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otrieço a A ooiAaA Estudos sobre o livro de Gênesis


Claudionor de Andrade

Ottl&ÇO a A OOÍÁOÂ' Estudos sobre o livro de Gênesis

IaEdição

CPAD Rio de Janeiro

2015


Todos os direitos reservados. Copyright© 2015 para a língua portuguesa da Casa Publicadora das Assembleias de Deus. Aprovado pelo Conselho de Doutrina Capa e proj eto gráfico: Wagner de Almdeida Editoração: Anderson Lopes Correia Conversão para e-Pub: Cumbuca Studio C D D : 220 - Comentário Bíblico ISBN : 978-85 -263-13074 eISBN: 978-85-263-1341-5 As citações bíblicas foram extraídas da versão Almeida Revista e Corrigida, edição de 1995, da Sociedade Bíblica do Brasil, salvo indicação em contrário. Para maiores informações sobre livros, revistas, periódicos e os últimos lançamentos da CPAD, vis ite nos s o s ite: http://www. cpad. com br. SAC — Serviço de Atendimento ao Cliente: 0800-021-7373 Casa Publicadora das Assembleias de Deus Av. Brasil, 34.401, Bangu, Rio de Janeiro - RJ C E P 21.852-002 Tiragem 42.000 I a edição - Agosto/2015


Aos cristãos iraquianos e sírios que, neste momento, estao selando o seu testemunho com o martírio.


^ T iejcici®

Neste momento, acham-se em circulação, pelas livrarias de todo o mundo, 130 milhões de títulos. Só no Brasil, são publicados todos os anos em torno de quatro milhões de obras entre lançamentos e reedições. Diante desses números, colhidos junto à indústria editorial, surgem algumas perguntas inevitáveis. A primeira delas tem a ver com os nossos limites biológicos. Quantos livros poderá alguém ler durante 7 0 ou 80 anos devida? Segundo o escritor argentino, Jorge Luís Borges (1899-1986), mio mais de dois mil títulos. Levemos em conta que um bom 1 eitor sej a capaz de 1er quarenta livros anualmente Se el e começou a ler aos 10 anos de idade, e tem uma expectativa de vida intelectualmente produtiva de 70, este será o seu placar: 2.400 obras catalogadas e lidas. Caso estas sejam bem selecionadas, tendo sempre a Bíblia Sagrada em primazia, o resultado será excelente Doutra forma, haverá um irreparável desperdício de tempo, dinheiro e esforço intelectual. Conforme explica o professor Gunar Berg de Andrade, há dois tipos de leitor: o de muito empenho e o de alto desempenho. O primeiro lê tudo o que lh e vem às mãos, sem nenhum critério. Já o segundo é seletivo, cuidadoso e exigente; limita-se às melhores entre as melhores produções. Para mais informações, as sis ta ao vídeo https://www.youtube com/wateh?v=Mpc4 85YW _J0. A segunda pergunta concerne à vida do próprio livro. Quantos títulos merecerão uma segunda edição? Neste reexame, formulemos uma questão de vital importância não somente para quem lê, mas principalmente para quem escreve Afinal, o sonho do escritor é imortalizar-se no leitor. Por isso, a indagação faz-se imprescindível: Quantas obras far-se-ão clássicas e imortais? E bem provável que entre os 130 milhões de livros atualmente em circulação, não haj a nenhum a merecer semelhante classificação. A maioria será descartada, boa parte não será lida até o fim, alguns terão uma sobrevida nalgum relicário ou sebo, e bem poucos irão para alguma biblioteca pública Não falaremos daqueles que serão picotados e reciclados, para que outras nasçam e tornem se best-sellers. E m primeiro lugar, é necessário que se esclareça algo de fundamental importância no cid o vital de um livro: nem todo clássico é imortal. Entretanto, todo imortal é um clássico. Vej amos, por exemplo, a Ilíada de Homero. Que o poeta grego é um dássico, não resta dúvida Servindo dem oddo a Virgílio (70-19 a. C.), veio a inspirar Camões (15241580). Hoj e, porém, é uma obra tão morta quanto a língua na qual foi escrita. O poema, por conseguinte, só é evocado quando se requer um m od do perfdto de 1iteratura, dicção e estilo. Curiosamente, as obras que Homero inspirou mais diretamente, a Eneida e os Lusíadas, tiveram igual destino: sobrevivem como m oddo, mas já não vivem a moldar vidas. Jazem como a estatuária dássica e renascentista Só as buscamos em caso de necessidade estética Há obras, contudo, que além de dássicas, são imortais. Entre das, destaco O Peregrino de John Bunyan (1628-1688). Este livro não é apenas um m oddo de parábola bem narrada, mas uma moldagem de vidas santificadas a Deus. Já o l i duas vezes. Se na primeira, eu era um adolescente irrequieto e crítico,


na segunda, j á adulto, enfrentava uma crise espiritual. Á semelhança do cristão, precisava recorrer com urgência a um livro que, além de clássico e imortal, fosse eterno. O Peregrino remeteu-me de imediato ao livro que, embora escrito há mais de três milênios, é tão contemporâneo hoj e quanto nos dias do Antigo e do Novo Testamentos. A Bíblia Sagrada é um livro sem igual; é a inspirada, inerrante e infalível Palavra de Deus. Não podemos ignorá-la, pois dela alimenta-se a alma sedenta e peregrina, E um livro que, desde o início, surpreende-nos com suas declarações. Que outro livro começa de forma tão surpreendente e verdadeira: “No princípio, criou Deus os céus e a terra”? Não é sem razão que j á foram impressos aproximadamente quatro bilhões de exemplares das Sagradas Escrituras. E acerca do primeiro livro da Bíblia que trata a obra que você, querido leitor, tem em mãos. Apesar de não ser um tratado exaustivo do Gênesis, mostrará um pouco das belezas dos primórdios da intervenção divina na história humana Minha oração é que Deus nos ilumine, cada vez mais, no estudo de sua eterna e imarcescível Palavra. Gênesis, um livro eterno ebelo, porquanto inspirado pelo Espirito Santo. Clandionor de Andrade Rio de Janeiro, inverno de 2015.


J iW U Z Ú O Prefácio Capítulo 1 - Gênesis, o Livro das Origens Capítulo 2 - A criação dos Céus e a Terra Capítulo 3 - E Deus os Criou Homem e Mulher Capítulo 4 - A Queda da Raça Humana Capítulo 5 - Caim Era do Maligno Capítulo 6 - 0 Mundo de L ame que Capítulo 7 - A Salvação de uma Família Capítulo 8 - 0 Princípio do Governo Humano Capítulo 9 - Bênção e Maldição na Família de Noé Capítulo 10 - A Diversidade Cultural da Humanidade Capítulo 11 - Melquisedeque Abençoa Abraão Capítulo 12 - 1saque, o Sorriso de uma Promessa Capítulo 13 - José, a Realidade de um Sonho Capítulo 14 - A Transição entre José e Moisés


GENESIS, O LIVRO DAS ORIGENS

IN TR O D U Ç Ã O O Gênesis fascina-me o espírito. Tudo nele é relevante, didático, profundo, belo e devocional. Até as suas genealogias trazem-me preciosas lições. Da criação do Universo à morte de José, percorro um caminho que, apesar das agruras e provas, conduz-me logo ao Criador. E m cada página, encontro um Deus que, não se limitando a criar, deleita-se em revelar-se à criatura. Neste livro, enterneço-me com os patriarcas. N o Crescente Fértil, refaço-lhes as peregrinações desde a imponente U r à rústica Betei. De suas vitórias, compartilho. Aos seus idilios, assisto. Que outro autor poderia descrever com tanta poesia o encontro de Jacó e Raquel? E a história de Jo sé Não há quem não chore ao ler o drama do escravo hebreu que veio a governar o Império Egípcio. E m cada capítulo do Gênesis, tenho uma nova experiência com o Deus de Isaque e de Abraão. Iniciemos, pois, o nosso diálogo com uma literatura alta, rica e artisticamente bem trabalhada. Mas este não é o seu principal mérito. A semelhança dos demais livros da Bíblia Sagrada, o Gênesis é a inspirada, inerrante e infalível Palavra de Deus. Não veio à luz apenas para encantar-nos a estética, mas para encaminhar-nos à ética inigualável e perfeita do Criador.

I.

A A U IO R IA M O SA IC A

O Gênesis foi escrito por um dos homens mais sábios da história Filho de Anrão e Joquebede, pertencia Moisés à casa de Levi, a mais conservadora das tribos hebreias (Ex 6.20; 32.26-28). Sua biografia é pontilhada por lances dramáticos e inexplicáveis. Ainda recém-nascido, foi preservado do infanticídio desencadeado pelo rei do Egito, visando à eliminação do povo de Israel (Ex 2.1-10). Providencial mente adotado pela filha do Faraó, é levado ao palácio, onde recebe a educação mais esmerada da época (At 7.22). Homem feito, saiu a ver as agruras de seus irmãos. E, na ânsia por ajudá-los, acaba por matar um egípcio. Vê-se, então, forçado

a refugiar-se em M idiã

Nesse diminuto reino

localizado ao norte da Arábia, entrega-se ao pastoreio do

Á semelhança dos demais livros da B íblia Sagrada, o G ênesis é a


rebanho de Jetro, seu sogro (Ex 3.1). Ali, solitário e reflexivo,

inspirada, inerrante e

dispõe de espaço e tempo para meditar nos propósitos do Deus de Abraão. Que perguntas avivaram-lhe o espírito? E que

infalível Palavra de Deus.

indagações fez ao Eterno de Israel? Deus utiliza o isolamento de Midiã, para trabalhar-lhe a personalidade No Egito, entre cativos e exatores, jamais se teria desenvolvido espiritualmente Foi em seu exílio, que Moisés inteira-se de uma invenção que revolucionaria a transmissão do conhecimento: o alfabeto. Surgido na região do Sinai, seria logo adotado pela maioria dos povos. Providencial mente, o Senhor impediu que a sua Palavra fosse escrita em caracteres egípcios, pois tanto o demótico, conhecido pelo povo, como o hieróglifo, dominado apenas pelos sacerdotes, não possuíam a plasticidade e a segurança necessárias para registrar os inícios da História Sagrada. Não sabemos em que período de seu ministério, Moisés escreveu o primeiro livro da Bíblia Sagrada. Mas podemos garantir que o Exodo é uma seqüência natural do Gênesis, pois, no original hebraico, ambos os livros acham-se ligados por uma conj unção aditiva.

I I . D A T A E LO C A L Não é tarefa nada fácil precisar a data e o local em que Moisés escreveu o Gênesis. Para não nos perdermos em especulações, algumas absurdas e outras impiamente vazias, adotaremos a posição conservadora por ser amais segura e racional. 1. Data. E-nos permitido afirmar que o primeiro livro da Bíblia foi redigido entre 1445 e 1405 antes da era cristã, durante a peregrinação de Israel pelo Sinai. Eleger qualquer outra época, como a do pós-exílio babilônico, por exemplo, é atentar contra as evidências da própria Bíblia. Tanto os profetas quanto os apóstolos têm como certa a autoria mosaica de todo o Pentateuco, incluindo o Gênesis. 2 . Local. Já que sabemos ter Moisés escrito o Gênesis no século 15 antes de Cristo, conduimos que ele o redigiu no Sinai. Aliás, encontramo-lo em diversas ocasiões, durante a peregrinação de Israel pelo deserto, a registrar as palavras do Senhor (Ex 24.4; N m 32.2,- D t 31.9). Ao seu dispor, excelente material de escrita. Doutra forma, o livro j amais teria chegado às gerações futuras.

I I I . R E IV IN D IC A Ç Ã O E T EM A Todos os livros da B íblia possuem, além do tema central, uma reivindicação específica Por isso, devemos ler a Pal avra de Deus com atenção e cuidado, para não lh e ignorarmos as demandas. 1.

Reivindicação. A principal reivindicação do Gênesis é que creiamos ser Deus o Criador dos

céus e da terra. Aliás, é a primeira verdade que nos expõe o autor sagrado (Gn 1.1). Que nos curvemos humildemente, pois, à soberania divina Ao aceitar semelhante demanda, confessa o sal mista Etã: ‘Teus


são os céus, tua, a cerra; o mundo e a sua plenitude, tu os fundas te” (SI 89.11). Quem lê o Gênesis com devoção e amor, aceita de imediato a exigência divina Sim, tudo pertence ao Senhor, inclusive você e eu Aleluia! 2. Tema. O tema do Gênesis faz-se acompanhar de sua reivindicação central: “No princípio, criou Deus os céus e a terra”. Nesse livro, portanto, encontramos as origens dos céus, da terra, do ser humano, das nações e do povo de Israel. Acham-se nele, também, os esboços das doutrinas que professamos. O seu título, a propósito, significa exatamente isso: origem

IV. O B JE T IV O S D O L IV R O Além de uma reivindicação específica e de um tema central, o Gênesis foi escrito com, pelo menos, dois objetivos: fundamentar teológica e historicamente o êxodo hebreu e responder-nos às grandes perguntas da vida 1. Fundamentar o êxodo hebreu. Os 1eitores, ou ouvintes, imediatos do Gênesis foi a geração que o Senhor libertara do cativeiro egípcio. No momento mais crítico de sua história, era-lhes urgente saber três coisas essenciais. Antes de tudo, que o Jeová do Êxodo era o mesmo Elohim do Gênesis. Logo, o Criador dos Céus e da Terra não poderia deixar de apresentar-se como o Redentor de seu povo. Finalmente, o Deus que chamara Abraão a uma nova realidade espiritual, convocava-os, agora, a uma vida de liberdade numa terra boa, ampla e singularmente aprazível. Por isso, o Senhor se apresenta aos filhos de Israel como o El-shaday dos patriarcas (Gn 17.1; Ex 6.3). O obj edvo primadal do Gênesis, portanto, era fundamentar teológica e historicamente os filhos de Israel, a fim de que assumissem a sua identidade como povo de Deus. Eles deveriam saber que a sua liberdade não era fruto de um movimento político, nem de uma convulsão sodal, mas o cumprimento das alianças que o Senhor estabelecera com Abraão, Isaque e Jacó. Aliás, o próprio José, pouco antes de morrer, profetizara, no Gênesis, o Exodo: “Eu morro; porém Deus certamente vos visitará e vos fará subir desta terra para a terra que j urou dar a Abraão, a Isaque e a Jacó”. Em seguida, José fez j urar os filhos de Israel, dizendo: “Certamente Deus vos visitará, e fareis transportar os meus ossos daqui” (Gn 50.24,25). Nas Sagradas Escrituras, todos os atos de Deus são bem fundamentados teológica e historicamente. O que aconteceu no Êxodo alicerça-se no Gênesis. As alianças firmadas neste cumprem-se naquele O mesmo podemos dizer com respeito a nossa salvação. O que teve início no primeiro livro da Bíblia plenifica-se no último. 2. Responder as grandes perguntas da vida. O Gênesis foi escrito também para responder-nos às grandes perguntas da vida. Em primdro 1 ugar, todos ansiamos por saber como vieram a existir os Céus e a Terra. A segunda indagação, não menos importante, é acerca da nossa própria origem Se não obtivermos as respostas certas, ddxar-nos-emos aprisionar tanto pelas mitologias antigas como pelas modernas, que nos chegam diariamente traves tidas de ciênda.


Adão não tinha qualquer dúvida quanto à criação, pois conhecia pessoalmente o Criador. Mas os seus descendentes, por parte de Caim, logo endeusaram a criatura, permitindo-se

O objetivo primacial

arrastar pelo sexo e por atos cada vez mais violentos. Sim,

do G ênesis, portanto, era

violência e sensualidade,

os

dois

primeiros

deuses

da

fundamentar teológica e

humanidade; daí, nasceram todos os ídolos. Não demorou muito para que os filhos do próprio Sete

historicamente os filhos de

caíssem nos mesmos pecados de Caim (G n 6.1-3). Sen ão fosse

Israel, a fim de que

o piedoso Noé, toda a raça humana teria perecido no Dilúvio. A era atual em nada difere daquela época, conforme

assumissem a sua identidade

afiança o Senhor Jesus: “Pois assim como foi nos dias de Noé, também será a vinda do Filho do Homem Porquanto, assim

como povo de Deus.

como nos dias anteriores ao dilúvio comiam ebebiam, casavam e davam-se em casamento, até ao dia em que Noé entrou na arca, e não o perceberam, senão quando veio o dilúvio e os levou a todos, assim será também a vinda do Filho

do Homem” (Mt 24.37-39). Em

conseqüência do pecado, o deus deste século não demorou a cegar e a perverter a mente da humanidade (2 C o 4.4). E, assim, a narrativa que Adão e N oé transmitiram aos seus filhos acabou por degenerar-se em mitologias blasfemas e grosseiras. A família de Sem, através de Abraão, ainda manteria, por alguns séculos, a pureza do criacionismo. Mas, já no tempo do Exodo, a tradição oral já não era confiável. Por isso, o Senhor convoca Moisés não apenas para libertar Israel do Egito, como também perenizar, através da palavra escrita, a verdade sobre os inícios de todas as coisas. Tendo em vista a pureza do Gênesis, rejeitamos a hipótese de que o autor sagrado foi buscar rescaldos nas mitologias babilônicas para redigir o primeiro livro da Bíblia. Supervisionado pelo Espírito Santo, selecionou os registros mantidos pelos hebr eus, depurando a tradição oral da criação que o seu povo ainda conservava. E claro que, nessa tarefa, ele contou igualmente com a revelação divina De modo que, hoje, temos um texto confiável, lógico e coerente. Não temos qualquer dúvida quanto à inspiração divina do Gênesis, que compreendeu tanto a iluminação como a supervisão do Espírito Santo. Moisés foi chamado por Deus no momento mais crítico da história de Israel, pois Faraó estava prestes a exterminar os hebreus. E, com eles, perder-se-iam a narrativa da criação e os registros genealógicos que nos remetem a Adão e ao próprio Deus (Lc 3,38). Além disso, a linhagem do Messias também seria destruída, tornando inviável o advento de Nosso Senhor Jesus Cristo. Não há como mesurar a importância de Moisés na História Sagrada. O seu necrológio, apensado ao Deuteronômio, faz j us à sua biografia “Nunca mais se levantou em Israel profeta algum como Moisés, com quem o SEN H O R houvesse tratado face a face, no tocante a todos os sinais e maravilhas que, por mando do SENHOR, fez na terra do Egito, a Faraó, a todos os seus oficiais e a toda a sua terra,- e no tocante a todas as obras de sua poderosa mão e aos grandes e terríveis feitos que operou Moisés à vista de todo o Israel” (D t 34.10-12). Bastava o Gênesis para que Moisés se imortalizasse. Mas a sua obra não parou aí; transcendeu,


fazendo-se eterna Séculos mais tarde, vamos encontrá-lo no Monte da Transfiguração. Ali, juntamente com Elias, conferenciava com o \ferbo de Deus acerca do momento mais ingente da História Sagrada: a expiação da humanidade no Calvário. A profecia de Gênesis 3.15 cumpria-se plenamente

V. G Ê N E R O L IT E R Á R IO Ao contrário de Homero, legou-nos Moisés uma cosmogonia altamente confiável. Se o primeiro dispôs apenas do engenho humano, o segundo foi assistido pelo Espírito Santo, que o inspirou, dirigindo-o em toda a redação da obra. Na composição do livro de Gênesis, por conseguinte, Deus providenciou todos os detalhes, para que tivéssemos uma obra inerrante e infalível: alfabeto, língua, gênero literário e estilo. 1. Alfabeto. Conforme já dissemos, o Senhor impediu que os primeiros cinco livros das Escrituras Sagradas fossem escritos nos caracteres egípcios. Se isso tivesse ocorrido, o

Bastava o G ênesis para

Pentateuco teria desaparecido já nas décadas seguintes, pois

que Moisés se imortalizasse.

somente a elite cultural egípcia, da qual Moisés fazia parte, era capaz de dominá-los. Além do mais, a escrita ideográfica do

Mas a sua obra não parou aí;

N ilo estava fadada a desaparecer. Haj a vista que, no período do Novo Testamento, os hieróglifos já haviam sido substituídos,

transcendeu, fazendo-se

em todo o Egito, pelos alfabetos grego e latino. Dezoito

eterna.

séculos mais tarde, o francês Jean-François Champollion (1790-1832) enfrentaria dificuldades, a fim de resgatar o sentido daqueles signos línguísticos. Por esse motivo, Deus isolou Moisés por quarenta anos emMidiã, para que o seu servo aprendesse o alfabeto sinaítico. Através dessa invenção maravilhosa, ele teria condições de transmitir às gerações futuras os inícios da História Sagrada Embora não se saiba quem de fato criou a linguagem alfabética, o certo é que ela veio a ser assimilada rapidamente pelos hebreus, fenícios, gregos e latinos. Destes, veio a ser adotada pel a maioria das línguas modernas. Durante o cativeiro babilônico, os escribas j udeus houveram por bem substituir o alfabeto sinaítico pelo ashuridi, conhecido também como quadrádco devido à sua forma retangular. E , a partir do século 6o de nossa hera, apareceram os massoretas, cujo principal trabalho foi a vocalização do texto original hebraico, para que este não acabasse por perder a sua pureza fonética. 2 . Língua. Entre os idiomas antigos, tenho para mim que o hebraico era o mais perfeito. Simples e poético, apresenta uma gramática descomplicada e logo assimil ável. E d aro que, no decorrer do Antigo Testamento, os livros do Pentateuco foram submetidos a vários processos editoriais. Mas todas essas intervenções foram orientadas e supervisionadas pelo Espírito Santo, visando preservar a integridade do texto sagrado.


3. Gênero literário. Embora haj a poesias e até hinos no Gênesis, o livro não é uma obra poética. Diferentemente de Homero, utiliza Moisés a narrativa histórica para registrar os começos do Céu, da Terra, da humanidade e do povo hebreu. A História da Criação seria, séculos depois, salmodiada pelos cantores de Israel. Mas, quando da redação do Gênesis, o Senhor levou Moisés a utilizar um gênero literário adequado à historiografia sagrada, realçando a credibilidade do primeiro livro da B íblia 4. Estilo. Se o estilo é de fato o homem, em todo o Gênesis vemos a mão de Deus em tudo o que Moisés escreveu Historiador sagrado, foi belo e poético em cada frase e oração. Até pequenas sentenças, como esta, adquirem beleza e ternura em sua pena: “Haja luz” (Gn 1.3). A História de José é outro exemplo da excelência literária do autor sagrado. Quem consegue lê-la sem lacrimej ar? Enfim, o Gênesis é tão belo e singular que só podia ser divino. Escrito há mais de três mil e quinhentos anos, continua a encantar crianças, adolescentes, adultos e anciãos. O primeiro livro da Bíblia Sagrada, portanto, é uma história real, não uma parábola, nem uma coleção de alegorias, como sugerem os liberais e inimigos da Palavra de Deus. Se o interpretarmos doutra forma, j amais poderemos aceitar, como verdade, a História da Redenção.

V I. C O N TEÚ DO O Gênesis pode ser dividido em duas grandes seções: a História Primitiva e a História de Israel. 1. A História Primitiva. Conhecida também como História Primeva, a História Primitiva ocupa-se dos primeiros dois milênios da estadia do homem na Terra, abrangendo os primeiros onze capítulos do 1ivro: da Criação à Torre de Babel. De forma sintética, mas profundamente clara, a Palavra de Deus mostra como vieram a existir o Céu, a Terra, os animais e o homem Narra também a ocorrência do Dilúvio e o evento da Torre de Babel, revelando como originou-se a diversidade cultural da humanidade. 2. A História de IsraeL A partir do capítulo 12, tem início a História de Israel. E uma narrativa soteriológica das biografias dos três grandes patriarcas da nação hebreia Abraão, Isaque e Jacó. O relato é encerrado com a ascensão providencial de José ao governo egípcio. Nessa seção, Deus estabelece suas alianças com os pais da família hebraica. D e u m lad o , prometelhes que os protegerá em suas peregrinações até introduzi-los na terra de Canaã. Do outro, os hebreus se comprometem a guardar-lhe os mandamentos e devotar-lhe uma adoração exclusiva e única Todos fomos chamados a uma vida perfeita diante de El Shaday (Gn 17.1).

CO NCLUSÃO Como nos sairíamos sem o Gênesis? Ainda estaríamos presos às mitologias babilônicas, indianas e


gregas. Sem ele, j amais poderíamos libertar-nos dos mitos pós-modernos, que nos chegam todos os dias como verdade e ciência. Enfim, sem as verdades do Gênesis, jamais teríamos alcançado a liberdade em Cristo, pois a doutrina da salvação tem, no primeiro livro da Bíblia Sagrada, a sua gênese. Por isso, agradeçamos a Deus por nos haver providenciado uma porção tão indispensável e bela de sua inspirada e inerrante Palavra. Quanto mais o tempo passar, mais constataremos a exatidão da obra que nos legou Moisés. Leia o Gênesis com a sua família. No culto doméstico, abra a Bíblia neste livro e es tude o metódica e sistematicamente. Assim, você impedirá que os seus pequeninos sejam vítimas dos falsos postulados científicos como a Teoria do Big Bang e o Evoludonismo.


A CRIAÇÃO DOS CEUS E DA TERRA

Durante a redação deste capítulo, recorri diversas vezes aos dois primeiros capítulos de Gênesis. E, a cada leitura, perguntava-me “Por que essa passagem é tão combatida?” O referido texto, além de belo e piedoso, é mais lógico que o Big Bang e mais verossímil que Darwin Não obstante, até mesmo alguns seminários evangélicos, influenciados por uma incredulidade crônica, já não aceitam como verdade histórica os 11 primeiros capítulos da Bíblia. Seus professores, arrogantemente, ensinam que a narrativa da Criação e a História Primeva só podem ser recebidas al egoricamente. Analisando a redação sagrada do ponto de vista gramatical, verifico não haver aí parábola alguma. E, sim, um relato histórico muito bem elaborado que, sequer, abusa dos adjetivos. Por que um preconceito tão maligno contra o Santo livro? Embora a História da Criação não sej a científica, j amais será contraditada pela verdadeira ciência. Além do mais, é aresposta mais clara e confiável que possuímos à grande pergunta da vida “Com o vieram a existir tudo quanto há no Universo?” Levemos em consideração também que, sem o Criacionismo Bíblico, nenhuma doutrina cristã tem sentido.

I . A C O ER ÊN C IA D O C R IA C IA N ISM O B ÍB L IC O Cada religião possui o seu criacionismo. Dos gregos à tribo mais escondida da Amazônia, é possível encontrar uma narrativa da criação do Universo. Algumas fantásticas; outras pueris. Mas todas igualmente absurdas. Tais mitologias são o resultado de uma tradição oral que, transmitida por Adão e Noé a seus filhos, foi corrompida pelo tempo. Em sua base, porém, há um fundo de verdade 1. Criacionismo Bíblico. E a doutrina da Bíblia Sagrada, cuj o principal obj etivo é mostrar como vieram a existir os Céus, a Terra e o ser humano. E uma verdade aceita não somente pel a fé, mas também pela razão (Hb 11.3; Rm 1.19,20). O pecado de Adão e Eva, portanto, não conseguiu depravar absolutamente o homem; não impede a criatura de reconhecer o Criador na criação. 2. Os fundamentos do Criacionismo Bíblico. Três são os fundamentos do Criacionismo Bíblico: 1) a Bíblia Sagrada; 2) a razão; e: 3) o testemunho da Criação.


a) A Bíblia Sagrada. As Sagradas Escrituras afirmam, do inicio ao fim, que Deus é o Criador dos Céus e da Terra (Gn 1.1; SI 95.6; Ap 10.6). Ora, basca o testemunho da Escritura, para que nos convençamos da verdade Afinal, ela é a inspirada e inerrante Palavra de Deus. Ora, se a Bíblia não for capaz de convencer-nos, a quem recorreremos? (Lc 16.31). b) A razão humana. Embora comprometida pelo pecado, a razão ainda é eficiente para conduzir-nos ao Criador, conforme Paulo enfatiza aos romanos: “Porque os atributes invisíveis de Deus, assim o seu eterno poder, como também a sua própria divindade, claramente se reconhecem, desde o princípio do mundo, sendo percebidos por meio das coisas que foram criadas” (Rm 1.20). Todavia, não ignoramos que Satanás vem entenebrecendo a compreensão do homem moderno (2 C o 4 4). Por isso, temos de proclamar a Palavra de Deus a tempo e afora de tempo. c) A criação. Finalmente, a própria Criação testemunha do Criador (SI 19.1). No Salmo 104, o cantor sagrado enaltece a Deus por sua obra, pois esta discorre sobre o Ser que tudo criou e que a tudo preserva

I I. O M A R A V ILH O SO P R IN C ÍP IO D A C R IA Ç Ã O O que Deus fazia no principio? Não é fácil responder a essa pergunta, pois não dispomos de nenhuma informação acerca de suas atividades entre os três primeiros versículos do capitulo um de Gênesis. Todavia, permitamme algumas conclusões, que acredito serem coerentes e razoáveis. Antes de Deus fazer a Terra, E le criou o tempo, o espaço e a sua própria morada. 1. O tempo. Deus jamais faria a sua obra na eternidade, por quanto esta é um atributo exclusivamente seu (1 Tm 6.16). O Criador é sempiterno; a criação, temporal. Ao contrário dos gregos que acreditavam na eternidade da matéria, os hebreus crêem que tudo quanto existe no tempo, foi criado pelo Eterno (Hb 11.3). Aliás, nem a própria morada de Deus é eterna Sendo o tempo a duração relativa das coisas, gera-nos a noção de presente, passado e futuro: um período continuo no qual se sucedem os eventos. Deus, porém, é o que é. E le não está suj eito a qualquer sucessão de dias ou séculos. Presente, passado e futuro são-lhe a mesma coisa. Logo, somente o Eterno poderia criar o tempo. 2. O espaço. Contrariando o que muita gente supõe, o espaço não é sinônimo de vácuo. Este nenhum tecido possui. Aquele, entretanto, tendo a sua própria tela, não pode avançar além de suas fronteiras. O Senhor o criou, a fim de conter a sua obra que, embora vastíssima, é finita Logo, o espaço também é finito. O Criador não se acha limitado quer pelo tempo, quer pelo espaço; a criação, sim Até os mesmos anj os acham-se condicionados temporal e espacial mente, pois não podem estar em dois lugares ao mesmo tempo. 3. Os Céus. Tendo j á estabelecido o tempo e o espaço, o Senhor cria, agora, a sua própria morada.


Na verdade, E le não precisa de habitação alguma, pois nem o céu dos céus pode contê-lo (2 C r 6.18). Mas, Rei do Universo que é, delimita um lugar, para nele situar a sua corte, Sim, até o próprio céu necessita do tempo e do espaço, pois é um lugar real, e não uma mera parábola Embora não ocupe a nossa dimensão, a região celeste tem de ser vista como realidade. Para lá são levadas as almas dos que dormem em Cristo (Ap 6.9). A Nova Jerusalém, a morada eterna dos santos, também é um lugar bem real. E m breve, estaremos al i com o Senhor. Aj uda-nos, Pai. Já criados os céus, que não podem ser confundidos com os planetas de nosso sistema solar, o Senhor chama os anj os à existência Assim o sal mista descreve a ação divina: “Gs céus por sua palavra se fizeram, e, pelo sopro de sua boca, o exército deles” (SI 33.6). Os seres angelicais também foram criados pelo sopro divino, exatamente como o Senhor procederia com o homem (Gn 2.7). O Criador, pois, dedicou especial atenção às suas criaturas racionais; chamou-as à vida de maneira única e

Deus j amais faria a sua obra na eternidade, porquanto esta é um atributo exclusivamente seu

personalizada cada anj o é um anj o, cada homem é um homem

(1 T m 6.16).

Semelhantes, sim; iguais, não. 4.

A Terra inform e. Ainda no princípio, Deus criou a Terra, e pô-la exatamente naquela

coordenada espacial, onde se encontra até ao dia de hoj e. Nosso planeta, j á delimitado pel o tempo e pelo espaço, ainda era vazio e não possuía a forma atual. O autor sagrado assim o descreve ‘A terra, porém, estava sem forma e vazia; havia trevas sobre a face do abismo, e o Espírito de Deus pairava por sobre as águas” (Gn 1.2). O que era a Terra nesse longínquo princípio? Era um todo disforme coberto pelas águas, que escondiam um grande abismo. Por essa razão, fazia-se necessária a presença do Espírito Santo que, pairando por sobre as águas, dava sustentação gravitacional ao nosso planeta Pois o Sol, a Lua e os demais corpos do Sistema Solar ainda não haviam sido criados, para manter-lhe a gravidade naquele quadrante específico do espaço.

III. A C R IA Ç Ã O D A LU Z Deus não precisa de luz, pois a luz e as trevas são-lhe a mesma coisa A lém disso, habita E le em luz inacessível (SI 139.12; 1 T m 6.16). Sua obra, porém, dela necessita para subsistir. Por esse motivo, para dar forma à Terra, o Senhor ordenou-lhe o aparecimento: “Haj a luz” (Gn 1.3). I.

A luz primeva. Somente o Pai das luzes para dar luz à luz CIg 117). A luz do primeiro dia mio

era gerada pelo Sol, que só viria a existir no quarto dia da Criação. Alguns a denominam de primeva. Outros, de cósmica Para mim, simplesmente divina, pois Deus mesmo é a sua fonte. Na Jerusalém Celeste, não teremos qualquer necessidade do Sol, porque o próprio Criador será a


luz da nova criação; a terra e os céus atuais j á terão passado (Ap 21.23; 22.5). Eis que tudo se fará novo. A partir daí, não precisaremos mais da luz primeva; nem da solar viremos a necessitar: a luz eterna, provinda do ser divino, iluminará a cidade que o Pai, em seu inexplicável amor, arquitetou e construiu para acolher-nos na eternidade Aleluia! 2.

Jesus, a luz do m undo. Sim, Deus é luz e, nele, não há treva alguma (ljo 1.5). Por isso,

aprouve-lhe enviar-nos o seu Unigênito como a luz do mundo (fo 8.12). Em Jesus Cristo, somos recriados para uma nova real idade espiritual. Sem o Cordeiro, onde estar íamos? Aprisionados em trevas espirituais até sermos lançados à escuridão mais exterior (M t8.12). Mas, hoje, caminhamos na luz e vivemos no reino da luz e, como a luz, resplandecemos (Fp 2.15). Só em Cristo isso é possível.

IV . O FIR M A M EN T O E A PO R Ç Ã O SECA Tendo j á iluminado o espaço com a luz primeva, o Criador passa, agora, a separar as águas que se achavam acima e abaixo do firmamento. Não se pode explicar devidamente como isso aconteceu. Por esse motivo, requeiro a sua licença, querido leitor, para tirar algumas conclusões do texto sagrado. 1. U m planeta disforme e vazio. Até o segundo dia da Criação, a Terra ainda não possuía uma forma definida Na ausência de atmosfera, suas águas ficavam tanto abaixo como acima do solo. Era um todo confuso e disforme Era necessário, pois, que o Senhor ordenasse o caos, conforme registra o autor sagrado: “E disse Deus: Haj a firmamento no meio das águas e separação entre águas e águas. Fez, pois, Deus o firmamento e separação entre as águas debaixo do firmamento e as águas sobre o firmamento. E assim se fez. E chamou Deus ao firmamento Céus. Houve tarde e manhã, o segundo dia” (Gn 1.6-8). 2. O firm am ento. Não posso definir o firmamento de Gênesis como o espaço sideral, pois este, como já vimos, fora criado logo no “princípio”. Também não posso confundi-lo com a porção seca do terceiro dia Resta-me, pois, focá-lo como a atmosfera terrestre. Justamente, neste ponto, é que surge uma velha e incômoda pergunta “Com o explicar as águas que se achavam acima do firmamento?” Penso que o nosso planeta, antes do Dilúvio, era envolvido por um escudo hídrico, que o protegia dos raios

Sem o Cordeiro, onde estariamos? Aprisionados em trevas espirituais até sermos lançados à escuridão mais exterior M t 8.12).

ultravioletas do So l, proporcionando saúde e longevidade aos filhos de Adão. Sob uma atmosfera tão sadia, as feridas eram imediatamente cicatrizadas e a expectativa de vida, mesmo sob o pecado, era quase milenar (Gn 5.27). Depois, foi a existência humana definhando até chegar aos parâmetros atuais (Gn 50.26; SI 90.10). Aliás, sob aquela atmosfera, o corpo humano bastava


para se curar. Por ocasião do singular cataclismo, porém, “as comportas dos céus se abriram, e houve copiosa chuva sobre a terra durante quarenta dias e quarenta noites” (Gn 7.11,12). A partir de então, a Terra ficou exposta aos raios daninhos do Sol. E, assim, deixou de ser aquele imenso e belo paraíso dos antigos. Enfermando-se, nosso planeta adoenta-nos e rouba-nos a vida Quando, porém, o Senhor Jesus estabelecer o Milênio, a Terra será curada, mas a morte ainda reinará até a consumação final de todas as coisas. 3.

