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HISTÓRIAS DO VIVER

JANDIR JOÃO ZANOTELLI

PELOTAS 2006

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© 2006 Jandir João Zanotelli Direitos reservados ao autor Rua Jaguarão, 643 – Laranjal – Pelotas - RS E-mail: jjzanotelli@ig.com.br Fone53) 32262662

Zanotelli, Jandir João Contos / Histórias do Viver. / Jandir João Zanotelli. – Pelotas: 2006

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APRESENTAÇÃO

Sensibilidade à flor da pele. Espontâneo. Sentimental. Saboroso e natural como pitangas colhidas no pé - foi exatamente assim que senti "Histórias do Viver". AQUI, A PALAVRA RESSOA E REFULGE... e o leitor se enternece; comove-se! De um jeito simples - até maroto algumas vezes JANDIR ZANOTELLI estréia oficialmente no mundo da literatura. Conhecia versos feitos por ele... poemas bonitos, bem trabalhados, envolventes sempre. Agora tive a alegria de ler (quase em primeira mão) seus escritos em prosa . Não me cabe nenhuma análise acadêmica ou erudita. Sou apenas alguém que tem por hábito, prazer e profissão, LER. E exatamente por isso me sinto lisonjeada

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quando este exímio contador de histórias me convida para apresentar seu trabalho... Quanta honra! Compreendo que o escritor quis um leitor comum, mas um ávido leitor, e por isso não me furtei à nobre tarefa. A palavra. A escrita. Olhos direcionados para a leitura... e exatamente neste momento, acionam-se os intrincados mecanismos mentais: a leitura utiliza a percepção visual, a função optocinética; a apreensão de formas; a organização espacial e a significação simbólica dos elementos da linguagem escrita. Irremediavelmente envolvida pela teia da prosa de JANDIR ZANOTELLI - eis o sentimento que me assomou; pronta para ser absorvida pelo texto do escritor que se encanta com a vida e dela participa com naturalidade, sem dramatizar (aliás, manifestação muito própria de quem tem sabedoria!...) Contos? Crônicas? São histórias. Histórias do dia-a-dia. Das pessoas, dos fatos, dos sentimentos. São homenagens. Às vezes, documentários de uma vida de estesia, de contemplação, de indagações. São meditações, confissões,

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exortações. Observações da realidade, seja esta amarga ou cheia de doçuras. Em Histórias do Viver há lembranças evocadas; há encontros; há o amor apetecido.... comprovações, enfim, de que o Homem é predominantemente emocional! Leitor: A palavra é forte! Ela "exorciza os fantasmas; sagra os reis; efetiva os relacionamentos." A palavra tem"mel e ferrão". Mas não me pairam dúvidas de que vais te encontrar com narrativas impregnadas de emoção, de estro descritivo com forma e fundo vazados e fixados em sentimentos profundamente humanos. Muito afeto. Amor como cachoeira! Vais perceber momentos em que o texto soluça, opostamente a outros em que a alegria transborda de palavras benfazejas que embalam a alma, o coração, todo o teu ser! Vais te sentir ora protagonista, ora coadjuvante em meio a estas histórias que mesclam o tradicional com o moderno, o convencional com o contemporâneo. Mas uma

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coisa é certa: estarás nas entrelinhas, na face oculta de cada palavra que teus olhos sorverão.Tudo isso porque a experiência do autor funde-se com a expectativa do leitor! " Histórias

do

Viver"

chega

para

nos

dizer:"Como é bom ter um livro como este diante dos olhos!" E

o

mundo

enriquecido, aplaudirá

a

literário, criatividade

neste

momento

de

JANDIR

ZANOTELLI. Lígia Antunes Leivas

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NOTA DO AUTOR Estas são histórias vividas. Tem o sabor do contexto familiar. De meu pai Leonel que as contava aos filhos e netos com o sabor quente e fumegante do que os ouvidos, as mãos, os olhos, a pele tocaram. Três são os espaços imaginários, assim como três momentos do viver: Um deles é Jacarezinho, município de Encantado, no vale do rio Taquari, região de imigração italiana (1882) derivada das primeiras levas localizadas em Garibaldi, Bento Gonçalves e Caxias do Sul (1875). A vida diária daqueles pequenos e orgulhosos agricultores com suas memórias e temores transparece nos contos colhidos de Leonel e Ana. O segundo é Bentevi, um pequeno lugarejo de uma dúzia de casas, no interior do então município de Erechim, à beira do rio Uruguai, onde hoje está a barragem do Ita. Espaço de um terceiro momento da imigração no Rio Grande do Sul a partir de 1928, realizada por filhos e netos dos imigrantes de Garibaldi e Encantado. As histórias de Bentevi trazem a marca do imaginário infantil dos filhos de Ana e Leonel. Um terceiro momento

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acontece ao redor da lareira, nas rodas de chimarrão e na experiência familiar nossa e de nossos filhos na região sul do RS (1970 em diante). Misto de realidade, memória e imaginação, porque o caminho para a realidade é a imaginação e a poesia, como diziam os tlamatinimes astecas. Histórias, contos, cismares para que a relembrança fecunde identidades e esperanças de filhos, netos, amigos, de cada leitor. Não têm pretensão de obra acabada. Apenas liberdade, singela liberdade de contar a vida, com seus sustos, suas surpresas, encantos, relações. Têm o olho benévolo, a companhia do ler e reler, de Ruth que, há quarenta anos sabe de nossos passos, de nossos filhos, de nosso amor: A Ruth com carinho.

Pelotas, julho de 2006. Jandir João Zanotelli.

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ÍNDICE

1.Saudades do Bentevi.......................................................11 2.Zita..................................................................................15 3. Uruguai – ponto de balsa..... ..........................................21 4. A Volta do Uvá..............................................................29 5. O lagarto e a melancia....................................................41 6. Carrinhos de lomba........................................................46 7. O negro Pedro................................................................51 8. O baile do velho Simão..................................................61 9.A estátua..........................................................................71 10. O moinho do Bortolotto...............................................78 11. Missões na Barra do Rio Azul......................................85 12. A seca...........................................................................94 13. O temporal....................................................................98 14. Pescaria na Barra do Paloma......................................104 15. Chocolate....................................................................117 16. A mudança..................................................................123 17. O porco é a salvação da lavoura.................................126 18. Cancha reta.................................................................132 19. Eu vi Deus..................................................................136 20. Quadra e meia em cancha reta....................................140 21. Verdades de Pescador.................................................146

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22. O amor vem depois....................................................154 23. O despertar de Ana.....................................................166 24. Boitatá........................................................................179 25. Torresmo....................................................................185 26. Guerra........................................................................189 27. A ferro frio.................................................................193 28. Revolução de 23.........................................................198 29. Traíra..........................................................................206 30. Bem-querer.................................................................210 31. O diabo no baile.........................................................219 32. O moinho de Giácomo...............................................224 33. Imaculada Conceição.................................................230 34. O discurso de Ana......................................................236 35. O sanguanel................................................................243 36. Fecundidade...............................................................253 37. Ana – Comeu tudo.-...................................................260 38. Quero Ver...................................................................262 39. Ana Catarina...............................................................264 40. Daniel.........................................................................268 41. Lica............................................................................273 42. Vinícius......................................................................279 43. A avó de Aninha.........................................................282 44. Luciana.......................................................................284 45. Domingo na casa do vô..............................................285

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SAUDADES DE BENTEVI Cronos, o tempo, devora todas as coisas. Só as pedras lhe são indigestas. E enquanto ele rói as pedras o divino, o eterno, o definitivo lhe escapa. 1 Assim, por sobre as pedras, pairando sobre o arroio, sobre os restos da cacimba, do tanque de lavar roupas e lavar os pés ao fim da tarde, por sobre as uveiras japonesas enfileiradas ao longo da estrada que, morro acima, conduzia à roça nova, assim o amor, a juventude das relações cordiais ainda permaneciam com a novidade de sempre. Lá, ainda a palmeira ao final do amplo e fofo gramado, com suas asas balançando ao vento tépido que vem do Uruguai, asas que ainda seguram meninos e meninas afoitamente girando no ar. E o tombo. E a risada. Congraçamento.

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Assim conta o mito grego: Zeus, o imortal deus grego, escapou dos dentes do tempo, Cronos, (o tempo não atinge Zeus, ele não morre) porque sua mãe Gea, ao invés de entregar o filho que nascia ao tempo que tudo devorava, deu a Cronos uma pedra

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Gino, devagarinho, parou a camioneta em meio à estrada pedregosa, em frente onde era a casa ampla, de madeira, coberta de zinco para a saudade do chiado da chuva em manhãs de preguiça, porão alto, garagem de caminhão e refúgio barulhento de cabritos com seus berros e requebros atrás das cabras permanentemente em cio. Abriu a porta. Mas não desceu. Ficou, olhos amplos, ouvido aberto, narinas sôfregas, bebendo o ambiente de infância. A memória ressuscitava cenas de brinquedos, de lutas infantis, de trabalho sofrido de bois que não aceitavam tanto peso na corroça, da egüinha baia que não perdia carreira nos domingos à tarde nos poucos metros de estrada reta enfrente à casa de Filbert, ao som das cachoeiras do rio Uruguai. Estava vívida a pescaria de jundiás, caçados debaixo das pedras do arroio Encantado, logo após o almoço e com a veemente proibição dos pais. As aventuras com cavalos, com cobras corais manuseadas como se fossem minhocas, e dos companheiros de escola em grupos rivais, mas todos unidos contra as meninas delatoras...

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Saudades da professora Zita, bela, esbelta, suave nos gestos e firme nas atitudes, modelo para as meninas e inspiração para os meninos quase adolescentes. Ilva e Classi procuram à beira da estrada alguma fruta daquele tempo. E vêm vitoriosas com quatro pequenos e amarelos araticuns que recendem cheiros de vinculações eternas da felicidade infantil. “Não o comerei. Levarei para casa para que minha esposa sinta como era bela, como era saborosa a minha infância”, pensei. E Castilo insistindo que “aqui estava a cancha de bochas”, logo ali a pinguela sobre o arroio, ali a ferraria do Cauduro. Ali as casas enfileiradas dos Hendges com os amigos Gilberto e Jaime, - o primeiro hoje prefeito de Aratiba -, com a casa do padrinho cujo filho também é Castilo. E do vale da Esperança, e do vale do Encantado endereçando-se ao Paloma e ao Uruguai, surgem vivas e em torvelinho as tristezas, as alegrias, as esperanças, os rostos e corações de encontros que salvam a vida adubada pelos destroços que o tempo deixou. Reencontrar tios, de tanto tempo, com os rostos sulcados de canais que as lágrimas criaram: lágrimas de

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dor, lágrimas de rir, lágrimas de surpresa, lágrimas de saudade, lágrimas quentes, salgadas, temperadas como a vida, sempre lágrima, lágrimas... E estes rostos, estas mãos, curtidos de verdades, de sabedorias, de trabalhos abraçam fortemente a gente como se fosse a primeira vez de um encontro feliz. E tio Emílio com um grande abraço e um olhar profundo, que olha para além das cordilheiras e das brumas do Uruguai, despediu-se. Uma semana depois viajou... Certamente com saudades da Barra do Rio Azul, do Paloma e do Uruguai. E o tio Ângelo com seu gado branco povoando as margens da Barragem do Itá, imaginando, lá do alto, sua casa e suas terras que ficaram submersas, percebe que a vida exige vôos sempre mais altos, para além do ter e do juntar, à procura de corações e de ouvidos companheiros. E tia Inês, com seus numerosos e generosos filhos que param, se juntam, e recebem com intimidade primos, amigos que, de há muito, são tão próximos como o amor que gera saudades. Tudo tão singelo e tão completo como a verdade e a paz.

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ZITA Zita era loira. Vinte e cinco anos. Olhos azuis. Azuis como os confins da serra quando toca o céu. Alta, esbelta, bem feita. Cabelos soltos levemente ondulados, em cachos sobre os ombros, um misto de ouro, sol e mel. Vestidos alegres, sempre claros, coloridos de vermelho e azul balançando ao vento a cada passo num farfalhar sedoso como o ciciar suave no trigo maduro. Ah! Aquele vento era muito impertinente! E o olhar dela, senhoril, sobranceiro, fazia do vento um cachorrinho obediente ao gesto de seu passo e de sua mão. Passos amplos, nem tão largos como a banalidade, nem tão curtos como infantilidade. Firmes, seguros, confiáveis, confiantes. Ancas esculturais sustentando a beleza de nossa esperança. Promessa e garantia de um futuro que se abria sobre a pobreza de nossas vidas, sobre

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os limites de nosso olhar. A presença corporal dela emoldurava nossa escolinha de Bentevi com um halo de companhia inefável que nos convocava a todos a aprender e estudar. Zita era nossa professora. Pele sedosa e macia como pêssego maduro. Lábios delgados e sem baton, sempre entreabertos num prenúncio de sorriso, deixavam à mostra dentes alvíssimos, parelhos, bem cuidados. Unhas limpíssimas e bem aparadas. Sem pinturas, sem realces, sem meneios, Zita era em pessoa um chamado ao asseio e à simplicidade de ser. Recendia um cheirinho quase imperceptível de limpeza e de sabonete Gessy. A casa dela, em meio às casas dos colonos, era também de madeira, coberta de telhas vermelhas de barro, bem alevantada do chão, com um porão para guardar ferramentas, queijos, salames... Bem cuidada, pintada de branco no meio do potreiro verde da colina além do riacho Esperança, tinha janelas envidraçadas, largas sobre a vizinhança e o arroio. O patamar no topo da escada era um jardim permanentemente florido, um convite prazeroso a chegar.

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As duas filhas, Joanita com três aninhos e Elizabeth com cinco, pareciam duas bonecas em seus vestidinhos coloridos e sapatinhos brancos. Como não se sujavam? Não sei. E brincavam, cantavam e corriam como as outras crianças. Choravam só quando se machucavam. Acho que a mãe trocava a roupa delas duas vezes por dia. Éramos quatro séries, na mesma sala, no mesmo turno da escolinha municipal Tiradentes, cerca de trinta crianças, cada uma com suas histórias, dificuldades e necessidades. Zita atendia a todas ao mesmo tempo, dando e tomando as lições de cada um e ocupando nosso tempo com uma eficiência pedagógica extraordinária. Onde teria aprendido a trabalhar assim? Ela mesma só tinha a quinta série... Na primeira série todos se alfabetizavam. Na segunda aprendíamos a tabuada, as operações matemáticas fundamentais, noções de geografia e a copiar e escrever ditados... Na terceira e quarta líamos a Seleta em Prosa e Verso do Clemente Pinto, com seus Dervixe Astucioso, A Família Reunida, O Filho Pródigo etc. etc. e compúnhamos pequenos textos e cartas, além de aprofundar história, geografia e cálculos necessários para a vida de um colono: preços, juros, medição de terra, cubagem...

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A segurança no gesto e na voz garantiam a ordem, dispensando o uso da vara que, como regra geral do município, sempre deveria estar à vista ao lado do quadro negro. Uma vez, apenas, ela tentou utilizar esse último recurso para resolver o clima de briga generalizada que havíamos criado no recreio. Dois grupos rivais nos engalfinháramos a pretexto de provocações levianas sobre nossas irmãs. Zita pôs os meninos em fila, no corredor que separava as estantes da esquerda (das meninas) e direita (dos meninos) para dar uma varada em cada um: - pode ser que assim vocês se lembrem de ser gente e não apenas animais. Eu era o primeiro. Quando a professora ergueu a vara agachei-me de súbito fazendo com que a vara batesse sobre a estante. A vara esfarelou-se porque estava seca de tanto tempo sem uso. Uma risada geral. Ela mesma não conseguiu evitar o riso. E nos mandou ficar de pé, em silêncio, atrás do quadro negro, por meia hora. E depois deu às nossas irmãs um bilhetinho para entregar aos pais. O bilhete nunca chegou: negociações no caminho...

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Zita conseguia o milagre de reunir beleza, delicadeza, bondade, firmeza e criatividade. Naquela escolinha do interior, pertinho do rio Uruguai, conseguíamos fazer teatro (lembro do Moinho Remoçante), aprender a cantar todos os hinos: o nacional, o da bandeira, o da independência.... A fazer festa no dia de Tiradentes, no dia sete de setembro (com paus de sebo, marchas, danças, brincadeiras) com a presença feliz de todos os pais... Aprendíamos

catequese, civilidade,

cidadania e a ler, escrever e contar. Os examinadores municipais que vinham de Erechim para as provas do final do ano, elogiavam muito a escola Tiradentes e a eficiência de sua professora. Nosso peito inchava de orgulho. Nosso respeito e admiração por Zita crescia e fazia-nos crescer. Zita era a mulher com quem cada menino gostaria de casar, que cada menina quereria imitar e com quem todos gostávamos muito de estar. Pena que Zita casou com Bernardo! Era o contraste. Embora eficiente no trabalho de carpinteiro e tivesse bom gosto em fazer móveis, aparecia-nos como rude, tosco, “grosso” como dizíamos. Silencioso, quase taciturno, de

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pouca conversa e poucas relações era, porém, cumpridor de sua palavra, honesto em seus negócios e uma rocha a amparar a mulher e as filhas. Elas eram a festa de sua vida. Cinqüenta e cinco anos depois. Noite de chuva. Castilo, sobrinho de Zita telefona de Londrina. Na lufada de saudade e alegria que ele suscitou, lembrava-se do Bentevi, de nossas traquinagens de infância: - Você sabe que Zita ainda vive. Mora em Xapecó com uma filha. - Tens o telefone dela?, indaguei logo. E falei. Recuperei raízes de esperança e bem-querer. E, lá do fundo da infância, saltaram meninos, meninas, saudades..., saudades e a Zita professora...

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URUGUAI – PONTO DE BALSA

Os Vioti definitivamente acamparam lá em casa. Eram dois irmãos de Seara, Santa Catarina, a uns vinte quilômetros além do Uruguai, além das densas matas das infindas terras do velho Simão. Deixaram a família para transportar madeira até a beira do rio. Hospedavam-se no quarto grande do porão de nossa casa. Cada um em seu caminhão Ford 47 com longo reboque dependurado à carroceria, traziam dos pinhais da Esperança 3, 4, e até 5 grossos toros em cada viagem. Cinco metros e oitenta de comprimento por oitenta centímetros, ou mais, de diâmetro. Três viagens por dia desde a madrugada, até adentrada noite. À noite, avisavam de longe desde quando desciam o cerro dos Berticelli, lá no outro lado do vale Esperança, com seus faróis e uma sirene ligada ao cano de descarga para diversão de crianças e

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velhos que acompanhavam das janelas aquele barulho e aquele trabalho desbravador. Quando a estrada, estreita, pedrenta e empoeirada, enfrentava o Uruguai dobrando em cotovelo para o Itá, lá do alto, os toros rolavam pelo Tombador, ladeira abaixo, amontoando-se próximos à água do remanso enfrente ao velho Simão. E os irmãos Vioti voltavam cansados, esfolados pelo trabalho e pela saudade de casa. Jantavam com prazer a sopa de feijão que mamãe preparava, e aipins, e arroz e carnes de galinha e peixe e saladas e pimentões e um copo de vinho. Depois um papo solto sobre negócios, sobre os perigos do quase tombamento do caminhão, do atoleiro, do peneu que estourou, da ponta de eixo que quebrou, do pouco tempo para trazer os pinheiros para as balsas de setembro. E da mulher e dos filhos pequenos que esperavam semanas e semanas sem que eles pudessem retornar para um abraço.

Mamãe sempre destacava a

beleza de se ter uma família.

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Na verdade, Germano, o dono da madeira, pretendia levar suas balsas para São Borja e São Tomé tão logo as chuvas de setembro elevassem o rio ao ponto de balsa. As chuvas vinham. Sempre vinham. Ou para o dia 12 ou para o dia 29, festa de São Miguel, padroeiro da capela de Bentevi. Elas não esperam. Quem se atrasa perde um ano com o risco de os toros estragarem. Nós crianças olhávamos para aqueles heróis, que, como papai, eram peritos em domar seus caminhões, enfrentar os perigos e ligar nosso mundo doméstico ao mais longínquo rio-abaixo, para além do Salto Grande em direção a São Tomé da Argentina. O mês de agosto, com alguns frios ainda, com o Uruguai enchendo suas margens de intensa serração até as 10 horas da manhã, os amarradores das balsas já iniciavam sua labuta: amarrar os toros, com cipós e alguma soga de cizal, em filas paralelas de 50 e depois juntar as filas uma atrás da outra em balsas de até 12 ou 15 filas. Assim, aquele comboio de toras, guiado por um remo à frente e outro atrás seria conduzido por 3 ou 5 homens no lombo chucro, nervoso e atrevido do Rio

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Uruguai, vencendo os saltos alisados pela enchente, cuidando das curvas e peraus, que eles tão bem conheciam, sem parar, 5 dias e 5 noites, até o seu destino. Por mais escura que fosse a noite Simão conhecia os acidentes do rio apenas pelo ouvido. O Uruguai era um livro que ele decifrava palmo a palmo. Na fila do meio, uma pequena barraca desbotada de lona, acobertava os víveres e alguma roupa para depois da chuva fria. A faina de caminhões rolando toras Tombador abaixo, de juntas de bois acomodando-as à beira d´água, de homens seminus a gritarem, a puxarem, a juntarem, a amarrarem pinheiros e a enchente que logo viria muito embora ainda não estivesse chovendo, povoava a imaginação de todos com esperanças de sucesso, de dinheiro que, certamente a cada ano deveria ser melhor. Não cabia na imaginação a extinção dos pinheirais, muito embora os exemplos de Erechim, Passo Fundo, Carazinho e tantos outros lugares o demonstrassem. Certa manhã, 6ª feira, por volta de 8 de setembro o velho Simão foi até nossa casa que também era uma casa de pequeno “comércio de secos e molhados” daquele interior,

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para pedir a papai se poderia guarnecer as 3 balsas que zarpariam na quarta feira seguinte entre o meio dia e as seis da tarde. Papai respondeu que sim e que deixaria o mantimento no Tombador após o meio dia. Papai, incrédulo, comentou com mamãe o absurdo daquele pedido, mas vindo do velho Simão não poderia deixar de atender. O rio estava abaixo do nível normal. Era necessário que ele enchesse 7 metros acima do nível normal para que ocorresse o ponto de balsa. Nem mais e nem menos. Se fosse menos de 7 metros de água o Salto Grande os destroçaria em redemoinhos infernais. Se fosse mais do que a marca dos 7 metros o Uruguai não venceria a Volta do rio Uvá e provocaria redemoinhos ainda piores. Era preciso o ponto certo, o ponto de balsa. E não estava chovendo nem havia sinal que deveria chover. Mas, por via das dúvidas, Leonel providenciou tudo: carne fresca, carne charqueada, arroz, feijão, pão, farinhas, temperos, sal, açúcar, café etc... Os corotes2 de cachaça viriam do alambique do próprio Simão. E aguardou. Sábado e domingo não choveu. 2

Corote: pequeno barril de 15 litros.

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A Segunda Feira amanheceu num toró contínuo. Quarta feira ao meio dia o Uruguai estava em ponto de balsa. Abaixo de chuva, tudo bem protegido por lonas, lá estava meu pai, no Tombador entregando o pedido. Às 4 da tarde as balsas do velho Simão zarparam soltando foguetes de festa e aventura. Depois das balsas, quando o rio chegasse a 9 ou 10 metros acima do nível normal era a grande enchente. As águas vinham roncando, rolando troncos de árvores arrancados das margens, trazendo restos de casas de madeira e móveis, mesas, armários, e um berço de criança vazio..., vazio,... que andava sobre as águas como uma pequena barca.

Tudo, aquele rio do improviso,

manso e violento, tudo ele ribeirinhos

descuidados

do

extorquia daqueles pobres poder

do

Uruguai

ou

empurrados pela pobreza às margens mais planas. E ai de quem se atrevesse a interferir na sanha devoradora do rio. Há 5 anos, dois dos mais experientes balseiros e nadadores foram tragados e desapareceram para nunca mais quando tentavam salvar alguns móveis da correnteza. E, com o susto ante o indomável, vinha sempre uma prece para que

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os balseiros não fossem alcançados pela enchente maior que os seguia e perseguia para acima e para além do ponto de balsa. Doze dias depois, lá estava de volta o velho Simão para acertar as contas com meu pai. Pagou. Um sorriso largo no rosto. Olhos brilhantes naquela pele curtida pelo sol. Chapéu novo de feltro. Botas novas da Argentina e uma lanterna potente, de três pilhas que perfuravam até a serração do Uruguai por mais de 100 metros no escuro. Tomaram um trago de cachaça boa com Bitter Águia, como bons e velhos amigos. E então veio a pergunta entalada na garganta de meu pai: - tudo muito bom, tudo certo, mas me explique: como o senhor sabia que o Uruguai estaria em ponto de balsa na quarta feira à tarde se o rio estava seco? - É muito simples, seu Leonel. Faz mais de vinte anos que eu corro balsas neste rio. E moro na barranca há mais de 40 anos. Conheço suas curvas, suas manhas, seus segredos mais do que me conheço a mim mesmo. E o sinal da enchente é este: quando, de manhãzinha, um fiapo de serração percorre o rio água acima e não mais alto do que

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10 metros é sinal certo de enchente na semana vindoura. Cinco ou seis dias, depende da altura da serração em relação à água. Naquela Sexta Feira em que eu vim aqui, a serração subiu o rio a oito metros de altura. A surpresa de meu pai converteu-se numa sonora risada e no convite para mais um trago com Bitter por conta da casa. Lembro de um ponto de balsa no dia 29 de setembro às 11, 30 da manhã e no ano seguinte às 12 horas do mesmo dia 29. Sempre o mesmo reboliço, sempre as surpresas das coincidências, sempre as promessas se a viagem fosse exitosa, sempre os olhares de festa e de ansiedade com aqueles amigos que se aventuravam a enfrentar o rio Uruguai. Hoje, o Tombador, o remanso do rio, a casa de zinco do velho Simão em meio à densa mata de frutas e de canelas, angicos, grápias, pinheiros, güajuviras...povoada de pássaros, macacos, quatis e até onças, tudo foi sepultado pela água da Barragem da Hidrelétrica do Itá. Bem no fundo dessas águas, lá onde continuam morando os surubis, os dourados, as piavas e grumatãs, estão plantadas e silentes

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as saudades do velho rio, do simples rio Uruguai com seu ponto de balsa.

A VOLTA DO UVÁ

Segunda feira, ao clarear do dia, quando abri a porta para tirar o leite da vaca Boneca, vi o negro Pitanga passar, em sua egüinha tordilha, com a cabeça toda envolta em panos em direção à sede distrital – Aratiba. Papai, que ajoujava os bois para atrelá-los à carroça comentou: - isto foi briga nas carreiras do Bastião Foz, na barranca do rio. Atirei para perto do cancela da mangueira um bom feixe de ramas de batata doce e a Boneca veio fagueira com seu ubre túrgido de leite. Esta vaca holandesa, era mansa a tal ponto que jamais era amarrada para ser ordenhada. Enquanto ela saboreava com ar calmo, plácido, pacífico, quase maternal aquelas ramas, eu me apressava para retirar de suas tetas bem lavadas e acariciadas, com as duas mãos e o balde no meio das pernas, sentado numa pedra qualquer,

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dez canecas grandes de leite. Mais de meia lata de querosene3. Ao contrário da Brasina, a vaquinha gersey impertinente e irrequieta que só permitia ser ordenhada na cocheira, amarrada, inclusive com o rabo preso a uma perna e que só dava 4 ou 5 litros de leite, mais gordo é verdade, a Boneca era a bondade e a mansidão em pessoa. Sempre penso na Boneca quando descubro que os hindus reverenciam a vaca como símbolo de Deus, pois passa a vida inteira, generosamente a alimentar os outros. Mamãe ajudava Gino e Irma a juntar, na mochila improvisada, o livro, o caderno, o lápis e uma batata doce assada no forno de barro depois de retirado o pão. Para a merenda ou para nossas trocas comerciais de merendas na hora do recreio. As trocas obviamente sempre aconteciam ainda em aula, disfarçadamente, por debaixo dos bancos: batata por rapadura, por bananas, por caquis e até por duas fatias de pão recheadas de banha com açúcar que os poloneses ou alemães traziam. E retornávamos da escola, meninos e meninas que moravam na costa do rio Uruguai, aos bandos, por entre

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Uma lata de querosene é de 20 litros.

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empurrões, provocações, desafios e alguma briga, tão freqüente como os dias da semana. À meia tarde, mamãe me incumbiu de levar à velha Dalbert a máquina manual de costura que lhe havia pedido emprestado. Os Dalbert moravam bem no alto da volta do Uvá. O Uruguai circunda uma plataforma de montanha alongada de mais de 5 quilômetros indo por um lado e voltando pelo outro. Do alto avista-se duas vezes o mesmo rio em todo o percurso que vai do Tombador até a casa dos Dalbert. Na ponta, quando o rio faz uma curva de 360 graus, fica a barra do rio Uvá. Na enchente, o encontro das águas do Uvá com as do Uruguai provoca, em pororocas, torvelinhos que tudo absorvem e destroem. Nas fraldas do morro, desde a barranca, sobem as roças dos moradores com suas casas de madeira, cobertas de zinco ou de tabuinhas de pinho. Pobres, aventureiros imigrantes que vieram das terras velhas do Rio Grande do Sul (Caxias, Garibaldi, Encantado, Guaporé...) para as novas colônias abertas desde Erechim na década de 20 do século passado. Alguns fugitivos da polícia. Quase impossível localizá-los

na

imensidão

daquelas

matas.

Outros,

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frustrados ou falidos de negócios ou de família, buscaram apossar-se de terras que eram de ninguém. Por fim vieram filhos e netos dos imigrantes europeus,

comprando

uma

colônia

de

empresas

colonizadoras. Na história da origem de muitos ficava, nos esvãos do silêncio, o mistério da desgraça ou da esperança que os alimentava. Intrigava-me

sempre

a

história

de

Bastião.

Agricultor bem instalado em sua colônia4, nas cercanias da cidade de Santa Cruz do Sul, era viciado em jogo de corridas de cavalo. De posse de um excelente cavalo, tendo como certa a vitória, apostou todos os bens inclusive as terras nas patas do animal. Foi traído pelo jockey e pelo juiz. No desespero e na vergonha fugiu naquela noite. Deixou a esposa com um casal de filhos de 2 e 4 anos e sumiu sem nada dizer. Acompanhou-o nesta diáspora desumana a cunhada solteira.

4

Colônia era na verdade uma fração de terra destinada a uma família na época da Imigração européia para o Rio Grande do Sul: até 1850 eram cerca de 70 hectares, depois a colônia contava entre 25 e 30 hectares.

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A

cavalo

romperam

os

quase

quatrocentos

quilômetros e, ao chegar à Volta do Uvá, imensidão de mata cerrada, atravessaram o rio Uruguai e arrancharam por lá. Vivendo de caça e pesca abundantes, de uma pequena plantação de milho, feijão e recolhendo bananas nativas foram criando seus 6 filhos na clandestinidade. Ninguém sabia de sua história. Até que um dia, 30 anos passados, um senhor, bem apessoado, alto, forte, cabelos loiros e olhos azuis, apareceu lá em casa perguntando se não conhecíamos um tal de Sebastião Vosler. O delegado de política de Aratiba indicara papai como quem poderia com segurança dar alguma informação. Meu pai arrepiou. E antes de arredondar a suspeita perguntou: de que se trata? Algum caso de polícia? - Não! respondeu Alfredo. Estou à procura de meu pai que sumiu do Alto Taquari há trinta anos. Imaginei que pudesse estar por estes lados. Papai estendeu-lhe um chimarrão, olhou-o com curiosidade infinita e repetiu em voz alta: - Sebastião Vosler?

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E pensou: não será o amigo Bastião Foz? Conduziu-o a cavalo até a barranca do rio e disse: grita por um caíco que ele vem te buscar. - Sem me conhecer? - Não é preciso. Aqui se vive da confiança. Papai aguardou um pouco. Imediatamente um rapaz loiro mas de pele crestada pelo sol do Uruguai, ágil no remo, atravessava o rio. Papai soube depois por Bastião, chorando como criança, que Alfredo se apresentou como fiscal de terras, assustando a todos porque aquelas terras eram de posse e sem título nenhum. Aos poucos, foi perguntando por sua vida pregressa, de onde viera, por que viera e se não deixara parentes para trás... Depois de duas horas de silêncios e interrogações indagou: não vê nenhum traço de semelhança entre mim e o senhor? Foi então que os olhos de Bastião se abriram. Abriram-se, abriram-se... e se taparam de água: - Alfredo? E choraram abraçados. Sem falar. Longos minutos... E dos olhos de todos explodiram cascatas de chuva, como depois da tempestade.

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No dia seguinte, papai e todos os vizinhos da redondeza lá estavam para o grande churrasco. ----------------------------------------------------Mas nem todos eram Bastião ou seus filhos bem educados

e

respeitosos.

Alguns

eram

arredios,

desconfiados, não necessitando de muito assunto para armar uma briga. Muitos ostentavam, como troféus, cicatrizes de cortes de faca, facões, e de balas. Sempre acrescentando que “o estrago no outro foi muito maior”. No meio da lombada daquele platô em forma de península, corria a estrada geral, que de geral só tinha o nome, pois era uma estradinha estreita onde mal passava uma carroça de bois ou um Jeep, ladeada de enormes árvores cuja sombra escurecia o caminho quando ainda o sol nem se tinha posto. Mamãe recomendara que não tardasse distraído em brinquedos com os filhos da velhinha Dalbert que era mais velha porque pequena e magra do que por idade. - Aquelas estradas e aquelas matas são muito perigosas. Mas os carrinhos de lomba foram mais tentadores.

