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desafiante apresentar, sem recorrer a uma estética “vitimista”, um projeto cuja temática atravessa questões como o preconceito racial e a existência miserável. Esta, foi, de saída, uma preocupação deste Quase brancos, quase negros: não privilegiar imageticamente a pobreza ou as histórias dolorosas aqui contadas. Várias vezes, elas chamam atenção e causam indignação dos leitores enquanto provocam, entre aqueles mostrados como “vítimas”, um sentimento ainda maior de desprestígio. São abordagens que muitas vezes só reforçam o preconceito já enfrentado por esses indivíduos. Assim, optamos por um trabalho gráfico onde não há ênfase visual aos dramas existentes na vida dos entrevistados, no qual unimos, em preto, branco e cinza, fotografias e ilustrações. A designer Andréa Aguiar, autora do projeto, uniu as estéticas oitocentista e contemporânea para fazer conversar estes elementos. Nas fotografias realizadas por Heudes Régis, os personagens encontrados em locais completamente díspares (estavam na favela ou em um gabinete do Supremo Tribunal Federal, na passarela ou em um quilombo) são vistos sempre em retratos. Todos são mostrados no mesmo tom, possuem aqui a mesma voz. São imagens quase silenciosas, onde cabe a quem as vê a tarefa de realizar a sua própria construção. As exceções são os rostos do ex-detento Tomás e da ex-prostituta Luciana. Os dois são apenas parcialmente vistos, ambos por questão de segurança e, claro, para pouparem-se do forte preconceito em relação às suas condições. Aliada às fotografias, estão as ilustrações do designer Pedro Melo Monteiro, criador de grafismos cuja estrutura foi inspirada no documento oficial da Lei Áurea (ao lado). As ilustrações também se baseiam em uma estética rococó, percebida na arquitetura e nos objetos decorativos do século 19. A união imagem e ilustração também foi pensada com base na própria imprensa daquele momento, que se utilizava largamente do desenho (com ênfase em retratos e caricaturas mordazes) nos jornais cuja fotografia só seria uma realidade a partir de 1880. Os grafismos se repetem de maneiras diferentes em todos os personagens, e, em cada um deles, torna-se único: em meio aos desenhos, encontramos elementos que remetem às histórias de vida de todos, são pequenos signos (búzios, a torre Eiffel, algemas, insetos, etc) que nos dizem um pouco mais sobre o mundo dos retratados. Quase brancos, quase negros está dividido em dois “blocos” (um com personagens brancos, outro com personagens negros), cada um com uma capa específica. O leitor pode iniciar a leitura por qualquer um dos lados, o claro ou o escuro. O tabloide Um pé no salão, outro na senzala, dedicado exclusivamente a Joaquim Nabuco, também se utiliza, como não poderia deixar de ser, das ilustrações que trazem os arabescos típicos dos oitocentos. As imagens do abolicionista foram cedidas pela Fundação Joaquim Nabuco (Fundaj), que disponibiliza ao público um excelente material - incluindo a catalogação das cartas entre Nabuco e vários nomes de então, de André Rebouças e o Barão de Rio Branco até sua amada Eufrásia Teixeira Leite. Optamos ainda em ilustrar o tabloide com as imagens de Alberto Henshel, nos afastando das ilustrações que geralmente mostram o cotidiano dos escravos no Brasil - é comum irmos até o pintor Debret para traduzir imageticamente este período. É um produto “dois em um” cuja elaboração procura oferecer ao leitor uma abordagem mais rica e menos apressada tanto nas reportagens quanto na apresentação gráfica. Aos personagens, então.

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antropólogo norte-americano Marvin Harris estava intrigado. Afinal qual era exatamente a cor de uma pessoa acastanhada? Ou alviescura, amarelada, alvirrosada? Passava os olhos pela lista divulgada nos anos 70 pela Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnud), na qual os entrevistados declaravam a própria cor. Eram incríveis: alvarenta; alvarinta; alvinha; amarela; amarelo-queimada; amarelosa; amorenada; avermelhada; azul; baiana; bem-branca; avermelhada; branco-melada; branco-morena; branco-pálida; branco-queimada; branco-sardenta; branco-suja; branquinha; bronze. Estava estudando uma população no interior da Bahia. Ali, lançou uma questão que até hoje reverbera em solo nacional: who are white? (quem é branco?). Para conseguir a resposta, teve que se investir de uma percepção refinada e um olho descondicionado – ajudava o fato de não ter nascido na terra dos múltiplos coloridos. A quantidade de declarações sobre a cor da pele mostrava que, mesmo em um Estado com alto índice de negros e mulatos como a Bahia, a população simplesmente não conseguia se dizer “branca” ou “negra”. Harris foi seguindo a trilha dessa multiplicidade de tons e percebeu que a cor estava claramente atrelada ao sucesso social de seu dono. Chegou a uma conclusão surpreendente, formulando assim um instigante esquema. Ele nos diz: um negro é um branco muito pobre; um mulato muito pobre; um mulato pobre; um negro muito pobre; um negro pobre; um negro medianamente rico. Já um branco é: um branco muito rico; um branco medianamente rico; um branco pobre; um mulato muito rico; um mulato medianamente rico; um negro muito rico. É, sem dúvida, uma forma mais eficaz para lidar com a questão racial no País: ela não se localiza apenas no fenótipo, na aparência, mas perpassa também pela classe social do indivíduo. Significa dizer que o racismo no Brasil manifesta-se pelo branqueamento daqueles que agregam diferentes status e, ao contrário, o enegrecimento ou empardecimento daqueles sem prestígio social. Os psicólogos Marcus Eugênio Lima (Universidade Federal da Bahia) e Jorge Vala (Universidade de Lisboa) se muniram da análise de Harris para tentar decifrar essa rede complexa – e, por isso, nem sempre muito visível no trato cotidiano. “Estamos diante de um racismo camaleônico, que utiliza o notável caleidoscópio de cores que compõem a sociedade brasileira para construir um tipo de representação social que associa o fracasso à cor negra e o sucesso à cor branca. Essa forma brasileira de racismo pode fazer mudar subjetivamente a cor de um indivíduo a fim de manter intactas as crenças coletivas e as atitudes negativas associadas à categoria de pertença desse indivíduo.” A cor também está veiculada àquilo que é associado ao que é negativo (preto) ou positivo (branco). A pesquisa empreendida pelo sociólogo Sérgio Adorno a partir dos boletins de ocorrências de crimes violentos em São Paulo durante os anos 90 traz uma assustadora conclusão: se o réu era inocentado pelas evidências, tornava-se “branco” nos registros. Já aqueles cujas evidências apontavam para a culpa eram descritos, mesmo tendo a pele clara, como “morenos” ou “negros”. Mas foi o vice-presidente do Instituto Cidadania Democrática (ICD/SP), Silvio Luiz de Almeida, quem conseguiu responder mais sucintamente à pergunta do assombrado Marvin Harris. Ao estudar o acesso à universidade e a emancipação dos afro-brasileiros, ele afirma: ser “branco”, no Brasil, não se refere apenas à cor da pele, mas a todo um conjunto de atitudes e de privilégios políticos e econômicos que nossa sociedade atribui aos que possuem uma aparência branca. E essa aparência, como sabemos, pode ser construída de diversas maneiras, seja através do sucesso econômico, político, cultural. A falta de privilégios, por sua vez, confere simbólicos pigmentos, uma melanina brasileiríssima. É por isso que são quase negros brancos como Maria José, que vive no quilombo do Castainho, em Garanhuns; o menino louro Esdras Gomes, morador dos alagados da Camboa, em Serrambi, aonde chegavam os navios repletos de escravos; as irmãs Jéssica e Gislaine, que moram à beira de um esgoto na Vila Massangana, a poucos metros do engenho onde Joaquim Nabuco viveu até os 8 anos de idade. São quase negros também a ex-prostituta e traficante Luciana, assim como o ex-presidiário Tomás, rapaz de olhos verdes que possui o mesmo nome do primeiro réu defendido por Nabuco. O Tomás de ontem era um negro fugitivo. O Tomás de hoje, um quase negro que tenta uma vaga no mercado de trabalho. Alguns deles passaram fome, outros pela falta de lugar para morar, pelo drama do abuso sexual. São desempoderados de pele alva, vivenciam uma existência de alto risco

