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Como Casar com um Marques How To Marry A Marquis

Julia Quinn

Inglaterra, 1815 Ela estava tentando seguir as regras... Quando Elizabeth Hotchkiss depara com um livro intitulado Como se Casar com um Marquês na biblioteca da casa de sua patroa, ela acha que aquilo só pode ser uma brincadeira de mau gosto. Com três irmãos mais novos para sustentar, Elizabeth sabe que terá de se casar por conveniência, e não por amor, mas quem mais poderia saber disso? Bem, um manual de regras de sedução pode ser justamente o que ela está precisando... De qualquer forma, que mal pode haver em dar apenas uma folheada...? ...Mas ele tem as suas próprias! James Sidwell, o marquês de Riverdale, foi requisitado por sua tia para tentar salvá-la de uma chantagem; uma incumbência que requer que ele se faça passar por um recém-contratado administrador da propriedade da condessa. As suspeitas de James logo recaem sobre Elizabeth, a dama de companhia da tia, Intrigado pela beleza da jovem e com o interesse dela naquele estranho livro, ele galantemente se oferece para ajudá-la a encontrar um marido... praticando seus estratagemas de sedução com ele. Mas quando ela começa a se aperfeiçoar demais, James decide que só há uma regra que vale a pena seguir: que Elizabeth, finalmente, se case com seu marquês!


Julia Quinn - Como casar com um marques (CH 464)

Copyright © 1990 by Julia Cotler Pottinger Originalmente publicado em 1990 pela HarperCollins Publishers PUBLICADO SOB ACORDO COM HARPERCOLLINS PUBLISHERS. NY. NY — USA Todos os direitos reservados. Todos os personagens desta obra são fictícios. Qualquer semelhança com pessoas vivas ou mortas terá sido mera coincidência. TÍTULO ORIGINAL: HOW TO MARRY A MARQUIS EDITORA Leonice Pomponio ASSISTENTES EDITORIAIS Patrícia Chaves EDIÇÃO/TEXTO Tradução: Nogueira Biller ARTE Mônica Maldonado PRODUÇÃO GRÁFICA Sônia Sassi PAGINAÇÃO Ana Beatriz Pádua Copyrigh © 2011 Editora Nova Cultural Ltda Rua Texas. 111, sl. 20A, Jardim Rancho Alegre, Santana do Parnaíba - SP www.novacultural.com.br Impressão e acabamento: Prol Editora Gráfica

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Julia Quinn - Como casar com um marques (CH 464)

CAPÍTULO I

Surrey, Inglaterra, agosto de 1815. — Quatro mais seis, mais oito, mais sete, mais um, mais um, mais um, igual a vinte e oito... Vão dois... Elizabeth Hotchkiss somou a coluna de números pela quarta vez, obtendo a mesma resposta das três vezes anteriores... E suspirou de tristeza. Erguendo os olhos, deparou com três rostos sombrios, que a contemplavam: eram seus irmãos mais novos. — O que foi, Lizzie? — Jane, de nove anos, perguntou. Elizabeth sorriu fracamente, pensando em como poderia conseguir o dinheiro necessário à compra do combustível para aquecer a casinha onde moravam, no inverno. Por fim, respondeu: — Acho que nosso dinheiro não vai dar. Susan, que aos catorze anos tinha a idade mais próxima à de Elizabeth, franziu a testa. — Mas... não é possível! Devemos ter alguma coisa. Quando papai ainda estava conosco, nós sempre... Elizabeth silenciou-a com um rápido olhar. Sim... Ela e os irmãos possuíam uma porção de coisas, quando o pai era vivo. No entanto, ele nada deixara, além de uma pequena conta bancária. Nada de rendas, nada de bens. Nada, além de lembranças... E as que Elizabeth carregava na memória não eram do tipo que aquece o coração. — As coisas agora são diferentes — ela disse, com firmeza, na esperança de pôr fim ao assunto. — Não há como comparar. — Podemos usar o dinheiro que Lucas tem guardado, na caixa de seus soldadinhos de brinquedo — disse Jane, sorrindo. Lucas, o único menino da família Hotchkiss, gritou: — Você mexeu nas minhas coisas! — E voltou-se para Elizabeth, com uma tentativa de carranca em seu rostinho de oito anos de idade: — Você não vai fazer nada, Lizzie? — No momento, não — ela respondeu, distraída, com o olhar fixo nos números à sua frente. — Grandes irmãs que vocês são! — Lucas resmungou. Olhando para o livro de contas, Susan indagou: — Não podemos adiar algum desses pagamentos? — Não há nada que possa ser adiado. Graças a Deus, o aluguel do chalé está pago... Caso contrário, estaríamos na rua. — Nossa situação é tão ruim assim? — Susan sussurrou. Elizabeth assentiu, com um gesto de cabeça.

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— Temos o suficiente para agüentar até o fim do mês... Talvez um pouco mais, contando com o salário que devo receber de lady Danbury. Mas, depois... As palavras foram morrendo em seus lábios, enquanto Elizabeth desviava o olhar, para que Jane e Lucas não vissem as lágrimas inundando seus olhos. Cuidava dos três irmãos, desde que completara dezoito anos de idade. E isso já fazia cinco anos. Era dela que eles dependiam para viver, morar, comer e, o que era mais importante, para ter estabilidade, tanto física quanto emocional. Jane empurrou Lucas e, como ele não reagisse, cutucou-o no ponto macio entre o ombro e a clavícula. — "Qui é"? — ele protestou. — Isso dói. — Não se diz "qui é" —- Elizabeth o corrigiu, automaticamente. — O certo é: "O que você quer?" A boquinha de Lucas abriu-se, com indignação. — Também não é certo cutucar as pessoas, como Jane fez. Então, eu não vou pedir desculpas por falar errado! Jane revirou os olhos e suspirou, ao dizer: — Não podemos esquecer que ele só tem oito anos. Lucas sorriu e fez uma careta, enquanto retrucava: — E você só tem nove. — De qualquer jeito, sempre serei mais velha do que você. — Sim, mas logo serei maior do que você... E então você vai se arrepender. Elizabeth sorriu, por puro hábito. Já ouvira aquela pequena discussão, milhares de vezes. Mas também sabia que Jane não iria dormir sem antes certificar-se de que Lucas estava bem acomodado, em sua cama, e beijá-lo na testa. Aquela não era uma família convencional, mas Elizabeth vinha conseguindo mantêla unida desde a morte do pai, cinco anos atrás. E não ia deixar que ela se desagregasse, agora, por falta de dinheiro. Jane cruzou os braços e, encarando o irmãozinho, disse, muito séria: — Dê seu dinheiro a Lizzie, Lucas. Não é certo guardá-lo só para você. Com uma expressão solene e um aceno que balançou seus cachos louros, Lucas deixou a sala, de cabeça baixa. Elizabeth olhou para as duas irmãs, também louras, com olhos azuis brilhantes que haviam herdado da mãe. Decididamente, os quatro formavam uma bela família... Mas sem dinheiro para comprar comida. — Não há outro jeito — disse Elizabeth, com um suspiro ainda mais profundo. — Terei de me casar. — Oh, não, Lizzie! — Jane gritou, pulando da cadeira e subindo para o seu colo. — Tudo, menos isso! — Não é tão mau assim — Elizabeth garantiu, acariciando-Ihe os cabelos. — Se eu me casar, é bem provável que venha a ter um bebê, para você cuidar e brincar. Isso não seria bom? — Mas a única pessoa que quer se casar com você é o sr. Squire Nevins... E ele é horrível! 4


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Elizabeth sorriu e, tentando parecer convincente, argumentou: — Tenho certeza de que conseguiremos encontrar outra pessoa, alguém que seja menos... digamos... menos horrível do que o sr. Nevins. — E bom, mesmo. Porque eu prefiro ir para um orfanato, a morar com ele. Elizabeth não podia culpar Jane, por sua reação dramática. Squire Nevins era velho, gordo, feio... E olhava-a de um modo que a fazia suar frio. Na verdade, ela também não gostava do jeito que ele olhava para Susan... Não, definitivamente, ela não poderia se casar com Squire Nevins. Lucas voltou à cozinha, trazendo uma pequena caixa metálica. Entregando-a Elizabeth, disse: — Tenho, aqui, uma libra e quarenta pennies. Era para eu comprar... — Interrompendo-se, engoliu em seco e então afirmou, corajosamente: — Quero que você fique com o dinheiro. É para ajudar nossa família. Elizabeth pegou a caixa em silêncio e olhou para o dinheiro, quase todo em moedas pequeninas. — Lucas, querido — disse, suavemente. — Você vem juntando essas moedas há tanto tempo... O lábio inferior de Lucas tremeu, mas ele conseguiu expandir o peito até ficar parecido com um de seus soldadinhos de brinquedo. — Sou o homem da casa, agora. Tenho que ajudar vocês. Elizabeth assentiu solenemente e então transferiu o dinheiro para a caixa onde guardava as economias domésticas. — Muito bem. Vamos usar isso para comprar alimentos. — E voltou-se para Lucas. — Você pode vir comigo e escolher algo que goste. — Minha horta deve começar a produzir legumes, em breve — Susan anunciou, prestativa. — Talvez sobre o bastante para vendermos ou trocarmos, no povoado. Jane remexeu-se, inquieta, no colo de Elizabeth, enquanto pedia: — Por favor, diga que você não vai mais plantar nabos. Eu detesto nabos. — Todos nós detestamos nabos — disse Susan. — Mas crescem tão rápido e com tanta facilidade. — O difícil é comer... — Lucas protestou. Elizabeth fechou os olhos, por um instante. A que ponto haviam chegado! Sua família possuía um nome tradicional e honrado. Lucas, por ser o único homem da família, tinha direito ao título de baronete. No entanto, estavam reduzidos à miséria, condenados a comer nabos, que tanto detestavam, mas cultivavam, mesmo assim. Ao perder o pai, Elizabeth passara pelo momento mais difícil de sua vida. Encontrara forças apenas na certeza de que deveria proteger os irmãos, mantendo-os unidos, felizes, alimentados e aquecidos. Lutara com firmeza contra os parentes, que queriam assumir a guarda das crianças, ou melhor: queriam distribuí-las entre as casas de um e outro, separando-as, sem se preocupar com seus sentimentos. Lucas fora o mais requisitado, por ser herdeiro do título de nobreza e, assim, carregar consigo a possibilidade de um casamento vantajoso. Mas Elizabeth resistira, pois queria manter a família unida... Seria pedir muito? Claro que não... Contudo, era em momentos como esse que sentia algo semelhante ao fracasso. Não havia dinheiro para contratar um tutor para 5


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as crianças, nem para aulas de música, nem para qualquer outra coisa que ela própria desfrutara, na infância. Só mesmo com a ajuda de Deus ela conseguiria mandar Lucas a Eton, quando chegasse o tempo. Pois Elizabeth jurara manter a tradição familiar que já vigorava havia quatrocentos anos: uma tradição pela qual todo homem nascido na família Hotchkiss deveria estudar naquela instituição. Não havia outra maneira, ela constatou, com tristeza. Teria mesmo de se casar. E o marido teria de ser rico... Era simples, assim. — Abraão gerou Isaac, Isaac gerou Jacob e Jacob gerou Judas... Elizabeth limpou a garganta e olhou, esperançosa, para lady Danbury. Ela já estaria dormindo? Inclinando-se, estudou o rosto da idosa senhora. Mas era difícil saber, com certeza... — E Judas gerou Farés e Zara de Tamar, Farés gerou Esrom... Os olhos da velha lady estavam, definitivamente, fechados. Elizabeth fechou a Bíblia e começou a se esgueirar para fora da sala, na ponta dos pés. Normalmente, não se importava de ler para a velha senhora. Na verdade, essa era uma das ocupações mais agradáveis de seu trabalho, como dama de companhia da viúva. Mas, hoje, ela precisava voltar logo para casa. THUMP! Elizabeth quase saltou de susto. Ninguém sabia produzir mais barulho com uma bengala, num piso, do que lady Danbury. — Eu não estou dormindo! — A voz da velha senhora soou forte. Fazendo meia volta, Elizabeth sorriu, embaraçada. — Sinto muito. — Ora, deixe disso. Você não está nem um pouco arrependida. Volte aqui e sentese. Contendo um gemido, Elizabeth voltou para sua cadeira de espaldar alto. Gostava, realmente, de lady Danbury. Esperava que um dia a idade lhe desse o aval necessário para usar a franqueza com propriedade e orgulho, tal como a velha senhora fazia. — Você escolheu esse trecho do velho testamento de propósito, só para me fazer dormir, não é mesmo? — Como? — Essa litania de quem gerou quem é tão monótona, que me faz pensar numa escolha com fins premeditados. — Eu... Bem... — Ora, vamos, reconheça que foi pega em flagrante. É mais simples — disse a velha senhora, sorrindo, com ar travesso. — Na sua idade, eu teria feito o mesmo... Com um suspiro resignado Elizabeth tomou a bíblia nas mãos. — Que parte a senhora gostaria que eu lesse? — Chega de Velho Testamento. Na certa você pode encontrar algo mais excitante na biblioteca, não é mesmo? — Certamente. — Então, vá. Mas antes, alcance-me aquele livro sobre a mesa, sim? Levantando-se, Elizabeth apanhou o livro encadernado em couro. 6


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— Aqui está. A velha condessa abriu o livro com precisão militar, antes de olhar para Elizabeth. — Obrigada, menina. Contratei um novo administrador imobiliário, que virá me ver hoje. Quero ter todos esses números memorizados, para que ele não tente me enganar. — Lady Danbury... — disse Elizabeth, com sinceridade — nem mesmo o diabo se atreveria a tentar passá-la para trás. A velha condessa sorriu, batendo a bengala no chão, como sinal de aplauso e aprovação. — Você tem cérebro nessa cabeça, menina. É bom ver isso... Quanto às minhas crianças... Bem, só vou dizer que a imagem de meu filho, com a cabeça presa entre as grades que cercam o Castelo de Windsor, perdura em minha memória como um símbolo. Elizabeth levou a mão à boca, num esforço para sufocar o riso. — Ora, vá em frente e ria à vontade — disse lady Danbury, com um suspiro. — Descobri que a única forma de evitar frustrações familiares é encará-las como uma fonte de diversão. — Bem... — disse Elizabeth, num tom cauteloso — parece uma atitude de bomsenso. — Você daria uma boa diplomata, Lizzie Hotchkiss. — Lady Danbury desatou a rir. — Bem, onde está meu bebê? Elizabeth não se surpreendeu com a súbita mudança de assunto, nem com o fato da velha senhora chamar seu gato de bebê. — Está dormindo sobre a almofada — respondeu, apontando para Malcolm que, sonolento, ergueu a cabeça por um instante, antes de voltar a pousá-la no mesmo lugar. — Malcolm... Venha aqui com a mamãe. Tenho uma surpresa para você. O gato bocejou e, reconhecendo em lady Danbury a fonte de sua alimentação e afeto, saltou para o chão, preguiçosamente. — Lady Danbury — Elizabeth a repreendeu —, a senhora sabe que não deve pegá-lo no colo. — Bobagem! — retrucou a velha condessa. Malcolm era um gato gordo e estava perdendo pelos. Elizabeth meneou a cabeça. Ela mesma gastava um bom tempo, todas as noites, batendo as roupas para tirar os pelos... O que era notável, já que, em cinco anos, o animal jamais se deixara tocar por ela. — Gatinho bom — murmurou lady Danbury segurando-o nos braços. — Gato chato... — resmungou Elizabeth, para o felino bege. — Vou à biblioteca procurar alguns livros interessantes. — Sim, faça isso. E nada de "fulano gerou beltrano", por favor. Elizabeth riu, enquanto se afastava. O ruído de seus passos, contra o chão, desapareceu assim que ela pisou o tapete macio da biblioteca. Ela suspirou. Havia tantos livros, ali... Por onde começar? Elizabeth selecionou alguns romances e, em seguida, uma coleção de comédias de Shakespeare, assim como um pequeno volume de poesia romântica, do mesmo autor. Já 7


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estava prestes a voltar para a companhia de lady Danbury, quando outro livro chamou sua atenção: tratava-se de um volume muito pequeno, encadernado em couro vermelho brilhante. Estava colocado de lado, na estante, quebrando a ordem perfeita do conjunto. Tomando-o nas mãos, Elizabeth leu o título: Como Casar-se Com Um marquês. A coincidência de ter pensado num casamento rico, naquele mesmo dia, atingiu Elizabeth com a força de um relâmpago. Parecia uma provocação, ou uma piada de mau gosto. Manuseando o belo exemplar, ela leu o nome da autora, com a curiosa sensação de estar fazendo algo errado. O livro fora escrito por uma tal sra. Seeton, e impresso em 1792... Uma coincidência engraçada, pois Elizabeth nascera justamente naquele ano. — Bem — ela murmurou —, certamente não sou uma pessoa supersticiosa e não preciso de um pequeno livro para saber como devo conduzir minha vida. Além do mais, ela pensou, se a tal sra. Seeton soubesse mesmo como se casar com um marquês... Não seria, ela própria, uma lady... lady Seeton? Dando de ombros, Elizabeth recolocou o livro na estante, cuidando para deixá-lo na mesma posição em que o encontrara. Não queria que alguém pensasse que ela se interessara por aquele livro idiota. Levando a pilha de livros que escolhera, Elizabeth voltou à sala onde lady Danbury permanecia sentada em sua cadeira, acariciando o gato e olhando pela janela como se esperasse alguém. — Encontrei alguns livros — disse, em voz alta. — Alguns são de Shakespeare. — Espero que você não tenha escolhido nenhuma tragédia. — Não. Na verdade pensei que, no seu atual estado de espírito, a senhora gostaria das comédias desse autor. — Boa menina — disse lady Danbury, com um sorriso de aprovação. — E o que mais você escolheu? — Dois romances e um volume de poesias. — Poesia, não — disse lady Danbury, enfática. — Quem gostava de poesia nessa casa era meu marido... Um sonhador. — Entendo — Elizabeth respondeu, embora discordasse. — Deixe uma das comédias de Shakespeare ao alcance de minhas mãos e vá para casa mais cedo, hoje — disse a velha condessa, numa de suas súbitas mudanças de atitude. Elizabeth reagiu, boquiaberta. Aquilo era mesmo surpreendente. Pois lady Danbury nunca a dispensava antes do horário combinado. — Terei de conversar com o maldito administrador e certamente não preciso de Você aqui para distraí-lo, com sua beleza. — Lady Danbury, eu... — Não precisa ficar embaraçada, menina. Você é bela... E os homens gostam de mulheres de cabelos longos e loiros. Sei disso porque, um dia, eu também os tive. — A senhora ainda tem cabelos...

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— Brancos, você quer dizer? — A velha senhora sorriu. — Você é uma jovem muito graciosa e não deveria estar desperdiçando seu tempo em minha companhia. Está na hora de arranjar um marido. — Eu... Bem... — Constrangida, Elizabeth indagou: — O que a senhora quer dizer com isso? — Quero dizer que é muito nobre, de sua parte, cuidar de seus irmãos... Mas você deveria pensar um pouco em si mesma. Elizabeth sentiu as lágrimas inundando seus olhos. Fazia já cinco anos que trabalhava para lady Danbury, mas ambas nunca haviam falado sobre esse assunto. — Está bem. Já que a senhora não precisa mais de meus serviços, por hoje, vou sair mais cedo. Lady Danbury assentiu, parecendo um tanto desapontada pela interrupção da conversa. — Certo... Coloque os romances e o livro de poesia de volta na biblioteca. Tenho certeza de que não vou olhar para eles, e também não posso confiar em meus funcionários, para manter os livros em ordem. — Está bem. Mal acreditando em sua sorte inesperada, Elizabeth voltou à biblioteca e começou a guardar os livros em seus respectivos lugares. Quase sem que ela se desse conta, seus olhos buscaram o pequeno livro vermelho e nele se fixaram... Elizabeth suspirou. Não queria pensar naquele livro, mas não conseguia resistir ao ímpeto de olhá-lo, a todo momento. — Oh, pelo amor de Deus! — ela exclamou, irritada consigo mesma. — É apenas um livro! De fato. Mas tratava-se de um livro que alegava ter as respostas para o problema que tanto a afligia, no momento. Não que ela realmente pretendesse desposar um marquês. Mas a verdade era que desconhecia, quase que totalmente, o mundo dos homens. Na presença deles, não sabia ao certo o que dizer, nem como agir. Por mais tolo que fosse, aquele livro talvez pudesse lhe dar... algumas noções e conselhos práticos. Elizabeth olhou, uma vez mais, para o livro. Em seguida, lançou um rápido olhar ao redor. Estava sozinha, na biblioteca. Não havia ninguém, nas proximidades. Num rápido gesto, ela alcançou o livro e jogou-o dentro da bolsa... Então correu para fora da casa. * * * James Sidwell, marquês de Riverdale, gostava de passar despercebido. Sentia-se bem quando se misturava à multidão, preservando sua identidade. Talvez por isso, tivera tanto sucesso nos anos em que trabalhara para o Ministério da Guerra. E era muito bom no que fazia. A figura tão conhecida, que chamava a atenção de todos, nos salões de Londres, sabia muito bem como desaparecer, no meio de uma multidão. Com truques simples, tal como adotar os trajes e a atitude de uma pessoa comum, James conseguia disfarçar, com perfeição, sua linhagem nobre. Claro que o fato de ter olhos e cabelos castanhos ajudava muito. Ele mesmo sabia que não seria tão simples assim, se fosse ruivo, por exemplo. Mas, um ano antes, seu disfarce fora descoberto: um espião de Napoleão revelara sua identidade aos franceses. Agora, o Ministério da Guerra recusava-se a encarregá-lo 9


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de qualquer missão mais emocionante do que um ocasional caso de contrabandistas de baixo calibre. James aceitara seu destino enfadonho com um suspiro de pesar e um sentimento de resignação. Esse fora, provavelmente, o momento em que ele mais se dedicara a suas propriedades e a seu título. Todos esperavam que se casasse e produzisse um herdeiro para o marquesado. Assim, ele voltara sua atenção para a cena social de Londres, onde um marquês, especialmente jovem e bonito, nunca passava despercebido. Sentira-se alternadamente entediado e divertido. Entediado, porque sabia muito bem o quanto eram superficiais as mamães e suas filhas casadouras, com seus joguinhos tolos para fisgá-lo, como se ele fosse um peixe gordo. E divertido porque procurara encarar aquelas situações ridículas com senso de humor. Caso contrário, acabaria enlouquecendo. Por tudo isso, sentira-se por demais entusiasmado, ao receber um bilhete de sua tia, por um mensageiro especial. Agora, aproximando-se da casa dela, em Surrey, James relia o bilhete: Meu caro marquês de Riverdale, Preciso de sua ajuda, com urgência. Por favor, venha a Danbury House o mais rápido possível. Eu disse a todos que estou aguardando meu novo administrador de imóveis. Portanto, espero que se caracterize à altura e se apresente como tal. Aliás, seu "nome", enquanto estiver aqui, será James Siddons. Agatha, lady Danbury. James não tinha a menor idéia do que sua excêntrica tia, lady Danbury, tinha em mente... Apenas, sentia que aquilo era exatamente o que ele precisava para escapar do tédio e sair de Londres, sem se sentir culpado por fugir às suas obrigações sociais. James transpôs os últimos quilômetros, até Danbury House, numa carruagem alugada, pois sua carruagem, puxada por belíssimos cavalos, não seria condizente com a previsível situação econômica de um simples administrador. Toda a sua bagagem resumia-se, agora, numa grande e surrada valise. Aos olhos do mundo, ele agora era o sr. James Siddons, um homem respeitável, com certeza, mas talvez um tanto carente de recursos monetários. Para todos os efeitos, o marquês de Riverdale desaparecera. E James não poderia sentir-se mais feliz. Claro que o plano de sua tia apresentava uma grande falha. Mas isso era mesmo de se esperar, quando algum amador assumia o planejamento de uma ação. E lady Danbury era uma amadora, sem dúvida alguma. James não visitara Danbury House, nos últimos dez anos. O trabalho, no Ministério da Guerra, não lhe proporcionava muito tempo para visitas familiares. Além do mais, era preciso também considerar os riscos inerentes ao ofício que exercia. Sua simples presença poderia, eventualmente, colocar lady Danbury em perigo. Contudo, essa ausência prolongada não garantia o sucesso de seu disfarce. Ao menos, não totalmente. Pois era bem possível que alguém conseguisse reconhecê-lo, já que ele passara a maior parte de sua infância naquele lugar. No entanto, até aquele momento, as pessoas com quem deparara, no caminho, enxergavam o que esperavam ver. E se James agia como um administrador de imóveis, era assim que elas o viam.

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Por fim ele chegou ao seu destino. Subiu os degraus de Danbury House e já ia bater à porta, quando esta se abriu e uma jovem mulher, de longos cabelos loiros, muito claros, precipitou-se em sua direção, não lhe dando chance de desviar-se. Com um grito assustado, ela caiu ao chão. Uma presilha voou de seus cabelos que, de súbito livres, repentinamente se abriram como uma cortina de ouro branco. — Perdoe-me — disse James, estendendo a mão para ajudá-la a se erguer. — Não, não... A culpa foi toda minha. Eu... Não estava olhando para onde ia — a jovem mulher respondeu, ignorando a mão estendida e tentando se recompor. James sentiu-se estranhamente desapontado pela recusa da jovem em aceitar seu auxílio. Ambos estavam sem luvas e, por um instante, ele quis sentir o contato daquela mão delicada contra a sua. Assim, tentou ser útil, inclinando-se para recolher os objetos que haviam caído da bolsa da jovem e jaziam, espalhados, aos pés da escada. Já havia recolhido um lenço e um pente, quando viu um pequeno livro vermelho e estendeu a mão para apanhá-lo. Num gesto inesperadamente urgente e veloz, a moça arrebatou o livro, um segundo antes que ele o alcançasse. — É muita gentileza de sua parte, tentar me ajudar — ela disse, ansiosa. — Ora, não por isso — ele respondeu, enquanto tentava ler o título do livro. Em vão, pois a moça acabava de guardá-lo dentro da bolsa. Elizabeth sorriu, nervosamente, certificando-se de que o livro estava bem seguro, no fundo de sua bolsa. Era óbvio que a maioria das mulheres solteiras sonhavam em encontrar um marido. Mas nem a mais patética, entre elas, se deixaria apanhar lendo um manual sobre o assunto. O homem não disse nada. Apenas olhou-a, com evidente curiosidade, o que deixou ainda mais tensa. — Você é o novo administrador, não? — ela perguntou. — Sim. — Então... Acho que devo me apresentar, pois é bem provável que voltaremos a nos encontrar, por aqui. Sou a srta. Elizabeth Hotchkiss, dama de companhia de lady Danbury. — E eu sou o sr. James Siddons. Acabo de chegar de Londres. — É um prazer conhecê-lo, sr. Siddons — ela afirmou, com um sorriso que ele achou encantador. — Sinto muito sobre o acidente, mas agora devo ir. James assentiu e ficou ali, parado, vendo-a afastar-se a passos largos, mantendo a bolsa apertada contra o corpo. Seus olhos recusavam-se a deixar a figura graciosa que aos poucos ia desaparecendo pela estrada. — Oh, James, que bom vê-lo! — exclamou Agatha Danbury, numa manifestação efusiva, bastante incomum. A velha condessa não era dada a tais exageros, mas James era seu sobrinho favorito... Na verdade, tinha mais afeto por ele do que por seus próprios filhos. — A senhora faz sua saudação soar mais como uma surpresa — ele comentou, curvando-se para receber um beijo na face. — Mas sabe muito bem que seu chamado teve, sobre mim, o efeito de uma ordem do próprio príncipe regente. 11


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— Ora, não exagere a importância das coisas... — Tia Agatha... — ele disse, observando-a com a atenção. — A senhora não me chamou até aqui por um simples capricho, não é verdade? Lady Danbury empertigou-se na cadeira. — Como pode pensar isso de mim? — perguntou, fingindo-se ofendida. — Porque conheço suas artimanhas e aprendi meus melhores truques com você — James respondeu, sorrindo e piscando um olho para ela. — Alguém tinha que ensinar algo de útil àquela pobre criança tola que você foi, um dia... Ah, você era tão ingênuo! — Tia Agatha... — ele insistiu — diga-me que esta não é mais uma de suas brincadeiras... — Antes fosse — a velha senhora respondeu, com um suspiro. — Acontece, meu caro sobrinho, que sua pobre tia está sendo chantageada. James inclinou-se na direção de lady Danbury. Aquilo, sim, era uma verdadeira surpresa. Nem mesmo em seus maiores exercícios de imaginação James poderia imaginar que sua velha tia fosse capaz de cometer algo que justificasse uma chantagem. — Sim... Alguém está tentando me chantagear — disse lady Danbury. — Não é um absurdo? — E a senhora tem idéia de quem seja? — Não. — E posso perguntar o motivo dessa chantagem? — É tão embaraçoso — respondeu lady Danbury, com os olhos azuis inundados de lágrimas. James recuou, chocado. Jamais presenciara uma cena como aquela, tendo a tia como protagonista. Ela era forte, tinha um senso de humor cortante e o amava profundamente. Mas nunca chorava. Nunca. Por isso, agora ele estava seriamente preocupado. — Como o contato foi feito, tia? — ele perguntou, num tom suave. — Da maneira habitual. — Através de uma carta? — Um bilhete. — Posso vê-lo? Ela assentiu com a cabeça, pegou um livro que estava na mesa, a seu lado, abriu-o e retirou, de entre as páginas, uma folha de papel. Em silêncio, entregou-a a ele, que leu: Lady D, Conheço o seu segredo... Sei tudo a respeito do verdadeiro pai de sua filha. E o meu silêncio vai lhe custar caro. — Erguendo os olhos, James perguntou: — Isso é tudo? Agatha respondeu com um gesto negativo de cabeça, enquanto entregava-lhe outra folha de papel, que ele recebeu com certa ansiedade. 12


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Quero quinhentas libras pelo meu silêncio. Deixe o dinheiro num saco de papel, atrás da Taverna, à meia-noite de sexta feira. Não diga nada a ninguém. Não me decepcione. — A senhora levou o dinheiro? Envergonhada, ela respondeu: — Sim. Eu sabia que, na sexta-feira, você ainda não teria chegado. Assim, achei mais prudente calar o chantagista. James ficou em silêncio, pensando na melhor forma de encarar o problema. Então, disse: — Acho que chegou o momento de a senhora me contar o seu segredo. Agatha meneou a cabeça, com uma expressão aflita. — É muito embaraçoso. Eu... não posso! — Querida tia, a senhora sabe que sou discreto e que a amo como se fosse minha mãe. Tudo o que me disser ficará entre essas quatro paredes. — Nem por um momento eu duvidei disso, meu filho — ela afirmou, mordendo os lábios em sinal de nervosismo. — A qual de suas filhas o chantagista se referiu, naquele — Melissa — Agatha, respondeu, num sussurro. — Mas ela não sabe de nada. James fechou os olhos por um instante. Sabia o que estava por vir e decidiu poupar a tia do embaraço de confessar o que agora lhe parecia óbvio. — Melissa... é ilegítima, não? Agatha assentiu, antes de dizer: — Eu tive um caso. Durou apenas um mês. Oh, eu era tão... — Lady D? — Jovem e tola! — "Juventude" e "tolice" parecem vir juntas, na mesma frase, com uma freqüência alarmante — James comentou, tentando dar um toque de humor à conversa. Mas a verdade era que ele, tão experiente e liberal, estava chocado. E também surpreso por se sentir assim. Porém, essa sensação incômoda durou bem pouco. E o verdadeiro amor que sentia por aquela velha mulher, a quem tanto devia, falou mais forte do que nunca. Sim. Ele tinha a certeza de que poderia dar a própria vida, por Agatha Danbury, sem hesitar um segundo. Agatha sorriu, com tristeza, e então disse: — A verdade é que não pensei duas vezes para atender a exigência do chantagista. — A senhora temia que ele revelasse seu segredo à sociedade? — Não dou um figo podre para a sociedade — ela respondeu, com seu costumeiro humor, ácido e cortante. — Pensei apenas em Melissa, em sua vergonha e sofrimento. — O marido de Melissa talvez não absorvesse muito bem a situação... Certo? 13


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— Nem tanto. O conde com quem Melissa se casou é um homem do mundo, um homem vivido. Talvez contivesse uma gargalhada, apenas para não ferir os sentimentos da esposa. O problema é que Melissa tinha uma forte ligação afetiva com o pai, de quem era a preferida. Seria muito difícil, para ela, compreender e aceitar essa verdade. Entende? — Por certo, minha querida. — E o que vamos fazer, James? Você é a única pessoa em quem confio, para me ajudar nesse caso. Sua experiência profissional no Ministério da Guerra poderá ser útil. — Vou fazer umas investigações preliminares, mas acho que nada vai acontecer, de fato. Até que a senhora receba outro bilhete. — Então você acredita que haverá outro? James assentiu, com gravidade. — Chantagistas não sabem quando parar. É por isso que acabam se dando mal. Enquanto isso, só me resta brincar, ou melhor, fingir-me de seu administrador de imóveis. — E um bom disfarce para suas investigações, você não acha? — Seria perfeito. Se não houvesse a possibilidade de alguém me reconhecer. Afinal, passei quase toda a minha infância nesta casa, nesses arredores. — A maioria das pessoas que poderiam descobrir sua verdadeira identidade já morreram. E as outras não vão reconhecê-lo. Dez anos se passaram, desde sua última visita. E, além do mais, seu disfarce é ótimo. — E quanto a seu mordomo, Cribbins? — O velho Cribbins já não existe mais... Morreu no ano passado. — Sinto muito. Eu tinha afeto por ele. — Eu também. Quanto ao novo mordomo, é bastante competente, eu suponho. Embora tenha tido o descaramento de me pedir que não o chamasse Cribbins e sim de Wilson. — Mas não seria este o nome dele? — Talvez... Mas é horroroso! Onde já se viu um mordomo chamar-se Wilson? — Tia Agatha — disse James, paciente — podemos voltar ao assunto em questão? — Você tem mais alguma pergunta? — Sim: o que se espera do administrador de lady Danbury? Ela meneou a cabeça. — Nada de especial. Você deve conhecer muito bem essa função, já que cuida da administração de suas terras e seus bens, não é mesmo? Isso era verdade, mas apenas em parte, James pensou. Afinal, ele não entendia tanto assim do assunto. Apenas assinava os relatórios de seus próprios administradores, desde que assumira o título de marquês e as posses inerentes à sua posição. Na verdade, interessava-se muito pouco pelo dia a dia de Riverdale Castle. — Muito bem — disse ele, levantando-se. — Já que Cribbins não está mais conosco, minhas preocupações em manter-me bem disfarçado são bem menores, agora. Procurarei aproveitar o bom clima que faz por aqui. Londres estava sufocante. — Você está falando do clima ou das pessoas? 14


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— De ambos. — James sorriu e perguntou: — Bem, onde devo me instalar? — Cribbins o levará até seus aposentos. — Tia Agatha, deixe Cribbins descansar em paz, no céu. Pois certamente ele foi para lá, graças ao mérito de ter suportado servi-la por quase quarenta anos — James provocou-a, num tom bem-humorado. — Ora seu piolho de rato fedorento — ela praguejou. — Como se atreve? Inclinando-se ele beijou-a no rosto. — É muito bom estar de volta — disse, com ternura. Ela sorriu, divertida. — Eu também amo você, James. Elizabeth chegou à sua casa, coberta de lama. Fizera praticamente correndo o percurso de um quilômetro e meio que separava sua casa de Danbury House. O verão, naquele ano, estava particularmente úmido. E ela tropeçara numa raiz, no meio do caminho, arruinando seu melhor vestido. Não que ele estivesse em tão boas condições assim, mas era o melhor que possuía. Com toda certeza, não haveria dinheiro suficiente para a compra de outro vestido. Pois manter três irmãos, em fase de crescimento, vestidos com dignidade, com seus parcos recursos, era quase uma questão de mágica. Sufocando as lágrimas, que ameaçavam aflorar a seus olhos, Elizabeth bateu os pés na varanda de sua casa, para tirar a lama. Em seguida empurrou a porta e entrou. Esgueirando-se pelo corredor, tentou subir as escadas para o quarto, sem que ninguém a visse. Mas Susan foi mais rápida. — Santo Deus! O que aconteceu com você? — Tropecei e caí — ela respondeu, sem olhar para a irmã. — Você se machucou? — Não. Agora me deixe ir para o quarto e trocar de roupa — disse, um tanto brusca. Susan percebeu o mau humor da irmã e não insistiu no assunto. Apenas disse: — Jane e Lucas estão brincando, no jardim. Vou pedir que não façam barulho ao retornar, para que você possa tirar seu cochilo. — Obrigada — Elizabeth respondeu, voltando-se bruscamente e batendo a mão que segurava a bolsa no corrimão da escada. — Ai! O conteúdo da bolsa espalhou-se pelo chão e Susan atentou para o livro vermelho, que se destacava entre os outros objetos. — Vejo que você pegou um livro emprestado de lady Danbury. Gostaria de lê-lo. — Você não pode! — Elizabeth afirmou, rapidamente. Susan recuou, com a mão estendida. — Por que não? — Tenho que devolvê-lo, amanhã. Portanto, não haverá tempo para que você o leia. 15


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— Mas posso ao menos dar uma olhada? — Não! Aquilo era arbitrariedade demais para Susan que, num movimento rápido, pegou o livro. — Devolva-me esse livro! — exigiu Elizabeth. — Não! Quero ver o que você está me escondendo. Perdendo a paciência, Elizabeth tentou segurar a irmã, que se esgueirou com rapidez, colocando-se fora de alcance. Elizabeth gemeu enquanto Susan lia o título, em voz alta, com uma expressão triunfante: — Como Se Casar Com Um Marquês... — É apenas um livro tolo — Elizabeth tentou justificar-se, com o rosto corado de embaraço. — Um marquês? — Susan comentou, divertida. — Hum... Como você é ambiciosa, minha querida irmã! — Ora, deixe de tolices. É claro que não pretendo me casar com um marquês. Mas achei que esse livro poderia trazer alguns conselhos úteis. — Totalmente inúteis para lidar com alguém como Squire Nevins — Susan murmurou, folheando algumas páginas. Elizabeth engoliu em seco. O pensamento de que Squire Nevins poderia tocá-la, beijá-la... fez com que sua pele se arrepiasse de repugnância. Não era possível. Teria de haver algo, naquele livro, que a ensinasse a encontrar um marido decente. — Puxa, parece realmente interessante — disse Susan, sentando-se no tapete. — Escute só: Artigo Número Um: Seja original, mas cuidado para não se exceder. — O que isso significa? — Elizabeth reagiu, irritada. — Que coisa ridícula! — Este é apenas o título do primeiro artigo. Logo abaixo, vem a explicação — disse Susan. — Deixe-me ver — Elizabeth pegou o livro e leu, em silêncio: a) É imperativo que você seja uma mulher inteiramente original. Sua magia pessoal a acompanhará e, quando entrar num ambiente, seu homem nada mais verá, a não ser o seu rosto. Elizabeth meneou a cabeça, impaciente. — Magia pessoal? Continuo não entendendo o que essa autora quer dizer. — Ah, eu acho tudo muito romântico — Susan opinou. Ignorando-a, Elizabeth continuou a ler, agora em voz alta: (b) Você deve se esforçar para conter a sua singularidade, de modo que somente ele possa apreciá-la. Você tem que provar a ele que será uma esposa exemplar. Nenhum homem deseja estar ligado a uma esposa que possa constrangê-lo, ou envergonhá-lo, em público. (c) Em outras palavras, você deve passar despercebida para todos... Menos para ele. Pois ele é o único que importa. Elizabeth olhou para a irmã: — Há um problema, aqui. — Qual? 16


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— A autora pressupõe que sua suposta leitora já tenha um homem em vista. E eu não tenho nenhum. — Isso, de fato, é um problema. Mas não se preocupe. Nós improvisaremos — Susan afirmou, convicta. — Como? — Amanhã eu lhe conto. Antes que Elizabeth pudesse perguntar algo mais, Susan arrebatou o livro de suas mãos e subiu as escadas, correndo, em direção ao quarto. Já na porta, voltou-se para dizer: — Boa noite, querida irmã. Nós nos veremos no café da manhã. — Você não vai jantar? Como resposta, Susan bateu a porta e girou a chave na fechadura. Quando Elizabeth desceu para o café da manhã, Susan já estava à mesa, com o livro vermelho nas mãos. Elizabeth observou, sombriamente, que a cozinha não mostrava nenhum sinal de uso. — Você bem que poderia ter começado a preparar o café da manhã — disse, irritada, procurando a cesta de ovos. — Estou muito ocupada — Susan respondeu. — Muito mesmo. Olhando para a cesta de ovos, Elizabeth não contestou. Havia apenas três ovos para quatro pessoas. Por sorte, lady Danbury com freqüência a convidava para tomar o café da manhã em sua companhia. Com um suspiro resignado, ela quebrou os três ovos e levou-os ao fogo, numa frigideira. Susan resolveu ajudar e começou a cortar o pão. — Algumas dessas regras não são difíceis — comentou, enquanto trabalhava. — Acho que até mesmo você poderia segui-las. — Estou impressionada com sua confiança em mim — Elizabeth retrucou, irônica. — Na verdade, você deve começar a praticar logo. Escute... Você sabe se lady Danbury irá à grande festa de encerramento do verão? — Creio que ela irá, sim — Elizabeth respondeu, distraída. — Certamente, haverá alguns maridos potenciais, no evento. — Sem dúvida! Só que não vou estar presente. — Lady Danbury não convidou você? — perguntou Susan, indignada. — Ainda não. Mas, com certeza, ela o fará. — Então, qual é o problema? — Susan, olhe para mim... Susan obedeceu, sem entender. — Sim? Elizabeth pegou, entre os dedos, o tecido desbotado de seu vestido verde. — Como posso ir a uma festa... assim? Ainda tenho meu orgulho... 17


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— Vamos deixar para cruzar a ponte quando chegarmos a ela — Susan disse, com firmeza. — Quando chegar o momento, resolveremos esse problema. Até lá, você precisa aperfeiçoar suas habilidades. — Mas aperfeiçoar minhas habilidades... como? E com quem, em nome de Deus? — Elizabeth reagiu, começando a se irritar. — Você não disse que chegou o novo administrador de lady Danbury? — Eu não falei nada sobre isso! — Então, foi Fanny Brinkley quem me contou. De qualquer maneira, todos estão sabendo da chegada desse homem. — Vá direto ao ponto, Susan — Elizabeth pediu, exasperada. — Bem, você poderia praticar as regras do livro com ele. A menos; é claro, que o homem seja horrivelmente repulsivo. — Ele não é repulsivo — Elizabeth apressou-se a responder, sentindo-se corar. Na verdade, o novo administrador de lady Danbury era simplesmente o homem mais belo que ela já vira. E tinha um sorriso impressionante que, aliás, havia lhe provocado estranhas reações. Pena que ele não tivesse muito dinheiro. — Ótimo — disse Susan, entusiasmada. — Então, seu trabalho será fazê-lo apaixonar-se por você. Elizabeth mexeu os ovos. — E depois, Susan... O que virá? Ele é um administrador de imóveis. Isso significa que não vai terá dinheiro suficiente para enviar Lucas a Eton. — Ora, não seja tola! Você não vai se casar com ele. Vai apenas praticar... Entendeu? — Isso soa bastante cínico — Elizabeth resmungou. — Bem, você precisa testar suas habilidades com alguém. E como não há outra alternativa, será com ele, mesmo. Agora, preste atenção: escolhi várias regras com as quais você pode começar. — Regras... — Elizabeth repetiu, de mau humor. Em seguida, elevando a voz, chamou os outros irmãos: — Jane! Lucas! O café está pronto. — Como eu estava dizendo — Susan prosseguiu — penso que devemos começar com as regras de número dois, três e cinco — O que aconteceu com a quatro? — perguntou Elizabeth, irônica. Susan enrubesceu, graciosamente. — Ah... Trata-se de como se vestir na moda, mas sem exageros. Elizabeth resistiu ao impulso de atirar um ovo frito na irmã. O fato era que Susan parecia tão empenhada naquela cruzada absurda, que ela enterneceu-se e cedeu: — Está bem, Susan. Por onde você acha que devo começar? — Sem dúvida, por esta frase. E leu: (d) Seu encanto deve aparecer, sem esforço. — Certo, Susan... Mas o que isso quer dizer? — Que você deve cuidar da delicadeza de seus gestos, por exemplo. Que não deve acenar para alguém como se estivesse espantando moscas, entende? 18


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Se olhar ferisse, Susan provavelmente começaria a sangrar. Elizabeth respirou fundo e voltou a chamar os irmãos, quase gritando: — Jane! Lucas! — Venham já! O café da manhã vai esfriar. Jane entrou correndo, na cozinha, e sentou-se à mesa. Lucas veio logo em seguida. Havia muito que os Hotchkiss não usavam a sala de jantar. As refeições, ligeiras, eram sempre na cozinha. E, no inverno, todos gostavam de sentar-se perto do fogão. Assim, a cozinha tornara-se o centro social da casa. — Você está despenteada, Jane — disse Elizabeth, num tom carinhoso. — Isso é porque "alguém" me deixou fora do quarto, a noite passada — a menina respondeu, carrancuda, olhando para Susan. — Eu nem sequer tive chance de escovar os cabelos. — Temos leite? — perguntou Lucas. — Só para diluir no chá — respondeu Elizabeth, servindo os ovos e as grossas fatias de pão para os três. — Quanto ao Artigo Número Dois... — disse Susan. — Agora, não! — Elizabeth a interrompeu, ríspida. — Eu hoje vou pescar, com Tommy Fairmount e o pai dele — Lucas anunciou, antes de começar a devorar seu desjejum. — Nessa noite, vamos comer bem. — Isso é maravilhoso, querido — disse Elizabeth, consultando um pequeno relógio, sobre a prateleira. — Preciso ir para o trabalho. Vocês cuidam da casa, certo? — Mas você não comeu nada — protestou Susan. — Vou tomar meu café da manhã com lady Danbury. Fique tranqüila. —- Terei que pegar um peixe muito grande — Lucas sussurrou para Jane. Aquilo foi a gota d'água para Elizabeth. Qualquer escrúpulo sobre arranjar um marido parecia ridículo, diante da real necessidade de sua família. Erguendo os ombros, caminhou em direção à porta enquanto dizia: — Susan, quero falar com você. Quando ambas estavam fora do alcance auditivo das crianças, Elizabeth ordenou: — Jamais, sob nenhuma circunstância, fale desse livro na frente das crianças, entendeu bem? — Certo — Susan aquiesceu, animada. — E então, você vai tentar? — Não tenho outra escolha. Vamos lá, conte-me quais são os artigos e suas regras.

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CAPÍTULO II

Durante o percurso até Danbury House, Elizabeth foi rememorando os tais artigos que Susan havia discutido com ela. Prometera à irmã que tentaria aplicar, na prática, as primeiras regras do livro, com o novo administrador de lady Danbury. Mas não via como dar início ao projeto, sem desobedecer ao Artigo Número Dois, que dizia: Não vá à procura do homem. Nunca! Faça com que ele venha até você. Também não via como conciliar os Artigos Três e Cinco que, pensando de maneira prática, mostravam-se totalmente contraditórios. O Artigo Três dizia: Nunca seja rude. Um cavalheiro de nascimento nobre requer, para si, uma dama que seja a essência da graça, dignidade e boas maneiras. Já o Artigo Cinco impunha: Nunca fale com o homem por mais de cinco minutos. Deixe-o fantasiar sobre o que mais você poderia ter dito. E não o fez. Procure um modo educado de se ausentar. O fascínio dele crescerá, se ele julgar que você tem outros pretendentes em mente. Ora, como seria possível cortar uma conversa depois de apenas cinco minutos sem ser rude? Ela se perguntava. E esses eram apenas os primeiros artigos e regras. Elizabeth começava a se desesperar. Naquele passo, chegaria à velhice, antes de entender o tal livro. Ao chegar a Danbury House, ela dirigiu-se, como de costume, para a sala de estar. Lady Danbury já se encontrava em sua cadeira favorita, escrevendo num bloco de papel e resmungando para si mesma, como sempre fazia. Malcolm, o gato, estava descansando no peitoril de uma janela. Abriu um olho e, talvez, julgando Elizabeth indigna de sua atenção, voltou a dormir. — Bom dia, lady Danbury — disse Elizabeth, com um sorriso. — Gostaria que a ajudasse com sua correspondência? A velha condessa guardou o bloco numa gaveta antes de responder: — Não é necessário. Eu já terminei com isso. — Vejo que está bastante bem, nesta manhã. — Oh, sim. O dia está muito agradável e espero que você não pense em estragá-lo com a leitura do Velho Testamento. — Isso nem me passou pela cabeça — Elizabeth garantiu. — Há algo que gostaria que eu fizesse? — Na verdade, sim. Preciso falar com meu novo administrador. Ele deve estar trabalhando no escritório. Você pode chamá-lo? Elizabeth sentiu-se invadida por um repentino fluxo de otimismo. Acabava de arranjar o pretexto ideal para procurar o administrador, sem quebrar o artigo número dois. Pois, tecnicamente falando, não iria ao encontro dele por vontade própria e sim para cumprir uma ordem de sua patroa. 20


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— Elizabeth! — chamou lady Danbury, em voz alta. Ela piscou. — Sim, senhora? — Está sonhando? Preste atenção quando eu falar com você. Elizabeth sorriu levemente, mas com grave ironia. Todos os seus sonhos de infância e adolescência haviam se desvanecido, cinco anos atrás, quando seu pai morrera e a dura realidade da vida a assaltara. Fazia tanto tempo que não sonhava acordada! — Sinto muito, lady Danbury — ela apressou-se a dizer. — Não é preciso se desculpar. Basta chamar o sr. James Siddons. — Imediatamente, minha senhora. — Ele é alto, tem cabelos e olhos castanhos. — Oh, eu sei — Elizabeth afirmou. — Encontrei o sr. Siddons ontem, quando estava saindo daqui. — Interessante... — a velha senhora comentou, pensativa. — Ele não mencionou esse encontro. — Havia alguma razão, para que ele o fizesse? — Elizabeth indagou, surpresa. — De fato, não — Lady Danbury franziu o cenho, como se considerasse um problema filosófico, ainda não resolvido. — Mas, ande, menina. Não fique aí parada. Elizabeth saiu da sala recitando, mentalmente, um dos ensinamentos do livro: Seja original, mas cuidado para não se exceder... Será que conseguiria? O escritório, bem como os aposentos do administrador da propriedade, ficava à esquerda dos estábulos. Era uma construção de três cômodos, com uma chaminé de pedra e telhado de palha, composta por uma pequena sala, um quarto e o escritório. A edificação tinha uma aparência limpa e bem cuidada. Elizabeth ficou do lado de fora, por cerca de um minuto, controlando a respiração e lembrando-se de que era uma mulher jovem, razoavelmente atraente e apresentável. Portanto, não havia nenhuma razão para que aquele homem a desprezasse. Engraçado, Elizabeth pensou, ironicamente. Nunca antes, se sentira nervosa por ter que se encontrar com uma pessoa. Agora, porém, estava tensa. E tudo por culpa daquele maldito livro, ela julgou. Ao bater à porta, percebeu que esta estava apenas encostada. Então, chamou: — Sr. James Siddons? O senhor está em casa? — Ninguém respondeu. Empurrando levemente a porta, ela colocou a cabeça no vão e espiou lá dentro. — Sr. Siddons? — tornou a chamar. Como resposta ao seu chamado... apenas o silêncio. Elizabeth suspirou, apoiandose no batente. Era óbvio que o homem não se encontrava em casa. E ela não estava nada disposta a percorrer a imensa propriedade, na tentativa de encontrá-lo. Empurrando a porta um pouco mais, observou a mobília simples e funcional, que pertencia à propriedade. Depois sua atenção se fixou nos poucos pertences do administrador, espalhados aqui e ali, pela sala. Foi então que notou algo sobre a mesa: à luz difusa do cômodo, entre os livros de contabilidade, um pequeno livro vermelho se destacava.