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Quando me apercebi as sombras já avançavam e recobriam o Uruguai à direita. Era quase noite. Era preciso voltar de pressa. A egüinha baia parecia adivinhar. Em seu lombo, em pêlo, apenas com meu velho peleguinho, num pulo estaria em casa. A baia era dócil de boca. Bastava inclinar as rédeas para um lado e ela obedecia. Para freá-la era só um toque e ela sentava nas patas de traz. Ligeira de marcha, nunca troteava. Seu balanço suave como dança de valsa era a delícia das mulheres. Mas também era rápida no galope. Um grito convidativo de brrrr... e ela desandava em disparada. Em cancha reta de quadra e meia dificilmente um cavalo corredor daquelas plagas ganhava dela. Em tirão mais longo já não tinha o mesmo sucesso porque era relativamente baixa e seus pulos, embora rápidos, não eram tão longos como o dos cavalos mais altos. Dócil e mansa para se deixar prender, encilhar e montar. Era chamá-la e ela vinha correndo, à espera, obviamente, do prêmio de uma espiga de milho. Subi rapidamente o caminho tortuoso e pedrento que ligava a casa dos Dalbert à estrada geral. Depois de

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uma pequena roça de mandioca e milho a estrada afundava de vez na mata escura. Sempre em marcha solta, as rédeas levemente esticadas na mão esquerda, ia atento a qualquer sinal. Atento especialmente às orelhas da baia que, diante de qualquer perigo, sempre se empinavam. Não havia percorrido 100 metros de mata e ouço vozes. Gente conversando em voz baixa, quase em surdina alguns passos adiante. Estaquei. Naquela estrada, uma semana antes, dois mulatos esperaram um desafeto e o “desgalharam” a facão como se comentou na venda lá em casa. Cortaram-lhe uma orelha, quase lhe deceparam um braço além de marcá-lo com ”taios” pelas pernas, pelas costas... Estes comentários assaltaram-me a mente e o coração. Tive medo. A baia segura no freio, escutei atentamente. Nada se ouvia. Mas eu tinha certeza que eram vozes. E lá, a uns 50 metros talvez, nas duas margens da estrada, duas luzinhas estranhas piscavam. Um piscar longo ora de um lado ora do outro. Não era luz de vagalume que essa eu conhecia muito bem. Animado pelo medo, perguntei em voz alta:

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- quem vem lá? Nenhuma resposta. Silêncio completo. Nem a coruja chiava dos lugares mais recônditos e de improviso só para assustar a gente. Tornei a perguntar ainda mais alto: - quem vem lá? O silêncio foi a resposta. Mas as luzinhas, a um metro

e

meio

do

chão

continuavam

a

piscar

provocadoramente. Outra estrada não havia para retornar à minha casa. Voltar à casa dos Dalbert era vergonha. Afinal eu já tinha quase 10 anos. Que diriam de mim os colegas de escola se me soubessem medroso? Dei de rédeas e voltei para a entrada do mato. Quebrei uma varinha flexível de maria-mole, ajustei bem as rédeas na mão esquerda, apertei os pés na virilha da baia e dei-lhe uma leve chicotada para dizer-lhe que era preciso ter toda a atenção.Ela ergueu a cabeça, empinou as orelhas em atenção máxima e, impacientemente, foi galopando atravessada na estrada, pronta para disparar. Fui entrando pela mata e pensando: se alguém quiser me pegar, não saberia por quê, mas só teria duas

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chances: ou estendendo uma corda cortando a estrada para varrer-me do lombo da montaria, ou atravessando um tronco para que nele a égua topasse e caísse comigo. Juntei as duas hipóteses: da corda escapo deitandome rente ao pescoço da égua; do tronco a baia, alertada pelo toque do freio, deveria dar conta sozinha. Soltei o grito de guerra brrrr...e fulminei em direção ao centro daquelas luzinhas que agora já não piscavam. Passei como um raio, sem ver corda nem tronco. Mas ouvi os palavrões todos de que tinha conhecimento, por parte de quatro colegas de aula que voltavam a pé para casa, dois deles, os das pontas ensaiando fumar um palheiro vagabundo e que queriam me assustar porque haviam reconhecido a minha voz. Como eles conseguiram cair fora, não sei. Como a baia conseguiu desviar deles, sem leva-los de roldão, também não sei. Ao identificá-los no vozerio não falei. Não parei. Só parei em casa suado pelo longo galope e pelo arrepio. No dia seguinte, mal clareava o dia e, ao passarem para a escola o grupo resolveu parar lá em casa e perguntou à minha mãe:

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- Dona Ana, por acaso Jandir saiu ontem à noite, a cavalo? Mamãe,

adivinhando

e

antecipando-se

à

possibilidade de alguma encrenca, disfarçou: - Acho que não. Por que? - Por nada. É que um louco, pensamos que fosse o Jandir, quase nos matou na estrada da Volta do Uvá ontem à noite. Ele não vai à escola? - Vai sim, eles ainda estão tomando o café. Quando partiram, o olhar indagador de mamãe perguntava por explicações dos perigos da Volta do Uvá.

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O LAGARTO E A MELANCIA Fim de março. Calor mormacento nas encostas de Bentevi, próximo ao Uruguai. Outono. Tempo da última capina ao milharal que já está embonecando. O tempo de frutas de verão já se foi. Melancias e melões findaram em fevereiro, logo depois da uva e muito depois dos pêssegos, das pitangas, das cerejas e guavirovas. Laranjas e bergamotas só de maio em diante. Os poucos pés de abacaxis de nossa lavoura amadureceram seus frutos em janeiro. Restavam os caquis, algumas peras d´água, goiabas amarelas que cresciam por toda a parte, araticuns com suas sementes carnudas e doces e as jaboticabas negras, agarradas ao tronco com sumo adocicado no início e amarguinho quando se lhe mastigava a casca. Eu pensava em frutas enquanto arrancava, à mão, os inços que estorvavam o milho especialmente milhãs e carurus no meio das pedras altas do fundo da lavoura, pertinho do mato com seus perigos e seus mistérios.. Os tucanos voavam aos pares de nossa mata para as do Benincá, lá no outro lado do vale. Ao longe a escala

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ascendente do cantar dos inhambus fazia pano de fundo à algazarra de bentevis, sabiás, almas de gato, tico-ticos, papagaios, periquitos, gralhas, canários... E ao longe, lá embaixo no arroio, saracuras anunciavam chuva, enquanto os quero-queros vigiavam seu espaço de poder no potreiro de Berticelli. Apressava-me para terminar a tarefa que meu pai me dera: limpar aquela área das pedras. Trabalhar era um dever e, para mim, era um prazer colaborar com meu pai. Afinal era o mais velho dos, então, oito filhos. Estava suado, com sede. A fonte que brotava fresca entre as pedras da beira do mato distava uns 500 metros. E então a surpresa: à sombra de uma pedra mais alta, escondidinha, estava uma bela melancia. Não chovera muito. Não apodreceu. Fresquinha e apetitosa era uma dádiva dos deuses naquela hora da tarde. De um talho de facão abri-lhe o coração ao meio. E sorvi, devagarinho, pedaço por pedaço, metade dela. A outra metade levaria a papai que trabalhava na outra ponta da lavoura, quase a um quilômetro dali. Vermelha, sementes pretas, quase esfarinhava. Nunca melancia fora tão doce em minha vida.

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Sentado no alto daquela pedra eu contemplava o horizonte e ouvia a música dos pássaros como se fosse um rei. Um ruído entre folhas secas à minha direita despertou-me do encantamento. Um enorme lagarto, papo amarelo, que todos diziam ser muito brabo, vinha do mato em direção à lavoura. A cinco metros de mim, ao ver-me, parou, levantou bem o peito e a cabeça e encarava-me de língua de fora. Ele parado e eu estatelado a olhar para ele. Se ele quisesse, subiria na pedra onde eu estava. Não era mais alta que um metro do chão. Pensei no facão para a minha defesa. Estava longe da minha mão. Fiz um ruído com a boca e um gesto com a mão como para espantá-lo. Mas ele não se moveu. Tomei, então, um pequeno disco da casca da melancia, mirei bem e atirei em direção à sua cabeça. Errei. A casca bateu no chão um pouco antes dele e saltou por sobre ele sem atingí-lo. Imaginava eu que ele fugisse. Enganei-me. Ficou furioso e veio em minha direção. Disparei milharal afora, ladeira abaixo, em ziguezague, porque sabia que os lagartos têm muita dificuldade

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de fazer curvas e, quando parei, quase sem fôlego, sobre o tronco de uma árvore deitada, já não o via mais. Respirei fundo. Escutei. Olhei. Nem sinal dele. Ainda com a doçura da melancia na boca, pensei: não posso deixá-la lá nas pedras. E papai certamente apreciaria um pedaço dela. E o facão também estava lá. Então, pé ante pé, olhos, ouvidos, tato e olfato bem ligados, retornei. Ele já não estava. Mas do alto da minha pedra ainda o vi quando entrava em sua toca: um toro de canela cujo miolo estava podre. Facão em punho, fui chegando perto da tora. Ela tinha um buraco de entrada por um lado e do outro lado uma saída. Lagarto não anda de ré, pensei. A toca é muito estreita para que possa virar-se e retornar pela mesma entrada. E então, com uma pedra que meus 9 anos conseguiam transportar, tapei o buraco de saída. Agora estava a salvo. Poderia retornar ao meu trabalho descansado. Foi então que o menino maroto e vingativo despertou dentro de mim.

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“Darei uma lição neste desgraçado”..., sismei. Juntei palha seca na porta de entrada. Acrescentei uns gravetos e fiz fogo. A fumaça atormentava o lagarto que batia de cabeça, inutilmente, na pedra que tapava a saída. Saboreei aquela vingança, trompada por trompada, até que ele parou de bater. E então, com um bastão longo, empurrei de vagarinho a pedra. O lagarto saiu em disparada louca, sem parar, sem afrontar ninguém, levando consigo o medo que ele me dera.

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CARRINHOS DE LOMBA Domingo à tarde. Depois do terço das dez horas, combináramos, os meninos da redondeza com menos de dez anos, um campeonato de velocidade com carrinho de lomba. Iniciaria logo depois do almoço. A pista: o potreiro do Germano. Cada qual com o carrinho que ele próprio fabricara, sem auxílio de ninguém. Quem tivesse contado com a ajuda de irmão ou do pai não poderia concorrer. Os

incrementos

contariam

pontos:

quem

conseguisse levar mais passageiros consigo, quem tivesse freio acionado pelos pés, quem tivesse apoio para os pés dos caroneiros, quem tivesse a direção guiada por cordas. Ganharia quem conseguisse fazer melhor as curvas desviando os inúmeros tocos de árvores ao longo do percurso e chegasse mais rápido à beira do arroio sem cair na água, sem perder passageiros pelo caminho e sem tombar. Dez carros ao todo. Cada qual com os eixos mais engraxados com a banha furtada da cozinha da mãe, cada

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qual com maiores rodas, com tábua de assento para maior número de passageiros. Cada um ostentando a tecnologia mais avançada para a arte. Levar três, quatro e até cinco caronas, morro abaixo, naquele gramado verde seria vertiginoso: quanto maior o peso, maior a velocidade. O problema era controlar a velocidade para as curvas e com a inclinação dos passageiros para o lado certo. Ah! Havia expectadores. Irmãos mais velhos e meninos e meninas. Os pais e as mães não poderiam estar sob pena de proibir tudo: é perigoso! Vão se matar! Vão se sujar!... Eu sempre disse!.. O perigo era o encanto e o atrativo. Eram cem metros de pura adrenalina. Dois juizes escolhidos pelo voto de todos. Tinham quatorze anos. Suas decisões seriam irrecorríveis e inquestionáveis. Valia o que eles dissessem. O sorteio determinaria a ordem de largada. A saída era no baixar do braço. A velocidade e o tempo seriam calculados por olho e por experiência. Cada piloto dizia quantos levaria e quem eram eles. Os mais magros tinham preferência, é óbvio. O mesmo guri poderia ser passageiro de mais de um carro.

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Darci seria o primeiro. Disse que levaria quatro, cinco com ele: A tábua-assento e as rodas eram de grápia, os eixos de angico vermelho, tudo à prova de resistência. Não precisava de freio. A direção era nos pés mesmo. Ao grito de todos, lá se foram gramado abaixo. Contornaram bem o primeiro tronco. A velocidade aumentou. Na segunda curva quase tombaram, mas conseguiram retornar ao prumo. A terceira curva foi impossível vencer. Rolaram uns sobre os outros e, sob a expectativa de alguns, a preocupação das irmãs e a gargalhada geral levantaram-se, semi-mancos tentando limpar o verde das pernas, da roupa e da alma e todos culpando todos: você fez a curva muito fechada... vocês não acompanharam com o corpo... Lá ficou o rastro da derrapada e do tombo... da festa de cair. Décio levou só três, embora tivesse apoio de pés para quatro. É melhor não arriscar. Ganha quem chega ao fim. Tinha freio nas rodas da frente: ajudaria melhor nas curvas. Foi o seu engano. Quando o carro ganhou velocidade, depois da terceira curva e bem no meio da quarta tentou frear. Foi um desastre. As rodas voltaram-se

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bruscamente para dentro e eles tombaram mais feio que Darci. Pedrinho resolveu ir sozinho. Seu carro não era muito grande. Tinha medo que a tábua de canela preta não resistisse. Freava com palanca de mão numa das rodas de trás. Foi de vagar, cauteloso. Venceu oito das dez curvas sem maiores problemas. Depois, sentiu que andava muito lento, soltou o freio no mais íngreme da rampa. A nova curva esperava-o para o tombo fatal. Chegou a chorar de raiva. Gino era o último. Fez os cálculos: posso carregar até cinco, mas a velocidade será incontrolável. Mesmo com o freio de pé nas duas rodas trazeiras. Resolveu levar apenas dois passageiros. Afinal ninguém tinha chegado à meta final ainda. Preparou-se. Recomendou aos amigos que se agarrassem firmemente nele, que dobrassem o corpo como ele dobraria e mantivessem os pés firmes nos apoios. Não se importou com a torcida-contra dos colegas que já tinham tombado. Levou controladamente sua “viatura”, curva após curva, de uma a dez. Quando se viu na reta final soltou seu carrinho a toda a velocidade e mirou

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seu bólido no juiz de chegada: só para dar um susto. Antoninho saltou para o lado e Gino se foi em direção à água. Os juizes decretaram: empate geral, porque ninguém chegou ao final. E todos se gabavam. Cada qual ria mais dos outros pelos erros, pela má qualidade dos carros, pela falta de braço... Menos Gino. A calça nova de brim riscado que a mãe lhe fizera para que cuidasse e durasse longo tempo havia-se rasgado nas pedras do arroio. Que explicação daria em casa?

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O NEGRO PEDRO De Erechim a Barão do Cotegipe. E então quarenta quilômetros de estrada de chão, tortuosa,

de poeira e

pedras soltas, e que insistia em ficar engarupada na crista dos mais altos morros. Andávamos em direção a Itatiba do Sul. Íamos matar saudades há cinqüenta anos sufocadas. Dos dois lados da estrada, quase em precipício, pastagens para o gado zebu e alguma pequena roça de milho conquistada dos peraus e grandes pedras vulcânicas. Em cada minúsculo altiplano um agrupamento de 4 ou 5 casas e uma venda. Um fusca e um motociclo num armazém de casa antiga e sem pintura, com quatro velhotes jogando bisca e dois rapazes de boné virado bebendo uma cerveja, informaram que Itatiba ficava a 16 quilômetros. Finalmente, lá no topo mais alto, com duas torres de retransmissão de sinal de TV e telefonia apareceu a vilacidade. De Itatiba, verdadeiro esconderijo no alto dos montes, avista-se à direita, a menos de 10 km. a vila de Barra do Rio Azul. Em frente, a trinta km, de cor-terra a monumental muralha da Barragem do Itá. Um pouco

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aquém, entre taperas de colonos que se foram, expulsos pela afronta da barragem, está Bentevi, na barra dos arroios Encantado e Esperança. À sua esquerda, lá onde os morros se esgotam e se prostram como barrancas do rio Uruguai, segue o verde escuro de matas que avançam para Santa Catarina, de Seara em direção a Xapecó. À direita, após a lâmina azul das águas da barragem, no cocuruto mais evidente daqueles verdes está a nova Itá. A Itá da minha infância afundou-se nas águas. Dela só restaram as duas torres da igreja que insistem em manter-se acima do dilúvio como curiosidade turística. Itatiba, pequeno município que há 10 anos tinha 15 mil habitantes e hoje tem 7 mil, metade deles na cidade com uma só rua calçada ou quase isso, com um colégio estadual para onde afluem as quase 400 crianças dos profundos vales ao redor, carregadas em kombis escolares, e cujo diretor é orgulhosamente o primo Irino, é o lugar onde vive Pedro. Sobrevive. Abraçado às lembranças de infância e juventude que ele curtiu no sentido mais imediato e chão da palavra, no espaço do horizonte que ele descortina do alto de Itatiba.

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Irino conduziu-nos até a casinha de Pedro. Minúscula, de madeira, de dois cômodos e uma latrina do lado de fora. Duas cadeiras, um fogãozinho a lenha, uma TV preto e branco de 14 polegadas, um radinho com as tripas de fora sobre a mesinha, eis a mobília daquele ainda solteiro meu amigo e companheiro de infância. No pequeno açude a 10 metros da casa, três marrecos se espanejam barulhentamente. Algo assustado ante a camioneta branca de Gino que mais parece uma ambulância, veio receber-nos na trilha do gramado junto à cerca. Bermudas surradas, chinelos moídos e desbeiçados pelas pedras da estrada, camisa aberta ao peito onde pendia de uma cordinha preta uma cruz de madeira de S. Francisco, cabelos branqueando nas beiradas do telhado, sobrancelhas murchando na tentativa incansável de esconder dois olhos pretos e vivos como os de um guri, Pedro ensaiava perguntar quem éramos, quando Irino atalhou caminho: - Não os conheces? Olha bem para eles!... Zanotelli, Jandir, Gino, Castilo, Ilva, Classi... do Bentevi! - Não é possível! Filhos do Leonel, lá do Bentevi?

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Depois de um abraço, braços ainda hirtos pela surpresa e vontade de todos falarem ao mesmo tempo, nosso papo se esparramou pelos fiapos de lembranças novamente costurados com os infindos “te lembra daquela vez...?” Já se passaram 50 anos que não nos víamos. - Não mudaste. És ainda o “nego bom” de antigamente. - Depois que vocês voltaram para as terras velhas do Taquari, trabalhei, dizia Pedro, pela Esperança, por Barra Azul indicando com o dedo lá em baixo, vim parar aqui, no meio desta gente amiga. Na verdade ele ficara com quase nada. Nosso cavalo encilhado e algumas patacas. Quase com tanto quanto tinha quando chegara lá em casa. A pobreza de meu pai não permitiu mais. Recusava-me, porém,

impotentemente a

interpretar assim: ele não é apenas um filho de criação...como tantos deserdados e injustiçados neste Rio Grande do Sul! Mas Pedro não quis ir conosco porque suas raízes e seus amigos estavam ali. Enquanto olhava aquele amigo de infância, firme e ereto como cerne de guajuvira, pensava comigo mesmo: onde Pedro ancorou o navio de sua identidade, de sua

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dignidade? Por que não sossobrou em meio a tantos furacões? Negro, pobre, órfão desde menino, em meio a um ambiente racista de imigrantes alemães e italianos, como pode firmar-se e afirmar-se? É verdade que adotou o estratagema de branquear-se falando melhor o italiano e o alemão que os imigrantes, adotando e criando piadas sobre sua negritude, brincando sobre as desgraças da vida... Mas ele é mais do que isso. Não é apenas um herói, um vencedor. Ele é meu amigo. Radicalmente amigo em sua negritude, em sua força, em sua esperança em sua companhia. Pedro encontrou um caminho: para ser não basta opor-se, ser diferente ou ser igual. É preciso libertarse das amarras e dos aguapés e liberar-se à vida. Liberar-se à verdade, à justiça, ao amor. Permitir-se operosamente amar e ser amado. Enquanto falávamos, apareceu, surpreendido o chefe da comunidade católica de Itatiba perguntando: - O que aconteceu? Vi a camioneta e pensei que tivesse havido algo com Pedro. Porque o Pedro é pessoa muito querida e estimada de nossa comunidade.

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Na

verdade,

soubemos

que

ele

participava

ativamente de toda a programação religiosa, social e cultural da comunidade. Foi um bálsamo saber que Pedro continuava a ser querido como nós o queríamos desde os tempos antigos. Que ele estava integrado. Que, em sua pobreza de aposentado de salário mínimo, era muito rico de relações de amizade. E que a comunidade estava atenta a tudo o que pudesse acontecer em sua velhice. Era sábado à tardinha. A conversa com o presidente da comunidade foi breve porque dizia que deveria trabalhar nos preparativos da janta festiva que fariam logo após a missa para celebrar a troca de padres: o de Itatiba ia para a Barra do Rio Azul e o de lá viria para cá. Pedro também deveria estar. E comeriam um cabrito assado. - Por sinal, é uma pena que, por questões de ciúmes políticos neste ano não acontecerá em Itatiba a festa estadual do cabrito. Cabrito é só o que dá nestas montanhas!, comentei a Pedro. - É evidente que vou à missa e não perco a janta, retrucou Pedro.

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Pedro merecia a consideração. De uma honestidade a toda a prova. De uma fidelidade absoluta a seus amigos, parecia a muitos, quase ingênuo em sua fé e generosidade. Mas Pedro sabia muito bem onde pisava. Quando brincava que “era cristão fiel porque esperava a recompensa no céu de 17 mocinhas virgens”, sabia muito bem que Deus olha a interioridade de cada coração e não as aparências sociais. Será por isto que não casou? Pedro, órfão de pai e mãe, fora recomendado a meu pai pelo velho Pitã como um bom menino para criar. E poderia ser útil nos serviços de casa, pois era saudável, obediente e de toda a confiança.

Papai recebeu-o em

casa como a um filho. E eu fiz dele desde logo, o meu irmão. Tinha 15 anos e eu 10. Para meu pai, um filho de criação. Para minha mãe, um pobre mas querido menino a ser educado e amparado. Para mim e depois para Gino, Irma e os outros irmãos um companheiro, um ajudante, uma companhia indispensável no trabalho e nos folguedos. De uma força hercúlea em seus braços, rapidez nas pernas e um sorriso contido como quem agradece em silêncio, Pedro não falava de seus pais. Talvez nem os tivesse conhecido. Fez de meu pai e minha mãe os seus

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pais. Por isso adotou, para todos os efeitos, quando nos fomos de Bentevi, o sobrenome de Zanotelli. Pedro Zanotelli e, depois de muitos anos: Pedro Zanotelli da Silva. Assim era conhecido. Por isso o reencontramos. Das aventuras de infância vividas com Pedro como as de tombar a carroça em meio à lavoura só para vê-lo assustado, de caçadas aos nhambus e galinholas com arapucas cavadas no chão e que Pedro jurava conter uma cobra, das churrascadas nas festas da Esperança regadas a cucas e com as quais ele se empanturrou a ponto de ser levado às pressas ao hospital, das carreiras em cancha reta, dos terços rezados à noite, depois do jantar, ajoelhado e escorando

os

cotovelos

no

assento

da

cadeira

e

adormecendo depois da segunda ave-Maria, do susto ofegante depois de ingerir inteira uma pimentinha vermelha, enfim da companhia permanente deste negro tão próximo de nossos sonhos e saudades. Lembro-me da tristeza conformada de seu olhar quando meu pai o repreendeu por qualquer erro nas tarefas diárias, dando a entender que ele era um negro. Na verdade, meu pai, embora tratasse em pé de igualdade os negros que conviviam conosco e que freqüentavam nossa casa,

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incluindo obviamente Pedro, não deixava de, nas horas de raiva e descontrole, revelar o conteúdo racista que os imigrantes italianos trouxeram da Itália em guerra com a Etiópia, e sabendo-se igualados aos negros a quem vieram substituir nas lavouras do café e nas colônias do Rio Grande do Sul. Mamãe, com alma menos racista e mais compreensiva repreendeu carinhosamente meu pai: - Ah! Nelo, se tu tivesses a infância que ele teve, não errarias também? Depois do estranhamento, Pedro se recompunha, como se nada houvesse acontecido justificando-se que a reprimenda fora merecida. A imagem de Pedro, porém, que mais povoa a memória de minha infância no Bentevi é a do salto espetacular na beira do arroio. No fundo de uma ladeira, Pedro roçava uma capoeira. Gino e eu, lá no alto, sem que fôssemos notados por ele, resolvemos assustá-lo. Porque Pedro assustado ficava mais próximo de nós. Menino como nós. Balançamos e balançamos uma pedra mais pesada do que nós, até que ela se desprendeu da terra e empurrâmo-la, ladeira abaixo, só para ver os olhos

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arregalados de Pedro. Mas a pedra, ao invés de descer em linha reta como pensávamos, foi tomando a direção de Pedro. Foi então que a aflição e o desespero se apoderou de nós. Assustados, paralisados pelo estupor da possibilidade de ferir e até de matar a Pedro, mal conseguimos sussurrar e depois gritar, e depois berrar: - Pedro, olha a pedra! Pedro olha a pedra! Peeeedro, olha a peeedra! E a pedra, num último e certeiro salto ia exatamente na direção da cabeça de nosso amigo e irmão. Foi então que vimos o mais ágil golpe de vista de que nem poderíamos sonhar. Pedro, apoiando a foice no chão, como se fosse uma vara de saltar em altura, voou mais alto que a pedra enquanto essa lhe roubava a foice da mão. Corremos morro abaixo. Mas ele já estava de pé. Ao invés de nos xingar, de nos bater como merecíamos, ele deu uma gargalhada, daquelas que explodem, logo depois de um grande susto: - Oigatê, nego bom! - E ligeiro, acrescentamos nós, em coro e aliviados.

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O BAILE DO VELHO SIMÃO

Do outro lado do rio. Bem em frente ao Tombador e ao remanso do Uruguai onde eram preparadas as balsas. Abaixo daquele largo poço, vinham as cachoeiras com a garganta de água volumosa e perigosa no lado direito, por onde os caícos nem desciam e nem subiam. Para subir era preciso escolher o lado oposto do rio onde as pequenas cachoeiras intercalavam águas mansas e onde o sucesso da pescaria de dourados, surubis e cascudos era sempre garantida. No meio da mata virgem pontilhada aqui e ali pela clareira de uma pequena lavoura, no topo de suave colina que morria nas margens do rio, estava a casa do velho Simão. O grande telhado de zinco de 20 por 20 metros escondia uma casa de madeira feita a capricho pelas mãos habilidosas daquele imigrante bávaro. Rodeada em toda a extensão por uma alta varanda de três metros de largura, tinha no centro uma grande sala com amplas janelas de

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vidro. Uma espaçosa cozinha. O fogão de barro coberto por uma chapa de ferro de dois metros por um, aquecido com troncos de lenha de mais de metro de comprimento, e permanentemente aceso mantinha nas beiradas as panelas sempre quentes e, no centro, uma chaleira de água sempre pronta para o chimarrão. Os quatro quartos desembocavam junto à mesa e ao fogão. Assim o aquecimento no inverno era garantido para o casal e os seis filhos daquela casa, dois rapazes e quatro mocinhas. Ao fundo, um paiol, tão grande quanto a casa, onde Simão armazenava o milho, o feijão, o trigo, arreios e ferramentas. Um pouco adiante a estrebaria e o chiqueiro. Saudáveis

árvores

frutíferas

sombreavam

saborosamente seus páteos. E inhambus, jacus, pombas, sabiás, bentevis, papagaios, periquitos e uma infinidade de pássaros mansos como se fossem galinhas de angola que Rita, a mulher de Simão criava, viviam e conviviam ao redor da casa. Pacas, quatis, veados, antas e a mais variada fauna faziam daquele paraíso a tentação de todo caçador. Simão insistia em não deixar ninguém caçar em suas terras. Motivo: o desaforo que uns caçadores lhe fizeram, há algum tempo. Os porongos que Simão usava como bóias às

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linhas de espera, na pescaria de surubis, uma manhã apareceram afundadas nas águas porque perfuradas com balaços. Prometera a si próprio que não deixaria mais ninguém caçar ou pescar. Meu pai era um caçador e um pescador inveterado. Mal chegou em Bentevi, enamorou-se dos matagais de Simão. Era preciso conquistar sua boa vontade. Sua permissão. E lá foi ele, a cavalo. Desceu a trilha que, do Tombador dava ao remanso. Amarrou o cavalo à soga para que pastasse um pouco. Assobiou e pediu passagem a Simão. O filho de 13 anos correu ao caíco e 15 minutos depois Leonel já estava do outro lado. - Papai não está em casa, disse o menino, mas em minutos ele estará aqui. Foi até o fundo da sala, apanhou uma corneta de chifre de boi e buzinou estridentemente 3 vezes. Um cachorro galgo, latiu, como se tivesse sido chamado. Enganou-se. O chamado a que respondiam os cães era uma buzinada longa seguida de três curtas. - Não é necessário que ele venha. Eu posso ir até a roça onde ele está. Não tenho tanta pressa, disse Leonel.

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- Mas ele faz questão de receber e falar com um vizinho novo, insistiu o rapaz. Vinte minutos depois apareceu o velhote, baixo, forte, olhos azuis, com um enorme feixe de canas de milho às costas. Botas embarradas. Chapéu de palha sobre o feixe. Jogou o pasto perto do chiqueiro. Lavou as mãos e o rosto suado no tanque onde escorria permanentemente água limpa e fresca vinda das pedras da coxilha e encanada em canaletas de bambu. - Bom dia! - Bom dia! - O senhor é o vizinho que comprou as terras do Ritzel de Bentevi? - Sou sim, Leonel Zanotelli, ao seu dispor. Peço desculpas por estorvá-lo a estas horas da manhã e retirá-lo de seu trabalho. - Eu já não sabia como inventar um motivo para deixar de capinar e vir embora tomar um trago com alguém, disse Simão. Está muito calor... Papai agradeceu e disse que vinha apresentar-se ao vizinho e oferecer-lhe os serviços do armazém que estava abrindo. Queria saber também onde conseguiria uma boa

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cachaça e um bom vinho para a venda. Ele já tinha ouvido falar que a cachaça do Simão era de especial qualidade, mas se fez de desentendido. Sentaram na varanda frente ao rio. Uma brisa fresca trazia o rumorejar das cachoeiras e molhava a alma de serenidade para uma boa conversa. Simão alcançou um copo de cachaça levemente amarelada e que formava uma corola de pequenas bolhas na parte superior, os sinais mais evidentes da excelência do produto segundo a ciência de Leonel: - prove e diga se essa cachaça é ou não é boa. Papai sorveu um bom gole, passou-o pelos quatro cantos da boca, sentiu o gosto do barril de canela e carvalho e sentenciou: - É boa. Onde o senhor consegue esta cana? - No porão da minha casa, disse Simão. E levou meu pai a ver a cantina, com dez pipas de mil litros cada uma. - Estas três são do ano passado, estas duas do ano retrasado, neste lado estão as deste ano. - E o senhor vende? Perguntou Leonel, como se não soubesse...

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- Vendo quase tudo. Guardo uns duzentos litros para mim. - E o preço? Inquiriu meu pai. - Eu vendo a dois mirréis 5 o litro, mas se meu vizinho se interessar, vendo-lhe a um e oitenta. - Depende um pouco se me der algum prazo. Digamos que, a cada quinze dias eu leve um ou dois barris e no final de cada mês acertamos as contas. - Feito o negócio, disse Simão. E quanta caninha quer? Leonel fez rapidamente seu cálculo: 100 litros por semana, (segundo lhe informaram os beberrões do lugar), quatrocentos e cinqüenta por mês, cinco mil e quinhentos por ano, pensou e disse: - Seis mil litros em 12 meses. Simão, feliz, arrematou: - Assim é que se faz negócio. Quiseram-se bem, desde então. Papai não conseguiu fugir ao convite para o almoço: um dourado assado, arroz e

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Um mil réis transformou-se em um cruzeiro em 1942. Estávamos em 1947. O costume de chamar a moeda de réis permanecia. Um mil réis ou um mirréis.

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batatas. Jurou que há muito tempo não comia um peixe tão gostoso... Ao despedir-se, insinuou que gostava de pescar e caçar. E Simão convidou: - Vejo que o senhor é uma pessoa séria e respeitadora. Quando quiser pescar ou caçar por aqui, basta assobiar lá do Tombador que eu lhe mando um caíco. Se vier algum companheiro, cuide para que seja como o senhor. Papai agradeceu quase como uma criança que recebe o presente mais esperado e garantiu que, se fosse, levaria alguém que merecesse a confiança. Ao apanhar o cavalo que pastava satisfeito, montou lépido e faceiro, e veio assobiando até em casa sua modinha preferida “Saudades do matão”. Um mês depois, logo após a Páscoa, Simão promoveu um baile em sua casa e convidou o já amigo Leonel e esposa. E poderia convidar quem quisesse, contanto que fosse conhecido e avalizado por meu pai. Só havia uma lei: nenhuma moça ou mulher seria obrigada a aceitar dançar com quem quer que fosse contra a vontade. Nenhum homem, casado ou solteiro, poderia levar como

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desfeita, como ofensa, a recusa para dançar. Quem não levasse par deveria contar com a boa vontade da outra parte. Vinho, cachaça, gasosa e janta eram livres, de graça. Era uma festa para os 15 anos da filha. Mamãe, um pouco adoentada, disse que não poderia ir, mas insistiu que Leonel fosse. Era importante conhecer e fazer amigos. Com papai foram três casais vizinhos, a filha de Strenghini e Antônio, o peão de Lucca, um mulato alto, bem apessoado, trabalhador e tido como respeitador. Ao serem convidados, todos foram alertados das normas da casa de Simão. Dois caícos transportavam os visitantes pelo remanso do rio. Simão recebia a todos. Todos entregavam suas armas, revólveres, facas, adagas etc. que seriam devolvidas ao final da festa. Um gaiteiro e dois violonistas que também cantavam, era o suficiente para animar o baile. Iniciou cedo, antes das 10 horas da noite. À meia noite, uma pequena pausa de 20 minutos para os músicos descansarem

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enquanto os convivas se serviam de galinhas, porco e cabrito assado. E muita cuca e sobremesa de sagu. Antônio, que tinha entornado quase um litro de cachaça e outro de vinho, jantou e animou-se a pedir a mão de Angelina para um xote. Angelina, tímida, sobrinha de Simão, recusou dizendo que ele estava bêbado. E que convidasse outra. Antônio insistiu elevando a voz e dizendo que não era qualquer égua que lhe negava o estribo. E levantou a mão ameaçando dar-lhe um tapa. Mas nem conseguiu elevar o braço acima da cabeça e já estava seguro por três homens, inclusive meu pai. Levaram-no com calma para a varanda. Sentou num longo banco de madeira encostado à parede. E papai em frente, sem falar, mas com toda a vontade do mundo de quebrar-lhe a cara. Era um convidado seu. De sua responsabilidade. - O que aconteceu, Antônio? - Eu me perdi. Bebi um pouco demais e abusei. Peço desculpas.

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- Mas não é a mim que tu deves desculpas. É ao amigo Simão e à sua sobrinha. Que vergonha! E agora? Por favor, te manda daqui! E nunca mais venha a baile comigo! Nisto chega Simão: - Não, seu Leonel! Não precisa ir embora não. Que ele fique sentado aí, por uma hora. Até curar um pouco essa tontura. E depois que vá pedir desculpa à minha sobrinha e pode ficar na festa. Isto por causa da amizade que tenho com Leonel. Antônio, lá ficou sentado como criança em castigo. Uma hora depois, lavou o rosto, entrou na sala de cabeça baixa, foi até onde estavam a sobrinha de Simão e suas amigas que o olhavam espantadas e em silêncio, e disse: - Angelina, te peço desculpa, eu me passei! Angelina, quase sem saber o que dizer, balbuciou: - Não foi nada. A bebida, às vezes, descontrola. Simão olhou-o e abanou com a cabeça. Já era dia alto quando os últimos atravessaram o Uruguai, ouvindo o ronco surdo da garganta da cachoeira.

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A ESTÁTUA

As três balsas de toros de pinho correram maravilhosamente neste ano, para Germano. O Uruguai, como nunca esteve bem comportado. O Salto Grande estava liso como lagoa. Nem choveu durante a viagem. Germano não era de descumprir uma promessa. De São Borja foi direto a Porto Alegre. Na casa Bergmann que fabricava e vendia estátuas de santos escolheu a da Medianeira de Todas as Graças quase em tamanho natural. E era bonita. Feições maternais, de uma beleza pura, transcendente que comovia. Era para a capela de São Miguel, do Bentevi. Mandou levá-la por transportadora com todo o cuidado. Queria vê-la inteirinha, para a alegria e devoção do povo. Era também uma surpresa para o padre vigário que se queixava que Germano não comparecia à missa. Não adiantava

argumentar

que

tinha

muitos

negócios...

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Especialmente depois que enviuvou e se juntou com uma mulher casada. Mas desta vez ele iria se dobrar, dizia para seus botões. A estátua falaria por si mesma. E, afinal, era Nossa Senhora. Ela iria protegê-lo. De retorno, foi tomar uns tragos na venda de Leonel. Propôs-lhe armarem juntos umas balsas para o ano seguinte: - É negócio que dá dinheiro e não as pataquinhas do armazém ou da roça. Os olhos de Leonel brilharam de curiosidade mas retornava sempre à realidade quando pensava que tinha oito filhos para criar: o homem foi feito para trabalhar na terra e não para brincar nas águas violentas do rio. Não valeria a pena arriscar-se tanto. E mesmo o dinheiro que tinha era pouco para jogá-lo numa aventura. Germano falava das maravilhas da Argentina, com sua finíssima e branca farinha de trigo, com seu azeite puro de oliva, com os peneus muito mais baratos que aqui: - Na volta poderíamos trazer um caminhão carregado de tudo isso.

