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Jenipapo número 3

Carrancas do Velho Chico Artesanato centenário resiste às margens do rio


Foto: Lucas LĂŠlis


Jenipapo A beleza do jornalismo


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Editorial

Páginas Azuis

Lentes do Paralelo 15

No céu, pintado de azul

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Sobre muros e paredes

A difícil arte do fracasso

Herança de Família

Minha casa

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Será que vai dar para pagar as contas do mês?

Quadro antigo

Nem tudo é real

Mais forte que caboclo d’água

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Com açúcar e trabalho

As curvas do quadrado brasiliense

Beleza e Identidade

Desafios da reportagem em quadrinhos

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Jenipapo Revista-Laboratório dos cursos de Jornalismo e Comunicação Social-Publicidade e PropagandaUniversidade Católica de Brasília Ano 2, nº 3, julho de 2015 Reitor Prof. Dr. Gilberto Gonçalves Garcia Pró-reitor acadêmico Prof. Dr. Daniel Rey de Carvalho Pró-reitor administrativo Prof. Fernando de Oliveira Sousa Diretor da Escola de Negócios Prof. Dr. Alexandre Schirmer Kieling Coordenador dos cursos de Jornalismo e Comunicação Social-Publicidade e Propaganda Prof. Dr. Joadir Antônio Foresti Editora-chefe Prof.ª Dr ª Rafiza Varão Sub-editores Lucas Lélis e Susanne Melo Editores de arte Andressa Castro, Kamila Braga, Marina Ferreira, Patrícia Moura, Raíssa Miah e Vanessa Castro Editora de fotografia Kamila Braga Reportagem Bruno Vaz, Diogo Neves, Douglas Sousa, Gabriella Bertoni, Gabriela Gregorine, Gustavo Góes, Kamila Braga, Lucas Lélis, Marina Ferreira, Nayara de Andrade, Patrícia Moura, Raíssa Miah, Rosi Araújo e Susanne Melo Agradecimentos Amanda Rosa, Cleonice Damasceno, Eduarda Szochalewicz, Fernanda Vasques, Leandro Vianna, Lorrane Ribeiro, Marcos Neves, Samuel Paz, Thiago Soares Foto da capa Lucas Lélis Tiragem: mil exemplares Impressão: Gráfica Athalaia UNIVERSIDADE CATÓLICA DE BRASÍLIA EPCT QS 07 LOTE 1 Águas Claras - DF CEP: 71966-700 Tel: 3356-9237

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Editorial A morte do jornalismo vem sendo anunciada já a algum tempo, de forma mais ou menos peremptória. Em entrevista recente, o jornalista Ruy Castro afirmou ser essa geração, a que está aí agora, aquela que assistirá à morte e, ao mesmo tempo, ao renascimento do jornalismo. Enquanto os eventos fúnebres ou jubilosos não chegam, a Jenipapo segue acreditando que o jornalismo está vivo. E a geração que vai se tornando adulta dentro das salas da graduação que forma os escritores de notícia não espera. Tenta – e consegue –, produzir a boa e velha reportagem. É aqui o espaço do textão, do aprofundamento, da certeza de que ser jornalista é mais que tuitar uma frase de efeito. É aqui, também, que se espelham as preocupações de quem, daqui a pouco, terá um diploma nas mãos e um destino para erguer. Nesta edição, elas se voltam especialmente para o mercado de trabalho, para a vida de freelancer, empreendedor, aviador, professor ou para quem é diferente mesmo tendo um emprego “certinho”. Se viram para o passado (e o presente) da fotografia ou do parque que tem nome de menina. Pensam em reforma política e economia solidária. Se questionam sobre os destinos das carrancas do Velho Chico e sobre a sina do graffiti nas galerias. Se debruçam sobre o significado do fracasso e da identidade cuja força está nos cabelos. A Jenipapo também é o lugar da tentativa que não foi bem-sucedida e trazemos, pela primeira vez, o relato de quem batalhou, mas não conseguiu ver sua reportagem com ponto final. Pois não é o jornalismo, em parte, isso? A lida diária contra a queda de uma pauta que, sim, pode desmoronar pouco antes do deadline? Entre. Pode entrar. Venha conhecer como a geração das redes sociais ainda consegue fazer um jornalismo apaixonado e exuberante. Mais que isso, conheça o jornalismo vivo. Rafiza Varão

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Foto: Kamila Braga


Foto: Jefferson Rudy | Agência Senado

"Notícias ruins afastam cada vez mais a juventude da política", afirma Rafael Silveira.

Entrevista | Rafael Silveira

Reforma Política como Panaceia? Apesar de ser encarada como solução para os frequentes casos de corrupção, discussões sobre o tema beiram a superficialidade Douglas Sousa Nos últimos anos, o Brasil passou de país do futebol para o país das manifestações. Diante do evidente descontentamento da população, a reforma política é apontada como solução. Mas como se vê a atuação do Congresso e a reforma política? Para entendê-las melhor, a Jenipapo entrevistou Rafael Silveira, organizador do livro O Resgate da Reforma Política.

Servidor público do Senado Federal desde 2004, Rafael é consultor legislativo, carreira responsável por assessorar os parlamentares com estudos técnicos que analisam a viabilidade das propostas dos deputados e senadores do Congresso. Aqui, Rafael conta um pouco sobre o livro e sua visão sobre o descontentamento da população com a política brasileira.

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Como surgiu a ideia de escrever um livro sobre reforma política? Nós tínhamos a ideia e tivemos que ir de maneira acelerada. Fizemos uma convocação de colegas que quisessem falar de temas relacionados à reforma política. Houve uma liberdade completa sobre a escolha dos assuntos. É importante destacar que os servidores não possuem vinculação partidária e tem total autonomia para expressar sua opinião e pensamento sobre determinado tema. Daí, surgiu a ideia da publicação do livro O Resgate da Reforma Política. Você considera que a obra serviu para esclarecer a sociedade civil sobre o tema? A intenção da obra era falar de reforma de uma maneira “menos apaixonada”, digamos assim. Um dos temas que fizemos questão de explorar na obra, e nós descobrimos que muitos colegas falaram, é que a reforma política não pode ser encarada como uma panaceia. Reforma política não vai resolver o problema da corrupção. A reforma política tem um propósito, melhorar o nosso sistema de representação. Fortalecer a legitimidade do nosso processo de escolha. As pessoas, hoje, colocam a reforma como a salvação do país. Mas isso não soluciona os problemas nacionais. A nossa classe política tem uma tendência de resolver de forma afobada 10 Jenipapo

Reforma Política Re ma Reforma Política Reforma Política Refor Reforma Política Re Reforma Política Re ma Reforma Política Reforma Política Refo Reforma Política Re Reforma Política Re

as questões. Eu prefiro demorar mais e ser criticado, do que ir rápido demais e ser criticado. Porque quando a gente vai rápido demais, se discute muito pouco. É o que está acontecendo no Brasil? É o que que está acontecendo na minha opinião. O nosso livro pregava o quê? Que houvesse essas discussões de maneira sistematizada, muito debatida, bem amadurecida, no âmbito do Congresso. Depois, quando houvesse um consenso mínimo, é que aprovaríamos as mudanças. O que ocorre é o seguinte: no Congresso, essa divisão bicameral, que é muito bem-vinda, tem um viés ne gativo. Cada casa tem uma cultura política própria. E cada casa resolve fazer sua própria reforma política. Então, você tem uma reforma política do Senado e uma reforma política da Câmara. Você acha que o financiamento público de campanhas não adianta, pois não irá inibir as atitudes corruptas dos políticos? O livro é bem cético com relação a isso. Essa é uma história bonita, só que, na prática, se você utilizar isso como um combate a corrupção, não vai adiantar nada. Corrupção existe e ela vai descobrir brechas para que ocorra ainda assim. Quero dizer, esses financiamentos vão ser escondidos, mes-

clados com outras formas. É a pergunta que a gente coloca: você está resolvendo o problema do financiamento para resolver a corrupção? Espera aí! Você resolve o problema do financiamento para dar lisura e equilíbrio ao processo, dar a possibilidade das campanhas serem justas, é isso.

Você bateu muito na tecla de fortalecer as instituições que fiscalizam esse processo. Por que você acha que essa é a solução? Você tem que fortalecer as instituições para que elas, de maneira cooperativa, façam um trabalho conjunto de fiscalização. Não deixar só nas costas, por exemplo, dos tribunais eleitorais. Os tribunais eleitorais poderiam – posso até estar falando uma bobagem neste momento –, mas é porque eu não sei se eles têm convênios com a Receita Federal, o Banco Central, com órgãos de fiscalização da circulação do dinheiro. Um conjunto de órgãos que, trabalhando de forma conjunta, possa fortalecer mais essa questão da fiscalização. É melhor investir nisso do que simplesmente falar que todos os recursos serão de financiamento público.

Você acha que, de certa forma, existe uma pressão da mídia que influencia, por sua vez, a opinião pública a pressionar? Eu acredito que seja um momento de retroalimentação


eforma Política Refor Reforma Política Refor rma Política Reform eforma PolíticaRefo eforma Política Refor a Reforma Política Refor orma Política Reform eforma PolíticaRefo eforma Política Refor

negativa. A mídia fortalece a visão negativa e a população repercute. Por que a mídia, ela quer aquela visão romântica de “vamos noticiar”. Eu não acredito nisso. Tem viés. Tem viés e tem interesse. Eles querem vender a notícia. Eles querem ser vistos, lidos. Quem quer ser lido e visto tem que chamar a atenção. E o que é que chama a atenção? O viés que muitas vezes a imprensa dá não colabora para que você entenda melhor o legislativo. Sem dúvida nenhuma, temos problemas seríssimos em relação ao comportamento dos parlamentares. Ninguém aqui é santo. Ninguém aqui é inocente. Mas existe muita coisa que se faz aqui no Congresso e que é ignorada pela população. Os cidadãoes talvez não estejam dispostos a conhecer os projetos do Congresso?

Você tem que fortalecer as instituições para que elas, de maneira cooperativa, façam um trabalho conjunto de fiscalização.

As pessoas, a grande mídia. Os principais meios de comunicação. Os grandes jornais, televisão, as grandes rádios. Eles não dão muita “pelota” para isso, não. Com exceção de alguns articulistas, alguns jornalistas que tem mais proeminência, e que nos consultam, sabem dessa produção. Nós temos um mailing que a gente divulga para várias pessoas que tem interesse. Nós temos um boletim também. O boletim tem essa intenção. O texto para a discussão, teoricamente, é um texto que tem mais robustez, um estudo

mais extenso. E o boletim é uma coisa um pouco mais rápida. É uma abordagem que mostra uma ideia, lança uma discussão. Existem alguns projetos no Senado que tentam fazer com que a população tenha mais conhecimento do processo político no Brasil. O que você acha desses projetos? Tem muitos projetos legais, muito pertinentes. A população hoje é totalmente desinformada sobre o que é o Poder Legislativo e o funcionamento dele. E acaba que notícias ruins afastam cada vez mais a juventude da política. Só aquela galera que é engajada em partidos políticos é que acaba tendo conhecimento. E militância não corresponde a totalidade da sociedade, muito pelo contrário. Eu acho que nas escolas essa questão de cidadania poderia ser incentivada. Essa ideia até me parece interessante. Você ensinar o que é Constituição, como é que você lê uma Constituição, o que ela significa. Mas eu acho que poderia ter um movimento mais amplo de fortalecimento das instituições. Do conhecimento das instituições. As pessoas acabam equivocadamente negligenciando uma instituição que, por mais problemática que seja, é o berço da democracia. É aqui que você garante pelo menos que não teremos um regime ditatorial.

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Foto: Arquivo Público do Distrito Federal

Primeira visita de JK ao local onde Brasília foi construída.

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c Lentes do Paralelo 15 Diferentes personagens, uma mesma paixão. Entre as linhas planejadas da cidade, as histórias de vida de quem fotografa Brasília Diogo Neves “Deste planalto central, desta solidão que em breve se transformará em cérebro das altas decisões nacionais, lanço os olhos mais uma vez sobre o amanhã do meu país e antevejo esta alvorada com fé inquebrantável e uma confiança sem limites no seu grande destino”. Assim, com essas palavras, Juscelino Kubitschek oficializava a construção de Brasília. No dia 2 de outubro de 1956, o presidente chegava, pela primeira vez, ao local exato onde a nova capital do país seria erguida. O momento foi eternizado pelo fotógrafo Mário Moreira Fontenelle, numa imagem que, metaforicamente, traz JK olhando em direção ao futuro próspero de Brasília. Piauiense de estatura média, o fotógrafo conheceu Juscelino por acaso. Nos anos 1940, Mário foi para o Rio de Janeiro e, na dé-

cada seguinte, no ano de 1954, o nordestino de pouca instrução que se tornaria o primeiro fotógrafo oficial de Brasília, começou a trabalhar como mecânico do avião do, até então, governador de Minas Gerais, Juscelino. Fontenelle era mecânico de motores, no Rio de Janeiro, na pista de aviação dos Serviços Aéreos Condor. Carregava consigo uma Kapsa, câmera fotográfica em forma de cubo, fabricada no Brasil. Era necessário apoiá-la na barriga para usar e conseguir ver a imagem, no viewfinder, que ficava na parte superior do aparelho. Ninguém realmente sabe como e quando Mário Fontenelle conheceu a fotografia. Mas seus registros se tornaram parte importante da história. Juscelino, em sua primeira visita à futura Brasília, foi acompanhado por uma

pequena comitiva - da qual Mário Fontenelle também fazia parte. Brasília começava a ser concebida. Sua construção teve início no mesmo ano. Migrantes de todas as partes do Brasil, principalmente do nordeste, chegavam e se amontoavam, formando a multidão de trabalhadores. Mário Fontenelle foi, de certo modo, um deles. O solo seco e a poeira, interrompidos pelas emergentes linhas de aço, esboçavam um destino promissor e esperançoso. A primeira foto do ex-mecânico, é considerada a mais importante sobre a construção de Brasília: o cruzamento entre os eixos Monumental e Rodoviário, o marco zero em forma de cruz cortando a vegetação nativa. A bordo de um pequeno avião, Fontenelle, munido de sua Kapsa, registrou uma das mais icôni-

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Foto: Cláudio Alves

Foto: Mário Fontenelle

Marco Zero de Brasília, cruzamento do Eixo Rodoviário com o Eixo Monumental

cas imagens do início da construção da nova capital. Ninguém pode dizer se Fontenelle sabia da importância daquilo que estava fazendo, e se fazia com o propósito de deixar seu nome na história. O cineasta e PhD em cinema e televisão, Pedro Jorge de Castro, que produziu e dirigiu um filme biográfico sobre o fotógrafo (Mário Fontenelle: Oração Silenciosa), lançado em junho deste ano, acha que o parnaibano não pensava assim. Admirador Pedro Jorge acredita que Mário não entendia o valor histórico dos registros que fez. “Eu acho que Mário não tinha ideia da importância de suas fotos. Eu acho que muita gente que trabalhou nessa grande epopeia não tinha noção da importância disso. Porque, por exemplo, operários, mestres de obras e mesmo 14 Jenipapo

Mário Fontenelle

os engenheiros, arquitetos, carpinteiros, agrimensores, topógrafos... Todo esse pessoal atendeu a um chamado de um grande convocador de vontades, que foi o Juscelino. Então eu acho que o Mario não tinha noção da dimensão daquilo que ele estava fazendo. Eu até tenho um artigo chamado ‘A fábula de Mario Fontenelle’, em que afirmo que Fontenelle produziu, em nome de todos os candangos, os ex-votos de Brasília, através de suas fotografias”. Fontenelle tinha um olhar perceptivo cheio de sensibilidade, captava o esforço dos trabalhadores em contraste com as estruturas ainda esqueléticas das construções, mas já imponentes. Com a vastidão que os cercava, o sol a pino e muito trabalho a fazer, os candangos se deixavam fotografar. Mario, quando não estava em suas tomadas aéreas, caminhava pelo longo caminho que

levava à Esplanada. Juntando-se aos trabalhadores nos canteiros de obra. Fontenelle não foi o único a registrar a nova capital surgir em meio ao vazio. Mas foi o primeiro e o que mais fotografou o tema que se tornou o maior e mais importante de sua vida: a edificação de Brasília. Mário Fontenelle foi impregnado pela cidade e não parava de registrá-la. “Era todos os dias, o dia inteiro. Eu estive com ele só duas ou três vezes. Em uma delas, eu perguntei: ‘Mário, como era, você chegava de manhã cedo e tinha pauta pra você?’ E Mário respondeu: ‘Não. Eu ia pra Novacap, enchia minha bolsinha com rolos de filme e saía para fotografar. Onde tivesse poeira e gente, no primeiro carro que estivesse saindo, eu ia junto’. Ele disse que ficava o dia inteiro fotografando. Talvez se ele estivesse trabalhando para al-


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gum veículo de comunicação, com alguém que o pautasse, ele não teria feito esse registro tão amplo de mais de 5 mil fotos. Talvez, quem estivesse pautando no escritório, não soubesse do que estava acontecendo. Mário, perambulando, constatava tudo.” O trabalho intuitivo e o fascínio que Fontenelle sempre provocou no cineasta Pedro Jorge de Castro, o fez ser ho menageado em um curta-metragem biográfico. “Essa ideia (do filme) é antiga. O Mário Fontenelle sempre me fascinou. Porque era um fotógrafo que, eu acho, foi um purista. Quer dizer, hoje é muito fácil você fotografar com um enquadramento todo errado e depois concertar na edição eletrônica. Ele foi um purista do enquadramento”. Para o cineasta, Mário é um repórter fotográfico muito importante, por ter registrado a “obra do século”. Mesmo com um trabalho

Foto: Maria Elisa Costa

Foto: Mário Fontenelle

Congresso Nacional em construção

Lúcio Costa e Mário Fontenelle

fotográfico tão significativo, Fontenelle caiu no esquecimento. Levava uma vida simples. Não tinha casa, nem conforto, e não cuidava da própria saúde. Casou-se apenas uma vez, mas se separou de Carmen Andréa Paes Leme um ano depois do nascimento de sua única filha, Sandra Sybilla Fontenelle, com quem trocava cartas e presentes, durante os longos anos que viveu em Brasília. Mas, ressentida pela ausência do pai, Sandra, com o tempo, se afastou. Doente, Mário passou seus últimos anos em um asilo, O Lar de Velhinhos Maria Madalena, no Núcleo Bandeirante. Sem uma das pernas, devido a uma gangrena, Mário também havia sofrido um derrame, que paralisou o lado esquerdo do seu corpo. Rodeado de velhas câmeras, papéis e estojos de filmes fotográficos, Fontenelle dividia o quarto nº 18 com outros

dois idosos. Personagem fundamental e importante para a memória visual de Brasília, não recebeu, enquanto vivo, o reconhecimento merecido. Nos três últimos anos de sua vida, Mário foi visitado apenas uma vez. O arquiteto Lúcio Costa, sua filha Maria Elisa Costa, e os também arquitetos Haroldo Pinheiro e Adeildo Viega de Lima, durante uma visita à Brasília, no ano de 1984, resolveram reencontrá-lo, pela última vez. Em 23 de setembro de 1986, dois anos depois da primeira e última visita que recebeu no Lar de Velhinhos, Mario Moreira Fontenelle morreu, aos 67 anos de idade. Em seu enterro, apenas três pessoas compareceram: os fotógrafos Jankiel Goncvaroska e Sálvio Silva e o arquiteto e diretor do Patrimônio Artístico e Histórico do GDF, Sílvio Cavalcante. Mário Fontenelle não foi o primeiro fotógrafo a chegar

