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Revista ABM - Agosto 2002 OPERADORES LOGÍSTICOS Alessandra Fraga Dubke Centro Universitário Vila Velha - alessandraf@uvv.br afdubke@terra.com.br Nélio Domingues Pizzolato Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro - PUC-Rio npd@ind.puc-rio.br Abstract The objective of this paper is to analyze the estabilishment of Third-party logistics providers – 3PL - in Brazil, describing their role, tendencies and main difficulties in relation to their development. O contexto das transformações econômicas e sociais, pelas quais os mercados têm passado nas últimas décadas, vem forçando as empresas a buscarem suas melhores competências distintivas para consolidarem suas posições no mercado nacional e se inserirem no mercado externo. No início dos anos 80 surgiu na literatura o conceito de cadeia logística, ou Supply Chain Management (SCM), que rapidamente ganhou ampla notoriedade (Lambert et alii, 1998). A formidável importância do SCM provém de um conjunto de fatores cujo foco principal é a crescente fragmentação dos processos logísticos, impulsionada pelas atividades terceirizadas, em contraposição à estrutura tradicional de empresas verticalizadas. Assim, na logística integrada observa-se a proliferação de múltiplos agentes e empresas especializadas em partes específicas do processo (Pizzolato, 2002). Em conseqüência, ganhou maior relevância na gestão das empresas o gerenciamento da cadeia logística, decorrente da terceirização de serviços para operadores logísticos e da utilização progressiva de tecnologias de informação aplicadas à logística. Por tais fatos, o presente trabalho tem por objetivo analisar a tendência à formação de operadores logísticos no Brasil, descrevendo suas funções e principais entraves ao seu maior desenvolvimento. A origem do termo operador logístico, como é chamado no Brasil, advém do conceito de terceirização dos serviços logísticos (outsorcing), surgido nos Estados Unidos na década de 80 e hoje fortemente difundido também nos países europeus com o nome de Third-party logistics provider – 3PL ou logistics provider. Segundo Gardener (1994), o termo Third-party logistics provider – 3PL começou a ser utilizado como um sinônimo de “subcontratação de elementos do processo logístico”. Na literatura, várias definições de operadores logísticos têm surgido no últimos anos, dentre elas, destaca-se a de Detoni (2001), que afirma que operador logístico é o prestador de serviços logísticos que tem competência reconhecida em atividades logísticas, desempenhando funções que podem englobar todo o processo logístico de uma empresa cliente ou somente parte dele. Analisando também a definição mais restrita da Associação Brasileira de Movimentação e Logística – ABML, o operador logístico é o fornecedor de serviços logísticos especializado em gerenciar todas as atividades de logística ou parte deles, nas várias fases da cadeia de abastecimento de seus clientes, agregando valor ao produto dos mesmos e que tenha competência para, no mínimo, prestar simultaneamente serviços nas três atividades básicas: controle de estoques, armazenagem e gestão de transportes.


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Verifica-se, portanto, que diferentes autores utilizam diferentes critérios para caracterizar os 3PLs. Segundo Fleury (2001), alguns são mais rigorosos, exigindo que, para ser classificado como 3PL, um prestador de serviços logísticos deve realizar um amplo conjunto de atividades de forma integrada, tendo capacidade de realizar projetos, operação e gerenciamento, bem como possuir contratos de longo prazo com seus clientes. Outros são menos rigorosos e consideram que qualquer empresa que realize alguma atividade logística, sob contrato, para terceiros, com capacidade de planejamento, operação e gerenciamento, deve ser considerada um operador logístico ou um 3PL. Algumas das atividades logísticas desempenhadas por operadores logísticos podem ser descritas abaixo: Figura 1: Classificação das atividades logísticas Logística de suprimentos (inbound logistic)

Fornecedore s

Adm. de materiais

Ativ.da adm. de materiais junto a manufatura

Atividades especificas de Adm. de materiais

•Acompanhamento dos pedidos a fornecedores • Rastreamento de pedidos •Rastreamento de veículos •Recebimento de materiais e componentes •Conferência física e documental •Paletização de materiais e componentes •Armazenagem •Controle de estoques •Identificação de volumes •Expedição de materiais e componentes •Gestão de informações logísticas •Estudos de viabilidade •Medidas de desempenho

• Apoio a produção: Kanban e JIT • Preparação de kits de produção • Abastecimento da linha de montagem • Armazenagem • Gestão de informações logísticas • Prestação de contas • Adm. de estoques • Medidas de desempenho

