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Caracas, Venezuela * Ano IX – Época II * 30 de Junho de 2009 RIF: J301839838

Sophia de Melo: e tudo começou com a Nau Catrineta! Jorge de Sena disse de Sophia de Mello Breyner Andresen que era “uma das vozes mais nobres da poesia portuguesa do nosso tempo. Entendamos, por sob a música dos seus versos, um apelo generoso, uma comunhão humana, um calor de vida, uma franqueza rude no amor, um clamor irredutível de liberdade – aos quais, como o poeta ensina, devemos erguer-nos sem compromissos nem vacilações”. Para outro grande poeta, David Mourão-Ferreira, a vencedora do Prémio Rainha Sofia de Poesia Ibero-americana, é “... um caso ímpar na poesia portuguesa, não só pela difusa sedução dos termos ou pelos rigores da expressão, mas sobretudo por qualquer coisa, anterior a tudo isso, em que tudo isso se reflecte...”. Por estas, e muitas outras boas razões, recordamos nesta edição que dentro de poucos dias, a 2 de Julho, faz cinco anos que partiu para o Olimpo deixando-nos a todos o legado da sua obra de contista, poeta e tradutora. Sophia de Mello Breyner Andresen nasceu no Porto (1922), numa família da velha aristocracia da cidade e foi educada segundo os valores mais tradicionais da moral cristã, pelo que não estranha que tenha sido dirigente estudantil dos movimentos universitários católicos e que tenha apoiado, desde uma perspectiva liberal, o movimento monárquico e desafiado o regime salazarista. A origem estrangeirada dos seus apelidos vem da longínqua Dinamarca, de onde era oriundo o seu avô, que um dia chegou à capital do norte e lá ficou para sempre. Com o passar do tempo, João Henrique, seu filho, compraria, por volta de 1895, a famosa Quinta do Campo Alegre, hoje Jardim Botânico da cidade. Naquela casa enorme e naquele meio abastado e com “criadagem numerosa”, entre a qual se encontrava Laura, que talvez nunca tenha sabido a importância que teve na vida de uma poeta que, segundo o ensaísta António Manuel Machado, é dona de uma “lucidez dialéctica que coloca muitas das suas composições na linha dos nossos melhores clássicos”. Foi essa Laura, criada repetimos, que, quando Sophia era uma menina de três anos, lhe ensinou, para uma reunião familiar de Natal, a Nau Catrineta. Por quê? Um primo dela aprendera um poema para a ocasião e Laura achou que Sophia não devia ficar para trás. E não ficou, deliciando a família com a recitação total do famoso romance anónimo. Em 1946, depois de ter travado amizade com vários intelectuais reconhecidos – Rui Cinatti e Jorge de Sena, entre outros – casa com Francisco de Sousa Tavares, político, advogado e jornalista, com quem teria cinco filhos, sendo Miguel Sousa


Tavares, jornalistas e ficcionista, o mais mediático de todos. A poesia não a afasta da família ou dos filhos. Muito pelo contrário. É por e para eles que escreve vários contos infantis: A Menina do Mar (1958), Noite de Natal (1959) e O Cavaleiro da Dinamarca (1964), entre outros. Não começa, contudo, pela literatura infantil, pois é de 1945 Poesia e do 47 O Dia do Mar, a que se seguem Coral (1950), No Tempo Dividido (1954), Livro Sexto (1962), entre muitos outros textos de poesia Mas além de contos, infantis e não só, e de poesia, Sophia de Mello debruçou-se também sobre o teatro: O Bojador e O Colar. Escreveu igualmente ensaios sobre poetas e poesia e teve do mesmo modo uma destacada actuação como tradutora de autores franceses (Paul Claudel), italianos (Dante) e ingleses (William Shakespeare), só para referir alguns casos. Por outro lado, parte da sua obra está destarte traduzida para alguns dos idiomas mais importantes e aqui, na Venezuela, já foi vertida ao castelhano, nomeadamente por Nidia Hernández. Com uma obra tão vasta e singularmente elevada, que refere sempre com beleza ímpar lembranças da infância, a inspiração do mar, a vida trepidante da cidade ou o mistério indecifrável e sempre fascinante da noite, os reconhecimentos e prémios literários foram recaindo sobre esta autora que, segundo Eduardo Lourenço, tem uma sabedoria “mais funda do que o simples saber”. Nos últimos 40 anos conquistou perto de duas dezenas de prémios nacionais e internacionais. Na impossibilidade de os referir a todos, recordemos que obteve o Grande Prémio de Poesia da Sociedade Portuguesa de Escritores (1964), Medalha de Verneil da Societé d’Encouragement au Progrés (1979), Prémio da Associação Internacional de Críticos Literários (1983), Prémio Petrarca (1995), Prémio do Pen Clube Galego (2000) e não esqueçamos o já mencionado Prémio Rainha Sofia e que foi a primeira mulher portuguesa a receber o Prémio Camões, em 1999. Esta nota ficaria incompleta se não referíssemos aqui a sua actividade de militante contra a ditadura, de que é testemunho O Livro Sexto e a sua condição de fundadora da Comissão Nacional de Socorro aos Presos Políticos, assim como a sua passagem, depois do 25 de Abril, pela Assembleia Constituinte.