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no Planalto Central. Antes dele, em 1892, o francês Henrique Morize, que também era físico e astrônomo, integrou o grupo da Missão Cruls, que tinha o intuito de colher dados e selecionar o local onde seria construída a nova capital brasileira. Durante os quase quatro anos em que demorou para ser erguida – ou pelo menos seus prédios principais – muitos fotógrafos, de várias partes do mundo, vieram ao Planalto Central para registrar o nascimento da nova capital federal. Marcel Gautherot e René Burri são outros dois grandes nomes da fotografia que estiveram em Brasília entre o final dos anos de 1950 e a década de 1960. Tradição Com Brasília já construída e seus edifícios prontos, fotografar sua arquitetura passa ria, agora, a ser sempre mais do mesmo. O centro do poder político nacional estava instalado e seus bastidores seriam o novo foco da atenção. O Brasil, em 1961, estava prestes a passar por mudanças políticas. A partir daí, entra em cena o clã dos Stuckert. A família de fotojornalistas tem origem na Suíça. O precursor do clã, Eduard Francis Rudolf Deglon Stuckert, veio para o Brasil ainda no início do século passado, chegando em Porto Cabedelo, na Paraíba. Fotógrafo, desenhista e 16 Jenipapo

escultor, tinha a missão de elaborar as cartas náuticas da viagem que o trouxe ao país. Anos mais tarde, na capital paraibana, Eduard e seus três filhos, Manfredo, Gilberto e Eduardo Roberto, montaram o Foto Stuckert. Eduardo Roberto, o mais novo, não se limitou ao estado da Paraíba. Foi para Maceió, onde trabalhou como fotojornalista no jornal Gazeta de Alagoas. No Rio de Janeiro, Eduardo chegou a trabalhar no jornal O Globo. No ano de 1957, em plena construção de Brasília, Eduardo Roberto foi indicado para fazer uma reportagem. Retornando ao Rio de Janeiro, após um período no canteiro de obras, Eduardo passou a ter a missão de cobrir a construção da nova capital federal para seu irmão mais velho, Roberto, conhecido como Stuckão. Stuckão foi fotógrafo oficial da Presidência da República no governo João Baptista Figueiredo – e permaneceu por 20 anos no cargo. Seu filho Ricardo (chamado de Stuckinha), assumiu o posto de fotógrafo oficial da presidência no governo Lula. Seu irmão Roberto Filho ( o Stucka), acompanha o mandato de Dilma Rousseff. Em 1960, poucos antes de Brasília ser inaugurada, Eduardo Roberto se mudou para a nova capital com toda a família. Na década seguinte, nos anos de 1970, com os filhos Roberto, Eduardo, Rodolfo e Rosiane, fundou

o Stuckert Press, cine foto e empresa de fotojornalismo. Foi lá, no Stuckert Press, que Francisco Stuckert, da quarta geração de fotógrafos do clã, deu os primeiros passos na tradição profissional da família. Começou ainda na infância, aos 14 anos, acompanhado do avô, Eduardo Roberto, fazendo fotos 3x4 no cine foto. Francisco especializou-se no fotojornalismo. Trabalhou em importantes veículos, como Folha de S. Paulo, Veja, IstoÉ, Correio Braziliense e Jornal O Lance. Com 39 anos de carreira, Stuckert acumula histórias e experiência. Para ele, os erros são grandes professores. “Eles ensinam o que nenhum docente com aquelas teorias realmente pode. E a arte de fotografar vai além de apenas registrar uma cena. Ela eterniza um momento”. Além de adorar a fotografia e a ter como sua grande paixão, Francisco atribui a ela suas melhores e, também, mais tristes experiências. “Fiz contato com diversas culturas. Conheci muita gente. Fiz coberturas de eventos importantes, como Copas do Mundo e a visita do Papa ao Brasil”. Aos 53 anos, Chico (como é carinhosamente chamado por alguns), está preocupado com o futuro do fotojornalismo. “Está muito complicado, pelo seguinte: nos primeiros cem dias do ano, nós tivemos trezentas demissões, contando jornais como Folha de S.


Foto: Arquivo pessoal Francisco Stuckert

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Francisco Stuckert, repórter fotográfico.

Paulo, Estadão, Veja. Para um fotojornalista, as perspectivas estão bem ruins. As novas tecnologias – além das exigências urgentes que o mercado vem adotando – tiram a poesia, o olhar sensível e romântico do fotógrafo, sem falar dessa crise na categoria, que vêm afetando todos os jornalistas, levando muitos à demissão.” Embora as perspectivas, para muitos não sejam animadoras, Francisco acredita que aqueles que tiverem “jogo de cintura” e desenvolverem

um bom trabalho, sem perder o olhar peculiar e poético, podem atravessar a tormenta e continuar trazendo o romantismo ao fotojornalismo moderno. Ética e respeito Mas nem só de homens é formado o mercado. A fotojornalista paraibana Jaciara Aires, de 52 anos, formada pela Universidade Estadual da Paraíba, está em Brasília há quase 15 anos. Saiu de Campina Grande, onde se tornou

a primeira fotojornalista da cidade, em busca de crescimento profissional e maiores oportunidades. No início, lá na Paraíba, Jaciara conta que enfrentou o preconceito machista de seus colegas de profissão. “Por eu ser mulher, disputar o espaço, até então, majoritariamente dominado por homens, não foi fácil. Na minha primeira pauta, como fotojornalista, em uma posse de vereadores, eu fui empurrada, em cima do palanque, por outro fotógrafo quando eu me preparava para

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Foto: Arquivo pessoal | Jaciara Alves

registrar a cerimônia. Mas eu não me intimidei. Continuei lá e só saí quando fiz a foto”. Aos poucos, Jaciara foi conquistando seu espaço no fotojornalismo de Campina Grande, mas ela não estava satisfeita. No início dos anos 2000, decidiu ampliar seus horizontes: saiu da Paraíba e optou por se arriscar em um mercado maior. Com pouco tempo na capital federal, Jaciara já trabalhava na Fundação Cultural Palmares, órgão ligado ao Ministério da Cultura. Pela fundação, a fotojornalista realizou a sua primeira viagem internacional, que ela considera um prêmio, rumo a uma conferência na África do Sul sobre questões raciais. Atualmente, Jaciara trabalha no Senado Federal. Divide espaço com a maio-

Jaciara Aires, repórter fotográfica.

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ria masculina de fotógrafos. Carrega um equipamento com cerca de oito quilos e está “antenada” na evolução tecnológica da informação em tempo real. Para ela a disputa e o aprendizado são diários e o diferencial está na sensibilidade de captar o momento.”Eu acredito que a ética profissional e o respeito são fundamentais e eles precisam sempre estar em evidência, a todo momento. Como repórter fotográfica mulher, eu me vejo valorizada ao mesmo nível que meus colegas homens mas que, mesmo assim, há um longo caminho a percorrer”. Jaciara não está preocupada em ganhar prêmios. Busca apenas aprimorar seu conhecimento e, quem sabe, ser uma inspiração para outras mulheres na profissão. A fo-

tojornalista nordestina busca transmitir a emoção em suas fotos. E continua aprendendo. “É preciso ter fome de crescimento e conhecimento, sustentar um sonho, acreditar nele e ir à luta”, sentencia. Nova geração Ter um sonho. Isso é o que, mesmo com as promessas de um futuro tranquilo e estável numa profissão convencional, ainda motiva muitos jovens. Etiene Pimentel Porto, de 18 anos, com cabelos pretos compridos e franja, viu na fotografia uma saída para a depressão. Com a câmera emprestada da irmã, Etiene tomou gosto pela atividade. Sozinha, começou a pesquisar e estudar a fotografia e se apaixonou. Tatuou no braço uma pequena câmera.


Foto: Diogo Neves

A jovem, que mora no Riacho Fundo e ainda cursa o 3° ano do Ensino Médio, tem na fotografia um meio para se expressar. “Eu vejo que a fotografia é uma expressão pessoal, única e inconfundível que leva um fotógrafo a ter uma identidade, ser reconhecido e ter uma marca própria”. Etiene já fez cerca de 20 ensaios fotográficos, para alguns amigos, e cobrou por todos eles. Os pais da garota apoiam o trabalho fotográfico que ela faz, desde que se mantenha apenas como um hobby. Eles desejam para a filha

um emprego estável, talvez, fruto de um concurso público. Mesmo assim, Etiene pretende entrar em uma faculdade de jornalismo. Brasília é um território pequeno. Tem muita gente boa e a concorrência é acirrada e, para o bem ou para o mal, o mercado não está tão favorável. Etiene, sem saber, segue o exemplo de Fontenelle, Stuckerts e Jaciara. Talvez, sair da zona de conforto e explorar o desconhecido traga resultados inimagináveis. Quem poderia dizer que o mecânico piauiense se tornaria alguém importante na

história de Brasília? Será que Eduard Stuckert, o fundador do clã de fotógrafos, imaginou um dia que seus descendentes chegariam à companhia da presidência nacional? Sim ou não, tanto faz. Eles não fariam o que fizeram se não tentassem e persistissem. Crises vêm e vão. Reconhecimento nem sempre. Às vezes, somente póstumo. O caminho a percorrer e a ser registrado é longo e cheio de pedras. Mas, dando uma “ajeitadinha”, essas pedras podem sair bem na foto.

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Etiene Porto, estudante

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Foto: Kamila Braga


No cĂŠu, pintado de azul O sonho de ser piloto de aviĂŁo ainda move aqueles que buscam conquistar as nuvens Kamila Braga

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Voar, nadar em um mar de nuvens, estar no alto, ver tudo como uma infinita maquete, contemplar uma imensa paisagem, transportar vidas. Assim fazem os pilotos de aviões, e os sonhadores buscam a mesma sensação. O caminho entre o sonho e a realização pode ser longo e caro, mas transforma em realidade o velho desejo humano de voar, fazendo com que quem se aventura pelas trilhas feitas de ar e nuvens tenha sempre boas histórias para contar. Um desses sonhadores foi Franz Reichelt, filho de alfaiate. Enquanto mexia com roupas, ajudando o pai, imaginava o dia em que pudesse conquistar os céus. Os vizinhos o chamavam de “O Alfaiate Voador”. Aos domingos à tarde, Franz exibia “O balé dos manequins”, uma apresentação em que jogava os bonecos para fora da janela do quinto andar do edifício onde morava, usando roupas que ele inventava para fazêlos flutuar por alguns segundos. Em um desses domingos, Franz percebeu que um dos manequins demorou a tocar o chão, mas não “voou” por muito tempo. Logo imaginou que o problema estava na altura do prédio. Obcecado, Franz pensou na construção mais alta que havia em Paris, a Torre Eiffel. Depois de muita persistência, conseguiu convencer as autoridades a deixá-lo testar a ideia de jogar um manequim com uma roupa mais reforçada do alto da torre. O homem deixou a es22 Jenipapo

posa e um filho em casa e resolveu, ele próprio, testar o experimento. O Alfaiate Voador arriscou a própria vida pulando do mais famoso cartão postal de Paris, às 8h22 da manhã de domingo, em 4 de fevereiro de 1912. O invento não funcionou, e, em vez de voar, ele mergulhou. Despediu-se da vida. Muitos tentaram realizar o antigo desejo de Ícaro - que, na mitologia grega, ganhou asas de cera e penas, que derreteram ao se aproximar do sol. Contudo, os inventos que buscavam dar asas aos homens só começaram a funcionar a partir do século XVIII, com a produção e experimentos em balões. Depois, em planadores, no século XIX. Foi somente no século XX que surgiu o avião. No Brasil, os créditos do invento foram dados à Santos Dumont, mas não se sabe ao certo quem foi o primeiro. Nos Estados Unidos, alguns acreditam que foram os irmãos Wilbur e Orville Wright, e outros, na França, apontam o francês Clément Ader como o verdadeiro pai da aviação. Ainda hoje, há aqueles que buscam ser pilotos de aviões. Alguns tem a sorte de conseguir tudo facilmente, outros precisam estudar e trabalhar ao mesmo tempo para pagar os custos da aviação. Aqueles que gostam e já conseguiram conquistar a tão sonhada carreira se sentem realizados em poder pilotar gigantescas máquinas de ferro em um imenso espaço azul.

Pilotos “Lembro que quando tinha meus 6 anos, eu amava ir aos finais de semana ao aeroporto ver aqueles enormes pássaros de aço. Era mais legal que ir ao parque”, conta o copiloto de avião, Gian Toledo Silveira. Desde criança, Gian queria ser piloto, mas a mãe achava que era apenas uma vontade passageira. Com cerca de 13 anos, ele voou pela primeira vez, como acompanhante, em um avião de um amigo da mãe dele, durante um churrasco. Foi quando decidiu que realmente era aquilo que ele queria. Aos 15 anos, Gian começou a frequentar o Aeroclube de Brasília, mas não tinha idade para iniciar os estudos nessa área. Quando fez 16, se matriculou no curso teórico para Piloto Privado – o primeiro passo para voar. Aos 18, entrou para a faculdade de aviação civil e fez as horas de voo que precisava em aeroclubes. Ele trabalhou ainda como instrutor de voo para adquirir experiência, e, depois de um ano na função participou do processo seletivo da empresa Azul Linhas Aéreas. Gian recebeu a notícia da aprovação no dia 28 de março de 2014, pouco antes de completar 22 anos. “Foi meu presente, porque meu aniversário é dia 30 de março”. Aos 21 anos, se tornou copiloto da Azul. Para conseguir a tão sonhada carreira, a mãe e a avó arcaram com as despesas, e o rapaz abriu mão das férias, deixando de viajar com a família desde os 17


Ilustração: Kamila Braga

Franz Reichelt, o “Alfaiate Voador”, se prepara para saltar da Torre Eiffel.

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“Para as crianças, somos heróis, a satisfação em ver o brilho em seus olhos e poder lembrar que um dia já fomos aquele menino sonhador, é incrível” Gian Toledo

anos, apenas para se dedicar aos estudos da aviação. Atualmente, o copiloto tem 22 anos e é muito apaixonado pela profissão. “Amo. Para mim é uma sensação de liberdade. Lá no alto, me desconecto do mundo, e aquele passa a ser meu mundo. É como uma terapia. Nós aviadores, voamos pela paixão pelo voo, pelo amor em servir, transportar vidas, sonhos, felicidades. Para as crianças, somos heróis, a satisfação em ver o brilho em seus olhos e poder lembrar que um dia já fomos aquele menino sonhador, é incrível”. Há muitos motivos que levam alguém a ser piloto de avião. Além da paixão por voar, há aqueles que buscam essa profissão por se encantar com um uniforme, por status ou simplesmente porque foi a única área profissional com a qual se identificou. Um deles é o Coronel Avi-

ador da Reserva da Força Aérea Brasileira (FAB) e professor de aviação, Antônio Junqueira, 64 anos. Ele lembra que era fascinado com a farda da Aeronáutica, tinha o sonho de vestir aquela roupa (principalmente a de cor azul). “Eu achava impressionante, bonita aquela farda, dar um ar de seriedade, um ar de diferença. Isso me motivou a entrar para a Aeronáutica e, lá dentro, eu me apaixonei pela aviação”, declara Junqueira. O Coronel, aos 18 anos, se alistou no serviço militar obrigatório, e entrou para a aeronáutica, mas não pensava em ser apenas um soldado por toda a vida, queria mais - ser um oficial da Força Aérea. Aos 20 anos, Junqueira entrou para a Academia da Força Aérea, se tornou piloto de avião e não parou mais. Ele já passou por diversas áreas. Além de piloto militar,

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Junqueira comenta que a profissão devia ser mais valorizada pelo governo, principalmente porque ela movimenta as riquezas do país.

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Foto: Kamila Braga

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Foto: Arquivo Pessoal | Igor Marra

Na primeira viagem de avião de Igor Marra (criança de jaqueta preta), ele pôde entrar na cabine de comando.

foi piloto comercial, instrutor de voo, piloto particular de grandes autoridades, chefe no Centro de Investigação e Prevenção de Acidentes Aeronáuticos (Cenipa), entre 2000 a 2002, e comandante de aeronaves. O piloto, com mais de 40 anos de experiência, já viveu bons e maus momentos nos ares: tempestades, problemas com o pouso, falta de gasolina, e outros que prefere não citar. Hoje, ministra aulas na Faculdade Icesp Promove, na unidade do Guará, de Teoria de Voo, Aerodinâmica, e Conhecimentos Técnicos de Aviação – disciplinas que ele defende serem as mais apaixonantes para os alunos – que se aproximam mais do que é a aviação em si. Apesar da admiração inicial pelo uniforme, Junqueira também demonstra o amor que adquiriu pela aviação.

“O voo, em si, traz para o aviador uma sensação de paz de espírito. Todo aviador o é por amor ou por uma paixão pelo voo, pelo ar, pela visão da natureza, pela mobilidade que o avião dá e a sensação de liberdade. A aviação é uma coisa que só o aviador consegue descrever”. Já o copiloto da empresa aérea TAM, Igor Vinícius Marra, 27 anos, comenta que entrou para a aviação por ser o que mais se identificava na época. A mãe diz que o filho se empolgou aos 12 anos quando a família fez a primeira viagem de avião à Fortaleza (CE), em 2000. “Ele ficou impressionado com os aviões e depois só falava em ser piloto de avião”. Igor tirou a primeira carteira de piloto em um alojamento em Bragança Paulista (SP). Ele arcou com as despesas de aproximada-

“Todo aviador o é por amor ou por uma paixão pelo voo, pelo ar, pela visão da natureza” Antônio Junqueira

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mente 9 mil reais, e, depois, por sorte, conseguiu tirar a segunda carteira de graça em um Aeroclube de Goiânia. Apesar de Igor gostar do que faz, ele sente falta de passar mais tempo com a família. “O lado bom é o salário (risos), conhecer outros lugares, várias culturas, lidar com pessoas de todos os cantos do Brasil – apesar de não termos muito tempo para aproveitar. O lado ruim é ficar longe de casa e também expostos à violência. Mas é uma fase de maturidade e aprendizado muito boa”, aponta o copiloto. Importância Atualmente, a aviação está crescendo no Brasil. Segundo pesquisa realizada neste ano pelo Ministério do Turismo junto à Fundação Getúlio Vargas, os brasileiros procuram cada vez mais viajar de avião para destinos nacionais. Mais da metade (58,5%) dos entrevistados que planejam viajar nos próximos seis meses, optam pelo avião como meio de transporte. O interesse em se deslocar de carro ficou em segundo lugar com 24,4% e o ônibus 10,9%. Na mesma pesquisa foram entrevistados dois mil moradores de sete capitais, e foi revelado que Brasília (DF) foi a cidade com maior registro de pessoas interessadas em se deslocar de avião (82%) o maior índice registrado no DF nos últimos cinco anos, além de ser o terceiro ano seguido em que o percentual cresceu na cidade. Por isso, a profissão de pi26 Jenipapo

loto ganha mais importância e exigência. Segundo o aeronauta Antônio Junqueira, o piloto não deve pensar só em si, mas em todos os passageiros que vai transportar. “Quando damos instruções, ensinamos um piloto a voar, dizemos: ‘olha, não pilote o avião por você, pilote pelos passageiros que estão atrás. Você suporta movimentos bruscos, curvas malfeitas, um uso mais incorreto no avião, mas lembre-se que os passageiros que estão atrás não são pilotos e eles pagaram para ter um voo o mais suave e o mais confortável possível’. O piloto ainda tem que falar a língua dessas pessoas, no sentido de fazer com que desmistifique essa ideia de que voar é um passaporte para a outra vida”. Desafios Para ser piloto de avião não basta ter apenas o sonho, é preciso ter muita responsabilidade e disciplina. O aeronauta Antônio Junqueira diz que se um médico erra, ele mata uma pessoa, mas se um piloto comete um erro, ele mata várias pessoas ao mesmo tempo. “A aviação é uma coisa extremamente séria. Em todas as profissões, como são exercidas por pessoas, há uma possibilidade de ocorrer erros nessas ações. Mas em todas as profissões existe uma forma de você encobrir os seus erros, de uma forma que não prejudica muitos. Na aviação os erros dos pilotos são encobertos com TERRA, ou seja, quando se

erra, MORRE! E é coberto com terra não só ele, como aqueles que foram transportados”, diz Junqueira. É preciso saber também que o mercado de trabalho na aviação nem sempre oferece muitas vagas. Quem explica isso é o instrutor de voo que ministra aulas teóricas no Aeroclube de Brasília, Diego Rodrigues, 34 anos. “O mercado é um pouco instável. Ele melhora e, às vezes, contrata muita gente. Depois, piora, como por exemplo neste ano, em que o dólar aumentou. Assim, as empresas param de contratar. Então, quem está na aviação tem uma certa incerteza”. O copiloto Igor Marra lembra que a maioria dos amigos dele teve que lavar aviões ou carregar malas antes de conseguirem ser pilotos. Hoje o Aeroclube de Brasília – unidade de Luziânia que oferece aulas práticas – enfrenta uma fase crítica. O diretor social e de infraestrutura da unidade, André Luiz Roriz, relata que há tempos atrás muitos alunos buscavam horários vagos no local para fazer as aulas práticas de voo, e nem sempre conseguiam, pois, o local e a agenda estavam sempre cheios. Agora, acontece o inverso. Roriz acredita que seja devido à falta de estabilidade do mercado nessa área, o que faz com que muitos se desmotivem e troquem de profissão. O piloto Diego Rodrigues ainda explica que para ser piloto é necessário fazer exames médicos periódicos em clínicas credenciadas. Se o


Foto: Kamila Braga

No simulador de voo, o piloto tem a oportunidade de treinar o comando da aeronave de forma segura.

