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Velhos tempos, novos dias. A realidade de ser idoso no Brasil

Aluska, Kelly, Jeani e Rosiene

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“Nós ainda somos os mesmos e vivemos, como os nossos pais”. Elis Regina

À Aqueles que têm mãos calejadas, marcas de uma vida de trabalho, e aquelas que souberam ser mãe, antes mesmo das nossas. Vô e Vô.

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Sumário

Capítulo I – SER IDOSO Idoso e velho ------------------------------------------------- 05 Uma população que cresce e consome ---------- 10

Capítulo II – EU TENHO DIREITO! Idoso: Direito a vida, ao sorriso e a dignidade de ser reconhecido.---------------------------------------------------- 12

Capítulo III – NÃO É SÓ ENVELHECER Idoso e família ------------------------------------------------ 16 Vida nos asilos------------------------------------------------- 19 O cuidado fora dos asilos -------------------------------- 21 A relação cuidador e Idoso----------------------------- 23

Capítulo IV – PERFIS E as rugas engradecem o sorriso---------------------- 26 Quem tem a vida comprida puxa por ela. -------- 29 Pra viver o que eu vivi, só vivendo 80 anos.------- 34 Aluska, Kelly, Jeani e Rosiene

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Capítulo I

Idoso e Velho

“IDOSA é a pessoa que tem muita Idade; Velha é a pessoa que perdeu a jovialidade. A idade causa degeneração das células; A velhice causa degeneração do espírito. Por isso, nem todo idoso é velho e há velho que nem chegou a ser idoso. O mesmo ocorre com as coisas: há coisas que são idosas (antigas) e há coisas que são velhas. Um vaso da dinastia Ming (1368-1644) pode ser uma antigüidade, uma relíquia que não tem preço; outro de apenas 50 anos ou menos, pode ser um vaso velho a ser relegado a um depósito. Você é idoso quando pergunta se vale a pena; Você é velho, quando sem pensar responde que não. Você é idoso quando sonha; Você é velho quando apenas dorme. Você é idoso quando ainda aprende; Você é velho quando já nem ensina. Você é idoso quando pratica esporte ou de alguma forma se exercita; Aluska, Kelly, Jeani e Rosiene

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Você é velho quando apenas descansa. Você é idoso quando ainda sente AMOR; Você é velho quando só sente ciúmes e possessividade. Você é idoso quando o dia de hoje é o primeiro do resto de sua vida; Você é velho quando todos os dias parecem o último da longa jornada; Você é idoso quando seu calendário tem amanhãs; Você é velho quando seu calendário só tem ontem. Idosa é aquela pessoa que tem tido a felicidade de viver uma longa vida produtiva, de ter adquirido uma grande experiência; ela é uma porta entre o passado e o futuro e é no presente que os dois se encontram. O velho é aquele que tem carregado o peso dos anos; que em vez de transmitir experiência às gerações vindouras, transmite o pessimismo e a desilusão. Para ele, não existe ponte entre o passado e o presente, pois lá existe um fosso que o separa do presente, pelo apego ao passado. O idoso se renova a cada dia que começa, O velho se acaba a cada noite que termina, Pois enquanto o idoso tem seus olhos postos no horizonte, de onde o sol desponta e a esperança se ilumina, o velho tem sua miopia voltada para os tempos que passaram. O idoso tem planos, o velho tem saudades. O idoso se moderniza, dialoga com a juventude, procura compreender os novos tempos;

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O velho se emperra no seu tempo, se fecha em sua ostra e recusa a modernidade. O idoso leva uma vida ativa, plena de projetos e preenche de esperança. Para ele o tempo passa rápido e a velhice nunca chega. O velho cochila no vazio de sua vidinha e suas horas se arrastam, destituídas de sentido. As rugas do idoso são bonitas porque foram marcadas pelo sorriso; as rugas do velho são feias, porque foram vincadas pela amargura. Em suma, o idoso e o velho são duas pessoas que até podem ter, no cartório, a mesma idade cronológica, mas o que têm são idade diferentes no coração.” - Autor desconhecido No Brasil, segundo o Estatuto do Idoso (Lei 10.741, de 1º de outubro de 2003) considera-se idoso aquele que tem 60 anos ou mais, já para organização mundial da saúde esta classificação segue a seguinte ordem: 6O anos nos países em desenvolvimento e mais de 65 nos países desenvolvidos; dessa forma poderíamos dizer que os idosos do nosso país, considerado em desenvolvimento se enquadram na proposta da OMS1. Todas as definições partem do pressuposto de faixa etária do indivíduo associando-se aos 1

A Organização Mundial da Saúde (OMS) é uma agência especializada em saúde, fundada em 7 de abril de 1948 e subordinada à Organização das Nações Unidas. Aluska, Kelly, Jeani e Rosiene

