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S Beato Francisco Palau

PRÓLOGO 1. No ano 1840 entrei na França juntamente com os restos do exército de Dom Carlos V. Então, ia eu vestido de Religioso e não deixei os Santos Hábitos que trazia. Vendo-me os franceses nas covas e montanhas em tal ocasião em que não conheciam os hábitos religiosos, muitos foram de opinião que deviam me arrancá-los, ou privar-me de celebrar a Santa Missa, porque lhes parecia que aquela pobreza do saial carmelitano era indecorosa para um Sacerdote. Com o fim de justificar-me escrevi o opúsculo seguinte a uma autoridade eclesiástica amiga, muito respeitável, e que era de toda minha confiança, dando-lhe conta dele e manifestando-lhe a causa de meu modo de proceder. Aqui o leitor verá minhas ocupações naquela época. 1. Elogio da vida solitária 2. Havia o filósofo concebido sobre a vida solitária uma idéia tão sublime que acreditava que para seguí-la era preciso ser uma divindade ou uma besta: “Quem não trata ou se comunica com os outros, ou é uma besta ou é um deus” (Aristóteles). O Apóstolo, escrevendo aos Hebreus, conta entre os heróis do povo de Deus, o solitário: “outros andaram errantes, cobertos de peles de ovelha e de cabra, necessitados, atribulados, perdidos pelos desertos e pelos montes, pelas cavernas e pelas grutas da terra" (Hb 11, 37-38). 3. O solitário desde seu penhasco rende à divindade da religião, sem ruído de palavras, um público testemunho não menos brilhante que os pregadores do Evangelho. No profundo silêncio de sua solidão e retiro medita amiúde sobre a comparação entre a sociedade dos homens e a sociedade dos Anjos, entre uma gruta úmida e o palácio de um rei, entre um campo esmaltado de ervas e flores e o salão de um

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2 príncipe, entre uma cadeira de seda e uma roca, entre as luzes de combustível e o sol e a lua. 4. Crê o solitário que Deus criou inteligências puramente espirituais, muito mais sublimes que o homem, isto é, os Anjos, cujo número excede aos grãos de areia das praias do mar, às estrelas do Céu, e às folhas das árvores e de todas as ervas que têm existido, existem e existirão sobre a terra. Quando iluminado pela fé se une o solitário em espírito a estes seres viventes, despreza a companhia dos homens, pois os considera como fantasmas, quais sombras que passam e desaparecem,como esqueletos sem voz ou troncos de árvores sem vida; se separaram da companhia dos homens porque encontraram outra, com a qual esperam viver eternamente. 5. Assim mesmo o solitário crê na Vida Eterna. Quando levanta os olhos ao Céu e contempla a Casa Paterna, suas riquezas e magnificência, a honra e glória de seus moradores, se farta de ver com luz clara e meridiana quão desprezível é o mundano luxo; o vasto espaço do globo terrestre não tem diante de sua vista bastante capacidade o considera como um cárcere estreito, por cujo motivo os mais soberbos edifícios, os mais magníficos palácios não podem merecer seu apreço mais do que se fossem quadras para os animais. Se uma morada com as dimensões do globo não poderia preencher o vazio de seu coração, e quanto menos o palácio de um príncipe! 6. Forçado pela inclemência do tempo a descer de seu elevado penhasco penetra no seio dos montes por suas grutas e desde o fundo de sua gruta diz às montanhas: «sou um pobre peregrino, um viajante destindado a peregrinar desterrado sobre a terra; da-me hospedagem ao menos pelo pouco de tempo que hei de morar ainda em meu desterro (Ap 6,16). E a terra lhe dá asilo em suas entranhas, e desde então uma triste, lúgubre e úmida gruta é a quarto deste hotel em que fixa sua morada o solitário. 7. Quando com um olhar nas plácidas noites de verão contempla, iluminado com a tocha da fé, a imensidade do Céu empíreo e vê a seus concidadãos, os Bem-Aventurados, desfrutarem de inenarráveis delícias naquela Eterna Mansão de paz, que capacidade tão reduzida lhe parece então ao solitário, achar na vasta extensão da terra e, não