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Foto: Kamila Braga

Biruta no Aeroclube de Brasília, em Luziânia. Serve para indicar a direção do vento e auxiliar os pilotos na hora da decolagem e do pouso.

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piloto, em algum momento da vida, tiver problemas de saúde como casos graves de diabetes, crises de epilepsia, perda de visão ou audição, ele não vai poder pilotar mais, terá que se aposentar, mesmo tendo anos de carreira. “Se der o azar de ser pego de surpresa por problema de saúde ou retração do mercado, você fica sem ter para onde correr, fica para trás no mercado”. Para ser piloto de avião é preciso ainda acumular horas de voo, mas o custo é elevado. São exigidas 40 horas de voo, no mínimo, para o aluno conseguir tirar a carteira de Piloto Privado (PP) – habilitação que permite o piloto voar, mas sem receber dinheiro – que é usada mais como um hobby e pré-requisito para a próxima carteira, a de Piloto Comercial (PC), que exige 150 horas – para quem quer trabalhar e ser remunerado. Tendo como base o Aeroclube de Brasília, o valor para uma hora de voo custa, em média, 340 reais. Os preços variam de acordo com o modelo da aeronave. A estudante de aviação, Michelle de Araujo, 20 anos, comenta que os custos elevados dificultam a entrada na profissão. “O investimento é muito alto e a gasolina está muito cara, isso influencia diretamente nas nossas horas de voo”. Ela diz que alguns vendem carro, moto e até mesmo a casa para poder pagar os gastos da aviação. No caso específico de Michelle, ela ainda enfrentou

a perda da mãe, em 2013. A jovem marcou a prova de vestibular para o curso de aviação civil em uma sexta-feira. No dia seguinte, perdeu a mãe, mas não desistiu da faculdade. Ela conta que a mãe a apoiou muito no sonho de ser piloto de avião, quando estava presente. “Levo isso como mais um estímulo para correr atrás, pois o sonho é de nós duas agora”, desabafa. Expectativas Apesar das dificuldades, quem realmente gosta da profissão não desiste fácil. “Às vezes, alguém pergunta à um piloto se a vida é cansativa ou não. Quando a pessoa pergunta por esse lado, a gente já sabe que normalmente não vai seguir carreira, porque é uma profissão bem difícil. Quem segue é quem realmente gosta de voar, independente de salário, de condições de trabalho, você quer estar dentro de um avião porque é uma sensação indescritível”, afirma Diego Rodrigues.O estudante Isaac Muribeca, 20 anos, sempre muito focado nos estudos, passou de primeira na prova da ANAC, e conseguiu bolsa na faculdade por meio do Programa Universidade para Todos (Prouni). Trabalha e junta o dinheiro para pagar as horas de voo, caso não consiga a Bolsa Piloto 2015 que tem previsão de ser ofertada em breve pela Secretaria de Aviação Civil. Está no 2º se-

mestre do curso de aviação civil na Faculdade Icesp Promove, no Guará. “O que me chama mais atenção é o ato de voar. Estar ali, a bordo da aeronave transportando sonhos, saudades, desejos, ansiedades, vontades, enfim, sentimentos”, afirma ele. Muribeca ainda não viajou de avião como passageiro, pois prometeu a si mesmo que a primeira vez em que entrasse em um avião seria para pilotar, o que fez pela primeira vez em 2014, na JK Escola de Aviação. “Os alunos que possuem o Certificado Médico Aeronáutico (CMA) que tenham passado em todos os exames médicos, são considerados ‘Piloto Aluno’, e eu já tinha feito os exames médicos e o curso teórico, então pude pilotar”. A ANAC informou, por meio de sua assessoria, que está elaborando edital para concessão de bolsas de estudos para capacitação de profissionais na área de aviação civil. O edital deve ser divulgado em breve, no Diário Oficial da União. Essa é apenas uma das oportunidades que podem ser agarradas pelos estudantes de aviação. Mas, para alcançar a tão sonhada carreira, além de estudar bastante e conseguir bolsas ou não, é preciso aperfeiçoar o inglês e ser persistente. O mais importante é nunca desistir, porque o caminho é difícil, mas não impossível.

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Ilustração: Vanessa Castro

Será que dá para pagar as contas do mês? Freelancers já se tornaram tendência no mercado. Para quem quer seguir nessa área é preciso estar bem informado sobre o assunto Patrícia Moura Imagine a cena. São exatamente dez horas da manhã. Pela janela, a luz do sol invade todo o quarto e alcança os olhos de Clarisse. Ela desperta e anda lentamente até o banheiro. Escova os dentes, amarra os cabelos num coque desajeitado, segue para a cozinha e toma o 30 Jenipapo

seu café da manhã. Logo estará pronta para trabalhar. Ainda de pijamas, Clarisse se senta à escrivaninha, liga o computador e confere os e-mails. Seu dia de trabalho começou. É dessa maneira que ela vive. Aos 22 anos, Clarisse é freelancer. Apesar de Clarisse não ser real, essa

é a vida que muitos freelancers levam, todos os dias. Freelancers são profissionais que trabalham de forma independente, ou seja, por conta própria, prestando serviços eventualmente a empresas ou pessoas físicas. Por isso, não possuem carteira assinada, chefe ou horário


fixo e, na maioria dos casos, trabalham em casa. Mas, para seguir carreira solo, é preciso estar bem informado sobre o assunto e analisar todas as vantagens e desvantagens desse percurso. Uma boa forma de começar é observar as diferentes experiências vividas por quem já experimentou ou vive desse modo. Muitas pessoas não entendem como é possível trabalhar a maior parte do dia no computador de casa e ainda conseguir pagar as contas, o aluguel ou até mesmo comprar um carro. É o que explica Natã Barros, fotógrafo e designer, freelancer desde os 14 anos de idade. “Minha esposa me apoia bastante. Geralmente, fica um pouquinho complicado para ela entender, porque, muitas vezes, eu estou em casa e ela acha que eu não estou trabalhando”. Apesar das dificuldades, o profissional consegue lidar com a situação. “Mas ela me apoia cem por cento, ela sabe das dificuldades que já passei para chegar onde cheguei, para ter os clientes que tenho. Ela me apoia pelo fato de eu gostar muito do que faço”. Natã começou a fazer serviços como freelancer para ganhar alguns trocados e curtir o fim de semana em festas com os amigos. Porém, com o tempo, sua demanda de serviços foi crescendo e ele apostou nos “freelas” como uma forma de trabalho. “Eu sempre quis ser dono do meu

negócio. Hoje, já tenho uma estrutura, portfólio, contratos... Tudo para passar confiança para o cliente. O que eu consigo tirar por mês dá para sustentar minha família tranquilamente”, conclui. Perfil Apesar de poucas informações estatísticas divulgadas sobre os freelancers por parte dos institutos de pesquisas no Brasil, o site 99 Freelas, responsável por facilitar as mediações entre clientes e esses profissionais autônomos, realizou uma pesquisa com usuários e não usuários do portal para traçar o perfil dos freelancers brasileiros. De acordo com o perfil delineado, 81% dos freelancers são jovens que ocupam a faixa etária entre 18 e 34 anos. A maioria deles é composta por homens. A região de maior destaque em relação à concentração desses profissionais, com o total de 52%, é São Paulo. Entre os motivos que levaram essas pessoas a se tornarem freelancers estão a flexibilidade, liberdade e maior rentabilidade do trabalho. Além das informações trazidas pelo site, outra pesquisa que merece destaque é o relatório das Perspectivas Sociais e de Emprego no Mundo, divulgado pela Organização Internacional do Trabalho (OIT), em maio de 2015, que tem como

o objetivo prever os níveis de desemprego global e explicar os fatores por trás dessa tendência, bem como, analisar as estruturas que moldam o mundo do trabalho, como o envelhecimento da população e as mudanças nas habilidades procuradas pelos empregadores. No estudo, os resultados demonstram como os desdobramentos da situação empregatícia mundial estão construindo o perfil dos freelancers. Segundo o relatório, muitos jovens, principalmente na Ásia e América Latina, têm dificuldade para conseguir empregos estáveis. Essa situação proporciona a busca de trabalhos temporários e autônomos até que se estabilizem. Mesmo grande parte dos freelancers sendo jovens, a maioria deles não continua por muitos anos na atividade. Geralmente, o material dos “freelas” é utilizado para a criação de portfólio e experiências profissionais para que eles possam se inserir no mercado de trabalho no futuro, seja em um emprego tradicional, seja como dono da própria empresa. Rafael Gontijo, recém-formado em Publicidade e Propaganda, trabalhava oito horas por dia, de segunda a sexta, no escritório de uma Organização Não-Governamental (ONG). Após alguns meses no cargo de analista de marketing digital, o pu-

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Foto: PatrĂ­cia Moura

Rafael Gontijo, freelancer em Marketing Digital.


blicitário decidiu abandonar a rotina e se tornar freelancer. Ele acredita que assim tem mais liberdade e autonomia. “Decidi abandonar o emprego formal para buscar mais liberdade de tempo e de espaço, já que poderia definir meus horários e onde trabalharia”, explica Rafael. “Outro fator foi a autonomia. Uma coisa que me desagradava no emprego formal era ter um horário fixo a cumprir independentemente de ter muita demanda de trabalho ou não. Além disso, eu estava subordinado a decisões que muitas vezes não me agradavam”, completa. Outro caso é o do advogado Henrique Arake que, apesar de não trabalhar mais assim, realizou diversos serviços de freelancer por um tempo depois que se formou. O advogado conta que a trajetória de como caiu no universo dos freelancers tem muito a ver com os projetos e atividades que participou enquanto estava na universidade. “Durante a faculdade, eu tive a experiência de ter fundando e levado adiante uma empresa júnior. Eu trabalhei com pessoas maravilhosas e tive um gostinho do empreendedorismo. Depois de formado, trabalhei alguns meses como freelancer. Logo fui chamado para trabalhar num escritório de advocacia e acabei aceitando”, aponta o advogado. Ainda assim, ouvir falar

em advogado freelancer pode causar estranhamento, isso porque muitas vezes os freelancers são vistos como pessoas que trabalham com Jornalismo, Publicidade, Design, Fotografia, Mídias Sociais, Tecnologia da Informação e outras áreas de criação. No entanto, Henrique Arake explica que qualquer serviço semelhante ao do autônomo pode ser chamado de freelancer. “O termo freelancer, na verdade, significa trabalhador autônomo. Ou seja, que você vai prestar serviço sobre demanda. Isso é absolutamente compatível com a advocacia, porque a partir do momento que a gente se forma e passa na prova da OAB, nós nos tornamos advogados autônomos”, afirma o ex-freelancer. Autônomo ou freelancer? Segundo dados divulgados pela Previdência Social no ano de 2013, cerca de 12 milhões de pessoas no Brasil estão cadastradas como contribuintes individuais em uma destas três categorias: autônomos, equiparados a autônomos e microempreendedores individuais. Nessas categorias estão os freelancers, que acabam sendo uma “especialidade” transversal aos autônomos e microempreendedores. Não é possível afirmar com exatidão quantos profissionais freelancers existem

no país, principalmente pelo baixo índice de pesquisas atualizadas sobre o assunto, e porque grande parte deles é classificada como contribuinte individual. Além disso, muitos freelancers fazem esse tipo de serviço como renda extra e possuem outras profissões na carteira de trabalho. Por isso, não se encaixam nessa categoria da previdência. Ainda existem freelancers que não se cadastraram no sistema previdenciário, mais um fator que dificulta contabilizar a quantidade exata desses profissionais no Brasil. Mas, afinal, existe diferença entre autônomo, equiparado a autônomo, microempreendedor e freelancer? Mauro Dias, advogado trabalhista e previdenciário, afirma que, juridicamente, não existe diferença entre o autônomo e o freelancer. “A questão básica é só de nomenclatura, porque freelancers e autônomos atuam no mercado da mesma maneira”, explica. Profissional autônomo é aquele que realiza trabalhos temporários ou faz serviços específicos, sem dar continuidade ao vínculo empregatício. “O freelancer é a mesma coisa. Freelancer é um nome mais novo que inventaram no mercado, mas que não deixa de se referir a uma pessoa que também presta serviço de natureza descontínua, e,

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portanto, não caracteriza relação jurídica de emprego”, completa o advogado. Já os equiparados a autônomos segundo o artigo 5º da Lei nº 3.807, de 26 de agosto de 1960, da Constituição Brasileira são: os “empregados de representações estrangeiras e os dos organismos oficiais estrangeiros ou internacionais que funcionem no Brasil, salvo os obrigatoriamente sujeitos a regime próprio de previdência social; os ministros de confissão religiosa, e os membros de institutos de vida consagrada e de congregação ou ordem religiosa, quando por elas mantidos, salvo se: filiados obrigatoriamente à previdência social em razão de outra atividade; [ou] filiados obrigatoriamente a outro regime oficial de previdência social, militar ou civil, ainda que na condição de inativo”. Logo, são pessoas que trabalham em embaixadas ou em organizações internacionais que possuem sede no Brasil, sacerdotes ou pastores e missionários mantidos por uma congregação que não possuem outra ocupação na carteira de trabalho. Os microempreendedores individuais são aqueles portadores do Cadastro Nacional de Pessoa Jurídica, ou seja, CNPJ. As principais diferenças em relação ao autônomo são referentes às contribuições para o Estado e a possibilidade de emissão de nota fiscal por parte do 34 Jenipapo

prestador de serviço. “O autônomo em si, pode prestar serviço somente com o seu CPF, na condição de pessoa física. Essa que é a diferença. Com CNPJ, ele é microempreendedor individual, que vai dar uma nota fiscal e receber seus valores”, explica o advogado Mauro Dias. Natã Barros decidiu se registrar na Previdência Social como microempreendedor individual após alguns anos trabalhando com freelances. Para ele, a forma de trabalhar não mudou, a diferença é que agora ele tem um Cadastro Nacional da Pessoa Jurídica (CNPJ). “Eu só não me considero mais freelancer por ter uma empresa, mas, mesmo assim, a minha forma de trabalho e dinâmica de buscar de clientes não mudou”, afirma o empresário. Previdência Social Ainda com as diferentes formas como esse tipo de serviço é executado, e com as divergências nas questões de nomenclatura, o importante é estar devidamente registrado na Previdência Social e fazer as contribuições necessárias. Só assim o cidadão poderá se assegurar contra problemas futuros nas relações trabalhistas e terá garantia de poder usufruir de sua aposentadoria. O advogado Mauro Dias explica a importância dessas contribuições, inclusive


para os freelancers. “As informações de que o cidadão contribuiu têm que estar no sistema para que você venha a gozar dos benefícios finais, como a aposentadoria, aposentadoria por invalidez, auxílio doença. Ou seus dependentes, como no caso da pensão por morte”. Dias ainda afirma que mesmo o freelancer tem que cuidar da sua vida previdenciária para usufruir das garantias que lhe são asseguradas. Prós e contras Mesmo que trabalhar por conta própria tenha muitas vantagens e seja possível colher frutos no futuro ou em emergências, quando se contribui corretamente, vale destacar que nem todos se adequam a essa modalidade de serviço. O profissional deve estar preparado para produzir e atender às demandas dos clientes com maturidade e saber conciliar as atividades do trabalho em casa. “Essa forma de trabalho vai da personalidade de cada um. Não é todo mundo que tem o perfil de desbravar e de furar fronteiras. Eu conheço gente que funciona muito bem assim e gente que só funciona se sair de casa e ir para um escritório trabalhar”, comenta Henrique. Pensando nisso, a Jenipapo buscou saber quais as vantagens e desvantagens de ser freelancer. Alguns des-

ses profissionais contaram sobre suas experiências e o que eles pensam sobre os dois lados do trabalho. Para o fotógrafo Natã Barros, a principal vantagem é a flexibilidade. “A vantagem é que a gente que faz o nosso tempo, a nossa carga horária e o nosso salário”, afirma. Já os pontos negativos, para ele, seriam relacionados à falta de alguns direitos existentes no trabalho tradicional. “Como desvantagem eu vejo que a gente acaba perdendo alguns direitos de quem tem carteira assinada, como o seguro. A pessoa pode até pagar a previdência dela no particular, mas, normalmente, quem faz freelancer não se liga muito nisso e acaba perdendo esses direitos, que eu acho muito úteis, na hora de um aperto. Eles salvam a gente”, relata Natã. O freelancer Rafael Gontijo destaca como positivo o fato de ele mesmo poder decidir como irá realizar os trabalhos e organizar os próprios horários. “Algumas das vantagens são: liberdade para escolher seus horários e dias de trabalho; possibilidade de escolher de onde trabalhar (quarto, escritório, lanchonete, outras cidades); poder escolher os clientes e projetos para trabalhar; definir o seu preço para os serviços e por sua hora de trabalho; e ter mais tempo para família e outros projetos pessoais”, explica Rafael. Já as desvan-

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tagens, para ele, se referem à falta de renda fixa mensal e a necessidade de conhecer outras áreas de atuação. “Entre as desvantagens eu vejo a falta de estabilidade financeira, já que cada mês o número de projetos e o valor variam, e a necessidade de saber de várias áreas para que o negócio dê certo, como, por exemplo, finanças, comercial, jurídico”, completa. Quando atuava como freelancer, o advogado Henrique Arake também percebeu algumas vantagens, como a flexibilidade e independência. Mas para ele, o retorno financeiro e de captação de clientes, quando se trabalha sozinho, é mais demorado, o que seria um ponto negativo. “A grande desvantagem é que o retorno é muito demorado. A não ser que você tenha um sobrenome famoso, você vai precisar montar sua clientela. Esse é o grande desafio do freelancer, sobreviver até começar a aferir frutos do trabalho que começou lá atrás”, comenta o advogado. A Jenipapo preparou algumas dicas para quem quer ser um freelancer e não sabe

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por onde começar. A primeira delas é pesquisar. Conversar com outros freelancers e tiras todas as dúvidas. Ao conhecer situações comuns a esses profissionais fica mais fácil lidar com determinados problemas. Após entender melhor a área de atuação desejada para realizar os freelances é importante captar clientes. Para fazer isso da forma mais eficiente deve-se ter, pelo menos, um portfólio e cartões de visitas. Deve-se buscar, também, outras formas de divulgação do trabalho, como redes sociais e sites. Além disso, oferecer seus serviços a pessoas mais próximas é bastante eficaz, pois, desse modo, uma rede de contatos vai sendo iniciada e, futuramente, indicações para outras pessoas começarão a surgir. Preparar modelos de contratos e orçamentos é fundamental, pois esse tipo de acordo transmite confiança e credibilidade para o cliente. Estipular prazos, dividir o trabalho em etapas e definir as prioridades das tarefas ajudam na orga-

nização do trabalho. Mesmo que freelancers não tenham rotina, estabelecer horários e evitar distrações na hora de trabalhar é importante. Assim, fica mais fácil para atender as demandas do cliente e cumprir todos os acordos feitos com ele. Outra dica é fazer um controle e administração de finanças. Saber o gasto mensal estimula o profissional na hora de procurar clientes. Se houver gastos a mais, significa que o número de demandas deve aumentar também. Por fim, deve-se fazer o registro na Previdência Social, seja como autônomo, seja como microempreendedor individual. Desse modo, o freelancer pode usufruir de seus benefícios no futuro ou caso tenha algum problema que o impeça trabalhar. Ser amparado pelo Estado é um direito de todo trabalhador que contribui corretamente, e, por isso, ter os devidos registros previdenciários é fundamental para quem quer seguir carreira de forma independente.