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- De contrabando? Perguntou Leonel. E se nos pegarem? Se não formos mortos, seremos presos como bandidos, além de perder o pouco que juntamos?! No quarto trago Germano já estava alegre, de língua solta e, então sussurrou a Leonel: - Eu tenho um segredo pra te contar – e olhou-o devagar, quase sorrindo – comprei uma linda estátua pra capela... Agradecimento... Afinal um homem que não é grato, não merece viver... não é? Chega esta semana. Não arrisquei trazê-la comigo, poderia quebrar... Quero só ver se o padre vai ou não vai ficar contente... e me agradecer. Leonel

que

conhecia

bem

o

severo

padre

fransiscano, vigário da paróquia de Rio Novo (Aratiba) comentou para ajudar a preparar o coração do amigo: - Pode ser. Nem sempre porém, os padres compreendem as intenções da gente. Deus sempre sabe o que vai em nosso interior. Germano olhou para Leonel, o sorriso de surpresa mudando em estupefação e encaminhando-se para raiva perguntou:

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- Você acha que ele não vai gostar? Seria uma ingratidão não aceitar uma oferta de um paroquiano. Nem vou dizer quanto custou... o segredo fica comigo. No dia primeiro de novembro, festa de todos os santos, haveria missa na capela São Miguel. Todas as famílias compareceram. Alguns vieram de fora. No dia seguinte era dia de finados e a visita ao cemitério era sagrada. Quando o sacerdote chegou em seu Jeep verde com o teto de lona, os fabriqueiros 6 esperavam na frente da porta. Germano com eles. O padre saudou a cada um com um aperto de mão e um “louvado seja Nosso Senhor Jesus Cristo”. Ao chegar em Germano, ao invés de “louvado seja...” disse-lhe: - Ué! O filho pródigo retornando à casa do Pai? Germano

não

sabia

se

era

reprimenda

ou

acolhimento. Aproveitou para responder no teor da mesma história que ainda lembrava: - Éh! Quando o pai espera na cochilha, o filho sente saudade de voltar... 6

Fabriqueiro é o membro da comissão de coordenação das atividades e finanças da capela

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E foram entrando na capela de madeira de pinho pintada de verde claro por dentro e por fora e, no teto azul estrelinhas brancas em profusão. Quando o padre viu a estátua ao lado do altar, parou no meio do corredor e perguntou em voz alta: - Quem pôs esta estátua aí? Sem falar com o padre, nem nada? E está benta? Vai ver que algum benzedeiro a benzeu... Leonel e Valdomiro saltaram logo em defesa de Germano: - Não, senhor padre. Não é o que o senhor está pensando. É um presente que Germano trouxe para a capela. Ação de graças pelo sucesso das balsas. Pensamos que o senhor a benzeria hoje. - Do Germano? Retrucou o vigário. Ele ainda está amigado com aquela mulher casada? E ele dá uma estátua à igreja pensando que a gente vai esquecer tudo? Mas isto aqui não é a casa da sogra... Onde é que se viu!... Germano vermelho e sem fala, todos pensavam que iria desmaiar. Levaram-no à porta da capela para tomar um ar e ver se conseguiam contornar o incidente. Quando conseguiu falar, urrou:

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- Isto não vai ficar assim, eu mato este padre! É isto que Cristo mandou ele ensinar? Depois de um mal-estar enorme, no silêncio sepulcral em que todos se olhavam e olhavam sem saber o que pensar e muito menos o que dizer, começou a missa. Germano no lado de fora, seguro por três ou quatro amigos, até que o vigário mudou de tom: - Peço desculpa a vocês todos, porque me excedi, começou. Peço desculpas também ao Germano. Afinal não há nada de errado oferecer uma estátua à igreja. E esta é verdadeiramente muito bonita. Peçam ao Germano que entre... Germano relutava entre entrar ou não entrar. Finalmente, ouviu o amigo Leonel e resolveu entrar e ouvir calado. Depois da missa acertariam tudo com calma. O padre voltou a desculpar-se no sermão. Antes de terminar a missa abençoou a estátua, convidou a todos a rezarem uma Ave Maria e a cantar “Com minha mãe estarei...” Depois da missa o sacerdote alegou que tinha pressa para atender outra capela e zarpou sem falar com ninguém.

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Os fabriqueiros n達o sabiam como descascar o abacaxi. Germano n達o sabia se rosnava, se roncava ou se berrava. Resolveu tomar um senhor pileque. Ao final da tarde dois amigos ajudaram-no a chegar em casa.

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O MOINHO DO BORTOLOTTO

- Os guris já chegaram da escola? Perguntou meu pai que acabava de chegar com a carroça atopetada de mandioca e que Pedro descarregava perto do chiqueiro. - Já, respondeu mamãe lá da cozinha mexendo a polenta para o almoço e controlando as panelas de arroz, feijão e carne de porco. - Jandir, chamou papai, pegue o cavalo tordilho para a Irma ir ao moinho. Enquanto isso, Gino, vá até o Locatelli e pergunta se ele precisa do dinheiro nesta semana. O arisco cavalo tordilho era matreiro para se deixar apanhar. Gino já descobrira. Para prendê-lo, não se poderia levar, à vista, nem corda, nem cabresto e muito menos freio. Uma espiga de milho e ele vinha. Se conseguisse a espiga de longe, fugiria com ela. Era preciso que ele viesse pegá-la bem perto do corpo da gente. E então, jogar a espiga no chão. Enquanto ele se abaixasse para abocanhála, era agarrá-lo pelo pescoço, cruzar as pernas sobre ele e

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subir em seu lombo. Tapeando-lhe as orelhas suavemente ele viria conduzido até a cancela e se deixaria embuçalar. Naquele dia, como advertira Gino que tinha raiva daquele cavalo, ao sentir que eu estava sobre ele, enveredou para um túnel formado pelos galhos de um grande pé de lima e um de bergamota e onde mal passava ele, afim de descarregar a incômoda mochila que carregava às costas. Deitado ao lado de seu pescoço, senti os galhos rasparem minhas pernas e seu lombo, mas não caí. Já ultrapassado o perigo vibrei-lhe dois bons tapas nas orelhas e então ele obedeceu. Meu pai observava de longe e disse: - Assim vocês acostumam mal o cavalo! Não descobri se era elogio ou reprimenda. Amarrei o grande, forte, ossudo tordilho, que não conseguia marchar. Só a passo, trote ou galope. Bom para carregar peso. Só papai gostava de andar nele. Acho que suas esporas botavam ordem em seu andar. Depois do almoço papai ditou a agenda para a tarde: - Irma vai ao moinho dos Bortolotto, lá na Esperança Alta. Pedro carrega o tordilho com um saco de milho que debulhamos ontem à noite, um saco de trigo, -

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três latas bem cheias - daquele do canto do paiol. Cuida que as metades sejam bem divididas para que não caia a carga no caminho. Jandir e Gino vão comigo cortar e carregar cana para o melado e o açúcar de amanhã. Prometi cinco latas de melado e duas de açúcar. Enquanto Pedro jogava sobre o cavalo o milho e o trigo em longos sacos brancos torcidos ao meio para que metade ficasse a cada lado do cavalo, a chincha bem apertada, mamãe protestava insistindo com papai: - Nelo, para quê mandar a Irma? Ela é apenas uma criança. E menina. Se a farinha não ficar pronta na hora e ela precisar esperar, ficará noite. E ela na estrada... Afinal são oito quilômetros. Manda um menino! Meu pai, acostumado com a dureza que ele próprio viveu na infância, foi intransigente: - A Irma já tem quase oito anos. E eu preciso dos guris e do Pedro para dar conta da encomenda. Vendo-se vencida, mas obediente ao marido como ensinavam os padres, o avô e a tradição, fez mil recomendações à minha irmã: - Vai ligeiro e não te distraias pelo caminho. Anda sempre no meio da estrada para que os sacos não encostem

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em barrancos ou em alguma cerca de arame farpado. Reze para Nossa Senhora que ela cuidará de ti. E volta cedo. As sombras do morro do Paloma já cobriam todo o nosso vale do Bentevi quando chegávamos em casa. A carroça perigosamente carregada de cana em pé, a ponto de quase tombar nas valetas da estradinha da roça. Pedro, Gino e eu, descarregamos tudo ao lado da moenda. Mamãe esperava aflita, à porta da venda que ela cuidava enquanto amamentava o último filho, limpava os penúltimos, preparava a comida, cuidava da roupa de todos e das galinhas e de fazer o queijo e de governar a casa. Irma ainda não havia chegado. Em seguida escureceria. E não havia lua. - Ela chega em seguida, disse eu para consolá-la. Tratamos

os

porcos,

ordenhamos

as

vacas,

distribuímos pasto de “leofante” e ramas de batata doce para os animais na mangueira, lavâmo-nos no tanque... E nada de Irma. Fez-se noite. Papai também não chegava. Fôra, da lavoura, até o compadre e visinho Cauduro conversar sobre negócios e amarrar uma caçada.

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Mamãe já estava ansiosa, rezando para que Irma chegasse de uma vez. Em circunstâncias assim, o coração dela disparava em taquicardia que durava horas e a deixava cansada mais que todos os trabalhos. Quando meu pai chegou, eu já estava montado na egüinha baia, em pelo e buçal para ir saber da irmã. - Não é preciso, ela já deve estar chegando, atalhou Leonel. - Não, retrucou mamãe magoada e sofrida. O Jandir vai rápido que já é tarde. - Mas por qual das estradas estaria vindo? Perguntei. Pois para ir aos Bortolotto havia uma estrada a cada lado do arroio Esperança. Encontravam-se lá

perto do

capitel. Mas, pensei comigo: Irmã não deve ter atravessado o Esperança para vir pela estrada dos Benincá. É mais estreita e tem mais mato. Vou, portanto pela estrada dos Basso. E lá me fui a quase galope. Há três quilômetros de casa encontrei Irma que vinha chorando, chicoteando o cavalo, lerdo de cansaço sob a carga de 150 quilos. Chorou ainda mais quando me ouviu e me viu.

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No Bortolotto não precisou esperar. Havia farinha pronta para trocar. O moinheiro ficara com o farelo como pagamento pela moagem. Assim eram 24 quilos a menos a pesar sobre o cavalo. Mesmo assim só conseguiu sair do moinho, sol já posto. Descuidou-se de andar pelo meio da estrada. O arame farpado rasgou o saco da farinha de trigo. A carga caiu. Ela não sabia o que fazer senão chorar. Depois de um longo tempo, passou um cavaleiro, um Berticelli, que a ajudou a repor tudo no lugar, mandando dizer ao pai que era louco mandar uma menina de noite ao moinho. Voltamos de vagar. Ela na frente e eu insistindo que cavalgasse pelo meio da estrada. Ao passar pelo cemitério minha irmã fingiu voltar-se para conversar comigo só para não ver nem ouvir o que quer que fosse. Depois da amargura da viagem, sua alma infantil até podia se dar ao luxo de ter medo de fantasmas. Antes de passar o arroio, há uns 300 metros de casa eu já fui assobiando como para anunciar que tudo estava em paz.

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Chegamos. Todos estavam esperando na frente da casa. Enquanto mamãe abraçava a filha, meu pai, como para arrancar do fundo do seu medo uma desculpa esfarrapada, foi dizendo: - Você não cuidou para o cavalo não encostar na cerca? A janta tardou um pouco. E ao rosário que se seguia todas as noites ao jantar, mamãe fez questão de acrescentar um Pai Nosso e uma Salve Rainha de agradecimento.

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MISSÕES NA BARRA DO RIO AZUL

Os padres vinham de fora. Capuchinhos. Vinham de Veranópolis e Garibaldi. Eram três. Impressionavam pela longa barba, pela batina marron com um cordão na cintura cheio de nós, sandálias comuns nos pés. O calmo padre Egídio da paróquia de Barra Azul convidara-os para pregar missões e sacudir o marasmo religioso dos colonos. Todos católicos sim, que rezavam o terço à noite debulhando ave-Marias e Pai-Nossos sem pensar muito no que diziam, mas que blasfemavam morro acima e morro abaixo a pretexto de qualquer contrariedade e de qualquer alegria. Confissão e comunhão?: uma vez por ano conforme mandava a Santa Madre Igreja. Fidelidade sexual e conjugal? Esta sim era controlada por todos desde os gestos, as saídas à noite até o olhar mais inocente dos rapazes, das mocinhas e muito mais dos casados. Vencer a tentação da carne era o que importava. Muito embora a conversa sobre relações genitais fosse escancarada entre os

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casados como a da mulher que, ao fazer o banho sumário no tanque, ao retornar da roça, perguntava ao marido: te la dopéri sta será? (Usá-la-ás esta noite?), referindo-se obviamente à genitália feminina. Se a resposta fosse ´sim´, o banho deveria ser mais completo. Ou da mãe que deixava as filhas terminando de preparar o almoço porque: - o pai está chamando. Devo subir para satisfazê-lo. Os rapazes e as moças aproximavam as falas indiretas

o

quanto

podiam

até

quase

sentirem

palpavelmente o de que falavam. E riam, cada qual completando com a imaginação o que as entrelinhas, se é que as havia, insinuavam ou quase diziam. Depois, obviamente, iam à confissão declarar que tiveram maus pensamentos e sonhos pecaminosos. Aqueles colonos, famílias enormes com dez ou mais filhos, trabalhavam, do nascer ao por do sol, para recolher 100 sacos de trigo, outro tanto de feijão, e milho para engordar porcos e alimentar vacas e bois. Sobrava sempre quase metade da produção para vender aos dois ou três comerciantes da vila que lucravam e enriqueciam com a intermediação. Só eles tinham caminhão para levar o produto a Erechim e os porcos gordos para Concórdia em

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Santa Catarina. E vendiam caro as mercadorias que traziam para os agricultores: sal, tecidos, chinelos, tamancos, café, louças e ferramentas... E a balança quase sempre adulterada. E as anotações no caderno com suas somas com leves enganos sempre em desfavor daqueles pobres e barulhentos homens da terra que mal sabiam ler e escrever e que jogavam ´mora´, bochas e quatrilho depois da missa de domingo enquanto cantavam as ´virginelas´ e os ´mazzolin di fiori´. - Era preciso atacar também a ganância dos comerciantes, dos moinheiros, dos intermediários, pensava Padre Egídio. Era preciso insistir com o costume das orações em família, com a observância dos mandamentos de Deus e da Igreja, para manter aquele rebanho reunido e a salvo do demônio. Era preciso preparar os meninos e meninas para a primeira comunhão e para a crisma com seus padrinhos, fortalecendo ainda mais os laços sociais. E insistir para que os rapazes e as moças casassem virgens, porque a virgindade era santidade que atraía as bênçãos de Deus. Que o casamento era até a morte. E recriminar também dois ou três ajuntados lá da costa do Uruguai que viviam como bichos, sem matrimônio. Era preciso

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incentivar os meninos e as meninas para a vocação religiosa, a mais honrosa, a mais alta e a mais santa possibilidade de vida. Uma semana de missões era uma renovação para a paróquia. Mudanças de horários, de roupas, de encontros. Os pregadores iam durante o dia em cada uma das capelas, reunindo a todos e incitando à vivência religiosa. À noite, na igreja matriz, havia pregação mais insistentes, mais incisivas e candentes com apelos que iam desde a danação ao fogo do inferno até a descrição pormenorizada das dores, da paixão e morte de Cristo por nós. Era especificada para os diversos grupos: para homens, para mulheres, para rapazes, para moças, culminando sempre com confissões, longas e detalhadas e que se prolongavam até depois da meia noite. A missa do dia seguinte era às 7 horas para que entre a confissão e a missa os homens não pecassem e pudessem comungar. A sexta feira era reservada para crianças até 11 anos. Mamãe, que participara das missões de segunda a quarta feira, hospedando-se em casa de sua irmã Maria, retornou ao Bentevi na quinta feira ao meio dia. E já foi

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dizendo que o pai e eu deveríamos participar também. Papai alegou negócios urgentes em Xapecó. - Se o Jandir quiser, pode ir. Voltei da roça mais cedo. Tomei um bom banho no arroio. Não aceitei calçar sapatos porque me doeriam os pés. Iria mesmo de chinelos. Minha mãe preparou minha melhor muda de roupa: calça comprida de brim cáqui, camisa branca e até casaco cinza que eu quase nunca usava. Não sentia frio. Montei na egüinha baia marchadeira, parti para Barra Azul. Já era noite fechada. - Como está escuro! Eu disse, resumindo a apreensão e um pouco de medo que me assaltava. - Não precisa ter medo, disse mamãe. Terás umas duas horas de lua nova que, pelo menos ilumina um pouco. Já tens 10 anos e o motivo é santo. Vai direto à casa da tia Maria. Tem lugar para ti. Apesar das pedras soltas e os buracos da estrada, a egüinha marchava solta e serena. Venci a estrada da Esperança, subi a lomba que a separava do Pinhão. Um fiapinho de lua mal permitia divisar as casas no vale. Desci, passei em frente à casa de

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vovô, na expectativa de que arranjasse companhia para ir até a Barra. Mas nada. Só os cachorros acordavam o silêncio. Os quero-queros respondiam lá em baixo no potreiro. Nenhuma lamparina acesa nas casas. Ninguém na estrada. Reuni minhas coragens e valentias de menino e pensei: “Já venci 14 quilômetros. Só faltam 8. E a estrada agora é melhor. E lá terei os primos para ver e acompanhar nas missões”. Assim fui passando e reconhecendo as casas dos Rech, dos Bagatini, dos Pilati, dos Munari, dos Rosa, pois, quando morávamos no Pinhão,muitas vezes, aos domingos, havia ido à missa na Barra. Era quase meia noite quando cheguei à casa de tio Emílio e tia Maria, dois quilômetros além da Barra. Receberam-me pressurosos: - Tão tarde? Aconteceu alguma coisa? O pai não veio? Queres comer alguma coisa? Expliquei. Agradeci. Indicaram-me um colchão ao lado dos 5 primos que dormiam no assoalho de um quarto

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grande e só acordei com uma sacudida do primo Irino, dizendo que já era tarde e que a missa começava às 8. Lá fomos a pé, um bando de 12 meninos e meninas, entre primos e vizinhos para as ´santas missões´. A igreja lotou. Nunca vi tanta meninada junta. Era um empurrando o outro para caber nos bancos. Meninos de um lado, meninas do outro. Assim como na escola, os meninos ficavam à direita do corredor, as meninas à esquerda. Era indecente, vergonhoso e castigo um menino ter que sentar no lado das meninas. Tocou a campainha. O padre. Alto, magro, quase calvo e mais calvo parecia porque tinha o cabelo cortado em grande tonsura. Restava-lhe a periferia do “telhado” e a longa e honorável barba. Sério, como convinha tratar crianças, pois ´a disciplina é a mãe de todas as virtudes´, iniciou a missa. A cada passo parava para explicar o que acontecia: agora é o ato penitencial, agora é a vez de ouvir a palavra de Deus, agora é o ofertório, a consagração, a comunhão... e tudo à altura da compreensão das crianças e jovenzinhos que éramos. O sermão de quase duas horas tomou como modelo a infância do menino Jesus: que era obediente, que ajudava seus pais, que ia com os pais ao

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templo, que não fazia crueldade para os animais, que não brigava, que era estudioso, que respeitava os mais velhos e que depois morreu na cruz por causa de nossos pecados. Era um pouco e em tudo, o contrário do que nós fazíamos. Assim ficava marcado indelevelmente na alma o que era e o que não era pecado, chamando-nos à penitência e a mudar de vida. Lembro-me que eu refletia comigo mesmo: como é que ele sabe tanta coisa do menino Jesus. Na História Sagrada que nós líamos na escola não constava tudo aquilo. Em todo caso, ele sabe porque estudou. E padre não mente. Estranhava também que ele parasse na crucificação e morte de Cristo. E a Ressurreição festiva e alegre cheia de alegria e esperança e de presentes seria um episódio inútil para a salvação? O certo é que aqueles severos sermões, seguidos de confissão à tarde e de comunhão festiva no dia seguinte, fazia bem. Freava nossos ímpetos e ganas. Acomodava tudo no seu devido lugar. Mas abichornava nossos sonhos. Ou melhor, transformava-os em sonhos de religiosidade. De volta, convenci-me que deveria ser padre. Mamãe concordou, antes que eu terminasse a frase. Afinal,

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foi o sonho que ela sempre teve. Quando o padre veio rezar missa na capela do Bentevi, convidou-me para o seminário e eu aceitei. - Mas não temos dinheiro, disse mamãe ao sacerdote. - Não faz mal. Deus providenciará. No último dia de fevereiro deste mesmo ano, meus avós deixaram-me à porta do Seminário Menor de Tapera. Papai ficara em Passo Fundo para uma cirurgia.

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A SECA

Era fevereiro. Desde agosto não chovia. Uma chuvinha no Natal só serviu para queimar ainda mais a pastagem. As fontes se ressentiam. Só as mais valentes mantinham um filete d´água que empossava aqui e ali. O milho do cedo encharutou e secou. O feijão nem nasceu. A grama dos potreiros esfarelava como pó ao andar dos animais.

As

mutucas

proliferaram

infinitamente

e

encurralavam os bois e as vacas para dentro dos capões. Só os cabritos, que se nutrem até de gravetos, sobreviviam bem. A desolação morava no canto dos olhos dos agricultores e agricultoras de Bentevi. Disseram que há uns 80 quilômetros dali, entre Concórdia e Joaçaba havia chovido bem, na semana anterior. Mas, do céu, não vinha sinal algum de esperança. A lua cheia rodeada por um halo alaranjado prometia mais seca. O nascer do sol na limpidez de um céu azul e o pôr de sol com um avermelhado esparso, também indicavam ausência de chuvas por mais dias. O Uruguai estava abaixo

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do nível normal e quase não se ouviam as cachoeiras abaixo do Tombador. O dia dois de fevereiro, festa de Nossa Senhora dos Navegantes, passara literalmente em brancas nuvens. Só restava rezar. O padre, no sermão de domingo, deixara entrever que a seca poderia bem ser um castigo pelos inúmeros pecados cometidos. E eu ficava pensando que, se a chuva é bênção, não deveria chover na roça dos pecadores. Na hora dominical do terço na escola que funcionava como capela enquanto esta estava em construção, por proposta da professora Zita, todos concordaram que se deveria fazer uma novena de terços para pedir chuva. Quando iniciava escurecer, de todos os lados, quase em silêncio vinham todos à novena. Comentários tristes, compungidos. Só as crianças pequenas acompanhadas de um adulto ou irmão mais velho, ficavam nas casas. Na escolinha para 30 alunos, apinhavam-se quase 100 pessoas, ajoelhadas no chão e apoiando os braços nas estantes, nas paredes ou no vizinho à frente. Ave

Maria...

Santa

Maria...

Salve

Rainha...

Ladainhas de Nossa Senhora...com seus “rogai por nós”,

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Pai Nossos em intenção especial. Mas especialissimamente para que Deus se dignasse a não olhar os nossos pecados e a mandar a esperada chuva. Um dia... dois dias... e nem um sinal de chuva. Deus parecia testar a fé daquele povo pobre e simples, que não sabia tanta teologia, mas que confiava e aguardava. Ricieri, meu colega e vizinho, tinha a minha idade. Dez anos.

Estávamos ajoelhados no fundo da escola,

logo à direita da porta. Ele comera batata doce assada ao forno ao meio dia. Barriga estufada, não sabia como controlar sua flatulência. Passou-lhe então pela cabeça o seguinte estratagema: - Se eu esperar a “Santa Maria” que todos rezavam em coro e em voz alta, logo depois que o puxador terminasse a “Ave Maria”, poderia desfazer-me dos gases porque no meio de tantas vozes ninguém notaria. E preparou-se, engatilhou para disparar logo que o rezador chegasse ao “ventre Jesus”. Eis, porém, que ele se atrapalhou. Calculou mal o tempo e as circunstâncias: o estrondo espocou exatamente no intervalo entre o fim da reza do puxador e o começo da resposta da comunidade.

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Foi um Deus nos acuda. A criançada rindo, os adultos entre rindo e severamente repreensivos, todos se voltavam para o canto onde Ricieri, vermelho como pimentão não sabia se pedia para morrer ou para fugir. Tio José que estava à nossa frente, no espírito mais bonachão do mundo que lhe era próprio, sussurrou ao infeliz: - Ricieri, não é assim que se responde a “Ave Maria”. Domingo

de

madrugada

iniciou

a

chover

torrencialmente. Alguns nem vieram ao terço das 10 horas.

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O TEMPORAL

Final de novembro. Sol muito quente. Um abafamento excepcional. Fora de época. Meu pai e Pedro estão cortando o trigo maduro, a mão, no topo do cerro dos Buttini, lá na Esperança. Um saco de trigo semeado e plantado a enxada e recolhido a foicinha, na mão rápida e gabola do pai. A previsão é que renderia mais de 40 sacos. Estavam há quase 5 quilômetros de casa. Dormiriam a semana todo lá, até terminar de roçar, juntar os feixes em meadas que, bem amarradas em forma de funil de boca para baixo, protegeriam o trigo da chuva por uma ou duas semanas até que a máquina trilhadeira pudesse chegasse. Retornados da escola, almoçamos logo e nos encaminhamos para o fundo da roça nova, mamãe, e os 7 irmãos. Castilo ainda mamava. Olir, Lírio e Dinacir nasceriam depois. Um cesto de vime servia de berço ao bebê enquanto Ite vigiava seu sono à sombra de uma laranjeira.

Nossa

mãe

estimulava

a

todos

a

que

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trabalhássemos rápido para limpar aquele meio hectare de milho novo e que cuidássemos para não arrancar os pés de melancia plantados no dia de finados. Se terminássemos mais cedo, mais cedo iríamos para casa, mesmo porque ameaçava chover. Uma hora depois, armou-se um temporal imenso lá nos fundos do Uruguai na direção da Barra do Paloma. Escureceu de repente. Aqui o vento parou. Como assustado e em expectativa tudo parou. Mas lá na lomba de matagal da costa do Paloma, um torvelinho de vento, nuvens, poeira roncava ensurdecedor. Era a fúria do inferno avançando sobre o mundo. Um surdo quebrar-se de árvores torcidas, arrancadas, em roldão. Era um tufão. Eu nunca havia visto e ouvido tamanho temporal. Mamãe, assustada, lembrou-se que a casa ficara completamente aberta. Era preciso correr e fechar as janelas a começar pelo lado de onde viria o vento. Nossa casa, no coração do vale, receberia em cheio aquele vendaval. - Jandir corre! Gino e Irma me ajudem a levar as crianças. Desatei a correr morro abaixo, descalço, na velocidade toda de minhas pernas de 10 anos, pisando na

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ponta das pedras sem dar-lhes

tempo para que elas

ferissem os pés. Em menos de 5 minutos entrava em casa. Subi num relâmpago ao sobrado. Fechei as duas janelas e desci. O vendaval já vinha potreiro afora. No primeiro piso daquela casa de madeira com seu alto porão, eram 4 janelas do lado do vento. Passei a taramela na primeira, na segunda e na terceira... Quando, porém, cheguei à última janela, na cozinha, o vento já havia chegado. Em vão tentava aproximar as duas folhas para passar-lhes a tranca. Encostei os ombros e multipliquei minha força por dez, - e eu não era fraco -, mas uma lufada tremenda de vento arrancou a janela e me jogou com ela aos fundos da cozinha, contra a parede. Pelo buraco escancarado o vento entrou como um demônio solto. Arrancou o forro e levantou o telhado de zinco num estrondo só. Deitado no chão, eu tentava arrastar-me contra o vento para ter acesso à sala da frente onde funcionava a venda, contando que minha mãe e os irmãos já tivessem chegado. Entre duas ondas de vento consegui safar-me.

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Mamãe, os irmãos agarrados nela, rezava em voz alta e tentava acender uma vela. A casa balançou. O grito foi abafado pelo espanto parado nos olhos muito abertos de todos. Nem havia tempo para chorar. E, de repente, tanto quanto violenta foi sua chegada, o vento serenou. E iniciou a chuvarada. Dilúvio. Só então ouviram-se os trovões. A casa permanecia de pé. Eu tinha medo de retornar à cozinha. Mamãe tinha medo de ficar na casa. E todos tinham medo de tudo. - Demos graças a Deus que estamos salvos, rezou mamãe. E o pai e Pedro como estarão? Destelhada em mais de metade, a casa chovia a cântaros. Só não chovia na sala da venda. - Jandir, te animas a ver se ainda resta alguma roupa de cama enxuta para trazer até aqui? Mostrando-me o “homem da casa”, afinal eu era o mais velho, examinei o que pude. A cama do casal estava encharcada. Só os travesseiros se salvavam da inundação. As camas das meninas, por incrível, estavam secas. Sobracei o que deu e, em duas viagens, trouxe até a sala da

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frente. O quarto meu e de Gino ficava no sobrado. Olhei para meu irmão e rimos um do outro. - Acho que a sala é um bom lugar de dormir! Disse eu. - Dormir, agora? Falou mamãe. Nada disso. Vamos ver o que poderemos fazer. Gino, pega a egüinha e vai chamar o pai, antes que anoiteça de vez. Jandir, sobe de vagarinho ao sobrado e vê se é possível ajeitar o telhado. Os outros ajudem para levantar as coisas sobre as mesas e bancos. - Mãe, gritei eu lá de cima, impossível arrumar o telhado. Metade dele se foi. Olhe lá no umbu: três folhas de zinco cravadas como se fossem facas. E lá adiante, para além do arroio há folhas de zinco espalhadas. Ainda bem que a parte da frente está inteira. A parede que sustenta a comieira a isolou. Ao sair da porta da frente, percebi que a casa não era a mesma. O degrau tinha qualquer coisa de estranho. E então vi que o vento deslocara a casa inteira uns 15 centímetros. As vigas de madeira mantinham a casa em seu limite sobre os pilares. Mais 5 centímetros e ela teria desabado.

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Não dormimos em casa. Fomos dormir no paiol. Era mais seguro. Sofreu menos danos. As árvores que o rodeavam protegeram-no. Papai que vira o tufão passar pelo vale, nada sofreu e imaginou o mesmo para nós. Quando Gino chegou rompendo a estradinha por entre taquaras e troncos caídos, meu pai receou. - O que houve? Algum problema? - Agora não, disse Gino. A casa é que sofreu. O telhado voou. Chove por tudo. Mas ninguém se machucou. - Então tu ficas aqui na barraca com Pedro, que eu vou a cavalo. Chego antes. No dia seguinte, com a ajuda de vizinhos, a casa voltou ao lugar. E eu, para sempre bani do meu peito, o medo de temporal. Voltando da roça, a cavalo, eu lembro, abria a camisa ao peito para apanhar a chuva direta, fria, linda como lágrimas de felicidade.

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PESCARIA NA BARRA DO PALOMA

Aquele sábado de fim de abril amanhecia cerrado, úmido, ensopado. A neblina baixa e densa como chuvisco só deixava a descoberto o cocuruto escuro das matas da lombada do Uruguai. As cachoeiras da Volta do Uva roncavam baixinho, surdamente, clamando pelo sol que dissipasse aquela névoa. Não era porém o estrondo claro que denunciasse chuva. O dia seria quente. A lua minguante, quase nova, nascia como um risco de sobrancelha tímido. Dia ideal para pescar. Depois da chaleira de chimarrão com Ana, antes do amanhecer, Leonel organiza rápido as fainas da casa: - Diz ao Jandir que traga uma carroça daquela cana já cortada e faça quatro latas de melado. Que o Pedro cuide do pasto das vacas. Volto amanhã de manhã. Estou na Barra do Paloma. Ana, conformada com sua vida de casada, com suas oito crianças, sua miséria e suas orações, pediu-lhe que se cuidasse, que rezasse a Nossa Senhora e a Santo Antônio.

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Olhou-o com olhos de namorada que admira a energia, a vitalidade, a alegria de seu parceiro por uma aventura e desejou-lhe com simplicidade “uma boa pescaria”. Quando o Jeep Willis do dentista Frederico, esparramando as pedras soltas da estrada parou diante da porta, Leonel já estava pronto: - Bom dia, bom dia! disse Frederico a dona Ana, sem descer. - Um chimarrão? Perguntou Leonel... - Não, obrigado! Vamos que já é tarde. Em meia hora amanhece. - A Barra do Paloma deve estar baixa, comentou Leonel, faz dez dias que não chove, os dourados devem estar quase de cabeça de fora... Quando o ronco do Jeep se perdeu atrás do cerro que deriva para o rio, Ana acordou as crianças. Pedro já trazia duas latas de água para a cozinha. Os quatro mais velhos iriam à escola. Os outros poderiam dormir um pouco mais enquanto ela arrumasse a casa. Antes de tudo, porém, era preciso dar ração aos porcos, pasto aos bois, vacas e cavalos, milho e quirela aos pintos. Jandir já ordenhava a Boneca que, nesta época se

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mostrava generosa: mais de dez litros de leite à noite e outro tanto pela manhã. Uma caneca de leite quente, uma fatia de pão com melado, salame e queijo e estava feito o café. Pés descalços, uma lousa de pedra em cada sacola, uma batata doce tirada do forno de barro para a merenda e lá se iam os quatro barulhentos para a escola. E Ana a recomendar todos os dias: - Cuidado! Não briguem e nem desobedeçam à professora. - Tá, mãe! Os outros é que brigam, a gente só se defende!... Lá fora, no portão da mangueira o negro Pedro, quinze anos taludos, ajouja os bois para trazer a cana cortada e empilhada no dia anterior. Cana caiana grossa e doce, de um escuro quase violeta. Varas longas de mais de três metros que se dobram depois sobre si mesmas sem parar de crescer, porque o Uruguai com sua cerração não permite a geada que queima o pé da cana e da mandioca. - Vem Alegre! Vai Rio Grande! E a junta de zebus, imponentes como suas guampas arrastam pachorrentamente a carroça morro acima como se ela não pesasse nada.

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Pedro carrega. A cana arrumada, de pé sobre a carroça, forma um volume de mais de seis metros cúbicos. Um perigo para tombar. Pesada para arrastar da lavoura para a estrada e da estrada para casa. Mas Rio Grande e Alegre não se dobram. Pedro vai à frente. Fala aos bois como se eles fossem gente: - E então, meus amigos, quero ver se vocês são valentes ou não! Vamos lá!... Os bois se esticam, ajoelham na terra fofa, mas arrancam a carroça para a estrada. As palavras estimulam, dão mais força e lá se vai Pedro com a carroça rumo ao engenho. E vai pensando que os bois sentem na alma quando alguém lhes quer bem. E ajudam. Colaboram. Obedecem. “Com a gente também deveria ser assim”. Antes de descer o morro é preciso fechar bem o breque, fazendo os tamancos de madeira colarem nas rodas trazeiras. Quase travadas, elas andarão de vagar. O resto do peso os bois seguram no pescoço. - Devagar! Devagar! Segura Rio Grande!... E aqueles monumentos de carne, firmam os cascos nas pedras e agüentam o peso para a carroça não disparar.