25 DE ABRIL Esta é a madrugada que eu esperava O dia inicial inteiro e limpo Onde emergimos da noite e do silêncio E livres habitamos a substância do tempo Sophia de Mello Breyner Andresen

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* Roménia: Tradução de Lobo Antunes Com ocasião da entrega do título de Doutor Honoris Causa, da Universidade Ovidius, de Constantza, foi lançado, na Roménia, A Ordem Natural das Coisas, romance publicado em 1992 e que para outro grande ficcionista, José Cardoso Pires, é o melhor romance de Lobo Antunes. O autor parece coincidir com esta apreciação, já que, em Outubro do mesmo ano, se referia assim ao seu livro: "É, de facto, um livro extremamente ambicioso e também aquele que eu considero ser o melhor. É um pouco como diz: o livro total. Acho que, pela primeira vez, eu terei conseguido aquilo que ando a perseguir há tantos anos. E ao contrário dos outros, é necessário lê-lo de uma ponta à outra para o entender, porque são os últimos capítulos que iluminam, de repente, todo o romance." Lobo Antunes, licenciado em medicina e um dos autores portugueses frequentemente apontado como candidato ao Nobel de Literatura, é também autor de A Explicação dos Pássaros, Fado Alexandrino, Auto dos Danados, O Esplendor de Portugal e As Naus.

* Grécia: Sophia de Mello na Nea Synteleia... . A revista grega Synteleia, dirigida pelos poetas Nanos Valaoritis e Andréas Pagoulatos, dedicou parte da sua mais recente edição à poeta Sophia de Mello. Synteleia, que conta igualmente com uma nota de introdução escrita pela professora universitária Rosa Mesquita, inclui traduções de vários poemas da autora de Livro Sexto (ver nota editorial). A edição, que se debruça em boa medida sobre a literatura lusófona, oferece igualmente aos seus leitores uma mostra da literatura brasileira. Clarice Lispector, João Guimarães Rosa e Graciliano Ramos são alguns dos mestres da língua portuguesa que figuram nesta revista especializada em temas culturais.

* Portugal na Revista Nacional de Cultura... A Revista Nacional de Cultura, fundada em 1938 pelo insigne ensaísta venezuelano Mariano Picón Salas, dirigida actualmente por Sael Ibáñez e com Maritza Jiménez à frente da respectiva direcção, dedica várias das suas páginas do número 337/2009 à poesia portuguesa. O trabalho em questão é a propósito do livro Siete Poetas Portugueses, antologia da responsabilidade de Nidia Hernández, que foi baptizada no Centro Português de Caracas, num acto organizado pelo Instituto Português de Cultura, em Dezembro de 2008. Na antologia, editada com os auspícios da Fundação Calouste Gulbenkian, podemos apreciar um conjunto de poemas de alguns dos poetas fundamentais dos nossos dias: Sophia de Mello, Casimiro de Brito, Ana Luísa Amaral, Rosa Alice Branco, Nuno Júdice, Eugénio de Andrade e António Ramos Rosa. Nidia Hernández é a condutora do programa La Maja Desnuda, que se transmite todas as terças-feiras desde os estúdios da Radio Nacional de Venezuela.


* Pessoa em filme pela mão de João Botelho! Um quarto de século após se ter estreado nas longas-metragens com o filme Conversa Acabada (1982), no qual regista as relações de amizade e literárias entre dois grandes poetas: Fernando Pessoa e Mário de SáCarneiro, o realizador de cinema João Botelho (Lamego, 1949) tem pronto o projecto de adaptar ao écran um dos livros mais emblemático do poeta dos heterónimos. Trata-se de O Livro do Desassossego, de Bernardo Soares, que será versionado como O Filme do Desassossego. No começo de Julho, será assinado, na Casa Fernando Pessoa, em Lisboa, o protocolo entre o realizador cinematográfico e a Câmara Municipal da capital, com o qual se formaliza a transposição da obra à tela. Na sinopse, o realizador descreve-o como "um filme desassossegado sobre fragmentos de um livro infinito e armadilhado, de uma fulgurância quase demente mas de genial claridade".

* Efemérides... 16 de Junho de 1996. Morre David Mourão-Ferreira. Tinha nascido a 24 de Fevereiro de 1927. Foi professor de liceu e universitário, escritor e poeta. Entre 1963 e 1973 foi secretário-geral da Sociedade Portuguesa de Autores. Destacou-se como um dos grandes poetas contemporâneos do Século XX. 17 de Junho de 1922. Gago Coutinho e Sacadura Cabral culminam com sucesso, a primeira travessia aérea do Atlântico Sul. Uma verdadeira proeza da navegação aérea. 18 de Junho de 1875. Falecimento do escritor ultra-romântico António Feliciano de Castilho, Fidalgo da Casa Real, por sucessão a seus maiores, cavaleiro da antiga ordem da Torre e Espada. Ficou famosa a sua polémica com Antero de Quental: a conhecida Questão Coimbrã, que sacudiu o ambiente literário da época. 23 de Junho de 1811. Passamento do poeta satírico Nicolau Tolentino. Professor de retórica em Lisboa durante quinze anos. 25 de Junho de 1948. Morte de Bento de Jesus Caraça. Professor, escritor e político. Fundou a Biblioteca Cosmos, que gozou da total antipatia do Estado Novo. 29 de Junho de 1974. Falecimento do escritor Ferreira de Castro, figura fundamental do século XX , que tratou várias vezes o drama da emigração, já que o sentiu directamente na pele, desde muito jovem. AJUDE-NOS A DIVULGAR A CULTURA PORTUGUESA! Colabore com a campanha destinada à obtenção de fundos e de novos aderentes! Telefaxe. 0212 985.41.43 - E-mail: - iptcultura@gmail.com

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NotiFax de 30 de Junho de 2009