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processos biológicos. Geralmente é nessa idade que os sinais do avanço da idade começam a aparecer, muitos já não seguem a mesma rotina de trabalho, a realidade começa a mudar, o cansaço, a aposentadoria, os netos e a memória de uma vida inteira de luta começa a se fazer presente nessa fase da vida. Para Camarano (2004) O conceito de idoso, portanto, envolve mais do que a simples determinação de idades-limite biológicas e apresenta, pelo menos, três limitações. A primeira diz respeito à heterogeneidade entre indivíduos no espaço, entre grupos sociais, raça/cor e no tempo. A segunda é associada à suposição de que características biológicas existem de forma independente de características culturais e a terceira à finalidade social do conceito de idoso. Daí muitos passam a utilizar o termo terceira idade, para definir esse período, depois de ultrapassar a infância e a fase adulta, o indivíduo chega à terceira idade o melhor idade como é denominada atualmente, mas será que estas pessoas estão de fato na terceira idade? Muitas vezes ao usarmos esse termo pensamos apenas nas características gerais dessa fase da vida, velhice cabelos brancos a fragilidade e a incapacidade do outro após atingir certo tempo de vida, e não atentamos para perceber que são pessoas normais, que estão em todas as camadas da população, afinal o envelhecimento

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é um processo comum a todos os seres humanos que conseguem alcança-lo. Ao questionar: ‘Será que todas as pessoas que tem mais de 60 anos estão na terceira idade? ’, é aberto um espaço para a discussão onde nós podemos perceber, que não é necessariamente a idade de você possui, ou as marcas que foram deixadas durante uma vida e que se tornam visíveis com o passar dos anos, que vai determinar o seu grau de velhice. Hoje em dia, há muitos jovens no sedentarismo, presos a uma vida cansada e desgastada, enquanto que a terceira idade luta para alcançar seus direitos, são exemplos de coragem e determinação e fazem valer o termo melhor idade. É preciso acreditar que nessa vontade de viver dos idosos esteja a resposta para muitas das nossas perguntas, é preciso enxergar o passado como algo prazeroso, pois o idoso aprende a elencar os fatos relevantes, positivos, do passado como matéria-prima para o dia a dia visando um futuro bem sucedido. Com isso o idoso tem sido encarado de formas diferentes a o longo do tempo e nas diversas culturas, há quem veja a terceira idade com olhos de respeito amor e dedicação à uma pessoa que carrega consigo inúmeras experiências de vida, como também há quem acredite que o ser humano ao chegar na fase idosa torna-se um objeto, que com um passar do tempo tende a ser descartado após o uso, seja pela perda da autonomia física e funcional, dificuldade de comunicação e interação com as Aluska, Kelly, Jeani e Rosiene

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gerações mais recentes ou pelo simples fato de acreditar que o que é velho não há valor. Investigando um pouco mais sobre o cotidiano dessas pessoas é possível enxergar, as contribuições, os desafios, as dificuldades e a realidade positiva ou não, enfrentada pelo idoso atualmente, e perceber a importância dos ‘cabelos brancos’ na nossa pauta diária e no cotidiano de uma sociedade como um todo. Uma população que cresce e consome O dados demográficos nos mostram que segundo o resultados das pesquisas do IBGE, pode-se observar um crescimento na participação relativa da população com 65 anos ou mais, que era de 4,8% em 1991, passando a 5,9% em 2000 e chegando a 7,4% em 2010. O crescimento absoluto da população do Brasil nestes últimos dez anos se deu principalmente em função do crescimento da população adulta, com destaque também para o aumento da participação da população idosa, na distribuição por região a população idosa se concentra em sua maioria na região sul e sudeste com 8,1 % da população e em seguida o nordeste, com 7,2%. A população idosa brasileira também movimenta a economia do país, os idosos de hoje não podem ser comparados aos idosos de décadas atrás, com o crescimento dos números de benefícios da previdência social nos últimos 30 anos, o Brasil praticamente erradicou a pobreza Aluska, Kelly, Jeani e Rosiene

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entre idosos, no início da década de 80 até o final da passada, a proporção de brasileiros entre 60 e 74 anos vivendo com menos de US$ 2 por dia (linha de pobreza segundo o Banco Mundial) caiu de 45% para 2%. Aumentaram também o consumo por parte destes, que a cada ano são vistas como um mercado consumidor solidificado. Como o exemplo de mercado que cresceu graças aos consumidores com mais de 60 anos podemos citar, o farmacêutico, pois grande parte da população idosa brasileira utiliza alguma medicação contínua como medicamentos para hipertensão, diabetes, Alzheimer entre outros. E crescem também as opções para aqueles que não possuem crédito suficiente pra atender a demanda do consumo, ou que necessitam de uma renda extra para atender necessidades especiais, estão sendo liberados cada vez mais, créditos consignados, os famosos empréstimos, que também fazem parte da realidade da terceira idade brasileira, porém o grande risco apresentado em relação a esses empréstimos e um possível

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endividamento, problema muitos idosos aposentados.

questionado

entre

Capítulo II

Idoso: Direito a vida, ao sorriso e a dignidade de ser reconhecido.