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Enquanto Pedro descarrega, às braçadas, a cana ao lado do engenho, os bois pastam com sofreguidão a grama alta e tenra, como algo merecido. O engenho, fabricado por Leonel com ajuda do visinho Estrenghini, - obra artesanal de quem sabe dar conta dos instrumentos essenciais de trabalho - consiste em três rolos de grápia, que rodam de pé, apertados entre si em função de seus dentes de madeira engrenados e dos sulcos da canga que mantêm os eixos de cima e de baixo aproximados. Preso ao rolo do meio, um cambão gira fazendo os três rolos rodarem em conjunto, espremendo a cana que se lhes pôe no meio. A cana vai pelos rolos da direita e retorna pela esquerda. É preciso cuidado e atenção para que os rolos não engulam a mão com a cana. Ana lembra sempre os exemplos dos meninos sem braço direito, desgraçados por engenhos e pelo descuido que fez sangue e garapa esguicharem misturados antes que parassem os bois. Tudo a postos. Depois do almoço começa a liça do sábado à tarde. Os bois puxam o cambão ao redor do engenho. A garapa jorra em borbotões para a bacia de madeira e daí para as latas. Das latas para os tachos negros colocados e nivelados

sobre três pedras grandes para

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permitir o fogo com três troncos grossos que se cruzam debaixo deles. Três tachos ao mesmo tempo. E haja lenha, e haja garapa...Duas horas de moenda, de “vamos boi” e “cuidado com as mãos” e a garapa está toda nos tachos. E então é cuidar do fogo, do mexer e remexer o caldo que ferve e se evapora, para não pegar no fundo. Aos poucos o melado está viscoso, na espessura certa, para que caia sobre o pão como o mel de camoatim. O açúcar moreno vem depois, suficientemente seco para não empaçocar e que é quase uma rapadura. Quatro latas de vinte quilos de melado, cinco latas de açúcar e está na hora de limpar tudo, despejar o bagaço no potreiro para que os animais aproveitem o último sumo da cana e guardar tudo nas prateleiras do porão. E, sem ouvir recomendações da mãe, era correr para o arroio onde o buliço de vinte guris da vizinhança anunciava a festa do banho. A noite caia depressa demais para permitir mais mergulhos e brincadeiras. De alma refeita chegava-se em casa onde a mãe, de baldes na mão ordenava as últimas tarefas do dia: a ordenha das vacas “Jandir com a Boneca, Pedro com a Brasina”, o pasto aos cavalos e bois, “Gino e Irma: água e lenha para a cozinha”.

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O perfume da sopa de feijão com “talhadele”, polenta fumegante sobre o “tabiel” para cortar em fatias com linha de costurar, carne de porco dourada, molhos cheirando a alho e cebolas com temperos da horta, salames e saladas fez todos se apressarem. - Gino! Comer sem rezar!? ,ataca Ana. Pelo menos uma Ave Maria para que o pai vá bem de pescaria... - Será que é só com reza que ele consegue pescar?, provoca Gino. - Sempre que vai pescar com o dentista volta carregado de peixe, disse Ana. Pudera, ele tem todos os apetrechos necessários! Aquela janta era um banquete para crianças em idade de digerir pedras. Os olhos de Pedro se iluminavam de prazer; repetiu três vezes a sopa e depois acampou-se na polenta e porco. Ana incentivava: - Comam que vocês precisam ter força... A paz caía como um chumbo sobre aquela casa. Enquanto isso, no remanso em que o rio Paloma encontra o Uruguai, Frederico, Leonel e Bastião acabavam de examinar as redes: três lindos dourados beirando a cinco

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quilos cada um, seis piavas e oito grumatãs. Já tinham pescado mais de cinqüenta peixes naquele dia. - O melhor vem hoje à noite, comentou Bastião - Impressionante, mas nem uma traíra, falou Leonel. É verdade que o dourado é ótimo, mas não há peixe que bata a carne de traíra. - Se caírem alguns surubis nos espinhéis ou nas linhas de espera a pescaria estará perfeita, arriscou Frederico. Eu queria levar um dourado e um surubi, só para mexer com os colegas de Erechim. Eles não sabem a beleza que é uma pescaria! Ao redor do fogo, os três sentados em suas cadeirascatre e um pelego - que é tudo o que têm para dormir -, saboreiam com olhos reluzentes, quase infantis, o dourado assando de vagar. Concentrados na labareda luxuriante do fogo, suas piadas rodam por caminhos inimagináveis do viver. Um garrafão de vinho da colônia Esperança, um litro da “melhor cachaça da região” fabricada e trazida por Bastião, e riem quase por nada, por qualquer motivo que permita rir.

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O sininho de uma linha de espera trilou nervoso... e foi aquele tumultuado corre-corre na escuridão. Bastião resvala água adentro...Frederico grita: - É na minha, e é grande... - Comerei assado no dedo, zombam os outros. Era um surubi. Bonito surubi. Lutou para fugir. Mas depois de dez minutos Frederico arrastava-o para a grama. Negro como a escuridão, as pintas brancas deixavam-no mais preto ainda. E todos aplaudiam: - Este merece um copo de vinho. - Quanto quilos, Leonel?, dizia Frederico orgulhoso de si e de sua façanha. - Uns oito, calculo, disse Leonel, não passa de nove e nem tem menos de sete. - Leonel sabe das coisas, comenta Bastião. É açougueiro. Nunca vi ele errar de cinco quilos no cálculo de peso de uma novilha viva. - E é o primeiro surubi, destacou Frederico. - Mas não será o último provocou Leonel. Este rio tem muito surubi e bem maiores do que este. Já pesquei um de vinte e dois quilos.

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- Pesquei vários acima de trinta, instigou Bastião. Surubi como este nós quase usávamos para isca. Enquanto isso o dourado ao fogo já virava carvão. - Tá aí no que dá a gente ficar falando à toa e contando lorotas, disse Frederico. - Mas nem tudo se queimou atalhou Leonel. E apanhou um bom naco ressequido, limpou as escamas com a faca e mascava com saboroso enlevo aquela delícia sapecada com um bom gole de canha. Todos comeram e acharam bom. E riram como meninos que se agarram à infância e à felicidade de viver. Domingo de manhã, escuro ainda, Ana acorda Jandir e Gino, estimula-os e ajuda a encilhar o cavalo tordilho e a egüinha baia para que, pelo menos eles estejam na missa pela família. São quatorze quilômetros de estrada pedrenta e montanhosa para chegar a Rio Novo (que agora chamam de Aratiba). É preciso apressar-se. A missa é às dez horas. Gino, Jandir, Nelson e Olavo, em tropelias e jogos de carreira morro acima e morro abaixo, sempre chegam cedo à matriz.

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Todos sabiam que era preciso ficar atento ao evangelho e ao sermão para poder traduzi-lo às mães quando retornassem. Assim elas permaneciam vinculadas ao eixo religioso de sua fé. Finda a missa, no quiosque em frente à praça da matriz, um, dois ou três sorvetes e voltar a galope para casa. Galinha ao molho que só Ana sabia fazer e aipim manteiga, e saladas verdes de “radici” fresco temperado ao vinagre de vinho tinto e rodelas mínimas de toucinho frito com alhos e cebolinhas e sobremesa de sagu tudo era uma festa dominical. - E então, o que o padre disse? Que recomendações ele fez. E o Evangelho... de que parte vocês mais gostaram?... Assim os filhos iam aprendendo o quanto era valiosa a missa aos domingos, e o evangelho e a palavra do sacerdote que se acatava sem discutir. - O principal da vida está aí, dizia Ana. Leonel voltara antes do almoço. Bastião, que morava à beira do rio, ficara com um surubi para o almoço com seus dez filhos. Não queria mais. Uma noite dessas jantaria uns peixes com Leonel. Frederico, apenas almoçou

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e partiu. Queria chegar mais cedo em casa. Só levou um belo dourado de seis quilos e o surubi que ele mesmo pescara na véspera. - Leonel fará melhor proveito com os outros peixes, dizia. Aliás, nem pesco para levar peixes. Eu gosto da festa, do companheirismo à beira d´água e do almoço de dona Ana. Leonel, que aprendera dos pais e avós imigrantes que “é um pecado jogar fora alimento”, guardava feliz, como menino que ganhou um campeonato, o restante dos peixes. Mais de sessenta incluindo os doze grumatãs (corimbas7) que ninguém aprecia porque têm gosto de barro. “É que eles não sabem prepará-los, pensava”. De calção, sem camisa, um boné velho na cabeça, à beira do tanque de água corrente que vem fresca das pedras do cerro, disseca a preciosidade de sua conquista. Abre os peixes pelo lombo, retira-lhes as entranhas e a espinha por inteiro e contempla com prazer aquelas largas mantas que salga e estende sobre um cavalete de madeira para escorrer. Primeiro os dourados, os mais saborosos, os mais lindos. Depois as piavas (vieram poucas porque não caem na linha 7

Nome popularizado de corumbatá.

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e dificilmente se enredam). Depois os surubis, os primeiros a serem comidos, porque sua gordura e sua pele resistem à salga. Facilmente estragam. Depois os corimbas dos quais Leonel retirava com cuidado os dois filetes de barro que trazem no lombo e sem os quais têm o gosto de piava. Os cascudos escuros e espinhentos, mas cuja carne branca não tem espinhos, era para a festa da criançada. À tardinha, todos eram convocados para transportar as mantas escorridas e salgadas para a parte superior do sobrado, onde, em uma série de cavaletes pertinho do telhado de zinco secavam em uma semana. Ana, num misto de prazer e queixa notava: - A casa toda vai cheirar a peixe. Não era, porém, para reprovar. Era apenas para avisar ao destino a consciência do desconforto de viver. E ela participava, com olhos que então se faziam mais claros, quase azuis, iluminando seu rosto cúmplice com a conquista de seu herói pescador. À noite, ela já sabia, ele viria, com toda a pujança em busca de seu corpo e do delírio. Não antes, porém, de rezar o terço depois da janta.

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CHOCOLATE

- Jandir, disse meu pai, pega o cavalo tordilho, um saco de milho e um de trigo e vai depressa ao moinho do Manoel Leite. A Ester do Estrenghini também vai. Cuidemse ao atravessar o rio. O vau é perigoso especialmente depois da chuva de ontem. Tudo foi rápido. Pedro ajudou-me. Em dez minutos estava na estrada pedregosa que desce até o Tombador do rio Uruguai e, então desvia para a esquerda até o passo do rio Paloma que, entre muitos arroios tributários também recebe as águas do Encantado, do Esperança e do Rio Azul. Atravessá-lo a cavalo é fácil quando está baixo. A água escorre, em suave cachoeira, com profundidade de menos de meio metro, por cascalhos que favorecem a travessia. Quando chove, porém, rapidamente suas águas sobem e, se o animal não se mantiver firme nos cascalhos cai para dentro de um poço muito profundo e longo. Era preciso manter-se na borda de cima da cachoeira.

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Além do dinheiro da moagem que mamãe me alcançara, apanhei na gaveta da venda mais dois cruzeiros, sem pedir nem avisar a ninguém. Na venda do Valdomiro comprei com eles uma bela barra de chocolate. Convidei Ester com um pedaço e devorei logo a preciosidade. Esperamos uma hora para que a farinha ficasse pronta. Quarenta e cinco quilos de farinha era um excelente rendimento para um saco de 60 quilos de trigo. Além disso vinha o farelo para os leitões bem como alguma quirela do milho. O cavalo era forte para agüentar 120 quilos de produto e meu peso que não baixava de 40. Chegamos, de retorno, ao passo do Paloma que tínhamos vencido à tarde sem muita dificuldade. Agora suas águas barrentas subiram. - Vamos! Disse Ester. - Vamos, disse eu para não mostrar medo nem passar vergonha diante de uma mocinha. Ester tinha 14 anos e eu 10. Estava escurecendo. Ester foi à frente, como para indicar o caminho, mantendo as rédeas curtas de sua égua brasina, sempre na beira de cima da correnteza. Eu fui atrás. Mas meu cavalo

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tinha mais peso no lombo. Imaginei dar-lhe rédeas soltas e bater com os pés na barriga para que ele seguisse a égua. O tordilho entrou na água. Quando sentiu que a correnteza lhe dava acima da virilha, tentou baixar-se como para iniciar a nadar. Ester gritou de lá: - ele se deita! E eu entendi: - deite-se! Meu cavalo quase tombou correnteza abaixo. Um pouco de sorte, um pouco de proteção do anjo da guarda (eu deveria cansar uma dúzia por dia), um pouco de instinto do animal fez com que ao dobrar-me para trás, puxasse as rédeas e o cavalo sentindo-se instigado, aprumou-se e enfrentou a passagem. Suspirei fundo. Ester riu. Já na margem ela considerou: - molhamos, no mínimo, metade da farinha. Já era escuro quando chegamos. Mamãe esperava na porta: - Ainda bem que chegaram. Estava apreensiva. Ester, você quer que Jandir te acompanhe até em casa?

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Ester disse que não era necessário e que ela conhecia bem o caminho, mesmo na estradinha do mato. Mamãe entendeu logo porque a farinha molhou. Separou a farinha seca da molhada. Com esta propôs fazer logo uma fornada de pão a mais e usá-la em primeiro lugar. Enfim, tudo parecia estar no devido lugar. Nem tudo, porém. Valdomiro era muito amigo de meu pai. E à tardinha quando se encontraram, compadres que eram, e zelosos ambos pela educação dos filhos (Valdomiro tinha 16), ele contou a papai a história da barra de chocolate: - Não quero intrometer-me na vida do compadre e de seus filhos, mas acho que tenho obrigação de avisar (gostaria que fizesse o mesmo com meus filhos) que Jandir, cada vez que vai ao moinho, pára aqui na venda e leva uma barra de chocolate. Eu ganho com isso. Mas, não sei se ele tem autorização tua ou se o dinheiro é dele. É apenas por amizade. Papai agradeceu sinceramente. Antes da janta, mamãe sussurrou-me perto do fogão:

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- Que é aquilo das barras de chocolate? Prepára-te para a surra. Valdomiro contou tudo ao pai. Sentamos à mesa grande no canto da sala com seus dois bancos de madeira encostados à parede em L, e jantamos como se nada houvesse. Excelente sopa de feijão, saladas, polenta com galinha ao molho, arroz, feijão, pimentões... Eu já não tinha fome, olhando sempre para o cinto dependurado na parede em frente, como se fôra o símbolo da autoridade do pai e o tormento para nossas traquinagens. Terminada a janta com calma papai falou: - Jandir, (eu tremi nas bases), vem cá ao meu lado. Eu queria mesmo conversar contigo. E iniciou, com a calma que eu nunca vira em sua fala: - Você sabe que, somos pobres, muitas bocas e necessidades, mas a gente luta para dar conta como pode. Muitas vezes, na roça, passo a manhã inteira sem tomar água para não interromper o trabalho e ir até a fonte beber. Fica longe. E vocês estão na escola. E é preciso que vocês estejam na escola e aprendam um pouco para viver. Mas

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um pouco de sacrifício faz parte da vida. E eu o faço por vocês. Eu não imaginava, olhar atento, medroso, confesso, por onde iria chegar ao assunto... - Quando, porém, alguém está doente, fraco, anêmico,-

continuou ele,- é preciso dar mais atenção,

reforçar a alimentação também. Eu me sabia forte como um tourinho... onde é que ele quereria chegar? - Assim, prosseguiu ele com serenidade, se você se sentir doente ou fraco, pode pedir um chocolate que a gente se esforça e consegue. Está bem? Nada mais falou. Não bateu. Não ralhou como seria de esperar e era de seu costume. Minhas pernas afrouxaram. Sentei-me no banco sem balbuciar sílaba. Entendi. Foi muito mais forte e eficaz do que ter levado uma surra. Quem ensinara a meu pai tanta pedagogia?

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A MUDANÇA O caminhão encostou de ré na porta superior do sobradinho de madeira em que morávamos no Pinhão.. Pertinho da Igreja. Eu tocava o sino. Seis da manhã, meio dia e seis da tarde. Todo vale ouvia e parava para a Ave Maria. O ritual e o som do sino enchia a vida dos velhos, jovens e crianças. Era o ritmo da vida. Sentia-me importante. Como se todos obedecessem ao gesto de minhas mãos. E havia o toque de agonia, de falecimento – batida única, espaçada, triste -, de convocação para o terço e a missa – eram três vezes de badaladas soltas e uma de repique para indicar que a cerimônia já ia começar. Os meninos

de

minha

idade

invejavam,

ajudavam,

atrapalhavam e o padre reclamava da desordem. Agora, era a mudança. Iríamos

morar

no

Bentevi.

14

quilômetros

Esperança a baixo, na Barra do Encantado. Pertinho do Uruguai. Papai conseguira comprar pouco mais de 15 hectares, com um armazém na mesma casa de moradia, por 4 contos de réis. O amigo Rech emprestara-lhe o valor, de

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boca, para devolver em 3 anos, pagando 8 por cento de juros ao ano. Era pouco. Mas dava para recomeçar a vida depois que um parente safado lhe negara a dívida de 28 contos de um empréstimo que deveria ser honrado com o fio do bigode. Não contava que

os tempos mudavam.

Muitos raspavam a barba e o bigode. Entre cobrar a dívida a bala ou recomeçar, mamãe aconselhara a recomeçar. Ela ajudaria. Deus abençoaria. Ele tinha muito mais a dar. Ameaçava chover. Papai encarregou um peão amigo, Bastião, para que, comigo, tropeasse as poucas rezes que tínhamos (três vacas de leite, uma junta de bois mansos, dois terneiros e 3 cavalos) até o Bentevi. Que não esperássemos a chuva. Eles iriam depois. Mal estávamos no alto do cerro que dá para a linha Esperança e desabou a chover. Andávamos de vagar. Chegamos, quase noite. Ensopados de corpo e alma. Eu tiritava de frio. Abrigados no porão alto da casa que servira de garagem a um caminhão, Bastião, expedito, pôs logo ordem nas coisas. Trocou um dos dois litros de cachaça que trazia por dois bons feixes de canas de milho com as espigas bem granadas. As canas e as palhas eram para as vacas e

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terneiros, as espigas eram para nós. Os bois e cavalos foram soltos no potreiro. O vizinho Cauduro veio dar-nos boas vindas e trouxe salame feito por ele e um pão de forma. Em troca levou dois baldes de leite. Ficamos com dois litros para jantar. Ordenhadas, as vacas e terneiros foram à estrebaria. Um fogo bem no meio da garagem, para evitar incêndio. E a janta: espigas de milho assadas nas brasas, pão novo e fofo como carinho de mãe, salame com gosto forte de pimenta e noz-moscada, e leite ainda morno. Era um banquete. Nossas roupas secando ao fogo, eu olhava para as labaredas tão amigas, tão familiares e aconchegantes e aquecia o coração na espera da mudança que não chegava. - Eles não virão hoje, chove demais, disse Bastião. - E onde vamos dormir? Perguntei. A casa está vazia. - No quarto grande, aqui ao lado, no porão, tem palha seca de milho, falou ele, piscando um olho como um convite à superação do medo. Um pelego sobre as palhas foi a mais fofa cama que o menino de 8 anos poderia desejar.

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O PORCO É A SALVAÇÃO DA LAVOURA

- A gente cansa de trabalhar e não ganhar nada. É que nós colonos somos muito burros, dizia a Leonel o vizinho Estrenghini. No ano passado o trigo rendeu muito bem: um saco de trigo Fontana produziu mais de quarenta, meio saco de pelado me deu 32 sacos na trilhadeira. Mas na hora de vender é que a gente vê a exploração. O preço baixou a quase metade do ano anterior. Resultado, ganhei menos do que no outro ano e as mercadorias que a gente compra sobem, sobem e não param de subir... Temos que encontrar outro caminho. - Eu já tenho outro rumo para este ano, replicou Leonel. Vou engordar porcos. Os Locatelli, os Buttini foram muito bem vendendo porco gordo para os frigoríficos de Concórdia, ali em Santa Catarina. Comprei os dois alqueires8 de mandioca de 3 anos do Nelson Danner9, 8

O alqueire de referência de Leonel é 2,43 hectares. Em regiões muito frias, a mandioca deve ser arrancada a cada ano porque o gelo mata o pé. Na costa do rio Uruguai, porém, a neblina impede a formação de geadas, permitindo que a cana de açúcar e a mandioca possam continuar crescendo por 2, 3 ou mais anos. 9

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plantei mais 4 alqueires de milho, batata doce e abóboras tenho de sobra, alguns sacos de soja e está feita a alimentação para cento e vinte ou cento e trinta suínos. Logo depois de outubro comprarei uns 150 porcos magros, de preferência duroc. Vou tentar. - Quem sabe não esteja aí a salvação da lavoura, como dizem os políticos na hora dos votos!, acrescentou Estrenghini. - Especialmente aqueles que nunca trabalharam e que pregam a policultura, isto é um pouquinho de cada coisa (trigo, milho, arroz, batata, galinha, uns porquinhos, uma vaca de leite...) e que mantém a gente sempre pobre e na miséria, disse Leonel. Eu quero concentrar o fogo no porco. Se a sorte me ajudar e o preço não cair na hora da venda, acho que vou me safar bem. É lógico que as galinhas e os ovos sempre desapertam para comprar um carretel de linha, um quilo de sal, um metro de chita. Uns sacos de trigo para o pão, o milho para a polenta sempre haverá. Mas, pra vender, terei porco gordo. Enquanto falava, entre uma baforada e outra de seu palheiro com o fumo especial de Sobradinho, os olhos de Leonel quase se fechavam. Vislumbravam os caminhões

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que encostariam no chiqueiro carregando suínos já antes do inverno. Escutava os guinchos agudos da porcada que resistia a ser encantonada e arrastada para a viagem. E o controle no pêndulo da balança e na anotação dos pesos porque os comerciantes são rápidos e espertos em suas contas. No início de novembro, com as tábuas de duas enormes grápias arrastadas desde o fundo da roça por três juntas de bois e entregues aos Berticelli para serrar a meia, Leonel arrumou e ampliou o chiqueirão. Assoalho a um metro do chão para permitir a limpeza, cochos compridos ao redor de toda a parede e estreitos o suficiente para apenas permitir ao porco comer e beber e não deitar-se nele sujando o alimento e a água corrente. Uma aba de telhado para proteger do sol. Tonéis de aço de duzentos litros para cozinhar mandioca (crua pode matar) e batata misturadas ao milho e soja. Tudo para evitar o improviso. Domingo à tarde, depois do terço na capela, enquanto jogava um quatrilho na venda do Valdomiro, buscou informações de quem teria porcos magros para vender. Soube de uma dúzia de vizinhos nas linhas Esperança, Encantado, Volta do Uvá, que tinham alguns.

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Evitou o assunto, camuflou seu interesse. Despertaria a cobiça. Segunda feira, antes do sol, já apeava de seu cavalo, em frente à casa de Minela, lá na Volta do Uvá: - Ei, seu Carlos, ainda temos chimarrão, ou a água terminou? Foi gritando espalhafatosamente Leonel. - Chegue,..Chegue no mais, amigo, que o chimarrão recém foi encilhado! Mas... a que devo o prazer desta visita? Vejo que também por lá o sol nunca pega ninguém na cama... Depois das introduções, da narração entusiasmada da última pescaria, cujo troféu (um belo dourado de 12 quilos) pendia sobre o fogão a lenha para secar... depois das notícias sobre a próxima festa do padroeiro e das carreiras vindouras, entraram logo no assunto: - O senhor tem algum porco magro que queira vender...iniciou Leonel. - Pois olha, não tinha pensado, mas tenho alguns capados que posso vender. - E o preço? O gordo está valendo um e vinte. - Vendo pelo mesmo preço. Vendo doze.

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- Sem pechincha. Feito o negócio. Postos lá em casa... pode ser amanhã à tarde? Tenho balança. Pago na hora, terminou Leonel. - Combinado. Numa semana lá estavam 165 porcos, magros, esquálidos, ossudos, mais feios que a tuberculose. Nenhum parecia doente. Mas, por via das dúvidas, Leonel aplicoulhes uma semana de dieta de milho e abóboras cruas: “semente de abóbora é o melhor vermífugo”. Quinze dias depois a pele deles começou a alisar-se os ossos a esconder-se e a gritaria por comida a aumentar. Dois meses depois não pareciam os mesmos. A maior parte do tempo permaneciam deitados. O peso triplicou. Leonel mostrava satisfeito o resultado para os vizinhos. - Mais vinte dias e estarão prontos. E o preço está bom, comentava. O filho mais velho, acompanhado pelos avós que retornavam para Jacarezinho, iria para o internato em Tapera com duas mudas de roupa numa sacola improvisada de uma fronha. O dinheiro para comprar suas roupas e pagar a pensão iria logo depois da venda dos porcos. Afinal, as coisas começam a mudar.

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Passou-se um mês. Quarenta e cinco dias. E, para o filho, nem uma notícia de casa. O inverno chegava. Dinheiro não veio. A aflição do fê-lo escrever a terceira carta. Uma semana depois a resposta a lápis, papel de embrulho, poucas linhas. Quase um telegrama: - Meu filho, não esperes dinheiro. Os porcos morreram todos. Foi a peste. Perdemos tudo o que investimos. Mas, fazer o quê? Deus há de providenciar. O frio daquele inverno foi menos frio e dolorido do que saber da tristeza e desilusão do pai que pensou que a “o porco fosse a salvação da lavoura”.

CANCHA RETA

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Cinco da manhã. Final de abril. Ainda escuro. Os galos do vale respondiam uns aos outros as provocações de seus qui-qui-ri-quiiii...A lua cheia descambava atrás do morro do velho Germano. Os olhos adivinhavam os vultos das casas, árvores e animais do vale. A serração

do

Uruguai se adensava e molhava como chuva fina. - Jandir, chamou Ana, de sua cama, no andar de baixo do sobrado de madeira. Fingi que não ouvi. E, olhos abertos, degustava o morno acariciante da cama. - Jandir, insistiu ela. - Âhhhh... espichei eu. - Levanta que é quase dia e é preciso encontrar e trazer a vaca! Boneca, a vaca holandesa de estimação, prenhe e chegadinha, como dizia meu pai, não viera à mangueira aquela noite como de hábito. Deveria ter parido abrigandose em algum caponete lá nos fundos do potreiro. Se o terneiro mamasse seria um trabalho dobrado desmamá-lo depois. Por isso papai, depois da janta, recomendou que,

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antes do clarear do dia a Boneca fosse encontrada e conduzida à estrebaria. A egüinha baia estava perto da porteira. Uma espiga de milho, o bucal, e lá fui eu, em pelo, à cata da holandesa. Atravessei o arroio, chamei, percorri a cancha de corridas de cavalo que se estendia ao fundo do potreiro por duas quadras, formando dois sulcos retos, paralelos, 30 centímetros de profundidade e lá, depois do partidor encontrei a Boneca lambendo seu lindo e desajeitado bezerrinho. Foi fácil encaminhá-la para casa. Mas, guri de 10 anos, não me contive. Passar pela cancha reta sem dar um galope na egüinha era demais! Voltei. Afastei o gado, que estava deitado ou pastando, para longe da cancha. Fui até o partidor. Enquadrei a baia. Puxei-a no buçal para prepará-la. E, com um aceno largo de braço e o grito de guerra “brrrr.... “ que ela bem conhecia, dei-lhe rédeas e apertei os calcanhares. Era um gozo inebriante, quase orgástico, sentir a égua encompridar-se baixinha no empenho de correr desabridamente.

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Inclinado para frente, quase deitado sobre seu pescoço, para não oferecer barreira ao vento, a serração fresca e molhada lavando a cara e eriçando o cabelo, eu vinha confiante e feliz no lombo da minha baia. Vencida mais de metade da raia, porém, de súbito, eis que surge, logo ali, a metros de distância um vulto humano parado no meio da trilha em que eu vinha. - Um louco, pensei. E, num relance, no golpe de vista mais rápido que já fizera,

instintivamente,

confiando

absolutamente

na

capacidade e na docilidade de minha montaria, puxei a baia para a esquerda, jogando na mesma inflexão todo o meu peso para arrancá-la da pista. Seria possível? Naquela velocidade? A cabresto? Tudo faiscou como um relâmpago na minha mente. Só restava tentar o impossível. Apoiei a mão direita bem na direção da junção das patas dianteiras e na hora em que elas batiam firmes no chão, levantei meu corpo, tentando liberar a égua do peso do para o próximo pulo... E a baia conseguiu. Saltou para fora da raia. Três longos pulos em roda. E estacou. Eu, os braços em volta de

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seu pescoço, dei uma volta completa sobre ele e voei derrapando sentado pelo gramado úmido. Não me machuquei. O susto, porém, foi grande. A egüinha permanecia estática, à espera., como que a dizer: “eu não fui a culpada, eu fiz o que pude”. No meio da raia, boquiaberto, petrificado como um fantasma estava o negro Pedro. - Que fazes aí, animal! Resmunguei. Não viste que eu vinha? - Ouvi a zoada, balbuciou, e fiquei curioso. Nem me dei conta que estava no meio da trilha. Eu vinha pegar os bois para a carroça. Os quero-queros pareciam mais furiosos aquela manhã. Não falei nada a ninguém.

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EU VI DEUS

Noite clara de lua. Final de novembro. Mês dos finados. De todos os santos. Ninguém de aniversário. Uma brisa suave e fresca espantava o mormaço daquela tarde. Voltava da costa do Uruguai em minha egüinha baia. Fora levar uns recados de negócio que meu pai mandava para os Deval. Marcha solta e serena. Rédeas frouxas na mão. As cachoeiras do rio ressoando suave e plenamente na amplidão da cabeça. Grilos eufóricos. Pirilampos em miríades salpicavam os campos e as lavouras de luzes infantis. Eu vinha pensando em nada. Simplesmente sentido o frescor da noite e admirando minha egüinha, de pelo cor de ouro e sol, um baio doirado, lourice de animal. Tão rápida, tão mansa, tão prestativa. Ela e eu nos entendíamos, pela voz, pelo gesto, pelo contato de pernas, calcanhares, pelo olhar. Bater nela? Sofrená-la? Para que? Não era necessário. Bastava insinuar e ela correspondia.

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Vencera os potreiros e as roças dos Filbert, a curva fechada da sanga dos Locatelli, estava no plano aberto e alto dos Berticelli. De um lado a cerca do potreiro limpo do Esperandio, com gado pastando, do outro a lavoura de mandioca de Ranner, tudo iluminado pela lua cheia. Quando, ao final daquele altiplano, a estrada iniciava a descer para a minha casa, uma surpresa. Bem no meio da estrada, a uns três metros alto do chão, com aquelas barbas e vestimentas brancas que aparecem na primeira página da Bíblia, estava Deus, de braços abertos. O rosto, os braços largos, as vestes, os pés quase transparentes, eram tais e quais. Gelei. Como a baia não parasse, nem desse sinal algum de estranheza, o que ela fazia sempre empinando bem as orelhas, freei. Olhava para aquele Deus a me esperar. Fugir? Desviar? Sem chance. Agarrei a minha vida de guri de 10 anos com as duas mãos da consciência. Examinei-a pelo lado direito e pelo avesso, e pensei: Ele vai me pedir contas dela. Pensei em todos os pecados que eu poderia ter, desde as mais leves

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às mais endiabradas traquinagens. Fiz um ato de contrição. Pedi perdão e suspirei. Parado, tartamudo, esperei. Mas aquela figura não se mexia. Não avançava. Não recuava. Não se elevava. Não baixava. Tremendamente fixa, à minha frente. Depois de um tempo, que me parecia infinito em minha pressa de menino para sair do impasse e chegar em casa, resolvi agir: vou passar, aconteça o que acontecer. Segurei a egüinha no freio para ver se ela percebia alguma coisa. Mas suas orelhas davam sinal de nada. Certamente, raciocinei, os animais não são capazes de ver e entender a Deus... E então, lentamente fui passando, passando... Ao passar, estaquei e dei, por dentro de mim, a risada mais gostosa de muito tempo. Em silêncio, para que a baia não risse de mim. Lá à frente estava a lua cheia. Em volta dela uma pequena e solitária nuvem branca. A lua e a nuvem projetadas sobre os galhos de um loureiro à beira da estrada, faziam a imagem do Deus Pai criador e juiz do mundo.

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Não me conformei. Voltei. Queria ver se era verdade. E lá estava desenhada a figura de Deus, de braços abertos, vestes brancas esvoaçantes. Tal e qual. Fui rindo até em casa. Rindo de mim e rindo de nosso vizinho que, alguns dias antes, dera um tiro numa folha de bananeira que balançava ao vento e nela ele vira a cara, o corpo, a mão e arma de um bandido.

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QUADRA E MEIA EM CANCHA RETA

Sábado à tardinha. Final de janeiro. O grupo de sempre na venda de meu pai em Bentevi. Quinze homens conhecidos, reconhecidos e até amigos das vizinhanças. Dois grupos de quatro jogam “nove” numa atenção solene como se disso dependesse o destino de suas vidas. - Peço uma carta... - Eu não quero carta... - Eu estou fora... E espreitam as cartas, leque quase fechado na mão, olhos miudinhos, cerrados para a alta concentração... e mostram o resultado: - Eu tenho sete - Eu tenho um quatro, um cinco e uma velha... melhor que este nove só este nove. E riem, garganteiam e provocam: - Desconheço galo que cante no meu terreiro. Entre um trago e outro de canha com Bitter, Bastião levanta a voz pedindo atenção:

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- Domingo, daqui a 15 dias, tem carreiras, lá na minha várzea... - Que carreiras estão atadas? Pergunta Alcides. - Temos várias carreiras: O cavalo do Cauduro com a égua do Estrenghini. Esta é a principal. É pra levantar poeira e apostas. Depois tem o cavalo do Minella com o do Berticelli; o meu zaino com o potrilho do Deval e outros matungos mais. - Matungo por matungo, gritou Pedro Deval eu desafio qualquer um para uma corrida a pé. E em quadra e meia, com apostas, juiz e tudo o mais. Jogo um churrasco encilhado pra 15 pessoas com bebida e sobremesa. A estranha proposta causou estupefação... Todos se entreolhavam. Ninguém se propunha a enfrentar a aposta. Ninguém arriscava, considerando a fama de corredor que Pedro tinha. Leonel, oitavado no balcão, uma toalha atirada sobre o ombro esquerdo, coçou o queixo e lascou: - Eu gosto de comer churrasco, especialmente se é de graça. Se ninguém se anima, eu aceito o desafio. Todos pararam e se voltaram para Leonel com um misto de estupefação e de dúvida: ele deve estar brincando!

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Como, porém, a fisionomia dele estava impávida e resoluta, entre risos que não se sabia se eram de pena ou de encorajamento, todos bateram palmas. - Isto mesmo, Leonel. Eu conheço tuas corridas atrás das lebres e veados por estas canhadas. Aposto em você, compadre, disse Valdomiro. E toda a atenção, até noite adentro se voltou para a estranha corrida que se atara para dali a 15 dias. Seria na cancha reta do Bastião. Depois dos trabalhos da lavoura, ao escurecer, durante dez dias Leonel treinou-se na cancha dos fundos do potreiro. Sábado ao meio dia, véspera da corrida, Leonel já estava com a mercadoria sobre a carroça para armar a copa no outro lado do Uruguai: 20 caixas de cerveja, 10 de gasosa, um barril de cachaça, Bitter, framboeza, e biscoitos, rapaduras e um saco de pães grandes, fofos, feitos por Ana e outras miudezas.. A carne do churrasco Bastião providenciaria. Antes do escurecer a ramada para a copa já estava armada. Palmas de coqueiro por cima, uma tábua para

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balcão em toda volta, um tonel de gelo mergulhado na serragem, que veio de Erechim, para refrigerar a bebida. Agora, era descansar sobre um pelego, ouvindo o som do Uruguai na cachoeira a duzentos metros dali, esperando o momento de mostrar como é capaz de correr um trabalhador calejado de 40 anos. O dia amanheceu devagar. O sol esforçava-se para infiltrar-se e dissipar um pouco, aos pedaços, o lençol denso de neblina baixa que amordaçava e molhava prometendo um dia quente e abafado. Do meio da serração, como fantasmas, surgiam de toda parte cavaleiros de chapéu grande esporeando valentemente suas montarias. Quando o sol conseguiu varrer a neblina, impôs-se a rachar. Não eram 11 horas, a canha rolava solta, as vozes cresciam de entusiasmo, os meninos apostavam carreiras com seus petiços... A primeira corrida oficial, às 11 e meia, seria a de Pedro e Leonel, pés descalços, em quadra e meia. Depois a areia estaria demasiado escaldante para correr a pé. As apostas eram uma festa: “jogo dez no Leonel e dou um metro de vantagem”; “aposto vinte no Pedro e dou dois metros de luz”; “aposto 50 no Leonel nos primeiros

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cem metros”... Uma pessoa de confiança para ambos ficava com o valor das apostas para pagar no resultado. Onze e quinze e já estavam os dois no partidor. Germano era o juiz da largada. Um tiro de revólver era o sinal. A multidão se espremia na cabeceira da pista. O juiz Estrenghini auxiliado por Alfredo procurava afastar a todos, “pelo menos dois metros... por favor... pelo menos dois metros da raia”. Germano, revólver para cima: - O pé atrás da linha... E é um... é dois.... e buhm... - E lá vieram, gritou Alfredo e todos gritaram. Pedro pulou na frente. Leonel não se importou: - Corrida curta é pra petiço, gritou... E apertou o passo. Aos 50 metros vinham juntos, parelhos, orelha a orelha,... até o cem metros. Leonel tenteava os passos de Pedro para verificar se era tudo o que ele podia dar. E então reuniu todas as ganas de guri que ainda moravam em seu peito e suas pernas que acompanhavam os veados, distanciou-se um, dois, quatro metros... E manteve o ritmo. Um riso grande misturado com suor e esforço iluminava

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sua façanha. E assim, debaixo de um vozerio infernal de torcedores cruzaram a linha de chegada. Erguido nos braços pelos companheiros, no delírio de sua vitória, Leonel lembrava de sua cançoneta preferida: “... oi que cavalo bom!...” As outras carreiras, foram retardadas para o final do dia para que o sucesso da primeira não ofuscasse o brilho e a importância das principais. Ao retornar, sol já posto, nenhuma garrafa cheia, na travessia do rio, quase lhe cai a carroça da barca. Esqueceu de calçá-la. E não era para esquecer?