TOP 5 do freelancer

VANTAGENS

DESVANTAGENS 1. Dificuldade de captar clientes

1. Flexibilidade de horário e independência

2. Não receber 13º salário ou férias remuneradas

2. Não ter rotina

3. Demora em se consolidar e ver os lucros

3. Trabalhar em qualquer lugar 4. Não ter chefe 5. Ter mais tempo livre

4. Falta de estabilidade financeira 5. Necessidade de conhecer outras áreas, como administração e finanças Jenipapo 37


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Quadro antigo Desvalorização de professores mostra que o Brasil ainda tem muitas lições a aprender sobre educação Susanne Melo

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Salas de aula cheias de alunos bem-dispostos, com alto rendimento e obedientes às orientações dos professores. Na frente, e com um sorriso no rosto e ar de satisfação, o docente ensina com prazer o conhecimento adquirido por formação e experiência. O cenário descrito não se refere à situação atual da educação brasileira. Na visão dos professores, a situação da profissão está bem longe de ser perfeita. Estudo elaborado pela Fundação Lemann, em parceria com o Instituto Paulo Montenegro e o Instituto Brasileiro de Opinião Pública e Estatística (Ibope), aponta diversos fatores que afetam os professores a ponto de prejudicar a forma como trabalham em sala de aula. Dos mil professores entrevistados, apenas 17% estão satisfeitos com o reconhecimento da sociedade em geral, em relação ao seu trabalho; 20%

se dizem satisfeitos com a remuneração e 23% com as boas condições de trabalho (confira no gráfico abaixo). O que esse estudo demonstra é que, hoje, ser professor é associado mais a uma escolha errada do que a uma profissão que traga realização. O diretor do Sindicato dos Professores no Distrito Federal (Sinpro-DF), Cláudio Antunes, explica que no início das décadas de 1920 e 1930, as escolas focavam mais na formação da mulher como professora e, na época, as mulheres já eram bastante discriminadas no mercado de trabalho. Isso se refletiu em salários mais baixos à categoria, mesmo que a formação fosse elevada. “Para você ser professor naquela época, você tinha que, como hoje, estudar bastante e isso deveria se destacar salarialmente, mas não se destacava por conta do recorte de gênero e o pre-

conceito contra a mulher e à mulher no trabalho, embora estivesse quase que consolidado naquelas épocas que isso era uma função feminina. De lá para cá, isso foi se descontruindo, a gente foi florescendo e a própria sociedade mudou e também os comportamentos mudaram. Mas a gente ainda percebe, hoje, que há a desvalorização do professor e ela vem de duas vertentes: tanto de casa/da sociedade, quanto também salarial”, completa. Entretanto, não há apenas um único fator que interfere nesse reconhecimento. Cláudio afirma que muito da desvalorização do professor vem dos valores da própria família do aluno, cujo enfoque mudou ao longo do tempo e se refletiu na parte do respeito (ou a falta de) do estudante pelo professor. “Às vezes, você chama o pai para conversar sobre o problema do filho e na conversa você per-

Satisfação dos professores Reconhecimento da sociedade em geral * 17% Remuneração * 20%

Boas condições de trabalho * 23%

Contribuição para ao aprendizado dos alunos * 72% Responsabilidade social * 65%

Reconhecimento dos pais * 27%

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cebe que é de família, que o pai também tem aquele comportamento. Ou, em certos casos, é até pior. É onde você chama para resolver uma vez, mas aí resolve não chamar nunca mais, porque chamar piora a situação”, revela. A professora Suzimara de Oliveira, diretora do Centro de Ensino Fundamental 01 do Riacho Fundo 2, concorda que o papel da família influencia no modo como o professor é tratado em sala de aula. “Eu acho que se os pais forem presentes na escola, eles também vão aprender a valorizar o professor. Eles vão saber o que o professor está fazendo, porquê o filho fala mal do professor e porquê ele fala bem. Se o pai está presente na escola, conversando, 40 Jenipapo

tendo contato, ele vai ensinar o filho dele a valorizar o professor, respeitar, pedir pra ele estudar mais, valorizar o que o professor passa”. Outro elemento que pode contribuir para esse comportamento da família e do aluno com os profissionais de ensino é a estrutura da escola. A falta de boas condições para receber o estudante no ambiente colabora para as relaçoes inadequadas. “Com tecnologia predial mais nova, o comportamento é outro, mesmo numa cidade carente. Na cidade carente em que a escola está bem equipada, bonita, colorida e limpa, o comportamento dos estudantes e até mesmo da família na escola é diferente daquela escola antiga, velha,

que tá caindo aos pedaços, dando choque. Essa questão é interessante, mas, infelizmente, triste também”, reconhece Cláudio Antunes. No vermelho Percebe-se que, no geral, a relação que o educador tem com a sua carreira vem bastante da inclinação e habilidade para seguir na área, do envolvimento com as questões sociais desenvolvidas e da diferença que é possível fazer na vida de seus alunos. Porém, há de se admitir que ninguém quer “trabalhar por amor”, fazer sacrifícios diários para continuar na lida e não receber dignamente por isso. É o que comenta Mônica Ricarte, 44 anos – professora


há 20 –, que leciona Geografia para o Ensino Fundamental na cidade do Recanto das Emas (DF). “O salário de um professor deveria ter o peso da responsabilidade, afinal estamos envolvidos com o futuro de uma nação. O peso do salário não acompanha o peso da responsabilidade”, diz. Essa é considerada uma forma de agressão ao trabalhador: a desvalorização financeira. De maneira oposta ao que acontece nas relações escola/sala de aula, a questão financeira acompanha o professor 24 horas por dia, gerando dificuldades, inclusive, para a própria família do educador. “Ninguém trabalha por amor. Tem que comprar arroz, feijão e sustentar a família também”, acrescenta Cláudio Antunes. Para ele, a sociedade ainda não abraçou a escola e a educação como algo que ela também tem que passar a defender. A luta do Sinpro hoje é muito grande, do ponto de vista salarial. A organização sindical, não só no Distrito Federal, mas em todo o país se articula para fortalecer a discussão da valorização profissional. O Plano Nacional de Educação (PNE), que foi sancionado pela presidente Dilma Rousseff em junho de 2014 e traz diretrizes para os próximos dez anos, colabora com essa batalha e dá esperanças à classe ao prever mais

investimentos destinados ao magistério. A meta 17, das 20 estabelecidas, idealiza que, até o sexto ano de vigência do Plano, haja isonomia salarial (igualdade em relação à média salarial de outras carreiras de nível superior – médicos, engenheiros e arquitetos, por exemplo). “Isso para trazer um pouco mais de valorização à carreira, já que hoje a gente tem – não no DF, mas no resto do país – vagas sobrando nas universidades federais nos cursos da área de magistério. A tendência é que daqui a 10, 20 anos, a gente tenha um forte problema de falta de professor, porque a carreira não é valorizada financeiramente e, como você ainda sofre outro tipo de desvalorização (que é da própria sociedade e da família do estudante), não se gera mais aquele prazer de ser professor”, afirma o diretor. Além disso, muitas outras questões são levantadas junto à bandeira da classe. Os professores vão às ruas pedir, principalmente, por melhorias nas condições de trabalho. Podem parecer detalhes para alguns, mas são fatores que refletem diretamente na qualidade da educação. Um deles é o empenho para diminuir o número de alunos por sala de aula. Quarenta alunos para apenas um professor significa menos atenção dedicada ao estudante, o que

“O salário de um professor deveria ter o peso da sua responsabilidade, afinal estamos envolvidos com o futuro de uma nação. O peso do salário não acompanha o peso da responsabilidade” Mônica Ricarte

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torna “missão impossível” acompanhar o seu desenvolvimento individual. Porém, muitas vezes, até mesmo os estudantes ajudam a causa dos professores – por meio de grêmios estudantis –, mas os pais abrem mão de se envolver, apesar de declararem sempre que o futuro do país passa pela educação. PDE Já no âmbito do Distrito Federal, o governo deve aprovar o seu Plano Distrital de Educação (PDE) em junho de 2015 – um prazo estipulado pelo próprio PNE. É a primeira vez que o DF faz um planejamento para dez anos, contando com 21 metas: número simbólico para o “quadradinho”. Nelas, o PDE vai falar das condições das escolas hoje e do investimento que é necessário para melhorar. Trata também da valorização profissional, da isonomia salarial com as carreiras de nível superior (assim como no Plano Nacional, mas aqui nós estamos falando de isonomia com as médias das carreiras no DF). Fábio Pereira de Sousa, subsecretário de Planejamento, Acompanhamento e Avaliação Educacional da Secretaria de Educação do Distrito Federal (SEDF), diz que “a Secretaria estima que, ao longo dos próximos dez anos, ocorram melhorias no processo de aprendizagem 42 Jenipapo

dos estudantes e por consequência, os indicadores educacionais, tendo assim uma escola de fato e de direito, com equidade e qualidade para todos, e com condições de trabalho para os profissionais que nela atuam”. A professora Luciana Neves, 34 anos, concorda com o investimento no setor. “O governo precisa entender que a educação é a base para qualquer profissão. Se não temos boas bases não teremos bons profissionais. Está na hora de valorizar o que realmente importa para o futuro do país”, assinala. Paralisação O Sindicato dos Professores considera a greve o último recurso em busca das suas reivindicações e afirma que é difícil haver concordância com todos os docentes para saber se é hora de paralisar ou não. Em fevereiro deste ano, a classe adiou o início do ano letivo em uma semana e, nesse período, convocou assembleias para discutir a realidade trabalhista do setor. De acordo com a SEDF, que possui o controle da folha de ponto, o ato teve adesão de 95% dos profissionais de educação. A professora Mônica Ricarte reconhece que a reação dos alunos quanto ao momento em que ficam sem aulas é imatura. “Eles, por serem ainda muito imaturos,

aceitam positivamente a greve, mas sem a menor consciência cidadã ou crítica. Apenas para se livrar, nem que seja a custo de prejuízo acadêmico para si mesmo”, fala. O outro lado As dificuldades não estão apenas na rede pública de ensino. Professores que ministram aula em escolas particulares também sofrem com diferentes tipos de pressão, dentro e fora da sala de aula. O comportamento da família com os docentes não muda tanto assim, pois, em ambos os casos, se tem a presença de pais superprotetores e também daqueles que não enxergam a importância do ofício na vida do filho. “Porém, na escola particular, se trata de uma relação de mercado, que significa que a educação é vista como uma ‘mercadoria’, onde os pais compram a educação para seus filhos”, esclarece Karina Barbosa, presidente do Sinproep-DF. Ela aponta que, nesse caso, há outra desvalorização que precisa ser avaliada, que é a feita pelas próprias instituições de ensino, e conta que acontecem casos em que o professor precisa aprovar o aluno para que ele próprio não venha a ter retaliações da escola e até ser demitido. Acontece que, quando há uma relação de consumo, o


Foto: Susanne Melo

que é o caso dos estabelecimentos privados de ensino, o retorno que se espera torna-se lucro, em face do que foi investido. “Quando o próprio estudante não dá esse retorno aos pais, eles se sentem no direito de cobrar da escola esse resultado, e na cadeia do ‘poder’, a escola repassa a responsabilidade ao professor”, diz Karina. Existe também a luta pela isonomia salarial entre todos os professores do ensino básico. Os professores de Ensino Infantil e Fundamental recebem menos do que aqueles que ministram aulas no Ensino Médio. Além disso, em muitas escolas, a mensalidade de um aluno já paga o salário do professor. “Muitos acham que os professores recebem muito bem para educar seus filhos e, dessa forma, é claro que eles vão cobrar

que o professor ensine a altura do investimento deles. A escola tem a opção de pagar mais, mas não distribui esse investimento entre os professores e ficam com o lucro de tudo”, relata Karina. Educação de atestado Exercer o magistério, seja no ensino público, seja no privado, envolve muito desgaste emocional e psicológico. Inclusive, é fato reconhecido por Lei – e é por isso que a aposentadoria dos professores é especial. Enquanto as mulheres, de forma geral, se aposentam com 55 anos, as mulheres que dão aula podem parar com 50. Essa diferença se justifica pelo tipo de trabalho que leva à degradação da saúde. Uma das mazelas que pode acometer o profissio-

nal da educação é a Síndrome de Burnout – o esgotamento profissional. De acordo com estudo publicado em 2002, de Tamayo e Tróccoli, trata-se de uma síndrome psicológica decorrente da tensão emocional crônica no trabalho; uma experiência subjetiva interna que gera sentimentos e atitudes negativas no relacionamento do indivíduo com o seu trabalho (insatisfação, desgaste, perda do comprometimento), minando o seu desempenho profissional e trazendo consequências indesejáveis para a organização (como absenteísmo, abandono do emprego, baixa produtividade). Essas e outras doenças são motivos para afastamento. Isso prejudica bastante os estudantes, pois a questão da substituição de profissional ou reposição de aula não fun-

Para Mônica Ricarte, a sociedade deveria acompanhar de perto o trabalho desenvolvido pelo professor.

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ciona da mesma forma que em outros setores. Diferente de um médico, que pode ter seu plantão coberto por outra pessoa ou deixar que seu paciente espere pelo próximo profissional, de outro turno, o professor é responsável por uma turma inteira e não pode passar a responsabilidade para outro, sem a devida preparação prévia. Além disso, quem ministra aula em outro turno também já tem sua própria turma de estudantes para orientar – para juntar as duas, seria preciso um auditório. O diretor do Sinpro-DF acredita que, na verdade, o número de atestados médicos é alto porque são observados os números de forma absoluta. Quando outra carreira apresenta número de atestados menor do que a dos professores, é porque o número de profissionais dela é menor. No caso dos professores, hoje são 30 mil no sistema, sendo que nenhuma outra classe tem esse volume de profissionais. Na Polícia Militar são 19 mil e na Polícia Civil são 5 mil, por exemplo. Assim, os docentes estarão sempre com número maior de atestados médicos contabilizados. “Quando você coloca isso em percentual, nós não somos um ponto fora da curva. Na análise matemática, a gente está dentro da média”, completa Cláudio Antunes. O sindicato argumenta que o governo, para justi44 Jenipapo

ficar a falta de investimento na contratação de novos investimentos, responsabiliza os próprios professores pela falta de educadores na escola, declarando que tiram muito atestado médico. “O que falta aqui é investimento para contratar novos professores, inclusive para essas ocasionalidades.” Ações otimistas Há a intenção de discutir a melhoria da educação a partir de um plano de carreira. No início do ano, a presidente da república definiu o slogan que o país levará ao longo dos próximos quatro anos: “Brasil, Pátria Educadora”. Significa que, embora a sociedade como um todo não aponte a educação como prioridade (nas pesquisas eleitorais, o setor aparece em 5º lugar), o Governo Federal está colocando um desafio. A maneira como o governo pode contribuir é enxergando o sistema educacional como um todo, incluindo os colégios públicos e particulares, e realizando fiscalização nos dois setores. Isso evita que as instituições façam o que querem e da forma como querem; serve para integrar cada serviço às metas educacionais. O reflexo é demorado. Os frutos disso serão percebidos ao longo do tempo de uma geração. Todo o esforço - universalizar o ensino básico,

aumentar recursos e salário pelo piso nacional - poderá ser percebido, se tudo correr bem, talvez daqui uns 25 anos.

“O governo precisa entender que a educação é a base para qualquer profissão. Se não temos boas bases, não teremos bons profissionais. Está na hora de valorizar o que realmente importa para o futuro do país” Luciana Neves


Nem tudo é Real As moedas sociais, com valor correspondente ao real, são alternativas financeiras para regiões de extrema pobreza

Gustavo Góes Enquanto as atenções estão voltadas para o ajuste fiscal, além de outras medidas de valorização da moeda nacional, uma forma alternativa de desenvolvimento cresce a cada ano: as moedas sociais. Apesar de não oficiais, as moedas têm o mesmo valor do real e servem para ampliar a economia de municípios que necessitam de amparo, com altos índices de desigualdade social. As moedas sociais são fornecidas pelos chamados bancos comunitários. Hoje, esses bancos já são, segundo o Ministério do Trabalho e Emprego, 117 em todo o Brasil, considerando também aqueles que ainda estão em fase de implantação. A moeda social é uma opção diferenciada de troca de serviços e produtos e funciona como um empréstimo cujo objetivo final é o benefício da população de uma comunidade. A atividade econômica faz parte da economia solidária, que

busca a geração de trabalho e renda pela inclusão social. Ou seja, a partir do momento que o morador de um município recebe a moeda, ele será obrigado a gastá-la no mesmo local, por exemplo, numa padaria. A troca aumenta as vendas e condiciona a padaria a expandir sua produção e gerar oportunidades de emprego. Sua criação é iniciativa da própria comunidade e o uso é restrito a esse lugar, já que trabalha com duas linhas de crédito, uma em reais e outra na moeda circulante, que não tem validade fora das cercanias. O economista Roberto Bocaccio Fiscelli acredita que a economia solidária é uma área com características de autogestão, com fortes traços cooperativos. “É um ramo da economia que está pouco preocupado com os indicadores econômicos, como o Produto Interno Bruto. Como diria o rei do Butão (Jigme Singye Wangchuck): o im-

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Foto: Gustavo G贸es

Fachada do Banco Comunit谩rio da Estrutural.

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portante não é medir o PIB, e sim, o FIB, Felicidade Interna Bruta”, disse o especialista. “É uma forma de integração com a população local, como, por exemplo, a prestação de serviços e colaboração direta dos cidadãos”, completou. Pioneiro na rede formal de bancos comunitários brasileiros, o Banco Palmas, fundado em 1998, em Fortaleza, movimentou cerca de R$ 40 milhões e beneficiou mais de 48 mil pessoas em 2014. O montante é resultado não só de produtos financeiros, como operações e empréstimos, mas um conjunto de ações, entre elas cursos de capacitação profissional, oficinas de educação financeira e educação pedagógica. No Brasil, quem trata do assunto é Ministério do Trabalho e Emprego, através da Secretaria Nacional de Economia Solidária (SENAES/MTE). Mesmo contando com uma lista de Rede de Bancos Comunitários, é reconhecida a existência de outros que não estejam em sua relação, como, por exemplo, o Neuro Banco, localizado no Paraná. Porém, ao contrário do que é exigido pela Rede, não existe a correspondência no valor da moeda para o real. Em Curitiba, na comunidade Vila Pantanal, onde circula a moeda, um neuro equivale a R$ 3. O sul do Brasil ainda carece de bancos comunitários. O Neuro Banco e o Pontes

Solidárias são os únicos de conhecimento do MTE nessa região e, mesmo assim, não são registrados na Rede de Bancos Comunitários. Para o especialista em Economia Solidária, Newton Marques, a ortodoxia, corrente de pensamento da economia que não acredita na intervenção do Estado para fazer políticas públicas de melhoria do mercado, é um dos fatores para que faltem bancos desse porte na região Sul. “A ortodoxia e questões culturais fazem com que esse tipo de economia não se espalhe por todo o Brasil. Muitos economistas vêm como algo muito surreal, de sonhador”, explicou. Além do pensamento ortodoxo, o economista cita a presença do cooperativismo como o outro fator para que os bancos comunitários não estejam presentes em algumas regiões. “Ao contrário da região Nordeste, o cooperativismo está muito presente nas regiões Sul e Sudeste. Isso explica a grande quantidade de bancos concentradas em certos lugares”, disse.