De acordo com a lei no Art. 3°, título I, Disposições Preliminares, todo idoso possui direito de ser reconhecido pela família, comunidade, sociedade e poder político, a prática de esporte, direito a saúde, á alimentação, educação, cultura e lazer. Embora existam atos de autoridades que ordenam os direitos aos idosos, ainda se percebe uma carência e descumprimento dessas leis, não se precisa apenas visibilizar um adulto com mais de 60 anos, perseverando o respeito de não discriminá-lo, porém pequenos gestos como, atendimentos preferenciais em filas de bancos, assentos públicos ou até ajudar a atravessar de uma rua para outra se necessário, são atitudes que se remetem não apenas ás regras, mas ao bom senso. Aluska, Kelly, Jeani e Rosiene

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No Art. 9° do Capítulo I, Direito à Vida, a lei aborda a obrigação do estado, garantir e da sociedade assegurar á pessoa idosa a liberdade, o respeito e a dignidade, como pessoa humana o sujeito de direitos civis, políticos, individuais e sociais garantidos na Constituição e nas leis. No Brasil a todo instante nos deparamos com as dificuldades no atendimento público, principalmente quando se trata de saúde e da espera por um serviço á exemplo do SUS, onde no Art. 15° do Capítulo IV, do Direito á Saúde, a lei afirma “É assegurada a atenção integral a saúde do idoso, por intermédio do Sistema Único de Saúde – SUS2, garantindo-lhe o acesso universal e igualitário, em conjunto articulado e contínuo das ações e serviços para a prevenção, promoção, proteção e recuperação da saúde, incluindo a atenção especial ás doenças que afetam preferencialmente os idosos”. Todavia embora seja oficial na Constituição ainda existem lacunas que contrariam essa imposição exemplo dessa afirmação a senhora Maria das Dores Pessoa de 64 anos, que espera uma cirurgia cardiovascular há 2

O Sistema Único de Saúde (SUS) foi criado pela Constituição Federal de 1988 para que toda a população brasileira tenha acesso ao atendimento público de saúde. Os princípios da universalidade, integralidade e da equidade são às vezes chamados de princípios ideológicos ou doutrinários, e os princípios da descentralização, da regionalização e da hierarquização de princípios organizacionais, mas não está claro qual seria a classificação do princípio da participação popular. Aluska, Kelly, Jeani e Rosiene

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um ano e até agora nada foi solucionado, e onde se fica a atenção especial? Será que em um ano o SUS não conseguiria um cardiologista para solucionar o problema? Seria essa a proteção e o direito a saúde de qualidade que os governos disponibilizam para uma população idosa? É necessário analisar que não é viável apenas á escrita em um papel, porém a prática dessas regras, os idosos precisam ser vistos como seres humanos que necessitam de cuidados especiais, iniciando da família até os demais que compõem um âmbito social, não se pode desprezar alguém tão importante e que possui uma parcela de contribuição na construção de uma sociedade atual. Para a secretária de Ação Social do município de Cubati, a senhora Valquiria Lopes (38), o idoso é um retrato experiente de todas as lutas passadas, “A terceira idade é um dos públicos mais importante da sociedade, pessoas que são fiéis em suas decisões e que se tornam ponto de amadurecimento e exemplo para todos que os rodeiam”, afirma a secretária exemplificando ainda que no seu âmbito de trabalho o CRAS 3 existe Grupo de idosos onde se encontram 3

O Centro de Referência de Assistência Social (Cras) é uma unidade pública estatal descentralizada da Política Nacional de Assistência Social (PNAS). O Cras atua como a principal porta de entrada do Sistema Único de Assistência Social (Suas), dada sua capilaridade nos territórios e é responsável pela organização e oferta de serviços da Proteção Social Básica nas áreas de vulnerabilidade e risco social. Aluska, Kelly, Jeani e Rosiene

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semanalmente chamado “A vida continua” e há 3 anos vivenciam esses encontros, participando de peças teatrais e eventos juninos como dançar em quadrilhas. Percebe-se que essas ações são deveres que o município tem que cumprir, haja visto que os idosos por lei são acobertados e querem demonstrar que ainda possuem capacidade de ser úteis e produtivos. Esperam assumir um lugar mais digno em sua comunidade. Só esperam de cada um de nós um cuidado e um olhar mais generoso para essa ideia; ainda persistente, de terceira idade como sinônimo de improdutividade, de pessoas fracas, amarguradas e aborrecidas, que só atrapalham; ser finalmente abolida. É preciso que os órgãos políticos, assim como a sociedade perseverem nesses direitos, fazendo uso do conhecimento exato de que a qualidade de vida é um direito de cada ser vivo, sem preconceito, maus tratos e exclusão social. Se cada um refletisse sobre como se dá sua existência no mundo perceberia, com responsabilidade os efeitos causados por suas ações. Grupo de idosos do CRAS do município de Cubati -PB

