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BALMARY

LE SACRIFICE INTERDIT

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UMA REFLEXÃO SOBRE O LIVRO :

“LE SACRIFICE INTERDIT”

Jean Bartoli Nesse trabalho, queremos destacar alguns aspectos da reflexão de Marie Balmary sobre as analogias que existem entre a leitura psicanalítica e a leitura feitas pelos textos bíblicos da realidade humana. Usaremos o livro “Le sacrifice interdit” 1 PONTO DE PARTIDA A autora lê a obra de Freud e a Bíblia sem querer abandonar nenhuma! Antes de comunicar o resultado de suas pesquisas, Balmary quer contar algo do seu itinerário como leitora dos textos bíblicos e psicanalíticos e como isso afeta a sua experiência

de

vida.

Afinal,

psicanálise

e

tradição

bíblica

parecem

ser

fundamentadas em narrativas que dão conta respectivamente de experiências do inconsciente e de experiências do “divino” palavra vaga que convém no inicio desse caminho. Muitos obstáculos existem para esse tipo de leitura. O mais importante deles chama-se Freud. Desde os primeiros anos de suas descobertas até o fim de sua vida, Freud tentou entender os mistérios da origem da vida espiritual do homem vida psíquica, vida moral, vida afetiva, todas essas palavras poderiam convir embora nenhuma baste. Quais pensamentos, quais sentimentos experimentaram nossos primeiros ancestrais, os primeiros homens uns em relação aos outros? Freud tentou responder essa segunda pergunta depois de ter avançado na tentativa de resposta a uma primeira pergunta: quais são os desejos de uma pequena criança quando ele desperta para a vida no seio de uma família? Freud achou possível, a partir de suas pesquisas sobre a primeira pergunta (a infância) atravessar as respostas que as religiões e as mitologias tentavam dar à segunda (a origem). Ele pensou poder situar-se anteriormente aos textos bíblicos onde o homem tenta contar para si mesmo a vida e o espírito: de fato, a tradição bíblica faz intervir uma pessoa

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BALMARY, Marie, Le sacrifice interdit, Freud et la Bible, Paris, Grasset, 1986

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misteriosa, Deus. Freud dispensou totalmente esse mistério e tentou explicar o que aconteceu “no começo”, mais exatamente em três começos: o da humanidade, o do povo de Israel, o da Igreja cristã. Balmary conta que ela foi levada a questionar a obra teórica de Freud, que diz respeito à infância de cada homem assim como à infância da humanidade, quando foram publicadas algumas obras biográficas sobre ele. Alguns elementos novos, que pareciam ignorados inclusive por Freud, foram revelados: por exemplo que o pai de Freud teria sido casado três vezes e não duas como Freud acreditava e escrevia. Por que esses segredos? O que escondiam? Quem eles protegiam? Pareciam querer preservar a figura exemplar dos pais e principalmente a do pai. Pareceu então estranho que a teoria psicanalítica que inocentava o pai de graves ofensas contra a criança, foi inventada bem no momento que seu autor tinha que viver o luto do seu velho pai, ele mesmo inocentado pelo segredo familiar. Freud então não queria acreditar nas suas pacientes como antes, quando elas traziam narrativas de agressão sexual por um pai ou um irmão. E foi no momento em que ele inocentou seu pai morto, em que ele suspeitou fabulação nas narrativas de suas pacientes, que ele descobriu o complexo de Édipo. A coincidência chamou mais ainda a atenção quando nossa autora percebeu que o uso que ele fazia do mito contradizia o próprio mito. A tradição assim como a tragédia não situa a origem da infelicidade de Édipo nos desejos incestuosos e parricidas de Édipo. Esses crimes são a conseqüência involuntária de uma sucessão de graves erros simbólicos (as pessoas não estão mais no seu verdadeiro lugar nas relações) e de um crime: um ato de sedução e de seqüestro homossexuais cometidos pelo pai de Édipo sobre o filho de seu hóspede, levando o jovem ao suicídio. Esse crime foi punido por uma maldição proibindo Laio de ter um filho, senão esse o mataria. A cientificidade do complexo de Édipo, como Freud a concebia, estava sendo questionada; não se podia ver em Édipo nem no indivíduo humano o único responsável por seu destino ou sua neurose. A transmissão da culpa escondida de geração em geração parecia bem bíblica! Balmary começou a questionar também a transposição do complexo de Édipo para o conjunto da humanidade. Essa barragem que Freud opunha às religiões judaica ou cristã, fazendo delas as conseqüências do crime dos filhos contra o pai, não oferecia mais a mesma solidez quando se constatava que Freud não tinha levado em consideração, no plano familiar, clínico e mítico, o mesmo fato: os pais e 3