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3 obstante apresentar-se esta adornada com verde tapete esmaltado ao vivo, com aromáticas flores, tão formoso decorado lhe parece grosseiro a seus olhos. Se tão amplo salão bordado, ao vivo, não pode satisfazer ao solitário, que idéia tão baixa não terá formada de tudo quanto os homens têm construído e procurado embelezar com pinturas e imagens que carecem de vida e realidade!... 8. Depois que contemplou em êxtase o Sol de Justiça, este Astro Vivificador que jamais se eclipsa e que difunde sem cessar de sua casa paterna dos Céus os raios de uma luz tão brilhante que com sua virtude faz ditosos e felizes a todos os seus moradores, este outro sol material que Deus criou para iluminar o grande salão de Universo durante o dia e pela noite a lua e as estrelas que tão admiravelmente brilham no firmamento, para o solitário não tem mais valor do que se fossem luzes de combustível mortas e apagadas; e assim sem cativar-se de seus fugazes resplendores se goza, mortificado, nas trevas dos subterrâneos, esperando que amanheça a Luz da gloria. A ponta de um penhasco é para ele uma poltrona mais preciosa que o trono de um rei. Sentado sobre este sitio espera com anelo que o tempo de seu desterro chegue a seu término. 9. Este gênero de vida, não é acaso uma língua a mais eloqüente que anuncia los misterios de nossa Santa Religião de um modo prático? Nosso Senhor Jesus Cristo nos deu um assinalado exemplo dela; antes de começar sua vida Apostólica quis ser solitário, e durante o tempo de sua pregação frequentemente se retirava pelas noites às montanhas. Seu Precursor viveu desde sua infância nos desertos e os Profetas haviam dado antes este exemplo nas montanhas do Líbano, do Horeb e do Carmelo. E os Santos do Novo Testamento do mesmo modo seguiram a Cristo nos desertos. 2. Vocação Carmelitana e Contemplativa 10. Quando fiz minha profissão religiosa a revolução já tinha em sua mão a tocha incendiada para abrasar todos os estabelecimentos religiosos e o temível punhal para matar os indivíduos refugiados neles. Não ignorava eu o perigo acelerador a que me expunha, nem as

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4 regras de previsão para subtrair-me a ele; me comprometi, todavia, com votos solenes a um estado, cujas regras acreditava poder praticar até a morte, independente de todo humano acontecimento. Para viver no Carmelo só necessitava de uma coisa que é a vocação; muito persuadido estava dele, como todavia, também estou, de que para viver como anacoreta, solitário ou eremita, não necessitava de edifícios que logo iam desmoronar-se; nem me eram indispensáveis as montanhas da Espanha, pois acreditava haver em toda a extensão da terra bastantes grutas e cavernas para fixar nelas minha morada. De nenhum modo temia que as revoltas políticas da sociedade me pudessem ser obstáculo para o cumprimento de meus votos, nem por outra parte podia duvidar, tampouco, de que o estado religioso deixaria de ser reconhecido pela Igreja Universal e por conseguinte, por todos os seus membros. 11. Com estas considerações, em nenhum momento vacilei em contrair obrigações, que estava bem persuadido poder cumprir fielmente até a morte; se por um instante houvesse eu duvidado sobre um ponto tão essencial para abraçar meu estado, oh, não! Certamente não seria agora eu religioso, pois teria seguido outro gênero de vida; e até quando meus superiores me anunciaram que devia ordenar-me, me parece que jamais aceitaria o Sacerdócio se me houvessem assegurado que em caso de ver-me obrigado a sair do convento deveria viver como Sacerdote secular, pois a meu parecer nunca senti essa vocação, e se consenti em ser sacerdote foi sob a firme persuasão de que esta dignidade de modo algum me distanciaria de minha profissão religiosa. 12. Quando os revolucionários espanhóis vieram com o punhal na mão para assassinar-nos em nossos próprios conventos, nem por isso me assustei; e uma vez salvo pela Protetora Mão da Providência me conformei o melhor que pude com as regras de minha profissão religiosa. 3. Direito legítimo Sendo, pois, proscrito o estado religioso pelas leis do governo