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VERDADES DE PESCADOR

- É verdade! Dizia, com convicção, Joanin aos compadres Leonel e Luiz. É a pura verdade! Vocês não acreditam? Pensam que eu sou mentiroso? É um desaforo! - De forma nenhuma! Retrucou Leonel. Onde é que se viu pensar que nós possamos desconfiar de ti, Joanin? É que ficou tão engraçado que até parece impossível. Mas, toma lá o chimarrão, que eu vou contar também o que me aconteceu. Quando eu ri, é porque me lembrava disso. Antes, porém, de Leonel falar, sentados à sombra frondosa do cinamomo-sombrinha, em frente à casa, os três compadres fizeram um pacto entre si. Cada um poderia contar o que de fato lhe aconteceu, e, por mais extraordinário que fosse ou parecesse, ninguém poderia rirse ou por em dúvida a palavra do outro. Ana, que encaminhava umas costuras na saleta ao lado e que escutara o pacto dos três, debruçou-se na janela dizendo:

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- Eu também quero ouvir. Em seu olhar risonho, confiado e matreiro estava toda a aposta do mundo... - Então, eu começo, disse Luiz, ajeitando a palha de milho atrás da orelha e, pernas dobradas, ia picando o fumo amarelinho na palma da mão. - Foi no ano passado. Fomos pescar, um pouco abaixo das cachoeiras do velho Bastião. O tempo estava p ´ra chuva. A pescaria prometia. Fomos quatro: O Bépi, o Tonhon, o Alfredo da Joana e eu. O fogo, na clareira do caponete logo acima da barranca e o poço fundo à nossa frente. Nem esperei o mate que Alfredo me oferecia: primeiro as linhas, logo vai escurecer. Enguliu a saliva para marcar a seriedade do que viria: - Tomei a linha mais grossa, que parece um sovéu de 80 metros de comprimento, engatei nela o maior anzol que mais parecia um gancho de dependurar carne em açougue, espetei nele um muçum inteiro de quase meio metro como isca, segurei a linha em rodilhas na mão esquerda, rodopiei três vezes a ponta sobre a cabeça, como quem laça, e joguei. Escutei o “blum....”, lá no meio da água funda. Deixei correr um pouco para que o anzol se

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situasse no fundo e estiquei para sentir o puxão do surubi das profundezas. Enlacei duas vezes e amarrei bem a linha num ingazeiro de três metros de altura e dez centímetros de diâmetro. E ficou parado, atento, como se escutasse aquele ruído: - Agora sim, prosseguiu. Puxei uma pedra e sentei perto do fogo para o chimarrão. Ali ficamos... Palheiro, canha e rapadura... Até pouco mais da meia noite. Nas linhas, nem um beliscão. Nada. Só mosquitos a ferroar as costas. E então, eles também pararam. Os sininhos quietos. - Acho que perdemos a viagem, disse Tonhon. - A noite é escura e sem lua, o peixe grande só anda à cata de comida na madrugada, atalhei. E eu só quero peixe grande. E continuou, olhar perdido na narrativa: - Alfredo riu, espichou-se num pelego e roncou em seguida. Bépi, três linhas na mão, no alto da barranca esperava qualquer sinal. - E então, acrescentou, em suspense, a minha linha esticou, um puxão, dois puxões e a disparada do animal que fez os galhos do ingazeiro baterem n´água.

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- Oigaletê, gritei aos pulos para o lado da barranca. - Pus a mão na linha. Esticada como corda de violão. Só que a música era diferente. Sentia a corrida do peixe para um lado e para o outro no fundo do poço. Tentei puxar. A força dele era maior. Tentei uma, duas, três vezes e nada. E então pensei: - Cansarás, danado! A linha é grossa e o ingazeiro é forte. - De repente a linha afrouxou. Fui recolhendo rapidamente e senti que o surubi, - só podia ser surubi e dos grandes -, vinha para o meu lado. Aproveitei para enrolar a linha recolhida no tronco. Deixei sempre um pouco de folga para o caso de ele se atirar em fuga e, no tirão, não estourar a linha. E assim, aos tironaços e às chegadas, fui cansando o bicho. Quando o sol apareceu, eu ainda lidava com o peixe que andava de cá para lá, quase à flor da água. Cada volta que dava provocava um redemoinho no poço. Assim fui, eu cansando e ele cansado até às 10 da manhã. Leonel e Joanin disfarçavam o riso, mordendo os lábios e Luiz presseguia:

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- Foi então que, no desespero final, e sentindo que não conseguia fugir para o largo nem para o fundo, o peixe enveredou para o cascalho da barranca. Quando aquele enorme peixe saltou em terra, montei no lombo dele e segurei-o pelas orelhas. Compadres: queee pinotes! Leonel e Antônio escutavam. Olhos vivos de guris. E lá no fundo do olho, um risinho maroto com vontade de vir à tona. Mas fora proibido pelo pacto. Ninguém poderia duvidar. Antônio partiu para outra: - Não vou falar de pescaria. Vou contar um fato que me aconteceu no ano passado. Vocês sabem que eu gosto de caçar. Minha espingarda 16, de dois canos, dependurada atrás da porta, está sempre carregada para a eventualidade de aparecer um veado perto das casas. Aliás, eu gosto muito de bichos, mas caçar é outra coisa. Senti muito quando a gata angorá que vinha em cria, desapareceu de casa. Certamente escolhera um lugar sossegado para ter seus filhotes. - Mas voltemos ao assunto, continuou. Certa manhã de domingo,

por volta das 11 horas ouvi meus dois

cachorros levantando uma corrida de veado, lá no alto, na

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roça de milho perto do mato. Sabia que o veado acossado viria direto para o arroio. Assim, apanhei a espingarda e corri para perto das lages abertas que dão para o poço onde a gurizada sempre toma banho. E se fez enfático: - Dito e feito. O veado vinha quase 50 metros à frente dos cachorros. Quando chegou às lages parou para atirar-se à água. Levantei a espingarda e disparei os dois canos. Compadres: era só gata e gatinhos voando pelo ar! - Mas como é possível? Reclamou Joanin, a gata dentro dos canos? - Eu também não te perguntei como seguravas o peixe pelas orelhas, retrucou Luiz. E, em silêncio, fingiram

não rir. Não se podia

duvidar. Leonel, torceu-se na cadeira, passou um chimarrão para Luiz, esfregou o queixo e a nuca e começou: - Meu caso é diferente. Nasceu de uma necessidade real que eu tive. E iniciou: - Há pouco mais de um mês, estava em casa sozinho. Ana fora à cidade e só voltaria à noite. As crianças

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foram para a casa da avó e voltariam no dia seguinte. Estava só, eu e meus pensamentos. Digo melhor, eu e a necessidade de preparar algo para comer no almoço. Deu uma longa tragada em seu palheiro: - Não havia carne em casa. O charque tinha terminado. Os salames do porão e os toucinhos também. Não queria matar uma galinha porque eram poucas e forneciam os ovos. - Como se fosse verdade, cortou Ana, lá da janela. - Você não está na conversa e nem no pacto que fizemos, retrucou Leonel. - Está bem. Escutarei em silêncio, concluiu ela. - Pois bem, continuou Leonel, lembrei que eu poderia caçar um marrecão no banhado bem pertinho de casa. Peguei minha espingardinha 36, de um só cano. Só tinha uma bala. Mas, para quem se garante na pontaria, uma bala é o que importa. E

olhava

para

os

colegas

como

pedindo

confirmação: - E lá fui, em direção ao banhado, por dentro de um caponete sujo. Pé ante pé. Não poderia assustar a caça. Todos sentiam o caminhar na ponta dos pés:

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- Foi assim que, numa clareira de aguapés, a 10 metros de mim apareceu o primeiro e lindo marrecão. Levantei o cano de vagar. Mirei... Emartilhei... Antes, porém, de disparar, vi, logo adiante outros dois e maiores. Mudei a mira para eles. Enquanto, fazia isso, porém, pisei em falso num galhinho seco e ele estalou e quebrou. Seus olhos pararam como a esperar o estalido: - O ruído espantou minha caça. Eram 12 lindos marrecões que decolaram e, em revoada passaram por sobre o banhado e vieram altos, sobre mim. Um ao lado do outro. E ao fazerem a volta ficaram um acima do outro. Enfileirados. Não tive dúvidas, apontei e atirei. A bala certeira derrubou os 12. - Os doze? suspirou Luiz! - E eram grandes, prosseguiu entusiasmado Leonel. E ao caírem em tumulto sobre os galhos secos de uma árvore, o galho se partiu e bateu no chão. Pois,não é que, ali estava dormindo uma lebre!? O pau caiu bem na cabeça dela... No estertor de morte a lebre saltou longe e bateu no meu peito... Caí na água... Compadres: saí da água com os bolsos cheios de peixe. Minha mãe gargalhava... Mas era proibido duvidar.

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O AMOR VEM DEPOIS

Leonel saiu cedo de Campo Novo, interior do já município de Fontoura Xavier, perto de Soledade. Veio, com seu caminhão velho de puxar pinheiros para a serraria, até a encruzilhada da estrada que, de Soledade, vai a Encantado, por Arvorezinha. Encostou frente a casa de um agricultor que apareceu na varanda tomando uma xícara de café. - Posso deixá-lo aqui até a tardinha? Vou para Jacarezinho. Meu pai não está bem. Avisaram-me pelo rádio ontem à noite. - Pode sim. Mas o que tem seu pai? Perguntou. - Uma complicação de estômago e rins. Está mal. - Se o problema é rim, o remédio está aí na sua frente – e apontava para um urtigão de cânulas vermelhas, espinhento e folhas largas como as de parreira - . A raiz desse urtigão limpa os rins como uma vassoura. Na verdade esse urtigão é excelente vaso dilatador e diurético.

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Pelo sim e pelo não, Leonel aceitou a oferta e levou consigo duas raízes escuras que pareciam mandiocas. - Minha mulher, intoxicada por remédios e mais remédios, deixou tudo de lado e, numa semana curou-se e está aqui com toda a saúde, acrescentou o colono. No ônibus, por aquelas estradas esburacadas e poeirentas, Leonel ia pensando. Pensava nos desmatamentos que os imigrantes fizeram naquela região. Ao invés da mata virgem que existia até a década de 1920, com imensos pinheirais e madeiras de lei (grápias, canelas, cabriúvas, angicos, cedros...),

agora só restava alguma araucária isolada e

cheia de nós, no meio dos potreiros. Lavouras de erva mate, algumas roças de milho e feijão e capoeiras inúteis tanto para os homens como para os pássaros. Pacas, cotias, veados que ele tanto gostava de caçar quando jovem, já estavam praticamente extintos. Aquelas terras eram as “terras velhas”. Há quarenta anos, com que vigor ele lembrava, o sogro Antônio saía de Jacarezinho para aventurar-se nas “terras novas” de linha Pinhão, além de Erechim.

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Conseguira finalmente pagar a fiança em favor do irmão que comprara um moinho. O moinho foi mal. Faliu. Sem poder pagar juros e principal, o irmão fugira para Santa Catarina – não se sabia bem para onde. Restou ao fiador arcar com a dívida: “O nome, a palavra empenhada valem mais do que a vida”. E Antônio, num esforço sobre-humano , por longos 10 anos, arrancou da pouca terra que tinha o necessário para saldar as contas. Contando com a união, a força, o sacrifício de cada um dos doze filhos e muita reza e conformismo, aquele homem fez os quinze hectares (entre várzea do arroio Jacarezinho e encosta íngreme e pedregosa do arroio Argola) produzir safras e mais safras de tudo o que se podia vender. Duzentos sacos de feijão por ano, quase outro tanto de trigo, chiqueiradas e chiqueiradas de porcos, galinhas, ovos, queijos, e tudo por preços irrisórios em mãos de atravessadores. Saíam

todos

juntos,

muito

cedo,

antes

do

amanhecer, montanha acima. A carroça de bois à frente. Iam rezando. Antônio ensinara aos filhos o que aprendera do velho, religioso e habilidoso pai Pedro: orações da

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manhã, o ângelus ao meio dia e à tardinha e o longo terço à noite depois da janta, com ladainhas e mil intenções... E missa aos domingos na igreja matriz de Encantado ou o terço à tarde na capela. E tudo em latim misturado com italiano. Trabalhavam sem parar, afora o intervalo do café, até que o sol do meio dia os expulsasse. Antônio, 8 filhos e 3 filhas, todos de calças longas de tosco brim riscado para não machucar demais as pernas, eram um exército invencível no trabalho. Roçar, capinar, arar, quebrar o milho, plantar e colher e trilhar o feijão e o trigo, tudo a mão. Os menores enchiam a carroça de abóboras, batatas, mandioca e ramas verdes para levar aos animais do potreiro, ao meio dia e à noite. Em casa, com a mãe, só ficava uma das quatro filhas para, às 9 horas levar o café a todos na roça. Era a hora do intervalo e do breve descanso. Quando o sol nascia a capina do milho, o plantio do trigo ou do feijão já iam longe. - Nas horas frescas da manhã, o trabalho rende mais, dizia Antônio. E Deus ajuda a quem madruga.

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E só saíam da roça quando escurecia. Montanha abaixo, tropeçando nas pedras, - as meninas de carona na carroça -, voltavam rezando para ganhar tempo. Nos dois últimos anos, Antônio montara um grande alambique. A cachaça mantinha um bom preço. Um dia, porém, o tanque principal de garapa fervente explodiu. Por nada não morreram 5 filhos. Quando a válvula saltou, Antônio em desespero e gritando “pra fora, pra fora”, juntou os filhos pequenos pela gola da camisa e jogou-os pela janela. Um sobrinho teve queimaduras graves. - Pena! , comentou Antônio, no dia seguinte. Agora que tínhamos liquidado a dívida. Pôs tudo à venda e planejou: - Com o dinheiro da venda desta terra cansada compraremos três colônias novas em Erechim, uma para Albino, uma para João (os dois filhos mais velhos e já casados) e outra para mim. Em pouco tempo cada um terá seu pedaço de terra. Deus nos ensinou a trabalhar. Leonel, que, do outro lado do arroio Argola, também trabalhava duro nas terras montanhosas de seu pai João, acompanhava, por ouvir dizer, os movimentos e as intenções de Antônio.

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Na verdade, não admirava somente a união, a tenacidade, a laboriosidade daquela família. Gostava mesmo era de contemplar as quatro filhas de Antônio. Aquela, porém, que lhe caiu na alma numa lufada de desejo, foi Ana. Nos domingos à tarde, depois do terço na capela de Jacarezinho, os homens jogavam bochas, “la mora”, ou quatrilho. Os rapazes jogavam futebol. Quem não jogava, rapazes, moças, meninos e velhos -, torcia pelos que jogavam. Todos ao redor do campo, bebericando um copo de vinho ou uma gasosa. E namoricar com olhares e acenos com pequena malícia e ambigüidade. Para começar a conversar os assuntos deveriam ser gerais. Por longe: o tempo..., a chuva..., a safra..., a doença de alguém. Depois evoluíam para alguma crítica ao sermão do padre, para comentar o casamento desta ou daquela e, por fim para o namoro de fulano com fulana, tudo entre risadinhas discretas. Falar a sós? Pegar a mão? Só quando noivos ou quase. Afora as roubadinhas, quase pecado. Falar sobre o futuro, sobre filhos, sobre a sexualidade? Faltavam palavras... faltava jeito...

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Beijar? Alguns... nem depois de casados. Havia já meses que Leonel vencera a barreira da timidez. Uma quinta feira à noite fora à casa de Antônio, a pretexto de ir a filó10. Queria conversar com algum irmão de Ana. Queria mesmo era ver Ana e obter a permissão para visitá-la. Albino entendeu. Ajudou-o. Chamou a irmã que apareceu logo, secando as mãos no avental. Simples, sem retoque, alta, esguia, olhos azuis, foi uma aparição angelical ao olhar de Leonel. A atrapalhação dela, o rubor das faces, o não saber o que dizer, eram sinais, mais que sinais: “ela gosta de mim” Depois, sempre às quintas feiras, voltava mais cedo da roça. Tomava um banho no arroio. Vestia uma camisa limpa e, de chinelos como sempre andava, ia visitar a sua amada. Submetia-se a acompanhar a espichada reza do terço para, só depois, poder conversar com ela.

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Filó, é um termo dialetal italiano que significa, visita, passeio. Os vizinhos encontravam-se à noite, na casa de alguém, para conversar, para jogar cartas, tomar vinho doce e caldo de galinha, enquanto as mulheres trançavam palha de trigo para fazer chapéus e bolsas. Os rapazes e as moças jogavam conversa fora... E todos cantavam.

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Melhor era a tarde de domingo. Até deixava de jogar para poder conversar com Ana. Ou jogava para vê-la torcer por ele. Mas, um dia Antônio resolveu ir embora. Iriam todos. Ana também. As terras vendidas aqui e compradas lá. Tudo como o planejado. Iriam em meados de agosto. Leonel não se conformou. Perder Ana era perder a possibilidade de formar uma família sólida, alicerçada na fé, no trabalho, na fidelidade. E Ana era bonita. Fazia-o sonhar acordado e até não faltar à missa aos domingos quando ela também ia a Encantado. Não era como as mocinhas doidivanas, de fala fácil. Nem era tão sensual. Mas a inocência que lhe brotava dos olhos num sorriso largo, criava um ar de intimidade que Lenoel não queria perder. Ela era literalmente o convite ao aconchego, à verdade, à paz. Ela era a sua possibilidade real. Armou-se de coragem. Falou em casar. Ana estremeceu. Nem pensara que o namorico pudesse

terminar

em

casamento.

Desde

pequena,

observando a estúpida labuta da família, pensava em se fazer irmã carmelita. Viver para rezar e amar a Deus e assim garantir a salvação da alma. “Não era para isso que

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nascemos neste mundo”!? Para que arriscar perder a alma em meio a tantas tribulações que geram intrigas, raivas, perigos permanentes de pecado? Mas o pai Antônio disse “não”. Um não tão redondo que ela não mais voltou a falar. Só restava obedecer e, então, casar e seguir a trilha penosa dos filhos de Eva. E agora Leonel a convida. Antes de responder, porém, ela quer tirar a limpo uma dúvida atroz que a atormenta: - Quem é que estava lavrando com os bois zebus, ontem lá na roça nova de teu pai? Leonel se deu conta. Era ele mesmo. Blasfemara como um condenado porque os bois não queriam obedecer. Na família de Ana jamais alguém blasfemou. E ela dissera um dia que não casaria com um homem que blasfemasse. Rapidamente respondeu: - Era um peão nosso. Trabalha por dia. - Ah!... Antônio e Francisca concordaram em antecipar o casamento e esperar uma semana mais para a mudança. ............................................................................

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No ônibus que descia devagar o morro da Guavirova, com as balacas cheirando a queimado de tanto frear, Leonel lembrava dos primeiros anos de casado, do caminhão Ford 37 com o qual passara tantas vezes por esta mesma estrada carregado de madeira e arriscando a vida. Lembrava dos 10 filhos que tinha e andavam estudando cá e lá pelo Rio Grande do Sul. Em casa, Ana ficou com os quatro menores e apreensiva pela notícia da saúde do sogro João. O ônibus deixou-o na encruzilhada que leva para a linha Auxiliadora. Aqueles dois mil metros até a casa do pai, foram um martírio para Leonel. Andava encurvado e arrastando um pouco a perna direita por causa de um problema no nervo ciático. Distribuindo “boa tarde” aos 10 ou 12 amigos e parentes da beira da estrada, sem se deter, chegou na casa onde nascera, onde nasceu o pai e onde nasceram os primeiros filhos. Várias pessoas na varanda. Falando baixo, quase em cochichos. Acontecera o pior?

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- O pai está lá dentro. Está mal. Não se alimenta há dois dias. Não urina. Não vai aos pés. Está um pouco inchado, informava-lhe apressada Angelina. - Que remédios está tomando?, perguntou Leonel. - Esta pilha aí, em cima da mesa. Não estão fazendo efeito. Leonel entrou, viu o pai que nem reagia às costumeiras brincadeiras de estímulo e ânimo que sempre se faziam. Saiu decidido: - Suspende todo remédio. Ferve ligeiro essa mandioca que eu trouxe. É raiz de urtigão. Vamos tentar. - Mas... - Não tem mas, nem més... O filho mais velho sou eu. Com toda a medicação que lhe deram o pai está morrendo. Deve ser dos rins. E se o problema é com os rins este é um santo remédio. E lá ficou meu pai, ao pé da cama, oferecendo a seu pai chá e mais chá de urtigão. E meu avô que não dormia há dois dias, adormeceu um pouco e, como por milagre, horas depois urinou. Iniciou a desinchar. 24 horas depois já tomava uma canja e começou a falar e a se queixar.

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- Que dizer ao médico? Respondia à irmã que questionava. Digam que João está tomando todos os remédios. Por isso está melhorando. Papai dormiu um longo sono no quarto ao lado que fora seu, de menino. Na manhã seguinte, caminhou cedo até a casa de Marinot, o benzedor. Era infalível para benzer o ciático, diziam. - Ajoelha, disse ele. Fecha os olhos, reza um Pai Nosso com devoção e, quando terminar, joga estes três pequenos cascalhos do arroio para trás e não olhes para onde eles foram. Vem aqui mais dois dias, que eu garanto. No terceiro dia Leonel subiu a Soledade, lépido como o rapaz que amava Ana e que lhe dissera uma vez: - Não importa se a gente se ama ou não se ama agora. O amor vem depois.

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O DESPERTAR DE ANA

Ana, 13 anos, alta, esbelta, grandes olhos azuis como manhã de outono. Cabelos castanhos claros quase de mel reunidos numa trança cuidadosamente trabalhada pelo carinhoso colo da mãe. Naquela tarde voltou da roça um pouco mais cedo, assustada, preocupada e envergonhada. Escorria-lhe sangue pelas pernas. Ela não sabia o por quê. As duas irmãs mais velhas não explicaram nada. Só disseram que fosse logo para casa falar com a mãe. E Ana vinha chorando pensando que iria morrer. A mãe Francisca fitou-a com a mais acolhedora pena e abriu-lhe os braços: - Não precisa chorar. Vai te lavar com um pouco de água morna, bota esses panos entre as pernas e volta aqui. Ana, desajeitada e sempre chorando lavou-se e voltou para ouvir a sentença de morte que a mãe iria pronunciar. Mais desolada ficou, porém, quando Francisca arrumou-lhe as tranças e, simplesmente disse:

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- Éh! De agora em diante, três dias por mês, vai te acontecer isso. As mulheres só não tem isso quando estão esperando nenê. - Mas por que? As mulheres ficam doentes três dias por mês? Por isso que sempre andam se queixando de dor de cabeça? - Éh! É isso. É o destino das filhas de Eva. Nem por isso a gente deixa de fazer as coisas e de ir trabalhar. A gente disfarça como se nada fosse. Mas amanhã tu vais ficar comigo, preparando o almoço. Não precisas ir pra roça. À noite quando todos retornaram da montanha, Ana percorria o olhar de todos à procura de um comentário, de uma palavra. Mas, nem antes, nem durante nem depois da janta, nem mesmo quando as mulheres limpavam a cozinha alguém tocou no assunto. Era como se não se pudesse nem se devesse falar sobre isso. Era como se fosse algo sujo ou quase obsceno. Afinal, tudo o que se referia a xixi e cocô se fazia sozinho e bem escondido. Ou como se isso fosse tão óbvio e corriqueiro que não valia a pena comentar. Mas para Ana era o inusitado, o desconhecido, o perigoso. Afinal era com ela que isto estava acontecendo.

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No longo terço depois da janta Ana apanhou-se várias vezes distraída, balbuciando “Ave Marias” mas com o olhar andando sozinho e perdido no horizonte muito além da luz do lampião, e a pensar: como é complicada e triste a vida da mulher. Bem como dizia a Salve Rainha:... “...gemendo e chorando neste vale de lágrimas” Como nunca, o sono abandonou-a aquela noite. Contava as horas pelo cantar do galo (o relógio da sala estava parado, sem corda), ouvia os chiados da coruja na cumeeira do paiol ali pertinho, os quero-queros no potreiro, sempre atentos a qualquer movimento, e espreitava as nesgas de luz que a lua minguante projetava na janela de madeira entreaberta esquivando-se da galharada do plátano. O coração e a cabeça povoavam-se de dúvidas, receios, palpitações e ensimesmares. Ouviu quando o pai e a mãe acordaram, uma hora antes do amanhecer e falavam baixinho na cozinha ao redor do “focolar”11 tomando o seu chimarrão. O que falariam? Quem sabe estivessem a falar sobre ela? Ana teve a

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Focolar é um fogão a lenha feito de barro, em cima uma chapa de ferro com furos tapados por aros concêntricos que se retiram para colocar as panelas.

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tentação de escutar perto da porta, mas se conteve: “é falta de educação”. Depois os irmãos despertaram, um por um. Os adolescentes, “sempre cansados”, eram trazidos à existência real pelos mais velhos: “vamos dorminhoco, o sol já vai nascer”. As irmãs juntas, lampião na mão, cada uma com seu balde grande, encaminhavam-se à estrebaria para a ordenha. Os rapazes, com os bois já atrelados à carroça, apanhavam o chapéu de palha dependurado à parede, juntavam duas ou três fatias de polenta sapecada na chapa do fogão, um pedaço de queijo e de salame e iam puxando o cortejo para a roça do morro. Quando Ana apareceu na cozinha, a mãe foi dizendo: - Hoje Ana me ajuda em casa. Maria levará o café para a roça12 e depois ficará lá trabalhando. Ana entendeu que era uma deferência especial, um tratamento novo que, naquela turbulência, davam à recém mocinha um pouco de segurança. Nem comentou com a mãe que no dia anterior sentira uma moleza e um cansaço 12

Todos iam muito cedo à lavoura para aproveitar as horas mais frescas do dia quando o trabalho rende mais. Sol, já alto, 9 horas ia o café para a roça, momento também de descanso.

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pelo corpo, os seios um pouco inchados e os mamilos doloridos. Não cabia. Devia ser assim mesmo. No dia seguinte as coisas voltaram ao normal. Tudo continuou como se nada tivesse acontecido. Nem Ana comentou nada com ninguém. Olhava para as irmãs esperando que dissessem, mesmo que indiretamente alguma coisa. Mas, nada. “Então a vida é mesmo assim” pensava, enquanto puxava com força a enxada na capina. Quase um ano depois já conseguia cochichar às irmãs que estava em seus dias... Elas nada diziam. Somente um “éh!”... e mudavam de assunto. A mãe, grávida um ano sim e outro também, crescia, ficava enorme, “engordava”. E, de improviso, uma bela noite, anunciava que os rapazes iriam dormir em casa de tio Ângelo, assim poderiam conversar com os primos... E as moças iriam para a casa de tia Agnese que morava vizinha... - É que hoje vai chegar mais um irmãozinho de vocês, comentava o pai Antônio. Ana estranhava que devessem sair. Não entendia porquê. Sabia que o irmão estava no ventre da mãe, segundo lhe contou a irmã Maria, assim como se rezava

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“...do vosso ventre Jesus”. Não sabia como nasceria nem como fora parar lá dentro. Nem se permitiria imaginar que ele viesse de relações sexuais dos pais como acontecia com os animais. O acasalamento sexual das vacas e bois, dos cavalos e éguas, dos porcos e porcas lhe causava repulsa porque revelava violência... E nem olhava porque era impróprio para moças e crianças... era pecaminoso. Assim ela foi crescendo e imaginando os filhos como uma bênção de Deus para os casais que tinham afeto e carinho entre si...Vinham de Deus... Mas ela pretendia outro caminho. Oito anos depois... Naquela tarde, depois do terço na capela, quando ela percebeu o olhar maroto, ao mesmo tempo medroso e insinuante de Leonel, ficou sem jeito. E tratou logo de desviar o rosto para a roda das amigas para escapar da cilada. Bem que ela gostava das brincadeiras inocentes dos rapazes e das moças, mas não queria se comprometer em gostar de alguém uma vez que pretendia se fazer carmelita descalça. Queria ir para o convento. Viver de oração, na intimidade de Deus, dos anjos e santos e garantir o céu. De

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que adiantariam brincadeiras fúteis e inúteis, distrações ilusórias, pondo em risco a salvação? E quando no retorno a amiga Joana comentou com alguma malícia: - E aquele olhar do Leonel, hein? Ana, entre risonha, tímida e com raiva afastou logo: - Ah! Bobalhona, são aquelas bobagens sem graça dos rapazes de hoje,... mas acho que não era bem pra mim que ele olhava... Para decidir definitivamente sua vida, afastando-se daquelas tentações e distrações, porque “por pensamento também se peca” - ensinavam os padres -, resolveu falar. Um dia em que ela ajudava a mãe a preparar o almoço, parou com a bacia de farinha de polenta sobre a panela, engoliu a saliva, olhou para a mãe como quem suplica e arriscou: - Mama, eu gostaria de me fazer freira...carmelita... E esperou, com os olhos esbugalhados, a boca semiaberta um sinal, um gesto, uma palavra de concordância... Francisca parou de misturar os radici com cebola para a salada, fitou a filha com aquele olhar de

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compreensão infinita que vai até o fundo do coração, sorriu-lhe coniventemente e disse: - É o que eu sempre mais desejei para uma filha minha... tenho quase inveja de tua decisão... sentirei muita saudade (duas lágrimas rolaram-lhe pelo rosto), mas quem deve decidir isto é teu pai. Deves pedir isto ao pai. Ele é o chefe da família. Eu acho bonito e grandioso, mas não sei o que o pai vai pensar. O coração de Ana saltava tropeçando em si mesmo de alegria e expectativa. E o pai o que diria? Domingo. Antônio, Albino e João foram à primeira missa, às 6 da manhã. Ana ajudou a trazer os cavalos para os irmãos e o pai como sempre fazia. Era como participar um pouco da missa. De retorno, como de costume, Antônio sentado na sala, comentava com Francisca e quem quisesse ouvir o sermão do padre... “buscai em primeiro lugar o reino de Deus e o resto vos será dada de acréscimo...” Ana escutava atenta... Era a hora de atacar. Puxou a cadeira para mais perto do pai e disparou: - Pai, eu andei pensando, tu me deixarias ir para o convento e ser freira carmelita...

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- Carmelita? Retrucou Antônio entre assustado e contente. Olhou para a filha, olhou para Francisca, olhou para o chão, pensou e, com voz um pouco triste falou: - Mas por que estás pensando nisso, minha filha? - Eu queria garantir minha salvação na oração e no silêncio e também ter mais tempo de rezar para todos vocês. - Filha, disse com voz resoluta, é bonito, mas é impossível! A mãe precisa de vocês. A Rosa já casou. Maria também. Inês é um bebê. E são oito homens, afora tua mãe e eu, para cuidar. É a comida, a casa, a roupa. Deus saberá da tua intenção. Ele te abençoará por ajudares em casa. Era a teologia pragmática da vida e da necessidade. Ana sentiu que um mundo acabava ali. Baixou os olhos e concordou com a cabeça. Então só restava um outro caminho: a senda espinhosa e difícil das filhas de Eva. Naquela noite Ana sentiu-se estranha. Triste e aliviada ao mesmo tempo.

Se estava triste por não ter

podido realizar um sonho tão santo, também sentia-se leve, desobrigada, descompromissada. Era como se já tivesse cumprido um dever, realizado uma missão. Ninguém

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poderia cobrar dela uma dedicação maior a Deus, nem ela mesma. Agora era questão de obedecer. Ao invés de chorar e lamentar ela se surpreendeu na cozinha cantando “Sul castel de Mirabel...” O coração adormecido e quieto, de repente, acordara despertando pássaros selvagens de todas as árvores. Iria casar. Mas com quem? Até então nunca se havia permitido namorar alguém. Vários rapazes lhe esticavam um olhar lânguido, doente, quase febril. Algum aceno. Algum pequeno contato ou encontrão “distraído” com o imediato e respectivo “desculpe” e “não foi nada”. Mas aquele olhar de Leonel, mais safado, mais matreiro, mais malicioso que o dos outros começou a encantá-la. A povoar sua imaginação. Duas vezes sonhou que suas mãos se tocaram quando pegavam o mesmo copo. Mas ela fazia força para afastar a tentação. E Leonel, sem se fazer esperar, numa quinta feira à noite, apareceu a pretexto de qualquer conversa com seus irmãos. Ela estava secando a louça quando o irmão Albino a chamou para a sala: - Ana, vem cá!

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E ela foi, secando as mãos no avental...: - O que é....? E parou com a palavra entre a garganta e a boca, vendo Leonel que a olhava sem parar, olhos brilhando no lusco-fusco do lampião... - É que Leonel... veio nos convidar... convidar para que mesmo Leonel? Disse Albino voltando-se para ele e tentando piscar um olho... Leonel, engasgou-se, tossiu, e inventou qualquer desculpa para iniciar a conversa: - Bem...é que domingo vai haver um torneio de futebol na Auxiliadora. Queria saber se os irmãos não gostariam de jogar em nosso time e se vocês não quisessem ir também... - Bem, se o Albino e o João forem, nós também podemos ir, né mãe? (falou alto para Francisca que estava na cozinha) Iremos ao terço lá e depois veremos o torneio. Leonel nem esperou o terço que estava por iniciar, tão logo terminassem de limpar a louça, e saiu feliz assobiando a cançoneta de que mais gostava: “saudades do matão”...

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Depois, os domingos à tarde tornaram-se uma bela distração: tomar uma gasosa e conversar um pouco, pouquíssimas frases, com Leonel. - Assim, o bem-querer foi aumentando e o amor fisgou a gente distraída... comentou ela tempos depois. No idílio platônico de um amor feito de carinhos, pequenos gestos e convivência ela imaginava o casamento. Na véspera, porém, de seu enlace matrimonial a cunhada, com toda a malícia na ponta dos olhos, perguntoulhe: - Você sabe o que vai acontecer na noite do casamento? - Ué!, respondeu Ana. A gente casa e vai morar na mesma casa. - E na mesma cama, disse Santina. Ana, vermelha, envergonhada e perturbada: - Infelizmente, dizem que sim... E Santina, que não podia acreditar que Ana não soubesse o que aconteceria num leito nupcial foi direta: - E ele te levanta o vestido e... crãn... - O que? Ele não vai ser sem-vergonha assim!!!

