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Universidade Federal da Paraíba Centro da Ciências Humanas, Letras e Artes Departamento de Comunicação e Turismo Curso de Comunicação Social - Jornalismo Laboratório de Jornalismo Impresso


Jornal Laboratorial Questão de Ordem Dossiê Transporte Público Universidade Federal da Paraíba Centro de Ciências Humanas, Letras e Artes Departamento de Comunicação e Turismo Comunicação Social Habilitação 2008.2

Expediente

Rômulo Polari Reitor Yara Matos Vice-reitora Aparecida Ramos Diretora do CCHLA Pedro Nunes Filho Chefe Decomtur Joana Belarmino Vice –chefe Decomtur Annelsina Trigueiro Coordenação de Comunicação Jamile Paiva Vice-coordenadora

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Questão de Ordem

I

Maria Silva, Jéssica Nascimento, Mirela Sisavac, Lucas Pontes, Vitor Daniel, Erika Agripino, Allysson Viana, Emanuele Interaminense,

Thiago Soares Coordenador do Laboratório de Jornalismo Impresso Janaine Aires Edição e Projeto Gráfico Adino Bandeira, Emerson Cunha e Janaine Aires Diagramação

Emerson Cunha, Horácio Roque, Isabele Frota, Andrea Albuquerque, Fernanda Alves, Flaviano Carvalho, Adino Bandeira, Camila Alves, Mayra Medeiros, Simone Almeida, Clara Camara, Tassio Ponce de Leon, Bruno Cavalcanti, Suellen Vieira. Reportagem

Thiago Soares

Boa leitura

Neste editorial, mais do que introduzir para você, leitor, as nuances, os melindres daquilo que você vai ler a seguir, tive vontade de falar sobre aquilo que não se vê. E que é a força motriz de qualquer trabalho coletivo: os nós. Obviamente, que tudo neste Questão de Ordem está amarrado: do projeto gráfico, ao editorial, passando pelas imagens e pelos textos. Tudo faz sentido. E tudo foi feito a partir de um planejamento que, vá lá, teve que ser adiado algumas vezes. Mas, o importante é que os nós estão atados. E por um grupo de alunos que conseguiu explorar as complexidades do fazer jornalístico. Quando penso em coletividade, em nós, em junção, só me lembro daquela música que diz assim: "você me abre seus braços e a gente faz um País".

E foram muitos nós para desatar, mais ainda para amarrar. Primeiro, o tema. Decidimos fazer um jornal temático, um dossiê. Não queríamos pouco, é verdade. Um dossiê daria mais trabalho que um jornal naquele esquema mais tradicional. Editoria disso, editoria daquilo. Tudo muito certinho, tudo muito dejá vu. Só que, quando cheguei para dar aula para os alunos do quarto período de Jornalismo da UFPB, senti que aqueles estudantes não eram "certinhos", dejá vu. Eram estudantes "picados" pela mosca do jornalismo. E com sede de além.

Daí, a coisa de ensinar o que não se ensina. Jornalismo, sim, se ensina. Lead também. Título, "chapéu", "sutiã", se ensina. Mas, como se ensinar a ser coletivo? Como conjugar o "nós" além do "eu"? No início, muitas dificuldades. Mas, daí, fui tentando enxergar o que cada um dos alunos tinha de melhor. Um era exímio

apurador. Outro, ótimo entrevistador. Tinha aqueles que adoravam uma crônica. E outros que, de textos tão poéticos, pareciam ser escritores. Neste trabalho titânico de observação, acredite que relevei até os defeitos. Que, obviamente, eram muitos. Atrasos, pautas xinfrins, apurações preguiçosas. Como um pai que não quer enxergar os defeitos dos filhos, segui minha tarefa: varrer para debaixo do tapete qualquer vestígio daquilo que não tinha dado certo.

Sempre apostei no senso de coletividade. Daquilo que se faz nos nós das pessoas. Aliás, sempre achei "nós" mais poético do que "eu". Vai ver é medo de solidão, síndrome de filho único. Este é o primeiro editorial que faço para o Questão de Ordem, o jornal laboratório do curso de Jornalismo da Universidade Federal da Paraíba (UFPB). Espero que o primeiro de muitos. Um certeza? Apenas a de que, só se faz um jornal como este, apostando no coletivo: nos nós.

‘E a gente faz um país’

Editorial

Rotina em quatro rodas Clara Câmara 4 Olha o passe, olha o vale Fernanda Alves 6 Ônibus não atende ao turismo Flaviano Carvalho 8 Pedalar faz bem ao trânsito Maria Silva 10 A pé não costuma falhar Horácio Roque 11 Alternativa Viável Isabelle Frota 14 'O trem é minha melhor opção' Andrea Albuquerque 15 Quem tem vergonha, não faz vergonha Mayra Medeiros 16 Problemas nos ônibus Camila Alves 18 A ilegalidade dos transportes alternativos Simone Almeida 20 Alternativas de taxi Erika Bruna Agripino 24 Odisséia do cotidiano pessoense Allysson Viana Martins 28 Mudança de Alvo Mirela Sisavac 30 Vá de Mercedes, bem! Adino Bandeira 32 Mais rápido e mais barato Bruno Cavalcanti 33 Passe livre já! Jéssica Nascimento 36 Bom voyage Lucas Pontes 38 Madrugada no Integração Emerson Cunha 40 O Mistério Brasileiro Vitor Daniel 42 Tecnologia Coletiva Emanuelle Interaminense 43

Sumário

Questão de Ordem 3

I


4 Questão de Ordem

I

É É difícil fugir do clichê “o trabalho edifica o homem” quando se convive com uma dura realidade. Levantar cedo, passar boa parte do dia sentado, na função de motorista ou de cobrador de ônibus, é um exemplo de rotina desgastante que, muitas vezes, passa despercebida pelos principais beneficiados: nós. Para entender o dia-a-dia dos funcionários dos transportes coletivos de João Pessoa, é preciso ter em mente que nada é estável, a começar pela escolha das rotas. A cada sete semanas é realizado um sorteio para definir as rotas que cada dupla, motorista e cobrador, vai seguir pelos próximos dois meses. Com sorte, se consegue uma linha que passa por um lugar tranqüilo. A rota do Castelo Branco feita pela Transnacional, por exemplo, sai do seu ponto final, em frente à Universidade Federal da Paraíba, e, no máximo, 55 minutos depois, passando pela Lagoa e Terminal de Integração, retorna ao lugar de origem. Mas há rotas como a do Circular, que levam mais de duas horas para completar seu trajeto. Há dez anos como cobrador de ônibus na empresa, MB*, de 36 anos, já enfrentou jornadas de mais de nove horas de trabalho, expediente em feriados e até seis assaltos. Essa última experiência é a que justifica a maior parte de suas reivindicações por melhores condições de trabalho. “Quando fui assaltado pela primeira vez fiquei em choque. A cada parada que o ônibus fazia, meu coração batia mais forte achava que a qualquer momento poderia acontecer de novo”, revela. O grande problema, na opinião de MB, é ter que continuar trabalhando após o assalto, como se nada tivesse acontecido. A empresa não estabelece um prazo para a “recuperação” de seus funcionários após o incidente. É preciso que cada um tenha autocontrole suficiente para manter-se calmo e seguir desempenhando sua função. “É difícil manter a tranqüilidade, principalmente quando você lembra que tem família, filhos, mulher. Gostaria que a empresa nos mandasse para casa depois de um assalto. Acho que seria melhor para os dois lados”, avalia MB. Elias Pereira, 47 anos, motorista há vinte, também pela Transnacional, passou por quatro assaltos, o último aconteceu há pouco menos de seis meses. “Eu sou medroso, admito, mas acho que poucas pessoas seriam capazes de manter a calma diante de uma situação tão tensa, como nós, motoristas e cobradores, precisamos fazer. Depois que você é assaltado uma vez, não tem mais jeito, vai trabalhar todo dia com a sensação de que aquilo vai se repetir”, desabafa. Além de conviver diariamente com o perigo, a carga de trabalho também é um fator que pesa bastante. Apesar de ter horários préestabelecidos para cada rota, o trânsito pode ser “bandido ou mocinho”, atrasar o cumprimento da rota ou deixá-la fluir no seu

O cotidiano e as condições de trabalho dos motoristas e cobradores nos ônibus da capital paraibana

Rotina em quatro rodas

Clara Câmara

Suor

para outros. Às vésperas de completar 11 anos como cobrador, MB analisa as mudanças que estão por vir: “Penso em todos os anos que trabalhei nessa função e acho assustador substituírem nosso trabalho por máquinas.” Por outro lado, Elias rebate: “Trabalhei quatro meses em um ônibus com função única, achei bem mais cansativo. Mas se você parar para pensar, depois que o cartão substituiu o passe, o cobrador não precisa fazer muita coisa além de fiscalizar.” A discussão vai longe, mas não se trata de uma disputa. Ambos os lados têm consciência dessas transformações e suas conseqüências. Quando perguntado o que ainda é preciso aprender com a função de cobrador, Elias não hesita: “Paciência. Acho que cobradores, por lidarem diretamente com os passageiros, exercitam mais a paciência.” E o que fazer quando tirarem de vez a figura do cobrador? MB pensa pouco: “Dirigir eu já sei. Estou preparado para ocupar aquele outro lugar”, responde, apontando para o banco do motorista.