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5 espanhol, entrei na França no ano de 1840 com o mesmo hábito religioso para pedir hospitalidade ao governo francês, o qual me recebeu com humanidade. 13. Poderia a presença de um solitário alarmar à gente francesa? Eu estava bem confiado de que estas gentes tolerariam um eremita em sua pobre cabana, pois que não lhes pedia proteção alguma, senão simplesmente que me permitissem seguir livremente minha vocação religiosa; tolera-se aqui tudo o que há de mais execrável e abominável, como são os materialistas e ateus, deistas e pagãos, maometaneos, judeus e protestantes, toda classe de sectários, tudo o que há de mais ímpio, tudo está tolerado no território francês. A França alimenta em seu seio por uma lei fundamental de tolerância, todos os erros que têm sido fulminados e reprovados pela Igreja, católica, apostólica, romana; tolera-se no povo, escândalos, os mais afrontosos, pois se se levantam o estandarte da religião, e se erguem uma Cruz no meio de uma praça, os jovens instituem ao seu redor centros públicos de libertinagem, e este escândalo está à vista do público dia e noite, e não obstante, se tolera. 14. Bem persuadido, pois, estava eu, de que um país, que tolera as bestas mais feroses do inferno, daria hospitalidade a um pobre solitário que expulsado de seu convento pela revolução vinha a pedirlhe asilo; aquele asilo que não se nega aos leões, nem aos ursos, nem aos leopardos, nem aos lobos nem às demais feras do bosque deste mundo. Porém me equivoquei; a gente deste país olha meu gênero de vida e o tem julgado, e desde o primeiro dia que me viram entrar em uma cova se escandalizaram, e decidiram tirar-me dela, e para este fim empregaram todos os vexames e perseguições que têm em sua mão; e quando se convenceram de que pela espada de ferro do governo não podiam fazer-lhe desaparecer, levantam as mãos ao Céu e o têm fulminado com imprecações de várias classes. 4. Acusações e oposições injustas 15. Meu gênero de vida tem sido o primeiro anel da cadeia de vexames e perseguições que têm fabricado contra minha pessoa. O país é testemunho deste escândalo que têm diante de seus olhos a sete

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6 anos, ou seja, desde o primeiro dia que me internei no bosque. Não ousaram atacar-lhe às claras, porém, suas mãos têm empregado todos os recursos que têm a seu alcance para combatê-lo. E é complemente inútil que se busquem outros motivos destas acusações, pois que meu gênero de vida é e foi, o único crime que intentaram condenar; pode ser que haja outras faltas porém todas são efeitos,uma conseqüência do que acabo de dizer. 16. Estas oposições e contrariedades unidas às calunias afrontosas, que inventaram e divulgaram para ocultar a injustiça, tem sugerido a mais monstruosa idéia da vida solitária, ao público, e a têm reprovado de tal maneira como se minha vida fosse uma abominação intolerável, como se manchara a honra de um estado que Deus e sua Igreja sempre têm reconhecido, aprovado e autorizado. Pode-se atacar as faltas de uma vocação e se respeitar o estado, porém condenar um estado pelas faltas de um indivíduo é uma execração. Que se diria de mim, se pelas falas do senhor de Montauban eu condenasse sua profissão e seu estado? Seguramente que não poderia tolerá-lo, e a honra de seu estado lhe obrigaria a tomar sua defesa. Pois bem, se o estado de juiz e senhor é reconhecido, o meu, de religioso, é nela respeitado, e pelo mesmo não tolerarei que se condene e anatematize a vida solitária como se fosse um crime intolerável. E por este motivo a honra de meu estado me impulsiona a tomar sua defesa. 5. Compatível com seu sacerdócio 17. Fazem pensar e querem persuadir-nos de que a vida solitária é estranha às funções de um Sacerdote sobre o Altar; cremos que isto é um erro e que pelo contrário poderemos demontrar que lhe é muito conforme. Mostrando a história, o que querem fazer é passar minha vida por criminal, mas veremos que a vida solitária não é estranha senão muito conforme com as funções do Sacerdote sobre o Altar. 18. Havendo-me, a Igreja, pelo ministério de um de seus pastores imposto as mãos sobre minha cabeça, o Espírito do Senhor, que vivifica esse corpo moral, me transformou em outro homem, a saber,