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Elizabeth estremeceu. Era muita coincidência que o sr. Siddons estivesse lendo o mesmo livro que ela. Isso não fazia sentido algum! Aquele era o tipo de leitura recomendado a jovens casadouras e não a um administrador. Sem tentar resistir à curiosidade, que a dominava totalmente, Elizabeth entrou na sala e aproximou-se da mesa. Ao tomar o livro nas mãos notou, imediatamente, que este era maior e mais pesado que o outro, que ele levara no dia anterior. Então leu o título: Ensaios de Francis Bacon. Fechando os olhos, ela riu de si mesma. Estava imaginando coisas, vendo fantasmas onde eles não existiam. — Não seja estúpida — ela se ordenou, num sussurro. Tentando devolver o livro ao local exato onde antes se encontrava, ela avançou e, desastradamente, bateu a perna contra a quina da mesa. A dor fez com que ela praguejasse: — Maldição! Sou a moça mais desastrada de toda a Grã-Bretanha! Ouviu passos e sobressaltou-se. Alguém, usando botas, pisava o calçamento de pedras do lado de fora da casa. — Quem está aí? — perguntou, elevando a voz, que pareceu-lhe estranha e um tanto estridente. Nenhuma resposta. Elizabeth estremeceu. Estaria sendo observada? James tinha passado boa parte da manhã caminhando pela propriedade, que sofrerá algumas modificações, durante o tempo em que ele permanecera distante. Danbury House o acolhera em sua infância e juventude e ele a conhecia melhor do que suas próprias terras, em Riverdale Castle. Mas, de qualquer forma, para manter-se no cargo fictício de administrador, que sua velha tia havia lhe atribuído, precisava retomar o contato com o lugar e seus atuais problemas. O dia estava quente. E aquela longa caminhada o fizera transpirar bastante. Seria ótimo tomar um banho. Mas seu disfarce, como administrador da propriedade, não lhe dava acesso às dependências de Danbury House, onde uma banheira transbordante poderia proporcionar o alívio desejado. Assim, ele já se conformava, antecipadamente, com uma bacia de água fresca e uma toalha limpa, para se refrescar e recompor. James constatou, surpreso, que a porta da frente de sua habitação estava aberta. Com um misto de cautela e curiosidade, aproximou-se da janela e espiou lá dentro. Havia uma jovem, parada ao lado da mesa onde ele deixara alguns livros de contabilidade e outros objetos. Ela estava de costas para a porta, mas mesmo assim James identificou-a, imediatamente, como a dama de companhia de sua tia, Agatha. Os cabelos loiros e o porte esbelto eram inconfundíveis. O que ela estaria fazendo ali, com o exemplar dos Ensaios de Francis Bacon nas mãos? Para uma jovem do campo, até que ela demonstrava um interesse elevado pela leitura, ele pensou. Observar a jovem deu, a James, um prazer inesperado. Seu talhe esguio, os cabelos caindo soltos e reluzentes sobre os ombros e costas, a graciosidade de seus movimentos. Decididamente, tratava-se de uma bela mulher. E James quedou-se, como que hipnotizado pela harmonia da cena à sua frente. Uma onda quente o invadiu, irradiando-se por todo o seu ser, enquanto ele contemplava as curvas perfeitas daquele corpo jovem, o contorno suave dos seios 22


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destacando-se sob o tecido do vestido que ela usava... Mas a jovem parecia murmurar algo... O que seria? Foi então que, ao recolocar o livro no lugar, ela avançou um passo e esbarrou na ponta da mesa. Com uma expressão furiosa, começou a massagear o lugar ofendido, enquanto praguejava baixinho. O primeiro instinto de James foi correr para ajudá-la. Contudo ele se conteve. Afinal, que diabos aquela jovem estaria fazendo em sua modesta habitação? Seria ela a chantagista que ele buscava? Difícil dizer... Belas jovens do interior, que fazem companhia a velhas e solitárias damas da nobreza, não perfaziam o tipo intrigante, espião ou chantagista. Mas, em sua profissão, James vira coisas bem mais surpreendentes do que isso e, portanto, era melhor não descartar aquela possibilidade. — Sou a moça mais desastrada de toda a Grã-Bretanha — ela murmurou. Esforçando-se para ouvi-la, James apoiou o pé sobre o cascalho solto e o atrito das minúsculas pedras, sob seu peso, soou como um estampido, no silêncio do momento. — Quem está aí? — a jovem gritou. Ele não podia permanecer ali. Caso contrário, seria descoberto espionando a jovem intrusa. Então distanciou-se, o suficiente. Depois voltou sobre os próprios passos, justamente a tempo de encontrar a jovem, já do lado de fora da casa e pronta para partir. — Bom dia, srta. Hotchkiss — ele saudou-a, em voz alta, aproximando-se. O susto fez com que Elizabeth saltasse, graciosamente, para um lado, com a elegância e agilidade de uma gazela. — Oh!... Não percebi que o senhor estava aí! — Peço desculpas, se a assustei. Ela meneou a cabeça e corou profundamente. Sem saber a que atribuir aquela reação emocional, James interpretou o embaraço da jovem como sinal de culpa. Algo de errado ela estava fazendo, sem dúvida alguma. — Não, não se desculpe — ela balbuciou. — Parece que não consigo olhar por onde ando! — E o que trouxe a senhorita até aqui, tão longe de seus afazeres com lady Danbury? — Fui enviada pela própria lady, que deseja vê-lo — ela respondeu, sem hesitar. Os olhos de James se estreitaram. Aquela bela jovem era inteligente demais para mentir sobre algo que poderia ser facilmente refutado. Mas, então, por que teria ela entrado furtivamente em seus aposentos? Era desagradável gastar aquele momento, suspeitando de tão graciosa criatura. Mas, afinal, aquele era o seu verdadeiro trabalho. E, por amor à sua tia, ele assim deveria prosseguir. Na verdade, a especialidade de James era conseguir informações, de todo tipo de pessoas. E, com as mulheres, havia chegado quase à perfeição, nesse trabalho. As mulheres, em geral, deixavam-se absorver ao máximo pelos problemas existenciais. Bastava, às vezes, uma pergunta singela sobre o mundo pessoal de uma mulher para que ela começasse a falar, compulsivamente, sobre si mesma. Essa regra tinha exceções, claro. E lady Danbury era um claro exemplo. 23


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— Há algo de errado? — a moça perguntou, interrompendo-lhe os pensamentos. — Como? — O senhor ficou tão silencioso. — Deixei-me absorver por recordações — ele apressou-se a dizer. — Mas confesso que não consigo imaginar por que lady Danbury requer minha presença. Afinal, estivemos juntos nesta manhã. — Isso eu não posso responder — ela disse, com franqueza. — Há muito, deixei de questionar os motivos de lady Danbury. É muito desgastante, para o meu cérebro, tentar entender como funciona a mente dela. James riu. Aquela jovem, além de bela, parecia encarar a vida com graça e um raro senso de humor. Pelo que pudera deduzir, já fazia algum tempo que ela trabalhava como dama de companhia de tia Agatha. O que, por si só, já era um feito notável. Decidido a fazê-la falar, James ofereceu-lhe o braço, dizendo: — Espero que aceite minha companhia, na volta à casa de lady Danbury. A não ser, claro, que a senhorita tenha outras obrigações a cumprir por aqui. — Não — ela respondeu, com simplicidade. Ele ergueu as sobrancelhas, numa interrogação muda. — Estou dizendo que não tenho mais nada a fazer aqui — ela esclareceu, com um sorriso — E, sim, eu ficaria feliz em acompanhá-lo. — Ótimo — ele disse, num tom suave. — Assim, poderemos nos conhecer melhor. Com um suspiro, Elizabeth aceitou o braço que ele lhe oferecia. Pelo que lhe constava, estava se saindo razoavelmente bem, naquele encontro. Pois, com uma frase espontânea, tinha conseguido fazer o homem sorrir. Não que essa fosse uma das regras do livro da sra. Seeton. Ao menos até onde ela sabia. Mas talvez estivesse lá, em alguma parte, algum capítulo mais avançado. — A senhorita parece tão séria... — ele comentou — como se estivesse concentrada em algum problema difícil. Elizabeth engoliu em seco, profundamente contrariada consigo mesma. Tanto trabalho para parecer encantadora e espontânea... Só faltava, agora, passar a impressão de que estava seguindo um roteiro comportamental pré-determinado. — Claro... — ele prosseguiu, longe de imaginar o quanto ela estava angustiada — que sempre achei que, em certas mulheres, a seriedade é fascinante. Elizabeth aprumou-se, sentindo-se mais confiante. Ela era uma Hotchkiss e tinha uma missão a cumprir: encontrar um marido ou, mais exatamente, aprender a encontrar um marido. E embora parecesse um tanto cruel usar o sr. James Siddons para tal fim, ela precisava fazê-lo, pelo bem de sua família. Com um sorriso brilhante no rosto, Elizabeth voltou-se para ele, decidida a deixá-lo fascinado. Mas, para sua surpresa, ele se inclinou e, com todo charme masculino, disse baixinho: — Seu sorriso desperta, em mim, algo mais que minha curiosidade. Ela piscou, repetidas vezes. Se não soubesse exatamente o que estava fazendo ali, pensaria que os papéis tinham se invertido. E que ele estava tentando deixá-la fascinada. 24


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— Peço desculpas, sr. Siddons — ela disse, encantadora. — Como vê, sou propensa a me perder em pensamentos. Não queria parecer rude. Ele meneou a cabeça, num enfático gesto de negação. — Oh, não! A senhorita não foi rude, de modo algum! Elizabeth preparou-se, interiormente, para o próximo passo. Aquele era o momento exato para colocar em prática um dos artigos do livro, que Susan insistira em fazê-la repetir inúmeras vezes: Faça com que ele fale sobre si mesmo. Os homens, de modo geral, se comprazem infinitamente com isso. Limpando a garganta, e exibindo um novo sorriso, ela afirmou: — Gostaria de saber mais sobre o senhor. Gostaria que me falasse um pouco de si mesmo. — Eu? — ele reagiu, realmente surpreso. — Sim. Não é todo dia que temos uma pessoa nova, aqui em Danbury House. Onde o senhor mora? — Aqui e ali — ele respondeu de modo vago. — Mas passo a maior parte do tempo em Londres. — Deve ser emocionante — ela comentou, forjando um tom de entusiasmo, na voz. Na verdade, detestava Londres. Era uma cidade grande, suja e malcheirosa. — E o senhor sempre se dedicou à administração imobiliária? — Sim — ele mentiu e resolveu mudar o foco da conversa. — E quanto à senhorita? Sempre viveu aqui? Elizabeth assentiu: — Minha vida inteira. Eu não poderia, de modo algum, me imaginar em outro lugar. Não há nada tão lindo como os campos da Inglaterra, quando chega a primavera. Lembrando-se de que não deveria estar falando sobre si mesma, ela reagiu rapidamente e, com uma doçura irresistível, comentou: — Mas tenho certeza de que sua vida é muito mais interessante do que a minha, sr. Siddons. — De maneira alguma — ele retrucou, num tom amável. Elizabeth limpou a garganta, tentando evitar que a frustração transparecesse em seu semblante. Aquele homem estava complicando as coisas. Segundo o livro, os homens adoravam falar sobre si mesmos. Mas o sr. James Siddons estava fazendo exatamente o contrário, insistindo em que ela falasse. Até parecia que estava fazendo isso de propósito. — Meu caro senhor — ela disse, gentilmente. — Tenho vivido em Surrey, desde que nasci. Como a minha vida poderia ser mais interessante do que a sua? Estendendo a mão, ele tocou-lhe o queixo. — De alguma forma, tenho a impressão de que a senhorita poderia me fascinar indefinidamente, se assim o quisesse. Elizabeth corou. Jamais um homem a tocara daquela maneira. Havia algo de hipnótico e doce no calor daqueles dedos esguios, em contato com sua pele. 25


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Aquela era a hora exata para mudar de artigo, Elizabeth pensou, recordando outro ensinamento do livro: Nunca fale com o homem por mais de cinco minutos. Deixe-o fantasiar sobre o que mais você poderia ter dito... E não o fez. Forçando-se a tomar uma atitude contrária ao que estava sentindo, no momento, ela disse com delicada firmeza: — Creio que agora preciso realmente ir, sr. Siddons. Ele balançou a cabeça lentamente, sem tirar os olhos dos dela. — Tão cedo? — disse, com suavidade. — Gostaria tanto de saber mais sobre sua pessoa. Quais são suas ocupações prediletas, seus interesses literários, por exemplo. Afinal a senhorita me parece uma jovem inteligente, além de bela. Elizabeth mordeu o lábio inferior, contendo a raiva. Definitivamente, aquele homem estava zombando dela. Como ele poderia ter uma opinião tão firme a respeito de seu intelecto, depois de trocar apenas meia dúzia de frases feitas, com ela? Então ele está querendo saber mais a meu respeito.... Pois muito bem... Darei a ele o suficiente, decidiu, antes de indagar: — Quer dizer que o senhor está interessado em minhas ocupações prediletas? — Sim, sem dúvida. — Bem... — Ela inclinou a cabeça, de modo encantador. — Minha horta, sr. Siddons... Este é meu grande interesse, na atual estação. — Horta? — ele engasgou, tentando compreender. — Oh, sim. Nabos... — Nabos? — ele repetiu, perplexo. — Sim. Nossa principal cultura, neste ano, é de nabos. Nabos aos montes! O senhor os aprecia? — Eu... Confesso que... Isto é, não sei se... — Alguns acham o nabo um tanto sem graça, realmente, mas trata-se de um tubérculo fascinante, eu lhe garanto. James olhou em torno, como se buscasse um meio de escapar. De que diabos aquela jovem estava falando, afinal? — O senhor já cultivou nabos? — ela prosseguia, inflexível, sempre sorrindo, sempre mantendo o encanto. — Oh, não... Eu... temo que não. — É uma pena — ela disse, com veemência. — Pode-se aprender muito, sobre a vida, cultivando esse tubérculo. James deixou pender a cabeça, com uma expressão incrédula. Aquela garota estava zombando dele. E com tal graça, que ele estava praticamente sem defesas. Mesmo assim, ainda tentou argumentar: — E sério? E o que podemos aprender com esse tipo de cultura, srta. Hotchkiss? — Zelo, aplicação, constância... Enfim... — ela deu de ombros — assiduidade. — É mesmo? E como isso funciona? 26


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Elizabeth suspirou, com ar dramático: — Se o senhor faz essa pergunta, sr. Siddons, é porque jamais conseguira entender. Eu temo — sentenciou, num tom leve e ao mesmo tempo divertido. Enquanto James digeria essa afirmação, pensando em como respondê-la, Elizabeth voltou a falar: — Oh, veja, aqui estamos, de volta a Danbury House. Por favor, informe a lady Danbury que estarei no jardim das rosas, caso ela precise de mim. E assim, dizendo, em tom de despedida, ela partiu rapidamente, deixando James parado, perplexo, ainda tentando entender o que havia acontecido. Sem dúvida, aquela fora a conversa mais bizarra que tivera em toda a sua vida. Foi então que ele percebeu um vulto que tentava ocultar-se por trás da imponente casa. Era a jovem Hotchkiss, observando-o. Então era isso, ele pensou. Um jogo! Pois muito bem! Aquela jovem o provocara. E, agora, o teria em seu encalço. Ele não descansaria até descobrir quais eram, na verdade, as intenções daquela bela e desconcertante mulher. Dez horas depois, Elizabeth arrastava os pés cansados em direção à porta de sua casa. Susan a aguardava, ansiosa, nos degraus da escada. Trazia o livro vermelho nas mãos. — E então? — ela indagou. — O que aconteceu? Quero saber tudo! Elizabeth lutou para conter um riso nervoso, que ameaçava escapar-lhe dos lábios. Um riso que mais se pareceria a um colapso, do que a qualquer outra coisa. — Oh, Susan! — respondeu, num tom de lamento. — Consegui, sem qualquer sombra de dúvida, cumprir o artigo número um do livro. Ele, definitivamente, acha que sou única. — Está um lindo dia, não é mesmo? Elizabeth olhou para Susan, com ar de desagrado. Estavam sentadas à mesa do café da manhã, com os irmãos menores. A alegria excessiva de Susan a incomodava,causando-lhe certa irritação. — Há tempos não tínhamos uma manhã tão radiosa, você não acha? — Susan insistia. Elizabeth simplesmente ignorou-a, enquanto partia o bolo no prato à sua frente, a ponto de quase esfarelá-lo. — Se você não quer o seu bolo, dê para mim — disse Lucas, esperançoso. Elizabeth começou a empurrar o prato em direção ao irmão, quando Jane interveio: — Metade para mim, pode ser? Dividindo o maltratado pedaço de bolo em duas partes ela serviu os irmãos. — Ela está mal-humorada, hoje — Jane sussurrou a Lucas. — Então é melhor a gente ir lá para fora. Ambos deixaram a mesa, levando seus pedaços de bolo nas mãos. Elizabeth pousou o olhar em Susan, numa clara demonstração de que esperava que ela também se retirasse. 27


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— Não adianta me olhar desse jeito. Eu não vou a lugar algum — Susan disse, muito calma — Temos muito que conversar e... — Talvez você não tenha notado, mas não estou para conversas, hoje — cortou Elizabeth, indo até o fogão para servir-se de mais chá. Tivera tempo para pensar sobre seu encontro com o administrador, no dia anterior, e considerava tudo um grande fiasco, um desastre total. Supostamente, deveria ter praticado suas habilidades sociais com ele e tudo que fizera fora falar de nabos. Justo ela, que odiava nabos! Era certo que se assustara ao perceber que o sr. Siddons estava tentando fazer um tipo de jogo com ela, mas sua reação ao falar destrambelhadamente sobre nabos fora sem dúvida de uma estupidez atroz. Ele provavelmente teria comentado o fato em Danbury House e a novidade já estaria correndo dos estábulos até a cozinha. Aquela altura, todos estariam rindo dela. Dando voz a suas aflições, disse, em voz alta: — Acho que vou ficar doente. — Oh, não vai, não! — exclamou Susan. — Você tem que se apresentar em Danbury House nesta manhã, mais linda e confiante do que nunca. — Não posso prosseguir com isso. Não com aquele homem... Não com o Sr. Siddons — ela afirmou, exasperada. — O que há de errado com ele? — Nada. — Então, não entendo do que você está falando. — Ele é perigoso. Sabe jogar com as mulheres. — Um administrador de imóveis? — perguntou Susan, com ar de dúvida. — Os poucos que conheci eram baixinhos, gordos e um tanto ridículos. — Mas esse é belo como o pecado — Elizabeth confessou, baixinho. Os olhos de Susan se arregalaram: — Como ele é? A imagem do homem veio à mente de Elizabeth, com uma clareza assustadora. A estatura elevada, os olhos castanhos escuros, brilhantes e expressivos. Os lábios que se curvavam naturalmente, como se estivessem sempre prontos a sorrir. Os dentes alvos e regulares. O nariz afilado e a voz rica de timbres vibrantes. Tudo, naquele homem, fazia com que ela se sentisse quente, muito quente. — Elizabeth... Elizabeth...? — Sim? — Com quem ele se parece, afinal? — perguntou Susan, impaciente. — Com ninguém que você conheça — ela respondeu, com voz lenta, quase arrastada. — Isso torna tudo mais interessante — garantiu Susan. — Para quem? — Elizabeth quase gritou. — Ora, não se zangue comigo — Susan ordenou, ressentida. — Só estou tentando ajudar. 28


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— Perdoe-me, querida... Estou descarregando meus nervos em você. — Eu não me importo — Susan retornou, num tom amável. — Você está muita tensa, sob pressão, tentando manter nossa família unida. Agora, escute isso — E pegou o livro vermelho. — Oh, não! — protestou Elizabeth. — Não me venha com as lições da sra. Seeton Não agora, por favor! Sem dar importância às queixas da irmã, Susan começou a ler, em voz alta e clara: — Artigo 17... — Já estamos no dezessete!? — Fique quieta e ouça: Sua vida será um constante ensaio, até que encontre o homem com quem irá se casar. Assim, você deve praticar esses artigos e regras a todo momento, com cada homem que encontrar. Não importa o quanto ele seja inadequado a seus objetivos você deverá tratá-lo sempre como se ele fosse um marquês. Agindo dessa maneira, você criará um hábito que lhe servirá no momento certo, ou seja: quando encontrar o homem que procura. — A autora só não diz onde vou encontrar o tal marquês — disse Elizabeth, com amarga ironia. Olhando pela janela, viu Lucas e Jane brincando no jardim. — De que adiantará todo esse esforço, se o homem certo não aparecer? — Lady Danbury sempre recebe convidados importantes, não é verdade? — Não é assim tão freqüente. E, além do mais, ela sempre me dá folga, nos dias em que recebe visitas. Afinal, não sou uma criada e sim dama de companhia. — Então, você tem que encontrar uma maneira de se tornar necessária nessas ocasiões. — Eu não havia pensado nisso. — E que antes não havia um plano — Susan argumentou, novamente animada. — Mas, diga-me... Lady Danbury não a convidou para o baile, no final do mês? — Sim, mas... Além de não ter roupas adequadas, eu soube, recentemente que será um baile à fantasia. — Excelente! — Susan exclamou, batendo palmas. — Conseguir um belo vestido é bem mais complicado do que improvisar uma fantasia, você não acha? Susan falava com tanto entusiasmo que, por um momento ímpar, Elizabeth sentiu que estava olhando para si mesma, quando tinha catorze anos e pensava que tudo seria possível. Mas isso havia sido antes que seu pai falecesse e a deixasse com uma montanha de responsabilidades. — O que foi? — perguntou Susan, estranhando o silêncio repentino da irmã. — Oh, nada — ela respondeu, melancólica. — E que às vezes você me faz lembrar de mim mesma, quando tinha a sua idade. — E isso a entristece? — Ao contrário... São lembranças doces e maravilhosas. — Então por que você parece triste? — Talvez por saber que para mim esses momentos não voltarão, jamais — ela quase sussurrou. 29


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Susan piscou repetidas vezes, para evitar que as lágrimas aflorassem a seus olhos. Então, sacudindo a cabeça, retomou seu ar alegre e decidido. — Eu tinha algo a perguntar, mas me esqueci... Ah, sim... Quando lady Danbury receberá as próximas visitas? — Ela espera alguns convidados, para o final desta semana. Será uma recepção informal, no jardim. Eu mesma escrevi os convites. — Você sabe quantas pessoas virão? — Não mais que dez ou doze, acho. A proximidade de Surrey com Londres possibilitará que cheguem pela manhã e partam ao anoitecer. — Você tem que estar presente a essa festa — Susan afirmou, categórica. — Mas não fui convidada! — Não foi porque lady Danbury acredita que você não aceitaria o convite. Aposto que se você quisesse... — Susan, eu não pretendo pedir a ela que me convide. Afinal, tenho meu orgulho. — Certo. Mas você pode aparecer por lá, inventando um motivo convincente. Tenho certeza disso! — E você acha que lady Danbury não estranharia esse tipo de comportamento? Afinal, ela me conhece há cinco anos! — Talvez sim, talvez não. Mas você nunca saberá, se não tentar. E você certamente não vai encontrar um marido, se ficar escondida aqui o tempo inteiro. Com um suspiro resignado, Elizabeth concordou, ainda relutante: — Está bem. Vou pensar em alguma coisa. Mas só depois de verificar a lista de convidados. Não vou me expor desse modo, só para descobrir depois que todos os convidados são casados. Susan bateu palmas, excitada. —Ótimo! Mas, enquanto isso, você deve continuar praticando com o administrador. — Não! — Foi a vez de Elizabeth ser categórica. — Mas... — Já disse que não! Eu não vou procurar o sr. Siddons. Susan ergueu as sobrancelhas, com ar inocente. — Tudo bem. Não há nenhuma necessidade de você procurá-lo. Aliás, o livro desaconselha esse tipo de atitude. Mas deixe-se notar pelo homem, está bem? E se ele vier conversar com você, não o evite. — É muito pouco provável que ele faça isso — Elizabeth murmurou, lembrando-se do desastrado encontro da véspera. — Mas, se ele o fizer... — Susan... Basta! — ela impôs, com autoridade. — Agora, preciso ir. Caso contrário, chegarei atrasada ao trabalho. Susan calou-se, para não irritar Elizabeth. Havia conseguido avanços importantes naquela conversa e não queria abusar da boa índole da irmã. A caminho de Danbury House, Elizabeth pensou, em voz alta. 30


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— Um belo dia para a rotina abençoadamente maçante de sempre. Estou certa de que o sr. Siddons se manterá o mais distante possível de mim e isso será um alívio. Mas Elizabeth estava enganada. Totalmente enganada, aliás. Pois o administrador a aguardava, na porta da frente de Danbury House. — Srta. Hotchkiss — ele cumprimentou-a, amavelmente. — É um prazer revê-la. A vontade de fugir era grande, porém o orgulho fez com Elizabeth respondesse, num tom entre irônico e ácido: — É mesmo, sr. Siddons? — A senhorita parece não acreditar em mim. Elizabeth considerou-o por alguns instantes, com o cenho franzido, perguntando-se como pudera pensar em usá-lo para praticar os artigos e regras do livro vermelho. Aquele homem era claramente versado na arte da conquista e do flerte, sabendo ser encantador sob quaisquer circunstâncias. Com suas tentativas patéticas, ela simplesmente não era páreo para ele. E depois do vexame do dia anterior, o que o sr. Siddons desejava dela, afinal? Cansado de esperar que Elizabeth dissesse algo, ele falou: — Em Danbury House, ocupamos uma curiosa posição intermediária: não somos criados, nem pertencemos à família. Assim, pensei que seria natural que desenvolvêssemos uma espécie de amizade, para tornar mais leve nosso cotidiano, durante o tempo em que conviveremos nesta casa. Elizabeth considerou o primor daquele raciocínio e, mais ainda, o modo encantador como fora dito. Aquele homem sabia ser gentil e amável, sem dúvida nenhuma. Contudo, havia algo escondido nas profundezas daqueles olhos castanhos. Algo que mais parecia uma muda interrogação. — Por que o senhor está sendo tão agradável comigo? — ela não pode deixar de indagar. — Francamente, não entendo sua pergunta. Por que eu agiria de outro modo? Ela apontou o dedo para ele, num claro gesto de desconfiança: — Sei que o senhor tem algo em mente. Portanto, não gaste seu charme comigo. Pois isso não vai funcionar. — Não sei o que dizer a respeito. Mas agradeço por achar-me charmoso. — Não tive intenção de elogiá-lo — ela apressou-se a explicar. — Mas, conte-me, sr. Siddons. O que quer de mim? — Sua amizade. — E para isso é necessário esse esbanjamento de encanto e charme? — Não tenho certeza. Mas, diga-me... está funcionando? — ele indagou, num tom levemente provocativo. — Não! Ele suspirou, com tristeza. — Quem diria... Normalmente, funciona. — Então o senhor admite? Erguendo as mãos, num cômico gesto de derrota, ele respondeu: 31


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— Posso admitir o que for, desde que a senhorita me acompanhe num breve passeio pelos belos jardins desta propriedade. — Não posso. Lady Danbury está me esperando Consultando seu relógio de bolso, ele discordou, com um gesto de cabeça: — Não nos próximos vinte minutos. — Como pode afirmar tal coisa? — Porque deixei lady Danbury conversando com a criadagem. Ela mesma me encarregou de avisá-la que não quer ser interrompida. — O senhor é cheio de surpresas — Elizabeth resmungou, de mau humor. — Então, vamos? Elizabeth ainda relutou, mas ele insistiu: — A senhorita não vai negar sua companhia a um novato que não conhece os jardins de Danbury House, não é mesmo? — Está bem. Mas só por dez minutos — ela avisou. — A senhorita é muito gentil — ele disse, baixinho, tomando-lhe o braço. Ante o contato da mão daquele homem em sua pele, Elizabeth engoliu em seco. Era a segunda vez que se sentia assim, embaraçada e frágil, na presença dele. E o mais irritante era a naturalidade com que ele agia. E foi assim, com essa naturalidade, que ele sugeriu: — A senhorita poderia me mostrar o jardim das rosas? Ela assentiu com a cabeça, incapaz de dizer uma só palavra. O calor daquele braço, que se irradiava através do tecido fino do paletó, aquecia o sangue de Elizabeth, fazendo com que seu coração pulsasse mais forte. — Srta. Hotchkiss? — Sim? — ela respondeu, numa voz que lhe soou estranha, carregada de desespero. — Espero que não esteja se sentindo desconfortável. — De modo algum — ela mentiu. — Ótimo! — Ele sorriu, pousou os olhos castanhos no rosto corado de Elizabeth, cujo coração parecia saltar dentro do peio. Ambos caminharam em silêncio, passando pelo arco de pedra que dava acesso ao famoso jardim de rosas escocesas de Danbury House, onde uma profusão de flores amarelas e vermelhas encantava os olhos e o olfato. James curvou-se para aspirar de perto o perfume de uma roseira exuberante, enquanto sua mente treinada avaliava a jovem a seu lado. Tinha pensado nela durante boa parte da noite, e também naquela manhã. Aquela bela mulher era por demais inteligente e, sem sombra de dúvida, estava tramando algo. Seu instinto lhe dizia que a srta. Hotchkiss portava-se de maneira incomum quando estava em sua presença, como se temesse ser desmascarada. Mas daí a considerá-la capaz de chantagear sua tia e benfeitora... era um passo largo e temerário. Pensando bem, ele concluiu, após alguns instantes, a srta. Hotchkiss devia ter pouco mais de vinte anos. E ainda não havia nascido, na época do caso extraconjugal de 32


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lady Danbury. Sim, pois Melissa, a filha bastarda da velha condessa, tinha agora trinta e dois anos de idade. Portanto, como Elizabeth Hotchkiss poderia saber desse fato? Por outro lado, aquela jovem tinha vivido toda a sua vida naquela região, onde segredos pessoais e alheios eram transmitidos de pais para filhos, nas longas noites de inverno em frente à lareira. Além do mais, ela desfrutava da intimidade de lady Danbury, o que lhe permitia o acesso e o livre trânsito por todas as dependências de Danbury House, sem levantar suspeitas. James suspirou. Não importava o quanto fosse encantadora. Aquela garota era, sim, uma suspeita em potencial. E isso ele não poderia negar, ao menos por enquanto, enquanto não esclarecesse tudo. De qualquer maneira, precisava ganhar a confiança de Elizabeth Hotchkiss, ter acesso a ela e estar a seu lado, sempre que possível. Em grande parte, devido ao trabalho do qual fora encarregado, pela tia. Mas também... E isso ele tinha de confessar a si mesmo... Também para desfrutar de sua presença adorável, de seu riso raro e deslumbrante a entreabrir seus lábios rosados e frescos. — A senhorita me disse que passou toda a sua vida em Surrey — ele comentou. Ela balançou a cabeça, lentamente, com uma interrogação muda e cautelosa pairando em seus belos olhos. —- Eu, por outro lado, pouco ou nada conheço dessa região e de seus habitantes — ele prosseguiu, com um sorrio encantador. — Talvez a senhorita pudesse me mostrar a aldeia e me falar sobre seus habitantes. — E por que eu faria isso? — ela indagou, francamente surpresa. — Porque sou o administrador da maior propriedade da região e porque preciso saber onde piso e com que trato, para o bom desenvolvimento do meu trabalho. Isso faz sentido? — O senhor tem razão. Sobretudo por sua inexperiência no assunto. Ele deteve-se, bruscamente. — De onde a senhorita tirou essa idéia? — Do que o senhor acabou de dizer — ela respondeu, com tranqüilidade. — Eu disse isso? — Sim. O senhor afirmou que passa a maior parte do tempo em Londres. E não vejo como possa administrar propriedades rurais, naquela cidade. Eis uma conclusão definitivamente brilhante, ele pensou. Esta jovem não é apenas inteligente, mas também perspicaz. — Considero Londres como minha moradia habitual, mas me desloco freqüentemente para as propriedades que administro. — ele disse, por fim. — Tal como estou fazendo, aqui, em Surrey. — E onde mais o senhor trabalhou? — Buckinghamshire, por exemplo. — Ah, sim. Ouvi dizer que é um bonito lugar — ela comentou, com naturalidade. — Sem dúvida. — E por que o senhor deixou de administrar a propriedade em Buckinghamshire? 33


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— Pelas razões de costume — ele disse, vago. — Não faço idéia. Quais são essas razões? — Por que está tão curiosa? — ele reagiu, tentando deter o fluxo daquelas perguntas incomodas. Ela encolheu os ombros. — Sou sempre muito curiosa. Esta é uma das minhas principais características. Pergunte a qualquer um se não é verdade. Para mudar de assunto, ele colheu uma rosa. — Magnífica, não? — Sr. Siddons — ela suspirou, profundamente. — Creio que o senhor ignora algo importante a meu respeito. James sentiu, pela primeira vez, que uma porta estava prestes a se abrir. Uma porta que talvez lhe desse acesso ao misterioso mundo interior daquela jovem bela e esperta. Mas essa esperança pouco durou. — Tenho três irmãos mais novos — ela declarou, num tom meigo. Ele pestanejou. De que diabos ela estaria falando? O que aquilo tinha a ver com o assunto? — Portanto — ela continuou, sorrindo-lhe de forma leve e divertida — tornei-me, com o tempo, bastante eficaz para reconhecer quando uma pessoa está fugindo de uma questão. Na verdade, meus irmãos consideram essa minha habilidade quase mágica. — Tenho certeza que sim — ele murmurou, irritado. — Contudo, o senhor não é um dos meus irmãos. E, certamente, não tem obrigação de partilhar informações do seu passado comigo. Afinal, todos nós temos o direito de manter segredo sobre nossos sentimentos, da forma que bem entendermos. — Hum... sim — ele concordou, embaraçado, considerando pela primeira vez que Elizabeth talvez não fosse exatamente o que aparentava: uma simples e bela jovem do interior. Ela voltou a sorrir, enquanto indagava: — O senhor tem irmãos? — Eu? Não. Por quê? — Apenas curiosidade. A vida familiar de uma pessoa revela bastante sobre seu caráter. Ao menos, é assim que eu penso — ela respondeu, encantadora. — E o que sua família revela sobre a sua pessoa, srta. Hotchkiss? — Que sou fiel, eu suponho. E que eu seria capaz de fazer qualquer coisa por meu irmão e minhas irmãs. Incluindo chantagem? Ele se perguntou, inclinando-se na direção de Elizabeth, apenas levemente, mas ainda assim o suficiente para fazer com que os lábios dela tremessem, de modo quase imperceptível. Com um sentimento de satisfação quase primitivo, ele comprovou seu poder. Pois aquela jovem, mesmo com toda sua beleza e inteligência, se fragilizava visivelmente, diante do macho predador. 34


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Os olhos dela eram enormes, e de um tom azul tão belo como ele jamais vira. Surpreso, constatou que seu coração começava a bater mais rápido. — Sr. Siddons... — ela murmurou, ofegante, tentando se desvencilhar de seu braço. Era uma idéia estúpida e inapropriada, James pensou. Mas o fato era que estava prestes a beijá-la. Sim, era isso mesmo que faria. E não havia nada que pudesse fazer para impedir aquele desatino. Na verdade, nem mesmo queria se controlar. E já gozava antecipadamente do frescor daqueles lábios róseos, quando ela conseguiu retirar o braço, tão desajeitadamente, que fez saltar o relógio de bolso dele, que caiu ao chão. Ambos curvaram-se, ao mesmo tempo, para apanhá-lo. Mas Elizabeth foi mais rápida. E já se endireitava, com o relógio nas mãos, quando o alto de cabeça atingiu o queixo dele, num som seco e duro. Estonteada pelo golpe, ela recuou a tempo de horrorizada, vê-lo recuar um passo, tropeçar numa pedra e, agitando os braços no ar, cair sentado sobre uma das mais belas roseiras escocesas do fantástico jardim de Danbury House. — Oh, sinto muito! — Mais sinto eu — James gemeu, tentando manter-se imóvel para não agravar a situação. — Dê-me sua mão — ela ordenou. — Para quê? — Para que eu possa ajudá-lo a levantar-se oras! — Seria risível, se não fosse tão doloroso — ele comentou, como se para si, de péssimo humor. — Agora ela pensa que tem força suficiente para me erguer. — Ora, não seja teimoso. Curvando-se, Elizabeth agarrou-o pelo pulso e, firmando ambos os pés no chão, jogou o corpo para trás. James fitou-a por um instante, mais chocado do que surpreso ao constatar a força oculta naquele corpo tão pequeno. — Agora me dê a outra mão, seu cabeça-dura — ela comandou, como rosto corado pelo esforço. Atônito, James obedeceu. E logo firmou os pés no chão, possibilitando assim que ela se saísse bem em sua tentativa de erguê-lo. — Não vá me soltar, agora — ele pediu. — Posso ser desajeitada — disse Elizabeth — mas não sou uma idiota. Já totalmente em pé, James deu dois passos, tentando se recompor. — O senhor está ferido? — ela perguntou, batendo nas mangas de seu paletó, para retirar pequeninos pedaços de galhos, folhas e espinhos. — Oh, suas mãos estão arranhadas! — O dia está um tanto quente para se usar luvas, a senhorita não acha? — ele retrucou, irônico. Mas Elizabeth, ignorando o comentário, continuava rodeando-o, retirando pétalas, folhas e espinhos de suas vestes. E James concluiu que ela devia mesmo ser muito inocente e inexperiente, para não perceber que estava tocando seu corpo por toda parte, 35


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sem medir conseqüências. Enquanto isso, os espinhos, entranhados no tecido, custavam a se desprender. As mãos diligentes de Elizabeth continuavam seu trabalho minucioso, sem que ela percebesse que estava causando, no homem que ela julgava ser um simples administrador, algo mais do que o benefício de uma limpeza rápida. Muito bem, James disse a si mesmo. Era melhor controlar sua imaginação, bem como sua libido. A jovem Hotchkiss, em sua inocência, estava longe de perceber o quanto parecia encantadora e desejável naquele momento, com seus cabelos macios roçando o tecido do paletó, os seios firmes delineando-se sob o vestido, seu cheiro fresco de mulher em puro desabrochar. Num dado momento, ela retirou a mão e fitou-o, com uma expressão interrogativa nos olhos azuis, tão límpidos e expressivos. — Está tudo bem, sr. Siddons? — Sim, claro. — A voz de James soou tensa e um tanto estranha, a seus próprios ouvidos. — Por que não estaria? — O senhor parece rígido como uma estaca. Constrangido, ele forçou um sorriso. Se ela soubesse o motivo de sua tensão. Retirando outro espinho, agora da gola do seu paletó, ela comentou: — E, para ser franca, sua voz também está... diferente. James tossiu, tentando recompor-se. Em vão. A mão macia de Elizabeth agora tocava-lhe o rosto, enquanto ela tirava um fragmento de graveto de seu ombro. Por fim, para o dúbio alívio de James, ela afastou-se para contemplar o resultado de seu trabalho: — Oh, ainda vejo três espinhos. — Então, pela primeira vez, Elizabeth se deteve. James acompanhou o olhar dela, até sua virilha. E apressou-se a dizer: — Pode deixar, que eu mesmo cuidarei de removê-los. Ela corou. — Sim, é melhor que o senhor o faça. — Está bem assim? — Não. — ela respondeu, embaraçada. — Ainda ficou um. — Onde? — James perguntou, apenas para fazê-la corar um pouco mais. — Mais à esquerda — ela explicou, vermelha como uma rosa. James sorriu. Tinha se esquecido de como era divertido provocar o rubor em uma mulher. Isso era tão raro de acontecer, no ambiente sofisticado onde vivia! — Estou limpo, agora? Erguendo os olhos, ela assentiu com um gesto de cabeça. — Sim. — Com um suspiro, acrescentou: — Eu realmente sinto muito por esse incidente. — Ora, esqueça — ele disse, num tom gentil. — Como a senhorita acaba de falar, foi apenas isso: um incidente de percurso. 36


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— Mas seu rosto está arranhado, e temos de cuidar disso. — E notando que ele a fitava com insistência, indagou: — O que foi? — A senhorita cheira a rosas — ele respondeu, tolamente. Elizabeth aspirou o ar em torno e então sorriu. — Eu diria que esse perfume está vindo do senhor. Afinal, não fui eu quem mergulhou numa roseira. James desatou a rir. O que fez seu queixo latejar, dolorosamente. — Isso dói — ele disse, baixinho. — Vamos para dentro. Vou cuidar dos seus arranhões. — Tem certeza? — ele perguntou, temeroso. — Não se preocupe, estou acostumada a fazer curativos, sem causar danos mortais. Tenho três irmãos. Limpo cortes e esfoladuras o tempo todo. — Então seus irmãos são mais jovens do que a senhorita? Ela assentiu, antes de explicar: — Dois deles, Lucas e Jane, ainda são pequenos e cheios de fantasias. Ainda ontem, me informaram que pretendem construir uma fortaleza subterrânea. Nem imagino de onde tiram essas idéias malucas. Elizabeth percebeu, então, que estava falando demais, contrariando frontalmente um dos primeiros artigos do livro vermelho. Por isso, se deteve repentinamente. — Oh, desculpe! Aqui estou eu, tagarelando sobre a minha família. — Pois estou adorando ouvi-la — ele afirmou, sincero. Os olhos de Elizabeth suavizaram-se, com uma expressão sonhadora, e ela prosseguiu: — Eles são o meu tesouro... Eu os amo tanto! Claro que são barulhentos, brigam e discutem, como todas as crianças, mas... Oh, lá vou eu, de novo, falando pelos cotovelos! — Eu não acho. Mas, se isso lhe serve de consolo, saiba que a senhorita acaba de me tranqüilizar. — Como? — Ora, quem cuida de crianças pode muito bem fazer alguns pequenos curativos, sem pôr em risco a vida de um pobre infeliz. — Então, vamos? — A senhorita indica o caminho. Rindo e conversando, ambos deixaram o Jardim das Rosas para trás. E James se esqueceu totalmente de que aquela jovem era uma suspeita em potencial, no caso da chantagem que viera investigar. Elizabeth mergulhou o lenço no bálsamo, que tinha um cheiro forte e acentuado, mas não desagradável. — Isso pode arder um pouco — ela avisou. James sorriu, divertido: — Creio que posso suportar. Ui! Mas o que é isso? 37


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— Bem que eu lhe disse. — Sim, mas a senhorita não disse que isso tinha... dentes. Elizabeth levou o frasco até o nariz. — Deve haver álcool, na composição. O cheiro desse bálsamo lembra um pouco o de conhaque. — Quem preparou essa tintura? — Lady Danbury. — Era o que eu temia — ele gemeu. Elizabeth fitou-o com curiosidade. — Como pode temer os remédios preparados por lady Danbury, se mal a conhece? — Nossas famílias se conhecem há anos. Ela é uma lenda entre as pessoas da geração de meus pais — ele respondeu, aliviado por não ter que mentir. — Oh, eu acredito nisso! — Elizabeth riu. — Lady Danbury é uma espécie de lenda entre as pessoas da minha geração, também. E a história não termina aqui. As crianças da aldeia a temem e fogem quando ela se aproxima. — Também acredito nisso. — Eu não sabia que o senhor já conhecia lady Danbury, desde antes de vir para cá — Elizabeth comentou, voltando a molhar o lenço na tintura. — Pois assim é — disse James, estremecendo involuntariamente, devido ao ardor que a sávia provocava, nos arranhões de seu rosto. — Ela provavelmente achou que seria mais confiável contratar um conhecido, do que procurar um administrador numa agência de empregos. — Isso é estranho — Elizabeth comentou com inocência. — Ainda outro dia, ao conferir os livros de contabilidade, lady Danbury me disse que estava se precavendo contra a possibilidade de ser enganada pelo novo administrador. James disfarçou o riso, com uma tosse repentina. — Ela disse isso? — Sim. — E Elizabeth acrescentou, em tom de confidencia. — Mas o senhor não deve levar esse assunto para o campo pessoal. Eu diria que lady Danbury não confia em ninguém. Nem mesmo em seu próprio filho. — Especialmente em seu próprio filho — James corrigiu. Elizabeth começou a rir. — Então o senhor o conhece, também? Lady Danbury está sempre se queixando dele. — Houve uma vez que ele ficou com a cabeça presa entre as grades do Castelo de Windsor — James comentou, dessa vez sem conter o riso. — Sim, eu sei — Elizabeth continuava a rir. — Lady Danbury às vezes se refere a esse fato. O momento era de total descontração e o riso unia ambos, numa intimidade deliciosa. — A senhorita o conhece? — James perguntou. — Cedric? — Elizabeth recuou ligeiramente, para quê pudessem conversar a uma distância mais confortável. — Bem... Talvez eu devesse chamá-lo de lorde Danbury, não é mesmo? 38


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— Talvez. Por mim, a senhorita pode chamá-lo como quiser. Apontando-lhe um dedo, num cômico gesto de acusação, ela disse: — O senhor parece decidido a me induzir a dizer coisas das quais posso me arrepender, depois. — De modo algum! — ele mentiu, descaradamente. — Longe de mim tal idéia! — Bem... Cedric é um pouco mais velho do que eu... E, por isso, não brincávamos juntos, quando crianças. Mas ocasionalmente ele vem visitar a mãe e, assim, nossos caminhos se cruzam vez por outra. De súbito ocorreu a James que se Cedric resolvesse aparecer em Danbury House, seu disfarce estaria completamente arruinado. Mesmo avisado pela mãe, Cedric era absolutamente incapaz de manter a boca fechada. Ele não tinha noção de conveniência e muito menos de bom-senso. Tomado por uma sensação de desgosto, James meneou a cabeça. — O que foi, sr. Siddons? — Elizabeth perguntou. — Nada — ele apressou-se a responder. — Por quê? — Sua expressão mudou. — É mesmo? — Sim. Não fui suficientemente delicada, ao cuidar de seus ferimentos? Tomando as mãos dela entre as suas, ele disse pausadamente: — Anjos não teriam mãos mais suaves. Os olhos de Elizabeth se arregalaram, e por um instante, James temeu que ela, fugisse, assustada. Mas isso não aconteceu. Assim, ele deixou que seu polegar deslizasse pela pele suave do pulso de Elizabeth, numa carícia singular. — Bem, é melhor eu terminar com isso — ela murmurou, retirando as mãos rapidamente. Umedeceu o lenço na tintura, uma vez mais, e erguendo o queixo de James com uma das mãos, concentrou-se em cuidar de um profundo arranhão. — Está bastante sujo. Eu preciso... — Ela mordeu o lábio inferior, concentrada no trabalho. — Ah, sim... Agora está bem. Mas nada estava bem no interior de Elizabeth, cujo coração havia disparado, sem o menor aviso. Nunca, em toda a sua vida, estivera tão perto de um homem, antes. E aquele, em particular, causava reações estranhas em seu corpo, como, por exemplo, o desejo absurdo de deixar seus dedos à solta, à deriva. Para que pudessem percorrer todos os traços daquele rosto belo, másculo... E depois, com a ponta, desenhar o arco suave e elegante daquelas sobrancelhas escuras. Mas que loucura! Ela pensou, atônita. O que significava tudo aquilo, afinal? Obrigando-se a respirar cadenciadamente, fitou-o no rosto. James a fixava com um olhar brilhante e uma expressão estranha, meio divertida e meio indefinível, mas... quente. Muito quente. Com um suspiro, ela recolheu a mão. — Terminou? — ele perguntou. Ela assentiu, com um gesto de cabeça, enquanto dizia: — Espero que o senhor esteja melhor. 39


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— De modo geral, sim. Mas sinto o corpo picado, por toda parte. — Essa é a grande diferença entre cuidar de um adulto e de uma criança. — Não entendi — ele confessou. — Meu irmãozinho berra... E o senhor reclama. James sorriu, antes de indagar: — Seus irmãos se parecem com você? — Todos — ela respondeu. — Meus pais tinham as mesmas características físicas, sabe? Eram incrivelmente parecidos, a ponto de serem confundidos com irmãos. James notou que Elizabeth se referia aos pais, como se eles pertencessem ao passado e quis esclarecer o assunto. — Seus pais já se foram? — perguntou, suavemente. Ela concordou com um aceno, sem perceber que seu rosto se contraía de dor: — Já faz cinco anos que eles já não existem mais. E, de alguma forma, já nos habituamos a essa triste realidade. Mas, ainda assim, é difícil tocar nesse assunto. — Eu sinto muito. — Isso é passado e temos que seguir adiante — ela afirmou, corajosamente. Foi então que o gordo gato de lady Danbury fez sua entrada triunfal no recinto, parando a poucos passos de Elizabeth, que o ignorou. James, ao contrário, curvou-se para acariciá-lo. — Não faça isso — ela avisou. — Esse gato é, definitivamente, anti-social. — Quem... O Malcolm? — James inclinou-se e, tomando o animal nas mãos, ergueu-o do chão. Com um miado alto, seguido de um ronronar bem audível, Malcolm enterrou o rosto no pescoço de James, esfregando-se preguiçosamente, numa clara demonstração de carinho. Elizabeth deixou cair o queixo, tamanho era seu espanto. — Esse traidor! — ela exclamou. — Por três anos, tentei fazer amizade com ele sem nenhum sucesso. — Pensei que a senhorita trabalhasse há cinco anos nessa casa. — De fato. Mas, no terceiro ano, desisti. Passei a considerar Malcolm irascível com relação a todos os seres humanos, exceto lady Danbury. Mas vejo que estava enganada. James riu e foi sentar-se numa cadeira, com o felino no colo. — O mais curioso é que não tenho muita afinidade com felinos. Este é uma exceção. — Vá se entender os gatos e os seres humanos — Elizabeth murmurou. James recostou-se na cadeira, sentindo-se muito satisfeito com sua vida atual. Estava longe de Londres, longe das debutantes casadouras e de suas mamães mexeriqueiras. Encontrava-se na companhia de uma jovem mulher, singular e muito bela, capaz de fazê-lo vibrar com o simples toque de seus dedos macios. Considerando o longo tempo que passara, sem que qualquer moça londrina conseguisse despertar o menor interesse de sua parte, o que sentia na companhia de Elizabeth Hotchkiss era simplesmente notável. 40


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Aos poucos, o quadro no qual se delineava o perfil da srta. Hotchkiss ia adquirindo forma e consistência. Parecia quase natural que ela fosse órfã e cuidasse de três irmãos mais jovens. Isso explicava o emprego como dama de companhia de lady Danbury, bem como suas vestes modestas, contrastando com uma educação que só se adquiria quando se nascia numa família tradicional e de bom nome. Era certo que esse estado de pobreza, aliado a uma formação refinada, podia produzir também uma bela chantagista, James pensou. Mas, no momento, não queria considerar esse ponto. Além disso, seu coração generoso tendia a desculpar qualquer atitude daquela jovem, diante de suas aflitivas dificuldades. James sorriu, enquanto tomava uma decisão: teria Elizabeth Hotchkiss nos braços, até o final daquela semana. E sentiu-se gloriosamente bem, com essa perspectiva. — Quer que eu tente interceder junto à alma felina de Malcolm, para que ele a aceite como amiga? — perguntou, divertido. — Não perca seu tempo. Não estou mais interessada — ela garantiu. Só então deu-se conta de que o tempo passara, fazendo-a perder a hora. Afinal, ela não estava em Danbury House para fazer companhia ao administrador e sim a lady Danbury. — Oh, meu Deus! — exclamou, aflita. — Que horas são? James tirou o relógio de bolso. Mas antes que pudesse anunciar a hora, Elizabeth aproximou-se rapidamente e verificou o mostrador. — Estou atrasada mais de quinze minutos, além dos vinte que lady Danbury me deu, de folga! Tenho que ler para ela, antes do almoço. — E correu para fora da sala, deixando-o a sós com o gato Malcolm já quase adormecido, no colo. James praguejou, baixinho. Os livros que sua tia apreciava deviam parecer terrivelmente tediosos àquela jovem vibrante, que demonstrara invulgar curiosidade pelos Ensaios de Bacon que encontrara sobre a mesa, em seus aposentos, sem saber que estava sendo observada por ele. Teria ela também um gosto refinado sobre literatura? De súbito, ele recordou-se do incidente que marcara sua chegada a Danbury House. No momento em que colidira com Elizabeth, um belo livro de capa vermelha caíra de sua bolsa. O que ela estaria lendo? Quais seriam suas preferências e interesses? James riu de si mesmo. De um momento para outro, passara a interessar-se por tudo o que se referia ao mundo de Elizabeth. Notou, também, que estava pensando nela não como a srta. Hotchkiss e sim como... — Elizabeth... — ele pronunciou, baixinho. E esse nome, dito assim, evocando a imagem luminosa e alegre daquela jovem, era quase irresistível.