*MB é cobrador da Transnacional e pediu para não ter seu nome completo usado na matéria.

tempo correto. O cobrador explica que “é como se todo dia nós fizéssemos hora-extra. Precisamos cumprir cinco corridas, se o trânsito atrapalha com certeza vai demorar bem mais, mas não recebemos por esse trabalho extra.” Em uma linha como o Circular, em que a viagem pode chegar a até três horas, passando por Mandacaru e Castelo Branco, com um trânsito ruim, é preciso que os motoristas e cobradores sejam substituídos em determinado ponto. Esse cuidado é recente. Antes, só era possível descansar depois de completar a rota. Elias pontua o descanso como necessidade básica, inclusive para executar satisfatoriamente o seu trabalho. “É muito complicado manter-se alerta durante longos períodos. O motorista é o que mais sofre, pois se piscar o olho ou perder a atenção por um segundo, pode colocar a vida de muitas pessoas em perigo”, explica. No entanto, há outra questão que preocupa mais: o aumento dos ônibus que só contam com a função de motorista. Nesses transportes o trabalho que cabe ao cobrador é feito pelo próprio motorista, quando a passagem é paga com dinheiro, e pela catraca, que contabiliza as entradas por cartões. Trabalho dobrado para uns, falta de trabalho

Questão de Ordem 5

I


6

Questão de Ordem

I

“Olha o passe, olha o vale”; “compro, troco e vendo vale e passe”; “aceito passe ou vale”. Até junho de 2007, quando o passageiro pessoense ainda usava o tradicional valetransporte de papel – aqueles criados no governo de José Sarney em 1985 –, eram essas as frases que mais se escutava principalmente no centro da cidade. Na falta do dinheiro vivo, o vale servia. E servia para tudo mesmo, para pagar desde lanches até mesmo os transportes alternativos e clandestinos. A partir disso, criou-se um universo paralelo em torno do ticket de passagem: vender e comprar vale ou passe estudantil estava dando dinheiro. Lembro-me que, por várias vezes, fui abordada na rua por um desses que comercializavam tickets para que eu lhe comprasse talões de passe estudantil ganhando uns cinco ou seis reais. Não me submetia a isso, mas eram muitos que o faziam. Foi, então, que, a fim de acabar com esse comércio paralelo, sob a exaltação de “agilidade, segurança, conforto e bem-estar dos passageiros”, o Sistema de Gestão em Transportes da Prefeitura de João Pessoa instalou o uso da bilhetagem eletrônica. Todos os que viviam do “compro,

vendo e troco passe e vale” viam sua alegria acabar num piscar de olhos. Alardearam que os cobradores perderiam seus trabalhos e que isso não daria muito certo... Mas, mesmo assim, o sistema foi implementado. É evidente que a bilhetagem eletrônica é um avanço tecnológico que em muito contribui na organização dos transportes coletivos. Além de ser instrumento de integração, o “Passe Legal” – cartão de passagens em créditos – é seguro, ágil e de fácil manuseio. As vantagens são muitas tanto para empresas como para usuários. Para as empresas, a bilhetagem eletrônica garante o controle preciso de operação do sistema; a obtenção rápida dos dados operacionais; e o combate a fraudes. Para os usuários, no caso de perda ou roubo, os créditos podem ser recuperados; o sistema possibilita a inexistência de troco – já que não utiliza dinheiro vivo – e, portanto, a agilidade no uso; a quantia de créditos é ilimitada etc. Pode-se utilizar o cartão até dez vezes por dia e em caso de roubo o cartão é bloqueado em 48 horas, contando do dia da

Com a chegada do Passe Legal, comércio paralelo de tíquetes teve seu fim

Olha o passe, Olha o vale!

Fernanda Alves

Crônica

denúncia; também será bloqueado o cartão que não for utilizado num período de seis meses. E, assim, parece que o passageiro se vê restrito ao uso do ônibus que contém o validador, equipamento instalado dentro do veículo para debitar as tarifas e liberar a catraca. O que as empresas chamam de “fidelização dos usuários” mais parece um meio de condicionar o passageiro a estar com o cartão de passagem e sem dinheiro, para usar somente os transportes credenciados. Mas, mesmo com as tentativas das empresas em frear a clandestinidade, infelizmente no Brasil – onde o jeitinho brasileiro é mola-mestre na “resolução” dos problemas – não dou muito tempo até aqueles que outrora gritavam “compro, troco e vendo vale e passe”, passem a gritar “compro, troco, vendo e recarrego Passe Legal”.

Questão de Ordem 7

I


Em pesquisa realizada pelo Instituto Fecomércio de Pesquisas Econômicas e Sociais da Paraíba (IFEP) em parceria com o SEBRAE – PB, houve um crescimento de 15,3% na escolha da capital paraibana como principal roteiro turístico entre as capitais do Nordeste. O meio de transporte mais utilizado para chegar à cidade de João Pessoa é o aéreo com 51,83%, frente aos 26,31% do transporte particular e 15,26% dos ônibus de viagens. No entanto, para chegar à Região Metropolitana, partindo do aeroporto Castro Pinto, o turista terá que enfrentar um trajeto nada fácil. Segundo Roberto Mendonça, agente de turismo da Brasil Time, o maior número de vôos chegam à noite e, neste horário, não

8 Questão de Ordem

há como se locomover de transporte coletivo visto que o aeroporto fica no município de Bayeux e não há rota de ônibus direto para a cidade de João Pessoa. “Esse trajeto deverá ser feito obrigatoriamente de táxi ou carro alugado”, atesta Mendonça. Durante o dia, é possível pegar um ônibus até o centro da capital e embarcar em outro coletivo para o destino final. O site da Prefeitura Municipal de João Pessoa informa que o turista tem a opção de utilizar o sistema de transportes públicos, com uma das melhores frotas do País. No entanto, o roteiro dos ônibus não facilita o acesso aos principais pontos turísticos da cidade. Conversamos com Alex Máximo, estudante do 8º período de Turismo

Transporte Público não facilita o acesso aos principais pontos turísticos de João Pessoa

Ônibus não atende ao turismo

Flaviano Carvalho

I

Lazer

na UFPB e que trabalha em um dos quatro postos de informações turísticas da capital, e ele nos informou que os três lugares mais visitados são o Farol do Cabo Branco, Praia do Jacaré e Centro Histórico. “Para nenhum destes pontos, existe acesso de transporte coletivo direto”, destaca o estudante. Percebemos que mesmo sendo uma cidade pequena e de fácil acesso, as informações sobre os transportes para os pontos turísticos não são precisas, pois não há material específico para orientação dos horários e trajetos dos ônibus. Danilo Augusto, funcionário do Centro Turístico Tambaú, informou que a única forma que tem de ajudar quem deseja transitar de ônibus pela cidade é seu conhecimento próprio, mas que não orienta a utilização dos transportes coletivos pela insegurança dos horários de retorno e distâncias entre os pontos visitados. “A grande maioria dos turistas que visitam João Pessoa prefere o aluguel de carros ou contratar passeios em agências de viagens para percorrer os principais pontos turísticos”, finaliza Danilo. Alberto Cardoso, 26 anos, veio de Aracaju para aproveitar o verão em João

Pessoa. O primeiro ponto observado ao tentar se locomover de transporte coletivo pela cidade foi a falta de sinalização nas paradas de ônibus, o que de certa forma obriga o turista a pegar táxi. Num cálculo aproximado, gasta-se até quatro vezes mais para chegar a determinado lugar de táxi. “Em outras cidades do Nordeste é possível encontrar até mapas nestes pontos, a indicação dos ônibus que passam por ali e seu destino”, observa Cardoso. Para Danieli Suig, proprietário da agência Brasil Time, outro ponto relevante é a escassez de ônibus para lugares menos urbanos, como o farol do Cabo Branco, que é um dos lugares mais marcantes para quem visita a cidade. Sua localização favorece assaltos e roubos, visto que não há moradia ou comércio por perto. “Impossível ir de ônibus após às 18h. Depois desse horário não se torna viável andar de ônibus para nenhum dos lugares citados e para quem deseja esticar na noite pessoense, a saída é voltar de táxi ou esperar o dia amanhecer”, critica. A frota de coletivos ainda diminui consideravelmente à noite e, durante a madrugada, é quase impossível ver um ônibus circulando.

Questão de Ordem 9

I


10 Questão de Ordem

I

A avenida Josefa Taveira é a principal via do bairro de Mangabeira, no subúrbio de João Pessoa. Nas suas estreitas ruas, aglutina além do intenso tráfego de veículos automotivos, pessoas e ciclistas, que concorrem o espaço com ambulantes. Sem uma estrutura adequada, a avenida Josefa Taveira está com sinalização caótica comprometendo a vida de pedestres e ciclistas. De acordo com a Companhia de Policiamento de Trânsito (CPtran) a avenida Josefa Taveira é a quinta avenida mais perigosa da capital com 41 acidentes registrados nos meses de janeiro a junho de 2008, tais acidentes envolvendo carros, motos e bicicletas. A ausência de ciclovias e ciclofaixas pode ser um fator a mais para o aumento de acidentes envolvendo ciclistas na Josefa Taveira, tendo em vista o perigo que esses usuários enfrentam todos os dias se aventurando entre motos e carros. Essa situação não se encontra apenas na avenida Josefa Taveira , basta circularmos nas ruas de João Pessoa que iremos perceber a falta de espaços alternativos para além de veículos automotivos. Existem apenas duas ciclovias na cidade, uma na avenida Cabo Branco (à beira-mar) e a outra na avenida Flávio Ribeiro Coutinho (Manaíra). Muitos moradores da periferia se dirigem ao trabalho por meio de bicicletas, andando junto aos carros em vias arteriais como a avenida Epitácio Pessoa e a avenida Dom Pedro II, onde é grande o fluxo de veículos. A população pessoense e, em específico, a de Mangabeira, não utiliza apenas esses meios automotivos para se locomoveram. Por opção ou por condições econômicas, usam outros veículos. É o caso do estudante Eduardo de Lima, de 15 anos, que utiliza a bicicleta para ir à escola Estadual Cônego Luiz Gonzaga de Oliveira localizada em Mangabeira. Ele demonstra sua preocupação quando relata fatos que aconteceram com ele ao tentar atravessar a rua “A gente passa, mas parece que não tem ninguém na rua. As motos só faltam arrancar a pessoa da pista. Nem carro e nem moto respeita bicicleta aqui. Eu fico com medo”, observa.

Já a motociclista Fernanda Leite ressalta que “Na Josefa taveira é impossível ter ciclovias devido a estrutura da avenida. é muito estreita e não dá nem pra os carros passarem “,conclui. A prefeitura Municipal de João Pessoa não apresentou ainda projetos que pudessem ser aplicados para a melhoria do trânsito no bairro da cidade. No Mercado de Mangabeira o que podemos observar são espaços para as bicicletas serem estacionadas, mesmo sendo escassos. Porém, na confusão visual e sonora dos veículos no sol escaldante de meio dia, percebe-se é a situação caótica em que se encontra o trânsito na avenida Josefa Taveira. É urgente a reformulação na estrutura desta avenida para que o espaço seja mais democratizado entre os vários meios de transportes a serem explorados pelos moradores da cidade de João Pessoa. E a construção de ciclovias melhoraria, não só o aspecto visual, mas também a vida de muitos ciclistas que transitam nas avenidas da cidade.

