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O padrão errado Jennyfer Siqueira A cada final de semana, salões de beleza e lojas de cosméticos lotam em Porto Alegre com mulheres em busca de bem-estar e autoestima. Nesses espaços, não raro, muitas se deparam com a imposição de um modelo importado. Seja nas capas de revista, nas peças publicitárias ou nos rótulos de produtos de beleza, o padrão europeu prevalece em um pais predominantemente negro e longe do arquétipo ideal. O modelo de mulher magra, alta, de cabelos lisos e loiros que está na lista de desejos contrasta com a realidade da população. Segundo a última pesquisa realizada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), de 2015, as mulheres, em números absolutos, representam 52,7% das mulheres brasileiras se declaram pretas e pardas. Para satisfazer esse público, metros e metros de prateleiras lotadas com produtos de tinturas a químicos estão disponíveis em lojas espalhadas pelo centro da cidade. O mercado da beleza coloca as brasileiras no ranking das maiores consumidoras de serviços, procedimentos e produtos de beleza segundo os relatórios da Associação Brasileira da Indústria de Higiene Pessoal, Perfumaria e Cosmético (ABIHPEC) e a Sociedade Internacional de Cirurgia Plástica Estética (ISAP). A antropóloga e doutora em antropologia Ana Luiza Carvalho da Rocha analisa os critérios corporais e a moda como discriminantes. Para ela, ambos constroem um corpo que não existe para a mulher brasileira. Para ela, ambos constroem um corpo que não existe para a mulher brasileira. “É uma mulher adolescente que não tem peito, não tem bunda, não tem cintura”, analisa. O contraste entre os modelos ideais e a realidade da população estão reproduzidas na insatisfação de seus corpos. A psicóloga Ana Maria Bercht ressalta que as características da identidade feminina são apresentadas para as meninas na infância, ensinando modelos de certo e errado que serão reforçados e internalizados com o tempo. “Quando os estereótipos de gênero fazem parte do nosso dia a dia, é comum que moldem nossas crenças, como nos movemos no mundo e como enxergamos e lidamos com nós mesmas”, esclarece. Essa construção ocorre por um conjunto de fatores, explicam as especialistas. Para compreender como o gênero de determinado país ou região funciona é preciso ponderar contexto, cultura, sistema de valores, crenças, emoções e raízes históricas. No caso do Brasil, a antropóloga analisa que apesar da participação cada vez maior da mulher na sociedade, ela ainda é vista mais como objeto do que sujeito. Elas concordam que a construção de belo se difere entre mulheres negras e brancas. Apesar de ambas enfrentarem as dificuldades do gênero, as mulheres negras lidam com raízes históricas colocados em seus corpos e falta de representatividade. A psicóloga reforça que a invisibilidade e a internalização da opressão racial produzem marcas tanto físicas (alterações corporais) quanto psicológicas, chegando a atingir a autoestima da mulher negra de forma inimaginável. A psicóloga e coordenadora executiva da Associação Cultural de Mulheres Negras (ACMUN) Simone Cruz além da baixa autoestima, a depressão pode causar prejuízos sociais podendo chegar ao desemprego ou dificuldade com relacionamentos pessoais.


Desde 2004, no entanto, o número de pessoas que se autodeclaram pretas e pardas nas pesquisas do IBGE cresce gradativamente. O principal motivo, segundo as fontes ouvidas na reportagem, é o fortalecimento do movimento negro, que atua na mudança dos padrões culturais estabelecidos A jornalista e coordenadora do Coletivo Afro Juventude Hamburguense, em Novo Hamburgo, Andressa Lima relata que por anos alisou o cabelo. Durante a transição capilar usou megahair, e quando assumiu o cabelo crespo natural, não encontrou, num primeiro momento, o mesmo apoio e elogios de quando tinha os outros padrões estéticos. “A sociedade é muito cruel para quem não está dentro das regras”, relata. A falta de representatividade nos grandes veículos de comunicação foi identificada pelas jornalistas Thaís Silveira e Renata Lopes, criadoras da Revista Pretas, lançada em agosto deste ano. O objetivo da dupla é impactar e provocar positivamente. “Lutamos por esse protagonismo das mulheres negras como algo que deve ser visto e deve ser aceitado”, diz Thais. Como comunicadoras, as jornalistas sentem falta da representatividade. Ela ainda aponta que, além da Pretas, a Revista Raça é a única nas bancas com pautas que contemplam o protagonismo negro. Para Simone, o movimento negro e a mídia são fundamentais para a desconstrução da imagem estereotipada e negativa da mulher negra. Nesse cenário, iniciativas como das jornalistas são exemplos para o fim dos estereótipos ainda presentes no Brasil.

O padrão errado  

Texto publicado na 10 ed. do Jornal Unipautas produto da disciplina Escola de Reportagem III: Impresso. A publicação foi ministrada por Fran...

O padrão errado  

Texto publicado na 10 ed. do Jornal Unipautas produto da disciplina Escola de Reportagem III: Impresso. A publicação foi ministrada por Fran...

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