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que os aproxima da maioria daqueles que passam pelo mesmo diário sufoco, os negros. Há entanto, apesar do “enegrecimento social”, um capital com o qual todos estes claros podem contar e que os diferencia substancialmente dos pretos pobres: a brancura da própria pele. Mesmo sofrendo as dificuldades da falta de emprego, renda, moradia e saúde, eles conseguem, na rua, a olho nu, diferenciar-se positivamente. Aproximamse, visualmente, da maioria daqueles que compõem as fatias economicamente mais privilegiadas do País, vide o ótimo trabalho do economista Marcelo Paixão, que criou para a Organização das Nações Unidas, em 2005, um Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) com recorte racial para mostrar a brutal diferença de existências no País. Se apenas o IDH dos brancos fosse levado em consideração, o Brasil ocuparia a 44ª posição entre os 174 países listados pelo Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (Pnud). Se apenas o IDH dos negros fosse listado, o Brasil iria parar no 105º lugar. São 61 posições de diferença. Assim, estes brancos são donos da cor, mas não da realidade, da elite econômica do País. Por isso, quase negros. Quase porque, no cotidiano, têm menos chances de, por exemplo, serem abordados pela polícia. “Baculejo” em branco, mesmo pobre, é mais difícil. Eles são mais “raros” neste estrato: dos 22 milhões de brasileiros que vivem abaixo da linha da pobreza, 70% são negros. Na entrevista para conseguir emprego, são eles os mais cotados para dar conta do item “boa aparência”, um dos filtros que mantêm a população negra afastada dos postos de trabalho. “Quando as pessoas olham uma criança branca pedindo na rua, comovem-se com mais facilidade, chama atenção, ‘olha, coitado, tão bonitinho, tem os olhos azuis’. Porque aquele não é o lugar para aquela criança, aquele é o lugar para o negro, é sempre ele que aparece nesta situação”, diz a professora Eliane Veras, do Programa de Pós-Graduação em Sociologia (PPGS) da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE). O capital da cor, única riqueza dos brancos pobres, também foi observado pelo antropólogo Kabengele Munanga, professor do Departamento de Antropologia da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo. Ao defender o sistema de cotas nas universidades brasileiras, ele afirma: não há como tratar, falando de políticas públicas numa cultura e sociedade racista, igualmente os negros pobres e os brancos pobres, já que os primeiros são discriminados duas vezes, pela cor e pela condição socioeconômica, enquanto os últimos são discriminados uma única vez. Aqui, ressalta, não é possível acreditar em democracia racial: é preciso tratar tais grupos como profundamente desiguais (de acordo com o Relatório Anual das Desigualdades Raciais no Brasil 2007/2008, 4.027,710 brancos cursavam até 2006 o nível superior no Brasil, enquanto apenas 1.757,336 pretos e pardos acessaram o mesmo nível). Enquanto a alvura pode livrar estes quase negros de alguns constrangimentos, a pobreza os mantém distintos, como aponta o cientista político Gustavo Venturi, da Fundação Perseu Abramo. Segundo ele, os pobres não negros não deixam de ser discriminados como pobres. E essa discriminação é provocada pelo próprio contexto social no qual, cada vez mais, o poder é traduzido na aquisição de bens materiais. “Essa experiência advém de um enraizamento cultural profundo de valores derivados de uma estrutura de classes historicamente muito desigual, valores que se expressam no menosprezo do trabalho braçal, que antes cabia aos escravos e depois se sustentou na abundância de mão de obra barata, desqualificada pela falta de oportunidade de estudo e de formação profissional. A discriminação contra pobres no Brasil alimenta-se também da exacerbação dos valores consumistas da nossa sociedade, que sobrevaloriza a aparência, traduzida em vestuário e adereços considerados símbolos de beleza e de sucesso. Em que pese a melhoria da distribuição de renda nos últimos anos, é evidente que essa lógica segue expondo milhões de brasileiros à discriminação social pelo simples fato de serem pobres.”

» Fontes: Atlas Racial Brasileiro (2004); Relatório de Desenvolvimento Humano Brasil (2005): racismo, pobreza e violência (Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento/Pnud/ONU); Políticas de ação afirmativa em benefício da população negra no Brasil: um ponto de vista em defesa de cotas (Kabengele Munanga/USP); Normas sociais e racismo: efeitos do individualismo meritocrático e do igualitarismo na infra-humanização dos negros (Marcos Oliveira Lima e Jorge Vala); Relatório Anual das Desigualdades Raciais no Brasil 2007/2008 (Laeser/UFRJ)

