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"Medo e Resiliência em Infância”

Álvaro Madeiro Leite Universidade Federal do Ceará


INFÂNCIA de Graciliano Ramos dialogando com nossas próprias infâncias Álvaro Madeiro Leite Universidade Federal do Ceará


INFÂNCIA • A primeira coisa que guardei na memória foi um vaso de louça vidrada, cheio de pitombas, escondido atrás de uma porta. Ignoro onde o vi, quando o vi, e se uma parte do caso remoto não desaguasse noutro posterior, julgá-lo-ia sonho. Talvez nem me recorde bem do vaso: é possível que a imagem, brilhante e esguia, permaneça por eu a ter comunicado a pessoas que a confirmaram. Assim, não conservo a lembrança de uma alfaia esquisita, mas a reprodução dela, corroborada por indivíduos que lhe fixaram o conteúdo e a forma. De qualquer modo a aparição deve ter sido real. Inculcaram-me nesse tempo a noção de pitombas — e as pitombas me serviram para designar todos os objetos esféricos. Depois me explicaram que a generalização era um erro, e isto me perturbou.


Erros da mente [...] Inculcaram-me nesse tempo a noção de pitombas — e as pitombas me serviram para designar todos os objetos esféricos. Depois me explicaram que a generalização era um erro, e isto me perturbou. Edgar Morin [Os sete saberes necessários à educação do futuro] Nenhum dispositivo cerebral permite distinguir a alucinação da percepção, o sonho da vigília, o imaginário do real, o subjetivo, do objetivo.


Erros mentais

A importância da fantasia e do imaginário no ser humano é inimaginável; dado que as vias de entrada e de saída do sistema neurocerebral, que colocam o organismo em conexão com o mundo exterior, representam apenas 2% do conjunto, enquanto 98% se referem ao funcionamento interno, constituiu-se um mundo psíquico relativamente independente, em que fermentam necessidades, sonhos, desejos, ideias, imagens, fantasias, e este mundo infiltra-se em nossa visão ou concepção do mundo exterior.


Erros mentais

Cada mente é dotada também de potencial de mentira para si próprio (self-deception), que é fonte permanente de erros e de ilusões. O egocentrismo, a necessidade de autojustificativa, a tendência a projetar sobre o outro a causa do mal fazem com que cada um minta para si próprio, sem detectar esta mentira da qual, contudo, é o autor.


LENINE Precário, provisório, perecível; Falível, transitório, transitivo; Efêmero, fugaz e passageiro Eis aqui um vivo, eis aqui um vivo. Impuro, imperfeito, impermanente; Incerto, incompleto, inconstante; Instável, variável, defectivo Eis aqui um vivo, eis aqui...


A primeira coisa que guardei na memória foi um pote com açúcar derramado, visto a meu lado, embaixo da cama, no quarto da empregada.


E vocês, aonde a memória alcança??!!!

Silêncio...


Primeira inf창ncia 1959-1964


Regra para o desenvolvimento cerebral:

Use-o ou perca-o Gieddi, 1999


Crescimento cerebral e taxas de retorno Programas direcionados aos primeiros anos Programas para a prĂŠ-escola Programa escolar Treinamento para emprego

-Tirar vantagem de maleabilidade Construir alicerces fortes para continuar a aprender

Prevenir danos precoces / evitar a perda de potencial que nĂŁo pode ser reabilitado

Investir fortemente em programas da primeira infância, mesmo que o retorno seja daqui a 20 anos


INFÂNCIA

•M

edo. Foi o medo que me orientou nos primeiros

anos, pavor. Depois as mãos finas se afastaram das grossas, lentamente se delinearam dois seres que me impuseram obediência e respeito. Habituei-me a essas mãos, cheguei a gostar delas. Nunca as finas me trataram bem, mas às vezes molhavam-se de lágrimas — e os meus receios esmoreciam. As grossas, muito rudes, abrandavam em certos momentos.


INFÂNCIA • Não se mencionou o gênero dos maus tratos, mas calculei que deviam assemelhar-se aos que meus pais me infligiam: bolos, chicotadas, cocorotes, puxões de orelhas. • Acostumaram-me a isto muito cedo — e em consequência admirei o menino pobre, que, depois de numerosos padecimentos, realizou feito notável: prendeu no rabo de um gato um pano embebido em querosene, acendeu-o, escapuliu-se gritando: ...


INFÂNCIA & JUSTIÇA • As minhas primeiras relações com a justiça foram dolorosas e deixaram-se funda impressão. • Eu devia ter quatro ou cinco anos, por aí, e figurei na qualidade de réu.


INFÂNCIA & JUSTIÇA • Os golpes que recebi antes do caso do cinturão, puramente físicos, desapareciam quando findava a dor. Certa vez minha mãe surrou-me com uma corda nodosa que me pintou as costas de manchas sangrentas. Moído, virando a cabeça com dificuldade, eu distinguia nas costelas grandes lanhos vermelhos.


INFÂNCIA & JUSTIÇA • Deitaram-me, enrolaram-me em panos molhados com água de sal — e houve uma discussão na família. Minha avó, que nos visitava, condenou o procedimento da filha e esta afligiu-se. Irritada, ferirame à toa, sem querer. • Não guardei ódio a minha mãe: o culpado era o nó. Se não fosse ele, a flagelação me haveria causado menor estrago. E estaria esquecida. A história do cinturão, que veio pouco depois, avivou-a.