CAPÍTULO III

As escondidas, James observou Elizabeth durante o dia todo. Tinha prática no assunto. Sabia muito bem aproveitar os cantos escuros e os quartos vazios, para fazer-se invisível. 41


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Elizabeth, que não tinha razão alguma para suspeitar que estava sendo vigiada, revelava aos olhos atentos de seu observador um comportamento exemplar. Tratava lady Danbury com todo respeito e carinho. E diante das manifestações de impaciência ou raiva, a que a velha senhora vez por outra se entregava, reagia com um misto de complacência e divertimento, que encantou James por demais. Por volta de quatro da tarde, Elizabeth deixou Danbury House. James acompanhou sua partida, de uma janela. Ela caminhava com leveza e graça, a cabeça balançando suavemente, como se acompanhasse o ritmo de uma canção. Sem pensar, ele começou a assobiar uma melodia muito em voga, em Londres, cuja letra, aliás bem picante, falava de paixões e conquistas. — Que música é essa? Creio que nunca a ouvi. Olhando para trás, James deparou com sua velha tia, parada à soleira da porta, apoiada na bengala. — Ah, nada muito edificante, eu temo — ele respondeu, com um sorriso jovial. — Estou me referindo à letra dessa canção. — Bobagem! Muito pouca coisa pode me escandalizar nessa idade. James riu: — Tia Agatha, aos doze anos, eu me escondia da senhora para cantarolar as músicas dos marinheiros ingleses e certamente não vou quebrar esse hábito, agora. — Hum... — Batendo a bengala no chão, ela se virou. — Venha me fazer companhia, enquanto tomo chá. James a seguiu até a sala e, sentando-se diante dela, disse: — Fico feliz que tenha me convidado. Na verdade, tenho algumas perguntas a fazer sobre sua dama de companhia. — A srta. Hotchkiss? — Sim — ele confirmou, tentando parecer pouco interessado. Lady Danbury sorriu, enquanto seus olhos azuis faiscavam, com uma expressão de astúcia. — O que você achou dela? — É uma pessoa singular... Interessante, eu diria. — Ora, não seja falso. A menina é bela como um botão de rosa. — Bem, a srta. Hotchkiss é muito atraente, com toda certeza — ele concedeu. — Mas... — Mas não é o seu tipo de mulher, eu sei — lady Danbury completou, fitando-o nos olhos. — Bem, como você gosta do seu chá? James franziu o cenho. Era evidente que a tia o estava provocando, com aquela pergunta. Afinal, lady Danbury nunca se esqueceria do modo como ele preferia o chá. — Com leite e sem muito açúcar — ele respondeu e, retomando o assunto, indagou: — Por que acha que a srta. Hotchkiss não é meu tipo de mulher? A velha senhora terminou de servi-lo e comentou: — Bem, Elizabeth tem uma beleza e uma elegância discreta... Enfim, é muito diferente da mulher com quem você estava, na última vez que o vi, em Londres. — A quem a senhora se refere? — James perguntou, incomodado. 42


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— Aquela mulher de cabelos ruivos e seios avantajados, você sabe... — Ora, tia Agatha! — ele protestou — Aquela era uma cantora de ópera. — E você teve a ousadia de apresentá-la a mim. — Bem que tentei evitar o nosso encontro, mas a senhora atravessou a rua e caminhou em minha direção, com a discrição de uma bala de canhão! — Agora você começa a me insultar... — disse lady Danbury, fingindo-se ofendida. E levando a mão ao peito, com exagerada dramaticidade, acrescentou: — Perdoe-me por ter me preocupado tanto com você. Na verdade, eu... Só queria saber quem era sua acompanhante, naquela noite. James suspirou, endireitando os ombros. Ninguém, no mundo, conseguia fazê-lo sentir-se culpado como um garoto pego em flagrante, em meio a uma travessura. Ninguém, exceto tia Agatha. — Creio que estávamos falando da srta. Hotchkiss — disse, com firmeza. — Ah, sim! — Lady Danbury tomou um gole de chá e sorriu. — Trata-se de uma jovem adorável. Bem diferente daquelas mulheres de Londres que, ao abrirem a boca, nos fazem pensar que toda a inteligência e o bom-senso foram banidos da velha Inglaterra. Embora concordasse plenamente com a tia, James não queria deixar que a velha senhora fugisse ao assunto. — Tia Agatha, estamos falando da srta. Hotchkiss, lembra-se? — Claro, da minha querida dama de companhia. Não sei onde eu estaria, sem ela. — Talvez quinhentas libras mais rica? — ele retrucou, em tom de provocação. A xícara de chá de lady Danbury bateu ruidosamente, no pires. — Você com certeza não está suspeitando de Elizabeth... Ou está? — Ela tem acesso a todas as informações necessárias a uma chantagem. Isso é mais do que certo. Além do mais, não lhe falta oportunidade para bisbilhotar onde bem entenda, aqui em Danbury House, não é verdade? — Não — discordou a velha condessa, com uma convicção tão calma, que soou mais forte que um grito. — Elizabeth nunca faria uma coisa dessas. — Perdoe-me, tia Agatha, mas... Como pode estar tão certa disso? — Você agora duvida da minha capacidade de julgar as pessoas? — Não se trata disso... Ela ergueu a mão, interrompendo-o: — A srta. Hotchkiss é tudo o que há de bom, amável e verdadeiro, neste mundo. Trata-se de uma grande pessoa, rara como poucas que conheço. Portanto, recuso-me a ouvir qualquer outra palavra depreciativa a seu respeito. — Está certo... Se a senhora quer assim, que seja. — Se você não acredita em mim, use um pouco do seu tempo para conhecer aquela jovem. Você verá que tenho razão. — Vou fazer exatamente isso — disse James, sorrindo interiormente... de pura satisfação. 43


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Naquela noite, sonhou que Elizabeth estava fugindo dele, rindo por cima do ombro, com seus longos cabelos, soltos, esvoaçando ao vento. Toda vez que ele estava prestes a alcançá-la, quando estava justamente estendendo a mão para tocá-la, ela escapava ao contato. Toda vez que estava perto o suficiente para ler o título daquele pequeno livro de capa vermelha, que ela deixara cair da bolsa, via as letras douradas da capa diluindo-se num borrão, tornando as palavras incompreensíveis. Acordou repentinamente, com o coração aos saltos. Sentado na cama, enquanto a luz da manhã infiltrava-se pelas cortinas, James só tinha um pensamento em mente: rever a bela, misteriosa e instigante Elizabeth Hotchkiss. Quando Elizabeth chegou a Danbury House, naquela manhã, estava de péssimo humor. Sua cabeça parecia girar em meio aos tantos conceitos e regras do livro da tal sra. Seeton. Ao chegar à sua casa, na tarde do dia anterior, encontrara o livro aberto sobre a cama, em seu quarto. E não fora capaz de resistir à curiosidade de lê-lo um pouco mais. Na verdade, buscava uma fórmula para manter suas conversas com administrador sempre num tom leve e bem-humorado. Pois adorava vê-lo rir. Mas, antes que se desse conta, estava envolvida naquelas regras infernais e nada práticas, que a deixaram confusa e frustrada. Não se deve flertar com homens casados, dizia uma das regras. E muito menos dar-lhes conselhos, pois isso era terminantemente proibido. Além do mais, ela deveria ignorá-los por um longo tempo, caso se esquecessem de seu aniversário. Ora, o único homem com quem ela poderia praticar essas regras era solteiro. Não havia nenhum conselho que quisesse lhe dar. E seu aniversário só ocorreria dentro de nove meses. Portanto, as regras eram simplesmente inúteis. — Obrigada por nada! — exclamara, furiosa, depois de ler por um bom tempo. — Vou tentar me lembrar dessas regras, no futuro, quando a circunstância for pertinente. — E deixando o livro de lado, fora cuidar de outros assuntos. Contudo, o mau humor persistira, até o dia seguinte, acompanhando-a a Danbury House. — Você parece bastante pensativa, nesta manhã — disse James, aproximando-se por trás dela. Elizabeth, que não o ouvira se aproximar, reagiu sobressaltada: — Sr. Siddons! É um prazer vê-lo tão cedo. Curvando-se, ele respondeu, num tom cortês: — O sentimento, é recíproco, eu lhe asseguro. O som inconfundível de uma bengala batendo no piso interrompeu a conversa. Lady Danbury acabava de entrar na sala, apoiada em sua bengala, com o gato Malcolm enroscando-se em seus pés. — Bom dia, lady Danbury — cumprimentou Elizabeth, caminhando em sua direção. — Como está se sentindo, hoje? — Com setenta e dois anos de idade — ela resmungou em resposta. — Não sei como isso é possível, já que a senhora completou sessenta e sete há pouco tempo. — Psiu, sua impertinente! Não me contradiga. Além do mais, fiz sessenta e seis. 44


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Elizabeth disfarçou um sorriso: — Quer que eu a acompanhe à sala de refeições, para fazer-Ihe companhia durante o desjejum? — Já me alimentei com dois ovos e três torradas. E não quero sentar-me na sala de refeições, nem na sala de estar, nesta manhã. Elizabeth não quis demonstrar sua surpresa. Em geral, passava as manhãs com lady Danbury, na sala de estar. E sabia que a velha senhora prezava por demais esse costume. — Decidi que estarei melhor, no jardim — lady Danbury anunciou. — É uma idéia adorável — Elizabeth aprovou. — O clima está fresco e, a brisa, suave. — Ou seja: uma manhã perfeita para um bom cochilo. A frase pegou Elizabeth desprevenida. Era verdade que lady Danbury freqüentemente cochilava, durante a sessão de leitura, mas nunca, sob nenhuma circunstância, admitia o fato. — A senhora quer que a acompanhe, até lá? — perguntou James, dirigindo-se à tia num tom formal já que, para todos os efeitos, era o sr. Siddons, administrador de imóveis. — Isso me deixaria muito feliz. Passando a poucos centímetros de Elizabeth, a velha senhora respondeu, por sobre o ombro, num tom seco: — Ultimamente, já não me movo com a mesma desenvoltura de outros tempos. Mas ainda posso caminhar até o jardim, sem o auxílio de ninguém. Venha, Malcolm — disse ao gato, que seguiu-a sem vacilar. — É realmente notável a relação entre lady Danbury e esse gato — James comentou. Elizabeth voltou-se para ele, visivelmente atordoada, enquanto gesticulava na direção de lady Danbury, incapaz de expressar a extensão de sua surpresa. — O que foi? — perguntou James, com uma expressão divertida no rosto. — Será que o fato dela querer tirar um cochilo no jardim é tão estranho assim? Afinal, o clima está realmente aprazível. — É, realmente, muito estranho — Elizabeth conseguiu dizer, com algum esforço. — Não vejo o porquê — Há algo de errado... E não estou gostando disso, nem um pouco. — E o que pensa fazer, senhorita? Espioná-la? — O senhor tem uma idéia melhor? — Várias. E todas são bem mais interessantes do que vigiar o sono de uma senhora idosa. — Oh, cale-se, por favor! — Elizabeth ordenou, irritada. — De qualquer forma, não estou sugerindo que o senhor me acompanhe. — Mas, se quiser, ainda está em tempo. — Oh, estou certa de que o senhor tem algo mais a fazer como, por exemplo trabalhar. Assim sendo, eu lhe desejo um bom dia. 45


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— Elizabeth, espere! Surpresa por ele chamá-la por seu primeiro nome ela voltou-se e indagou: — Sim? — Irei com você. Ela lançou-lhe um olhar um tanto aborrecido. — Bem, espero que saiba manter a discrição e o silêncio. Não quero que lady Danbury nos surpreenda, espionando-a. James teve de se esforçar para conter o riso. E conseguiu. Só então respondeu, muito sério: — Fique tranqüila; saberei me comportar à altura. — Muito bem — ela assentiu, num tom severo, quase ríspido. — Venha comigo, então. Curvando-se, numa exagerada reverência, ele afirmou: — Eu a seguirei em absoluto silêncio, srta. Hotchkiss. Ela deu alguns passos e então voltou-se, um tanto hesitante. — Há pouco o senhor me chamou de Elizabeth. — Foi uma ousadia e peço que me perdoe. — Isso não tem grande importância. Nós, funcionários de Danbury House, não somos muito formais, uns com os outros, no tratamento diário. Se o cozinheiro e o mordomo me chamam de Elizabeth, creio que o senhor possa fazer o mesmo, sem qualquer problema. James sentiu o coração aquecer-se com um sentimento de satisfação que lhe pareceu um tanto absurdo. Embora fosse por demais agradável. — Nesse caso, creio que a senhorita, ou melhor, você deve me chamar de James. — James — ela experimentou, cautelosa. Em seguida, acrescentou: — Claro que não vou chamá-lo assim, na presença de terceiros. — Certamente, não. Mas, já que estamos sozinhos, podemos dispensar a formalidade, não é mesmo? Ela assentiu, com um gesto de cabeça. — Muito bem, senhor... — Sorrindo timidamente, corrigiu-se a tempo: — Muito bem, James. Devemos nos pôr a caminho. Seguindo Elizabeth por um labirinto de corredores e pequenas salas, James pouco atentava ao trajeto, regalando-se com a visão graciosa que caminhava à sua frente. Quando ambos finalmente saíram a céu aberto, estavam do lado leste da casa, bastante distantes do jardim. Para surpresa de James, Elizabeth apressou o passo, a tal ponto que ele começou a ter dificuldades para acompanhá-la. — Estamos realmente com tanta pressa? — ele perguntou. Sem se deter, ela voltou a cabeça e respondeu: — Estou bastante preocupada com lady Danbury. Em todos esses anos, ela nunca agiu dessa maneira. 46


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James, que havia encontrado naquela caminhada um pretexto para estar a sós com Elizabeth, não pôde deixar de comentar: — Não vejo a que perigos lady Danbury possa se expor, num simples passeio por seus jardins. — Parece que essa aventura monótona deixou-o aborrecido — Elizabeth comentou. — Mas lembre-se de que foi você quem insistiu em vir. — Oh, isso não é nada monótono — ele afirmou, num tom suave. — Apenas, eu... Não compreendo a gravidade da situação. Elizabeth estacou subitamente e, com ambas as mãos na cintura, voltou-se para fitá-lo com severidade. — Está mais do que claro que você não tem a menor noção sobre o que significa ser dama de companhia de uma senhora idosa. Ainda mais quando essa senhora é lady Danbury! — Num tom professoral, Elizabeth prosseguiu. — Ela cochila com freqüência, durante nossas sessões de leitura. Mas nunca admite isso, em hipótese alguma. Ela vive e respira rotina. É uma pessoa absolutamente metódica, em todos os sentidos. Dois ovos e três fatias de pão, no café da manhã. Todos os dias. Trinta minutos de bordado. Todos os dias. Depois disso, ela abre a correspondência. Separa e classifica as cartas, metodicamente. As três da tarde, em ponto, responde as cartas mais importantes. Faz isso todos os dias. Depois... James ergueu a mão. — Basta, por favor. Já entendi seu ponto de vista. — Então você percebe, agora, o motivo da minha reação ao ouvir lady Danbury anunciar, para quem quisesse ouvir, que pretendia tirar um cochilo, no jardim? Sem ter o que argumentar, James achou melhor calar-se, concordando com um leve aceno de cabeça. Elizabeth deu-lhe as costas e retomou a caminhada, num ritmo ainda mais veloz, como se quisesse recuperar o tempo que perdera em tantas explicações. A distância entre ambos aumentava. Ela estava quase correndo, agora. James apressou o passo ao máximo e, num dado momento, viu a raiz de uma árvore, bem à frente de Elizabeth, depois de uma curva. Elevando a voz, avisou-a: — Espero que tenha atentado para a... Antes que ele concluísse a frase, Elizabeth projetou-se para a frente, com um braço esticado no ar, como se buscasse algum apoio... em vão. E, assim, a queda aconteceu. — ...raiz — ele completou, desnecessariamente, já correndo para ajudá-la. — Você se feriu? — Não — ela respondeu, imprimindo à voz uma firmeza que vários estremecimentos, percorrendo-Ihe o corpo, desmentiam. Abaixando-se a seu lado James tomou, entre as suas, a mão com a qual ela buscara apoio, ao cair. — Deixe-me ver isso. — Não se preocupe — ela insistiu, recolhendo a mão com uma expressão de dor em seu rosto pálido. — Eu estou bem. 47


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— Não, de modo algum. Você não me parece nada bem. Desculpe, mas devo examiná-la. Com um profundo suspiro, ela estendeu a mão, enquanto resmungava: — Pronto. Aí está. James flexionou delicadamente o pulso de Elizabeth, atento às suas reações. Nem um só músculo moveu-se no rosto dela, até que ele trouxe a palma da mão para trás. — Oh! — ela deixou escapar, claramente irritada por demonstrar a dor que sentia. Em seguida acrescentou, rápido: — O local está dolorido, mas tenho certeza de que não houve fratura. — Você tem razão. Mas evite forçar esta mão, nos próximos dias. Vamos voltar a casa e enfaixar o pulso... E uma precaução aconselhável. — Não tenho tempo — Elizabeth afirmou, bruscamente, enquanto se levantava. — Preciso ver lady Danbury. — Provavelmente ela está tirando um cochilo, muito tranqüila, entre suas belas rosas. Tenha calma. Elizabeth vacilou por alguns instantes, mas por fim se decidiu. Erguendo o queixo, declarou, convicta: — Faz parte de minhas obrigações verificar se realmente está tudo bem com lady Danbury e é isso mesmo que farei. James soltou um gemido ao vê-la afastar-se, quase correndo. A sincera preocupação daquela jovem com a velha condessa tornava ridícula a suspeita de que ela pudesse ser a chantagista que ele buscava. Refletindo sobre essa linha de pensamento, ele voltou a segui-la. E logo depois de uma curva deparou com Elizabeth, totalmente ereta e imóvel, tentando enxergar através de uma falha na sebe alta. — Encontrou lady Danbury? — ele indagou. — Psiu! — ela ordenou, num sussurro. — Escute, será que você consegue enxergar por cima da sebe? — Posso tentar — ele respondeu, cauteloso. — Sim... Consigo ver! — E o que está vendo? — ela perguntou, impaciente. Ele curvou-se em sua direção, dizendo baixinho: — Vejo lady Danbury. — E isso é tudo? — Não creio que você esteja interessada no gato, mas, em todo caso... Bem, Malcolm está dormindo no colo dela. — Eu não me importo com o gato. O que lady Danbury está fazendo? — Dormindo. — Dormindo? — Elizabeth repetiu, intrigada. — Tem certeza? — Sim. Não foi para isso que ela veio ao jardim? Elizabeth fez uma careta: — Quero saber se ela está dormindo normalmente... Sua respiração é regular? — Não sei... Nunca a vi adormecida, antes — ele afirmou, em tom de gracejo. 48


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— Não tente parecer mais idiota do que já é, naturalmente — ela ordenou, furiosa. — Do que você está rindo, afinal? James tossiu, tentando controlar a vontade de desatar numa sonora gargalhada. Tentou se lembrar da última vez em que uma mulher o chamara de idiota... Em vão. As senhoras e senhoritas que ele conhecera, em Londres, estavam interessadas demais em laçá-lo, para agirem assim, de modo tão espontâneo e agressivo. O que ele não podia imaginar era o quanto podia ser divertido ser insultado dessa maneira por Elizabeth Hotchkiss. — Do que você está rindo? — ela repetiu, exasperada. — Estou rindo? — ele indagou, com ar inocente. — Você sabe que sim. Ele endireitou o corpo, engolindo a gargalhada que ameaçava escapar-lhe dos lábios. — Você quer a verdade? — Bem... sim. A verdade é quase sempre preferível. — Quase? — Ora... Quando há outra opção, deve-se evitar a verdade, caso ela possa ferir, desnecessariamente, os sentimentos de alguém — Elizabeth explicou. — Isso me parece muito claro. Mas, espere um momento... Era você quem deveria estar respondendo minha pergunta. — Ah, sim, o riso — ele disse, procurando ganhar tempo. — Bem, o motivo foi o seu comentário, ligando a idiotice à minha pessoa. — Então você está rindo só porque eu o insultei? Ele encolheu os ombros e moveu a cabeça com aquele modo encantador, que arrancava suspiros de seu vasto público feminino, em Londres: — Eu não costumo ser insultado pelas mulheres. Isso é bem raro de acontecer, sabe? — Então, você anda se relacionando com o tipo errado de mulher — ela sentenciou. O riso, contido até então, explodiu num fluxo irrefreável. — Fique quieto — Elizabeth ordenou, baixinho. — Quer que lady Danbury o ouça? — Ela está ressonando alto o suficiente para espantar um rebanho de ovelhas — ele respondeu. — Duvido que meu riso possa despertá-la. Franzindo a testa, Elizabeth afirmou: — Eu não estou gostando nada disso. Lady Danbury não costuma agir assim. James sorriu, preparando-se para provocá-la novamente, mas conteve-se ao ver a profunda preocupação estampada em seus olhos azuis. — Elizabeth... — disse, por fim, num tom suave — o que a está afligindo, realmente? — A possibilidade de lady Danbury estar doente. Esse comportamento inusitado talvez seja um sintoma de algo mais grave. Depois de considerar essas palavras por alguns instantes, ele indagou: 49


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— Seus pais sofreram alguma doença grave, antes de partirem? — Não. Minha mãe morreu num acidente. E meu pai... Desviando os olhos, com uma expressão dolorosamente tensa, ela concluiu: — Bem, ele... não estava doente. James não insistiu, diante daquela resposta reticente. Mas, ele súbito, num flash chocante, percebeu que queria saber tudo sobre Elizabeth. Queria saber sobre o seu passado, o presente e seus planos para o futuro. Queria perguntar se ela falava francês, se já tinha lido Molière e se gostava de chocolate. Acima de tudo, queria saber os segredos que existiam por trás de cada pequeno sorriso que se estampava em seu lindo rosto. O que estava acontecendo com ele? Nunca, antes, sentira aquela necessidade premente de penetrar a alma de uma mulher. Elizabeth quebrou o silêncio constrangedor, ao perguntar: — E quanto a seus pais? Eles... ainda vivem? — Não — James respondeu. — Meu pai morreu repentinamente. O médico disse que foi o coração, o que me causou verdadeira surpresa, pois eu ignorava que ele tivesse um. — Entendo — Elizabeth murmurou. — E sinto muito que tenha sido assim. — Isso já não importa. — Ele fez um gesto, como se quisesse afastar algo incômodo — Meu pai não era um bom homem. Não sinto falta dele e nem vou chorar sua morte. Os lábios de Elizabeth estavam contraídos, mas James percebeu compreensão e empatia em seus olhos. Seria apenas imaginação? — Minha mãe morreu quando eu era ainda muito jovem — ele acrescentou, abruptamente. — Eu mal me lembro dela. — Sinto por você — Elizabeth afirmou, sincera. Ele assentiu com um gesto de cabeça, como num reconhecimento por sua simpatia e compaixão, mas nada disse. Elizabeth tornou a olhar pelo vão, na sebe. E com um profundo suspiro, confessou: — Não sei o que faria se lady Danbury adoecesse. Ela é por demais orgulhosa e certamente não deixaria que ninguém soubesse de sua enfermidade. James olhou para Elizabeth, como se a visse pela primeira vez. Ela era tão frágil! Os campos de Danbury Park se estendiam atrás dela, compondo uma paisagem semelhante a uma colcha de retalhos, de variados tons de verde. Ela parecia terrivelmente pequena e sozinha, contra a vasta extensão de terra. A brisa típica do verão despenteava-lhe suavemente os cabelos sedosos, loiros como o trigo maduro. E, num impulso, James estendeu a mão, recolocando-os no lugar. Num gesto instintivo, ela ergueu a mão e os dedos de ambos se encontraram, num contato leve e fugidio. — Sabe — ela disse, baixinho —, lady Danbury tem sido muito boa para mim. Nada do que eu possa fazer nesse mundo será suficiente para retribuir sua bondade para comigo. 50


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James nunca ouvira alguém se referir a sua tia, daquele modo. Afinal, lady Danbury era uma pessoa ríspida, sarcástica e de uma franqueza muitas vezes ofensiva. Ela costumava despertar respeito e temor, entre as pessoas. Mas não carinho, ou qualquer outro sentimento semelhante. Até então, James julgava-se o único a ter, por aquela mulher, que possivelmente salvara sua alma, um verdadeiro amor. E ver esse mesmo sentimento refletido nos olhos de Elizabeth acabou por desarmá-lo por completo. Como se assistisse a si mesmo, James estendeu a mão para acariciar os cabelos de Elizabeth. Então atraiu-a para si. Um pouco mais perto e ainda mais... No momento seguinte, seus lábios tocaram os dela. E tudo se fez perfeito, com o coração pulsando forte e aquela crescente necessidade de possuí-la em todos os sentidos que um homem pode possuir uma mulher. Dominado por essa urgência quase incontrolável, eleja não conseguia pensar... Apenas sentir. Ela correspondeu ao beijo, numa total e absoluta inocência que o comoveu e excitou, a um só tempo. — Elizabeth — ele sussurrou, movendo os lábios pelo rosto dela, beijando sua delicada orelha. — Eu... quero... Ah, como quero... Ao ouvi-lo, Elizabeth retesou-se, como se acordasse de um transe. Seu corpo enrijeceu, enquanto ela murmurava: — Oh, não... James queria prosseguir, deitá-la no chão e beijá-la até que ela perdesse todo o senso da razão, mas algo em seu interior fez com que ele se detivesse, deixando-a afastar-se. Elizabeth parou diante dele por alguns instantes, absolutamente chocada, a mão sobre a boca, os olhos azuis arregalados numa expressão atônita. — Nunca pensei... Eu... não posso acreditar! — Não pode acreditar em quê? — Ela meneou a cabeça. — Oh, isso é terrível! Aquilo era bem mais do que um ego bem trabalhado como o de James poderia suportar. — Bem... — ele balbuciou — eu não pretendia... Mas Elizabeth já tinha fugido, a passos largos.

Elizabeth chegou a Danbury House na manhã seguinte, com um objetivo claro em mente: ficar o mais longe possível de James Siddons. O inacreditável ocorrera; ele a havia beijado e ela consentira. Para coroar tamanho absurdo, fugira correndo para casa, como uma garotinha assustada. Apenas uma vez, em todos aqueles anos como dama de companhia em Danbury House, ela abandonara o trabalho e isso ocorrera por insistência de lady Danbury, ao vêla ardendo em febre. Mas bastara o beijo de um belo homem para que ela abandonasse seu posto, choramingando como uma menina tola. Elizabeth havia ficado tão mortificada com essa atitude, que enviara seu irmãozinho, Lucas, com um bilhete a lady Danbury, explicando 51


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sua repentina ausência por um mal-estar súbito, o que não era exatamente mentira. Pulso acelerado, palpitações, a cabeça girando, o rosto ardente, o estômago tomado por estranhas contrações. Ela realmente se sentira mal, muito mal. À noite, trancara-se no quarto, procurando obsessivamente, no livro vermelho, alguma referência a beijos. Mas, ao que tudo indicava, a sra. Seeton obviamente imaginava que suas leitoras teriam inteligência suficiente para saber que não deviam beijar um cavalheiro com quem não tivessem uma ligação profunda e potencialmente duradoura. Elizabeth suspirou, tentando concentrar-se no trabalho. Até aquele momento, o dia estava correndo como qualquer outro. Exceto pelo fato de que, involuntariamente, ela olhava por cima do ombro, tantas vezes, que lady Danbury havia lhe perguntado se tinha adquirido um tique nervoso. O constrangimento forçou-a a controlar aquele movimento, mas Elizabeth ainda se sobressaltava, sempre que ouvia passos de alguém se aproximando. Lutando desesperadamente para recuperar a calma, ela dizia a si mesma que não havia perigo. Que o sr. Siddons, no desempenho de suas funções, certamente passaria o dia percorrendo a enorme propriedade. E que, portanto, ela estaria segura dentro daquela casa. Caso ele aparecesse para conversar com lady Danbury, ela poderia, perfeitamente, deixá-los a sós, saindo para os jardins para um breve passeio, já que o dia estava belo e ensolarado. Sim, era exatamente isso que faria, caso o sr. Siddons chegasse. Mas, então, começou a chover. — Isso não pode estar acontecendo — Elizabeth murmurou, aflita. — Do que você está falando? — lady Danbury perguntou. Da chuva? Ora, não seja tola, querida, este é o verão inglês. — É que o dia estava tão bonito e ensolarado! — E desde quando isso faz alguma diferença? — Como...? Oh, a senhora tem razão! Isso realmente não importa. — No final do seu expediente, se ainda estiver chovendo, mandarei que alguém a acompanhe até sua casa. Você deve se preservar, sobretudo depois de ter sofrido um mal estar súbito. — Os olhos de lady Danbury estreitaram-se, enquanto ela concluía. — Embora você me pareça notavelmente recuperada. — Não me sinto assim tão bem — Elizabeth confessou, com franqueza. — O que há de errado com você? — Distúrbios generalizados — ela resumiu. Lady Danbury franziu o cenho e meneou a cabeça, irritada. — Quando você inaugurou o hábito de ser genérica? — Desde que aprendi que mazelas físicas não são tópico de uma conversa agradável — ela respondeu, sem pensar. — Este é o espírito da coisa! — disse lady Danbury, rindo e batendo palmas. — As vezes, Elizabeth Hotchkiss, você se parece demais comigo... ao menos nas conclusões irônicas. — Deus me ajude — ela murmurou, como se para si. — E está melhorando, a cada momento — a velha senhora afirmou, em tom de aprovação. 52


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— Eu teria dito a mesma coisa, se estivesse em seu lugar. Ansiosa para mudar de assunto, Elizabeth propôs: — A senhora não gostaria de tomar uma limonada? — disse, abanando-se, inutilmente, com as mãos. — Está bem quente, aqui dentro. — É muito cedo, para uma limonada — respondeu lady Danbury, um tanto ríspida. — Mas eu aceitaria um chá, apesar da hora não ser indicada para isso. Ah, e certifique-se de que seja servido com biscoitos. — Perfeitamente, minha senhora. — Onde será que Malcolm se meteu? Há horas que não o vejo. — Vou tentar encontrá-lo, no caminho para a cozinha — disse Elizabeth, erguendose e caminhando rapidamente para fora da sala. Ao cruzar a porta, seu ombro colidiu com algo grande, quente e bastante... humano. — Sr. Siddons! — lady Danbury saudou-o, de seu assento. — Que bom vê-lo tão cedo, nesta manhã. Elizabeth fechou os olhos por um instante, amaldiçoando sua falta de sorte. Dois minutos a mais, ou a menos e teria se livrado do encontro indesejado. — Bom dia, sr. Siddons — ela murmurou, tentando se afastar sem fitá-lo no rosto, onde certamente estaria estampado um sorriso de lobo — O senhor se juntará a nós, para um chá? — perguntou lady Danbury. — Eu ficaria encantado — ele respondeu. — Elizabeth, providencie chá para três. — Agora, que a senhora tem a companhia do sr. Siddons, na certa não se importará se eu me ausentar por algum tempo. — Nada que você tenha a fazer, no momento, poderá ser tão urgente a ponto de nos roubar o prazer de sua presença, durante o chá — a velha senhora respondeu, secamente. — Está bem — Elizabeth aquiesceu, contrariada, afastando-se com rapidez. A caminho da cozinha, ela maldizia a própria sorte enquanto pensava num modo de manter-se imune às possíveis provocações de James e às perguntas ferinas de lady Danbury, durante o chá. Depois de transmitir as ordens da velha condessa às criadas, voltou sobre os próprios passos, lentamente, sentindo-se com um condenado prestes a subir ao cadafalso. Ao aproximar-se da sala ouviu, com clareza, o diálogo estranhamente pessoal entre lady Danbury e seu administrador: — É muito simples, meu caro. — dizia a velha senhora. — Vamos contar a ela o que está acontecendo, de verdade. — A senhora não se atreveria a tanto... — Duvida? Pois espere e verá. Ah, aí está Elizabeth! Aproxime-se, minha jovem, e ouça o que tenho a dizer.

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Atônita, Elizabeth viu James, com uma expressão aflita, estender a mão em direção à velha condessa, como se tentasse impedir que ela cometesse um desatino. Mas já era tarde. — O que você diria, minha cara Elizabeth, se eu lhe contasse que estou sendo chantageada, e que o sr. Siddons ousou suspeitar de você? — Agatha! — James exclamou, empalidecendo. — Por favor! Com um sorriso irônico no rosto, lady Danbury replicou: — Vou ignorar sua ousadia de me chamar pelo nome de batismo, em consideração à longa amizade de nossas famílias. Mas nunca mais se atreva a fazê-lo, enquanto estiver a meu serviço. — Eu... sinto muito — ele murmurou. — Desculpas aceitas. — A velha condessa voltou-se para Elizabeth. — E então, minha cara... O que você tem a dizer? — A senhora disse que o sr. Siddons acha que eu estou fazendo o quê? — ela quase gritou. — Exatamente o que você ouviu — lady Danbury respondeu, implacável. Elizabeth plantou as mãos nos quadris e olhou, furiosa, para o belo administrador. — Como ousa pensar que eu poderia chantagear esta doce velhinha?! — Doce? — James repetiu, tentando controlar o riso. — Velhinha? — lady Danbury gritou. — Eu nunca desceria tão baixo — prosseguiu Elizabeth, ignorando ambos. — Nunca! E uma infâmia pensar isso de mim! — Foi o que eu disse a ele -— resmungou lady Danbury, dando de ombros. — Meu raciocínio foi baseado na lógica — James tentou justificar-se. — Afinal, a senhorita... Quero dizer, você tinha a oportunidade e o motivo. — Motivo? Como assim? A que motivo o senhor, ou melhor: a que motivo você se refere? — Ao óbvio, é claro — lady Danbury interveio. — Afinal, você precisa de dinheiro. Mas a verdade é que a maioria das pessoas precisa. — Pois vou dizer ao sr. Siddons o que ele deve fazer com sua lógica! — Elizabeth afirmou, rubra de indignação. — Elizabeth... — lady Danbury a advertiu. — Há certos limites que devem ser respeitados, certo? Antes que Elizabeth pudesse retrucar, James indagou, num tom inesperadamente suave: — Por que você precisa de dinheiro? — Isso não é de sua conta. Mas lady Danbury, obviamente, pensava de outro modo. Tanto, que disse: — Tudo começou quando... — Minha senhora, por favor... — Elizabeth apartou, em tom de súplica. 54


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Lady Danbury, percebeu que estava prestes a ultrapassar os limites dos quais ela mesma se lembrara, momentos atrás, e calou-se. — Obrigada — Elizabeth murmurou, com um profundo suspiro. — Onde está esse maldito chá? — exclamou lady Danbury, irritada. — Já avisei as criadas. O chá não tardará a ser servido. — E será que ele vem da cozinha... Ou de Londres? Vá ver o que está acontecendo — a velha senhora exigiu, batendo a bengala no chão. — Vamos, menina, o que está esperando? — Alcançar a santidade, no exercício de minhas funções — Elizabeth respondeu, num ímpeto. James desatou numa sonora gargalhada, que ecoou por todo o recinto. — Mas o que há com vocês dois? Será que perderam todo o senso da razão? — bradou lady Danbury, pondo-se em pé. — Queiram se retirar... Já! E só voltem quando tiverem conseguido controlar os nervos. Vamos... Fora... Fora! James foi o primeiro a obedecer e deixou a sala, ainda rindo. Elizabeth o seguiu, tomada por uma forte aflição, mal podendo acreditar que havia contribuído para o desenrolar daquela cena tão absurda quanto ridícula. — Você está bem? — perguntou James, com a voz truncada pelos fluxos de riso mal contidos. — Como poderia, depois do que eu disse a lady Danbury? — ela respondeu, mortificada. — Ora, não leve o caso tão a sério. De alguma forma, a velha condessa provocou sua resposta impensada e, cá entre nós, ela bem que a mereceu. — Seja como for... Bem, vou ver o que está acontecendo com esse bendito chá, que não chega. — Irei com você. — Não. — Ainda está zangada por eu ter pensado que você poderia ser a chantagista que tanto anda atormentando lady Danbury? — Na verdade, não. Qualquer pessoa que desenvolvesse um raciocínio lógico teria chegado à mesma conclusão. James fitou-a, tão surpreso quanto admirado. — Tenho a dizer, a meu favor, que não a conhecia quando isso aconteceu. — Agora, pouco importa. Ofendi lady Danbury e receio que ela não vá me perdoar. — Bobagem! Ela tem você no mais alto conceito. Na verdade, ela a estima por demais. Estreitando os olhos, Elizabeth fixou-os em James como se quisesse ler seus mais íntimos pensamentos. — Você parece conhecer lady Danbury profundamente. Bem mais do que uma velha amizade entre famílias autoriza. — O que você quer dizer com isso? — ele perguntou, na defensiva. 55


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— A intimidade com que você se dirigiu a ela, ainda há pouco, foi chocante e inexplicável. — Aproximando o rosto, Elizabeth o fitava, agora, de muito perto. — Quem é você, afinal? O que veio fazer em Danbury House? — Ora, você sabe muito bem. Sou James Siddons, o novo administrador de lady Danbury — ele respondeu, com os olhos fixos naqueles lábios róseos, tão próximos dos seus. Lábios que agora ele sabia serem cálidos e suaves ao toque. — Aposto a minha vida como você nunca administrou uma propriedade, antes. Vamos lá, diga a verdade: quem está chantageando lady Danbury? — Se eu soubesse, não teria levantado a hipótese de que poderia ser você. — É... Isso faz sentido. Aliás, é a única coisa que faz realmente sentido, até agora, em meio a essa teia de meias verdades e mentiras deslavadas. Só não consigo imaginar lady Danbury dando motivo a alguém, para ser chantageada. — Quanto a isso, nada posso revelar — ele afirmou, com gravidade. Sorrindo com ironia, ela argumentou: — E qual verdade posso ouvir de sua boca? — Que você é linda e extremamente desejável, Elizabeth Hotchkiss. Pega de surpresa por essa declaração inesperada, ela corou e, afastando o rosto, voltou-se para partir. James foi mais rápido e tomou-lhe a mão, levando-a aos lábios e beijando cada um de seus dedos. — Pare com isso — ela protestou, baixinho. — O que foi? — ele retrucou, sorrindo, sem soltá-la. — Sente-se perturbada? — Claro que sim. As pessoas não costumam andar por aí, beijando os dedos das outras como se quisessem devorá-los. — Foi essa a impressão que lhe causei? — Bem... Não. Acho que exagerei um pouco. — De uma coisa estou seguro. Fui o primeiro a beijá-la, não é verdade? Confusa, tentando retirar a mão, Elizabeth cedeu: — Sim. Aquele foi o meu primeiro beijo. Mas isso não quer dizer que... — ela interrompeu-se, embaraçada. — Não quer dizer o quê? — ele pressionou. — Nada... — Vamos, fale. — Vou buscar o chá na cozinha e levá-lo pessoalmente a lady Danbury — ela disse, retirando a mão com um gesto brusco. — Espero que você tenha o bom-senso de desaparecer enquanto tento consertar a triste situação que causei... Ou melhor: que causamos. — Isso é uma sugestão ou uma ordem? — ele indagou, irônico. — Tome como quiser, desde que desapareça. Já tivemos confusões demais para um só dia. — Ah! Agora devo me sentir culpado pelo que aconteceu na sala? 56


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— Digamos assim: sem a sua presença, nada daquilo teria acontecido. Certo? — Sem dúvida. Mas, também... — Tenha um bom dia, sr. Siddons — disse Elizabeth, antes que ele concluísse a frase. E afastou-se, quase correndo, em direção à cozinha. Quando Elizabeth retornou, trazendo chá e biscoitos, James não estava à vista, e foi com o coração aos saltos que ela entrou na sala. — Aqui está o chá, minha senhora. Espero que... — E meu gato... Você viu Malcolm? — Não, senhora. — Então, sirva logo esse chá e venha ler um pouco para mim. Estou com um princípio de enxaqueca. Perplexa, Elizabeth obedeceu e, durante o restante do dia, lady Danbury não se referiu ao que havia acontecido entre os três, naquela sala. Era como se nada de extraordinário houvesse ocorrido. Pouco antes de ir para casa, Elizabeth ainda tentou abordar o assunto, pois pretendia desculpar-se pela insolência da resposta impensada que dera à velha senhora. Mas lady Danbury, imperturbável, apenas franziu o cenho, dizendo: — Você não tem nada a fazer, em sua casa? — E sem esperar que ela respondesse, acrescentou: — Vá cuidar de seus assuntos, menina, e trate de não chegar atrasada, amanhã. Elizabeth deixou Danbury House, receosa de um encontro indesejado com o novo administrador. Mas, para seu alívio, isso não sucedeu. Pensando bem, nenhuma catástrofe ocorrera, naquele dia que começara de modo tão conturbado. Ela não fora demitida, tal como temera, a princípio. Agora, caminhando a passos lentos, seus sentimentos fluíam livremente. E uma dor inesperada a atingiu em cheio, juntamente com a compreensão do que estava se passando em seu íntimo. Elizabeth nada sabia sobre o amor, mas acabava de entender algo muito simples: poderia se apaixonar por aquele homem. Sentia essa verdade, profundamente, em seu coração. Mas não podia entregar-se àquele sentimento, pois James Siddons era o homem errado. Casar-se com alguém sem recursos seria o mesmo que condenar sua família a um destino cruel. Susan, já com catorze anos, aproximava-se da idade de debutar perante a sociedade. Só assim teria chance de conhecer alguém de sua própria estirpe e educação, que um dia pudesse vir a ser seu marido. Quanto a Lucas... Pobre Lucas! Ele era o único varão da família, era quem carregava o título de nobreza, deixado pelo pai. Mas não poderia ingressar em Eton, como exigia a tradição. Teria de se conformar em ser um nobre arruinado e sem perspectivas. Jane, por sua vez, teria o mesmo terrível destino que os outros irmãos: pobreza e humilhações por toda a vida. Não, Elizabeth pensou. Ela não podia falhar. Teria de desposar um homem rico, essa era a verdade. E, por uma terrível ironia do destino, James Siddons, aquele que conseguira capturar seu coração, era tão pobre quanto ela. Decididamente, às vezes a vida podia ser cruel e injusta. As lágrimas toldaram a visão de Elizabeth, pelo restante do caminho até sua casa. Tarde da noite, Susan, Jane e Lucas, amontoados junto à porta do quarto de Elizabeth, tentavam ouvir o que se passava lá dentro. — Acho que ela está chorando — sussurrou Lucas. 57


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— Ora, claro que ela está chorando! — Jane exclamou, num tom abafado. — Qualquer tolo poderia chegar a essa conclusão. — A questão é: por que ela está chorando? — disse Susan. Mas ninguém tinha uma resposta para aquele mistério. — Ela está sempre preocupada com a falta de dinheiro — arriscou Lucas, hesitante. — As pessoas que não tem dinheiro sempre se preocupam com esse assunto — Susan esclareceu. Os dois Hotchkiss mais jovens concordaram, acenando as cabecinhas loiras. Os olhos de Lucas começaram a brilhar, com as lágrimas mal contidas: — Não poderei ir para Eton, não é verdade, Susan? — Nós vamos acabar dando um jeito, mas precisamos economizar... — Economizar o que, se não temos nada? — ele retrucou. Susan não respondeu. Tocando-lhe o ombro, Jane sugeriu: — Por que você não entra, para tentar confortá-la? — Está certo. Mas vocês dois devem descer e esperar lá embaixo. — Ah, não! — protestou Lucas. — Eu quero entrar, também. — Ora, não seja tolo! — Jane o repreendeu. — Isto é assunto de mulheres. E Susan é a única de nós que tem idade para falar com Elizabeth, agora. — Você é uma intrometida e acha que sabe tudo. — Parem com isso, vocês dois — Susan ordenou. — Desçam agora, ou terão que lavar a própria roupa, durante este mês inteiro. A ameaça surtiu efeito. E ambos correram escada abaixo. Susan respirou fundo, antes de bater à porta do quarto de Elizabeth. Nenhuma resposta. Susan bateu novamente. — Sei que você está aí! — ela disse, elevando a voz. — Abra, por favor! — Claro que você sabe que estou aqui — Elizabeth retrucou, irritada, abrindo a porta do quarto. — Entre, de uma vez. — O que está acontecendo? — A culpa é toda dele — respondeu Elizabeth, apontando para o livro vermelho atirado no chão do quarto. — Meu Deus, irmã! Você jogou o livro no chão! Já se esqueceu de que ele pertence a lady Danbury? — Dane-se a quem esse maldito pertence! E estou pouco me importando, também, se a sra. Seeton arder no fogo do inferno! Boquiaberta, Susan levou alguns instantes para se recuperar e reagir: — Mas o que é isso, Elizabeth? Que eu me lembre, você nunca amaldiçoou alguém na minha frente! Isso não parece uma atitude sua e é contra tudo o que você sempre nos ensinou. — Bem, se você quer mesmo saber, hoje não me sinto como eu mesma! 58


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— Diga-me ao menos o que foi que a deixou tão aborrecida? Com um suspiro, ela desabafou: — Esse livro arruinou minha vida! — Você está sendo melodramática, minha querida irmã. Justo você, que sempre ridicularizou as pessoas que fazem tempestade em copo d'água. — Mudei de idéia e pronto. E daí, qual é o problema? — Não sei — confessou Susan, assustada. — Mas você poderia ao menos me contar como foi que esse pobre livro conseguiu arruinar sua vida? Elizabeth olhou para longe, para que Susan não pudesse ver seus olhos vermelhos de tanto chorar. — Eu não teria deixado que ele se aproximasse de mim, não fosse por esse livro maldito! — Santo Deus! — Susan exclamou, aterrorizada. — O sr. Siddons não desonrou você, de alguma maneira... Desonrou? — Não! — Elizabeth gritou. — Ele jamais ousaria fazer isso. — Então o que aconteceu? — Oh, Susan — Elizabeth respondeu, enquanto lágrimas silenciosas escorriam-lhe pelo rosto. — Eu poderia amá-lo. Eu poderia amá-lo, verdadeiramente! — E o que há de errado nisso? — Susan perguntou, num tom suave. — Susan, ele não tem duas moedas para tilintar no bolso! É um simples administrador de propriedades. — E você não pode ser feliz, com uma vida simples? — Claro que posso. — Elizabeth apertava as mãos, em desespero. — Mas quanto vai durar essa minha felicidade, quando você não puder debutar na sociedade por falta de dinheiro? Como poderei ser feliz ao ver Lucas alijado de seu lugar de direito, por não ter freqüentado Eton? E o que dizer do futuro de Jane? Você acha que eu estava procurando um marido para me divertir? Precisamos de dinheiro, Susan. Dinheiro! Susan baixou os olhos, penalizada. — Sinto muito que você tenha a responsabilidade da família, em suas costas. Isso não é justo... Ter que sacrificar a si mesma. — O engraçado é que nunca encarei um casamento sem amor como um sacrifício. E sim como uma fatalidade. Muitas mulheres se casam assim. Mas, agora... — Ela fez uma pausa e enxugou os olhos. — Agora é muito duro, é quase insuportável. Sem argumentos que pudessem minorar o desespero da irmã, Susan engoliu em seco, antes de dizer: — Talvez você devesse devolver o livro. Elizabeth assentiu: — Sim, vou devolver amanhã, mesmo. — Faça isso e tente se acalmar. Amanhã pensaremos em outra maneira de resolver nossos problemas. Talvez, se você... Elizabeth ergueu a mão, interrompendo-a: 59


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— Não vamos mais falar sobre esse assunto, ao menos por enquanto. — Está certo, minha irmã querida. Vou levar o livro comigo, para ver se nenhuma página ficou amassada ou suja. Amanhã você poderá devolvê-lo. Elizabeth assentiu, sem nada dizer. Susan saiu do quarto. Sozinha, Elizabeth atirou-se cama. O choro voltou, forte e irreprimível. Mas, dessa vez, ela apertou o travesseiro de encontro ao rosto, para abafar o som dos soluços.