“A ortodoxia e questões culturais fazem com que tipo de economia não se espalhe por todo o Brasil. Muitos economistas vêm como algo muito surreal, de sonhador” Newton Marques

Conquista No Distrito Federal, a moeda social de mais destaque é a Conquista, que circula na Estrutural. Oriundo de uma invasão de catadores de lixo próximo ao aterro sanitário da capital, o local carece de saneamento básico, educação, saúde e segurança,

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fatores que influenciaram a criação de um banco comunitário na região. O banco surgiu a partir de uma proposta do Núcleo de Economia Solidária da Universidade de São Paulo, junto ao SENAES, de criar um banco na região Centro-Oeste, em 2011. Além da Estrutural e do Itapõa, que, hoje, possuem bancos comunitários, também estavam na disputa do edital São Sebastião e Arapoanga, em Planaltina. A falta de bancos na Estrutural, que possui apenas uma casa lotérica e uma agência do Banco de Brasília, fez com que a região recebesse o primeiro banco comunitário do Distrito Federal, em junho de 2012. O Banco Comunitário da Estrutural tem um fundo de R$ 26 mil para empréstimos, oriundo do Fundo Nacional de Solidariedade e de doações, que, segundo Deuzani Noleto, diretora do banco, foi todo emprestado. “As pessoas pagam e emprestamos de novo. Com isso, já fizemos em-

préstimos para mais de cem pessoas”, disse a diretora. Os empréstimos se baseiam em três linhas de créditos: a produtiva, de construção e a de consumo. A linha produtiva ajuda os empreendimentos e os pequenos empresários e comerciantes; a de construção ajuda nas reformas e construções dos espaços físicos dos empreendimentos; e a de consumo ajuda em despesas emergenciais. Entretanto, a Conquista, segundo Deuzani, ainda não se popularizou. Ao contrário da linha de crédito que está sendo utilizada, a moeda social ainda sofre resistência por parte dos comerciantes e moradores, sobretudo por características peculiares da cidade. A Estrutural é um exemplo de cidade-dormitório. Ou seja, os moradores trabalham o dia inteiro e chegam na cidade apenas para descansar. “Por se tratar de um lugar assim, poucas pessoas se conhecem nas ruas, o que dificulta a proliferação da moeda. Quando o

morador da cidade pega uma moeda social, ao invés de usála dentro da cidade, prefere trocar para poder ter a liberdade de usar em qualquer lugar”, afirmou Deuzani. Enquanto isso, o Banco Comunitário da Estrutural busca parcerias para que a moeda se torne também uma conquista para os moradores da região. A possível parceria com a Caixa para se tornar um correspondente bancário e de crédito limitado, além de parcerias na própria Estrutural, como, por exemplo, a do restaurante comunitário, é o que mantém vivo o sonho dos integrantes do banco, que, mesmo com pouca confiança, não perdem a esperança. A dependência de diversos fatores, desde sua criação até sua consolidação no cenário econômico de uma cidade, faz com que a moeda social seja uma incógnita. Entretanto, a lógica de seu sucesso é justa: para ser ajudada a população tem que ajudar.

“As pessoas pagam e emprestamos de novo. Com isso, já fizemos empréstimos para mais de cem pessoas” Deuzani Noleto 48 Jenipapo


Foto: Gustavo G贸es

Conquista, a moeda do Banco Comunit谩rio da Estrutural.

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Foto: Lucas Lélis

A carranca em sua finalidade original, protegendo a embarcação dos desafios do Velho Chico.

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Mais forte que caboclo d‘água Usado como escudo de navegação, artesanato de carrancas ainda está vivo na região do São Francisco

Lucas Lélis Em uma noite de lua cheia, uma embarcação navega pelo rio São Francisco. Nela, pescadores trabalham para garantir o sustento de suas famílias. As esposas destes pescadores aguardam, dentro do barco, o fim da pesca. De repente, as águas ficam agitadas. Os tripulantes se assustam. O que todos temiam começa a acontecer: o ataque do caboclo d’água. Para as mulheres, o homem registrado nas lendas do rio era bonito, charmoso e perfumado. Com medo de se deixarem seduzir, faziam oferendas de cachaça e cigarros para que a criatura não as atacassem. Quando o caboclo d’água

consumia a bebida e o fumo deixados por elas, a beleza acabava, a aparência e os odores terríveis apareciam. O que ficava, nas mulheres, era o nojo. Os homens, mais medrosos, não o enfrentavam. A cachaça e o fumo eram a forma mais comum de afugentar esse malfeitor mitológico. Contudo, o método mais eficiente, segundo os barranqueiros (habitantes das margens do rio São Francisco), é a carranca, que em um primeiro olhar chega a ser assustadora e curiosa, mas logo mostra os ricos detalhes das peças esculpidas em madeira e afixadas nas proas de embarcações. As carrancas são escultu-

ras que misturam as formas humana e animal, utilizadas, a princípio, na proa das embarcações que navegavam pelo rio São Francisco. Essas são as carrancas de Pirapora, cidade situada ao norte de Minas Gerais. Os dicionários de língua portuguesa definem a palavra carranca como sendo uma figura sombria, de cara feia e de mau humor (sentido que passou para o vocabulário popular, designando o rosto de alguém aborrecido). Estima-se que as carrancas surgiram na cultura nordestina, especificamente na região do médio São Francisco, entre 1875 e 1880, e foram produzidas com propósitos

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mágicos até o ano de 1940, quando se encerrou o ciclo das embarcações no Brasil. Benjamim O vapor Benjamim Guimarães foi a mais importante dessas embarcações a cruzar o rio. Construído em 1913, nos Estados Unidos, e comprado na década de 1920 por uma empresa brasileira, ele navegou do rio Mississipi até a Bacia Amazônica e, desde 1920, vive às margens do Velho Chico. Foi utilizado por várias décadas como transporte de cargas e de passageiros no trecho Pirapora-Juazeiro e também pelas tropas do Exército Brasileiro. Mesmo sem navegar nas águas do Velho Chico, por consequência da seca, atualmente ele é o único barco a vapor em funcionamento no país e tem capacidade para transportar 140 pessoas. A embarcação possui 12 cabines com beliches, dois refeitórios e oito banheiros. São 44 metros de comprimento, oito de largura, oito de altura e três conveses. Nele, também, as carrancas estão presentes, mas hoje apenas como decoração. A carência de instrução e conhecimento fez com que existisse uma tendência à submissão e à crença no poder sobrenatural desses artefatos. A ingenuidade dos habitantes do interior do país, com pouco acesso à cultura letrada e à ciência, 52 Jenipapo

também explica a crença em superstições e lendas. O Velho Chico é um rio cheio de contradições, belezas, problemas de riqueza e pobreza, em que as vidas vão sendo tecidas na inconstância das águas e nas tábuas do Benjamin Guimarães. Os carranqueiros se unem à essa história e são verdadeiros livros humanos de um passado que começa a ficar distante. Dona Lourdes é um deles. Maria de Lourdes Gonçalves Barroso é uma habilidosa carranqueira, além de cantora e poetisa. Suas aventuras começaram aos 12 anos, quando um circo passou por sua cidade natal, Serrinha, próxima a Salvador, na Bahia. Fugas Lourdes saía escondida de casa para cantar no circo. Sua família não aceitava a vida de artista e diziam que era impróprio para uma moça de família. Essa aventura durou pouco tempo. Certo dia, o pai de Lourdes foi ao circo e assistiu a um espetáculo. Mesmo gostando da apresentação da filha, ele e a esposa a obrigaram a abandonar a carreira de cantora. Lourdes conta que nesse dia levou uma surra de uma dúzia de palmatórias. Como toda jovem rebelde, Lourdes não era de aceitar ordens e nem desistia de suas vontades. Continuou fugindo de casa até os 16

anos, para cantar, até conseguir se mudar para Salvador, estudar música e participar como corista da orquestra Azevedo. Nessa época, Lourdes chegou até a cantar na rádio Excelsior da Bahia. Apresentando-se em boates e festas, a moça destemida conheceu várias pessoas importantes e influentes. Uma delas era um político opositor ao governo militar recém outorgado. Essa ligação com a esquerda, em uma época de violentas perseguições políticas, mudou a vida da então cantora Lourdes Gonçalves, que decidiu voltar escondida para Serrinha. Nessa nova fuga, ela recebeu um telegrama anônimo, com instruções para se juntar a uma companhia teatral e seguir até a cidade de Juazeiro, no interior da Bahia. No caminho, o grupo embarcou em uma antiga barca a vapor que fazia o trajeto Pirapora em Minas Gerais até Petrolina, em Pernambuco, navegando pelo rio São Francisco. Durante o percurso, Lourdes foi seguida por um homem misterioso, que carregava uma maleta preta. Quando já estava no vapor, o sujeito deu voz de prisão à fugitiva. Mas, para a sorte de Lourdes, a embarcação tinha um comandante decidido e corajoso, o capitão Francisco Barroso, que saiu em defesa da cantora, impedindo a prisão. “Barroso disse para ele: ‘eu sou o capitão e daqui ela


Foto: Lucas LĂŠlis

Carranca tradicional de Pirapora, na casa de Lourdes.

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não sai. Quem vai se retirar é o senhor’. E, então, eu fiquei dentro do barco por mais cinco anos, com medo de ser presa”, conta Lourdes. Durante as longas viagens no vapor, Lourdes conheceu Francisco Biquiba Dy Lafuente Guarany, ou simplesmente Guarany, o maior carranqueiro de que se tem notícias. Descendente de espanhóis, Guarany era um homem rude, ignorante, além de não gostar da aproximação das pessoas. Em certa ocasião, o capitão Barroso apresentou Lourdes ao famoso carranqueiro. A intenção era de que o mestre ensinasse a cantora a esculpir carrancas. Mas, com sua famosa ignorância, Guarany

se negou a auxiliar Lourdes nessa nova atividade. Com a negativa do carranqueiro, Lourdes passou a observá-lo de longe, e logo começou a esculpir as suas carrancas. Mesmo depois de tanto tempo, Lourdes ainda produz carrancas e tem orgulho de ter criado os cinco filhos com o dinheiro da venda das peças. “Eu acho que, apesar dos pesares, eu faria tudo novamente. Hoje é que a gente pensa que foi feliz e não sabia. Então, acredito que as pessoas deveriam aproveitar bastante o dia a dia porque o futuro é incerto e depois a gente vai sentir saudades daquilo que a gente pensava que era ruim e, na verdade,

não foi ruim. Foi uma aventura boa, cheia de medo, saudades e tristezas, mas foi muito bom, compensou e voltaria tudo novamente”, afirma Lourdes. Mudanças Alguns artesãos se destacaram na produção de carrancas, conquistando exposições das peças em museus, mas com a seca que atinge o Velho Chico, as navegações, que já tinham uma constante queda estão praticamente extintas. As carrancas que eram exibidas nas proas dos barcos se tornaram desnecessárias e hoje servem apenas como artefatos artísticos e artesanais. O Benjamim Guimarães

Foto: Lucas Lélis

Lourdes Barroso: uma vida ligada ao São Francisco e às carrancas.

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dos meus companheiros foram todos desembarcados.” A situação do rio afeta também muitos artesãos da cidade, que vivem exclusivamente da venda e escultura de carrancas, um ofício que não se aprende com facilidade. O diretor do Patrimônio Histórico e Cultural de Pirapora, Adélio Brasil, fala do significado das carrancas para a população da cidade. Para ele, esses artefatos constituem uma verdadeira tradição. “Carranca a gente não ensina a fazer, cria-se o costume que é quase familiar ou comunitário, são as pessoas de um mesmo meio ou de uma mesma família que aprendem de uma certa forma. Muitos passam o dia vendo o pai fazer e acabam aprendendo. Eu já tentei es-

culpir carrancas, mas não deu certo. Acredito que é algo que vem na genética da pessoa.” Adélio ressalta, ainda, que existem comparações entre os aspectos estéticos e culturais das carrancas do rio São Francisco e das proas dos barcos vikings, mas essas comparações acabam ficando presas na crença popular por falta de dados que confirmem a passagem do povo nórdico pelo Brasil. Durante a produção desta reportagem não foi encontrado nenhum artesão aprendiz na arte de confecção de carrancas para embarcações, o que concretiza a mudança de destino das peças, das proas dos barcos para decorações de casas, comércios e cidades localizadas as margens do rio São Francisco.

Foto: Arquivo O Estado de Minas

também sofre com essas mudanças. Até o início do segundo semestre de 2014, a embarcação atraía turistas de todo o país para passeios na orla da cidade de Pirapora, mas a seca que atinge o rio interrompeu a rotina dos tripulantes do vapor e mudou o roteiro dos viajantes que costumavam passar pela região. O comandante do Benjamim Guimarães, Jason Batista Ferreira, relatou a tristeza em não poder realizar as viagens. “Eu me sinto triste com essa situação porque o barco é uma atração do município e quando o vapor para, a cidade perde parte do turismo porque a maioria dos viajantes vem aqui exatamente para navegar no Benjamim Guimarães. Sem contar que a maioria

Barranqueiros aproveitam o verão de 1979 nas águas do Velho Chico. Ao fundo, a ponte Marechal Hermes.

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Foto: Lucas Lélis

Ponte O fluxo migratório do Nordeste para a região Sudeste do país na primeira metade do século XX teve como rota principal o rio São Francisco. Os aventureiros esperançosos por uma melhor qualidade de vida seguiam por longas viagens nos barcos a vapor até a cidade de Pirapora, onde tomavam um trem com destino a duas importantes capitais brasileiras, Belo Horizonte e São Paulo. O grande marco desse fluxo migratório está entre as cidades de Pirapora e Buritizeiro, em Minas. A ponte Marechal Hermes tem quase 1km de extensão e foi fabricada na Bélgica. A sua construção foi iniciada em 1901, quando chegaram as primeiras peças para a sua montagem. Em 1914, as obras da ponte foram paralisadas devido às cheias do São Francisco, que impediram a elevação dos pilares, e apenas em 1918 aconteceu o reinício das obras. Em 1922, a Ponte Marechal Hermes foi inaugurada pelo então presidente da república, Epitácio Pessoa. Com o crescimento da população ribeirinha nos dois lados do rio, as pessoas começaram a atravessar a ponte onde deveria passar apenas as locomotivas. Nesse processo, eram comuns dois tipos de acidentes: ou a pessoa caia da ponte pelos vãos entre os batentes da ferrovia, ou eram atropeladas pelo trem. Na década de 1950, a ponte foi liberada para o trânsito de veículos e, na década de 1990, foi interditada por questões de segurança. Atualmente, só é possível atravessar a ponte a pé ou de bicicleta.


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Sobre paredes e muros Grafiteiros apostam nas galerias sem deixar de lado a cultura das ruas

Foto e graffiti: Raíssa Miah

Raíssa Miah A rua é cinza, múltipla e efêmera. Galerias são neutras, reservadas e se limitam à quatro paredes. Atitude, clandestinidade e doação fazem do graffiti uma arte indomável. Hoje, sua representação estética está nas bienais, livros e até em aplicativos. De castelos a grandes prédios, o movimento que surgiu nos trens de Nova York está colorindo várias partes do mundo. Nem sempre foi assim, e essa aceitação social está colocando em cheque a essência marginal que fez dessa arte uma das mais livres expressões artísticas de intervenção nas cidades. Estilos, técnicas e conteúdos chamaram a atenção de galeristas e os artistas ur-

banos estão cada vez mais investindo nas artes plásticas como carreira. Mas o graffiti dos becos e vielas não morreu e ainda conta com uma cultura firmada em laços de relacionamentos, raízes na liberdade de criação e na quebra de regras sociais. Encontrar um equilíbrio entre o mundo da rua e da galeria é a missão de quem tem a rua como museu. Na década de 1970, os trens de Nova York rodavam a cidade com assinaturas por dentro e por fora. Jovens esquecidos socialmente – negros e imigrantes – encontraram na pichação do metrô uma forma de se fazer presente. A descoberta trouxe autoestima, diversão e protesto. O governo se incomodava com as formas

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estéticas, mas também com o que aqueles traços representavam: o descontrole. Taki 163 foi o primeiro a fazer assinaturas em Nova York. No início, quase toda a população considerava o graffiti vandalismo. No Brasil, não foi diferente. O país conheceu o graffiti como um integrante do movimento Hip Hop, composto também por outros três elementos, o DJ, o Break e o Rap. O filme Wild Style (1983), dirigido por Charlie Ahearn, assim como o documentário Style Wars (1983), de Tony Silver e Henry Chalfant, fizeram a geração brasileira dos anos 1980 entrar de cabeça na cultura nova-iorquina. A imersão não durou para sempre, o jeitinho brasileiro temperou as práticas trazidas da América. “Não queríamos ficar reproduzindo o que os gringos já faziam, queríamos um estilo próprio”, ressalta o precursor Tinho Nomura, falando da época que começou em São Paulo, junto com Os Gêmeos, Binho Ribeiro, Vitche e Speto, grandes nomes do graffiti hoje. Os escritores de rua, como eram chamados em 1970, se tornaram cada vez mais independentes do Hip Hop. Com o passar dos anos, os murais grafitados se tornaram cada vez mais trabalhados em detalhes e efeitos. Os riscos diminuíram e o tempo de dedicação aumentou. No Brasil, diferente de 58 Jenipapo

outros países, os grafiteiros têm mais tranquilidade para pintar – apesar da opressão policial e das mais diversas eventualidades que a rua pode oferecer. “O muro pintado é importante. Mas o artista em ação, o momento da pintura, gera um vínculo com quem passa. As pessoas passam a perceber mais a rua depois disso”, revela Naiana Nati, uma das mais antigas graffiteiras de Brasília. Spray, tinta de parede e marcadores compõem o leque de materiais que dão resultado às mais diversas expressões do imaginário dos ditos escritores de rua. O graffiti têm uma estética construída na ilegalidade e no risco de vida. Depois de muitas mortes – por quedas e atropelamentos – e também da forte pressão do governo para evitar o vandalismo, o grafiteiro Seen e alguns amigos resolveram fazer pintura em um muro, como opção para os trens nova iorquinos. Depois disso, a pintura em muros passou a ser a mais difundida em todo o mundo. Ainda existem aqueles que têm a pintura de trens como o verdadeiro graffiti, e mantêm a tradição do estilo bomb: graffiti feito às pressas e na ilegalidade. O grafiteiro Carlos* gosta de preservar este estilo, mas reforça que o importante é a atitude, seja em um bomb ou em uma superprodução. Lamenta que exista divisão e defende que

essa arte é livre. “O graffiti tem se tornado cada vez mais cult, e acho que o bomb ainda faz um papel importante, o de chocar as pessoas”. A graffiteira paulista Tikka Meszaros, por outro lado, acredita que o graffiti é uma forma de expressão da própria cidade. “As pessoas pensam que o graffiti é uma decoração para a cidade. A verdade é que nem todo graffiti é bonito, e nem é pra ser. Pessoas, às vezes, são consideradas apenas números. A arte de rua vem como uma expressão de individualidade. Vem para mostrar que somos diferentes e queremos coisas diferentes”, ressalta. Ruas coloridas mostram aquilo que a cidade expressa. Mas também falam de pessoas – dessas pessoas que pintam. Paredes servem de páginas em branco. Arte livre. A arte que muitas vezes é efêmera, ganha seguidores e tem seu tempo de vida multiplicado em imagens na internet. Uma rede inteira é formada. Contatos são feitos entre uma pintura e outra, entre um encontro e outro. Amizades e até mesmo casamentos. Para o grafiteiro brasiliense Stark, a arte fz parte da sua vida. “Faço graffiti há sete anos. Desde o momento em que eu acordo, mexo no meu celular, vejo novos ‘trampos’, novas tendências. Eu sempre me informo sobre graffiti. Mais que uma prática, é uma paixão.”