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omás é um rapaz bonito da Zona Sul do Recife. Cresceu naquilo que costumam chamar de bairro nobre, “o metro quadrado mais caro do Estado”. Fala um pouco de italiano, estudou a língua na adolescência. Gosta de ir à praia. Tem carro. Cresceu com a família em uma quitinete localizada no bairro nobre. Sempre conviveu com os rostos felizes da família branca vista na placa que anunciava o próximo maior apartamento de seu bairro. Eram, como ele, “de boa aparência”. Estudou em escola pública, passou uma época vendendo sanduíche na praia. Hoje, remove resto de construção, vende um ou outro bem para sustentar ele, a mulher e o filho de 10 meses. Aluga o carro que tem mais de 15 anos e há tempos precisa de uma série de reparos. Ao lado da desqualificação e da discriminação social do trabalho braçal, visto com grande desprezo, contrapunha-se o não trabalho ou o lazer aristocrático, exercido com arrogância sobre as camadas subalternas. O modo de agenciamento, de organização e de controle do trabalho constituem, desde o período colonial, um dos mais importantes eixos de dominação na sociedade brasileira e podem ser computados como uma das formas centrais para a constituição da violência estrutural que submete grandes setores da população, impelindo-os para uma permanente situação de risco social. O garoto louro da beira-mar passou os últimos quatro anos em pavilhões dos presídios e centros de detenção da Região Metropolitana de Recife. Numa espécie de tour de pouquíssimo prestígio, conheceu as “quatro Alemanhas”: o Centro de Observação Criminológico e Triagem Professor Everardo Luna, o Cotel (1.887 detentos, capacidade para 311), o presídio Aníbal Bruno (3.465 presos, capacidade para 1.140) e as penitenciárias Barreto Campelo (1.383 detentos, capacidade para 1.448) e a Agroindustrial São João (1.857 presos, capacidade para 630). Portava 15 papelotes de maconha quando foi abordado por um policial militar numa manhã de quarta-feira. No tocante à suspeita, a polícia deixou de suspeitar de indivíduos e passou a suspeitar de categorias sociais. Por exemplo, quanto a parar e revistar: é mais efetivo suspeitar de categorias consideradas mais propensas a cometer infrações (e.g. negros, irlandeses, homens jovens da classe operária) do que suspeitar de indivíduos. Joga-se o arrastão em águas de resultados mais prováveis e ricos, em vez de tentar a sorte de achar a ‘maçã no cesto’, isto é, de efetuar prisões procedendo na base de indivíduo por indivíduo (...). A velha evocação ‘prenda os suspeitos de sempre’ se transforma em ‘prenda as categorias de sempre’: suspeita individual passa a ser suspeita categórica. Tomás, que queria se formar veterinário, foi autuado em flagrante e preso por tráfico. Era usuário desde a adolescência, comprava o produto com o dinheiro ganho na banca de frutas na qual trabalhava. Até hoje, enquanto cumpre pena em regime aberto – precisa se apresentar mensalmente na Chefia de Apoio a Egressos e Liberados (Cael) - nega a venda e conta que às vezes apenas dividia a droga com outros colegas. “Chamava o pessoal, comprava cerveja, ficava conversando, ouvindo música.” Mesmo se colocando como simples usuário, ele não se livraria de uma penalidade: a prática de dividir a maconha com os amigos, por exemplo, também se constitui em crime na legislação penal brasileira, onde a pessoa que oferece drogas, mesmo eventualmente e sem objetivo de lucro, pode ser detida (seis meses a um ano), além de pagar multa de R$ 700 a R$ 1.500 (Lei 11.343/06). (...) A problematização do crime não apenas contribui para estender as fronteiras da criminalização, mas também para limitá-la. É o caso da existência de diferentes grupos de pressão em busca da introdução de uma série de descriminalizações. Sejam exemplarmente citados os movimentos tanto para legalizar determinadas drogas (a maconha, por exemplo) como para restringir o uso de outras (por exemplo, o tabaco). A problematização colocou, assim, a definição do crime como estando permanentemente sujeita ao debate público. Uma vez preso, o rapaz que agora integra o exuberante número de 337 mil trabalhadores desempregados em Pernambuco (números do Dieese para março e abril de 2010) passou a sofrer um tipo de discriminação racial às avessas. Era um dos poucos brancos em meio a multidão de negros e pardos cuja liberdade foi suspensa institucionalmente. “Eu assim, galego, recebendo visita, alguma coisa devia ter.” A ideia altamente discriminatória da “boa aparência”, que historicamente o ajudaria a conquistar um emprego mais rapidamente do que um homem negro, o transformou numa espécie de “provedor” natural das ce-

las onde viveu. No Aníbal Bruno, por exemplo, ele era o único de pele clara num espaço onde dormiam 35 presos. “Chegavam para mim e diziam: 'Tô precisando de dinheiro, arruma aí'. Se você não consegue, ganha um inimigo, corre risco. Eu não demonstrava medo, dizia que estava precisando também, que tinha mulher e filho para cuidar”. O manual de bons modos dentro do sistema carcerário começou a ser incorporado logo no início do tour pelas “Alemanhas”, iniciado no Cotel. Das 58 celas do centro de triagem, foi levado para aquela conhecida como a dos “tarados, pedófilos, doentes e noiados”. O último termo é utilizado para designar os viciados em crack. “Eu sou um vencedor, não entrei no vício da pedra.” Com efeito, a universalidade do crime revela, ao mesmo tempo e pelo negativo, a seletividade da Justiça criminal. Se o crime é endêmico e se o mesmo se encontra em “todos os lugares”, em todas as classes sociais, aqueles que são punidos não são expressão dessa universalidade. Para Young, “(...) o sistema criminal seleciona ‘amostragens’ particulares cuja base não é aleatória, mas o próprio estereótipo”. Esta evidência contribuiu para transformar a criminologia em disciplina suspeita. O raro “Galego” preso em Pernambuco aprendeu a negociar a sobrevivência em meio a uma enormidade de presos cujos nomes eram quase sempre genéricos (e que também tentavam se manter vivos dentro dos pavilhões): “Negão”, “Nego Fulano”, “Veado”, “Cego”, “Garanhuns”. “O defeito físico e o lugar onde nasceram servem de nome para identificar o outro lá dentro”, diz Luíza, mulher de Tomás. Curiosamente, optar pelo “defeito” no corpo e pela cidade ou Estado de onde os presos vieram serve também para localizar melhor os colegas de presídio, já que “Negão” podia ser quase qualquer um dos encarcerados. A quantidade de pretos só não é maior porque vários deles são calados na rua: dos crimes cometidos no Recife, 68% são contra jovens entre 15 a 29 anos. Desses, 92% das vítimas são jovens negros. Envolvidos ou não com drogas, estudantes, desempregados ou trabalhadores, com um histórico que pode levá-los aos pavilhões ou, ao contrário, à universidade, eles são dizimados pelo filtro da bala. Também são assassinados dentro das unidades prisionais, a exemplo de um que foi morto na frente de Luíza, domingo, dia de visita. Era um “coelho”, o cara que pega o pacote de maconha jogado dentro dos presídios para levá-lo até o preso que comercializa a erva. “O tiro entrou e saiu pela barriga.” Como se pode observar, o Brasil tem sido um grande mestre na elaboração e execução de práticas de exclusão de sua população “plebeia”. Apesar de todos os movimentos sociais e de toda a modernização política, econômica e social que marcaram o século 19, a sociedade brasileira encontrou novos mecanismos para marginalizar grande parte de sua população, lançando os ex-escravos à sua própria sorte. Quase livre, o Branco Tomás diz que é hora de esquecer o que sofreu, que aprendeu muito na prisão, que agora entende uma outra realidade. “É preciso ter certos medos.” Quase foi morto dentro do Aníbal, em grande parte pela antipatia de outro preso, que via a cor do rapaz como uma afronta. Era dia de rebelião, ele aproveitou a confusão para se esconder dentro da igreja no interior do presídio. Nesse caso, foi Jesus, e não Nabuco, que o livrou da morte, como aconteceria com o Tomaz preso na Casa de Detenção do Recife e julgado no dia 24 de junho de 1869 no Tribunal do Júri. Condenado à pena de morte, havia assassinado dois, o negro conseguiu manter-se vivo após o então estudante de direito defendê-lo. “Não cometeu um crime: removeu um obstáculo”, argumentou Nabuco, ressaltando que a supressão da liberdade e os açoites justificavam as atitudes do Preto Tomaz. Com 25 anos, ele ficou preso até a morte, sem nunca mais experimentar a liberdade relativa que conhecera. Já o rapaz da Zona Sul, por bom comportamento, talvez, conscientemente ou não, pela cor da pele, voltou a ir à praia, passeia com o filho que hoje cresce na mesma quitinete onde ele cresceu. Teme que seu rosto no jornal impeça-o de conseguir sua carteira assinada. Luíza fica nervosa e diz que as amigas do trabalho não podem saber. Sabe que o preconceito é a grande barreira para que seu marido hoje consiga um emprego. Tomás cometeu um crime e foi perdoado legalmente por ele. Mas agora precisa remover um enorme obstáculo.

