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Caracas – Venezuela * Año IX – Época II * 15 de Setembro de 2009 RIF: J301839838

Manifestis Probatum: o nascimento de um reino... Claro que não é um papel, por muito pontifício que seja, o que marca o nascimento de um país, o qual já o era, pela força dar armas, muito antes. Contudo, não deixa de ser interessante registar que foi há 930 anos quando o papa Alexandre III, “servo dos servos de Deus”, deu a D. Afonso Henriques, “caríssimo filho em Cristo, ilustre rei dos portugueses”, a “certidão” de nascimento papal numa bula – a Manifestis Probatum Est – que dizia assim: “Está claramente demonstrado que, como bom filho e príncipe católico, prestaste inumeráveis serviços a tua mãe, a Santa Igreja, exterminando intrepidamente em porfiados trabalhos e proezas militares os inimigos do nome cristão e propagando diligentemente a fé cristã, assim deixaste aos vindouros nome digno de memória e exemplo merecedor de imitação. Deve a Sé Apostólica amar com sincero afecto e procurar atender eficazmente, em suas justas súplicas, os que a Providência divina escolheu para governo e salvação do povo. Por isso, Nós, atendendo às qualidades de prudência, justiça e idoneidade de governo que ilustram a tua pessoa, tomamo-la sob a protecção de São Pedro e nossa, e concedemos e confirmamos por autoridade apostólica ao teu excelso domínio o reino de Portugal com inteiras honras de reino e a dignidade que aos reis pertence, bem como todos os lugares que com o auxílio da graça celeste conquistaste das mãos dos sarracenos e nos quais não podem reivindicar direitos os vizinhos príncipes cristãos. E para que mais te afervores em devoção e serviço ao príncipe dos apóstolos S. Pedro e à Santa Igreja de Roma, decidimos fazer a mesma concessão a teus herdeiros e, com a ajuda de Deus, prometemos defender-lha, quanto caiba em nosso apostólico ministério. (...) Cuidarás. por isso, de entregar tu e os teus sucessores, ao Arcebispo de Braga pro tempore, o censo que a Nós e a nossos sucessores pertence. Determinamos, portanto, que a nenhum homem seja lícito perturbar temerariamente a tua pessoa ou as dos teus herdeiros (...). Se de futuro qualquer pessoa eclesiástica ou secular intentar cientemente contra o que dispomos nesta nossa Constituição, e não apresentar satisfação condigna depois de segunda ou terceira advertência, seja privada da dignidade da sua honra e poder, saiba que tem de prestar contas a Deus por ter cometido uma iniquidade, não comungue do sacratíssimo Corpo e Sangue de Jesus Cristo nosso divino Senhor e Redentor, e nem na hora da morte se lhe levante a pena. Com todos, porém, que respeitarem os direitos do mesmo reino e do seu rei, seja a paz de Nosso Senhor Jesus Cristo, para que neste mundo recolham o fruto das boas obras e junto do soberano juiz encontrem o prémio da eterna paz. Amen. Amen.”

Alexandre III faleceria dois anos depois, após um pontificado que não foi nada pacífico, já que a sua eleição foi contestada pelo anti-papa Victor IV, que era apoiado pelo imperador Frederico BarbaRosa. De facto, Alexandre III só teria algo de paz a partir de 1177, após a vitória na batalha de Legnano. Reposto no Vaticano em Março de 1179, redigiria a Manifestis Probatum dois meses depois.