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Capítulo III

Idoso e Família A família é a primeira base de apoio do ser humano, não há dúvidas que as relações construídas no ambiente familiar em sua maioria, contribuem para o desenvolvimento pessoal, social e psicológico dos indivíduos, é através deste habitat que o ser humano cresce e se desenvolve, atingindo a vida adulta, onde sai do ninho para construir a sua própria família. O ciclo; infância, adulto, e velhice é algo comum a todas as famílias, onde podemos observar o papel dos idosos como pais e avós na importância dessa construção da identidade dos seus familiares. A relação idoso x família pode ser apresentada de várias formas, primeiramente podemos observar a velhice como um processo doloroso; os idosos que se enquadram neste caso podem ser chamados de ‘idosos dependentes’ que apresentam algum tipo de dependência física, financeira, ou funcional. Nesse grupo, a maioria das pessoas já apresenta um desgaste significativo e residem com família, nestes casos os cuidados caseiros são mais viáveis, uma vez que estas pessoas necessitam de cuidados específicos em atividades relativamente simples, como um Aluska, Kelly, Jeani e Rosiene

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banho por exemplo. O segundo grupo que pode ser analisado, são aqueles idosos independentes, que moram em sua própria casa, e apesar de sua idade avançada conseguem realizar sua atividades com autonomia, sem necessitar de cuidados específicos dos familiares, porém a autonomia destes em relação aos idosos dependentes não representa um fator decisivo para a ausência familiar. Em linhas gerais podemos afirmar que independente do tipo de idoso, a família que age direta ou indiretamente é um indicativo de suma importância, pois é nela que o idoso necessita de cuidados, apresenta as suas manias e acaba por envolver a família em torno de si, levando os mais jovens a olhar não só para si como também para tudo a sua volta. Porém atualmente essa relação vem sendo reconfigurada, a ausência dos parentes tornou-se algo comum na realidade vivida por essas pessoas, a função social da família na vida dos idosos vem sendo cada vez menos exercida, hoje a família é considerada nuclear onde convivem pais e filhos e as vezes até mesmo mães e filhos sem a figura dos avós. A questão da ausência passa a se problematizar quando apresenta resultados negativos, principalmente em relação a problemas psicológicos desenvolvidos na terceira idade, em conversa com a psicóloga Rebecca Athayde, ela afirma que o apoio social é uma variável que está diretamente relacionada com o bem estar subjetivo, e existem estudos que mostram que Aluska, Kelly, Jeani e Rosiene

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quanto maior o apoio familiar, menor as tendências depressivas, os pensamentos de morte, ou a insatisfação com a vida. Como exemplo temos o relato da senhora Isaura Fábio, que tem 80 anos e há 25 tornou-se vizinha da sua filha Socorro, ela afirma que estar perto de família foi a melhor coisa que ela fez, em todos os momentos alegres e tristes dos últimos anos, pois ela teve filhos e netos para compartilhar, e nunca passou pela cabeça algum desejo negativo porque a família é o bem mais precioso que ela possui.

Dona Izaura Fábio, 80.

Quanto maior o apoio maior será qualidade de vida dessas pessoas, apesar das dificuldades enfrentadas, a família torna-se o personagem primordial na terceira idade, conforme nos mostra o artigo 3º do Estatuto do Idoso: “É obrigação da família, da comunidade, da sociedade e do Poder Público assegurar ao idoso, com absoluta prioridade, a efetivação do direito à vida, à saúde, à alimentação, à educação, à cultura, ao esporte, ao lazer, ao trabalho, à cidadania, à liberdade, à Aluska, Kelly, Jeani e Rosiene

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dignidade, ao respeito e à convivência familiar e comunitária”. Portanto, pode-se concluir que, para a família prevenir, proteger, promover e incluir seus membros, é preciso garantir condições de sustentabilidade, é preciso que todos estejam empenhados em inserir estes membros na realidade social que eles vivenciam e que essas condições favoráveis sejam aplicadas. Vida nos Asilos Ser idoso é uma arte. Arte de ser bem cuidado, de merecer uma atenção maior, de ter longas histórias para contar, e de agora descansar, apenas descansar. Para alguns idosos que não tem o privilégio desses, uma das opções é procurar asilos, lugares onde pessoas se dispõem a fazer atos tão grandiosos e solidários. Em Campina Grande-PB o Asilo São Vicente de Paulo abriga pessoas da terceira idade, que por algum motivo optaram por não mais levar a vida em casa. É o caso da Senhora Marli Gonzaga, uma senhora de 90 anos, que vive no Asilo a quase dois. Marli perdeu os pais ainda muito jovem, teve apenas uma irmã e nunca casou, na Aluska, Kelly, Jeani e Rosiene

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juventude era enfermeira, hoje habita o asilo por opção da sobrinha, que por sua vez via a tia sozinha e com medo da violência, tomou a decisão. “No asilo Nós somos muito bem tratados, elas agem com uma delicadeza grande e podemos dormir tranquilos”, acrescenta Marli Gonzaga. Para os senhores de idade, os asilos servem como uma opção para quem não tem família, para quem sofre maus tratos e até mesmo por nenhum desses e sim, por uma escolha de um idoso que precisa de cuidados e não encontram em suas casas. Dona Marli, diz ser feliz e ter vários amigos, desde a juventude, foi uma pessoa alegre e calma que hoje sente falta da família e lembra com alegria de seu passado. O Asilo São Vicente de Paulo abriga senhoras e senhores de todas as idades e de várias cidades do estado, o espaço é coordenado por freiras, eles têm o tratamento adequado para a

