Issuu on Google+

Caracas – Venezuela * Año IX – Época II * 15 de Julho de 2009 RIF: J301839838

Jorge de Sena, grande vulto do século XX... Em Junho de 1978, quando ainda não tinha 60 anos, faleceu em Santa Bárbara, Califórnia, Jorge de Sena, um dos grandes intelectuais portugueses do século XX. Apesar de uma vida relativamente curta, deixou uma valiosíssima obra como crítico, ensaísta, ficcionista, dramaturgo e tradutor. Jorge Cândido de Sena nasceu em Lisboa, a 22 de Novembro de 1919. Por razões políticas, exilou-se no Brasil em 1959, na sequência de uma tentativa de derrubamento da ditadura de Salazar: o 11 de Março de 1959. Em 1965, depois do golpe de estado que liquidou o regime democrático de João Goulart, emigrou, como toda a família, para os Estados Unidos, onde viria a falecer treze anos mais tarde. Em 1937, para cumprir com os desejos do pai, que era comandante da marinha mercante, Jorge de Sena ingressa na Escola Naval. Porque a vida de oficial da marinha era cada vez mais dura e alinhada com as normas do fascismo português, assim como com a filosofia que impunha uma guerra civil ao povo vizinho, e também por provável influência da mãe, que o “puxava” para a educação musical, o jovem Sena abandona o curso em Março 38, poucos meses depois de o ter iniciado. Esta passagem, ainda que breve, pela marinha vai marcar a sua obra, como se verá nalguns poemas e textos de ficção. Sinais de Fogo, talvez a sua obra mais emblemática, tem como tema a Guerra Civil de Espanha. Esta obra seria posteriormente levada ao cinema, em 1995, pela mão do realizador Luís Filipe Rocha. A desistência do curso de oficial da marinha mercante leva-o a inscrever-se na Universidade do Porto, da qual sai formado como Engenheiro Civil, em 1949. Nessa condição trabalha, entre 1948 e 1959, na Junta Autónoma de Estradas. Este último ano é o da sua partida para o Brasil, onde iniciará um novo percurso de vida, que o encaminhará para a literatura. Em 1963, para poder dedicar-se ao ensino universitário tem de se naturalizar brasileiro e um ano mais tarde culmina os estudos de Letras na Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Araraquara (São Paulo), onde obtém o grau de doutor. Os nove anos vividos no Brasil são particularmente ricos do ponto de vista criativo para Jorge de Sena: Metamorfoses (uma das suas obras que mais influiu a poesia portuguesa), Quatro sonetos a Afrodite


Anadiómena, Arte de música e a novela O físico prodigioso. Neste período começa Sinais de fogo e investiga e publica sobre Luís de Camões e o Maneirismo. Além de se volver a debruçar sobre os textos de teatro, trabalha igualmente na edição do Livro do Desassossego, de Pessoa. Enquanto vive no Brasil, mergulha igualmente na acção cívica como opositor ao Estado Novo. Co-funda a Unidade Democrática Portuguesa, integra o conselho de redacção do jornal Portugal Democrático e participa nas iniciativas do Centro Republicano Português, de São Paulo. Entretanto, os militares brasileiros derrubam o governo constitucional e Jorge de Sena, que saíra de Portugal por causa da ditadura, não quer repetir essa vivência e, em 1965, emigra para Estados Unidos, pelo que, em Outubro do ano seguinte, já o vemos no corpo docente da University of Wisconsin, Madison, onde é nomeado professor catedrático efectivo (1967). Cinco anos depois está na University of California, Santa Bárbara. Aqui, na USBC, fica, até ao final da vida, à frente da direcção do Departamento de Espanhol e Português e do Programa de Literatura Comparada. Sem deixar de pensar em Portugal, integra-se no meio da sociedade que o recebe e torna-se membro da Hispanic Society of America, da Modern Languages Association of America e da Renaissance Society of America. O 25 de Abril surpreende-o nos Estados Unidos, circunstância que o leva a desempenhar um papel relevante no esclarecimento da emigração portuguesa sobre a importância da Revolução dos Cravos. Jorge de Sena deixou uma obra extensa e multifacetada. Mais de vinte colectâneas de poesia e uma tragédia em verso. Uma dezena de peças de teatro. Uma novela e um romance. E perto de quarenta textos de crítica literária e de ensaio, entre os quais são incontornáveis os seus estudos sobre Camões e Pessoa. Finalmente devemos referir as traduções de poesia: duas antologias gerais, da Antiguidade Clássica aos Modernismos do século XX, num total de 225 poetas e 985 poemas; as antologias de Kavafis e Emily Dickinson, poetas que deu a conhecer em Portugal; as traduções de William Faulkner, Ernest Hemingway, Graham Greene, entre vários mais; e as de teatro (com destaque para Eugene O’Neill) e de ensaio. Recebeu, em vida, o Prémio Internacional de Poesia Etna-Taormina, pelo conjunto da sua obra poética, e foi condecorado com a Ordem do Infante D. Henrique, por serviços prestados à comunidade portuguesa. Postumamente, sem dúvida que para reparar injustiças facilmente visíveis, recebeu a Grã-Cruz da Ordem de Sant'iago e uma homenagem com a criação do Jorge de Sena Center for Portuguese Studies, na Universidade da Califórnia. Dentro de dois meses, em Setembro, Jorge de Sena terá nova homenagem em Portugal. Cinco décadas depois do seu exílio e três após a sua morte, o seu espólio virá finalmente para o país que o viu nasceu, na altura em que serão transladados os seus restos mortais para o cemitério dos Prazeres, em Lisboa, cidades onde abriu os olhos pela primeira vez.