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- Bobalhona, é isto que todos os casais fazem... e depois de várias noites de estocadas plantam uma sementinha de criança na barriga da mulher. E nascem os filhos... Ana, titubeou...se deveria ou não casar. Se pudesse fugir, ninguém mais a encontraria. Mas o casamento já estava marcado para o dia seguinte. Tudo preparado. Já tinha até confessado “uma confissão geral” como o padre recomendara. Ele desejou felicidades... - Então era aquilo que os padres queriam dizer quando falavam dos deveres conjugais da esposa? Pensou em voz alta... Depois vieram as surpresas, os espantos,os sustos...e os filhos... Ana relembrava sempre sua antiga frase: No começo a gente se conhece, se gosta... o amor vem depois.

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BOITATÁ

Abril. Sábado. Duas da tarde. Ana ao tanque termina de enxaguar e estender a roupa no varal entre o paiol e a casa, cantarolando em seus dezenove anos “Io son girato d´Italia al Tirol...”. A irmã Maria ajudava a mãe sovando a massa do pão - até fazer bolha. Rosa limpava a casa. Os irmãos e o pai já tinham ido à capela para jogar cartas ou bochas. Os pequenos à catequese. Mas, o que poderia ser um sol brilhante de outono com o ar parado e levemente tépido da estação, tornara-se de uma hora para outra, ofuscado. Um estrondo ensurdecedor no outro lado da montanha como se fosse uma dinamite potente. Uma fumaça esbranquuicenta cobria todo o vale. Não eram nuvens, nem serração. Mais parecia fuligem branca de um grande incêndio. - Que será isto?, perguntava a si mesma Ana. Vai sujar toda a roupa na corda. Apressou-se a recolher o lavado ainda molhado, quando o tanque se pôs a tremer como se fosse sacudido

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por alguém. Duas ondas de água molharam-lhe os tamancos. Maria assustou-se quando os copos deslizaram sobre a mesa: - Que é isto, Mãe? As coisas se mexendo. Parece que um espírito passou por aqui! - Quê espírito, quê nada, disse Francisca. Vai ver que tropeçaste na mesa sem perceber. Os olhos grandes e parados de Maria pareciam não dar crédito no que a mãe dizia. Ana, lá de baixo da janela, sem saber se corria ou se ficava, atarantada com as roupas e o varal, exclamou: - Santantóni, piccinin!13 Parece o fim do mundo. A terra está tremendo... Em alguns segundos, tudo parou. Tudo imóvel. Sem barulho. Em suspense. E ao mesmo tempo tudo normal. Um normal tão anormal que espantava. Um silêncio esquisito como falta de palavra e não como palavra que se aguarda, tomou conta de tudo. Tudo quieto. Quieto demais. Os animais, os pássaros, os cães, as árvores, tudo em silêncio como depois de um grande espasmo. Nem os quero-queros, 13

Tradução literal: Santo Antônio pequenino.

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nem os galos cantavam. Como se a natureza toda suspendesse o fôlego... Depois..., um longo minuto...,

e aos poucos, de

vagarinho, o fôlego voltou. Os ruídos, as vozes foram repovoando o ar que já não parecia tão parado. A valentia, dos rapazes e o garganteio dos homens que jogavam quatrilho na venda da capela, custou a se recuperar. Cada um empinou o copo de vinho que lhe estava de fronte...E se entreolharam como a perguntar: para onde fugir? Mas depois que o susto passou, um começou a rir do outro para não rir de si mesmo e as vozes se transformaram em gargalhadas por nada, por qualquer assunto, por qualquer referência a medo. Quando o sino badalou chamando para a costumeira catequese dos meninos e meninas e para as confissões, os homens também foram à igreja. Queriam saber se o padre tinha alguma explicação para o susto geral e para aquela poeira branca que parecia uma farinha. - Ontem o delegado me disse que telefonou a Porto Alegre para saber, disse o padre Foscalo. Disseram que é a poeira de um vulcão, lá do Chile. Não sei se é o Aconcágua ou outro vulcão... É que no centro da terra existe fogo e, de

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vez em quando, a pressão explode a panela por algum furinho no alto das montanhas. Deve ser fumaça de lá. Depois tudo volta ao normal... Lá na minha terra natal, a Itália, na cidade de Nápoles um vulcão, o Etna, uma vez, setenta anos depois de Cristo, destruiu duas cidades inteiras: Herculano e Pompéia. Muita gente ficou enterrada na lava derretida pelo fogo que rolava montanha abaixo... Mas o Chile é muito longe daqui, mais de dois mil quilômetros. Esta poeira deve ter sido trazida por ventos... E o tremor da terra? Isto não é nada. Por aqui não deve dar muito tremor de terra. A terra vai acomodando suas camadas e isto sacode um pouco. Não devemos nos assustar. - E aquele estouro enorme?, perguntou Antônio. - Não sei, eu não ouvi nada, disse o sacerdote, mas pode ter sido dinamite de alguém estourando pedras ou a queda de algum meteorito. - Meteorito? Que bicho é este?, perguntou o menino Felipe. - Uma pedra, uma pedra grande que se desprende de algum astro e cai por aí. Caiu na cabeça de alguém de vocês? Não? Então não foi nada, concluiu Foscalo.

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À noite, na hora da janta, todos comentavam e queriam saber. Albino que ouviu o padre na Igreja, sossegou a todos. Tudo já passou. - Ih! Há tanta coisa misteriosa por aí, comentou seu Antônio sentado à cabeceira. Nossos pais e avós contavam que, de vez em quando Deus manda um sinal como um astro de fogo com rabo comprido, avisando que está na hora da conversão. Em 1916 viram um grande e assustador. Ainda não é o fim do mundo mas é preciso viver como se ele estivesse chegando. - O padre disse que também viu este cometa de 1916, comentou Albino. E que era muito bonito. Que Deus fez o mundo bonito e grande e não mesquinho como a boca de alguns que não param de blasfemar... E quando perguntaram se o fogo do inferno está no meio da terra, ele riu de nossa cara e disse: - Quem disse que o inferno é feito de fogo? O inferno é muito pior e não devemos facilitar na vida para vir a cair nele. Deus não brinca em serviço. Cada qual sabe o seu caminho... Antonio lembrou que, em menino, viu, uma noite, uma grande bola de fogo.

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- Era grande como um barril. Saiu lá de baixo do banhado na várzea do rio onde houve uma batalha na Revolução de 1893, levantou-se sobre o canavial e veio em direção às casas, passou pertinho do telhado e foi subindo, subindo até se perder atrás do morro do arroio Argola. O fogo não era vermelho como o fogo do fogão... O olhar de todos fixou-se na labareda do focolar . Um olhar que aninhava em si surpresa, medo, espanto, uma lágrima chegando à borda... - Era um fogo branco e azulado, continuou Antônio. Eu nunca tinha visto coisa assim... Na insignificante luz do lampião que bruxoleava na sala ampla, todos se olhavam, o coração parado, os olhos saltando. Foi difícil começar a reza do terço que sempre sucedia ao jantar. E enquanto a boca repetia automaticamente “Santa Maria...Pai Nosso... Glória... Salva Rainha... rogai por nós... rogai por nós...” o pensamento de todos se contorcia, distraído, à procura de respostas...

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TORRESMO Leonel tem cinco anos. É o mais velho de três filhos de João e Mariota. Nesta tarde não acompanhou os pais à roça. Ficou em casa com a irmã Amália para receber o vô Narciso quando voltasse de Encantando. Era falta de respeito e educação não receber os mais velhos. João e Mariota voltariam mais cedo para tomar chimarrão com Narciso. Leonel e Amália que soubessem ser acolhedores e fazer companhia ao avô. Esperaram, esperaram longo tempo, talvez meia hora, porque para as crianças o tempo da espera é longo demais ante a pressa e a impaciência de brincar. Lá se foram para o chiqueiro ver a porca com seus onze leitõezinhos que nasceram ante-ontem. A mãe porca mostra-se uma fera quando os dois se aproximam querendo entrar e pegar os filhotes. A instâncias de Amália os dois desistem e voltam ao páteo onde duas chocas conduzem senhoris uma dúzia de pintinhos cada uma, esgravatando o chão com seu cuóc...cuóc...cuóc, para que eles encontrem partículas de alimento.

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Tentam apanhá-los mas os pintos fogem e se escondem atrás das pipas do porão. Foi então que Leonel se deparou, num canto, com a prensa de torresmos. - O que é isso? Pergunta Amália. - É a máquina de fazer torresmo. Não te lembra que o pai bota ali dentro a carne de torresmo, rodeia nesta manivela e sai torresmo, diz Leonel, sem muito conhecimento técnico da fabricação daqueles petiscos. - Então vamos fazer torresmos! E comeremos com pão, anima-se Amália sacudindo as mãos. - Mas com que carne? Interroga Leonel, ao mesmo tempo que olha para os pintinhos com uma tentação bailando-lhe nos olhos. Em poucos minutos conseguiram caçar oito pintinhos que piavam desesperados pedindo socorro às mães. Estas gritavam, abriam as asas em sinal de ameaça e proteção, mas não atacavam para defender o resto da prole. Dentro do cone de lata com furinhos para sair a banha, a prensa redonda de madeira ia sendo acionada de cima para baixo pelo eixo em parafuso e movimentado por uma aste de ferro. Quando a prensa encostou nos pintos, seus pios

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desesperados apavoraram os dois pretensos fabricantes de torresmo. - Pára, pára, pára gritava Amália. Mas como parar para libertar os pintos? - Como parar? Pergunta Amália. - Rodeando a alavanca em cima, diz Leonel apavorado. Rodeia, rodeia!... gritava para a irmã. E ela, quanto mais rodeava mais prensava os animaizinhos... O pasmo tomou conta deles. Tentaram mais um pouco... Mas os pintos já não piavam... - E agora? O que fazer? Suplicava inutilmente Leonel à irmãzinha quando ouviram o ruído da carroça dos pais que chegavam. Quando a mãe entrou em casa perguntando em voz alta pelo sogro que não havia chegado ainda, notou o espanto, o pavor mesmo, aninhado nos olhos de Amália e Leonel. - O que há? O que está acontecendo?, perguntou ela, assustada. - Nada! Nada! Apressou-se Leonel enquanto a irmã gaguejava...

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- O to... o to... o torresmo! Conseguiu por fim balbuciar... - O quê? Que torresmo? Perguntava a mãe mais inquieta ainda. - Lá no porão, apontava Amália com o dedinho... Quando Mariota viu a prensa com o sangue ainda escorrendo, entendeu tudo... Tamanha traquinagem bem que merecia uma surra de chinelo a cada um, mas diante do olhar que, mais do que perdão pediam socorro, só pode apaziguar: - Os outros pintinhos já comeram?

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GUERRA

- Corre pra dentro Jandir, olha o avião!, gritou Ana aflita com as notícias da guerra na Europa. Agora o Brasil também entrou, pensava, e Leonel também pode ser convocado. Que Deus tenha piedade e não permita. Que faria eu com três crianças, o mais velho com cinco anos? Getúlio mandou um monte de soldados pra guerra. Dizem que é lá na Itália, na Europa... O monomotor barulhento, assim como surgiu repentino por detrás do morro, percorreu o vale e se perdeu ao longo do Taquari. Tardinha de janeiro de 1945. Leonel anunciou-se no alto do potreiro com a carroça carregada de milho: de vagar, Rio Grande, segura Barroso! - Esse avião não é de guerra, comentou ao chegar. Se fosse de guerra e voasse tão baixo, eu o derrubaria com um tiro da minha espingarda. - Graças a Deus, suspirou Ana. Não sei por que os homens são tão estúpidos e precisam matar os outros para amontoar um pouco de dinheiro! Só podem estar a serviço

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de Satanás. Deus não quer guerra... E tem até padre que fala em guerra santa!! Muito mais do que guerra os homens deveriam aprender a se ajudar uns aos outros! Leonel

lembrava

que

seu

avô

Narciso

em

companhia do pai Francisco deixara Cembra perto de Trento na Itália, para fugir à convocação para a interminável guerra que o Império Austro-Húngaro promovia devorando a juventude como bucha de canhão. Felizmente

ele

conseguiu

emigrar

mesmo

devendo

renunciar à cidadania austríaca. - Tem muita gente esganada, quer tudo para si, rouba, massacra e depois conta vantagem pra disfarçar a mentira, acrescentou Leonel. Mas guerra é guerra, coisa de homem. Naquela noite, os cantos alegres e polifônicos dos “mazzolin di fiori” não soaram pelo vale. Nas rodas de chimarrão, as conversas com os vizinhos que passavam, na janta, nas orações do terço, em tudo pairava um ar infeliz de apreensão, as crianças fitando o rosto dos mais velhos à cata de uma explicação e de um sossego. Na manhã seguinte, a primeira pergunta que a professora Terezinha devia responder: o avião... a guerra.

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- A guerra é coisa suja, sem razão... Quem começou a guerra foi a Alemanha que invadiu os outros países. Olhem aqui no mapa: aqui está a Alemanha, aqui a França, aqui a Itália que parece uma bota, a Inglaterra fica nestas ilhas, e lá longe perto do gelo está a Rússia. A briga está na Europa, um pouco na África e o Japão lá no outro lado do mundo tentando dominar a China e todas estas ilhas. - E os Estados Unidos?, perguntou Lurdes. - Os Estados Unidos que ficam aqui na América do Norte entraram por último na guerra, depois que a Rússia já tinha dominado os alemães. Entraram para repartir o lucro da guerra. Tomara a Deus que a guerra não venha para cá. - E o avião de ontem, com aquele barulhão, indagou Alcides?! - Ah! Eu também vi, disse a professora. Mas este não é de guerra. É avião de passageiros. Devia estar levando alguma autoridade para Porto Alegre. Vocês viram o que estava escrito nele? - Eu vi.... responderam quase em coro: VA...RI...G. O que quer dizer professora?

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- É uma empresa que tem aviões para transportar gente e carga. É como um ônibus, leva trinta ou quarenta pessoas por vez. - E cabem lá dentro, professora? - Ih... existem aviões muito maiores que um ônibus, levam mais de cem pessoas numa viagem só, como os aviões de guerra... Aquele avião trouxe, de repente, a realidade da guerra para dentro de Jacarezinho. A estupidez, a violência, a ganância espantava a todos: crianças, meninas e velhos. Matar, matar muitos, com bandeira na mão, com pretextos de honra, de pátria, lealdade já não era crime ou pecado? O ódio, o massacre, a extinção dos outros era virtude... De quem? Para que? Para quem? Mas os que falavam contra a guerra falavam baixinho. Como coisa proibida. Até o padre em seu sermão evitavam julgamentos... só rezava pelos que sofriam pela guerra e para que ela acabasse logo... Jandir, seis anos, de bodoque pendurado no pescoço como se fosse um rosário, pensava: se eles vierem eu acerto uma pedrada em seu nariz.

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A FERRO FRIO Na pequena mesa da varanda em frente à casa de madeira, Leonel, quase 90 anos, apruma-se, para jogar uma canastra com três netos: - Vamos ver quem é o galo! No outro dia eu apanhei demais, brinca provocativamente. - Não gosto de bater em gente mais velha, mas... jogo é jogo, responde Tiago no repto. Chegam mais dois netos. A casa do vô é lugar para chegar, para estar, para brincar e até para aprender alguma coisa de suas histórias. - Mas o que vocês faziam, vô, aos sábados à tarde, em seu tempo de guri?, pergunta Vinícius. - Bem, aqueles eram outros tempos. Tempos do interior. Banhos no arroio... Terço na capela... jogos de futebol e eu era bom na canela, especialmente no ataque. Todos respeitavam minha velocidade... roubar frutas e melancias só pelo prazer de que “a fruta do vizinho é sempre melhor”... E alguma malandragem... - Que malandragem vocês faziam?, insiste Diogo.

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................................................................................... - Eu lembro de um domingo à tardinha. Lembro como se fosse hoje: Voltávamos do terço da Auxiliadora. Éramos quatro. Meus três vizinhos queriam conhecer a espingarda que eu fizera com um cabo de guarda-chuva. Gatilho, coronha e tudo o mais. Em meio às armas velhas guardadas no sótão: uma carabina, duas armas de caça, umas adagas e todas enferrujadas, destacava-se a minha preciosidade. - Não sei se o cano resiste a muita pólvora, mas servirá pra dar um tirinho. De súbito, minha mãe, ao pé da escada, interrompeu nosso sossego gritando: - Nelo, acode que o cachaço do vizinho está cobrindo as porcas duroc, lá no potreiro. Era só o que faltava! Despencamos escada abaixo e corremos. O potreiro abaixo da estrada , era um gramado plano que ia até a costa do arroio Jacarezinho. Era bem fechado com cerca de pedra de metro e oitenta de altura, feita por Bastião. Empreitada que lhe rendera bem mais que o pagamento por dia. Nele, convivia a fauna toda de meu pai:

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cavalos, bois, vacas, terneiros, ovelhas e porcos. Uma dúzia de porcas de cria, de raça duroc, eram especial preocupação dele. Ótimas para produzir banha.

Tinha pedido a um

criador do Tigrinho que lhe emprestasse um reprodutor de raça pra tirar umas “ninhadas”. E agora, lá estava o infeliz porco do vizinho, um suíno peludo e seco que não servia nem para banha nem para carne. Fugira do chiqueiro, saltara a cerca de pedra e emprenhava porca por porca. Era a terceira vez que ele aparecia no potreiro. O vizinho Agostinho, avisado, não conseguiu mantê-lo preso. Era evidente o prejuízo. Entreolhâmo-nos os quatro. A idéia foi unânime, nascida ao mesmo tempo e na mesma velocidade: - É agora! Encantonamos o bicho perto da porteira. No primeiro lance de sovéu, laçamos o animal. Gritava como um condenado. Pressentia o que lhe haveria de acontecer. Deitado de barriga para cima, dois seguravam as mãos dianteiras para evitar que ele mordesse, um mantinha aberta as pernas de trás e eu fui correndo buscar o instrumento cirúrgico necessário. Cravado num toco perto

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da carroça estava o facãozinho de partir abóboras. Enferrujado, rombudo e cheio de dentes. “Era esse mesmo”. Nem precisava afiá-lo ao rebolo. Enquanto eu esfregava... e esfregava o facão para cortar os bagos da fera e ela “esganiçava” desesperada, dois cavaleiros do Tigrinho pararam perto da cerca para contemplar nossa façanha. Um deles é o que emprestaria o reprodutor a meu pai. E riam a mais não poder: - Eu nunca vi castrar um porco assim. Ele vai morrer. Devem ter muita raiva dele. - Imaginou a bronca do seu João quando souber disso? E o animal é do vizinho...comentavam. Extraídos os ovos - com saco e tudo - com toda aquela delicadeza, a ferro frio, atirâmo-los aos cachorros com uma conclusão de vingança: - Quero ver se ele pulará novamente a cerca para vir aqui fazer estragos! Com tanta assepsia e limpeza, era evidente que ele apanharia uma infecção mortal. Em todo o caso, abrimos a porteira e, com um pontapé, enviâmo-lo para a sua casa. Quando entramos em casa a mãe perguntou: - Vocês mataram o porco?

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- Não, mãe, só lhe demos uma lição! O porco? Enfiou-se no barro umas horas. No dia seguinte já estava curado. Apaziguou-se. O vizinho nada falou... Dois dias depois, na hora do meio dia, o criador de Tigrinho, chegou para tomar um chimarrão com meu pai... Eu despistei... inventei que deveria pegar um cavalo lá no fundo do potreiro. Meu pai, atalhou imediatamente: - Vem cá Leonel... vá dizer ao vizinho que o porco está castrado... Ordem de pai não se discute... Lá fui eu cabisbaixo, sem saber como iniciar. Pensei num subterfúgio: - Papai mandou dizer que seu porco está castrado... Agostinho já sabia. Riu e respondeu: - Então diga a seu João que lhe devo uma “capadura”. E eu aliviado retornei: - A ferro frio! ................................................................................... O riso matreiro de Leonel, - o leque de cartas numa das mãos e os óculos na outra -, coincidia com o encantamento e a conivência dos netos.

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REVOLUÇÃO DE 23

- Seu João, seu João a ´força´ já está chegando em Encantado, gritou da estrada, sofrenando o cavalo preto que vinha a galope, o vizinho Augusto. Disseram que são mais de cem homens. Estão atrás dos revoltosos escondidos nas grotas do Fão em direção à Soledade. - É uma desgraça!, respondeu João. Obrigado pelo aviso! E da mesma janela João gritou: - Nelo! Nelo! (abreviação e apelido de Leonel em italiano), depressa,... depressa! Reúne nossos bois, nossas vacas e cavalos. Vamos ter que escondê-los. Os soldados de Borges de Medeiros vêm aí. Arrasam tudo o que encontram. Leonel correu ao potreiro e reuniu oito bois, cinco vacas, o cavalo, a égua com seu potrilho mamão, as cinco mulas incluindo a de montaria do pai. João foi dizendo: - Toca tudo pela estrada do arroio Argola em direção a Capitão. Vamos escondê-los nos fundos da

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fazenda do tio José. Naqueles matos ninguém os encontrará. No potreiro só ficou uma vaca magra e uma mula de cargueiro. Para despistar. - Se os homens perguntarem por nós, diz que fomos trabalhar nos fundos das terras e que só voltaremos no fim de semana, recomendou João à Mariota. Se quiserem comida, oferece-lhes alguns queijos e uns salames, esconde o resto como puder... Meia hora depois, João alcançou Leonel que tropeava a minguada ponta de gado de que dispunham, apressando o quanto os animais podiam. Quando superaram o topo dos morros, em Campinho, souberam que o delegado de Encantado reuniu seus 12 brigadianos e mais 10 voluntários, que subiriam por Jacarezinho e Nova Bréscia em direção à barra do Forqueta com o Fão. - Ainda bem, exclamou João. Estaremos fora de sua trilha. Acertei fugir de Jacarezinho para Capitão. José já esperava o irmão João. Em sua casa simples construída sobre o arroio de tal forma que, de sua varanda pudesse pescar na pequena represa que ficava em baixo - o que era um encanto para a infância de Leonel -, havia

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fartura. Fartura de cereais, de salames, queijos e vinhos. Fartura de armas (três espingardas de grosso calibre, 2 revólveres de José e um para cada um dos 8 filhos), fartura de filhos e filhas. José já providenciara esconder seu gado (tinha mais de cem cabeças) na pequena invernada no outro lado do morro. Em volta das casas ficaram alguns bois velhos, de ossos à mostra, uma vaca de leite e um matungo tordilho de pouca valia para montar. As armas? Ninguém as viu nem sabia delas... - Quem disse que eles não virão para cá? Ironizou José. Eles sempre mentem para pegar-nos desprevenidos. Ainda mais este delegado corrupto e assassino com seus soldados todos vindos de fora. Não há um gringo entre eles. E dizem que são malvados. Fazermo-nos de bobos é sempre a melhor política, para com eles. A gente não sabe de nada. Não sabe o porquê dessa revolução. Não sabe quem é Assis Brasil e os revoltosos que estão com ele, desde Soledade, Passo Fundo, Erechim, Palmeira das Missões e, em todo o Rio Grande. Não sabemos porque Assis Brasil luta contra Borges. Nós sabemos que os borgistas são ateus, não têm religião, que querem mandar sozinhos no Rio Grande do

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Sul. Que faz muito tempo que mandam e desmandam. São positivistas como diz o padre... Eles que se cocem entre si... E eu acho que passarão por aqui, sim. Este é o caminho mais seguro para eles irem a Nova Bréscia. - Então é bom que eles nem saibam que eu vim pra cá, disse João. Afinal, retirei meu gadinho do caminho deles. Se me permite, ficarei com o gado na invernada dos fundos. Ainda existe aquele galpãozinho? - Existe, confirmou o irmão. Fiquem à vontade. Só não façam fogo. Daqui eles não passarão. Eles também têm medo da minha fama. Naquela noite Leonel adormeceu sobre um pelego no minúsculo galpão cheio de frestas e sem janelas, entre apreensivo e encantado. Sonhou com o tio e os primos pescando lambaris sentados na varanda. Adormeceu ouvindo os sons de inhambus, jacus e corujas... Sonhou com

uma

jaguatirica

esfomeada

que

rondava

um

cordeirinho.... Quando acordou, o sol já se enfiava pelas frestas, e seu pai, de pé, de cá para lá, fumando o cachimbo e de olhos pesados como quem passara a noite inteira de vigia. - E então, pai, e os homens?

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- Bom dia, meu filho! - Ah, desculpe, bom dia! - Dali de cima, do meio daquelas árvores, eu vi um grupo de vinte e tantos chegando na casa do tio. Bem que eu gostaria de saber o que estão falando, falou João como que em segredo. - Será que vão prender ou matar o tio? - Não se preocupe! O tio os enrola a todos e os bota debaixo do braço. O tio é muito mais esperto do que todos eles juntos. - Mas, eles têm armas! Disse o menino Leonel de 8 anos. - O tio também tem. E eu duvido que ele não tenha uns cinco ou seis homens de tocaia, para o caso de necessidade. Ele nunca dorme de touca. João conhecia muito bem seu irmão mais velho, José. Não era agressivo, provocador ou afoito em procurar briga. Mas, provocado, era um leão. E era rápido no gatilho. Lembrava do dia em que o delegado foi desarmá-lo numa roça em que ele plantava feijão. Com a espingarda belga que ele sempre carregava consigo, abatera um veado. Algum invejoso o denunciara: em época de guerra todos

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deveriam entregar suas armas. O delegado, irmão desse de Encantado, com o topete eriçado de autoridade, intimou-o a entregar a espingarda sob pena de prisão. José respondeu que a cano duplo era para defesa pessoal contra animais selvagens e que não a entregaria. O delegado, sozinho e com medo, saiu. Buscou dois policiais como reforço e voltou. José que também tinha um revólver na cintura disse ao delegado que ficasse na estrada e que não entrasse em sua roça. O delegado avançou. Levou dois tiros, um no braço e outro na perna. Um soldado foi atingido na bunda. O outro fugiu sem deixar rastro. José, atrás de um toco assistiu a debandada deles... Depois, a passito de cavalo, passou pela vila como se nada tivesse havido. Foi para a sua casa em Capitão e mandou dizer ao delegado por um tropeiro que passava que, se ele quisesse prendê-lo que fosse até lá. O delegado nunca mais o procurou. Mas o irmão dele, o delegado de Encantado, chegou manso. Pedindo favor. Queria que José os ajudasse a chegar até a barra do Fão. Pois, ele era quem melhor conhecia o caminho e o mais seguro. Não queriam importuná-lo em nada.

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José, na porta da casa, encolheu os olhos, fez os cálculos e respondeu: - Pois não. Eu levo vocês até lá. Até os morros que dão para a barra do Fão. De lá eu volto. Tem um problema, porém: eu estou desarmado. E desarmado eu não vou. - Não seja por isso, disse o delegado. E alcançou-lhe um 38 dobrevê, Smith, com cabo de madrepérola. - Esse é seu. - Obrigado, não serve para fazer guerra, mas dá para me defender, fingiu José, alisando aquela jóia. Buscou no porão 4 queijos e umas dez tripas de salame para que eles “se entreterem” enquanto pegava seu tordilho: - Esse matungo é lerdo, mas vai até lá. No caminho soube que eles fizeram “um estrago” na casa dos Dalla Vecchia porque aqueles eram assisistas, segundo suspeitavam. E observando bem, o cavalo que o delegado montava era muito parecido com o de Ângelo...cismou para si mesmo José. Voltou à tardinha curioso por saber como seria o encontro deles com os “revoltosos” escondidos nas grotas

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do Fão. Torcia secretamente para que o delegado e sua força fossem derrotados. Soube depois que chacinaram 12 homens quase desarmados.

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TRAÍRA

Manhã de fim de primavera. Promessa de calor no vale de Jacarezinho. As últimas estrelas, apagando-se, o dizem. Pão cheiroso da véspera, um palmo de salame, melado numa garrafinha e chá de mate com leite noutra garrafa de cerveja, para o café das 9 horas. Tudo numa pequena toalha branca - de saco de farinha -, amarrada aos quatro cantos, bordada pedagógica e ironicamente por Ana: “nesta casa não se blasfema – só se louva a Deus”. Leonel, os dois cachorros galgo ao lado, espingarda às costas, - para a eventualidade de uma lebre – farnel enfiado no cano, sobe a pé, os dois quilômetros de estrada pedregosa em direção à roça do alto do morro. A brisa fresca, quase parada, refresca-lhe o rosto que já quer suar. O despertar dos pássaros povoa os ouvidos de música, tão antiga, tão conhecida e tão nova... Quando o sol aparece lambendo os cabelos verdes do alto da montanha, o eito de milho capinado já vai

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grande.

Leonel estira a enxada com destreza. O inço

arrancado vem para o pé descalço e este sacode-o, esparrama-o, retirando-lhe a terra. Assim o pastiçal morre e ainda serve de adubo. Mas é preciso não deixar sementar, especialmente a milhã e o picão. Do contrário, o trabalho para o ano será dobrado. Dia pleno, sol causticante, as ervas e o milho encolhem-se escondendo as folhas daquela ferocidade. Suor aos borbotões, boca seca temperada por gotas salgadas, garganta pedindo água. O prazer de ver o inço morrer. Leonel pára junto às pedras. Uma vertente de água fresca. Para beber e se lavar o rosto e os braços. Desenrola seu frugal café. Corta o meio pão fofo em duas generosas fatias, derrama sobre elas o melado, e degusta o doce-salgado da vida, seus olhos deslizando pelas fímbrias do mato com micos e papagaios, e alcança lá longe a lavoura e a casa de Antônio onde encontrou sua mulher. Pensa na bênção que é sua mulher. Neste dia ela não viera trazer o café como de costume. A filha menor não está bem. Os cuidados redobram. A lembrança do segundo filho que morreu pequeno, com um ano e meio, aguça a preocupação.

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Depois, é agarrar-se à enxada e limpar pelo menos o hectare e meio que vai até a beira do mato. A enxada de pé não faz sombra: é meio dia. Hora de descer. À tarde não voltará. Irá a Encantado tentar um bom preço para o feijão recém colhido. Se o preço continuar tão baixo – sempre isto acontece na hora da colheita -, arriscará negociar com Francisco pelo valor que tiver daqui a trinta dias. Francisco adiantar-lhe-á um pouco de dinheiro para os remédios. Assobiou para os cachorros. Não apareceram. “Devem estar extraviados atrás de algum rasto”. Desceu rápido. Afinal, montanha abaixo todos os santos ajudam, e as pedras que rolam o exigem, pensava. A fumaça da chaminé indicava que Ana preparava o almoço. Jandir chegava da escola com sua sacolinha de pano. - Ana, espera um pouco, dez minutos. Vou buscar uma traíra. Prepara a banha. Jandir vai comigo. Quando eu pegar uma, ele a trará. Pego mais uma e volto em seguida. No arroio Jacarezinho, nestes tempos,

as traíras

ficavam chocando ao sol, nas partes rasas. Leonel sabia o

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lugar delas. Fisga na mão, ia direto aos pocinhos da curva. Não errava uma fisgada. - Jandir, leva esta para a mãe. Enquanto ela frita esta eu chego com outra. Os dedos nas guelras para que ela não mordesse, Jandir corria, potreiro afora, com o trunfo reluzente ao sol. Se alguém o visse e perguntasse onde a pescara, respondia: - Peguei à mão. Enquanto Ana a escamava, cortava em postas, passava na farinha de trigo e fritava, aparecia Leonel, vitorioso, no topo da escada com mais uma traíra e um cascudo. - Esta outra é para a janta. O cascudo é para as crianças. Não tem espinhos. A habilidade, o tempero de Ana, seus olhos azuis como um anjo que zela, que cuida, companhia de todas as horas, os olhos faiscantes das crianças, faziam do almoço uma festa. O resto não importava. Sempre tinha solução.

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BEM-QUERER

- Acho que nem sou filha de meu pai!, - escrevia desolada Irma desde o internato das irmãs de Nova Bréscia -. Ele não me dá carinho. Ele nunca me beijou. E quando me visita, é cinco minutos para saber se tudo está bem. Ah que vontade de um beijo e de um carinho como os outros pais fazem às minhas colegas! Sinto que não valho nada. Vontade de morrer! Tenho 14 anos e nunca fui beijada por meu pai... Beijar é pecado? - É que não percebes, -

respondia Jandir desde

outro internato -, o modo que o pai tem de oferecer carinho para seus filhos. Ele é gringo. E para o imigrante italiano (para seus descendentes de geração em geração) o carinho principal que um homem pode dar à sua família é a disciplina, a ordem. Ser pai é mandar e ser obedecido pela voz, pelo relho ou pelo olhar simplesmente. Quando todos se

comportam

bem,

adequadamente,

estão

bem

encaminhados, são felizes, pensam eles. Ternura? Afeto? Carinho? É fraqueza, moleza, falta de energia que leva à

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desordem e à desorientação dos filhos. O verdadeiro afeto é a disciplina. Elogiar os filhos? Só quando eles não ouçam, para evitar que se façam vaidosos. Facilitar a vida dos filhos? Nunca! É na dureza das dificuldades e dos obstáculos que se aprende a vencer. Observa bem e verás que é este o jeito que o pai tem de manifestar afeto e carinho, concluía. Eu ficava recordando o pai de meu pai, de pé na varanda, chamando e dando ordens aos filhos e netos. Autoridade patriarcal inconteste. Nunca repetia uma ordem. Obedecer é também estar atento à voz de quem manda. E estar disposto a realizá-la imediatamente. Discutir uma ordem? Jamais. No máximo, perguntar para entender. Responder aos pais e aos mais velhos não era apenas falta de educação, era quase um crime. Bastava um gesto, um aceno e as crianças entendiam claramente o seu lugar no espaço e na conversa. “Crianças não se intrometem em conversa de adulto... escutam e aprendem”... Lembrava

também

que

nossos

antepassados,

formados no interior do Estado de Cristandade, levavam a sério o conselho bíblico que “a educação dos filhos não dispensa a vara” e o provérbio milenar repetido todos os

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dias que “é de pequenino que se torce o pepino”... Ficava pensando na solidão desses pais que não poderiam saber das traquinices dos filhos sem tomar imediatamente uma posição corretiva e severa. Era melhor então, para todos, não saber o que realmente ocorria com os filhos. E assim os pais faziam de conta que realmente mandavam e os filhos que realmente obedeciam. Mas a disciplina formal, explicitada no mando e na vara, era o critério. Mesmo a vara e o tapa subentendido, implícito, escondido atrás das portas, dos escuros, dos silêncios, dos olhares, permanecendo apenas como uma possibilidade. E o respeito, sim o respeito, também era um bem-querer. Os dias correram. Os esvãos do coração enchendose de pura saudade. Sábado à tardinha, 7 de dezembro. Hora do ônibus. Ônibus de Soledade e ônibus de Lajeado. Ana pressente, intui, sabe que os filhos que estão longe de casa estudando retornarão. É bem provável que venham todos neste dia, véspera da Imaculada Conceição. Dos 10 filhos, cinco estão internados: um em Erechim, duas em Soledade, uma em Nova Bréscia e um em Pinheiro Marcado. Só os pequenos

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estão em casa, em Campo Novo, interior de Fontoura Xavier. Em meio a uma nuvem de poeira que suja até o vermelho lindo do sol poente, descem do velho e amarelado ônibus, os filhos e os vizinhos em algazarra, relembrando uns aos outros o desfecho da última piada. Ana, braços abertos, nem sabe como expressar tanta felicidade. Abraça um a um entre um “eu sabia que vocês vinham, estava esperando” ou “que bom que vocês chegaram, graças a Deus”... Os pequenos se dependuravam no pescoço dos irmãos tentando adivinhar o presentinho que haviam trazido... E a casa simples de madeira sem pintura, mas limpa e ampla como o coração de mãe pobre, com jardim sempre florido, enchia-se de vozes, todos querendo falar ao mesmo tempo. Já escurecendo, chegava o pai com sua última carga de toros para a serraria, em seu caminhão de lataria amassada e desbotada, sinaleiras quebradas pelos galhos no mato. Castilo vinha com ele. Em cima da carga, suado, sem camisa, vinha abanando, mostrando em seus 12 anos, a valentia de quem sabe e é capaz de exercer o ofício de carregar, descarregar, amarrar toros e mais toros, desde a

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madrugada até o escurecer. A escola? De manhã, entre uma urgência e outra dos trabalhos do pai. Mesmo porque quase nada se aprendia naquela escolinha do interior onde a professora só tinha a 5ª série. Os dois cinamomos frente à casa pareciam mais frondosos. A escada e a porta eram estreitas para todos passarem ao mesmo tempo arrastando sacolas e malas. Um cheiro de pão fresco, de forno de barro, recendia por toda a casa. Ana, o coração saltando de ansiedade de ouvir e estar com todos, põe ordem: - Bem, os guris organizem as bagagens nos quartos e as gurias venham para a cozinha ajudar a terminar a janta. E se desculpava: - É pena, mas não tem pão. Só o pão que eu fiz hoje de tarde. Mas aquele pão de padaria que vocês gostam, não me lembrei de pedir a Leonel que trouxesse ontem quando foi à cidade. Sentindo o cheiro de pão quente que vinha do cesto de vime coberto com uma toalha branca bordada pela mãe, os filhos, água na boca, riam:

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- Passamos o ano inteiro comendo cacetinho de padaria, sem gosto, com saudade desse pão fofo. E um pão alto de forma, moreno, casquinha crocante, odor convidativo de intimidade, foi sendo devorado aos pedaços, partido a mão, como aperitivo de estar em casa. - Este pão é o resumo de nossa saudade, e a senhora diz que não tem pão!? Os irmãos lembravam dos sábados à noite. Retorno da catequese. Uma bacia de leite exposta ao ar fresco, logo fora da janela, para não azedar... (não existia geladeira). Uma grossa camada de nata na superfície. Na impaciência gulosa de meninos, ao invés de retirar a nata com escumadeira, passavam sobre ela uma polpuda fatia do pão macio e ainda quente. O pão de sábado...Fazia bem à alma e ao coração. E iam silenciosamente dormir tendo na boca o gosto e o sorriso dos anjos... Na manhã seguinte sempre a mesma queixa “quem mexeu no leite que azedou?”. Na janta, todos à mesa, todos os lugares preenchidos, o pai à cabeceira, a mãe de pé ao lado dele:

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- Acho que podemos fazer uma bela oração de agradecimento. Jandir puxa. Graças pelo ano, pelas férias, pela família, pela paz. E a janta: a alegria da sopa fumegante de feijão com “bigoli” feitos em casa, dourados pela gema de ovos e farinha de trigo do moinho da vila. As saladas verdes da horta que Ana e os menores sempre mantinham viçosa, temperadas com toucinho frito e vinagre de vinho – uma provocação aos narizes e às mucosas salivares-.