Logística de distribuição (outbound logistic)

Manufatur a

Ativ.de distribuição física junto à manufatura

•Embalagem de produto acabado ou semi-acabado •Unitização: paletização de produto • acabado e semi-acabado •Conteinerização • Armazenagem •Identificação de volumes •Conferência física e documental •Montagem de kits comerciais de produto acabado •Roteirização •Geração e controle de documentos •Expedição indutrial •Distribuição direta da fábrica •Transferência para centros de distribuição •Rastreamento de veículos •Cross-docking •Controle e pagamento de fretes •Gestão de informações logísticas •Prestação de contas •Medidas de desempenho

Cliente

Distribuição Física

Atividades especificas da distriuição física

Atividades da distrib. física junto ao cliente do fornecedor

•Recebimento do produto acabado e semi-acabado •Desconsolidação •Conferência física e documental •Nacionalização de produtos importados •Armazenagem •Controle de estoques •Embalagem •Unitização •Separação (picking) •Montagem de kits comerciais •Identificação de volumes •Roteirização •Geração e controle de documentos •Expedição de produtos •Distribuição direta da fábrica ou CDs. •Transferência entre CDs. •Cross-docking •Rastreamento de veículos •Controle de pagamento de fretes •Gestão de informações logísticas •Logística reversa

•Entrega de produtos secos ou refrigerados •Abastecimento de gôndolas •Retirada de pallets vazios •Coleta de mercadorias devolvidas •Gestão de informações logísticas •Prestação de contas •Medidas de desempenho

Consumidor

Ativ. de distrib. física junto ao consumidor

•Entrega direta do fornecedor ao consumidor •Serviços de atendimento ao consumidor •Gestão de informações logísticas •Prestação de contas •Medidas de desempenho

Fonte: ABML- Associação Brasileira de Movimentação e Logística (com adaptações)

Pelo gráfico apresentado acima, compete ao operador logístico exercer atividades dentro da cadeia, na área de suprimentos (inbound logistics) ou distribuição (outbound logistics). Se o foco for a operação logística internacional, o operador deverá estar apto a atuar dentro da legislação do país de origem e destino, operando serviços aduaneiros, além de efetuar o transporte intermodal e/ou multimodal. Os operadores podem, segundo Africks e Calkins (1994), apud Detoni (2000), distinguirem-se em três tipos, de acordo com sua oferta de serviços: •

Operadores logísticos que detêm ativos tangíveis como armazéns, frota própria, equipamentos de movimentação e armazenagem, e oferecem serviços


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logísticos como armazenagem, transporte, etiquetagem ou montagem final, além dos serviços já ofertados; Operadores Logísticos baseados na administração das atividades e no tratamento da informação. Não detêm ou alugam ativos tangíveis, mas fornecem a seus clientes recursos humanos e sistemas para administrar toda ou parte de suas funções logísticas. Aplica-se a este caso as empresas de consultoria e gestão integrada da cadeia logística. Operadores de serviços híbridos, que operam na administração do processo logístico, oferecendo seus ativos e serviços ao mesmo tempo, de forma a atender às necessidades de customização do serviço ao cliente. Como exemplo, destacamos o serviço oferecido pela TNT logística ao Condomínio industrial da General Motors, em Gravataí, no Rio Grande do Sul.