O despertar de apreciadores de arte para as ruas fez com que galeristas apostassem nessa estética. Grandes murais bem trabalhados e em grande quantidade chamaram atenção da mídia. Grafiteiros passaram a aparecer em jornais, revistas e programas de TV, o que rendeu encomendas de telas e pinturas decorativas para todo tipo de ambiente. Exposições como a 3° Graffiti Fine Arte, que aconteceu no primeiro semestre de 2015, são cada vez mais visitadas. A mostra reuniu 60 grafiteiros de diversas partes do mundo no Pavilhão das Culturas Brasileiras, no Parque do Ibirapuera em São Paulo. Entretanto, muitas vezes o que a galeria consegue é apenas a representação estética do graffiti, agregando outras técnicas e suportes, como a escultura e a pintura à óleo. Essa percepção atravessa a própria identidade dos artistas, que passam a se colocar de maneira diferente na galeria. “Quando estou na galeria, sou Tikka, a artista plástica. Graffiti, para mim, é estilo de vida”, diz Tikka Meszaros. O mesmo acontece com Shock Maravilha. “Conheci o graffiti adolescente e ele me fez querer estudar desenho. Eu fiz três faculdades, com foco em artes plásticas. Hoje, trabalho com galeristas, mas prefiro fazer meus trabalhos

Foto: Raíssa Miah

Quatro paredes

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Foto: Davi Mello

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Foto: RaĂ­ssa Miah


autônomos. A galeria exige muito que eu siga uma linha vendável. Sou mais prático do que didático, nunca quis ser artista acadêmico. Eu gosto de variar e a galeria me limita”. Outros grafiteiros têm uma relação boa com as quatro paredes e conseguem um equilíbrio entre o papel que fazem nas ruas e o papel que fazem na galeria, como conta Felipe Rdoze. “A gente vai para a galeria achando que é graffiti. Estamos acostumados com a liberdade”, explica. Um novo universo é apresentado para esses artistas que se formaram em meio ao turbilhão das ruas. “Existem regras do tipo: a moldura que devemos usar, a tinta que dura mais, o que é vendável e o que não é vendável, o que queremos transmitir. Essas regras me fizeram ir para uma etapa mais profissional”. Rdoze deseja fazer pintura em telas e exposições, mas não vê sentido em seguir sem a vivência das ruas. “Hoje, separo muito isso. Tenho o graffiti como fonte de inspiração, uma forma de en-

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contrar os amigos, quebrar a rotina e transformar a rua. Tomo muito cuidado para não estragar tudo que foi construído lá atrás”, declara. O graffiti está em todo lugar, mas muitos ainda não o apreciam. A galeria oferece uma representação estética do graffiti e algumas pessoas passam a ver a rua com outros olhos a partir das exposições. A galerista Vanessa Lima, anos atrás, abriu uma galeria com foco em arte urbana. A empreitada não durou muito, mas continua acreditando no potencial artístico daqueles que têm a rua como suporte. “Eu admiro o graffiti pela liberdade de expressão que mostra a todos sem distinção. Percebo uma rebeldia, intenções provocativas, políticas, questionadoras. Mas muitas vezes apenas belas”, ressalta Vanessa. Os Gêmeos são o grande símbolo de graffiteiros que entraram para as artes plásticas e deram certo. As obras deles na galeria têm uma proposta muito diferente das ruas. Instalações, pinturas, esculturas, objetos

n

sonoros, telas, carros, barcos e espelhos compõem um universo lúdico e fantástico. Folclore, e personagens urbanos interagem com o público em suas exposições “A passagem do grafiteiro para as galerias mostra uma necessidade. Muitas pessoas querem levar essa arte para casa. Então, se tem a necessidade de aprimorar técnicas e encarar um mercado exigente”, completa Vanessa. A relação entre ruas e galerias ainda é incerta, mas o graffiti das periferias, dos grandes centros e das esquinas não deve acabar tão cedo, conseguindo se manter inclusive em tempos de adversidade. Graffiti que rende boas histórias e que faz pessoas de mundos diferentes se encontrarem. Arte que faz pedestres se sentirem parte; que tira do rotineiro e que convida para o lúdico. Pinturas que chegam onde a maioria das artes não alcançam e que inspiram outros a colorir, dando vida ao cinza.


Foto e graffiti: RaĂ­ssa Miah

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A difícil arte do fracasso Vista como experiência negativa, a derrota pode ser um importante passo para o autoconhecimento Gabriela Gregorine

“Eu fracassei” é admissão rara para muita gente. A aceitação do vocábulo “fracassar” quase não é percebida no nosso dia-adia. Não somos preparados para o fracasso, para a perda. Somos ensinados a acertar e a lutar para alcançar o sucesso. Se optarmos por não tentar ou se o objetivo não é alcançado, logo recebemos a premiação infeliz de títulos e rejeição. Ser fracassado é escolha ou consequência da vida? Eis uma questão duvidosa. A perda, material ou simbólica, se tornou um estigma e, muitas vezes, é assimilada de forma negativa. Para o Aurélio (não um homem, mas o dicionário) fra-

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cassar é falhar, malograr-se. Já o seu significado para o ser humano é complexo, variado, instável. Há uma divisão de ideias, conceitos, de acordo com a vivência e realidade de cada um. Uma enquete realizada com 40 pessoas, para esta reportagem, teve como objetivo compreender a visão que cada um tem do fracasso. Os dados apurados mostraram como a sociedade enxerga o fracasso, se os participantes já fracassaram e como isso foi superado. A pesquisa também possibilitou concluir que existem aqueles que dramatizam essa ideia. “Fracasso? A vida”, disse um dos entrevistados. Outros


buscam utilizar a derrota como aprendizado para um futuro sucesso, por vezes próximo, outras vezes distante. Alguns não admitem fracassar, ora por vê-lo como oportunidade de acerto, ora por omitir-se, esconder-se em torno dos próprios fatos (veja infográfico). O fracasso é causador de temores, mesmo a falha sendo comum ao ser humano. “O temor ao fracasso no nosso atual modelo de sociedade é ligado ao esquecimento ou à sensação de não servir para fazer aquilo que não se venceu a disputa”, explicita o sociólogo Daniel Crepaldi. O fracasso é sinal de fraqueza e incompetência, é um assunto refugiado, não discutido, o que fica perceptível quando buscamos fontes documentais sobre o tema. Um levantamento feito nos sites das livrarias Saraiva, Cultura, FNAC, Leitura, Submarino e Cia dos Livros, mostra que, dentre os 3.116 exemplares disponíveis sobre a temática do sucesso e do fracasso, cerca de 91% (2848) tratam do sucesso e apenas 9% (268) falam a respeito das derrotas. São títulos como 10x: a re-

gra que faz diferença entre o sucesso x fracasso, de Grant Cardone; Colapso: como as sociedades escolhem o fracasso ou o sucesso, escrito por Jared Diamond; Vencendo o medo do fracasso, por Billy Bright; O fracasso e o sucesso, de José Luiz Gonçalves; O triunfo do fracasso, feito por Pallares-burke e Maria Lucia Garcia; Sucesso ou fracasso: vivendo uma jornada de fé, obra de Bill Crowder e David Roper. A pessoa que fracassa é estereotipada como alguém que não deve ser seguida socialmente, ou seja, ela acaba sendo desprezada. “Nosso modelo de sociedade vangloria o vencedor e o que estiver fora desse conceito, não serve. Uma medalha de prata numa competição não é valorizada. Em pouco tempo, ninguém se lembra do vice”, completa o sociólogo Crepaldi. Iyanla Vanzant, autora nova iorquina, é conhecida por seus livros sobre a temática, como Enquanto o amor não vem; Sei que vou sair dessa; Posso conseguir o que desejo; Fazendo as pazes com a vida e A vida vai dar certo para mim, to-

dos voltados para auxiliar quem acha que foi derrotado. “Meu maior objetivo é que as pessoas conheçam a si próprias com profundidade e usem este conhecimento como um meio de cultivar o amor e a afirmação de seus desejos na condução de suas vidas”, explica Iyanla Vanzant. Em um de seus livros, Enquanto o amor não vem, Vanzant ressalta a importância do autoconhecimento, cujo termo técnico é autognose ou heautognose, e do amor próprio. “Infelizmente, achamos que podemos nos unir a outras pessoas antes de nos unirmos a nós mesmos. Isso é absolutamente impossível. Você não irá receber amor de fora enquanto não for amor por dentro”, afirma. Daniel Crepaldi explica que há uma construção histórica de padrões que são passados de geração em geração. o fracasso é mantido como uma questão cultural, na qual a possibilidade de mudar os valores agregados à ação são vistos pela perspectiva de cada um, que enxerga o fracasso de maneira individual e social, ao mesmo tempo.

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“A ideia seria reduzir o grau de disputa negativa em todos os níveis da sociedade”, acrescenta o sociólogo. O fracasso, por vezes, pode causar medo, angústia, estresse e depressão. Mas quais tipos de fracasso existem? Além do profissional e amoroso, existem as falhas do dia-a-dia como na criação dos filhos, nos estudos, no autoconhecimento, chamadas de falhas sociais. Há também a não admissão do fracasso, que, para a psicóloga Juliana Ramalho, seria a pior maneira de fracassar. “Tendo conhecimento do fracasso, a pessoa tende a buscar alternativas para os problemas, quando ela não tem conhecimento disso vive num mundo de ilusões e mentiras, prejudicando não só aos outros como principalmente a si, completa a psicóloga. Já o psicanalista Bregantin não considera a não admissão como o pior dos fracassos, mas uma porta aberta para uma psicopatologia grave. “Admitir os fracassos serve como desenvolvimento pessoal e coletivo. O não admitir os fracassos nos leva ao isolamento e à solidão”, acrescenta. O fracasso é para a psico-

logia e para a psicanálise um instrumento de autognose, diferente da designação do sentido da palavra para o dicionário. No processo de conhecer a si mesmo, a cura não é o foco principal, mas sim a compreensão do causador do problema. “Não há cura [Heilung] do inconsciente, não se cura do gozo ou da singularidade, mas se pode arriscar um possível tratamento [Behandlung]”, elucida Gustavo Rodrigues Borges de Araújo, no artigo Fracasso e transferência: entre a cura e o tratamento. A superação do fracasso se dá pela sua aceitação, pelo seu reconhecimento. “Aceitar que nós erramos/fracassamos abre possibilidades do autoconhecimento, ou entendimento de que a vida é um eterno aprender e desenvolver-se”, esclarece o psicanalista Paulo Bregantin. Mesmo Freud já dizia que o propósito principal da psicanálise, nascida do fracasso da medicina em tratar a mente, é entender a relação da adversidade (no caso o ato de fracassar) com o inconsciente. O psicanalista utiliza o método de Associação Livre e a Ressonância Límbica para o alcance da heautognose. “O processo é entender as repetições

do passado e o ‘porquê’ aconteceu. Entendendo isso, podemos traçar novas possibilidades para o futuro”, reitera o psicanalista. Já a psicologia opera de uma maneira diferenciada. “Trabalhando a aceitação, o autoconhecimento, o apoio da família, a independência e a auto estima”, afirma a psicóloga Juliana Ramalho. Somente em casos extremos é indicado o acompanhamento psiquiátrico, com uso de medicação. O conhecimento próprio tão falado pela psicóloga, pelo psicanalista e por Vanzant é algo que ultrapassa o individual e possui um viés social. “O fracasso é algo que atinge o indivíduo, mas é criado coletivamente. Suponho que por mais que um indivíduo supere sozinho um eventual fracasso, tal superação só seria completa diante de reconhecimento social”, menciona Daniel Crepaldi. Apesar dos efeitos colaterais, as falhas não têm contraindicação, seu uso é comum a todos e não há um manual e nem uma bula a ser seguida. Às vezes, a derrota pode servir como uma lição. “Fracassa. Não importa. Tenta outra vez. Fracassa de novo. Fracassa Melhor”. Admito, eu também já fracassei.

“Mas se você achar que eu tô derrotado/Saiba que ainda estão rolando os dados/Porque o tempo/ O tempo não pára”

Cazuza | O tempo não pára

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2% Afirmam nunca ter fracassado

77% Admitem já ter fracassado

50% Você já fracassou?*

Acham que se deve tentar de novo quando há derrota

* Resultado de enquete com 40 entrevistados. Jenipapo 67


68 Jenipapo Ilustração: Vanessa Castro.


Herança de família Número de jovens que abusa do álcool aumenta, muitas vezes, por incentivo dos próprios pais Marina Ferreira

3, 2, 1. Pronto, desceu rasgando tudo, como se fosse um comprimido grande e amargo. Mas não, nesse caso foi apenas mais um gole de uma mistura de vodca, catuaba e energético. Em qualquer festa é o que mais tem. Na verdade, não existe uma boa festa se não tiver muitas latas e garrafas de bebida alcoólica. Pode até faltar o anfitrião, menos o bendito álcool. Ele tem a capacidade de trazer aquele efeito de transe e ao mesmo tempo euforia. Não consigo descrever a sensação, pois não estou bêbado no momento. Essa história tem sido cada vez mais frequente no Brasil como mostra os dados da Pesquisa Nacional de Saúde do Escolar (PeNSE). A pesquisa constatou que muitos fatores contribuíram para o crescimento do número de etilistas jovens direta e indiretamente. Um deles é o estímulo familiar na faixa etária entre os 12 e 17 anos. Os pais acreditam que, ao

incentivar os seus filhos a consumir bebidas alcoólicas em casa, conseguirão controlar a quantidade ingerida e educar sobre as formas conscientes de beber. Durante a adolescência, os jovens querem ter novas experiências, principalmente quando sugeridas pela família e pelos amigos com quem possuem maior afinidade. Hudson Cunha, 24 anos, trabalha com produção de eventos. Por ser o neto primogênito, e seus tios incentivarem a masculinidade através do consumo de bebidas alcoólicas, Hudson começou a beber cerveja com 15 anos, quando o momento foi considerado um batizado por seus parentes. “Tudo começa com um simples gole, não dá para imaginar a dimensão que esse ato vai atingir futuramente, porque desde aquele dia até hoje não parei mais”, relata. Desde a infância, ele presenciou nas festas familiares cenas em

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que o álcool era o grande protagonista. Em especial, nos churrascos, aniversários e jogos de futebol. Acabava a comida, mas jamais a cerveja. Hudson possui um irmão mais novo, Gabriel Cunha, de 18 anos, técnico em informática, que também foi incentivado pela família a ingerir bebidas alcoólicas. No entanto, Gabriel já havia provado vodca na escola, pela primeira vez, com apenas 13 anos. Segundo ele, o episódio aconteceu num dia após a aula, quando comprou uma Orloff junto com seus amigos. Depois da iniciativa, Gabriel continuou consumindo álcool, mas em grande quantidade. Como resultado entrou em coma alcoólico algumas vezes. Uma delas ocorreu na comemoração de seu aniversário de 18 anos, causada pelo exagero de uísque e tequila. Quando oferecem bebidas alcoólicas ao adolescente pela primeira vez, a decisão de aceitar e continuar consumindo dependerá da escolha dele. A psicóloga, Bruna Andrade, 24 anos, teve o comportamento oposto ao de tantos jovens que precisam apenas de um ponto de partida para exagerar na dose. Aos 9 anos, seu tio trocou sua garrafa de guaraná por uma garrafa de cerveja. Como as duas eram de vidro, Bruna acabou não percebendo a mudança. E, consequentemente, ingeriu um pouco de álcool. 70 Jenipapo

Atualmente, pode ser que traumatizada pela situação da infância, recusa qualquer convite para beber. “Eu não consumo bebida alcoólica em praticamente nenhuma hipótese, pois não suporto o sabor”, comenta a psicóloga. Mesmo hostilizando o álcool, ela continua tendo contato com a substância, devido a seu pai e irmãos beberem frequentemente. Para ela, a família é um incentivo à ingestão de bebidas porque há um princípio cultural estabelecido de que o consumo deve ser passado de geração em geração. “A repetição de padrões também é cíclica, como o pai que experimentou cedo introduzindo o álcool precocemente ao filho, e assim por diante”, explica. Nos casos de Hudson e Gabriel Cunha a família foi bastante incisiva no processo de influência. No entanto, outros grupos sociais também incentivam a prática, por exemplo, os amigos. Durante a adolescência, muitas vezes a relação mais próxima se dá com eles ao invés dos pais. Lucas Albuquerque, 19 anos, não começou a beber estimulado pelos familiares. Mas, indiretamente por seus amigos que consumiam por perto. “A primeira vez que experimentei, aos 14 anos, foi porque vi todos os meus amigos bebendo”, relata. A adolescência é um período marcado por inúmeras descobertas em que a vulnera-

bilidade psicológica aumenta. Nesse período, os jovens buscam elementos que os auxiliem a estabelecer relações sociais com o objetivo de garantir maior autonomia dos pais e liberdade para novas experiências. A máxima que: “o escondido é mais gostoso, perigoso e divertido” dos adolescentes tem forte relação com o consumo de bebidas alcoólicas. Alguns, ao contrário de Hudson Cunha, começam a beber sem o consentimento dos pais, que descobrem, às vezes, da forma mais trágica. Por exemplo, em acidentes, intoxicação e até mortes. O universitário Humberto Fonseca, 23 anos, entrou em coma alcoólico e morreu em fevereiro de 2015, em Bauru (SP). Ele ingeriu 30 doses de vodca durante uma festa open bar. A estudante de Odontologia, Loyane Diva, 18 anos, também começou a beber escondida de sua família. Quando tinha 14 anos, ela e mais três amigas levaram para um acampamento garrafas de bebidas alcoólicas. Lá, foi o seu primeiro gole. Fase de crescimento Os adolescentes não possuem estrutura física e psicológica para aguentar doses altas de bebidas alcoólicas em tão pouca idade. O consumo das substâncias durante a adolescência prejudica o desenvolvimento dos jovens


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Foto: Kamila Braga


Efeitos da ingestão precoce de bebidas alcoólicas por adolescentes

Prejudica principalmente as áreas relacionadas à memorização, capacidade de aprendizado e responsabilidade. Os danos são ligados ao aumento da pressão arterial, o que pode ocasionar uma arritmia. Vômitos e úlceras. No estágio avançado, pode causar câncer.

Fluxo menstrual intenso, dor e incômodo no órgão genital.

Infográfico: Vanessa Castro

Doenças como hepatite alcoólica, cirrose e câncer.

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devido a fase envolver mudanças psicológicas, físicas, hormonais e comportamentais. “Os efeitos das bebidas alcoólicas no organismo de um adolescente têm um impacto muito maior em relação aos adultos, por exemplo, o fígado não tem capacidade de absorver a substância tóxica”, explica Betina Gracjer, pediatra especialista em prevenção e saúde coletiva. Vítor Borges, 21 anos, estudante de Direito, começou a consumi-las aos 14 anos e teve seu primeiro “porre” com 15. “Aconteceu na festa de amigos, e até me arrependo por esse meu primeiro porre. Acho que não tinha maturidade e idade para isso. Mas, foi bom para aprender a ficar mais esperto e beber menos, para não passar tanto mal o quanto eu passei”, conta. A situação descrita por Vítor acontece com 80% dos jovens brasileiros antes dos 18 anos, como mostra o relatório da Fundação Hospitalar do Estado de Minas Gerais (FHEMG) de 2013. A Pesquisa Nacional de Saúde do Escolar (PeNSE) de 2012 revela que, no Brasil, o adolescente ingere bebida alcoólica pela primeira vez, em média, aos 13 anos. Outro dado apontado pela pesquisa é que as meninas estão consumindo mais que os meninos. “Eu acredito que é por causa de tudo ser mais acessível. Antigamente, era feio beber excessivamente,

em especial para as mulheres. Hoje, não. Beber e fumar são algo bonito por se estar livre”, explica Loyane Diva. Para os garotos e garotas que se embebedam entre 10 e 17 anos, os efeitos são ainda mais graves devido à potencialização das bebidas acontecer com mais intensidade durante a formação do cérebro, coração, fígado, estômago e sistema reprodutivo. Ponto de fuga Vários fatores contribuem para o alto consumo de bebidas alcoólicas. Um deles são as intensas sensações provocadas. Alguns jovens consideram o álcool como uma válvula de escape dos problemas que enfrentam. Segundo o psiquiatra da Infância e da Adolescência, Miguel Boarati, as bebidas alcoólicas, quando ingeridas, provocam uma sensação de tranquilidade e relaxamento no corpo. Elas funcionam como um sedativo do sistema nervoso central, que agem nos neurotransmissores inibidores do cérebro conhecidos como receptores gabaérgicos. Esse sistema é responsável principalmente pela comunicação entre as diversas partes do corpo humano com o ambiente externo, afirma o psiquiatra. As condições sociais também são consideradas um grande incentivo ao consumo de bebidas alcoólicas

pelos jovens. Estudos identificaram que os adolescentes das classes média e baixa são mais suscetíveis a dependência de drogas. O principal motivo é a presença marcante da violência no ambiente familiar como mostra a tese A influência da família no consumo de álcool pela adolescência, de Betânia Gomes, doutora em Enfermagem. Durante entrevistas com os adolescentes, ela verificou que a convivência dentro de suas casas foi marcada por agressividade física e psicológica, separação conjugal, mortes e embriaguez dos pais ou irmãos mais velhos. De acordo ela, por vivenciarem frequentemente ações violentas envolvendo o alcoolismo, os jovens acabam as repetindo. “O papel dos pais e do ambiente familiar é marcante no desenvolvimento do adolescente e, consequentemente, na sua relação com álcool e outras drogas”, afirma Betânia. Por dentro da lei O consumo elevado de bebidas alcoólicas pelos adolescentes, bem como o aumento do número de casos de coma alcoólico na rede pública de saúde, alertaram o Estado para a criação de medidas de amparo à infância e juventude. Levantamento publicado pela revista científica Drugs and Alcohol Dependence, em 2012, com

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NÍVEL DE ÁLCOOL NO SANGUE E EFEITOS NOS ADOLESCENTES Alcoolemia (mg%)*

Quadro Clínico

30

Excitação, euforia e alteração leve de atenção.