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7 em um de seus ministros, em um de seus representantes sobre o altar, no Sacerdote do Altíssimo. 19. Quando com o incensário na mão pela primeira vez subi os degraus do Altar, para oferecer a Deus o perfume das orações do povo (Ap 8,3), minha pátria era um cemitério coberto de esqueletos. Por meu ministério eu estava como ministro do altar, como sacerdote, comprometido a lutar com o Anjo vingador que havia manchado sua espada com o sangue de meus concidadãos e de meus irmãos, os ministros do Santuário. Não podia eu apresentar-me no campo de batalha sem armas, porém as de ferro e aço me eram completamente inúteis, já que meu combate era dirigido não contra a carne e o sangue, mas contra as potestades, os príncipes e diretores das trevas deste mundo (Ef 6,12); tomei, pois, do depósito do Templo do Senhor uma armadura de todo espiritual (Ef 6,13) como são a cruz, o saco e o cilício, a penitência e a pobreza, juntamente com a oração e a pregação do Evangelho. 20. Nesta luta, no princípio me limitava a sustentar a causa de meus cidadãos e de meus co-irmãos, porém vomitado pela revolução ao outro lado dos Pirineus, e havendo percebido em meu desterro de que esta mesma espada, que tão espantosa carnificina fazia na Espanha, ameaçava igualmente as demais nações em que se professava a religião católica, decidi-me desde então, a fixar minha residência nos mais desertos, selvagens e solitários lugares, para contemplar com menos ocasião de distrações os desígnios da Divina Providência sobre a sociedade e sobre a Igreja. 21. Do mesmo modo que uma paróquia necessita de um Sacerdote que a represente no Altar, de modo semelhante a massa enorme da sociedade humana que existe sobre a terra, não sendo diante de Deus mais que um reduzido povo,necessita de um Sacerdote que lhe represente diante de seu Trono. Sob esta consideração, como Sacerdote da Igreja católica, apostólica, romana, como um de seus representantes diante do Altar e como um de seus enviados diante do Trono de Nosso Senhor Jesus Cristo e de seu Pai (Ap 4,2), a defesa de sua causa tem sido e todavia, é o único objetivo que tenho diante de meus olhos na solidão. Não havendo-me este objetivo permitido tomar

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8 parte alguma nos particulares intereses de uma nação senão enquanto que estavam vinculados com os da Igreja Universal, por outra parte, o lugar de meu desterro me tem livrado de cair nessa tentação perigosa. 22. Não me envergonho, portanto, de confessar a todos os que atacam meu gênero de vida como uma escandalosa execração, que entrei nas grutas e cavernas das pedras, e nas grutas dos penhascos (Ap 6,15) para buscar o profundo silêncio que reina nas entranhas da terra pois, sepultando minha vida nestes lúgubres lugares encontrava meu espírito menos ocasião de distrair-se, do que vivendo sobre a face da terra. Dentro destas lúgubres e tristes cavernas não percebia o fragor dos trovões ameaçando e derrubando o orgulho dos cedros, nem a impetuosidade dos ventos açoitando as cordilheiras das montanhas, como tampouco chegava ali o murmúrio das águas precipitando-se sobre as rocas, pois até o canto dos pássaros igual o uivo das bestas da selva e o assovio dos pastores, tudo ficava afogado no umbral de meu absoluto retiro. Afastado das povoações nem o ruído dos veículos nem os gritos dos moços chamando a seus companheiros para seus jogos e diversões, nem o som das campainhas, nem o clamor dos vendedores e compradores, nem a atividade dos artesãos, nada de tudo isto cativava minha atenção. 23. Preferi esta minha espantosa solidão a todo outro lugar para meus exercícios e aí estão os motivos. 6. “Luta com Deus” pela Igreja Há muitos séculos eram levadas denúncias e acusações diante do Trono de Deus contra o povo católico, apostólico, romano; estas queixas repetidas em todos os tempos e em todas as épocas de dia e noite (Ap 7,15; 20,10) várias vezes despertaram o Soberano Juiz; e não sendo estas relações falsas as tomou em consideração, e reunido seu conselho e havendo-se sentado em seu Trono julgou nossa causa. Porém um Juiz infinitamente justo não podia julgar-nos sem chamar-