Meio

cabrito assado ao forno: Leonel. fazia questão de destrinchar -e ele sempre tinha uns 30 cabritos no potreiro à espera de um amigo que chegasse. E polenta sapecada na chapa do fogão, mantendo sempre uma relação de proximidade entre o calor e o sabor – calor humano e sabor, sabor humano e calor- . E o queijo, e os temperos fortes de cebolinhas, salsas, alecrim, noz-moscadas, hortelãs e sálvia com gosto de mão de mãe; e salames, arroz com vermelhão, um bom copo de vinho que o pai guardara “para a chegada dos guris”. Era uma festa. Todos querendo conversar, perguntar, falar e falar... Ao final, quando os mais conversadores ainda trincavam um pedaço de cabrito, Irma levantou-se para

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ajudar a tirar a mesa e limpar a cozinha pois esperava um namoradinho que viria. Foi então que o pai falou, quase solene: - Não, nada de sair da mesa! Nada de limpar a cozinha!... - Mas, pai, - quis suplicar Irma - o Antoninho vem aí!... - Ele que venha se quiser, disse Leonel. Agora quem manda aqui sou eu. E nós vamos é cantar... Passamos o ano todo com vontade de cantar, mas vocês não estavam em casa... Agora? Agora é hora de cantar. Formávamos, efetivamente um lindo coral a quatro vozes, os irmãos e os pais. Cantávamos canções italianas, cantos religiosos polifônicos, canções gauchescas e do folclore brasileiro. Enfim, cantávamos muito quando reunidos, fazendo jus à tradição legada pelos avós. - Mas... Irmã queria falar... Pisquei-lhe e ela não se conteve. Sorriso escondido no canto dos lábios, lembrou-se do que eu lhe havia escrito. Saiu de seu lugar no banco de madeira, contornou a mesa e, enroscando-se por trás no pescoço do pai, num abraço apertado, disse-lhe chorando:

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- Velho danado, não tens outra forma de manifestar carinho? O pai, vermelho mais que o vinho e assustado com aquela inusitada manifestação de afeto, arrepiado, uma lágrima no canto do olho, tentou disfarçar: - Chega,...chega,... não precisa dizer e repetir sempre que a gente se quer bem... basta querer bem. Os irmãos, a começar pelos menores, estupefatos, os olhos entre esbugalhados e lacrimosos... Comovidos? ... Novos tempos? As canções daquela noite tinham mais entusiasmo, mais harmonia, um novo sabor. .

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O DIABO NO BAILE

No

assento

do

carona,

Leonel

retorna

de

Jacarezinho para Encantado e dali para Porto Alegre. Felizmente o cunhado adoentado está melhor. O final de tarde quente de verão, traz à memória um turbilhão de lembranças dos tempos de menino e de rapaz. O calorão acachapante do vale, com o ar parado, calor que treme em si mesmo, era seu conhecido desde a infância. Aqueles quatro quilômetros para Encantado da estradinha estreita, pedregosa, com curvas bruscas e perigosas que vitimou alguns amigos de infância sob as rodas de um caminhão mais afoito ou com a perda de direção de suas velhas bicicletas, agora está asfaltada. Não há poeira. As casas à sua beira estão limpas, pintadas recentemente, flores nas varandas e nas janelas, um sinal de vida digna dos tempos recentes. Os parreirais e os pomares viçosos, os chiqueiros e os galinheiros limpos, as vacas bem nutridas numa ínfima nesga de potreiro que até parece milagre. Cada um, com

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seus oito ou dez hectares produz tudo o de que uma vida familiar precisa. Todos com seus eletrodomésticos de último geração: não só luz elétrica e água encanada trazida em mutirão dos morros próximos, mas também telefone, televisão, automóvel ao lado da carroça de bois, com a facilidade

de

guardar

seus

produtos

em

amplos

refrigeradores... Leonel vai pensando que dá prazer ver aqueles parentes e conhecidos de outrora vivendo tempos de relativa fartura na simplicidade de suas comunidades coloniais. É verdade que a maioria dos filhos já não está ali. Foram a Lajeado, Porto Alegre, Curitiba, São Paulo ou Mato Grosso em busca de espaço mais amplo para trabalhar, crescer, estudar. Eles voltam sempre para rever os pais e o irmão que ficou com eles. Para matar saudades. Leonel pensava em seu exílio da terra natal. Recém casado buscou terras novas em Pinhão, Bentevi na beira do Uruguai, retornou para Guamirim, Soledade e agora está perto dos filhos em Canoas. Os amigos que ficaram guardam as raízes. É bom revê-los, nos mesmos montes, nos mesmos vales, nos mesmos riachos que vão minguando, minguando em seus filetes de água.

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Na última curva que deixa a comunidade S. José para mostrar Encantado na concha de morros que se encostam no rio Taquari, Leonel aponta à direita, em meio a casas velhas e árvores de tapera, o lugar do baile. - Foi ali. Era uma casa de negócio e um salão de baile. Todo mundo falava. Muita gente viu... Quando fiz minha primeira comunhão na matriz de Encantado, em frente à igreja, lá no alto, havia duas grutas. Nelas as mães vestiam as crianças para poderem entrar limpos na missa. Nós éramos 100 crianças. Todos de branco. Eu tinha 9 anos. Chovia muito. Lembro... Pois bem, as mulheres comentavam que os tijolos daquelas grutas eram do salão de baile da linha São José. Quando derrubaram o salão, deram os tijolos para a Igreja e Padre Foscalo foi buscá-los para fazer as grutas. A gente se arrepiava. Eu me arrepio até hoje. - Mas a história é assim, - prosseguiu Leonel, com aquela paisagem semi-morta diante dos olhos- . Santina, moça faceira e um pouco abusada, disse aos pais que iria ao baile naquele sábado à noite. Os pais não queriam. Não era conveniente. Iriam uns rapazes da cidade e gente de fora que ninguém sabia de que família eram. Os pais nem iriam.

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E sem os pais a filha não deveria ir. Santina enfrentou a autoridade do pai e disse; - Eu vou, porque vou ao baile. Dançarei com o rapaz mais bonito mesmo que seja o diabo. - E foi, continuou Leonel em tom grave... Um rapaz bem penteado, fatiota azul impecável, camisa branca de seda, veio tirá-la para a dança. Enquanto bailava feliz, um menino, olhos esbugalhados e apavorados saiu correndo ao encontro dos pais: - Aquele moço de azul, em vez de sapatos tem casco de cavalo... Os pais olharam, muitos olharam e, quando muitos viram houve uma fumaça densa... e o moço desapareceu... No chão ficaram as marcas de ferradura de cavalo em brasa... O baile terminou. Nunca mais ali houve baile. A casa caiu. Espavorido, o povo comentava... Santina nunca mais pode por os pés na igreja. Até o dia em que o barqueiro, pessoa quieta e que enxergava muito bem na escuridão do rio, enamorou-se dela e com ela casou.

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Padre Foscalo fez o casamento. - Os mais velhos sabem... 茅 s贸 perguntar, finalizou Leonel.

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O MOINHO DE GIÁCOMO

Eu tinha um burrinho. Daqueles de fazer inveja a qualquer criança. Não era tão alto como a mula de meu avô. Vovô se gabava que esta era o animal mais resistente da região. Que montava nela pela manhã em Jacarezinho e à tardinha estava em Soledade. Eram mais de noventa quilômetros subindo e descendo montanhas. Estrada de muita pedra. Sua mula era firme. Não tropeçava. Nem se enredava ao atravessar o rio Forqueta. De caminhar parelho, quase marcha troteada, engolia distâncias sem mostrar sinal de cansaço como os cavalos dos vizinhos que para ele não passavam de matungos, úteis apenas para o serviço grotesco ao redor das casas. No alto daquela tostada, a capa impermeável de feltro bem enrolada e presa atrás dos arreios, badana cor-café e pelegos brancos sempre limpos, o laço pendendo do lado esquerdo sempre pronto para o lance, rédeas do freio e buçal trançadas por ele mesmo e

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com capricho, rebenque tala larga de argola grande e prateada só para gesticular e dizer que o tinha, João fazia de suas viagens de negócios um desfile e um passeio. Mas eu também tinha um burrinho. Ah! Se tinha! Se não era tão alto e imponente como a mula de vovô, também não era tão baixo, exíguo e mirrado como jegue do Nordeste. Para minhas pernas de menino de 6 anos era alto. Era manso e era amigo. Uma espiga de milho na mão, buçal à vista, chamava-o e ele vinha tranqüilo. Por-lhe o buçal era fácil porque ele baixava a cabeça. Montar nele em campo aberto era mais difícil: subia-lhe pescoço acima agarrado em suas crinas. E ele não se movia. Depois, entronizado em seu lombo, cutucava-o com os calcanhares e ele se punha a trotezito em direção à porteira. Meio saco de milho, meio saco de trigo divididos em partes iguais, uma para cada lado da cangalha, um peleguinho sobre a moagem e lá ia eu Jacarezinho acima, para além da capela da Auxiliadora, pela estradinha estreita sobre os peraus que caem abruptos sobre o mato e o arroio, e que vai em direção à Nova Bréscia, até o moinho do Giácomo. A trilha, que da estrada levava ao moinho, era em descida íngreme. Dificilmente a carga não acabava no

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pescoço da montaria. E então, quando ninguém aparecesse para ajudar, era preciso voltar o burro monte acima como para retornar e tentar balançar o carregamento para que voltasse ao lugar. E isto tantas vezes quantas fossem necessárias até chegar ao moinho. Seu Giácomo, o chapéu, a roupa, o rosto, as mãos sujos de farinha, - eu não via nisso sujeira mas dignidade de trabalhador -, descarregava solícito o burrinho, arrumava decentemente os bacheiros e a cangalha, apertando melhor a chincha. Tratava de trocar o milho e o trigo por um peso devido de farinha, mandava um recado brincalhão a meu pai e recomendava que eu não parasse no caminho. Tudo valia, menos não parar na casa dos primos Bagatini. Eu sempre inventava qualquer pretexto para chegar. E tia Maria sempre tinha alguma coisa para mandar à minha mãe. E sempre tinha um quitute, uma fruta, ou um suco para convidar e agradar. Jogar peão, meia hora que fosse, com meus primos Irino e Jocir era tentação invencível. Depois ia descendo a estradinha do perau de vagarinho contemplando as casas de madeira no outro lado do arroio. Os rapazes arando e gritando com os bois: “ao

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rego Pintado,... “vamos, vamos Bonito”...! A fumaça das chaminés em todas as casas desenhavam nuvenzinhas ingênuas no verde escuro das árvores, anunciando que havia água quente sobre a chapa do fogão e que as mães estavam preparando a janta. Perto daquelas casas de madeira e cobertas de tabuinhas de pinho ou de zinco, o alaranjado vermelho dos caquis maduros indicava que era outono. O coral sincronizado dos galos que cantavam e respondiam de casa em casa formava um sistema de comunicação entrecortado pelo canto de bentevis, pombas, sabiás, tico-ticos e algum inhambu lá na crista das montanhas de mato espesso. Um dia, bem no meio da estradinha do perau, quando ela se estreita de tal forma que só dá passagem a uma carroça ou um cavalo ao lado do outro, tendo à direita o penhasco de pedra e à esquerda o precipício que dá no arroio a quase cem metros de altura, meu burrinho teve um grande susto. Íamos sossegados. Ele controlando cada passo para não resvalar nas pedras e para não deixar cair a moagem e o condutor. Eu cismando com folguedos da escola e com a amizade entre os animais e as crianças. Pensava

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especialmente em meu cachorrinho Totó, meu braço direito e esquerdo em cuidar para que os porcos que acaso fugissem do chiqueiro a ele retornassem guiados pelo acoar e pelos dentes do cão. Não adiantava correr. Não adiantava fugir. O leitão voltaria, quisesse ou não quisesse. Eu esperava de portinhola aberta... e depois corríamos e brincávamos como se ele também fosse criança. Numa curva, morro abaixo, atrás de nós e em velocidade demasiada para as condições daquela estrada, vinha o automóvel preto do médico de Nova Bréscia. Não conseguiria frear antes de nos apanhar. E se freasse bruscamente naqueles cascalhos soltos correria todo o perigo de desgovernar-se e cair no precipício. Senti o pânico esfriar-me a espinha e as pernas... Não sei como, nem por quê. Mas, num segundo, meu burrinho saltou para cima de um patamar de pedra à direita, a mais de metro de altura e onde só cabia ele. Não caí. Ele não tropeçou. Quando pode parar, o médico voltou correndo e preocupado... E nos viu, no alto da pedra, como uma estátua dos cavaleiros antigos, incólumes. Eu ainda deveria estar pálido e gaguejante porque nem consegui responder à

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brincadeira que ele fez para desanuviar... “Não sabia que você passa farinha na cara...” Difícil foi fazer o burrico descer daquele altar. O médico descarregou a farinha para aliviar o salto do burro. E depois, o doutor Francisco puxando lá de baixo e eu batendo levemente fizemos o retorno à estrada. Tudo posto em seu lugar, lá se foi o simpático médico, não sem antes me encher as mãos de balas que sempre carregava nos bolsos do casaco, certamente para compensar o medo das crianças depois das injeções. Antes que o sol empurrasse a sombra de nosso monte para o outro lado do arroio e cobrisse

metade

daquele morro, eu chegava. Melhor, chegávamos em casa.

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IMACULADA CONCEIÇÃO

Oito de dezembro. Não importava a urgência dos trabalhos da roça. Não interessava se a chuva ameaçasse destruir o feijão na eira, ou o resto de trigo para recolher. Leonel não trabalhava. Era mais que um feriado. Era o dia da Imaculada Conceição14. Ana insistia que era um dia propício para ir à missa, para se confessar e comungar: afinal o Natal já estava próximo. Leonel, porém, madrugada ainda, logo após a terceira cantada dos galos (por volta das 4 horas), afivelou a cartucheira com 36 cartuchos bem carregados, acolherou os cachorros viadeiros, boné preto, botas de trabalho e saiu mascando um pedaço de pão com salame. Um companheiro de caçada o esperaria na encruzilhada da estrada que leva a Soledade. No fundo dos campos de seu Noé, nos matos que 14

Os imigrantes italianos foram profundamente marcados pelo Concílio Vaticano I que, em 1859 proclamou o dogma da Imaculada Conceição, reafirmando com isso a distinção do catolicismo e protestantismo e a autoridade do papa cuja infalibilidade também foi decretada no mesmo Concílio. Assim o papa, sem autoridade territorial e política, marcava sua autoridade diante dos povos.

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vão até o rio Forqueta, havia muito veado e paca. No luscofusco fresco do amanhecer ia pensando: hoje não voltarei de mãos vazias. E lá foram Leonel e Jerônimo combinando em voz baixa onde cada qual deveria posicionar-se para esperar a corrida do veado ou das pacas, onde soltariam os cachorros e em que deveriam atirar: nada de tiro em pássaros; é só para espantar a caça e desnortear os cães. Leonel postou-se à beira do rio onde um córrego desaguava. As lajes, antes do poço remansoso era o lugar ideal para avistar a caça e atirar. Chegando às pedras, o veado costuma parar antes de atirar-se à água. Era o momento de abatê-lo. Jerônimo ficou mais acima, à beira de um canto de campo, pois se a caça quisesse passar de um mato para o outro deveria passar por ali. Soltaram os cães que, como de costume, foram subindo ladeirão de mato acima, tentando descobrir o rastro de veado ou de paca. Tão logo cheirassem pisadas frescas iniciariam a latir baixinho, quase chorando, avisando que a presa deveria estar por perto. E quando vissem a caça atirar-seiam morro abaixo em corrida desabalada atrás dela, num

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desabrido “quiu, cáu, quiu, cáu” que ecoaria pelos morros. Era só esperar de prontidão que, a uns cinquenta ou oitenta metros à frente dos cães viria o veado. Quando era paca a corrida era diferente fazendo curvas e mais curvas antes de chegar à água ou ao campo. Mas naquela manhã os cachorros não ganiam, não latiam como se não houvesse rastro nenhum naqueles morros. Esperaram, meia hora, uma hora e nada. Leonel encostou a espingarda numa árvore, fez um palheiro de vagarinho, apurou o ouvido. Só o barulho manso da água do rio que descia em meio às pedras em pequena corredeira. Dez horas. Sol quente. Assobiou para ouvir a resposta de Jerônimo. Este não respondeu. Assestou a cornetinha de chifre e buzinou três vezes para chamar os cachorros. Estes também não responderam. - Mas que diabo é este, dizia para si mesmo Leonel. Jerônimo deve ter se deslocado para mais longe e eu talvez não ouvi a corrida. Tornou a assobiar e buzinar. E nada de resposta.

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- Talvez os cães, não tendo encontrado rastro por perto, foram para o outro lado da montanha. Mas, nenhuma corrida? Nenhum tiro? É um vexame. Contrariado, resolveu ir embora de vez. No entanto, apesar do combinado de não atirarem em pássaros, Leonel mudou de pensamento quando viu sobre o galho de um pinheiro, a não mais de 30 metros dali, uma pomba branca. Não era pomba de campo mas era tão graúda como aquelas e parecia não se importar com sua presença. Apanhou a espingarda belga de dois canos de calibre 32 e com a qual não errava tiro, mirou bem e detonou. O estrondo ecoou por aqueles fundos de mato. A pomba, porém, não se moveu. Não se assustou e continuou impávida a olhá-lo. Leonel

não

acreditou.

Nenhuma

pena

caiu?

Examinou a arma e os cartuchos: tudo estava correto, o chumbo apropriado, a distância era a ideal para aquele tiro, ele não tremera. Assestou novamente a espingarda e atirou com o segundo cano. O estrondo foi igual. O eco foi igual. O galho em que estava a pomba descascou com o impacto

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dos chumbos. Mas a pomba estava lá. Como se nada tivesse havido. - Quem sabe não é uma pomba, é uma ilusão de olhos? Mas a pomba se mexia, levantava e baixava a cabeça, suas patinhas deslocavam-se sobre o galho. - Não é possível!, dizia de si para si Leonel. Eu nunca errei tiro assim. É vergonhoso. E que dirá Jerônimo quando me perguntar em que atirei? Pôs mais dois cartuchos, daqueles carregados a capricho, chegou um pouco mais perto, apontou e atirou com os dois canos ao mesmo tempo. Os chumbos quase cortaram o galho do pinheiro. Mas a pomba? A pomba estava lá, a olhá-lo, mansamente, sem repreensão e sem medo. Leonel, arrepiado, entendeu ou quis entender: - É um sinal. Um sinal de Deus... Que dia é hoje?... Hoje é terça feira, oito de dezembro, dia da Imaculada Conceição... Voltou. Não encontrou Jerônimo. Os cães estavam dormindo à sombra do galpão.

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- Nunca mais caรงo neste dia, prometeu para si mesmo.

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O DISCURSO DE ANA

Sentado à sombra da figueira em frente à varanda da casa de madeira, Leonel, camisa desabotoada, respira com gosto o ar fresco da tardinha, depois de um dia de tanto calor. A aragem suave, quase imperceptível e que nem move as folhas das roseiras, traz, de todos os lados, uma serenidade que tranqüiliza e pacifica os pensamentos e os desejos. Olha para Ana que lhe serve um chimarrão suculento como a saudade. Este chimarrão tem a história de mais de cinqüenta anos. A vida deles foi tecida, entretecida de chimarrões. Cada dia, todos os dias, a vida começava com o chimarrão. Bem antes de clarear a manhã, hora e meia antes do sol, lá estavam os dois na cozinha ao redor do fogão a lenha. Enquanto ele reacendia o fogo, que nunca chegava a se apagar de todo, ela limpava a chapa de ferro, trazia a chaleira preta para aquecer a água e punha ao alcance de

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sua mão a erva, a cuia, a bomba para que ele armasse e cevasse o mate. Era a liturgia sagrada de todos os dias. Enquanto o leite esquentava de vagar no canto do fogão e a chaleira chiava, eles sorviam, gole a gole, aquela intercomunicação amorosa. Era uma hora e tanto, sem muitas palavras. As suficientes para organizar a jornada e para manter quente a proximidade e o aconchego. Muitas vezes o diálogo deles nem era feito de palavras. Uma pequena exclamação, um “ah!...éh!” e o diálogo se mantinha, prosseguia, como se fosse sustentado pelo mais eloqüente discurso. Às vezes Leonel se surpreendia respondendo a uma pergunta que Ana nem tinha feito e que ela continuava como se a tivesse feito... Quando o amor amadurece dispensa palavras... basta um gesto, uma insinuação, uma sílaba... A cada gole longo, as mãos acariciando a calidez da cuia, os olhos recolhendo os pensamentos e depositando-os no rosto acolhedor da parceira, ele sabia que ali era o seu lugar. Lugar para estar, para partir, para chegar, para ficar. Era a referência geográfica para todos os lugares do mundo. Para o que fica perto, para o que fica longe... Aqueles densos diálogos feitos de longos espaços de silêncio eram-

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lhe o fio condutor de todo o pensar, de todo o imaginar, de todo o fazer. Ele recordava como as discordâncias tão fortes e incisivas na juventude, foram amainando, arredondando as arestas com o rolar dos tempos dialogados que agora apenas servem para anunciar a riqueza de outras faces do sentido das coisas. Agora a proximidade amansou a petulante necessidade da diferença. Basta um suspiro, um “deixa pra lá...” e as coisas se acertam como se sempre tivessem estado de acordo. Não raras vezes Leonel se apanhou intrigado com a questão: por que não conseguia brigar com ela? É impossível brigar com ela. Lembra-se do dia em que perdera um bom negócio. Era a compra de uma bela gleba de terras povoada de pinheiros e que lhe renderia anos de trabalho. Fizera uma oferta e aguardava com ansiedade a resposta. Parecia incrível que o amigo Fausto não dissesse nada. Naquela quinta feira à noite, cansado do trabalho, na hora da janta, comentou com Ana o assunto. Não queria perder o negócio. Ana, de pé, perto do fogão empalideceu. Olhou-o com um olhar de arrependimento infinito, quase deixou cair

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a travessa da sopa, e, sabendo bem o que aquilo significava para ele, suspirou em murmúrio: - Não, Leonel!... Eu me esqueci... Fausto esteve aqui de manhã. Disse que se tu quisesses o negócio era teu, mas devias dar a resposta até as seis horas da tarde... E eu,... eu... esqueci...! Ele petrificou os gestos. Olhou-a com um misto de espanto, surpresa e fúria traduzidas em quatro ou cinco blasfêmias de “pórco dio, pórca madona, camadonassa...” que abalavam os alicerces de Ana. Ele não podia acreditar... Não podia ser... Perdeu o melhor negócio de sua vida... Por um esquecimento?! Ela ficou em silêncio. Nada retrucou. Entendia que a repreensão e a gana cabiam... Seu olhar para ele era uma súplica de perdão... Quando

ele

parou

de

falar

e

imprecar...

singelamente disse: - Me desculpa! E ele quis olhá-la rispidamente... mas não conseguiu... Ao encontrar-se com o olhar dela o fogo de seus olhos se apagou. E, então, depois de engolir a saliva

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em seco, quase arrependido pelo barulho que fizera, encerrou: - Éh!... Fazer o quê?... Haverá outros negócios... Ana, envidou-lhe um olhar convidando-o para a paz e, sem falar, ofereceu-lhe um prato de sopa fumegante. E passou-lhe a mão no cabelo. E Leonel: - Não adianta querer brigar contigo! Era mais do que reconciliação. Agora, sob a sombra generosa da figueira, ele a fitava, sem falar... como se fora a primeira vez. Aqueles largos olhos azuis, habitando o rosto sulcado e amaciado por mil diálogos e encontros apontam para maior amplidão ainda. Cinqüenta anos casada com ele. Ela fora a sua primeira e última namorada. Ele fora seu único amor. Tinham onze filhos, vinte e cinco netos.

A vida dela

sempre fora a sua casa, seu porto, sua estrela. Em todos seus achaques de erisipela, de coração e de diabetes e que ela suportava sem queixas, sem alarde, sem reclamações ele aprendia, com os chás que ela repartia, com as intimações para ir à missa e às orações, a sabedoria e a dignidade de viver.

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Agora ela estava ali. Inteira. Completa. Presente. Que bênção, pensava ele, ter uma companheira assim, que me compreende antes que eu me compreenda a mim mesmo, que está sempre no lugar apropriado, em quem ele pode depositar a confiança de ser e de estar. O coração dela é o estuário da fala, da queixa, da necessidade e da alegria de cada filho, de cada filha e dos vizinhos, dos parentes, dos netos... É o lugar de cada um... Como pode? Os cismares de Leonel andam longe, vão até as raízes, até os picos do viver. E pensa como é uma bênção que ela não seja tagarela. Que em sua simplicidade não precise catar assuntos e distrações para matar o tempo e que enche o espaço e o tempo de todas as ocupações. Que bom é o silêncio dela... que boa a fala que nasce de um silêncio longamente meditado e maturado... e nasce simples, próxima como ela é. Uma fala que reduplica para marcar e incidir sobre o significado principal, como quando diz da água fresca que bebe de olhos fechados: - É boa... boa... boa! Ou quando se encanta ante a beleza de um pôr de sol ou da jovialidade de uma menina moça:

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- É bela... bela... bela! Ana, a fala dela congrega. O silêncio dela fala. E convida a alma a falar. Quem fala? Fala ela? Falamos nós? Ou fala o silêncio. O chimarrão, para Leonel, tem sabor da fala de Ana.

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O SANGUANEL15 Filó16 em casa de Alcides e Gema. Recém casados. Há duas semanas convidavam e insistiam. Queriam reunir os jovens. Os pais também. Duas rodas: os homens na sala jogando quatrilho ou “trisset”17, um garrafão de vinho e carne lessa com pão fofo do qual Gema tanto podia se gabar; e ao redor da mesa grande da cozinha, perto do fogo, os jovens tomando brodo. As mulheres trançando dressas18 de palha de trigo para 15

Sanguanel era para os imigrantes italianos um ente fantasmagórico misto de Saci Pererê, negrinho do pastoreio, a personificação do diabo com cara e chifres de bode, olhos de fogo, roupa vermelha... o perfeito rapazote malcriado perturbador das mocinhas... o diabo em pessoa. 16 Filó, para os imigrantes italianos era uma reunião familiar noturna de vizinhos e parentes para conversar, jogar cartas, namorar, fazer negócios. Iam todos os integrantes da família. Servia-se vinho e caldo de galinha (brodo) com queijo ralado. O caldo era, geralmente do galo mais velho e mais gordo do terreiro. A carne do galo cozido na água (carne lessa), servida aos nacos na mão, era muito apreciada. O pão e as cucas que acompanhavam eram o demonstrativo da habilidade culinária da dona da casa. 17 Os filhos de imigrantes italianos de Encantado jogavam, além das bochas e da mora, entretenimentos com baralho espanhol como bríscola (a bisca), o quatrilho e o treis sete (trisset), com muitos gestos, senhas e truques, muito comentário após cada raio e, geralmente por bagatelas de bebida ou de petiscos. 18 Dressas eram fitas largas um pouco mais de um centímetro e que eram costuradas para fazer chapéus e bolsas...

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fazer chapéus e cestas e de olho nos jovens. Esses percorriam os assuntos banais do vale contanto piadas tão picantes quanto o limite do admissível para o ouvido atendo das mães que, de vez em quando freavam com

um

“pára...pára... sporcachón”. Joana e Sabina, dezesseis anos, aproveitavam para levantar o vestido um pouco acima do joelho e abrir pelo menos um botão ou dois da blusa: estava muito calor!... Era inverno... José e Pedrinho não sabiam se colocavam as mãos no bolso ou se desviavam o olhar. Elas sabiam disso. Percebiam sua atrapalhação e riam por nada... de pura picardia. Alcides, agora já experiente na vida, acicata Pedrinho: - Ah! Se os olhos pudessem ver na escuridão! Ainda bem que a luz do lampião é fraca! E a sonora risada de todos é a demonstração bastante de que todos sabem de tudo... Assunto vai... assunto vem... e a conversa, como de hábito, insistentemente retornava para o fantástico, o miraculoso, o demoníaco que ronda a vida dos homens. Enquanto isso as labaredas do fogo atraíam os olhares

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displicentes de todos e projetavam nas paredes figuras que incitavam o imaginário. Diante da incredulidade quase atéia de Gino que foi seminarista e que mostrava a satisfação superior de ter estudado um pouco mais de religião vinha a argumentação cerrada de Fidêncio: - Você não acredita no diabo? Que ele aparece de vez em quando? Pergunte à tua tia Angelina. Ela nunca te contou? Ela viu o sanguanel! - Quê sanguanel, quê nada! Duvido, retrucou Gino, seguro de sua teoria teológica -. - Eu não duvido, disse Alcides, - olhando de lado lá do canto da mesa. Ela cansou de nos contar. Ela viu o diabo. Ortenila, de olho estalado e achegando-se à irmã Hortência como para buscar apoio e segurança: - Eu tenho medo até de contar o que aconteceu com nossa irmã Angelina. Conta tu Fidêncio para ver se esse sabido não acreditará! Fidêncio, com a palavra tão oficialmente oferecida, encostou-se bem no espaldar do banco atrás da mesa e contou:

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- Bem,... todo mundo sabe. Ela era pequena. Tinha seis anos. Seu João, com todos os filhos estavam fazendo açúcar lá em cima, no canavial que fica nos fundos da roça. Lá onde está o engenho, acima dos potreiros. Enquanto uns cortavam a cana e a carregavam aos feixes para espremer no tórcio19, outros cuidavam da moenda, as mulheres cuidavam do fogo nos tachos e de mexer continuamente a garapa fervente para não pegar no fundo. - Aquela festa de fazer melado e açúcar que todo mundo conhece, prosseguia Fidêncio. E a gurizada que se babava de tanto beber garapa. Dona Mariota e Amália prepararam o almoço em casa e, perto do meio dia, subiram. Folga para o almoço e os trabalhos retomados até o escurecer. Quando as sombras do morro já tinha escorrido montanha abaixo e já subiam pela metade das roças dos Fontana, lá no outro lado do arroio, todos juntavam as coisas para descer. As onze latas de açúcar e cinco de melado na carroça, os tachos e as ferramentas recolhidas, enquanto os bois comiam folhas de cana. 19

Moenda de espremer a cana para extrair a garapa, geralmente com três cilindros e movida por uma junta de bois.

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- Tudo pronto? Vamos embora, dizia satisfeito seu João. Mariota, porém, se inquietava: -

E

a

Angelina?

Onde

está

Angelina?

Angelinaaaaaa!, chamava... Todos silenciaram para ouvir uma resposta... E nada... -

Angelinaaaa!

Gritava

a

mãe

Mariota

sobressaltada... - Mas ela estava aqui até bem pouco, disse Leonel. E todos se puseram a procurar... Procuraram atrás dos montes de folhas de cana, atrás do engenho, sempre chamando, chamando e nada de Angelina. Seu João organizou a procura: - Para casa, sozinha, não pode ter ido. Ela deve estar no meio do canavial. Vamos varrê-lo, carreira por carreira, cada um numa linha, até o final e retornamos nos regos acima. Antes de escurecer a acharemos. E assim fizeram, palmilharam carreira por carreira de cana e nada de Angelina Inconsolados iniciaram o quilômetro e meio de descida. Todos atentos a qualquer sinal. Os rapazes

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rondaram

pelo

potreiro...

as

vacas

pastando

pachorrentas. Encostaram a carroça no paiol. Nem descarregaram. A casa estava como a deixou Mariota. Tudo fechado. Tudo escuro e em silêncio... - Angelina, gritou a mãe quase desesperada... Só os cachorros latiram. Mariota convidou as filhas para rezarem o “Si queris” a Santo Antônio que ajuda infalivelmente a encontrar as coisas perdidas...E nada... nada... - Repartiram-se e foram para os vizinhos. Eu lembro que foram lá em casa. Eu devia ter cinco anos, continuava Fidêncio... Ninguém a viu. A noite caiu pavorosa sobre a família deles. Ninguém conseguiu jantar. As meninas choramingando. Os irmãos com um nó na garganta que não permitia engolir nem falar. Seu João propôs que rezassem o terço e entregassem o caso nas mãos de Deus. Ouviram cada cantar do galo, marcando as horas da noite e da madrugada.