A porção seca. Não era intenção do Senhor criar uma terra encharcada, nem um imenso deserto

Trabalhando harmonicamente a Criação, ideava um lugar com oceanos, mares e rios. E, cada um destes, banhando continentes e ilhas. Por isso, no terceiro dia, separou, de entre as águas, a porção seca, e fê-la aparecer simetricamente por todo o planeta, A atmosfera, agora, envolvia uma terra que não era sem forma, nem vazia. A essas alturas, nosso planeta já era um globo bem definido. Faltava apenas o aparecimento das placas continentais. Então, ordena o Senhor: A j untemse as águas debaixo dos céus num só lugar, e apareça a porção seca, E assim se fez. Á porção seca Deus chamou Terra e ao aj untamento das águas, Mares. E viu Deus que isso era bom” (Gn 1.9,10).

V. O A PA R E CIM EN TO D O R E IN O V E G E T A L Já havia mares e continentes, mas a porção seca do planeta achava--se despida de árvores e nua de ervas. A vida ainda não era possível no planeta, Para que ela se viabilizasse, Deus torna o reino vegetal uma estonteante real idade. 1. O reino vegetal. O Criador tudo planej ou com sabedoria. Quando lemos o oitavo capítulo de Provérbios, maravilhamo-nos com a manifestação da sabedoria divina Em dado momento, parece mais um monólogo do Cristo que, embora ainda no seio do Pai, descreve como tudo foi chamado à existência. Então, neste momento, decreta o Senhor o surgimento do reino vegetal: “E disse: Produza a terra relva, ervas que dêem semente e árvores frutíferas que dêem fruto segundo a sua espécie, cuj a semente estej a nele, sobre a terra. E assim se fez. A terra, pois, produziu relva, ervas que davam semente segundo a sua espécie e árvores que davam fruto, cuj a semente estava nele, conforme a sua espécie. E viu Deus que isso era bom” (Gn 1.11,12). Sem dúvida, foi algo maravilhoso. Do solo ainda virgem e casto, brotaram árvores eervas. Aquel e chão, ainda tãojovem, cobria-se agora de verde e, como num grande milagre, acobertava-se de fl ores. Somente Deus poderia criar tanta maravilha 2. A fotossintese. A essa altura, cabe outra indagação: “Como a vegetação poderia vingar sem o processo de fotossintese, j á que o sol só viria a ser criado no quarto dia?” Ora, se ainda não havia o Sol, a luz do primeiro dia já exisria E, provinda ela de Deus, possuía os elementos necessários ao pleno desenvolvimento das árvores e ervas que, por toda a parte, j uncavam a Terra


Não há contradição alguma entre a Bíblia Sagrada e a verdadeira ciência Afinal, aquele que criou as plantas haveria de esquecer-se de algo tão básico como a fotos síntese?

V L A C R IA Ç Ã O D O SIST E M A SO L A R Até ao quarto dia, o Espírito Santo ainda pairava por sobre a Terra, a fim de emprestar-lhe forma e mantê-la em suas coordenadas. Afinal, nosso planeta depende da força gravitadonal do Sol. Doutra forma, seria um astro errante, no qual a vida seria impossível. Por isso, Deus cria o Sis tema Solar. 1. A cosmologia bíblica. Nas Sagradas Escrituras, encontramos uma cosmologia superior a qualquer sistema humano. Ao repreender o povo de Judá, o profeta Jeremias descreve o mecanismo com que Deus dotara o Universo: ‘Assim diz o Senhor, que dá o sol para a luz do dia e as leis fixas à lua e às estrelas para a luz da noite, que agita o mar e faz bramir as suas ondas; Senhor dos Exércitos é o seu nome Se falharem estas leis fixas diante de mim, diz o Senhor, deixará também a descendência de Israel de ser uma nação diante de mim para sempre” (Jr 31.35,36). Para o pós-modernismo, as 1eis fixas de que fala o profeta são inaceitáveis, porque tudo haverá de ser absolutamente relativo. Se o Universo está em expansão, como aceitar a cosmologia bíblica? Quanto a mim, sinto-me mais confortável com o Gênesis de Moisés do que com o relativismo de Einstein. 2. A criação do Sol e da Lua. Já de início, podemos afirmar que a Terra é mais velha do que o Sol e a Lua Logo, j az sem qualquer sentido a Teoria do Big Bang, segundo a qual os corpos do Sistema Solar e as galáxias vieram a existir em virtude da explosão de uma partícula subatômica incrivelmente densa e quente Tal explosão não existia De acordo com a Bíblia, o Sistema Solar veio a surgir como resultado desta ordem divina “Haj a luzeiros no firmamento dos céus, para fazerem separação entre o dia e a noite; e sej am eles para sinais, para estações, para dias e anos. E sej am para luzeiros no firmamento dos céus, para alumiar a terra. E assim se fez. Fez Deus os dois grandes luzeiros: o maior para governar o dia, e o menor paragovernar a noite; efez também as estrelas” (Gn 1.14-16). Já criado o Sol, a Lua e as estrelas, põe-se a Terra sob a sua influência gravitadonal. No Universo, estabelecem-se as quatro grandes forças: gravidade, eletromagnetismo, força nudear forte e força nudear fraca. 3. A divisão do tempo. Se até agora, o tempo era contado apenas em dias, a partir da criação do Sol, da Lua e das estrelas, poderá ele ser dividido também em semanas, meses, anos, séculos e milênios. Acrescente-se, ainda, que, a partir de agora, a Terra ganha mais um movimento: atranslação, a sua viagem anual em redor do Sol.

V II.

O R E IN O A N IM A L


Estamos no sexto dia da criação. A terra já está devidamente preparada para acolher, nutrir e preservar a vida. Assim, Deus chama à existência o reino animal. 1. O s peixes e as aves. N o quinto dia, os peixes enchem os mares, e as aves ocupam os céus (Gn 1.21,22). Todos segundo a sua espécie. Nenhuma espécie evolui de outra nem para outra,- ao ambiente natural, adaptam-se naturalmente Em tudo, Deus é perfeito. Não esqueceu nenhum detalhe E le fez desde os peixinhos que encerramos num aquário às enormes baleias e tubarões, que amedrontam os que se fazem ao mar. Quanto às aves, do rouxinol à soberba águia, há uma cadeia ininterrupta de pássaros. Somente um Deus como o nosso para criar tão perfeitamente tudo quanto existe. 2 . Os animais selvagens e domésticos. N o dia seguinte, vieram os animais domésticos e selvagens (Gn 1.24,25). Na obra divina, não há espaço à teoria de Darwin. Observemos, por exemplo, a cadeia que existe entre os felinos. D o gato mais diminuto ao leão mais orgulhoso, há uma cadeia impressionante de vida Nenhuma espécie necessita de outra para evoluir, pois todas j á foram chamadas à vida exatamente como as vemos hoj e.

Não há contradição CO NCLUSÃ O A criação de Deus é perfeita Não só perfeita, mas belamente sustentável. E o que descobrimos em Gênesis. Por esse motivo, alegramo-nos todas as vezes que voltamos ao

alguma entre a Bíblia Sagrada e a verdadeira ciência.

primeiro livro da B íblia Sagrada. As perguntas que a ciência não 1ogrou responder são, em suas páginas, todas el ucidadas numa 1inguagem simpl es e claríssima Portanto, voltemos a pregar o Gênesis. Afinal, tudo quanto existe tem, nele, início. Sim, até mesmo as doutrinas que tanto prezamos. N o próximo capítulo, veremos como e por que Deus criou o ser humano.


E DEUS OS CRIOU HOMEM E MULHER

IN TR O D U Ç Ã O Por rej eitar a Bíblia Sagrada, a academia secular tropeça constantemente nesta pergunta “Quem é o homem7”. Insatisfeita em sua antropologia, racionaliza a questão, e retruca; “O que é o homem7”. E, assim, sistemática e metodicamente, coisifica o ser humano, descartando a única resposta plausível: “O homem é um ser criado por Deus e para Deus”. Se aceitarmos a historiddade da narrativa mosaica, logo acharemos o nosso lugar no universo que Deus criou, Mas, caso optemos pelas proposições darwinistas, isolar-nos-emos cosmicamente Entre Moisés e Darwin, há um abismo intransponível. Apesar das tentativas de se construir uma ponte entre ambos, o fosso aprofunda-se a cada discussão, tornando impossível o trânsito entre o Evolucionismo e o Criadonismo. Se aquele é mera teoria, este apresenta-se como a única alternativa à angústia gerada por nossa presença no mundo.

I . Q U EM É O H O M EM Embora contingente, o homem é um ser necessário. Por essa razão, Deus o chamou à existênda. Isso não significa que o Senhor predsasse de nós para existir. Absoluto, presdnde de relações fora de si. E le é o que é. Em sua obra, porém, somos indispensávds. Apardr dessa premissa, j á podemos dizer quem é o homem I.

Imagem e semelhança de Deus. O Senhor criou-nos à sua imagem e semelhança (Gn 1.26)

Nem a queda, no Eden, logrou destruir tais fdções. Logo, descartamos, por absurda e incongruente, a doutrina da depravação total do ser humano. Doutra forma, a obra vicária de Jesus Cristo resultaria ineficaz. Satanás, todavia, conquanto nada possa criar, é um exímio chargista Na criatura, dis torce o Criador. No Criador, não ddxa de caricaturar a criatura Seus traços podem ser encontrados tanto na mitologia mais grotesca, como no mais refinado texto acadêmico. Homero (século V III a.C), ao exaltar os feitos gregos,


divinizou os homens, humanizando a divindade. Artista que era,

“O homem é um ser

versificou-a numa série de deuses iracundos, orgulhosos, adúlteros e homicidas. Só mesmo, em sua imaginação, era

criado por Deus e para

possível um mundo, no qual nenhuma fronteira moral havia entre o divino e o humano. E m sua poesia, aquele era pior que

Deus”.

este Charles Darwin (1809-1882), por seu turno, fez uma caricatura ainda mais blasfema do ser humano. Numa prosa bem elaborada, que lembra os grandes tratados da ciência, o escritor inglês apresenta o homem como o resultado final de um longo processo evolutivo. Tal processo, entretanto, estanca-se no homem e não contempla os milhões de símios, que j amais d ita rã o a homo sapiens. Em seu mundo, até dinossauro vira passarinho. Apesar de sua linguagem acadêmica, ele não passou de um chargista: descaracterizando a criatura, debochou o Criador. Que o homem não seja anedotizado nem pela arte, nem pela dência Por que não defini-lo, simplesmente, como uma criatura racionalmente espiritual, cuja missão é amar, glorificar o Criador e fazer-lhe a obra. 2 . Pouco m eno r que os anjos. Se o homem é a obra-prima da criação, por que Deus o criou menor que os anj os? Parece-me que Davi tem a resposta. Ao contemplar a criação, indaga do Criador: “Quando vej o os teus céus, obra dos teus dedos, a lu a e as estrelas que preparas te; que é o homem mortal para que te lembres dele? E o filho do homem, para que o visites?” (SI 8.3,4). Mais adiante, buscando situar a criatura na obra divina, reconforta-se “Contudo, pouco menor o fizeste do que os anj os e de gl ória e de honra o coroas te Fazes com que el e tenha domínio sobre as obras das tuas mãos; tudo pus este debaixo de seus pés” (SI 8.5,6), Apesar de nossa inferioridade, Deus nos colocou sobre os ombros o governo do Universo. Por que não os anjos? Afinal, são-nos superiores. Essa tarefa, porém, é nossa Somente a nós cabe a administração do mundo; em seu nome a exercemos. Nessa lida, os seres angelicais entram para auxiliarnos. Apesar da insignificânda da criatura, o Criador confia-lhe toda a criação. Somos, de fato, inferiores aos anjos. Essa condição, porém, é temporária. E m breve, os redimidos seremos recepcionados no céu como a Noiva do Corddro. Mesmo agora, limitados física, intelectual e espiritualmente, temos privilégios sobre os quais os anjos anelam perscrutar (1 Pe 1.12). A Bíblia Sagrada, pois, não diviniza o homem como Homero, nem o animaliza como Darwin: coloca-o num patamar j amais imaginado pelo mortal (1 C o 2.9). 3 . A coroa da criação. Davi, como bom teólogo, não ignorava o lugar do homem na criação. Um lugar tão elevado que requer uma coroa: “Contudo, pouco menor o fizeste do que os anj os e de glória e de honra o coroas te.” (SI 8.5). Embora nos haj a criado menor que os anj os, não foi a estes que o Senhor coroou. A humanidade é a coroa da criação. Desta coroa, Jesus Cristo é a perfdtissima glória, por ser a única ponte entre nós e Deus. Eis porque a Bíbl ia no-1 o apresenta como \ferdaddro Homem e \ferdadeiro


Homem. 4.

A constituição do hom em . Dicotomia? O u tricotomia? Ainda bem que esse conflito limita-se

aos teólogos. Quanto aos autores sagrados, tratam o assunto com desconcertante objetividade. As vezes, tenho a impressão de que são tricotômicos (1 Ts 5.23). Outras vezes, parecemme dicotômicos (Mt 10.28). Com o este não é o fórum mais apropriado para se discutir a questão, serei econômico nas palavras. E m resumo, como veremos, o ser humano é composto por dois únicos elementos: corpo e alma. Provindo ambos de Deus, têm como obj etivo exal tar-lhe o nome a) O Corpo. Formado do pó da terra, o corpo humano é a morada do Espírito Santo (1 C o 6.19). Logo, o pecado de Adão não logrou depravá-lo essencial e totalmente. Já redimido por Cristo, é submetido pelo Espírito Santo a um processo de santificação e pureza E , quando da ressurreição, os redimidos levantar-nos-emos em glória, para estarmos para sempre com o Senhor (1 C o.50-58). b) A alm a. A o se referirem à parte imaterial de nosso ser, os escritores sagrados usamos termos “alma” e “espírito” como

Apesar de nossa

sinônimos. Mesmo quando ambas as palavras aparecem j untas, não encontramos, ai, nenhuma contradição. Vej amos o exemplo clássico de 1 Ts 5.23: “O mesmo Deus da paz vos santifique em tudo; e o vosso espírito, alma e corpo sejam conservados

inferioridade, Deus nos colocou sobre os ombros o

íntegros e irrepreensíveis na vinda de nosso Senhor Jesus Cristo”.

governo do Universo.

Nesse caso específico, que explicação daremos? A melhor resposta que encontrei veio da pena sábia e equilibrada de um teólogo da Assembleia de Deus. Explica Myer Pearlman (1898-1942): “A alma sobrevive à morte, porque é energizada pelo espírito, mas alma e espírito são inseparáveis, porque o espírito está entretecido na própria textura da alma. São fundidos e caldeados numa só substância”. Através da alma, entramos em contato com o mundo físico. E, por intermédio do espírito, temos acesso às realidades espirituais. Ambos são inseparáveis.

II. A C R IA Ç Ã O D O H O M EM Não ignoro a Teoria da Evolução. Dou-me, porém, o direito de acreditar no Criacionismo Bíblico, por ser este mais lógico e verossímil do que aquela. O evolucionismo ainda não saiu do terreno das hipóteses, ao passo que a narrativa bíbl ica faz-se a cada dia mais convincente I.

O conselho da criação. A Bíblia não revela se houve algum concelho da Santíssima Trindade

quanto à criação dos céus e da terra. Acredito que nem mesmo para os anj os, mais excelentes do que nós, houve semelhante formalidade. Todavia, quando da formação do homem, o Pai, o Filho e o Espírito Santo expediram este decreto: “Façamos o homem à nossa imagem, conforme a nossa semelhança,- tenha ele domínio sobre os peixes do mar, sobre as aves dos céus, sobre os animais domésticos, sobre toda a terra e sobre todos os répteis que rastej am pela terra” (Gn 1.26). Por que a criação do ser humano teve de


ser precedida por um concilio da divindade? Antes de tudo, porque o homem é a coroa da criação. Sem ele, o Universo não passa de um cenário vazio. E, apesar de os anj os serem, temporariamente, superiores a nós, é conosco que Deus anseia manter a mais íntima comunhão. Isso não significa, porém, que E le não se praza na companhia dos seres celestes. Tanto é que estes, ao serem criados, foram postos ante o seu trono. Na História Sagrada, trata-os como filhos (Jó 1.5; 38.7). 2. A form a da criação. Não somos o resultado de um longo e entediante processo evoludonário, mas a coroa de um ato criativo de Deus. De maneira singela, mas verdadeira e literal, a Bíblia descreve a nossa feitura: “Então, formou o Senhor Deus ao homem do pó da terra e lhe soprou nas narinas o fôlego devida, e o homem passou a ser almavivente” (Gn 2.7). A simplicidade da narrativa bíblica induz o academidsmo incrédulo e blasfemo a buscar outras explicações sobre o nosso aparecimento na terra. No passado, o mito. No presente, a falsa dênda E, no futuro, a mentira sistemática do Anticris to. No princípio, segundo o poeta grego Hesíodo (750-650 aC .), só havia deuses no universo. Por causa disso, o marasmo fez daquele céu, um inferno. Foi então que Prometeu, um dos titãs mais afoitos, rogou a permissão de Zeus para criar um ser mortal à imagem e semelhança dos deuses. Aprincípio, o rei do Olimpo não gostou da idda E, se por acaso, não desse certo? Não haveria qualquer problema, intervdo Prometeu Sendo o homem mortal, estaria tudo resolvido. E, assim, o inventivo titã amassou um punhado de argila, e, a partir desta, fez o ser humano. A mitologia grega 1 embra uma verdade que o tempo e a memória encarregaram-se de distorcer. Quanto à fantasia dentífica de Darwin, o que podemos dizer? Em virtude de sua roupagem acadêmica e de sua linguagem muito bem trabalhada, ganhou rapidamente foros de verdade Tanto é que Charles Darwin foi sepultado na Catedral de Westminster como um dos maiores intelectuais do Reino Unido. Bem diz o apóstolo: arrogando-se sábios, fizeramse loucos. Entre a poesia de Hesíodo e a prosa de Darwin, prefiro Moisés. Sua narrativa 1eva-me à proposição de um Deus bom e santo. Em seu amor, criou-nos a fim de compartilhar a sua glória 3. O homem é da terra e a Terra é do hom em . Tirados da terra, temos as propriedades todas da Terra. E, um dia, à Terra voltaremos. De seus produtos, alimentamo-nos. E, com o material que nos fornece, abrigamo-nos. Enfim, ela fornece-nos tudo de que necessitamos. Em nosso organismo, acham-se, entre outros, os seguintes elementos químicos do solo: ferro, manganês, potássio, sódio, cobre, cálcio, seiênio, molibdênio, zinco, iodo, fósforo, magnésio, cobalto, iodo, enxofre e doro. Diante de semelhante fato, como desprezar a narrativa do Gênesis, que, de forma tão simples e d ar a, mostra o homem como formado do pó da terra7 4 . O m onogenismo da raça humana. Em seu discurso no Areópago de Atenas, perante os filósofos epicureus e estóicos, Paulo deixou bem patente a doutrina bíblica do monogenismo. Afirmou que Deus “de um só fez toda a raça humana para habitar sobre toda a face da terra, havendo fixado os tempos previamente estabeleddos e os limites da sua habitação” (At 17.26).


Diante dessa proposição, não há o que se negar: todos somos filhos de Adão e Eva Logo, brancos e negros, j udeus e árabes, europeus e brasileiros, somos todos irmãos. N o verdadeiro cristianismo, não há espaço para filosofias ou teologias racistas. Concluímos, daí, existir apenas uma única raça, que, providencial mente, divide-se, multiplicando-se em famílias, tribos, nações, povos e línguas. O mapeamento do DN A revela de maneira surpreendente a unidade da família adâmica. Se levarmos em conta que cada mulher recebe o DNAmitocondrial da mãe, ser-nos-á possível retroceder à primeira fêmea. Diante desse fato, os cientistas al cunhar amua de “Eva Mitocondrial”. Na esteira dessa pesquisa, descobriu-se também o ‘Adão Cromossônico Y ”. A verdadeira ciência não contraria a narrativa bíblica. Não obstante, alguns acadêmicos ainda teimam em contrariar as Sagradas Escrituras, optando por explicações absurdas.

III. A M ISSÃ O D O H O M EM Imaginemos o primeiro diálogo do Senhor com Adão. Ao chamá-lo ávida, confidenciou-lhe o Pai: “Neste vasto planeta, escondi celulares, tabletes, aviões e até naves espaciais escondi”. E m seu aprendizado, indaga-lhe o homem “Senhor, o que são essas coisas, e onde posso achá-las?”. Bo m didata e amoroso educador, responde-lhe Deus: “Trabalha a terra e logo as descobrirás”. A missão do ser humano, por conseguinte, consiste em aculturar a terra, povoá-la egoverná-la 1. Aculturar a terra. Daqui a pouco, terei de interromper este livro para almoçar. Já de posse do prato e dos talheres, pegarei uma concha de feijão, outra de arroz, alguma verdura e legume e, possivelmente, um pedaço de carne De sobremesa, frutas. A refeição será possível, porque os genitores da raça, obedecendo às ordens do Criador, puseramse a trabalhar a criação. Descobriram e selecionaram os alimentos. E , a fim de prepará-los, inventaram deliciosos temperos. Mas, o que fariam sem o fogo e a porcelana? A partir da arte culinária, foram industriando o mundo que Deus criou. E, de descoberta em descoberta, chegaram ao espaço. O interessante é que tudo teve início com a agricul tura 2. Povoar a terra. Quantas pessoas poderiam viver confortavelmente na terra? Já ouvi dizer que em torno de 16 bilhões. D e acordo com a ONU, em 2050, haverá nove bilhões e 3 0 0 milhões de habitantes no planeta. Se toda essa gente for bem distribuída, todos poderemos viver de maneira sustentável e até usufruir de algum conforto. Conclui-se, pois, que a pobreza extrema mio é ocasionada nem pela falta de espaço, nem pela ausência de alimentos. Se a riqueza fosse distribuída

O mapeamento do DNA revela de maneira surpreendente a unidade da família adâmica.

com j ustiça e equidade, ninguém morreria de fome Segundo Robert Malthus (1766-1834) o mundo estaria fadado à destruição, se o crescimento demográfico não fosse imediatamente barrado. Temia ele a falta de comida e de água. Graças a Deus, o


economistabritânico estava errado. Hoj e, há mais alimentos no planeta do que no primeiro século da Era Cristã, quando a população mundial girava em torno de 150 milhões de pessoas. As nações que seguiram o conselho de Malthus enfrentam, hoj e, ingentes dificuldades para repor seus es toques populacionais. Haj a vista a Europa e o Japão. Até a própria China, apesar de sua imensa demografia, corre o risco de se tornar um imenso asilo de velhos. Sua política de filho único é uma tragédia mais que óbvia. Por conseguinte, a ordem divina para se povoar a terra é razoável e não atenta contra a sustentabilidade do planeta O que gera o desequilíbrio ecológico e a ação predadora do ser humano ímpio e inimigo de Deus. 3.

Governar a terra. Houvesse o homem obedecido a Deus, o paraíso terrestre não teria se limitado

ao Eden Toda a terra seria um lugar belo e sustentável, onde os filhos todos de Adão poderiam desfrutar de todo o bem que nos legou o Senhor. Nossa biosfera é mais que suficiente para dar alimento, abrigo e bem-estar aos homens e animais. O Criador providenciou o necessário, a fim de que todos os seus filhos, de Adão ao último bebê a nascer no planeta, tenham o suficiente para viver com amor e dignidade Se o homem governar bem o planeta, não haverá miseráveis em lugar algum E o que demonstrará o Senhor Jesus, quando estabelecer o seu reino entre os homens.

IV.

A IN ST IT U IÇ Ã O D O C A SA M EN TO

A agenda divina no sexto dia da criação estava bem carregada Num primeiro momento, Deus criou o homem, confiando-lhe o governo do mundo e a classificação da fauna. Mais adiante, sentindo-lhe a solidão, formou-lhe a mulher. E, para arrematar a sua obra, casou-os, instituindo o matrimônio. 1. A solidão é ruim. Ser absoluto por excelência, o Criador prescinde de rei acionamentos com a criação para ser o que é. Todavia, sua natureza amorosa e j usta leva-o a revelar-se à criatura E, conosco, aprofunda a comunhão. Por esse motivo, não poderia E le admitir que o homem vivesse isolado e desprovido de semelhantes. Ante o isolamento de Adão, declarou o Senhor: “Não é bom que o homem estej a só; far-lhe-ei uma auxiliadora que lhe seja idônea” (Gn 2.18). O casamento, pois, era indispensável para que o Eden se tornasse um paraíso. Por isso, o Senhor, da costela de Adão, criaam ulher. E, apresentando-lha, leva-o a compor um poema “Esta, afinal, é osso dos meus ossos e carne da minha carne; chamar-se-á varoa, porquanto do varão foi tomada” (Gn 2.23). 2. Características do casamento. Instituído por Deus, o casamento tem as seguintes características: a) monogâmico: um único homem para uma única mulher; b) heterossexual: um macho para uma fêmea; c) indissolúvel: só pode ser dissolvido nestas circunstâncias: morte, infidelidade conjugal e abandono (Rm 7.2; M t 19.9; 1 C o 7.15). Qualquer vínculo que fuja a esses parâmetros não haverá de ser tido como casamento. Logo, a


união entre pessoas do mesmo sexo, embora legalizada, jamais será considerada, àlu z da B íblia Sagrada, casamento. Logo, não conta nem com a bênção, nem com a chancela divina. Quanto à poligamia, Deus a tolerou no princípio, mas nunca a aprovou 3.

A bênção m atrim onial. A partir do casamento de Adão e Eva, os demais matrimônios dar-se-

iam, primeiro, entre irmãos, e, depois, entre primos. E, assim, até que a união conj ugal deixasse o âmbito da endogamia e passasse a ser pradcada exogamicamente. Para que a raça humana não viesse a ser deteriorada genericamente, o Senhor abençoa o primeiro casal: “Sede fecundos, multiplicai-vos, enchei a terra e suj eitai-a,- dominai sobre os peixes do mar, sobre as aves dos céus e sobre todo animal querastej apela terra” (Gn 1.28). CO N CLUSÃ O C o m a instituição do casamento, tem início a História. Até a formação da mulher, havia apenas uma biografia solitária e sem muito interesse Mas tudo muda, quando o Pai chama sua filha, Eva, à existência A partir dai, o drama humano haveria de ter livre curso. Da biografia de Adão à História Universal, plenifica-se na História Sagrada C om a instituição do casamento, o Criador

Houvesse o homem obedecido a Deus, o paraíso terrestre não teria se limitado ao Eden.

começaria a revelar a profundidade de seu amor à criatura racional, que, suscitada da terra, almej a o céu,feita no tempo, tem si a eternidade.


A QUEDA DA RAÇA HUMANA

IN TR O D U Ç Ã O O filme 2001 -

Uma Odisséia no Espaço é uma lastimável charge da queda do homem

Trabalhando o roceiro de Arthur C. Clark, o diretor Stanley Kubrick dá início à sua perambulação, focalizando uma sociedade ainda distante do homo sapiens. Mais símios que humanos, suas caricaturas lutam por sobreviver ao ambiente Faltando-1 hes víveres, sobram-lhes instintos. Por uma fonte d’água, matam e morrem A história do bizarro aj untamento começa a mudar, quando um hominídeo defronta-se com um estranho monólito. Após tocar a pedra finamente polida, apodera-se ele de uma tíbia que, até então, servira-lhe de arma, e arremessa-a para o alto. No instante seguinte, o cenário muda bruscamente. Agora, aparece um ônibus espacial da extinta PAN AMAM, conduzindo o Dr. Heywood R Floyd até uma base que orbita a terra, Com o trilha sonora, Strauss e Wagner. Quando do lançamento do filme, em 1968, pensava-se que, decorridos 33 anos, o homem não mais seria o lobo do homem Para Stanley Kubrick, nosso maior adversário seria o Hal 9000, um computador narcisista e com muita gana de poder. Enfim, 2001. No espaço, nenhuma odisséia. Na terra, a maior tragédia dos tempos pós-modernos. O ataque de 11 de setembro mostra a selvageria do homeml. Osso algum é lançado ao espaço. Milhares de corpos, porém, misturaram-se aos escombros das Torres Gêmeas. Na história humana, evolução alguma. Apesar do avanço tecnológico, continuamos a involuir. Logo, não caímos para o alto; predpitamo-nos no abismo que sempre chama outro abismo: o pecado. Nossa queda foi real e para baixo,

I. O Q U E É A Q U ED A Na visão de Stanley Kubrick, a aurora da humanidade era nada racional e selvagem A evolução da raça, porém, arrancou-nos à barbárie, lançando-nos a caminho de Júpiter. A narrativa mosaica caminha em sentido contrário. O homem não evoluiu, mas perigosamente involui à morte eterna E, deste processo, só Cristo pode liberlar-nos. E o que nos ensina a doutrina da queda humana.


1. A teologia da queda E a doutrina, segundo a qual o homem, por haver desobedecido a Deus, comendo do fruto proibido, foi expul so do Eden, estando, a partir dai, suj eito à morte espiritual, física e eterna Cristo, todavia, trouxe morte à morte pela sua morte. Logo, crendo em Jesus, como seu Salvador, o homem é restaurado espiritualmente, vendo-se livre da morte eterna Quanto à morte física, acalenta-nos a esperança da ressurreição. 2. O fundamento da teologia da queda. O principal fundamento da teologia da queda encontra-se na Bíblia Sagrada Através de uma narrativa e de muitas proposições diretas e indiretas, a Palavra de Deus mostra por que a criatura, após haver se rebelado contra o Criador, começa a involuir até quase depravarse total mente. Utopicamente, o homem, buscando fugir à tragédia do Eden, olha para o futuro, como se este fosse acessar-lhe o paraíso perdido: uma sociedade amorosa, justa e solidária Mas o que se vê pela frente é distópico. Por essa razão, a historiografia traça a traj etória humana prosaica e poeticamente, como ressalta Aristóteles (384-322 aC .): “O historiador e o poeta não se distinguem um do outro pelo fato de o primeiro escrever em prosa e o segundo em verso. Diferem entre si, porque um escreveu o que aconteceu e o outro o que poderia ter acontecido”. De um modo geral, todas as ciências, quer as humanas, quer as exatas, evidenciam os efeitos da Queda A medicina, por exempl o, tudo faz por al ongar-nos a vida, mas os próprios médicos acabam por sucumbir à morte. 3. Objetivos da teologia da queda Em linhas gerais, estes são os obj etivos da Teologia da Queda: 1) mostrar a culpabilidade humana diante da santidade divina,- 2) justificar o juízo de Deus sobre o homem pecador; 3) provar que a depravação humana, apesar de suas conseqüências, não foi total nem é irreversível; 4) esperançar os descendentes de Adão sobre a eficácia da redenção cristã; 5) destacar que Jesus Cristo, como a semente da mulher, é suficiente para desfazer as obras de Satanás; 6) evidenciar ao crente a necessidade e a possibilidade de se ter uma vida santa diante de Deus e dos homens; e: 7)levar a Igrej a a proclamar a redenção adâmica através do Evangelho de Cristo.

I I. A P O S SIB IL ID A D E D A Q U ED A Ao criar-nos, dotou-nos o Criador com o livre-arbítrio. Sem este instituto, j amais seriamos o que somos. Se por um lado, Deus não nos fez pecaminosos; por outro, não nos equipou com o dom da impecabilidade. Portanto, fomos criados tanto quedáveis, quanto ascendíveis, mas redimíveis sempre. I.

O dom da impecabilidade. Jesus Cristo foi o único ser humano impecável, pois a sua

humanidade era tão perfeita quanto a sua divindade Por isso mesmo, apresentou-se como o nosso fiel e suficiente sumo sacerdote (Hb 415). Nele, a impecabil idade não era um dom; era um atributo, algo inerente à sua natureza \ferdadeiro Deus, era e énatural e essencialmente santo.


Os anjos também não foram criados com o dom da impecabilidade. Eles só vieram a adquiri-lo após terem sido provados quando da rebelião de Satanás (Ez 28.15). Os que se mantiveram fiéis ao Senhor tornaram-se impecáveis. E , desde então, são conhecidos como santos e eleitos (Jó 5.1; Lc 9.26; 1 T m 5.21). Por conseguinte, j á não há qualquer possibilidade de os anj os virem a pecar. O seu 1 ivre-arbitrio, agora, leva-os tão somente a gl orificar e a servir ao Criador. Com o seriamos se, ao criar-nos, nos tivesse Deus dotado com a impecabil idade? E m primeiro lugar, não seriamos;

De um modo geral,

meramente existiríamos. A criatura racional, sej a angélica, sej a terrena, tem de passar necessariamente pela etapa do 1ivrearbitrio; caso contrário, jamais alcançará a plenitude do ser. Portanto, a provação é-nos imprescindível à plenitude como seres racionais e livres (Tg 1.12). Que, neste caso, não paire qualquer dúvida: a provação é necessária, não o pecado. Este

todas as ciências, quer as humanas, quer as exatas, evidenciam os efeitos da

jamais nos será indispensável; aquela, sim (Tg 1.12).

Queda.

2. A natureza pecaminosa. Se Deus, ao criar o homem, não o dotou com a impecabil idade, tampouco fê-lo pecaminoso. Afinal, estamos falando do Deus único, verdadeiro e santo (Lv 20.7). E le não criou o mal, nem pelo mal pode ser tentado (Tg 1.13). Sendo quem é, concedeu-nos o 1ivre-arbitrio, através do qual, nós, à semelhança dos santos anjos, poderíamos ter alcançado, também, a condição de seres impecáveis. O ser humano também não foi criado moralmente neutro, nem infantilizado. Adão veio a existir de forma santa, plena e racional; porém, não impecável. Aprovação viria, como de fato veio. Logo, o homem caiu não por causa de sua pecaminosidade, mas em virtude de sua pecabilidade O mesmo pode-se dizer dos anjos. Eis o que profetiza Ezequiel acerca do querubim pecador: “Perfeito eras nos teus caminhos, desde o dia em que foste criado até que se achou iniqüidade em ti” (Ez 28.15). Portanto, o homem foi criado perfeito. O uso indevido de sua liberdade, porém, levou-o à imperfeição. Defrontamo-nos, aqui, com um aparente paradoxo. O 1ivre-arbitrio tirou-lhe a perfeição? Todavia, sem um arbítrio totalmente livre, seriamos inviáveis e imperfeitos. Logo, a liberdade era imprescindível a Adão, porquanto fora ele criado perfeito, mas não bom Somente Deus é bom; a Santíssima Trindade mio pode ser melhor do que é Sábio em todos os seus caminhos, dotou-nos Deus com o 1ivre-arbitrio. Por isso, requer-nos ânimo pronto e voluntário para adorá-1 o (Rm 12.1). 3. A pecabilidade. Se o homem não foi criado com o dom da impecabil idade, e se o seu estado, ao vir à existência, não era pecaminoso, como explicar a Queda? Só pode haver uma explicação. Deus o criou pecável. Ou sej a; com a possibil idade de pecar. A esse respeito, o Senhor foi-lhe bastante d aro: “D e toda árvore do j ardim comerás livremente, mas da árvore do conhecimento do bem e do mal não comerás; porque, no dia em que dela comer es, certamente morrer ás” (Gn 2.16,17). Então, Deus o criou imperfeito7 D e forma alguma, pois tudo quanto o Senhor fez, perfeitamente o


fez. Assim, considera o sábio a obra divina; “Tudo fez Deus formoso no seu devido tempo; também pôs a eternidade no coração do homem, sem que este possa descobrir as obras que Deus fez desde o princípio até ao fim” (Ec 3.11). Novamente,

defrontamo-nos

com

o

paradoxo

da

perfeição divina. Na verdade, Deus fez o homem perfeito. E, nessa perfeição, encontrava-se a pecabilidade Sem esta, não

A o criar-nos, dotou-nos

haveria livre-arbítrio. E , sem o livre-arbítrio, a perfeição seria

o Criador com o livre-

impossível. Conclui-se, pois, que a perfeição humana requeria a possibilidade de pecar e de não pecar. Nesse ponto, há que se ressaltar uma importante premissa

A perfeição exigia a

possibilidade, mas não a necessidade de pecar. Tanto os anj os,

arbítrio. Sem este instituto, jamais seriamos o que somos.

quanto os homens, poderiam aperfeiçoar-se constantemente, sem a experiência do pecado. Haja vista os anjos eleitos e santos. Estes, ao não seguirem a Satanás, passaram da fase da pecabil idade para a da impecabil idade. E o mesmo, acredito, poderia ter ocorrido com a família adâmica Nossa comunhão com Deus seria tão profunda e tão plena, que a árvore da ciência do bem e do mal tornar-se-ia, com o tempo, desnecessária. Assim como os anjos já não carecem de provação, pois obedecem a Deus perfeitamente e perfeitamente o adoram, de igual modo dar-se-ia conosco (M tó.10; Hb 1.6). O que aconteceria, porém, se toda a humanidade tivesse vencido o pecado, com a exceção de uma única pessoa? Deus, amando-nos como nos ama, enviaria o seu Unigênito, para que morresse por essa pessoa única, pois E le não nos ama apenas coletiva e historicamente, mas individual e biograficamente nos ama com amor eterno. Na vida do crente, por conseguinte, o pecado não é uma necessidade, mas uma perigosa e, às vezes, fatal possibilidade Eis o que escreve João: “Filhinhos meus, estas coisas vos escrevo para que não pequeis. Se, todavia, alguém pecar, temos Advogado junto ao Pai, Jesus Cristo, o Justo” (1 Jo 2.1). O teólogo divino não diz “quando alguém pecar”, como se o pecado fosse uma necessidade em nossa vida. Mas, sabiamente, adverte “Se alguém pecar”. Dessa forma, mostra ele que o pecado é apenas uma possibilidade na carreira do cristão. Depreende-se, pois, que o discípulo de Cristo deve lutar não propriamente contra o pecado, mas com suas imperfeições. Que o pecado mio é uma necessidade em nossa vida, reafirma mais adiante João: “Todo aquele que permanece nele não vive pecando; todo aquel e que vive pecando não o viu, nem o conheceu” (1 Jo 3.6). Se por um lado, o pecado não é uma necessidade, mas uma mera possibilidade; por outro, a santidade é tanto uma necessidade, quanto uma real possibilidade em nossa j ornada para o céu. Por isso, professamos: “Cremos na necessidade e na possibilidade de vivermos uma vida santa e irrepreensível diante de Deus e perante os homens”. Portanto, recomenda o autor da Epístola aos Hebreus: “Segui a paz com todos e a santificação, sem a qual ninguém verá o Senhor” (Hb 12.14). E possível ser santo? Não somente possível, como necessário. A graça divina leva-nos à santidade

I I I . O A G E N T E D A TEN T A Ç Ã O


Ambrose Bierce (1842-1913), ao dicionarizar o inimigo, satirizou; “Diabo: o autor de todos os nossos infortúnios e proprietário de todas as coisas boas deste mundo”. Que Satanás existe e que se acha ao nosso derredor, buscando a quem possa tragar, todos sabemos. Todavia, ele não é o autor de todos os

Adão veio a existir de forma santa, plena e racional; porém, não impecável.

nossos infortúnios. Boa parte de nossos males e desventuras é conseqüência de nossas decisões e escolhas. Nem por isso, deixa el e de s er o agente da tentação.