50

Perda leve da coodernação motora, alteração do humor, personalidade e comportamento.

100

Perda perceptível da coordenação motora, diminuição da concentração e piora dos reflexos sentivos.

200

Perda do controle muscular durante movimentos voluntários, náuseas e vômitos.

300

Dificuldades de falar, amnésia, hipotermia.

400

Coma alcoólico e morte (bloqueio respiratório central).

* Alcoolemia: Concentração de álcool no sangue resultado de bebidas alcoólicas. Fonte: Fundação Hospitalar Estado de Minas Gerais (FHEMG) - Projeto Diretrizes - Abuso e Dependência do Álcool

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mais de 15 mil jovens brasileiros ouvidos, constatou que 40% deles consomem o entorpecente na própria casa, na de amigos ou de parentes. O estudo verificou também que um a cada três adolescentes se embriagou ao menos uma vez no ano. Como resultado, desde 2010, dobrou a quantidade de atendimentos nos hospitais envolvendo o excesso de álcool por menores de idade. Os dados apurados nas pesquisas identificaram que o alcoolismo precoce tem relação com o insucesso escolar, acidentes, violências, comportamentos de risco, tabagismo, uso de drogas ilícitas e sexo desprotegido. Preocupado, o Governo Federal buscou minimizar o problema sancionando a Lei nº 13.106, em março de 2015. “O principal objetivo da lei é punir rigorosamente as pessoas que vendem substâncias contendo álcool aos menores de idade e aumentar a rede de proteção sobre crianças e adolescentes brasileiros”, explica o autor do projeto, o senador Humberto Costa (PT-PE). O Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA), na década de 1990, considerou crime a oferta e a venda de drogas ilícitas aos menores de 18 anos por causarem dependência física e psíquica. As bebidas alcoólicas não


foram inclusas no código, pois a legislação não criminalizava a conduta de ofertar álcool a crianças e adolescentes. A pena do adulto vendendo droga aos adolescentes seria a entrega de cestas básicas ou prestação de serviços comunitários. Com a nova lei em vigor, o governo junto com o Ministério da Educação pretende combater o alcoolismo precoce. e conscientizar as pessoas dos males do álcool. “O consumo de bebida alcoólica é um dos principais fatores de risco para os indivíduos em todo o mundo”, apontou o senador. Proibir ou não proibir? Apesar de tudo isso, a visão benéfica do álcool é difundida naturalmente, mesmo ele tendo relação direta com aproximadamente 60 problemas de saúde e 40 mil mortes em acidentes de trânsito, segundo o Ministério da Saúde. A Associação Brasileira de Psiquiatria (ABP) defende que o Estado deve fiscalizar e proibir o conteúdo das campanhas publicitárias das empresas de bebidas alcoólicas. A ABP entende que as mensagens utilizadas persuadem o público, em especial os adolescentes, num universo lúdico e extremamente benéfico do produto. “Vale destacar a importância da in-

fluência cultural e da mídia sobre os jovens, pois a adolescência é uma fase crucial no desenvolvimento da personalidade e da individualidade. Nessa idade, o adolescente é muito influenciável, e o marketing e a propaganda atingem propositalmente os jovens, sendo eles o alvo”, conta Betânia Gomes. O principal argumento utilizado pela associação é que os anúncios, durante sua veiculação, não enfatizam os riscos que estão associados ao alcoolismo. “Em nenhum momento, eles pontuam as situações envolvendo a desagregação familiar, acidentes automobilísticos, doenças hepáticas, cardíacas e cerebrais, morte precoce”, explica o psiquiatra Miguel Boarati. Ele defende que as campanhas de bebidas alcoólicas deveriam esclarecer sobre os seus danos, como ocorreu com o tabaco em 2000, ano em que as marcas de cigarro, charutos e semelhantes foram obrigadas a colocar em suas caixas os problemas que os fumantes enfrentariam se persistissem no consumo da droga. As empresas também foram proibidas de anunciar na televisão, revistas e jornais e de patrocinar eventos esportivos. Na época, o ministro da Saúde, José Serra, declarou que a propaganda de cigarro foi proibida por ser caracte-

rizada como enganosa devido ao produto fazer mal à saúde. A população brasileira associa, de modo cultural, que para o lazer acontecer, deve existir a presença de bebidas alcoólicas, comprova o estudo da Faculdade Latina de Ciências Sociais (FLACSO) feito em 2012. A análise averiguou que o álcool é a droga mais consumida no Brasil. Para que os brasileiros recebam menos estímulos, a opção defendida pelos profissionais da saúde é acabar com esses tipos de anúncio que tentam persuadir, ao mesmo tempo instigar, motivar e produzir o desejo de beber. “As campanhas publicitárias deveriam sim ser proibidas, a exemplo do que ocorreu com a do tabaco há alguns anos. Isso porque elas ressaltam os prazeres do álcool, a jovialidade, a sociabilidade e a relação de poder com os pares”, declara Miguel Boarati. O consumo exagerado de bebidas alcoólicas vai passando de geração em geração. O pai oferece ao filho um copo de cerveja como se fosse uma substância benéfica à saúde. Para ele, um gole não faz mal ao desenvolvimento mental e físico do adolescente que, naquele momento, passa por muitas transformações, sendo uma delas a formação da própria identidade.

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76 Jenipapo Foto: Projeto Brasília – Patrimônio Cultural da Humanidade | Com autorização


a Crônica

Minha casa Gabriella Bertoni Barulho. Gritos. Correcorre de um lado para o outro. Milhares de sorrisos no rosto. A alegria no olhar da primeira vez. A mesma alegria na décima. Subir a escada e encarar a ponte de madeira, cercada por suas correntes, bamba como uma fita ao vento. Subir a rampa de ferro, desgastada pelos seus longos anos. Passar pela agonia de milhares de crianças presas em sua escada em caracol, sem saber por onde sair, por onde descer. A vitória por achar a saída, sorrir para o sol e correr de volta ao início da fila. E o mesmo frio na barriga de encarar essa longa jornada que não durará mais que cinco minutos. Não cansada de subir e descer, corro por todos os lados, não sabendo por onde começar. Tantos lugares a desbravar, a percorrer. Em

um canto, um castelo. Em outro, uma carruagem. Sinto-me uma princesa. Em seguida, uma pirata, depois um pássaro, voando alto em meu balanço. A areia em meus pés me dá liberdade, o vento em meu rosto me dá vontade. Vontade de viver e reviver tudo novamente, várias vezes. Aqui, posso ser quem eu quiser. Basta saber até onde minha imaginação pode me levar. Em 1971, foi inaugurado o parque Iolanda Costa e Silva, nome da esposa do presidente Arthur da Costa e Silva. Poucos anos depois, foi rebatizado de parque Ana Lídia, e até hoje assim se chama. Pedaço do Parque da Cidade Dona Sarah Kubitschek, seus vários quilômetros guardam, com a elegância de uma senhora e vitalidade de uma jovem, os sonhos de milhares de

crianças que por ali passaram. Hoje, vários adultos levam seus filhos e netos. Basta passar pela entrada de placa singela e acanhada, com seus vendedores de deliciosas pipocas e coloridos balões, que a magia torna-se palpável aos sentidos de quem ali esteve anos antes. Ficou nacionalmente conhecido com a música de uma banda que estourou nas paradas de sucesso. Quando Eduardo e Mônica se encontraram aqui, talvez não soubessem o futuro que os aguardava. E o parque une inúmeras magrelas, ou camelos, assim como Eduardo as chamava. Um lugar bom para conhecer ou viver um amor. O casal pode não ter brincado em seus balanços, mas certamente o filhinho de Eduardo brincou. Imaginação ou não de Renato, é isso que acontece

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m

Ana Lídia na escola.

todos os dias nesse lugar. É inevitável passar por perto do parque e não ser abarcado pela sua melodia. Não importa a idade que tens, se 5, 20 ou 40, sempre terás vontade de brincar em suas cores e sons. Nascido no quadradinho de Brasília ou não, ele sempre te acolherá, como acolhe os vários artistas que por ali passam. São palhaços, que com suas maletas se deixam descobrir de formas incríveis, ou capoeiristas, que com sua jinga embalam as tardes junto aos berimbaus. Também há os que escolhem o cenário para fotografias, ou apenas sentam em seus bancos de pedra para apreciar a arte que o Ana Lídia lhes proporciona. 78 Jenipapo

Sem falar das amizades. Lembro-me como era fácil olhar para um lado, um novo amigo, para o outro lado, um a mais para minha bela coleção. Brincar naquela imensidão não era possível sozinha. Precisava de tripulantes para meu barco, de princesas para meu castelo e astronautas na minha equipe. E sempre os encontrava, ali, de prontidão. Alguns rostos diferentes, mas sempre amigos. Talvez ainda os encontre nas ruas sem esquinas da cidade, sem me lembrar de seus encantos infantis. Essa sou eu, aos 49 anos. Venho ao parque e inevitavelmente lembro-me de todos os doces momentos.

É engraçado como quando pequena, cada degrau é um desafio. Olho para cima e percebo que minha memória pregou-me uma peça durante todos esses anos. O foguete já não é tão alto e tão assustador quanto da primeira vez. A areia não é tão limpa quanto eu me lembrava. Minha querida tartaruga está cansada e envelhecida, já não aguenta tantas crianças em seu casco. Minha adorada carruagem enferrujou ao chegar da meianoite. Os laços dos cadarços das botas que tanto brinquei se desfizeram. O lindo barco viking afundou. Hoje, quando coloco meus pés nesse piso com algumas


pedras soltas, sinto-me viva. As lembranças que me tomam fazem-me lembrar de todos os momentos. Sintome orgulhosa por fazer parte dessa história de maneira tão intensa. Tudo teria sido perfeito, se eu não estivesse em meu túmulo. Sou tida como santa, milagres são atribuídos a mim. Creio que meu maior milagre é o que faço todos os dias. Ilumino os caminhos das crianças que em meus brinquedos se divertem. Hoje, moro do outro lado do sul da cidade, junto a vários outros que se tornaram minha família, junto a outros que também já não se sentem vivos. Quando estou aqui, em minha casa de pedra, lembrome de minhas bonecas. Quando recebo flores cor de rosa, fico agradecida pelo carinho. Quando ganhei o parque de presente, me senti criança novamente. A criança que nunca pude ser. Eu, Ana Lídia Braga, fui retirada à força da minha infância e não sei o motivo até hoje. Prefiro não me lembrar. Gosto de deixar em minhas lembranças apenas as partes boas e o que minha memória proporcionou à minha cidade. Conto minha história aqui, nessas páginas, não como algo trágico, mas como algo mágico. Vejo-me em cada pequeno ou grande sorriso das pessoas que ali passam o

dia. Não posso sair da minha outra casa, escura e sem vida, com pequenos grãos de areia que em meu cabelo se acumulam, mas sei que fui importante de certa maneira, já que inúmeras crianças, hoje grandes, me visitam e me arrumam. Limpam, perfumam, decoram minha eterna morada. Alegro-me em saber que não sou lembrada apenas pelo meu assassinato cruel e covarde, mas também pela minha delicadeza e beleza. Em saber que os futuros pequenos aventureiros não me conhecerão só de cabelos mal cortados e roupas sujas de sangue, com a infância violada, mas com o frescor da juventude de minha infância eterna. Irão lembrar de mim como a amiga que no parque brincou com eles. Que os ajudou a superar obstáculos e os proporcionou um dia de aventuras e brincadeiras. E assim me lembrarei de mim mesma, com um sorriso e um sentimento de vida vivida. Pode passar quantos anos forem possíveis. Enquanto essa cidade existir, lá estará minha casa, seja a de pedras ou a de cores. Seja apenas nas lembranças, na história, lá viverei. Os pequenos crescerão e trarão outros, em um ciclo incapaz de acabar. Percebo que esse é o legado deixado por mim a partir do momento em que me retirei da vida.

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Foto: Gabriella Bertoni

Se estivesse viva hoje, Ana LĂ­dia teria 49 anos.


Com açúcar e trabalho Empreendedorismo gastronômico é alternativa para carreira de brasilienses Rosi Araújo Apesar da pouca idade, Brasília é a quinta melhor cidade para abrir e manter uma empresa de alto crescimento, como afirma um estudo feito em 2014 pela Endeavor, organização de fomento ao empreendedorismo ao redor do mundo. Esse dado confirma que a capital, além de ser um bom espaço para explorar o comércio, tem todas as características necessárias para consolidar e desenvolver as empresas, principalmente no ramo da gastronomia, pois os brasilienses prezam pela qualidade de vida e cultura. Além

disso, existe um movimento para explorar a comida de países, cidades, regiões e até viagens com roteiros que incluem somente restaurantes. Mesmo assim, os jovens brasilienses têm uma difícil decisão: atuar no setor privado ou se tornar servidor público? Apesar da cultura que cerca os brasilienses – aquela que diz ser melhor seguir carreira pública –, muitos estão optando pelo empreendedorismo gastronômico. Nesse setor, os doces, brasileiros ou estrangeiros, ocupam lugar de honra. Esses empreen-

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Foto: Rosi Araújo

dedores se arriscam em negócios que, ao final, rendem milhares de reais ao adoçar a vida dos brasilienses com suas opções culinárias. Embora sejam comumente entendidas como palavras sinônimas, o mercado costuma distinguir empresários e empreendedores. Em termos gerais, o empresário é aquele que possui um ótimo conhecimento em técnicas de administração e monta uma empresa. O empreendedor está muito mais ligado a uma postura, um comportamento, uma forma de ver o mundo. “O empreendedor, em essência, é a pessoa que tem capacidade de idealizar

Persistência, sorte e bons contatos ajudaram Leandro Oliva a melhorar seus negócios em Brasília.

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e realizar coisas novas. Pense em qualquer pessoa empreendedora que conheça e você identificará nela a capacidade de imaginar e fazer as coisas acontecerem”, afirma Antonio Cesar Amaru Maximiano, professor de administração. Segundo a Pesquisa Distrital por Amostra de Domicilio PDAD/DF 2013/2014, realizada pela Companhia de Planejamento do Distrito Federal (CODEPLAN), o contingente total de trabalhadores que são empreendedores representa 22,65%. Dentro dessa porcentagem, estão incluídos três jovens responsáveis pela reabertura de uma grande rede de donuts (um tipo

de rosquinha americana) na cidade: Leandro Oliva, Leandro Braz e Ricardo Monteiro. Lição Não é a primeira vez que eles abrem uma franquia na área gastronômica. Há 10 anos, também foram os responsáveis por trazer uma franquia de healthy food para Brasília. Abriram a primeira loja em um shopping em Taguatinga, mas não durou muito. Oito meses depois, a loja foi fechada. Leandro Oliva admitiu que devido a erros no plano de negócio a loja teve suas atividades encerradas. Um dos motivos foi a es-


colha errada do local, que não apresentava circulação do público alvo da lanchonete. Mas os erros fizeram com que os jovens tomassem uma lição de administração, além de serem visitados pela sorte. O representante da marca no Centro-oeste ofereceu a oportunidade dos dois Leandros e de Ricardo construírem um novo e estruturado plano de negócios em outro estabelecimento comercial. Assim, conseguiram abrir mais 13 lojas da cadeia de healthy food no DF. Sorte, mais uma vez, e contatos importantes ao longo dos anos foram fundamentais para a reabertura, depois de uma década, da marca americana de rosquinhas Dunkin’ Donuts em Brasília. Foram dois anos de negociação e muita paciência com a famosa burocracia brasileira até o fechamento do contrato. “A inauguração da loja estava marcada para dezembro de 2014, mas os containers que traziam a matéria prima para as rosquinhas deveriam ter chegado em novembro. Foi uma espera de 120 dias causada exclusivamente pelas burocracias de importação”, declara Leandro. Outro caso de grande sucesso é o da casa especializada em bolos mais famosa do Distrito Federal. A ideia de abrir a loja veio de outro estado, assim como o dono: da Paraíba. É comum encontrar

espalhadas naquele estado lugares que vendem variedades de bolos, diferente de Brasília em 2007. Na época, não existia nada parecido na região, quando o empreendedor Flávio Cavalcante inaugurou a primeira loja, com apenas 27 anos, sem qualquer planejamento, plano de negócio ou pesquisa de consumo. Mesmo assim, a Bolos do Flávio se tornou um triunfo, contrariando as regras básicas de administração que recomendam planejar antes de abrir qualquer negócio. Determinação. É assim que Flávio resume como conseguiu vencer. “Não terminei meus estudos. Saí do meu estado com minha esposa e pouquíssimo dinheiro, alguns equipamentos simples e muita força de vontade”, revela. Oito anos depois, Flávio contratou a primeira administradora que hoje o ajuda com as 11 lojas. Ainda assim, o paraibano gosta de supervisionar de perto o trabalho dos funcionários das filiais. O faturamento médio de cada uma de suas lojas é de mais de 24 mil reais e a média de bolos vendida em 2015, é de três mil bolos por mês. Assim como qualquer outro comércio, Bolos do Flávio recebeu inúmeras críticas por vender um único produto. Mas a visão de Flávio é diferente. “Como empreendedor, sempre tive certeza que ia ser sucesso. Pelos mesmos motivos que os outros não acredi-

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tavam”, afirma. Esses exemplos que instigam e fazem pensar na carreira empreendedora apontam alguns requisitos que são necessários para a vitória no campo empresarial. Antes de abrir seu negócio, é importante pesquisar, procurar conhecer bem o público alvo do empreendimento, as preferências do nicho escolhido,

verificar localização, fazer uma previsão de faturamento mensal, conhecer a legislação especifica para o ramo, pensar no treinamento da equipe. É fundamental, também, atender bem e fidelizar os clientes. Para cada área, as especificidades devem ser analisadas com muito cuidado. Se for possível, deve-se contratar uma consultoria.

Empresas e instituições, como Sebrae e Endeavor, prestam consultorias, cursos ou até mesmo preparam o plano de negócio para que empreendedor não fique a mercê no mercado. É muito raro, quase um milagre, que o negócio sobreviva sem quaisquer técnicas de administração ou planejamento. Mais do que açúcar, é preciso trabalho.

Dicas para abrir seu negócio Área de atuação

Informe-se sobre as oportunidades no mercado. A área escolhida deve combinar com perfil e habilidades de quem deseja empreender.

Afinidade

Goste daquilo com o que vai trabalhar. Estude a concorrência, faça cursos. Eventos e feiras podem auxiliar.

Viabilidade

Procure saber também se é viável abrir o negócio, se há possíveis clientes.

Plano de Negócio

Elabore um plano estruturado para os 12 primeiros meses de operação.

Um bom lugar

O lugar deve estar perto do público alvo, favorecer a logística. Dependendo do ramo, devem ser feitas outras análises. Procure ajuda para compreender melhor.

Sócio

Falta de experiência pode ser crucial para a sobrevivência. Pense em ter um sócio que já possua um histórico empreendedor.

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As curvas do quadrado brasiliense Ser diferente na cidade de concreto, conhecida pelos moldes do serviço público, é um desafio. Mas, para quem foge do padrão, toda jornada é uma boa história Bruno Vaz e Gabriella Bertoni

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“Entre os graus 15 e 20 havia uma enseada bastante longa e bastante larga, que partia de um ponto onde se formava um lago”. Foi neste lugar, sonhado por Dom Bosco, encravado no meio do cerrado, cercado por todos os lados pelo estado de Goiás, que Juscelino Kubitschek, à época presidente do Brasil, resolveu acreditar na visão do santo que dizia: “quando se vierem a escavar as minas escondidas no meio destes montes, aparecerá aqui a terra prometida, de onde jorrará leite e mel. Será uma riqueza inconcebível”. Juscelino, de fato, a construiu. 50 anos em cinco. A pressa trouxe junto uma multidão para dar conta de tanto esforço. O presidente estava empenhado e fez com que todas as paredes fossem erguidas. Longe do mar, no Planalto Central, inúmeros trabalhadores batalhavam para ter um canto onde morar e oferecer um bom futuro para a família. Com o passar do tempo, as maiores oportunidades em Brasília, a terra prometida, foram se tornando sinônimo de concurso público. Hoje, esse é o grande foco de quem decide vir para cá em busca de melhores condições de vida. Mas, como não há vagas para todos, os candangos ou brasilienses recorrem a outras opções. É o que mostra a Pesquisa de Emprego e De-

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semprego, feito pela Secretaria de Estado do Trabalho e do Empreendedorismo no ano de 2013. De acordo com o estudo, em setembro de 2013, 2.378 pessoas estavam em idade ativa de trabalho no Distrito Federal, ao passo que 12 mil estavam desempregadas, e dos ativos, 195 mil estavam no setor público do GDF. A diferença de salário é outro dado que chama a atenção. No setor privado, a média salarial era de R$ 1.370, enquanto no setor público era de R$ 5.621. Nesse cenário, que aponta para um tipo de profissional mais conservador, parece não haver lugar para os mais alternativos. Ledo engano. Andando pelas curvas de Brasília, muitos provam que podem se encaixar em qualquer cargo, independente de seus estilos de vida. Esse é o caso dos três personagens dessa reportagem, que, com estilos de vida diferentes da maioria dos colegas de trabalho, dão espaço para que a criatividade e seus talentos modifiquem a rotina pesada de suas profissões. Um médico que é músico, uma trans que é funcionária pública e um presidente de moto clube que é analista de sistemas, além de pastor. São de pessoas assim que Brasília também é feita, cada um com suas particularidades.