CAPÍTULO IV

Elizabeth chegou a Danbury House mais cedo do que o costume, esperando poder esgueirar-se para a biblioteca e recolocar o livro na estante, antes que lady Danbury terminasse seu desjejum. — Você não me trouxe nada, além de problemas e tristezas — disse, em voz alta, retirando o livro de dentro da bolsa. A que situação havia chegado! Pensou, com amargura: acabava de flagrar-se falando com um livro, um objeto inanimado, cujo único poder real era o que ela acabava de lhe atribuir. Seria risível não fosse deprimente. Na ponta dos pés, Elizabeth percorreu os corredores, grata ao fato de lady Danbury ser tão apegada à rotina. Tinha exatamente vinte minutos para resolver seu problema, antes de apresentar-se na sala de estar, onde a velha condessa estaria, então, chegando. A porta da biblioteca estava entreaberta e Elizabeth, virando-se de lado, passou pelo vão estreito, com o livro na mão e o olhar fixo na estante onde o encontrara, no início daquela semana. Para lá se dirigiu, em passos rápidos e silenciosos. — Bom dia, Elizabeth. Um grito abafado escapou-lhe dos lábios. James fitou-a, surpreso com sua reação. — Desculpe se a assustei. — O que está fazendo aqui? — ela indagou, irritada. — Em geral, a biblioteca está sempre deserta, a essa hora da manhã. Ele deu de ombros: — Gosto de ler e lady Danbury me deu permissão para vir aqui, a qualquer hora. — Baixando os olhos até as mãos trêmulas de Elizabeth, que seguravam o livro com força, comentou: — Vejo que você veio devolver um livro. Do que se trata... É interessante? — Nem um pouco. É apenas uma tolice que não consegui terminar de ler — ela respondeu, vaga, tentando guardá-lo de volta na bolsa. — É aquele livro que você estava tentando esconder de mim, outro dia. — Ele reconheceu, com um brilho de triunfo nos olhos. Estendendo a mão, pediu: — Deixe-me vê-lo. 60


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— Não! — ela negou, aflita, recuando um passo e tropeçando no pé de uma pesada poltrona de couro. Perdendo o equilíbrio, ela tentou recuperá-lo, bracejando no ar. E o livro de capa vermelha, escapando-lhe das mãos, descreveu um círculo perfeito, indo cair justamente sobre o assento da poltrona. James avançou para pegá-lo, mas, antes que conseguisse seu intento, Elizabeth conseguiu sentar-se sobre o volume. — É apenas um romance bobo — justificou, rapidamente. — Gosto de romances. — Mas você não gostaria deste, É muito tolo e melodramático, sabe? Você ficaria entediado. — Verdade? — ele murmurou, enquanto seus lábios se entreabriam, numa espécie de meio sorriso. Ela assentiu com a cabeça, freneticamente. — Sim. Aliás, trata-se de um livro para mulheres. — Isso é um tanto discriminatório, você não acha? — Talvez... Bem, só estou tentando poupar o seu tempo. Ele abaixou-se em frente à poltrona e, sempre sorrindo, disse: — Isso é muito gentil de sua parte, mas prefiro julgar o que é entediante, ou não, por mim mesmo. Vamos, deixe-me ver esse livro. — Você não confia na minha capacidade de discernimento? — Não se trata disso. — Primeiro você me julga capaz de chantagem e agora duvida do meu senso crítico e do meu gosto literário. — Você está tentando mudar de assunto, só para me confundir. E, apenas para constar, eu já havia concluído que você não era o chantagista. — Oh, devo me sentir grata por isso? — Deixe de delongas e me mostre o livro, Elizabeth — ele ordenou. — Não. — Saia de cima desse livro, ou vou pegá-lo, de qualquer maneira — ele ameaçou. — Não — ela replicou teimosamente. — Você só está piorando as coisas. — Ele estendeu a mão e, de alguma forma, conseguiu agarrar o canto do livro. — Devasso! — ela exclamou, rubra de vergonha e revolta. — Está se aproveitando da situação para me tocar! — Se eu estivesse acariciando você, sua expressão seria bem diferente, eu garanto — ele disse, baixinho, provocante. — Onde está seu cavalheirismo? — ela apelou. — Não tem vergonha de comportar-se dessa maneira? — Elizabeth, você está parecendo uma galinha querendo chocar um livro. Vamos, desista. 61


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— Pode me insultar o quanto quiser. Daqui eu não me movo. Os dedos fortes e longos de James penetravam entre ela e o assento. Alguns centímetros a mais e ele conseguiria passar o polegar ao redor da borda do livro, tendo assim apoio suficiente para puxá-lo para fora. — Tire sua mão daí — ela disse, por entre os dentes. — Estou avisando! — Só mais um movimento, assim... — Um grande sorriso de triunfo aflorou no belo rosto de James. — Você perdeu, srta. Hotchkiss. — Não! — ela gritou, como se sua própria vida estivesse correndo perigo. James correu pela sala, vitorioso, erguendo o livro no ar como um troféu. Elizabeth ergueu-se, num ímpeto: — James, por favor! — ela implorou. Ele meneou a cabeça, negando-se a atender seu pedido. Vinha pensando havia dias sobre aquele livro, desejando saber o que ele continha. Erguendo os olhos, leu o título: Como Se Casar Com Um Marquês. James piscou repetidas vezes, tentando entender o que seus olhos tinham lhe revelado. Não! Não era possível! Tratava-se, sem dúvida, de uma daquelas terríveis e inexplicáveis coincidências. Como Elizabeth poderia saber de sua verdadeira identidade, por trás do disfarce que ele estava usando? — O que é isso? — perguntou, por fim. — O que lhe parece? — ela respondeu, com outra pergunta. — Uma espécie de guia para jovens mulheres que querem se casar. — Você entendeu direitinho. Agora, faça o favor de devolvê-lo. Tenho que ir ao encontro de lady Danbury. — Esse livro pertence a ela? — James indagou, incrédulo. — Sim, ao que parece. Agora, devolva-o. Pensativo, James folheou o livro. — Por que lady Danbury manteria um livro como este em sua biblioteca? — Não sei — disse Elizabeth, prestes a chorar. — Trata-se de uma obra bastante antiga. Talvez ela a tenha adquirido antes de se casar com lorde Danbury. Agora, deixeme colocá-la de volta no lugar. — Um momento... — Ele deteve-se numa página e leu. — Você nunca deve pressionar excessivamente os lábios, ao sorrir. Tampouco deve escancará-los... Às vezes, a simples sugestão de um sorriso é infinitamente mais misteriosa... E seu trabalho é fascinar seu marquês. — Como eu disse, trata-se de um livro tolo. — Quanto a esse tópico, é evidente que sim. Um sorriso exagerado chega a parecer falso. Mas um sorriso de lábios apertados é igualmente desagradável. Veja se não tenho razão. — E apertando exageradamente os lábios, forjou o mais falso dos sorrisos. — Não creio que a sra. Seeton tenha pensado num administrador de propriedades, como alvo de seu livro — Elizabeth sentenciou, com frieza. — Agora, devolva-me. Ignorando-a totalmente, ele prosseguiu, num tom cada vez mais divertido: 62


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— Acho bem mais misterioso e atraente quando as mulheres sorriem assim. — E entreabriu levemente os lábios, num belo sorriso, que mostrava parcialmente os dentes perfeitos. — Você não concorda comigo? — Oh, não posso acreditar que estou discutindo isso com você! — ela exclamou, exasperada. — Calma, Elizabeth. Temos pelo menos mais dez minutos, antes que lady Danbury termine seu café da manhã. E, para ser franco, estou achando tudo isso fascinante. — Pois eu não estou. James observou-a com atenção. Elizabeth estava em pé, rígida como uma tábua, os punhos cerrados, os braços caídos ao lado do corpo, as faces coradas pela contrariedade e pela ira. — Nossa, você está realmente zangada comigo — ele constatou, surpreso. — Sua perspicácia é surpreendente — ela retrucou, irônica. — Eu estava apenas querendo ser divertido. Não pretendia zombar de você, nem ofendê-la — ele afirmou, com sinceridade. — Pois saiba que foi exatamente isso que você fez. — Elizabeth — disse ele, em tom conciliador —, tudo não passou de uma simples brincadeira. Você com certeza não levou este livro a sério, não é mesmo? Ela não respondeu. O silêncio entre ambos foi se tornando mais tenso e pesado, a ponto de parecer quase palpável. James viu, então, um lampejo de dor naqueles olhos cor de safira. Os lábios de Elizabeth tremiam, denunciando sua profunda angústia, ele constatou, enquanto uma pontada de arrependimento atingia seu coração. — Oh, Deus! Sinto muito, Elizabeth. Ela ergueu o queixo, mas James podia ler, em seu rosto, as emoções intensas e dolorosas que a oprimiam. — Podemos acabar com isso, agora? — ela indagou, friamente. Sem uma palavra, ele entregou-lhe o livro. Ela não agradeceu; apenas tomou-o nas mãos, apertando-o contra o peito. — Eu não sabia que você estava procurando um marido — ele comentou, num tom suave. — Você não sabe nada a meu respeito. Apontando o livro, de maneira um tanto desajeitada, James indagou: — Ele foi útil a você? — Não. A negativa fria e sem vida atingiu James como um poderoso golpe no estômago. O que ele estava fazendo com aquela jovem bela e espirituosa? De súbito, percebia que realmente a estivera atormentando. Precisava de algum modo, apagar a expressão daqueles belos olhos e devolver a eles a alegria costumeira. Precisava ouvi-la rir, uma vez mais, nem que fosse ele próprio o motivo de tal riso. — Posso ajudá-la, de alguma forma? Ela fitou-o com desconfiança: — Como assim? 63


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— Bem, não sou exatamente um expert em relacionamentos afetivos, mas, forçosamente, devo saber mais sobre o assunto do que você. Entende o que quero dizer? — Você por ventura é casado? — ela perguntou, arregalando os olhos. — Não — ele garantiu, com ternura. Essa resposta a fez relaxar, visivelmente. — Oh, graças a Deus! Porque você... você... — Porque eu a beijei? — ele completou. — Sim — ela murmurou, com o rosto em chamas. Erguendo-lhe o queixo, James forçou-a a fitá-lo: — Se eu fosse casado, Elizabeth, jamais beijaria uma mulher, além de minha esposa. — Quanta consideração de sua parte — ela comentou, com uma ponta de sarcasmo. — Bem, voltando ao assunto, eu quis dizer foi que se você está realmente à procura de um marido, ficarei feliz em ajudá-la, no que estiver ao meu alcance. Elizabeth fitou-o, incapaz de acreditar na triste ironia daquele momento. Ali estava ela, em pé diante do homem pelo qual passara a noite chorando e ele se dispunha a ajudá-la a encontrar outro homem para se casar? — Isso não pode estar acontecendo — ela pensou, em voz alta. — Por que essa incredulidade estampada em seu rosto? — Como você poderia me ajudar, se não conhece ninguém nas redondezas? Além disso, é evidente que você não entende nada de moda. James acusou o golpe, retrocedendo um passo. — Desculpe, mas acho que não entendi. — Bem, não querendo ofendê-lo, suas roupas são perfeitamente aceitáveis, mas estão uma década atrás, em relação à moda atual. Até eu, que moro numa província e não sou de reparar nessas coisas, posso dizer isso sem medo de errar. — As suas também se encaixam perfeitamente nessa descrição, ao que me parece — ele opinou, entre surpreso e ofendido. — Eu sei — ela aquiesceu, sem vacilar. — É por isso que preciso da ajuda de alguém que saiba do que está falando. James sorriu, interiormente. Se aquela pirralha impertinente pudesse ver seu guarda-roupa, em Londres, logo mudaria de opinião. Mas isso não vinha ao caso e, assim, ele preferiu mudar de assunto. — Por que está tão ansiosa para se casar, Elizabeth? — Isso não é da sua conta. — Discordo. Afinal, já que vou ajudá-la, preciso de informações, não é verdade? — Que eu me lembre, não concordei em aceitar sua ajuda. James entendeu que qualquer tipo de insistência seria rechaçada. E resolveu contornar o assunto, procurando uma brecha por onde pudesse penetrar as defesas cerradas de Elizabeth. Seus olhos recaíram sobre o livro e ele indagou, num tom casual. — Tem que ser um marquês? Ela piscou, sem entender. 64


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— Como? — O marido que você deseja... Tem mesmo que ser marquês? — Claro que não — ela respondeu, de mau humor. James, que até então não percebera o quanto estava tenso, sentiu-se relaxar. Ao longo de toda sua vida, fora compreendendo, dolorosamente, que as pessoas só davam valor à sua posição e não a quem ele era, de fato. O próprio pai nunca o chamara de filho, mas de meu herdeiro. O velho marquês não soubera como se relacionar com uma criança. E sempre o tratara como um adulto em miniatura. Qualquer transgressão infantil era vista como um insulto ao título. E James aprendera, rapidamente, a manter sua personalidade exuberante, camuflada sob uma máscara de grave obediência. Ao menos enquanto vivera na companhia do pai. Na escola, James fora muito popular, graças ao seu charme natural e sua incrível habilidade nos esportes. Mas sofrera muito antes de entender que tinha de separar os verdadeiros amigos daqueles que o viam apenas como um meio para atingirem algum fim como, por exemplo, a ascensão social. Em Londres, não se perdia tempo com disfarces. Ele era um marquês. Ele tinha uma fortuna e morava em seu próprio castelo. Isso era tudo o que importava às pessoas. A bem da verdade, elas valorizavam também sua aparência e juventude. Mas James nunca tinha ouvido alguém fazer menção à sua inteligência, ao seu senso de humor, ou mesmo ao seu sorriso. Ao conhecer Elizabeth Hotchkiss, James entendera que pela primeira vez uma mulher o apreciava pelo que ele era, no íntimo. E essa grata surpresa preenchera seu coração com uma sensação de paz, inesperada e benfazeja. — Se você não procura um marquês — ele indagou —, então por que resolveu ler esse livro? — Porque estava à mão. Nunca tive a pretensão de me casar com um marquês. Não tenho dote e certamente não represento uma aliança importante para um nobre. — Mas você tem alguém em mente, não é mesmo? — Não — ela respondeu, com firmeza. — Gosta de alguém? Ela ficou em silêncio por um longo momento, antes de dizer, num tom que não disfarçava sua profunda inquietação interior. — Ele não é... apropriado. — E o que seria, exatamente um homem apropriado para você? Ela suspirou, com um misto de tristeza e cansaço, antes de confessar: — Ele precisa ter dinheiro. — Por quê? Lady Danbury não lhe paga o suficiente para se sustentar? — Sim, mas isso não é o bastante para sustentar meus irmãos mais novos. E Lucas tem que ir para Eton. — Entendo... Afinal, ele é um barão e a tradição assim o exige. — Como você sabe do título que Lucas herdou de meu pai? — Lady Danbury deve ter me contado. 65


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Ela encolheu os ombros e deixou escapar um segundo suspiro. Sua voz soou ao mesmo tempo triste e irônica, ao dizer: — De qualquer forma, isso é do conhecimento de todos. Somos, em Surrey, o exemplo vivo da nobreza empobrecida. Tudo o que tenho a oferecer é a linhagem de minha família que, aliás, não é tão significativa assim. — Você parece se esquecer de que é muito bonita. Ela meneou a cabeça, parecendo ainda mais triste. — Oh, por favor. Não precisa tentar me consolar. Ele sorriu, incrédulo. Decididamente, aquela jovem mulher não tinha uma noção exata de seus encantos. — Você é linda, Elizabeth Hotchkiss. Ela fez um gesto vago, seguido de um aceno de negação. James insistiu: — Você tem que confiar em mim. Pois sei do que estou falando. Na certa, deve haver vários homens de posse, no povoado, que gostariam de desposá-la. — Há um — ela confirmou, com desgosto. — Mas é velho, gordo e grosseiro. Minha irmã já disse que vai se internar num convento, se eu me casar com ele. — Entendo. — James coçou o queixo, procurando uma solução para aquele dilema. Parecia-lhe um crime que toda aquela juventude, graça e beleza fossem destinadas a um velho senil e grosseiro, que na certa não saberia apreciar tais qualidades. Talvez houvesse algo que pudesse fazer, James pensou. Afinal, dinheiro não era problema para ele ou, melhor dizendo, para o marquês de Riverdale. Já que o sr. James Siddons, administrador, só tinha seu modesto emprego e a roupa do corpo que estava defasada em dez anos da moda atual, como bem lembrara Elizabeth. Dando asas ao pensamento, ele cogitou na possibilidade de fazer algum tipo de doação anônima. Certamente Elizabeth não seria tão orgulhosa a ponto de recusar uma doação inesperada. Não quando o bem-estar de sua família estava em jogo. James fez uma anotação mental, para lembrar-se de entrar em contato com seu advogado o mais rápido possível. — Pois é isso, sr. James Siddons — ela disse, por fim. — A menos que tenha uma fortuna escondida em algum lugar, não vejo como poderia me ajudar. — Bem — disse ele, tentando evitar uma mentira deslavada —, pensei em ajudá-la de maneira diferente. — Como? — Tenho certo traquejo social, digamos assim. Afinal, apesar de meus modestos provimentos, freqüento a sociedade de Londres. — Londres? — ela repetiu, com desgosto. — Como eu poderia me apresentar em Londres, com essas roupas? Onde me abrigaria? Com quem sairia, naquela cidade e com que recursos? — Bem, eu... — Fique certo de que, se eu tivesse algum dinheiro, certamente o usaria para melhorar o nível de vida de minha família. E também para mandar Lucas a Eton. James fitou-a com certa ternura. E sua pergunta soou mais como uma constatação. 66


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— Você realmente ama sua família, não é verdade? — Quanto a isso, não tenha a menor dúvida. Eu seria capaz de quase tudo, por meus irmãos. — A vida realmente não é justa. Ela riu. — Não se trata de justiça e sim de pobreza, James. Tenho certeza de que você compreende isso perfeitamente. James sentiu uma pontada de culpa. Em toda a sua vida, nunca tivera que se preocupar com dinheiro. Seu pai, enquanto vivo, concedera-lhe um subsídio monstruoso. E, após herdar o título, ele tomara posse de uma fortuna cujos limites nunca o interessaram verdadeiramente. Longe de suspeitar o que se passava no interior do homem à sua frente, Elizabeth olhava através da janela para o jardim, onde uma brisa suave fazia vibrar as folhas do olmo favorito de lady Danbury. — Há certas horas — ela sussurrou — em que eu gostaria que... James apurou os sentidos, para ouvir o que ia pela alma daquela gentil criatura. Mas Elizabeth se deteve, meneando a cabeça, com um sorriso cansado. — Isso não importa — ela disse, por fim. — Tenho que ir ao encontro de lady Danbury. Ela deve chegar à sala a qualquer momento e certamente irá me chamar. — Elizabeth — A voz de lady Danbury chegou até ambos, num tom surpreendentemente forte. — Está vendo como eu a conheço bem? — Elizabeth comentou. — É realmente impressionante — James assentiu, com um sorriso. — Elizabeth! — Céus! Do que será que ela está precisando, com tanta urgência, para me chamar dessa maneira? — De sua companhia, minha cara — ele respondeu, num tom suave. — E não posso culpá-la, por isso. Afinal, estar com você é algo que pode ser extremamente agradável. Elizabeth voltou-lhe as costas, para esconder o rubor que aquele simples comentário havia provocado em suas faces. Já estava saindo da biblioteca, .quando James interpelou-a: — O livro... Você certamente não vai querer levá-lo para a sala, não é mesmo? — Oh, claro! Com um olhar atento, James observou-a voltar sobre os próprios passos e seguir até a estante, onde colocou o livro, cuidadosamente numa posição diferente da dos outros volumes, fora da ordem habitual. Em seguida, ela afastou-se, como se quisesse certificarse de que alcançara o efeito desejado. Franzindo deliciosamente os lábios, avançou e, com um leve toque, moveu-o mais para a direita. — Tenho certeza de que lady Danbury não vai reparar se o livro estiver alguns centímetros à direita ou à esquerda de seu lugar original — James afirmou. Ignorando suas palavras, ela despediu-se com um leve aceno e saiu, quase correndo. 67


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Aproximando-se da porta, James observou-a enquanto se afastava, até desaparecer numa curva do corredor. Em seguida fechou a porta, caminhou até a estante, pegou o livro e começou a ler.

— Pensei que a senhora fosse uma pessoa metódica — Elizabeth confessou, surpresa. — E que uma das regras principais de sua vida fosse a preservação e a valorização da rotina. — Sem dúvida — respondeu lady Danbury, com um sorriso maroto. — Mas será que nunca lhe falei sobre o prazer quase pecaminoso que os velhos sentem, quando quebram as regras? — Mas... — Feche a boca, Elizabeth. Você está começando a se parecer com um peixe fora d'água. E deixe-me esclarecer uma particularidade referente às regras: todas, sem exceção, precisam de reajustes periódicos, para continuarem válidas. Elizabeth conseguiu manter-se em silêncio, embora ainda não tivesse absorvido totalmente a novidade. Com seu senso de humor inato, procurou na comicidade uma forma de lidar com a perplexidade que a abalava e, assim, começou a olhar por trás das cortinas, como se buscasse algo. — Que diabos você está procurando? — O ventríloquo. Vejo a senhora movendo a boca, mas as palavras não correspondem à lady Danbury que conheço. — Muito engraçado — disse a velha condessa, um tom sério. — Pois fique sabendo, minha cara, que passei a achar as sestas prodigiosamente refrescantes. Com um suspiro dramático, Elizabeth desistiu de argumentar contra aquela falta de lógica. Erguendo as mãos, disse: — Nesse caso, só me resta deixá-la sozinha para a sua sesta das nove horas da manhã. — Ela frisou bem o horário. — Sim. Faça isso. E feche a porta, quando sair. Quero silêncio absoluto. — Ainda bem — resmungou Elizabeth. — Pensei que fosse ordenar que eu trouxesse os criados com panelas e frigideiras, para embalar sua sesta refrescante com um batuque matinal. — Eu ouvi isso! — Ótimo! Ao menos sua audição continua perfeita. Lady Danbury desatou a rir e por fim comentou: — Você sabe como divertir uma velha senhora, Elizabeth Hotchkiss. — Ora, muito obrigada. — Não há de quê. Bem, trate de me despertar em setenta minutos, sim? — Setenta minutos? — Elizabeth repetiu, novamente surpresa. — Sim. Uma hora é pouco... E, uma hora e meia, muito. Setenta minutos me parece o tempo ideal para a minha sesta de hoje. 68


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Elizabeth meneou a cabeça, enquanto caminhava em direção à porta. Antes de sair, voltou-se e perguntou, apenas como desencargo de consciência: — A senhora tem certeza de que está se sentindo bem? — Estou ótima. Sinto cada centímetro do meu corpo em perfeitas condições. Tal como uma mulher de cinqüenta e oito anos de idade deve se sentir. — O que é um milagre, visto que a senhora comemorou essa data há muitos e muitos anos. — Psiu, sua impertinente! Dê o fora daqui, antes que eu reduza seu salário. Elizabeth arqueou as sobrancelhas, mas calou um comentário que seria definitivamente deselegante. Ainda relutante deixou a sala. Vagando pela casa, pensou em como ocuparia o tempo estipulado por lady Danbury para sua sesta. Se soubesse que isso iria ocorrer, teria trazido o bordado no qual trabalhava, nos raros momentos vagos, antes de dormir. Caminhando ao sabor do acaso, Elizabeth passou pela biblioteca que, para sua surpresa, permanecia com a porta entreaberta. Já ia fechá-la, quando ouviu seu nome: — Elizabeth, poderia juntar-se a mim, por um momento? A voz inconfundível de James fez com que ela estremecesse, involuntariamente. — Você ainda está por aqui? — Sim. Resolvi dar uma espiada no livro da sra. Seeton e acabei me deixando absorver pela leitura, perdendo a noção do tempo. — Oh, não. — Pode parecer brincadeira, mas o modo de pensar da tal senhora tem algo de singular e encantador. Elizabeth tapou os ouvidos com as mãos. — Eu não quero ouvir falar disso. Sorrindo, James aproximou-se e, como se Elizabeth fosse realmente surda, pronunciou claramente as seguintes palavras: — O que falta ao livro, para ser realmente eficaz, é uma visão masculina sobre os assuntos ali abordados. É simples assim. Deixando cair os braços, com desânimo, ela perguntou: — Por que você está lendo essa tolice? — Minha curiosidade é insaciável — ele respondeu. — Além disso, o resgate heróico do livro, ainda há pouco, excitou minha imaginação. — Heróico? — ela repetiu. — Você o arrancou debaixo do meu... Bem... Debaixo de mim — concluiu, corando miseravelmente. Percebendo seu embaraço, James brindou-a com um novo sorriso, simplesmente devastador. E Elizabeth pensou, uma vez mais, no quanto aquele homem sabia ser amável e solidário. Claro que ela não ignorava que havia um lado perigoso e totalmente misterioso na personalidade de James Siddons. Algo estranhamente quente, que tornava o ar mais denso, em certos momentos, quando sua voz grave vibrava macia e íntima, acariciando-lhe pontos sensíveis e intocados, que ela ignorava existir dentro de si mesma. — Em que você está pensando? — Ela o ouviu indagar, como que de muito longe. 69


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— Estava tentando me lembrar da última vez em que alguém me fez sentir assim... — De súbito, ela se interrompeu. — Vamos, prossiga — ele pediu, com um brilho diferente nos olhos. — Assim... como? — Assim, tão ridícula e indevida — ela terminou, lentamente. — Ora, não seja boba. — É verdade. Que mulher precisaria de um livro como esse da sra. Seeton? — Muitas, eu suponho. Se não, por que ele teria sido impresso? — Faz sentido, mas, estranhamente, não me sinto reconfortada com isso. — O livro tem lá seus acertos, mas, como já disse, falta uma visão masculina sobre os artigos e regras nele contidos. — Nada posso dizer sobre isso, mas devo confessar que me pareceu muito difícil segui-las — ela admitiu. James começou a andar de um lado ao outro, enquanto seus olhos castanhos fixavam algum ponto distante, perdidos em profundos pensamentos. — Parece-me óbvio que faltou uma pesquisa de campo a sra. Seeton. Supondo-se que esse seja seu verdadeiro nome, o que duvido — ele opinou. — Seus artigos e regras são aceitáveis, mas sua metodologia é falha. Ela afirma que se você seguir seus preceitos, estará apta a se casar com um marquês. — Creio que, no caso, devemos entender que a palavra marquês abrange todos os homens aceitáveis, no que se refere a um casamento vantajoso — Elizabeth afirmou. — Isso não faz grande diferença. Marqueses ou não, pouco importa. No final das contas, somos todos homens em primeiro lugar. — James inclinou-se e fitou-a com intensidade. — Sem nossa opinião como a sra. Seeton poderia afirmar que seus preceitos são adequados? — Creio que ela usou sua experiência pessoal e, provavelmente, a de suas amigas íntimas... — Para obter um resultado que não considero lá muito lógico — ele a interrompeu. — Posso lhe assegurar que se uma mulher se aproximasse de mim, seguindo os artigos e regras desse livro, o único resultado que ela conseguiria seria me fazer fugir de sua presença como o diabo da cruz. — Mas nenhuma mulher que lesse esse livro se aproximaria de você — Elizabeth comentou. — Seria contra as regras, pelo que posso me lembrar. Afinal, você não é um marquês. E sua situação econômica o torna inaceitável. James engoliu em seco, mas reagiu à altura: — Estou falando hipoteticamente. Como qualquer homem, entende? — Mas você não fugiu de mim — ela argumentou, com um sorriso malicioso. — Como assim? O sorriso de Elizabeth tornou-se mais largo, como se ela sentisse certo prazer em provocá-lo. — Parece que você não atentou para o Artigo 17.

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Deixando transparecer uma ponta de nervosismo, James folheou o livro até encontrar o item mencionado. Enquanto lia, sua expressão mudava da simples surpresa para a descrença e, por fim, para a perplexidade. — Você praticou esse artigo... comigo? — ele indagou. — Dito assim, parece um tanto frio e inescrupuloso de minha parte. Mas a verdade é que sim, eu fiz isso, embora me sentisse um tanto culpada, devo confessar. — Com um suspiro, ela concluiu: — Realmente, não tive escolha. Afinal, se não fosse com você, com quem mais seria? — De fato — ele assentiu, irritado. James não se aborrecia por ter sido usado, como cobaia, numa experiência social irrelevante. Não... Na verdade, aquilo o divertia. Mas, para um homem que se orgulhava de sua percepção e instinto, não ter percebido que estava sendo levado a participar de um jogo tão básico, era algo bem humilhante. — Não vou mais fazer isso — ela prometeu. — Provavelmente, isso foi um pouco injusto, de minha parte. — Isso não importa, agora — ele sentenciou, recuperando o controle da situação. — A pergunta que permanece é: para quem você praticava, comigo, os preceitos do livro? — Não entendi a pergunta — ela confessou. Sentando-se numa poltrona confortável, James considerou que sua experiência em livrar-se das armadilhas preparadas pelas senhoritas casadouras e suas respectivas mães, em Londres, poderia ser de utilidade para Elizabeth. Bastando, para tanto, inverter o quadro. Sim, de fato... Como marquês de Riverdale, James tornara-se uma espécie de expert em evitar o casamento. Então, seguindo na direção contrária, não seria difícil conseguir um matrimônio vantajoso para aquela graciosa jovem, que o olhava com expectativa. Bela como era, Elizabeth não teria dificuldade em encantar qualquer homem, sobre a Terra. Ele próprio sentira seu charme c encanto, atuando sobre os nervos e outras partes menos mencionáveis de sua anatomia. — Sr. Siddons?... James? Ele fitou-a, com ar distante, sabendo que estivera devaneando. — Sim? — O que quis dizer com sua pergunta? — Eu quis dizer algo muito simples: quando você estava praticando comigo, onde e com quem pretendia usar os conhecimentos adquiridos? — Não sei — ela confessou. — Na verdade, pensei vagamente que se estivesse presente a uma das reuniões que lady Danbury promove, teria uma pequena chance de encontrar um cavalheiro aceitável. — E ela tem alguma reunião agendada? — Sim. Para o sábado. Será uma pequena festa, nos jardins. James teve de usar todo seu autocontrole para não demonstrar o desgosto que essa notícia lhe causava. 71


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Raios! Ele pensou. Sua tia não o avisara sobre tal evento. E era bastante provável que alguns dos convidados o conhecessem. Seria um desastre, para seu disfarce como administrador, se algum nobre chato e inconveniente batesse em seu ombro chamando-o de marquês de Riverdale na frente de Elizabeth. — Entretanto — ela prosseguiu — não acredito que alguém esteja planejando passar a noite em Danbury House, após a festa. — De qualquer forma, esta será uma excelente oportunidade para você. — Talvez — ela comentou, não parecendo tão animada quanto ele esperava. — Tudo o que você precisa fazer é identificar os homens solteiros e escolher o melhor, entre eles. — Já verifiquei a lista de convidados; vários deles virão desacompanhados. — Elizabeth fez uma pausa. — Mas precisamos considerar a possibilidade do cavalheiro em questão não simpatizar comigo. Já pensou nisso? — Essa possibilidade deixará de existir no momento em que o hipotético cavalheiro conhecê-la. É impossível resistir a você, acredite. Elizabeth levou a mão à testa, enquanto ela o fitava com espanto. Ou muito se enganava, ou James estava mesmo se oferecendo para ajudá-la a encontrar um marido. Na verdade, ela não compreendia por que estava tão surpresa. Afinal, nada existira entre ambos, além daquele beijo inesperado. E, também, não fora ela mesma quem dissera, com todas as letras, que não poderia desposar um simples administrador, sem dinheiro ou posses? Então, por que se sentia assim, tão deprimida de repente? Com um suspiro de pura melancolia, ela então perguntou: — E por onde começamos? — Bem, não temos muito tempo. E não há nada que possamos fazer a respeito de seu guarda-roupa. Mesmo concordando inteiramente com aquela afirmação, Elizabeth não pôde deixar de sentir-se um tanto ofendida. Por isso retrucou, à altura: — Quanto a isso, estamos empatados. — Ei, que susceptibilidade é essa, agora? — ele indagou, sorrindo. — Se bem me lembro, você não teve pudores em insultar o meu guarda-roupa. — Mas fui um tanto injusta. Suas botas, apesar de um pouco velhas, são muito benfeitas. Ele olhou para baixo e sorriu, considerando suas botas: — Estão um pouco desgastadas, mas amanhã mesmo vou lustrá-las, prometo. Esse despojamento causou um forte efeito em Elizabeth, que não pôde deixar de dizer: — Creio que lhe devo desculpas pela maneira como me referi a sua maneira de se vestir. Foi realmente grosseiro de minha parte. James fitou-a com uma expressão entre surpresa e terna: — Sabe que uma das qualidades que mais aprecio em você é sua amabilidade natural? Essa maneira suave com que você busca ver a humanidade, pelo lado melhor e positivo. E, ao contrário das outras pessoas amáveis que conheço, você não procura 72


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impor suas idéias ou conselhos. Coisas que geralmente soam enfadonhas e aborrecidas. — Após uma pausa, ele prosseguiu. — Sob toda essa bondade, que para mim é fruto da compreensão que, por sua vez, deriva de uma clara inteligência, você possui um senso de humor ímpar e uma presença adorável. Oh, Deus! Ela pensou. Se eu continuar deixando-o falar assim, vou cair de amores por ele agora mesmo, neste exato momento e local. — Penso que não há nenhum mal num humor sem malícia — ela comentou, com simplicidade, após alguns instantes. — Você não conseguiria ser mal-intencionada, nem que tivesse os melhores professores no assunto, Elizabeth Hotchkiss. — Então, suponho que isso nos torna amigos — ela afirmou, comovida, em voz baixa. Ele sorriu, sentindo o pulsar forte do próprio coração, que parecia saltar-lhe no peito. — Não temos outra escolha, não é mesmo? Elizabeth permaneceu em silêncio, concordando com aquela dura realidade. O momento ameaçava tornar-se triste, quando James completou, com um sorriso divertido. — Afinal, agora conheço seus segredos mais constrangedores. Um riso nervoso escapou dos lábios de Elizabeth. — É curioso, não? Pela primeira vez, tenho um amigo do sexo masculino, ainda jovem. E esse amigo pretende encontrar um marido para mim... É realmente estranho. — Bem, acho que posso fazer um trabalho melhor do que a sra. Seeton, desde que você permita. — Fitando-a com intensidade, ele indagou. — Você quer minha ajuda, não é mesmo? — Bem... Eu... Sim. — Então, precisamos começar imediatamente — ele afirmou, forjando um tom de entusiasmo. Elizabeth consultou um relógio importado da Suíça, sobre uma mesa de canto. — Tenho que voltar à sala em menos de trinta minutos James folheou o livro, com ar pensativo. — De qualquer modo, preciso estabelecer um plano de estudo... Por que não nos encontramos depois do seu expediente, aqui mesmo, na biblioteca? — Não acho que seria uma boa idéia. Afinal, como iríamos explicar esse fato a lady Danbury? — Tem razão — James concordou. — Bem, a que horas você costuma sair de Danbury House? — As quatro e meia da tarde. — Então, faremos assim: estarei no portão principal, esperando por você, nesse horário. Podemos então caminhar juntos até sua casa e, no caminho, falaremos sobre esse assunto. — Combinado — ela disse, caminhando em direção à porta. — Bom trabalho com o livro da sra. Seeton. 73


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— Obrigado — ele respondeu, com um meio sorriso, já absorvido na leitura. Elizabeth deixou a biblioteca com um confuso sentimento de frustração, mesclado a uma vaga esperança. Não sabia o que esperar daquele arranjo, nem como se portar à altura da nova situação. Tinha agora um aliado pelo qual seu coração pulsava forte demais para que se sentisse tranqüila. — Deus! — ela exclamou, baixinho. — Em que estou me metendo? — Miau... Elizabeth olhou para baixo e lá estava Malcolm, o gato, fitando-a fixamente. — O que quer, espertinho? Zombar de minhas incertezas? Sentado nas patas traseiras, Malcolm a observava com neutralidade felina, sem demonstrar simpatia ou aversão. — É claro que estou numa encrenca. E você não ajuda em nada, olhando-me dessa maneira. — Elizabeth! — A voz de James chegou até ela fazendo-a estremecer — Você está conversando com o gato? Voltando-se, com o rosto em chamas, ela o viu parado à porta da biblioteca, o livro vermelho nas mãos, um sorriso incrédulo no belo rosto. — Creio que estou praticando o non sense, já que minha vida, ao que tudo indica, promete caminhar nesse sentido — ela respondeu, sem pensar. O riso claro de James envolveu-a como uma rajada de calor, que acompanhou-a pelo corredor quando ela deu-lhe as costas e se afastou, caminhando rapidamente.

CAPÍTULO V

James chegou ao portão principal de Danbury House às quatro horas e quinze minutos. Sabia que era ainda muito cedo, mas, por algum motivo não conseguira evitar, seus pés o haviam conduzido ao local do encontro com quinze minutos de antecedência. Estivera inquieto durante toda a tarde, tamborilando com os dedos sobre móveis e mesas, numa clara demonstração de seu nervosismo. Bem que tentara escrever alguma coisa sobre o plano de ação que pretendia desenvolver com Elizabeth, mas as palavras simplesmente não vinham. James não tinha a menor idéia de como treinar uma jovem lady para a sociedade. Na verdade, a única pessoa que conhecia com essas características era Caroline, esposa de seu melhor amigo, Blake Ravenscroft. E ela havia se preparado sozinha para a vida social. Todas as outras eram do tipo que a sra. Seeton tentava moldar, com seus artigos e regras duvidosos. Em resumo, eram jovens casadouras responsáveis pelo grande alívio que ele sentira ao deixar Londres.

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Tentar ajudar Elizabeth a resolver seu problema trouxera uma série de perguntas à mente de James: o que um homem, com intenções matrimoniais, esperava encontrar numa jovem mulher? Essa pergunta o levara a considerar sua própria condição de solteiro, que um dia teria de mudar. Então, a questão era perguntar o que ele próprio desejava, de uma mulher. Difícil responder a essa pergunta, aparentemente simples. Mais fácil seria dizer o que o aborrecia nas mulheres, o que não queria delas. Passar o resto da vida ao lado de uma mulher obediente e submissa, uma tímida flor insegura de si e incapaz de opinião própria, seria uma triste perspectiva para ele. Principalmente considerando que quase todas as jovens desse tipo tinham mães extremamente falantes, irredutíveis e com opiniões severas. Mas, pensando bem, ele concluiu que não estava sendo totalmente justo, em seu ponto de vista. Conhecera, sim, algumas jovens mulheres interessantes. Não muitas, mas conhecera. Poderia ter pensado em casar-se com uma dessas duas ou três raridades, sem temer arruinar sua própria vida. Não seria um casamento por amor e a paixão inevitavelmente bateria asas em pouco tempo. Mas havia a possibilidade de uma relação amigável. James então se perguntou o que despertara sua atenção naquelas poucas jovens mulheres de quem se lembrara. E, dessa vez, a resposta não foi difícil: uma beleza rara, que vinha da intensa alegria de viver, um sorriso encantador e verdadeiro, uma certa luz no olhar... Sim, eram essas as características que aquelas jovens tinham em comum. O mais interessante era que o tempo comprovara que ele não era o único a pensar assim. Pois elas haviam se casado muito cedo, com homens por quem ele nutria admiração e respeito. Uma coisa era certa, ele decidiu: faria tudo o que pudesse para que Elizabeth não perdesse o que tinha de mais precioso em seu caráter, que era o fato de ser ela mesma... E única! Elizabeth saiu de Danbury House e caminhou até o portão principal, com o coração pulsando forte. Estava bastante nervosa. Aceitara, embora relutante, a ajuda de James para encontrar um marido. Mas isso não fazia o menor sentido, considerando-se o fato de que passara uma noite chorando por constatar que poderia amá-lo. Mas não casar-se com ele. Um suspiro de aflição brotou-lhe do peito. Sempre que estava com James, seus olhos buscavam aqueles lábios que a haviam beijado. E então crescia em seu íntimo um desejo intenso de que aquilo se repetisse, não uma, mas muitas vezes. E pensar que ambos, juntos, estavam prestes a se dedicar a um projeto que visava encontrar um marido para ela. Um homem por quem provavelmente não se apaixonaria, nunca. Já que seu coração, ao que tudo indicava, já tinha dono. Mas de qualquer forma, sua vida emocional deixara de ser uma página em branco, depois daquele beijo trocado com James. Com um profundo sentimento de melancolia, ela lembrou-se de que havia lido Shakespeare e que agora, mais do que nunca, confiava no poeta quando ele dizia que era melhor perder um amor do que jamais ter amado. James a aguardava junto ao portão. Ao vê-la, caminhou para ela, com seu andar leve e elegante, enquanto a brisa da tarde despenteava seus cabelos castanhos e escuros. — Elizabeth... Então você veio! — Está surpreso? — ela perguntou. 75


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— Bem, confesso que pensei na possibilidade de você ter mudado de idéia... Foi tolice minha? — Não exatamente. — E ela confessou: — Claro que tive dúvidas. Afinal, esse plano é a coisa mais estranha que já me aconteceu. — Não sei o que dizer, quanto a isso — ele murmurou, enquanto uma nuvem de tristeza e dúvida estampava-se em seus olhos. — De qualquer modo, eu não poderia evitar esse encontro. — E ela explicou: — Este é o único caminho de Danbury House à minha casa. — Que sorte, a minha — ele comentou, com uma ponta de ironia. — Isto não teve nada a ver com a sorte, embora me pareça, às vezes, que ela tem certa predileção por você. — Por que diz isso? — ele indagou, sem entender. Ela deu de ombros: — Não sei. Mas você parece ser o tipo de homem que aceita o próprio destino. E isso é uma sorte. — Suspeito que você também faça parte desse grupo. — Em certo sentido, sim. Eu poderia ter desistido da minha família há anos, mas não o fiz. Vários parentes se ofereceram para levar meus irmãos para suas casas... Principalmente Lucas. — Por que, especialmente, ele? — Pelo título que carrega, é óbvio. — Ela sorriu, com certo sarcasmo. — Compreendo. — James tomou-lhe o braço e apontando para o sul, perguntou. — É por ali? Ela assentiu com um gesto de cabeça e ambos caminharam por algum tempo, em silêncio, até que James indagou: — De onde você tirou a idéia de que sou o tipo de homem que está de acordo com seu destino? Ela o considerou longamente, antes de responder: — É evidente, por sua educação, cultura, e autoconfiança que você já conheceu tempos melhores. No entanto, parece não se importar com um trabalho aborrecido, mal pago e claramente aquém de sua capacidade. — Continue — ele pediu, interessado. Ela respirou fundo e prosseguiu com seu raciocínio: — Quando um homem passa por tempos difíceis, há um bom número de coisas que ele pode fazer. Há sempre opções para prosseguir e tentar reverter a situação. Ele pode entrar para o Exército, ou embarcar num navio mercante. Pode até tornar-se administrador de imóveis, como você o fez. James não protestou diante daquela ousada leitura que Elizabeth acabava de fazer a seu respeito. Apenas sorriu e aguardou a conclusão do raciocínio que ela desenvolvia. — Já para uma mulher, com certa cultura e habilidades, à procura de trabalho, não há muitas opções. O cargo de governanta é melhor remunerado do que o de dama de companhia. Mas duvido de que haja empregadores tão amáveis, a ponto de aceitar que a governanta traga três irmãos menores para morar com ela na ala dos empregados. — Isso faz sentido — James opinou. 76


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— Restam três opções para essa jovem, caso ela seja razoavelmente bonita e tiver certa flexibilidade de caráter e costumes: entrar para o teatro, tornar-se amante de um homem rico... Ou se casar. Quanto a mim, confesso que não tenho nenhuma inclinação ou talento para atuar. E não gostaria de envergonhar minha família, aceitando um relacionamento ilícito. — Dando de ombros, ela finalizou. — A alternativa que me resta é o casamento. E o fato de aceitar essa realidade me torna partícipe de meu próprio destino... Em resumo, acho que sou uma sobrevivente, assim como você, James Siddons. Só que a sorte me quis mulher. — Elizabeth fez uma pausa. Seus lábios tremiam levemente, como se indecisos entre se abrirem num sorriso irônico, de autocrítica, ou se contraírem numa expressão de profunda tristeza. Por fim, ela indagou, baixinho. — Tudo isso soa terrivelmente prosaico e de mau gosto, não é mesmo? James não respondeu, mantendo-se em silêncio. Sempre se considerara uma pessoa de mente aberta, mas jamais atentara para a vida difícil a que era obrigada uma jovem mulher de nome nobre, mas sem fortuna. — Por que você está me olhando desse jeito? — Elizabeth perguntou, ao fim de alguns instantes. — Respeito. — O que quer dizer com isso? — Quero dizer que eu já a admirava como uma jovem extraordinariamente inteligente e divertida, mas agora percebo que você merece meu respeito, junto com toda essa admiração — ele respondeu, sincero. — Oh — Elizabeth corou, baixando os olhos. — Eu não pretendia deixá-la embaraçada — ele se desculpou. — É que não estou acostumada a receber elogios desse teor — ela explicou, num fio de voz. — Fui extremamente sincero, pode acreditar nisso. — Sorrindo, James prosseguiu, em outro tom: — Mas agora devemos começar nosso trabalho e penso que não há nenhuma razão para que ele não seja divertido. Ela limpou a garganta. — O que você tem em mente? — Temos que nos concentrar num tópico, apenas. Quero lhe falar sobre certos aspectos do relacionamento homem-mulher que não consta dos ensinamentos da sra. Seeton e que talvez não lhe tenha ocorrido. — Do que se trata? — ela indagou, interessada. — De defender sua integridade física. Elizabeth deixou cair o queixo, enquanto seus olhos cor de safira se arregalavam, numa expressão de espanto. — Você está falando que existe a possibilidade de que eu seja atacada por um eventual pretendente? — Nunca se sabe. Homens entusiasmados costumam ser afoitos, principalmente diante de uma jovem a quem julgam inocente e indefesa. — Estou perplexa — ela confessou.

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— Mas não deveria. Um homem sempre tenta certas intimidades com uma jovem, antes de lhe propor casamento. — Até mesmo um cavalheiro? — Você perderia grande parte de sua confiança no mundo se soubesse do que são capazes os cavalheiros, quando movidos por paixão e álcool. — Não todos, eu espero... — Ora, Elizabeth, eu lhe tenho respeito e admiração e, no entanto, tentei e consegui beijá-la. — Bem... Mas isso foi diferente. — Talvez. Em todo caso, é melhor confiar em mim quando lhe digo que deve se prevenir contra avanços indesejados. — Muito poético — ela ironizou. — Nem um pouco, concordo, mas isso é tão real quanto necessário. — E o que devo fazer? Carregar um punhal, dentro da bolsa? Ele riu, negando com um gesto de cabeça, enquanto respondia: — Uma sombrinha nas mãos seria mais do que suficiente. — Supondo-se que eu tivesse tal artefato... o que deveria fazer, no caso de uma aproximação indevida e excessiva? Abri-la e me esconder atrás dela? James tornou a rir, agora com mais soltura, e demorou alguns instantes para responder: — É muito simples. — Curvando-se, apanhou uma vara curta, à beira do caminho, e começou a girá-la na mão, com notável destreza. — Segure-a pelo meio e use o cabo como a ponta de um aríete. Vamos, pegue-a. Sentindo-se um tanto ridícula, Elizabeth obedeceu. — E agora, o que faço? Como resposta, ele avançou e prendeu-a firmemente entre os braços. Completamente surpresa, Elizabeth quis protestar, mas a proteção dos braços fortes e o calor daquele peito largo a convidavam pousar o rosto ali, esquecendo todos os problemas que a afligiam. Foi com voz trêmula que ela indagou: — E agora, como devo agir? — Reaja. — Como, se você está me impedindo de fazer qualquer movimento? — É essa a idéia. Use a sombrinha. — Impossível. — Tente, ao menos. Sem poder mover os braços, Elizabeth tentou raciocinar. Uma súbita inspiração levou-a a pisar, com toda a força, o pé de James. — Ui! — ele exclamou, afrouxando o aperto e curvando-se levemente. Sentindo que agora havia espaço suficiente, ela ergueu a vara, que ainda trazia na mão. O choque da ponta da vara no rosto de James, ainda curvado, vibrou pela madeira 78


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até os dedos de Elizabeth, ao mesmo tempo em que ele recuava desajeitadamente, deixando-a livre. — Funciona! — ela exclamou, vitoriosa. — É incrível, mas realmente funciona! — Só então percebeu que James tinha uma das mãos sobre a face direita e estava um tanto pálido. — Oh, não! Eu machuquei você? — Essa era a idéia inicial, eu suponho — ele resmungou. — Por que não se esquivou? — ela perguntou, surpresa. — Porque eu não esperava por aquele pisão no pé. Onde você aprendeu isso? — Agi por instinto, eu acho. Mas, deixe-me ver o seu rosto. Vamos, tire a mão. Meu Deus! — Ela engoliu em seco. — Está muito mal? — Bem, digamos que uma compressa fria talvez pudesse evitar um feio hematoma em seu rosto. — Maldição... — ele praguejou, baixinho. — Não é preciso ser grosseiro — ela reagiu, um tanto irritada — Afinal, eu estava apenas seguindo suas orientações. — Com o improviso brilhante de um pisão no pé. — Ora, o que você esperava? Uma mulher tem que usar seus recursos numa situação de emergência. Estou errada? — Não, de modo algum. Você se saiu muito bem no teste — ele reconheceu. — Acho até que não precisaremos voltar ao tópico sobre segurança pessoal, no decorrer de nossas conversas. — Perfeito — Ela abriu-se toda, num largo sorriso. — Não esperava me sair assim, tão bem. — Nem eu — ele confessou, já conformado. — Na verdade, como sombrinhas são mais usuais em Londres do que em Danbury House, pensei na possibilidade de carregar um cinzeiro dentro da bolsa. — Um cinzeiro? — ele repetiu, temeroso. — Sim... Como aquele, de bronze, que fica sobre a lareira da sala de estar de Danbury House. Eu poderia pedir permissão a lady Danbury. James contraiu o rosto dolorido, ao pensar no impacto daquela peça maciça contra um osso qualquer de sua face. — Não é muito pesado? — Talvez. Mas o impacto seria proporcional ao peso. Eu só precisaria de espaço para girar o corpo. — Entregue ao entusiasmo, Elizabeth custou a reparar na expressão alarmada de James. E, quando o fez, imaginou que isso se devesse à dor que ele estava sentindo. Um tanto aflita, disse: — Oh, aqui estou eu, falando pelos cotovelos, quando deveria me preocupar em cuidar de você. Vamos até minha casa, para tratarmos desse ferimento. — Você acha necessário? — Tenho certeza. — Então, está bem. 79


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Ambos retomaram a caminhada e, após alguns instantes, James disse: — Já que não temos mais que nos preocupar com o aspecto de sua defesa pessoal, creio que devemos avançar em outros tópicos, visando a festa de lady Danbury. Que assunto você gostaria de abordar? — Talvez você pudesse me esclarecer alguma coisa sobre a arte do flerte. — Quanto a isso, acho que você não tem que se preocupar. — Você está enganado. Não tenho a menor idéia de como me portar, de como agir ou falar na presença de homens. — Comigo você age com bastante espontaneidade. — Você não conta. Surpreso, ele indagou: — Por que não? — Não sei explicar o motivo — ela se justificou, agitando as mãos, buscando as palavras certas. — Com você, tudo é mais simples. Em resumo, você é diferente. — Nem tanto, Elizabeth. Afinal, faço parte do gênero masculino. — Claro que sim. Mas você é do tipo gentil e receptivo. — Nem sempre — ele avisou. Assumindo a postura e autoridade do marquês de Riverdale, que fazia recuar os mais afoitos e estabelecia o respeito entre seus pares, na Inglaterra, James argumentou: — E se eu olhasse para você... assim? Elizabeth o fitou, como se de súbito o desconhecesse. Mas logo a perplexidade cedeu lugar ao humor e ela desatou numa sonora gargalhada. — Oh, pare com isso! Você está ridículo. — Como? — ele balbuciou. — Você parece um menino fingindo ser Duque. E sei o que estou dizendo, porque meu irmão mais novo já tentou esse mesmo truque comigo, muitas vezes. Com o orgulho ferido, ele indagou: — E quantos anos tem o seu irmão? — Lucas tem oito anos, mas... — O restante da frase perdeu-se num novo acesso de riso. James não se lembrava da última vez em que alguém havia zombado dele. E, particularmente, não gostava nem um pouco de ser comparado a um menino de oito anos de idade. — Posso assegurar que... — ele começou, num tom gélido, mas não concluiu a frase. — Não se esforce tanto — ela aconselhou, num tom divertido. — Você está parecendo um daqueles atores de pantomimas interpretando um aristocrata. Nunca, em toda a sua vida, James sentira-se mais tentado a revelar sua identidade, nem que fosse apenas para calar aquele riso que o incomodava e feria como um deboche. Mas, por outro lado, havia muito encanto na qualidade de um riso sincero, ele pensou, tentando controlar seu impulso. 80


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— Oh, por favor, não se sinta insultado, James. Na verdade, estou lhe fazendo um elogio. Você é um ser humano bom demais para pertencer à aristocracia enfatuada e fútil. Com essa última tirada, Elizabeth decididamente aplacou os últimos vestígios de irritação que ainda restavam em James. Mais uma vez, ele se sentia encantado com a alegria e beleza de sua mais jovem amiga, mas, mesmo assim, permaneceu sério e em silêncio. Isso não passou despercebido a Elizabeth que, tocando-lhe o braço, pediu, num tom meigo e carinhoso: — Escute, eu não tive intenção de ofendê-lo. Será que você pode me perdoar? — Vou consultar meu coração — ele respondeu, contendo um sorriso. — Se não encontrar a resposta certa em seu coração, creio que terei de praticar minha defesa pessoal com você, uma vez mais — ela ameaçou, com graça e charme. Ele fez uma careta: — Nesse caso, eu, definitivamente, perdoo você. — Nunca duvidei de que o faria — ela respondeu, alegremente. — Vamos para casa. James concordou com um aceno, perguntando-se por que a palavra casa parecia sugerir um local pertencente a ambos. Elizabeth surpreendeu-se por não sentir nenhum constrangimento ao mostrar sua pobre morada a James. As cortinas, cor de damasco, estavam desbotadas; os batentes das janelas e portas precisavam, urgentemente, de uma nova demão de tinta. Os móveis, benfeitos, conservavam certo brilho, mas as almofadas mal escondiam as áreas que necessitavam de algum reparo. Tudo somado, a casa tinha uma aparência um tanto desgastada. E poucos adornos restavam, dos bons tempos. Em outra conjuntura, Elizabeth sentiria necessidade de explicar como sua família havia decaído, após a morte dos pais. E que, antes disso, os Hotchkiss habitavam uma casa grande e senhorial. Mas, com James, ela simplesmente abrira a porta, sorrindo, certa de que ele veria a pequena casa do jeito que ela própria via: um lar pobre, mas acolhedor, e até com certo conforto. Claro que o fato de James ter dado a entender que sua família também conhecera tempos melhores, levara Elizabeth a deduzir que ele compreenderia perfeitamente o estado de pobreza em que ela e os irmãos agora viviam. Mas, na verdade, ela nem pensava nisso ao convidá-lo a entrar. — Você está com sorte. Susan resolveu fazer biscoitos, hoje. De fato, pairava no ar um aroma tentador, que James imediatamente reconheceu. — Biscoitos de gengibre! — exclamou, sorrindo. — Lembram-me a infância. — Venha... Passemos para a cozinha. Assim, poderemos continuar conversando enquanto preparo o chá. Ele puxou uma cadeira e sentou-se, parecendo muito à vontade. Então, perguntou: — Aqueles são seus irmãos, brincando no jardim? Elizabeth afastou a cortina e olhou pela janela. — Sim. São Lucas e Jane. Quanto a Susan, não sei onde está, mas deve ter saído há pouco. Afinal, os biscoitos ainda estão quentes. — Ela colocou alguns biscoitos num 81


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prato, e depositou-o sobre a mesa, diante de James. — Vou chamar Lucas e Jane. Tenho certeza de que eles gostarão de conhecê-lo. — E bateu, três vezes seguidas, na vidraça da janela. Em poucos instantes, a porta da cozinha se abriu e os dois entraram. — Ah, é você, Elizabeth? — disse o garotinho. — Pensei que fosse Susan. — Como pode ver, sou eu mesma. E, falando em Susan, você tem idéia de onde ela foi? — Ao mercado — respondeu o menino. — Com alguma sorte, vai conseguir um pouco de carne para cozinhar, com os nabos. — Eu detesto nabos — disse James. Todos os três Hotchkiss voltaram as cabeças loiras em sua direção. E, sorrindo, ele acrescentou: — Certa vez uma amiga me disse que se pode aprender muitas coisas com os nabos, mas nunca consegui entender o que ela queria dizer com isso. Elizabeth sufocou o riso. — Nem eu — disse Jane. — Para mim, essa história parece pura tolice. — Lucas, Jane... — interveio Elizabeth — gostaria que vocês conhecessem o sr. Siddons. Ele é meu amigo, e também trabalha em Danbury House. Na verdade, é o novo administrador de lady Danbury. James levantou-se e apertou a mão de Lucas, com a mesma gravidade que usaria para cumprimentar o primeiro-ministro do reino. Então, virou-se para Jane e beijou-lhe a mão, num gesto galante, fazendo seu rosto se iluminar. Erguendo os olhos, James deparou com os de Elizabeth, que parecia feliz com sua atitude. — Como vocês têm passado? — ele perguntou, então. — Muito bem, obrigado — disse Lucas. Jane nada respondeu. Estava muito concentrada em contemplar a mão que James havia beijado. — Convidei o sr. Siddons para um chá com biscoitos — disse Elizabeth. — Vocês gostariam de se juntar a nós? Em qualquer outra ocasião, James teria lamentado a presença de outras pessoas, que o privariam de ter a companhia de Elizabeth só para si. Mas havia algo de reconfortante em estar ali, naquela cozinha simples, com um trio que, obviamente, sabia muito bem o que significava ser uma família. Depois de oferecer um biscoito a cada um dos irmãos, Elizabeth pediu: — Agora, me contem o que fizeram, durante o dia. Terminaram as lições que passei para vocês? Jane assentiu: — Ajudei Lucas com a aritmética. — Mas não precisava! — Lucas exclamou. — Eu podia ter feito tudo sozinho. — Talvez pudesse, mesmo — disse Jane, com um ar superior. — Mas não fez. 82


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— Elizabeth, diga a Jane que ao menos me deixe tentar fazer meus deveres sozinho — Lucas pediu, aborrecido. — Senão, como vou aprender? Mas Elizabeth parecia preocupada com algo que lhe chegava ao olfato, incomodando-a. — Que cheiro é esse? — perguntou, intrigada. — Eu fui pescar, de novo — Lucas explicou. — Então vá se lavar imediatamente. Temos visita em casa e sentar-se à mesa sujo não foi nada educado, de sua parte. — Eu não me importo, verdadeiramente — James interveio. Voltando-se para Lucas, indagou: — Conseguiu pescar algum peixe? — Eu quase tirei um enorme, do lago, mas ele escapou. — Isso sempre acontece — disse James, com simpatia. — Mas consegui pegar dois dos grandes. Estão num balde, lá fora. — Eles são bastante desagradáveis — opinou Jane, depois de ter perdido o interesse em sua mão. Lucas reagiu rapidamente. — Quero ver você repetir isso, na hora do jantar. — Mas eles não têm olhos! — ela exclamou, como se isso fosse um grande argumento. — Isso porque já tirei as cabeças fora, sua tonta! — Lucas — Elizabeth o advertiu, elevando ligeiramente a voz: — Acho que você deve mesmo ir lá fora, lavar-se. — Mas o sr. Siddons disse... — Ele estava apenas sendo educado — ela o interrompeu. — Agora faça o que mandei e trate de trocar essas roupas. Lucas resmungou, mas obedeceu. Assim que deixou a cozinha, Jane comentou, com o suspiro mais cansado do mundo: — Ele as vezes é tão infantil! James tossiu, para não rir abertamente. E Jane explicou: — Mas, também, ele tem apenas oito anos, sabe? — Compreendo — James assentiu, muito sério. — E quanto a você... Quantos anos tem? — Nove — Jane respondeu, como se isso demonstrasse, sem qualquer dúvida, a grande diferença entre ambos. — Querida... — disse Elizabeth, caminhando até o fogão, para fazer o chá — Posso falar com você, por um momento? Educadamente, Jane pediu licença a James e aproximou-se da irmã. James fingiu não ver quando Elizabeth, inclinando-se, cochichou algo junto ao ouvido dela. Jane acenou com a cabeça e saiu rapidamente. — O que foi isso? — ele perguntou, sem resistir à curiosidade. 83


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— Pedi a Jane que fosse se lavar e pentear os cabelos. Mas não queria envergonhá-la, dizendo isso na sua frente. — Você acha realmente que ela ficaria constrangida? — Jane é uma menina de nove anos, que pensa ter quinze. E você é um homem bonito, que a tratou com deferência. Portanto, é claro que ela ficaria sem graça. — Bem, você deve saber melhor do que eu como Jane se sente — ele argumentou, tentando não deixar transparecer o prazer que havia sentido diante daquele elogio. Elizabeth apontou para o prato de biscoitos. — Você não vai provar um? James serviu-se e logo exclamou, sincero: — Delicioso! — Não é? — ela comentou, com um sorriso terno. — Não sei como Susan os faz. Os meus nunca saem tão saborosos. — E ela serviu-se, também. James não conseguia desviar os olhos de Elizabeth. Fascinado, acompanhou o movimento que ela fazia, com a língua, para apanhar uma migalha que se prendera no canto da boca. Havia um tal teor erótico, naquele movimento inocente, que fez James estremecer. — Estou de volta. A voz de Lucas trouxe o bom-senso de volta e a James, que se recompôs interiormente. Sorridente, o menino perguntou: — O senhor gosta de pescar? — É um dos meus esportes favoritos — James confessou. — Pois eu gostaria também de caçar, mas Elizabeth não deixa. — Sua irmã está certa, Lucas. Um menino de sua idade não deve manusear uma arma, sem a supervisão adequada. Lucas fez uma careta. — Eu sei, mas não é por isso que ela não deixa e sim porque tem um coração de manteiga — ele confidenciou. — Pode ser, Lucas. Mas não suporto ver um pobre e inocente coelho ferido ou morto. — Mas você come coelho — Lucas insistiu. Elizabeth cruzou os braços e murmurou: — É diferente, quando se tem que prepará-lo. Com a intimidade que os homens assumem entre si, quando falam de caçadas, James disse a Lucas: — As mulheres tendem a ficar sentimentais quando se trata de preparar e comer pequenas criaturas graciosas, peludas e fofinhas.