os educadores podem ter cometido atos repreensíveis contra a criança, esses atos que tinham relações com os que sofriam: o herói mítico, os pacientes de Freud e ele próprio. Quando Freud se tornou questionável, o obstáculo que ele representava para o caminho bíblico foi descartado. Ele tinha escrito Totem e Tabu onde ele explicava pelo assassinato do pai a origem da cultura. Esse livro queria substituir o Gênese, propondo uma outra origem, uma outra culpa original. Assim como seu Moises e o monoteísmo que contava o assassinato de Moisés pelo seu povo fechava o acesso aos outros quatros livros do Pentateuco. Uma vez descartadas essas suposições, os cinco livros da Tora podiam ser de novo visitados. Em conseqüência, o assassinato do pai não sendo mais aceito como explicação universal da religião, a historia de Jesus de Nazaré não precisava mais ser lida como a expiação pelo filho do crime perpetrado contra o pai: a estrada dos evangelhos se abria também. Só faltava um elemento para poder ler a Bíblia como psicanalista. Só que nada é possível para uma psicanalista que tenta de interpretar um sonho se ele não o entende na língua que fala o sonhador. Por isso, Balmary estudou hebraico e grego bíblico. No livro, ela vai usar a tradução francesa mais próxima do hebraico: a de André Chouraqui. EXERCÍCIO PRÁTICO: A HISTÓRIA DE ABRAÃO (CAPÍTULO 5) Nesse trabalho sobre Balmary, escolhi a interpretação que ela faz das narrativas sobre Abraão. Ela parte da seguinte pergunta: a vida de Abraão com suas provações, suas passagens, é uma vida diferente da nossa? A intervenção divina arranca ele de nosso caminho de humano? O que têm de comum essa narrativa fundadora com nossas provações, nossas crises e nossos crescimentos? É um percurso piedoso, uma aventura modelo, um caminho iniciático? Balmary coloca na sua mesa a história de Abraão como colocaria o dossiê de qualquer outro paciente. Tentando libertar-se de tudo o que ela acreditava sobre Abraão, ela coloca duas perguntas: o que acha escrito sobre Abraão no Gênese? como isso a atinge? Como não consegue considerar tudo com a mesma intensidade de atenção, ela privilegia os relatos sobre o homem, a mulher e os filhos em relação, por exemplo, as narrativas de guerra.

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UM HOMEM TINHA TRÊS FILHOS Terah, pai de Abrão, é filho e pai de um Nahor. É o primeiro a dar a um de seus filhos o nome do avó da criança. Nahor, o filho, desposará a própria sobrinha Milka(“rainha”), filha do seu irmão mais novo. Até então, cada geração via chegar nomes novos porque a duração da vida era maior. Terah é talvez o primeiro que teve um filho após a morte do pai. Abrão (cujo nome significa “pai elevado”), o primeiro dos filhos de Terah desposa uma mulher chamada Sarai (“minha princesa”), da qual aprenderemos em Gen 20 que ela é quase uma irmã, filha também de Terah, mas de uma mãe diferente da de Abrão. Semelhanças com Tebas: existe endogamia, mas algumas distâncias temperam o processo. SARAI, UMA DOENÇA PROFÉTICA O que entender sobre a esterilidade de Sarai 2 ? Se a Bíblia é um livro da salvação para o humano, deve fornecer um sinal que ajude a entender de qual doença sofre aquela que vai ser curada, lembrando do que foi ensinado por pacientes estéreis sem razão médica aparente. A negação aparece primeiro não sobre a criança mas no “para ela”. O “para ela” pode significar o sentido da esterilidade: o exercício de uma recusa que seu corpo trabalhe contra ela e não para ela. Esse ponto encontra um apoio no significado do próprio nome dela: “minha princesa”. Isso pode abrir uma direção de interpretação. Ela não pertence a si mesma. A pessoa dela pertence a quem a nomeou. Seu matrimônio não mudou nada. Como a criança que ela carregaria seria para ela? Sou estéril, mas eu sou! Não é uma desordem orgânica que torna Sarai estéril, mas sim um erro simbólico: a atribuição de um nome que a prende com um vínculo que ela não pode cortar sozinha. Só sobra para ela a soberania inconsciente do sintoma, um pouco como uma trabalhadora que, sentindo-se desapossada do que ela produz, faz greve e começa a existir para o outro. O que é um erro simbólico? É um ato de palavra que torna impossível para o ser humano avançar na vida. Aqui, uma mulher nomeada pelo pai “minha princesa” e que continua sendo chamada assim após seu matrimônio, vê se travada no seu devir mãe. Continuando a pertencer ao pai, ela não pode ser verdadeiramente a esposa de outro homem e não pode ser fecunda. 2