Gastronomia também faz parte da cultura... Comer, além de satisfazer uma necessidade, pode ser igualmente uma fonte de prazer. E a gastronomia é, sem sombra de dúvida, parte da cultura de um povo. Por essa razão, é relevante registar aqui que Uma Cozinha no Douro, com textos de Celeste Pereira e imagens do fotógrafo Nelson Garrido, conquistou o Gourmand World Cookbook Award, como melhor livro de cozinha do mundo. Em termos de fotografia, o livro arrecadou ainda um honroso terceiro lugar. Uma Cozinha... foi editado por QuidNovi, à qual pertence igualmente Isabel D´Ávila Winter, portuguesa há muitos anos emigrada na Austrália, que venceu o Prémio Talento 2008 com a obra Dona Stella e as Suas Rivais.


João Botelho volta a “trabalhar” com Fernando Pessoa... Em 1982, João Botelho ofereceu-nos Conversa Acabada, um diálogo entre o poeta dos heterónimos e o seu amigo Mário de SáCarneiro, igualmente poeta, que terminaria por se suicidar em Paris. Agora o realizador português volta ao universo pessoano para trabalhar sobre o Livro do Desassossego, de Fernando Pessoa\Bernardo Soares. Botelho confessa ter lido o livro uma mão cheia de vezes, e que optou finalmente pela versão de Richard Zenith, pessoano nascido nos Estados Unidos mas a viver em Portugal há muitos anos. “O original – afirma o realizador – tem texto para 45 horas. O meu filme vai ter duas.” O Livro do Desassossego, umas das obras fundamentais do poeta de Mensagem e para muitos críticos uma obra incontornável do século XX, era uma das que estava no famoso baú, que durante algum tempo esteve sob a custódia de Botelho, precisamente para que pudesse trabalhar em Conversa Acabada. Segundo o realizador, porque “o cinema tem de ter acção” o filme começará numa tasca de Lisboa dos nossos dias, com um encontro entre o ortónimo e o heterónimo, depois de uma zaragata.

Literatura como pão para a boca! ... Ler alimenta e tem a grande vantagem de que não engorda. É só um jogo de palavras e serve para referir que, uma vez mais, a Biblioteca Municipal Raul Brandão, em parceria com a empresa Pavico, uniram esforços para avançar com o projecto Pão com Memória. Através desta iniciativa os vimaranenses – Guimarães será a próxima Capital Europeia da Cultura – quando forem comprar pão, levarão no respectivo saco, textos de autores portugueses sobre D. Afonso Henriques, primeiro rei de Portugal. Frases de Luís de Camões, José Saramago, Fernando Pessoa, José Mattoso, Miguel Torga, Torcato Gomes, Gentil Marques, Santana Dionísio e Alexandre Herculano aparecerão nos tradicionais sacos de pão, que agora alimentará igualmente o espírito da população da cidade berço. A iniciativa nasce para marcar os 900 anos do nascimento do fundador da dinastia afonsina. Ivone Gonçalves, directora da biblioteca, refere que esta é “uma forma de promover a leitura junto de faixas da população que não lê muito, porque os textos vão despertar a curiosidade pelas obras e pelos autores.”

AJUDE-NOS A DIVULGAR A CULTURA PORTUGUESA! Colabore com a campanha destinada à obtenção de fundos e de novos aderentes! Telefaxe. 0212 985.41.43 - E-mail: iptcultura@gmail.com


Curtas mas importantes ... Paulo Nozolino, fotógrafo que já expôs em Caracas, está presente nos Rencontres d´Arles, em França, com a exposição Bone Lonely. Pedro Costa, também fotógrafo mostra as suas obras na Photo-España 2009 com um ciclo dedicado ao seu cinema e uma exposição instalação audiovisual. No Centro Cultural Calouste Gulbenkian, em Paris, os visitantes poderão apreciar alguns trabalhos de Luísa Ferreira, igualmente fotógrafa, que estará representada na exposição Au Feminin Women photographing women. O escultor José de Guimarães vai inaugurar duas esculturas na Alemanha, na cidade de Solinge. As obras têm perto de cinco metros de altura e formam um conjunto escultórico que responde ao nome de Lovers e faz parte da reabilitação do centro histórico dessa cidade alemã. Alice Cruz, bailarina de 23 anos, conquistou uma medalha de bronze na Dance World Cup de Montreal, Canadá. A bailarina, que competia com mais de mil participantes, deu vida a uma coreografia de Paula Fidalgo, criada a partir de Gente da Minha Terra, canção de Mariza.

Efemérides... 1 de Julho de 1867. É abolida a pena de morte para todos crimes civis. 4 de Julho de 1908. Nasce, no Porto, o poeta e ensaísta Adolfo Casais Monteiro. A ditadura salazarista proibiu-o de ensinar em Portugal, pelo que se exilou no Brasil a partir de 1954, onde ensinou em várias universidades. 7 de Julho de 1858. Nascimento de José Leite de Vasconcelos, escritor e filólogo. Os seus trabalhos como arqueólogo e etnólogo, onde deixou uma obra sumamente vasta, ficaram como referência. 8 de Julho de 1990. Morre Amélia Rey Colaço, actriz de teatro. Junto com o actor Robles Monteiro formou uma companhia teatral, que duraria mais de meio século. 12 de Julho de 1780. Nasce Mouzinho da Silveira, político e jurisconsulto. Oposto ao absolutismo de D. Miguel, participa no desembarque do Mindelo. Devemos-lhe a abolição do dízimo e a supressão da hereditariedade dos cargos públicos, entre outras conquistas.

www.institutoportuguesdecultura.blogspot.com Visite o nosso blogue! Informações em português, castelhano, inglês e francês. Actualizações diárias.


NotiFax de 15 de Julho de 2009