Ciclovias são uma alternativa para desafogar o trânsito em João Pessoa

Pedalar faz bem ao trânsito

Maria Silva

Rodas

Horácio Roque

Usuários dos transportes coletivos urbanos da capital paraibana se dizem excluídos das principais rotas dos ônibus da cidade. Alguns moradores de bairros como Jaguaribe e Valentina reclamam que, mesmo com projetos como o Terminal de Integração e o Integração Temporal (em que basta apenas uma passagem para o usuário percorrer toda a João Pessoa), eles sofrem na espera pelos escassos carros que circulam em rotas pouco disputadas ou que, às vezes, têm que caminhar por mais de dez minutos até um ponto mais movimentado. O funcionário público aposentado Vicente Cavalcanti, 78 anos, chegou a Jaguaribe, na capital paraibana, há 58 anos. Ele relata que naquela época não havia a facilidade de locomover-se que hoje existe. No entanto, mesmo com o progresso visto na área, ele ainda encontra dificuldades para ir de um lugar a outro na cidade, pois as condições físicas impostas pela idade o impedem de esperar, em pé, por um ônibus que demora a passar na sua região ou de se dirigir a um ponto que proporcione outras opções de transporte para o seu destino. As localidades mais afastadas do centro da cidade, local por onde passam todos os coletivos que circulam pela capital, também enfrentam o mesmo problema com o transporte público que o aposentado relatou.

“Os ônibus só circulam pelas principais avenidas, mas quem mora distante delas, como é o meu caso, tem que andar por um bom tempo até o ponto mais próximo”, relatou o estudante de psicologia, Luciano Alencar, 22 anos, morador do bairro do Valentina. Devido ao crescimento populacional que a capital paraibana vem assistindo nos últimos 30 anos, as atuais rotas viárias dos coletivos da cidade não conseguem agregar as áreas expandidas ao conjunto urbano. Segundo dados do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), João Pessoa apresenta uma expansão de 2,04% de sua população a cada ano, maior que a média nacional (1,62%). Já as favelas crescem a uma velocidade de 12,38% ao ano. Esses números refletem o aumento da demanda por infraestruturas básicas, que ainda não foram satisfeitas pelos governos que passaram pela prefeitura municipal. “Embora o prefeito crie projetos de integração entre os ônibus, o problema que enfrentamos permanece. O que falta para nós são linhas de circulação que contemplem outras áreas do meu bairro ou que ampliem as rotas dos coletivos já existentes”, completou Luciano. O secretário de transportes da cidade, Deusdete Queiroga Filho, foi procurado para dar explicações, mas o mesmo não se encontrava na cidade.

Malhas viárias dos ônibus da capital paraibana não atendem a necessidade dos cidadãos

A pé não costuma falhar

Tempo

Questão de Ordem 11

I


Transporte pouco utilizado pelos paraibanos, os trens urbanos vêm se transformando em alternativa viável para milhares de pessoas. Muitos são os fatores que contribuem para o crescimento no número de passageiros, que subiu de 7.612, em 2003, para 12.231, em 2008, o que equivale a um aumento de 60,68% de transportados de acordo com os dados da Companhia Brasileira de Transporte Urbano em João Pessoa (CBTU). A revitalização do sistema, recuperando trilhos e modernizando suas nove estações, em seus 30 quilômetros de extensão de malha ferroviária, possibilitou este aumento. As 28 viagens diárias, interligando os municípios de Cabedelo, João Pessoa, Bayeux e Santa Rita têm transportado em média 10,1 mil passageiros por dia. O gerente de operações da CBTU, Marcos Moura, comenta a eficiência do setor. “Trabalhamos com pequenos atrasos por causa da manutenção da linha férrea, temos uma regularidade de mais de 85%, estações limpas e trens reformados. O nosso passageiro sabe que vai ter uma viagem segura e barata” explica. Em análise feita pelo instituto de Pesquisa IP4, realizada durante 9 a 15 de setembro deste ano, apontou índice de 72% de satisfação de seus usuários. Segundo a pesquisa, tarifas mais baixas, rapidez e segurança têm atraído, sobretudo, nos últimos cinco anos, novos passageiros é o caso do relações públicas Naírton Carvalho, 35 anos, que em sua terceira viagem, ressalta a praticidade do

14 Questão de Ordem

transporte. “O trem urbano é o meio mais rápido para entrar em outro município, sem contar na sua tarifa, que é de R$ 0.50, custo irrisório, em relação ao valor do combustível. Para mim é o meio mais prático” argumenta. Para muito dos usuários, o principal atrativo, ainda têm sido a economia representada em seus orçamentos de transporte. De acordo com o pedreiro João da Silva, 55 anos, residente na cidade de Guarabira, seguir de trem até Santa Rita, poupa tempo e economiza na passagem interestadual. “Tomar o ônibus, sairia bem mais caro, assim vou de trem até Santa Rita e de lá embarco no ônibus que vai até minha cidade, por um preço bem mais em conta” afirma. Apesar, do aumento no setor, muitas pessoas preferem utilizar outros transportes, alegando falta de informação, segurança e existência de poucos pontos para locomoção, como a estudante, Rafaela Andrade, 21 anos. “Sou moradora do bairro de Intermares e prefiro pegar ônibus, pago mais caro, mas vou a todos os lugares que desejo ir, não vejo vantagem em ir de trem”. Escolhas a parte, este transporte, tende a crescer sua participação, em razão do aumento da tarifa dos ônibus coletivos, que subiram mais do que a inflação nos últimos seis anos, em João Pessoa, este valor chegou a 88,23%, de acordo com Pesquisa realizada pela Fundação Getulio Vargas (FGV), a qual apontou ainda, que esta situação vem acontecendo em todo o país.

Crescimento no setor ferroviário comprova melhora dos serviços

Alternativa viável

Isabelle Frota

I

Trilhos

A viagem é segura? Muito segura, os seguranças andam de um lado para o outro. Então, não tem como acontecer nada de ruim. Antigamente, eu tinha medo porque as crianças jogavam pedras. Mas, hoje em dia, as janelas são todas fechadas e mesmo assim o povo já está começando a entender que não deve fazer isso.

A senhora utiliza sempre o trem como alternativa de transporte? Sim, Sempre que eu vou para algum lugar e dá para ir.

A senhora é usuária há muito tempo, muita coisa mudou? O que? Mudou demais. Hoje em dia tem muita gente andando de trem, antes, pouca gente usava, nas estações não tinha lugar para sentar enquanto esperava o trem. Antigamente atrasava muito e não dava para confiar nos horários, as estações eram sujas e o trem muito velho. Hoje, melhorou demais, o trem sai e chega sempre na hora certa e o melhor é que a passagem é barata.

A aposentada Maria Marinho, 52 anos, espera com uma expressão serena a chegada do trem. Conta-nos sobre a importância do transporte como uma alternativa viável para a população mais humilde e para sua vida.

Se o valor da tarifa do ônibus fosse igual ao do trem, qual dos dois transportes a senhora usaria? Eu continuaria usando o trem porque ele é muito mais confortável e não tem aqueles engarrafamentos, até um acidente no trem é muito difícil de acontecer. Mas o que eu acho pior no ônibus agora é que têm acontecido muitos assaltos.

Com que freqüência a senhora utiliza o trem? Pelo menos três vezes por semana, o trem é a minha melhor opção, já que eu moro em Várzea Nova e dá para ir andando até a estação onde pego o trem e desço lá em Santa Rita.

Porque a senhora não vai de ônibus? Porque a passagem do ônibus é muito cara. Se eu fosse de ônibus, teria que pagar R$ 1,50 para ir para Santa Rita e R$ 2,25 para ir a João Pessoa. Já no trem, eu só pago R$ 0,50. Até mesmo se eu quiser ir até Cabedelo.

E quando senhora precisa se deslocar até onde ele não consegue chegar? Nesse caso, quando o trem não chega até onde eu vou, ou eu pego o trem e depois um ônibus ou então, um carro alternativo, depende do local.

‘o trem é a minha melhor opção’

Andréa Albuquerque

Questão de Ordem 15

I


Duas horas rodando pela cidade conversando com Joelby Costa da Silva, 28 anos, cobrador da Trans Nacional, na escala do Circular (5100), me foram suficientes para descobrir como é o cotidiano de um cobrador de ônibus. Sempre com bom humor, Joelby me contou desde histórias engraçadas que aconteceram no ônibus até os meses nos quais os cobradores recebem o fardamento da empresa. Depois de iniciar no emprego como “catraqueiro”, responsável pelas catracas na empresa, ficou um ano e sete meses na função. Seguiu por oito anos como cobrador. Com seis cursos na área de Informática, estudando há seis anos para os Acontecem coisas concursos da Polícia Militar (PM), foi no muito hilárias concurso das Correios que Joelby no dia-a-dia passou. Agora, da gente pretende deixar o emprego de cobrador de lado. “Casei e está mais que na hora de procurar minha estabilidade financeira”, diz ele. Antes de fazer o teste específico da empresa para se tornar cobrador, o candidato a vaga tem de trabalhar, no mínimo, um ano na empresa, como “serviços gerais”, que consiste basicamente na limpeza, abastecimento e manutenção dos ônibus. E, para isso, é verificado o “QI” do candidato: “quem indique”. No caso de Joelby, foi mais complicado. Desde os oito anos acompanhando o pai na Trans Nacional, passou na prova em 1999 e mesmo com o seu “QI” evidente, não pôde assumir como cobrador, nem como serviços gerais. O pai proibiu. Após passar quase dois anos sem falar direito com o pai, procurou alternativas de emprego, até que em 2000 resolveu voltar à