» Os trechos destacados foram extraídos do artigo Criminologia e etnicidade: culpa categórica e seletividade de negros no sistema judiciário brasileiro, de Arim Soares do Bem, doutor em sociologia pela Universidade Livre de Berlim e professor do Instituto Ciências Sociais da Universidade Federal de Alagoas (Ufal). * O número de presos nas unidades penitenciárias citadas corresponde até a data de 22/5/2010

Author:AAGUIAR

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ntes de falarmos sobre quanto Luciana ganhava por programa e com a venda de crack, vamos conhecer Rosalina e Eufrasina. Os nomes são um tanto improváveis para este novo mundo, mas não em 1879, ano em que as duas irmãs menores chegaram sozinhas ao Rio de Janeiro. Tiveram sorte relativa: foram logo encaminhadas para a polícia, mas o primeirotenente Guilherme Waddington, comandante do barco Nacional Bahia, já havia levantado 1.232 réis para alforriá-las. Ambas eram brancas e estavam prestes a se deitar em troca de dinheiro. Acabaram virando notícia publicada no dia 8 de abril no jornal carioca O Cruzeiro: (...)“Foram embarcadas na Paraíba por um indivíduo de nome José Rufino, que as ditas menores dizem ser pai delas. Estas raparigas vinham para esta corte a fim de serem vendidas a um indivíduo que compra escravas moças para entregá-las à prostituição”. Já falaremos sobre como Luciana, dos 15 aos 18 dormindo com homem por uns R$ 15, se envolveu com o tráfico e teve que se esconder para não levar tiro. Antes é importante saber que a chegada de Rosalina e Eufrasina flagra um aspecto que torna nosso novo mundo não tão novo assim: a presença das brancas menores de idade no mundo da prostituição. A notícia atesta que mesmo antes da abolição as garotas de pele clara já começavam a competir com as de pele escura em um mercado em que valia até mesmo ser vendida pelo próprio pai. É por isso que a presença de “três pardinhas” também a bordo do Nacional Bahia não rendeu mais do que uma linha. O mercado do sexo já era algo bastante comum no País, e eram justamente negras (ou mestiças) que desempenhavam tal papel na colônia. Grande parte trabalhava a mando de seus senhores e senhoras, que concediam vales noturnos de liberdade e decoravam as pretas com joias caras para que elas arrumassem clientes. O lucro era repassado para os patrões no início da manhã. Luciana, agora vamos falar dela, está mais para as pardinhas do que para as irmãs brancas da Paraíba. Mas o seu pardo tão esmaecido, duas gotas de preto na pele branca, torna a menina clara e distinta em meio ao batalhão de menores negras que se prostituem no Brasil. Luciana se vê e é vista como branca, é exemplo de como no País a cor é antes de tudo uma construção. Como se sabe, ela traficou droga, se prostituiu e se escondeu para não ser morta. Mas não toca em nenhum dos três assuntos quando passa a falar de si mesma tendo como pano de fundo uma parede descascada. Vai para longe, chega aos 7 anos de idade. Foi quando um conhecido da família, moram todos no Curado, tocou por baixo da sua calcinha. Foi seu primeiro beijo. Ninguém pergunta, mas ela fala. História sem beleza que ela nunca contou aos pais, mais fácil contar para alguém que ela conhece há dez minutos. Nessa época, a mãe começou a definhar, ficou doente e compraram uma cadeira de rodas. Foi quando as paredes do apartamento começaram a descascar. “Eu fui feliz até ali.” No dia em que Luciana tirou um short curto da gaveta e foi para a rua, o pai não estava em casa, a mãe estava lá dentro sentada na cadeira de rodas. Pegou um ônibus e seguiu para o Ibura, ali podia contar com uma pobreza equivalente ao bairro onde nasceu. Era o mesmo que estar em casa. Ia fazer 15 anos ainda quando sentou em um bar, uma amiga preta ao lado. Algumas horas depois havia um homem com cerca de 50 anos em cima dela. Quando ele foi embora e deixou o dinheiro (deu R$ 25, ela dividiu com a amiga), ela ficou feliz porque se sentiu independente. Não precisava esperar até o Natal para comprar uma roupa. Outra coisa legal do dinheiro era a farra, todos bebiam, fumavam um melado e riam, riam. Maconha com crack era “o pipoco”. É claro que ela não ia voltar para a casa para ver a mãe sem uma perna, sentada na cadeira de rodas. Todas as vezes que chegava em casa de manhã escutava-a dizer: “Puta”. Outros homens subiram em cima dela. No total, ficava só com R$ 80 por mês. “É porque não era todo dia não. E eu gastava tudo, arrumava confusão. Só não queria voltar para casa.” Era porque, além de “puta”, a quase Rosalina apanhava. Apanhava muito. “Mas eu merecia.” Numa das farras, Luciana, garota magra que nunca colecionou figuri-

nhas de chiclete ou da Hello Kitty, se apaixonou. Estava doidinha, foi cerveja, aguardente e um melado, sentou na escadaria da boate (da “dança”, boate é meio metido) e vomitou. Ele não deixou ninguém chegar junto. Pode ser que tenha sido sentimento de culpa, porque foi ele que vendeu o cigarro para ela. Dormiram juntos e ele (talvez seu nome seja Raul, ou Cláudio, ou Luiz, ou José) não subiu nela. É claro que ela o ajudou na primeira vez em que ele pediu. Ajudou todas as vezes, ficou conhecendo várias bocas de fumo da Zona Sul. Era só sair com a mochila e vender o melado ou o crack. Era boa de venda, o chefe dele quis até conhecer a menina, elogiou. As paredes do apartamento no Curado continuavam descascando, mas agora Luciana tinha um quase amor, “porque era mais cama e trabalho mesmo”, e ainda recebia elogio. O “puta” daquela mulher triste da cadeira de rodas nem importava tanto. Agora ela só dormia por dinheiro quando brigava com o amor (o quase só valia para ele), sabia quando havia outra. Aí transava mesmo, ganhava dinheiro e pronto. Ia fazer 18 anos quando chegou um rapaz conhecido dizendo: “Se eu fosse você, sairia daqui. Ele mesmo já foi”. Assim, sem ligação ou SMS, ela soube: o namorado sumiu com a droga e o dinheiro do patrão. Estavam procurando por ele e, consequentemente, por ela. Se o celular amarelo que ela comprou funcionasse direito, teria ligado para ele lá de Vitória, foi parar em outra cidade sem saber muito bem o que estava acontecendo. Passou cinco meses na casa de uma amiga “da farra”. Recebia notícias: ele não voltou ao Curado, dois rapazes numa moto procuraram por ela uma vez, em outra foi uma moça alta e loura. Chegavam em sua casa, perguntavam, a mãe disse a verdade: “Eu não sei”. Luciana estava tentando fazer o celular amarelo funcionar quando soube que Nádia apareceu morta. Sabia que às vezes ela andava com seu quase amor, chegou a discutir com os dois. Mas ficou com pena quando acharam a menina nua perto da BR (algo novo no novo mundo: Nádia era pardinha, mas seu nome saiu no jornal). O policial que deu entrevista falou assim: “Envolvida com o tráfico local”.