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9 nos à defesa de nossa causa, nem menos condenar-nos sem antes ouvir nossas declarações. Tenho passado dias e noites, semanas e meses inteiros oculto no seio nu da terra, verdade é que tenho feito assim, porém acreditei-me obrigado a isso, a fim de informar-me do estado da causa cuja defesa eu tomava, por minha conta. 24. Este profundo silêncio e esta espantosa solidão eram muito a propósito e muito convenientes para estar mais atento à voz dos adversários, já que por meu ministério tinha que responder às suas acusações que infeslizmente estavam longe de serem meras calúnias. Não, certamente, não eram relações falsas; pelo contráro eram verdadeiras denúncias, fundadas sobre faltas graves e sem correção, sobre os mais enormes crimes sem satisfação e sobre escândalos sem reparação, os quais por desgraça se acham autorizados entre nós. 25. Nestes úmidos subterrâneos, pois, em meio de uma triste e espantosa noite, coberto com o negro manto das mais espessas trevas para estar atento à voz dos acusadores, escutava no profundo silêncio daquelas lúgubres covas este clamor: Aqui está um povo, diziam, aqui está um povo ingrato que há tanto tempo abusa de vossas misericórdias, e cujos crimes o torna indigno do depósito de vossa religião que lhe haveis confiado, pois que suas iniqüidades sobrepujam o deicídio dos Judeus, o cisma dos gregos, a revolução dos protestantes, o erro dos maometaneos e as trevas das enormes massas das nações infiéis que dormem todavia, nas sombras da morte. Pesai Senhor, na balança de vossa justiça e comparai as faltas e os escândalos do povo cristão com os dos Judeus, dos protestantes, dos gregos e dos infiéis, e vereis como não há proporção e equilíbrio, e por agora o enorme peso dos crimes daquele fará inclinar vossa justiça a seu lado. Cortai Senhor, cortai da árvore da vida esse ramo podre e corrompido que lhe impede o desenvolvimento; limpai a árvore de vossa Igreja da putrefação e corrupção de um povo que blasfema e desonra vosso Nome (Ap 22,2; Dn 4,10-11). Fazei que em seu lugar cresçam os Judeus, os gregos, os protestantes e as enormes massas de infiéis que desde o dilúvio esperam vossas misericórdias. Fazei, Senhor crescer esta sagrada árvore e que estenda seus ramos

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10 até os quatro extremos do Globo terrestre, e arrancai de seu tronco esses vermes ingratos de obstinados católicos, de tíbios e negligentes sacerdotes, que são um obstáculo para seu maior desenvolvimento e acabariam por corrompê-lo (Ap 22,14-19). 26. Para certificar-me se estas acusações estavam bem ou mal fundadas, e conhecer de uma maneira positiva, se nossos adversários eram bem mais uns fantasmas e suas denúncias meras imaginações, abandonei meus subterrâneos e subi sobre estas colinas, construindo no cume destes penhascos uma torre; e para que meu corpo durante o tempo deste exame não me fosse motivo de divagação a fim de estar mais atento ao objetivo sobre o qual ia fixar minha vista, o encerrei neste pequeno recinto. Algumas vezes tapei a porta, e pus nas janelas barras de ferro, passando várias quarentenas em reclusão completa e sem comunicação alguma. Em vista disto meus inimigos gritaram também que era um escândalo este meu gênero de vida; e se em verdade é um escândalo, tenho que confessar que tenho sido eu o motivo; porém eu não podia agir de outra maneira, porque a causa que eu defendia me pedia este sacrificio, pois eu não podia interceder por ela sem conhecê-la, e para isto a vida reclusa me era muito conveniente ou necessária. 27. Este motivo pode escusar-me do escândalo que dou vivendo como anacoreta. Nos belos dias de inverno, quando o sol, dissipando as neblinas, acalentava com seus raios minha cabana; nas manhãs de verão, antes que esse luminoso astro houvesse murchado as flores do campo, o mesmo que nas tardes, quando depois de seu ocaso o fresco vento do norte acalmava os ardores do dia; ou na primavera, quando o rouxinol de volta de sua viagem da Africa parecia o violino ou o violocelo e com seu maravilhoso concerto convidava ao homem a contemplar as belezas da florescente natureza; ou como no outono, quando o fresco orvalho da manhã havia mitigado os rigores do verão, e pelas noites, quando a lua desebaraçada das nuvens da atmosfera entrava em minha cela para iluminar-me; em todas estas estações do ano eu abria as janelas e, tendo em minhas mãos as lentes de larga vista, contemplava tudo o que há de mais precioso no inverno, na primavera, no verão e