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empresa e começar “de baixo”. “Acontecem coisas muito hilárias no diaa-dia da gente”. “Um dia subiu um bêbado lá no Valentina, depois do campo da Marquisa, e sentou aqui atrás da cadeira. O cara, simplesmente, entrou em coma alcoólico e eu não conseguia acordar o camarada. Balancei, balancei e nada dele acordar. Ele deu uma viagem inteira no ônibus. Na segunda viagem, o ônibus passou por uma lombada e o cara caiu no chão. Como se não tivesse acontecido nada, continuou desacordado. Na terceira vez que o ônibus passou pela parada que ele subiu, eu finalmente consegui acordar o bêbado.” “Outro dia subiram duas meninas no 1500, sendo uma delas “bem forte”. Essa, que vinha primeiro, disse 'Tá aqui o dinheiro, meu e da minha boyzinha'. Dois minutos depois, a fortona veio brigar comigo dizendo que eu estava paquerando a sua namorada. 'Não olhe muito não que eu lhe quebro'. Vê se pode?!” “Já outra noite eu tava na 'bacurau', que é quando fica até de madrugada, do sábado para o domingo em um ônibus e subiram dois homens bem fortes. Eles ficaram nessa parte aqui de trás do ônibus, onde eu não vejo o que acontece. Quando, de repente, escuto uns estalos. Os dois grandões estavam um beijando o outro com as mãos dentro da calça. Chega gelei. E tive que falar 'moço, vá lá pra frente, por favor, que isso aqui não é motel, não'.” Joelby, ao contrário da maioria dos cobradores, tem seu horário fixo na linha. Com isso, ele acaba conhecendo as pessoas que pegam o mesmo ônibus todo dia, mais ou menos, na mesma hora. Na última vez que ele ficou na linha do 5100, algumas pessoas organizaram um caféda-manhã no último dia da sua escala. “Era sanduíche, iogurte... ganhei até uma camisa e

O relato do cotidiano dos cobradores de ônibus

Quem tem vergonha não faz vergonha

Mayra Medeiros

Gente

I

uma carta”. Noto que Joelby faz por onde, através do cuidado com as pessoas que entram no ônibus. Seja segurando as pessoas numa curva, seja dando informações sobre o novo sistema de integração temporal. Se for no circular, é desde Tambaú até as Três Lagoas. Com relação à passagem, ele diz que as pessoas só notam quando falta troco. Quase todo dia alguém dá a passagem incompleta. “A maioria não reconhece que deu faltando. Eu deixo passar, sabe? Principalmente se for sem querer. Uma vez, a menina começou a chorar porque não tinha saldo suficiente no cartão e quando foi pagar só tinha R$ 0,85. Acredito que quem tem vergonha não faz vergonha. Pedi pra que não chorasse” O validador e a catraca logo na entrada dos passageiros foram alvos de grandes elogios de Joelby. O único assalto que aconteceu foi em 2003, quando a catraca ficava no meio. “Facilitava pro assaltante. Ele subia ficava na parte de trás do ônibus observando e quando o ônibus esvaziava, declarava o assalto”. “O mais sofrido da gente é acordar de madrugada. No máximo às 5 h da manhã. Tem dia que você tem que acordar às 2h30 pra render o 'bacurau' de 3h. Isso se você morar em Mangabeira, como eu.” No final de semana, os cobradores se encontram pra jogar futebol. Já Joelby prefere rapel. Trabalha no dia que os amigos “jogam bola” e nunca gostou muito do esporte. “Mas temos outros momentos de confraternização. Dia 25 de agosto, que é o dia dos motoristas; no dia das mulheres, quando nós rendemos para elas festejarem; e no amigo secreto no Natal, quando o pessoal do escritório e dos serviços gerais se juntam a nós” .


18 Questão de Ordem

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Segundo a Prefeitura Municipal de João Pessoa, cerca de oito milhões de pessoas, utilizam, mensalmente, os transportes coletivos. Diariamente esse número chega a 300 mil usuários. Atualmente, a frota cadastrada na cidade é de 486 veículos, sendo que 407 estão em operação nas 81 linhas que circulam pelos diversos bairros. De acordo com dados do IBGE, a frota de ônibus de João Pessoa é a mais jovem do Brasil, e hoje é possível ir para qualquer lugar da cidade pagando-se apenas uma passagem. Seis empresas são responsáveis por esse sistema de transporte c o l e t i v o . S ã o e l a s : B o a Vi a g e m , Mandacaruense, Marcos da Silva, Transnacional (que é a maior delas em número de linhas e de funcionários), São Jorge e Reunidas. Apesar da frota de nossa cidade ser considerada nova se comparada a dos demais municípios do país, há linhas que ainda deixam a desejar no que se refere á limpeza e eficiência dos transportes. “Os ônibus são sujos, alguns até com um pouco de ferrugem, o preço é caríssimo e muitas vezes temos que esperar um tempão na parada, correndo riscos de violência inclusive. Isso acontece porque há vezes em que passam dois ônibus, da mesma linha, ao mesmo tempo”, diz a estudante Jéssica Correia. Outro estudante, Hegon Alpha, Um ônibus tem uma vida útil de aproximadamente 10 anos, mas, se não forem bem “cuidados”, ou seja, passarem por uma boa manutenção freqüentemente, podem 'durar” menos que o esperado, e quebrar mais que o planejado. Não é incomum encontrar passageiros em João Pessoa que tenham passado pela chata situação de estarem utilizando o transporte coletivo, e terem seu trajeto interrompido por problemas dos ônibus. “Eu estava vindo da Epitácio Pessoa, no 5310(bancários), quando de repente ao chegar no Castelo branco o ônibus começou a “fumaçar” e todos tivemos que descer e

Os ônibus são sujos, alguns até enferrujados

também crítica a frota de João Pessoa. “Poucos são os ônibus confortáveis, grande parte são velhos e tremem muito durante o trajeto, principalmente os das linhas mais pobres. Outro problema é a lotação deles, são muitos cheios em alguns horários, como por exemplo, em torno do meio dia. Deveriam ter mais linhas. Sem falar de alguns motoristas que além de mal educados, dirigem rápido e sem cautela, colocando nossas vidas em perigo”.

esperar outro passar. O carro da manutenção só chegou meia hora depois do acontecido, e o nosso ônibus ainda demorou mais que isso. Sorte que eu estava indo para casa mesmo e não tinha nenhum compromisso marcado”, conta Taíssa Travassos, estudante da UFPB. Já o estudante Eraldo Gadelha não teve a mesma sorte. “Eu estava indo pro colégio, não lembro bem em qual ônibus porque já faz algum tempo, mas me recordo que ele quebrou e eu tive que esperar um bom tempo até que chegasse o outro. O resultado foi que cheguei atrasado ao colégio, e eu ia ter prova nesse dia, mas como já era comum eu perder a hora, ninguém acreditou em mim e acabei perdendo a prova”, lamenta. Há quem goste e elogie o transporte coletivo de João Pessoa, como o motorista Efraim Vieira, que trabalha em uma linha da Transnacional. Ele comenta que a frota da empresa é nova e confortável, conta que nunca teve problema de coluna ou qualquer outro agravo na saúde pela sua profissão. De fato, o sistema de transporte público do nosso município, tem suas vantagens, como a gratuidade de carteiras para algumas categorias como idosos, deficientes físicos, oficias de justiça, entre outros; Além da integração em qualquer ponto da cidade que favorece muito os passageiros. Mas, como vemos, segundo a população, há ainda o que melhorar no que diz respeito ao conforto, segurança, e pontualidade dos ônibus.

Condições do transporte coletivo são criticadas pela população de João Pessoa

Problemas nos ônibus

Camila Alves

Catraca

Questão de Ordem 19

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20 Questão de Ordem

I

A questão dos transportes alternativos em João Pessoa divide a opinião da população. De um lado, estão os motoristas deste tipo de transporte que lutam por seus direitos e defendem a legalização dos alternativos. Do outro, aparecem as grandes empresas de transporte público que se sentem ameaçadas pela concorrência. A população por sua vez, principalmente aqueles que dependem dos ônibus coletivos, encontram no transporte alternativo uma segunda opção. Entretanto, a segurança e a confiabilidade deste serviço deixam a desejar. Motorista “alternativo” há seis anos, o ex–frentista Alexandre Arri, 44 anos, viu nesta modalidade de transporte uma opção para driblar o desemprego e ajudar no sustento da família. “Seria interessante que todos os carros fossem cadastrados de acordo com a demanda. Assim, os profissionais do ramo poderiam trabalhar de forma mais organizada e tranqüila”, ressaltou. Alexandre lembrou também que a regulamentação dos alternativos é uma questão que vem sendo discutida a passos lentos e espera que as autoridades tomem as providências necessárias para que a classe possa trabalhar de forma digna. Para a estudante de Comunicação Social Rayza Miranda, 20 anos, usar transporte alternativo já virou rotina. Ela mora no bairro de Intermares, em Cabedelo, e os ônibus que fazem o itinerário até João Pessoa são insuficientes. “Como estudo em João Pessoa, faço esse percurso diariamente. Normalmente os ônibus demoram muito e estão sempre lotados, por isso prefiro pegar um

alternativo”, comentou. Já o estudante de Direito Alexandre Freire, 27 anos, não procura o sistema alternativo, pois não se sente seguro usando este serviço. Ele acredita que o alternativo é uma porta aberta para a prática crimes. “Acho o serviço muito vulnerável, crimes como um seqüestro, por exemplo, podem ser facilmente praticados por pessoas desconhecidas que se passam por motoristas”, disse. Superintendente da STtrans, Deusdete Queiroga, disse que o órgão vem desenvolvendo uma grande fiscalização em parceria com a CPTran, conforme ficou definido através do Termo de Ajustamento de Condutas (TAC), elaborado pelo Ministério Público. “A cidade já dispõe de um modelo de transporte eficiente, por isso os alternativos não são necessários”, avaliou. Deusdete ressaltou que a prefeitura é contrária a esse tipo de transporte e que aproximadamente duzentos veículos já foram apreendidos pela fiscalização. Disse ainda que João Pessoa possui uma frota de 500 ônibus, sendo 432 em operação, transportando mensalmente 8 milhões de passageiros. Em 2009, as seis empresas de transporte coletivo terão que cumprir o termo de compromisso assinado com a Superintendência de Transportes e Trânsito e concluir a implantação do rastreamento da frota de ônibus, além de instalar câmeras de monitoramento em todos os ônibus até o fim de março de 2009, para melhorar a segurança, eficiência e qualidade na prestação dos serviços à população.