1. O primeiro pecado. Cabe, aqui, uma intrigante pergunta: Quem primeiro foi criado, o pecado ou o pecador? Nem um, nem outro. Ora, se todas as coisas foram criadas por Deus, como E le poderia ter criado o pecado ou pecador? Tudo o que Deus faz, perfeitamente o faz. Logo, o pecado nasceu do arbítrio livre e desimpedido que a criatura moral recebeu do Criador. Dai, inferimos: a santidade divina é eterna,o pecado, não. E le surgiu no tempo e no tempo desaparecerá Descreve o profeta Ezequiel o surgimento do primeiro pecado: “Perfeito eras nos teus caminhos, desde o dia em que foste criado até que se achou iniqüidade em ti” (Ez 28.15). Enquanto não havia orgulho no coração do querubim, não existia nem pecado, nem pecador no Universo. O amor divino era tudo em todos. Os anjos eram tão puros e amorosos que, a cada ato do Criador, regozijavam-se (Jó 38.7). Mas, vindo o orgulho, o pecado também chegou, revelando o pecador. A soberba é a mãe de todas as transgressões (Pv 16.18). 2. O primeiro pecador. O querubim ungido é o primeiro pecador. E, posto que imortal e irredimivel, jamais perderá essa condição. Todavia, a apostasia poderia ter sido inaugurada por um serafim Ou, por Miguel. Ou, talvez, por Gabriel. Ou, quem sabe, por um anj o de nenhuma patente. Naqueles inícios, os seres angélicos eram todos pecáveis. Nenhum deles havia sido agraciado, ainda, com o dom da impecabilidade. Se o pecado não tivesse sido originado no céu, poderia ter surgido na terra? Acredito que sim Levemos em consideração a revelação de Ezequiel. O profeta, ao historiar a rebelião contra o Senhor, não se refere apenas a Satanás; faz uma reverência d ar a a Etbaal II, rei de Tiro. E , pela dicção da profecia, este era tão dei etério e nocivo quanto aquele. 3. O primeiro tentador. Assim Jesus qualifica o adversário: “E le foi homicida desde o princípio e jamais se firmou na verdade, porque nele não há verdade Quando ele profere mentira, fala do que lh e é próprio, porque é mentiroso e pai da mentira” (Jo 8.44). Satanás poderia contentar-se em ser mais elevado que os demais anjos. Todavia, mentindo a si, presumiu-se maior que Deus. Desde então, vem semeando suas inverdades tanto nos corações dos mexeriqueiros, como na alma filosófica e no espírito teológico. Mente grosseira e finamente Homicida, levou Caim a assassinar Abel (1 Jo 3.12).

“Cremos na necessidade e na possibilidade de vivermos uma vida santa e irrepreensível diante de


E, a partir dai, não mais parou de matar. Inventa guerras,

Deus e perante os homens”.

engendra revoluções, incita levantes. Inspira genocídios e extinções. 4.

O primeiro im penitente. A doutrina da depravação total cabe perfeitamente ao Diabo, e não ao

ser humano. A semelhança dos demais anjos, era superior a nós (SI 8.3-6). E le criado já imortal; o homem, imortal izável. Houvesse Adão obedecido ao Senhor, ainda estaria vivo. Se por um lado, a morte é algo indesej ável; por outro, é apresentada, em Cristo, como a nossa redenção eterna Se a recebemos por salário, podemos herdá-la como o maior dos ganhos (Rm 6.23; Fp 1.21). Desde que se corrompera, Satanás não mais deu guarida à verdade (Jo 8.44). Quando mente, ou mata, faz o que lh e é próprio; é da sua natureza a inverdade e o homicídio. Portanto, ele é irredimível. Jamais voltará à congregação dos santos. O seu lugar é n o lago de fogo (Ap 20.10).

IV . A IN T R O D U Ç Ã O D O PEC A D O N O M UN D O Historicamente, Adão foi o terceiro a rebelar-se contra o Senhor. E m primeiro lugar, apostataram Satanás e seus anjos. Depois, a mulher. E , só então, o homem Não obstante, foi Adão o grande responsável pela introdução do pecado no mundo. Por que o j uizo maior recaiu sobre ele? Apontemos as razões. 1. Adão era o governador do m undo. Deus confiou o governo do mundo a Adão, a fim de que ele não apenas o governasse e lh e descobrisse as ciências e culturas, mas principalmente para que viesse a teologizá-lo (Gn 1.26). Cabia-lhe, pois, trazer à terra o Reino do Céu. E le o faria, repassando à esposa e aos filhos, o conhecimento e as ordenanças, que lh e transmitira o Senhor. Mas, por não orientar devidamente a mulher, esta frágilizou-se ante a dialética do adversário. Sua missão cientifica progredia; a teológica começou a retroceder. 2. Adão era o guarda do Eden. No Eden, competia a Adão cultivar e guardar o paraíso (Gn 2.15). Que ele o haj a aculturado, não nos resta dúvida; o trabalho não lh e era contra a índole Todavia, falhou em custodiar o jardim E le sabia perfeitamente que existia um adversário, e que este já havia turbado as regiões celestes. E , j á expulso de lá, buscava agora, por aqui, ampliar seus estragos e apostas ias. Adão não ignorava o perigo que o rondava, mas o subestimou. Se nos mantivermos vigilantes, não cairemos na mesma cilada. 3. Adão conhecia a natureza do adversário. Ao nomear os animais, Adão passou a conhecer profundamente a biologia terrestre (Gn 2.19,20). Sabia que o leão era o rei das alimárias todas. Admirava a força do boi e a mansidão do cordeiro. D e igual modo, não ignorava a astúcia e o fingimento da serpente. B o m zoól ogo, bem que poderia ter alertado Eva quanto àquele admirável réptil. Pel o j eito, nenhuma advertência fez à mulher. Deixou-a à mercê da víbora Que esta falou, não há o


que se duvidar. Se não aceitarmos o fato, negaremos também o episódio da j umenta de Balão. Satanás sabia que não podia derrubar o esperto e precavido Adão. Por isso, instrumentalizou a serpente E, tendo j á enlaçado Eva, usou-a para seduzir Adão que, voluntariamente, pecou contra o Senhor (1 T m 2.14). 4.

Adão introduziu o pecado n o m undo. Eva pecou antes de Adão, e Satanás, por seu turno,

pecara muito antes de Eva. Todavia, o pecado entrou no mundo não através da mulher, nem por intermédio do Diabo. O grande responsável pela introdução da apostasia no mundo foi Adão. E o que esclarece Paulo: “Portanto, assim como por um só homem entrou o pecado no mundo, e pelo pecado, a morte, assim também a morte passou a todos os homens, porque todos pecaram” (Rm 5.12). A serpente e a mulher não deixaram de ser penalizadas. Entretanto, ao homem coube a responsabilidade maior pela tragédia no Eden. Deus o condena a morrer, mas não o condena à morte eterna, nem à segunda morte. Ali mesmo, em meio ao j uizo, o Senhor anuncia a redenção da humanidade.

CO N CLUSÃO Estamos no Século XXI. Não houve odisséia alguma no espaço. Aliás, nem à Lua fomos mais. Isso não significa que o homem tenha sufocado o desej o de aninhar-se nas estrelas. Naves serão lançadas ao espaço, deixarão este sistema solar e perder-se-ão no desconhecido. O ser humano, porém, jamais melhorará a sua índole, a menos que receba a Cristo como o seu único e suficiente salvador. Apesar de seus vôos cada vez mais ousados, a queda do homem não foi para o alto. Moral e eticamente, nunca estivemos tão baixo. Não precisamos de uma inteligência artificial para infelicitar-nos; nossa razão, enferma pelo pecado, é mais que suficiente para jogar-nos no inferno. Só o Senhor Jesus pode resgatar-nos dessa queda fatal. Somente ele reverte os efeitos do pecado.


CAIM ERA DO MALIGNO

IN TR O D U Ç Ã O Se o orgulho é o primeiro dos pecados, a invej a talvez sej a o segundo. Logo atrás de si, vem o medo que, não controlado, acaba por gerar o ódio e outros pecados ainda mais deletérios. Antes o invej oso. Agora, o assassino dissimulado e frio. Mais além, o réu confesso. Na terra, clama o sangue do irmão. Eis a biografia de Caim Apesar das honras que lhe conferiam a primogenitura, deixou-se ele dominar por uma invej a tola e injustificável. Seus privilégios eram nada desprezíveis. Primeiro filho de Adão, cabia-lhe, entre outras coisas, a herança messiânica Se ele tivesse permanecido fiel, estaria hoj e entre os ancestrais de Cristo. Mas, agindo como agiu, foi arrolado como o primeiro descendente espiritual de Satanás. Caim inaugurou a galeria dos grandes criminosos da História, tendo bem ao seu lado Nero, Herodes, Napoleão, Stalin, Hider, entre outros facínoras. Seus imitadores acham-se também entre os que, em nossas igrej as, matam espiritual e moralmente o seu irmão.

I . M U L H E R , A U X IL IA D O R A D E D EU S No processo dialético da tentação, Satanás intentou enredar Eva na luta contra o Reino de Deus. O Senhor, porém, interveio de pronto, colocando inimizade entre a mulher e a serpente (Gn 3.15). Foi nessa inimizade que germinou a amizade entre Deus earaçahum ana Jesus Cristo. I.

Inim iga da serpente. O que teria acontecido se o Diabo tivesse aliançado Eva em sua luta contra

Deus? A mulher, usada pelo Maligno, não teria permitido a propagação da espécie humana. E, dessa forma, Satanás e seus anj os não demorariam a apossar-se da Terra que Deus criara para manifestar o seu Reino. O Senhor, todavia, intervém e desfaz, ali mesmo no Eden, o motim que visava transformar-lhe o Reino no império de Satanás. A partir daquel e momento, o inimigo perde uma aliada, ao passo que Deus ganha uma grande auxil iadora


2 . Auxiliadora de Deus. Em conseqüência da Queda, a mulher deprava-se não total, mas essencialmente Apesar dos efeitos daninhos do pecado, a graça divina estaria sobre ela, fortalecendo-a na execução da vontade divina. Eva ergue-se para glorificar o Criador através da maternidade (1 T m 2.15). 3 . Teóloga da maternidade. Depois da queda, não encontramos nenhuma declaração do homem. Adão simplesmente se cala Até mesmo quando Caim matou Abel, cala-se e nada diz. E le certamente muito lamentou a perda de ambos os filhos: o caçula, à sepultura,- o primogênito, ao crime. Mesmo assim, silencia-se dolorosamente Conquanto excelente teólogo e governador do mundo, nenhum comunicado emite; emudecido, prefere chorar a irreparável perda D e Eva, porém, temos duas declarações teológicas. Ao dar à luz o primogênito, declara ‘Adquiri um varão com o auxílio do Senhor” (Gn 41). E m sua primeira declaração, há pelo menos três proposições: 1) Deus é o autor da vida; 2) o filho, que agora embala, não é seu; pertence ao Senhor; e, 3) ela coloca-se no lugar de serva e auxiliadora do Criador no

Se o orgulho é o primeiro dos pecados, a inveja talvez seja o segundo.

povoamento da Terra. A segunda declaração da mulher, também, é carregada de significados teológicos. Após a morte do caçula e a perda do primogênito ao Maligno, assim acolhe o pequenino Sete: “Deus me concedeu outro descendente em lugar de Abel, que Caim matou” (Gn 4.25). E la demonstra, uma vez mais, sua grande acuidade teológica: 1) a intervenção divina nos negócios humanos; 2) a punição dos culpados; e, 3) a continuidade do Plano de Salvação através de sua semente. E m suas declarações, não é difícil vislumbrar um pequeno M agnífícat Não obstante o luto que lh e ia na alma, encontra motivos para glorificar a Deus por sua bondade e amor. Temos, em Eva, uma figura de Maria, mãe de Jesus.

I I . C A IM É G E R A D O ES P IR IT U A L M E N T E P O R SA TA N Á S Não foi apenas Eva que supôs fosse Caim a semente anunciada pelo Senhor. Satanás deve ter chegado à mesma conclusão. Por isso, se não pôde ter a mulher como aliada, por que não lh e cooptar o filho? E , assim, começa o inimigo a frondar sua árvore de famosos descendentes espirituais: Caim, o primeiro. Ao longo dos séculos, brotariam o Faraó do Exodo, Nero, Adia, Napoleão, Stalin, Hider e muitos de nossos contemporâneos. I.

A cooptação de Caim. E bem possível que o maligno haja iniciado a cooptação de Caim,

quando este ainda era bebê Bo m psicólogo, observou-lhe as reações. Fez-se presente em sua infância, mio se ausentou de sua adolescência e, em sua juventude, soube como trabalhar-lhe a inveja, o ódio e o ímpeto homicida E , dai para o ato criminoso, não precisou de muito esforço. Segundo Tiago, o pecado nasce paul atina e imperceptível mente CIg 1.13-15).


O Diabo cristalizou os sentimentos de Caim num ódio mortal contra Abel. Infelizmente, o mesmo vem ocorrendo em alguns lares cristãos. Ainda infantes, irmãos levantam se uns contra os outros. Quanto aos pais, nada fazem Alguns até incentivam a rivalidade entre os filhos, para que estes sej am agressivos e predadores. E o resultado não poderia ser mais trágico. Há pais que, ao invés de uma Bíblia, dão ao filho uma arma Enquanto redij o estas linhas, a sociedade americana chora a morte de oito cristãos negros da Igrej a Metodista Episcopal Emanuel, na Carol ina do Su l. O j ovem Dylann Roof matou-os com a pistol a que lh e dera o pai. E m sua alma, o ódio racial e diaból ico. E provável que Satanás haja tentado cooptar também Abel. Este, todavia, observando os conselhos paternos, não lh e dera guarida O tentador, não se dando por vencido, propõe-se a destrui-lo pelas mãos de C aim Dessa maneira, imaginava o Maligno, poderia comprometer de vez a germinação da semente da mulher. Abel seria destruído, morrendo; Caim, matando. 2.

U m perfeito aliado de Satanás. Se não pode ter Eva como aliada, por que não o seu

primogênito? Havendo, pois, o Diabo trabalhado a religiosidade de Caim, j á o tinha como aliado. Agora, poderia contrapor-se ao estabelecimento do Reino de Deus, que viria através da semente da mulher. Caim, portanto, aliou-se a Satanás. Fez-se tão diabo quanto o próprio Diabo. Assim ocorre com os que, desprezando a Deus, pecam e fecham-se ao arrependimento. Aos tais, a perdição eterna Caim, além da depravação essencial, totalmente depravou-se ao ignorar o apelo divino.

I I I . O P R IM E IR O H O M IC ÍD IO Por que Caim matou Abel? João

O D iabo cristalizou os é

direto

e

desconcertante “Porque as suas obras eram más, e as de seu irmão, justas” (1 Jo 3.12). Sendo Caim do Maligno, como

sentimentos de Caim num ódio mortal contra Abel.

haveria de aturar o irmão, cuj as obras evidenciavam uma fé viva e santa? Logo, ele não se fez do Maligno por haver matado Abel. E le o assassinou porquanto já era do Maligno. Afinal, o Diabo jamais se comprouve na verdade; matar, mentir e roubar faz parte de sua natureza corrompida e totalmente depravada Mas Caim, advertido por Deus, poderia ter evitado aquele desatino. 1.

Advertência divina. Deus amava tanto Caim quanto Abel. Não queria um assassino, nem

desej ava um assassinado, pois tinha um plano específico para cada um deles. Por isso, adverte C aim “Por que andas irado, e por que descaiu o teu semblante1 Se procederes bem, não é certo que serás aceito? Se, todavia, procederes mal, eis que o pecado j az à porta; o seu desej o será contra ti, mas a ti cumpre dominálo ” (Gn 4). A que assemelharei o pecado? Em nada difere da víbora que, astuta e paciente, espera o incauto abrir a porta, a fim de mor der-lhe o calcanhar. Por isso mesmo, fiquemos longe de seu bote quase sempre certeiro. Caim, porém, brincou com o pecado; menosprezou a advertência divina. Em sua alma, j á havia matado o irmão. Na intenção, já era um assassino duplamente qualificado. Não obstante, tanto o seu


coração, quanto a sua intenção ainda poderiam ser mudados. Ele, porém, recusou-se a ouvir a voz de seu Criador. 2. O crime. Até aquele momento, a morte de um ser humano só era conhecida teoricamente. Adão e Eva sabiam que, por haverem desobedecido ao Senhor, teriam de enfrentá-la eventualmente Eles achavam que viriam a morrer naturalmente, como naturalmente morriam os animais. Afinal, carcaças sempre eram achadas nos campos enos arredores de sua habitação. Como sua dieta era vegetal, os primeiros humanos não tinham necessidade de abater aves e animais. Matar ainda não era técnica nem arte Aliás, suponho que os próprios animais, dóceis como eram, não se predavam uns aos outros. Entretanto, o homem estava prestes a tornar-se o lobo do homem Achava na iminência de transformar sua enxada e relha numa espada Nessa época, o único que sabia matar era Abel. Sendo ele pastor de ovelhas, das primícias destas apresentava regularmente uma oferenda ao Senhor. Não sei quantos cordeiros santificara em sua adoração. Mas, certamente, aprendera a imolá-los no aliar que, rusticamente, construíra Caim, que o observava atentamente, não demorou a premeditar o assassinato do irmão: Por que não matar Abel como Abel matava suas ovelhas? Por que não sacrificar o sacrificador? O autor sagrado assim descreve o primeiro homicídio da história “Disse Caim a Abel, seu irmão: Vimos ao campo. Estando eles no campo, sucedeu que se levantou Caim contra Abel, seu irmão, e o matou” (Gn 4- 8). O que Caim queria mostrar a Abel no campo'1A lavoura ou a nova lavragem? Mas, ali mesmo, adiantando-se, mata o irmão. Que instrumentos usou7 Os instrumentos do pastoreio ou os petrechos da agricultura7 3. A desculpa do assassino. Caim racionaliza o seu pecado. Após ter assassinado Abel, retoma as lides do campo como se nada tivesse acontecido. Não sei que desculpa dera aos pais acerca do sumiço do irmão. Talvez dissesse que este achava-se errante à procura da centésima ovelha. Não age assim o bom pastor? Deus, porém, não se deixa embair por nossos álibis e pretextos. Onisciente e onipresente, E le nos conhece as ações; vê-nos os pecados; não nos ignora as intenções homicidas. Vem o Senhor, então, e pergunta-lhe: “Onde está Abel, teu irmão'”’ (Gn 4 9). E bem provável que Caim, ao ser argüido de forma tão direta pelo Autor e Conservador da vida, haj a sido tomado pela surpresa Afinal, o seu crime fora executado com requinte, astúcia e muita discrição. Ninguém vira nada. Nem o pai, nem a mãe Talvez ele não soubesse ainda que Deus é tanto onisciente quanto onipresente. Mas, agora, sabe que nada poderá escondê-lo do Juiz de toda a Terra. Mesmo arguido judicialmente pelo Senhor, desculpa-se Caim “Não sei; acaso, sou eu tutor de meu irmão'”’ (Gn 4 9). Em sua resposta, descortinamos uma filosofia violenta e contrária à lei do amor, Em primeiro lugar, Caim encobre o seu pecado com outro pecado. Embora soubesse onde estava seu irmão, mente. O corpo de Abel jazia nalgum lugar, talvez até insepulto. Em seguida, alega não ter qualquer responsabilidade sobre o irmão mais novo. Diz não ser tutor de Abel. Irmão mais velho, tinha ele, sim, responsabilidade quanto ao caçula da família Caim era tutor de seu irmão. Portanto, deveria ter agido como referência moral e ética de Abel.


IV . A PU N IÇ Ã O D E C A IM Não sabemos quantas pessoas habitavam a Terra a essas alturas. O relacionamento humano, porém, já exibia certa complexidade Por isso mesmo, a punição de Caim dar-se-ia em vários níveis: divino, pessoal, doméstico e social. E le não seria castigado com a morte, mas seria disciplinado por uma vida errante, longe dos pais e distante de Deus. I.

Castigo divino. Se enfrentar um juiz humano já é constrangedor e vexatório, como nos

haveremos diante do Juiz de toda a Terra? A situação de Caim é nada confortável. Diante do Criador, o homicida é desnudado. Arguido pelo Autor e Conservador da Vida, desnuda-se ele sem desculpas e sem álibis. N o início do julgamento, pergunta-lhe o Senhor: “Onde está Abel, teu irmão?” Buscando fugir à inquirição divina, responde o homicida, tentando fugir à responsabilidade doméstica e social: “Não sei; acaso, sou eu tutor de meu irmão?” (Gn 4.9). E m sua resposta, sobressaem a mentira e a ignorância Na verdade, el e bem sabia onde estava Abel. Quanto à sua tol a indagação, não precisava de resposta alguma. Na qualidade de irmão mais velho, ele era, sim, como já dissemos, tutor do mais novo. Assim como Judá, mais tarde, haveria de responsabilizar-se por Benj amin, deveria o perverso e desalmado primogênito ter-se dado fraternalmente pelo caçula (Gn 44-32-34). E m seguida, endereça-lhe o Senhor a segunda pergunta: “Que fizeste?” Caim sabia o que havia feito quando ele e Abel encontravam-se sozinhos no campo. Julgando-se longe dos olhos dos pais, matara-o. Todavia, Deus, que a todos vê e escrutina, presenciara-lhe o homicídio, qualificando-o como gravemente doloso: ‘A voz do sangue de teu irmão clama da terra a mim” (Gn 4.10). O sangue de Abel fizera-se eloqüente e irretorquivel; clamava a Deus, não por vingança, mas por

Adão e Eva sabiam que, por haverem desobedecido ao Senhor, teriam de enfrentá-la [a morte]

justiça Sem outro tribunal a que recorrer, Caim ouve o

eventualmente.

veredito do Juiz de toda a terra “Es agora, pois, maldito por sobre a terra, cuj a boca se abriu para receber de tuas mãos o sangue de teu irmão. Quando lavrar es o solo, não te dará ele a sua força,- serás fugitivo e errante pela terra” (Gn 4-11-12). Ao invés de arrepender-se e pedir misericórdia, Caim ju lga o castigo divino desproporcional: “E tamanho o meu castigo, que j á não posso suportá-lo. Eis que hoj e me lanças da face da terra, e da tua presença hei de esconder-me; serei fugitivo e errante pel a terra; quem comigo se encontrar me matará” (Gn 4.13,14). Caim não pede misericórdia; põe-se, contudo, a reclamar da sentença Teme mais as conseqüências temporais do que as penalidades eternas. Com o a le i da proporcionalidade ainda não estava em vigor, não seria punido com a morte: ‘Assim, qualquer que matar a Caim será vingado sete vezes. E pôs o Senhor um sinal em Caim para que o não ferisse de morte quem quer que o encontrasse” (Gn 4.15). Ouvida a sentença, o criminoso retira-se da presença do Senhor e detém-se ao oriente do Eden, onde fundará a primeira


cidade humana. Tao perto do paraíso e tão arredado da

C aim era tutor de seu

presença do Senhor.

irmão. Portanto, deveria ter 2. Castigo pessoaL Para resguardar Caim de uma vingança futura, dá-lhe o Senhor um salvo conduto: ‘Assim,

agido como referência moral

qualquer que matar a Caim será vingado sete vezes” (Gn 4.15).

e ética de Abel.

A partir daquele instante, o próprio Deus encarregar-se-ia de sua custódia. Se alguém o matar, sete vezes será castigado. E, para que não pairasse qualquer dúvida quanto ao seu salvo-conduto, o Senhor nele apõe um sinal. O que indicava o ideograma divino? Entre outras coisas, que a vida é sagrada da concepção à morte natural. Caim não seria punido com a morte, mas com a vida. Ninguém o mataria, mas todos haveriam de censurá-lo por haver, covardemente, matado Abel. O seu castigo, além de pessoal, seria também doméstico e social. 3. Castigo doméstico e social. Caim, agora, j á não tinha condições de encarar os pais. Por isso, abandona, de vez, a casa paterna e constrói a sua cidade. Doravante, terá de amargar um exílio que o deixaria para sempre 1 onge de Adão e distante de Eva Caim foge sem que o persigam,- esconde-se sem que o procurem,- envergonha-se e cobre-se de opróbrios. O sinal que traz no semblante denuncia-o à vista dos filhos, netos ebisnetos. E le simplesmente não pode esconder o seu crime. Seu exemplo replicar-se-ia em sua descendência Apesar do progresso tecnológico alcançado por seus filhos na primeira civilização, fazem-se eles inimigos de Deus. O que dizer de Lameque? Por motivos banais, matou dois homens. Quanto às descendentes de Caim, foram usadas pelo Maligno para desencaminhar os filhos de Deus (Gn6.1,2).

CO NCLUSÃ O Por que Caim matou Abel? Se procurarmos a resposta na psicol ogia, ou na sociol ogia, corremos o risco de inocentar o assassino e condenar o assassinado. Mas, se nos voltarmos à Palavra de Deus, encontraremos uma resposta simples, direta e que não deixará margem alguma à dúvida Responde-nos o discípulo do amor: “Porque a mensagem que ouvistes desde o princípio é esta: que nos amemos uns aos outros; não segundo Caim, que era do Maligno e assassinou a seu irmão; e por que o assassinou? Porque as suas obras eram más, e as de seu irmão, j ustas” (1 Jo 3.12). Quem mata é do Maligno. Não me refiro apenas ao homicídio físico. Refiro-me, também, ao homicídio emocional, moral e espiritual. Quantas pessoas, neste momento, não se acham assediadas emocional e moralmente? Há líderes e chefes que em nada diferem de um verdugo; oprimem e matam seus comandados. Quanto ao homicídio espiritual, o que s e há para fal ar? Não são poucas as ovelhas que, em nossos redis, são vítimas de mercenários e lo bos vorazes. Dos maus obreiros, nem os pastores logram escapar.


Eis, portanto, o momento oportuno demostrarmos ao mundo a qualidade de nossa vida espiritual. Discípulos de Cristo, obrigamo-nos a ir além do mero amor, pois o verdadeiro amor não se limita a gostar: amando como Jesus amou, não teme o Calvário. E uma doação contínua que fazemos a Deus e ao próximo. Quem ama é de Deus, porque Deus é amor.


O MUNDO DE LAMEQUE

IN TR O D U Ç Ã O Com o você classificaria um homem que, após haver matado duas pessoas, compõe um poema? Num versetD atrevido e insolente, ele garganteia a façanha às suas esposas: “Ada e Zilá, ouvi-me; vós, mulheres de Lameque, escutai o que passo a dizer-vos: Matei um homem porque ele me feriu; e um rapaz porque me pisou. Sete vezes se tomará vingança de Caim, de Lameque, porém, setenta vezes sete” (Gn 4.23,24). Sim, como você classificaria tal homem? N o mundo que precedeu o Dilúvio, ele foi aclamado como herói. Embora soubesse que o Criador não lh e deixaria impune o duplo homicídio, Lameque continuou a viver como se não houvesse Deus. Sua atitude replicar-se-ia até mesmo entre os filhos de Sete. A partir daquel e poema, a humanidade inicia um processo de depravação total e irreversível. Nosso mundo em nada difere da sociedade lamequiana, exceto num pormenor estatístico. Naquele tempo, o número dos piedosos não chegava à casa da dezena Hoj e, os j ustos são contados aos milhões. Entremos, pois, a conhecer o abominável mundo de Lameque.

I . A IM P E R F E IÇ Ã O N U M M U N D O P E R F E IT O Lançado em 2014, o filme Noé, roteirizado e dirigido por Darren Aronofsky, levou o leitor da B íblia à frustração. Pelo menos, esse foi o meu sentimento ao desperdiçar mais de duas horas com aquela caricatura da primeira epopeia da História Sagrada Para começar, Aronofsky mostra o mundo prédiluviano como que arrasado por uma guerra nuclear. D e acordo com a sua paródia, a Terra j á não existia ecologicamente. D o texto sagrado, porém, inferimos outra realidade. Nosso planeta era farto e pródigo; a humanidade, saudável elongeva; e, no ambiente natural, reinava perfeita harmonia. 1.

U m planeta farto e pródigo. Apesar do pecado, a

Terra pré-dil uviana era um habitat perfeito; proporcionava alimentos e regai os a todos. Por isso, os filhos de Adão davamse ao luxo de viver irresponsável e impiamente Observemos a

Nosso mundo em nada difere da sociedade


descrição que faz o Senhor Jesus deste período: “Porquanto,

lamequiana, exceto num

assim como nos dias anteriores ao dilúvio comiam e bebiam, casavam e davam-se em casamento, até ao dia em que Noé

pormenor estatístico.

entrou na arca” (M T 24.38). Aquela geração não se angustiava com os problemas que, hoje, nos afligem Ninguém se preocupava com a ecologia Agua? Rios e riachos não lhes faltavam Com o possuíssem tudo em abundância, gastavam as horas em orgias e truculências. Longevos, nem menção à morte faziam Comiam e bebiam, e contavam a vida em séculos, não em décadas. 2. Vida longa e próspera. O Sr. Spock, personagem interpretado por Leonard Nimoy (1931-2015), sempre despedia-se de seus amigos com uma saudação quase rabínica: “Vida longa e próspera”. Oriundo de Vulcano, Spock, além de longevo, fazia questão de orientar-se por uma ética irretorquível e através de uma 1ógica superior e pura A geração de Lameque também usufruía de uma vida longa e próspera. Entretanto, vivia imoral e irracionalmente. Sua lógica era o pecado. Ora, se a sua iniqüidade j á tinha uma história de quase dois mil anos, por que mudar? Então, vida longa e próspera a um mundo que se compraz no Maligno. Não era incomum deparar-se com um adúltero de seiscentos anos, com um assassino de oitocentos ou com um corrupto de quase m il. Imagine a folha corrida dos lamequianos. Por isso, o Senhor resolve colocar um limite biológico à vida humana Doravante, os filhos de Adão e Eva não irão além dos 120 anos (Gn 6.3). Se fizermos uma comparação entre as genealogias dos capítulos cinco e 11 de Gênesis, verificaremos que, na primeira, a vida humana era computada em séculos. Na segunda, nossa existência j á pode ser contada em décadas. Se Matusalém chegou a 969 anos, Terá, pai de Abraão, morrerá aos 205 (Gn 11.32). Foi este, a propósito, o último dos longevos. Na conclusão do Gênesis, constata-se a fronteira biológica do ser humano j á estava fixada José, filho de Jacó, falece aos 110 anos (Gn 50.26). Mais tarde, queixar-se-ia Moisés da efemeridade da existência (SI 90.10). C om uma vida quase milenar, os pré-diluvianos viviam pendularmente entre a eternidade e a impunidade Com o um homem de quase mil anos haveria de temer a morte? E se Deus j á os entregara aos próprios erros, não lhes castigando de imediato a iniqüidade, por que temer o Juízo Final se a História mal havia começado? Por essa razão, os contemporâneos de N oé viviam para pecar e pecavam para viver. 3. H arm onia ecológica. Até o Dilúvio, havia perfeita harmonia entre os reinos animal, vegetal e humano. Qs animais selvagens não representavam qualquer ameaça A única ameaça era o próprio homem Agressivo e irreconciliável, amedrontava até mesmo a mais brutal das feras. Após o Dilúvio, contudo, pavor e medo recairiam sobre o reino animal; sobre a natureza, gemido e angústia (Gn 9.2; Rm 8.22). O mundo ainda era perfeito, belo e sustentável. Mas o povo que o habitava era o antônimo de tudo isso. Ao invés de agradecer ao Criador por todas as benesses, os filhos de Adão aproveitavam tais favores para depravar-se totalmente U m mundo perfeito para uma geração imperfeita


I I . O E F E IT O LA M E Q U E Teologicamente, A ião foi o grande responsável pela introdução do pecado no mundo (Rm 5.12). Historicamente, porém, o pecado alastrou-se a partir de Lameque, filho de Metusael (Gn 4.18). Foi ele o primeiro pecador confesso da história da humanidade De uma única feita, admitiu haver cometido duas transgressões contra Deus. Sua confissão, todavia, não foi acompanhada de arrependimento nem remorso; fez-se acompanhar de um medo que logo seria esquecido. Indiretamente, confessa a bigamia E, diretamente, o dupl o homicídio. Sua confissão j az num poema que, hoj e, é conhecido como o Cântico da Espada. 1. A bigamia. De conformidade com o proj eto original de Deus, o casamento teria como fundamento a heterossexual idade, a monogamia e a indissolubil idade. Lameque, entretanto, corrompeu as bases do matrimônio, tomando para si duas esposas: Ada e Zilá. Noutra circunstância, os nomes de suas mulheres até rima dariam Mas, naquele momento, não havia ritmo nem harmonia,-

havia

uma

iniqüidade

que,

assustadora

Não era incomum

e

rapidamente, começava a alastrar-se por aquela região. De

deparar-se com um adúltero

berço, a região do Eden ia transformando-se no túmulo da primeira civilização humana Na vida de Lameque, as coisas

de seiscentos anos, com um

ruins vinham aos pares: duas mulheres, dois homicídios, etc. Tivesse o

seu poema mais

versos,

outras

iniquidades

assassino de oitocentos ou

apareceriam em duplas. Sua confissão duplicada basta para

com um corrupto de quase

mostrar um processo irreversível de apostasia. Da poligamia à

mil.

promiscuidade sexual foi apenas um passo. Seu exemplo

contaminaria inclusive a linhagem de Sete que, apesar de um passado santo e piedoso, também se deixará contaminar pela libertinagem Eis o testemunho da Bíblia: “Com o se foram multiplicando os homens na terra, elhes nasceram filhas, vendo os filhos de Deus que as filhas dos homens eram formosas, tomaram para si mulheres, as que, entre todas, mais lhes agradaram” (Gn 6.1,2). Os descendentes de Sete, aqui alcunhados de filhos de Deus, mio somente fazem-se polígamos, como também ultrapassam todos os limites da decência. Tomando para si quantas mulheres lhes permitiam a luxúria e a libertinagem, transformaram o convívio social numa orgia desenfreada 2 . Duplo homicídio. Se Caim teve de ser duramente arguido por Deus para confessar o assassinato de Abel, não precisou Lameque de arguição alguma. Espontânea e livremente, declara haver assassinado banalmente dois homens. U m adulto, ele o matou porque o ferira E um rapaz por lh e ter pisado. Se recorrermos ao original, constataremos que o segundo crime foi ainda mais grave. Lameque revela ter assassinado um j ovem E m hebraico, yeled pode aludir tanto a um adolescente quanto a uma criança. Logo, o seu crime, al ém de banal e covarde, foi singularmente brutal. Nossos dias parecem não diferir em nada do mundo de Lameque Por um grama de droga há muito j ovem, adolescente


e criança perdendo a vida E , por causa de uns míseros

O mundo ainda era

centavos, muita gente não retorna ao lar. Banalmente, assassinase, hoj e, como banalmente assassinava-se naqueles começos da História Tanto no princípio, quanto no fim, a índole criminosa do ser humano em nada melhorou,- caminhamos de mal a pior. Lameque deflagrou a iniqüidade por todo o planeta.

perfeito, belo e sustentável. Mas o povo que o habitava era o antônim o de tudo isso.