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11 no outono e dirigia toda a minha atenção a esquadrinhar por todas as partes para encontrar os crimes de que nos acusam diante do Trono de Deus... 28, Estando meu corpo encerrado nesta torre, meu espírito ficava livre para ir e vir, para correr e viajar; e em minhas peregrinações levava em minha mão o libelo que continha as acusações de nossos adversários, e os crimes que constituíam a base ou causa do processo. Durante muito tempo fixei minha habitação no Vaticano em Roma, segui todos os palácios dos príncipes da Igreja, percorri todas as cortes dos príncipes católicos, viajei por todas as nações, por todos os países onde a religião católica é reconhecida e praticada; e com a luz do Evangelho busquei os crimes de que éramos acusados. Lia o libelo em meio das cidades que são as capitais do orbe cristão, examinando com atenção a vida do povo católico romano e de seu clero; e não me esqueci de confrontar suas ações, suas obras, seus pensamentos e projetos com nosso modelo que sempre tinha diante de mim, Jesus Crucificado. 29. Buscando por todas as partes a virtude, encontrei o crime no lugar santo, quer dizer, no povo cristão, pois ai está a abominação desoladora predita pelo Profeta Daniel (Mt 24,15; Dn 9,27; 12,11). E também pude ver que esta abominação era o mistério de iniqüidade que nos está escondido, de tal forma que sua malícia não me está permitido descobrir pelos atos. Porém uma catástofre espantosa, que já tem sido predita pelos oráculos da Santa Escritura, descobrirá todos os cúmplices e porá todos os seus crimes em evidência. E sem dúvida esses criminosos existem entre nós, havendo o clamor de suas iniqüidades chegado até o Céu; e pelo mesmo despertou o Soberano Juiz, o qual está sentado sobre o seu Trono para julgar esta causa; ah! eles são acusados, e quem será o advogado para responder em favor destes obstinados ante um Juiz cujas graças e tantas expressões de bondade e clemência têm menosprezado? Essa execração que o Supremo Juiz encontrou no lugar Santo constitui a base da causa deste processo. Isto é um mistério, e já tenho dito que não posso ir mais longe a descobri-lo; porém o tempo vai

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12 manifestar os culpados. 30. De volta de minhas viagens, rompendo os ferros e lançando por terra as muralhas da prisão desta cabana em que meu corpo havia sido encerrado, descia dessa altura para entrar de novo nos tristes, lúgubres e negros subterrâneos, os quais não podiam ser mais a propósito para um espírito devorado pela pena e a dor. E certamente eram muito adequados para chorar e gemer (Ez 21,17) sobre as abominações da Jerusalém terrestre. Tremendo e com as lágrimas nos olhos, o rosto pregado no solo e prostrado diante do Trono de Deus, meu espírito intercedia como Sacerdote por nossa causa e lutava contra a justiça de Deus. Então queria arrancar das mãos do Juiz o instrumento de suas vinganças, e empregava e emprego, todavia, todos os meus esforços para afogar os raios de sua cólera no Precioso Sangue do Filho de Deus. 31. Aqui está um ministério digno de um Sacerdote em sua funções sobre o altar; porém quais eram meus meios de defesa? Não outros que as orações apoiadas sobre uma humilde confissão dos crimes mais atrozes e das faltas mais escandalosas, faltas e crimes que ficam sem reparação, sem correção e sem satisfação de nenhuma classe. Temos pecado, Senhor, dizia eu diante de Deus, e temos pecado nós, vossos Sacerdotes, vossos príncipes e vosso povo. Somos culpados em vossa Presença e com nossos crimes temos atraído sobre nós os raios de vossa cólera, fazendo-nos escravos de vossos inimigos, e havendo perdido os direitos ao auxílio de vossa Graça. Por tudo isso somos indignos de vossa misericórdia pois que tanto temos abusado de vossa clemência (Dn 9,13-19). 7. Testemunho público da fé 32. Depois de tudo isso, revestido do caráter sacerdotal e havendo tomado o uniforme de um enviado da Igreja diante do Trono de Deus e dos ministros dos seus altares, colocava em meu incensário o perfume destas orações, e para que o Céu quisesse acolhê-las benigno, oferecia sacrificios. Depois de ter ouvido - quem tem ouvidos para ouvir que ouça -

