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CRテ年IQUETAS

Do Cotidiano

Jeffersson Alves Pereira


CRテ年IQUETAS DO COTIDIANO Jeffersson Alves P.


Do autor Já reparou quanta coisa louca acontece no nosso dia a dia? Se você reparar bem da a até um livro! Espere, já deu! Nesta coletânea de crônicas você será convidado de forma divertida e leve a perceber seu cotidiano de uma forma completamente diferente. Divirta-se!


SUMÁRIO As desventuras amorosas de Nestor Que geração é está? Bombom E no meio a empada Retangular Reticências Ligação


As desventuras amorosas de Nestor Caro leitor, hoje é sexta-feira. E como toda sexta é para os jovens amantes: uma promessa. “Hoje a noite promete” eram os pensamentos de Nestor ao arrumar-se diante do espelho. - Primeiro um cineminha, de preferência um filme romântico com aquelas cenas melosas de beijos... afinal, um filme romântico sem cena de beijo não é romântico, certo? E quem sabe na hora do beijo entre o galã e a mocinha, não acaba sobrando um para mim? Talvez sentada na sala esteja uma moça delicada e meiga, com aproximadamente 1,63m de altura e os cabelos de tonalidade acaju amarrados em uma formosa e bem feita trança embutida e que, por ironia do destino, esteja exatamente ao meu lado esquerdo (meu lado mais fotogênico). Bem talvez esta mesma moça se emocione ao ver a forte sequencia de imagens de beijo projetadas a frente, desencadeando em seu corpo delicado uma explosão de hormônios diretamente na corrente sanguínea e não deixando outra opção para a pobre senhorita a não ser pular no solteiro mais próximo, eu, e tentar beija-lo com toda sua angustia de carinho e compreensão. Eu claro, colocaria minha língua em sua boca como prova de solidariedade a sua dor. E depois, quem sabe? Uma balada ou um jantar a luz de velas. Não sei se Clarice gosta de peixe ou se prefere um filé ao molho madeira. -Espere ai, quem é Clarice?! Claro, Nestor já havia dado a moça do cinema um nome, afinal eles já estavam se conhecendo melhor, era hora de algo mais ousado, possivelmente Nestor a convidaria para conhecer seu apartamento, com sorte ela até ganharia um abraço de mamãe. Enfim pronto, Nestor saiu de casa feliz da vida em direção ao cinema para conhecer Clarice ou qualquer outro nome que ela pudesse ter. Nestor era muito esperto, ficava observando as pessoas na fila para comprar o bilhete do cinema ou enquanto observavam os filmes em cartaz. Pensava consigo que se uma moça solitária fosse ao cinema e estivesse em dúvida sobre qual filme iria assistir, simples, significava que ela não queria assistir a filme algum. Estando


solteira e sem ter outra opção melhor, só restava passar as próximas duas horas em frente a uma grande tela de cinema, mas não era o caso hoje. Hoje o Nestor estava na área, e quando se tem um Nestor por perto você não precisa de diversão, ele é a diversão. Ademais, como bem sabia Nestor, moças solitárias existiam aos montes. Ele só não dera a sorte de estar na mesma hora e local que uma delas. Então ele a viu, só poderia ser Clarice. Apesar de ser alta e de ter o cabelo preto liso amarrado em um rabo de cavalo, era com certeza Clarice a pessoa que estava a sua frente. Ela estava observando atentamente aos cartazes dos filmes, alheia ao que acontecia a sua volta. Nestor tomou toda a coragem que pôde, ao menos toda a coragem que cabia em um copinho de café, ou melhor, chá (para os nervos, sabe). E foi falar com ela, que poderia ser muito bem a quase-futuramãe-de-seus-filhos ou o equivalente a isto. Chegou sorrateiro como um caçador esperando pelo melhor momento, seus órgãos internos se revirando e contorcendo. - Oi, tudo bom? Você já escolheu o filme que vai assistir? Ouvi uma ótima critica a respeito deste aqui. Levou um tempo até que a moça se recuperasse do susto, mas não tanto quanto levou Nestor, verdade seja dita. Ela balbuciou alguma coisa que Nestor não conseguiu decifrar. Algo como “coisa chata”, não isso não, ou quem sabe “estou inchada”? Não, também não era isso. Agora pairava um clima de dúvida no ar, Nestor olhando fixamente para Clarice enquanto tentava manter seu sorriso o mais natural que conseguia, mas sem saber se deveria puxar assunto ou ir embora. De súbito, Nestor entendeu a mensagem! Ela tinha dito “estou acompanhada”. Infelizmente para o nosso pobre herói, ele percebeu demasiado tarde o que tinha ouvido. Agora uma sombra enorme se formava atrás de Nestor, que se recusava em ceder a curiosidade de olhar. Nestor percebeu com certo terror que, de todas as características que o individuo pudesse ter, uma