H oje, somos angustiados por assassinatos, genocídios e crimes contra a humanidade H aja vista os extermínios de judeus e armênios, e a matança promovida como polídca pública por monstros como Stalin, Hider, Mao Tsé-Tung e Pol Pot

III. U M M UNDO PA RA D O XA L O mundo de Lameque não era caracterizado apenas pela rebelião contra Deus. N o exercício de seu mandato cultural, desenvolveu, desde cedo, a agropecuária, a metalurgia e a música Foi uma época de grandes conquistas intelectuais e tecnológicas. D o texto bíblico, inferimos que a engenharia já estava bem desenvolvida, pois a geração pós-diluviana não teve dificuldades em construir a Torre de Babel. O curioso é que todo esse progresso proveio da geração de Caim. Os filhos de Sete, antes de se transviarem, haviam se dedicado mais às atividades espirituais e teológicas. 1. A primeira cidade. Banido da presença do Senhor, Caim habitou na terra de Node, ao oriente do Eden. Ali, teve o seu primogênito, a quem chamou Enoque Com o a sua linhagem se multiplicasse, organiza ele uma cidade, a qual dá o nome de seu filho mais velho. Em torno desse centro urbano, as atividades profissionais diversificam-se Aparecem os pecuaristas como Jabal. Surgem os metalúrgicos como Tubalcaim E despontam os ardstas como Jubal. Também irrompem os primeiros conflitos, revelando grandes e notórios criminosos e malfeitores. N o campo e na cidade, a rebelião contra Deus alastra-se, contaminando toda a Terra O fenômeno urbano encarrega-se de espraiar os maus exemplos, levando os filhos de Adão a um rápido processo de depravação essencial e total. Apesar de a Bíblia nada dizer acerca da civilização setista, esta organizou-se também em cidades. Inexistindo barreiras lingüísticas e geográficas, não demoraria para que a civilização caimita englobasse a setista, e lançasse os fundamentos da megalópole da iniqüidade. Foi o primeiro ensaio do Anticristo no estabelecimento de seu império. Vej amos as atividades econômicas da civilização caimita. 2 . Atividades agropecuárias. Embora os descendentes de Adão e Eva pudessem viver da caça e da coleta de frutas, verduras e legumes, desde cedo empenharam se em trabalhar seletiva e metodicamente a terra. Essa preocupação acentuou-se entre os filhos de Caim, o primeiro agricultor. Jabal, filho de Lameque, deixando a cidade de Enoque, passou a dedicar-se à criação de gado. E , na busca por boas pastagens, faz-se nômade Por isso, ele é conhecido como o “pai dos que habitam em tendas e possuem gado” (Gn 4.20). Observemos que, para construir e erguer tendas, necessitava Jabal de


instrumentos cortantes e coberturas para suas moradias portáteis. Teriam aqueles antigos habilidades para fiar o algodão e o linho? Deveríamos pensar nesses detalhes, pois são bastante reveladores. 3 . Atividades industriais. Não há agricultura nem pecuária sem uma indústria de base Há de se ter, pelo menos, uma boa metalurgia para se forjar enxadas, pás e relhas aos agricultores, e os instrumentos próprios dos pecuaristas. E justamente aí que surge a indústria de Tubalcaim Filho de Caim com Zilá, foi ele “artífice de todo instrumento cortante, de bronze e de ferro” (Gn 4.22). Não foi, portanto, o homo ewzctus quem descobriu o fogo. Dizem os evolucionistas que este, ao observar os raios faiscando nas árvores, veio a intuir ser possível dominá-lo. Também não foi Prometeu quem no-lo proporcionou, roubando-os aos deuses do Olimpo. Se alguém descobriu o fogo não foi o homo erectus, nem os deuses da mitologia grega, mas o justo Abel que, ao fazer sua oferenda ao Senhor, queimou-a como cheiro suave A partir dai, os filhos de Adão passaram a utilizá-lo, a fim de preparar alimentos, alumiar suas casas, etc. Tubalcaim viria a descobrir ser possível industriar o fogo e, assim, fundir os minérios de bronze e de ferro. Ora, se a região era rica em ouro, por que não explorá-lo? Acredito que, se a humanidade não tivesse pecado contra o Senhor, poderia ter começado a civilização não a partir do ferro, mas do ouro. Segundo a história secular, a Idade do Ferro teria começado por volta do ano 1200 a C. Todavia, j á na aurora da humanidade, havia um metalúrgico e fundidor que, admiravelmente, sabia como trabalhar o bronze e o ferro. Processando-os, forj ava instrumentos cortantes. Das forj as de Tubalcaim deve ter saído também muita espada e punhal. Viol ência era o que não faltava àquela época. 4 . Atividades intelectuais e artísticas. A música brotou da alma do homem, pois sempre esteve no Espírito de Deus.

O fenôm eno urbano

Quando o Senhor criava os céus e a terra, os anj os entoavamlh e louvores altos e eternos (Jó 38.7). Acredito que a feitura de Adão fez-se também acompanhar dos coros angélicos. Por isso, somos

naturalmente musicais.

Jubal,

também filho

de

Lameque, foi “o pai de todos os que tocam harpa e flauta” (Gn 4.21). Observando a sinfonia da natureza, logo descobriu ser

encarrega-se de espraiar os maus exemplos, levando os filhos de Adão a um rápido

possível arrancar harmonias e ritmos da madeira e do metal.

processo de depravação

Dessa forma, compôs músicas e madrigais. Terá ele musicado o

essencial e total.

poema de Lameque? O certo é que, não somente criou

instrumentos, como também ensinou música E le inventou harpas e flautas. Os músicos subsequentes criariam a trombeta, o pífaro, a citara, o saltério e a gaita de foi es (Dn 3.5). Paradoxalmente, as finuras da mente eram livre e espontaneamente manifestadas, apesar da corrupção que campeava n o mundo de Lameque Longe de serem primitivos e involuídos, os primevos eram evoluídos, inteligentes e muito mais inventivos do que nós. Só lhes faltava uma coisa; a verdadeira sabedoria que nos advém com o temor a Deus.


IV . A R E L IG IÃ O D E LA M E Q U E N o mundo de Lameque, não havia espaço aos ídolos de barro, madeira ou ferro. Ali, a religião era agressivamente antropológica Seus ídolos eram os varões que se notabilizavam por atos violentos, por façanhas truculentas ep o r repetidas e agravadas blasfêmias contra o Espírito Santo. A geração de Lameque era uma raça de andcristos: homens, mulheres e crianças depravavam-se até ao inferno. U m mundo irremissível; votado à destruição. Era uma gente pior do que Satanás. Se não fosse destruída, arruinaria para sempre a criação divina 1. A teologia. A geração de Lameque não desconhecia a presença de Deus. E , posto não haver ainda o governo humano, o próprio Criador era quem os governava Aqueles ímpios, contudo, confrontavam o Eterno, não lhe aceitando a governança Aquela gente tinha a Deus como fraco e leniente; um criador distante da criação. E, como fossem todos longevos, desconheciam as noções de brevidade que, hoje, levam-nos a refletir seriamente sobre a m orte Para eles, a vida era longa e próspera Havia gente mais velha que Portugal, mais antiga que os Estados Unidos e com mais história que o Brasil. Segundo imaginavam, Deus não fazia bem nem mal. 2 . O s ídolos. O autor sagrado fala dos heróis daquela época: “Ora, naquele tempo havia gigantes na terra; e também depois, quando os filhos de Deus possuíram as filhas dos homens, as quais lhes deram filhos; estes foram vai entes, varões de renome, na antiguidade” (G n6.4). Os tais não eram semideuses nem super-humanos, mas pecadores notórios. Nem após o arrebatamento da Igreja o mundo chegará a tal degradação, pois, nos últimos dias, ainda haverá arrependimentos e conversões. Portanto, o Dilúvio era inevitável. 3 . A relação com o Espírito de Deus. Da geração de Lameque, falou o Senhor: “O meu Espírito não agirá para sempre no homem, pois este é carnal; e os seus dias serão cento e vinte anos” (Gn 6.3). Não sabemos por quantos anos, décadas, ou séculos, a geração de Lameque resistiu ao Espírito Santo. Da resistência ao Espírito de Deus, aqueles homens, mulheres e crianças passaram a blasfemar contra a Terceira Pessoa da Santíssima Trindade, depravando-se totalmente. Imaginemos toda uma civilização a blasfemar contra o Espírito Santo. Fizeram-se aqueles homens piores do que os demônios. Estes, por não serem dotados de corpo, não podem estragar a criação física. Aqueles, pelo contrário, dotados de corpo e alma, transgrediam tanto no campo espiritual, como âmbito terreno. Os seguidores de Lameque eram duplamente endemoninhados.

CO NCLUSÃ O Vivemos dias semelhantes aos de Lameque Nosso mundo parece depravar-se total e irreversivelmente. Hoje, porém, temos um povo mais forte e numeroso que a família de N oé Se naquele tempo os justos eram contados em unidades,

Havia gente mais velha


agora, são computados em milhões. Portanto, como sal da terra

que Portugal, mais antiga

elu z do mundo, evangelizemos, protestemos contra o pecado e, através de um testemunho ilibado, apregoemos a volta de Cristo. Enquanto a Igrej a for Igrej a, o Anticristo não achará guarida completa neste mundo. Embora avance em todas as

que os Estados U n id o s e com mais história que o Brasil.

áreas, sempre encontrará homens, mulheres, jovens e até crianças dispostos a barrar-lhe a trajetória. Não podemos esquecer nossa vocação de sal e de luz. Se tivermos ambas as propriedades em nosso testemunho pessoal e coletivo, levaremos o Evangelho de Cristo até aos confins da terra sem impedimento algum


A SALVAÇÃO DE UMA FAMÍLIA

IN TR O D U Ç Ã O O Dilúvio não foi apenas o maior desastre natural do planeta. Em termos teológicos, a grande inundação manifestou, paradoxalmente, a longanimidade e o amor de Deus. Apesar da corrupção irrefreável da raça humana, o Senhor ainda concedeu um 1ongo tempo para que todos, arrependendo-se de seus pecados e maldades, viessem a escapar ao juízo que se avizinhava Infelizmente, até mesmo a linhagem de Sete, apesar de um passado de fé, piedade e de boas obras, acabou por rej eitar-lhe a graça salvadora A punição divina era inevitável. Toda a primeira civilização estava prestes a desaparecer da superfície do pl aneta. Em meio àquela geração, Noé destacava-se por um amor alto e incondicional a Deus. Jamais se conformando com o mundo, navegou contra todas as correntes da maldade, da violência, da devassidão e do andteísmo. E, assim, logrou sobreviver ao desastre anunciado. Juntamente com a sua família, daria início a uma nova civilização, que haveria de proporcionar as condições necessárias à redenção da espécie humana. Devido à sua fé, Noé trouxe salvação à sua família. Que o seu testemunho inspire-nos a levar nossos filhos e netos a um encontro experimental com o Senhor Jesus. Caso contrário, seremos subvertidos com este mundo que subj az num sistema maligno e antagônico a Deus.

I. A P IE D O S A G ER A Ç Ã O D E NO É Noé procede de uma linhagem de homens santos, j ustos e coraj osos. Entre seus antepassados, há inclusive dois profetas; todos inclusos na genealogia de Cristo. E, nessa tradição, foi ele rigorosamente educado. I.

A linhagem de Sete. Noé pertencia à família de Sete, cuj o nascimento consola o coração de Eva:

“Deus me concedeu outro descendente em lugar de Abel, que Caim matara” (Gn 4-25). Mas como educar o novo filho? E la certamente temia a influência de Caim, que tanto poderia tirar-lhe a vida como arrastá-


Io à apostasia Mas, pelos versículos seguintes, inferimos que Sete foi criado com primor e desvelo. A mesma educação buscou Sete repassar aos seus descendentes que, segundo depreendemos de sua genealogia, que também é a de Cristo, vieram a destacar-se pela nobreza e virtude 2 . U m a linhagem ilustre. Já homem feito e bem formado, Sete gera um filho, que haveria de levarlh e a família a uma comunhão mais íntima com Deus. Eis o que registra o autor sagrado: “A Sete nasceulh e também um filho, ao qual pôs o nome de Enos; daí se começou a invocar o nome do Senhor” (Gn 4.26). O que tinha Enos de especial? Pelo significado de seu nome, inferimos tratar-se de uma pessoa frágil e enfermiça Por isso, muitas orações devem ter sido endereçadas a Deus em seu favor. Enos, cujo nome em hebraico significa “mortal”, é fortalecido por Deus. Faz-se homem, casa e também gera um filho a quem dá o nome de Cainã. N o transcorrer de sua longa existência, Enos é agraciado com outros filhos e filhas, vindo a morrer com 905 anos (Gn 5.11). A doença na infância não lh e tolheu a velhice, nem a 1 ongevidade. Da linhagem de Sete era também Enoque Por sua curtíssima biografia, concluímos ter sido ele uma poderosa testemunha de Deus entre os seus contemporâneos. D e seu ministério, temos este sumário: ‘Andou Enoque com Deus; e, depois que gerou a Metusalém, viveu trezentos anos; e teve

Devido à sua fé, Noé trouxe salvação à sua família.

filhos e filhas. Todos os dias de Enoque foram trezentos e sessenta e cinco anos. Andou Enoque com Deus e j á não era, porque Deus o tomou para si” (Gn 5.2224). Enoque não se limitou a uma biografia particular; tEve ainda um ministério público de grande influência e poder no período antediluviano, conforme revela Judas, irmão de Tiago: “Quanto a estes foi que também profetizou Enoque, o sétimo depois de Adão, dizendo: Eis que veio o Senhor entre suas santas miríades, para exercer j uízo contra todos e para fazer convictos todos os ímpios, acerca de todas as obras ímpias que impiamente praticaram e acerca de todas as palavras insolentes que ímpios pecadores proferiram contra ele” (Jd 14.15). Aos 65 anos, Enoque gerou o mais longevo dos homens: Metusalém, pai de Lameque e avô de Noé (Gn 5.25-28). Estes três homens foram os responsáveis pela formação espiritual, moral e ética de N oé 3 . U m hom em educado n o tem or a Deus. M ui provavelmente, Noé mio chegou a conhecer Enoque, seu bisavô. Mas chegou a desfrutar de uma longa convivência com o avô, Metusalém E, deste, muito ouvira daquele que, por sua piedade, fora um dia arrebatado por Deus. O relato, que lh e repetiria o pai, Lameque, muito o inspirou e fortaleceu-o no exercício do ministério divino como pregoeiro da j ustiça Não confundamos este Lameque com aquele notório descendente de Caim, que levou o mundo à ruína. O pai de Noé também era profeta E o que inferimos de sua declaração quando do nascimento do filho. Ao olhar a criança dada à luz num mundo de trevas, inspira-se divinamente: “Este nos consolará dos nossos trabalhos e das fadigas de nossas mãos, nesta terra que o Senhor amaldiçoou” (Gn 5.29). Educado por homens piedosos e j ustos, tornou-se Noé j usto epiedoso. Estava ele pronto, agora, a


ouvir a palavra de Deus referente ao j uízo que haveria de recair sobre toda a cerra. Observemos que Noé e seus antepassados, remontando a Sete e a Adão, acham-se na genealogia que Lucas traçou de nosso Senhor Jesus Cristo (Lc 3.37,38).

I I. O A N Ú N CIO D O D IL Ú V IO Selevarmos em consideração a cronologia tradicional, ainda não se haviam passado dois mil anos, quando Deus, ao iniciar a feitura dos céus e da terra, declarara “Haja luz” (Gn 1.3). Era chegado o momento, porém, de o Criador desfazer o que fizera naquel e princípio j ubiloso de Gênesis. 1. O anúncio do Dilúvio. Ao j usto e piedoso Noé, o Senhor anuncia o fim da primeira civil ização humana. De inicio, era sua intenção destruir o que construíra naqueles seis dias que, tendo início com a luz, culminou na criação da mulher (Gn 6.7). Mas, posto que Noé achara graça diante de si, limita-se a destruir aquela humanidade, afim de preservar a espécie humana através do patriarca. Dessa forma, o Senhor revela a Noé a morte de uma civilização e o renascimento de outra “Resolvi dar cabo de toda carne, porque a terra está cheia da violência dos homens; eis que os farei perecer j untamente com a terra Faze uma arca de tábuas de cipreste; nela farás compartimentos e a calafetarás com betume por dentro e por fora” (Gn 6.13,14). Em seguida, o Senhor explica ao seu fiel e humilde servo de que forma destruirá o mundo de Lameque “Porque estou para derramar águas em dilúvio sobre a terra para consumir toda carne em que há fôlego devida debaixo dos céus; tudo o que há na terra perecerá” (Gn 6.17). Para quem nunca vira uma tempestade, o anúncio do Dilúvio deve ter causado estranheza e interrogações. Noé, porém, compreende que o mundo de Lameque j á havia rompido todos os diques da longanimidade divina Persistisse este por mais alguns séculos, e já não restaria qualquer esperança à família humana Era imperioso, pois, destruir a raça para salvar a espécie E le sabia também que o cataclismo acabaria com um mundo ecologicamente perfeito, com uma civilização j á bem adiantada, com uma cultura admirável e com uma sociedade administrativa e polidcamente complexa, U m novo mundo, porém, haveria de se erguer sob os detritos e lama do mundo lamequiano. 2. A destruição do m undo. O mundo ainda não tinha dois milênios, mas seria completamente destruído. Sua biosfera seria revolvida pelas águas do abismo e pelas chuvas dos mais altos céus. O planeta ainda era um vergel, mas estava para ser açoitado por ondas imensas e revoltas; tsunamis estourariam em todas as costas, litorais e praias. Da antiga civilização, apenas resquícios haveriam de sobrar. O Eden que, desde a queda de Adão, permanecia custodiado pelos querubins, também haveria de ser destruído pelo Dilúvio. O paraíso j á era perdido. 3. A destruição da primeira civilização humana. Se tivermos como válida a cronologia, segundo a qual, desde a Criação ao Dilúvio, haja transcorrido perto de dois milênios, concluiremos que as


conquistas da primeira civilização eram nada desprezíveis. Vinte séculos de arte, tecnologia e conhecimento. A humanidade deixara a unidade doméstica de Adão e Eva para

Educado por homens

complexar-se no mundo de Lameque Havia certamente uma estrutura política, cuj o fundamento era a corrupção, a violência

piedosos e justos, tomou-se

e o antiteísmo. Embora não ignorassem a Deus, governantes e

Noé justo e piedoso.

governados lutavam por impedir-lhe a instauração do Reino. Ao mesmo tempo, buscavam estabelecer o império de Satanás.

A presença divina era forte e terrivelmente visível. Aproximando-se do Eden, aqueles homens, mulheres e crianças viam a espada flamej ante dos querubins. Eles sabiam que a eternidade estava logo ali, na árvore da vida, bem no centro do paraíso. Todavia, por causa do pecado de Adão, j á mio lh e tinham acesso. E, caso tentassem chegar até ela, seriam destruídos pelos guardiões celestes. O que desejavam, porém, não era a eternidade com Deus, mas a imortalidade para se esbanjarem em seus pecados, iniquidades e grosserias. Por isso, revoltavam-se ainda mais contra Deus. Nesse destemor e apostasia, dominaram o planeta, fizeram uma ciência ruim e deletéria, construíram e deram-se em construções. Todo esse progresso tornou a primeira civilização pior do que o inferno. 4.

A destruição da sociedade adàmica. Sim, Deus teve de destruir a raça, para salvar a espécie

porque a humanidade, exceto em Noé e sua família, já não existia No Dilúvio, quantas pessoas morreram? Talvez centenas de milhar es. Ou, quem sabe, milhões. A sociedade adâmica fez-se tão arrogante e insolente, tão inimiga de Deus e adversária de si mesma, que, em breve, haveria de desaparecer da face da Terra Junto com os perversos, estava prestes a perecer dois mil anos de uma história sintetizada num único capítulo da B íblia Sagrada Mas bem que poderia ser resumida nestas palavras: nasceram, prosperaram, depravaram-se totalmente e totalmente foram votados à destruição, por haverem rej eitado a graça divina.

III. A C O N STR U Ç Ã O D O BR A N D E B A R C O Dispondo de tanto espaço e de tantas farturas, os filhos de Adão ainda não se haviam feito ao mar. A navegação, certamente, era-lhes desconhecida, pois tudo de que precisavam estava ali. Não havia países a serem explorados, nem culturas estranhas a conhecer. Eles eram o único pais, a única nação e a única cultura sobre a Terra Falando todos uma só língua, não careciam investigar

o

desconhecido,

pois

tudo

era-lhes

conhecido. Por isso mesmo, menosprezaram ao justo Noé quando este, dramaticamente, pôs-se a proclamar-lhes, na construção da arca, o j uízo de Deus.

Deus teve de destruir a raça, para salvar a espécie, porque a humanidade, exceto em Noé e sua família, já não existia.


1. A insólita construção. Até então, casas e abrigos eram construídos todos os dias pelos antigos. Sabiam trabalhar a madeira, e tinham habilidade para erguer formidáveis construções de barro. Hajavista a tecnologia que os descendentes de Noé levaram para o novo mundo, possibilitando-lhes a edificação da torre de Babel. Mas uma construção que viesse a flutuar era-lhes algo inusitado. Noé, porém, bom teólogo que era, não questionou as ordens do Senhor, que lhe dá uma planta simples, mas bastante eficaz: “Faze uma arca de tábuas de cipreste; nela farás compartimentos e a calafetarás com betume por dentro e por fora Deste modo a farás: de trezentos côvados será o comprimento; de cinqüenta, a largura; e a altura, de trinta, Farás ao seu redor uma abertura de um côvado de altura; a porta da arca colocarás lateralmente; farás pavimentes na arca um embaixo, um segundo e um terceiro” (Gn 6.14-16). 2. As medidas da arca. Em medidas atuais, a arca tinha estas dimensões: 135 metros de comprimento, 22,5 de largura e 13,5 de altura Divida em três andares, era suficientemente espaçosa para abrigar todas as espécies domésticas e selvagens. Neste particular, ressaltamos que todas as espécies básicas, de fato, vieram a N oé As variações que hoj e conhecemos provieram destas. Tomemos como o exemplo o tigre. Hoj e, há o tigre africano, o asiático e o que vive no polo Norte Todos eles, todavia, originaram de um único casal (Gn 6.17). Portanto, não há nenhum absurdo ou incongruência no Gênesis. O mesmo, aliás, aconteceria com o ser humano. Daquela família única de oito pessoas, vieram os brancos, os negros, os amarelos e os peles-vermelhas. Enfim, todos somos filhos de Noé. 3. U m barco para flutuar. Construída para flutuar, a arca não tinha qualquer utilidade à navegação. Portanto, não precisava de leme, nem de remos, mas de um bom calado para vogar nas águas do Dilúvio. Quanto à sua atracação, era um problema que Deus j á havia solucionado em sua infinita sabedoria e providência. O patriarca Noé só precisava confiar plenamente na direção divina

IV. O SE R M Ã O D R A M Á T IC O D E N O É Não sabemos quanto tempo durou a pregação de Noé. U m século? Ou várias décadas? Não importa. O fato é que toda aquela civilização teve muita oportunidade para, arrependendo-se, voltar-se para Deus. Infelizmente, não houve uma conversão sequer. Saturados do patriarca, fizeramse moucos, surdos e ainda mais impenitentes. I.

E m palavras e atos. Destacando o juízo divino sobre a primeira civilização humana, escrev

Pedro que Deus “não poupou o mundo antigo, mas preservou a Noé, pregador da j usdça, e mais sete pessoas, quando fez vir o dilúvio sobre o mundo de ímpios” (2 Pe 2.5). Noé, um pregador sem púlpito. Mas nem por isso deixou de proclamar o j uízo divino. Talhando o grande barco num lugar seco, longe dos rios Tigre e Eufrates, pregava ele, dramaticamente, os últimos dias daquele mundo. E, dramaticamente, anunciava o castigo divino sobre os seus contemporâneos. Estes, por seu turno, contando seus dias não em décadas, mas em séculos, supunham que j ulgamento algum


lhes adviria Por isso, brincaram com o tempo, e acabaram por se perder numa eternidade sem Deus. N oé pregava com palavras. Sua proclamação mais forte, porém, dava-se no âmbito do testemunho pessoal, no ordenamento de sua família e no trabalho da arca O que lhe faltava em palavras, sobej ava-lhe no sobe e desce do martelo, no vaivém da serra, no empurrar do formão e nos encaixes da madeira. Acredito que Salomão tinha em mente o ministério de Noé, quando compôs estas sapiêndas: ‘As palavras dos sábios são como aguilhões, e como pregos bem fixados as sentenças coligidas, dadas pelo único Pastor” (Ec 12.11). 2.

A homilia do cipreste. Além de medicinal, o cipreste é uma excelente madeira para ser utilizad

em obras finas de marcenaria Por isso mesmo, Deus a indicou à construção da arca Suas qualidades curativas, em contato com a água, haveria de preservar a saúde de todos a bordo do grande barco. Homens e animais estariam livres de fungos, bactérias e de outras coisas deletérias. A arca, pois, era um lugar de vidaesaúde; ninguém dali sairia enfermo. Foi no preparo desta madeira, que Noé ia proclamando o fim de todas as coisas. Suas homilias, que tinham as mesmas propriedades do cipreste, foram ignoradas. Nelas, estava a cura para a sua geração que, empedernida e insolente, aprofundou-se em delitos e pecados, até não lhe haver mais remédio. Não acontece o mesmo hoj e com a pregação do Evangelho de Cristo?

V. O D IL Ú V IO IN E V IT Á V E L Enfim, a arca está pronta, O grande barco de Noé, que serviu de modelo aos petroleiros atuais, j á era realidade. Não obstante, a geração de Lameque continuava pecando, afrontando a Deus e blasfemando de seu Espírito. Aquele evento escatológico, figura perfeita do que há de acontecer nestes últimos dias, continua a advertir-nos. 1. A chegada dos animais. Embora Noé pregasse com o verbo eco m as ferramentas da marcenaria, ninguém se arrependeu para fugir às águas do Dil úvio. Se homem algum buscou aproximar-se da arca, os animais se houveram mais sabiamente No momento certo, começaram eles a chegar. Dos maiores aos menores, todos apresentaram-se a N oé Seu apelo racional foi irracionalmente respondido. E a loucura da pregação. O fato parece não ter chamado a atenção dos lamequianos, porque, naqueles dias, os animais, mesmo os arredios e selvagens, não representavam ameaça ao ser humano. Por isso mesmo, aquela gente pensou que Noé estava montando um parque temático ou um grande zoológico. Mas, na verdade, era o epílogo de um sermão gracioso, mas urgente e terminal. 2. Dilúvio, o julgamento universal. Tendo Noé e sua família entrado na arca, juntamente com todos os animais, o próprio Deus encarrega-se de fechar-lhes a porta (Gn 7.16). O Senhor enclausura o patriarca, pois em sete dias chegarão as águas do grande dilúvio. Enquanto isso, ia o tempo fechando-se do lado de fora,- as nuvens avolumavam se; os rios e lagos j á começavam a agitar-se.


Finalmente o Dilúvio. Assim o autor sagrado descreve a grande inundação: “N o ano seis centos da vida de Noé, aos dezessete dias do segundo mês, nesse dia romperam-se todas as

O fato é que toda

fontes do grande abismo, e as comportas dos céus se abriram, e

aquela civilização teve muita

houve copiosa chuva sobre a terra durante quarenta dias e

oportunidade para,

quarenta noites” (Gn 7:11), Toda a primeira civilização humana foi destruída pelas

arrependendo-se, voltar-se

águas do Dilúvio. Apenas N oé e a sua família, j untamente com os animais que estavam com eles na arca, sobreviveram A

para Deus.

chuva, na verdade, durou quarenta dias e quarenta noites. As águas, todavia, preval eceriam por mais de um ano sobre a face da Terra (Gn 8.13). Sim, o Dilúvio atingiu todo planeta. Se um tisunami na As ia é sentido no continente americano, o que dizer da grande inundação que destruiu toda a primeira civilização? Literalmente, o Dilúvio alcançou toda a terra, destruindo um habitat perfeito que o Senhor havia preparado para um ser humano imperfeito enada agradecido. Se o j uízo divino foi universal, universal também foi o Dilúvio.

CO NCLUSÃ O O grande projeto de N oé não era a construção da arca, mas a salvação de sua família. Por isso, empenhou-se em conduzir seus filhos pelos caminhos de SeÇ Enos e Enoque, seus piedosos ancestrais. Naquele período, era um homem contra todo um mundo corrupto, irreconciliável e inimigo de Deus. Dessa forma, não permitiu que nenhum de seus filhos se des encaminhas se pelas sendas de Caim e Lameque Agindo piedosa, mas corajosamente, pôde salvar a esposa, os filhos e as noras. Enfim, Noé veio a salvar a espécie humana Nele, o plano de salvação foi preservado e teve pleno segmento. A cultura de Caim e Lameque, embora poderosa, foi destruída pelas águas do Dilúvio. A mensagem da graça divina, encerrada naquela arca, que vogava nas águas revoltas, veio-nos através do Evangelho de Cristo. Que o nosso grande proj eto, hoj e, sej a a salvação de nossa família. Encaminhemos, pois, os que amamos no caminho da graça divina


O PRINCIPIO DO GOVERNO HUMANO

IN TR O D U Ç Ã O Imaginemos o Dilúvio em nossos dias. Ao entrar no imenso navio, construído nalgum estaleiro asiático, Noé e sua família teriam de deixar, para trás, a maior parte das invenções e conquistas dos últimos cem anos. De nada lhes serviria o avião, o tablete ou o celular. Mas, sabiamente, aperceber-se iam de provisões para uns 13 ou 14 meses, pois a vida, a bordo da arca, exigiria muita comida, ração e água potável. Passada a grande inundação, e j á fora da imensa nau, a família noética teria de iniciar um novo processo dvilizatório. As invenções teriam de ser reinventadas, e as coisas j á descobertas, redescobertas com urgência Já imaginou recriar o motor elétrico, o automóvel, a televisão, o computador entre outras maravilhas de nossa era? Nem mencionaremos os avanços na área da medicina A humanidade, em apenas quarenta dias, seria arremessada, da era do conhecimento, à idade do bronze A partir daí, teríamos de retrilhar os passos dos sábios, cientistas e inventores, para que voltássemos a usufruir de algum progresso tecnológico. Providencialmente, a civilização adâmica, naquele período, ainda era rudimentar se comparada à nossa Mesmo assim, teve de haver um recomeço.

I . O R EC O M EÇ O D A C IVILIZA Ç ÃO Os avanços da primeira civilização, embora admiráveis, ainda podiam ser razoavelmente dominados por uma única família. Que o patriarca fosse agricultor, não há dúvida Quanto aos seus filhos, não lhes sabemos as profissões. Sei apenas que Noé, Sem, Jafé e Cam, eram excelentes marceneiros, por teremlevado adiante o projeto de uma arca que, apesar do formidável cataclismo, deu-lhes abrigo e segurança por mais de um ano. Portanto, em sua construção, lograram eles preservar os princípios indispensáveis da ciência e da tecnologia do mundo antedil uviano. I.

A continuidade história da humanidade. O Dilúvio rompeu um processo dvilizatório, mas,

paradoxalmente, deu prosseguimento à história da humanidade A narrativa que teve inído, com Adão, teria continuidade, agora, com N oé Portanto, a grande inundação é apenas um trecho da longa


peregrinação do ser humano sobre a face da Terra H oje, narramos a História Sagrada aos nossos filhos e netos sem que seja preciso explicar-1hes hiatos ou lacunas. Arqueologicamente, os vestígios diluvianos não são expressivos. Teologicamente, porém, as evidências são fortes, irrespondíveis e racionais. Estamos diante de um fato, não de uma parábol a ou alegoria. A história ai está para lembrar-nos que, apesar de nossos pecados e iniquidades, o plano divino para os filhos de Adão será rigorosamente cumprido. Por isso, o Dilúvio não pode ser visto apenas como a maior tragédia natural do planeta,- tem de ser encarado como a maior epopeia da espécie humana. 2 . O repovoamento da terra. A história da humanidade terá continuidade com uma nova civilização. Mas, para que esta vingue, é necessário e urgente repovoar a terra Por isso, o Senhor abençoa N oé e sua família “Sede fecundos, multiplicai-vos e enchei a terra” (Gn 9.1). A benção fazia-se imprescindível, porque o repovoamento do planeta haveria de ser efetuado a partir de três casais. A reserva genética de que dispunha a espécie humana, naquele momento, era insignificante. Três casais para repovoar a As ia, a Europa, a África, as Américas e a Oceânia Os primeiros casamentos, por conseguinte, dar-se-iam entre primos. Noutras circunstâncias, as uniões endogâmicas acabariam por gerar homens e mulheres débeis, enfermiços e até mesmo desfigurados. H aja vista os desastres genéticos da casa de Faraó. Para que isso não viesse ocorrer na família de Noé, abençoa Deus extraordinariamente aqueles casais, cuj os filhos teriam de nascer fortes, saudáveis e perfeitos, pois a sua missão civilizatória seria árdua e estressante Era a segunda vez que o Senhor abençoava geneticamente a raça humana A primeira deu-se com Adão e Eva, cuj os filhos tiveram de casar-se entre si. Agora, porém, isso não mais será necessário, pois, ao invés de um, há três casais prontos a dar seqüência ao r epovoamento do planeta Abençoados, haveriam de gerar povos fortes, inteligentes e aguerridos que, em breve, espalhar-se-iam pelos cinco continentes. Daqueles três casais saíram tribos, povos, reinos e impérios. 3 . U m a nova realidade ecológica. Em conseqüência da grande inundação,

a Terra j á não teria a fartura e a

prodigalidade do período pré-diluviano.

Doravante, seus

habitantes terão de experimentar longas estiagens, fomes e enfermidades. Se o planeta anteriormente era protegido por um escudo aquoso, este, por ocasião do Dilúvio, veio abaixo, engolindo boa parte dos continentes. Desde então, achamo-nos vulneráveis aos raios ultravioletas do Sol.

E,

sob tais

condições, ninguém mais desfrutaria da longevidade tão comum

A humanidade, em apenas quarenta dias, seria arremessada, da era do conhecim ento, à idade do bronze.

à primeira civil ização. A Terra, agora, passaria a requerer maiores cuidados e empenhos. A nova realidade ecológica encurtar-nos-ia a vida, não nos permitindo avançar além dos 120 anos. Na realidade, quem chega aos 80 dá-se por fel iz.


I I. O A R C O D E D EU S Segundo os antigos gregos, o arco-íris pertencia a uma deusa, cuj a tarefa era unir o Céu e a Terra. Mensageira dos olimpianos, estava sempre pronta a derramar oráculos e mistérios sobre os pobres mortais. íris, como era chamada, de vez em quando fazia o seu arco aparecer, a fim de acalmar as gentes do Mediterrâneo. Se nos pusermos

a pesquisar as mitologias europeias, africanas,

asiáticas e ameríndias,

constataremos: o arco, que nunca pertenceu a íris, acha-se na alma de todas as tribos, nações e povos. Mas, somente na Bíblia Sagrada, encontraremos o seu verdadeiro proprietário e significado. 1. U m a promessa bem visiveL Já fora da arca, Noé erige um altar, e, sobre este, oferece aves e animais limpos ao Senhor, agradecendo-o pelo grande livramento. O sacrifício alcança os céus, eacalenta o coração de Deus. Em seguida, prometeihe o Senhor: “Não tornarei a amaldiçoar a terra por causa do homem, porque é mau o desígnio íntimo do homem desde a sua mocidade; nem tornarei a ferir todo vivente, como fiz” (Gn 8.21). O Senhor deixa bem claro ao seu servo, que a Terra não será arrasada por outro dilúvio: “Enquanto durar a terra, não deixará de haver sementeira e ceifa, frio e calor, verão e inverno, dia e noite” (Gn 6.22). Para que não pairasse dúvida alguma sobre as suas intenções, aprouve a Deus dar-lhes um sinal bem visível de sua aliança com a raça humana: “Este é o sinal da minha aliança que faço entre mim e vós e entre todos os seres viventes que estão convosco, para perpétuas gerações: porei nas nuvens o meu arco; será por sinal da aliança entre mim e a terra Sucederá que, quando eu trouxer nuvens sobre a terra, e nelas aparecer o arco, então, me lembrarei da minha aliança, firmada entre mim e vós e todos os seres viventes de toda carne; e as águas não mais se tornarão em dilúvio para destruir toda carne O arco estará nas nuvens; vê-lo-ei e me lembrarei da aliança eterna entre Deus e todos os seres viventes de toda carne que há sobre a terra” (Gn 9.12-16). A partir daquele momento, os seres humanos veriam a chuva não mais como ameaça, mas como parte das bênçãos divinas. Aos israelitas prestes a tomar posse de Canaã, promete o Senhor através de Moisés: “Se diligentemente obedecerdes a meus mandamentos que hoj e vos ordeno, de amar o Senhor, vosso Deus, e de o servir de todo o vosso coração e de toda a vossa alma, darei as chuvas da vossa terra a seu tempo, as primeiras e as últimas, para que recolhais o vosso cereal, e o vosso vinho, e o vosso azeite” (Dt 11.13,14). Hoje, faltando chuva num lugar, todos olham para o céu a esperar pela intervenção divina. Enquanto redij o estas linhas, a cidade de São Paulo acha-se inquieta, porque não houve chuva suficiente em seu principal reservatório. 2. A função do arco de Deus. Hoj e, até poderíamos viver sem o arco-íris, porque todos sabemos que Deus não voltará a destruir a Terra através de um novo dilúvio. Aos descendentes de Noé, porém, o arco de Deus não era apenas um fenômeno ótico; era a garantia de que o Senhor estava no controle de todas as coisas. E, portanto, não permitiria que a segunda civilização tivesse qualquer ruptura, pois os seus desígnios são eternos.