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13 (Mc 4,23; Mt 19,2; Ap 13,9), tão justas queixas dirigidas ao Soberano Juiz contra nós, ao sair do meu retiro e estando em minha solidão, tinha em minhas mãos esta cruz e me apresentei em público com meu Hábito de Carmelita ou solitário. E o fiz assim, a fim de por, enquanto estivesse de minha parte, um contra-peso na balança da Justiça Divina, por meio de um público e formal protesto contra os escândalos dos povos; e ao mesmo tempo para que fosse também uma pública profissão de fé contra todos os que no meio dos lugares públicos se envergonham do Nome de Jesus. 33. Para a defesa de minha causa nenhum sacrifício me tem sido penoso, porque se para estar atento às denúncias de nossos acusadores foi preciso separar-me de todo o trato com os homens, o fiz. Se para subir em espírito ao Trono de Deus e interceder com atenção por nossa causa tem sido necessário enterrar-me vivo no seio da terra, o tenho feito. Se para conhecer a fundo, de uma maneira positiva o estado da causa, da qual, como Sacerdote, sou seu defensor diante do altar, me foi conveniente fixar minha residência no alto de um penhasco, ou viver recluso nesta cabana, o tenho feito. 34. Nada me persuade de que este gênero de vida seja uma escandalosa abominação, antes, creio bem o contrário e me sinto chamado a ele para poder satisfazer completamente meus deveres de sacerdote sobre o altar com maior perfeição, e por isso eu não posso agir de outra maneira. Se eu pudesse persuadir-me de que estou em um erro, ou sugestionado por uma ilusão diabólica, que feliz me sentiria e como me comprazeria nesta ilusão! Se pudesse crer que os crimes dos quais, como sacerdote do Senhor e ministro dos seus altares, hei de responder ante o Tribunal de Deus, não eram reais e positivos e que só estavam apoiados em falsos relatos, e que as acusações eram calúnias e que pelo mesmo a Justiça de Deus estava satisfeita; e que, por conseguinte, todo este processo não era outra coisa que castelos fabricados no ar por uma imaginação vulcanizada; se assim fosse que descansado me sentiria e que satisfação seria a minha! Porém, o que? Posso eu enganar-me sobre atos dos quais por uma fatalidade sou eu mesmo testemunho? Posso

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14 eu estar na ilusão sobre objetos que

tenho diante de meus olhos?

35. Não tenho mais que dar alguns passos fora de minha solidão para ver o vício em triunfo e a virtude humilhada. Que desventura a minha, que não esteja eu num erro! Porém, não, certamente não me engano! Um Juiz infinitamente justo está sentado sobre seu trono (Ap 22,3). E chama a Si a todos os representantes da Igreja, todos os ministros do altar a responder às acusações. E meu ministério sacerdotal me compromete a tomar a defesa, e meu gênero de vida está directamente ordenado a satisfazer tão sagrado dever. E em verdade não me arrependo disto; para este fim um profundo silêncio, em uma completa solidão, em uma palavra, o mais completo retiro são os meios mais úteis e para mim indispensáveis. Ah! Quando ouço a voz: “arrancai da árvore da vida esses ingratos cristãos” (Dn 4,11; Ap 22,19), quisera enterrar meu corpo na tumba, para que nesta luta não me distraisse o espírito de seu objetivo. 36. Como Sacerdote tenho lutado, não precisamente contra o inferno, pois está escrito que o Anjo protetor do povo judeu nos últimos tempos se levantará para tomar com firmeza sua defesa (Dn 12,1-4). E querem que o pecado de deicídio seja suficientemente castigado; que os príncipes angélicos das inumeráveis nações de infiéis que dormem nas trevas e nas sombras da morte peçam a Deus que lhes conceda sua misericórdia. Do mesmo modo os protetores dos gregos e dos protestantes, e os de todos os povos que estão fora da Igreja católica solicitam que lhes abram as portas da vida. Todos esses Anjos tutelares de nenhum modo estão, nem lutam conta nós, senão no julgamento e no caso de nossa corrupção e nossa frouxidão, nossa tibieza e nossos crimes e finalmente nossa ingratidão serão um obstáculo para que as misericórdias do Senhor sejam derramadas com efusão sobre os povos que a Divina Providência lhes tem confiado. Sob essa consideração eles clamam: “cortai-os da árvore da vida” (Ap 22,2; Dn 4,10-11), não a Igreja católica, apostólica, romana, mais a