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Elizabeth mantinha os olhos no fogo, fingindo estar atenta ao preparo do chá. Havia muito Lucas não tinha alguém do sexo masculino para comparar suas opiniões e sentimentos. Vivia constantemente cercado por um mundo feminino. A falta de um pai, ou de um irmão mais velho, privava-o de parâmetros importantes para sua formação, como futuro adulto. — Qual foi o maior peixe que o senhor já pegou? — Lucas perguntou. — Em água doce ou salgada? Os olhos do menino se arregalaram: — Então o senhor já pescou no mar? — Claro. — Num navio? — Num veleiro. — E de que tamanho era o peixe? — Eu não tenho certeza, mas era muito grande... Uns quatro palmos ou mais. — Brasas do inferno! — o menino exclamou, com os olhos brilhando de excitação. Elizabeth quase derrubou um pires. — Lucas...! — Sinto muito — ele disse, automaticamente, sem nem mesmo olhar para ela. — E o senhor teve muito trabalho para tirar o peixe da água? Ele brigou muito? James inclinou-se e sussurrou algo ao ouvido de Lucas. O menino acenou com a cabeça em concordância, um tanto aborrecido. Aproximando-se de Elizabeth, disse, com uma expressão contrita: — Sinto muito, Lizzie. Sei que não é educado usar essa linguagem na frente de uma senhorita. — Obrigada, Lucas — ela agradeceu, entre surpresa e feliz. Seus olhos buscaram os de James, agradecendo-o em silêncio pelo que ele acabava de fazer. Então, pegando o prato de biscoitos, estendeu-o para Lucas, dizendo: — Que tal se você e Jane fossem ao encontro de Susan? Vocês podem ir comendo esses biscoitos, no caminho. Lucas aceitou o suborno e, levando o prato, saiu para procurar Jane. A sós com James, Elizabeth perguntou: — O que você disse ao meu irmão? — Não posso contar. Trata-se de um segredo entre homens. — Bem, seja o que for, funcionou maravilhosamente. James sorriu, satisfeito e um tanto orgulhoso. Só então Elizabeth percebeu que a escoriação avermelhada, no rosto dele, começava a tomar um tom azulado e púrpura. Com uma careta brincalhona, ela disse: — Precisamos tratar desse ferimento, antes que tome a aparência do interior de um figo. — Não se preocupe com isso. Já sofri lesões muito piores, que desapareceram por si mesmas. 85


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— Guarde seu fôlego. Não vou discutir com você sobre isso. James entendeu que não adiantava protestar. Elizabeth Hotchkiss era do tipo determinado e nada do que dissesse iria impedi-la de fazer o que achava que devia. — Já que insiste... — ele murmurou, conformado. Mas ela já não o ouvia, ocupada em cortar uma tira de pano, que umedeceu em água fresca. Pouco depois, aplicava-se em limpar a contusão na face de James. — Dói muito? — perguntou. — Não. Mas o local parece muito aquecido. — É assim mesmo, em todas as contusões. — Um pouco mais para a direita, por favor — ele pediu. — Assim está melhor. — Um pouco mais... assim. Elizabeth então percebeu que James olhava para seus seios, com um sorriso travesso no rosto. Recuando um passo, ela estendeu-lhe o pano, dizendo: — É melhor você mesmo fazer isso. Chamando ao rosto a mais inocente das expressões, ele retrucou: — Por que parou? Estava tão bom. — Acredito — ela respondeu, sarcástica. — Mas a verdade é que não devemos mimar os homens. Eles ficam cheios de vontades. — De onde você tirou tamanha inverdade? — Da minha experiência com Lucas, de onde mais seria? — Mas Lucas tem apenas oito anos de idade — ele protestou. — E você está se comportando como um adolescente. Pegue isso. — Elizabeth jogou o pano em sua direção. — E só aplicá-lo sobre o machucado. — Para uma jovem tão gentil, você tem o pavio bem curto — ele comentou, num tom bem-humorado. — Tento me adequar às circunstâncias. Resmungando algo inteligível, ele obedeceu. E depois de algum tempo, reclamou: — Já deve ser o suficiente, não é verdade? — Deixe-me ver. — Aproximando-se, ela examinou a lesão. — A pele está bem umidificada. Espere um pouco. — E caminhou para a sala, onde abriu um móvel e retirou um pequeno frasco, de uma gaveta. Voltando em seguida, disse: — Pronto... Aqui está. — O que é isso? — ele perguntou, desconfiado. — Um subproduto do mel de abelhas. Desinfeta e ajuda na recuperação da pele ofendida. — Você tem certeza? — Tenho. Agora fique quieto e deixe-me trabalhar. Isso, assim... James sentiu o corpo reagindo poderosamente à proximidade de Elizabeth que, inocentemente, aplicava-se em espalhar a substância pastosa sobre a contusão. 86


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Os cabelos de Elizabeth roçavam levemente o ombro de James e o calor de seu corpo jovem chegava até ele como uma poderosa vibração eletromagnética, roubando-lhe o fôlego. — Elizabeth — ele murmurou —, você tem idéia do quanto esta fascinante, nesse momento? Ela meneou a cabeça. — Deixe de tolices e fique quieto. Já estou quase terminando. — Como você reagiria se eu confessasse que sinto um forte desejo de beijá-la? — Eu diria que isso é natural, dada as circunstâncias. Afinal, somos jovens, estamos a sós. E existe uma certa simpatia entre nós. — Simpatia? — ele repetiu, irônico. — Bem... Atração, talvez — ela concedeu. — Mas não creio que seja algo inédito em sua vida. Afinal, com sua experiência... — Nada do que já me ocorreu antes se compara a esse momento — ele afirmou, com sinceridade. — Ora, faça-me o favor... — Ela riu, fitando-o nos olhos, de maneira desarmante. — Estou sendo franco, Elizabeth — ele replicou. Afastando-se ligeiramente, ela o avaliou com um longo olhar, antes de perguntar: — Por que eu deveria confiar em você? — Porque meu coração assim o exige. — Sei! — ela pareceu refletir por um momento, antes de prosseguir: — Diga-me, James... Por que você está me ajudando, afinal? Ele sorriu e respondeu com outra pergunta: — Por que você aceitou minha ajuda? Elizabeth interrompeu o que fazia. Não havia maneira de responder àquela pergunta, sem revelar a ele os sentimentos que lhe iam por dentro. Sentimentos que ela própria ainda não entendera ou aceitara, inteiramente. A verdade era que ela queria ouvir sua voz, sentir o cheiro dele e o calor daquele corpo próximo ao seu. Queria se apaixonar e fingir que aquilo poderia durar para sempre. Mas, não... Aquela não era uma opção válida. Afinal, tinha que conseguir um casamento vantajoso, pelo bem de sua família. Era este o seu objetivo. Com um suspiro profundo e uma leve tristeza nublando seus olhos azuis, ela então respondeu: — Não importa o motivo pelo qual aceitei. O fato é que o fiz, e não me arrependo disso. Os olhos castanhos de James brilhavam, agora perigosamente. E ele avançou, inflexível. Elizabeth mal conseguia respirar. O ar ficara mais quente, e havia uma espécie de eletricidade entre ambos. — Vou beijar você — ele sussurrou. — E se você não quiser que eu faça isso, diga-me agora — exigiu, envolvendo-a nos braços.

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Ela quis protestar ou, ao menos, pedir um espaço de tempo para refletir. Mas, para sua surpresa, seus lábios se entreabriram, como se tivessem vontade própria. E seu rosto ergueu-se para receber o beijo, que não tardou a vir. Os lábios de James roçaram os dela, uma, duas vezes... E então sua língua brincou com a pele sensível ao redor deles, por um longo tempo, fazendo-a ofegar de prazer, enquanto as mãos percorriam os ombros costas e nuca numa carícia contínua e deliciosa. Foi então que ele murmurou-lhe ouvido: — Quero sentir seu corpo contra o meu... Agora! — Por que me diz isso? — ela perguntou, ofegante. — Para lhe dar a chance de me impedir. Mas você não vai fazer isso, não é? Elizabeth detestava a autoconfiança que James demonstrava, mas amava a consciência de si mesma e dos desejos que seu corpo manifestava, em contato com o dele. Sabia que, naquele momento, não podia lhe recusar nada. Foi assim que os corpos se colaram e os corações passaram a pulsar juntos, acelerados. Um beijo longo e profundo aconteceu em meio a gemidos de prazer e murmúrios de grato reconhecimento. Então, como num sonho, de muito longe chegou até ambos o som de vozes infantis, que entoavam uma tola cantiga, bastante popular em Surrey. — Deus! — exclamou Elizabeth, cambaleando para trás. — Oh, não — James gemeu. — Susan está chegando, com Lucas e Jane. Estou apresentável? — Bem... quase — ele mentiu. — Talvez você devesse arrumar um pouco os cabelos. — Meus cabelos? — ela balbuciou. — O que há com eles? — E correu até um espelho, na sala. — Santo Deus... Onde está o pente? — Bem, isso eu não sei dizer — ele respondeu, tentando mostrar-se razoavelmente calmo. Voltando até a cozinha, Elizabeth aproximou-se da pia, dizendo: — Prometi a mim mesma que seria um exemplo para meus irmãos e, no entanto... Veja só o meu estado! — Ora, não está tão mal assim — James tentou contemporizar. — Você só está um tanto corada... E os lábios... — O que há com meus lábios? — ela indagou, apavorada, tocando-os com a ponta dos dedos. — Estão mais belos do que nunca. Um pouco intumescidos e vermelhos, na verdade... — Oh! — ela gemeu. As vozes das crianças soavam bem próximas, agora. Tentando raciocinar rápido, Elizabeth apelou para uma medida de emergência. Sem titubear, ergueu a bacia onde umedecera o pano para o curativo de James e despejou-a sobre a cabeça. A água espalhou pela frente, ombros e costas de seu vestido. Perplexo, James acabou recebendo também sua cota, em forma de fortes respingos. 88


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Meneando a cabeça, James considerou que era tempo de disfarçar certas reações físicas que o contato com Elizabeth lhe provocara. Tudo aquilo parecia risível e bastante insano. Mas, às vezes, a realidade era mais surpreendente e absurda do que a ficção.

CAPÍTULO VI

— Céus, Elizabeth! — Susan exclamou, ao entrar na cozinha. — O que houve com você? — Apenas um pequeno acidente — Elizabeth respondeu. Susan revirou os olhos e fez uma careta, deixando bem claro que não acreditava naquela mentira mal improvisada. Entornar a bacia de água sobre a cabeça não tinha sido exatamente uma saída brilhante. Mas fora, com certeza, inspirada, Elizabeth pensou. Se não pudera dar um jeito na aparência de seus cabelos, ao menos conseguira arruiná-la. Assim, ninguém suspeitaria de que eles estavam em desalinho por conta das carícias de James. — O que foi isso? — Lucas perguntou, com os olhos arregalados. — Uma inundação? Um dilúvio? Elizabeth tentou não se aborrecer com o comentário do irmão. Em vez disso, justificou-se: — Eu estava preparando uma compressa para o sr. Siddons, que se feriu no olho. E quando fui mergulhar o pano na bacia, ela caiu, dando-nos um verdadeiro banho. — Mas a bacia não está no chão — ele a interrompeu. — Porque eu já a recolhi — Elizabeth retrucou. Lucas fitou-a com espanto, mas felizmente não fez mais perguntas. — Acho que devo ir embora — disse James. Elizabeth observou-o com atenção. Ele estava secando as mãos nas próprias roupas e parecia incrivelmente paciente, considerando-se o fato de que ela havia acabado de dar-lhe um banho-surpresa, sem aviso prévio. Susan pigarreou, numa evidente tentativa de chamar a atenção, mas Elizabeth ignorou-a. — Será que você pode me arranjar uma toalha? — James pediu. — Seria bom se eu me enxugasse melhor, antes de partir. — Oh, claro — Elizabeth aquiesceu, com a voz carregada de aflição. Susan pigarreou novamente, dessa vez com muito mais força, como se estivesse passando mal. — O que há, Susan? — Elizabeth indagou, irritada. — Você não vai me apresentar ao seu amigo? 89


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— Naturalmente — Elizabeth corou, ao se dar conta de sua gafe. Justo ela, que sempre fizera questão de transmitir aos irmãos menores todas as regras da etiqueta e da boa educação. — Sr. Siddons, deixe-me apresentá-lo à minha irmã, srta. Susan Hotchkiss. Susan, este é... — O sr. Siddons — Susan completou. Ele sorriu, inclinando a cabeça num cumprimento polido, à maneira típica de Londres, enquanto dizia: — A senhorita fala como se já me conhecesse... — Oh, nem tanto — Susan replicou, tão rapidamente, que qualquer pessoa diria que ela estava mentindo. Em seguida, sorriu rápido demais, também. Depois, voltando-se para a irmã, indagou: — Elizabeth, o que você fez com seus cabelos? — Nada — Elizabeth resmungou. — Apenas, eles estão molhados. Você não notou? Susan contraiu os lábios, tanto que mal conseguiu pronunciar: — Desculpe. — Bem, o sr. Siddons já estava de saída — disse Elizabeth, no limite do desespero. Então voltou-se para James. — Venha. Eu o acompanharei até a porta. — Foi um prazer conhecê-la, senhorita — James disse a Susan, por sobre o ombro, já que Elizabeth estava literalmente empurrando-o em direção ao corredor. — Prazer em conhecê-lo, também, Lucas! — acrescentou, elevando a voz. — Precisamos ir pescar, qualquer dia desses! Com uma exclamação de alegria, Lucas alcançou ambos, já no corredor. — Oh, obrigado, sr. Siddons! Muito obrigado! Eu adoro pescar! Elizabeth praticamente arrastou James até a porta e, abrindo-a, quase empurrou-o para fora da casa. Foi então que ele parou, subitamente, para dizer: — Tenho, ainda, uma coisa a fazer. — E o que seria? — ela indagou, exasperada. Mas James já havia se soltado de sua mão e, voltando sobre os próprios passos, dirigia-se à cozinha, onde Jane se encontrava. Julgando que ele não poderia ouvi-la, Elizabeth pensou, em voz alta: — Parece-me que já fizemos tudo, por hoje... Voltando o rosto, ele sorriu, ao retrucar: — Nem tudo. — Parando junto à porta da cozinha, enviou um beijo a Jane, enquanto dizia: — Até logo, doçura. Foi um imenso prazer conhecê-la. Sabe que você é uma menina muito bonita? Essas palavras, carregadas de ternura, desarmaram Elizabeth por completo. Com um suspiro, ela deixou-se cair numa cadeira, próxima à porta. Poderia jurar que Jane se lembraria desse elogio, por toda a sua vida. Um elogio comum, de palavras comuns. Mas certamente proferido com franqueza e com aquele encanto do qual só James Siddons era capaz. Na verdade, esse encanto estava sendo, em parte, o grande responsável pelas situações constrangedoras que se sucediam entre ambos. Ela não conseguia se controlar. E nem James. Era preciso pôr um paradeiro em tudo isso, ela decidiu. 90


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Esse pensamento ocupou-a durante boa parte da noite, roubando-lhe o sono e o descanso merecido. Antes de adormecer, Elizabeth ouviu a chuva forte, caindo lá fora, fustigando as vidraças das janelas. O dia seguinte amanheceu nublado e úmido. A caminho de Danbury House, Elizabeth ia se perguntando como deveria agir para resolver, de uma vez por todas, sua situação com James Siddons. De uma coisa tinha certeza: aqueles beijos não poderiam continuar. Afinal, ela estava pensando em se casar, não com James Siddons, mas com outro homem! Portanto, seria melhor esquecê-lo. Muito embora isso parecesse impossível. E ainda havia o plano... Aquele plano estranho, bizarro, que supostamente deveria levá-la ao altar. Elizabeth sabia que James estava disposto a ajudá-la, mas tudo aquilo estava lhe parecendo uma terrível loucura. Afinal, ambos haviam chegado longe demais, durante os beijos trocados na véspera, na cozinha de sua casa. Se as crianças não tivessem chegado de repente, o que teria acontecido? Elizabeth estremeceu, só de pensar. Aquilo não poderia continuar. Era preciso tomar uma medida de emergência. Algo que fosse menos insano do que entornar uma bacia de água sobre a própria cabeça. E se conseguisse convencê-lo a desistir daquele plano? Ela pensou, parando, de súbito, em meio à caminhada. Sim, isso facilitaria muito as coisas. Não que duvidasse da experiência ou da boa vontade de James. Sabia, inclusive, que ele poderia dar-lhe conselhos sábios e certamente eficazes. O problema era que o andamento do plano estreitaria, ainda mais, a relação de ambos. E era isso, justamente, que ela precisava evitar. Caso contrário, acabaria enlouquecendo. E, pelo visto, não estava muito longe disso. Seu comportamento, na véspera, mostrara muito bem o quanto estava perturbada e tensa. Sim. Decididamente, ela precisava recuperar seu autocontrole. E talvez o cancelamento daquele plano insensato fosse o primeiro passo. Elizabeth retomou a caminhada. Se desse, realmente, esse passo, teria que lidar com dois problemas: o primeiro seria convencer James a desistir do plano. Podia prever, desde já, que isso não seria nada fácil. De súbito, lembrou-se de algo que sua mãe costumava dizer: Quando quiser convencer um homem de alguma coisa, faça-o pensar que ele próprio chegou a essa conclusão. Homens detestam conselhos e quase nunca mudam de idéia, numa discussão. Preferem teimar, insistir em seu ponto de vista, recusando-se a ouvir qualquer argumento contrário. Elizabeth sorriu. Mais do que nunca, essas palavras lhe pareciam perfeitas para o que tinha a fazer: ali estava um conselho que vinha a calhar, e que parecia bem mais útil do que os da sra. Seeton. Bem, supondo-se que ela resolvesse esse problema, convencendo James Siddons a desistir do plano, restaria, ainda, outro: como conseguir um casamento vantajoso, por si mesma, sem a ajuda de ninguém? Um novo pensamento lhe ocorreu: o de que talvez tivesse sido injusta com a sra. Seeton. Ficara tão irritada com os artigos e normas estabelecidas no livro de capa vermelha, que talvez tivesse perdido a chance de aprender alguma coisa. Essa possibilidade incomodou-a pelo restante do caminho até Danbury House. Chegou até ao ponto de tomar outra resolução: a de consultar, uma vez mais, o tal livro. Se o lesse com toda a atenção, sem resistência, sem criticar duramente as diretrizes estabelecidas pela 91


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autora, talvez encontrasse algum conselho mais útil. Afinal, não custava fazer uma segunda tentativa. E, dessa vez, se aplicaria à leitura, de boa vontade. Elizabeth limpou os pés por várias vezes, no tapete, antes de entrar em Danbury House. Sabia que àquela hora lady Danbury estaria tomando o desjejum. Assim, aproveitando a oportunidade, resolveu ir até a biblioteca, onde o livro certamente estaria à sua espera, no mesmo local onde o deixara. Transpôs rapidamente o corredor e entrou na biblioteca, fechando a porta atrás de si. O aroma característico do assoalho polido e dos velhos livros causou-lhe uma sensação de prazer. E Elizabeth encostou-se à porta por um instante, desfrutando aquele momento de pura paz e privacidade. Em seguida, tomando fôlego, caminhou a passos largos até uma estante. E ali estava o livro Como Se Casar Com Um Marquês. Tomando-o nas mãos, abriu-o na página em que havia interrompido a leitura e concentrou-se nos conselhos ali descritos. Tentou não se decepcionar com a leitura de um longo capítulo sobre a arte de se vestir apropriadamente, para cada ocasião. Mas isso ela já sabia. E a sra. Seeton não estava lhe oferecendo nenhuma novidade. Mesmo assim, Elizabeth terminou a leitura do capítulo e avançou um pouco mais. Apesar de toda a boa vontade, os conselhos do capítulo seguinte nada acrescentaram aos seus conhecimentos. Pareceram-lhe tolos e sem fundamento, como tantos que já havia lido. Ainda assim, Elizabeth não desistiu. Talvez haja conselhos um pouco mais úteis, no final do livro, pensou, decidida a consultar os últimos capítulos. — O que você está fazendo? Elizabeth quase deixou cair o volume, tamanho foi o seu susto. Antes mesmo de se voltar, sabia quem estava ali. Surpreendendo-a como um caçador silencioso e hábil, ao encurralar uma presa. — James! — ela exclamou, sobressaltada. — Eu não o ouvi entrar. — O que você está fazendo? — ele repetiu, aproximando-se. — Eu? — ela indagou, num fio de voz, cogitando se teria tempo de devolver o livro na estante, antes que James percebesse. Mas desistiu. — Nada. — Você veio ler o tal livro de novo, não é? — Bem... não exatamente — ela respondeu, sentindo-se como uma criança flagrada em meio a uma travessura, o que era totalmente absurdo. Mas, de qualquer forma, não conseguia evitar essa sensação. — Eu, na verdade, não estou lendo. — Não? — ele repetiu, incrédulo. — Apenas pensei que talvez pudesse utilizar este livro como, digamos, uma fonte de consulta. — Desculpe, mas não consigo entender a diferença entre uma coisa e outra. Elizabeth tentou pensar rápido. Não queria continuar se sentindo daquele modo. E decidiu que o melhor a fazer seria mudar de assunto: — Como você soube que eu estava aqui? — Não desvie o foco da nossa conversa — ele ordenou, aborrecido. Não funcionou, Elizabeth concluiu, com um suspiro. James tirou-lhe o livro das mãos e colocou-o displicentemente de volta no lugar. 92


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— Pensei que tivéssemos chegado a um acordo sobre este livro, que não passa de um amontoado de tolices destinadas a transformar as leitoras em perfeitas idiotas. — Idiotas? — Elizabeth repetiu, com amarga ironia. — tenho a impressão de que os homens já pensam que somos assim, independentemente do fato de lermos esse tipo de livro, ou não. — De fato, a maioria das mulheres que conheço são tolas, interesseiras e fúteis. Com raríssimas exceções — ele resmungou. — Mas você não precisa se enquadrar nessa classificação. — Vou tomar isso como um cumprimento. — Faz bem, pois foi exatamente essa a minha intenção. — Obrigada. Mas talvez eu seja mais tola do que você imagina. — Você não é tola e sim inexperiente. Inclusive com relação às artimanhas do flerte. Elizabeth não pôde conter um sorriso. De todos os elogios de James, os mais relutantes eram justamente os mais comoventes. Fitando-a com uma expressão exageradamente severa, que chegava a parecer cômica, ele a repreendeu: — Não quero vê-la relendo essas bobagens, de novo. — Eu estava apenas dando uma olhada, para ver se encontrava algum conselho útil. — Se quer conselhos, peça-os a mim — ele a interrompeu. — Aí é que está o problema — ela retrucou. — Estive pensando seriamente sobre nosso plano, a noite passada. E acho que não seria apropriado. — Que diabos você quer dizer com isso? — A questão é, sr. Siddons... — James — ele a corrigiu, ríspido. — Será que a leitura dessas bobagens fez com que você se esquecesse de que deixamos as formalidades de lado, entre nós? Elizabeth fitou-o com estranheza: — Não estou gostando da sua linguagem, nem do seu tom de voz. Ele suspirou, profundamente. Desde a véspera, sentia-se como se tivesse um nó permanente na garganta, que o impedia de respirar e também de raciocinar com clareza. E pensar que esse tormento se devia àquela jovem e bela mulher, de mente brilhante e compleição frágil. Tanto, que não chegava sequer à altura de seu ombro! E, no entanto, tinha a incrível capacidade de deixá-lo abalado, como jamais se sentira antes, em toda a sua vida. Como tudo aquilo começara? Com um simples beijo... Ou não, ou talvez antes, no primeiro momento em que ele imaginara como poderia ser doce o contato de seus lábios com os dela. E claro que, apesar de já ter experimentado aquela sensação de pleno paraíso, nos beijos trocados com Elizabeth, ainda não se sentia saciado. Os beijos não tinham sido suficientes. E dificilmente chegariam a ser. Na véspera, na casa de Elizabeth, ele atingira o limite de seu autocontrole... E acabara por perdê-lo de vez. Se Elizabeth não houvesse cometido aquele ato insensato, com a bacia de água, sem dúvida teria percebido sua excitação. Que, na verdade, se 93


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prolongara por toda a noite, enquanto sua mente trabalhava, dando asas à imaginação. E imaginação não lhe faltava. Sonhando acordado, ele deixara que os pensamentos fluíssem livremente, tecendo situações de pura intimidade com Elizabeth. — Estou nervoso — ele disse, por fim. E antes que ela indagasse o motivo, acrescentou: — Não dormi bem, a noite passada. — Oh — ela murmurou, surpresa com a simplicidade de sua resposta. Por um momento, parecia que estava prestes a perguntar algo, mas calou-se, como se de repente se arrependesse. Ainda bem, James pensou. Pois se Elizabeth quisesse de fato saber o motivo de sua insônia, ele não hesitaria em contar, mesmo sabendo que essa seria uma insensatez ainda mais grave do que os sonhos acalentados ao longo da noite. — Sinto muito — ela disse, num tom mais ameno. — Eu não sabia que você sofria de insônia. — Após uma pausa, acrescentou: — Mas acho que devemos discutir a sua decisão de me ajudar a encontrar um marido. — Por quê? — Porque isso é totalmente irregular... para se dizer o mínimo. E creio que você concordará comigo, neste ponto. — Pensei que já houvéssemos concordado em outro ponto. — Qual? — O de que você não recorreria a esse livro estúpido, para guiar suas ações. Ignorando-o, Elizabeth continuou com seu raciocínio. — Sabe de uma coisa, sr. Siddons? Preciso de estabilidade, em minha vida. — James — ele tornou a corrigi-la. — James — ela repetiu, com um suspiro. — Não posso ficar em guarda o tempo inteiro, esperando que você me ataque, a qualquer momento. — Ataque? — ele repetiu, enquanto um sorriso insinuava-se em seus lábios. — E isso certamente não poderá trazer nenhum benefício, nem a você, nem a mim — ela concluiu. — Afinal, não podemos nos tornar tão... — Íntimos? — ele completou, apenas para provocá-la. E conseguiu seu intento, pois Elizabeth lançou-lhe um olhar gélido, antes de prosseguir. — Nosso objetivo é que eu consiga encontrar um marido e... — Não se preocupe — ele apartou, com frieza. — Estou, de fato, empenhado em ajudá-la nesse assunto. Mas embora pronunciasse essas palavras com forte convicção, sentia-se tomado por um vago mal-estar, mesclado a uma sensação de desgosto. Não era difícil imaginar como transcorreriam os próximos dias, em meio às lições que daria a Elizabeth, para que ela alcançasse seu objetivo. Mas, embora desejasse o bem daquela jovem encantadora, a perspectiva de vê-la encontrar o marido ideal deixavao mortificado. — Agradeço, uma vez mais, seu oferecimento e disposição em me auxiliar — ela afirmou. — E isso me leva a outro ponto... James cruzou os braços, perguntando-se o que viria a seguir. 94


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— Não me sinto confortável em aceitar sua ajuda, sem compensá-lo, de alguma forma, por seu tempo e esforço. Em resumo, não quero ficar em débito com você. — Ora, esqueça isso. Você não ficará me devendo nada. — Pois eu não penso assim. E insisto em retribuir o favor. James brindou-a com um de seus sorrisos devastadores, antes de indagar: — E como, exatamente, você pretende fazer isso? — Colaborando na investigação para descobrir a pessoa que está chantageando lady Danbury. Ele reagiu, surpreso, o que causou em Elizabeth um sentimento de orgulho. — Lady Danbury me contou que você está empenhado em descobrir o autor da chantagem — ela prosseguiu. — E eu gostaria muito de trabalhar como sua assistente, nesse caso. — Não. — Mas... — Eu disse não. — Por quê? — Porque pode ser perigoso. — Mas você está trabalhando no caso! — Acontece que sou um homem. — Ah! — ela exclamou, indignada, cerrando os punhos. — Como você é hipócrita! Então o fato de ser homem torna-o, naturalmente, um ser superior a esta pobre mortal?! O que devo fazer com todos os seus elogios sobre meu caráter e inteligência? Esquecêlos? Pensei que você tivesse ao menos um pouco de respeito por mim. — Isso não tem nada a ver com respeito e muito menos com hipocrisia. Elizabeth fitou-o nos olhos. A expressão de James era, agora, extremamente severa e um tanto enigmática. Era como se no breve intervalo de alguns segundos ele houvesse se tornado outro homem. Um homem acostumado a lidar com o perigo, a descobrir segredos terríveis sobre as pessoas. — Preciso ir, agora — ela disse, lançando um olhar ao relógio suíço, sobre uma mesa de canto. — Fique por aqui o tempo que quiser. Ele puxou-a pelo braço: — Ainda não terminamos nossa conversa. — Desculpe, mas não sei se quero fazê-lo. Aliás, não sei se vou querer sua companhia, daqui por diante. Com um suspiro de frustração, James explicou: — Escute, o fato de eu respeitar você não significa que serei capaz de colocá-la em perigo. Muito ao contrário... — Acho difícil acreditar que o problema que aflige lady Danbury, no momento, implique realmente em algum perigo grave. Claro que chantagem é coisa séria. Mas, pense bem, James: alguém a está chantageando devido a um problema de ordem 95


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pessoal. E não a problemas com a lei, ou com negócios de estado. Isso sim, envolveria sérios riscos. Mas lady Danbury jamais se meteria em situações desse tipo. — Como você pode ter tanta certeza? Elizabeth engoliu em seco: — Não me diga que ela está envolvida em algo perigoso. — Claro que não. — Era o que eu pensava — disse Elizabeth, aliviada. — Mas você chegou a duvidar... — De jeito nenhum! Faz cinco anos que trabalho para lady Danbury. Você acha que se ela houvesse se envolvido em algo suspeito, durante esse tempo, eu não perceberia? James fitou-a com ar pensativo, por alguns instantes, antes de dizer: — Seja como for, não permitirei que você participe das investigações. Isso está fora de questão. — Mas você não pode me impedir de ao menos tentar ajudar. Afinal, lady Danbury tem sido como uma mãe para mim e... — Ouça bem o que vou lhe dizer... — ele a interrompeu, segurando-a pelos braços. — Desista dessa idéia absurda e pare de meter o nariz onde não é chamada. Serei capaz de qualquer coisa, mas qualquer coisa mesmo, para mantê-la fora disso. Fui claro, ou devo me explicar melhor? Elizabeth quis retrucar, mas calou-se. Nunca o vira tão furioso. Seus olhos faiscavam, as têmporas pareciam latejar e as mãos, trêmulas, apertavam-lhe os braços com tanta força, que começavam a machucá-la. — Está bem — ela cedeu, tentando desvencilhar-se de James, que ainda a segurava com firmeza. — Eu não pretendia mesmo me envolver em qualquer situação de perigo. Apenas, pensei que poderia auxiliar você e... — Prometa, Elizabeth — ele exigiu, num tom que não admitia réplicas. — Prometa que não se meterá em encrencas e que desistirá dessa tentativa insensata de me ajudar nas investigações. Oh, Elizabeth pensou, com o coração aos saltos. Onde estão os conselhos da sra. Seeton, quando mais preciso deles? Lembrou-se de ter lido, em algum capítulo, talvez no de número 26, que diante de um homem enfurecido o melhor a fazer seria manter a calma. Só que a sra. Seeton não ensinava como conseguir essa proeza. Procure desarmá-lo, contrapondo a sua tranqüilidade à fúria do homem... Era mais ou menos isso que a autora dizia. Elizabeth tomou fôlego e tentou forjar uma expressão serena que, na verdade, nada tinha a ver com o que ela estava realmente sentindo. Mas o recurso não funcionou. Pois James, aproximando o rosto do seu, continuava a cravar os olhos nos dela, como se quisesse devassá-la, dominá-la. E, o que era ainda pior: estava quase conseguindo. Baixando os olhos, ela contemplou aqueles lábios dos quais já conhecia o doce e ardente sabor. Viu quando eles se moveram, lentamente, para repetir as palavras, num tom ainda mais exigente, quase assustador: 96


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— Prometa. Erguendo os olhos, ela respondeu, num sussurro: — Está bem. Prometo que não tomarei nenhuma atitude, com relação a esse assunto, sem consultá-lo antes. — Isso não é o suficiente. — Mas terá de ser — ela contrapôs, armando-se de coragem. Se a calma e mansidão não estavam funcionando, então talvez fosse melhor partir para uma atitude mais ofensiva. — A propósito, você está me machucando. James olhou para as próprias mãos, como se elas não lhe pertencessem. Visivelmente constrangido, soltou-a de imediato. — Oh, desculpe! Eu não havia percebido que... — Não há problema — ela o interrompeu, recuando um passo e esfregando os braços doloridos. James fitou-a por um longo momento e então voltou-lhe as costas. Precisava recuperar o controle, pois estivera praticamente fora de si, nos últimos instantes. Sentirase tenso, frustrado, furioso. Só agora se dava conta disso. Nunca imaginara que pudesse perder o senso dessa maneira, entregando-se a uma explosão emocional como raras vezes fizera, em sua vida. Então era isso, ele pensou, tentando normalizar o ritmo da respiração. A simples possibilidade de Elizabeth correr perigo levava-o a perder o juízo e agir como um perfeito idiota. Um sentimento de triste ironia o invadiu. Justamente no ano anterior, ele havia rido de seu melhor amigo, ao vê-lo numa situação semelhante. Blake Ravenscroft ficara desesperado quando Caroline, sua futura esposa, insistira em participar de uma operação na qual ele estava trabalhando, para o Governo. James lembrava-se de que Blake lhe contara o quanto fora difícil dissuadir Caroline. Mas, longe de compreender a aflição do amigo, ele achara graça na situação. Entre um acesso de riso e outro, dissera a Blake: — Você está sendo excessivamente cauteloso, com Caroline. Quase neurótico, na verdade. Está agindo como um colegial apaixonado e isso não faz o menor sentido. E pensar que, agora, era ele quem estava perdendo a cabeça, com relação a Elizabeth. Aliás, seus sentimentos por ela já haviam se tornado uma espécie de obsessão... contra a qual ele teria que lutar. Desde que chegara a Danbury House, não fizera outra coisa, a não ser se deixar fascinar por aquela jovem e bela mulher. Agora, pensava nela dia e noite. E este, definitivamente, não era um bom sinal. Começara desconfiando que talvez fosse ela quem estivesse chantageando lady Danbury. Logo descartara essa hipótese e, agora, estava se tornando praticamente seu tutor, na difícil missão de arranjar um casamento vantajoso. Onde tudo aquilo iria parar? Ele até poderia desempenhar bem o seu papel, orientando Elizabeth para que conseguisse um bom casamento. Mas, quando ela atingisse esse objetivo como ele ficaria? O que, exatamente, sentia por Elizabeth? Fascínio, ternura, carinho, exasperação, vontade de protegê-la e, naquele exato momento, um impulso irresistível de beijá-la. 97


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Oh, não, ele disse para si, em desespero. — Vou beijá-la de novo... — E nem se deu conta de que havia pensado em voz alta. Elizabeth mal teve tempo de respirar, antes que os braços de James a rodeassem e as bocas de ambos se encontrassem. O beijo era uma impressionante mistura de potência e ternura. E ela sentiu suas defesas se derretendo, como a neve ao sol. Aquela sensação de languidez vinha se repetindo com certa freqüência, nos últimos dias. E sempre quando ela estava na presença de James. Seria o caso de analisar esse fato cuidadosamente, mas Elizabeth estava ocupada demais em sentir a língua de James correndo por seus lábios e introduzindo-se entre eles, numa exploração lenta e sensual. — Elizabeth... — ele murmurou. — Diga-me que está gostando... Diga... Mas ela estava num mundo além das palavras. Seu coração pulsava forte, os joelhos tremiam e, em algum recanto de sua mente, ela sabia que se dissesse as palavras que James queria ouvir, não haveria volta. Então, permaneceu em silêncio, mas jogou a cabeça para trás, pedindo outro beijo, convidando-o a continuar. Com os olhos cerrados, sentiu a boca de James movendo-se por seu queixo e, em seguida, descendo pela pele macia de seu pescoço. As mãos fortes acariciavam agora a linha de sua cintura, descendo para até os quadris, pressionando-os contra os dele, num requintado jogo de sedução que despertava em Elizabeth uma necessidade que ela jamais imaginara existir. O tecido das roupas que vestia não a isolava do calor daqueles dedos exigentes, que marcavam-lhe a pele com o fogo do desejo masculino, fazendo-a entender que parte de sua alma haveria sempre de pertencer a ele, não importando o que viesse acontecer no futuro. James murmurava palavras de amor que ela mal compreendia, atordoada pelo surdo rumor do desejo que crescia-lhe no peito, enquanto seu sangue fervia nas veias. Foi então que ela sentiu-se cair lentamente, as mãos de James em suas costas, conduzindo-a ao tapete macio que cobria o chão da biblioteca. Com se estivesse em transe, Elizabeth viu-se deitada, observando James cobri-la com seu corpo másculo e potente, fazendo-a sentir a verdadeira dimensão do desejo que o consumia, pressionando-lhe a pélvis numa busca cega e faminta. — James, não! — ela sussurrou. — Eu não posso. O que Elizabeth queria dizer, na verdade, era que se James não parasse ela não poderia mais impedi-lo de prosseguir. Pois, naquele exato instante, queria o mesmo que ele. Ao se dar conta disso, ela corou de vergonha. Que tipo de mulher era ela, afinal? Aquele homem não era seu marido. E jamais seria. — Só um momento — ele pediu, com voz rouca. — Preciso de um momento para me acalmar. Aos poucos, a respiração de ambos foi se normalizando, e então James levantouse, estendendo a mão para ela. — Desculpe-me — ele disse, mortificado. — Acho que me deixei levar pela emoção. — Você não tem por que se desculpar. De alguma forma, eu também permiti que isso acontecesse. — Não fale assim. Como você poderia saber? 98


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James afastou-se, dando-lhe as costas, para que ela pudesse se recompor. Minha nossa! Ele pensou. Um pouco mais e ele teria consumado um ato no mínimo vergonhoso, roubando a inocência daquela jovem. E não haveria desculpas para tamanha insensatez, pois ele sabia, o tempo todo, que estava errado. E, mesmo assim, não fora capaz de parar. Justo ele, que sempre se orgulhara de sua capacidade de controlar as paixões. — James... — A voz de Elizabeth chegou até ele, suave e hesitante. — Espero que não tenha ficado com raiva de mim. — Claro que não — ele respondeu, num murmúrio. — Se devo me casar com um homem a quem provavelmente jamais amarei, o mínimo que devo dar a ele é a pureza de meu corpo e minha fidelidade — ela afirmou, num tom calmo e digno. Numa reação que chegou a surpreendê-lo, ele riu, amargamente. — Você tem razão em tentar manter um mínimo de dignidade numa situação que, por si só, já é moralmente discutível. E não se preocupe. Vou encontrar um marido para você, em breve. — Não creio que seja uma boa idéia, depois de tudo que... Bem... Depois do que aconteceu entre nós. Afinal... — Já disse que vou me encarregar disso — ele a interrompeu, num tom severo, quase áspero. Mesmo discordando francamente, Elizabeth achou por bem contemporizar a situação, ao menos naquele momento. Pois era evidente que James ainda não havia recuperado, de todo, seu autocontrole. — Voltaremos a falar sobre esse assunto, em outra ocasião — ela disse, por fim. Um profundo suspiro, de forçada resignação, escapou do peito de James. — Sinto-me um perfeito idiota, sabe? — Está tudo bem — ela apressou-se a dizer. — Mas acho que devemos interromper essas tentativas que estamos fazendo. — Por quê? Elizabeth sentiu a ira colorir seu rosto e não mediu as palavras: — Porque estamos indo muito além de uma colaboração mútua, para um determinado fim. Já gastamos nossa cota de beijos possível à decência, você não acha? Para sua surpresa, James não mostrou-se ofendido nem desconcertado. Ao contrário: de súbito, assumiu uma expressão impassível, como se nada do que ela dissera lhe dissesse respeito. E após alguns instantes, perguntou: — Você tem a lista dos convidados que chegarão amanhã? Surpresa com aquela súbita mudança de tom, Elizabeth respondeu: — A lista está com lady Danbury. Mas posso tê-la, no final da tarde. — Esqueça. Vou consegui-la, pessoalmente. E agora, se você não se importa, eu gostaria de ficar sozinho. O tom de James não admitia réplicas e, assim, ela voltou-se e deixou a biblioteca. 99


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James passou a manhã inteira de péssimo humor. Tratou secamente os funcionários subalternos, ignorou Malcolm, o gato, e menosprezou as colunas do jornal que sempre lia com distraída atenção. Seus passos largos e bem definidos soavam como estampidos, quando ele voltou do campo para Danbury House. Queria ter em mãos a bengala de sua tia Agatha, para golpear os objetos em torno, descarregando assim a frustração que lhe ia por dentro. Assim que entrou na casa, ouviu o chamado da tia. — James! Deixou escapar um gemido bastante audível, antes de atendê-la. Por fim, tomando fôlego, entrou na sala. — Sim? — Venha cá. Preciso falar com você. Resignado, ele se aproximou. Batendo a bengala no chão, a velha condessa resmungou: — Que ares são esses? Até parece que você está subindo ao cadafalso! — Como vítima ou carrasco? — Como vou saber? A escolha pode ser inteiramente sua. James olhou em torno, à procura de Elizabeth. Que não se encontrava presente. Malcolm, o gato, pulou da janela ao chão e veio ao seu encontro, esfregando-se nas suas pernas. James, que geralmente era carinhoso com o bichano, repeliu-o com firmeza. Franzindo o cenho, lady Danbury comentou: — Vejo que você está de mau humor. — De péssimo humor, eu diria. — Posso saber por quê? — Minha cara tia, eu não lhe contaria o motivo de minha amargura, nem que a senhora apontasse uma arma para o meu coração — ele respondeu. Ela ergueu as sobrancelhas. — Isso só faz aguçar minha curiosidade. Forçando um sorriso, ele se sentou numa cadeira, diante da velha senhora. Malcolm o seguiu, acomodando-se a seus pés. — O que quer de mim, tia Agatha? — O prazer de sua companhia, é claro. James não estava disposto aos jogos de palavras, espirituosos ou não. Por isso retrucou, um tanto afoito: — Bem, receio que terei de decepcioná-la. Meus deveres como seu administrador me requerem em outra parte desta propriedade. — E fez menção de levantar-se. — Sente-se! — a velha condessa ordenou.