MATAR O BEBÊ A mãe estava no médico no dia em que Luciana voltou para casa. O pai, como sempre, longe. Não sentia mais medo: o namorado estava preso e “os dois caras de moto” que circulavam procurando por ela há tempos não apareciam. Desde então, só sabe que o ex está morando em um dos pavilhões do presídio Aníbal Bruno, foi indiciado por tráfico, roubo e assassinato. Tem saudade. “Eu gosto dele, no começo do namoro ele me abraçava, mas só no começo.” Não consegue mais se aproximar da turma da farra porque a liberdade ficou cara demais (sente saudade também). O pior foi quando uma amiga de muito tempo foi visitada por um dos caras da moto. Queria saber de Luciana. “Ela achou que iam entrar na casa e matar o bebê dela, me disse que da próxima vez ia escondê-lo no armário. Eu vi que não tinha mais jeito, imagina o bichinho dentro do armário. Podiam matar todo mundo, eu, ela, o marido. Mas o bebê não. Eu amo muito o bebê.” Ela desce três escadas até o térreo, a família quis morar no terceiro andar de um dos prédios do conjunto habitacional porque era “mais chique”. Vai comprar uma Coca-Cola dois litros para oferecer às visitas. Fez pipoca também. Não precisa, não precisa, mas ela insiste e volta com o garrafão preto gelado, serve em copos de plástico. O refrigerante soa como o único artigo de luxo dentro do apartamento descascado, a única coisa realmente nova, fresca, sem nada que lembre o tempo em que apanhava, o tempo (foi ontem) em que se prostituía, o tempo em que Raul, ou Cláudio, ou Luiz, ou José, a abraçava. Ela coloca a garrafa na estante, a cortina rosa que separa a sala dos quartos lá dentro voa um pouco e dá para ver parte de uma cadeira de rodas. “Quer Coca, mãe?” Ninguém responde.

» Fonte: Dicionário da escravidão negra no Brasil (Clóvis Moura).

Author:AAGUIAR

Date:28/07/10

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palhabote Bom Jesus dos Navegantes chegou superlotado a Porto de Galinhas. Dadas as condições do barco, era impossível para seus passageiros e tripulantes dar conta da beleza daquela praia azul, a água clara, o recorte geográfico próximo ao paraíso. Havia mais de 200 “fardos” ali, 88 previamente marcados a ferro, bom para facilitar a identificação em terra. Dos 200, 47 eram pequenos, tinham 4, 5, 6 anos. Entre eles, não teve brincadeira com peixinho colorido em piscina natural. Chegaram doentes. A maioria – 120 pretos – morta. Uma pena, lamentavam-se os senhores de engenho. Perdia-se dinheiro, era caríssima aquela carga, além de ser meio arriscado trazer gente que era “fardo” da África em 1846. Proibiram em 1831 e desde então não dava para atracar nas capitais. A sorte dos senhores é que Pernambuco guardava os melhores portos naturais da colônia, excelentes para desembarcar os cativos. Itamaracá, Cabo de Santo Agostinho, Rio Formoso, Tamandaré e a tantas vezes eleita “praia mais bonita do Brasil” eram ótimas opções. Dizer “fardo” era bom para disfarçar a carga ilícita, mas nem dava tanto problema, a polícia sabia e às vezes até ajudava na venda. Esdras é um menino que ainda vai fazer 3 anos e tem a sorte de viver nesse privilegiado litoral, aquele porto que ontem recebia navio negreiro e que hoje aparece azulzinho nos anúncios das agências de turismo de São Paulo. Não se parece com os pequenos vindos da África. Assemelha-se aos filhos dos turistas brancos que trazem os meninos nas férias para brincar com peixinho colorido na piscina natural. Mas, ao lado de outros garotos de olhos e cabelos claros, como os primos Emerson, 6, e Emily, 8, corre perto da água podre, desvia a bicicleta do esgoto que às vezes acaba dando ferida no pé. Mora na Favela da Camboa, à beira de um mangue de Serrambi, praia irmã de Porto. Antes, no tempo em que o Bom Jesus dos Navegantes chegava imundo e lotado de pretos, vivos e mortos, era tudo a mesma praia. Agora, os meninos vivem soltos e sentem outro cheiro ruim. Ninguém aguenta odor de dejeto na maré apodrecendo sob o sol, ficam doentes e às vezes desesperados quando a água sobe e começa a entrar em casa. Mayara, 8, irmã de Esdras, este ano ficou assim. Doente e desesperada. Chorou quando viu a água à porta da cozinha, era muita chuva, o mangue cheio, quase todo mundo já tinha saído das palafitas. A casa é de tijolo e sua mãe achou que dava para ficar, mas a menina gritou, Esdras estava com medo. Saíram dali para integrar os 53 mil desabrigados que surgiram em Pernambuco naquele junho. Deixaram para trás a casa de vão único, quadrada. Custou R$ 2.500 para levantar. O terreno foi R$ 500. Do quintal se tem uma vista bonita para o mangue, os coqueiros, o mar não dá para ver, mas ele está a apenas dez minutos do alagado. Compraram, mãe e pai, o material de construção todo dividido no cartão de crédito de um amigo. Deu R$ 120 por mês. Usaram o dinheiro do serviço como caseiros, cuidavam da casa de praia de um casal que pagava menos de um salário pelo trabalho dos dois juntos. Esdras foi concebido nesse tempo. A mãe teve o bebê e com menos de 1 mês deixou o lourinho no vão que ficava atrás da casa-grande, a patroa e o patrão permitiam que a família vivesse ali. “Eu deixava meu filho sozinho para ir ficar cuidando do dela.” A mãe saiu do emprego, o pai ainda passou mais tempo. Mas saiu. Arranjou pequenos trabalhos. Começou o lar quadrado de todos os dias enquanto esquecia o tempo servindo no lar de dois quartos, dois banheiros, sala e cozinha de fim de semana. Era difícil, não tinham mais o canto garantido, nem os R$ 260 mensais para cuidar de si, de Esdras e de Mayara. Muito menos para pagar o cartão de crédito do amigo. Aí chegou a multa de infração número 506146, série D. Tinham que pagar R$ 1.000 ao governo federal por “construir obra potencialmente poluidora em área de preservação ambiental, sem licença ou autorização da autoridade competente”. Era quase metade do valor do único bem material que possuíam. Mônica, tia de Esdras e Mayara, mãe de Emerson e Emily, outra branca moradora da Camboa, lembra-se das ordens que chegaram em 2008. “Disseram que a gente tinha que sair e tirar os entulhos. Mas os entulhos eram as casas da gente.” Foi preciso escrever para a Lei, contar intimidades, para explicar que a obra potencialmente poluidora era um lar. Uma carta escrita não pa-

