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Cegos de ver Janayna Velozo

O sentido da visão, como principal responsável por captar as informações recebidas pelo ser humano, embora o reconhecimento dessas informações dependa de conceitos previamente adquiridos, é apenas um instrumento do olhar. Segundo João Vicente, num homem com visão normal os olhos são responsáveis por, pelo menos, 4/5 das informações que a sensibilidade humana capta do real, os outros quatro sentidos juntos trazem-lhe apenas 1/5 do material informativo originário do mundo que o rodeia. Cabe à visão a tarefa de unificar as informações sensórias trazidas pelos outros sentidos, estruturando-as. É o cérebro que vê, a partir das informações enviadas pela visão. “Há imagens demais, ninguém pode ver nada. É preciso voltar às trevas, à sombra, para achar as verdadeiras imagens. É o mundo do invisível que me interessa.” (Bavcar)

A abundância de imagens no mundo contemporâneo forma uma percepção abstrata das coisas que freqüentemente não existem mais por elas mesmas, mas somente através de imagens. Entendendo por imagem-clichê o exagero icônico que assenta na redundância, e por outro lado na ocultação e distorção de certas imagens, de forma a ocultar a realidade; sua abundância, desprovida de qualquer substrato subjetivo, reduz no cotidiano a presença real das coisas. A estimulação visual presente na atualidade não desenvolve verdadeiramente o olhar, direcionando e condicionando-o, simplesmente, para uma restrita percepção do mundo. Uma percepção que se desvincula das coisas para a sua representação, isto é, o universo das imagens representativas passa a prender muito mais nossa atenção do que a realidade em si. “a realidade passa a ser secundária em relação à imagem que a reconstitui enquanto simulação. A experiência é de uma irrealidade vertiginosa que nem sequer chegamos a admitir. (...) O prestígio da imagem significa que substituímos a experiência por representações.” (Eduardo Neiva Jr)

A imagem-clichê é a expressão visual do empobrecimento da imagem e desloca a visão do mundo, da legibilidade para a visibilidade, que por sua vez exige o esforço da memória, da imaginação, da capacidade inventiva e perceptiva humanas. Segundo Rudolf Arnheim (1998), ao negligenciar o dom de compreender as coisas através dos outros sentidos, o conceito está se separando do que se percebe, e o pensamento se move entre abstrações. Os olhos foram reduzidos a instrumentos para identificar e medir, que causa a carência de idéias exprimíveis em imagens e da capacidade de descobrir significado no que vemos. O fato a ser considerado com relação à nossa contemporaneidade se deve ao extremismo imprimido ao mundo das imagens, que começa a superar o mundo concretamente vivido pelas pessoas. Em outras palavras, com a atenção voltada quase exclusivamente para a representação das coisas, vamos nos tornando indiferentes e cegos para as próprias coisas. Deste modo, vamos desaprendendo a ver quando imersos numa situação concreta. Assim sendo, a verdadeira cegueira torna-se uma medida não do que não se vê, mas do que se ignora.


“É preciso encontrar novas teorias capazes de tirar os homens do efeito das fascinações e reensinar eles a governar as imagens e a não suportar que elas sirvam à captura de sua liberdade.” (Georges Balandier)

Ao lado das imagens da indústria cultural e dos simulacros derivados das imagens-clichês, o design constitui um agente (des)educador da sensibilidade das pessoas, num processo mundial onde se verifica o afastamento de tradições e formas típicas de expressão. Diante dessa cegueira visual causada pelo excesso dessas imagens, onde o mundo invisível do que é ignorado torna-se mais extenso na medida em que se desenvolve o mundo visual, é de extrema urgência e importância, ao design, como atividade inerente ao mundo das imagens, o deslocamento da cegueira do “ver”, para a lucidez do “olhar”. Faz-se necessário também o trabalho de profissionais das mais diversas áreas do conhecimento, incluindo primordialmente educadores, pedagogos e pesquisadores na implementação da educação sensória em ambientes educativos, aplicando novas técnicas de direcionamento do olhar e desenvolvendo as habilidades perceptivas humanas de modo a abranger, também, os outros sentidos do corpo humano.

Referência Bibliográfica BALANDIER, Georges. O Poder em Cena. Brasília: Editora Universidade de Brasília, 1982. NEIVA, JR., Eduardo. A imagem. São Paulo: ed.Ática, 1986. TESSLER, Elida. Evgen Bavcar: cegueiras e alguns paradoxos quase invisíveis. v.9, n.17, p.7990, nov Porto Alegre: Porto Arte, 1998. VICENTE, João. Do Essencial Invisível: Arte e Beleza entre os Cegos. Rio de Janeiro: Revan, 2002.


Cegos de Ver