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BASKERVILLES E O CÃO

Sherlock Holmes

JEFFERSON BARCELOS


BASKERVILLES E O CÃO


Sherlock Holmes


SUMÁRIO CAPÍTULO I SHERLOCK HOLMES 7 CAPÍTULO II BASKERVILLES E SUA MALDIÇÃO 13 CAPÍTULO III O MISTÉRIO 23 CAPÍTULO IV SIR HENRY BASKERVILLE 32 CAPÍTULO V TRÊS FIOS ROMPIDOS 42 CAPÍTULO VI BASKERVILLE E A MANSÃO 52 CAPÍTULO VII OS STAPLETONS DA CASA DE MERRIPIT 60 CAPÍTULO VIII O PRIMEIRO DOCUMENTO DO DR. WATSON 72 CAPÍTULO IX O SEGUNDO DOCUMENTODO DR. WATSON – LUZ NO PÂNTANO 78 CAPÍTULO X TIRADO DO DIÁRIO DO DR. WATSON 93 CAPÍTULO XI O HOMEM DA PEDRA 101 CAPÍTULO XII FALECIMENTO NO PÂNTANO 113 CAPÍTULO XIII MONTANDO A REDE 125 CAPÍTULO XIV O CÃO DOS BASKERVILLES 135 CAPÍTULO XV A RETROSPECTIVA 145


CAPÍTULO I SHERLOCK HOLMES Sherlock Holmes geralmente levantava muito tarde, só aparecendo no final da manhã, a não ser quando ficava acordado a noite toda, o que não era raro. Ele estava sentado à mesa do café-da- manhã, enquanto eu, junto à lareira, examinava a bengala que nosso visitante esquecera na noite anterior. Era de madeira, de boa qualidade, com castão redondo. A bengala era do tipo conhecido como Penang Lawyer. Logo abaixo do castão havia uma tira de prata, com cerca de dois centímetros de largura, onde estava gravado: “A James Mortimer, M. R. C. S. , de seus amigos do H. C. C.”, e a data, “1884”. Bengala típica dos velhos médicos de família: distinta, firme e tranquilizadora. – Então, Watson, o que lhe diz a bengala? Holmes estava sentado de costas para mim, e eu não lhe dera sinais do que fazia. – Como soube o que eu estava fazendo? Acho que você tem olhos na nuca. – Eu tenho, pelo menos, um bule de prata bem polido à minha frente. Mas diga-me, Watson, o que a bengala de nosso visitante nos conta? Já que tivemos a infelicidade de não encontrá-lo, e não temos ideia do motivo que o trouxe, esse suvenir adquire importância. Gostaria que você me falasse sobre o homem, a partir do exame de sua bengala. Tentando utilizar o melhor possível os métodos de Holmes, eu comecei: – Acho que o Dr. Mortimer é um médico idoso, bem-sucedido e querido, pois conhecidos seus deram-lhe esta prova de estima. – Muito bom! – disse Holmes. W– Excelente! – Acho, também, que provavelmente ele seja um médico

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– Porque esta bengala, que nova deve ter sido muito bonita, está bem batida. Não consigo imaginar um médico da cidade usando-a. A grossa ponta de metal está gasta, o que evidencia o quanto ele anda com esta bengala. – Soa perfeito! – disse Holmes. – E, ainda, há esse “amigos do H. C. C.”, que, imagino, deva ser alguma coisa relacionada a um Clube de Caça. Possivelmente ele prestou serviços médicos aos sócios, que lhe deram este presente como agradecimento. – Francamente, Watson, você está se superando – disse Holmes, afastando a cadeira e acendendo um cigarro. – Sou obrigado a dizer que você, sempre preocupado em descrever minhas pequenas conquistas, tem sido modesto com relação às suas habilidades. Talvez você não seja brilhante, mas é com certeza um condutor de luz. Algumas pessoas, ainda que não sejam geniais, têm o notável poder de estimular o gênio. Confesso, meu caro amigo, que muito lhe devo. Ele nunca falara tanto e, devo admitir, suas palavras causaram-me grande satisfação, pois muitas vezes me aborreci com sua indiferença com à minha admiração e às tentativas que tenho feito para tornar públicos seus métodos. Também me senti orgulhoso por pensar que aprendera seu sistema e a forma de empregá-lo tão bem que merecia sua aprovação. Holmes então pegou a bengala e examinou-a a olho nu por alguns minutos. Parecendo interessado, ele largou o cigarro e levou-a até a janela, examinando-a com uma lupa. – Interessante, embora elementar – Holmes disse, voltando ao seu lugar preferido no sofá. – Existem, com certeza, um ou dois indícios na bengala. Eles nos fornecem a base para diversas deduções. – Esqueci de algo? – perguntei, um pouco convencido. – Acredito não ter deixado escapar nada de importante. 2