Este era a conclusão lógica, a única aceitável para Portugal e os portugueses de então, depois de que D. Afonso Henriques – que não renunciou nunca, a partir de 1128, ao reconhecimento da sua independência – já tinha conquistado, pela via das negociações e, mais frequentemente pela voz altissonante das armas, tal direito do condado que herdara dos pais. Mas a bula também teve custos de outra natureza. O professor José Mattoso refereo assim: “O testamento (do rei) manda distribuir consideráveis somas de dinheiro em favor da Igreja (...) O rei sabia, como toda a gente, que a concessão dos privilégios apostólicos dependia em grande parte de ofertas valiosas”. Para a data bula já tinha acontecido a vitória contra a mãe (Batalha de S. Mamede, 24 de Junho de 1128); início da construção do Mosteiro de Santa Clara, Coimbra (1131); edificação do Castelo de Leiria (1135); tratado de paz com Alfonso VII (1137); vitória em Ourique (1139), a partir da qual passa a intitular-se rei; conferência de Zamora e homenagem vassálica ao papa em troca de um censo anual de 4 onças de ouro (1143); conquista de Santarém e de Lisboa (1147); conquista de Alcácer do Sal (1158 ?) e conquista de Évora (1165), entre muitos outros feitos políticos e militares – uns eram causas e consequências dos outros – que tornavam inevitável o aparecimento de um tal bula. Que o seu conteúdo nem sempre tenha sido respeitado por outros reinos cristãos ao longo da história essa é outra ... história!

Jorge de Sena, finalmente ponto final no exílio... Depois de 50 anos de exílio, o poeta Jorge de Sena regressou a Portugal com a repatriação dos seus restos mortais. Como fizemos referência numa edição recente do nosso boletim, Jorge Sena viveu (quase) voluntariamente desde 1959 no Brasil e depois, na sequência do golpe militar contra o governo brasileiro de então, nos Estados Unidos, na Califórnia, onde viria a falecer em Junho de 1978, depois de construir uma enorme e valiosíssima obra como intelectual. Ainda que a Assembleia da República manifestasse o seu pesar três dias depois do falecimento do poeta, nos sucessivos governos do pós 25 de Abril não parece ter havido suficiente empenhamento no seu regresso a Portugal. Hoje, depois de homenagem oficial, descansa finalmente no Cemitério dos Prazeres, em Lisboa, cidade onde nasceu em 1919. Entretanto, continua em aberto a questão do seu vasto espólio, onde se incluem centenas de cartas com personalidades do seu tempo. Mécia de Sena, a viúva, afirmou recentemente que não “está segura de que o Estado português esteja receptivo a preservar na totalidade a memória do seu marido”. Por outro lado, lamenta verificar que existe um certo desinteresse editorial na publicação dos inéditos de Jorge de Sena.

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Prémios internacionais para Lobo Antunes e Siza Vieira... Escritor e arquitecto acabam de obter novo reconhecimento internacional. Nesta ocasião foram os Prémios Extremadura a la Creación 2009, com um valor numerário de 48 mil euros. O autor de Esplendor de Portugal recebeu o galardão correspondente à categoria de trajectória literária de autor ibero-americano e o mestre Siza Vieira o de melhor trajectória artística ibero-americana. Ao referir-se a este novo reconhecimento Lobo Antunes frisou que tinha “uma significação especial” porque era atribuído por uma região próxima ao seu país, e aproveitou para sublinhar que Portugal não tinha nenhum prémio para artistas fora das suas fronteiras. Ambos os agraciados coincidiram em defender a aproximação das relações entre Espanha e Portugal.

Portugal na imprensa venezuelana... Duas notícias pudemos encontrar nos últimos dias na imprensa venezuelana. A 30 de Agosto, El Nacional (Caracas) publicou um artigo muito interessante sobre José Saramago, quem arrecadou, em 1998, aquele que é até agora o único Nobel de Literatura atribuído a um autor lusófono. Simón Alberto Consalvi debruça-se sobre A Viagem do Elefante/El viaje del elefante, a obra mais recente do novelista português. É evidente que o articulista conhece bem a obra do autor e que lhe admira o talento literário. Clara evidência do que escrevemos é a forma aguda como termina a sua nota: “El viaje del elefante es un peregrinaje alrededor del ingenio, del fantástico humor negro, de la sabiduría y de la irreverencia del ateo resucitado”. Três dias mais tarde, a 2 de Setembro, foi El Universal (Caracas) que deu notícias de Saramago. Desta vez, a propósito do facto de que “... José Saramago se despidió de los lectores de su ‘Cuaderno’, el blog en el que el escritor portugués publicaba, desde el 15 de septiembre de 2008, artículos con los que se acercaba a sus lectores y en los que expresaba casi a diario sus opiniones y reflexiones personales”. A notícia vem de Madrid e El Nacional do mesmo dia referia-se também ao assunto numa notícia muito pequena. A explicação desta despedida aparece na nota que se segue, onde o Nobel oferece as ruas razões para esta decisão, que nos priva de uma leitura que já se nos fazia indispensável.