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ra alguém, mas para um emaranhado de gente, para a estrutura que manda as multas numeradas e recolhe os entulhos. Mesmo assim, o pai negro do Esdras louro caprichou na caligrafia e nas palavras. Foi sincero. “Meu nome é Moacir José da Silva, tenho 29 anos, casado, tenho dois filhos, um casal, a menina tem 6 anos e o menino tem 1 ano. Moro em Serrambi há mais de seis anos. Comecei a trabalhar como caseiro e morava na casinha que tinha por trás da casa dos patrões, saí de lá por que fui muito humilhado, não aguentei, resolvi dar um basta, não tinha para onde ir, sem trabalho, sem poder pagar aluguel. Só tive alternativa de vir para este lugar que aos poucos fui fazendo com bicos, um pouco aqui, outro ali, construí com muito sacrifício um teto para a minha família. Com estes acontecimentos estou muito preocupado, pois não posso pagar a multa de mil reais, veja que eu vou perder o pouco que consegui, vou perder o único teto de minha família. Por isso venho através desta carta, faço o apelo de anulação desta multa. Serrambi, 23/3/2009”. Como no caso do negreiro Bom Jesus dos Navegantes, que ia para o Rio de Janeiro, mas foi obrigado a parar perto das águas da Favela da Camboa, o possível despejo dos moradores que até hoje vivem sobre a maré chamou a atenção da imprensa. No primeiro caso, a continuidade do tráfico de escravos e as terríveis condições do barco eram as notícias: fazia 40 dias que aquele Bom Jesus havia deixado a África, 30 deles a meia ração. Os porões abrigavam dezenas de corpos, mulher, homem, criança. Só 72 cativos estavam vivos quando o barco foi apreendido em Porto de Galinhas. O pai de Joaquim, José Thomaz Nabuco de Araújo, criticou a ação da polícia que estava sob o comando dos praieiros. Estavam, mais por política do que por humanismo, tomando posse dos negros e invadindo os engenhos que serviam de mercado escravo. Quincas, apesar de apoiar o pai, concluiu que as invasões eram ruins, mas necessárias: finalmente, a Justiça local mostrava uma reação contra o enorme poder da aristocracia açucareira e escravocrata. A situação local era de fato escandalosa: depois da proibição do tráfico, 21 mil africanos entraram na província entre 1836 e 1839. Em 1840, foram mais 3.500 cativos. Entre 1841 e 1844, 5.250. Acredita-se que o último barco transportando prisioneiros escravos africanos para o Brasil tenha chegado ali perto, em Sirinhaém, em outubro de 1855. Neles, havia 209 pretos tratados como fardos. Há menos gente na Favela da Camboa, onde moram branco, preto e mulato. Sobre o alagado, o jornal mostrou o pessoal da prefeitura de Ipojuca afirmando que ia sanear 100% de Serrambi, que as famílias não iam mais ficar na água podre nem teriam ferida no pé. Desde então, o número de casas e palafitas praticamente dobrou: quando os Gomes da Silva chegaram ali, eram poucas as construções na área. Sara, Melquizedeque, Eliude, Eline, Mônica, Priscila: vinham, faz seis anos, de outra cidade para buscar emprego. Os filhos se casaram e tiveram mais filhos – Esdras, Mayara, Josué, Rafael, Elias, Emily, Emerson. A família ocupa sete casas e barracos, outros também chegaram, quase todos estavam juntos quando a chuva de junho encheu as ruas de água e tiveram que dormir na mesma escola. Atualmente, só Melquizedeque, avô, 47, tem emprego fixo. Também é caseiro de outra casa-grande cujos donos só aparecem, quando aparecem, no fim de semana. Ao menos, a carta de Moacir, que já não mora com a família, deu certo. Ninguém apareceu cobrando nada, nem querendo remover os entulhos que guardam camas, armários, geladeiras, berços, fogão, tudo num mesmo espaço. Tem tudo isso na casa de Esdras, tem inclusive a bonita foto do seu primeiro ano de vida ali perto da cama que ele divide com Mayara. Na montagem, a gente o vê menorzinho (“já sabe falar até helicóptero”) ao lado de Donald e Pateta, cisnes brancos, um lago cor de céu aparece lá atrás, é um paraíso específico. Lá, a água não dá ferida no pé. Lá, Esdras pode brincar com os peixinhos da piscina transparente.

» Fonte: A repressão do tráfico atlântico de escravos e a disputa partidária nas províncias: os ataques aos desembarques em Pernambuco durante o governo praieiro, 1845-1848* (Marcus Carvalho, professor titular de história do Brasil da UFPE).

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ram todos pretos nos Palmares, mas nem todos tinham a pele escura. Havia gente que se parecia com Maria José não só por causa da cor clara, mas porque também, como ela, morava em quilombo e plantava mandioca. Porque, como ela, passou toda a infância trabalhando e já viveu com quase nada, a maior riqueza do dia constituindo-se numa porção de farinha com sardinha seca. Maria é como os brancos pobres que chegavam lá em Palmares nos 1600 para viver em mocambo e foram depois mortos pelos bandeirantes que viam todos, fosse índio, fosse alvo, como negros. Conhece como é crescer em casa que se levanta entrelaçando pau e preenchendo os buracos com gomo de barro. Vivia em uma assim, dois vãos, duas camas grandes, várias redes. Alzira da Conceição e Antônio Bernardo tiveram 18 filhos. Maria José estava entre eles. Era um bando de brancos numa casa quilombola construída em Estivas, Garanhuns, Pernambuco. Havia outros vizinhos como eles, que se diferenciavam pela cor da gente do Castainho, outro quilombo ali perto, Maria José agora mora lá. Todos compartilhavam a vasta pobreza, mas não eram iguais. “E eu vou lá me juntar com aqueles negros” era uma frase comum no quilombo com muitos brancos onde nasceu Maria e se referia aos vizinhos do lado. Na verdade é frase comum ainda hoje, conta ela. Teve, como os pretos, que trabalhar desde criança: aos 4 anos de idade, a clarinha foi para a feira ajudar os pais a vender o que plantavam, além da mandioca, tinha milho e feijão. O pai ensinou cada um a dar conta de si. Quando tem gente de mais, não tem muita soma a fazer: coloca-se para trabalhar. Era uma maneira de mostrar aos filhos como lutar contra o cativeiro imposto pela falta de dinheiro. Ele aprendeu do mesmo jeito lá onde nasceu, em União dos Palmares, Alagoas. Zumbi viveu exatamente lá, mas na Serra da Barriga era outro o sentido de liberdade: para aqueles que viviam ali, não era permitido nem mesmo trocar o sofrimento pelo próprio dinheiro. Foi assim que Maria José aprendeu a ser livre: tornando-se cativa do trabalho. Depois da feira, tinha já 9 anos, foi trabalhar em olaria. Ia com Maria Santina e Maria das Dores, com Nelson e Eronildes, todos irmãos, carregar tijolos. Era tão pequena que não conseguia fazer como os maiores, transportar vários de uma vez só. Ia levando um a um por vez ao forno, eram uns cem por dia. Saíam cedo de casa e levavam a comida em uma lata. Na hora do almoço paravam todos os irmãos, abriam a lata e comiam a refeição com a mão, era a hora da farinha e do peixe seco. Faz quase 40 anos, Maria recorda e sufoca. “Não gosto nem de me lembrar.” Acabavam de dividir a farinha, voltavam para colocar os tijolos para assar. Bom era receber o dinheiro na sexta – isso Maria não sufoca –, quando ia para a cidade e comprava lanche, as próprias coisas, era o presente do pai não se apoderar do dinheiro dos meninos. “Era tão bom.” A menina livre ia exercendo a obrigação do trabalho enquanto também rezava na igrejinha. Foi assim que conheceu José Carlos, casou com ele em 1981. Era um “daqueles negros do Castainho”. A união foi na paróquia de lá, três anos antes de ele tornar-se líder comunitário do agregado quilombola. Falaram: “Tu dessa cor, casou com um homem tão preto”. Aí não importava a matriz em comum, o passado compartilhado por aqueles quilombos todos. O Estivas, o Estrela, o Tigre, o Timbó e o Castainho surgiram depois que os que viviam perto de Zumbi foram dizimados, quando os brancos pobres também foram abatidos ao lado dos negros e índios. Não conseguiram resistir ao exército de seis mil homens armados (vinham até com artilharia) liderados por Domingos Jorge Velho e Bernardo Vieira de Melo. Eram todos iguais naquele 20 de novembro de 1695, dia em que mataram Zumbi, a cabeça foi exposta em praça pública, recado para outros pretos, ou quase pretos, se manterem silenciosos. Acabaram a maior rebelião negra da colonização portuguesa. Maria não precisa recorrer à história quando repetem para ela o “tu dessa cor... um homem tão preto”. Sua defesa para a união é mais poderosa e simples. “Eu digo que não importa a cor, e sim o amor que a pes-