– Talvez você tenha razão. – As probabilidades apontam nessa direção. E, aceitando essa hipótese, temos um novo ponto de partida para imaginar nosso visitante desconhecido. – Bem – eu disse –, supondo que H. C. C. sejam as iniciais de Hospital Charing Cross, que novas Conclusões podemos tirar? – As conclosões não se fazem ver, elas mesmas? Você conhece meus métodos. Aplique-os! – Só consigo pensar na conclusão óbvia: o homem clinicou na cidade antes de se mudar para o interior. – Creio que podemos arriscar um pouco mais. Veja sob este ponto de vista: em que ocasião, provavelmente, um presente como esta bengala se- ria dado? Quando seus amigos se reuniriam para lhe dar uma demonstração de afeto? Obviamente quando o Dr. Mortimer saiu do hospital para clinicar por conta própria. Seria levar nossas conclusões muito longe dizer que o presente foi dado nessa oportunidade? – Realmente, parece provável. – Agora, é importante que você note que ele não poderia ser titular do hospital, pois apenas um médico bem estabelecido em Londres poderia ocupar essa posição. E alguém que efetivamente a ocupasse não iria abandoná-la para clinicar no interior. O que ele era, então? Se estava no hospital e não era titular, só poderia ser um interno ou residente, pouco mais que um estudante. Assim, o médico de família sério, de meia-idade, desaparece como fumaça, meu caro Watson. Em seu lugar surge um jovem de quase trinta anos, amigável, despretensioso, esquecido e dono de um cão de estimação, que eu descreveria, em linhas gerais, como sendo maior que um terrier e menor que um mastim. Ri, incrédulo, enquanto Sherlock Holmes reclinava-se no sofá. 3


(Lancet, 1882) e de Fazemos Progressos? (Jornal de Psicologia, março de 1883). Médico oficial dos distritos de Grimpen, Thorsley e High Barrow. – Nenhuma menção ao Clube de Caça, Watson – disse Holmes, com um sorriso espirituoso. – Mas é um médico do interior, como você muito astuciosamente deduziu. Quanto aos adjetivos, eu disse (se bem me lembro) que Mortimer é amigável, despretensioso e esquecido. Sei que apenas um homem amigável recebe manifestações de afeto; somente alguém despretensioso abandona Londres por uma carreira no interior, e apenas alguém esquecido deixa sua bengala em vez de um cartão de visita após esperar por uma hora. – E o cachorro? –Tem o hábito de carregar a bengala para o dono. E como ela é pesada, o cão costuma segu- rá-la pelo meio, com firmeza. As marcas de seus dentes estão perfeitamente visíveis. A mandíbula do cão, como mostra o espaço entre as marcas, é muito larga para um terrier e muito estreita para um mastim. Ele pode ser… é isso, caramba! Ele é um sabujo de pelo crespo! – Meu caro amigo, como pode ter tanta certeza? – Pelo simples fato de estar vendo o cachorro em nossa porta. E esse é seu dono tocando a campainha. Não se vá, Watson, eu lhe peço. Ele é seu colega de profissão, e sua presença pode me ser útil. Este é o dramático momento do destino, Watson, quando você ouve, na escada, passos que entrarão em sua vida, sem saber se para o bem ou para o mal. O que o cientista James Mortimer deseja de Sherlock Holmes, o criminalista? Entre! A aparência de nosso visitante me surpreendeu. Eu esperava um típico médico do interior. Ele era muito alto e magro, com um nariz comprido como um bico, saltando de entre dois olhos cinzentos e vivos, que brilhavam por trás de óculos dourados. – Um presente, pelo que vejo – disse Holmes 4


– De alguns amigos de lá, no meu casamento. – Ora, ora, isso é mau! – disse Holmes balan- çando a cabeça. O Dr. Mortimer piscou atrás dos óculos, um pouco surpreso. – E por que isso é mau? – Apenas porque atrapalhou nossas deduções. Você disse seu casamento? – Sim, senhor. Eu me casei e deixei o hospital, junto com minhas esperanças de fazer residência. Precisava constuir meu lar. – Ora, vamos, afinal não estávamos tão errados – disse Holmes. – E agora, Dr. James Mortimer… – Senhor, apenas senhor. Um humilde Senhor, senhor. M.R.C.S. – Um homem de mente precisa, evidentemente. Apenas – Um curioso da ciência, Sr. Holmes, um colecionador de conchas nas margens do grande e desconhecido oceano. Estou presumindo que o senhor seja Sherlock Holmes, e não… – Exato; este é meu amigo, Dr. Watson. – Prazer em conhecê-lo, doutor. Já ouvi seu nome, relacionado a seu amigo. Sr. Holmes, tenho interesse no senhor. Não esperava encontrar um crânio tão dolicocéfalo, nem um desenvolvimento supra orbital tão bem demarcado. O senhor permite que eu passe o dedo em sua fissura parietal? Um molde de seu crânio seria um enfeite em meu museu antropológico. Não é minha intenção ser desagradável, mas confesso que cobiço seu crânio. Sherlock Holmes fez sinal a nosso estranho visitante para que sentasse. – Percebo que é um entusiasta de seu ramo, senhor, assim como sou do meu – disse Holmes. – Vejo, por seu dedo indicador, que faz seus próprios cigarros. Não faça cerimônia em acender um deles. Mortimer pegou papel e fumo e enrolou um cigarro com surpreendente destreza.