Preços mais baixos tornam o transporte alternativo opção para passageiros, e trabalho para desempregados. Mas a ilegalidade ainda é o maior problema

A ilegalidade dos alternativos

Simone Almeida

Filial

Normalmente os ônibus demoram muito e estão sempre lotados, por isso prefiro pegar um alternativo

Questão de Ordem 21

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“Teus ombros suportam o mundo e ele não

“Teus ombros suportam o mundo e ele não pe sa

m a is q u e pe a mã s o d e a u ma criança” mais q u ea m ã o d e u ma criança”


João Pessoa é a maior cidade do estado da Paraíba, com 674.762 habitantes, segundo o último censo do IBGE, realizado em 2007. Como toda cidade de grande porte, a capital tem um fluxo considerável de

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veículos circulando em suas ruas, desde automóveis particulares e motocicletas até transportes públicos. A atual gestão da Prefeitura Municipal, como forma de viabilizar o fluxo de trânsito no município, incentiva o uso dos

Por trás da tranquilidade de um serviço regulamentado, um sistema de venda de praças e descaso governamental

Alternativas de táxi

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transportes públicos coletivos. A construção do Terminal de Integração urbano, inaugurado em 2005, e, mais recentemente, a implementação do sistema de Integração Temporal, em 2008, que permite a utilização de dois ônibus pagando apenas uma passagem, além da gratuidade a alguns usuários, como idosos e deficientes, são exemplos de estímulo ao uso do chamado “transporte legal”. Cerca de 8 milhões de pessoas utilizam, mensalmente, os transportes coletivos da capital, segundo dados da Superintendência de Transportes e Trânsito (STTrans), órgão oficial que rege os serviços do município. São 407 veículos em operação, frota considerada suficiente, pela STTrans, para cobrir a demanda de toda a João Pessoa. Por essa razão, a atual gestão da Prefeitura é desfavorável à circulação de meios de transporte alternativos na cidade, como vans e carros de lotação. Esses serviços são considerados clandestinos e a Prefeitura trava uma luta com a categoria, investindo, inclusive, em campanhas publicitárias em diversos meios massivos, para desestimular o uso desse serviço na capital. À margem dessa briga, de certa forma, estão os táxis, que são um serviço de transporte individual de passageiros, regulamentado pela STTrans. Para que um motorista possa atuar como taxista, é necessário ter uma permissão da Prefeitura. Em João Pessoa, o número máximo de permissões é de 1.400 veículos, seguindo a legislação que fixa o número de táxis na proporção de um veículo-táxi para cada 600 habitantes. Originalmente, essas praças, como também são denominadas, foram doadas a determinados motoristas, pelo município, para que eles pudessem realizar a função

legalmente. Segundo afirma o taxista Rogério Muniz, 31 anos, que faz ponto no bairro do Cristo há 7 anos, “o 'correto' seria que, quando não quisessem mais exercer a profissão, esses motoristas devolvessem o direito ao município, para que fosse repassado a outros profissionais”. Entretanto, o que ocorre, não só em João Pessoa, mas em todos os lugares, é que as permissões são vendidas. Na capital, o valor de uma praça de táxi pode variar de R$30.000 a R$70.000. O investimento para se inserir no serviço, portanto, é realmente alto, pois, além desse valor, que na maioria das vezes tem de ser pago à vista, existem outros gastos com encargos de transferência de alvará na STTrans, mudança de placa cinza para vermelha e com a compra e adequação do veículo. Existem duas categorias de motoristas: os permissionários (proprietários dos veículos) e os defensores ou motoristas auxiliares (credenciados pelos proprietários para conduzirem os veículos). Esses últimos recebem a remuneração por comissão (de 30% a 50% do valor arrecadado) ou diária fixa (R$30 a R$40, em média). Ivanaldo Ribeiro, de 38 anos, é defensor de uma praça em frente à Universidade Federal da Paraíba (UFPB) e recebe 35% de comissão, diariamente, o que dá cerca de R$1.200 por mês. O taxista começou há 8 meses no ramo, por falta de serviço em sua antiga profissão de pintor, e o acordo que possui com o proprietário é de ficar de posse do veículo durante 24 horas em dias alternados, entregando o carro para outro defensor que cumpre o mesmo serviço. Os colegas afirmam que a profissão é mais exaustiva para os defensores, como Ivanaldo – ele geralmente tem de trabalhar os três turnos, para compensar os outros dias em que

Originalmente, as praças de táxi foram doadas aos motoristas e o “correto” seria que fossem devolvidas a prefeitura. Entretanto, hoje em dia, elas são vendidas.

Passeio

Questão de Ordem 25

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não está com o carro. Por serem profissionais liberais, os taxistas não têm direito a benefícios como auxílio-doença, seguro-desemprego ou aposentadoria, a não ser que contribuam para a Previdência Social como autônomos. No entanto, o município de João Pessoa possui uma lei que permite a esses profissionais receberem o equivalente ao 13º salário, no fim do ano. Durante todo o mês de dezembro, os veículos da capital circulam com bandeira 2, independente do horário. O taxista Rogério Muniz afirma que o salário, nesse mês, pode chegar a até R$3.000. Em relação à segurança no trabalho, os taxistas afirmam que é notável a ausência de um policiamento adequado, principalmente à noite. Embora nenhum dos profissionais entrevistados para essa reportagem tenha sido assaltado, todos eles relatam que se sentem inseguros nas ruas. Outra reclamação dos motoristas diz respeito à falta de estrutura nos pontos. Não existem bebedouros ou banheiros, para permitir um mínimo de conforto a esses profissionais, no ambiente de trabalho. O chefe da Divisão de Transportes Especiais, Leonardo Albuquerque, quando procurado por nossa reportagem para falar um pouco sobre a situação dos serviços de táxi da capital, afirmou que “a STTrans vem trabalhando de uma forma geral em divulgar os serviços regulares de transporte de passageiros, como o do próprio táxi, incentivando a população a não utilizar veículos de transportes clandestinos”. Em relação aos incentivos dados aos profissionais, complementa dizendo que “é dado aos permissionários de táxi direito a isenções de diversos impostos, para adquirirem veículos novos”. No entanto, quando questionados se a

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categoria desfrutava de incentivos, os taxistas relataram a falta de apoio da STTrans, principalmente em relação à fiscalização dos táxis vindos de outros municípios. Quando saem de sua cidade de origem, os motoristas têm de utilizar a bandeira 2 e retirar a capelinha que fica na parte superior do veículo, com a indicação de “táxi”, pois o objeto caracteriza a disponibilidade em aceitar corridas, o que é proibido a táxis de outros municípios. Como a fiscalização aqui não é rigorosa, os veículos passam despercebidos, tirando passageiros dos motoristas locais. Quando, ao contrário, os veículos daqui vão para outras cidades, são prontamente multados, pois a vigilância é bem mais intensa. “Nós taxistas não recebemos incentivo nenhum. Pelo contrário, só recebemos multas. O incentivo que nos dão são as multas”, afirma Antônio Alves. O serviço também enfrenta a concorrência com os transportes alternativos, que, mesmo desaprovados pela Prefeitura, continuam circulando, atraindo a população pelos preços mais acessíveis. Os taxistas afirmam que esse tipo de transporte, “irresponsável e desorganizado”, atrapalha, sim, o trabalho da categoria. Rogério Muniz também relata o descaso governamental com a categoria: “Não existe nem um vereador, aqui em João Pessoa, que lute pelos direitos dos taxistas. Nós só precisamos de apoio para ganhar o nosso pão de cada dia de forma honesta, mas nós não encontramos esse apoio. Na última eleição, o vereador Durval Ferreira prometeu que, se fosse reeleito, passaria a defender a nossa categoria. Agora é torcer e esperar pra ver”. Mas, apesar de todas as dificuldades e problemas relatados, todos os profissionais

entrevistados se dizem satisfeitos com a profissão. “O mercado de trabalho está muito difícil; se falta qualificação, você não vai ter boas oportunidades. Eu conheço professores universitários e advogados que têm táxi com motorista auxiliar, porque não é qualquer emprego que permite que a gente tenha um salário bom como esse. Não é um trabalho perfeito, como nenhum é, mas é uma profissão que dá pra se manter e pra mim é, sim, muito prazerosa”, afirma o taxista Rogério Muniz.

recebemos incentivo nenhum. Pelo contrário, só recebemos multas’

‘Nós taxistas não

Questão de Ordem 27

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O “1500 Circular”, ainda está sendo filmado? As tomadas estão sendo apenas dentro dos dois ônibus?

Quando fiz “Eu nunca mais vou dizer o que realmente penso”, usei câmera daqui [da UFPB], mas a infra de editar foi com um amigo, Jaime Prado, que sempre está “na guerra” e disponível, a gente interage bem nesse processo. No “Renovatório”, eu usei uma câmera pequena MiniDV, que comprei, era pequena, mas super funcional, eu colocava a câmera no tripé, lapela, ligava lá e rolava. Para o “1500 Circular”, rolou o patrocínio do Fundo Municipal de Cultura.

Na realização dos dois primeiros (“Eu nunca mais vou dizer o que realmente penso” e “Renovatório”), você ainda estava na UFPB, como foi o apóio técnico? E o “1500 Circular” é uma produção independente também?

Só o 1500 e o 5100, que é o inverso do primeiro, mas o nome do filme vai ficar “1500” mesmo. É que, na verdade, pouco importa o ônibus, podia ser qualquer um. Eu escolhi o 1500 porque ele vai lá longe, Manaíra, Geisel, Grotão, Costa Silva, Centro, aí passa aqui na Universidade, mata e tal.

Apesar de o nome do seu documentário (“1500 Circular”) ser homônimo de um ônibus, você também fez imagens em outros coletivos?

28 Questão de Ordem

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Chiquinho Sales é formado em Rádio & TV, pela Universidade Federal da Paraíba (UFPB), e cineasta há três anos. Ele já tem documentários de renome na bagagem, como o inovador “Eu nunca mais vou dizer o que realmente penso”, que faz uma analogia entre as placas de formatura e os sarcófagos do cemitério, e o lúdicosaudosista “Renovatório”, que nos insere no movimento superoitista do final dos anos de 1970 e no início dos de 1980 de João Pessoa. Atualmente, está concluindo mais um documentário, “1500 Circular”, pincelando também sobre suas antigas produções. Não. A gente estava lá para o que rolasse. Não teve nada produzido demais, mas teve uma produção de a coisa funcionar. A idéia era a de “você vai para onde?”, e a partir daí tentar desenrolar uma conversa. A gente filmou a parte de vídeo e de áudio, tudo separado, foi 80% off. Essa é a verdadeira experiência audiovisual, aí eu saquei qual é mesmo a ciência da idéia. A gente é muito aprisionado pelo “talking head” da televisão, a cabeça lá falando ininterruptamente. Mas tem tanta outras coisas, você pode criar outros campos de significado. Ao mesmo tempo, a atenção redobra para o som. Tem muito barulho

Como foi a produção? Você entrevistou qualquer pessoa ou teve um trabalho de pesquisa antes?