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James deixou-se cair de volta no assento. Era impossível desobedecer sua velha tia, quando ela usava aquele tom. Tratava-se de um hábito trazido da infância, que o tempo não ousara mudar. Lady Danbury pigarreou e isso, James bem o sabia, não era um bom sinal. — Minha dama de companhia tem agido de maneira estranha, ultimamente — ela disse, num tom casual. — Sim? — ele perguntou, subitamente interessado. — Pois é como estou lhe dizendo. A pobre menina parece ter a cabeça nas nuvens. Você não reparou? — Não posso dizer que conheço a srta. Hotchkiss muito bem — ele respondeu. — Portanto, minha opinião de pouco lhe valeria. — Verdade? — lady Danbury perguntou, com uma ponta de desconfiança. — Tive a impressão de que vocês dois haviam desenvolvido uma espécie de amizade. — De fato, estamos nos tornando amigos e considero isso uma sorte, já que ela é uma jovem muito amável — ele apressou-se a dizer. O olhar e o silêncio da velha condessa pesavam sobre James, que começou a sentir as orelhas se aquecendo. Se ruborizasse na frente de sua tia, teria de abandonar Surrey, Londres ou talvez a própria Inglaterra, tamanho seria o constrangimento que sentiria, com essa cena lamentável. — Entretanto — ele prosseguiu, fazendo das palavras uma espécie de escudo para se defender —, essa amizade é ainda muito recente, o que evidentemente me desclassifica para julgar o comportamento de sua dama de companhia. — Sei... — A velha lady ficou em silêncio por um longo momento. De súbito, sua expressão mudou e ela disse, inesperadamente. — Mas, conte-me, como vai indo sua investigação? James conseguiu disfarçar seu espanto diante daquela brusca mudança de assunto. E respondeu, sem vacilar: — Não há muito que fazer, antes que o chantagista volte a contatá-la. Investiguei discretamente todos os empregados da casa, embora a senhora tenha afiançado sua total confiança em cada um deles. De fato, como primeira impressão, todos me pareceram leais ou, ao menos, excessivamente simplórios para uma ação tão ousada. A expressão de lady Danbury tornou-se um pouco mais descontraída. — E você ainda suspeita da srta. Hotchkiss? — Creio que a senhora ficará feliz em saber que descartei, em definitivo, a possibilidade de ser ela a chantagista. — Ótimo. E o que pretende fazer, agora? — Nada, além de aguardar a próxima tentativa de aproximação do chantagista. — Devo entender, então, que você permanecerá em Danbury House até que isso aconteça? James assentiu. Aprumando-se em sua cadeira, a velha condessa comentou, num tom ameno: — Então, ao que parece, tudo o que você tem a fazer é dedicar-se à administração da propriedade, mantendo seu disfarce e observando o que se passa ao redor. 101


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— Correto, tia Agatha. — Num tom mais bem-humorado, ele acrescentou. — De qualquer modo, a senhora estará economizando o dinheiro que pagaria a um verdadeiro profissional do ramo. Quanta esperteza de sua parte! Entrando no jogo, lady Danbury fingiu-se ofendida. — Não posso acreditar que você me julgue capaz de tamanha mesquinharia. — Mas deveria. A meu ver, a senhora é capaz disso. E muito mais — ele argumentou, com um meio sorriso. Ela também sorriu, docemente: — Gostaria de ser assim, tão sagaz como você me julga, meu caro sobrinho. — Sua esperteza é lendária na Inglaterra, "lady Danbury". E isso é algo que ninguém, em seu juízo perfeito, pode subestimar. Ela riu, abertamente. — Você sabe ser um amor, quando quer, querido James. Com um suspiro, James se ergueu, pensando que sua tia Agatha era realmente única. Não tinha o menor pudor em meter-se em sua vida dele, ou em transformá-la, ocasionalmente, numa verdadeira pantomima. Mas o fato era que ele a amava. Muito. — Devo voltar às minhas tarefas — disse, então. — Não queremos que ninguém pense que a senhora contratou um administrador incompetente, não é mesmo? Ela fitou-o com um olhar um tanto crítico. Detestava quando alguém se dava o direito de interromper um diálogo. Reservava tal indelicadeza apenas para si própria. Compreendendo seu desagrado, James resolveu estender um pouco mais o assunto. — A senhora deve me avisar, imediatamente, assim que o chantagista voltar a fazer contato. — Não tenha dúvida de que o farei — ela aquiesceu. Ele caminhou até a porta, mas voltou-se para dizer: — Quanto à festa que a senhora dará amanhã, aqui em Danbury House... — Oh, sim, será uma pequena recepção, nos jardins — a velha condessa o interrompeu. — Você certamente está preocupado com a possibilidade de ser reconhecido, não é mesmo? — De fato, existe esse risco. Sobretudo porque não sei quem são seus convidados. — Isto é fácil de ser resolvido. Alcance-me aquela agenda sobre a mesa, por favor. James obedeceu. Abrindo a agenda, a velha condessa retirou duas páginas contendo nomes, títulos e outros detalhes, como horário de chegada e locais de acomodação em Danbury House. — Aqui está. Dê uma boa olhada. James leu aqueles nomes conhecidos, buscando entre eles um ou mais que pudesse servir a seu propósito de arranjar um marido para Elizabeth. Sir Bertram Fellport... Alcoólatra, ele classificou, de imediato; Lorde Binsby... Jogador inveterado; Sir Daniel Harmon... Casado. Respirando profundamente, James prosseguiu com a leitura. 102


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Sir Cristhopher Gatcomb... Casado; Dr. Robert Gifford... Casado; Mr. William Dunford... Um libertino; Capitão Andrien Cynric... Ele se deteve. Que pontos negativos poderia atribuir àquele militar de meia idade, severo, bem apessoado, solteiro e com razoável fortuna? Foi então que James percebeu que não estava procurando, na lista, um marido para Elizabeth. E sim tentando encontrar defeitos nos convidados masculinos, que os anulassem como eventuais pretendentes a um compromisso sério com ela. Controlando o impulso de transformar aquelas duas folhas numa bola de papel amarfanhado, ele resmungou algo ininteligível, momentaneamente esquecido da presença de tia Agatha. — Algum problema? — ela perguntou. Recuperando-se a tempo, ele respondeu: — Não. Apenas, preciso estudar melhor esta lista. A senhora se importaria se eu fizesse uma cópia? — Claro que não. Só não entendo o motivo. — É para os meus registros — ele improvisou. Nada convencida, lady Danbury concedeu: — Fique à vontade e use minha escrivaninha. Lá você encontrará papel, tinteiro e pena. Pouco depois, James já havia copiado a lista de convidados e esperava a tinta secar. Caminhando pela sala, tentou justificar seu procedimento estranho, dizendo: — Há sempre a possibilidade de que o chantagista esteja entre os seus convidados. — Duvido muito, mas, de nós dois, você é o especialista. Ele deteve-se, surpreso. E não resistiu à tentação de comentar: — Esse mundo às vezes nos reserva momentos de pasmo. Será que a ouvi, realmente, dizer que considera minha opinião mais abalizada do que a sua, ao menos em um assunto? — Sim. Mas o sarcasmo é uma arte que você não domina e por isso lhe cai tão mal. James riu, divertido. E tomando as folhas nas mãos, disse: — Agora, preciso voltar ao trabalho. — Então, vá — lady Danbury retrucou, sacudindo a mão no ar, com desdém. — A srta. Hotchkiss deve chegar a qualquer momento e tenho certeza de que a companhia dela lhe será muito mais agradável do que a minha. — Quanto a isso não, resta a menor dúvida. — Com outro aceno, a velha condessa encerrou a conversa. — Vá, meu caro. James saiu, a passos largos. Não queria reencontrar Elizabeth. Não antes de preparar argumentos que validassem suas opiniões sobre os convidados. Opiniões depreciativas, claro, mas que dariam certo trabalho para serem elaboradas. Havia dois, entre eles, que James admirava, de certo modo, e com quem tinha laços de amizade. No final daquela tarde, Elizabeth estava voltando para casa quando avistou James saindo dos aposentos que lhe serviam de moradia e também de escritório. 103


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— Elizabeth! — ele chamou-a, acenando. — Espere um momento, sim? Preciso falar com você. Pela expressão tensa em seu rosto, ela decidiu que aquele era o momento certo para usar o subterfúgio de uma doença na família e, assim, escapar de uma conversa indesejada. — Adoraria conversar com você, James. Mas Lucas acordou indisposto, hoje. Preciso chegar em casa o quanto antes. — Ele parecia em perfeitas condições, ontem. Ela tentou sorrir docemente, mas conseguiu apenas um esgar que mais parecia uma careta. — Crianças adoecem repentinamente, você sabe. Agora, se me der licença... James segurou-a pelo braço e, um tanto brusco, disse: — Se o seu irmão estivesse mesmo doente, você não teria vindo trabalhar. — Depende da gravidade do distúrbio. Eu não disse que Lucas estava gravemente enfermo. — Se não há gravidade, por que a pressa? Dois ou três minutos não farão grande diferença, não é verdade? Enquanto falava, James conduzia Elizabeth para dentro de sua moradia, ainda segurando-a pelo braço. — Sr. Siddons... — ela protestou, inutilmente. Ele a fez entrar e, fechando a porta, disse com irônica doçura: — Pensei que houvéssemos concordado em dispensar as formalidades, entre nós. — É verdade, mas regredimos bastante, nos últimos dias, eu temo. Agora, deixeme sair. — Pare de agir como se eu estivesse prestes a violentá-la — ele quase gritou. Fitando-lhe o rosto rubro de ira, ela retrucou friamente: — Na atual situação, não me parece de todo impossível que o senhor seja capaz de fazer isso. — Santo Deus! — ele exclamou, soltando-a. — Por que você está agindo dessa maneira? — Creio que minha reação seja muito natural, já que fui forçada a entrar em sua casa — ela respondeu, com os olhos azuis lampejando de indignação. — Eu certamente não teria feito isso, se não você não começasse a mentir como uma desvairada. — Como ousa me acusar? — ela ainda tentou reagir. — Você mentiu, ou não, sobre o estado de saúde de Lucas? — Bem, sim — ela admitiu, a contragosto. — Tive de fazê-lo, já que você agiu como uma pessoa grosseira, rude e arrogante, que se recusa a entender quando alguém não quer falar consigo. — Mas deu resultado, pois agora você está aqui. E terá que me ouvir — ele disse, mansamente, com um sorriso maroto em seu belo rosto. 104


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Controlando-se para não revidar aquela provocação, que só serviria para prolongar a cena indefinidamente, ela respirou fundo e então perguntou: — O que você tem a me dizer, afinal? James balançou as duas folhas, diante de seus olhos. — Consegui isto com lady Danbury. — Imagino que seja a rescisão de seu contrato como administrador dessa propriedade — ela disse, mordaz. — É a lista de convidados de lady Danbury — ele esclareceu, num tom seco. — E lamento informá-la de que nenhum destes senhores aqui mencionados é aceitável. — Oh, suponho que você tenha chegado a essa conclusão porque conhece cada um deles pessoalmente — ela ironizou. — De fato — ele afirmou muito sério. — Eu os conheço. Elizabeth arrancou as folhas da mão dele, num gesto brusco, rasgando um pequeno fragmento do canto superior de uma delas. Depois de uma rápida verificação, comentou: — Pelo que posso ver, há dois nobres e um par do reino, nesta lista. Como você poderia conhecê-los? — Seu irmão é um nobre, lembra-se? — Só que meu irmão não está nessa lista — ela retrucou, devolvendo-lhe os papéis. — Você está falando bobagens. — Não — ele assegurou, muito calmo. — Não estou. — Está bem! — ela exclamou, a ponto de perder o controle. — Diga lá o que acha desses senhores, de uma vez por todas. — Três deles são casados. — Certo. E o que há de errado com os convidados solteiros? — Bem, este, por exemplo — disse James, apontando a lista. — Sir Bertram Fellport... é alcoólatra. — Tem certeza? — Sim. Aproximando-se, Elizabeth olhou para a lista e apontou um nome. -— E quanto a este... Lorde Binsby? — Ele joga. — Excessivamente? James assentiu; estava começando a se divertir. — E é gordo — acrescentou. Apontando outro nome, ao acaso, ela indagou: — E este? — Casado. — Este aqui... também? 105


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— Casado — ele repetiu. — Assim como esses dois, que se seguem. Um deles parece que até é feliz, no casamento. A lista foi assim percorrida, até que Elizabeth soltou um longo suspirou de cansaço e irritação: — Restam ainda o sr. William Dunford e o capitão Andrien Cynric. Suponho que um tenha uma deformidade física horrível e que o outro seja pobre como Jó. James sentiu-se extremamente tentado a concordar com ela, mas um simples olhar sobre os dois, durante a festa, mostraria a Elizabeth que ele mentira descaradamente. — Na verdade, ambos possuem uma razoável fortuna e... — James hesitou. — Vamos, prossiga — ela exigiu. — Bem, eles são considerados belos e inteligentes — ele reconheceu, irritado. — Então, qual é o problema? -— Dunford é um libertino. Seria, com toda a certeza, um marido infiel. — Você parece se esquecer de que não pretendo um casamento por amor. Assim, não posso exigir a perfeição. Os olhos de James brilhavam, inquietos. — Você precisa tentar ser feliz. E a fidelidade é um fator indispensável para tanto. Elizabeth fitou-o, incrédula. — Seria maravilhoso, tenho certeza, mas não posso pedir isso de um casamento por conveniência. — De uma coisa esteja certa... O homem que tomar você por esposa irá honrá-la Ou terá que se ver comigo — ele disse, num ímpeto. Os olhos de Elizabeth foram se arregalando e sua boca se abrindo, até que ela desatou numa gargalhada incontrolável. James cruzou os braços, fitando-a com uma expressão severa e decidida. — Oh, James — ela conseguiu dizer, após alguns instantes. — Sinto muito. Isso não foi nada gentil de minha parte. — Elizabeth enxugou os olhos lacrimejantes na manga do vestido. — Sua preocupação pelo meu bem-estar futuro quase me faz perdoá-lo por ter me raptado. — Não raptei você — ele retrucou, de mau humor. — Como pensa proteger minha honra, depois que eu estiver casada? — Você não vai se casar com Dunford — ele sentenciou. — Só se você permitir — ela disse, numa voz estranha, que mostrava o esforço que fazia para controlar o riso. — Mas, então, por que você não me diz o que há de errado com o capitão Andrien? Houve uma longa pausa, na qual James parecia buscar as palavras certas para justificar seu veto ao capitão. Por fim, ele argumentou: — Andrien tem uma postura física indevida. Eu diria que é, ainda, verdadeiramente inconveniente. Pasma, Elizabeth mal podia acreditar no que acabara de ouvir. — Perdão... Creio que não entendi. 106


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— Parado ou em movimento, os ombros do capitão Andrien estão sempre curvados para frente, o que é por demais irritante — ele disse, de um só fôlego. — Você está dizendo que devo riscar o capitão da minha lista, só porque ele anda um tanto... encurvado? — Ora, isso é um claro sinal de fraqueza interior... Percebe? Sem nenhum aviso, ela estendeu a mão e tocou-lhe a testa. — Você deve estar febril. Nesse estado, às vezes dizemos coisas sem sentido. — Não tenho febre. — Mas age como se tivesse. É melhor ir se deitar. — Ela marchou até a porta, mas voltou-se para dizer: — James... — Sim? — Corrija a sua postura. Você está com a coluna arqueada para frente. — E, batendo a porta, partiu em passos rápidos.

CAPÍTULO VII

No dia anterior à tão anunciada festa em Danbury House, lady Danbury comunicou a Elizabeth que precisaria de sua presença durante o evento, não em sua função habitual como dama de companhia, mas como reforço na retaguarda do atendimento. Um sentimento de apreensão dominou-a por alguns instantes, antes que Elizabeth compreendesse que aquela era a única solução plausível, no caso. Sem um traje adequado, ela não poderia participar da festa, mesmo que lady Danbury a convidasse. E por que a velha condessa precisaria de sua dama de companhia durante uma festa na qual todos os convidados disputariam a honra de sua atenção? Mesmo estando em segundo plano, no interior da casa, sempre haveria a possibilidade, ainda que remota, de Elizabeth ver e ser vista pelos convidados. Inclusive pelos que poderiam se enquadrar em seu plano: os poucos homens solteiros presentes. Assim, no dia tão esperado, vestindo seu melhor traje, Elizabeth dirigiu-se a Danbury House, pronta a se conformar com o que o destino quisesse lhe oferecer. Havia ordem e eficiência na infra-estrutura bem planejada daquela festa. E Elizabeth não teve dificuldades em assumir o posto a ela designado por Wilson, o mordomo, a quem lady Danbury, por um tolo capricho, insistia em chamar de Cribbins. Dada sua educação refinada e alta posição na hierarquia dos servidores da casa, Elizabeth ficou encarregada do atendimento especial aos convidados que eventualmente precisassem de algo além dos serviços corriqueiros, prestados pela criadagem. Assim, entre buscar outras luvas nos aposentos de lady Chesterfield, que manchara as suas ao colher rosas e acompanhar o decrépito pai do dr. Robert Gilford 107


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num lento passeio pelos jardins, Elizabeth acabou por deparar com um dos homens solteiros presentes ao evento. Várias senhoras, elegantemente vestidas, acompanhadas de seus pares masculinos, conversavam no gramado quando um deles se destacou do grupo e veio em sua direção. Muito jovem, era belo como um sonho e vestia-se com uma elegância admirável, destacando-se entre os outros convidados. — Sou Bertram Fellport — disse ele, com uma simplicidade encantadora. — E não compreendo porque ninguém nos apresentou, até o presente momento. — Talvez porque eu seja apenas a dama de companhia de lady Danbury e esteja aqui para ajudar na recepção dos convidados que por ventura precisarem de algum atendimento especial. — Mas, na certa, a senhorita tem um nome...? — Elizabeth Hotchkiss, a seu dispor — ela respondeu, com um rápido sorriso. Tomando a mão que Elizabeth mantinha caída, ao longo do corpo, ele a beijou lentamente, sem deixar de fitá-la nos olhos. — Muito prazer, srta. Hotchkiss. Ou será que posso chamá-la de Elizabeth? — Faça como lhe parecer melhor, sr. Fellport. — Sir Fellport — ele corrigiu, num tom amável. — Mas pode me chamar de Bertram, simplesmente. Elizabeth mordeu o lábio inferior, sentindo-se de súbito muito tímida. Todo aquele plano, tão ousado, para conseguir um marido rico, agora lhe parecia descabido e um tanto ridículo. A enorme distância entre os agraciados pela fortuna e os outros mortais evidenciava-se de forma gritante, Elizabeth pensou, enquanto fazia a inevitável comparação de seu velho vestido, desbotado e quase sem brilho, com o traje de sir Fellport, realmente magnífico e no rigor da moda. — Não pude deixar de notar a atenção e o carinho com que você tratou o venerando pai do dr. Gilford, durante o passeio pelos jardins, ao redor do lago. Então, pensei que talvez não se importasse de mostrar-me os arredores. — Certamente, sir Fellport, será um prazer — Elizabeth respondeu, solícita. — Por favor, me chame de Bertram — ele sugeriu, uma vez mais. — Está bem, já que insiste. Então, Bertram... O que gostaria de conhecer? — As estrebarias. Sou adepto da equitação e parece-me que lady Danbury tem cavalos magníficos. — É verdade, mas bem, sinto muito, mas pouco ou nada entendo desse assunto. Portanto, não seria melhor que um cavalariço o acompanhasse? — E privar-me de sua graciosa companhia? De modo algum. — Nesse caso, podemos ir. Gentilmente, ele ofereceu o braço a Elizabeth. E, conversando amenidades, ambos caminharam naquela direção. Sentada numa poltrona esculpida em madeira de lei, pintada a ouro e estofada em veludo azul, lady Danbury presidia a festa, do terraço que se abria para o jardim, cercada por seus convidados. A poltrona fora a única peça da mobília a ser deslocada para aquele local, com a intenção de emprestar um tom de luxo e requinte à presença da anfitriã. 108


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Batendo a bengala no piso, lady Danbury exigiu a presença de uma criada, parada à curta distância e atenta ao que acontecia em torno. — Vá procurar Elizabeth e diga-lhe que preciso lhe falar — ordenou, antes de voltar-se novamente para os convidados. À direita da velha condessa estavam lady Corbishley, com sua jovem filha, e o sr. William Dunford, que parecia ser alvo de extrema atenção de ambas. No íntimo, lady Danbury sorria da tentativa que lady Corbishley fazia para evidenciar as qualidades da filha aos olhos de William Dunford. O homem era belo, relativamente jovem, solteiro e muito rico. O fato de ter a péssima reputação de um incorrigível libertino parecia não incomodar nem um pouco a mulher, ansiosa por casar a filha. Somando e subtraindo, lady Danbury pensou que, no fundo, preferiria estar em sua sala, com o gato Malcolm no colo, ouvindo distraidamente sua dama de companhia ler um soneto de Shakespeare, enquanto entregava-se às mais doces recordações, que lhe chegavam cada vez mais vividas, com o passar do tempo. Mas não podia se esquecer de certas obrigações sociais. O calendário de recepções e visitas tinha que ser cumprido, sob pena de esquecimento e conseqüente exclusão do meio que, não sendo o melhor e nem o mais divertido, ainda assim era o único aceitável. Ao menos para ela, que nascera e se criara na alta sociedade inglesa. Com um suspiro, ela voltou-se para lady Corbishley e aconselhou-a, num tom discreto: — Menos, minha cara... Não se esforce tanto.

Elizabeth estava encantada com a facilidade de comunicação com sir Bertram Fellport. Todos os tópicos levantados por ela, na conversa, recebiam imediata guarida na atenção lisonjeira com que ele a ouvia. Depois, com uma simplicidade tocante, ele começava a discorrer sobre o assunto, tornando-o mais rico e interessante com detalhes e exemplos inesperados, divertidos e até mesmo brilhantes. Isolada em Surrey, com uma vida social praticamente inexistente, Elizabeth estava fascinada por aquele homem. — Que belo exemplar de um animal de tração — Bertram comentou, apontando uma das baias. Elizabeth aproximou-se, curiosa. E seu cotovelo esbarrou levemente no corpo de seu acompanhante. — Perdoe-me — ela apressou-se a dizer, enquanto corava de embaraço. O silêncio com que sir Bertram Fellport recebeu o pedido de desculpas fez com que ela erguesse os olhos em sua direção e então recuasse, instintivamente, assustada com a expressão com que ele a fitava. Como uma máscara retirada bruscamente, toda a simpatia, sociabilidade e humor haviam desaparecido daqueles traços que permaneciam, ainda, belos. Mas com um toque de crueldade realmente assustadora. Os olhos azuis, agora baços, e a boca um tanto contorcida destacavam-se na palidez do rosto de sir Bertram. Estendendo a mão, ele segurou Elizabeth pelos ombros, atraindo-a em sua direção, enquanto curvava-se sobre ela. Um cheiro forte de álcool envolveu-a 109


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repentinamente. E só então ela percebeu que aquele homem estava embriagado. As palavras de James, classificando Bertram Fellport como alcoólatra, atravessaram sua mente como um raio, antes que uma voz feminina, aguda e um tanto assustada, a arrancasse de sua perplexidade: — Srta. Hotchkiss, lady Danbury pede sua presença no terraço, imediatamente. Com um safanão nada elegante, Elizabeth livrou-se daqueles dedos de aço que a subjugavam e partiu, quase correndo, no encalço da criada. A caminho do terraço, onde a velha condessa a aguardava, Elizabeth teve tempo de recuperar seu equilíbrio emocional, abalado pela súbita constatação de que os homens da nobreza talvez não fossem, exatamente, nobres. Se a criada não chegasse a tempo, uma cena certamente grotesca teria se desenrolado, na estrebaria, ela pensou, com um calafrio. De uma coisa estava certa: não iria permitir os abusos daquele pobre bêbedo dissimulado, nem que para isso tivesse que recorrer a meios radicais. As conseqüências seriam, previsivelmente, desastrosas. E então, um escândalo seria deflagrado, arruinando a festa de lady Danbury. Quando Elizabeth chegou ao terraço, perguntando-se o que, de tão urgente, fizera a velha condessa mandar que a chamassem, encontrou lady Danbury em sua poltrona majestosa, visivelmente entediada. Com o gato Malcolm no colo, ela ouvia, sonolenta uma senhora de voz irritante dissertar sobre as qualidades da jovem ao lado, que não sabia o que fazer para disfarçar o constrangimento que tais elogios descabidos lhe causavam. Elizabeth mal teve tempo de sentir pena da pobre moça, provavelmente filha ou sobrinha da senhora em questão, quando recebeu o impacto de um sorriso de dentes perfeitos, endereçado a ela pelo único homem ali presente: era um belo exemplar do sexo masculino e, ao menos aparentemente, não estava embriagado. — Elizabeth, aproxime-se — disse lady Danbury, interrompendo, sem nenhuma consideração, a torrente estonteante de palavras que brotavam da boca da senhora a seu lado. — Mandou me chamar, minha senhora? — ela perguntou, num tom formal, dada as circunstâncias. — Sim. Quero que vá à biblioteca e traga-me um exemplar de Sonhos de Uma Noite de Verão, de Shakespeare. Nele há uma citação que desejo mostrar a lady Corbishley. — Sinto ter de lembrá-la que enviamos esse livro a um especialista, em Londres, para que ele restaurasse a encadernação. — É evidente que me lembro desse fato — a velha condessa mentiu. — Mas tenho certeza de que possuo um exemplar extra, em alguma parte. — Não sei onde... — Elizabeth murmurou. — O que disse, menina? — Nada, minha senhora. Vou procurar o livro. — Permita-me acompanhá-la, senhorita — disse o homem, num tom solícito. — Assim, terei o prazer de conhecer a biblioteca de nossa anfitriã. Era óbvio, para Elizabeth, que o homem acabava de encontrar o pretexto desejado para escapar da conversa, que certamente o estava deixando entediado. 110


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— Que eu saiba, você nunca se interessou por livros — lady Danbury disse ao homem, evidentemente contrariada. — Sempre há uma primeira vez — ele retrucou, sorrindo. Elizabeth fitou o desconhecido, que tinha certa semelhança física com James: a mesma altura, os mesmo cabelos e olhos castanhos. — Eu ficaria feliz em ajudar essa bela jovem a encontrar a obra que a senhora deseja, minha cara condessa — ele insistiu. — Mas o senhor não pode nos privar de sua agradável companhia! — protestou a mulher de voz irritante. — William Dunford — murmurou lady Danbury, por entre os dentes —, eu estava prestes a relatar o que sucedeu com a condessa russa. — Oh, mas eu conheço o fim dessa história — ele retrucou, irônico. — Tenho certeza de que quando lady Corbishley parar para respirar, ela e sua adorável filha terão o maior interesse em ouvi-la. Elizabeth sentiu o queixo cair de espanto, não tanto pelo tal Dunford ter sugerido que aquela senhora era uma grande tagarela, mas por desafiar lady Danbury que, evidentemente, não queria que ele se afastasse. Temerosa, aguardou o desfecho da cena. Lady Danbury franziu a testa e então disse, com aparente calma: — Já que insiste, então acho melhor fazer as apresentações: esta é Elizabeth Hotchkiss, minha dama de companhia. Elizabeth curvou-se graciosamente e lady Danbury prosseguiu: — Ao meu lado estão a sra. Corbishley e sua filha. Quanto a este... — Ela fez uma pausa, antes de concluir. — Este cavalheiro, é o sr. William Dunford. — Bem, agora, que as apresentações foram feitas, vamos aos fatos — disse Dunford, oferecendo o braço a Elizabeth. — Afinal, precisamos encontrar um livro. — Ora, mas isso é tão... Irregular — queixou-se lady Corbishley. — Bobagem — cortou Dunford. — Seria de extremo mau gosto deixar uma donzela em apuros. E antes que alguém mais pudesse reclamar, ele se afastou, levando Elizabeth. A srta. Corbishley parecia prestes a chorar e a indignação de sua mãe era visível. Quanto a lady Danbury, estava tão ou mais irritada do que ambas. Assim, levantou-se bruscamente e, resmungando um pedido de licença, colocou Malcolm no chão e afastouse, com uma rapidez inesperada para sua idade. Na biblioteca, longe do burburinho da festa, Elizabeth vasculhava as estantes, em busca do livro solicitado pela condessa. Enquanto isso, Dunford olhava distraidamente as ilustrações de um grosso volume sobre curiosidades arqueológicas. Parecia nem um pouco preocupado com o sucesso da busca. — Sabe, Elizabeth — ele disse, a certa altura, num tom casual —, é muito raro, em nosso meio, encontrar uma jovem educada que não seja tola, nem fútil. — Ora, sr. Dunford, não peque pelo exagero. 111


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— Por favor, me chame de William. Quanto ao seu comentário... Não, não estou sendo exagerado. — Tenho certeza, William, de que em Londres existem muitas jovens interessantes. — Talvez... Mas nenhuma delas é tão bela quanto você, isso eu posso assegurar. Elizabeth não pôde deixar de sorrir. Algo, naquele homem, a agradava sobremaneira. A tradição rezava que os abençoados com a beleza tendiam, geralmente, a ser amaldiçoados com um temperamento ruim ou um caráter duvidoso. Mas William Dunford parecia ser a exceção que confirmava a regra. Ele daria um bom marido, ela pensou. Mas pensar era uma coisa e, levá-lo a pedir sua mão em casamento... Era bem outra. — Vou fingir que acredito — ela respondeu, por fim. — Mas, conte-me, William, de quem estava tentando fugir, ainda há pouco, no terraço... De lady Danbury? — De jeito nenhum! A condessa é, de longe, a pessoa mais divertida e espirituosa de toda a festa. — Então, de quem? — Elizabeth insistiu. — Da srta. Corbishley? — De lady Corbishley, que quer casar a filha a qualquer preço. — Ele fingiu estremecer. — Você deve conhecer o tipo. Um riso nervoso escapou dos lábios de Elizabeth. Afinal, ela não podia considerarse muito diferente do tipo a que ele se referia. Pois, como tantas outras mulheres, também ela procurava por um marido. — Eu daria uma moeda de ouro pelos seus pensamentos — disse Dunford, aproximando-se dela que, ligeiramente curvada, examinava os livros da prateleira mais baixa de uma estante, quase ao rés do chão. — Seria um desperdício, eu lhe garanto — Elizabeth retrucou, sem se voltar, pegando um volume que havia lhe chamado a atenção. — Não sei ao certo o que se passa na mente de uma bela jovem, ilhada numa província como Surrey. Essa solidão deve, sem dúvida, propiciar pensamentos inconfessáveis. Ou curiosidades não satisfeitas. Elizabeth sentiu-se chocada, não apenas com as palavras, mas com o tom de voz de Dunford, que havia mudado repentinamente. E foi com uma sensação de mal-estar que ela se ergueu, dizendo: — Sr. Dunford não creio que lhe dei a liberdade de falar-me nesse tom. Terei de lembrá-lo que o senhor é um convidado de lady Danbury, nesta casa? Puxando-a pelo braço, ele a atraiu para si, enquanto replicava: — Terei de lembrá-la que você é uma criada de lady Danbury e, portanto, deve cuidar do conforto de seus convidados? Elizabeth fitou aqueles olhos castanhos, que antes haviam lhe parecido semelhantes aos de James e viu neles algo muito feio, frio e perigoso. Enganar-se duas vezes, num só dia, era azar demais, ela pensou, tentando não entrar em pânico. Será que todos os nobres da Inglaterra eram assim, tão desprezíveis? Mas o momento não era propício a reflexões. Ao contrário: ela precisava escapar dali, o mais rápido possível. Com um sorriso forçado, começou a andar ao redor de 112


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Dunford, que ainda a mantinha segura pelo braço. Então, sem uma palavra de aviso, ele a agarrou. O livro que pendia da outra mão de Elizabeth não era muito grande ou pesado, mas atingiu a orelha direita de Dunford com um ruído surdo. Praguejando, Dunford jogou-a no chão e começou a levantar seu vestido. Elizabeth gritou, mas Dunford tapou-lhe a boca, num gesto brutal, enquanto, com a outra mão, tentava tirar suas roupas de baixo. — Você vai fazer o que eu disser — ele murmurou-lhe ao ouvido. — E depois vai me agradecer, entendeu? Apavorada, Elizabeth viu seus piores temores sendo cruelmente confirmados: aquele homem tinha a firme intenção de violentá-la. E ela não teria como evitar essa tragédia.

James havia passado o dia todo inquieto, evitando Danbury House e suas proximidades, com receio de ser reconhecido por algum convidado. Estava de péssimo humor e a tarde radiante de verão, que uma brisa constante tornava fresca e agradável, não parecia ajudar em nada. Debruçado na janela de sua modesta habitação, ele viu alguém se aproximando. Tratava-se de um criado da condessa, que vinha correndo, em sua direção. Afastando-se da janela, James abriu a porta para recebê-lo. — Sr. Siddons! — disse o criado, quase sem fôlego. — Trago-lhe uma mensagem urgente, de lady Danbury. — E entregou-lhe um envelope, que retirou do bolso. Curioso, James leu a breve e terrível mensagem, escrita num cartão retangular: Caro James, Elizabeth está com William Dunford, na biblioteca. Temo por ela. Por favor, tome as providências cabíveis e conte com todo meu apoio. Ass.: Agatha. Sem uma palavra ao serviçal, ele disparou em direção a Danbury House, agradecendo mentalmente a existência de uma rede de corredores internos, na mansão, que lhe possibilitaria chegar à biblioteca, sem passar pelas salas principais. Com o coração apertado, murmurava incessantemente: — Ah, William... William... Se você ousar tocá-la... — Agora você já está se acostumando, não é verdade? — dizia Dunford. — Fique quietinha só mais um minuto e começará a gostar. O peso de Dunford a esmagava de encontro ao piso, tornando sua reação quase impossível. Numa última e desesperada tentativa de resistir, Elizabeth cuspiu-lhe no rosto. — Ora, sua vagabunda! — ele bradou, pronto a esbofeteá-la. Elizabeth fechou os olhos, esperando pela agressão. Mas, como num passe de mágica, o peso intolerável sobre seu corpo desapareceu e Dunford saiu rolando pelo chão. Abrindo os olhos marejados de lágrimas, ela reconheceu a figura, em pé, a seu lado. — James? — ela murmurou, entre aliviada e perplexa. 113


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— Você!? — bradou Dunford, tentando pôr-se em pé. Com sua bota gasta, mas bem feita, James atingiu o rosto de Dunford com um poderoso chute, que o fez cair de costas, num baque surdo. Sem uma palavra, James alcançou-o e, agarrando-o pela gola do casaco, arrastou-o para a saída da biblioteca, como se ele não passasse de um boneco de palha. Contudo, Dunford era um homem de grande estatura, acostumado aos esportes. Não iria levar uma surra, sem tentar reagir. James agarrou-o e começou a arrastá-lo, mas Dunford conseguiu segurar-se na extremidade inferior de um porta-chapéus, esculpido em carvalho, que tombou sobre seu agressor, atingindo-o de raspão na cabeça antes acertarlhe o ombro, com todo seu peso. A dor súbita fez com que James soltasse Dunford. Este, com uma agilidade inesperada, ergueu-se, colocando-se em posição de combate, com os punhos fechados, prontos para a defesa e o ataque. Como todos os ingleses, Elizabeth conhecia o boxe, mas jamais observara um combate violento como aquele que agora presenciava. Com uma série de socos bem colocados James atingiu seu oponente na boca, no fígado e no rosto, fazendo-o rodar em torno de si mesmo. Então, com a sola da bota, James desceu todo seu peso sobre a panturrilha de Dunford, que caiu de joelhos, gemendo dolorosamente. Em seguida, aproximando-se sem nenhuma pressa, com um sorriso cruel no rosto contraído, desferiu, com ambos os punhos, dois potentes diretos, um em cada lado do rosto de Dunford, que caiu para a frente, sem poder mais reagir. Tornando a arrastá-lo, agora com uma só mão, James abriu a porta e jogou-o no corredor. Depois, sem dirigir sequer uma palavra a Elizabeth, fechou a porta e saiu. Pegando Dunford com brutalidade, levou-o para fora da mansão. Jogou-o contra uma parede e olhou-o com desprezo. Dunford, que havia desmaiado, levou alguns minutos para recobrar a consciência. — Como se sente agora, seu cretino? Ainda tem vontade de abusar de pessoas indefesas? — disse James, por entre os dentes, mantendo um pé sobre seu peito. — Riverdale... O que está fazendo aqui? — balbuciou William Dunford, estonteado e atônito. — Por que defendeu aquela vadia? Sacando uma pistola da cintura, James ergueu o cão da arma com o polegar e, encostando o cano na cabeça de Dunford, disse baixinho: — Repita isso. Atreva-se a chamar Elizabeth de vadia novamente, que faço saltar seus miolos, sem pena ou remorso. Apavorado, Dunford tentou argumentar: — Somos amigos, Riverdale... O que se passa com você? — Aquela mulher é minha, entendeu? Se tentar se aproximar de Elizabeth, ou mesmo ousar falar sobre o que aconteceu aqui, irei atrás de você e acabarei com sua vida. — Mas... como eu poderia saber? — Dunford balbuciou. — Bem, agora você já sabe. Trate de se recompor e suma daqui. Sua presença empesteia o ar de Danbury House. Como despedida, James ainda bateu com a coronha da arma na testa de Dunford. Um golpe forte, o suficiente para que o outro levasse suas ameaças a sério. 114


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Cambaleando, Dunford contornou a casa e desapareceu de vista. Com um suspiro, o corpo ainda tremendo de raiva, James esgueirou-se volta à biblioteca, tentando não ser visto. Ao entrar no aposento, deparou com Elizabeth, encolhida num canto pouco iluminado. Ela gemia, baixinho, e parecia em estado de choque. Ajoelhando-se ao lado dela, James envolveu-a com os braços, tentando consolá-la. — Já passou... Está tudo bem agora, minha querida — ele disse, num tom carregado de ternura. — Quer que eu vá buscar um copo de água? Elizabeth nada respondeu, mas James sentiu-a relaxar de encontro ao seu corpo. Então, tremores intermitentes a assaltaram, e ele assistiu, condoído e impotente, aos gemidos e soluços daquela mulher cujo sofrimento era também seu. — Ele já se foi, querida — James sussurrava-lhe ao ouvido. — Ele não vai incomodá-la de novo, eu juro. Os olhos azuis como safira, o focavam com dificuldade. Mas, a certa altura, Elizabeth esboçou uma primeira reação, numa frase que o encheu de esperança: — Tenho tentado ser forte. Todos os dias, digo a mim mesma que devo resistir. Mas não está dando certo... Oh, Deus! — E voltou a chorar. — Você é forte — ele afirmou, com convicção. — Você é a mulher mais forte que eu conheço, Lizzie, querida. Ela não respondeu, mas James podia vê-la lutando para conter os soluços. — Você lutou bravamente — ele prosseguiu. — Mas aquele canalha tinha o dobro do seu tamanho. Elizabeth soltou um longo suspiro e, afastando-se dele, apoiou as costas contra a parede. Estava tão desolada e fraca, que parecia incapaz de ficar em pé. — Estou cansada, James. Desde a morte de meu pai que venho tentando manter a cabeça erguida, mas não posso mais. — Elizabeth — ele perguntou, cauteloso. — Como morreram seus pais? — Minha mãe morreu quando a carruagem em que viajava tombou em um precipício. Todos viram. Cobriram o corpo dela com um lençol, pois estava desfigurada. James esperou que ela prosseguisse, mas Elizabeth calou-se. Então, ele incentivou-a novamente: — E seu pai? O que houve com ele? — Ele se matou — Foi a resposta dura e fria. James sentiu o peso daquela confissão atingi-lo em cheio, enquanto um sentimento de revolta crescia-lhe no íntimo. — O que aconteceu? — indagou, no tom mais calmo possível. — Meu pai amava minha mãe. Os filhos foram apenas uma conseqüência inevitável desse amor. — Não sei se entendi bem. Num fluxo incontido, como se as dores e mágoas, guardadas por tanto tempo em seu coração, extravasassem de uma só vez, as palavras fluíram pelos lábios de Elizabeth com a velocidade de uma forte correnteza: 115


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— Meu pai simplesmente não podia continuar vivendo sem ela. Nós tentamos tirálo daquele limbo, mas ele não queria ser resgatado. Talvez não nos amasse o suficiente para sobreviver à morte de minha mãe. — Não diga mais nada, Elizabeth. Não se martirize, por favor. Ignorando o aparte, ela prosseguiu: — Jamais contei isso a alguém. Meu pai atirou em si mesmo, no jardim de nossa casa. E para que meus irmãos não o vissem, arrastei-o para o bosque e forjei um acidente de caça. — Num tom de crescente amargura, acrescentou: — Graças a essa providência, consegui que ele fosse sepultado em terra santa. Mas lamentei cada palavra da homenagem final prestada a meu pai, pelo pároco, elevando-o a um grau de sabedoria e bondade que na verdade ele nunca teve. Fiquei muito revoltada e, durante anos, culpeio pela ruína de nossa família. Mas, depois, com o passar do tempo, tentei compreendêlo... Ou, ao menos, perdoá-lo. — Talvez ninguém possa imaginar o tormento pelo qual passa um suicida, antes de concretizar esse ato terrivelmente cruel contra si mesmo — James opinou, consternado. — É... Talvez você tenha razão. — Elizabeth, eu... — ele fitou-a, com infinita ternura — sinto muito. Como se não o ouvisse, ela murmurou: — Até hoje sonho com aquele dia, no jardim... Havia sangue... muito sangue. — E você vem carregando esse pesado fardo sozinha e em silêncio? — Há cinco anos. — Ela ergueu os olhos para fitá-lo. — Há cinco anos que venho tentando governar o que restou de nossa família. — De súbito sorriu, tristemente. — Esta é a dura verdade. Mas, para você, deve ser difícil compreender uma realidade tão chocante. Afinal, seus pais o amavam, não é mesmo? — Minha mãe me amava — ele a corrigiu, sem pensar. — Mas não posso dizer o mesmo de meu pai. Para ele, minha mãe era uma simples matriz e, eu, o herdeiro. — Você não amava seu pai? — ela perguntou, surpresa. — Oh, muito — ele respondeu, com amarga ironia. — Até hoje rezo para que ele esteja num confortável trono, no inferno. — James! — ela reagiu, chocada. — Por acaso ele batia em você? — Nunca. Meu pai jamais torturaria um valioso animal de raça... ou seu herdeiro. Já com relação a minha mãe ele não tinha tais escrúpulos. — Oh! — Elizabeth exclamou, horrorizada. — E o que aconteceu com eles? — Minha mãe, para fugir daquela vida terrível, deixou-se morrer lentamente, quando era ainda muito jovem. Adoeceu e sucumbiu, sem nem mesmo tentar lutar contra sua enfermidade. Quanto a meu pai, faleceu há poucos anos, de infarto. — Que estória triste — ela murmurou, penalizada. — Não me orgulho, mas, a bem da franqueza, tenho que lhe contar que não compareci ao funeral dele. Foi a única maneira de demonstrar meu desprezo àquele tirano. — Oh, James! — Num gesto espontâneo, Elizabeth estendeu a mão e acariciou-lhe os cabelos. — Eu não o conheço muito bem, mas vejo que existe algo de profundamente humano, em você. E isso só é possível para quem conheceu o amor, na infância. 116


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Ele sorriu, melancólico, mas concordou, com um aceno de cabeça. — Por sorte, eu tinha uma tia que me acolheu e criou, com todo amor. A ela devo a melhor parte do que hoje sou. — E como seu pai permitiu tal coisa? — Ela era forte e o intimidava. Nunca antes, eu havia conhecido alguém capaz de enfrentar meu pai. — Vou incluí-la em minhas orações — disse Elizabeth, inclinando-se e beijando-lhe o rosto. — Obrigado — ele sussurrou. — Pela compreensão ou pelo beijo? — Por estar aqui. Por me ouvir... Por ser você... — Entendo o que você quer dizer. Sinto o mesmo a seu respeito.

Na manhã seguinte, enquanto caminhava até a casa de Elizabeth, James refletia sobre sua vida. Desde que deixara o Ministério da Guerra, um ano atrás, estivera mais vegetando do que vivendo. Durante essa dura fase, dizia a si mesmo que precisava reagir, levar sua vida adiante. Mas as poucas opções que via pela frente não o satisfaziam. Sabia que precisava pensar em se casar, mas as mulheres que conhecia, em Londres, não lhe despertavam o menor interesse. Sabia, também, que precisava administrar suas posses e sua propriedade, mas era difícil chamar de lar o Castelo Riverdale, onde a sombra de seu pai parecia habitar cada aposento. No entanto, em pouco mais de uma semana, sua vida ganhara uma nova dimensão. Pela primeira vez, depois de um ano, sentia-se vivo e desejando algo, ou melhor: alguém. Sim... Ele queria Elizabeth Hotchkiss. Fora enfeitiçado por ela, talvez desde o primeiro momento em que a vira. Ficara obcecado, louco. Ao menos assim pensara, até a véspera, quando fora consolá-la, na biblioteca. A partir daquele momento, e de tudo o que então ocorrera, tudo havia mudado. E ele tomara uma séria decisão: desposar Elizabeth. Na tarde anterior, flagrara-se dizendo a ela coisas que mantivera em segredo durante anos a fio. E, à medida que falava, sentia que aquele vazio, que havia tanto tempo o habitava, começava a ser preenchido. Fora talvez nesse momento que percebera que não estivera enfeitiçado, nem obcecado, por aquela bela mulher. Percebera que precisava dela, mais do que tudo, no mundo. Mais que o próprio ar que respirava. A essa compreensão sucedera-se outra: a de que não teria paz, enquanto não a fizesse sua, enquanto não conhecesse cada centímetro de seu corpo, cada recanto de sua alma. E esse sentimento só poderia ter um nome: amor. Um amor ao qual ele queria entregar-se, sem restrições. Mas, por outro lado, não podia abandonar suas responsabilidades, nem quebrar a promessa que fizera a lady Danbury. Portanto, antes de tudo, teria de resolver o caso da chantagem, no qual empenhara sua palavra de honra. Além do mais, devia muito à velha condessa, que tanto apoio e carinho lhe dera, durante a infância. Ela nunca poupara esforços, nem amor. Agora, chegara o momento de retribuir tanta dedicação.

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Na noite anterior, dissera a lady Danbury que a melhor tática para descobrir o chantagista seria aguardar um novo contato, uma nova ameaça. Mas o fato era que ele próprio estava farto de esperar. Imerso nesses pensamentos, James chegou à casa de Elizabeth. Bateu à porta e ela não tardou a atender. — James?! O que o traz aqui? — Vim para lhe contar uma coisa. — E ele anunciou, de um só fôlego: — Estou de partida para Londres. — Londres? — ela repetiu, surpresa, dando-lhe passagem. James entrou e olhou ao redor, à procura dos outros Hotchkiss. — Estou sozinha — ela explicou. — Lucas foi pescar, com um amigo. Susan e Jane foram à cidade, fazer compras. — Em seguida, indagou: — Por quê você precisa partir, assim, de repente? — Tenho de resolver alguns assuntos de família, nada agradáveis por sinal — ele disse, lamentando não poder contar toda a verdade. Mas consolando-se com o fato de que essa resposta não era, exatamente, uma mentira. — Compreendo — Elizabeth murmurou, após alguns instantes de tenso silêncio. Claro que ela não compreendia, James pensou, angustiado. Como poderia? Mas, de qualquer forma, não havia como compartilhar, com ela, o verdadeiro motivo de sua ida a Londres. Provavelmente, o chantagista não cometeria nenhum ato violento, durante sua ausência. Mas, por outro lado, não seria prudente descartar essa possibilidade. Assim, o único modo de proteger Elizabeth seria ocultar a verdade. — Voltarei logo — ele afirmou. — Creio que, no máximo, dentro de uma semana. — Você não está planejando fazer algo contra William Dunford... Ou está? — ela indagou, apreensiva. — De modo algum — ele assegurou, erguendo-lhe o queixo para fitá-la nos olhos. Porém, a expressão de Elizabeth ainda era de incerteza: — Se você agredi-lo, poderá ser preso e enforcado. Não se esqueça disso. — Fique tranqüila. — Você não seria tão insensato a ponto de... James silenciou-a com um beijo leve e, no entanto, pleno de promessas. — Não se preocupe comigo — murmurou, com os lábios ainda colados aos dela. Afastando ligeiramente o rosto, tomou-lhe as mãos entre as suas. — Apenas, devo resolver alguns problemas, antes de... — As palavras lhe faltaram e, uma vez mais, ele percebeu a pergunta silenciosa nos olhos de Elizabeth. — Em breve, estaremos juntos — disse, por fim. — Eu prometo. Temos um futuro brilhante pela frente. Posso sentir isso, com uma certeza inabalável. — E voltou a beijá-la, longamente. Elizabeth guardou essas palavras em seu coração e também na memória, repetindo-as com freqüência, para si mesma, nos dez dias que se seguiram. Dez dias... E nenhum sinal de James, que continuava ausente. Não conseguia entender por que James mostrara-se tão otimista, com relação ao futuro. Afinal, tudo permanecia como antes: ela continuava em sua função de dama de 118


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companhia de lady Danbury. E ele continuava a ser um simples administrador. Ambos sem dinheiro, sem perspectivas de melhorar financeiramente. Mas, de algum modo, ela acreditava na capacidade de James para construir um futuro. Um futuro brilhante, como ele próprio dissera. Talvez James estivesse na expectativa de receber uma herança de algum parente distante. Talvez conhecesse algum professor, em Eton, que pudesse conseguir uma bolsa para Lucas completar seus estudos, ou, ao menos, um bom abatimento nos custos. Talvez... talvez... Sua vida estava cheia de incógnitas, Elizabeth pensava, tentando não ceder à angústia. Mas "talvez" era preferível a "nada", à falta de perspectivas. A palavra "talvez" podia encerrar uma promessa, uma esperança, enfim... algo que mudaria sua vida. E também a de James. E também a de seus irmãos. Depois de passar anos carregando o duro peso de tantas responsabilidades sobre os ombros, Elizabeth quase se sentia tentada a mudar, a ao menos tentar deixar de lado a preocupação constante em que vivia. Já que James dissera que podia resolver seus problemas, então, ela queria acreditar nele, dar-lhe um voto de confiança. "Talvez" fosse tolice ou infantilidade achar que um homem poderia transformar o seu mundo, tornando-o simplesmente perfeito. Mas o fato era que ela precisava. Mais que isso: ela merecia um pouco de leveza, talvez um pouco de mágica, em sua vida. Agora, que havia encontrado James, não queria estragar tudo com pessimismo ou pensamentos negativos. Pela primeira vez, em muitos anos, seu coração estava leve. E assim deveria continuar. Lady Danbury confirmara, alguns dias atrás, que dera umas breves férias a James, para que ele cuidasse de alguns assuntos de família. Isso era algo singular, Elizabeth bem o sabia. Nenhum patrão daria férias, tão rapidamente, a um empregado, por mais eficiente que ele fosse. Mas, por outro lado, ela sabia, também, que James gozava da mais alta consideração da velha condessa, já que as famílias de ambos eram unidas por laços de amizades, muito antigos. Contudo, lady Danbury se encontrava num estado de milação constante, desde que James partira. Ela podia até ter concordado com o afastamento temporário de James, mas certamente o fizera a contragosto. Foi essa a conclusão a que Elizabeth chegou, depois de perder a conta de quantas vezes a velha condessa havia reclamado, e continuava reclamando, de sua ausência. Felizmente, lady Danbury tinha algo mais com que se ocupar, além de maldizer James: os preparativos para o baile de máscaras, que daria em breve. Seria o maior evento promovido em Danbury House, após muitos anos. Cinqüenta criados haviam sido contratados, para trabalhar no preparo e na realização do baile. E, assim, Danbury House fervilhava. Em meio ao intenso movimento, Elizabeth não tinha sequer um momento de sossego. Até mesmo suas idas à biblioteca estavam se tornando mais raras. Em cada canto, em cada corredor, encontrava pessoas atarefadas, ou ansiosas para consultar lady Danbury a respeito de várias questões, como a lista de convidados, o menu, a decoração, as fantasias... Sim, as fantasias... no plural! Para espanto de Elizabeth, lady Danbury havia mandado confeccionar dois trajes: uma de Rainha Elizabeth, para si, e uma de pastora, para a própria Elizabeth, que não gostou nem um pouco da idéia. Três dias antes do baile, a melhor costureira de Surrey chegou a Danbury House, trazendo as fantasias para que lady Danbury e Elizabeth provassem. A de lady Danbury 119


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precisou de alguns ajustes. Mas a de Elizabeth parecia perfeita. Ao menos, na opinião da costureira e da velha condessa, que comentou, entusiasmada: — Esse traje lhe cai como uma luva, menina! Contudo, Elizabeth não pensava assim. Sentia-se incomodada, sobretudo com o cajado que, juntamente com a máscara, era um acessório imprescindível ao traje. — Será que terei de carregar esse cajado, durante a noite inteira? — perguntou, aborrecida, depois que a costureira se foi. — Se você acha que o cajado será um problema, espere só para ver a ovelha — lady Danbury retrucou, num tom divertido. — O quê? — Ora, não se preocupe, estou apenas brincando. Sabe de uma coisa, menina? Você deveria desenvolver um pouco mais o seu senso de humor. — Como? Com um gesto vago, lady Danbury respondeu: — Oh, já sei que alguém que conseguiu sobreviver, trabalhando para mim durante cinco anos, certamente deve possuir um refinado senso de humor. Além de uma dose imensurável de paciência. Você não concorda comigo, Elizabeth? Elizabeth nada respondeu. Apenas sorriu, aliviada por ver lady Danbury mais animada. A velha condessa sorriu de volta. — Sabe de uma coisa, minha cara? Não é possível viver sem um mínimo de senso de humor. Ainda mais na minha idade! E o único jeito de suportar as vicissitudes do dia a dia. — Após uma pausa, perguntou: — Onde está meu gato? — Não faço idéia. Não vi Malcolm, nesta manhã. — Elizabeth hesitou, antes de indagar: — A propósito, lady Danbury... — Sim? — A senhora sabe quando o sr. Siddons voltará de Londres? — O meu administrador errante? — lady Danbury resmungou. — Não sei. Mas é bom que não demore muito, ou terá de se ver comigo. Estamos precisando muito dele, por aqui. Concordo plenamente, Elizabeth respondeu, em pensamento, embora seus motivos para ressentir a ausência de James fossem bem diferentes dos da velha condessa. — Oh, aí está ele! — exclamou lady Danbury, ao ver Malcolm entrar na sala. — Venha cá, seu danadinho! Mas o bichano, em vez de se dirigir a ela, saltou para o colo de Elizabeth. — Ora! — a velha condessa exclamou. — Pensei que você não gostasse de Elizabeth e vice-versa... Elizabeth sorriu, tão ou mais surpresa do que lady Danbury: — Confesso que não entendo o motivo dessa súbita demonstração de amizade. Ignorando ser o centro das atenções, naquele momento, Malcolm enrodilhou-se no colo de Elizabeth e fechou os olhos. 120


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— Mas veja só que grande novidade! — disse lady Danbury. — O que você andou fazendo com esse gato, menina? — Eu? — Elizabeth riu. — Nada, condessa. Nada mesmo! — E ensaiou uma carícia no bichano. Era a primeira vez que fazia isso, em cinco anos. O animal começou a ronronar, demonstrando seu contentamento. — Ora... Sabe que você às vezes pode ser encantador, Malcolm? — E comentou, sem pensar: — Talvez ele esteja sentindo falta de James. — Sim. Parece que todos nós estamos com saudades daquele ingrato — lady Danbury sentenciou, fitando-a com uma intensidade que chegou a incomodá-la. Baixando os olhos, Elizabeth voltou a acariciar Malcolm. Precisava ganhar tempo, até que o rubor desaparecesse de seu rosto.

Em Londres, James sentia-se terrivelmente frustrado. Estivera trabalhando na investigação, desde que chegara. E não conseguira descobrir absolutamente nada. Conversara com muitas pessoas que conheciam a velha condessa, com o intuito de descobrir alguma pista, algo que o colocasse no encalço do chantagista. Todas, sem exceção, haviam comentado sobre a inteligência, a franqueza e o senso de humor, muitas vezes ferino, da velha condessa. Várias reclamaram do seu gênio irascível. Mas ninguém tinha nada, em especial, contra lady Danbury. Nenhum ressentimento, nenhum desejo de vingança. Em resumo, ninguém parecia odiá-la, ao contrário: as pessoas a admiravam ou, ao menos, devotavam-lhe respeito e consideração. Ninguém parecia ter motivo para fazer-lhe algum mal. Quanto mais chantageá-la! Além do mais, não havia o menor resquício, o menor boato sobre algum escândalo no passado de lady Danbury, que sempre levara uma vida exemplar. Essa era a opinião, unânime, das pessoas entrevistadas por James. Na verdade, várias delas consideravam a velha condessa como um típico exemplo da integridade e seriedade da mulher inglesa. Assim, James estava exatamente no mesmo ponto de onde partira, ou seja: sem pistas, sem sequer uma estratégia para prosseguir. Na verdade, aquele era o caso mais enfadonho e desinteressante com que já lidara. Pensara, a princípio, que talvez o chantagista tivesse tomado conhecimento do segredo de lady Danbury em algum evento social de Londres, onde as fofocas sempre corriam soltas. Mas enganara-se, redondamente. Agora, nada restava a fazer, senão regressar a Surrey e esperar que o chantagista fizesse um novo contato. Coisa que certamente ainda não ocorrera, pois, se assim fosse, lady Danbury o teria informado. Afinal, sabia onde encontrá-lo. Sabia também de seu plano para descobrir o chantagista. Um plano, aliás, frustrado. Durante a última conversa que tivera com a velha condessa, ela protestara veementemente contra sua partida, alegando que o chantagista devia estar em Surrey, nos arredores de Danbury House. Ele, no entanto, insistira em seguir seu próprio palpite. Agora, porém, tinha de reconhecer que lady Danbury estava certa. James passou a mão pelos cabelos, num gesto de exasperação e cansaço. Poderia apostar que, após sua partida, a velha condessa ficara de péssimo humor, pois detestava ser contrariada.