que certamente sobressaía pela sombra era a de ser bem maior que Nestor. Num súbito clarão epífanico Nestor vislumbrou a saída de sua enrascada. Com um movimento de mestre, Nestor se aproxima da jovem e lhe abraça dizendo: “Então, como eu estava te dizendo, foi um prazer te reencontrar aqui no cinema, mas infelizmente eu tenho de ir agora. Mande lembranças minhas a Clarinha e o Alberto esta bem? Beijos.” Se virou para o acompanhante, apertando de forma efusiva a sua mão e foi embora o mais rápido que suas pernas podiam aguentar, pensando consigo: “Um dia da caça e outro do caçador”.


Que geração é está? Acabaram-se as rosas. Não há mais caixas de bombons, nem mesmo aquele sorriso reside mais. O que resiste é um homem. Apressado. Que, se indagado for, responderá sempre: atrasado! O que teria levado a isso? “Se papai tivesse me deixado virar jogador de futebol ao invés de ter me obrigado a estudar...”. Agora não importava mais ser o primeiro da classe, ninguém estaria La para censurá-lo. Seu único desejo agora era conseguir chegar a sua casa. São de preferência. É este o drama de Luís Alberto. Sentado à janela do ônibus, observando os prédios correndo em sentido contrario ao seu. As ruas vão se tornando conhecidas, até que chega a sua vez de descer. Entrando em casa, livra-se rapidamente da pasta que carregava, afrouxa sua gravata e coloca-se em rumo ao quarto. Nota a porta do quarto de seu filho e decide fazer um pequeno desvio na trajetória original. Desliga a TV e se senta ao lado do garoto, deitado na cama. Pensou em não demorar muito, amanha teria um duro dia de trabalho. Foi quando percebeu que não havia “um garoto”! Apalpou rapidamente a cama. Vasculhou todo o quarto. Nada. Só então notou a janela aberta em sua frente. Suspirou e abriu o primeiro sorriso, desde muito tempo.


Bombom - Aceita um bombom? - Claro que não! - Por quê? - Ora, faz mal à saúde. - Mesmo sendo de uva? - Nem mesmo o tutti-frutti com limão, cor-de-abóbora. - Aceita, vai. - Definitivamente, não. Vai que depois pego uma baita cárie! - Ué, então pegue e ofereça a uma pessoa que você não goste... - Hum, interessante. Espere... Você está me oferecendo?! - Ok, então eu fico com ele e ponto final. - Desistiu, assim? Tão fácil? -? - (Sorriso). - Afinal, você quer ou não? - Aceito, muito obrigada. Mas que fique registrado que só o fiz por sua causa. - Tudo bem... Sua hipocrisia foi registrada.


E no meio a empada Ela sempre pedia empada... Não, não qualquer empadinha, somente a de galinha com queijo. É um desses dias. Sentada sozinha, solene, com sua empada e um copo de suco. Sim porque de todas as incertezas desta vida, ela sentia que ao menos na empada poderia depositar seus sentimentos. Misteriosa. Ele a fitava, observando com discreto interesse. Sonhando com o dia em que pularia o balcão e, tomando-a em seus braços, arrancaria a empada de sua mão e a beijaria ternamente. E, diante de seu espanto, ainda atônita, comeria toda a sua empada. Sem dó. Ela sempre pedia empada... Ela podia sentir, não precisava sequer movimentar a cabeça para saber que estava sendo observada. Mas... o que ele queria? Dinheiro? Minha empada? Não, isso não. Afinal, ele trabalha em uma padaria. Então o quê? O quê? Talvez... Será? Não pode ser. Entretanto... ele pode estar interessado em mim! Mas se é isso, por que ele não pula o balcão e me toma em seus braços? Ela sempre pedia empada...