Já imaginou se o arco de Deus não aparecesse por ocasião de uma chuvarada ou tempestade1 A geração pós-diluviana seria arruinada por uma profunda e incurável depressão. Bastaria o tempo fechar e as nuvens sobrecarregarem-se, para que todos se apinhassem nos outeiros, montes e torres. Aliás, a humanidade não faria outra coisa a não ser construir barcos e navios, pois a imagem do Dilúvio era ainda aterradora.

III. U M A N O VA CIVILIZA Ç Ã O A partir do altar que erguera ao Senhor, inicia N oé uma nova civilização.E le invoca a Deus que, prontamente, responde-lhe com uma promessa. Portanto, o início da civilizaçãoatual foiessencial

e

ostensivamente teocrádca. Mas, para que os males da primeira mio viessem a destruir a segunda, o Senhor toma uma série de medidas, a fim de viabil izá-1a. I . A extensão da vida humana. Os homens j á não serão tão longevos quanto os antedil uvianos.Se fizermos uma comparação entre a genealogia do capítulo cinco, que tinha como tronco o próprio Adão, e a do capítulo 11, cuja cepa é Noé, concluiremos que Deus, de fato, reduziu drasticamente a extensão da vida humana. Doravante, o homem não mais contará a sua vida em séculos, mas em poucas e minguadas décadas. Se Matusalém alcançou 969 anos, José morrerá aos 110. E, hoje, os mais robustos logram chegar aos 70 ou, quando muito, 80 anos. Se por um lado os bons pouco viverão, os maus não durarão muito. Dessa forma, daremos seqüência à civilização através de nossos filhos, netos, bisnetos e tataranetos. Sen ão podemos ter um John Wesley com 5 0 0 anos, não corremos o risco de um

Já fora da arca, Noé erige um altar, e, sobre este, oferece aves e animais limpos ao Senhor,

Hider com 600. Sábia e amorosamente, o Senhor encurtou--

agradecendo-o pelo grande

nos os dias, para que viéssemos a contá-los e remi-los de

livramento.

acordo com a s ua vontade. 2.

A nova dieta humana. Na primeira civilização, a dieta humana era composta de frutas, verduras

e legumes. Após o Dilúvio, porém, o Senhor permite aos filhos de Noé a dieta animal, para supl ementarem a vegetariana, Eis a orientação que Deus deixa a Noé: “Tudo o que se move e vive ser-vos-á para alimento; como vos dei a erva verde, tudo vos dou agora. Carne, porém, com sua vida, isto é, com seu sangue, não comereis” (Gn 9.3,4). Se, no início, os animais serviam apenas para o culto ao Senhor e para as lidas do campo, a partir de agora hão de servir também como al imentação aos filhos de N oé

IV .

O R D EN A M EN TO JU R ÍD IC O D A N O VA C IV ILIZ A Ç Ã O


Na era pré-diluviana, era o próprio Deus quem ministrava a j ustiça entre os filhos de Adão. Não havia medianeiros angélicos nem humanos. Por causa da morte de Abel, arguira o Senhor pessoalmente a Caim, punindo-o com o desterro. O assassino, temendo por uma vindicação terrena, supusera que o primeiro a encontrá-lo tirar-lhe-ia a vida. O Juiz de toda a Terra, contudo, havia proibido semelhante j ustiçamento. E , para tanto, colocara um sinal no homicida, para que este fosse poupado. Agora, porém, a realidade j urídica do planeta será mais rígida,- não admitirá contemplações. Somente com a vida poderá a vida ser vingada. 1. O fundamento jurídico da nova civilização. Nenhuma civilização é possível sem um sólido fundamento jurídico. Sem lei, não há convivência, mas uma sobrevivência hostil e nada solidária. Nas famílias, onde a disciplina é visível, todos progridem e desenvolvem-se. Onde reina a anarquia, a dissolução é mais que certa,- é uma fatal idade anunciada. Por essa razão, o Senhor entrega o governo da Terra a Noé, deixando-lhe um preceito que logo se faria universal: “Se alguém derramar o sangue do homem, pelo homem se derramará o seu,- porque Deus fez o homem segundo a sua imagem” (Gn 9.6). Tal princípio seria ratificado pelo Cristo. Utilizando o vocabulário da graça divina, afirma o Filho de Deus: ‘T u do quanto, pois, quereis que os homens vos façam, assim fazei-o vós também a eles; porque esta é a Lei e os Profetas” (Mt 7.12). A essência de ambas assertivas é a mesma Se quero viver, então que eu deixe viver. Se não quero ser ferido, que eu a ninguém fira Se quero que me façam o bem, que eu não me prive de fazer o bem Mas, fazendo-me alguém o mal, não devo retribuir-lhe com o mal; tenho de mostrar-lhe o bem que a tudo vence. A le i do amor cristão transcende essas fronteiras, pois espelha a ação do Nazareno. 2 . A santidade da vida humana. A lei que o Senhor entregou a Noé é o germe de todo o ordenamento j urídico do planeta. Sua essência acha-se tanto nos Dez Mandamentos como no Sermão do Monte. Aliás, nenhum ordenamento jurídico respeitável pode dispensar tão precioso enunciado. Mesmo que seja formulado por idólatras como os gregos e romanos, ou por pragmáticos e quase ateus como os chineses, o princípio da santidade humana é imprescindível à comunidade humana.

Se não podemos ter um Joh n Wesley com 500 anos, não corremos o risco de um H itler com 600.

Doravante, fratricidas como Caim não mais serão tolerados. Se matou, haverá de morrer. E Lameque? Ainda que louve seus feitos, não ficará impune A uma sociedade leniente e permissiva, como a brasileira, semelhante princípio avulta-se desamoroso e cruel. E m sua essência, entretanto, acha-se o mais amoroso dos preceitos: “Tudo quanto, pois, quer eis que os homens vos façam, assim fazei-o vós também a eles; porque esta é a Lei e os Profetas” (Mt 7.12). Por que vida por vida? Antes de tudo, porque a vida é o dom mais precioso que nos concedeu o Senhor. Por isso mesmo, só uma vida para resgatar outra vida Embora a pena de morte seja muito discutida, continua válida e aplicável. A vinda de Cristo não a anulou Ao cristão mio cabe buscar vingança com as próprias mãos. Essa função cabe ao Estado que, se bem ordenado e justo, refletirá a j ustiça de


Deus. E claro que não podemos ver a União Soviética de Stalin, a Alemanha de Hider, o C am boja de Pol Pot ou a Cuba de Fidel Castro, como expressão da j ustiça divina Todavia, há nações que, embora não cristãs, manifestam perfeitamente as leis de Deus. O princípio da santidade da vida é contra todos os tipos de homicídio: aborto, eutanásia, crimes de guerra, genocídio, experimentos em cél ul as-tronco embrionárias e outras modalidades de crimes que hão de surgir com o avanço da ciência e da tecnol ogia 3 . Quem m ata um ser humano atenta co n tra Deus. O princípio da j ustiça divina, entregue a Noé, tem como essência a

A lei que o Senhor

santidade da vida, fundamentando-se neste axioma quem atenta contra o ser humano contra o próprio Deus atenta, pois fomos criados à sua imagem e semelhança

entregou a N oé é o germe de

Desta le i simples e direta surgem todas as demais. A iniqüidade que levou o mundo à destruição começou com dois homicidas: Caim e Lameque O primeiro foi poupado por

todo o ordenamento jurídico do planeta.

Deus. Ao invés da pena capital, foi punido com o banimento. Tornou-se andarilho e vagabundo na Terra. Quanto ao segundo, banal mente matou e banal mente louvou seus feitos.

V. O P R IN C ÍP IO D O G O V E R N O HU M ANO Até Noé sair da arca, era o próprio Deus quem governava o mundo. Agora, porém, o Senhor delegará a administração do planeta ao próprio homem 1. O governo humano. Teologicamente, o governo humano é a autoridade que Deus entregou a Noé e a seus filhos, tendo como obj edvo administrar a j ustiça, ordenar politicamente a sociedade e tornar sustentável a Terra Embora o governo sej a humano, a soberania é divina. O Senhor concede tal autoridade ao homem, para que este, cumprindo-lhe os mandamentos e fazendo-lhe a vontade, traga a pl enitude do Reino dos Céus à Terra. 2 . A intervenção ordinária do hom em . O governo humano deve ter, como parâmetro, a soberania de Deus. Nossa autoridade, portanto, não deve ignorar a divina, nem nossas atribuições podem ir além dos limites que E le nos estabeleceu. Na História Sagrada, não foram poucos os governantes que, menosprezando-lhe a presença, ousaram governar como se não houvesse Deus. Haj avista Faraó, Etbaal II, Nabucodonosor e Herodes, o Grande Todos eles foram duramente casdgados pelo Rei dos reis e Senhor dos senhores. Por conseguinte, quando o homem governa, intervém ordinariamente no mundo. Se for além, contraria a Deus. Revoltam-me governantes como Stalin, Hider e certos tiranetes latinoamericanos que, tão logo assumem o poder, escravizam seus povos, empenhando-se em apagar o nome divino de suas cartilhas ridículas, nas quais subvertem amoral e o s bons costumes.


3.

A intervenção extraordinária de Deus. Embora Deus

haja delegado o governo do mundo ao homem, continua E le a comandar todas as coisas. A todo instante vem intervindo quer

A té Noé sair da arca,

na história das nações, quer na biografia de cada pessoa.

era o próprio Deus quem

Quando necessário, intervém extraordinariamente, Interveio em Sodoma e Gomorra, destruindo ambas as cidades. Interveio no

governava o mundo.

Egito, arrancando de lá a Israel. S e i ermos a história universal comas lentes da soberania divina, constataremos: Deus interveio em Roma, levando-a ao desaparecimento. Na Europa, criando nações e abatendo impérios. São intervenções divinas na comunidade humana. D e fato, o governo é nosso, mas o controle é de Deus. Ainda que o ignoremos, continuará E le a reinar absoluto sobre todas as coisas.

CO NCLUSÃ O O Dilúvio destruiu a raça, mas, em Noé, preservou a espécie humana. Se a primeira civilização teve um fim trágico, a segunda poderia haver começado de maneira responsável e amorosa Mas, como mais adiante veremos, não demoraria para que o homem voltasse aos pecados e iniquidades do mundo de Lameque Agora, porém, haverá um diferencial: Deus começará a separar, desde Sem, um povo santo, zeloso e de boas obras, a fim de que lh e preserve o conhecimento e as leis até que venha Jesus Cristo, o desej ado de todas as nações. A nação de Israel terá inicio com Sem, ancestral de Abraão, amigo de Deus


BENÇAO E MALDIÇAO NA FAMÍLIA DE NOÉ

I . A F A M ÍL IA D E N O É Já estabelecidos nas imediações do Ar arate, N oé e sua família recebem do Senhor a incumbência de repovoar a Terra E , assim, tem início um novo processo civil izatório. Daquele único da, sairão as tribos, nações epovos que, espalhados pelos cinco continentes, hão de originar reinos e impérios. A tarefa será nada fácil. A ruptura cul tural com o mundo de Lameque envidará muito trabalho. Por isso mesmo, os filhos de Noé empenhar-se-ão em recompor as ciências, engenhos e tecnologias de quase vinte séculos. Se algum esforço foi requerido de Adão, de Noé há de ser exigida redobrada pertinácia, para que a nova civil ização finque suas raizes. E m meio a tantos afazeres e preocupações, eis que um incidente na família do patriarca cinde a humanidade ali representada. Tudo começou quando N oé retomou suas lides agrárias.

I I . N O P R IN C ÍP IO , E R A A A G R IC U L T U R A Sem a agricultura, a civilização seria impossível. E o que nos ensina a História Os povos que, hoj e, nos encantam com o seu progresso e desenvolvimento são os que mais se entregaram ao amanho da terra. Gs europeus, norte-americanos e japoneses são um exemplo clássico. O cultivo do so lo exigiu-lhes o domínio da meteorologia, da química, da metalurgia e de outras ciências fronteiriças. Quem lida com a plantação há de necessitar de enxadas erelhas, adubos e previsões do tempo. Concernente aos povos que se limitaram à caça e à col eta vegetariana, j azem tão primitivos quanto há dois mil anos. 1.

Noé> o agricultor. Já fora da arca e j á estabelecido nas

imediações de Sinear, passou Noé a trabalhar a terra, pois não desconhecia os benefícios da agricultura Assim o autor sagrado descreve a fadiga do patriarca: “Sendo Noé lavrador, passou a

Daquele ú n ico clã,


plantar uma vinha” (Gn 9.20). O verbo hebraico n atah não

sairão as tribos, nações e

significa apenas plantar; seu significado tem sérias implicações civilizatórias: estabelecer, edificar econstruir. E m sua essência, pl antar é fazer cul tura. Ciente da importância da agricultura, eis que Noé põe-se a trabalhar a terra E, dessa forma, semeia uma nova civilização

povos que, espalhados pelos cin co continentes, hão de originar reinos e impérios.

que, dentro em pouco, não terá apenas recuperado o que se havia perdido, mas se haverá surpreendentemente Haj a vista o que dirá o próprio Senhor quando da soberba de Babel: “Agora não haverá restrição para tudo que intentam fazer” (Gn 11.6). N oé volta à terra E le planta uma vinha e semeia uma civilização; seus filhos colherão reinos e impérios. 2.

A vinha de Noé. Pelo que depreendo das palavras de Jesus, a uva j á era bastante cultivada no

período pré-diluviano, pois os discípulos de Lameque entregavam-se à comida e à bebida. Vinhas e adegas eram mui encontradiças naquel e tempo. Ninguém desconhecia o poder inebriante do fruto da vide. Juntamente com a vinha, o patriarca constrói uma adega E, com a ciência que trouxera da primeira civilização, põe-se a vinificar suas uvas. Desenvolvendo a enologia, produz a primeira safra de vinho da segunda civilização. D e vinhateiro, faz-se vinicultor. Mas essa sua faina trar-lhe-ia constrangimento e desinteligência ao lar.

III. O B O M E V E L H O V IN H O D E S E M P R E Se por um lado, o vinho é o mais notório símbolo da alegria, por outro, é o emblema mais poderoso da intemperança Quem a ele se entrega, por mais avisado e sábio, acaba comportando-se de maneira inconveniente. Por isso, o rei Salomão alerta-nos a tratá-lo com cuidado e duplicada prudência. Que o exemplo de Noé sirva-nos de alerta. 1. U m hom em piedoso e íntegro. Na História Sagrada, foi Noé considerado um dos três varões mais piedosos de todos os tempos (Ez 1414). Pontificando-se ao lado de Jó e Daniel, não soube, porém, como se comportar diante do vinho. Para comemorar a primeira safra de sua vide, embebedou-se e pôs-se nu na tenda patriarcal (Gn 9.21). Que escândalo! O homem que sobrevivera ao Dilúvio deixava-se, agora, afogar numa taça de vinho. O patriarca, embriagando-se, desveste-se e cai num sono profundo. Sua vinolência chega a tal ponto que o leva a perder a noção do certo e do errado. Por algum tempo, faz-se dissoluto. Por isso, recomenda-nos Paulo: “E não vos embriagueis com vinho, no qual há dissolução, mas enchei-vos do Espírito” (Ef 5.18). 2 . Quando o vinho faz-se irresistivel. Aconselhando Timóteo a selecionar avisadamente os obreiros, Paulo é incisivo: “Que o bispo seja irrepreensível, esposo de uma só mulher, temperante, sóbrio, modesto, hospitaleiro, apto para ensinar; não dado ao vinho, não violento, porém cordato,


inimigo de contendas, não avarento” (1 T m 3,2,3). O Senhor dera a vinha a Noé, mas Noé, imoderando-se, dera-se à vinha, entregando-se ao desprezo doméstico. Se um homem santo e piedoso como o patriarca não se houve com moderação ante o vinho, sej amos precavidos. Doutra forma, corremos o risco de cometer até inimagináveis torpezas (Gn 19.31-38). Quem não pode conter-se, abstenha-se O ideal é agir como os recabitas que, ansiando por agradar a Deus, evitavam o vinho (Jr 35.1-19). O patriarca não ignorava os efeitos da fermentação. Certamente vira ele, no período antediluviano, o que os seguidores de Lameque faziam sob o j ugo da bebida Além de comer imoderadamente, imoderadamente bebiam, dando-se a todos os excessos. Noé, embriagado, caiu num pecado que, sóbrio, condenara 3.

A nudez de Noé. Dando-se ao vinho, Noé embriaga-

se. Perde a noção do certo e do errado. Ignora os limites da ética e do decoro mínimo. Agora, ei-lo irreconhecível em sua tenda. Despe-se e deixa-se vencer pela vinolência A li estava um dos três homens mais piedosos da História Sagrada exposto diante da esposa, filhos, noras e netos. Vej amos como se comportavam Jó e Daniel citados por Ezequiel juntamente com N o é Pelo que nos relata o autor

Noé volta à terra. Ele planta uma vinha e semeia uma civilização; seus filhos colherão reinos e impérios.

sagrado, o patriarca de Uz, ao contrário dos filhos, não se dava ao vinho. Quanto a Daniel, observamos que, de fato, ele não compartilhava do vinho do rei. Mas, particular e reservadamente, bebia o seu vinho. Num momento de ansiedade e interrogações, o profeta abstém-se das iguarias e bebidas: “Manj ar desej ável não comi, nem carne, nem vinho entraram na minha boca, nem me ungi com óleo algum, até que passaram as três semanas inteiras” (Dn 10.3). Dos três varões mais piedosos da História Sagrada, observamos três diferentes posturas: duas louváveis e uma condenável. Jó era abstêmio, e Daniel, moderado. Quanto a Noé, deixou-se dominar pela imoder ação, trazendo escândalo ao lar. Nos países mediterrâneos, onde o vinho fermenta a cultura e o cotidiano das gentes, a bebida é larga e, às vezes, prodigamente consumida até por cristãos professos. Não são poucos os servos de Deus que se permitem embriagar, comprometendo a saúde física e espiritual. Enfermam o corpo e a alm a Nossa piedade resiste ao orgulho, à concupiscência e aos pecados mais grosseiros. Todavia, é incapaz de resistir ao vinho. Na taça, fruto da vide; no estômago, reação química e escândalo. Se imoderados, agiremos soberbamente, dar-nos-emos à lascívia e agiremos como os mais grosseiros e vulgares pecadores. Portanto, moderação e cuidado. Sev ocêd elese absdver, melhor. Embora todas as coisas sej am-nos lícitas, nem todas convém-nos. Afinal, somos a comunidade ética e moral por excel ência.

IV . A IR R E V E R Ê N C IA D E CAM Cam, o filho mais novo de Noé, representou à nova civilização o que Caim, o filho mais velho de


Adão, representara à antiga D e sua pouquíssima história, podemos extrair muita conclusão. Embora salvo do Dilúvio, não conseguira livrar-se dos pecados que ocasionaram a grande inundação. Na primeira oportunidade, sua loucura e irreverência vieram à tona, revelando quem, de fato, era e le Pelo jeito, em nada diferia dos herdeiros espirituais de Lameque Não fora seu pai, teria perecido nas águas da ira divina 1. O desamor. Quem ama não é indecente Mas discreto, lhano, gentil. Se assim devemos portar-nos em relação aos estranhos, o que não faremos concernente aos nossos pais? O filho mais novo de Noé, conforme j á vimos, não se importava com tais questões. Imbuído ainda do espírito da geração que perecera no Dilúvio, estava sempre disposto a caçoar e irreverenciar a todos, ind usive o próprio pai. Ao deparar-se com o pai desnudo na tenda, Cam não se

Na H istória Sagrada, foi Noé considerado um dos três varões mais piedosos de todos os tempos (Ez 14.14).

conteve. Saiu a contar a todos o que presenciara. Chamou a atenção de Sem, Jafé, das cunhadas, filhos e sobrinhos. E le fez questão que todos vissem o homem mais piedoso da Terra numa situação acabrunhante e vergonhosa. Já imaginou se todos dvessem acorrido à porta da tenda do velho patriarca para ver-lhe o opróbrio? Num único momento a humanidade teria se desencaminhado e, por certo, haveria de tornar-se pior do que a geração prédil uviana. C am era desamoroso, debochado e insolente E le caricaturava tudo o que via 2 . A irreverência. N o meio pentecostal, a irreverência não é vista como pecado. Brincamos com os dons espirituais, imitamos as línguas estranhas e, de quando em quando, urdimos algumas profecias e visões. Ao que parece, o único pecado que leva para o inferno é o que diz respeito à castidade Desde que não se adul tere, nem se pros titua, que o deboche sej a 1iberado. A Palavra de Deus, porém, coloca a irreverência no mesmo patamar dos pecados grandes e temíveis. Afirma Paulo que a Lei foi promulgada inclusive para casdgar os irreverentes (1 T m 1.9). O mesmo apóstolo deixa d aro que, nos últimos dias, a falta de respeito surgirá como um dos mais fortes sinais da chegada da apos tas ia final. Por conseguinte, o pecado de C am não era uma simples brincadeira Levando-se em conta que Noé representava a Deus naquele momento, a irreverência camita avultava-se como gravíssima blasfêmia. Por muito menos, o profeta Eliseu amaldiçoou uns garotos (2 Rs 2.23). Narra o autor sagrado que o profeta os desventurou, e, na mesma hora, apareceram duas ursas que despedaçaram 4 2 daqueles meninos. Noutras palavras, o pecado de Cam era tão grave, que poderia ser punido com a morte Sua transgressão constituiu-se na primeira apostasia da segunda civilização.

V. O JU ÍZ O S O B R E CANAÃ Segundo a doutrina da responsabilidade pessoal, os filhos não serão castigados pelas transgressões dos pais, nem os pais serão penalizados pelas iniquidades dos filhos. A sentença divina não isenta o


transgressor nem o iníquo: a alma que pecar esta morrerá. Mas no caso específico de Cam, parece que há uma exceção a essa regra, No encanto, como veremos, a justiça divina foi perfeita no castigo imposto a Canaã, filho de Cam 1. A apostasia de Cam. Conforme j á vimos, tudo começou com a irreverência de Cam que, ao ver a nudez do pai, não somente contemplou-a, mas a expôs a toda a família A reverência fez-se grave apostasia, levando a iniqüidade e o pecado à nova civilização. Mas, mercê de Deus, a transgressão não se generalizou; Pelo contexto da narrativa bíblica, constatamos que Canaã, filho de Cam, não somente caiu no mesmo erro do pai, como veio a superá-lo. Portanto, Noé não foi respeitado nem pelo filho, nem pelo neto; ambos fizeramse igualmente réprobos. Quanto aos outros filhos de Cam, não tomaram parte naquele pecado. Por isso, não foram penal izados. 2. A sedição de Canaã. O que era irreverência em Cam fez-se apostasia e sedição em Canaã. Não faltou muito para que a segunda civilização, ainda no nascedouro, viesse a se corromper. Se lermos os capítulos 10 e 11 de Gênesis com atenção e cuidado, verificaremos que a rebelião de Canaã não se deteve com a reprimenda de Noé. Mais adiante, constataremos que ela foi crescendo até alcançar todos os caimitas, num primeiro momento, e, num segundo, as demais famílias de N oé E, assim, os filhos do patriarca irmanaram-se contra o Senhor, no episódio da Torre de Babel. Por isso, a j ustiça divina recaiu pesadamente sobre Canaã e seus descendentes. 3. A maldição de Canaã. Entre as mitologias hermenêuticas, há uma que vem causando mal-estar devido à sua conotação racista Há gente que ainda acha que a maldição que Deus impôs a Cam foi a cor que, hoje, caracteriza os povos subsaarianos. Na verdade, o Senhor não castigou todos os camitas, mas apenas Canaã que, ao contrário de seus irmãos e primos, pôs-se a debochar da nudez do avô. Sua maldição consistiunaperda de suas terras aos filhos de Abraão, o mais ilustre representante de Sem depois de Jesus Cristo. Eis o que decreta Noé: “Maldito seja Canaã," seja servo dos servos a seus irmãos. E aj untou; Bendito sej a o SENHOR, Deus de Sem,- e Canaã lhe sej a servo. Engrandeça Deus a Jafé, e habite ele nas tendas de Sem,- e Canaã lhe sej a servo” (Gn 9.25-27). Os descendentes de Canaã vieram a habitar as terras que, hoj e, pertencem ao Estado de Israel. Ali, começaram a deteriorar-se de tal maneira, que o seu modo de vida passou a ser sinônimo de pecado e abominação. A sociedade cananeia tornou-se irrecuperável,- depravara-se essencial e totalmente Não havia entre os descendentes de Canaã pensadores, filósofos ou sábios, mas sacerdotes ávidos por sacrifícios infantis. Por essemotivo, o Senhor removeu, daquelas terras boas e amplas, os descendentes de Canaã, até que viessem a desaparecer como nação. Se do Senhor é a Terra e a sua plenitude, conclui-se que E le a dá a quem lhe aprouver, e, dela, desaloj a os povos segundo o seu querer e j ustiça Por isso, houve por bem desaloj ar os cananeus daquela boa terra, para dar-lha aos hebreus. Não somente a História, mas a própria Geografia, acham-se sob o absoluto controle de Deus. Eis porque o Senhor entrega o território cananeu a Israel. Aquelas terras, portanto, são propriedade dos filhos de Abraão.


V L O D E S T IN O D O S C A M ITA S Se Deus o quisesse, poderia ter amaldiçoado todos os das provenientes do caçula de N oé Mas, castigando Cam, amaldiçoou a seu filho, Canaã, que, à sua semdhança, era também irreverente, debochado e sedidoso. Quanto aos outros filhos de Cam, imigraram à África, ao Oriente Médio e, segundo é-nos possível depreender 1 inguisticamente, até mesmo ao Extremo Oriente, 1. O s camitas da Africa. Segundo a genealogia de Gênesis 10, estes são os filhos de C am Cuxe, Mizraim, Pute e Canaã Os três primdros, já em solo africano, dão origem a poderosos reinos e impérios. D e Cuxe, veio a Etiópia, cuj o poderio militar amedrontava povos e nações. \£tmos encontrá-los no Novo Testamento, na figura daqude ofidal de Candace, rainha dos etíopes. Mizraim foi o pai dos egípcios que, na História Sagrada, detinha a hegemonia na região do Oriente Médio. Quanto a Pute, é o patriarca que deu origem à Líbia que, nos tempos bíblicos, era uma potênda não desprezívd. Canaã, o caçula de Cam, seguiu o caminho do pai. E, hoj e, j á não há indídos de sua civilização, a não ser as informações da B íblia Sagrada 2 . O s camitas da Africa e os hebreus. Foi numa nação camita que os filhos de Israd abrigaram-se até que tivessem condições de assumir o controle das terras que o Senhor prometera a Abraão. N o Egito, os hebreus peregrinaram por 43 0 anos. D e inído, o rdadonamento entre semitas e camitas, em solo egípcio, foi amistoso e mui produtivo. José, filho de Jacó, assumiu o governo egípdo e, dessa forma, preservou a progênie hebrda num momento de dificuldade e fome. Passados quatro séculos, porém, ds que um Faraó, que não conheda a José, passou a oprimir os hebreus. Sua intenção era destruir a nação que, embora escolhida por Deus, ainda não havia assumido a sua identidade profética e sacerdotal. Por essa razão, interveio o Senhor com mão poderosa, a fim de arrancar Israel do Egito. Na verdade, o Senhor castigou severamente o Egito, mas não o destruiu, porque rinha, e ainda tem, grandes promessas a

O s descendentes de Canaã vieram a habitar as terras que, hoje, pertencem ao Estado de Israel.

essa nação camita Os israditas, por exemplo, eram exortados a não maltratar os egípdos, pois em sua terra peregrinaram (D t 23.7). Nos últimos dias, o Egito terá um lugar espedal no plano divino, e estará relacionado estrdtamente com o povo de Israd (Is 19.21-25). O interessante é que Israd abrigou-se entre um povo camita até que tivesse condições de apossar-se do território de outro camita que, segundo a promessa divina, cabia-lhe como hebrança Mas qual a diferença entre o Egito e Canaã Os cananeus, devido á sua deplorávd idolatria, jamais produziram moralistas ou reformadores sociais, ao passo que entre os egípcios, os sábios eram comuns, conforme observamos nesta passagem do livro dos Reis: “Era a sabedoria de Salomão maior do que a de todos os do Oriente e do que toda a sabedoria dos egípdos” (1 Rs 4.30). Vê-se, pois, que o saber dos egícpios era proverbial e lendário. Quanto aos cananeus, eram ddos como grandes pecadores. Haja vista que os sodomitas egomorritas provinham de clãs cananeus.


CO NCLUSÃ O Sem e Jafé, ao contrário de Cam, não escarneceram da embriaguez de N oé Mas, reverentemente, cobriram a nudez do pai, impedindo que o incidente levasse a sua família a um escândalo ainda maior. Se agirmos assim, evitaremos falatórios,

Nos últimos dias, o Egito terá um lugar especial

maledicências e sedições na família de Deus. Por isso, foram

n o plano divino, e estará

eles abençoados de uma forma peculiar. O primeiro tornou-se

relacionado estreitamente

num dos principais ascendentes legais de Jesus Cristo. Quanto a Jafé, pai dos europeus, ajudou a propagar a mensagem do Evangelho até aos confins da Terra.

com o povo de Israel (Is 19.21-25).

Portanto, não exponhamos as faltas de nossos irmãos. Mas, discreta e amorosamente, ajudamo-los a se reerguerem Afinal, todos podemos cair em muitas fali e tentações. Se quisermos, pois, ser tratados com amor e consideração, usemos de iguais medidas.


A DIVERSIDADE CULTURAL DA HUMANIDADE

IN TR O D U Ç Ã O Só no Brasil, são falados, além do português, 187 idiomas. Alguns, por 11 pessoas; outros, por apenas duas. Tais números tendem a crescer se levarmos em conta as etnias ainda não contatadas. Num único pais, j á temos uma formidável Babel. No mundo todo, segundo a Enciclopédia Eàinologue, há 6.912 línguas e dialetos. A mesma fonte acrescenta que, nas regiões da Ásia e do Pacífico, há mais de 300 unidades línguisticas ainda não catalogadas. Boa parte desses idiomas terá uma existência bastante efêmera. Alguns não demorarão a ser extintos; outros, sufocados, perderão a identidade Qual a origem da diversidade línguísdca e cultural da humanidade’ Em Gênesis, Moisés narra como a civilização, a princípio monolínguista e monocultural, veio a dividir-se em idiomas, dialetos e falares. Multiplicando-se alíngua, subdividiu-se a cultura dos filhos deNoé.

I . A A P O ST A S IA D E CAM E A SE D IÇ Ã O D E CANAÃ No capítulo anterior, vimos como a família de Noé acabou por dividir-se por causa da irreverência de C am A primeira vista, o fato mais parecia uma comédia de mau gosto. Aquele deboche, porém, viria a revelar o pecado que reinava no coração de Cam e j á imperava na alma de Canaã, seu filho. O que era apostasia pessoal desdobra-se, agora, numa sedição col etiva I.

A sedição de Canaã. Em toda a narrativa bíblica, devemos observar não somente o que diz o

autor sagrado como também o que ele deixou de dizer. Alentemos à sedição de Canaã que, embora não declarada, foi ganhando corpo ao longo da História Sagrada. A partir do ignominioso episódio da embriaguês de Noé, pôs-se Canaã a aliciar a sua geração, levando-a a rejeitar a cultura divina que o patriarca bus cava implantar na nova civilização. A semelhança de Lameque, Canaã leva a segunda civilização a revoltar-se contra Deus. Sua influência foi tão poderosa que, em pouco tempo, induz a todos à incredulidade, à desobediência, à


arrogância e ao ateísmo. 2. A incredulidade generaliza-se. Deus havia garantido àquela gente que não mais destruiria a terra através de um novo dilúvio. Iniciada alguma chuva, erguiam-se de imediato as cores de sua aliança, arquej ando os hemisférios. Logo, qual a utilidade de uma corre, cuj o topo arranhasse o céu7 Cidades e corres seriam construídas aos milhares desde então. Todavia, os discípulos de Canaã não intentavam erguer uma cidade, ou uma simples corre; porfiavam por um monumenco contra Deus. Nessa metrópole, cuj o epicentro seria pontificado por um zigurace, haveriam de se apinhar, impedindo o repovoamento e a lavratura do planeta. Aquela geração não mais confiava em Deus. Seduzida já por Canaã, é comada por um pavor mórbido de outra inundação. E, receando ser espalhada, rej eita coletivamente os desígnios que o Senhor lhereservara. Juntos, supunham-semui seguros; dispersos, imaginavam-se insulados, fracos evulneráveis. Era plano de Deus que os varões, deixando a casa paterna, constituíssem novas famílias. D esdobrar-se-iam estas em tribos, nações e povos. Todavia, isso somente seria possível se as novas unidades domésticas se propusessem a ocupar os continentes e ilhas. O Senhor buscava pioneiros e empreendedores. Logo, não há civilizações sem desafios e aventuras. 3. A desobediência espalha-se. Canaã possuía um exeel ente marketing. Sabia mentir, e tanco mentiu, que a sua mentira veio a fazer-se verdade aos ouvidos rebeldes. Dentro em pouco, ninguém mais ousava aventurar-se por terras estranhas, a fim de iniciar uma nova tribo, nação ou povo. O pecado daquela geração até que não parecia grave Se codos buscam concentrar-se num só lugar, que mal pode haver nisso? Num primeiro momenco, nenhum Todavia, tal postura quebrantava o mandamenco que o Senhor confiara a Adão, e, depois, a Noé. Talvez os filhos de Sem, Jafé e Cam ainda não soubessem que a confinação poderia ser-lhes fatal. A concentração urbana gera licendosidade, violência, inj usriça social e tirania 4 . Arrogância virulenta. No início da segunda civilização, apenas dois eram os desobedientes e revol Cosos. Mas a apostasia de Cam e a sedição de Canaã não demoraram a espalhar-se entre os filhos de Sem e Jafé O problema, agora, não era mais a violência, nem a promiscuidade sexual; era algo pior: o orgulho. Os descendentes de Noé construiriam uma corre, visando uma única coisa a perpetuação de seu nome Por isso, desabrem-se arrogantemente ‘Vinde, edifiquemos para nós uma cidade e uma corre cuj o Cope chegue até aos céus e tornemos célebre o nosso nome, para que não sej amos espalhados por toda a terra” (Gn 11.4). A soberba adora monumentos. Faraó ergueu as pirâmides. Nabucodonosor, os j ardins suspensos. Nero, a nova Roma. Quanco aos governantes atuais, constroem grandes edifícios, mas são incapazes de estender, aos mais pobres, serviços tão básicos e mínimos como redes de água e esgoco. O soberbo pode não se preocupar com a sua descendência, mas faz questão de erguer pelo menos um monumenco. Haj a vista Absalão, filho de Davi (2 Sm 18.18). Não sei a que altura Babel alcançou. De uma coisa, porém, es cou certo: não era maior do que o ego daquela geração que se punha contra o Senhor. 5. A teism o, a nova religião. Tomados j á pela soberba, os descendentes de Noé punham-se, agora,


aberta e declaradamente contra Deus. Rej citando o governo divino, optavam por uma governança humana. Não lhes interessava mais o Reino do Céu, mas o império da Terra. Fizeram-se ateus não por que desacreditassem do Criador, mas por se voltarem à criatura

I I . A C IV ILIZ A Ç Ã O M O N O LIN G U ISTA Já imaginou se toda a humanidade falasse alemão no período da Segunda Guerra Mundial? Providencial mente, havia muita gente, no século passado, pensando contrariamente a Hider noutros idiomas e dialetos. Assim, puderam os homens livres congregar-se, a fim de preservar as conquistas da civilização. 1. Vantagens do m onolinguism o. Quando viaj o aos Estados Unidos sinto-me um pouco frustrado: “Por que todo

Em toda a narrativa

mundo fala inglês, menos eu”. Aliás, até os alienígenas dominam o bendito idioma de Shakespeare Nos filmes de

bíblica, devemos observar

ficção cientifica, os exploradores americanos deixam a galáxia,

não somente o que diz o

não se assustam com os buracos de minhoca, ignoram os vórtices temporais, e, no outro lado do Universo, a centenas de anos luz

da Terra,

encontram um alienígena que fala

perfeitamente o inglês. Quanto a mim, tenho de contentar-me

autor sagrado como também o que ele deixou de dizer.

com uma comunicação monossilábica com os falantes da língua inglesa Já imaginou se todos falassem um único idioma? Não precisaríamos de interpretes, nem de tradutores para falar de Cristo aos alemães, chineses e belgas. Inexistindo barreiras idiomáticas, sentirnos-íamos mais irmanados. A comunicação com os africanos e asiáticos fluiria como flu em os rios que cortam ambos os continentes. O conhecimento poderia ser transmitido com eficácia sem os perigos que representam as traduções apressadas e temerárias. Mas Deus, a fim de preservar a espécie humana, achou por bem confundir-nos a língua, para que o caos não fosse maior. 2. Desvantagens do m onolinguism o. Canaã não precisou de muito para induzir a nascente civilização à apostasia Já que todos falavam a mesma língua e moravam num só lugar, compartilhando iguais costumes, foi-lhe relativamente fácil desviar os filhos de Sem e Jafé A ordem divina era que, espalhando-se todos, viessem a ocupar toda a terra Canaã, porém, queria aj untar a todos em torno de uma torre, símbolo de sua tirania O que ele pretendia, na verdade, era instaurar uma ordem mundial, cuj a essência era o ateísmo. Ninguém podia negar a existência de Deus, pois a presença divina era ainda bem forte nos resquícios da arca e nos testemunhos de Sem e Jafé Talvez o próprio Noé ainda vivesse quando do episódio de Babel. Se não podiam negar—lh e a existência, contra El e col ocar am-se aber tamente.