Saramago despede-se... Diz o refrão que não há bem que sempre dure nem mal que ature, o que vem assentar como uma luva no trabalho de escrita que acaba aqui e em quem o fez. Algo de bom se encontrará neste textos, e por eles, sem vaidade, me felicito, algo de mal terei feito noutros e por esse defeito me desculpo, mas só por não tê-los feito melhor, que diferentes, com perdão, não poderiam eles ser. Às despedidas sempre conveio que fossem breves. Não é isto uma ária de ópera para lhe meter agora um interminável adio, adio. Adeus, portanto. Até outro dia? Sinceramente, não creio. Comecei outro livro e quero dedicar-lhe todo o meu tempo. Já se verá porquê, se tudo correr bem. Entretanto, terão aí o “Caim”. P. S – Pensando melhor, não há que ser tão radical. Se alguma vez sentir necessidade de comentar ou opinar sobre algo, virei bater à porta do Caderno, que é o lugar onde mais a gosto poderei expressar-me.


Continua Ciclo de Cinema Português… Como todas as últimas sextas-feiras de cada mês, em Setembro também teremos cinema luso no Centro Português de Macaracuay. No dia 25, pelas 20:30 vamos projectar a comédia O Costa do Castelo (1943), com Maria Matos e António Silva, duas figuras muito populares durante meados do século passado. Hermínia Silva e Milu fazem igualmente parte do elenco deste filme. O realizador desta hilariante comédia foi Arthur Duarte (Lisboa 1895-1982). Começou a sua carreira no cinema como actor, tendo realizado diversos pequenos papéis noutras cinematografias europeias, nomeadamente na Alemanha, França, Suíça e Áustria. Estreou-se nas longas-metragens com a adaptação ao cinema de Os Fidalgos da Casa Mourisca (1938), umas das obras mais populares de Júlio Dinis. O Leão da Estrela (1947), que projectaremos em Outubro, é igualmente um filme seu.

Efemérides... 1 Setembro de 1942 – Nasce, na capital portuguesa, António Lobo Antunes. É um dos escritores mais reconhecidos internacionalmente e candidato eterno ao Nobel de Literatura. Lobo Antunes estreou-se com Memória de Elefante (1979). Foi Prémio Camões em 2007. 3 de Setembro de 1759 – Abolição da Companhia de Jesus por ordem de D. José I, O Reformador. O seu reinado foi fortemente marcado pela governação do Marquês de Pombal, seu primeiro ministro. 4 de Setembro de 1920 – Nascimento do poeta alentejano Raúl de Carvalho. Entre os seus livros mais representativos devemos recordar Mesa da Solidão e A Aliança, ambos da década de 50 do século XX. Em 1956, recebeu o Prémio Simón Bolívar, do concurso internacional de poesia realizado em Siena, Itália. 10 de Setembro de 1740 – Nasce, em Lisboa, o poeta satírico Nicolau Tolentino. Foi professor de retórica durante três lustros, mas a vida académica não era do seu gosto e terminou optando por um lugar burocrático na Secretaria dos Negócios do Reino. 11 de Setembro de 1891 – Faleceu, em 1891, o poeta e político Antero de Quental. Vítima de doença do foro psiquiátrico terminou suicidando-se nos Açores. Foi um dos grandes actores da Questão Coimbrã, presidiu à Liga do Norte e foi um dos lançadores das ideias socialistas no Portugal do seu tempo. 15 de Setembro de 1765 – Nasce, em Lisboa, o poeta setubalense Bocage, de nome completo Manuel Maria Barbosa du Bocage. Foi igualmente conhecido pelo pseudónimo de Elmano Sadino. É, sem qualquer espécie de dúvida, o poeta mais popular de Portugal, tanto pelo que realmente escreveu – alguns dos seus sonetos são simplesmente fabulosos – como pelo que lhe é atribuído, muitas vezes sem razão alguma.


NotiFax de 15 de Setembro de 2009