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Arte: Ana Siqueira | Foto: Celso Junior


88 Jenipapo Arte: Ana Siqueira | Foto: Celso Junior


Escolhi ser médico Tatuagem no braço, cabelos longos, alargador na orelha, guitarra em mãos. Marcelo Turko é vocalista. Estetoscópio no pescoço, jaleco branco no Hospital das Forças Armadas (HFA). Dr. Marcelo Rezende é chefe de cirurgia geral. Seus instrumentos de trabalho são o bisturi e a palheta. Ele conta que a medicina foi escolha, já a música veio do coração, por isso é que a arte de salvar vidas se tornou o hobbie de Turko, vocalista e guitarrista da banda Filhos da mãe Joana. Filho de vida simples em Minas Gerais, o pai é borracheiro e sanfoneiro, o que explica parte da sua propensão musical. Logo quando decidiu ser médico, sua mãe falou que “menino de escola pública não passa em medicina, tem que ter dinheiro e ser estudado para isso”, mas Marcelo insistiu na vontade e, no bom dizer popular, enfiou a cara nos livros. Se formou pela Universidade Federal do Triângulo Mineiro e foi lá que surgiu o apelido usado hoje como nome artístico. Mineiro já tem fama de pão duro, estudante então, nem se fala. Sem poder gastar muito e um tanto quanto magrinho, Marcelo foi apelidado de Turkinho. Os anos passaram, a idade chegou e

junto trouxe alguns quilos a mais. Passou a ser Turko e mudou-se para Brasília. Com a perspectiva mais comum da capital, passou no concurso da Secretaria de Saúde do GDF e foi mandado para o Hospital do Paranoá como cirurgião, onde não havia equipe de cirurgia. Tempos depois, foi convocado no concurso do HFA e por aqui ficou. Voltando para casa em um estado entre a consciência e o sonho, Turko decidiu que precisava se dedicar a uma outra paixão. Muitos médicos acabam sendo seduzidos pelo plantão. É mais dinheiro entrando na conta. Um colega colocou na ponta do lápis quantas noites viradas no hospital o renderiam um milhão de reais. “Só preciso trabalhar um ano seguido, posso dormir aqui mesmo, tem comida para os funcionários também… é como se eu estivesse preso, só que ganho meu milhão”. O espanto na cara de Marcelo deixou bastante claro o quanto esse pensamento vai contra os seus princípios. Afinal, nem todo o dinheiro do mundo compensaria essa loucura. Abriu mão da renda extra para viver mais. Aos poucos, assumiu o jaleco branco apenas em seu horário de trabalho oficial. Em um anúncio de um amigo ele viu a oportunidade de investir no seu sonho antigo. Juntou

o dinheiro guardado para a reforma de seu consultório particular e comprou o seu próprio estúdio de música. Tirou da pasta algumas antigas canções e montou a banda. Hoje, troca as noites de plantão por noites de boa música, cantando e tocando nos palcos de Brasília. O estilo de músico, os cabelos longos e a tatuagem em nada o atrapalharam em sua carreira de médico, nem quando precisa sair às pressas do ensaio de bermuda e camisa preta para atender algum paciente em apuros. O amor pelo ofício levou Marcelo a se impor pela competência e estudo. Ele enxerga como poucos a beleza de salvar uma vida usando as suas mãos, trabalha com amor e trabalha bem. Turko e Resende são apaixonados pela arte e em sua dupla identidade, Marcelo se diverte no trabalho, seja com a guitarra ou o bisturi em mãos, trabalha curando as doenças e as almas ao mesmo tempo. Os instrumentos musicais espalhados pelas paredes do quartel general dos Filhos da Mãe Joana dão um ar especial para o local e é lá que a banda surgiu e onde eles se divertem, se dedicam e riem alto, felizes com o que estão fazendo. É onde um médico, um enfermeiro, um biólogo e um bancário encontraram a sua válvula de escape.

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Me chamo Bianca Moura No tempo livre ela dança forró, caminha, lê, toma uma cervejinha gelada. Em tempo integral, defende a causa LGBT e gosta de militar. Coisas normais do diaa-dia de muitos. Bianca, servidora pública de 45 anos, é uma mulher dedicada ao trabalho e à luta de gênero. Totalmente resolvida quanto sua sexualidade, sua antiga identidade ficou no passado. A transexualidade não é impedimento para se chegar onde ela está agora. Aos 20 anos, tornou-se servidora, aos 25, mulher, iniciando o processo de hormonização. Sabia que era diferente desde muito cedo. “Passei pelo preconceito de ser muito afetado e os coleguinhas não quererem andar comigo”. Mas, com apoio da família e com a coragem de enfrentar o mundo, se tornou quem é hoje, uma cidadã sem medo de enfrentar os seus caminhos. Bianca caminha em meio à multidão tranquilamente, de cabeça erguida, sem nem ao menos lembrar ou se importar com os momentos de preconceito passados. Credita isso ao apoio recebido por parte da família e ao ensinamento de sua mãe de que “a opinião dos outros jamais poderia ser barreira para meu sucesso”. Atualmente, no Palácio 90 Jenipapo

do Buriti, na Gerência de Aposentadorias e Pensões do GDF, mantem suas amizades com os servidores há 25 anos, desde antes da transformação. “Tenho um bom relacionamento com todos. Sou uma pessoa que diz sim, e não na medida do necessário. As pessoas me respeitam ou pela amizade ou pela ética profissional, como eu também sempre o faço”. A transexualidade de Bianca trouxe para o ambiente do trabalho público uma visão menos preconceituosa dos colegas e a própria repartição. “Sempre há questionamentos referentes ao que a mídia divulga sobre a identidade de gênero trans. Um dos temas latentes nas perguntas são os escândalos envolvendo prostituição, mas nunca se fala das trans no mercado de trabalho formal.” É por essas representações sociais que a militância se faz necessária. Por meio de sua luta, Bianca mostrou ser capaz de dar a volta por cima e provar que transexuais, sendo homens ou mulheres, são pessoas fortes, que podem se impor, crescer e ascender no mercado profissional. Assim como o preconceito sofrido na infância pelos colegas de classe a deu forças, a causa LGBT e a certeza de que a mudança é possível a faz bater com orgulho no peito e dizer: “Me chamo Bianca Moura”.


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Arte: Ana Siqueira | Foto: Celso Junior


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Orações e Rock and Roll Estampado no colete, o brasão de um dos moto grupos mais influentes do país. Os cabelos longos, as tatuagens e a Harley Davidson mostram o estilo de André Fernandes, que aos 51 anos tem bordado no peito o título de Presidente. Com os anos de estrada e as missões do grupo, ele foi conquistando o seu espaço e o respeito dos demais motociclistas, de clubes em todo o Brasil e um pouquinho além. Como consequência disso, hoje, quando tem encontro, também tem oração e benção às máquinas. Apesar do clássico estilo bad boy dos motociclistas, das motos imponentes, da roupa preta e do colete, André é pastor. O Moto Missionários Esquadrão de Cristo é um nome bastante conhecido por quem vive sobre duas rodas. “Em horário integral, sou pastor e motociclista. Tento acordar mais cedo todos os dias para ler a bíblia e trabalhar nos estudos

e sermões da semana... Fora isso os finais de semana são recheados de motociclismo, estar na sede com os irmãos, cuidar da moto e da alma. Orações e Rock and Roll.”. No trabalho André é bem diferente. “De manhã, vou para o trampo, de moto, é claro. Lá, eu faço consultoria e controle de qualidade na área de requisitos. Muita documentação e processos para analisar e avaliar”. Mesmo com tudo isso, ele também é analista de sistemas, provando que o seu estilo e as missões nada interferem na vida profissional. “Algumas vezes o cabelo grande e as tatuagens eram fora de contexto. Hoje há uma grande aceitação e se olha muito a capacidade do indivíduo”. Filho de uma saxofonista, ele acabou se envolvendo com os clássicos da música e se apaixonou por todas as vertentes do Rock, que se tornou grande influência na vida. “A noite é família e, duas vezes por semana tenho ensaios da banda. Nas horas

vagas, ainda sou vocalista de uma banda gospel”. Com todos esses lados, o pastor e presidente do Esquadrão de Cristo ainda consegue conciliar muito bem o trabalho, o clube, a família e a banda. “Os colegas de trabalho são coparticipantes da minha vida. São amigos músicos, motociclistas e pessoas que levam a religião como um modo de vida, ajudam a divulgar a banda, o ministério e estão sempre nas minhas orações.” A forma impressa no mapa da cidade é um quadrado. Encravada no meio de outro estado, a capital federal revela não fazer assim tanto jus a sua fama. Mostra-se feita de pessoas de carne e osso que, ao contrário da visão do molde rígido no mercado de trabalho de Brasília, provam que podem ser o que quiserem. O quadrado chamado Brasília é volátil, com um amontoado de histórias. Pode ser círculo, triângulo, pode ter forma de arco-íris, de microfone, de uma moto imponente. Tudo dentro da forma de um avião.

As fotos que ilustram essa reportagem não são dos perfilados, mas fazem parte de uma série especial sobre Athos Bulcão, realizada pela artista visual Ana Siqueira e pelo fotógrafo Celso Junior. Elas traduzem a essência do que foi escrito aqui: podemos ser quem quisermos, como pudermos. Para ver mais fotos do projeto de Ana, é só acessar o site habitathos (http://www.habitathos.com). Duas obras do projeto se estão na mostra “Onde anda a onda”, no Museu Nacional. A exposição foi prorrogada até o dia 2 de agosto. Para aquisições, entre em contato com a artista pelo site. Jenipapo 93


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Ilustração: Andressa Castro.


f Opinião

Identidade e beleza Andressa Castro

As abordagens publicitárias, desde o ano de 2014, mais notadamente, modificaram sua comunicação incluindo mais mulheres negras no seleto grupo de garotas propaganda – mesmo que o número de modelos brancas ainda seja exageradamente maior. Esse é um resultado da mudança na percepção das empresas sobre os consumidores, que, hoje, buscam estar mais bem representados nos media, fortalecendo sua identidade e autoestima. Assim, as mulheres negras ganharam espaço e visibilidade na esteira das discussões de questões sobre racismo – ainda muito presente na sociedade bra-

sileira –, estereótipo, identidade e empoderamento. Entretanto, é importante ressaltar que a publicidade não passou a considerá-las somente a partir de pesquisas e pela tendência do mercado, mas pelo próprio comportamento afirmativo das consumidoras negras, especialmente no ramo de tratamentos estéticos. Ao deixar de seguir um padrão de beleza “branquedor” e valorizar seus traços naturais, a mulher negra abriu novos nichos de atuação para as empresas que, longe de serem boazinhas, começam a percebê-las como uma importante fonte de lucro. Nota-se, principalmente, que

o mercado de cosméticos de beleza tem tido uma ampliação nas linhas de produtos de cuidados específicos com a pele negra e para tratamento do cabelo crespo. A marca TRESemmé, por exemplo, recentemente criou uma nova linha voltada ao tratamento dos cabelos crespos. Sua campanha tem, como garotas propagandas, mulheres negras com características da raça bem marcadas: a atriz Sheron Menezzes, as cantoras Negra li e Paula Lima, e a apresentadora da rede Globo Patricia Dejesus. Outro exemplo de preocupação em atender as mulheres negras foi o lançamento da linha de maquiagem

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da MAC, assinada pela apresentadora e modelo Julia Petit (ruiva). A linha possui produtos de melhor adequação ao ambiente quente brasileiro e foi produzido para que mulheres de tons de pele diferentes, desde a mais clara a mais escura, pudessem usar. Apesar da percepção de crescimento de produtos para as características da mulher negra e uma preocupação em representá-las nos comerciais, o mercado neste segmento ainda está no início e não possui muita variedade. Observando as peças publicitárias, o que temos ainda, de maneira mais geral, é uma mulher negra estereotipada. Essas mulheres não possuem diversidade nas características físicas. Seguem, em sua maioria, o padrão de serem magras, porém, com curvas bem marcadas, altas, nariz e boca fina. Quanto mais se aproximarem do ideal estético branco, maior a possibilidade

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de estamparem comerciais. Nos últimos meses, fiz pesquisas e conversei com várias mulheres e percebi que, para elas, a beleza, o cuidado com a pele e o cabelo, não são apenas detalhes ou hábitos. O cabelo para a mulher faz parte da construção de uma identidade. Para a mulher negra, ele é a valorização de quem ela é e se tornou em meio a todos os acontecimentos. A população negra brasileira luta diariamente para conquistar espaço, tanto no mercado de trabalho e em outros setores. A valorização das características físicas herdadas de seus antepassados se torna um instrumento nessa luta. Essa valorização é uma conquista e acontece aos poucos, ao longo da vida. É preciso, primeiro, um processo de auto aceitação para deixar de lado o padrão de beleza imposto pela sociedade. Muitas meninas, por não aceitarem a forma como são, passam por processos

químicos e até cirúrgicos para se parecerem com o que aprenderam ser o ideal. Seguir esse ideal é uma forma de se colocar dentro dos grupos mais aceitos e sair da pressão de se não se encaixar no padrão. Por esse motivo, muitos salões fazem, principalmente, escovas, chapinhas e progressivas em cabelos enrolados. É necessário lembrar que a população brasileira é composta por mestiços e a mistura de raças proporcionou uma combinação nas características físicas do povo. Portanto, há negros com cabelos lisos, brancos com cabelos crespos, brancos e negros com lábios grossos e narizes largos e negros e brancos com traços finos. Somos todos diferentes e únicos. Há ainda um estereótipo da imagem da mulher negra, mas a aceitação da variedade de belezas possíveis pode ajudar a mudar isso. Assim esperamos.

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Relato

Desafios da reportagem em quadrinhos Nayara de Andrade

Eu sempre vinculei quadrinhos às histórias de super-heróis. Talvez seja pela confusão metonímica causada pelo mercado editorial desse segmento. Eu não conhecia muito além do mundo mainstream das HQs. Na verdade, não li muitos quadrinhos na minha infância, nem na minha adolescência. Mas em algum momento, no início da graduação em jornalismo, me deparei com um trabalho que me chamou a atenção. Eu não li as histórias do Batman, Homem-Aranha, Super-Homem. Eu vi o filme deles. Conheci esses perso-

nagens por meio do cinema e não por revistas. Algo de que não me orgulho, mas foi aí que tudo começou. Meu Trabalho de Conclusão de Curso (chamado de TCC na universidade) era uma monografia abordando o jornalismo nas histórias de super-heróis. No momento, pensei ter tido uma grande ideia: vou fazer isso aplicado ao cinema! Meu tema seria algo como “jornalismo no cinema”. O tempo passou e desisti desse trabalho. Depois de me aprofundar no universo das HQs, decidi abordar o jorna-

lismo em quadrinhos. Na verdade, eu sempre tive vontade de experimentar coisas novas e, talvez por isso, me apaixonei por esse tipo de jornalismo, não muito comum. Antes, porém, faria uma tentativa de produzir, eu mesma, uma reportagem em quadrinhos. Apresentei à revista Jenipapo uma pauta sobre os 25 anos do Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA). O trabalho infantil me sensibiliza bastante. Como o jornalismo tem uma função social relevante, propus desenvolver uma reportagem falando sobre esse

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assunto. Mas, como não sei desenhar, tão pouco quadrinizar, entrei em contato com um ilustrador. Eu criaria o roteiro e ele a quadrinização. O jornalismo em quadrinhos ganhou mais destaque na década de 1990 com o quadrinista e jornalista maltês Joe Sacco. As obras de Sacco são livros-reportagem em formato de quadrinhos falando sobre áreas de conflitos: Palestina: uma nação ocupada; Palestina: na faixa de gaza; Sarajevo e Área de segurança: Gorazde. Além dele, me inspirei no quadrinista brasileiro Alexandre de Maio, que divulga seus trabalhos na revista Fórum. De Maio trouxe novas discussões para o gênero do jornalismo em quadrinhos no Brasil. No ano de 2014, ele fez a reportagem investigativa Meninas em Jogo, com a jornalista Andrea Dip, contando sobre a exploração sexual infantil no estado do Ceará, durante a Copa do Mundo. Como a reportagem foi publicada pela Agência Pública de Jornalismo Investigativo, eu pude analisar o seu conteúdo e melhorar a escrita do roteiro

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que criei inicialmente. Meninas em Jogo mostra a relação entre o quadrinista e o jornalismo, bem como o processo de fazer uma reportagem. O processo de inspiração envolveu analisar a técnica para criar um bom roteiro em formato de quadrinhos. No começo, foi um pouco complicado sintetizar as informações. Primeiro, seria contada uma história, depois viria a reportagem montada em uma sequência de quadros. O grande legado de produzir algo do tipo é poder “escrever um texto com imagens”. As imagens nos quadrinhos são como as linhas para escrever o texto. Elas fazem parte da composição da história. Às vezes, são tão importantes quanto o próprio texto, já que dizem sem palavras. Produzir jornalismo em quadrinhos é algo que requer fôlego e tempo. Os jornais e as revistas quase não fornecem espaço para esse tipo de reportagem. As principais justificativas desses meios estão relacionadas ao tempo e ao alto custo de produção. A grande dificuldade é encontrar pessoas talentosas

para ilustrar as histórias. Se o jornalista, como eu, não souber desenhar, acredite: o entrave é maior. Nesta edição, não foi possível finalizar o trabalho. Faltaram os quadrinhos. Os motivos são variados, são passíveis de acontecer e até previsíveis como, por exemplo, o tempo para a realização detalhada da arte. O roteiro está pronto, sujeito a alterações, só precisa de um profissional com tempo e dedicação para encarar essa empreitada. Trabalhar em conjunto comigo, ousar, inovar no fazer jornalístico. Mesmo sem ter conseguido quadrinizar meu roteiro, estou disposta e ansiosa para labutar uma nova e inesquecível reportagem que esclarecerá como preservar os direitos das crianças e adolescentes. Alguém se habilita? É! É isso mesmo. Convido um quadrinista ou um bom ilustrador para dar traço à minha apuração e escrita. Acredito que a divulgação das histórias que ouvi de tantas fontes contribuirá, em especial, com as crianças vítimas do trabalho infantil e com aqueles que as protegem.


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Nós somos Bruno Vaz

Diogo Neves

Douglas Sousa

Arte Diagramação Fotografia

Reportagem

Fotografia Reportagem

Reportagem

Lucas Lélis

Marina Ferreira

Patrícia Moura

Nayara de Andrade

Fotografia Reportagem

Arte Diagramação Reportagem

Arte Diagramação Fotografia Reportagem

Reportagem

Fotos: Thiago Soares

Andressa Castro

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a Jenipapo Gabriela Gregorine

Gabriella Bertoni

Gustavo Góes

Kamila Braga

Reportagem

Fotografia Reportagem

Fotografia Reportagem

Arte Diagramação Reportagem Fotografia

Raíssa Miah

Rosi Araújo

Susanne Melo

Vanessa Castro

Arte Diagramação Fotografia Reportagem

Fotografia Reportagem

Fotografia Reportagem

Arte Diagramação

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Foto: Lucas LĂŠlis


Jenipapo A beleza do jornalismo

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