3.

O idioma dos antigos. Ao contrário do que muita

gente imagina, o idioma de Adão e Eva não era o hebraico. Aliás, a língua oficial de Israel nem existia quando N oé saiu da arca Segundo depreendo do texto sagrado, nem o próprio Abraão falava a língua hebreia. Sendo o patriarca arameu, é de se supor que, ao deixar a sua terra, falava ele o mais puro aramaico (D t 26.5). Mas, no decorrer do tempo, seus

O soberbo pode n ão se preocupar com a sua descendência, mas faz questão de erguer pelo

descendentes foram paulatinamente modificando o idioma de Ur, até que, no cativeiro egício, deu-se a formação do hebraico

menos um monumento.

como hoj e conhecemos. O primeiro idioma humano foi um presente divino. Nos diálogos que o Senhor mantinha com Adão, na viração daqueles dias e noites, foi o homem aprendendo como se expressar. Primeiro deu ele nome aos animais; depois, à sua mulher. D ali em diante, não lh e foi difícil narrar suas experiências e expressar-se em proposições teológicas. N o episódio da queda, o homem já possuía um vocabulário suficiente até para desculpar-se diante do Senhor. D o primeiro idioma humano, devemos ter apenas alguns indícios raros ebem longínquos. Que era perfeito eb e lo , não há dúvida, pois Adão e seus filhos não proseavam; expressavam--se em poesia Num poema, Adão recebeu Eva, sua mulher. Eva, em versos, abraçou o primogênito como dádiva de Deus. Metrificando sua irritação, Caim demonstra todo o seu ódio contra Abel. A 1inguagem humana era 1 inda e perfeita até mesmo na boca assassina de Lameque. Mas o que era poético estava prestes a tornar-se prosaico e corriqueiro em decorrência da soberba dos filhos de Noé.

III. A C O N STR U Ç Ã O D E B A B E L Até hoje, o Burj Khalifa é o edifício mais alto do mundo. Localizado em Dubai e medindo 828 metros de altura, o prédio é o símbolo da moderna engenharia. Conhecido como a Torre do Califa, o prédio assoberba-se num dos centros mais valorizados do mundo. Não acredito que a torre de Babel chegasse a essas alturas, pois os arquitetos da época, apesar de sua audácia e perícia, ainda não possuíam recursos técnicos e materiais para uma construção tão arroj ada Todavia, Babel era alta o bastante para provocar a ira de Deus. I.

A engenharia pós-diluviana. Qual a altura da atmosfera terrestre? O que sabemos é que o

oxigênio só começa a ficar respirável abaixo de 11 quilômetros. Deduz-se, pois, que ninguém haveria de vislumbrar um edifício de 11 mil metros de altura. Os antigos também sabiam disso, pois eram inteligentes, argutos e cautos. Doutra forma, j amais teriam descoberto novos continentes, povoado a terra e dominado tantas ciências e artes. Aliás, eram eles mais inteligentes que nós. Se hoje, sabemos mais do que eles, é porque olhamos o mundo a partir de seus ombros. Se eles eram tão inteligentes, por que ousaram descrever uma torre, cujo topo alcançasse os céus? Eis o que eles disseram “Vinde, edifiquemos para nós uma cidade e uma torre cuj o tope chegue até aos


céus e tornemos célebre o nosso nome, para que não sejamos espalhados por toda a terra” (Gn 11.4). Acaso não sabiam das impossibilidades técnicas de se construir um edifício de cinco, seis ou 10 mil metros de altura? E d aro que sabiam Nós também o sabemos. Entretanto, quando erguemos um prédio alto e avantaj ado, chamamo-lo de arranha-céu. Aquela gente não era estúpida nem tola, como o próprio Deus reconhece: “Isto é apenas o começo; agora não haverá restrição para tudo que intmtam fazer” (Gn 11.6). A humanidade é capaz inclusive de fazer o seu ninho entre as letras. 2 . U m a cidade à prova d’água. Em linhas gerais, este era o proj eto arquitetônico dos filhos e netos de N oé “Vinde, façamos tijolos e qudmemo-los bem Os tijolos serviram-lhes de pedra, e o betume, de argamassa. Disseram Vinde, edifiquemos para nós uma cidade e uma torre cuj o tope chegue até aos céus e tornemos célebre o nosso nome, para que não sej amos espalhados por toda a terra” (Gn 11.3,4). A metrópole seria edificada com rij olos bem queimados e amarrados, entre si, por uma argamassa de betume. O que eles buscavam era uma ddade à prova d’água Se houvesse outro dil úvio, estar iam d es a salvo naquele centro urbano. E , caso este viesse a ser inundado, correriam todos à torre, onde, segundo imaginavam, estariam a salvo. Todo esse complexo era alicerçado por uma filosofia deletéria e antagônica a Deus: concentrar a todos num só lugar, substituir a religião divina por um culto antropocêntrico e favorecer a ascensão do império do Anticristo. O Senhor Jesus ainda não havia nasddo, mas já havia uma forte oposição à sua presença entre os filhos dos homens. Parece que a nova geração desconhecia os efeitos do Dilúvio. Se o Senhor quisesse destruir a terra através de outra inundação, ninguém haveria de segurar o ímpeto de suas águas. 3 . O primeiro idolo humano. Até este momento, ainda não se tinha notída de ídolos de barro, de pedra ou de metais. O ídolo do homem era o próprio homem Mas eis que o ser humano ergue o seu primdro deus. A torre que serviria para confinar os filhos de Noé haveria de conduzi-los a uma

O primeiro idioma humano foi um presente

virulenta idolatria Dessa forma, a sedição de Canaã seria mais

divino.

deletéria que a de Lameque Se isso ocorresse, não haveria mais um j usto como Noé para assegurar, diante de Deus, a continuidade da espéde humana A engenharia está intimamente associada à idolatria. Torres, zigurates, pirâmides e templos, tanto ontem quanto hoje, têm levado os homens a materializar o seu orgulho e soberba Aliás, até o Santo Templo vdo a fazer-se armadilha a Israd (Jr 7.4). Por isso mesmo, Deus não habita em templos fdtos por mãos humanas, mas escolhe um coração humilhado e contrito para ai residir (At 17.24; Is 57.15).

IV . A P R O N T A IN T E R V E N Ç Ã O D E D E U S Não sabemos em que ponto da empreitada de Babd intervdo o Senhor. Talvez seus alicerces j á


houvessem sido lançados. Ou, quem sabe, os dj olos já começassem a ganhar os contornos de uma torre. O certo é que é o Senhor, intervindo a tempo, evitou que a segunda civilização experimentasse o mesmo destino da segunda 1. A torre que Deus não viu. Narra o autor sagrado que o Senhor “desceu para ver a cidade e a torre, que os filhos dos homens edificavam” (Gn 11.5). Nesta passagem, há uma ironia fina e quase imperceptível. Apesar de os descendentes de Noé estarem construindo um arranha-céu, Deus precisou descer para vê-lo. Assim são os nossos projetos. Aos nossos olhos, tão altos e sublimes; aos de Deus, pequenos e desprezíveis. Desde então, os homens pouco aprenderam, pois imaginam que seus monumentos são capazes de lh e garantir a vida eterna O que dizer das pirâmides? Conta-se que Napoleão, ao contemplá-las teria declarado às suas tropas: “Soldados, do alto daquelas pirâmides quarenta séculos vos contemplam”. Ainda que se avultem perenes, não subsistirão para sempre. U m dia serão apenas pó e cinza Pobre B abel! Mais que uma torre, um símbolo da rebel dia humana contra o Senhor. 2 . A confusão que trouxe ordem. Já resolvido a paralisar a construção da torre, decreta o Senhor: “Eis que o povo é um, e todos têm a mesma linguagem Isto é apenas o começo; agora não haverá restrição para tudo que intentam fazer. Vinde, desçamos econfundamos ali a sua linguagem, para que um não entenda a 1 inguagem de outro” (Gn 11.6,7). Dessa forma, foram aqueles clãs dispersos por toda a terra. Agrupando-se de acordo com a sua identidade lingüística,

O íd olo do homem era o próprio homem. Mas eis que o ser humano ergue o seu primeiro deus.

parte dos camitas deteve-se nas terras que o Senhor daria a Israel; a maior parte deles, todavia, foi parar na África Os semitas espalharam se pela As ia Quanto aos j afetistas, encetaram uma grande caminhada em direção à Europa. N o decorrer dos séculos, esses clãs, forçados por êxodos e imigrações, ch iaram às ilhas mais distantes e ao Artico. A diversidade lingüística acentuaria não só o distanciamento geográfico entre os clãs, mas também o cultural. Nem a globalização foi capaz de eliminar tais compartimentos. N o Evangelho de Cristo, porém, irmanamo-nos, transcendendo barreiras linguisticas e culturais. 3 . Removido o perigo de extinção. Se a humanidade fosse confinada em Sinear, falando todos uma só língua, em torno de um único líder, acredito que a linhagem adâmica j á teria desaparecido. Nossa reserva genética acabaria por estreitar-se de tal forma que, em poucas gerações, nos levaria à extinção. Deus é sábio em todos os seus caminhos. A ordem de povoar a Terra, inicialmente dada a Adão, e, depois, confiada a Noé, tinha como obj etivo guardar a humanidade de si mesma. A concentração urbana vem mostrando-se uma tragédia. Nesses conglomerados, multiplicam-se as enfermidades, conflitos e males espirituais. Em caso de catástrofes, as conseqüências ganham contornos apocalípticos.


CO N CLUSÃO A humanidade, com a dispersão de Babel, veio a ocupar, progressivamente, os mais distantes continentes e as ilhas mais desconhecidas. Desde então, idiomas e dialetos vêm-se multiplicando. Línguas nascem e morrem,- culturas sedimentam-se; erguem-se fronteiras e derrubam-se fronteiras. Não obstante toda essa diversidade, o Evangelho de Cristo vai chegando até aos confins da Terra A confusão que o Senhor incitou em Babel foi, miraculosamente, desfeita no Pentecostes, visando a universalização do Evangelho. Ao narrar a descida do Espirito Santo no Pentecostes, escreve Lucas: “Todos ficaram cheios do Espirito Santo e passaram a falar em outras línguas, segundo o Espirito lhes concedia que falassem Ora, estavam habitando em Jerusalém j udeus, homens piedosos, vindos de todas as nações debaixo do céu. Quando, pois, se fez ouvir aquela voz, afluiu a multidão, que se possuiu de perplexidade, porquanto cada um os ouvia falar na sua própria língua Estavam, pois, atônitos e se admiravam, dizendo: Vede! Não são, porventura, galileus todos esses que aí estão falando? E como os ouvimos falar, cada um em nossa própria língua materna7” (At 2.4-8). O Evangelho é a mensagem por excelência. Todos podem compreendê-lo e, plenamente, aceitá-lo. Em C r is tn, as famílias de Sem, Jafé e Cam fazem-se irmãs; a comunhão é plena.


MELQUISEDEQUE ABENÇOA ABRAÃO

IN TR O D U Ç Ã O Se a história de Melquisedeque é pequena, sua teologia surpreende-nos pela grandeza e profundidade O autor sagrado não precisou de muitas palavras, para apresentar-nos a um dos maiores personagens da História Sagrada C om menos de 60 vocábulos, introduz-nos na antiga Salém, onde o rei de j ustiça e paz desempenhava um ministério eterno. De Melquisedeque, não temos muitas informações. Sabemos apenas que era um homem santo que exercia, plenamente, as três funções do ofício divino: rei, sacerdote e profeta. Enfim, um tipo perfeito de Jesus Cristo. Neste capitulo, veremos como se deu o encontro de Melquisedeque com Abraão. Ali, na futura Jerusalém, o patriarca, que ainda se chamava Abrão, é recepcionado por um monarca, cuja autoridade espiritual era irresistível. Sim, j ustamente ali, na presença de Bera, rei de Sodoma, o pai da nação hebreia é abençoado. Em sua bênção, todos os que cremos fomos contemplados. A partir dai, o sacerdócio de Melquisedeque seria invocado, pela Escritura Sagrada, como o ideal de uma intercessão eficaz, plena e eterna. Tão sublime era o sacerdócio de Salém, que o próprio Cristo viria a exercê-lo em sua vida, morte e ressurreição. Acompanhemos, pois, esse maravilhoso capitulo da História Sagrada. Detenhamo-nos na antiga Jerusalém, e desfrutemos das bênçãos que o Pai Celeste, por meio do Filho Amado, reservou-nos.

I . U M A H IST Ó R IA SEM B IO G R A F IA Com o biografar Melquisedeque? Apesar de sua grandeza teológica, quase nada temos acerca dele. Na verdade, é uma história sem biografia. No entanto, sem esse misterioso personagem, as crônicas de nossaredenção estariam incompletas. I.

Narrativa pequena, teologia grande. De forma admirável, o autor de Gênesis sumaria a história

de Melquisedeque em apenas três versículos: “Melquisedeque, rei de Salém, trouxe pão e vinho; era sacerdote do Deus Altíssimo; abençoou ele a Abrão e disse: Bendito seja Abrão pelo Deus Altíssimo,


que possui os céus e a terra,- e bendito sej a o Deus Al tíssimo, que entregou os teus adversários nas tuas mãos. E de tudo lhe deu Abrào o dízimo” (Gn 14.18-20). Em menos de 60 palavras, Moisés narra um dos capítulos mais gloriosos da Bíblia Sagrada Na verdade, é uma história sem biografia, pois de Melquisedeque não temos afiliação, nem a naturalidade A Bíblia não lhe declina o nome dos pais, nem lhe revela a cidade de origem Sabemos apenas qu eeleera rei, sacerdote e profeta Num texto j ornalístico, não teríamos condições de responder, a contento, a estas perguntas: Quem7 Quando? Onde? Como? E por quê? Não obstante, somos incapazes de mesurar-lhe a grandeza teol ógica. Excetuando o Senhor Jesus Cristo, nenhum outro personagem da História Sagrada logrou exercer os três ofícios sagrados. Aliás, nem o próprio Moisés que, entre os profetas, foi o maior, galgou semelhante honra Embora falasse face a face com o Senhor, o sacerdócio não lhe foi atribuído; caberia a seu irmão exercê-lo. Arão, porém, não foi rei, nem profeta Quanto a Davi, foi rei e profeta; sacerdote, não. Melquisedeque, todavia, foi rei, sacerdote e profeta Mesmo assim, sua biografia, de tão exígua, não pode ao menos ser considerada como tal. Sua teologia, contudo, é tão grande que serviu para tipificar o Messias (SI 110.4). 2. R e i de Salém. Devido à sua importância estratégica, Salém era a cidade mais importante e cobiçável do Oriente Médio. Soldados e comerciantes eram obrigados a transitar por seus termos, quer em suas viagens ao Oriente, quer em suas andanças ao Ocidente. E, dessa forma, refaziam-se na cidade de Melquisedeque. Ali, detinhamse a ouvir o rei-sacerdote. Ninguém podia igualar-se-lhe à estatura intelectual e teológica Sem dúvida, o homem mais sábio daquele tempo. Até os reis vinham prestar-lhe vênia Nesse sentido, era Melquisedeque o rei dos reis daquela região. Conquanto não possuísse exército, sua autoridade moral e espiritual j amais era contestada. Aliás, Salém nem precisava de força armada, porque era a capital da paz; em seus termos imperava a j ustiça divina. 3. Sacerdote do Altíssim o. A autoridade de Melquisedeque não residia propriamente em sua realeza; fundamentava-se no ofício que exercia Todos sabiam que, ali, na principal cidade da região, achava-se um homem de Deus. Por seu intermédio, os peregrinos consultavam o Eterno. Até Abraão foi à sua procura, pois sabia que, espiritualmente, havia alguém superior a si. Em que consistia o sacerdócio de Melquisedeque? Não resta dúvida de que era diferente do levítico. Este sobressaía-se pelas oferendas cruentas; aquele tinha como essência o sacrifício único e suficiente de Jesus que, na presciência divina, j azia vicariamente morto desde a fundação do mundo (Ap 13.8). Não podemos descartar, porém, a imolaçào de animais, porque, desde Abel, cordeiros e novilhos eram oferecidos ao Senhor, prefigurando a morte do Unigênito. Na Epístola aos Hebreus, encontramos uma preciosa descrição do sacerdócio de Melquisedeque: “Porque este Melquisedeque, rei de Salém, sacerdote do Deus Al tíssimo, que saiu ao encontro de Abraão, quando voltava da matança dos reis, e o abençoou, para o qual também Abraão separou o dízimo de tudo (primeiramente se interpreta rei de j ustiça, depois também é rei de Salém, ou sej a, rei de paz; sem pai, sem


mãe, sem genealogia,' que não teve princípio de dias, nem fim de existência, entretanto, feito semelhante ao Filho de Deus), permanece sacerdote perpetuamente Considerai, pois, como era grande esse a quem Abraão, o patriarca, pagou o dízimo tirado dos melhores despojos” (Hb 7.1-4)- Tao superior era o sacerdócio de M el quis edeque, que até mesmo a tribo de Levi, que se achava nos lombos de Abraão, pagou-lhe os dízimos através do patriarca; “Ora, os que dentre os filhos de Levi recebem o sacerdócio têm mandamento de recolher, de acordo com a lei, os dízimos do povo, ou seja, dos seus irmãos, embora tenham estes descendido de Abraão; entretanto, aquele cuja genealogia não se inclui entre eles recebeu dízimos de Abraão e abençoou o que tinha as promessas” (Hb 7.5-6). 4 . Profeta do Senhor. Apregoando o conhecimento divino,

Mel quis edeque

precedeu

Abraão

no

ministério

profético que, doravante, seria exercido pela nação hebreia. O rei de Salém preparou o caminho do patriarca, a fim de que este viesse a lançar as bases espirituais, morais e éticas do povo de Israel. A teologia de Abraão era mel quis edequiana. Antes e depois de Levi, faz-se presente na História da Salvação. Sem Mel quis edeque, o ministério de Abraão seria

Em menos de 60 palavras, M oisés narra um dos capítulos mais gloriosos da B íb lia Sagrada.

impossível. Foi como profeta que o rei de Salém abençoou o patriarca; “Bendito seja Abrão pelo Deus Altíssimo, que possui os céus e a terra; e bendito sej a o Deus Altíssimo, que entregou os teus adversários nas tuas mãos” (Gn 19,20). A primeira vista, a bênção parece um enunciado sacerdotal. No entanto, temos aqui também uma alocução profética; realça a importância messiânica de Abraão. Mel quis edeque faz parte da comunidade profética que Deus mantinha antes e fora de Israel. Entre esses homens ilustres, temos Jó, Eliú, Jetro e os sábios que visitaram o menino Jesus. Embora não fossem israelitas, trabalharam para que a missão de Israel tivesse êxito. Balaão também fazia parte dessa comunidade Infelizmente, o filho de Beor deixou-se enganar pelas riquezas de Balaque, vindo a perecer ao fio da espada (Nm 31.8). 5. Melquisedeque, agenealogatos. Melquisedeque era um homem de Deus, mas não era divino. Embora sej a descrito como não tendo pai, nem mãe, nem genealogia, era tão humano quanto Abraão, O que o autor sagrado quis destacar é que, devido à sua importância, sua filiação e naturalidade fizeram-se prescindíveis. E le não precisou de uma biografia para fazer história; sua atuação foi suficiente. Se Abraão precisava de uma genealogia que o remetesse a Noé e a Adão, não carecia Mel quis edeque de um registro que o ligasse a um ancestral ilustre O triplo ministério reportava-o, de imediato, ao Filho de Deus; seu ofício era eterno, como eterno é Jesus Cristo. Melquisedeque era um sacerdócio messiânico. Melquisedeque não era divino, mas como homem de Deus era singular. Não era eterno, mas transcendeu o tempo. Sacerdote, foi honrado como rei pelo amigo de Deus. Enfim, era ele um profeta, rei e sacerdote em sua plenitude


II. A B R A Ã O , O G EN TIO Quando Deus intimou a Abraão a sair de Ur dos cal deus, era o patriarca tão gentio quanto eu e você Sem dúvida, foi o primeiro não israelita a converter-se formal e historicamente A partir dai, Deus o separa a uma tarefa, que haveria de mudar o perfil teológico, moral e ético do mundo. Sem ele, o Cristianismo seria impossível. 1. Abraão, filho de Noé. Em Ur dos cal deus, o gentio Abrão, que mais tarde entrará para a História Sagrada como Abraão, era um ben N oah. U m filho de Noé, como qualquer outro oriental. Oriundo da linhagem de Sem, j á era agraciado por duas bem-aventuranças. Através de Noé, desfrutava dos favores da aliança que levou o Senhor a salvar o segundo patriarca universal das águas do Dilúvio (Gn 6.18). E, por meio de Sem, detinha o concerto messiânico (Gn 9.26). Quando de seu chamamento, Abraão não passava de um arameu atribulado e sem muitas perspectivas. Pelo menos, assim professavam os israelitas, no Sinai, em sua peregrinação à Terra de Promissões: ‘Arameu prestes a perecer foi meu pai, e desceu para o Egito, e ali viveu como estrangeiro com pouca gente; e ali veio a ser nação grande, forte e numerosa” (Dt 26.5). Mas, ali, em meio à idolatria que j á ameaçava a integridade da grande e diversificada família semita, ouve Abraão a chamada do Senhor: “Sai da tua terra, da tua parentela e da casa de teu pai e vai para a terra que te mostrarei; de ti farei uma grande nação, e te abençoarei, e te engrandecerei o nome. Sê tu uma bênção! Abençoarei os que te abençoarem e amaldiçoarei os que te amaldiçoarem; em d serão benditas todas as famílias da terra” (Gn 12.1-3). 2. Abraão, cidadão de U r dos caldeus. Ur era uma das ddades-estado mais avançadas do Oriente Médio. Localizada na antiga Suméria, ficava nas cercanias da atual Tell el-Muqayyar, na provínda iraquiana de Dhi Qar. E, plantada na foz do rio Eufrates, deveria ser deslumbrante e sedutora Se levarmos em conta a possível etimologia de seu nome, Ur era a ddade-1 uz de seu tempo. Uma Paris do Oriente. Nanna era a padrodra de Ur. Adorada como a deusa lunar, começava a subjugar até mesmo os descendentes de Sem, o füho mais piedoso de N oé E, sendo ela também a deusa da fertilidade, lançava seus adoradores nos ritos mais devassos e libertinos. Prostituição e adultério eram comuns em seus templos. Mais tarde, ela seria adotada pelos gregos que lhe deram um nome mais afinado aos ouvidos ocidentais: Afrodite Os romanos

a conheceriam como Vênus.

Dessa cidade evoluída economicamente, mas

espiritualmente tão involuída, Deus arranca Abraão. Ao ouvir a voz do Senhor, o patriarca ddxa o dã paterno e faz-se peregrino: “Partiu, pois, Abrão, como lh o ordenara o SENHOR, e Ló foi com ele. Tinha Abrão setenta e dnco anos quando saiu de Harã Levou Abrão consigo a Sarai, sua mulher, e a Ló, filho de seu irmão, e todos os bens que haviam adquirido, e as pessoas que lhes acresceram em Harã Partiram para a terra de Canaã; e lá chegaram” (Gn 12.4,5). 3. Abraão, o peregrino. Ao deixar a sua cidade, Abraão não tinha um mapa detalhado da terra que


lh e daria o Senhor. Peregrinando em direção ao Ocidente, deteve-se por algum tempo em Padã-Harã Dai, andej a até Siquém. E , j unto aos carvalhais de Moré, o Senhor torna-lhe a promessa mais clara; “Darei à tua descendência esta terra” (Gn 12.7). Diante da promissão divina, o patriarca detém-se entre o j á e o ainda. Sim, a terra j á é dei q pertence j á aos seus descendentes. Todavia, ainda mio é o tempo de a possuir. Seus descendentes terão de esperar mais quatro séculos até se apossarem do pais onde mana leite e mel. Agradecendo a Deus, Abraão crq crendo, é justificado. Somente a fé opera semelhantes milagres no coração humano.

III. Em

Salém,

O EN C O N TR O COM M E L Q U ISE D E Q U E dá-se um culto completo ao Deus Altíssimo.

Abraão, recepcionado por

Melquisedeque, bendiz ao Senhor por uma grande vitória, participa da primeira Santa Ceia e louva ao Eterno com os seus dízimos. E , diante do rei de Sodoma, realça o testemunho irresistível de sua fé em Deus. 1. A crise anunciada. Ao separar-se de Abraão, seu tio, muda-se Ló para a impenitente Sodoma E , lá, segundo depreendemos

do texto sagrado, veio a prosperar.

Sua

influência sobre a cidade era mui considerável. Ló era uma espécie de juiz universal (Gn 19.9). Todavia, jamais se conformou com a degradação moral da cidade. Diariamente, afligia-se

“pelo

procedimento

libertino

insubordinados” (2 Pe 2.7).

daqueles

Q uando Deus intim ou a Abraão a sair de U r dos caldeus, era o patriarca tão gentio quanto eu e você.

Sodoma, apesar de sua degenerescência moral, desfrutava de um admirável desenvolvimento social e econômico. Por isso, era cobiçada pelos reinos da região. Certa vez, alguns desses régulos organizaramse contra a cidade, conforme registra o autor sagrado: “Sucedeu naquele tempo que Anrafel, rei de Sinar, Arioque, rei de E l as ar, Quedorlaomer, rei de Elão, eT id al, rei de Goim, fizeram guerra contra B era, rei de Sodoma, contra Birsa, rei de Gomorra, contra Sinabe, rei de Admá, contra Semeber, rei de Zeboim, e contra o rei de B ela (esta é Zoar)” (Gn 14.1,2). Nesse investida, Quedorl aomer 1eva o j usto Ló a um cativeiro incerto e cruel (Gn 14.12). 2. A vitória n o campo de batalha. Ao saber que o sobrinho fora levado cativo, Abraão não se fez esperar. Arregimenta um exército entre os seus servos, e vai ao encalço de Ló. Sua vitória é espetacular, segundo narra o Gênesis: “E , repartidos contra eles de noite, ele e os seus homens, feriu-os e os perseguiu até Hobá, que fica à esquerda de Damasco” (Gn 14-15). Seus 318 homens derrotaram o exército mais poderoso da região. U m exército, aliás, que vinha de várias campanhas vitoriosas. Abraão resgata não somente o sobrinho, como também os demais cativos de Quedorlaomer. Sem dúvida, uma façanha bélica U m bando de pastores havia derrotado uma poderosa coligação. Com o celebrar semelhante triunfo? Dirige-se, pois, o patriarca a Salém, onde j á o esperava Melquisedeque


3 . O encontro com o rei de Salem. Não sabemos se até aquel e momento, houvera algum encontro entre Abraão e Mel quis edeque. De qualquer forma, não poderia haver ocasião mais propícia. Se havia um culto público e testemunhai a realizar, que Salém fosse o santuário. O ato de adoração ao Unico e \ferdadeiro Deus seria presenciado inclusive por B era, rei de Sodoma Infelizmente, o sodomita não se deixaria enternecer pela manifestação divina Mais interessado em reaver os súditos, partiu de imediato à sua impenitente e j á condenada cidade-es tado, 4 . A santa ceia em Salem. O pão e o vinho faziam parte do cardápio oriental; eram alimentos básicos. Mas, agora, o pão e o vinho de Salém adquirem um caráter sacramental. A vitória do patriarca, portanto, será comemorada com uma ceia que se faz santa Observemos como a narrativa sagrada descreve a celebração: “Mel quis edeque, rei de Salém, trouxe pão e vinho; era sacerdote do Deus Altíssimo” (Gn 14.18). Observemos a precisão da narrativa bíbl ica. Mel quis edeque traz pão e vinho a Abraão na qualidade de sacerdote, e não como rei de Salém Era, pois, uma refeição sacramental, não um banquete oficial. Conclui-se que o pão e o vinho ali servidos j á prefiguravam o corpo e o sangue de Cristo. Levemos em conta, também, que o sacerdócio de Mel quis edeque era superior ao de Levi, porquanto messiânico, eterno e universal. O que isso significa? Acima de tudo, que o pão e o vinho, naquele momento, eram mais adequados do que um cordeiro. 5. Abraão dá os dízimos a Melquis edeque. Após a refeição sacramental, Mel quis edeque abençoa Abraão. Dessa forma, o sacerdote do Deus Altíssimo agracia o patriarca hebreu: “Bendito sej a Abrão pelo Deus Altíssimo, que possui os céus e a terra,- e bendito seja o Deus Altíssimo, que entregou os teus adversários nas tuas mãos” (Gn 14.19,29). Nesse evento, Abraão era ainda Abrão. Mas logo seria ele não apenas um grande pai, mas o pai espiritual de todos os crentes, quer hebr eus, quer gentios. Já no encerramento do culto, Abraão serve a Deus com os seus dízimos. Ao rei de Salém, entrega o melhor de seus haveres (Gn 14.20). Tao liberal mostrou-se o patriarca que, al ém de não aceitar a oferta de Bera, rei de Sodoma, fez questão de externar materialmente o

que,

espiritualmente,

havia

recebido. Até mesmo dos despojos de guerra que estavam em seu poder, deu ele o dízimo (Hb 7.4). Na verdade, Abraão nenhum despojo quis para si, mas desse mesmo despojo pagou o dízimo ao Senhor pela mão de

Agradecendo a Deus, Abraão crê; crendo, é justificado. Som ente a fé opera semelhantes milagres n o coração humano.

M el quis edeque.

CO NCLUSÃ O Abraão encontrou-se com Mel quis edeque, e foi espiritual e teologicamente edificado. E m Salém, teve uma visão mais d ara de seu chamamento. Sabia, agora, que a sua missão ia além do tempo; era eterna.


Nele, seriam abençoadas codas as nações da terra por intermédio de Jesus Cristo, seu mais ilustre descendente Hoje, através de Cristo, é-nos facultada a entrada ao trono da graça E, agora, podemos adentrar não a Sal ém terrena, mas a Jerusalém Celeste, cuj o arquiteto e construtor é o próprio Deus.


ISAQUE, O SORRISO DE UMA PROMESSA

IN TR O D U Ç Ã O A primeira vista, Isaque parece retraído e tímido. Ao contrário do pai, Abraão, e do filho, Jacó, sua vida não é marcada por grandes eventos. Não teve de peregrinar ao Neguebe, nem refugiar-se além do Nilo. Limitando-se a andej ar por Canaã, ali armou suas tendas, criou Esaú e Jacó, multiplicou os haveres da família e também, ali, ergueu altares ao Senhor. Ele, porém, viria a destacar-se por uma fé singular e perfeita no Deus das alianças e pactos eternos. Embora patriarca, Isaque entrou para a História Sagrada como o filho da promessa, pois chegara à tenda de Abraão, quando este j á tinha 100 anos, e Sara, 90. Seu nascimento levou os pais a rirem daquela espera que, ignorando os limites da biologia, evidenciou a intervenção do Autor da vida. E le nasceu do ventre amortecido de Sara e do corpo envelhecido de Abraão. Sim, havia motivos para sorrir do aparecimento serôdio de Isaque. Neste capitulo, acompanhemos alguns episódios que marcaram a vida do segundo patriarca dos hebreus. Veremos que aquele homem de pouquíssimas e reservadas palavras deixou-nos um eloqüente testemunho de fé e temor a Deus. No campo da fé, nem sempre as palavras dizem muito; as ações, porém, revelam a intervenção divina em cada passo de nossa j ornada a caminho de Sião.

I . O H E R D E IR O Q U E N Ã O VIN H A Já se haviam passado 24 anos, desde que Abraão saíra de Ur dos Cal deus. E, apesar da promessa que o Senhor lhe fizera quanto à posse das terras de Canaã, o patriarca continuava sem herdeiro. E le j á estava com 99 anos, e Sara beirando à casa dos 90. Numa idade tão avançada, teriam eles ainda o prazer de embalar o próprio filho? Em breve haveriam de constatar que, para Deus, não há impossível. I.

A promessa de um herdeiro. Num momento de conj ecturas, o Senhor aparece a Abraão, nos

carvalhais de Manre, e promete-lhe que, passado um ano, Sara dar-lhe-á um filho (Gn 18.10). Ao ouvir a promessa, ri-se a mulher que, ainda formosa, j á entrara na menopausa e cuj o útero j azia emurcheddo. E la j ánão possuía a vitalidade, nem o frescor requeridos por uma mulher que almej a ser mãe.


Repreendida pelo Eterno, ouve uma pergunta que, claramente, vinha ao encontro de sua desesperança: ‘Acaso, para o Senhor há coisa demasiadamente difícil?” (Gn 18.14). Portanto, Sara já não teria de esperar para usufruir as alegrias da maternidade. Agora grávida, a promessa cumpre-se na gestação de seu unigênito. 2. O nascim ento do herdeiro. No tempo apontado pelo Senhor, eis que Sara dá à luz o herdeiro de Abraão. Na tenda do patriarca, ouve-se, agora, o choro do filho da promessa, através do qual viriam heróis, reis e o próprio Cristo (Mt 1.1,2). Ao embalar o filhinho, ela desvanece: “Quem diria a Abraão que Sara daria de mamar a filhos, porque lh e dei um filho na sua velhice”’ (Gn 21.7). Sara não sorrira quando da anunciação do menino? Pois este chamar-se-á Isaque que, na língua hebraica, significa “riso”. Quanto à velhice de Abraão e de Sara, não nos esqueçamos de que, naquele tempo, as pessoas ainda eram longevas. Lendo-se o capítulo 11 de Gênesis, verifica-se que, a partir de Sem, que viveu 50 0 anos, a longevidade humana vai gradativamente caindo (Gn 11.11). N o final do texto, a idade dos avoengos de Abraão já não ia além dos 200 anos. Mesmo assim, o aspecto de um homem de 100 anos, e de uma mulher, com 90, naquela época, não era nem senil, nem decrépito. Haja vista que Sara, embora haj a saído de Ur, aos 65 anos, era de uma beleza estonteante e ainda não havia chegado à menopausa A espécie humana, porém, j á começava a sentir as condições ecológicas e climáticas devidoao Dilúvio. Se a idade dos filhos de Adão era contada em séculos, a dos descendentes deNoé será computadaem décadas

(Gn

5.27; SI 90,10). 3. A circuncisão do herdeiro. Abraão circuncidou Isaque, quando este completou oito dias devida (Gn 21.4). Foi o primeiro bebê varão da linhagem hebreia a receber a circuncisão de acordo com o pacto que o Senhor estabelecera com o patriarca (Gn 17.10-12). O ato reafirmou a continuidade da chamada patriarcal, que seria caracterizada mais fortemente emjacó, pai dos 12 patriarcas. Circuncidado, Isaque era inserido 1 iturgicamente na

N o campo da fé, nem sempre as palavras dizem muito; as ações, porém, revelam a intervenção divina

família da promessa. A partir daquele momento, o problema

em cada passo de nossa

sucessório de Abraão estava resolvido; seu filho dar-lhe-ia

jornada a caminho de Sião.

continuidade à comunidade da fé monoteística que, apregoando uma ética superior, mudaria a história do mundo.

4 . O desmame de Isaque. Se a circuncisão de Isaque foi motivo de alegria e riso, o que se poderia esperar de seu desmame? N o Oriente Médio, a criança era desmamada aos três anos. O acontecimento foi marcado por um grande banquete (Gn 21.8). Afinal, o filho da promessa deixava de ser bebê; doravante, seria olhado por todos como o homenzinho da família. A celebração, entretanto, teria o brilho esmaecido pelo mau comportamento de Ismael que, nessa


época, j á era um adolescente de 14 anos. E isso deixaria Sara muito aborrecida

I I. ISA Q U E E ISM A EL Se Isaque era o filho da promessa, Ismael eslava ali na conta do filho da desesperança e do arranj o carnal. Por isso, o filho de Abraão com Agar, sentindo-se enciumado com a chegada do meio-irmão, põese a zombar dele A situação faz-se tão insustentável que Sara, irritada e incontida, roga ao esposo: “Deita fora esta serva e o seu filho; porque o filho desta serva não herdará com meu filho, com Isaque” (Gn 21.10 ).