Analisando o resultado de uma recente pesquisa realizada por Fleury (2001) e alguns dados de uma publicação técnica (Tecnologistica, junho 2001), são levantadas algumas informações importantes para a análise sobre os operadores logísticos brasileiros: • A maioria dos operadores existentes no Brasil são provenientes de empresas transportadoras e de armazenagem que evoluíram para oferecer uma ampla gama de serviços customizados ao cliente, desde transporte, armazenagem (carga seca, refrigerada, alfandegada), sistemas de informação logística, baseados em Eletronic Date Interchange – EDI, Warehousing Manufacturing Systems – WMS, Enterprise Resource Planning - ERP, rádio freqüência, código de barras, emissão e/ou controle de documentação fiscal. • A maioria destas empresas localiza-se na região sudeste e está no mercado há menos de 10 anos. Isto sugere que existe um mercado potencial em outras regiões, onde há espaço para novos entrantes, inclusive operadores logísticos internacionais. • Existe no mercado brasileiro uma pequena oferta de serviços de soluções logísticas oferecidas ao cliente, o que, na visão de Fleury (2001), pode gerar um mercado potencial. Comparando a análise deste autor com o que tem ocorrido nos EUA e na Europa, este tipo de serviço tem sido caracterizado como a nova tendência no gerenciamento e na proposição de soluções gerenciais em logística. Engloba-se o que já é realizado pelo operador 3PL, acrescendo-se a existência de uma consultoria na gestão de todos os recursos necessários à realização do serviço. Estes operadores têm recebido, nos EUA, o nome de 4PL – fourth party logistics provider. • A tendência ao crescimento ordenado de empresas de e-commerce apresentase como um potencial de crescimento para os operadores logísticos, haja visto que não se pode conceber empresas que operem com B2B (Business to Business) e B2C (Business to Consumer) sem se integrarem à realidade de que a distribuição e o atendimento no prazo são o diferencial. Isto faz da parceria com o operador um elo de suma importância nesta cadeia. • Verificou-se na pesquisa da Tecnologística (2001) que a maioria das empresas caracterizadas como operadores logísticos no Brasil oferece serviços de transporte multimodal e intermodal. A caracterização destes dados merece atenção, já que a conceituação de operação de transporte intermodal ocorre através de dois ou mais modais, desde a origem até o destino do produto, usando-se um ou vários contratos de transporte com seu respectivo e específico documento para cada trecho percorrido. No transporte multimodal, dois ou mais modos de transporte - desde a origem até o destino do produto são utilizados, com apenas um único documento de transporte. • No Brasil, a operação de transporte multimodal encontra-se na fase de implementação, aguardando-se resoluções sobre as discussões quanto à


Revista ABM - Agosto 2002 melhor arrecadação do Imposto sobre Circulação de Mercadorias e Serviços ICMS pelos Estados envolvidos na operação. Segundo Nazário (2001), hoje só existem no Brasil onze empresas credenciadas junto ao Ministério dos Transportes para a realização da operação de transporte multimodal. Há a tendência para que estas empresas estejam aptas não só a exercer o transporte multimodal no Brasil, mas também no exterior. Como ainda são poucas as que oferecem este serviço, há um mercado potencial para parcerias de operadores logísticos nacionais e internacionais (sejam elas Estações Aduaneiras de Interior - EADI ou não) com empresas ferroviárias e marítimas, na busca de conquistar maiores clientes importadores e exportadores. Existem alguns desafios a serem ultrapassados pelos operadores logísticos nacionais, principalmente de infra-estrutura dos modais de transportes, estrutura tributária, diminuição de custos, melhoria de oferta de serviços e até mesmo de gestão empresarial, mas percebe-se a clara tendência de que este mercado está aberto a novos operadores nacionais e internacionais, cabendo às empresas a definição do melhor momento para a escolha sobre a terceirização de seus serviços aos operadores logísticos atuantes no mercado brasileiro. Referências 1. Africk,J.M., Calkins,C.S Does asset owership mean better service? Transportation and Distribuiton, May, pp.49-61.1994 2. Caracterizando os principais operadores. Disponível em <http://www.cel.coppead.ufrj.br> Capturado em 10/08/2001. 3. Detoni, Mônica M.L. Operadores Logísticos. In: Novaes, A.G.(org). Logística e Gerenciamento da cadeia de suprimentos. São Paulo: Ed. Campus. p. 316351. 2001 4. Fleury, Paulo et al. A industria de operadores logísticos no Exterior. Disponível em <http://www.cel.coppead.ufrj.br>. Capturado em 02/04/2002. 5. _____; A industria de prestadores de serviços logísticos no Brasil: Operadores Logísticos: tendência é de crescimento ordenado. Revista Tecnologística. Junho, p.32-59. 2001. 6. Lambert,Douglas.M. Cooper,Martha C. e Pagh,Janus D. Supply Chain Management: implementation issues and research oportunities. International Journal of Logistics Management. Vol. 9, no.02, 1998, pp.1-19 7. Nazário, Paulo. Intermodalidade: Importância para a logística e estágio atual no Brasil. Disponível em <http:www.cel.copead.ufrj.br>. Acesso em: 2 nov. 2001. 8. Pizzolato,Nélio D. Evolução dos conceitos logísticos: Estado da arte e tendências. Notas de aula do curso de Engenharia de Produção. PUC - Rio de Janeiro: março. 2002. 9. The top 3PLs. Good reasons for using third-party logistics providers and their cousin the 4pl. World trade. july. p.60-62. 2000.

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O contexto das transformações econômicas e sociais, pelas quais os mercados têm passado nas últimas décadas, vem forçando as empresas a busc...

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