Retangular -Meu braço... Está doendo. -Então mude de posição. -Se eu quizesse mudar, já teria mudado. -Arre! -Hum... Continua doendo. -Ficarei calada. -Ei, acho que devo te dizer algo... -O quê? -É que estou usando... aquelas meias. -Como assim, que meias? -“Aquelas” meias... -Ah, não. Aquelas meias não! -Eu sei, eu sei. Mas estava escuro e, quando me dei conta, estava usando. -Tira. -Como assim, tira? -O antônimo de “coloca”. -Isso eu sei. Mas aqui? Assim? -Onde mais? -Certo, certo. Vire para o outro lado, sim? -Rápido. -Espere... só mais um pouquinho... pronto. -Melhor. Vamos sair daqui? -Olha se tem alguém por perto... -Não, não estou vendo ninguém. -Será que é seguro sairmos debaixo da mesa agora? -Sei lá. -Sabe de uma coisa? -O quê? -Meu braço continua doendo.


Reticências... Um fino raio de sol cortando o ar e incidindo em minha cara obriga-me a acordar. Permaneci sentado enquanto terminava de despertar. E foi justamente este o tempo que levei para descobrir onde eu estava. É escuro, umido, apertado e estou envolto por vários tecidos diferentes. Consigo ver algo atravez da fresta na porta... Trata-se de uma casa, mas não a minha casa. Eram as únicas coisas que posso afirmar, o resto estava muito confuso. Ouço um barulho na porta do quarto. Silencio. A porta se escancara e entram em sequência: um homem forte e uma mulher loira, a seu encalço. Eles começão a discutir, não consigo compreender. a discussão se intensifica. parece... Apuro meus ouvidos tentando entender. Finalmente consigo distinguir algo: -Não, João Carlos, você sabe que eu não posso deixar meu marido. Não no estado em que está, Fábio Augusto não merece isto. -Mas Antonia, quero ter uma vida com você! -O que nos temos tambem é vida! Como em um flash, tudo vem a tona. Fábio Augusto é o meu nome, essa é a minha mulher e esse, bem, era meu melhor amigo. Ah, mas isto não vai ficar assim! Eu vou... Ops. Tarde demais. o barulho que fiz despertou a atenção deles. Estão se aproximando do guarda roupa agora, só há uma coisa a fazer...


LIGAÇÃO Trim... trim... trim... - Alô, é da casa do Antônio Claudio? - Não senhor, não mora nenhum Antônio Claudio aqui. - Desculpe pelo incomodo senhora. - Tudo bem. Trim... trim... trim... - Alô, Antônio Claudio? Preciso falar urgentemente com você, é um assunto de vida ou morte! - Desculpe senhora, mas ligou para o numero errado, não tem nenhum Antônio Claudio aqui. - ... Hum ... Tem certeza? - Moro aqui faz quatro anos. Saberia se algum Antônio Claudio vivesse escondido no meu quintal. Tu... tu... tu... tu... - Não acredito que ela desligou na minha cara! Mas que falta de respeito! Trim... trim... trim... Não, de novo não. Trim... trim... trim... Está bem, está bem, estou indo... - Alô, com quem deseja falar?


- Desculpe-me pelo incomodo, me chamo Júlio César e preciso falar com o Sr. Antônio Claudio, a senhora pode por gentileza entregar o recado a ele. - Senhor Júlio, não EXISTE nenhum Antônio Claudio aqui nesta casa! O senhor pode avisar aos seus outros coleguinhas para pararem de me importunar, estou tentando terminar de fazer meu almoço. - Entendo, mil perdões madame. (desliga) - Afinal QUEM é esse Antônio Claudio? E o que essa gente toda quer com ele? Trim... - Olhe aqui meu senhor, não mora nenhum Antônio Claudio aqui, eu nunca o vi mais gordo e nem sei quem é. Esta bem? - Senhora, Antônio Claudio sou eu... - ... - ... - Antônio Claudio? -Isso mesmo, escute, quero pedir desculpas, acredito que deve ter recebido muitas ligações de pessoas me... Tu... tu... tu... tu... Do outro lado da linha um confuso Antônio Claudio devolve o telefone para o gancho, se perguntando do porque aquela mulher desligou na sua cara.

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