1. A despedida de Sara e Agar. O desej o da esposa pareceu duro e desumano a Abraão. O Senhor, porém, acalmou-lhe o espírito: “Não te pareça isso mal por causa do moço e por causa da tua serva; atende a Sara em tudo o que ela te disser; porque por Isaque será chamada a tua descendência” (Gn 21.12). Em seguida, o bondoso Deus reafirma sua bênção sobre Ismael, pois este também era filho de Abraão: “Mas também do filho da serva farei uma grande nação, por ser el e teu descendente” (Gn 21.13). Deus tinha tudo sob controle Não permitiria que a sua serva, Agar, viesse a perecer com o filho. E, diferentemente do que haveria de acontecer entre Esaú e Jacó, tanto Isaque quanto Ismael seriam abençoados. Abênção messiânica, porém, caberia exclusivamente ao filho da promessa 2. A despedida de Ismael. Ao despedir Agar e Ismael, deu-lhes Abraão tão somente um pedaço de pão e um odre de água (Gn 21.14). O que era isso para uma jornada num deserto sem fronteiras e caus ticante'1Acrescente-se, ainda, que mãe e filho não tinham para onde ir. Naquele instante, dependiam unicamente da providência divina Já bebida a água, Agar deita o filho agonizante e afasta-se para não lhe ver a morte (Gn 21.15,16). Mas neste momento, brada-lhe o Senhor através de seu anj o: “Que tens, Agar? Não temas, porque Deus ouviu a voz do rapaz desde o lugar onde está” (Gn 21.17). Deus jamais nos falta com a sua presença Basta confiarmos em seus cuidados, e a sua proteção far-se-á presente. Ao abrir os olhos, Agar vê uma fonte em pleno deserto (Gn 21.19). Portanto, não se desespere. Ainda que as suas lutas mostrem-se renhidas e cruéis, sempre haverá um manancial no deserto. Jesus é a água da vida 3. A bênção de IsmaeL Em seguida, diz-lhe o anj o: “Ergue-te, levanta o moço e pega-o pela mão, porque dele farei uma grande nação” (Gn 21.18). O mensageiro celeste reafirma a Agar a promessa que o Senhor fizera a Abraão (Gn 17.20; 21.13). O que parecia morte faz-se vida; o que era maldição torna-se grande bênção. Como está o seu filho? Não o deixe caído. Tome-o pela mão. Erga-o a uma vida de triunfos. Mais adiante, o autor sagrado mostra os êxitos e façanhas de Ismael. Deus era com o menino. Ele cresceu, fez-se hábil arqueiro e passou a morar no deserto. Obediente à mãe, aceitou de bom grado a esposa que Agar fora buscar-lhe no Egito (Gn 21.20,21). Ismael gerou doze príncipes que, espalhando-se


pela região da Arábia, fundaram reinos enações.

I II . O A PR EN D IZ A D O E M M O R IÁ Que o Senhor queria provar Abraão, em Moriá, não há dúvida Todavia, era sua intenção, também, levar o j ovem Isaque a um encontro pessoal e experimental com o Deus de seu pai. Naquele monte ermo e distante da tenda materna, o menino defrontar-se-á com uma nova fronteira no campo do conhecimento divino. 1. A provação das provações. Certa noite, o Senhor ordenou a Abraão: “Toma agora o teu filho, o teu único filho, Isaque, a quem amas, e vai-te à terra de Moriá; e oferece-o ali em holocausto sobre uma das montanhas, que eu te direi” (Gn 22.2). Na manhã seguinte, madrugada ainda, o patriarca conduz o filho amado ao sacrifício supremo. Opatriarca, todavia, tinha absol uta certeza de que retornaria do Moriá com o filho, pois aos servos, ordenara claramente “Ficai-vos aqui com o j umento, e eu e o moço iremos até ali; e, havendo adorado, tornaremos avós” (Gn 22.5; Hb 11.17-19). Com o bom teólogo, sabia Abraão que, mesmo que viesse a sacrificar o filho, tê-lo-ia de volta, porque Deus lho havia prometido. Por isso, escreve o autor da Epístola aos Hebreus: “Pela fé, Abraão, quando posto à prova, ofereceu Isaque; estava mesmo para sacrificar o seu unigênito aquele que acolheu alegremente as promessas, a quem se tinha dito: Em Isaque será chamada a tua descendência; porque considerou que Deus era poderoso até para ressuscitá-lo dentre os mortos, de onde também, figuradamente, o recobrou” (Hb 11.18-20). Abraão, pois, escalou o Moriá com serenidade e confiança. Sabia que, apesar do que viesse a ocorrer naquele monte, Deus lhe reaveria o filho, pois a promessa não podia ser revogada em Isaque seria reconhecida a sua descendência. Mas, como estaria o coração do jovenzinho? Em que condições emocionais chegaria ao cume da provação? 2. O aprendizado teológico de Isaque. A primeira lição de teologia que Abraão ensina ao filho é, embora básica, fundamental e colunar: Deus proverá todas as coisas (Gn 22.8). Por essa razão, sem nenhum temor, deita-se e deixa-se amarrar, pelo pai, ao altar do holocausto (Gn 22.9). E le sabe que, no momento certo, o Senhor haverá de intervir, como de fato, interveio. Isaque também ouve o bradar do céu, contempla o cordeiro vicário e, atento, escuta o Anjo do Senhor chancelar ao pai as bênçãos quanto aos dias futuros. E, assim, na companhia de Abraão, desce um Isaque mais confiante nas providências divinas. Antes, conhecia a Deus somente por ouvir. Agora, j á está preparado a enfrentar os desafios de longas e árduas peregrinações. O Deus de Abraão é também o Deus de Isaque. Se ao escalar o Moriá, o seu monoteísmo era apenas teórico, ao descer, sua crença no Deus Unico e \ferdadeiro é atuantes e prática


IV . U M A N O IV A PA R A IS A Q U E Isaque bem que poderia haver tomado uma das jovens daquela terra por esposa Entretanto, ele não se enganava com as cananeias. Idólatras e lascivas, davam-se aos pecados mais grosseiros. Muitas delas, encerradas em templos pagãos, entregavam-se à prostituição ritual; em nada diferiam das rameiras que circulavam por Jericó. Com o haveria ele, pois, de esposar uma idólatra? Isaque, porém, estava tranqüilo, pois aprendera a confiar no Deus que tudo provê I.

Operação Rebeca. Sabendo que Isaque era um homem espiritual e sei etivo, Abraão encarrega seu

mais antigo servo de buscar-lhe uma esposa na Mesopotâmia (Gn 24.1-7). A jornada seria longa, estressante e cerceada de perigos. Mas o patriarca sabia que, em sua par enteia, ainda havia uma reserva espiritual e ética,- não eram poucos os que serviam ao Senhor. Na cidade de Naor, o mordomo ora ao Eterno: “Sej a, pois, que a donzela a quem eu disser: abaixa agora o teu cântaro para que eu beba,- e ela disser: Bebe, e também darei de beber aos teus camelos, esta sej a a quem designas te ao teu servo Isaque” (Gn 24-14). A moça que assim procedesse revelaria as seguintes virtudes: espiritualidade, gentileza, respeito, disposição e amor ao trabalho. Eis que aparece Rebeca, virgem bela e formosa, preenchendo todos os requisitos. Embora a jovem tivesse criadas e servas, não fugia ao trabalho. Em pleno calor do dia, saiu a buscar água E , quando solicitada, gentilmente deu de beber não somente ao servo de Abraão, mas a toda sua cáfila E m seguida, conduz a comitiva à casa, onde Labão, seu irmão, oferece-lhes uma calorosa acolhida Seu amor e serviço foram além da expectativa do mordomo do patriarca C om tantos atributos, Rebeca não teria dificuldades em

Como bom teólogo, sabia Abraão que, mesmo que viesse a sacrificar o filho, tê-lo-ia de volta,

assumir a tenda patriarcal, pois a mãe de seu futuro esposo j á

porque Deus lho havia

era morta. A j ovem mostrava-se, em tudo, uma autêntica serva

prometido.

do Deus de Abraão e Isaque. 2.

O casamento de Isaque e Rebeca. O encontro de Isaque com Rebeca não poderia ser mais

espiritual e romântico. E le sair a a orar, à tarde, quando avistou a j ovem ornando-lhe a comitiva Depois de ouvir com atenção o servo do pai, el e a conduz à tenda da mãe, e a toma por mulher (Gn 24.67). Tão grande era o carinho entre os cônj uges, que não havia como negar que Isaque e Rebeca fossem casados. Certa vez, ao peregrinar em Gerar, disse aos homens daquele reino, imitando o pai, que a esposa, na verdade, era sua irmã O rei, todavia, não demorou a surpreendê-lo acariciando a mulher (Gn 26.8,9). Tal intimidade, concluiu logo Abimeleque, não era coisa de irmãos, mas de gente casada

V. O S F ILH O S D E ISA Q U E


Embora apaixonados e românticos, a felicidade de Isaque e Rebeca ainda não era completa,Ela, à semelhança de Sara, era estéril, Como, pois, se haveria o casal sem filhos? 1. A oração por um filho. Ao invés de arranj ar um herdeiro através de um ventre escravo, como haviam feito seus pais, Isaque foi buscar a aj uda de Deus, E le “orou insistentemente ao Senhor por sua mulher” (Gn 25,21), E a sua oração foi de pronto respondida Isaque confiou no Deus que lhe proviera a esposa e, agora, há de prover-lhe também o herdeiro da promessa Através da fé, aprendera a agir no terreno do impossível, 2. E saú e Jacó. Já grávida de gêmeos, assustou-se Rebeca com o comportamento dos filhos. Em seu ventre, os bebês lutavam, numa antecipação profética do que seriam eles no futuro. Diz, então, o Senhor à mãe atribulada e incons ol ável: “Duas nações há no teu ventre, dois povos, nascidos de ti, sedividirão: um povo será mais forte que o outro, e o mais velho servirá ao mais moço” (Gn 25,23), Esaú, o primogênito, veio à luz coberto de pelos, Jacó, por seu turno, chegou liso e agarrado ao calcanhar do irmão, A história de ambos seria marcada por conflitos, inimizades e guerras, O primeiro fez-se perito caçador, O segundo, homem pacato e reflexivo, aconchegava-se à tenda da mãe, Não demorou para que Esaú revelasse toda a sua profanidade e menosprezo às coisas de Deus, Certo dia, apertado pela fome, vendeu a Jacó a sua primogenitura por um prato de lentilhas. Enquanto isso, ia Jacó, influenciado pelos conselhos maternos, fundamentando-se na fé professada por Abraão e Isaque 3. Isaque abençoa os filhos, \fendo-se envelhecido e turvado de olhos, buscou Isaque resolver, de vez, o problema sucessório da família Chamando Esaú, diz-lhe: ‘Agora, pois, toma as tuas armas, a tua alj ava e o teu arco, sai ao campo, e apanha para mim alguma caça, e faze-me uma comida saborosa, como eu aprecio, e traze-ma, para que eu coma e te abençoe antes que eu morra” (Gn 27,3,4)Ao ouvir o diálogo do esposo com o primogênito, Rebeca trata de instruir o caçula a roubar a bênção do irmão. Relutante a princípio, aproxima-se Jacó, fingindo ser Esaú. O pai, que já não enxergava com distinção, enganado, abençoa profeticamente o enganador: “Deus te dê do orvalho do céu, e da exuberância da terra, e fartura de trigo e de mosto. Sirvam-te povos, e nações te reverenciem,- sê senhor de teus irmãos, e os filhos de tua mãe se encurvem a ti; maldito sej a o que te amaldiçoar, e abençoado o que te abençoar” (Gn 27.28,29). Já abençoado, Jacó deixa a tenda paterna Em seguida, entra Esaú. O que pode fazer o velho Isaque? Profeta e bom teólogo, sabe que as palavras que proferira ao filho mais novo eram, na verdade, palavras de Deus. Jacó, pois, seria abençoado. Quanto a Esaú, restava o choro amargo de quem sempre desprezara o conhecimento divino, conforme escreve o autor da Epístola aos Hebreus: “Nem haj a algum impuro ou profano, como foi Esaú, o qual, por um repasto, vendeu o seu direito de primogenitura. Pois sabeis também que, posteriormente, querendo herdar a bênção, foi rejeitado, pois não achou lugar de arrependimento, embora, comlágrimas, o tivesse buscado” (Hb 12.16,17).


CO NCLUSÃ O Deus abençoou de tal forma a Isaque, que ele veio a tornar-se mais poderoso que os reis cananeus. Era temido, inclusive, por Abimeleque, soberano de Gerar. Aos olhos dos gentios, ali estava um homem que sabia como desfrutar dos favores divinos. Isaque era um príncipe de Deus. Tudo o que fazia vinha a prosperar. Seu gado multi.pl icava-se e sua lavoura vingava até mesmo em terras inférteis. Enfim, Isaque era o bendito do Senhor. O epílogo de sua vida é descrito não com palavras de condolência,

mas

com

vocábulos

que

descrevem

o

Isaque confiou n o

recolhimento dos justos e íntegros: “Foram os dias de Isaque cento e oitenta anos. \felho e farto de dias, expirou Isaque e morreu, sendo recolhido ao seu povo; e Esaú e Jacó, seus filhos, o sepultaram” (Gn 35.28.29). A vida de Isaque inspira-nos a ter uma fé mais ativa nas providências divinas. Quando, pois, formos assaltados por

Deus que lhe proviera a esposa e, agora, há de proverlhe também o herdeiro da

dificuldades e provações, não caiamos no desespero, nem

promessa.

questionemos as intervenções do amoroso Deus. Humildes e humilhados, caiamos aos seus pés, pois ele nos provê o necessário para termos uma vida abundante e bem aventurada em seus caminhos. Que o Deus de Abraão, de Isaque e de Jacó sej a eternamente 1ouvado.


JOSE, A REALIDADE DE UM SONHO

IN TR O D U Ç Ã O Vim a concluir, ainda adolescente, que romance algum é comparável à história de José O autor sagrado não precisou sequer de 13 capítulos para compendiar a epopeia do j ovem hebreu que, vendido como escravo pelos irmãos, veio a ocupar a governança do Egito. Todas as vezes que me deparo com essa narrativa, louvo a Deus, pois E le continua a intervir na biografia de cada um de seus filhos. Acompanhemos a traj etória de José Em sua carreira, não vemos apenas o sucesso tão comum aos grandes homens. Testemunhamos, acima de tudo, a excelência que leva os heróis da fé a fazerem diferença na crônica de seus povos e do próprio mundo.

I . A H IST Ó R IA D E JO SÉ A história de José mescla-se à de Jacó. Numa transição bela e sutil, Moisés introduz o j ovenzinho hebreu no cenário sagrado: “Esta é a história de Jacó. Tendo José dezessete anos, apascentava os rebanhos com seus irmãos; sendo ainda j ovem, acompanhava os filhos de B ila e os filhos de Zilpa, mulheres de seu pai; etraziamás noticias deles aseupai” (Gn37.2). Logo de inicio, o autor de Gênesis faz questão de ressaltar a espiritualidade e a ética do futuro governador do Egito. Qualidades estas, aliás, que lhe seriam imprescindíveis no futuro. I.

U m patriarca sacerdotal e profético. Dos patriarcas que deram origem às doze tribos, José foi o

único a ser agraciado com o dom profético que tão bem distinguira Abraão, Isaque e Jacó, seu pai. José, porém, eslava para receber, do Senhor, uma revelação ainda mais refinada e teológica. E le não apenas sonharia profeticamente, como profeticamente interpretaria os sonhos que em breve ouviria No epílogo de sua vida, revelaria aos irmãos que os hebr eus não haveriam de permanecer em solo egípcio. Mas que, visitados pelo Senhor, subiriam à Terra Prometida José exerceu um ofício similar ao de Daniel. Sábios e entendidos em sonhos, foram ambos santificados a estar j unto aos poderosos, a fim de testemunhar do Todo-Poderoso.


2.

U m adolescente de elevada ética. José nunca comungou com os desvios morais dos irmãos.

Mesmo arriscando-se às mais duras e inesperadas represálias, dei atava-os ao seu velho pai. Em sua delação, não havia prêmio algum,- apenas dissabores havia Entretanto, agindo de forma tão íntegra, adestrava-se a viver no palácio do Faraó, onde a corrupção fazia parte dos protocolos, ricos e liturgias oficiais. A Bíblia não detalha os mal feitos dos irmãos de José Mas dá a entender que eram atos condenáveis e repugnantes aos olhos de Jacó. Se o j usto Deus os separara para ser a comunidade ética por excelência, por que não andavam el es de acor do com a j us tiça divina7 A integridade deve ser cultivada na infância, para que floresça na adolescência e frutifique na velhice Que os nossos políticos aprendam essa lição com o j ovem hebrea

I I. A FO R M A Ç Ã O D E JO S É N A CASA PA TE R N A Dos 17 aos 30 anos, José teria um longo aprendizado. Sua formação dá-se de forma gradual, lenta e, muitas vezes, dolorosa. Na casa paterna, aprenderá, além da teologia de Abraão, valiosos princípios de administração e economia com o velho pai, Jacó. Em todas as matérias, mostra-se excelente aprendiz. 1. Formação teológica. A formação teológica de José dá-se no cotidiano da casa paterna, no pastoreio do gado e no amanho do solo. Afeito às narrativas e proposições de Jacó, sabia muito bem por que Deus chamara Abraão àquelas terras. Portanto, havia um propósito supremo à sua família a constituição de um povo profético, sacerdotal e real. U m povo, aliás, que mudaria a História Universal através do Messias. E le conhecia as peregrinações do avô. E, dos lábios do pai, ouvira como Deus comunga com os seus servos. Logo, el e não teria de subir ao Céu para conhecer o Eterno, pois o Eterno j á havia descido à Terra, para fazer-se conhecido pelos que o amam Experimentalmente, pois, vai o Senhor inserindo o j ovenzinho na comunidade profética do primitivo Israel. José é paciente e refl exivo. Não 1eva em conta as maldades dos irmãos. E le sabe que, num futuro não muito distante, darão eles origem a um poderoso reino de profetas, sacerdotes e reis. Além do mais, Deus está no controle de suas agruras, tribulações e provas. Por esse motivo, tudo crê e tudo suporta,- em seu coração, o amor é perfeito. 2. Formação administrativa. Jacó não ignorava a complexa economia de Canaã e do Egito. Havendo-se com eficácia na administração do patrimônio familiar, multiplicara-o sobremaneira, escapando diversas vezes às garras de Labão. Tais lições, fez questão de repassar a José E, pelo contexto da História Sagrada, o filho fez-se tão excelente quanto o pai. Deus o preparava, assim, a administrar a casa de Potifar, o presidio de Faraó e, finalmente, o império todo do Egito. Conhecendo o Deus dos antigos e j á dominando os fundamentos da economia e da administração, o que mais falta a José? Agora, ele j á pode sonhar. Sim, ele j á está preparado a receber os sonhos que, em breve, lhe dará o Senhor.


3 . O primeiro sonho. Certa vez, José teve um sonho. E , logo ao amanhecer, relatou-o aos irmãos: ‘Atávamos feixes no campo, e eis que o meu feixe s e i evantou e ficou em pé; e os vossos feixes o rodeavam e se inclinavam perante o meu” (Gn 37.7). Tratava-se de um sonho campesino e rural. Refletindo o dia a dia do sonhador e dos sonhados, aparentemente nada tinha de especial. D e certa forma, até refletia a faina daquela gente obreira e madrugadora. Todos foram cientificados, porém, que se tratava de um aviso divino. Por ocasião da ceifa, tanto José quanto seus irmãos colhiam o trigo, amarrando-o em feixes. Então, por que só o m olho de José pôs em p é A resposta só pode ser uma: o de José era recolhido com excelência e com excelência, amarrado. Quanto aos outros, eram colhidos por obrigação e por mera obrigação, enfeixados. Portanto, o que busca a excelência em seu trabalho, j amais ficará prostrado. Ante o sonho de José, a hermenêutica de seus irmãos logo se aguçou Já tomados de inveja, perguntaram-lhe: “Reinar ás, com efeito, sobre nós? E sobre nós dominar ás realmente?” (Gn 37.8). E, com isso, o ódio pelo caçul a fazia-s e incontrol ável. 4 . O segundo sonho. Quem amarra bem os seus feixes, sempre acaba por sonhar com algo mais elevado. Foi o que aconteceu a José Ouçamos-lhe o relato do segundo sonho: “Sonhei também que o sol, a lua e onze estrelas se inclinavam perante mim” (Gn 37.9). Interessante, o primeiro sonho era rural; o segundo, astronômico. D e qualquer forma, como mais adiante veremos, havia copiosas bênçãos tanto a José quanto à sua família Mas, naquele momento, todos se perturbam O velho Jacó, colocando-se como o sol da família, intervém de pronto: “Que sonho é esse que tiveste? Acaso, viremos, eu e tua mãe e teus irmãos, a inclinar-nos perante ti em terra?” (Gn 37.10). Não obstante, o pai guarda o relato no coração. O que Deus reservava a José, em particular, e à família, como um todo? Quanto aos irmãos, passaram a devotar-lhe um ódio ainda mais nocivo e mortal. Por que o caçul a e não o primogênito? Deixemos isso por conta da soberania divina Se a inveja não os tivesse cegado, haveriam de concluir que Deus não favorecia apenas José N o primeiro sonho, ninguém ficava sem o seu feixe; todos eram abençoados igualmente com o seu molho. Quanto ao segundo sonho, a bênção coletiva era ainda maior. Ninguém perdia o seu brilho.

José nun ca comungou com os desvios morais dos

O sol resplandecia com a força de um rei. A lu a com a grinalda

irmãos.

duma rainha. As doze estrelas? Cada uma delas disdnguia-se com uma glória particular. Judá resplendia com o Cristo. Rubem, com a primogenitura Levi, com o sacerdócio. Enfim, ninguém deixava de brilhar. Então, por que tanto ódio contra Jo sé Eles não souberam como avaliar o adolescente que Deus sandficara para governar o mais poderoso império daquel e tempo. Através de José, todo o Israel seria salvo.

III.

O P R E Ç O D E U M JO V E M

Com o destruir um sonho? Para os irmãos de José, só havia uma resposta plausível: destruindo o sonhador. Foi o que intentaram ao j ogá-lo num poço na erma e abandonada Dotã.


1. A conspiração co n tra José. A conspiração para matar José foi muito bem amarrada Eles só não levaram o intento adiante, porque Judá, o mais aj uizado deles, propôs-lhes: “D e que nosaproveita matar o nosso irmão e esconder-lhe o sangue1 Vinde, vendamo-lo aos ismaelitas;não ponhamos

sobre ele a

mão, pois é nosso irmão e nossa carne” (Gn 37.26,27). Então, que o tal sonhos o sej a vendido. Todavia, quanto vale José? Aos olhos de seus irmãos, meros 20 siclos de prata,- menos de um mês de trabalho. Foi o valor que receberam daquel es mercadores que, de quando em quando, atravessavam a região. O negócio pareceu-lhes ótimo. Além de se livrarem dos sonhamentos e sonhanças do irmão, obteriam um lucro amaciado e fácil. A fim de explicar o desaparecimento do irmão ao pai, mostraram-lhe a túnica de José manchada com o sangue de um bode Hipócritas e corruptos. Além de mentir, desfalcaram o rebanho de Jacó. Bem diria o Sal mista que um abismo sempre acaba por chamar outro abismo. Não bastasse tamanha presepada, enlutam-se e põem-se a consolar o inconsolável patriarca. 2. Potifar compra José. Já cativo dos ismaelitas, José é levado ao Egito. Jornada longa e árdua O Sinai não tem fim São quase 3 0 0 quilômetros de andanças, canseiras, incertezas e receios. O que o espera na terra do Faraó? Os mercadores tratam-no com rispidez e truculência. Para eles, o hebreu não passa de mero artigo. Desalmados caixeiros-viaj antes.

Quem amarra bem os seus feixes, sempre acaba por sonhar com algo mais

N o Egito, os ismaelitas expõem o caçula de Jacó num amplo e concorrido mercado. E i-lo ali em meio a outros

elevado.

cativos, animais e mercadorias. Os interessados passam, examinam-nos e veem-lhe os dentes. Sim, na compra de um escravo, a arcada dentária é reveladora Se por um lado, denota saúde, por outro, conota enfermidade Por isso, cada escravo tem de ser examinado com rigoroso cuidado. Ao ver o hebreu, Potifar agrada-se dele. A li estava um j ovem forte, saudável e que soubera como resistir ao Sinai. Enfim, um servo perfeito às tarefas de casa e às lides do campo. Não bastasse, era bonito e de bela aparência Acertado o valor, o oficial do Faraó conclui logo o negócio. O preço de José foi nada módico. Levemos em conta, ainda, as despesas que os mercadores tiveram com o escravo na viagem entre Canaã e o Egito. Sabemos por quanto ele fora vendido, mas ignoramos por quanto foi comprado. Nem sempre o preço de um homem é revelado.

IV . A FO R M A Ç Ã O D E JO S É N A CASA D E P O T IF A R Na casa paterna, José aprendera teologia, administração e economia Agora, na casa de Potifar, dará continuidade à sua formação espiritual, moral e cultural. Informalmente, estudará a língua demódca, finanças egípcias e ética O curso não é à distância, mas doloroso, estressante epresencial. 1.

A língua demótica. Para um falante do hebraico, era nada fácil compreender a estrutura

gramatical, morfológica e fonética da antiga língua egípcia. Oriunda do ramo afro-asiático, possuía


idiodsmos e locuções que nenhum sentido faziam aos semitas e indo-europeus. Era como aprender o basco ou o chinês. O egípcio falado na casa de Potifar era o demótico: a língua do povo. Sua escrita, contudo, eslava longe de ser popular. Formada por ideogramas compl examente arranjados, era difícil até aos falantes naturais. José, porém, não se agasta com o novo idioma. Em pouco tempo, eslava ele comunicando-se perfeitamente com seus amos econservos. Sua disciplina era louvável. 2. Finanças. José, agora, terá de por em prática os princípios de economia que lhe ensinara o pai tanto na administração da casa quanto na da fazenda de Potifar. O desafio é grande; espera-o uma nova realidade financeira e fiscal. Seu aprendizado surpreende de tal forma o seu senhor, que o coloca à testa de todos os seus negócios. Eis o testemunho que lhe dá o autor sagrado: “Potifar tudo o que tinha confiou às mãos de José, de maneira que, tendo-o por mordomo, de nada sabia, além do pão com que se alimentava. José era formoso deporte e de aparência” (Gn 39.6). 3. Etica, a dolorosa lição. José era um homem bonito; seu porte, belo e imperial. Em Canaã, perseguia-o a invej a No Egito, assedia-o a cobiça Desta vez, terá de enfrentar as investidas da mulher de Potifar. Mas, provado moralmente, eticamente censura o comportamento da patroa “Como, pois, cometeria eu tamanha mal dade e pecaria contra Deus?” (Gn 39.9). José era orientado por uma ética superior. Conquanto não houvesse mandamento algum escrito, o piedoso hebreu j á se resguardava ao Senhor. E le sabia que, sem integridade, j amais poderia cumprir a missão que lhe confiara o Deus de Jacó e o Temor de Isaque. O final dessa história não poderia ser diferente Caluniado por sua ama, é lançado numa prisão, onde novos aprendizados o aguardam E le só não foi condenado à morte, porque Potifar conhecia muito bem a índole e os caprichos da esposa

V. A FO R M A Ç Ã O D E JO S É N A P R IS Ã O E na prisão que José cursará a universidade, que o capacitará à governança do Egito. Ali, aprenderá a língua hierádca, as liturgias e maneiras da corte Conviverá com prisioneiros cultos e letrados, que sabiam como estar na presença do rei. Na prática, inteirar-se-á do funcionamento do Estado egípcio. 1. A língua da corte. Na casa de Potifar, aprendera o demótico: a língua popular do Egito. Já na prisão, um novo desafio lingüístico o aguarda; o hierádco. Agora, terá de adaptar-se ao idioma dos sacerdotes e nobres; restrito e sagrado. Pelo contexto da história, concluímos que o seu aprendizado foi novamente coroado de êxitos. A formação de José lembra a de Daniel e seus companheiros (Dn 1.4,21). 2. O funcionam ento da corte. Na prisão, conhece os presos políticos de Faraó, entre os quais o


copeiro e o padeiro-mores. Eles lh e ensinarão como funciona a corte faraônica. Ali, informalmente, recebe preciosas aulas sobre a teoria geral do Estado. Na prisão, José é igualmente bem-sucedido. Levado como prisioneiro, faz-se carcereiro, mestre e psicólogo. 3.

O sonhador interpreta sonhos. Certa manhã, José encontrou o copeiro e o padeiro-mores

turbados e confusos. Sempre gentil e solícito, buscou saber-lhes o motivo de tamanha prostração de espírito. Eles relataram-lhe, prontamente, que assim estavam por causa dos sonhos que haviam tido na noite anterior. O hebreu, então, iluminado pelo Senhor, ouviu-os com paciência, dando, a cada um, a interpretação de seu sonho. N o terceiro dia, em pleno aniversário do Faraó, cumprem-se as palavras de José Eis o que o rei “ao copeiro-chefe reintegrou no seu cargo, no qual dava o copo na mão de Faraó; mas ao padeiro-chefe enforcou, como José havia interpretado” (Gn 40,21,22). Mesmo antes de o sonho cumprir-se, rogara José ao copeiro-mor: “Porém lembra-te de mim, quando tudo te correr bem; e rogo-te que sej as bondoso para comigo, e faças menção de mim a Faraó, e me faças sair desta casa; porque, de fato, fui roubado da terra dos hebreus; e, aqui, nada fiz, para que me pusessem nesta masmorra” (Gn 40.14,15). O oficial de Faraó, porém, não se lembrou de José; deste esqueceu-se, não porque o quisesse, mas porque o tempo do hebreu ainda não havia chegado.

V I. JO S É , P R IM E IR O -M IN IS T R O D O E G IT O Desde os sonhos dos oficiais mores de Faraó, dois anos completos se haviam passado. José parecia esquecido até mesmo por Deus. Entretanto, ele sabia que, para cada coisa, há um tempo determinado. Enquanto ele cumpria suas tarefas na prisão, o rei do Egito é turbado por dois sonhos que, em essência, constituíam um aviso único e urgente do Senhor (Gn 41.1'7). 1. O sonho de Faraó. N o primeiro sonho, vira o rei sete vacas gordas e nédias que, emergindo do N ilo, pasciam às suas margens. Mas eis que outras sete, rnagérrimas e feias, começaram a devorar as pr imeir as. E , mes mo as sim, continuavam esquel éricas. Tornando a dormir, viu o soberano que, de uma única haste, brotavam sete espigas bem granuladas e cheias. E m seguida, apareciam outras sete: amiudadas e crestadas pelo vento oriental. Insurgindo-se estas, devoraram aquelas. E, nem por isso, fizeram-se melhores. 2 . Jo sé é lembrado. Na manhã seguinte, Faraó convoca seus magos e sábios, mas nenhum deles

soube como

interpretar-lhe os sonhos. Foi j ustamente ai que o copeiro-mor lembrou-se de José E, fal ando do hebreu ao rei, este o mandou chamar de imediato. Sendo convocado pelo monarca, José barbeou-se e

Sabemos por quanto ele [José] fora vendido, mas ignoramos por quanto foi


mudou de roupas. Afinal, estaria ele diante do rei.

comprado. Nem sempre o

3 . A hermenêutica dos sonhos. Ao ouvir os sonhos do

preço de um homem é

Faraó, logo entmdeu que uma grande fome estava por vitimar o

revelado.

Egito e o mundo. Nem o N ilo com todas as suas benesses e mitologias poderia salvar o pais. Então o que haver? Com o as sete vacas e espigas, tanto as boas quanto as ruins, representavam sete anos bons e sete anos ruins, respectivamente, que o rei armazenasse a fartura dos primeiros para minorar a penúria dos segundos. E, para tanto, deveria o rei prover-se um homem aj uizado e sábio para administrar a crise por vir. 4 . U m hebreucom o governador do Egito. O parecer de José agradou a Faraó e aos seus ministros. Diante da emergência anunciada, o rei dirige-se à corte: ‘Acharíamos, porventura, homem como este, em quem há o Espírito de Deus?” (Gn 41.8). Volvendo-se ao hebreu, ordena; “Visto que Deus te fez saber tudo isto, ninguém há tão aj uizado e sábio como tu,- administrar ás a minha casa, e à tua palavra obedecerá todo o meu povo; somente no trono eu serei maior do que tu” (Gn 41.39,40). Em seguida, decreta; ‘Vês que te faço autoridade sobre toda a terra do Egito” (Gn 41.41).

CO NCLUSÃ O Já investido de singular autoridade, José aplacou não somente a fome dos súditos de Faraó,mas também a de seu velho pai e a dos irmãos que o haviam vendido como escravo.Recebe-os com amor. E, amorosamente, dá-lhes o sustento necessário. E m seu coração, nenhuma vingança Com o bom teólogo, compreende a razão de suas agruras e provações. Aos irmãos amedrontados, dá-lhes uma palavra de doce consolo: “Deus me enviou adiante de vós, para conservar vossa sucessão na terra e para vos preservar a vida por um grande livramento. Assim, não fostes vós que me enviastes para cá, e sim Deus, que me pôs por pai de Faraó, e senhor de toda a sua casa, e como governador em toda a terra do Egito” (Gn 45.7,8). Os sonhos que nos dá o Senhor cumprem-se no tempo oportuno, para que todas as coisas contribuam para o bem dos que, sinceramente, o amam


A TRANSIÇAO ENTRE JOSE E MOISES

IN TR O D U Ç Ã O O que aconteceu entre a morte de José e o nascimento de Moisés? A Bíblia, com sutileza e arte, calase acerca dessa transição. Quanto à história secular, tem pouco a oferecer-nos. Não obstante, dispondo ou não de fontes pertinentes, é preciso reconstituir os quatro séculos entre o Gênesis e o Exodo, para compreenderemos a formação do Israel de Deus. Nesse período, os israelitas passam da fase tribal à nacional, transformando-se num povo tão grande e poderoso, que veio a ameaçar o Império Egípcio. Neste capítulo, buscaremos recompor os acontecimentos entre os dois primeiros livros da Bíblia. Apesar do incômodo silêncio, é possível chegar a algumas conclusões surpreendentes. Já de início, adiantamos: o mutismo histórico-profédco não descontinuou a narrativa sagrada, nem ignorou a força das profecias. O que o Senhor prometera aos patriarcas não caiu por terra,- permanece inalterável atéhoj e Por conseguinte, no estudo da História Sagrada, atentaremos não somente ao que foi escrito, mas também ao que, providencialmente, foi omitido. Deus fala até mesmo quando se cala. E le nunca deixou de revelar-se aos seus filhos, conforme garante o autor da Epístola aos Hebr eus: “Havendo Deus, outrora, falado, muitas vezes e de muitas maneiras, aos pais, pelos profetas, nestes últimos dias, nos falou pelo Filho, a quem constituiuherdeiro de todas as coisas, pelo qual também fez o universo” (Hb 1.1,2).

I . Q U A TR O SÉCU LO S D E SILÊN C IO H IST Ó R IC O Na História Sagrada, há dois períodos de silêncio histórico. O primeiro, como já vimos, deu-se entre o Gênesis e o Êxodo. Já o segundo ocorreria entre o Antigo e o Novo Testamento. Por que esses hiatos'1 Tratemos essa questão com discernimento e cuidado, para chegarmos a conclusões plausíveis e revel adoras. I.