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idade, com cuidados médicos horários marcados para refeições e tudo que um idoso precisa. Levam uma vida tranquila, com a presença de vários amigos, aqueles que chegam e aqueles que por uma vontade maior vão embora, deixando tristeza e um vazio aos que ficam. O cuidado fora dos asilos. É importante relatar, aqui, a vida do idoso fora dos asilos. A presença da família é primordial na vida dos idosos, porém, muitos hoje em dia, por falta de tempo e ou paciência tem entregado os cuidados nas mãos de segundos. É preciso fazer uma seleção muito rígida antes de confiar a pessoa de melhor idade a alguém desconhecido. Muitos aceitam cuidar por que necessitam mesmo do salário, outros simplesmente por questão de solidariedade. Aí pergunto. A pessoa que está sendo paga é mesmo de confiança? Ou seria mais de confiança do que um próprio parente? A família pode ou consegue contribuir nessa faixa etária? Ou contribuem apenas com os custos? Hoje em dia pouco se ver um filho (a), uma nora, ou qualquer que seja o grau de parentesco, tomando para si os cuidados que um idoso necessita.

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As histórias de maus tratos contra a terceira idade são constantes no nosso cotidiano. Para isso existe a Lei que protege o idoso, o Art.226, parágrafo 8º defende a coibição de violência no seio familiar. O estatuto define diversas medidas de proteção às pessoas com melhor idade, dentre elas a punição de seis meses a 12 anos de cadeia por maus tratos aos idosos. Tanto como uma criança precisa de cuidados e atenção, assim também são os idosos. Levando em conta que todos vão envelhecer um dia, não há explicação para humilhar e mal tratar quem nos carregou em seus braços, nos deu carinho, nos ensinou e nos privou de tantas coisas ruins na vida. Seja por necessidade ou solidariedade, quem se dispõe a cuidar, deve fazêlo com respeito, dignidade e amor. Relação entre cuidador e idoso Geruza Barbosa de Medeiros de trinta anos é cuidadora de idosos desde os 17 anos de idade. Há um ano e meio, cuida de Maria Helenira Almeida da Silva, 78 e Francisco Adão José da silva, 80, cadeirante. Apesar da atenção que recebem da família, é preciso todo um cuidado com a higiene, alimentação e remédio, por isso se fez necessário à presença da cuidadora. Geruza mora no sítio Mãe Joana, mas passa a semana em Aluska, Kelly, Jeani e Rosiene

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Campina Grande, diz que não é fácil deixar a família e que sente muita saudade de todos, mas o que ela pode fazer pelo seu filho através do seu trabalho já compensa o tempo que eu passa longe deles. Em depoimento, conta emocionada que quando começou a cuidar deles fazia quatro meses que seus avós tinham falecido, então se apegou muito aos dois. “Eu já estava entrando numa depressão que não me fazia bem, então Deus colocou eles no meu caminho e eu no caminho deles, pois naquele momento eu estava necessitando de dá carinho e receber também.” Fala que sente o maior prazer no que faz e que se um dia Deus tirasse um da vida do outro, ela não abandonaria a profissão, pois não gosta de trabalhar para gente nova. “Aqui existe uma relação de pais e filho, preciso sim do salário que ganho, mas amo o que faço, sempre amei. Quando a gente trabalha com amor tudo vai bem, tudo dá certo.” Todo esse carinho é recíproco, dona Helenira e seu Francisco expressam o que sente pela sua cuidadora. “É mais que uma filha para Aluska, Kelly, Jeani e Rosiene

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nós, confiamos muito nela, no que podemos ajudar a gente ajuda, pois o que recebemos em troca é muito mais do que fazemos por ela. Todo final de semana ela vai embora e só vem na segunda, mas nossa vontade era ter ela sempre por perto, só pra gente [risos]. E é isso. Não permitimos nada de errado com ela, mexeu com ela mexeu com a gente também.”

Mas esta relação existe de igual forma na vida de todos? Por toda parte sempre podemos tomar conhecimento de alguma história como essa, o lamentável é que essa relação não existe em todo lugar, há casos de maus tratos que nos indignam bastante. Segundo os dados da Fundação Perseu Abramo4, são 18 milhões de idosos vivendo no país atualmente. Destes, 35%, ou seja, três em cada dez, já foram vítimas de humilhação, ameaças, abandono, agressão física, discriminação, exploração financeira e até mesmo abuso sexual. A pesquisa foi realizada recentemente nas cinco regiões do país.