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Com um suspiro, ele pensou no que a pobre Elizabeth estaria passando, tendo que suportar a rabugice da velha senhora. Mas se alguém nesse mundo era capaz de mudar o estado de espírito da condessa, esse alguém era Elizabeth. Três dias. Apenas mais três dias e ele poderia retornar a Danbury House, informar à condessa que falhara em seu plano e anunciar suas intenções a respeito de Elizabeth. Três dias a mais e ele poderia iniciar uma nova vida. Mal podia esperar por isso. Na sexta-feira à tarde, o movimento em Danbury House era ainda mais intenso do que nos últimos dias. Elizabeth fechou-se na biblioteca para fugir do alvoroço dos criados, que cuidavam dos últimos preparativos para o baile de máscaras que teria início logo mais, à noite. Lady Danbury fizera questão de que Elizabeth se aprontasse para o baile, ali mesmo, em vez de ir até em casa e voltar. Esse argumento fazia sentido, pois lhe pouparia tempo. Mas, por outro lado, lhe roubaria a chance de descansar um pouco, antes do evento, e de escapar da agitação em torno. O momento de pausa, tão sonhado por Elizabeth, não chegou a acontecer. Apenas alguns minutos depois de entrar na biblioteca, ela foi requisitada por um criado, que pedia sua ajuda a respeito de alguns detalhes da decoração. Elizabeth orientou-o, depois de consultar lady Danbury a respeito do problema. Em seguida voltou à biblioteca, mas foi novamente interrompida. E isso se repetiu por mais três vezes. No total, cinco interrupções, em menos de meia hora e ela desistiu de seu intento. Não lhe restava outra alternativa, senão ceder às circunstâncias. E, assim, ela deixou a paz da biblioteca, resignando-se a entrar no ritmo acelerado que vigorava em todos os cantos. Quando tudo ficou pronto e a primeira carruagem, trazendo os primeiros convidados, parou em frente a Danbury House, Elizabeth retirou-se para o piso superior da casa, em direção ao aposento que a velha condessa havia lhe reservado. Abriu um armário e contemplou sua fantasia de pastora, que pendia de um cabide. Ao lado, numa prateleira, estava a máscara e também o cajado, que completava o traje. Elizabeth atirou-se na cama. Não queria chegar tão cedo ao salão de festas. Tampouco estava com ânimo para participar daquele baile ou para ser notada por alguém. Talvez fosse melhor chegar mais tarde, quando o salão já estivesse lotado de convidados. Entretidos em conversar ou trocar impressões sobre o baile, certamente nem reparariam nela. A primeira carruagem sucedeu-se outra e mais outras. Até parecia que os convidados tinham combinado de vir todos juntos. Em pouco tempo, o salão estava repleto. Debruçada no peitoril da janela, de onde observava o movimento, Elizabeth suspirou, profundamente. Conhecia lady Danbury o bastante para saber que ela mandaria chamá-la, dentro de instantes. Então, seria melhor descer logo. Voltando ao armário, contemplou uma vez mais a fantasia, antes de vesti-la. Aprontou-se, pegou a máscara, o cajado, e mirou-se num grande espelho que pendia da parede. A parte inferior do vestido, branco, rodado, parecia uma verdadeira miscelânea de pregas e babados, adornados com uma infinidade de laços coloridos que, certamente, nenhuma pastora real usaria. Quanto ao corpete, embora não fosse exatamente indecente, tinha um decote um tanto ousado, como jamais Elizabeth usara antes. Duvido que uma pastora pudesse correr pelos campos, usando uma coisa dessas, ela pensou. Mas, afinal, isto é só uma fantasia e lady Danbury mandou-a fazer 122


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especialmente para mim, com tanta boa vontade! Concluiu, prometendo a si mesma que não se aborreceria mais, com a tal fantasia. Embora aquela máscara, feita de plumas, não a agradasse, de modo algum. Quanto ao cajado... Bem, poderia usá-lo como arma de defesa, caso fosse importunada por algum atrevido. Tomando fôlego, deu um giro gracioso, diante do espelho, pegou a máscara, o cajado e saiu do aposento. Estava caminhando pelo corredor, em direção à escada, quando viu uma porta se abrir, dando passagem a uma mulher que usava um traje de estilo egípcio, luxuoso, ornado de pedrarias. Cleópatra, Elizabeth concluiu. Ela está fantasiada de Rainha Cleópatra. — Que bela pastora! — a mulher comentou, num tom gentil, ao vê-la. Um tanto surpresa, Elizabeth agradeceu: — Obrigada, senhora... — Ravenscroft — a mulher completou. — Sou esposa de Blake Ravenscroft que, aliás, já deve estar impaciente com minha demora. — Oh, muito prazer, sra. Ravenscroft. — Por favor, me chame apenas de Caroline. — Está bem... Caroline. — E Elizabeth se apresentou: — Eu me chamo Elizabeth Hotchkiss e sou dama de companhia de lady Danbury. — É mesmo? Ouvi dizer que a velha condessa é... digamos... terrivelmente excêntrica. — Na verdade, por trás daquela aparência severa e de seus comentários, muitas vezes ferinos, a condessa é um doce de pessoa. — Sabe que sua opinião sobre lady Danbury é exatamente contrária à de meu marido? — disse Caroline, dando-lhe o braço, num gesto espontâneo, como se ambas fossem velhas conhecidas. — Ele costumava passar férias, aqui em Danbury House, quando criança e morria de medo da velha condessa. Aliás, ele me confessou que, ainda hoje, guarda-lhe um certo temor. — Seu marido era amigo dos filhos de lady Danbury? — Não, mas era muito amigo do sobrinho dela, o marquês de Riverdale, a quem espero rever, nesta noite. Ele certamente deve ter sido convidado... Você o conhece? — Não. — Nesse caso, preciso apresentá-la a ele. James é uma grande pessoa, além de muito inteligente e espirituoso. À menção do nome James, Elizabeth sorriu e suspirou, profundamente. Bem, ela já tinha seu próprio James e mal podia esperar pelo momento de revê-lo. — O que significa isso, querida? — Caroline indagou, parando por um momento. — Como? — Elizabeth perguntou, sem entender. — Esse sorriso... Esse suspiro... E não negue, pois vi muito bem! Sentindo o rubor subir-lhe às faces, Elizabeth respondeu: — Oh, nada! E que tenho um... digamos... pretendente, que também se chama James. 123


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— Ora! — Caroline sorriu. — Então, você precisa me apresentar a ele. — Bem que eu gostaria, mas James, que aliás é o novo administrador de lady Danbury, não está aqui. Ele partiu para Londres há alguns dias, para resolver um assunto de família. — Oh, que pena! — Fitando-a com simpatia, Caroline comentou: — É incrível, mas sinto-me como se já fôssemos amigas há muito tempo. E gostaria imensamente de conhecer o seu James. Elizabeth retribuiu seu olhar. — Você é muito amável, Caroline. E especial. — Você acha, mesmo? Bem, espero não decepcioná-la, quando nos conhecermos melhor. Sorrindo, Elizabeth sentenciou: — Isso não vai acontecer, de modo algum. — Assim espero. Sabe, sou uma pessoa de origem humilde e só conheci a vida na alta sociedade quando já era adulta. — Bem, não vejo nenhum problema, nisso. — Nem eu. Mas acontece que tenho o hábito de expressar minhas opiniões sem pensar. E isso, às vezes, deixa meu marido simplesmente louco. — Talvez. Mas aposto que ele a adora. Os olhos de Caroline brilharam de emoção. E Elizabeth deduziu que ela havia se casado por amor. Isso a comoveu, profundamente, fazendo aumentar sua simpatia por aquela bela mulher. — Eu também o adoro — Caroline disse, por fim. — Mas há momentos em que sinto que ele gostaria de me torcer o pescoço — acrescentou, num tom divertido. — Blake é tão preocupado com a etiqueta e as formalidades! Isso para não falar da pontualidade, da qual ele faz questão absoluta. — Então, é melhor não deixá-lo esperar mais. — Sim, vamos para o salão, querida. Ficarei feliz em apresentá-la a Blake. — Oh, eu adoraria conhecê-lo. Mas, primeiro, tenho de encontrar lady Danbury, para ver se ela precisa de alguma coisa. — Sim. O dever chama! — Caroline exclamou, com um largo sorriso. — Mas prometa-me que nos encontraremos mais tarde, durante o baile. — Está prometido — Elizabeth respondeu, desvencilhando-se delicadamente do braço de Caroline. Com um aceno, ambas se afastaram, em direções opostas: Caroline entrou no salão e Elizabeth foi procurar a velha condessa. Imaginou que ela estivesse na entrada de Danbury House, recebendo os convidados, e para lá se dirigiu. Mas que diabos está acontecendo por aqui? James se perguntou, irritado, ao ver a longa fileira de carruagens que se dirigiam a Danbury House. E não demorou a concluir do que se tratava. — O baile de máscaras! — exclamou, levando a mão à testa. — Como pude me esquecer? — Conduzindo seu cavalo com habilidade, conseguiu ultrapassar várias 124


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carruagens. Mas logo a estrada se tornou mais estreita e, assim, ele teve de se resignar a seguir o longo cortejo formado pelos convidados. Tinha planejado aquela noite, em seus mínimos detalhes: procuraria a velha condessa para dizer-lhe que havia falhado em sua missão de encontrar o chantagista. Diria, também, que pretendia continuar com a investigação, ali em Surrey. Desde que pudesse cuidar de sua vida pessoal, simultaneamente. Depois disso, iria até a casa de Elizabeth, para pedi-la em casamento. Ao longo do trajeto de Londres a Surrey, planejara cada detalhe, cada palavra que iria dizer. Pensara em chamar Lucas de lado e pedir a ele a mão de Elizabeth. Não que tencionasse colocar seu futuro na mão de um menino de oito anos, mas, de alguma forma, a idéia de incluir Lucas naquele momento importante de sua vida parecia-lhe perfeita. Além do mais, tinha a impressão de que Elizabeth ficaria encantada com esse gesto. Infelizmente, o baile de máscaras acabava de arruinar seus planos... ao menos por aquela noite, ele pensou, sabendo de antemão que não conseguiria ficar sequer um momento a sós com a velha condessa. Cansado de seguir a fila de carruagens, ele conduziu o cavalo em direção a um atalho, seguindo por uma trilha paralela à estrada principal. A lua estava cheia, no céu pontilhado de estrelas. James logo avistou Danbury House, cujas luzes estavam todas acesas. Mantendo o cavalo num trote ligeiro, ele tomou a direção dos estábulos. Lá chegando, cuidou do cavalo e dirigiu-se à sua modesta habitação, sorrindo ao lembrar-se do dia em que flagrara Elizabeth bisbilhotando por ali. Lembrou-se, também, que ainda não havia comentado esse fato com ela. Mas não importava: teria a vida inteira para desfrutar de sua adorável companhia, compartilhar recordações e escrever uma nova história: a história de ambos. James tentou ignorar os sons da festa, preferindo a paz e a reclusão de sua modesta moradia. Mas não podia ignorar os ruídos de protesto de seu estômago. Estava faminto. Como não havia nada com que se alimentar, ali, teria de sair em busca de algo. Com um pouco de sorte, conseguiria chegar até a cozinha de Danbury House, pegar um pedaço de pão, ou talvez um prato de sopa. Claro que entraria pela porta dos fundos. E talvez os criados nem o notassem, já que estariam atarefadíssimos, correndo de um lado a outro, para servir os convidados. James saiu da habitação e dirigiu-se diretamente aos fundos de Danbury House. Infelizmente, havia vários convidados passeando pela alameda que contornava a casa. Assim, ele manteve a cabeça baixa e uma postura humilde. Se agisse como um serviçal, os convidados o veriam exatamente assim e o deixariam em paz. Jamais suspeitariam que o marquês de Riverdale estava ali, tão perto, em carne e osso, vestindo trajes modestos, humildes, empoeirados devido à viagem. Tomando fôlego e mantendo a calma, James passou por vários grupos de convidados. Então viu uma pastora de longos cabelos loiros, que chamou-lhe a atenção. Ela caminhava pelo gramado, com a máscara diante do rosto, apoiando-se vez por outra no cajado, com uma graça que ele não tardou a reconhecer. — Elizabeth — murmurou, tomado por forte emoção. Sim, só poderia ser ela. Nenhuma outra mulher portaria uma fantasia de modo tão encantador. Desviando da alameda, James caminhou na direção da pastora, com o coração aos saltos. 125


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Quando, exatamente, ele deixara de ser um cético para se transformar num romântico incorrigível? Quem saberia dizer? E, afinal, o que importava? Ele estava apaixonado, essa era a verdade. Tinha, finalmente, encontrado a única mulher capaz de preencher o vasto vazio que havia anos trazia no peito. E se essa paixão fazia dele um homem tão feliz quanto tolo... Que assim fosse! James seguiu Elizabeth sorrateiramente, enquanto ela contornava a casa. E quando ela estava prestes a entrar, aproximou-se rápido, enlaçando-a pela cintura. Com uma exclamação abafada, Elizabeth virou-se para ver quem seria o atrevido que ousava abordá-la daquele modo. Deliciado, James viu a expressão daqueles olhos azuis mudar do pânico para a mais intensa alegria, em apenas um segundo. — James! — ela disse, enquanto seu rosto se iluminava. — Você voltou! Tomando-lhe a mão, ele levou-a aos lábios. — Eu não suportava mais ficar longe daqui. — Senti sua falta — ela murmurou. James sorriu. Também ele sentira-se vazio, longe de Elizabeth. Como se sua vida não tivesse sentido, longe dela. Tomando-a nos braços, beijou-a longamente. Sua vontade era continuar assim, para sempre. Mas havia coisas que precisava dizer e tantas providências a tomar! Assim, com um intenso esforço, afastou ligeiramente o rosto e pediu: — Venha comigo. — Para onde? — Para qualquer lugar. — Eu vou — ela disse, baixinho, antes de abraçá-lo com força.

CAPÍTULO VIII

A noite era plena de magia. A lua brilhava no céu; o ar estava impregnado do perfume das flores. Uma brisa soprava docemente, vinda do bosque, acariciando a pele. Elizabeth sentia-se como uma princesa. Aquela mulher que vagava pelo campo, com cabelos ao vento, como um rastro de ouro de um cometa, não poderia mesmo ser a Elizabeth Hotchkiss de sempre. Naquela noite, ela era especial. Naquela noite, não tinha qualquer preocupação, nem encargos. Estava banhada em riso e paixão, envolta numa aura de pura alegria. De mãos dadas, ela e James correram pelo campo, afastando-se de Danbury House até perdê-la de vista. Apenas a música e outros sons da festa chegavam até ambos, navegando pelo ar. Num dado momento, finalmente pararam, ofegantes e felizes. Envolvendo Elizabeth nos braços, James pediu baixinho: — Deixe-me beijá-la, querida. 126


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Entregue ao encantamento, ela ofereceu os lábios, que ele colheu com os seus, num beijo arrebatador. — Quero amá-la, Elizabeth — ele sussurrou, quando as bocas por fim se afastaram. Ela não sabia exatamente até onde James pretendia chegar, com aquele pedido. Mas o sangue, correndo quente e rápido nas veias, parecia despertar uma voz em seu interior. Uma voz que dizia sim, avisando-a de que ela não poderia negar nada a James, naquela noite. Erguendo os olhos, Elizabeth viu o fogo da paixão ardendo nos dele. Algo dentro de seu coração cedeu, como o gelo ao sol. — Sou sua — ela respondeu. — Confio-me a você. Com dedos trêmulos, ele afastou uma mecha de cabelos loiros que caíam sobre o rosto querido e beijou aquela pele macia c sedosa. — Serei gentil com você — murmurou, mal reconhecendo a própria voz. — Nunca vou machucá-la. Nunca. Como se desvendasse o mais caro dos segredos, ele desfez o laço do corpete que guardava os seios de Elizabeth, expondo-os à luz da lua. Um gemido rouco, de pura emoção, escapou-lhe da garganta antes que seus lábios sequiosos beijassem os alvos promontórios, sugando levemente os mamilos rígidos de susto e prazer. Elizabeth entregou-se àquela ousada carícia, como se nada no mundo importasse mais do que aquele momento. Era embriagante, doce e quente... James sentiu seu corpo respondendo, na forma de uma poderosa ereção, vibrante e dolorosa, que parecia implorar por ser aplacada. Era preciso calma para que Elizabeth recebesse o melhor que um homem pode dar a uma mulher, ele pensou, temendo perder o controle. Entretanto não podia, precisava de calma para que aquele momento fosse simplesmente perfeito. Continuou a despi-la, as mãos um tanto trêmulas, os olhos buscando os detalhes daquele corpo alvo, que se revelava à luz da lua e das estrelas. Caindo de joelhos diante de tanta beleza, James afastou as mãos de Elizabeth, que cobriam timidamente o sexo em flor. Circundando-lhe a cintura com os braços, ele mergulhou o rosto no macio e minúsculo travesseiro de pelos dourados, explorando as reentrâncias e saliências com a língua curiosa, que parecia ter vontade própria. Elizabeth estremeceu. Um gemido, quase lamento, escapou-lhe dos lábios. Seus joelhos tremiam incontrolavelmente. Estendendo as roupas dela sobre a grama, James a fez deitar-se suavemente, enquanto beijava-lhe os seios, o pescoço, a boca intumescida. — Você é linda — ele murmurou, afastando-se por um instante, para vê-la por inteiro. Então, lentamente, começou a se despir diante dos olhos azuis, que o fitavam, interrogativos. Virando-se ligeiramente para o lado, James tentou esconder a ereção que o assolava. Não agia assim por constrangimento. Apenas, temia assustar Elizabeth com o tamanho e a potência de seu desejo que, mesmo a seus olhos, parecia-lhe exagerada. Mas, para sua surpresa, Elizabeth sentou-se e, estendendo os braços, exigiu docemente: — Não se esconda... Deixe-me vê-lo. Não restava a James se não obedecê-la e ele o fez, lentamente, girando sobre os pés. — Oh!... — ela exclamou, confusa. — Você tem certeza de que dará certo? 127


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Ele sorriu, emocionado. — Não tema, minha querida. Nesta noite, vamos apenas conhecer um ao outro. Vamos... Toque-o. James sentiu o contato, leve como pluma, dos dedos refrescantes na incandescência vibrante de seu sexo. Então pousou a mão sobre a cabeça de Elizabeth, atraindo-a inexoravelmente naquela direção. Como um pintor em êxtase, guiou seu sexo, desenhando os traços daquele rosto amado, mergulhando-o por vezes entre a seda dos cabelos e a pele macia do pescoço, traçando o contorno daqueles lábios receptivos e quentes. Gemendo de prazer, sentiu-se tentado a prolongar aquela carícia indefinidamente, mas não podia. Precisava dar, a Elizabeth, o mesmo prazer que agora sentia. Fazendo-a deitar-se novamente, colocou-se a seu lado e, esfregando-se em suas coxas, num movimento lento e contínuo, tocou o centro do prazer de Elizabeth, estimulando-o em movimentos circulares e deixando que seus dedos mergulhassem levemente em seu interior úmido e quente, enquanto a beijava com paixão. Elizabeth gritou contra os lábios que a beijavam, atingida pela força de um prazer que jamais imaginara existir. Nada no mundo a preparara para aquele momento. Num ímpeto, abraçou James com força, arrastando-o para cima de si. Com os cotovelos apoiados na grama, James encaixou seu sexo entre as coxas de Elizabeth e começou a mover os quadris, tomando o cuidado de não penetrá-la. Com cada onda, inacreditavelmente maior que a primeira, cresceu no íntimo de Elizabeth que, erguendo os quadris, procurava o contato frontal, a resolução final daquelas torturantes carícias que a estavam levando à loucura. James sabia que seria impossível ir mais longe, sem quebrar o firme propósito que havia imposto a si mesmo. Assim, aumentou o ritmo daquela dança sensual e, colando os lábios aos dela, deixou que chegasse a explosão tão duramente contida. Os olhos de Elizabeth se arregalaram de susto e êxtase, ao sentir o magma fervente cobrindo sua flor intumescida. E então foi levada pelo redemoinho da sensação mais indescritível que uma mulher pode ter. — James... Eu... — E gritou num prazer incontrolável. Deitados lado a lado, enlaçados e lânguidos, ambos caíram num torpor que era o próprio paraíso e, se adormeceram, não se deram conta disso. — Preciso voltar a Danbury House — Elizabeth murmurou, tentando se erguer. Estreitando-a nos braços, James protestou, sonolento: — Para que? Não temos tudo o que precisamos, aqui? Ela sorriu, tomada por uma ternura que antes não conhecia. — Sim, meu amado, mas lady Danbury conta comigo para o bom andamento da festa. E não quero decepcioná-la, você entende? — Claro — ele respondeu, levemente contrariado. Havia muito James não sentia tamanha plenitude e paz interior. O céu que os cobria pedia a presença dos dois para ter algum sentido. Mas como explicar essas coisas, tão pessoais, em palavras corriqueiras, ele se perguntou rindo de si mesmo. Se fosse um poeta, talvez pudesse fazê-lo. Mas não era e, por isso, apenas ousou dizer: 128


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— Este é apenas o começo de uma vida, Elizabeth. Posso abrir mão de algumas poucas horas. — Obrigada, querido — disse ela, vestindo-se. — Mas não temos que nos separar agora. Por que não vem comigo, até a festa? Poderíamos dançar juntos. — Mas trata-se de um baile de máscaras e não tenho trajes adequados — ele justificou-se, com aquela meia verdade, pedindo perdão, em pensamento, a Elizabeth. — Metade dos homens presentes recusaram-se a vestir uma fantasia completa contentando-se em usar apenas uma pequena máscara. E tenho certeza de que posso conseguir uma para você. Fitando-a com infinito carinho, ele sorriu. — Agradeço, mas quero levar comigo, ainda vivas, as imagens que tenho deste nosso encontro. Ela sorriu de volta, mas, de súbito, assumiu uma expressão pensativa. — O que foi? — James perguntou. — Eu queria lhe perguntar o que, exatamente, fizemos e o que deixamos de fazer — ela respondeu, corando. — Você não sabe? Ela negou, com um gesto de cabeça. Santo Deus, James pensou, entre surpreso e comovido. Será que ninguém dissera àquela doce criatura como eram as relações íntimas entre um homem e uma mulher? Então lembrou-se de que Elizabeth perdera a mãe muito cedo e que não mantivera contato regular com seus parentes. Uma tia, ou uma prima mais velha, na certa poderiam tê-la esclarecido sobre esse assunto. Emocionado, ele disse, então: — Você ainda é virgem, Elizabeth. — Oh! — ela exclamou, evidentemente aliviada. — Creio que devo agradecê-lo por isso. — Não me agradeça. Apenas segui certos princípios básicos, nos quais acredito. Mas quero que saiba que me custou muitíssimo. — Sinto muito — ela disse, com um suspiro, pondo-se em pé. — Agora, por favor, vista-se. Ou terei que partir sem você. — Duvido — ele a provocou. — Já estou indo. Até mais tarde, sr. Siddons. — Rindo alegremente, ela correu pela trilha, à luz do luar. — Elizabeth... Espere! — Vestindo-se rapidamente ele correu em seu encalço. Quando a alcançou, já estavam bem próximos da majestosa mansão. Os convidados caminhavam pelos jardins, desfrutando a bela noite enluarada e fresca. E isso significava que ele teria de sair de cena imediatamente. — Elizabeth — disse, quase sem fôlego. — Preciso ir, agora. Nós nos veremos amanhã, está bem? — Não, por favor. Fique. — Prometo a você que teremos muitos bailes juntos, pela frente. — Fique — ela repetiu, ansiosa. — Vou buscar uma máscara para você. 129


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— Não, querida, eu não posso. Ela franziu a testa. — Não compreendo... — Sei que não. Mas você logo entenderá. James interrompeu-se, ao sentir no ombro a mão delicada de uma mulher. Voltando-se, deparou com Caroline Ravenscroft. — James! — ela exclamou, gratamente surpresa. — Que bom vê-lo aqui. Quando chegou? Elizabeth olhou de um para o outro, sem entender o que se passava. — Caroline... — James murmurou, num fio de voz. A jovem mulher tentou abraçálo, mas sua fantasia atrapalhou-a um pouco, dificultando-lhe o gesto. — Onde o encontrou, Elizabeth? — Caroline indagou, sorrindo. Sentindo-se congelar, James perguntou: — De onde vocês duas se conhecem? — Conhecemo-nos nesta noite — Caroline respondeu. Então, voltou-se para Elizabeth: — Querida, você me disse que não conhecia Riverdale... Ou será que estou enganada? — Riverdale? — Elizabeth repetiu, cada vez mais confusa. — Ora, estou falando dele. — Caroline apontou para James. — Estou me referindo a James Sidwell, o marquês de Riverdale. De quem mais? Ao ver a expressão de assombro no rosto de Elizabeth e a palidez extrema no rosto de James, Caroline entendeu que acabava de romper algo importante, possivelmente um segredo bem guardado. — Oh, não — ela gemeu. — Eu lamento, sinceramente, James. Nunca poderia imaginar que você estava trabalhando, disfarçado, aqui em Danbury House. Afinal, você me garantiu que havia rompido, em definitivo, com o Ministério da Guerra. — Ministério do quê? — Elizabeth balbuciou. Ignorando a pergunta, James esclareceu à amiga: — Não estou a serviço do Ministério, Caroline. Trata-se de um assunto de família, que estou investigando. — Você é o marquês de Riverdale? — Elizabeth indagou, começando a entender. — Deixe-me explicar, sim? — ele pediu. — Canalha! — ela gritou, tentando esbofeteá-lo. — Você deve ter se divertido muito, me enganando por todo esse tempo. James recuou, segurando-a pelos punhos. — Elizabeth... Deixe-me falar — ele implorou. Com uma força inaudita, ela desvencilhou-se de suas mãos e afastou-se, quase correndo. — Volte aqui... Agora! — ele exigiu, desesperado. — Você precisa me ouvir! — Bastardo! — ela gritou por sobre o ombro. — Você é um bastardo sujo e sem escrúpulos! 130


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— Desculpe, Caroline, mas preciso consertar esse desastre — ele disse, rapidamente, apressando-se a alcançar Elizabeth. Quando conseguiu, segurou-a pelo braço e tentou, uma vez mais, se explicar: — Elizabeth, ouça, por favor. — Você deve ter rido de mim com seus amigos, não é mesmo? Será que chegou a fazer alguma aposta? E qual era o prêmio? — Não é nada disso — ele respondeu, no auge da aflição. — Você está tirando conclusões precipitadas. Por favor, tente compreender. Tive razões para manter minha identidade em segredo. Tomada pela revolta e pela mágoa, Elizabeth ordenou: — Nunca mais fale comigo, miserável! James olhou para trás e viu que alguns curiosos se aproximavam, circundando Caroline. Venha comigo — ele implorou. — Precisamos falar sobre isso a sós. — Nunca! — E fitando-o nos olhos, disse, em voz baixa. — Odeio você, James. — Elizabeth, eu lhe imploro que... — Vou para casa — ela o interrompeu. — Informe a lady Danbury que estou me demitindo do emprego. — O que seu emprego tem a ver com tudo isso? — ele perguntou, realmente surpreso. — Se você é o marquês de Riverdale, lady Danbury é sua tia... E, na certa, deve estar a par dessa história sórdida — ela respondeu, com os olhos rasos de lágrimas. — Eu amava lady Danbury, como se fosse uma pessoa de minha família. Como ela pôde fazer isso comigo? — Tia Agatha nunca esteve a par da nossa relação. — Por que eu deveria acreditar no que você está me dizendo agora, depois de todas essas mentiras? — Por que é a verdade — ele disse, com um suspiro. — Pois fique com sua verdade e leve-a com você, para o inferno — Ela gritou, tentando, uma vez mais, se afastar. Segurando-a com firmeza, ele ordenou: — Controle-se, Elizabeth. Você está se deixando dominar pela indignação. Uma indignação que a está cegando até para o amor que minha tia lhe dedica. Elizabeth estacou de súbito, sem saber o que pensar, enquanto ele prosseguia: — Vou lhe dar um dia para acabar com essa raiva, Elizabeth. Você tem até amanhã para refletir e tentar compreender que, se ocultei minha verdadeira identidade, é porque tinha fortes motivos para fazê-lo. Portanto, pense melhor e... Perdoe-me, por favor. — E se eu me recusar a isso? — ela o desafiou. — Então, serei obrigado a entender que escolhi a mulher errada para ser minha esposa — ele respondeu, com tristeza. 131


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Vindo do salão principal onde o baile se desenrolava, Blake Ravenscroft avistou sua esposa, Caroline, conversando com um casal no jardim de Danbury House e para lá se dirigiu. A outra mulher, fantasiada de pastora, parecia agitada e nervosa. Antes que ele chegasse até o grupo, a pastora afastou-se, a passos largos, pela trilha que partia da mansão em direção ao bosque. Curioso, ele se aproximou, perguntando: — Estou perdendo alguma coisa? Quando James e Caroline se voltaram para ele, Blake estacou, chocado, ao reconhecer seu melhor amigo, o marquês de Riverdale, fantasiado de guarda-caça ou algo assim. Parecia bastante abalado e triste. — Riverdale... Que surpresa! Não sabia que você tinha vindo ao baile. — Dirigindose à esposa, indagou: — Caroline, por que você não me contou que Riverdale estava aqui? — Só fiquei sabendo há pouco — ela respondeu, constrangida. — Olá, Blake, creio que você chegou em má hora — James resmungou, com o rosto contraído. — O que está acontecendo? Por que toda essa comoção? Quem é a mulher vestida de pastora que acaba de partir, como se todos os demônios do inferno a perseguissem? — Calma, querido, eu explico — disse Caroline, tomando-lhe o braço. James permaneceu alheio, enquanto o casal Ravenscroft conversava. Sentia-se profundamente deprimido. Em poucas palavras, Caroline pôs o marido a par do que se passava. Controlando a vontade de encarar aquela situação pelo lado mais cômico, Blake ofereceu seus préstimos a James: — Riverdale, meu caro amigo, parece que dessa vez você arranjou um problema dos grandes. Se precisar de alguém para desabafar, Caroline e eu estaremos a seu inteiro dispor. — Na verdade, o que mais preciso, neste momento, é de uma boa garrafa de brandy, na solidão da minha cabana — James respondeu, de um só fôlego. — Oh, sinto muito por ter deflagrado esse verdadeiro desastre — lamentou-se Caroline. — Mas como eu poderia adivinhar que... — Foi uma fatalidade, minha amiga — James a interrompeu. Olhando para a trilha por onde Elizabeth havia partido, acrescentou: — Vou passar a noite preocupado em saber se ela chegou bem, à sua casa. — Posso perfeitamente ir atrás daquela jovem e escoltá-la, em segurança, até lá — Blake ofereceu, solícito. — Você faria isso, meu amigo? — James perguntou, ansioso. — Com todo prazer, Riverdale. — Voltando-se para a esposa, Blake sugeriu: — Quer vir comigo, Caroline? — Bem que eu gostaria, mas já tive emoções demais, por hoje. Na verdade, sintome um tanto cansada. — Então, vá se deitar, querida. — Sim, eu farei isso. Estarei nos aposentos que lady Danbury nos reservou. 132


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— Certo — disse Blake, beijando-a de leve, nos lábios. Em seguida, voltou-se para James. — Preciso ir, agora. — Vá — disse James. — Amanhã voltaremos a nos falar. Os três se separaram, partindo em direções diferentes. A lua, que já havia declinado, no céu, mal iluminava a trilha pela qual Elizabeth seguia, em direção a sua casa. Indignação, raiva e desespero agitavam seu íntimo, enquanto as lágrimas escorriam por sua face. Foi então que ela ouviu o som de uma carruagem, vindo de Danbury House em sua direção. — Ele não ousaria! — ela exclamou, pensando em James. Mas, para sua surpresa, um desconhecido muito elegante, cujos traços fisionômicos a fraca luz não revelava totalmente, fez parar a carruagem e dirigiu-se a ela, num tom solícito: — Sou Blake Ravenscroft, marido de Caroline, a quem a senhorita conheceu, nesta noite. Vim para levá-la até sua casa. — Agradeço a gentileza, mas posso seguir meu caminho perfeitamente bem. — Acredito nisso, senhorita... — Hotchkiss — ela completou. — Elizabeth Hotchkiss. — Muito bem, srta. Hotchkiss. Permita-me acompanhá-la. Elizabeth quis se negar, mas ele insistiu: — Por favor, aceite. Caroline ficará ofendida se a senhorita recusar meu oferecimento. — Está bem — ela aquiesceu, com um suspiro. Estava exausta, desgastada emocionalmente e ansiosa para chegar em casa, fechar-se no quarto, atirar-se na cama e chorar, até que sua mágoa se aplacasse. Embora, no momento, isso parecesse impossível. Sim. Aquela mágoa certamente a acompanharia, por toda a vida. Com o tempo, talvez ficasse mais suportável. Mas não desapareceria. Nunca. O trajeto foi feito em silêncio, quebrado apenas pelas indicações ocasionais de Elizabeth, sobre o melhor caminho a tomar, nos trechos onde a trilha bifurcava. No entanto, ela não pôde deixar de perceber que Blake Ravenscroft era um perfeito cavalheiro. Em primeiro lugar, porque parecia disposto a respeitar seu silêncio. E também porque suas maneiras eram naturalmente gentis. Apesar do sofrimento que a consumia, Elizabeth pensou que ele merecia uma mulher amável como Caroline e vice-versa. Infelizmente, nem todas as uniões eram felizes. Nem todos tinham a sorte de encontrar sua alma-gêmea. Quando por fim se aproximaram da casa de Elizabeth, cujas luzes estavam acesas, ela se sobressaltou. — Santo Deus! Parece que meus irmãos resolveram acender todas as velas da casa, nesta noite. Mas por quê? Seguindo um velho hábito, ela calculou, mentalmente, o custo daquele despropósito. Só esperava que seus irmãos não tivessem acendido as velas especiais, feitas de cera de abelha, reservadas para quando recebiam visitas durante a noite, coisa que raramente acontecia. 133


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Desviando por um momento os olhos da trilha, Blake voltou-se para ela e perguntou: — Há algo de errado, srta. Hotchkiss? — Espero que não — ela respondeu. — Na verdade, nem posso imaginar o que aconteceu. Blake deteve a carruagem e Elizabeth saltou, sem esperar que ele a ajudasse a fazê-lo. Não havia nenhuma razão para que a casa estivesse tão iluminada. E embora pudesse ouvir o som de risos e vozes alegres, que vinham lá de dentro, Elizabeth não pôde evitar uma sensação de pânico. Com o coração aos saltos, abriu a porta, que estava apenas encostada, e deparouse com uma cena surpreendente: de mãos dadas, Susan, Jane e Lucas brincavam de roda, cantando uma alegre canção, com toda a força de seus pulmões. Pasma, Elizabeth ficou em silêncio por alguns instantes, incapaz de esboçar qualquer reação. Nunca tinha visto seus irmãos tão felizes. Mas por quê? Ela tornou a se perguntar. Qual seria o motivo daquela comemoração? — A senhorita sabe me explicar o que está acontecendo? — A voz de Blake interrompeu-lhe os pensamentos. Só então Elizabeth deu-se conta de que quase havia se esquecido de sua presença! No entanto, estava atônita demais para pensar numa resposta. Inclusive porque ela própria não entendia o que ali se passava. A cantiga de roda chegou ao fim. Susan, Jane e Lucas se abraçaram e, estreitamente unidos, voltaram a rodopiar pela sala. Susan foi a primeira a notar a presença de Elizabeth: — Ah, você chegou! — exclamou, ofegante, com as faces coradas de alegria. — Que bom! — O que aconteceu? — disse Elizabeth. — Eu esperava que vocês já estivessem dormindo. — Oh, Elizabeth! — Jane anunciou, radiante. — Aconteceu uma coisa maravilhosa! Você nem vai acreditar! — Maravilhosa? — Elizabeth repetiu. — Mas, então, me conte, para que eu possa participar dessa alegria toda. — Pode deixar, Jane, que eu mesma mostrarei a ela — disse Susan, correndo até a escrivaninha. Abrindo a primeira gaveta, retirou um documento e entregou-o a Elizabeth. — Veja só o que chegou, enquanto você estava em Danbury House. Foi um mensageiro quem trouxe. — Um mensageiro de libré! — acrescentou Jane. — Ele era muito bonito, sabe? — Ele era um serviçal — Lucas interveio. — E daí? — Jane rebateu. — Será que um serviçal não pode ser bonito? — Claro que pode, sua tonta! Não foi isso que eu falei! Deixando de lado seu próprio sofrimento, Elizabeth sorriu.

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Ver Lucas e Jane brigando parecia maravilhoso, naquele momento. Na verdade, parecia maravilhosamente normal. Pegando o papel que Susan lhe estendia, começou a ler. — Não é fantástico? — disse Susan, com os olhos azuis brilhando. — Quem poderia imaginar? Elizabeth nada respondeu. Estava trêmula demais para fazê-lo. — Quem será nosso misterioso benfeitor? — disse Jane. — Você tem algum palpite, Elizabeth? Bem, ele certamente deve ser uma pessoa adorável, generosa, gentil, amável, bondosa... — Posso ver? — Blake murmurou. Em silêncio, Elizabeth entregou-lhe o papel. Só então percebeu que Susan, Jane e Lucas a fitavam, totalmente desconcertados. — Você não ficou feliz? — Jane perguntou. — Aqui está — disse Blake, devolvendo o papel, que Elizabeth releu. Como se uma releitura pudesse, de algum modo, alterar o conteúdo daquela mensagem absolutamente ofensiva! Caros Sir Lucas Hotchkiss, srta. Elizabeth Hotchkiss, srta. Susan Hotchkiss, srta. Jane Hotchkiss, Tenho o grande prazer de informá-los de que sua família receberá uma doação anônima, proveniente do fundo de caridade de um banco, em Londres, no valor de 5.000 libras. Num breve futuro, serão realizados alguns arranjos para que sir Lucas possa estudar em Eton. Atenciosamente, Shillingworth & Son, Advogados Foi James, Elizabeth concluiu, estremecendo. — Ele só quis ajudar — disse Blake, como se lhe adivinhasse os pensamentos. — Isso é um insulto! — ela exclamou, com a voz alterada pela indignação. — Como posso aceitar uma coisa dessas? Seria o mesmo que... Tocando-lhe o braço, Blake a interrompeu, dizendo: — A senhorita está exausta e muito desgastada, emocionalmente. Portanto, este não é um bom momento para tomar decisões. Quem sabe amanhã, quando se sentir mais descansada, possa reconsiderar. — Claro que estou desgastada! Tenho motivos para tanto! — ela desabafou. Mas condoeu-se ao perceber a expressão de susto no rosto dos irmãos. Observando-os, viu que os três se voltaram para Blake, a quem nem sequer conheciam. Respirando fundo, ela decidiu que não poderia se dar ao luxo de sofrer um acesso de raiva, nem de gritar, em alto e bom som, sua indignação. Mesmo naquele momento difícil, era preciso manter um mínimo de bom-senso e respeitar as regras básicas da educação. A primeira providência a tomar, nesse sentido, seria apresentar Blake aos irmãos. E foi o que fez. 135


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— Susan, Jane, Lucas — disse, no tom mais calmo que conseguiu —, este é o sr. Blake Ravenscroft, um amigo — Elizabeth interrompeu-se. Quase ia dizendo "um amigo do sr. Siddons". Mas corrigiu-se a tempo. — Um amigo de lady Danbury, que teve a gentileza de me trazer até em casa. Enquanto Susan, Jane e Lucas expressavam seus cumprimentos e boas-vindas a Blake, Elizabeth fitou-o com estranheza. Isso não lhe passou despercebido e, assim, depois de saudar as crianças, ele indagou: — Por que me olha assim, senhorita? Ela respondeu com outra questão: — O senhor é mesmo Blake Ravenscroft, não? — Claro. — Espero que seja este o seu nome verdadeiro. E que não esteja escondendo algum título de nobreza. Sorrindo, ele replicou: — Fique tranqüila, srta. Hotchkiss. Sou apenas um senhor, mesmo. Quanto à questão dos títulos, só para constar, devo dizer que meu avô era um visconde. Isso é tudo. A simpatia e amabilidade daquele homem eram tão naturais, tão comoventes, que Elizabeth teria sorrido, caso não estivesse tão arrasada. E ainda tinha um sério problema a resolver... Olhando para cada um dos irmãos, ela disse, lentamente: — Não podemos aceitar isto. — Mas... — Não podemos — ela repetiu, ignorando o aparte. — Afinal, trata-se de uma quantia muito grande. Não vejo por que deveríamos receber esse tipo de caridade. — Mas você não acha que a pessoa que nos doou esse dinheiro gostaria que ficássemos com ele? — Jane argumentou, com sua lógica infantil. — Você não entende, minha querida? — Elizabeth explicou, pacientemente. — Não sabemos quais as verdadeiras intenções dessa pessoa. — Ora, pois eu sei — Jane afirmou, convicta. — Se a pessoa nos mandou essa doação, é porque deseja o nosso bem. Então, as intenções são muito claras: ela quer que sejamos felizes. Elizabeth suspirou. Quem saberia dizer quais as verdadeiras intenções de James? Será que aquela doação fazia parte de algum plano mirabolante, para enganá-la mais uma vez? E também para que ele pudesse se divertir, de novo, às suas custas? Depois de tudo o que James fizera, quem poderia adivinhar seus próximo passo? Quem saberia dizer como sua mente funcionava? — Tenho certeza de que foi ele — Elizabeth murmurou. — Ninguém mais teria escrito nossos nomes daquele modo, naquela ordem, no alto do documento. — Ante a expressão ainda atônita dos irmãos, ela concluiu: — Bem, mas isso é irrelevante. Não vamos aceitar todo esse dinheiro de um estranho. E ponto-final! — Talvez ele não seja um estranho — disse Susan. — E isso torna a situação ainda pior! — Elizabeth exclamou, à beira da histeria. — Será que você, que é a mais velha dos três, não consegue enxergar o que se passa? 136


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Alguém, de péssimo caráter, resolveu nos tratar como marionetes. E agora está manejando os cordões, imaginando que poderá controlar nossos sentimentos, nossas atitudes, nosso destino, enfim! Isso é absurdo, doentio, é simplesmente horrível! Um longo silêncio se seguiu a essas palavras e foi quebrado da forma que Elizabeth mais temia. — Isso significa que não poderei estudar em Eton? — Lucas perguntou. Elizabeth tomou fôlego. Ali estava seu irmão caçula, fitando-a com ansiedade, o corpo rígido, os braços caídos, mas o queixo erguido, numa comovente ostentação de dignidade. Era evidente o esforço que ele fazia, para conter as lágrimas. De súbito, Elizabeth compreendeu que aquele seria o preço que pagaria, para manter seu orgulho: magoar os irmãos que, ainda há pouco, estavam no auge da felicidade. — Quanto a Eton, eu ainda não sei — ela respondeu, por fim —, mas talvez, num breve futuro, consigamos encontrar um jeito de você estudar lá. Lucas recuou um passo, com os olhos fixos nos dela. — Não adianta, Elizabeth. Sei que não temos como pagar meus estudos. Você tentou esconder isso de mim, mas agora já sei a verdade. — Lucas... — Não adianta tentar me enganar. Sei que jamais poderei ir para Eton. A menos que aceitássemos a doação. — Não — Elizabeth declarou, num tom firme. — Não vamos aceitar aquele dinheiro. — Então, lá se vai meu sonho de estudar em Eton. E lá se vai meu título. — Não, querido, não é bem assim. Ainda podemos conseguir que você... — Elizabeth interrompeu-se. No fundo, sabia que não poderia convencer ninguém, nem a si mesma, nem Lucas, que parecia estar atravessando o momento mais difícil de sua vida. — Vou me deitar — ele disse, num fio de voz, a caminho da escada, que subiu quase correndo. Elizabeth nem sequer tentou impedi-lo. Para quê, se não havia nada que pudesse fazer, para aplacar seu sofrimento? Sem uma palavra, Jane seguiu Lucas, subindo a escada de dois em dois degraus, com as longas trancas loiras acompanhando seus movimentos. Voltando-se para Susan, a única de seus irmãos que ainda continuava na sala, Elizabeth perguntou: — Você me odeia? — Não — Susan respondeu, meneando a cabeça. — Apenas, não entendo você. Elizabeth suspirou. — Não podemos, querida. Simplesmente não podemos aceitar essa grande soma. Sobretudo porque nos tornaríamos devedores do nosso benfeitor, pelo resto da vida. — E daí? — Daí que isso não seria bom. 137


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— Por que não? Qual é o problema de nos sentirmos gratos a alguém que nos ajudou? — Ele poderia cobrar... — Cobrar como, se nem sequer o conhecemos? Além do mais, ele fez questão de permanecer incógnito. — Não importa! — Elizabeth quase gritou. — Eu não quero ser grata a ele. Não quero, entendeu? Os olhos de Susan se arregalaram. — Você! — ela exclamou, perplexa. — Você sabe de quem se trata! Sabe quem nos enviou a doação! — Não sei — Elizabeth afirmou, mas ambas sabiam que ela estava mentindo. — Sabe, sim! E é por isso que não quer aceitar! — Susan, eu não vou discutir este assunto. — Mas... — Não vou e pronto! Susan recuou até o pé da escada, mantendo os olhos fixos em Elizabeth. Sua expressão era a um só tempo de mágoa e raiva. — Susan! — Elizabeth chamou-a. — Vou consolar Lucas — ela disse, sem se voltar. — Ele está precisando de um ombro amigo... E acho que eu também. — Puxa, esse golpe foi mesmo direto — Blake murmurou, depois que Susan se foi. Elizabeth voltou-se para ele. Tinha se esquecido completamente de que Blake estava ali. — O que disse, sr. Ravenscroft? — Oh, nada que valha a pena repetir... Elizabeth deixou-se cair numa cadeira, pois suas pernas pareciam recusar-se a mantê-la em pé. — Bem, parece que o senhor está a par de todos os meus problemas, nesta noite. Aposto que contará tudo ao marquês de Riverdale. — De modo algum. Contarei à minha esposa, certamente, mas não a James. Elizabeth fitou-o, confusa. — Então, o que vai dizer a ele? Encolhendo os ombros, Blake dirigiu-se à porta, enquanto respondia: — Direi que ele seria um idiota, se a perdesse. Mas acho que James já sabe disso.