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– Homens de mente cientificamente precisa sentem-se atraídos pelo trabalho de Monsieur Bertillon. – O senhor não faria melhor consultando-o? – Eu disse, Sr. Holmes, “para os homens de mente cientificamente precisa”. Mas como ho- mem prático, em seus afazeres, o senhor é único. Espero não tê-lo, inadvertidamente… – Só um pouquinho… – disse Holmes. – Acredito, Dr. Mortimer, que seria bom se o senhor, sem mais rodeios, fizesse a gentileza de me contar claramente qual a natureza do problema que torna necessária minha ajuda.

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CAPÍTULO II BASKERVILLES E SUA MALDIÇÃO –Tenho um manuscrito – começou o Dr. Ja- mes Mortimer. – Percebi assim que o senhor entrou na sala – disse Holmes. – É um velho manuscrito. – Começo do século XVIII, a menos que seja uma falsificação. – Como o senhor pode saber? – Enquanto estivemos falando, pude ver cerca de cinco centímetros dele. Não se pode chamar de perito alguém incapaz de determinar pelo menos a década da data de um documento. Talvez o senhor tenha lido minha monografia sobre o assunto. Eu diria que seu manuscrito é de 1730. – A data exata é 1742 – o Dr. Mortimer sacou-o do bolso do paletó. – Este documento de família foi confiado à minha guarda por Sir Charles Baskerville, cuja morte trágica e repentina, há três meses, criou grande agitação em Devonshire. Posso dizer que, além de seu médico, eu era seu amigo pessoal. Baskerville era um homem determinado, astuto, prático e tão pouco fantasioso como eu. Mesmo assim, ele levou este documento muito a sério, e estava preparado para o destino que acabou por levá-lo. Holmes pegou o manuscrito e o abriu sobre o joelho. – Perceba, Watson, o uso do “s” longo, e do curto. Esse é um dos indícios que me permitiram determinar a data. Por cima de seu ombro, olhei para o papel amarelado, com escrita esmaecida. No cabeçalho estava escrito: “Baskerville Hall” e, embaixo, rabiscado em números grandes: “1742”. –Parece algum tipo de depoimento. – Sim, é a narração de uma lenda que corre na família Baskerville. – Mas eu entendi que o senhor desejava me consultar sobre algo mais prático e moderno. 7


damente relacionado ao nosso assunto. Com sua permissão, vou lê-lo para o senhor. Holmes se recostou, juntou as pontas dos dedos e fechou os olhos, resignado. O Dr. Mortimer virou o manuscrito para a luz e leu em voz alta e vibrante, a estranha lenda: – Já houve muitas versões sobre a origem do Cão dos Baskervilles. Contudo, como descendo diretamente de Hugo Baskerville, e como a história me foi passada diretamente por meu pai, que também a ouviu de seu pai, resolvi escrevê-la, convicto de que ela ocorreu da maneira que descrevo de ora em diante. Desejo que acreditem, meus filhos, que a mesma Justiça que castiga o pecado também sabe perdoá-lo, e que nenhuma maldição é tão pesada que prece e penitências não possam removê-la. Aprendam, desta história, não a temer os frutos do passado, mas sim a ser sensatos no futuro, para que as horrendas paixões que afligiram nossa família não tornem a ser liberadas, o que causaria

nossa desgraça. Saibam então que, à época da Grande Rebelião (cuja história, escrita pelo erudito Lorde Clarendon, recomendo-lhes), esta Mansão de Baskerville pertencia a Hugo, de quem não se pode negar que fosse selvagem profano e ímpio. Isso, na verdade, podia até ser perdoado por seus vizinhos, posto que naquela região nunca existiram anjos. Mas havia nele uma disposição dissoluta e cruel que o tornou proverbial no Oeste. Aconteceu de Hugo começar a amar (se é que tão negra paixão possa ser descrita por verbo tão ilustre) a filha de um agricultor cujas terras eram próximas a Baskerville. Mas a garota, sensata e de boa reputação, sempre o evitara, pois temia sua má fama. Então, num dia de São Miguel, Hugo e cinco ou seis de seus desagradáveis companheiros entraram sorrateiramente na fazenda e raptaram a moça – cujos pais e irmãos não estavam em casa, o que Hugo bem sabia. Chegando a Baskerville, ela foi detida em um quarto do andar superior,

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O livro conta a história da família Baskervilles, que é assombrada a centenas de anos por um cão diabólico. A sua primeira vítima, foi Sir Hugo Baskevilles. Após ocorrer outra morte, a de Sir Charles Baskervilles , o último a ser morto pelo cão. Dr. Mortimer então resolve contar tudo para Holmes, o detetive.


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