soa tem.” Ao lado do marido continuou a plantar mandioca, enorme trabalho raspá-la, triturar tudo, colocar na água para separar a venenosa manipueira. Depois tem que espremer muito, tirar a água, colocar para secar, aí vai para o forno, umas duas horas e meia lá. Muitas vezes o processo começa às 7h da manhã e vai até as 22h. Maria está há quase 40 anos curvada, é assim que se rala a mandioca, sentiu muita dor e foi ao médico. Ele chegou com uma inesperada carta de alforria e disse que ela precisava parar de trabalhar. Sorri quando lembra. “Não tem como”, explicou. Só parou quando os quatro filhos, ainda na barriga, estavam grandes lá dentro, o primeiro veio quando ela tinha 18 anos. Se deixasse a casa de farinha para cuidar das costas, poderia colocá-los naquela situação cheirando a peixe seco que até hoje a sufoca – se o médico soubesse, ia entender melhor por que opta em manter o corpo curvado.

PESTES SEM ALMA A pobreza que a quilombola Maria José enfrenta em 2010 é bem diferente da pobreza que ela experimentou em 1970. Os filhos não precisaram dormir como ela dormia, amontoada em uma cama com as irmãs, a casa de dois vãos era separada em homem e mulher na hora de ir deitar. Tem o próprio lar, de tijolo, reboco, telha. Teve ainda a sorte de viver num quilombo reconhecido pelo governo: existem três mil deles em todo o País, mas somente 50% são “institucionalizados”. Destes 1.289 territórios, 598 estão no Nordeste. O quilombo do Castainho foi um dos que apareceram no decreto de 20 de novembro de 2009, que declarava a área de interesse social, desapropriando os imóveis existentes ali. Desde 2000, no entanto, a área já havia recebido o título de posse de terra emitido pela Fundação Cultural Palmares, que também beneficiou o quilombo de Conceição das Crioulas, em Salgueiro, Sertão. Assim, Maria José e Carlos não vivem sob o risco de ter que sair de um canto previamente ocupado pelos antigos parentes que armaram ali os mocambos depois de fugir de outros Domingos e Bernardos que acabaram efetivamente com a República dos Palmares em 1710. Os dois, hoje nome de ruas e avenidas, promoveram a matança de mais de 400 prisioneiros, que não puderam mais prestar honras ao Menino Jesus, a São Brás e a Nossa Senhora da Conceição – as imagens estavam na capela do quilombo liderado por Ganga Zumba e Zumbi –, embora lá pelos entornos, no Brasil inteiro, dissessem que aqueles milhares de fugidos eram pestes sem alma. Com os R$ 200 que conseguem vendendo cada tonelada de goma de mandioca, Maria e Carlos vão formatando outra nova história: os filhos e netos estudaram e souberam na sala de aula, ao contrário dos pais e avós, o que era ser remanescente de quilombolas. Para horror de quem compartilhava a pobreza, mas se autodiferenciava pela pele, todos os irmãos e irmãs da branca se casaram com pretos. Os primeiros possivelmente sofrem: o Nordeste é a região brasileira com maior número de indivíduos que se declaram negros. São 7,7% da população, enquanto a média das outras regiões é de 6,2%. Alguns dos casais de cor diferente e passado igual ainda vivem ali perto, no Estivas, onde a predominância da gente de pele clara tornou-se coisa do passado. Outros foram morar no interior de São Paulo, e é para lá que todos os anos Maria se dirige numa viagem que dura três dias, de ônibus. Já morou naquele Sudeste com José Carlos, mas ele preferiu voltar para o quilombo. São ainda um pouco como os negros e os quase negros de antes, chegaram a ser 20 mil nos Palmares. Sobre eles, o português Joaquim José Lisboa escreveu: “Os escravos pretos lá, quando dão com maus senhores, fogem (...) entranham-se pelos matos. E como criam e plantam, divertem-se, brincam e cantam. De nada têm precisão. Vêm de noite aos arraiais. E com indústrias e tretas, seduzem algumas pretas, com promessas de casar”.

» Fontes: Quilombos no Brasil e a singularidade de Palmares (Maria Lourdes Siqueira) e Liberdade por um fio: história dos quilombos no Brasil (João José Reis, Flávio dos Santos Gomes)