CAPÍTULO IX 138


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Elizabeth acordou, na manhã seguinte, prevendo que teria um dia terrível pela frente. Não queria ver ninguém, não queria falar com ninguém. Não iria nem mesmo até Danbury House, pois não suportaria passar o dia na companhia da condessa, sem ter uma crise nervosa. Sem perguntar-lhe como pudera participar daquele sórdido plano de James, que sem nenhum escrúpulo ocultara sua verdadeira identidade, enganando-a miseravelmente. Depois de se levantar, fez uma breve toalete e voltou para a cama. Sentia-se péssima. O dia anterior fora desgastante, em todos os sentidos. Seu corpo, sua mente, seu coração. Todo seu ser recusava-se a agir. Se pudesse, ficaria o dia inteiro ali, fechada no quarto, sem fazer nada, por vários dias. Talvez, assim, conseguisse se recuperar. Bem, a felicidade não existia. A felicidade fora apenas um leve aceno, que ela presenciara rapidamente, na véspera, antes de descobrir a dura verdade sobre James. A realidade, porém, era bem outra. Nada de promessas, nada de carícias, nada de paixão ou prazer. Tudo não passara de um sonho. Elizabeth recostou-se no travesseiro. Se ficasse assim, imóvel, nada de mal aconteceria. Ao menos, ela assim esperava. Uma leve batida à porta sobressaltou-a. Oh, não, Elizabeth pensou, cobrindo o rosto com as mãos. Ver alguém era exatamente o que ela não desejava, naquele momento. A batida se repetiu, um pouco mais forte. Erguendo-se, Elizabeth caminhou até a porta e abriu-a, de má vontade. — Você tem visita — Susan anunciou, sem sequer dizer bom dia, como era seu costume. — Não quero vê-lo. — Não sei de quem você está falando. Mas, de qualquer forma, sua visita não é ele... E sim ela. — De quem você está falando? Entregando-lhe um cartão, Susan comentou: — Trata-se de uma senhora muito amável. Aborrecida, Elizabeth leu o nome impresso no cartão: Sra. Caroline Ravenscroft. — Suponho que seja a esposa do homem que veio com você, ontem — concluiu Susan. — Isso mesmo — Elizabeth confirmou. — De fato, Caroline é uma ótima pessoa. Mas, realmente, não estou com o menor ânimo para recebê-la. Portanto, faça-me um favor: diga-lhe que estou indisposta e... — Sinto muito, mas a sra. Ravenscroft não irá embora — Susan apartou. — Não antes de falar com você. — Ora, Susan, você está de má vontade. Faça o que lhe pedi, sim? Ignorando-a, Susan afirmou: — Creio que as palavras da sra. Ravenscroft foram: "Imagino que a srta. Hotchkiss não esteja disposta a me receber... Mas esperarei, de boa vontade, até que ela mude de idéia.Tirando uma caderneta da bolsa, abriu-a e começou a ler. E quando eu já estava subindo a escada, acrescentou: "Não se preocupe, querida... E diga a Elizabeth que não é preciso se apressar. Posso me entreter, perfeitamente, enquanto espero por ela." 139


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— Caroline disse isso? — Sim. — Nesse caso, não me resta outra alternativa, senão me vestir para recebê-la. Susan não respondeu, mas estendeu-lhe a mão, enquanto dizia: — Venha, eu a ajudarei a se preparar. Posso escovar seus cabelos, se quiser. Elizabeth considerou esse oferecimento como uma manobra de Susan para obter alguma informação. Pois Susan não costumava ser tão gentil assim. Mas, pensando bem, uma boa escovada nos cabelos talvez fosse exatamente o que ela precisava, para relaxar um pouco. Sentando-se diante da penteadeira, ela agradeceu: — Obrigada, querida. — E entregou-lhe a escova, tentando calcular, mentalmente, quantas vezes a irmã conseguiria escovar-lhe os cabelos, antes de fazer a primeira pergunta. Uma, duas, três... Quatro vezes. E Susan continuava em silêncio. Mas, depois da quinta, não resistiu: — A visita da sra. Ravenscroft tem algo a ver com os acontecimentos da noite passada? Elizabeth não respondeu. Susan escovou-lhe os cabelos mais algumas vezes, até que voltou a questioná-la: — Você está me ouvindo? Perguntei se... — Não sei qual o motivo dessa visita — Elizabeth mentiu. — Não mesmo? Elizabeth ficou em silêncio. O clima entre ambas tornava-se cada vez mais tenso. A certa altura, Susan enroscou a escova nos cabelos de Elizabeth, puxando-os dolorosamente. — Oh, perdão — ela se desculpou. — Ora, dê-me isso, sim? — Irritada, Elizabeth tomou-lhe a escova das mãos. — Também não é preciso ser grosseira! — Susan protestou. — Eu já pedi desculpas, não? — Desculpas aceitas — Elizabeth resmungou. — Você está insuportável, hoje... — Susan Mary Hotchkiss! — Elizabeth a repreendeu. — Veja lá como fala comigo! Será que se esqueceu das regras básicas de boas maneiras que lhe ensinei? — Ora, não me venha com sermões! — Susan retrucou, asperamente. — Afinal, você não é minha mãe... E eu não sou uma criancinha, como Lucas ou Jane. Abandonando a escova sobre a penteadeira, Elizabeth voltou-se para fitá-la: — Susan, querida, tenha paciência comigo, sim? Prometo que direi tudo o que você quiser saber, assim que estiver em condições de fazê-lo. Susan olhou-a por um longo momento, como se considerasse suas palavras. — Por favor, tente compreender minha posição — disse Elizabeth. 140


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— Estou tentando, mas ainda não consegui. — Então, me dê um voto de confiança, sim? Susan não respondeu. Apenas aguardou, em silêncio, que ela terminasse de se aprontar. — Vamos lá? — disse Elizabeth, depois de ajeitar os cabelos e se vestir. — Não podemos deixar Caroline esperar mais. Sem uma palavra, Susan a seguiu. Caroline estava sentada no sofá da sala, escrevendo em sua caderneta de capa dura. Ao ver Elizabeth, fechou a caderneta e levantou-se. — Bom dia, querida. — Bom dia, Caroline. Seja bem-vinda. — Obrigada. Bem, você deve estar se perguntando qual o motivo da minha visita. — Sem esperar pela resposta, Caroline acrescentou: — Blake me contou tudo. —- Sim, ele disse que o faria. — Voltando-se, Elizabeth viu Susan ao pé da escada, observando ambas com uma expressão curiosa. Então, virando-se para Caroline, propôs: — Que tal se déssemos um passeio? Não sei qual será o teor da nossa conversa, mas, se quisermos ter um pouco de privacidade. — Sim, claro — Caroline concordou. — Mas quero lhe confessar uma coisa: eu adoro crianças. Elas são tão incríveis e adoravelmente barulhentas! Elizabeth sorriu, sem nenhuma vontade. E Caroline continuou: — Não tive a felicidade de crescer numa família grande e barulhenta, como sempre sonhei. Mas penso em concretizar esse desejo, formando uma bela família, com meu querido Blake. A propósito, já comecei a cuidar desse assunto! — E tocou o ventre, significativamente. — Você está grávida! — Elizabeth concluiu. — Parabéns, Caroline. Faço votos que seu bebê nasça saudável e que você construa, com Blake, um lar muito feliz. — Obrigada, querida. Ambas saíram e, por algum tempo, caminharam em silêncio por uma trilha que circundava o bosque. Por fim, Caroline, que levava consigo a caderneta de capa dura, iniciou a conversa: — Eu lhe disse, ontem, que costumo expressar meus sentimentos, de maneira espontânea, sem pensar muito nas conseqüências. — Sim. E acho que esta é uma qualidade admirável — Elizabeth opinou, com sinceridade. — Então, você não se importará se eu abordar diretamente o assunto? — De forma alguma. O que tem a me dizer, Caroline? — Bem, para começar, espero que você tenha pensado melhor a respeito da doação que James fez à sua família... E que não esteja se sentindo tão ofendida, como ontem. — Não vejo de que outro modo eu poderia me sentir — Elizabeth retrucou, amargamente. Caroline meneou a cabeça, com ar pensativo. 141


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— Talvez James tenha feito essa doação para que você não se sentisse obrigada a aceitar um casamento sem amor. Elizabeth nada respondeu. E ela prosseguiu: — Não estou a par de tudo o que aconteceu, entre vocês. Porém, modéstia à parte, considero-me uma boa observadora, sabe? Assim, fui juntando os fatos e cheguei a uma conclusão. — Sim? — Elizabeth indagou, sem muito interesse. Embora simpatizasse demais com Caroline, não tinha a menor disposição para conversar e muito menos para discutir um assunto tão doloroso. — Imagino que você, sendo uma jovem culta, bela e inteligente, mas sem posses, deparou-se com uma realidade que, infelizmente, é uma regra em nossa triste estrutura social. Em outras palavras, Creio que você compreendeu que teria de se casar com um homem de posses, para dar uma condição melhor à sua família. — Exato — Elizabeth confirmou, com pesar. — Temos um nome tradicional, mas não temos dinheiro. Na verdade, eu mal consigo alimentar meus irmãos. Eles estão crescendo e a única maneira, ao meu alcance, de oferecer-lhes um futuro, é um casamento vantajoso. — Pois estou certa de que, ao fazer aquela doação, James queria dar-lhe a liberdade de escolher quem você quisesse, para marido. Talvez até mesmo um simples administrador de imóveis. As palavras de Caroline, pronunciadas num tom brando, atingiram Elizabeth com a força de um duro golpe. — Não — ela discordou, com voz trêmula. — Tenho certeza de que não era esse o objetivo de James. — Por que não? — Caroline retrucou. — Quando conversamos, ontem, no início do baile, você mencionou um pretendente. E tive a impressão de que havia um entendimento, entre vocês. Além de uma intensa paixão. Será que me enganei? Elizabeth mordeu o lábio inferior, em sinal de nervosismo. Enquanto fingira ser o simples sr. Siddons, James nunca mencionara a palavra casamento. Ao menos não no que dizia respeito a ambos. Prometera, apenas, que iria ajudá-la a encontrar um marido. E, por fim, prometera que iria encontrar uma maneira de ficarem juntos. E ela acreditara, julgando que ele estivesse sendo sincero. Mas, agora, depois de tantas mentiras, como poderia confiar nele? — Sabe de uma coisa? — Caroline interrompeu-lhe os pensamentos. — Acho que você não deve aceitar a caridade de James. — Ah! — Elizabeth exclamou, aliviada. — Então você me compreende! Como se não a ouvisse, Caroline completou: — Acho que você deve se casar com ele. — Nunca! — Elizabeth respondeu, indignada. — Como eu poderia pensar nisso, depois de tudo o que aconteceu? Afinal, James me fez de tola! Ele me enganou, miseravelmente! — Não creio que tenha sido essa a intenção dele. — Mas foi a conseqüência. Uma triste, lamentável e desastrosa conseqüência, que me magoou profundamente. 142


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— Por que você não tenta ver a situação por outro ângulo? Se James... — Oh, por favor! — Elizabeth a interrompeu, exasperada. — Será que não podemos parar de falar sobre ele? — Como quiser, minha querida. Então, acho que podemos voltar para sua casa. — Com um suspiro, Caroline comentou: — Já não possuo a mesma energia de antes. Tenho me cansado com tanta facilidade, ultimamente! — Entregando-lhe a caderneta de capa dura, perguntou: — Você poderia carregar isto, por favor? — Claro — Elizabeth respondeu, solícita. — Do que se trata? É um diário? — Quase. Na verdade, eu costumo chamá-lo de meu dicionário pessoal. — E Caroline explicou: — Sempre que conheço uma palavra nova, ou mesmo quando uma palavra já conhecida me causa impressão, gosto de anotá-la nesta caderneta, juntamente com sua definição. E, claro, acabo vinculando a palavra a uma frase, às vezes de minha autoria, ou então a um poema, um texto filosófico, algo assim. — Interessante — Elizabeth murmurou. — Se você quiser ver... — Obrigada. — Elizabeth folheou a caderneta, detendo-se em algumas páginas. Mas, naquele momento, estava sendo bem difícil concentrar-se na leitura. — A propósito, ontem à noite escrevi algo inspirado em você. Ou melhor, vinculei uma palavra a você. Está na última página. — E mesmo? — Sim. Se quiser ler, fique à vontade. Elizabeth consultou a página indicada por Caroline e leu: — Inexorável - Definição: adjetivo. Significado: Inflexível, implacável. Logo abaixo, vinha a frase de autoria de Caroline: Temo que James conhecerá o verdadeiro significado de "inexorável", se continuar insistindo em perseguir a srta. Hotchkiss. — Eu também temo... — Elizabeth balbuciou. — Bem, usei as palavras "temo" e "perseguir" apenas para compor a frase — Caroline apressou-se a explicar. — É claro que não "temo" por James... E tampouco acredito que ele a esteja "perseguindo". Na verdade, se eu fosse escrever o que realmente quero que aconteça, seria algo como: "Espero e desejo que James conheça o inexorável..." Elizabeth sentiu vontade de gritar. Gritar a Caroline e a quem mais quisesse ouvir que, para ela, James já não existia. Estava tudo acabado. Não havia mais esperanças para ela e James. Não havia mais promessas de um futuro brilhante e feliz, como certa vez sonhara. Mas, em vez de gritar, ela apenas fechou a caderneta e tomou o braço de Caroline. — Vamos? — Claro. — Ambas tomaram o caminho de volta e, após alguns instantes, Caroline indagou: — Você se importaria se eu dissesse só mais uma coisa? —Se for sobre James, por favor, não fale. — É sobre ele, sim. Mas prometo que, depois disso, não direi mais nada. 143


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— Oh, já sei o que vai me dizer: que James é um homem perfeito e... — Não era isso — Caroline a interrompeu. — Na verdade, eu ia dizer que ele às vezes pode se tornar insuportável. Mas nem por isso deixa de ser um grande homem que, aliás, pode chegar a ser perfeito, em certos momentos. Por favor, acredite nisso, pois é a pura verdade. — Será? — Sim. James ocupa um lugar de destaque, entre os melhores homens que conheço. Irônica, Elizabeth retrucou: — Oh, imagino que agora você dirá que James é tipo de homem ideal para se conviver. — Errou de novo, minha amiga. Eu ia dizer apenas que James é o tipo de homem com quem você não pode deixar de conviver, já que o ama profundamente. — Não. — Ama, sim. Vejo isso em seus olhos. Seria tolice negar essa verdade simples e absoluta. — Não — Elizabeth repetiu, quase ríspida. — Realmente não o amo. — Talvez você ainda não tenha percebido a intensidade desse sentimento. — Oh, pare, por favor! — Elizabeth pediu, exasperada. — O que estou tentando lhe dizer é que embora James tenha cometido um erro terrível, ocultando sua verdadeira identidade. — Coisa que considero imperdoável — Elizabeth apartou. — Acontece que James teve motivos para agir assim. Em nenhum momento ele tencionou humilhá-la, ou causar-lhe qualquer tipo de sofrimento. Ao contrário: James se preocupa com você. Ele só quer o seu bem, minha amiga. Elizabeth tentou replicar, mas Caroline não lhe deu chance. — Sei que, para mim, é mais fácil compreender tudo isso. Afinal, não fui eu quem tomou lições sobre como se casar com um marquês. Com um marquês de verdade, em carne e osso! Elizabeth contraiu o rosto, numa expressão de mágoa e revolta. Mais uma vez, tentou argumentar, mas Caroline continuou: — Contudo, as intenções de James eram honrosas e limpas. Estou certa disso. Tanto quanto estou certa de que sua indignação é totalmente justificada. Mas, quando essa revolta arrefecer, você pensará melhor e chegará a uma conclusão muito simples: a de que sua vida não terá sentido, sem James. Elizabeth tentou ignorar essas palavras, que a tocavam de um modo bem mais profundo do que gostaria de admitir. Uma voz interior, que ela procurou, inutilmente, calar, lhe dizia que talvez, apenas talvez, Caroline tivesse razão. — Sem contar que também eu serei muito infeliz, daqui por diante, se você não fizer parte de minha vida — Caroline prosseguiu. — Pois, embora pareça absurdo, eu a considero como uma boa amiga. É incrível, não? Mas tenho a nítida sensação de que nos conhecemos há muito tempo. Tenho tão poucas amigas, Elizabeth. Uma delas é minha 144


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cunhada, irmã de Blake. Mas já faz tempo que não a vejo, pois ela foi para a Índia, junto com o marido, há quase um ano. Apesar da tristeza que a dominava, Elizabeth não pôde deixar de se comover, diante daquela demonstração de carinho. Ia dizer algo, quando avistou sua casa, a poucos metros de distância. A porta estava aberta e isso a preocupou. — Ora, tenho certeza de que fechei a porta, quando saímos — disse, apreensiva. — Você fechou, sim, eu me lembro. — Então, o que estará acontecendo? Ambas apressaram o passo e, já perto da casa, ouviram claramente o som de uma bengala batendo contra o chão. — Lady Danbury! — Elizabeth exclamou. — Ela está aqui! — E agora? — perguntou Caroline, apreensiva. — Agora, vou recebê-la — Elizabeth respondeu, resignada. Decididamente, aquele estava sendo o dia das surpresas. — Então, aproveite para me apresentar a ela, já que ainda não a conheço. — E Caroline explicou: — A condessa estava muito ocupada, ontem, com tantos convidados. Por isso, Blake resolveu adiar o momento de nos apresentar. — Então, caberá a mim fazer isso — disse Elizabeth. — Vamos? — Claro. Quando ambas entraram na casa, ouviram novamente a condessa batendo a bengala no chão. O que era, sem dúvida, um sinal de impaciência, Elizabeth concluiu, tomando fôlego. Hoje o dia promete ser movimentado, ela pensou. Daria tudo para estar no silêncio de seu quarto, a sós consigo mesma, para refletir sobre o desastre em que sua vida havia se transformado. Mas não poderia se dar a esse luxo. Teria de ceder às circunstâncias. A velha condessa estava sentada numa poltrona. Aproximando-se, Elizabeth saudou-a, num tom polido: — Bom dia, lady Danbury. Estou surpresa com sua visita. — Pois eu estou esperando por você há horas. — Ora, mas eu só saí por cerca de vinte minutos — Elizabeth retrucou. — Menina, você está cada vez mais rebelde — ralhou lady Danbury. — Bem, deixe-me fazer as apresentações. Esta é Caroline Ravenscroft, esposa de Blake Ravenscroft... Caroline, esta é lady Danbury. Ambas se cumprimentaram, enquanto Elizabeth perguntava-se o que mais faltaria acontecer, naquele dia. Da cozinha, vinham ruídos de louça, mesclados às vozes de Susan, Jane e Lucas. — Seus irmãos cresceram bastante, desde a última vez em que os vi — lady Danbury comentou. — Mas continuam muito educados, como sempre. — Obrigada — Elizabeth agradeceu, pensando que, em outra circunstância, teria ficado imensamente feliz com essa observação... ainda mais vindo de lady Danbury, que 145


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tinha um senso crítico bastante afiado. Mas, naquele momento, precisava de toda a sua energia para não cair em lágrimas, ali mesmo, diante das visitas. — De fato, são uns amores — concordou Caroline. Elizabeth tornou a agradecer. Então, voltando-se para lady Danbury, perguntou: — A propósito, a que devo a honra de sua visita? — Preciso falar com você — a condessa respondeu, um tanto ríspida. Imediatamente, Caroline levantou-se. — Elizabeth, se você me der licença, gostaria de conhecer melhor os seus irmãos. Posso? — Claro. Eles estão na cozinha. Eu a acompanharei até lá. — Não é preciso. — Num tom espirituoso, Caroline acrescentou: — É só seguir as vozes. — De fato... Bem, fique à vontade. — Obrigada. — Lançando um sorriso na direção de lady Danbury, Caroline disse: — Com licença, condessa. — Claro, querida. — Quando Caroline afastou-se, lady Danbury opinou: — Pareceme uma boa moça. — Também tive essa impressão — Elizabeth concordou. — Sorte de Blake, aquele garoto levado. Elizabeth não pôde deixar de sorrir. A velha condessa era mesmo impagável. Como podia chamar Blake, um homem respeitável, de "garoto levado"? Como se lhe adivinhasse os pensamentos, lady Danbury comentou: — Ele me deixava de cabelos brancos, sabe? Era um menino terrível... E quando se juntava com James, então! — Após uma pausa, acrescentou: — Bem, mas não vim até aqui para relembrar as travessuras daqueles dois. Elizabeth retesou-se no sofá, esperando pelo pior. Sabia que lady Danbury era uma mulher de opinião e caráter forte, às vezes irredutível. Ela certamente devia ter um ponto de vista muito particular, sobre os acontecimentos da noite anterior. E já que James era seu sobrinho, ela com certeza tomaria o seu partido. Preparando-se para uma conversa longa e difícil, talvez até mesmo para um possível confronto com a velha senhora, como jamais tivera antes, Elizabeth tomou fôlego e esperou. Apontando-lhe o dedo, num gesto de acusação, lady Danbury disse: — Você... — Sim? — Você nem apareceu no salão de baile, ontem à noite. Elizabeth piscou, certa de que não tinha ouvido bem. — Como disse, senhora? — Não se faça de desentendida! — lady Danbury advertiu-a, entre severa e magoada. — Fiz tanta questão de sua presença! Até me encarreguei de providenciar-lhe uma fantasia que, aliás, caiu como uma luva. E você, em vez de desfrutar o baile e me assessorar, quando fosse preciso, simplesmente desapareceu, sem me dar satisfações. 146


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Por isso estou aqui, minha cara. Espero que você tenha uma boa justificativa para sua atitude que foi, no mínimo, indevida. Elizabeth estava perplexa. Tentando raciocinar rápido, para se situar naquela estranha conversa, chegou à única conclusão possível: Lady Danbury não estava a par de nada do que havia ocorrido na véspera. — Espero uma explicação, Elizabeth. A conversa foi interrompida por uma leve batida à porta. É James!, Elizabeth pensou, com o coração disparado. — Não pense que desistirei da nossa conversa — disse a velha condessa. — Claro que não — Elizabeth retrucou, levantando-se para abrir a porta. E então deparou-se com outra surpresa. — Sr. Blake Ravenscroft! — exclamou, enquanto uma voz interior fazia-lhe uma pergunta incômoda: por que ela estava tão desapontada? — Bom dia, srta. Hotchkiss — Blake cumprimentou-a, num tom cortês. — Minha esposa está aqui? Antes que Elizabeth respondesse, Caroline veio da cozinha, acompanhada pelas crianças. — Querido! — Blake Ravenscroft! — disse lady Danbury. — Que surpresa vê-lo por aqui. — Posso dizer o mesmo, condessa — ele respondeu, sorrindo. Sorrindo de volta, ela retrucou: — Você continua o mesmo menino rebelde de antigamente. Sempre com uma resposta na ponta da língua. E pensar que você vivia dizendo que tinha medo de mim! — Para ser franco, ainda lhe tenho certo receio, milady. Todos riram e o clima se tornou menos tenso. Exceto para Elizabeth, que nunca recebia visitas. E, de repente, justo quando ela atravessava o pior momento de sua vida, sua casa estava repleta de representantes da nobreza. Seria cômico, se não fosse trágico. — Elizabeth, devo servir um chá? — Susan perguntou, num tom discreto. Mas não o suficiente para não ser ouvida pela condessa, que aprovou a idéia de imediato. — Um chá viria a calhar, querida. — Certamente — disse Elizabeth. — Eu a ajudarei. — Não é preciso — Susan respondeu, num tom seco. — Eu, Jane e Lucas cuidaremos disso. — E afastou-se em direção à cozinha, seguida pelos irmãos menores. — Sua irmã se parece com você — lady Danbury comentou. — Inclusive no temperamento. Elizabeth ia dizer algo, quando novas batidas soaram, na porta. — Agora, é ele! — ela pensou, em voz alta. — Só pode ser! — E ante a expressão interrogativa de lady Danbury, disse: — Deve ser James Siddons. — Você quer dizer... James Sidwell, marquês de Riverdale, meu sobrinho. Elizabeth piscou, duvidando, uma vez mais, de seus próprios ouvidos. 147


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— Então a senhora... — Já sei de tudo, querida — a velha condessa completou. — Sabe?! — De tudo... James me contou, ontem à noite. — E por que a senhora não me disse? — Você não perguntou. Agora, por favor, vá atender a porta, sim? Não deixe James esperando. — E como Elizabeth hesitasse, ela ordenou: — Vá, menina! — Irei, mas não tenho nada a dizer a ele. — Nesse caso, ouça o que ele tem a lhe dizer. Voltando-se, Elizabeth fitou-a com gravidade: — Condessa, o que quer que James tenha vindo falar, não estou interessada em ouvir. — Tente dizer isso a ele. — É exatamente o que pretendo. — Elizabeth abriu a porta e deparou-se com um James bem diferente do que conhecera. Profundas olheiras marcavam-lhe o rosto de belos traços. E a expressão de seus olhos era de infinita tristeza. Por um instante, ela se compadeceu. Mas então lembrou-se do sofrimento que ele lhe causara, mentindo inescrupulosamente, enganando-a e divertindo-se às suas custas. Um sentimento de raiva cresceu-lhe no íntimo, como uma onda poderosa, dando-lhe forças para encará-lo e dizer: — Você não é bem-vindo, aqui. Se veio para falar com sua tia, ou com seus amigos, pode entrar. Se não, vá embora. — Vim para lhe falar. E não sairei daqui, enquanto você não me ouvir. — Por que eu deveria? Você não merece mais o meu respeito, nem a minha consideração. — Talvez você mude de idéia, depois de ouvir minhas explicações. — Poupe-me de sua lábia e de suas mentiras, James Siddons, James Sidwell... ou seja lá quem você for! — Elizabeth, deixe-me entrar. — Não. Avançando um passo, ele tentou tomá-la nos braços. Elizabeth desvencilhou-se e correu para fora, com um único pensamento em mente: fugir daquele homem, para o mais longe possível, antes que ele conseguisse iludi-la, de novo, com suas palavras doces e seu olhar intenso, que tão bem sabia enfeitiçá-Ia. Transpondo o jardim de sua casa em saltos ágeis e ligeiros, ganhou o acesso à trilha que circundava o bosque. Correu por algum tempo e, a certa altura, a curiosidade fez com que se detivesse e olhasse para trás. Surpresa, constatou que James não a seguia. — Melhor assim — murmurou, ofegante. — Acho que ele entendeu que seria inútil insistir. — Contendo as lágrimas, concluiu: — Ainda bem. Não quero vê-lo mais, nunca mais! Com um suspiro de alívio, continuou a se afastar, andando normalmente. Quando um vulto destacou-se, à sombra de um carvalho, bloqueando seu caminho. 148


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— Onde pensa que vai? — indagou James, com um sorriso ferino no rosto zangado. — Onde me apetecer. Saia da minha frente, James... Eu estou avisando! Sem se importar com a advertência, ele segurou-a pelos pulsos, forçando-a a sentar-se na raiz da grande árvore. Então colocou-se diante dela, grande e ameaçador, com as mão na cintura. — Você vai me ouvir, agora? Ela murmurou uma série de imprecações, mas não tentou fugir. — Tomarei seu silêncio como um sim — disse James. Respirando fundo, ela o fitou por um longo momento. — Oh, pelo amor de Deus! — exclamou, por fim. — Diga o que tem a dizer e deixeme em paz — Ontem, eu lhe pedi que se casasse comigo. — E eu me recusei. — E hoje... — Continuo me recusando — ela o interrompeu, num tom áspero. Com uma calma e uma paciência que estava longe de sentir, ele prosseguiu: — Ainda hoje ou, o mais tardar, amanhã, você receberá um mensageiro com um envelope. — Já recebi sua esmola humilhante, meu caro marquês de Riverdale — ela disse com desprezo. — E fique sabendo que rasguei o cheque em mil pedaços. A surpresa fez com que James titubeasse. — Como?! Mas se vim justamente para preveni-la para que não tivesse idéias erradas a meu respeito, depois da noite passada. — Como pode ver, marquês, é um pouco tarde para isso. Você deveria ter pensado melhor, antes de me esconder sua identidade e se divertir com meus tolos projetos de casamento. — Pedi a meus advogados que lhe enviassem aquele cheque, para que você não arruinasse sua vida, casando-se sem amor. Com tal soma, o futuro de seus irmãos estaria assegurado e, você, livre para escolher seu próprio destino. — Não quero sua piedade — ela declarou, com firmeza. — Não se trata disso, Elizabeth — ele argumentou, passando a mão pelos cabelos castanhos, num gesto de tristeza e cansaço. — Então, do que se trata? — ela o desafiou. — Bem, depois de conhecê-la, eu não poderia suportar vê-la perder essa centelha de luz e alegria que a faz tão especial, entre todas as mulheres. Diante dessas palavras, pronunciadas com tanta bondade e delicadeza, Elizabeth sentiu os olhos enchendo-se de lágrimas. — Fiz isso, desinteressadamente, por querer o seu bem e o bem de seus irmãos. Juro!

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Por mais que a raiva e a humilhação ainda lhe doessem, no peito, Elizabeth não conseguiu, em sã consciência, duvidar dessas palavras. Por mais que relutasse, tinha que reconhecer que James estava sendo sincero. Mesmo assim, sua mágoa ainda não tinha arrefecido. — Você mentiu para mim — ela murmurou, após alguns instantes. — Você me enganou, James. — Eu precisava fazê-lo. Não tive escolha. — Certo — ela assentiu, com amarga ironia. — Você não teve escolha. Mas eu tenho meu orgulho, sabia? — Vamos deixar um ponto bem claro, entre nós: o fato de você aceitar minha doação não significa que terá de se casar comigo. Uma coisa não tem nada a ver com a outra. Estou disposto a me afastar de sua vida, se for esse o seu desejo. — Muito nobre de sua parte! Mas quem me garante que você não se arrependerá, mais tarde, de sua generosidade? E, se isso acontecer, você certamente virá me cobrar esse favor. — Que tipo de homem você pensa que sou? — ele retrucou, tão espantado quanto ofendido. — Não sei! — ela explodiu — Como eu poderia? Eu nem sei sequer quem é você, na verdade! — Tudo o que precisa saber, a meu respeito, você já sabe. — Ele ergueu-lhe o queixo, para que o fitasse. Para que visse toda a emoção, todo o amor que sentia por ela. Sua alma inteira estava exposta, em seus olhos. — Sim... Você me conhece melhor do ninguém, no mundo. A hesitação de Elizabeth foi como uma ofensa a James, que naquele momento oferecia-lhe seu coração, despido e puro como o de uma criança inocente. A mágoa o fez encolher-se. Era um homem forte e decidido, mas tudo tinha um limite. Endireitando o corpo, ele voltou-lhe as costas e começou a se afastar. Mal tinha dado dois passos, quando Elizabeth disse: — Espere! Lentamente, ele se virou. — Eu me caso você — ela murmurou. Os olhos de James estreitaram-se. — Por quê? Com os lábios entreabertos, Elizabeth sentiu sua garganta se fechar, em pânico. Ela não conseguia formular um só pensamento. Não esperava que ele fosse questionar sua aceitação. James aproximou-se, exigente e dominador, paralisando-a com sua presença. Erguendo-se, Elizabeth apoiou-se contra a árvore, sem fôlego, hipnotizada por aqueles olhos castanhos, que brilhavam, perigosamente próximos. — Você me pediu em casamento e eu aceitei — ela respondeu, num fio de voz. — O que mais quer de mim? Ele meneou a cabeça, lentamente. Inclinando-se, apoiou ambas as mão no tronco da árvore, impedindo que Elizabeth se movesse. — Diga-me, agora... por que você aceitou se casar comigo? 150


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A fúria que dele emanava atingiu os nervos sensíveis de Elizabeth, que já estava no limite de sua resistência. Agressiva, ela respondeu num tom casual, que estava muito longe do que verdadeiramente sentia: — Aceitar seu cheque está fora de questão. Isso é definitivo. Assim, continuo como no princípio. — Tomando fôlego, ela prosseguiu: — Se quero dar a meus irmãos a chance de uma vida melhor, preciso me casar com alguém de posses. E por que não você, a quem já conheço? — Resposta errada, pedido anulado — James respondeu, por entre os dentes. — Em resumo, esqueça o assunto. — Você está voltando atrás, em sua decisão? — Exato. Não quero tê-la dessa maneira. — Eu deveria saber! — ela gritou. — Você quer me induzir à hipocrisia, é isso? Quer que eu minta sobre a importância do seu dinheiro e da sua posição social, em minha aceitação? — Pensei que houvesse algo mais. — Com James Siddons, talvez — ela retrucou, num tom ferino. — Mas não com o marques de Riverdale, esse ilustre desconhecido. Diga-me, caro Marquês... Não é praxe, entre as pessoas de sua classe, casar-se por conveniência? — Sim — ele respondeu, num tom cortante. — Mas se eu pretendesse um casamento nessas bases, não teria pedido sua mão. — É óbvio — ela rebateu, sarcástica. — Afinal, que conveniência poderia haver, de sua parte, em casar-se com uma nobre arruinada, com três irmãos para criar? — Resposta errada de novo. Eu não me casaria por conveniência, com você, por muitas razões. E uma delas é essa. Antes que Elizabeth pudesse replicar, ele tomou-lhe o rosto entre as mãos e beijoua. Elizabeth julgou que seria beijada com raiva e fúria, mas o toque dos lábios de James sobre os dela foi surpreendentemente delicado e suave, fazendo-a derreter-se por dentro, jogando suas defesas por terra. James sussurrava palavras de amor e desejo, enquanto beijava-lhe o seu rosto, os olhos, o queixo... Para então voltar a cobrir-lhe a boca, num toque carregado de ousadia e intimidade, traduzindo emoções que iam muito além da paixão. Sem o menor controle sobre o que fazia, Elizabeth enlaçou-o pelo pescoço. Seus dedos acariciavam-lhe a nuca, aninhavam-se entre os cabelos, a princípio numa carícia leve e terna que logo se intensificou, traduzindo a urgência do desejo que a consumia. E justamente quando ela estava assim, entregue, James afastou-se para dizer: — Quando admitir que é por isso que me quer, estarei pronto a me casar com você. — E ante seu olhar perplexo, afastou-se, a passos largos. Durante os dias que se seguiram a esse encontro com James, Elizabeth permaneceu fechada em seu quarto. Após muitas tentativas, seus irmãos haviam desistido de tentar falar com ela. Apenas deixavam bandejas de alimentos, do lado de fora da porta. Susan preparava os pratos preferidos de Elizabeth, que mal os tocava. 151


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Certa tarde, ela estava debruçada na janela, contemplando o velho carvalho que se destacava na paisagem. Julgou notar um leve movimento à sombra daquela árvore centenária, mas achou que fosse apenas sua imaginação lhe pregando uma peça. Afinal, a lembrança dos beijos trocados com James, ali, ainda estava bem vivida em sua mente. Assim como as duras palavras que ele lhe dissera, encerrando desse modo a triste estória de ambos. Uma leve batida soou à porta do quarto. Julgando ser um dos irmãos, com o lanche da tarde, Elizabeth não atendeu. Mas as batidas prosseguiram, com insistência. Juntando toda a energia de que dispunha, no momento, ela resolveu abrir a porta. Deparou-se com Susan, Jane e Lucas, que a fitavam, com expectativa. — O que houve? — Elizabeth perguntou. — Isto é para você — disse Susan, estendendo-lhe um envelope. — Trata-se de uma mensagem de lady Danbury. Ela quer vê-la. Elizabeth ergueu as sobrancelhas. — Você abriu minha correspondência? — Claro que não. O lacaio, que veio trazê-la, foi quem me informou. — É verdade — disse Jane. — Eu estava com Susan, quando ele chegou. Elizabeth pegou o envelope, mas não o abriu. —- Você não vai ler? — Lucas perguntou, curioso. Jane deu-lhe um cutucão. — Lucas, não seja grosseiro. — Vamos, Elizabeth, leia — Susan sugeriu. — Qualquer coisa é melhor do que ficar fechada neste quarto, sentindo pena de si mesma. — Será que não tenho direito a uns dias de descanso? — ela retrucou, aborrecida. — Claro que sim. O problema é que já faz muitos dias que você está aqui. Sem nenhuma vontade, Elizabeth abriu o envelope, retirou o bilhete e leu seu conteúdo em silêncio. Caminhando até a janela, deteve-se, pensativa. — Há algo de errado? — perguntou Susan. — Não — Elizabeth respondeu, com um suspiro. — Apenas, lady Danbury quer que eu vá vê-la. — Isso nós já sabíamos — disse Lucas. — Pensei que você não trabalhasse mais para ela — murmurou Jane. — De fato. Mas acho que vou ter que engolir meu orgulho e pedir o emprego de volta. Afinal, precisamos de dinheiro para nos manter. O silêncio que se seguiu a essas palavras fez com que Elizabeth fitasse cada um dos irmãos. Todos os três, de um modo ou de outro, traziam nos olhos a óbvia pergunta: por que ela recusara a doação que os teria tirado da miséria, pelo resto da vida? Porque ela rasgara o cheque em minúsculos pedaços? Tomando fôlego, Elizabeth caminhou até o armário, abrindo-o de par em par. — Você vai sair? — Jane perguntou. Elizabeth assentiu com um movimento de cabeça. 152


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— Sim. Espero que lady Danbury não se alongue demais no assunto que pretende tratar comigo. Caso contrário, acabarei voltando só à noite, que, por sinal, promete ser escura. — Talvez você acabe ficando por lá — disse Lucas, num ímpeto. Mesmo achando estranha essa afirmação, Elizabeth não se preocupou em contestá-la. — De qualquer maneira, não se preocupem se eu demorar. As vezes, lady Danbury fala demais. Quando Elizabeth terminou de se aprontar, a tarde já caía. Dentro em pouco, já seria noite. Na sala, ela despediu-se dos irmãos, pronta para partir. — Boa sorte — disse Susan, com um brilho intenso no olhar. — Vou precisar, acredite — Elizabeth respondeu, com uma expressão de desânimo. Assim que ela partiu, Susan, Jane e Lucas trocaram olhares significativos. Com um sorriso maroto, Susan comentou: — Ela vai ter uma surpresa e tanto. Lucas e Jane sorriram, em concordância.

James andava de péssimo humor, naqueles dias. Tanto, que os criados de lady Danbury evitavam até mesmo passar em frente à sua modesta habitação. Pois, para eles, James continuava a ser um simples administrador de imóveis, recém-contratado pela condessa. O álcool, ao qual James recorrera, no princípio daquela dura fase, já não o confortava como antes. E a ressaca, pelas manhãs, deixava-o ainda mais irritado. Sobre sua mesa de trabalho, o fatídico livro vermelho da sra. Seeton parecia zombar de suas incertezas. Por várias vezes, naqueles dias, James pensara em destruir o pobre objeto que trouxera consigo da biblioteca, quando ainda pensava em ajudar Elizabeth a arranjar um marido. Olhando-o com amargura, ele pegou-o e enfiou-o no bolso, onde ao menos ficaria longe de sua vista. Imerso em sombrios pensamentos, demorou a perceber que alguém estava batendo à porta. — Quem será esse atrevido? — resmungou, em meio a uma enxurrada de palavrões. Já estava pensando em descarregar sua ira sobre o pobre desavisado que ousara importuná-lo, quando reconheceu a voz de lady Danbury, que o chamava, de fora. — James! Abra essa porta, de uma vez! Preciso falar com você! Por maior que fosse a tentação de ignorá-la, James sabia que a velha condessa não iria embora, antes de conseguir seu intento. Assim, não lhe restava outra alternativa, senão atendê-la. — Tia Agatha — ele disse, num tom exageradamente doce, ao abrir a porta. — Que agradável surpresa! A que devo o prazer de sua visita? — Deixe sua ironia para os menos afortunados pela inteligência, James. Você está horrível e este lugar cheira mal — ela retrucou, enquanto entrava, sem pedir licença. 153


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Passando por ele, apoiada em sua bengala, puxou uma cadeira e sentou-se, sem esperar pelo convite. — Minha querida — ele disse, sarcástico, fazendo uma reverência. — Sempre gentil e amável. — Você está bêbedo? — Já estive. Agora, desfruto da melhor ressaca que seu uísque de qualidade duvidosa pode proporcionar. — Não há nada de errado com meu uísque. E, também, não vim aqui para falar de bebidas. — Então, do que se trata, afinal? — James indagou, agora num tom sério. — Trata-se de Lucas, o irmão caçula de Elizabeth. Não sabia que você tinha amizade com aquele menino. James reagiu, surpreso. Deixando de lado todos os assuntos difíceis, espinhosos e inconvenientes que poderia trazer à baila, sua tia Agatha vinha lhe falar... De Lucas!? Decididamente, a velha condessa ainda sabia como surpreendê-lo. — O que há com Lucas? Como resposta, lady Danbury estendeu-lhe uma folha de papel, dobrada em quatro. — O menino enviou-lhe esse bilhete, não sei ao certo por quê. É verdade que ele não tem uma referência masculina em sua vida, desde a morte do pai. Mas daí a eleger você... Bem... Ignorando a provocação, James pegou o bilhete. A letra, infantil, era surpreendentemente clara e, as frases, bem construídas: Caro James, Preciso falar com você sobre muitas coisas importantes. Estarei no pavilhão de caça do falecido lorde Danbury, no final da tarde. Venha me encontrar, por favor. Sir Lucas Hotchkiss. Depois de ler a mensagem, James começou a caminhar pela sala, de um lado a outro, com o bilhete na mão. — O que foi? — perguntou lady Danbury. — Lucas tem acesso ao Pavilhão de Caça? — ele indagou, intrigado. — Cedi uma cópia da chave a Elizabeth. As vezes, ela passa os domingos lá, com os irmãos. Por que pergunta? — Lucas quer que eu o encontre lá. — E você irá? — Claro que sim. O menino deve estar confuso, com os acontecimentos desses últimos dias. Pobre Lucas... — Ah... Já era tempo! — lady Danbury exclamou. — Tempo do quê? 154


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— De tomar uma atitude coerente, oras! Não sei se você reparou, mas suas ações andam beirando a insanidade, nos últimos tempos. E sem esperar por uma resposta à altura, que na certa viria, a velha condessa se retirou, com um meio sorriso.

CAPÍTULO X

Ao avistar Danbury House, Elizabeth saiu da estrada principal, tomando uma trilha à direita, que levava ao interior da propriedade, em direção ao Pavilhão de Caça. O bilhete que recebera de lady Danbury, e que não lera para os irmãos, dava instruções claras para que ela agisse daquela maneira. No breve texto, escrito em tom de mistério, a velha condessa prometia-lhe revelações importantes, que iriam afetar sua vida e a de seus irmãos. Por isso, sentia-se apreensiva, quando lá chegou. O local estava silencioso. Tirando do bolso a chave que a condessa lhe dera, algum tempo atrás, Elizabeth tentou abrir a porta, que cedeu facilmente. Pois não estava trancada. Entrando, com passos cautelosos, ela deparou-se com uma mesa, posta em frente à lareira, com finas iguarias e delicadas bebidas. A lareira fora preparada para ser acesa; o ambiente estava limpo, como sempre, mas alguém o havia arrumado, com extremo zelo. Vasos com flores, dispostos aqui e ali, completavam o arranjo. — Que estranho — Elizabeth murmurou, caminhando a esmo pelo amplo espaço. — Lady Danbury... A senhora está aí? — perguntou, elevando a voz, que soou um tanto trêmula. — Não há ninguém, por aqui, além de mim — disse James, surgindo de trás de um armário. — O que está fazendo, neste lugar? — ela perguntou, surpresa. — O mesmo que você, eu imagino. — Você também recebeu uma mensagem de lady Danbury? — ela indagou, ainda sem entender. Assentindo com um gesto de cabeça, ele respondeu: — Na verdade, era um bilhete. Mas não de tia Agatha e sim de seu irmão. — Lucas? — Sim. Você ainda não percebeu? — Uma conspiração! — Elizabeth comportamento de seus irmãos, naquela tarde.

concluiu,

lembrando-se

do

estranho

— Exatamente. — James entregou-lhe uma página de papel. — Leia, por favor. Elizabeth obedeceu. E não pôde impedir que um sorriso comovido substituísse a expressão surpresa de seu rosto: ali estava a assinatura do pequeno Lucas, que usava, pela primeira vez, o título de Sir a que tinha direito. 155


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— É a letra dele, sem dúvida — ela disse, devolvendo o bilhete. — Mas a idéia deve ter sido de Susan. — O certo é que funcionou. — James sorriu. Elizabeth entregou-lhe, então, a mensagem que havia recebido de lady Danbury. — Acho que posso adivinhar o que está escrito aqui — disse James, ao abrir a mensagem. — De fato, é tal como eu imaginava... — Todos conspiraram para nos unir — Elizabeth concluiu, com um suspiro. — Mas ainda não nos reconciliamos. — E você tem idéia de como poderemos fazer isso? — ela perguntou, baixinho. — Oh, claro que tenho. — E ele tomou-a nos braços. — James — ela murmurou, oferecendo os lábios. — Senti tantas saudades de você! O beijo sintetizava o que ambos sentiam naquele momento, mas a necessidade de justificar as ações passadas ainda parecia forte em James, que por fim disse: — Eu a enganei porque as circunstâncias assim exigiam. Meu primeiro dever era com minha tia e, além do mais, eu mal a conhecia, Elizabeth. Será que você pode entender isso, agora? — Para ser sincera, ainda me ressinto pelo fato. Mas, sim, James... Eu compreendo. Com um suspiro de alívio, ele respondeu: — Obrigado, Elizabeth. Sem esse primeiro passo, não teríamos a menor chance de levar adiante o nosso relacionamento. Tomando-lhe a mão, ela pousou-a sobre o coração. — Sinta, James... É por você que ele pulsa assim. Beijando-a nos lábios, ele sussurrou: — Não faço outra coisa, além de pensar em você, desde o dia em que a conheci, meu amor. Mergulhando o rosto no acolhedor refúgio do peito de James, ela deixou as lágrimas de alívio e alegria corressem livremente. — Você está chorando! — ele constatou, alarmado. — De felicidade, James! Nunca, antes, você tinha me chamado de meu amor. — Mas eu amo você, Elizabeth Hotchkiss. Agora... e por toda minha vida — ele disse, lenta e solenemente. Os beijos se sucederam, tornando-se cada vez mais ousados. Os corpos, ardentes, queriam a liberdade de roçar, um no outro, sem a interferência das roupas. As peles precisavam trocar, entre si, a energia que o amor e o desejo acumulara no interior de cada um. Desabotoando o corpete de Elizabeth, James trouxe à luz difusa do anoitecer seus seios alvos, cujos picos róseos se intumesceram, ao seu toque. — Solte seus cabelos — ele pediu, afastando-se apenas o suficiente para melhor contemplá-la. 156


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Erguendo ambos os braços, Elizabeth livrou os cabelos dos grampos que os prendiam, fazendo-os cair, numa dourada cascata luminosa, sobre seus ombros e seios. — Você é linda! — James exclamou, com sofreguidão. Ela corou de embaraço. — Não seja bobo. — Quero sentir a seda de seus cabelos varrendo meu corpo. Venha, Elizabeth. Vamos consumar aquilo que nossos corpos e almas tanto desejam. Tomando-a pela mão, James conduziu-a a um quarto limpo e bem cuidado, como o restante do pavilhão. A cama, ampla, era um convite irresistível. Mas James a queria completamente nua, antes de fazê-la deitar sobre os alvos lençóis. — Vamos, dispa-se para que eu possa vê-la por inteiro — ele pediu, na urgência da paixão. Corada como uma rosa, ela assim o fez, lentamente, até certo ponto... onde se deteve. Fitando-o nos olhos, pediu: — Agora, você... Sorrindo, ele perguntou, comovido: — Você quer que eu tire minhas roupas? Ela assentiu, com um movimento de cabeça indescritivelmente sensual. James obedeceu, e então provocou-a: — Sua vez. E assim ambos foram se revelando um ao outro, em lances deliciosamente sutis que fazia crescer, a um limite insuportável, o desejo premente que os incendiava. Por fim, completamente nus e emocionados, contemplaram-se por um longo momento. James tomou Elizabeth nos braços e, erguendo-a do chão, como se ela fosse uma pluma, conduziu-a ao leito. — Amo você, Elizabeth — ele sussurrou. — Venha, James... Faça algo para que eu não morra dessa aflição que me consome. — Você... tem certeza? — Sim. Eu quero... Agora... — ela implorou. Afastando-lhe as pernas esguias e bem torneadas, James acomodou-se entre elas, encaixando o sexo vibrante na flor latejante e úmida. — Venha... — ela murmurou, baixinho. James obedeceu, parando quando a resistência natural se apresentou. — Elizabeth... Você ainda é virgem. O movimento que mudará esse fato para sempre terá que vir de você. — Mas... — ela balbuciou. — Eu não sei o que fazer... — Mova os quadris em minha direção, quando e quanto quiser. Eu a guiarei. Elizabeth tentou, mas deteve-se bruscamente. Parecia impossível. As dimensões simplesmente não se adequavam. — O que foi? — ele perguntou, num sussurro. 157


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— Acho que há algo de errado comigo — ela confessou. — Não há nada de errado com você, meu amor. É assim, na primeira vez. Um pouco mais confiante, ela tentou de novo para logo recuar. — Não pare — ele aconselhou. — Movimente-se para trás e para a frente, avançando pouco a pouco. Ela obedeceu e, dessa vez, sentiu que algo diferente acontecia. Havia um componente de dor no prazer intenso que sentia, mas, estranhamente, essa dor parecia fazer parte de tudo o que estava ocorrendo. Num dado momento, James ergueu-lhe as pernas, colocando-as em torno de seus quadris. — Quando quiser — ele disse, com a voz rouca de prazer. Como resposta, ela projetou o corpo para a frente e, dessa vez, James foi ao seu encontro. Algo como um relâmpago fulgurante brilhou, por trás das pálpebras de Elizabeth, que gritou contra os lábios de James, que gemeu longamente, a caminho do gozo supremo. Inundada pela lava que a queimava por dentro, Elizabeth soube, então, que havia se tornado mulher. A mulher de James. E sentiu-se despencar, numa queda vertiginosa, enquanto o mundo exterior desabava à sua volta. As chamas da lareira iluminavam e aqueciam a ampla sala do Pavilhão de Caça, onde James e Elizabeth, acomodados à mesa, preparavam-se para desfrutar uma leve refeição. Estavam mais que felizes. Sentiam-se gloriosamente plenos e realizados. Falavam pouco e, quando o faziam, era quase num sussurro, como se temessem assustar a imensa felicidade que os envolvia em seu manto. A vida apresentava-se à frente dos dois amantes como uma interminável estrada, repleta de belas promessas de prazeres e descobertas infinitas. Foi então que, ao erguer o guardanapo que estava ao lado de seu prato, Elizabeth exclamou, surpresa: — Ora!... O que será isso? — O quê? — Há um envelope, sob o guardanapo. Está endereçado a nós dois. E a letra é de lady Danbury — ela explicou, estendendo-o a James, por sobre a mesa. Apanhando o envelope de cor marfim, James retirou a carta nele contida. — Quer ler primeiro? — Não. Leia você mesmo, para nós, em voz alta. Limpando a garganta, ele começou: Meus queridos filhos, Sim, é verdade. É assim que penso em vocês: como meus filhos. Também, pudera! Afinal, nunca esquecerei o dia em que você, James, pisou pela primeira vez em Danbury House. Você era um menino desconfiado e arredio, que parecia não acreditar que alguém pudesse amá-lo. Amá-lo pelo que você era. E não pelo seu título. Foi difícil, para mim, suportar a rejeição que encontrava a cada abraço que lhe dava. A cada palavra sincera, de carinho, que você ignorava ostensivamente. Mas não 158


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desisti e, um dia, você me retribuiu todo esse afeto, estreitando-me em seus pequenos braços, dizendo: "Amo você, tia Agatha". E tudo se iluminou. Daquele momento em diante, considerei você como meu filho. E assim tem sido, por todos esses anos. Agora, vou me dirigir a Elizabeth... Você entrou na minha vida quando o último dos meus filhos se casou, deixando esta casa. Desde o primeiro dia, vi em você a coragem e a lealdade que eu acreditava não existir mais, nas novas gerações. Durante os últimos anos, tenho tido o prazer de ver você florescendo, com uma beleza exterior e interior inigualáveis, com seu caráter íntegro, ímpar, admirável. Quando você chegou a Danbury House, era uma jovem imatura e muito agitada. Mas em algum lugar, ao longo do caminho, você desenvolveu uma atitude calma e serena, que só uma inteligência privilegiada determina no amadurecimento de uma bela mulher. Você nunca tentou me bajular e jamais permitiu que eu a intimidasse, o que é, provavelmente, o maior presente que uma mulher com o meu gênio pode receber de alguém. Por este motivo, e por dezenas de outros, eu a considero como minha filha. Depois de tudo o que acabo de revelar, penso não ser tão estranho que eu tenha sonhado em juntar essas duas criaturas extraordinárias e por mim amadas. Claro que eu sabia que, para fazê-lo, teria de recorrer a meios pouco ortodoxos, dada a natureza e peculiaridade de cada um de vocês. James certamente iria resistir até a morte, se eu tentasse impor-lhe um casamento, ainda que fosse com a criatura mais maravilhosa da Inglaterra. Afinal, ele é homem e, portanto, estupidamente orgulhoso. Por outro lado, sei que eu jamais conseguiria convencer Elizabeth a viajar comigo para Londres, as minhas expensas. Sua preocupação em deixar seus irmãos, somada ao temor natural de abusar de minha generosidade, certamente a impediria de aceitar tal convite. Assim, só me restou usar de um expediente que concebi, numa tarde de primavera, e que coloquei em prática assim que foi possível. Sabendo que James faria qualquer coisa para me proteger, apostei que uma ameaça de chantagem a sua velha tia o traria a Danbury House, mais rápido que a noticia de uma súbita doença, ou qualquer outra tragédia que eu pudesse inventar... E estava certa. Devo aqui interromper este relato, para acrescentar que jamais traí meu esposo, lorde Danbury, e que todos os filhos que tive foram dele. Não o fiz por questões morais ou tradições e sim porque não sou do tipo capaz de trair o homem amado. Minha convicção de que, ao se conhecerem, vocês iriam se apaixonar, era tamanha, que deixei um tolo livro fora de lugar, na biblioteca, e manobrei para que Elizabeth o encontrasse. Como Se Casar Com Um Marquês cumpriria a função de um farol a indicar o caminho a você, Elizabeth. Quanto ao resto, a juventude de ambos se encarregaria. Bem, aqui termina minha confissão. E o pobre livro permanecerá como um símbolo, que deixo a vocês como presente, neste momento. Não me arrependo do que fiz porque, naturalmente, não sinto nenhuma culpa. Mas se os ofendi, em algum momento, com meu plano, espero sinceramente que me perdoem. Lembrem-se sempre que o amor é um dom precioso que o orgulho pode destruir. Cuidem disso, vocês dois, que são tão orgulhosos. 159


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Espero que aproveitem o Pavilhão de Caça, que assim justifica sua existência nesta propriedade. Ah, antes que eu me esqueça: tomei a liberdade de pedir ao meu tabelião a licença de casamento de vocês. Ela tem prazo limitado e espero que a usem. Meus amados... Nada mais tenho a dizer. Eu os verei no casamento. Com carinho, Agatha Danbury. — Santo Deus! — Elizabeth murmurou, perplexa. — E eu que pensava conhecer sua tia. — Não estou surpreso — disse James, tomado por uma forte emoção. — Sempre soube que ela era capaz de derrubar o trono da Inglaterra, se por ventura quisesse. — E então? — Elizabeth perguntou, com os olhos radiantes. — Então o quê? — Vamos aproveitar a licença de casamento? — Não sei. Vai depender do que fizermos esta noite, naquela cama. — Neste caso, estamos acertados. Depois de amanhã? — Por que não amanhã? — ele indagou, surpreso. — Porque tenho que dar um jeito nessas unhas... — ela respondeu, sorrindo, enquanto tomava-lhe a mão, por sobre a mesa.

EPÍLOGO

O marquês de Riverdale, conhecido entre seus pares simplesmente como Riverdale, estava na varanda de seu castelo observando os campos que, agora, vez por outra, administrava pessoalmente. Da sala, lady Elizabeth o chamou para mostrar-lhe um livro de capa vermelha, que ele logo reconheceu, com um sorriso. — Onde achou isso? — Entre seus guardados. Sabe, James, estive pensando que, de alguma forma, este livro poderia ser útil a algumas jovens solitárias que vivem longe dos centros urbanos. — Você só pode estar brincando. — Não... É sério. Se reescrevêssemos o livro, adaptando seus artigos e regras a uma realidade palpável, acrescentando uma visão masculina, além da feminina, creio que faríamos um bom trabalho. 160


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— Faríamos? — Sim, estou incluindo você no projeto. — Mas, Elizabeth... — ele se queixou —, onde acharíamos tempo para tanto? — Pelos próximos seis meses, eu terei todo o tempo do mundo — ela respondeu, sorrindo misteriosamente. — Como? Não estou entendendo. Pondo-se em pé, e de perfil, ela forçou o ventre para a frente e olhou para James, por cima do ombro. — Entendeu, agora? — Ora, eu... Não me diga que você?... — Não me culpe — ela murmurou, com ternura — ou terei que lembrá-lo de que são necessários dois, para se chegar a esse resultado. Emocionado, ele aproximou-se. E, ajoelhando-se no tapete, encostou a cabeça no ventre da esposa. — Como não percebi isso, antes? — Como diz lady Danbury... Os homens são quase sempre cegos a certas realidades. — Tia Agatha... — E, em geral... bastante estúpidos — Elizabeth concluiu, rindo francamente do embaraço de seu marido. — Nem tanto — ele disse, erguendo-a nos braços. — Não pense que não vou aproveitar o tempo que me resta, antes que... — Antes do quê? — ela o interrompeu. — Antes que você fique parecendo um barril e me expulse do seu leito. — Não conte com isso, meu caro marquês de Riverdale. Estive lendo uns livros que dizem ser possível prolongar a vida sexual na gravidez, sem nenhum risco. — Outro livro? — James sorriu. — Mas a idéia me parece bastante interessante. — E levou-a para o quarto.

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