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Fundação criada pelo Partido dos Trabalhadores (PT) tem por objetivos a pesquisa, a elaboração doutrinária e a contribuição para a educação política dos filiados do PT. Aluska, Kelly, Jeani e Rosiene

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Numa matéria investigativa, em 23 de agosto de 2010, o Repórter Record5 mostra os diversos tipos de maus tratos. As agressões de enfermeiros, enfermeiras e empregadas, pessoas que recebem dinheiro para ministrar cuidados e que, algumas vezes, usam de violência contra seus pacientes. Dão socos, pontapés, puxam os cabelos... As agressões são tantas e tão fortes, que alguns idosos acabam morrendo, vítimas do espancamento. Com uma câmera escondida, os produtores entraram em asilos clandestinos. Flagraram geladeiras vazias, remédios vencidos, velhos mijados e largados. Flagraram também o abandono de velhinhos pela família. A dor de quem cuidou de seus filhos a vida toda e agora não recebe os mesmos cuidados. A dor de quem lutou a vida inteira para receber uma aposentadoria pequena e, mesmo assim, acaba sendo roubado pelos próprios parentes. A dor dos velhinhos que não têm onde morar, que vivem nas ruas, pedindo esmolas e em abrigos da prefeitura, em fim, que foram completamente esquecidos.

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Programa jornalístico temático e semanal. Aluska, Kelly, Jeani e Rosiene

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Capítulo IV - Perfis

Muitos deles são responsáveis pelo sustento dos seus familiares e concentram a renda em muitos domicílios brasileiros, idosos que cuidam de filhos, netos e acabam invertendo a cena comum de incapacidade que nos é apresentada. Todos desejam amar e ser amados, distribuir esse amor, poder compartilhar momentos importantes de suas vidas, chegar à determinada idade com perseverança de quem viveu, e a jovialidade de quem ainda tem muito pra mostrar e que o passado tornou-se algo tão rico quanto a satisfação e a emoção de relembrar e reviver isso no presente. A seguir serão apresentados perfis de pessoas que passaram dos 60 com uma certeza: “Se chorei ou se sorri o importante, é que emoções eu vivi”. E as rugas engrandecem o sorriso A senhora Maria da Paz Pessoa de 62 anos é personagem da vida real que nos narra com demonstração e orgulho em uma manhã de Domingo no balanço da cadeira, ao canto dos pássaros a sua trajetória de vida até os dias atuais.

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Nascida em 16 de Março de 1950, no sítio Praia Nova, região do município de Cubati, dona Maria dividiu sua infância e adolescência com 26 irmãos, desde criança trabalhou na zona rural no setor de agricultura, e depois se tornou professora do ensino primário como era identificado na época, onde permaneceu 12 anos educando e perseverando em prol do conhecimento. Casou-se com 23 anos, onde teve três filhos, Jakson Pessoa, Laudienne Pessoa e Jaqueline Pessoa, esta última veio a falecer ainda recém nascida. Mesmo com problemas pessoais, familiares e de saúde já que ela foi internada várias vezes vítima de derrames cerebral, dona Maria não se conteve e após sua separação matrimonial, ela demonstrou um espírito de fortaleza, criando seus dois filhos; por consequência de tantas dificuldades, abandonou a sala de aula e nos anos 90 retorna as atividades não mais atuando como educadora e sim como doméstica e trabalhou durante 10 anos. “A vida sempre foi dura comigo, Aluska, Kelly, Jeani e Rosiene

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mas hoje percebo que valeu a pena, o que é fácil se vai depressa, o que nos custa sacrifício permanece conosco”, relata dona Maria após um silêncio que prevaleceu alguns segundos durante a conversa, dando a entender que a reflexão de sua história permanece a emocionar em cada palavra pronunciada, coisas que não se veem pelas rugas, porém são percebidas em cada palavra de amadurecimento. Atualmente a senhora Maria da Paz vive em um sítio próximo a cidade de Cubati e para ela lugar melhor não há, a rotina da zona urbana estressa, o conveniente é morar em um lugar onde se “reine” paz e oportunidade para trabalhar com a agricultura. Avó de cinco netos explica quando indagada sobre o que significa a família “Batalhei muito para criar os meus filhos, rezo todos os dias para que Deus conceda a mesma alegria ao ver meus netos, homens e mulheres de bem, me orgulho da família que tenho e que eles possam acreditar nos planos de Deus, e os digo sempre que já sou senhora e nunca usei isso como pretexto para acomodar e não buscar aquilo que quero, a vida ensina, mas a determinação transforma”. Dona Maria causa orgulho, porque existem tantos que criticam a vida e se quer pararam para pensar no que ela pode representar e no quanto os idosos são reflexos e exemplos disso, “Tenha sempre a convicção que a pele se enruga, o cabelo embranquece, os dias convertem-se em anos e atrás de cada conquista um aprendizado”.

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Quem tem a vida comprida puxa por ela A casa simples na ladeira, cheia de janelas numa tarde ensolarada, foi o cenário de uma conversa com uma mulher dona de uma história de vida incrível. Claudina Ferreira Silva nos relata com uma boa dose de sinceridade, emoção, e bom humor, momentos inesquecíveis. Bisavó, avó, e mãe; Dona Dina, como prefere ser chamada, é nada mais nada menos que avó de 32 netos, bisavó de 34, e mãe de 22 filhos e mais um adotivo. Na simplicidade de suas histórias, em meio a tantas dificuldades, ela conseguiu formar essa família numerosa que “se fosse juntar todo mundo, essa casinha aqui não cabia nem a metade do povo”, declara Dona Dina. Herdou o nome Claudina, da própria assinatura da família de sua mãe, pertencia à Aluska, Kelly, Jeani e Rosiene