Author:AAGUIAR

Date:28/07/10

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aruins são tão pequenos quanto impiedosos. Não querem saber se a carne é viçosa ou enrugada, se pertence a ela ou a ele. Maruins também não distinguem cor. Estão bem acostumados a morder a gente preta de uma ilha lá em Olinda batizada com o mesmo nome desse inseto que habita as coisas podres e os alagados. Nessa ilha tem o Canal da Malária, onde antes havia mais de 300 casinhas que foram derrubadas, mas isso é outra história, não cabe agora. Esses maruins que geralmente mordem os pretos - não porque gostem mais, atente, mas porque são geralmente eles que vivem perto das coisas podres e dos alagados - vez em quando também mordem um branco. O efeito é o mesmo. Coça, coça. No preto, nem aparece tanto, só quando a pele está seca e fica aquela marca cinza feita pela unha. No branco, a cor que a unha deixa é outra, o risco é vermelho, tem ainda as marcas das mordidas. É assim que está a pele viçosa de Laís, 5 meses. Ela é fininha, suave e cheia de vermelhinhos. Coça, coça. “Olha isso, faz pena, ela não tinha uma mancha, era linda, linda, a pele.” Gislane, 18, mãe da menina, não se conforma com as manchas que maculam o branco profundo de sua filha. Agora, vive passando repelente para os insetos deixarem de molestar o bebê. A irmã de Gislane, Jéssica, 19, também tem o mesmo problema: os bichos vão em cima, fim de tarde é um inferno, mas a filha, Laura, 1 ano, está mais acostumada. Jéssica e a menina moram em uma casa branca do teto de zinco cujo “jardim” é decorado por um esgoto. É o canal que corta boa parte da Vila Massangana, bairro precário que se emancipou do famoso e quase mítico engenho onde viveu Joaquim Aurélio Barreto Nabuco de Araújo, tão branco quanto elas. Ele viveu ali até os oito anos, foi embora para o Rio e a Europa, deixando para trás os maruins. É comum, à tarde, ver as irmãs sentadas à porta da casa branca do teto de zinco, os bebês no colo ou no carrinho, conversam sob os pés de árvore enquanto os caminhões que expandem um novo polo industrial ali perto passam, fazem barulho nos buracos de lama, fazem novos buracos para a próxima lama. Pelo esgoto sobre o qual alguns moradores colocaram tábuas que servem de ponte (de longe, quem não sente o cheiro ou sente a picada vê algo de idílico) passa de tudo: o podre, o lixo, a água que os cerca de 3.500 habitantes usam no banho, na limpeza, na descarga. Vieram de Limoeiro, no interior, para morar no Cabo de Santo Agostinho, viviam bem, era uma fazenda da família. Mas aí a mãe morreu, ficaram as meninas, um irmão e o pai. Não queriam sair de casa, mas foi o jeito. Um homem que conhecia a família havia muito tempo aproveitou que uma delas estava sozinha, sentada no sofá, vendo desenho animado na TV. A casa ainda tinha um aparelho de VHS e foi lá que ele colocou uma fita pornô. Olhava a menina, ela tinha uns 10, 11 anos, ele olhava para ela enquanto ficava nu, a tela que mostrava desenho animado agora passava gente fazendo sexo. E ele ao lado da TV, nu. A outra irmã chegou, ouviu os gritos, o homem tinha trancado a menina com ele em um quarto. Chegou mais gente para ver o que estava acontecendo, ele escapou. As duas fugiram, não quiseram mais morar ali, viviam praticamente sós após a perda da mãe. Um tio as recebeu na Vila Massangana. Casaram, tiveram filhos, mas nunca se separam, mesmo com Gislane e Laís morando em outro bairro, o Rosário. As duas vão ver Jéssica e Laura todos os dias. Ficam as quatro ali, à sombra da árvore e à beira do esgoto, na companhia constante dos maruins. Fugiram de uma vida relativamente confortável e hoje experimentam uma vida relativamente precária. Não haviam escutado o nome de Nabuco logo que chegaram a Massangana, faz cinco anos. O pouco que sabiam e sabem sobre a escravidão vem da pedagogia das novelas, da moci-

nha Isaura, cenho franzido, preocupada com a falta de liberdade da sua ama de leite. Inventaram, ainda novatas na vila, de irem juntas até o engenho. Tem que marcar hora para entrar, geralmente é com o grupo de escola, não sabiam disso e foram passear na propriedade. Conheceram a casa-grande, a capela dedicada a São Mateus, onde está enterrada Ana Rosa Falcão de Carvalho, a madrinha compradora do negro fugido que pediu, em 1857, socorro ao Nabuco criança. “Ei, tão fazendo o que aí?”, alguém gritou. Elas correram. “Eu fiquei com tanto medo, achei que iam prender a gente e colocar lá na senzala.” Gislane se preocupou à toa, naquele tempo branco ainda não era escravo. Tem mais: apesar de ser pesquisado há décadas, o engenho, aberto à visitação daqueles que se interessam pelo processo da escravidão no País, não tem identificado “o grande pombal negro ao lado da casa de morada”. Apesar da dica de Nabuco em Minha formação, a fundação que leva seu nome (Fundaj) declara não ter “nenhuma pista da senzala.” O cemitério onde os negros foram enterrados (no qual o abolicionista chorou ao visitar as covas) também não foi demarcado. Naquele chão está gente como Elias, cuja morte foi anunciada no dia 29 de julho de 1856 pela madrinha de Joaquim em um jornal local: “É falecido o Elias, escravo que foi da casa Massangana. Não podemos deixar de consignar esta lembrança em memória de um indivíduo que sempre mereceu a dita de ser considerado - homem de bem. Nascido no cativeiro, Elias tornou-se, em pouco, digno de ser tido num apreço a ponto de a sua firma, pelos padecimentos do chefe da casa de Massangana, ser tão respeitada e avaliada, que deixou alguma fortuna.” No engenho que não mostra o lugar da senzala, mas tem casa-grande constantemente recuperada, sabe-se quem é Ana, quem é Nabuco. Mas a lembrança e a memória de Elias, apesar do apreço que o negro despertou, seguem sob o chão.

LIXO E DESENVOLVIMENTO As irmãs possuem ainda outras memórias do tempo em que se tornaram Massanganas. Na escola, as brancas causaram estranhamento em um local cuja frequência é em sua maioria negra ou mulata. “As neguinhas tinham raiva de mim, puxavam meus cabelos, me chamavam de branquela”, conta Gislane. Jéssica também sentiu o cabelo longo, preto, bonito, ser puxado. Os fios voam quando elas fazem as fotos, uma delas pede: “Não me deixa morena, tá?” Gostam do branco. Passam um pouco de vermelho nas bochechas, fica mais saudável. Esse vermelho é estimado, não é aquele feio e picotado deixado pelos maruins. Eles continuam lá fora, são onipresentes, pairam sobre Laís enquanto sua mãe posa dentro da casa branca de alvenaria e teto de zinco.Deixaram a escola onde faziam supletivo e eram as irmãs “branco-azedas”. Não estudam para tomar conta das crianças que dormem nas casas sem reboco. Para Limoeiro, não voltam mais, agora pertencem às terras “vastas e pitorescas da zona do Cabo”, moram na casa onde uma espessa camada de lixo é vista no quintal, de lá ouve-se o rangido próximo dos caminhões que transportam, sobre a lama, um anunciado desenvolvimento. Apesar do lixo e dos insetos, vão criar suas filhas por ali, talvez as duas estudem na escola Joaquim Nabuco, também fica perto do canal aberto. Lá estão 286 filhos de moradores que enfrentam o mesmo conforto precário de Jéssica e seu bebê. São famílias que temem o crescimento do polo industrial, sabem que a qualquer momento pode aparecer um homem de crachá reclamando em nome do governo aquelas terras infestadas de maruins. Elas não pertencem a todos aqueles que vivem há anos observando o esgoto, aos brancos, pretos e mulatos que dificilmente terão casa-grande. Mas se perguntarem, eles vão mostrar, conhecem bem, onde fica a senzala.

Author:AAGUIAR

Date:28/07/10

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Date:28/07/10

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Quase negros