248


Amanheceu. Um pouco de serração esfumaçava o vale. Todos se levantaram antes do costume. No silêncio da cozinha todos pareciam esperar o inesperado. E eis que a porta da frente se abre. Todos se voltaram em sobressalto... Era Angelina que entrava, olhos inchados e vermelhos, parecendo tremer de frio... Todos se atiraram para ela. O alarido foi geral: o que houve? Onde estavas? O que aconteceu? Mariota abraçou-a,... abraçou-a e chorou... Até seu João enxugava as lágrimas na manga da camisa. E Angelina então falou quase gemendo: - Foi o sanguanel! Foi o sanguanel! Enquanto vocês estavam se preparando para voltar para casa, ele me pegou pela mão, me levou para as canas e me fez subir naquela bergamoteira que está bem no meio. Quando vocês chamavam, eu ouvia, mas não podia responder. Ele tapava a minha boca com as mãos, umas mãos pretas e fedidas. Vocês passaram em baixo da bergamoteira e eu não podia responder. Quando vocês vieram embora ele me deixou descer, mas me obrigou a dormir ali no chão. Ele sempre perto de mim. Tinha olhos de fogo, dois chifres de cabrito,

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uma roupa vermelha, esquisita. Quando o sol nasceu ele desapareceu e eu fugi para casa. - Esta é a história, concluiu Fidêncio emocionado. A história verdadeira de Angelina. E daí? Não existe o sanguanel? Gino, passou os olhos pelos olhos assustados de cada um mas não se deu por vencido: - Quando foi que Angelina contou isto a vocês? E todos, em coro, a começar pelos mais velhos: - Ah! Faz muito tempo. Não é de agora, não. Então Gino provocou, como cartada final: - E por que não chamamos a Angelina. Ela mora a menos de 500 metros daqui! - Vamos chamá-la, concordou Alcides e todos com ele... Quem sabe, o Agenor vai até ali! - Vamos eu e Fidêncio, - disse ele, que não queria enfrentar a escuridão lá fora, sozinho -. Nunca se sabe! A gente pode tropeçar nas pedras... Dez minutos depois lá estava Angelina: - Vocês me chamaram para quê? Perguntou ela. Agenor e Fidêncio não me disseram para quê seria.

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- É um tira-teima que nós propusemos ao Gino. Ele duvida que tu tenhas visto o sanguanel. Nós contamos a história para ele e ele se faz de sabido. Não acredita. Diz pra ele como foi... É ou não é verdade? Gino antecipou-se: - Tia! Agora, depois de tantos anos, ninguém mais está aqui para censurar o que tu viste. Mas conta a história direito para nós. Angelina, puxou para si uma escudela de brodo, pegou um naco de carne lessa de galo numa mão, uma boa fatia de pão fofo na outra e contou: - Vocês nem sabem. Eu nunca contei isto a ninguém. Mas hoje eu vou contar a verdade... Naquela tarde eu cortava gomos de cana para chupar com uma faca de mesa de mamãe. Eu perdi a faca. Sabia que dona Mariota não só ralharia comigo mas que ela e meu pai iriam me bater. Eu tive medo, muito medo. Quanto mais eu procurava menos enxergava. Quando começaram a me chamar assaltou-me o pavor, o pânico. Corri para o meio do canavial, subi na bergamoteira e, escondida, fiquei quieta. Depois que todos voltaram para casa, fiquei com mais medo ainda. E, no medo adormeci em

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baixo da árvore. Com fome, com frio e com medo voltei logo que amanheceu e contei a historinha do sanguanel. - Filha da p.... gritou Alcides. Então tu nos enganaste até hoje? Gino não sabia se ria, se falava... Degustou saborosamente aquela vitória. Mas, quando saiu da porta, ao final do filó, ele não sabia o que pensar do sanguanel.

FECUNDIDADE

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Doze de abril. Aniversário de Gino. Festa. Barulho. Corre-corre de netos. Ana, feliz, na ampla varanda com churrasqueira que dá para o páteo e a horta com canteiros de flores, pimentas, radici e tomates, diz a Leonel: - Que beleza! Todos os filhos, noras, genros e netos. Deus foi bom para nós. É uma bênção. Os olhos dela, pela janela aberta sobre a sala, percorrem a fotografia dos dez filhos na parede, cada qual com sua ou seu consorte. Cada qual com seu sorriso e sua pose. Os netos ainda não estão nestas fotografias: são vinte e quatro. - Ainda recordo a festa das bodas de ouro de meu pai, diz Leonel. Oitenta e nove netos presentes. Os oito irmãos de minha mãe Mariota. Nasceram nove, os nove estavam ali. O mais velho, Marcos, com noventa e oito anos. Mamãe era a penúltima e estava com setenta e dois. E cantaram já um pouco desafinados, mas cantaram e tomaram vinho da manhã à noite. Será que nós chegaremos lá?

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- Eh bem, só Deus saberá, devolveu-lhe Ana. E eu fico pensando como as famílias antigas eram grandes... E ninguém passava fome... Tu és o mais velho de doze irmãos, eu sou a terceira de doze irmãos, meu pai era o segundo de quinze e o tio dele Ângelo teve vinte e um filhos... Quê exagero!, comentava sacudindo a cabeça... Enquanto os filhos e genros escolhiam cantigas que todos lembravam da infância e afinavam a harmonia achegando o ouvido à boca do outro como que para captar na fonte o som correspondente para a polifonia, a alma de Ana voltava para os primeiros tempos de casada. Quanta dificuldade! Quê trabalheira! Os dois primeiros foram anos de labor insano e quase inútil em terras do sogro que, ao final ficara com a maior parte da colheita. Em casa, o mínimo do mínimo necessário para a cama, mesa e fogão. Os vestidos de solteira que precisaram ser alargados com a gravidez do primeiro filho. Depois amamentar e trabalhar ao mesmo tempo. A enxada e o peito. O peito e a enxada. De sol a sol. Ainda bem que a sobrinha ajudava a cuidar da criança depositada sobre um pelego dentro do balaio, à sombra de uma

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laranjeira, lá na roça. Quando o menino chorava ou de fome ou pelos beliscões da menina que forçava o choro dele para que a mãe viesse e a liberasse uns minutos para brincar, lá ia Ana a oferecer ao filho o que, graças a Deus, tinha em abundância: leite morno e temperado ao gosto dele. E ele crescia forte, rechonchudo... Nos olhos de Ana estas recordações bailavam ainda numa atmosfera de felicidade. Mal o primeiro iniciou a comer papinhas e ela já estava grávida de novo... Fazer o quê! Era a vontade de Deus... Mas, bem que era também por vontade louca, incontrolável de Leonel que parecia insaciável... Uma ou duas vezes todos os dias... E uma noite chuvosa de sábado foram três vezes... que falta de pudor... Ele chegava e vinha porque vinha... para o que era dele, de direito e de poder... E ela que no início achava aquilo violento e sujo, apenas obrigação conjugal, começou aos poucos a gostar também, embora depois se confessasse que tivera muitos maus pensamentos e desejos. Só naquele sábado ela chegou ao descontrole da alegria. Depois soube que aquela quase

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morte, aquela loucura toda de gemidos e com cheiro de chifre queimado se chamava orgasmo. Ela lembrava que Geni, o segundo filho, nunca tivera boa saúde. Embora tivesse nascido graúdo, foi definhando, definhando... aos poucos. Desinteria, febres, tosses... choro, chorinho de dor ela bem sabia, mas não conseguia identificar. Ela massageava a barriguinha da criança, aquentava-a com panos mornos, apelava para todos os remédios caseiros que cada tia, cada comadre solícita e a sogra indicavam. Não havia jeito. Remédio para vermes, erva doce, chá de casca de romã, nada parecia ajudar. Foi um ano inteiro de carinhos, de benzeduras de procura de médicos, difíceis de achar e mais difíceis ainda de pagar, médicos que pareciam pouco ou nada entenderem de doenças de criança... E o leite? O leite generoso teve que ser posto fora porque sobrava... sobrava. Naquela tarde chuvosa de doze de abril Geni parecia cansado de tanto chorar... E foi chorando menos, mais baixinho, mais baixinho. Quando a cunhada pediu-lhe o menino cujo gemido se apagava e o levou para fora do quarto... Ana escutou, escutou e não ouviu mais... Teve certeza... rezou... ele acabava de morrer. Entregou-o à

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Virgem para que cuidasse dele na Casa do Pai. Chorou baixinho, ouvindo os lamentos que vinham da sala. A dor dela foi tanta que, grávida de sete meses, deu prematuramente à luz o terceiro filho. Enquanto Geni era velado na sala, sobre a mesa recoberta de flores pelas cunhadas, duas moedinhas de prata sobre os olhos e todos rezando terços e mais terços... ela, no quarto ao lado, paria outro filho tão pequeno que cabia na palma da mão. Não conseguira ir ao enterro de Geni. Soube que Leonel lhe fizera um pequeno túmulo sobre o túmba dos bisavós Narciso e Domênica em Jacarezinho e, ao lado dele já preparou outro para o filho que nascera naquele dia: certamente não conseguiria sobreviver. Ana, com tristeza infinita e o filhinho na mão, redobrou os cuidados. Fez para ele uma caminha de algodão numa caixa de sapatos. Dava-lhe leite em contagotas... Dedicou-se completamente. Por quase dois meses Leonel foi à roça sozinho. Ela mantinha seu filho sempre perto do calor do fogão. E rezava, rezava muito para que Deus cuidasse do filho que já fora pra casa e deste pequenino que lutava para viver. Depois de um mês aquele “ratinho”, um belo dia

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surpreendeu. Tomou jeito, espichou, desabrochou. E começou a chorar por comida. Ana chorava de alegria. E o leite? Ela já não tinha leite. Secara.

Então

Leonel trouxe uma cabrita lá do Capitão que salvou e robusteceu a vida do filho... “Bem aventuradas as cabritas... porque delas é o reino dos céus!”, quis dizer Ana. Óbvio que era loucura... onde se viu um bicho ir pro céu?!... Agora, na festa de aniversário daquele filho que a cabrita salvara, Ana quis comentar com Leonel: pena que falte um filho, o Geni. Mas se conteve, porque sentia que ele estava presente, uma presença cálida e carinhosa bailando na voz dos filhos que cantavam “Boi barroso... La verginella... O irapuru, ... Il mazzolin di fiori...” Foi acordada de seus cismares por Carlos que anunciava: - O churrasco está pronto... vamos chegando! O perfume campeiro da carne assada, o acre das saladas verdes temperadas com toucinho frito e vinhagre de vinho,

o

cheiro

adocicado

do

sagu

com

laranja

convidavam...

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Na oração à mesa, em imensa roda de mãos dadas, coração aberto agradecendo a felicidade da vida, Ana, lembrava... um lugar para cada filho.

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ANA - Comeu tudo!

Sábado à noitinha. Semana em borborinho. Faleceu Leonel, avô de Vinícius. Missa de sétimo dia. Lembrança dos melhores momentos. Renovação da esperança na Comunhão dos santos. Missa na Igreja Santo Antônio do Laranjal. Também Aninha vai feliz à missa. Tem dois anos e muita observação. Olho aceso em todas as coisas, em todos os movimentos. Tantas pessoas, tantas luzes e Padre Jaime, no altar dizendo que o bisavô Leonel passara para a casa do Pai e que não é difícil ser órfão quando o pai está em Deus e, por isso, tão próximo de cada passo, de cada gesto que fazemos. Cada canção é acompanhada por Aninha com o balançar do corpo. Vem o momento da Comunhão. No colo do pai, Aninha está na fila e nota que todos apanham a pequena hóstia e a comem em silêncio. Chega a vez de Vinícius. Este toma a hóstia, - aquela pequena bolacha branca e diferente -,

e, com ela na boca, encaminha-se para o

assento. Aninha olha para o pai, faz um beicinho de

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estranheza, quase a chorar e diz: “comeu tudo!!!”. Quase a dizer: vocês me ensinaram sempre a repartir as coisas, a convidar o outro com aquilo que se come, e agora, pai, você comeu tudo, sozinho. Nem me convidou. Vinícius explicou logo que, quando fosse grande, ela também receberia aquele pão sagrado. Aninha entendeu, ergueu os dois braços: - quando eu ser grande, ganharei também... Nos olhos negros, saltitantes de curiosidade e vida, nos gestos francos de quem quer saber, Aninha me ensinou: a Eucaristia, afinal, é a festa da partilha do pão. Santa impressão e rebeldia: “comeu tudo”...

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QUERO VER Ana completou recentemente dois anos. Viva, alegre, curiosa, uma bênção ambulante a povoar o mundo e nossos sonhos de esperança. Afável, carinhosa, obediente ante aquilo que não se pode fazer, mas livre e criativa ante tudo o mais. Tudo é possível a não ser o que é perigoso, frágil e danoso. E ela sabe que é livre e que o mundo dos homens, dos bichos, das plantas, das flores, do sol, da lua e das estrelas, o mundo da água e do vento, tudo é lugar para viver, para brincar e encantar-se. O mágico mundo do bem-querer, o mágico mundo do sorriso, dos parabéns-a-você, da confiança nos pais, nos avós, nos priminhos, nos dindos, nos amigos e, por que não?, em todas as pessoas... Aninha sabe mexer com o coração do pai. Quando ele volta cansado, depois de tanta cirurgia, de tanta burocracia, cansado no corpo e na alma e com vontade apenas de um banho e dormir... lá vem Aninha erguendo os bracinhos:

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Pai amado, vamos passear um pouco. E lá se vai o pai, descansado, refeito, sorriso largo na testa, pronto para passear... E o cansaço? O cansaço fica para outra ocasião. Agora é a vida, o convite a viver. Diante de cada novidade ela sempre pergunta: o que é? Por que? E acrescenta: quero ver... No restaurante, pede à mãe Rosana para ir ao banheiro. E lá vão as duas: a mãe orgulhosa e feliz. Pensa: quê bênção, uma filhinha assim! - “Dá a mãozinha para a mãe lavar... deixa lavar o rostinho...” Do outro lado da parede, o ruído da descarga de um vaso sanitário... - “Que é isso, mãe?” É o barulho da descarga de outro banheiro Onde? No banheiro dos homens. Quero ver! Mas minha filha, você quer ver tudo, parece até São Tomé! Aninha suspendeu a voz e olhar: Mãe, quero ver São Tomé...

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ANA CATARINA

Ana tem três anos. Nasceu esperada, cuidada, querida. Uma bênção, uma graça da força do amor. Surpresa diária de ser. Que canta, que pula, saltita e que dança e convida o avô a apanhar pitangas, as grandes, mais altas, pretas de sabor. E reparte, uma para cada prima que contam com ela e ela conta com elas para povoar o domingo de imaginações e brinquedos com bonecas, casinhas e um bom banho de piscina: com bóias, sem bóias, espaguete ou no colo do pai ou do avô. Quem poderá conter, calcular, controlar a ânsia serena de vida que explode em seu ser, seu andar, agradecer ou reconhecer que o copo virou: “agora sim fiz uma cagada”?! E o pai, boca cheia, quase explode de rir. E corre ao banheiro para se compor e voltar com autoridade: não se diz assim minha filha. Aninha que cansa dez anjos da guarda por dia. Que sobe as escadas: “de vagar, minha filha”, apressa-se a mãe. Que gosta de bichos, de ver passarinhos verdes aos bandos

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da varanda na chácara e escuta atenta os inhambus, queroqueros e as pombas “puh...puh...” Aninha que gosta de saia rodada que a avó vai fazer: “vestido de rodá...”

E bem colorido, festa da vida e da

esperança. Aninha que sabe tranqüila que o pai só vem logo. Ele está trabalhando. Que a espera é confiante porque o pai é fiel como a mãe. Aninha que já vai à escola, “ao colégio” e que brinca com tudo o que vê e com todos os que estão. Aninha que gosta de negros e brancos e a todos convida a bailar, conviver. Aninha que pensa e como pensa Aninha! Como cabem tantos pensamentos em cabeça tão pequena, em olhinhos tão negros e tão vivos?! Raciocínio tão rápido, imaginação fecunda e solta onde cabem princesas, príncipes, bruxas, bandidos e amigos, e amigas e a paz de ficar, de visitar a prima Camila, de estar com avós ou tios, e tia Márcia e tia Lica... Aninha que tem uma casa: dois pisos, janelas, portas e patamar que o pai fez, com suas mãos, seu capricho e carinho. E a mãe fez cortinas. Debruçada na janela Aninha

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chama, saúda, provoca, convida... É sua casinha onde a boneca é ela mesma e todos os que ali vão. Onde o faz de conta já é acontecer. Aninha tem uma casa. Tem um espaço emoldurando uma identidade. Aninha tem uma sombrinha. Botão automático que abre instantâneo. Mas é preciso haja uns pingos de chuva para passear pelo páteo e ela andar caminhando, balançando em trejeitos de mocinha princesa. Na sala da vó os potinhos chineses dourados, em série, inquebráveis à curiosidade de todos os filhos e netos, já podem ficar descansando no cestinho dos ovos e bichinhos de metal. Agora os bichinhos, as zebras, gazelas, o sapinho pescador com sua mulher de cesta verde, e os gatos simpáticos de olhar melancólico sobre as estantes, se animam e falam e andam no universo empático da imaginação. Quanto vôo, quanto sonho, quem pode conter?! Aninha que é forte, que é esbelta (que “é magra, é fraca, não come” diz a mãe) que come saladas, radici, agrião e tomates, e frutas e carnes e salsichões e coraçõezinhos no churrasco do vô. E lulas, e polvos, mexilhões que a avó Ruth preparou e de que as primas tem

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nojo... Aninha exibe o mexilhão na ponta da língua só para provocar e dizer que é gostoso. Aninha que é dócil, obediente, sempre no limite, na fronteira de tudo o que pode fazer. O halo protetor dos olhos e das mãos da mãe, do pai e de todos que se aprestem a avisar se há perigo no outro lado das coisas. Pois tudo o que não é explicitamente proibido é permitido, liberado, aberto aos pés, às mãos, aos olhos, ao coração. A vida é a liberdade de amar e ser amado. Aninha tem mãe. No olho sempre enternecido dela revelando escancaradamente a todos um “que bonitinha!”, ela lê o acolhimento profundo, a companhia permanente, o amor incondicionado, a liberdade e o limite, a referência segura para acordar e dormir. Aninha tem três anos. Nela a vida saltita, canta, dança e convida a rezar, de braços abertos, mãos dadas, coração grato, na graça de ser.

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DANIEL Flanela na mão, Daniel contempla suas duas flautas sobre o veludo preto da mesa, seus dois saxofones em suas respectivas caixas abertas de veludo vermelho como se fossem duas jóias incrustadas no anel da vida. A flauta transversal Selmer é sua preferida, raríssima, antiga, protegida de Santo Antônio contra roubos e distâncias. Ele lembra que fora furtada e a reencontrou, em Camboriú, há mais de oitocentos quilômetros de distância. “Não resta dúvida que Santo Antônio é companheiro excelente quando se está perdido do amor ou das coisas deste mundo, como diziam o pai, a avó e o avô Leonel”. A doçura clássica, tradicional, macia de seu som enche-o de orgulho. É impossível não reconhecê-la em meio a tantas outras flautas. Olha, entre pilhas de livros de Direito, para o sax Yamaha, sax alto que lhe permite virtuoses e cabriolices em qualquer estilo de música: provoca, chama, responde, acende paixões e volúpias na juventude e requenta saudades em cabelos brancos.

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Efetivamente, vive como anunciou: - O Direito é para sobreviver, a música é para viver. Sobreviver com a música é quase impossível. Música é arte, arte é beleza, e beleza é gratuidade, epifania da transcendência. Pura necessidade de ser. Faz bem a todos. Nela todos se reencontram com sua possibilidade de ser. Nela está a infância, a adolescência, a juventude, a maturidade e a velhice de cada um. Gratuidade que não tem preço, como o pão e o ar. Por isso vale. Vale como a justiça, como a pátria, como a casa, como o caminho. E quem faz música, quem faz poesia, literatura, quem faz o essencial precisa de pão, de casa, camisa, saúde. E de que viverá o artista? De que viverão os músicos? Na azáfama febril de dominar o mundo, de construir armas, de amontoar dinheiro, os homens não tem tempo para o essencial que “é invisível aos olhos” como dizia Exupéry. Os governos dão-lhes pouca importância porque o mercado que a Europa nos trouxe e que se fez mundo zomba, ri, e proíbe estas insignificâncias ineficazes de sonhar. O sonho, a música, a arte valem então como

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distração, entretenimento, descanso para trabalhar mais, produzir mais, ser mais eficaz. A sociedade quer música, diz Daniel, sem o ônus, porém de sustentar seus artífices. Mas os músicos, apesar de tudo, por teimosia inquebrantável, juntam meios de sobreviver e, paralelamente, fazem sua arte. A liberdade dos dedos, das mãos, dos pés, do coração nas asas da música encontra seu chão, seu lugar. A arte dá à vida uma dimensão maior do que comer, beber, afogado na rotina da mesmidade e do sem-sentido. Melhor: ela ensina o que é comer, o que é beber, o que é o simples, o cotidiano, o necessário. Ela clama pelo maior, pelo mais alto, pela liberdade, pelo diálogo radical, pela justiça e igualdade, pela possibilidade de expressar-se até o fim, pelo refinamento do ouvido para ouvir a voz, os sons que o outro, que o mundo, que a vida, que o silêncio têm, vai pensando Daniel enquanto acaricia sua flauta e exige dela o que ela pode dar. A música é a realização da saudade e da esperança da comunicação. É a possibilidade de cada coisa em seu som. É a possibilidade do companheirismo, não só no ajuste da polifonia,- ouvido acoplado a ouvido -, olhos fechados

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buscando o encontro; mas do companheirismo que se faz grupo, banda, festa, tertúlia, califórnia... junções. Ela junta um povo em uma nação, em um hino, em uma esperança. A música junta as alturas, as aventuras, os penhascos, os precipícios, os rapéis em acampamentos rústicos, rudes, naturais. A arte exige esforço, suor, sangue porque “amar y cantar, esto duele”. A música permite o amor, o enamoramento: Rachel, casamento, - enquadramento, instituição precária - limitada como as pautas da música. Estas apenas indicam a possibilidade da melodia, da harmonia, mas não têm alma. No entanto, a música se perde, se esvai na efemeridade se faltam as pautas. É preciso criar a alma do mundo e da vida a convite de Deus cuja palavra faz novas todas as coisas na face da terra e nos permite falar, falar numa língua...falar. Diante da Lagoa e do luar que se esparrama em mananciais perdulários de prata, nos arrebóis que arrebatam efêmeros, Daniel pensa na simplicidade das coisas, num mundo justo, humano, sem frescura que permita rir uma risada inteira, com crianças, sobrinhos, primos e primas, com amigos e colegas, na convivência que fica, que se constrói e permanece. E lembrando Heidegger, sabe que

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tudo o que permanece é como o carvalho à beira do caminho do campo: crava as raízes na profundidade escura da terra que nutre e assegura e lança-se ao mais alto céu que ilumina e convoca. Sozinhos nascemos nos braços de nossos pais, sozinhos crescemos em meio a tantos amigos e colegas, sozinhos decidimos a vida na companhia de esposa, pais, irmãos, amigos e filhos e tantos irmãos. Sozinhos, definitivamente ligados na simplicidade do querer bem, escutando a Transcendência que se faz música e Presença.

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LICA

- Um caminhador a pé!, gritou Lica para a nova mãe Ruth que, na cozinha, alcançava um caldo quente para o pai Otacílio, achacado numa cadeira de balanço. Ela fora atender a porta e, pelo vidro deparou-se com um senhor que ela nunca tinha visto, um estranho e que, para cúmulo do espanto ainda lhe sorrira. Um desconhecido que batesse na porta de sua casinha de campanha era sempre perigoso, dizia-lhe a mãe Olga. E alguém que chegasse sem estar a cavalo, pior ainda: era um caminhador a pé: mendigo, louco, foragido, um espantalho que evocava lobisomem, alma penada, um perigo. Por isso, não só não abriu a porta, nem perguntou quem era e o que queria, mas disparou para dentro da cozinha para abrigar-se e pedir socorro. Ruth foi até a porta e gargalhou vendo o professor que lhe trazia um livro. Comentou a comparação que Lica fizera, para iniciar a conversa..

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Era a primeira vez que Lica saía das Tocas, distrito de Palmas, à beira do rio Camaquã e viera a Bagé como filha adotiva de Ruth. Nas Palmas ficaram quatro irmãos repartidos entre outras famílias. No dia em que Olga distribuíra seus filhos em adoção, por impossibilidade de mantê-los consigo, Ruth, em férias na fazenda ao lado, propriedade dos pais da amiga Ieda, ofereceu-se para ficar com uma. Olhou para o rosto aflito de Lica e perguntou: - Queres vir comigo? Sem falar Lica dependurou-se ao pescoço da mãe adotiva. No ônibus velho, azul descascado, sem janelas, sem freios e empoeirado vieram as duas para Bagé. Ruth feliz com uma filha e Lica feliz e temerosa agarrada ao braço da nova mãe. Quando o ônibus estancou

frente ao hospital

militar, graças ao cobrador que desceu correndo com um tronco de eucalipto nos braços e calçou a roda da frente provocando um solavanco de derrubar até os que estavam sentados - era o freio a porrete -, Lica viu a nova casa que também era armazém onde recomeçaria a viver.

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Na manhã seguinte, sol quente e claro de verão, foram as duas até o centro da cidade. Lica, no braço da mãe, olhando para tudo com admiração infinita, apontava para os edifícios com espanto perguntando como as pessoas poderiam subir até lá... Um tropeção a cada dez metros porque não conseguia olhar para o chão com tanta coisa para ver. Tudo era tão estranho. Suas referências de menina de 9 anos quebravam-se em cada esquina, em cada loja, em cada automóvel, na multidão que ia e vinha. Como mensurar cada coisa com o metro de sua vida infantil? Uma freira vinha ao seu encontro pela mesma calçada. Lica, literalmente boquiaberta, ante a beleza daquela mulher vestida de andorinha, acompanhou com o olhar esbugalhado a sua passagem e continuou caminhando, cabeça para trás, tropeçando em um senhor de bombachas e quase provocando um tombo espetacular de mãe e filha. Riam e retomavam o passeio. Depois a cidade de Piratini para onde Ruth fora nomeada como professora de História e Geografia. Inah, agora viúva, fora também para Piratini residir com a filha Ruth. Tia Chininha também foi.

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A Escola Ponche Verde. Lica, nove anos, nunca fora à escola. Dificuldades para acompanhar os colegas da mesma idade. O apoio da mãe e da avó Inah abria caminho. Lica era a felicidade. A primeira a se oferecer para marchar no desfile de Sete de Setembro. Jandir, diretor da escola casou com Ruth, se fez seu pai. Surgiram amigas e relações que agora, aos cinqüenta anos, no Laranjal, sentada frente a seu chalé com um chimarrão e um cigarrinho recorda com saudade. De Piratini a Pelotas. O colégio São José. Os quinze anos na ampla casa da Telles. A companhia dos quatro irmãos. O falecimento de Marcus. A comida gostosa da Cema. Depois, os grupos de jovens, a Faculdade, o Serviço Social, os problemas, as teorias, os estágios e as dificuldades reais do povo sem casa, sem saúde, sem emprego com quem ela lida todos os dias em seu semiemprego na prefeitura. Quando ela pensa sobre a verdade de cada coisa, quando seu coração recolhe o emaranhado de tantas memórias, e aquece a vontade de construir um mundo melhor ela se apreende, muitas vezes, sem saber se vale

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mais o que é real ou o que se imagina e o que se quer. Porque o real não existe sem o imaginário, sem a memória e sem a esperança. Agora, sua ocupação principal é a filha Camila. Já adolescente, doze anos, preguiça e sono infindável, sonhos e devaneios perdendo-se nas novelinhas mexicanas da TV e já botando corpo de mulher. Como dar-lhe uma boa educação? O colégio São José é bom, mas não basta. E a responsabilidade por seus estudos, por suas coisas, pelas amizades, pelos mais pobres, pelo amor a Deus e aos homens? Ah! Se Camila conseguisse uma base sólida para ser feliz! Competência profissional e em conhecimentos, companheira de primos, tios, avós...familiares e amigos, solidária com quem necessita de seu braço, de sua palavra, de sua ação! Como fazer para ajudar a filha a crescer e não substituí-la em suas obrigações? Como ensinar-lhe a escutar os segredos de Deus, de si própria e dos outros, e a falar uma palavra apropriada e esperançosa?

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Lica, lutando por um pouco de justiça e de verdade sabe que tem um lugar sempre seu, junto a seus três irmãos, cada um em seus sonhos e em sua casa. O que fazer com as saudades, com os sonhos e as esperanças? A vida convida a viver.

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VINÍCIUS Vontade de água. Do remo, mergulho, valeta, arroio, lagoa. E o mar: mar de Santa Teresa, Cassino, Garopaba, Estaleirinho, Cabo Frio, Porto de Galinhas... Água pouca, Laranjal, minúscula piscina para todos os amigos que quiserem vir. Água que salta, aos saltos mortais. A bóia para três e que sustenta quinze, que sobem, que caem, que riem de rir da risada risonha, sapeca de guris. Água que é festa, que é peixe, traíra, peixe rei, cascuda, arrastão, tartaruga que se foi ao oceano de Garopaba com um bilhete no pé. Daniel e Vinícius do barco Davi que singra banhados, riachos, lagoas até o lugar do peixe grande e bom. Vinícius, Rosana, Daniel, Raquel e Luciana em praias quentes, surpreendentes de Natal, Maceió, Arraial do Cabo. Mergulho bem fundo, olhos abertos, peixinhos milhares, cores, beleza, mansidão.

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Água, água do poço que jorra e refresca. Água da chuva que bate no peito nu, sem camisa, dádiva do céu. Água da cascata, Cascatinha, Arco Íris e do arroio na chácara. Aninha, até o peito, farelos de pão, lambaris aos milhares que acorrem ao estalar dos dedinhos e se escondem depois... Água da vida, banheira inicial ao balanço do coração da mãe... Água de beber, de lavar, de batizar, rejuvenescer. Água das flores. Água. Água matriz do universo, águas que estão abaixo e acima dos céus. Água de Deus. Vinícius saúde, medicina, cirurgia, bondade, paixão. Estudo e ouvido, mão hábil, cansaço. Ternura que ajuda a curar. Vinícius cozinha, um lugar para amigos que sempre retornam. Festa, sabor. A burocracia é indispensável, mas mata, reduz, mutila, proíbe. O espontâneo da flor rompe a caixa de cimento. Suas raízes não agüentam. Com água e com sol a saúde explode.

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Vinícius de Aninha,

Rosana e aquele que vem.

Vinícius de irmãos, um espaço para o afeto, para Deus, a justiça e a solidariedade. Vinícius, meu filho e de Ruth, e do mundo, e do amor com suas múltiplas faces. Amor quer cuidado, paciência, perdão. Vinícius, recomeça a primavera.

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A AVÓ DE ANINHA Aninha, três anos. Já está orgulhosamente no “Colégio”. Mochila e uniforme. Horários, colegas. O coração, os gestos, o sorriso protetor da mãe acompanhando até a porta da aula, aguardando o pedido de auxílio, socorro de “fica aqui mãe”... Mas nada disso. Ana entra, senta, confia desde logo na “tia” professora. Decepção e orgulho para a mãe. Tarefas para casa: macinhas de modelar, lápis e canetas coloridas, a festa da sujeira e da criação. Vó Ruth chega: - Onde está minha princezinha? - Vó, tu já sabia que eu estou no colégio? - No colégio? Que colégio? - O São José! (O colégio das primas queridas). - E o meu beijinho? Ana corre. Abraça, beija e convida: - Eu tô fazendo umas pinturas... qué vê? Sobre a mesa várias folhas de papel esparramadas, um prato com tinta preta. Ana põe a palma da mão aberta

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no prato e depois carimba a folha com seus cinco dedos e a palma da mão: - Vó, este é pra ti! - Obrigado, querida, que bonito ficou. Mas a avó Dalva não vai ganhar uma pintura? Ana faz outra e entrega à avó Dalva sem dizer palavra. Basta o gesto. Depois: - Vó Ruth, espera um pouco que vou fazer outra pra ti. Fez e entregou com olhos brilhando. E arrematou: - Esta, vó, tu leva para o vô Jandir! A arte é verdadeiramente revelação da alma que, na intimidade da vinculação pessoal, se faz epifania do divino. Você sabe o que Ana queria dizer? Coisas de vó...

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LUCIANA

Lonjuras. Distâncias. Palmas do Tocantins. Calor sufocante, clamando por água de cachoeira. E no entanto estudar, lecionar, convocar e lutar. Saudades, saudades das vozes, dos rostos, quitutes, um pouco de frio, lá do sul. Saudades do Laranjal, saudades de ser, de estar, convidar e de rir. Saudades da Aninha, irmãos, e cunhadas, Camila, Carol, Laurinha e Luísa. Luciana é só saudade quando fala ao telefone. A vida é uma luta... viver é lutar. Lutar por verdade, por justiça que tragam a paz. O Direito é uma espada, intransigente defesa de quem não tem arado para atrelar a uma estrela. Luciana: carinho, energia, presença à sombra do mais alto céu.

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DOMINGO NA CASA DO AVÔ

Elas chegam invadindo a casa, falando alto, quase aos gritos, braços abertos para o abraço apertado, beijos estalados, sabendo que o afeto, a confiança, o espaço é absolutamente seu. A casa do vô tem alguma coisa de mistério, de coisas que falam da mãe, do pai, dos tios, de raízes escondidas em algum lugar. E elas vão desvendando tudo: computadores, biblioteca, sala de costura de onde sempre saem os vestidos mais lindos para as bonecas e para elas mesmas: a avó sabe das coisas e das belezas. A tentação de mexer na máquina de costura, no overlock, nos bordados iniciados, de ser como a avó. E correm... por que as crianças sempre correm, e saltam, e gritam? Para espantar os medos? Para chamar a vida? Para que a proteção dos adultos sempre esteja por perto? O avô chama:

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- Venham todos, que o churrasco está pronto! E elas vêm, de olhos gulosos, de mãos irrequietas, de água na boca buscando coraçõezinhos, salsichões... - Está bom?, pergunta o avô, só para receber um elogio... E elas, em coro...: - Está óóótimo vô! O churrasquinho que o vô faz é sempre o melhor. - Então, quem sabe, antes de iniciar façamos uma breve oração, de mãos dadas? - Obrigado Deus nosso Pai... obrigado.... obrigado... E todos riem, os copos tombam, a conversa dos adultos visita negócios, as últimas notícias da política, os projetos de cada um... E a deliciosa sobremesa da avó...: - Pode repetir, vó? - Pode... pode... o regime para os grandes recomeça amanhã... Depois, caminhar pelo páteo, ver a última ninhada de gatinhos: - Quê bonitinho, deixa eu ver... deixa eu pegar...

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O domingo abastece o imaginário para a semana, para um pouco mais de viver... Depois, é percorrer todos os recantos da casa para ver alguma novidade e aquelas coisas antigas, intocáveis, e tocar tudo o que for permitido... Ah! a tentação das pinturas, dos batons, dos mistérios da beleza do quarto da avó! Depois é a cozinha. Todas sentadas, em congresso, ao redor da mesa grande. Sempre tem bolo fresquinho à espera das netas, e rosquinhas e pãezinhos para o café da tarde que se prolonga por horas. Por que será que as frutas da casa da avó são tão gostosas? Depois as pequenas: Aninha, Laura e Luísa se aninham no topo da escada com suas bonecas e suas viagens imaginárias enquanto olham, lá em baixo, os adultos que conversam na sala. - Então eu era a mãe e tu a filhinha... - Não, eu era a bruxa malvada e tu a princesa, a branca de neve... - Mãe, por que os anões eram pequenos? - Ué!, filha, porque nasceram assim... - É...?

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Carol, com seus olhos grandes que esparramam azul por todo o ambiente, faz questão de, do alto de seus sapatos de salto, apresentar seu namorado, que já é permanente, pois dura mais de três meses. - Mãe nós vamos dar uma voltinha na praia do Laranjal, diz ela. - Na praia? Aonde? - diz Denise enquanto pensa um pretexto para dizer “não” ou, pelo menos, para fazer alguma recomendação -Voltem cedo. Camila que também já floresce mocinha conversa com os dois namorados mas não os acompanha à praia, embora quisesse. É chato. Chá de pêra diziam os antigos... E brinca com as pequenas respaldando os jogos mais perigosos, como aquela que tem experiência, ou se põe a ver um filminho mexicano... As pequenas curtem entre si a saudade de ser priminhas, de se quererem e sonhar com o encontro do próximo domingo na casa do vô. Quando à tardinha os pais conseguem, sob protesto, que elas entrem nos carros... o silêncio cai sobre a casa dos avós, povoado de presenças e esperanças.

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Histórias do viver