Gen 11,30

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O DIVINO FALA “vai em direção de ti (ou para ti), de tua terra, de tua geração na casa do teu pai, para a terra que te mostrarei”. Esse “para ti” não aparece nas traduções habituais. Ora, segundo nossa autora, toda cura começa um pouco com esse tipo de diálogo: “- vai para ti - quem eu? - não sei, eu te escuto - quem eu? - você que fala comigo.” Não é um “para ti” introspectivo mas a procura de um sujeito que fala. Javé é quem chama o homem para a terra, em direção do homem. Isso aparece como um acontecimento de grande alcance para o devir consciente da humanidade. Abrão deixa seus envelopes: a terra-país, o corpo materno e a casa paterna. São dele, mas Abrão foi deles porque eles o envelopam. Esse chamado divino que convida Abrão a ir em direção de si mesmo não tem nada de arbitrário: é uma questão de vida ou de morte. Essa voz, reconhecida por Freud e Lacan como a do desejo, a do sujeito, não traz um saber: ela revela aos poucos ao analisando os envelopes que ele acredita ser dele e que, de fato, o cercam e o precedem. Quanto mais o sujeito for em direção de si mesmo, menos estará doente. Num primeiro momento, estar doente é o meio que para o movimento que o faz ir na direção do ídolo e não ao encontro de si mesmo. Essa doença, medicalmente considerada como um mal, é espiritualmente um progresso. A TERRA PROMETIDA, TERRA DO EU E DO TU A única coisa que se sabe da terra: “é a terra que Eu farei você ver”. Essa terra seria visível só por aquele para quem a palavra pode ser dirigida, um verdadeiro Tu distinto? Juntando essa frase com a primeira, “vai para ti”, essa terra poderia estar ligada a esse “ti” para o qual você está caminhando. Essa terra será o lugar onde Abrão será sujeito frente a outro sujeito. Ele não é enviado em direção de si por um filósofo que não acompanha, mas de um terapeuta, ou de salvador. Se para renascer, é preciso que o ser se torne sujeito, é preciso para isso que exista um 6