Eu já estou terminando. E é dentro do ônibus todo o tempo, só tem uma parte que é fora, o começo. Como eu só peguei o 1500 e o 5100, foi até tranqüilo para fazer as tomadas; eu só tive que pedir a autorização para a empresa TransNacional. Eles ficaram “no pé” um pouquinho, mas foi tranqüilo, afinal, projeto aprovado pelo Fundo Municipal de Cultura, a galera já olha diferente, você tem outro status, digamos assim, você não é apenas um estudante que está fazendo. E isso para mim está até sendo importante, porque pode abrir umas portas interessantes.

Há mais ou menos três anos. Desde o primeiro que eu fiz, em 2005, que foi um projeto de extensão com os índios e resultou em três vídeos [“MonteMór é Nossa Terra” , “Sou Potiguara” e “Maria Caboca”], e aí nós criamos um método de trabalho que dá uma clareza para o plano de edição. Depois, eu fiz o das placas [“Eu nunca mais vou dizer o que realmente penso”]. Ano passado, teve o da minha formatura, o “Renovatório” e

Há quanto tempo você está envolvido na produção audiovisual?

Eu não sou muito cinéfilo. Mas é uma referência constante, nesse do ônibus [“1500 Circular”] mesmo. A questão de você lidar com as pessoas. Na verdade, o grande lance é esse vínculo de amizade que você de certa forma constrói por alguns minutos. Essa empatia é uma coisa que tem que acontecer; se você num for um cara carismático, num rola. Mas, enfim, o lance do renovatório, eu estava lidando com acadêmicos, professores de comunicação, uma galera que está aí fazendo. Esse vídeo foi realmente um processo muito bom e enriquecedor. Eu escrevi o projeto no primeiro edital do DOCTV para cá, e foi bem contado, segundo o que eu fiquei sabendo das pessoas que julgaram. E pra mim foi muito bom fazer o projeto, destrinchar, dar uma idéia de filme.

Percebo que você tem um traço de direção parecido com o do diretor Eduardo Coutinho, ele foi uma referência?

Indo para parte estética, a linguagem de “1500 Circular” é algo mais experimental?

Tem uns tempos longos, uns planos interessantes. É outra coisa, saca? Tirar de tempo essa velocidade, a gente é bombardeado demais pela estética da publicidade, a mensagem em 30 segundos, é tudo horrível. A idéia foi de deixar rolar mais, deixar as pessoas verem as pessoas. A pessoa aprende fazendo, por mais que você assista ou seja um crítico de cinema, você só aprende fazendo. Não tem pra onde correr não, o resto é delírio e regozijo.

fiz “Caçadores de Estrelas Cadentes” na Chapada [Diamantina, na Bahia], que acabou de levar o Jampa Vídeo Festival, como melhor experimental e também como melhor fotografia.

de motor, de gente. E é isso que está faltando para finalizar. Estou esperando um figura, Guga, voltar para dar uma finalizada no som. Mas o vídeo está pronto. Se quiser assistir agora, está aí.

Odisséia do cotidiano pessoense

Allysson Viana

Audiovisual

Questão de Ordem 29

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Falar em segurança em coletivos tornou-se um assunto extremamente delicado e, em certa medida, sigiloso. Após procurar vários órgãos, como Superintendência de Transportes e Trânsito (STTRANS) e a Associação das Empresas de Transportes Coletivos (AETC–JP), entidades competentes para fornecer essas informações, a reportagem do Questão de Ordem sempre ouviu a mesma resposta: a alegação de não possuir estas informações. Segundo dados do Centro Integrado de Operações Policiais (Ciop) da Polícia Militar de João Pessoa, até o mês de junho de 2008, foram registrados 167 assaltos a coletivos na capital paraibana. A única empresa de transporte municipal que aceitou receber a reportagem foi a Mandacaruense. O sócio-diretor, Roberto Araújo, observa que a empresa conta com uma frota de 45 carros, cinco linhas e cobre seis bairros, alguns considerados críticos no quesito violência, como Padre Zé e Ilha do Bispo. “Os assaltos são 'por temporada', não existe um critério para que eles ocorram”, atesta o executivo.

30 Questão de Ordem

Segundo Roberto Araújo, somente na Mandacaruense foram registrados 16 assaltos nos 11 meses de 2008, o que resulta em um percentual de 1,4 assaltos ao mês. Em comparação ao ano de 2007, houve uma queda do número de registros. Nos doze meses do ano anterior, 26 assaltos, com percentual de 2,17assaltos ao mês. Logo, a diminuição foi de quase 50%. Tal redução não aconteceu por acaso. A Mandacaruense investiu cerca de R$ 200 mil na implementação de medidas de segurança como a implantação de câmeras que facilitem a identificação dos usuários e também a colocação de cofres onde é depositado pelo cobrador o excedente do dinheiro recebido deixando em caixa apenas a quantia destinada ao troco estipulada pela empresa. Com tais medidas geradas nas empresas, o alvo dos assaltos recaiu sobre os usuários, tornando-se alvo fácil dos bandidos devido ao descaso dos mesmos com a sua segurança. Para a atendente Michelle Ramalho não existe perigo nenhum em falar ao celular “Não acho que existe problema em falar ao celular no ônibus, eu sempre

Número de assaltos diminui e o usuário passa a ser o foco dos bandidos

Mirela Sisavac

Mudança de alvo

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Foco

falo e nunca aconteceu nada comigo”, já a aposentada Fátima Silva relata o contrário “Quando eu vi o homem(assaltante) já estava levando o celular de algumas pessoas que dava pra ele ver, o meu fico dentro da bolsa e ele não levou”. Com relação ao funcionário, especificamente o cobrador, o Diretor foi bem direto ao dizer que a norma da empresa é que o funcionário deposite nesse cofre o excedente da quantia que é destinada ao troco, “se o cobrador for assaltado e for levado uma quantia maior que a deveria ter em caixa, o dinheiro não é descontado dele até porque eu não posso fazer isso, no entanto, eu o demito”.

Cobradores trabalham com medo

Questão de Ordem 31

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32 Questão de Ordem

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Não me considero, sob forma alguma, neoliberal ou partidário da política em defesa do status quo; tampouco sou parente nem sequer amigo de algum concessionário público. Entretanto, acredito sinceramente que alguns dos nossos concidadãos são daquele tipo de gente contestadora, aquela gente que por natureza em tudo vê motivo de contrariedade e zanga, empenhando-se em verificar sempre o lado negativo das situações diárias, reclamando o mais que possa de todo corriqueiro detalhe em desalinho com a perfeita ordem das coisas – e até na perfeição creio serem capazes de encontrar defeitos merecedores das mais duras críticas. Tal foi o raciocínio que me engendrou a mente ao ouvir uma dessas figuras citadas exaurir-se em proferir blasfêmias contra o nosso efetivo sistema de transporte público. Eu estava parado em um semáforo e, mesmo com o som ligado e os vidros do meu Citröen fechados por causa do ar-condicionado, pude ouvir a mulher idosa – se é que se pode chamar assim, pois mais parecia uma fera selvagem – desferir golpes de punhos cerrados no ar e bradar palavrões ensandecidos enquanto as demais pessoas aquiesciam desconfiadas e amedrontadas com a fúria do seu discurso inflamado. Pensei em ligar para a polícia e cheguei mesmo a pegar no celular, mas tive a presença de espírito suficiente para verificar exatamente do que se tratava antes de relatar o fato às autoridades. Baixei o volume do rádio, o vidro do carro e apurei os sentidos. Foi então que percebi tratar-se não de uma louca fugida, mas de uma senhora irada que esbravejava contra um motorista que não parou o ônibus apesar de ela ter sinalizado com mão. Trovejava ela: - Filho da p... !!! Aquilo é um semvergonha, rapaz! ... Sabe que essa hora tem gente atrasada querendo chegar no trabalho e deixa a gente aqui de propósito, fazendo a gente de besta!!! Isso é um filho de uma égua!!! ... A cena me fez sorrir. Voltei à

tranquilidade hermética do meu veículo pois o sinal estava aberto e eu também tinha meus compromissos. Mas no caminho não pude evitar refletir sobre a má vontade de certos indivíduos em aceitar que o sistema funciona, eles é que certamente não conseguem se encaixar no esquema geral da vida. No caso da senhora, tenho certeza que ela não deve ter erguido o braço em tempo hábil, ou então levantou muito pouco o membro para que ele pudesse ser visto pelo motorista. É a vida mostrando que é preciso energia para atingir objetivos, se ela tivesse agitado a mão com a mesma vivacidade com que estava reclamando, com certeza ele teria parado. Já ouvi relatos de que à vezes acontece de alguém ficar preso na porta, ou então de cair na rua quando o ônibus começa a mover-se sem que o passageiro tenha descido todos os degraus da saída – isso pra mim é abestalhamento... e é a vida ensinando que é preciso agilidade ou então as portas se fecham e o trem da oportunidade parte sem aviso prévio. Outros reclamam de esperar horas por um transporte e vêem um inferno onde vejo esperança de alcançar o céu... ou não será um excelente momento para exercitar a paciência, mãe de todas as virtudes a que podem chegar as criaturas humanas? Falam ainda do aperto nas horas mais abrasivas do dia, e do cheiro desagradável que alguns exalam; mas não é em momentos como esse que se pratica a convivência com as diferenças e o respeito ao próximo, dever de todo cidadão, e qualidade intrínseca de todo bom cristão? Ou seja, o nosso sistema de transporte público é um lugar de grande aprendizando. E é aprendendo que chegamos onde queremos... no caso, com motorista, teto solar e visão privilegiada. Agora, difícil mesmo é agradar gente mesquinha e mal-humorada. Vade retro... ou vá de Mercedes. Eu vou me conformando num pequeno e solitário Citröen.