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família Claudino, formada por marceneiros da região. Nascida em 01 de julho de 1924, no sítio Logradouro, onde hoje está localizada as proximidades da BR 230, aos 87 anos ela é dona de uma memória invejável, lembra detalhadamente da maioria dos períodos de sua vida, desde os seus sete anos de idade quando ficou órfã e teve que percorrer vários lugares do interior da paraíba ao lado de 6 irmãos; dois mais velhos e quatro menores, até os dias atuais, nos momentos em que ela segura os seus bisnetos no colo para contar essas histórias. E quem disse que velho não consegue fazer mais nada? Como uma boa agricultora e dona de casa, lavar roupa e capinar as plantações de fava no quintal não é problema para Dona Dina. Mas por trás de uma história de alguém que lutou e batalhou a vida inteira, Dona Claudina relembra fatos tristes que ficaram marcados, como uma infância sofrida com a ausência dos pais “foram épocas de dificuldades, não cheguei a aprender a ler e ter essas oportunidades que vocês tiveram na vida, o que eu sinto mais falta é do meu estudo, na idade que vocês estão hoje, eu já tinha vivido muita coisa, já tinha trabalhado demais pela casa dos outros” declara dona Dina emocionada. Como alguém que percorreu muitos lugares da Paraíba, Dona Dina sai do sítio Cafula onde foi criada, e passa a morar em outras comunidades rurais da redondeza, residiu na cidade de Riachão do Bacamarte, depois na Capital, onde passou seis meses e lembra com alegria “foi um dos melhores Aluska, Kelly, Jeani e Rosiene

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lugares que vivi, já não tinha tanta dificuldade, me recordo bastante de uma amiga chamada Lourdes que eu tinha lá”, depois de João Pessoa foi à vez de peregrinar pelo Cariri Paraibano, onde passou seis meses, três deles, sem andar por um problema de saúde, quando perguntamos o motivo ela nos surpreende com a resposta: __ Fui picada por uma cobra cascavel na perna e quase morri, __ E o veneno, trouxe alguma sequela? __ Sim trouxe, mas o poder de Deus é maior, ‘Quem tem a vida comprida, puxa por ela’, estou aqui contando a história. __ E como a senhora conseguiu se curar sem os recursos que temos hoje? __ Rapadura minha filha, comi até abusar, por isso que até hoje tenho abuso, e um pouquinho de diabetes [risos]. Essa é apenas uma das muitas histórias que Dona Dina nos conta com muita alegria e sinceridade em nossa conversa. Perguntando sobre a coisa mais inusitada que ela já fez ela nos respondeu: “foi fazer uma promessa que se um feijão que eu tinha lucrado na última safra aparecesse, por que ele estava sumido, eu colocava o nome de todas as filhas que eu tivesse de Maria, meu feijão apareceu, na época eu era solteira, mas eu tive que cumprir”.

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De fato dona Claudina cumpriu sua promessa, dos seus 22 filhos, hoje ela tem sete Marias, todas nascidas e criadas num casinha de taipa simples na zona rural de Massaranduba, viveu a vida toda basicamente da agricultura, do trabalho no campo, e da produção de alguns artesanatos como objetos em argila, as famosas panela de barro, e os bordados em labirinto, herança que deixou para algumas de suas filhas. Em 1983, Dona Claudina se muda para a cidade de Massaranduba onde reside até hoje, um ano depois perde seu esposo, senhor Severino Venâncio, e passa a morar com a filha caçula que lhe deu 4 netos e 1 bisneto, o que permitiu que dona Claudina nunca saísse do clima de família, de casa cheia. Perguntado aos seus familiares como eles definiriam essa mulher eles respondem: Um exemplo de vida, ela é incrível. E não são só netos biológicos que demostram esse amor por ela, dona Dina também e rezadeira e 90% dos bebês recém nascidas, jovens e adultos, já passaram pelas bênçãos contra mal olhado da “vó Dina” como alguns chamam. Ela ainda afirma que seu hobby é não ficar parada e que se sente útil quando pode fazer alguma coisa; sempre bem disposta, facilmente a encontramos pelo quintal cantarolando com uma voz de fazer inveja “Você foi embora, nunca mais voltou, eu sei que você tem um novo amor”, e se você pensa que ela só gosta de música antiga, tem que ter pique pra ouvir Paula Fernandes, comer Pizza e tomar Coca-Cola com ela. Aluska, Kelly, Jeani e Rosiene

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Exemplo de determinação, Dona Claudina tornou-se uma pessoa especial na vida de muitos, levando uma alegria que nem todos os jovens de 20 ou 30 anos possuem. Definir alguém desse tipo em apenas uma conversa ou em palavras de um texto seria impossível, mas ela nos deixa a lição que é uma idosa, mas não velha. “O velho é aquele que tem carregado o peso dos anos; que em vez de transmitir experiência às gerações vindouras, transmite o pessimismo e a desilusão, já idosa é aquela pessoa que tem tido a felicidade de viver uma longa vida produtiva, de ter adquirido uma grande experiência; ela é uma porta entre o passado e o futuro e é no presente que os dois se encontram”. E basta olhar pra vida de Dona Claudina e perceber nitidamente o que é ser idoso.

