Page 21

revista cólera apresentado e a situação atual do terreno. Ou seja, seria a megalomania do Novo Recife em oposição ao completo descaso com a área. Esse discurso conquistou uma parcela importante da opinião pública, especialmente das classes mais pobres, que foi induzida a apoiar um projeto em que não seria contemplada pelo fato de desejar uma mudança na realidade do local, tornando-o mais habitável. Mas o projeto Novo Recife, em contraste com o seu próprio nome, representa um formato de cidade elitista e ultrapassado, fruto de uma velha maneira de se pensar a relação entre o público e o privado no topo da pirâmide social. “O urbanista do Recife é o capital”, diz a frase estampada em um muro da Avenida Rosa e Silva, zona norte da cidade, em protesto contra a retirada de uma ciclofaixa na via. Em 2012, segundo informações do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), a campanha do prefeito eleito Geraldo Júlio recebeu doação de meio milhão de reais da Moura Dubeux de forma oculta, ou seja, quando o dinheiro é depositado indiretamente para o candidato através da direção do partido. Os cofres ainda foram engordados com outras doações generosas de construtoras como OAS (500 mil), Queiroz Galvão (300 mil) e Cinkel (50 mil). E o cenário se repete a nível nacional.

40

opinião Segundo os mesmos dados do TSE, mais da metade de todas as doações direcionadas aos partidos políticos naquele ano foram bancadas por empresas de engenharia, incorporadoras ou construtoras. Em organizações regidas sob a lógica capitalista de maximização do lucro, todo investimento pressupõe um retorno compatível. Basta ligar os pontos. As mesmas empreiteiras que doam para as campanhas posteriormente conseguem aprovar projetos imobiliários sem grandes obstáculos burocráticos. Dessa forma, fica difícil rebater a ideia de que o ordenamento urbanístico do Recife é, de fato, orquestrado pelo capital imobiliário, como a inscrição na parede nos convoca a refletir. A grande questão de se ter um planejamento urbano aplicado por esse pequeno grupo de empresas é que apenas uma parcela muito bem definida e reduzida da sociedade é privilegiada por ele, em detrimento de todo o restante da população. Muros cada vez mais altos nos imóveis, com sofisticados sistemas de segurança, que dialogam muito pouco com o mundo externo; ruas, avenidas, viadutos e pontes projetados exclusivamente para veículos; praças, parques e outros espaços de convivência perdendo cada vez mais espaço nas cidades são alguns do fatores que tornam a vivência urbana hostil para quem não se enquadra no alto padrão econômico-social que é tido como

base para esses empreendimentos. A cartilha do programa Pacto pela Vida do Recife, uma iniciativa criada em 2013 pelo governo municipal, inspirada no projeto homônimo de segurança pública existente a nível estadual, traz um tópico em que define o que seriam espaços urbanos seguros. Para os gestores, “a concepção de espaços urbanos seguros se expressa no entendimento de que as configurações espaciais de uma cidade podem contribuir para reduzir o número de delitos em determinadas localidades. Vigilância não tem a ver só com a presença física de agentes públicos, mas com a existência de cidadãos engajados na conservação e valorização dos espaços de convivência e interação”. Mas casos como o do Estelita comprovam que a teoria ainda está longe de alcançar a prática. Algo diferente do que ocorreu em lugares como Medellín, onde a gestão tomou para si a responsabilidade de aplicar mudanças concretas. Conhecida pelos altos índices de violência alcançados na década de 1990, a cidade colombiana conseguiu reverter o quadro a partir do conceito de Projeto Urbano Integral (PUI), em que diversos aspectos foram levados em consideração para conter a criminalidade. Construção de parques e bibliotecas, centros de saúde, escadas rolantes urbanas e um forte investimento no siste-

ma de transporte público a partir de teleféricos foram algumas das soluções encontradas. Aliado a isso, instrumentos como o Plano de Ordenamento Territorial (POT) e o Plano Diretor de Zonas Verdes contribuíram para reduzir os desgastes no meio ambiente. Mas transformações como a ocorrida em Medellín não acontecem do dia para a noite, dependem da vontade política dos governantes para enfrentar o forte lobby do empresariado. Resta saber quando a sociedade civil no Brasil terá condições de se organizar para pressionar os gestores a fazerem valer os direitos da maioria, pois a julgar pelas relações estabelecidas nas campanhas eleitorais, dificilmente o embate virá de forma espontânea.

O processo de reurbanização da cidade de Medellín, na Colômbia, é tido como referência mundial Foto: EMBARQ Brasil

41

Profile for Jennifer Thalis

Revista Cólera  

A revista Cólera foi produzia no primeiro semestre de 2019 por alunos do curso de comunicação social - Jornalismo da Universidade Federal de...

Revista Cólera  

A revista Cólera foi produzia no primeiro semestre de 2019 por alunos do curso de comunicação social - Jornalismo da Universidade Federal de...

Advertisement