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o desejo de se candidatar a presidente. Ao voltar de Washington para El Paso, Amy ao abraçar o marido, excitada, falou “you fucker!”. Bem assim, bem punk. Com o apoio da Oprah, no começo de março já estava decidido: ele saía como pré-candidato democrata e em abril ganhou a capa da Vanity Fair. Vivemos, e não é de hoje, tempos de culto à personalidade. Beto não foge à regra. E se põe como o herói Davi contra o gigante Golias (Trump). Seu charme está de acordo com o charme da época. Se parece ingênuo para político, não teme a crucificação. E se perder na competição para a escolha de candidato do partido, pra ele também tudo bem. “Mas quero.” Dizem que quanto ele mais fala, mais gosta do som da própria voz. “Cara, nasci para estar nessa, nasci pra isso. Nasci e quero fazer tudo que posso, para este país, neste momento. O que me estimula é que os Estados Unidos lidere o mundo. Que as próximas gerações possam viver bem, aqui.” A preocupação com as mudanças climáticas; saúde para todos, que qualquer cidadão possa consultar um médico. Se o acusam de socialista, ele retruca ser um capitalista consciente. Quanto à imigração, cuidar de vistos para trabalho, cidadania para imigrantes ilegais, todos pagando as taxas, tudo na lei, atenção ao trabalho escravo, coisa que afeta milhões nos Estados Unidos. Questionado se é progressista, Beto diz que deixa os outros decidirem por ele. “Não estou interessado em rótulos.” E dizem que Amy, sua mulher, já tem como livro de cabeceira o Becoming, de Michelle Obama. n

ANTONIO BIVAR, escritor e dramaturgo, acredita que

devagar e sempre, nesse passo, vai até honolulu

58 J.P JULHO 2019

FOTO DIVULGAÇÃO

ricano, na Ho Chi Minh City, a maior manifestação na história do país. Barack Obama declarou que nessa viagem a integridade de Beto O’Rourke o fez ver, nele, a possibilidade de se tornar presidente. Depois disso, a lição da derrota de Hillary Clinton para Donald Trump, em 2016. Beto O’Rourke acredita que sua posição política não é apenas ser contra Trump, mas dar ao povo aquilo que o povo precisa. Já ao tentar o Senado contra Ted Cruz, sua munição foi: nada de dinheiro de corporações, nada de publicidade negativa, só coisa positiva focada na mensagem esquerdista, como que de volta à atitude punk eliminando artifícios. Postura franca, honesta e direta, sem interferência marqueteira, só ele e o celular. E partiu para a maratona confiante no carisma, Beto sendo simplesmente Beto. Mas rolou entrave: a mãe transferira para o nome do filho metade de sua parcela no shopping center de El Paso, antes de fechar a loja de móveis e decoração. Vazou que a parte que coube a ele somava cerca de US$ 9 milhões, e outros rolos que Beto botou a culpa no contador, já que a mãe não admitiu culpa. E Ted Cruz, não se sabe se fake ou fato, o acusou de estar envolvido num imbróglio de US$ 640 mil em cartéis de droga. No dia da eleição para decidir a vaga para o Senado, no estádio de El Paso lotado, perdeu para Ted Cruz. Só teve 25% dos votos. Amy, sua mulher, arrasada, chorou. Depois, em casa com a família, em vez de punk, era Stan Getz e todo aquele jazz na vitrola. Beto, em depressão, perdeu peso, as juntas doíam, o estresse. Mas Obama o chamou em seu escritório em Washington para uma conversa. Mesmo com a perda, Obama o parabenizou e Beto manifestou

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REVISTA JOYCE PASCOWITCH 154  

Superlativa! Tem palavra melhor para descrever nossa capa do mês? @luisasonza é a cantora do momento e encarou as lentes de @pedrodimitrow p...

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