outro que esteja presente. Quando uma pessoa vai em direção de si mesma, todas as relações são modificadas. A CURA DE SARAI (CAPÍTULO 7) Sarai vira Sara3. O sinal da “inteireza” de um judeu, segundo um psicanalista judeu citado por Balmary, é que ele sempre lembre que falte algo: é o sinal da circuncisão. Por que esse sinal aparece logo no momento do mandamento da integridade e da conclusão do pacto da aliança. Nesse momento, Javé manda Abraão (o nome dele foi trocado: de pai elevado para pai de uma multidão) trocar o nome de Sarai por Sara, o que significa “princesa” e anuncia que ela terá um filho. A voz do divino que fala para o homem e dentro do homem para ensinar o que é necessário de mudar na palavra dos humanos e por ela para que as relações de vida sejam possíveis. Alguém fala para Abraão e diz palavras que ele nunca pensou. Existe um Outro nessa história. Onde está esse Outro: dentro dele? Fora dele? Não é notável que a instituição da circuncisão como sinal da aliança entre o humano e o divino seja dada exatamente entre as mudanças dos nomes do homem e da mulher? E que o ato deva ser cumprido exatamente no membro que unirá o corpo do homem com o corpo da mulher? O que é o homem? É um ser que se lembra (masculino, em hebraico, é a palavra zahar a raiz do verbo lembrar). Do que ele se lembra? Que falta algo lá onde ele encontrará alguém. A psicanálise explodiu um conjunto de convenções mentirosas e denunciaram a hipocrisia de uma sociedade mascarada pela virtude. O que é inesperado é que pelo exercício da palavra, único exercício que ela se autoriza, ela redescobre leis de identidade e de diferenciação, como rochas debaixo dos nossos passos. Essas leis são religiosas, no duplo sentido etimológico: religar e reler. São leis de relações (religare) e leis conhecidas somente pela releitura (relegere) da felicidade ou da infelicidade segundo o caminho que foi trilhado. Podem ser reveladas: são escritas no inconsciente.

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Gen 17

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UM FILHO LIVRE (CAPÍTULO 8) No momento em que Balmary, no decorrer de seus estudos e de sua formação psicanalítica, descobriu que o humano não está doente sozinho mas na sua relação com outros, ela quis alargar suas reflexões sobre as relações que curam, para poder perceber as interações familiares, conjugais e sociais. O trabalho bíblico se apresentou como o que se podia achar de melhor para avançar num trabalho de alma e de memória sem ficar presa no recorte atual das ciências humanas nem nas diversas ideologias incompatíveis que as controlam. Com a história do casal Abraão e Sara, aparecia que a distância necessária para o ser humano estava garantida pelo divino, quer dizer ao que é radicalmente outro, fora do mundo, e, ao mesmo tempo, que é para ele tão íntimo que ele o percebe quando ele está disposto a ouvir em si mesmo. Contudo, ele pode não ouvir se tiver o coração fechado. Deus acabou de separar o homem e a mulher numa distância que permite a aliança. O que acontece na relação parente – filho. Como entender o pedido de Deus em relação à imolação do filho. A leitura de René Girard despertou o interesse de Balmary para começar a olhar a Bíblia numa perspectiva não sacrificial. PROBLEMA DE MÉTODO A grande pergunta é: existe um fundamento religioso a todo tipo de sacrifícios? Abraão podia oferecer alguma trilha para encontrar algumas respostas 4 . Numa primeira leitura, a intervenção divina parecia o único motor. Numa segunda leitura, alguns dados transversais atraiam a atenção. Aos poucos aparecia uma trama condutora. Os passos do método usado por nossa autora são: 

Tomar conhecimento do texto na língua original detalhando cada palavra no seu sentido mais concreto possível

Deixar as novas palavras quebrar o que eles contradizem do sentido que permaneceu no nosso imaginário, o sentido preestabelecido antes da leitura.

Achar, uma vez desconstruido o texto outrora memorizado, os pontos de sentidos suscetíveis de ser ligados entre eles por similitude, oposição, recorrência, sem a preocupação ainda de interpretar.

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Gen 22

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Tentar ler juntos todos os elementos que fazem sentido até que isso fale da vida tal qual ela fala para todo ouvinte de palavra viva.