A preparação do cenário. Deus bem que poderia ter confiado, de vez, a Terra Prometida a Jacó

aos seus filhos. Afinal, j á havia uma promessa, uma teologia bem definida e uma base étnica delineada O Senhor, contudo, embora intervenha na História, não atropela processos históricos e sociológicos, pois almej a que o reconheçamos como o Soberano dos Céus e da Terra


Por essa razão, da morte de José ao nascimento de Moisés, Deus põe-se a trabalhar em silêncio. Nesse período, os cronistas sagrados nada escrevem, nem profetizam os servos de Jeová Entretanto, a História Sagrada não perde a sua continuidade, nem a profecia deixa de ser cumprida, O que Abraão ouvira do Senhor desenrolava-se naqueles séculos de mutismo histórico: “Sabe, com certeza, que a tua posteridade será peregrina em terra alheia, e será reduzida à escravidão, e será afligida por quatrocentos anos. Mas também eu j ulgarei a gente a que têm de suj eitar-se; e depois sairão com grandes riquezas” (Gn 15.13,14). Enquanto isso, ia Deus preparando o cenário para o Êxodo. No Egito, multiplicava-se o clã patriarcal; as tribos transformavam-se num grande e temível exército. Já em Canaã, o amoroso Senhor dispensava o tempo necessário para que as nações, ali instaladas, viessem a arrepender-se de seus grosseiros pecados. A saída dos israelitas do Egito, por conseguinte, só teria êxito se ocorresse no tempo certo. E, para tanto, era indispensável um cenário ideal, a fim de que os personagens separados por Deus pudessem atuar de forma decisiva 2. A preparação dos protagonistas do Exodo. Depois da morte dos 12 patriarcas, os israelitas tiveram de esperar 400 anos até que uma nova geração de lideres estivesse pronta, E, conforme sabemos, não é sempre que aparece um libertador com a fidelidade de Moisés, um sacerdote com a postura de Arão, ou um general com o coragem de Josué E imperioso que a nação sej a submetida a alguns processos históricos, sociológicos, políticos e teológicos, visando o seu amadurecimento. Tais processos são bastante morosos; requerem décadas e, às vezes, séculos. Era imprescindível, pois, que os hebreus deixassem a fase tribal, a fim de se erguerem nacionalmente Doravante, Deus não trataria mais diretamente com os patriarcas, mas haveria de tratar, através de seus profetas, com a nação. Os pais, contudo, jamais deixariam de ser lembrados como a principal referência teológica, ética e histórica dos hebreus. Nos momentos de crise e dificuldade, o Senhor apresentar-se-ia como o Deus de Abraão, de Isaque e de Jacó. Sua menção serviria, também, para lembrar aos israelitas que as alianças firmadas pelo Senhor com os antigos continuavam tão firmes quanto às leis que regem o Sol, a Lua, a Terra e as estrelas. Portanto, seriam essenciais 400 anos de trabalho silencioso e metódico, para que o Senhor formasse os protagonistas do Exodo. Não é da noite para o dia que aparecem homens da estirpe de Moisés. A ascensão de lideres, enfatizamos, demanda tempo, paciência, espera e oportunidade A História Sagrada não ignora processos, nem despreza a ocasião propicia 3. A espera do tempo da oportunidade. A História Sagrada não se baseia apenas no tempo cronológico; sua referência máxima é a presença de Deus na vida de Israel, da Igreja e dos gentios. Por esse motivo, o Senhor aguardou quatro séculos para intervir no Egito, obj etivando libertar os filhos de Abraão daquele amargo e duro cativeiro. A histórica secular divide-se em períodos e eras. Vai de uma fantasiosa pré-história a um pósmodernismo blasfemo e anticristão. A História Sagrada, por seu turno, não se prende a épocas ou fases;


guiada pelo Espírito Santo, narra as intervenções de Deus no Universo. Não foi por mero acaso, portanto, que o Senhor aguardou quatro séculos para libertar os israelitas. Era sua intenção redimir não somente Israel, mas o mundo todo, pois todos nos achávamos escravizados pelo pecado. O êxodo hebreu prefigurava a redenção cristã. Se 1ermos a História Sagrada sem a assistência divina, vê-la-emos como um mero processo político. Aliás, foi o que fizeram os proponentes da Teologia da Libertação na América Latina A Bíblia, contudo, longe de ser um panfleto de libertação nacional, mostra o Filho de Deus como o redentor e salvador universal. Sendo o evento pascal tão importante, aprouve a Deus silenciar-se por 4 0 0 anos, até que o tempo se fizesse oportuno. Se por um lado, a História Sagrada emudecia-se, por outro, a salvação era preparada no refúgio em Gósen.

I I . GO SÉN , O Ú T E R O D A N A Ç Ã O H E B R E IA Ao receber os irmãos no Egito, promete José ao velho pai que ainda se encontrava em Canaã: ‘Assim manda dizer teu filho José: Deus me pôs por senhor em toda terra do Egito; desce a mim, não te demores. Habitar ás na terra de Gósen e estarás perto de mim, tu, teus filhos, os filhos de teus filhos, os teus rebanhos, o teu gado e tudo quanto tens. Aí te sustentarei, porque ainda haverá cinco anos de fome; para que não te empobreças, tu e tua casa e tudo o que tens” (Gn 45.9-11). Ali, em Gósen, longe dos egípcios, os filhos de Israel haveriam de engrandecer-se como nação. Deixariam de ser dispersas e frágeis tribos, para se apresentarem como um povo forte, valoroso e único. 1. Gósen, uma terra excelente. Localizada no delta oriental do Egito, era Gósen uma terra de excelências. Ampla, fértil e mui receptiva, mostrava-se ideal a quem se entregava às lides do campo e à pecuária Sendo os israelitas dados à agricultura e afeitos ao gado, receberam a oferenda do Faraó como algo providencial e divino. A região de Gósen, embora isolada dos grandes centros, não distava muito de Mênfis, sede da corte egípcia, possibilitando a José visitar regularmente a família. 2 . Refúgio espiritual. Jacó, acompanhado de seus filhos e netos, chegou a Gósen como peregrino do Senhor. E le sabia que, apesar da amável acolhida de Faraó, o destino de sua família era a terra que Deus prometera a seu pai, Isaque, e a seu avô, Abraão. Por isso, seus descendentes teriam de preservar a fé no Deus Unico e \ferdadeiro. Caso contrário, perderiam a sua identidade espiritual e teológica Os israelitas eram uma ilha mono teísta cercada por um politeísmo militante, agressivo e sedutor. Os deuses egípcios achavam-se presentes em todas as cerimônias estatais, sociais e domésticas. A li estava o orgulhoso Amom, chefe dos deuses e senhor de todos os ventos. Logo mais, apresentava-se Anúbis, a divindade que controlava a morte; não faltava aos funerais.

E imperioso que a nação seja submetida a alguns processos históricos,


Com o os egípcios davam-se às ciências ocultas, incensavam à

sociológicos, políticos e

erudita Ramras, simbolizada por uma coru ja Doktm era a deusa da guerra Logo mais erguia-se Anukis, guia do N ilo e de

teológicos, visando o seu

todas as águas. Apis, visto no boi, era o senhor da fertilidade.

amadureci men to.

Não se pode esquecer a libertina Hathor. Simbolizada por uma vaca, era a diva do amor e da prostituição cultuai. Is is, a senhora da magia, não faltava às celebrações do Faraó, pois entretinha o soberano com seus truques baratos e tolos. Pelas ruas de Mênfis, era mais fácil encontrar uma divindade do que uma pessoa. E m Gósen, porém, habitaria um povo, cuj o Deus não era representado na criatura, porquanto é o criador dos Céus e da Terra Não habitava em templo algum, pois nem o céu dos céus seria capaz de contê-lo. Ali, naquele lugar isolado geográfica, social e espiritualmente, permaneceria Israel por quatro séculos. Se os israelitas habitassem em meio aos egípcios, teriam desaparecido em duas ou três gerações. Primeiro, assimilariam a religião do Nilo. E m seguida, ver-se-iam casando-se com as idólatras e dando-se em idolatrias. Providencial mente, Deus isolou-os naquele recanto, para que não se contaminassem quer pela religião egípcia, quer pela cananeia Aliás, o panteão cananeu era muito mais perverso, criminoso e deletério que o egípcio. 3.

Refúgio histórico. Ali, naquele refúgio, os hebr eus tiveram condições de preservar a História

Sagrada. Remontando a Noé, num primeiro momento, e, depois, ao próprio Adão, eles sabiam que descendiam do ramo messiânico da progênie humana. E, que, através de uma de suas famílias, viria o Desej ado de todas as nações. Com o o Gênesis ainda não havia sido escrito, fazia-se imprescindível que suas tradições orais e registros genealógicos se mantivessem incólumes. Por esse motivo, os israelitas não se misturariam, quer aos egípcios, quer aos cananeus. Doutra forma, a História Primeva transformar-se-ia num corolário de mitos, fantasias eblasfêmias. A História Sagrada, que tinha agora os israelitas como guardiões, não poderia ter o mesmo destino que tivera entre os camitas e j afetitas. Os filhos de C am desviaram-se logo, pervertendo a verdade divina. Quanto aos descendentes de Jafé, também não demoraram a transviar--se O resultado de toda essa apostasia é descrito pel o apóstolo Paul o: “Inculcando-se por

sábios,

tornaram-se loucos

e

mudaram a glória do Deus incorruptível em semelhança da imagem

de

homem

corruptível,

bem

como

de

aves,

quadrúpedes e répteis. Por isso, Deus entregou tais homens à imundicia, pelas concupiscências de seu próprio coração, para desonrarem o seu corpo entre si,- pois eles mudaram a verdade de Deus em mentira, adorando e servindo a criatura em lugar do Criador, o qual é bendito eternamente Amém!” (Rm 1.22-

Se os israelitas habitassem em meio aos egípcios, teriam desaparecido em duas ou três gerações.

25). Infelizmente, até os próprios filhos de Sem cairamna idolatria Naquele momento, portanto, havia


apenas uma família que ainda resguardava a História Sagrada Caso viesse a transviar-se, j azeríamos hoj e em trevas teológicas e históricas. Não saberíamos como responder a estas perguntas: “Quem fez o Céu e a Terra? E de onde eu vim7”. Felizmente, em Gósen, o Senhor, preservando os hebreus, preservou os primórdios da História Sagrada. 4 . Refugio moral e ético. Resguardando-se da religião egípcia, os israelitas resguardar-se-iam também da moral dos que a seguiam Os deuses do N ilo não eram melhores do que os da Grécia. Aliás, só mudavam de nome Amom, por exemplo, era adorado pelos gregos como o adúltero evingadvo Zeus. Já a des avergonhada Hathor era conhecida nas cidades hei enas como Afrodite, 1eviana e al coviteira. Se os deuses não rinham moral, o que dizer de seus adoradores? Amom j amais poderia exigir dos que o incensavam “Sede santos, porque eu sou Santo”. Santidade, aliás, era um atributo desconhecido nos panteões egípcio e cananeu. Por essa razão simples e óbvia, era imperioso que os filhos de Israel se isolassem da sociedade egípcia Os templos pagãos em nada diferiam de um bordel. Hathor, por exemplo, não se limitava à prostituição; incestuosa, apresentava-se como filha e esposa de Rá, Se os deuses eram tão libertinos e promíscuos, por que censurar o povo? As mulheres egípcias, altivas e vaidosas, não se resguardavam ao marido. Entregavam-se às aventuras extraconjugais como faziam suas deusas. Haja vista a mulher de Potifar que intentou levar José ao pecado. Não se tem notícia de sacrifícios humanos no antigo Egito. Entretanto, os servos do Faraó sepultavam-se com ele nas mastabas e pirâmides, a fim de o servirem na outra vida. Quanto à escravidão, era não somente praticada, mas institucionalizada em todo o país. 5. Refúgio cultural. Entre os israelitas e os súditos do Faraó, havia um abismo cultural e religioso intransponível. Antes de tudo, porque todo pastor de rebanho era abominação aos egípcios (Gn 46.34). Estes não conseguiam entender como aqueles sacrificavam ao Deus invisível os animais, que, para eles, eram sagrados. Nenhum natural da terra ousaria levar ao holocausto um boi, porque estaria queimando o venerado Apis, responsável pela fertilidade de suas terras. Isolados culturalmente, os hebreus tiveram condições de preservar seus costumes, sua língua, sua ética e, principalmente, sua religião. Em tudo isso, é impossível não ver a providência divina A região de Gósen, pois, teve um papel importantíssimo na história israelita Foi o útero no qual Deus gestou o seu povo antes de introduzi-lo na Terra da Pr omissão.

I II . JO S É , O F O R JA D O R D O IM P É R IO E G ÍP C IO Quando José assumiu a governança do Egito, reinava um Faraó de origem hicsa, cujo nome ignoramos. Mas, sendo ele também semita, tratou combenignidade os filhos de Israel, concedendo-1 hes a terra de Gósen por habitação. Era conhecido como rei-pastor. Por isso, confiou aos hebreus todo o seu rebanho. Sob este monarca, José transformou o Egito no reino mais poderoso da antiguidade.


1.

O plano econômico de José. No capitulo anterior, vimos que José, filho de Jacó, apresentou ao

rei do Egito um plano econômico simples, mas eficientissimo. U m plano que, embora fugisse aos cânones da moderna economia política, veio a salvar o Egito e os demais países do Oriente Médio. O êxito de seu projeto residia não em sua complexidade, mas j ustamente em sua simpleza, pois José, em algumas palavras, ejqjô-lo a Faraó (Gn 41.32-36). E m seu livro Quando o Amado Desce a o Jaidim, Marta Doreto de Andrade reconstitui com muita propriedade a intervenção divina através do j ovem hebreu; “O sábio conselho de José foi que, durante os anos de abastança, se armazenasse cereal suficiente para suprir a terra nos anos de escassez. Que bom se cada advertência viesse acompanhada de um conselho prático... Reconhecendo haver em José o Espírito de Deus, e que ninguém havia tão aj uizado e sábio como ele, Faraó instituiu-o governador do Egito. Possuindo agora autoridade sobre toda a nação, e devendo prestar contas unicamente ao rei, o j ovem José tinha diante de si a grandiosa missão de prover para os dias de privação. Tamanha tarefa exigia planej amento, e foi o que fez ele, sabiamente. Por certo não planej ou apenas meios de se recolher o mantimento, mas também de aproveitar os anos de fertilidade, encoraj ando e orientando o plantio. “Não havia chuvas no Egito, e a nação dependia totalmente das cheias do N ilo para sua irrigação e fertilização. Este segundo maior rio em extensão do mundo (o primeiro é o Amazonas) éformado por dois ramos chamados N ilo Branco e N ilo Azul. O primeiro começa num lago da Africa equatorial, e o segundo, nas montanhas da Etiópia. N o Sudão, as águas convergem num só rio, e prosseguem na direção norte, atravessando o Egito, onde se dividem em dois braços,

Resguardan d ose da religião egípcia, os israelitas resguardar-se-iam também da moral dos que a seguiam.

desaguando finalmente no seu delta, no Mediterrâneo. Não fosse o N ilo, a aridez tomaria conta de tudo, e o Egito seria parte do extenso deserto que atravessa a Africa setentrional e a Península arábica Foi com razão que Heródoto chamou o Egito de o ‘presente do N ilo ’, uma vez que o trans-bordamento do rio fornecia a base para a economia e a prosperidade desta nação. “Ao longo de seu percurso de aproximadamente 6 .6 9 0 km, o rio penetra alguns lagos, forma seis grandes cataratas e recebe águas de alguns afluentes. Contudo, são as chuvas de verão que caem em sua cabeceira que lh e engrossam o caudal, e causam as cheias responsáveis pela fertilização de suas margens. A cada ano, por volta do mês de j unho, o rio começava a transbordar na extremidade do dei ta, e a inundação ia crescendo até o mês de outubro, quando atingia o auge Então as águas começavam a retroceder, voltando ao nível ordinário somente no mês de abril. Tão logo começava a vazante, os egípcios iniciavam o cultivo, pois à medida que retrocediam, as águas iam deixando no sol o umedecido o seu lim o humoso e fértil, preparando-o para a lavoura Uma enchente fraca representava colheita insuficiente, e até mesmo fome. Era provavelmente desses aluviões que resultariam os sete anos de fartura prometidos por Deus nos sonhos de Faraó. O aviso divino garantia sete anos de excelentes inundações. Cabia aos homens aproveitar a bênção, arando e semeando o solo da melhor maneira possível, e armazenando ade­


quadamente o fruto das colheitas. Que preciosa cooperação haveria entre Deus e o homem! Deus entraria com os recursos naturais; o homem, com o trabalho. Era aqui que se fazia necessário ‘um homem aj uizado e sábio sobre a terra do Egito’ (Gn 41- 33).” Prossegue a autora j á citada: “Em cada um dos sete anos de fertilidade, houve o tempo de plantar e o tempo de colher; o solo egípcio foi arado e plantado, e trigais, cuidados até o momento da sega. Então, um quinto de toda a colheita, do pais inteiro, foi guardado em celeiros previamente preparados. C laro está que José não fez isto sozinho; o esforço foi nacional. Nomearam-se administradores em cada região para o ajudar na execução do plano (41.34), e o pais inteiro mobilizou-se Enquanto uns lavravam a terra, outros construíam silos em cada cidade, e até as cavernas naturais foram usadas como depósito. “A produção da terra do Egito foi farta, como Deus prometera, e um quinto de tamanha fartura representava um estoque incalculável. Enquanto pôde, José manteve registros detalhados de todo o cereal recolhido, até que os números alcançaram tal monta, que perderam o significado, “porquanto não havia numeração (Gn 41-49). “Nos sete anos de fartura, José guardou o excedente das colheitas. Vindo a caresda, foi buscar, nos armazéns reais, o suficiente para aplacar a fome do mundo. Nesse período, nem o Nilo, com todas as suas prodigalidades, foi capaz de salvar o país. Anukis, deusa daquele grande rio e de todas as águas, nada pôde fazer por seus filhos. Se não fora a intervenção do Deus de Israel, a mortandade teria campeado do Nilo ao Eufrates. “A seca assolou não só o Egito, mas também a Arábia, a Palestina e a Etiópia A diferença é que o Egito estava preparado, e agora podia sobreviver do cereal estocado. Nas demais nações, as gentes definhavam por falta de nutrientes. Essas nações não contavam com um José que as orientasse a aproveitar a estação oportuna. Felizmente, o precavido José armazenara o suficiente para sustentar o Egito e ainda amparar as nações vizinhas.” Logo espalhou-se a noticia de que no Egito havia mantimento. “Os egípcios tem muito trigo estocado”, era o que se ouvia das bocas famintas. O trigo, cultivado desde os primórdios, é o cereal mais utilizado na panificação, em todo o mundo. Seu grão, rico em amido, e contendo proteína, é o mais importante dentre os mencionados na Bíblia, e fez sempre parte da dieta dos israelitas (Gn 27.28; 30.14), que o têm como símbolo da bondade e da provisão divina (SI 81.16; 147-14)- E a provisão divina, agora, estava no Egito. Para lá dirigiram-se as demais nações em busca de alimento. Todos iam ter com José Em suas necessidades, de quaisquer espécies, o mundo sempre se lembra de correr para um servo de Deus. E José, em quem habitava não apenas a sabedoria, mas também o amor, “abriu tudo em que havia mantimento” (41-56). Ninguém que apelou para ele voltou de mãos vazias. Permitam-me, uma vez mais, recorrer ao texto de Marta Doreto: “Em breve tornou-se comum a chegada de caravanas ao Egito, em busca de pão. Mas certo dia, um grupo de dez homens chamou a atenção de José Nas faces barbudas e empoeiradas dos viajantes, ele reconheceu os seus irmãos. Estes, ao contrário, sequer imaginaram que aquele homem vestido de linho branco, à moda egípcia, com um colar de ouro no pescoço, fosse aquel e adolescente que, vinte e dois anos


antes, tinham vendido como escravo. Aprincípio, José tratou-os rispidamente, não por vingança, mas para descobrir se haviam mudado. Depois de certificar-se de que seu pai Jacó e seu irmão Benj amim es lavam vivos, e de testar-lhes de várias maneiras o caráter, ele deu-se a conhecer (Gn 42; 43; 44). José mandou vir de Canaã o restante da família, e supriu-os do que havia de melhor na terra do Egito. Seu coração perdoador e generoso colocou-o na posição de instrumento de Deus para preservação da semente de Israel (45.7)”. 2. O plano de austeridade de José. “Então acabaram-se os sete anos de fartura que havia na terra do Egito, e começaram a vir os sete anos de fo m e..” (Gn 41-54) A partir do oitavo ano, as águas do N ilo não subiram o suficiente para fertilizar a terra árida Não sabemos se a produção agrícola foi zerada já no primeiro ano de fome, ou foi-se extinguindo aos poucos. O fato é que se haviam encerrado os dias da prosperidade e da oportunidade. O momento exigia pul so firme e austeridade Se José não mantivesse a ordem no Egito, a desordem acabaria com o equilíbrio entre os reinos do Oriente Médio. Dentro em pouco, os países da região, organizando-se em coligações, deflagrariam uma guerra de conseqüências imprevisíveis, em busca de insumos básicos como o trigo e a cevada O hebreu, portanto, não se limitava a governar um país; suas atribuições iam além conservar a harmonia internacional. Nesse sentido, foi um dos maiores estadistas que o mundo j á conheceu. Internamente, tomou as seguintes iniciativas, a fim de preservar a ordem e, mais tarde, recuperar a economia do Egito: a arrecadação de todo o meio drcul ante, a compra de todos os rebanhos e, finalmente, o confisco das terras que, doravante, pertenceriam a Faraó, Aparentemente, tais medidas em nada diferiam dos decretos baixados pelos governos socialistas da ex-União Soviética, China, Camboj a, Coreia do Norte e Cuba Todavia, há muita diferença entre o hebreu e esses monstrengos comunistas que, de quando em quando, assaltam um país em nome de uma pretensa igualdade Os marxistas que conhecemos, desde Lênin a Fidel Castro, nivelam seus povos, tendo como parâmetro a fome, a miséria e a morte E, na busca de uma utopia ateia e insana, j á mataram milhões de pessoas, No Egito de José, entretanto, a planificação levou em conta a vida e o bem-estar das gentes. Nenhuma revolução fez-se necessária; uma intervenção humanitária foi suficiente A dialética política fez-se dispensável, 3. O recolhimento do meio circulante. Nos sete anos de seca e carestia, os egípcios gastaram todo o seu dinheiro nos armazéns reais. Em todo o país, j á não havia moeda alguma. Enquanto isso, a falta de víveres tornava-se crítica, conforme descreve o autor sagrado: “Não havia pão em toda a terra, porque a fome era mui severa,- de maneira que desfalecia o povo do Egito e o povo de Canaã por causa da fome” (Gn 47-13), Mais adiante, o relato bíblico desenha um quadro mais grave do que o da Grande Depressão de 1929, A situação era de tal forma desesperadora, que nem as classes mais abastadas viram-se a salvo: “Então, José arrecadou todo o dinheiro que se achou na terra do Egito e na terra de Canaã, pelo cereal que compravam, e o recolheu à casa de Faraó, Tendo-se acabado, pois, o dinheiro, na terra do Egito e na


Cerra de Canaã, foram todos os egípcios a José e disseram; Dá-nos pão; por que haveremos de morrer em tua presença7 Porquanto o dinheiro nos falta” (Gn 47.15). José bem que poderia ter cunhado mais moedas, para manter o dinheiro em circulação e o funcionamento mínio da economia. E le sabia, porém, que tal medida acabaria por levar o pais a um doloroso processo inflacionário. Nesse caso, tanto a nação como o Estado em breve estariam falidos, gerando um caos de proporções catastróficas. Por isso, opta por uma prática que não era desconhecida dos egípcios: o es cambo. Se não há dinheiro, que o trigo seja trocado pelos rebanhos que ainda pasciam pelos campos ressecados do al to e do baixo Egito. Ao povo que se achava em gravíssimo aperto, a proposta de José soou mais do que razoável: “Se vos falta o dinheiro, trazei o vosso gado; em troca do vosso gado eu vos suprirei” (Gn 4716). Caso não atentemos ao contexto em que José governava, seremos levados a pensar que o hebreu não passava de um governante oportunista e cruel. Todavia, ele prestou um grande serviço aos egípdos: o gado j á estava condenado a perecer, pois a seca infdidtava todo o Oriente Médio. Ia do N ilo ao Eufrates. Que rebanho suportaria a estiagem7 Mas, recolhendo-os, o governo teria condições de mantê-los, preservando um estoque mínimo para tempos mais favorávds. 4.

Terra por trigo. Já desprovido de dinhdro e de todo o seu gado, o que os egípdos poderiam

fazer7 Devorando-os a fome, foram procurar novamente José “Não ocultaremos a meu senhor que se acabou totalmente o dinheiro; e meu senhor já possui os animais; nada mais nos resta diante de meu senhor, senão o nosso corpo e a nossa terra. Por que haveremos de perecer diante dos teus olhos, tanto nós como a nossa terra7 Compra-nos a nós e a nossa terra a troco de pão, e nós e a nossa terra seremos escravos de Faraó; dá-nos semente para que vivamos e não morramos, e a terra não fique deserta” (Gn 47.18,19). Num único dia, os feudos e os latifúndios de todo o Egito são colocados sob o poder do Faraó. Mais uma vez, o governo de José mostra-se crud e oportunista. Todavia, o que o rei recebeu em troca de pão foram propriedades estérds, arrasadas esecas. Naqud e momento, tinham nenhum valor. Ninguém as queria nem de graça. Aqudas fazendas, outrora tão produtivas e enriqueddas p d o N ilo, j aziam desertas, pois seus donos, em busca de sobrevivência, haviam se concentrado nas grandes cidades, por estarem láos armazéns reais. O rei ato de Gênesis é bastante realista quanto à situação do Egito naquele instantes: ‘Assim, comprou José toda a terra do Egito para Faraó, porque os egípdos venderam cada um o seu campo, porquanto a fome era extrema sobre d es; e a terra passou a ser de Faraó” (Gn 47.20). Só não foram adquiridas as terras dos sacerdotes, pois estes eram mantidos pelas expensas reais. A fome vinha demonstrar, sutil mente, a inutilidade dos deuses pagãos. Bastou aquda carestia para que todo o sistema rdigioso egípdo viesse ao cimo. Não fora o Deus de Israd, o Egito e as demais nações do Oriente Médio não teriam sobrevivido, porquanto a seca era grave e crud, e j ánão conhecia fronteiras. 5. U m plano para reconstruir o Egito. Na voragem da crise, os egípdos j á não tinham dinheiro,


nem gado ou terra Tudo o que possuíam fora despendido na aquisição do pão cotidiano. Enquanto isso, os celeiros reais continuavam a abastecer o Egito, as nações vizinhas e os povos mais distantes. Não havia o que se negar: o país do N ilo era o celeiro do mundo. Todos dependiam das terras do Faraó para sobreviver. Aliás, durante o Império Romano, o pais ainda forneceria trigo aos rincões mais distanciados do mundo. Vol temos, porém, ao mundo de José. O que os egípcios dariam, agora, em troca de pão? Num momento de urgência e calamidade, a nação, como um todo, dá-se em serviços por sua subsistência E o que relata o autor sagrado: “Quanto ao povo, ele o escravizou de uma a outra extremidade da terra do Egito” (Gn 47-21). Neste instante, a pergunta faz-se pertinente “Com o um homem, que vivera as agruras da escravidão, poderia agora impôTa aos outros?” Antes de tudo, é necessário entendermos a situação do Egito naquele instante tão particular de sua história. Referimo-nos a um pais arrasado e desprovido de terras produtivas. U m país, enfim, que enfrentava uma crise severíssima que se arrastaria por sete longos anos. Poucas nações chegaram a experimentar semelhante cal amidade. D e 1914 a 1918, o Líbano enfrentou uma fome tão severa, que lh e devorou, em apenas dois anos, um quarto da

Se José não mantivesse

população. Nos anos de 1941 e 1942, a Grécia, durante a ocupação nazista, veio a perder 30 0 mil pessoas em decorrência

a ordem n o Egito, a

da falta de víveres. Na China, bastou um ano de penúria, em 1943, para que viesse a falecer mais de um milhão de seus filhos. O que dizer da Coreia do Norte? Alguns especialistas dizem que, só em 1996, mais de três milhões de homens,

desordem acabaria com o equilíbrio entre os reinos do

mulheres e crianças, pereceram por falta se insumos básicos

O rien te M édio.

como trigo, arroz e cevada. José necessitava, pois, de toda a mão de obra disponível para reconstruir o Egito. Por esse motivo, conclama o povo a unir-se em prol do soerguimento nacional: “Eis que hoj e vos comprei avós outros e a vossa terra para Faraó; ai tendes sementes, semeai a terra. Das colheitas dareis o quinto a Faraó, e as quatro partes serão vossas, para semente do campo, e para o vosso mantimento e dos que estão em vossas casas, e para que comam as vossas crianças” (Gn 47.23,24). José não queria fazer do Egito um leviatã que, às margens do N ilo, devoravam os incautos. E le tinha em mente tornar o país viável e humanamente sustentável. A servidão, por hora, era inevitável à promoção do bem comum Passada a contingência, os egípcios voltariam aos seus campos, semeá-los-iam e, alegremente, viveriam novamente da terra Fazendas e sítios tornar-se-iam produtivos. Na colheita, porém, continuariam a dar 20% dos grãos ao governo. O quinto seria armazenado para que, aparecendo outra crise, o Estado tivesse condições de intervir, prevenindo especulações, carestias e inflação. Diante do plano exposto por José, o povo responde cooper ativamente: ‘A vida nos tens dado! Achemos mercê perante meu senhor e seremos escravos de Faraó” (Gn 47 25). O interessante é que, durante os anos de estiagem, não se registrou mortandade alguma no Egito. José mostrou-se um governante tão sábio e precavido que, com dois planos simples e práticos,


transformou um país subdividido e politicamente frágil no maior império do mundo antigo. O primeiro plano foi exposto ao Faraó que, comprovando-lhe a viabilidade, aceitou-o de imediato. Quanto ao segundo, foi imposto ao povo que, de igual modo, acatou-o, porque sabia que, vencida a urgência, reaveria suas terras, tornando-as ainda mais produtivas. Somente um homem iluminado pelo Espírito Santo poderia agir de semelhante forma diante de uma calamidade mundial. A lei do quinto foi tão bem-sucedida, que o governo achou por bem perenizá-la, segundo registra o autor sagrado: “E José estabeleceu por lei até ao dia de hoj e que, na terra do Egito, tirasse Faraó o quinto; só a terra dos sacerdotes não ficou sendo de Faraó” (Gn 47.26).

A fome vinha demonstrar, sutilmente, a inutilidade dos deuses

IV . T E R M IN A A E R A D E JO SÉ Ao contrário de seus antepassados, José não teve uma

pagãos.

vida tão longeva. Se o pai morreu aos 147 anos, e o avó, aos 180, ele falecerá aos 110 anos de idade. Apesar de uma vida não muito longeva para os padrões biológicos da época, deixou ele um legado que se faria não somente imortal, mas eterno; insere-se na História Sagrada como um de seus maiores personagens. 1. U m testem unho de fé e perseverança. E m seu discurso no Sinédrio, o diácono Estêvão referiuse a ele de maneira particularmente gloriosa “Qs patriarcas, invej os os de José, venderam-no para o Egito; mas Deus estava com ele e livrou-o de todas as suas aflições, concedendo-lhe também graça e sabedoria perante Faraó, rei do Egito, que o constituiu governador daquela nação e de toda a casa real. Sobreveio, porém, fome em todo o Egito; e, em Canaã, houve grande tribulação, e nossos pais não achavam mantimentos. Mas, tendo ouvido Jacó que no Egito havia trigo, enviou, pela primeira vez, os nossos pais. Na segunda vez, José se fez reconhecer por seus irmãos, e se tornou conhecida de Faraó a família de José Então, José mandou chamar a Jacó,seu pai, e toda a sua par enteia, isto é, setenta e cinco pessoas. Jacó desceu ao Egito, e ali morreu ele e também nossos pais; eforam transportados para Siquém e postos no sepulcro que Abraão ali comprara a dinheiro aos filhos de Hamor” (At 7.9-16). José foi citado por Estêvão, porque o seu exemplo vem inspirando seguidas gerações. E le j amais deixará de ser contemporâneo. Não há quem não chore ao ouvir-lhe a história Com o um homem, vendido como escravo, veio a salvar o mundo? Num momento de emergência e tribulação, ordenou o rei aos súditos: “Ide a José”. Ele, porém, não era um simples governador. Profeta de Deus, sabia que o Senhor achava-se no comando de todas as coisas. 2. A profecia de José. Pressentindo apropria morte, José conclama seus irmãos e, no último ato do Gênesis, profetiza o Exodo: “E u morro; porém Deus certamente vos visitará e vos fará subir desta terra para a terra que j urou dar a Abraão, a Isaque e a Jacó” (Gn 50.24).


Quem haveria de se lembrar de uma promessa que j á se fazia história? José, porém, tinha certeza de uma coisa; Israel não permaneceria no Egito. Apesar de Gósen exibir tantas excelências e faturas, era-lhes uma terra tão estranha quanto Ur. Portanto, apesar dos 40 0 anos que ainda tinham pela frente, o dia da redenção não estava tão 1 onge. Os israelitas haveriam de deixar o pais do Faraó, para se apossarem da mais formos a das heranças. José estava prestes a reunir-se aos seus antepassados. Na congregação dos justos, estaria junto a Jacó, Isaque, Abraão, Sem, Noé, Enoque e Abel. A História Sagrada, porém, não seria descontinuada. Passados mais quatro séculos, os israelitas tomariam parte do maior evento soteriológico do Antigo Testamento: o Exodo. 3. O últim o desejo de José. V>1 temo-nos aos instantes finais de José Após mencionar o Exodo, faz um derradeiro pedido aos seus irmãos: “Certamente Deus vos visitará, e fareis transportar os meus ossos” (Gn 50.25). E le tinha certeza, naquele instante final do Gênesis, de que o Exodo dar-se-ia na estação apropriada Foi um ato de fé, conforme realça o autor da Epístola aos Hebreus: “Pelafé, José, próximo do seu fim, fez menção do êxodo dos filhos de Israel, bem como deu ordens quanto aos seus próprios ossos” (Hb 11.22). Ao pedir aos irmãos que os seus ossos subissem do Egito a Canaã, almejava José participar da grande procissão à terra de seus ancestrais. Além da fé tão comum aos santos, o governador do Egito era movido por uma imperturbável convicção profética 4 . A m o rte de um benfeitor da humanidade. Segundo algumas cronologias, José falece por volta de 1800 a C . Embora a data seja imprecisa, ajuda-nos a situar a narrativa sagrada no cenário secular. Vivesse ele em nossos dias, seria laureado com, pelo menos, com dois prêmios nobéis: o de economia e o da paz. A lém de administrar um pais em gravíssima crise, soube como manter a paz no mundo. Em momento algum, fez uso do poderoso exército que se achava ao seu dispor. Não empreendeu guerras de conquistas, nem tiranizou as nações mais fracas. Agindo dessa forma, manteve a ordem e a concórdia em todo o Oriente Médio. Nenhum pais teve de ameaçar o Egito para obter o trigo que excedia nos armazéns e silos do Faraó. José abriu-lhes liberalmente os celeiros, de maneira que todos tiveram acesso a uma subsistência digna naqueles tempos de carestia.

CO N CLUSÃ O 0 1 ivro de Gênesis é encerrado, aparentemente, com uma nota de condolência “M orreu José da idade de cento e dez anos; embals amaram-no e o puseram num caixão no Egito” (Gn 50.26). Nessas palavras, todavia, não temos nenhum informe fúnebre. Temos, sim, o epílogo triunfal de um homem que,

Num momento de emergência e tribulação, ordenou o rei aos súditos: “Ide a José”.


dando-se ao seu povo, entregou-se para livrar o mundo de uma fome severa e sem precedentes. Embora levado ao Egito como escravo, de lá saiu triunfalmente nos ombros daqueles que aj udou a salvar. Sem ele, não haveria as condições necessárias para a atuação de Moisés, Arão e Josué. Enfim, ele preparou o terreno para o êxodo hebreu Após a sua morte, teve o corpo embalsamado, mas não foi transformado numa múmia como aquele Faraó que, nos dias de Moisés, perseguiu e escravizou os filhos de Israel. José foi um herói da fé. Quer escravo, quer senhor, o seu exemplo continua a inspirar gerações. Ele j amais deixou de ser contemporâneo de nossos meninos, adolescentes e j ovens. Integro e fiel, ergue-se, nestes dias de escândalos e corrupções, como paradigma de um administrador que, de fato, se preocupou com o bem comum Que a sua história leve-nos a um compromisso mais sério com o Deus de Israel. Amém!


*-^Q /rieoo JOúCOüáy C b i' O O Ó & asi' Estu

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“O Gênesis fascina-me o espírito. Tudo nele é relevante, didático e belo. Até suas genealogias trazem-me preciosas exortações. Da criação do Universo à m orte de José, percorrem os um cam inho que, m arcado por agruras e provas, conduz-nos ao Criador. Veremos que Deus não se limitou a criar, mas deleita-se em revelar-se a cada um de seus filhos. Em cada capítulo, tenho uma experiência com o Deus de Jacó. Iniciemos, pois, o nosso contato com uma literatura alta e admiravelmente bem trabalhada. Mas este não é o seu mais elevado mérito. À semelhança dos demais livros da Bíblia Sagrada, o Gênesis é a inspirada e inerrante^Pãlavra de Deus. Não foi escrito apenas para encantar-nos a e s té tic a ,, mas para encaminhar-nos à ética do Criador:” ' ’.

Claudionor,>d%Áíi^íade é eçcritpj^conferencista, mir^istS/O^Çvangelho e&fijfosultor Teológico d |C P A ft.^ia s a d o com a ffc b é m escritora M#rta Dorétb de A ndrade{fl^';dois filhos, G unar3erg e Karen, q li| ihesdjer^m . três netos. Entre os seus cflvèrsos tiy ro á ^ ^ :-.-^ destacam -se: Os Sete Castiçais de Oúrp, Dicionário Teológico, Dicionário dà Profecia Bíblica, Geografia Bíblica, O Oitavo Segredo e As Novas Fronteiras da Ética* todos lançados pela CPAD.

O comeco de todas as coisas claudionor de andrade  

O Gênesis fascina-me o espírito. Tudo nele é relevante, didático, profundo, belo e devocional. Até as suas genealogias trazem-me preciosas l...

O comeco de todas as coisas claudionor de andrade  

O Gênesis fascina-me o espírito. Tudo nele é relevante, didático, profundo, belo e devocional. Até as suas genealogias trazem-me preciosas l...

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