Dona Claudina 87,e seu bisneto Renan,3. Aluska, Kelly, Jeani e Rosiene

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Para viver o que eu vivi, só vivendo 80 anos como eu. Francisco Adão da Silva nasceu em Souza, no Sertão da Paraíba, no dia 05 de setembro de 1931. Em 1949 veio para campina Grande. “Vim morar com minha avó e meu avô com 17 anos de idade, nunca gostei desse negócio de sítio. Um dia ganhei um cavalo lindo, mas acabei dando ao padre, preferia uma bicicleta quebrada [risos].” Tinha 26 anos quando se casou com Maria Helenira. Segundo seu Francisco, sua esposa morava em Lagoa Nova e veio para Campina grande estudar no Colégio Alfredo Dantas, terminou contabilidade, trabalhou numa farmácia e fez um curso de costureira, mas só costurava

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para família. Na verdade ela sempre foi uma boa dona de casa, diz. Na sua atual casa moram as lembranças de uma vida feliz. No primeiro andar, onde funcionava uma boate, guarda discos da época e lindos quadros, tem em média de 400 retratos que ele mesmo pintava da família e de amigos. No quintal, as paredes são uma verdadeira arte, tem diversas pinturas de capa de discos de cantores e artistas como Orlando Silva, Vicente Celestino, entre outros em que se considera fã. “Eu sei a história desses artistas, o dia que nasceu e morreu e, de cabeça, todas as músicas [...] esse é um espaço de muitas boas recordações [...] colocava mesas aqui e cantava até o dia amanhecer com amigos.” Dona Helenira conta que a maior perdição da vida de seu Francisco foi o vício em uísque e cigarro, mas já não pode mais beber por conta dos remédios que toma. Fala que ele sempre foi inteligente e era considerado um dos homens mais elegantes de Campina Grande, até hoje se acha [risos]. Foi um boêmio cantava e tocava na rádio Borborema que hoje é Rádio Clube e toda sextafeira fazia seresta com amigos no quintal de casa, tem cerca de 70 DVD’S gravados. Amava cinema e já frequentou de tudo – igreja, cabaré. Em fim, aproveitou bem a vida. Aluska, Kelly, Jeani e Rosiene

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Hoje é aposentado, tem dois filhos – um mora em Manaus e o outro é professor de engenharia na UFCG. Viveu um momento triste da sua vida, quando, com 79 anos de idade, teve que amputar a perna direita, consequencia de uma má circulação por falta de exercícios físicos. Depende de uma cadeira para cada necessidade, mas ainda assim carrega um sorriso no rosto. “Depois de tanta coisa resolvi me aquietar, vendi meus imóveis e ainda me restam duas casas que também pretendo vender, pois quero tranqulidade agora. Tenho a sensação que já vivi tudo que podia”.

Poema do idoso Se meu andar é hesitante e minhas mãos trêmulas, ampare-me. Se minha audição não é boa e tenho de me esforçar para ouvir o que você está dizendo, procure entender-me. Se minha visão é imperfeita e o meu entendimento escasso, ajude-me com paciência. Se minha mão treme e derrubo comida na mesa ou no chão, por favor, não se irrite, tentei fazer o que pude. Aluska, Kelly, Jeani e Rosiene

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Se você me encontrar na rua, não faça de conta que não me viu. Pare para conversar comigo. Sinto-me só. Se você, na sua sensibilidade, me ver triste e só, simplesmente partilhe comigo um sorriso e seja solidário. Se lhe contei pela terceira vez a mesma história num só dia, não me repreenda, simplesmente ouça-me. Se me comporto como criança, cerque-me de carinho. Se estou doente e sendo um peso, não me abandone. Se estou com medo da morte e tento nega-la, por favor, ajude-me na preparação para o adeus. - Autor Desconhecido

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Referências Bibliográficas CAMARANO, Ana Amélia; Kanso, Solange; Mello, Juiana Leitão e. Como vive o Idoso Brasileiro? CAMARANO, Ana A. (orgs.) Os Novos Idosos Brasileiros: muito além dos 60? Rio de Janeiro, IPEA, 2004. 604p. (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada – IPEA – set/2004). OLIVEIRA, M.M; RENTE, E. C. A terceira idade: a melhor fase da vida? Trabalho de graduação apresentado ao curso de Psicologia do Centro de Ciências Biológicas e da Saúde da Unama como parte dos requisitos necessários à obtenção do grau de Bacharel em Psicologia. Belém, Unama (Universidade da Amazônia), 2002. 33p. Maus tratos contra Idosos – Portal do Envelhecimento, Disponível em<<http://portaldoenvelhecimento.org.br/noticia s/violencias/maus-tratos-contra-idosos.html >> Acesso em 15 de junho de 2012.

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LIVRO REPORTAGEM - Velhos tempos, novos dias  

Trabalho de Jornalismo Impresso II

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