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          Será que Poetas lêem pouco? Qual seria a o propósito de um questionamento nesse sentido para o debate literário no  Brasil.? Essa não é um libelo contra os poetas, mas sobre um fenômeno contemporâneo que tem  chamado muita atenção entre quem ama literatura e faz disso uma das coisas  importantes da vida. Sabemos que para muitas pessoas, incluso artistas e poetas, essa questão pode não ter a  menor importância, nem mesmo como curiosidade. A elas, reservamos o total direito de  não levarem o assunto em consideração, Alheando­se a uma discussão que “nada tem a  ver com a criação poética”. Mas, por outro lado, seja como leitor inveterado ou escritor, para pessoas que tem a  literatura como parte indispensável de suas vidas essa é uma pergunta de grande  interesse. A questão parte do convívio quase diário com poetas com uma produção significativa  de longos anos, alguns inclusive ganhadores de um prêmios. Além de   reconhecidos  por seus pares. Indo direto ao ponto, o fato é que, curiosamente, muitos dos poetas, ou que se afirmam  como tal, (essa distinção será cuidadosamente observada aqui) que pipocam a todo  momento em diverso meios, não só artísticos, revelam explicitamente falta de repertorio  mínimo no campo da literatura e até, surpreendentemente, em seu próprio metier a  poesia. De cara, dois questionamentos bem destintos se impõem:   Uma pessoa é poeta simplesmente por se afirmar assim? O poeta tem obrigação de ler outros escritores? Hoje em dia, do Advogado ao artista plástico, passando pelo jovem estudante colegial,  todo mundo faz alguns versinhos, todos tem alguma poesia para mostrar e a maioria não  tem o menor duvida em se apresentar como poeta. Evidentemente não são dessas doces e sensíveis pessoas, que algumas vezes só  procuram  reencantar suas vidas, que precisamos de saber o porquê de tal disparate. A segunda pergunta tem um peso maior para o nosso propósito e esta diretamente  relacionada questão principal, é daí que surgem diretamente as vozes dos poetas. “ Minha poesia vem da minha experiência de vida, do cotidiano” “ Escrevo a partir da minha vivencia pessoal, não me interessa a visão dos outros” “ Não leio para não me influenciar” 


São algumas das  não raras frases que se pode ouvir  de parte dos milhares de poetas  que freqüentam as dezenas de saraus de São Paulo, hoje o estado que sedia alguns dos  mais populares do Brasil. Sem entrar no mérito profundo da questão, pode­se dizer, no mínimo, que essa é uma  postura claramente indiferente que serve de desculpa para ignorar toda tradição  literária,que se consolidou ao longo de milênios, única e exclusivamente por mérito  estético. Uma fonte de matéria­prima artística resultante de vidas e experiências incontáveis, tão  nossas como qualquer outra coisa. E claro que não se trata de extirpar o espontaneismo da poesia, não se  pode negar o  caráter intuitivo ou instintivo da arte tantas vezes reverenciado nos manifestos como o  Surrealismo, dos escritos de Kandinky ou da literatura Beat., entre dezenas de outros  exemplos. Mesmo neste texto que escrevo a intuição tem papel fundamental, pois parte de uma  impressão meramente empírica e que não é resultado de leitura alguma que eu tenha  feito nos últimos tempos, além disso não consulto nenhum livro ou artigo para me  auxiliar nesse momento. Porem, não posso negar que tal reflexão só poderia ter sido desencadeada pelo fato de  dispor de um conhecimento embasado no imaginário literário e não só em minhas  experiências.   Tudo isso para dizer que,na pratica, parece revelar o real motivo da  gritante falta de  leitura entre muitos poetas é, não o anseio a originalidade ou a criação artística autoral e  de forte cunho pessoal, mas, esse éo ponto, a  “ Persona de Poeta” , a caracterização de  um anônimo em “ artista”, em um ser diferenciado. Todo mundo sabe o prestigio, pouco que seja que alguém que se envolve com algum  ramo da literatura ou da cultura goza nos círculos sociais. Em casos mais extremos  poder­se­ia apontar em investidas  como essa  uma carência de auto­estima ou um mero  clamor por popularidade fácil. O status advindo da Persona de Poeta  induz ao aumento da auto­ estima e a sensação de  estar participando de um circulo – restrito de notáveis , pois, não podemos esquecer,  nem todo o planeta virou poeta! .Se assim for, resta aos colegas de  tão importante esforço que se deixam tomar pelo  olhar sublimado e devastado sobre a vida que a literatura  lança  para  mundo.  


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POETAS LEEM POUCO?  

Um olhar sobre a proliferaçao de poetas na cena literaria.