INFÂNCIA & JUSTIÇA • Meu pai dormia na rede armada na sala enorme. Tudo é nebuloso. • [...] meu pai me descobriu do e sem fôlego, colado ao muro, e arrancou-me dali violentamente, reclamando um cinturão. Onde estava o cinturão? Eu não sabia, mas era difícil explicar-me: atrapalhavame, gaguejava, embrutecido, sem atinar com o motivo da raiva. Os modos brutais, coléricos, atavam-me; os sons duros morriam, desprovidos de significação.


INFÂNCIA & JUSTIÇA • O homem não me perguntava se eu tinha guardado a miserável correia: ordenava que a entregasse imediatamente. Os seus gritos me entravam na cabeça, nunca ninguém se esgoelou de semelhante maneira. • Onde estava o cinturão ? Hoje não posso ouvir uma pessoa falar alto. O coração bate-me forte, desanima, como se fosse parar, a voz emperra, a vista escurece, uma cólera doida agita coisas adormecidas cá dentro. A horrível sensação de que me furam os tímpanos com pontas de ferro. • Onde estava o cinturão? A pergunta repisada ficou-me na lembrança: parece que foi pregada a martelo.


INFÂNCIA & JUSTIÇA • Junto de mim, um homem furioso, segurando-me um braço, açoitando-me. Talvez as vergastadas não fossem muito fortes: comparadas ao que senti depois, quando me ensinaram a carta de A B C, valiam pouco. Certamente o meu choro, os saltos, as tentativas para rodopiar na sala como carrapeta, eram menos um sinal de dor que a explosão do medo reprimido. Estivera sem bulir, quase sem respirar. Agora esvaziava os pulmões, movia-me, num desespero. • O suplício durou bastante, mas, por muito prolongado que tenha sido, não igualava a mortificação da fase preparatória: o olho duro a magnetizar-me, os gestos ameaçadores, a voz rouca a mastigar uma interrogação incompreensível.


INFÂNCIA & JUSTIÇA • Solto, fui enroscar-me perto dos caixões, cocar as pisaduras, engolir soluços, gemer baixinho e embalar-me com os gemidos. Antes de adormecer, cansado, vi meu pai dirigir-se à rede, afastar as varandas, sentar-se e logo se levantar, agarrando uma tira de sola, o maldito cinturão, a que desprendera a fivela quando se deitara. • Resmungou e entrou a passear agitado. Tive a impressão de que ia falar-me: baixou a cabeça, a cara enrugada serenou, os olhos esmoreceram, procuraram o refúgio onde me abatia, aniquilado.


INFÂNCIA & JUSTIÇA • Pareceu-me que a figura imponente minguava — e a minha desgraça diminuiu. Se meu pai se tivesse chegado a mim, eu o teria recebido sem o arrepio que a presença dele sempre me deu. Não se aproximou: conservou-se longe, rondando, inquieto. Depois se afastou. • Sozinho, vi-o de novo cruel e forte, soprando, espumando. E ali permaneci, miúdo, insignificante, tão insignificante e miúdo como as aranhas que trabalhavam na telha negra. • Foi esse o primeiro contacto que tive com a justiça.


Infância & ???? • Sozinho, vi-o de novo cruel e forte, soprando, espumando. E ali permaneci, miúdo, insignificante, tão insignificante e miúdo como as aranhas que trabalhavam na telha negra. • Foi esse o primeiro contacto que tive com a justiça.


Infância & ???? • O paletó feria-me os sovacos, os sapatos mordiam-me os pés e tropicavam no tijolo. Senti falta da camisa e das alpercatas. No outro lado da rua um longo corredor expunha um quintal cheio de roseiras. Deixei a farda, os galões, as paredes luminosas, fiquei muito tempo olhado as flores. Tencionei examinálas de perto.


Infância & ???? • VIDA NOVA • A nossa casa era na Rua da Palha, junto à de D. Clara, pessoa grave que tinha diversos filhos, um gato, marido invisível. Uma parenta dela, A irmão ou sobrinha, dessas criaturas que não pedem, não falam, não desejam, aparecem quando são úteis e logo se somem, fogem aos agradecimentos, familiarizou-se conosco, tomou conta dos arranjos da instalação. • E no caminho largo a princípio me retardava, contemplando as roseiras do jardim, as paredes brilhantes de azulejos, o sobradinho onde havia homens fardados.


Infância & ????

• Íamos com frequência ao sítio que meu pai cultivava perto da rua, para lá do cemitério novo. Debaixo das árvores do aceiro, descansando sobre folhas secas, conservava-me horas entorpecido, a olhar as fileiras de mandioca, as cercas, periquitos que namoravam espigas amarelas. José vadiava nos ranchos vizinhos.


ResiliĂŞncia -


IPREDE

Entre as crianças que vivem em risco social, o que distingue os que se adaptam positivamente dos que não se adaptam à sociedade?


Biologia do estresse - impacto que a adversidade precoce produz no desenvolvimento das crianças

Pode interromper o desenvolvimento do cĂŠrebro [a arquitetura do desenvolvimento cerebral]


A ciência do desenvolvimento infantil precoce

Ao nascer: 100 bilhões de neurônios Número de sinapses: 15.000/neurônio nos primeiros meses Mil trilhões aos três anos Formação de sinapses:


Resiliência • Brincar & Realidade • Brincar & Vida interior

• Alteridade


Brincar & Alteridade


Primeira inf창ncia e desenvolvimento humano


Se a vida exterior ĂŠ plena de barbĂĄrie, o que pode a vida interior??


Só é possível continuar vivo se há festa dentro de nós. Esther Pillar Grossi


Filme = A vida ĂŠ bela


Filme = A Estrada


Muito obrigado!


Medo e Resiliência em Infância, de Graciliano Ramos, Prof Álvaro Madeiro