Não se trata, nesse último ponto, de forçar o texto para fazê-lo entrar nas categorias da psicanálise, mas ouvir com a mesma distância usada para ouvir seus pacientes, até que o sentido venha, não da teoria que tem na cabeça, mas do interior da palavra que foi trazida. A exegese se parece muito com o método psicanalítico: pedir que a palavra se explique, ela mesma, e não deixar ela até que ela tenha dado um fruto, quer dizer algo de bom que alimenta. Existe um ponto de alegria atingido a um certo momento de todo trabalho de interpretação. Essa experiência, desencadeada pela palavra que toca justo, revela uma articulação exata ou a posição efetiva de um sujeito em relação a um outro em algum momento, e alcança o ser no lugar de onde brotam suas emoções. A ira, também, pode ser um bom guia quando se trata de encontrar quais são os envelopes que envelopam ainda um ser, uma vez sua função matricial cumprida, e por qual caminho, com qual força sair delas. Essa ira pode ser um bom guia desde que não se obedeça a ela, mas se interrogue ela! O sacrifício de Isaac constitui um ponto muito importante na nossa memória: narrativa de uma crise e de uma decisão, ele provoca em nós uma escolha: o divino é divino? Perverso? Terapeuta? A única postura diante da narrativa de uma intervenção divina é de submissão e de fé que não interroga? Ou o próprio texto convida para outra coisa? A autora escolhe obviamente a segunda hipótese. O NÃO – SACRIFÍCIO DE ISAAC É a hora de Abraão se tornar pai. Elohim prova Abraão e pede que ele pegue “seu filho, seu único, o que tu amas”: o possessivo é importante, como foi a transformação de Sarai em Sara. “vai para ti em terra de Moryah”: é a mesma formula ouvida por Abraão no dia de sua vocação. É uma lembrança do dia que ele foi totalmente separado de sua família pela palavra do divino, depois da morte do próprio pai. “e lá eleve-o em subida”, tradução totalmente diferente da costumeira “ofereça o em holocausto”. É porém a tradução literal. No pedido feito a Abraão, não existe nenhuma palavra que signifique sacrificar, nem imolar. Faça ele subir. Se Deus não pediu a imolação e que Abraão acreditou que foi pedida a imolação, estamos na revelação do imaginário de Abraão e da transformação de sua fé. 9


Deus não pede que Abraão mate o filho, mas que o faça subir: por que Abraão entende a demanda divina como uma demanda de imolação? Deveria ser colocado em paralelo com a demanda de Sara de expulsar o primeiro filho? Com a idéia que Abraão tem do divino, ele que sempre viveu num ambiente idolátrico onde os sacrifícios de crianças aconteciam? Abraão está em contradição com o próprio nome: o pai da multidão que já expulsou um filho está transformando uma demanda de elevar o filho num processo de imolação e de diminuição de vida. Sara pediu o primeiro filho em sacrifício para que um único filho possa herdar. Agora, o segundo filho que se tornou o único vai desaparecer. ONDE ESTÁ O CORDEIRO? Até agora, o nome de Deus é Elohim, que é o nome divino ligado à noção estrita de justiça e de rigor. Abraão liga o seu filho. Está já ligado pelos adjetivos (teu filho, teu único) e sempre é sublinhado que os dois vão unidos, unidade de dois que é um composto instável porque fusional. Mas nesse momento, tudo se transforma. O divino, o pai e o filho se transformam5. O divino, mensageiro do divino, traz uma notícia de alguém que tem um nome novo: Javé. O tetragrama expressa misericórdia, unidade, amor. Duas vezes, ele chama Abraão, pai de uma multidão. Isaac não é mais chamado “teu filho, teu único”, é chamado de adolescente. O verbo “poupar” (“você não poupou teu único”) tem mais o sentido de “reter, puxar para trás, privar”. Você não o reteve, não o tirou de quem fala “Eu” na primeira pessoa. Você não o privou da Palavra, do divino. Dizer seu um filho, acrescenta Balmary a partir de sua experiência de terapeuta, é os reter longe da Palavra, longe do divino enquanto lugar do seu desabrochar como pessoa, como ser falante, falante com alguém. O divino quer curar Abraão de toda idolatria? Ele primeiro se deixa confundir com o ídolo (os elohims, os deuses) e depois se revela como Outro (Javé), Aquele que não deseja que Isaac seja imolado para Ele. Javé se revela como o não-ídolo. É primeiro na linguagem que toma lugar o sacrifício: o envelope verbal de Isaac está destruído. Abraão deu o filho, mas o divino não o aceita: Isaac não é mais possuído.

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Gen 22, 11-12

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Abraão não precisa retornar contra ele a violência: ele sacrifica um animal – pai, o bode, lá onde um animal criança devia ser sacrificado. Para ir em direção de si mesmo, ele tinha que sacrificar o que ele não ia mais ser, abandonar o pai que ele foi. Ele sacrificou o sacrificador.

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