Vá de Mercedes, bem

Adino Bandeira

Desejo Bruno Cavalcanti

O moto-táxi é um tipo de transporte público individual na qual os passageiros têm ampla escolha de local de embarque ou desembarque, o que não acontece com as modalidades de transporte padrão. É semelhante ao táxi, porém utiliza uma motocicleta em vez de um carro. Normalmente, o valor a ser pago é único, independente da distância a ser percorrida. Entretanto, o valor pode variar a depender do dia da semana ou horário, ou mesmo incrementado caso a distância acordada seja maior do que a usual. Dependendo do porte da cidade, a atividade de transporte por moto-táxi pode ser registrada ou não. Cidades pequenas tendem a ter este serviço sem padronização nem legalização municipal. Cidades de tamanho maior tratam a mototáxi como um serviço semelhante ao de táxi. Este tipo de serviço tem sido incorporado recentemente nos bairros ou regiões menos ricas. Alternativa de subsistência aos jovens de classe baixa que, sem alternativa de emprego, procuram nesta atividade uma fonte de renda. Roberto Luiz da Silva, 39 anos, atua há 10 anos como moto-taxista, na cidade de Cabedelo. Ele não vê nenhum tipo de preconceito em relação ao serviço que presta. No total são doze moto-taxistas que atuam na empresa em que trabalha, todos habilitados, trabalhando com capacete. Questionado sobre a legalização do serviço, ele informou que não existe sindicato na região. “Não existe sindicato e nenhuma associação da classe, mas no

momento converso com outros moto-taxistas e já existe certa organização para levarmos um projeto a um vereador, e assim vamos tentar legalizar a nossa situação.”, afirmou Roberto Luiz. A empresa em que ele trabalha é toda legalizada, segundo Roberto. “Apesar de não haver um reconhecimento oficial de nossa categoria, a empresa que trabalho é totalmente legalizada, inclusive pagando os devidos impostos ao município”. A tarifa custa R$ 1,50, mas dependendo do local de destino esta tarifa pode variar até 15 reais. Segundo o moto-taxista, a população usa com bastante freqüência o serviço, trazendo comodidade e rapidez tanto para chegar a um determinado local como resolver algum tipo de problema. Além de levar os clientes nos locais desejados, eles também prestam serviços bancários, encomendas, atendimento com hora marcada coisa que o transporte público como o ônibus, por exemplo, não oferece. Lucia Figueiredo, 22 anos, moradora do município de Cabedelo, não vê nenhum problema em usar a moto-táxi como meio de transporte. “Acho muito bom o serviço que eles prestam aqui em Cabedelo. Na minha opinião é mais prático e rápido, tem gente que não gosta, diz que não é seguro. Eu já uso a três anos este meio de transporte e não tenho do que me queixar, pelo contrário é até mais barato do que ônibus e os moto-taxistas que já prestaram o serviço para mim, todos eles são responsáveis”.

Na cidade de Cabedelo, a moto-táxi é sinal de praticidade e economia para a população

Mais rápido e mais barato

Velocidade

Questão de Ordem 33

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‘Desaprender 8 horas por dia ensina os princípios.’


36 Questão de Ordem

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O movimento Passe Livre - João Pessoa (MPL), no ano de 2007, deu início a coleta de assinaturas para colocar em prática o primeiro Projeto Lei de Iniciativa Popular do município. Esse projeto visa, dentre outras coisas, a garantia do passe livre para estudantes da capital. Um projeto lei de iniciativa popular é um instrumento pelo qual o cidadão se faz diretamente presente no processo legislativo. Ele deve ser assinado por no mínimo um por cento do eleitorado do município. Já são mais de 3 mil assinaturas das 5 mil necessárias. Segundo Adalberto Cruz, estudante e membro do MPL, o que impossibilita um maior recolhimento de assinaturas é o fato das pessoas não terem o costume de sair com o título de eleitor na bolsa e o trabalho de porta em porta requer um mobilização muito grande. O movimento começou a melhor se organizar em 2005, quando aconteceu uma mudança na postura do movimento estudantil. Antes, o Conselho Tarifário anunciava o aumento da passagem e depois do anuncio na televisão era que o movimento se organizava para ir as ruas. Agora, o movimento se propõe a ir as ruas antes do aumento ser anunciado para dizer que ele não pode acontecer. Segundo integrantes do movimento é por esse motivo que as reuniões do Conselho tarifário são realizadas em datas como 27 de dezembro, pois nessa época há uma desmobilização

dos estudantes. Exemplo disso será a próxima reunião que embora não tenha data exata para acontecer, está prevista para Dezembro de 2008. A reunião foi pautada na reunião do mês de abril, e pretende discutir passe livre, reformulação do Conselho Tarifário entre outros temas de mobilidade urbana. No mês dessa última reunião(abril), o vereador da capital Watteau Rodigues, defendeu o passe livre para estudantes da rede pública e privada da capital. Ele alegou que a passagem gratuita diminuiria a evasão escolar e proporcionaria ao estudante acesso a esporte, lazer e cultura. A Deputada Estadual Nadja Palitot, já trabalha na área de transporte público há um tempo e afirma que “A luta pelo passe livre em João Pessoa será muito difícil, tendo em vista que os empresários da capital têm um poder muito grande sobre isso”. O Movimento Passe Livre é aberto para quem quiser participar. Você pode assinar o projeto e colaborar na coleta de assinaturas, recolhendo em sua casa e entre amigo, ou organizando comissões de coletas de assinaturas em seu bairro ou em associações. O MPL informa que suas reuniões são abertas e acontecem no Anfiteatro da Universidade federal da Paraíba(UFPB), todas as quintas-feiras ás 17:00

Projeto Lei de Iniciativa Popular quer estabelecer o passe livre estudantil.

Passe Livre Já!

Jéssica Nascimento

Direitos

A luta pelo passe livre estudantil, não é uma luta isolada. Em alguns lugares do país mobilizações aconteceram na busca da conquista pela gratuidade da passagem de ônibus para estudantes. A “Revolta do Busão”, em Salvador e a “ Revolta da Catraca”, em Florianópolis. São exemplos de ações que o Movimento passe livre Realizou. No Recife também acorreu uma mobilização no ano de 2005, justamente o ano em que o movimento começava a se instalar em João Pessoa. Alguns lugares do país como o estado do Rio de Janeiro e o Amapá, além de cidades como Cotia(SP), Laguna(MT), Sarando(PR). O MPL discute não só a passagem gratuita para os estudante, mas mobilidade urbana como um todo. Por isso em lugares em que não conseguiu o passe livre o movimento vem alcançando vários avanços. Como passagem a R$ 1,00 aos domingos em Recife e vários bloqueios a aumentos de passagens.

Luta Nacional

Questão de Ordem 37

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Meu nome é Milton, tenho trinta e dois anos, a mais de vinte sou usuário e dependente e hoje vou contar como tudo isso começou. Sou o mais velho de quatro filhos: Isaque, Henrique, Vamberto e eu. Nasci e cresci numa área periférica de João Pessoa e desde os doze, por conta da pressão familiar, eu me iniciei nessa vida de dependente. Meu pai estava desempregado, minha mãe lavava, passava e cozinhava para fora, mas o dinheiro não dava para alimentar nem ela, quanto mais eu e meus três irmãos. Naquela época papai andava muito nervoso e nos batia muito. Quando eu completei doze anos ele decidiu que era hora de eu trabalhar. Comecei por causa dele. O dia em que ele me botou na rua para trabalhar foi o primeiro dia que vi a parada na minha frente. Fiquei lá esperando, esperando até começar a viagem. No começo eu até gostei, fiquei pensativo, introspectivo, ficava imaginando e devaneando sobre os sapatos que engraxaria e os vidros que limparia... cheguei até a sentir uma brisa! Mas depois foi horrível. Comecei a me sentir enjooado, uma náusea muito forte tomou conta de mim

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e eu fiquei com vontade que toda aquela viagem acabasse logo. Será que a primeira vez era sempre assim? Quando aquilo tudo acabou e eu me senti em terra firme novamente, fiquei mais tranquilo. Respirei fundo várias vezes e olhei ao redor. Era impressionante, num instante parecia que tudo havia mudado e eu não reconhecia mais nada. A pouco tempo eu sabia exatamente onde estava, mas naquele momento eu me sentia totalmente perdido em meio aos prédios, a fumaça e as pessoas. Aquela viagem louca havia me deixado desnorteado. Parei um pouco, tomei fôlego e caminhei. O enjoo e a náusea já estavam indo embora e eu me sentia bem melhor. Decidi começar a trabalhar logo para poder conseguir o máximo de dinheiro. Assim que comecei a abordar as pessoas percebi como seria difícil conseguir algum trocado. Aqueles que eu achava que iriam me ajudar, senhores altivos, vestindo paletó, gravata e calçando belos sapatos de couro, nem sequer olhavam para a minha cara. Na melhor das hipóteses eles me ignoravam. Uns me chamavam de pivete e mandavam eu dar o fora “antes que

chamasse a polícia.” Um senhor de meiaidade, calvo e vestindo um terno surrado foi o único a me ajudar na minha primeira hora de trabalho. Não chegou a olhar para o meu rosto, mas meteu a mão no bolso da calça e me entregou uma moeda de cinquenta centavos. Das novas. Depois de um tempo comecei a achar que minha sorte estava mudando. No final da tarde consegui juntar três reais e setenta e cinco centavos, e nem precisei engraxar sapato nenhum. Mas quando eu estava começando a achar que estava com sorte, senti alguém me batendo nas costas e perguntando quem eu era e de onde vinha. Expliquei. Não adiantou. Levei dois socos, o primeiro no olho, o segundo no queixo. Cai, mas consegui me levantar antes que me chutassem e saí correndo ao som dos gritos de “Não volte nunca mais na minha área, seu pirralho! Ninguém engraxa por aqui sem minha permissão.” Até hoje não sei quem foi que me agrediu nesse dia. O dia já estava terminando e eu precisava ir para casa, o dinheiro arrecado serviria para comprar pão. Antes de ir procurei mais uma vez a parada. Eu

realmente iria precisar dela. Estava longe de casa, não conhecia muito bem o lugar por isso foi bem difícil encontrar. Perguntei a um senhor que vendia pipoca em frente a uma escola e finalmente consegui. Tive que esperar um pouco, paguei e logo comecei a viajar... Essa viagem foi mais tranquila, pude curtir bem mais o momento e refletir um pouco mais sobre a vida. Sentia que as pessoas estavam olhando para mim, mas eu não estava nem aí para elas. Não enjoei, nem tive náuseas. Acho que eu estava me acostumando com aquilo... Bom, meu nome é Milton, tenho trinta e dois anos, a mais de vinte sou usuário e dependente do transporte público coletivo e acabo de relatar a vocês como foi a minha primeira experiência nos ônibus de João Pessoa. Espero que tenham gostado da viagem.