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15 estes anti-cristãos ou maus cristãos. Esta súplica que a primera vista pode parecer uma horrível blasfêmia, todavia, não é de modo algum, pois, se um ramo ameaça apodrecer toda a árvore, é obrigação do dono cortá-la; e em tal caso o jardineiro que pedisse permissão ao Senhor para fazê-lo, sem dúvida que não lhe ofenderia por isto, já que esta prece desfavorável ao ramo podre resultava em benefício de todos os outros ramos da árvore. 37. Durante este combate minha residência tem sido fixada no alto de um penhasco ou no mais profundo de uma caverna. Tenho subido às alturas dos montes e desde seu cume tenho contemplado os crimes e as virtudes do povo cristão e de seu clero. Tudo o tenho posto em um lado da balança da Justiça. Tenho estado entre os Judeus, entre os gregos e protestantes e entre todos os infiéis e fiz outro tanto. Tenho buscado o vício e a virtude e tudo tenho posto no outro lado da balança. Olhei atento ao equilíbrio para ver de que lado se inclinava a Justiça e de qual a misericórdia. Porém, me enganei, pois não é a mim que corresponde pesar o vício e a virtude, já que isso pertence só a Deus que conhece perfeitamente os corações dos homens e suas mais recônditas intenções. Desci dessas alturas e busquei os subterrâneos, esses lugares de pranto e lágrimas, para fazer ali minha oração. Errante por esses solitários lugares, tão logo recluso na ponta de um penhasco, como sepultado em seguida no seio nu da terra, sacrificava o tempo de minha vida em defesa de nossa causa. 8. Justiça diante dos olhos de Deus 38. Enquanto me ocupava nesses exercícios de vida contemplativa, um incidente muito molesto levou ao cúmulo minha aflição. Alguns de meus co-irmãos, ministros do Altar, têm clamado que meu gênero de vida era um escândalo. Deus meu! Que tristes, negras e penosas reflexões se amontoavam continuamente no meu espírito! Haveriam nossos inimigos prevalecidos diante do Trono de Deus? Ah! como tremo em minha situação! Haveríamos nós, Sacerdotes e ministros do Altar, nós advogados do

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16 povo cristão diante do Trono de nossa causa?

Deus, haveríamos nós perdido

Haverá o Supremo Juiz de todas as nações pronunciado seu decreto contra nós? Haveria o peso enorme de nossos crimes feito inclinar a balança da Justiça Divina contra nós? Haveria esse Juiz Soberano de todos os povos decretado a sentença de cortar da árvore de sua Igreja todos aqueles dentre nós que não tivessem escrito seu nome no Livro da Vida? (Ap 20,15; 22,19). 39. Estes temores dilaceram meu coração e não posso pronunciarme sobre esta questão e por isso minha pluma (pena de escrever) se detem, porém o tempo seguirá seu curso segundo a ordem da Providência. E se se chega já a uma época em que o deicídio dos Judeus seja bastante vingado, como também o cisma dos gregos, a desobediência dos protestantes, os erros dos infiéis e as faltas de todos os que estão fora da Igreja sejam abundantemente castigados; a uma época em que nossa infidelidade, nossa ingratidão aos benefícios recebidos, ao abuso das graças e das misericórdias do Senhor e nossos crimes e nossas faltas sobrepujem a iniqüidade de todos os que estão fora do campo da Igreja de Deus (Dn 9,5), ah! época fatal aquela para nós! Porque aqueles serão dias de lágrimas e de prantos, de vinganças e de cólera (Lc 21,23; Mc 13, 19; Mt 24,21; Ap 6,17). Desgraçados aqueles que não terão a caridade fundada na verdade! Desgraçados aqueles cristãos que não terão seus nomes escritos no Livro da Vida (Ap 21,27). 40. Aqui está minha opinião: a porção escolhida e eleita da Igreja católica, apostólica, romana, e o povo Judeu convertido à fé serão os germens de que se servirá o Príncipe dos pastores para fazer entrar no seio de sua Igreja todos os que ainda estão fora dela; e todos os ramos podres daqueles que não são católicos mais que de nome, e que segundo seus costumes pertencem ao número dos pagãos e publicanos, serão cortados e lançados ao fogo. 41. Aqui está minha vida criminal, que se crer ser um abominável escândalo. Se meu gênero de vida é um crime, eu quero e prefiro passar por criminoso ante os olhos dos homens, contanto que minha consciência me justifique diante do Tribunal de Deus.

A V

S


A vida solitária