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revista cólera sárias, como as do Código Processual, do Código Penal, das polícias e uma maior eficiência policial. O Estatuto, pelo menos, provocou a estagnação, mas faltam muitas coisas por parte do Poder Público para podermos reduzir esse tipo de morte”, afirmou o sociólogo em entrevista à Agência Brasil. Ele defende ainda que uma legislação mais liberal poderia resultar no crescimento exponencial do número de mortes. “Todos os especialistas e aqueles que não têm comprometimento com a indústria do armamento, que financiou a campanha de muitos parlamentares, têm convicção de que estimular o armamento da população irá resultar em uma chacina em nível nacional. Vai explodir o número de homicídios no Brasil”, defendeu. José Luiz Ratton, sociólogo e idealizador do programa estadual de segurança pública “Pacto pela Vida” em Pernambuco, também defende a integração de iniciativas como uma saída possível. “A gente sabe que a violência é um fenômeno muito complexo, multicausal. Para controlar e reduzir a violência nós temos que combinar e articular um conjunto de estratégias em vários níveis, com a participação da sociedade, sob coordenação do Estado”, afirma o especialista. “A maior parte das pesquisas no mundo todo indica que o estabelecimento de controles bastante rigorosos sobre pos-

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REPORTAGEM se, porte e venda de armas de fogo é uma das formas mais importantes e eficientes para reduzir a letalidade criminal”, continua. Para Salesio Nuhs, presidente da Associação Nacional de Armas e Munições (ANIAM) e da Forja Taurus, uma das maiores fabricantes de armas do mundo, a proibição fere o direito individual à autodefesa. Em um documentário produzido pela TV Futura, intitulado “Armados”, ele declara que, caso o cidadão considere que não está bem protegido pela segurança pública, ele tem o direito de buscar uma forma de se proteger. Discurso semelhante foi proferido pelo deputado federal Eduardo Bolsonaro ao comentar através das redes sociais a tragédia ocorrida em Suzano. “Armas não servem só para matar, servem para defender. Quem é do meio policial sabe, e eu já passei por uma situação dessa, que você exibindo uma arma de fogo você evita um roubo ou algo pior, até uma morte, só que isso não é registrado em lugar nenhum”, escreveu. O parlamentar foi acompanhado por seu irmão, o senador Flávio Bolsonaro, que fez uso do momento para criticar a legislação vigente. “Meus sentimentos a todos os familiares das vítimas covardemente assassinadas no colégio em Suzano. Mais uma tragédia protagonizada por menor de idade e que atesta o fracasso do malfadado Estatuto

do Desarmamento, ainda em vigor”, declarou via Twitter. Ainda que distante de um entendimento comum entre as partes opostas, o governo Bolsonaro não dá indícios de que irá arrefecer o debate nos próximos anos, visto que o tema foi um de seus carros-chefe no período eleitoral. Mesmo no Congresso Nacional, o cenário não pretende ser dos mais tranquilos, e quaisquer possíveis mudanças devem encarar barreiras. A Frente Parlamentar da Segurança Pública, conhecida também como “Bancada da Bala”, formada por parlamentares ligados à indústria armamentista ou favoráveis à liberação das armas, possui grande poder de influência, mas vai precisar enfrentar opositores como o presidente da Câmara dos Deputados, Rodrigo Maia, que foi incisivo ao comentar a tragédia de Suzano no plenário, deixando claro seu posicionamento. “O que eu espero é que alguns não defendam que, se os professores estivessem armados, teriam resolvido o problema. Pelo amor de Deus. Espero que as pessoas pensem um pouquinho primeiro nas vítimas dessa tragédia e depois compreendam que o monopólio da segurança pública é do Estado. Não é responsabilidade do cidadão. Se o Estado não está dando segurança é responsabilidade do gestor público da área de segurança”, afirmou pouco an-

tes de encerrar a sessão no dia do ataque, em homenagem às vítimas.

histórico da legislação armamentista no brasil 1603 Ordenação e Leis do Reino de Portugal

1831 Código Criminal do Império do Brasil de Portugal

1890 Brasil República: restrição a autoridades

1934 e 1941 Período Vargas: exército controla fabricação e comércio

1997 Fernando Henrique Cardoso cria o Sistema Nacional de Armas (SINARM)

2003 Governo Lula - Estatuto do Desarmamento

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Revista Cólera  

A revista Cólera foi produzia no primeiro semestre de 2019 por alunos do curso de comunicação social - Jornalismo da Universidade Federal de...

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