como me tornei um usuário dependente

Bon Voyage

Lucas Pontes

Vício

Questão de Ordem 39

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Nunca a felicidade dependeu tanto de rodas de borracha

Os ouvidos mais apurados logo perceberiam que os maiores freqüentadores do Terminal de Integração de João Pessoa durante a madrugada são os pássaros. Pelas migalhas no chão, bolo, biscoito, salgado, resto de gente, eles esboçam um caminho único e articulado por entre os transeuntes e, inocentemente, conhecem todos por ali. Mas pouca sensibilidade sobra àqueles com sono, famintos e bêbados, ansiosos por um leito, uma companhia ou um simples acalento. Os passarinhos andam em grupos, juntos, pousam e voam, em movimentos ora uniformes, ora repentinos, e não há como suportar o Integração de madrugada se assim não o for. Vende-se, aluga-se, precisa-se sufocantemente de companhia, para conversar e esquecer o passar das horas tão longas, diversão para nutrir a esperança de chegar em casa, namorar, desejar, um colo ou um ombro amigo, uma palavra de atenção, ou um silêncio de atenção. E se não o tem por entrada, arranjam por saída; sentam discretamente em algum lugar, puxam um papo, pedem um cigarro, ou um trago, os que vendem oferecem os produtos, mas mais pelo desejo humano de ser político que pela cobiça financeira. São grupos os que freqüentam o Terminal à madrugada. Roqueiros de preto e coturno, maquiagem pesada e jeito marrento. Bêbados tontos, enjoados, decadentes ou alegres, famintos e tragicômicos. Trabalhadores de rua ou de bares, que tem na noite a fonte para

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o vinho e o pão de cada dia. Pobres marginalizados e doentes, que correm para pegar o último dos ônibus das últimas horas após se degradarem num hospital público frio e fedorento qualquer. Skatistas que aproveitam o asfalto livre, frio e silencioso para fazer as mais diversas manobras e trazer um quê de barulho ao silêncio tedioso nas horas de céu negro. Gays, lésbicas e travestis, ora tratados com naturalidade, ora alvejados de preconceito, mas sem perder a graça e o orgulho. Clandestinos. Marginais. Boêmios. E ainda os trabalhadores, cabineiros e informantes, com rostos nem sempre receptivos ou simpáticos. Inegavelmente, um lugar seguro para aquelas horas da noite, mas, em troca, grades que delimitam a capacidade de movimentação, de um vermelho perceptível e inesquecível, e agoniam aqueles que percebem, mesmo que de olho baixo, o vôo constante dos passarinhos que descem até nós e brincam como marionetes: movimentos quebrados mas tão lúdicos. O escape são as histórias contadas. A televisão instalada em uma das lanchonetes, o filme que passa ou as propagandas de consumo que alimentam e alienam o desejo humano. A conversa de comadres, fofoca em outras línguas, que contam, recontam, remontam acontecimentos, divertem e informam aqueles que dela participam, ou quem observa e escuta de um lado qualquer. O café dos seguranças, sentados em volta de nada, cadeiras viradas para trás, falando sobre futebol, mulher, os problemas de casa, lançando teses para entender e resolver os problemas do mundo. Esses tão

Entre bêbados, pássaros e trabalhadores, um reduto temporário ainda por se descoberto

Madrugada no Integração

Emerson Cunha

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evidentes quanto às humildes barraquinhas que se aglomeram em torno das grades sólitas e frias, mas meio de venda e de vida. Bolo de cenoura, chocolate, mesclado ou baeta, fofo ou molhado, seguido de um singelo cafezinho, por 25 ou 50 centavos, e ainda uma conversinha sonolenta e quente no meio de um clima frio e pouco confortável daquele lugar, cuja diversão é um pobre gato elegante e faminto, ludibriado constantemente pelos passarinhos e seus vôos inesperados. Num meio tempo e imperceptivelmente, surgem e invadem o céu os primeiros raios de sol do dia, cujo sinal é o movimentar ainda mais forte e constante dos pássaros entre as árvores, as asas batidas de um lado e outro, e não se consegue imaginar espaço suficiente entre as

copas para tanto som, tantos animais, tantas vidas. O céu vai clareando aos poucos, a espera se torna cada vez menor, mas também mais ansiosa de ônibus que não vêm. Enquanto isso, mil bocejos, alongamento dos corpos que já pedem um descanso do trabalho ou da feliz e ébria farra. Até que os carros chegam, e também descansam, carcaças de ferro que tanta vida e tantas vidas carregam. Os motores roncam, os pneus se esquentam. Os motoristas, cobradores e passageiros tomam seus lugares. Nunca foi tão aliviante subir no ônibus. Nunca a felicidade dependeu tanto de rodas de borracha. Os mais acomodados dormem. Os mais desejosos colocam a cabeça para fora da janela e brincam com o vento no rosto, e nos cabelos.

Vende-se, aluga-se, precisa-se sufocantemente de companhia, para conversar e esquecer o passar das horas tão longas

Vestígios

Questão de Ordem 41

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42 Questão de Ordem

consegue se sobressair. São muitos os atores, compositores e cantores espalhados pelas várias linhas de ônibus de João Pessoa, mas um sempre me salta a memória. Ele é deficiente e ultimamente resolveu parar em um sinal recolhendo trocados com uma cestinha, o que é um pena, já que os vidros pretos e os ares-condicionados não podem notá-lo. Porém, ao fim do dia, ele sobe no seu palco andante e dá o seu show com casa lotada. Ali, com o holofote causticante da luz solar ou com a soturna luz lunar e com a maquilagem proporcionada pelo suor e pelas marcas da opressão, ele afina sua colagem de dois copos com areia dentro e canta sua poesia de métrica incerta, embora cheia de belas rimas. Suas composições trazem a tona os problemas vividos no seu dia-a-dia de forma bem-humorada. Bemhumorada? Problemas? Eureca! Perdoe a minha empolgação neste parágrafo, mas, enfim, descobri de onde vêm sua inspiração. Como não, se quase todo poeta tira sua inspiração do sofrimento, porque não eles. Claro que, diferentemente dos lamentos dos intelectuais, eles usam a alegria e a esperança como canalizadores. Você me pergunta confuso agora, como um povo que tanto batalha e passa todo o tempo sofrendo com o sol forte e com o frio da noite consegue ter a mente aberta pra criar, como não se deixa vencer pelo cansaço. Como? Isso é o que eu chamo de mistério brasileiro.

Vitor Daniel

Mistério brasileiro

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Estava eu passando mais uma vez os canais da televisão e encontrei, como não poderia deixar de ser, um programa que exibia uma daquelas maravilhosas dançarinas, para não chamar de algo melhor. Fiquei pensando na incrível vontade do brasileiro de ser notado, como cada um explora o que tem de melhor, sejam dotes físicos ou mentais. Assim, como eu estava naquelas noites de insônia em que um assunto puxa o outro dentro da sua cabeça, lembrei-me daqueles pobres que, embora não tenham a mesma sorte das belas garotas “reboladoras”, usam de sua criatividade para sobreviver, tendo como palco as escadas dos ônibus, sustentando-se do jeito que pode a cada freada do motorista. Várias são às vezes em que flagro várias representações artísticas que poderiam render espaço em qualquer atração do horário nobre. Questiono-me como raios uma pessoa que mal se alimenta pode ter tamanha inventividade, eu que tenho uma vida confortabilíssima peno um dia inteiro para escrever uma página, imagina se eu estivesse na situação dele. Preferiria buscar inspiração pulando de um viaduto. Na verdade, o que mais me impressiona é a má vontade dos passageiros em ajudá-los. Eu entendo que a situação não está boa para ninguém, mas muitos que negam um reles centavo gastam vários reais em apresentações musicais de “calcinha borrada” e afins. Todo artista tem que ser pago. Afora isso, continuo a me perguntar como alguém que não teve acesso a uma educação de qualidade

Palco

Há mais ou menos três anos a frota de ônibus da cidade de João Pessoa vem se renovando e modernizando.Hoje pode ser considerada a mais jovem do Nordeste. Além disso, os novos veículos possuem sistema de GPS(rastreamento por satélite), que possibilita o monitoramento on-line dos ônibus, com quatro câmeras instaladas em cada veículo. Segundo Adalberto Martins fiscal da Transnacional, esses recursos auxiliam no que diz respeito ao desvio de percurso, queima de parada, além da questão de segurança dos passageiros, motoristas e cobradores. Alguns possuem letreiros eletrônicos na frente e nas laterais. Outros veículos são equipados com elevadores para cadeirantes (mais comodidades para as pessoas que se locomovem em cadeiras de rodas) e a bilhetagem eletrônica, que diminui o fluxo de dinheiro e, por consequência, diminui os riscos de assaltos, e acabou com o comércio paralelo de vales-transportes e passes estudantis, dificultando assim os casos de falsificação e fraude. Em muitas cidades brasileiras já existe o sistema há anos e vem dando certo: são mais de 162 cidades do Brasil utilizando o bilhete eletrônico. Existem quatro tipos de cartões

magnéticos: cartão estudante (fornecido ao estudante), cartão gratuidade(portadores de deficiência,idosos e demais beneficiados), cartão cidadão (adquirido por qualquer usuário do sistema) e cartão vale-transporte (adquirido pelo visitante e depois guardado como lembraça, pois terá fotos de pontos turistícos da cidade. A bilhetagem eletrônica fornece dados diários sobre as viagens realizadas e o número de passageiros (estudantes beneficiários da gratuidade e usuários de vales-transportes), que utilizam o transporte coletivo da capital. A bilhetagem substituiu o papel(vale-transporte e passe estudantil) e a gratuidade por um cartão magnético inteligente que armazena os valores em reais para pagamento de passagens nos ônibus. A utilização do bilhete eletrônico é simples e qualquer pessoa pode usar sem dificuldades. O usuário aproxima o cartão do validador ( equipamento instalado próximo a roleta), aguardará os sinais sonoros e visuais para passar na catraca. Nesse momento, o visor informa o valor da tarifa descontado e o saldo restante do cartão. O cartão terá créditos mensais e será abastecido em postos credenciados pela associação das empresas de Transporte Coletivos (AETC).

Câmeras e bilhete eletrônico mudam a forma de pessoense lidar com o transporte urbano

Tecnologia coletiva

Emmanuelle Interaminense

Chip

Questão de Ordem 44

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Dossiê tranposrte público