vou rasgar sua carne bem devagar... Estou cercado por bonecos demoníacos. - Há, há, há... Você pensa que me assusta? Vou levar essas pessoas de volta pra casa, mesmo que custe a minha vida e tem mais... Sou eu quem quer rasgar sua carne, vagabunda... Nunca mais você vai fazer a mãe de ninguém chorar... Se prepare... MEU NOME É SPECTRUM-EX E VOU BANIR VOCÊ DESSE MUNDO!!! Converto minhas pistolas em espadas e parto pra cima com tudo. As chances de vitória são mínimas. Estou todo dolorido. Minha armadura tem um limite, estou quase sem energia. A grande maioria nesse tipo de situação recua... Eu prefiro pirar e lutar com tudo que tenho pra tentar virar o jogo. As porcarias dos bonecos estão armados com facas. A armadura não permite que eles me cortem, porém é como levar várias chicotadas ao mesmo tempo. Estou tão cheio de adrenalina, que os ignoro. Eu quero a monstrenga que manda no barraco. Ignoro até mesmo quando ela me esmurra, causando rachaduras na armadura. Eu apenas golpeio. Se ela cair, a distorção dimensional vai se desfazer, os prisioneiros dela vão ser libertados. Minha morte vai ter valido a pena... Não sei dizer por quanto tempo a luta se estende. A maioria dos bonecos está no chão, aos pedaços. Os que ainda estão inteiros não querem mais se aproximar. A chefona e eu estamos nos batendo como feras selvagens totalmente insanas. Meu sangue jorra pelas rachaduras da armadura. O demônio que estou enfrentando não está melhor. Pedaços seus voam pelo ar. Posso estar morrendo, mas o bicho vai comigo. Minha vista começa a querer escurecer. Luto até contra isso. Cortar meu inimigo em pedaços é meu único foco. Sou a única esperança das pessoas a quem vim salvar, falhar está fora de questão... - Onde nós estamos? Finalmente a magia do demônio começa a enfraquecer. - Não fiquem parados, corram para aquela luz! Agora!!! Sem pensar duas vezes, os três inocentes fogem. O demônio salta em direção a eles. - Aarghhhh... Aproveito a oportunidade pra cravar minhas espadas nas costas do tinhoso. - Trouxa... Você se esqueceu de mim... Eu ganhei... Puxo minhas espadas pra cima com toda minha força, partindo o demônio ao meio. Os inocentes fogem. O portal começa a se fechar. Não tenho forças pra correr até ele. Os escravos do demônio emitem um urro estranho, lamentando seu mestre. Vão querer vingança. Não tenho forças para enfrentá-los. Estou com medo de morrer. Quem diria. Mesmo assim, estou feliz. Dona Rosário não vai mais chorar por causa da filha. Fecho os olhos e abraço meu destino. Ouço disparos de uma arma laser. Tenho a impressão de ver meu amigo Machine, armado até os dentes e Cali empunhando uma espada. Penso ter ficado louco. As luzes se apagam por um segundo. Quando volto à luz estou todo enfaixado, no hospital da ordem. Machine e Cali estão comigo. - Você sabe o que é a porra de um escudeiro?! Machine grita. Nunca tinha visto ele nervoso. - Seu merda!!! Ele sai batendo a porta. Cali me encara. Séria. Rosto vermelho. - A ordem entendeu seus motivos. Além do que, você matou um demônio muito podero7


so. Você não vai ser punido. Nunca mais faça isso... - E a dona Rosário? - Bem, muito bem! Está feliz por ter a filha de volta... - Não é suficiente... - Como assim, cavaleiro? - Preciso falar com o Machine... Levanto-me da cama do jeito que dá. - Calma cavaleiro... Topo com machine no corredor. Ele me fala uns palavrões. Então explico uma coisa pra ele e peço um favor. Dias depois estou na sala do governo. - Meu amigo, veio até que pra se desculpar pessoalmente. Não precisava. Eu faria o mesmo que você. Fora que não tinha nenhum fantasma lá no meu casarão. Foi só a porra de um cano. Você acredita? Ando muito nervoso... Ano de eleição... Sabe como é? - Sei sim. E eu queria te pedir um favor. - Não estou entendendo... - Você sabia que a ordem tem um seguro? Se o cavaleiro arrebentar a casa do cidadão na hora da treta com o mal, a ordem paga tudo... Só nas suas propriedades foram quatro ações... - Seu merda, o que você quer... Veio me chantagear... Esmurro a cara dele, que fica de joelhos no chão. Os seguranças entram rapidamente na sala e vão todos para o chão também. Eu nem chego a suar. O governador pega uma arma aponta pra mim. Eu olho pra ele com cara de louco. - É o seguinte. A dona Rosário, possivelmente sua eleitora, precisa de uma casa descente pra morar e toda ajuda que você puder dar. Você pode até usar isso na sua campanha. Como sou um cara legal tá aqui a relação das suas “casas assombradas”... Pode sumir com tudo... Só mais uma coisa, dá próxima vez que você chamar a ordem por causa de um cano estourado... Vou expulsar você desse mundo... - Moleque!!! Você sabe com quem está falando? Desarmo o imbecil, fazendo questão de quebrar o braço dele. - Eu não ligo pra você... Nem preciso fazer nada contigo... Seus amiguinhos corruptos rodaram e vão te delatar... Vão jogar tudo nas suas costas... E se você acha que não está muito ferrado, tá vendo aquele segurança ali... Pagaram pra ele te matar... Você ajuda a dona Rosário e eu te ajudo a sumir, esse é o trato. Agora vai se ferrar, seu corrupto de merda... Dou um último murro no babaca antes de ir embora... Fim da missão

Jeremias Alves Pires 15/04/18

8


Jeremias Alves Pires 9


HORRORIZANDO

10


11


12

Diário de caça volume 2  

Mais uma aventura do cavaleiro exorcista, Espctrum-EX. Dessa vez ele precisa investigar o desaparecimento de três pessoas, sem que haja qual...

Diário de caça volume 2  

Mais uma aventura do cavaleiro exorcista, Espctrum-EX. Dessa vez ele precisa investigar o desaparecimento de três pessoas, sem que haja qual...

Advertisement