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Náutica » Por: Janaína Quitério

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Era uma vez um sonho — o sonho da família Schürmann. Uma família marinheira que deu duas voltas ao mundo no seu formoso veleiro. O veleiro que, pela primeira vez, levou uma família brasileira a navegar em três oceanos, a visitar 45 países e a conhecer nove territórios. Era uma vez um sonho que nunca acaba — pois nos deixa com vontade de sonhar — Um dia nós vamos voltar aqui com o nosso próprio barco.

Barco Aysso em Cocos Keeling - Austrália

Sob um poético pôr-do-sol, Vilfredo Schürmann cochicha no ouvido de sua mulher, Heloisa Schürmann. Faziam o primeiro passeio da vida deles em um barco а vela, na baía da ilha de Saint Thomas, no Caribe — presente de Natal recebido da mãe de Heloisa, em 1974. A bordo, o casal foi enfeitiçado pelo mar. Na época, ela com 26 anos de idade; ele, com 25. Não sabiam ainda que aquele sonho era um insight do que se tornaria a missão Schürmann: pelas águas, descobrir a Terra. Pelo mar, voar por culturas e povos de todo o planeta. Correr mundo. Era um sonho de liberdade: para eles, navegar era preciso. Os Schürmann não só voltaram ao Caribe como foram mais além. Assim iniciou-se a saga.Tão logo retornaram ao Brasil, começaram a planejar paulatinamente a concretização daquela navegação. Não. Não se tratava de jogar tudo para cima e sair. Havia etapas para serem alcançadas.

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não davam livros de futebol, mas liam histórias sobre viagens no mar. Heloisa passava a noite embalando as crianças com canções de ninar: — Um dia a gente vai navegar pelo mundo... Foram dez anos de planejamento. Na ceia de Natal de 1983, os Schürmann partilharam o sonho com toda a família. Silêncio total. A pergunta era: — Para que sacrificar tudo e ir atrás de um sonho maluco? — Afinal, Vilfredo era um empresário bem-sucedido. Heloisa era dona de uma escola de idiomas com mais de mil alunos. Pierre, David e Wilhelm tinham, respectivamente, 15, 9 e 7 anos. Mas as indagações, preocupações, olhos tortos não afundaram o sonho: em 14 de abril de 1984 — não em 13 de abril — a família subiu as âncoras do veleiro. E por que não em 13 de abril? — Era uma sexta-feira. E nenhum marinheiro sai numa sexta-feira — revela Vilfredo. Heloisa narra que essa superstição atravessa séculos e está ligada à crucificação de Jesus Cristo, acontecida nesse dia da semana [veja mais superstições de marinheiros no box].

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A primeira delas foi marcar a data: — Vilfredo, li num livro que o primeiro passo para quem vai fazer uma viagem é marcar a data de partida — Heloisa lançou a inspiração. Marcaram a data: sairiam pelos oceanos quando David — segundo filho do casal, então engatinhando na aurora de seu primeiro ano de vida — completasse 10 anos. Ou seja, 13 de abril de 1984. Do centro da cidade de Florianópolis-SC, onde morava, o casal mudou-se para uma casa de madeira à beira-mar, em Santo Antônio de Lisboa — hoje um bairro de Florianópolis; ontem, uma vila de pescadores. Dali em diante: compraram o Polvo — o primeiro veleiro; aprenderam a velejar e a arte de lidar com o mar; estudaram cartas náuticas e meteorologia; aprenderam a pescar; juntaram todas as economias; passaram horas sentados no píer observando marinheiros de embarcações nacionais e estrangeiras; trocaram de barco mais três vezes antes de partirem; acalentaram o sonho em “segredo de Estado” de família; aos filhos — Pierre, David e Wilhelm —,

Família Schürmann 2000 - da direita para a esquerda: Pierre, Heloisa, Wilhelm, Vilfredo, David e Kat

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“No mar, não tenha pressa”

Heloisa Schürmann

Oceano é o quintal Antes de ganhar o mundo, a família Schürmann ganhou a costa brasileira. Era preciso se encaixar na nova realidade, não mais com os pés no chão, mas içados sobre o mar. Ainda nos primeiros meses, o capitão Vilfredo acordava eufórico no meio da noite: — Heloisa, prepara o terno e a gravata que eu preciso ir para a reunião! Agora num barco de 40 m², não podia haver problemas de convivência. Tudo era organizado, cada qual realizava sua tarefa. Instituíram o “café com o capitão” — um verdadeiro brainstorming (tempestade de idéias) em alto-mar. As crianças passaram a estudar sob a supervisão de Heloisa, por meio do método Calvert School — escola norte-americana especializada em ensino a distância para artistas de circo, atletas e pessoas itinerantes. Se as crianças precisassem estudar sobre vulcões: paravam em lugares onde eles existiam, e visitavam um vulcão. Ancoravam no porto, e lá iam os meninos trocarem as moedas, comprarem pão etc.: aí aprendiam matemática. Sem televisão, devoravam livros. E em cada lugar, com cada povo, em cada cultura, aprendiam a sua origem, a sua língua e a sua história. Conviviam com a diferença, no ocidente e no oriente. Conheciam religiões e filosofias: aprenderam Pesca Brasil l 84

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a viver intensamente cada momento. Ano a ano ganhavam o mundo. Trocaram o relógio pelo sol e pela lua. Fizeram amizades no planeta todo. Enfrentaram tempestades e piratas, fizeram esporte de aventura, ambientaramse no fundo do oceano. Descobriram que sem medo não é possível viver no mar: “O medo faz a gente ter cuidado, ficar alerta”, reflete o capitão. Todos os tripulantes descobriram seu “mar interior”: adquiriram novas habilidades; aprenderam a consertar equipamentos; fizeram-se médicos, dentistas, cozinheiros e marceneiros; aprenderam com a natureza. A primeira volta ao mundo da família Schürmann durou dez anos. Em 1988, Pierre foi para os Estados Unidos estudar Administração de Empresas. David decidiu estudar Cinema na Universidade de Auckland, na Austrália. Wilhelm passou os dez anos a bordo; hoje é considerado um dos melhores windsurfistas brasileiros. A circunavegação inaugural da primeira família brasileira a navegar pelo mundo terminou em 29 de maio de 1994. Mas os pés fincaram-se no chão de terra por apenas três anos. Em 23 de novembro de 1997 começava a segunda expedição — refazendo a rota do navegador português Fernão de Magalhães, o primeiro a dar a volta ao planeta pelo mar.


2º - Sagüi — modelo Brasília 32 com dez metros de comprimento. Tinha camas, banheiro, cozinha e sala de jantar. 3º - Manatee –tinha 34 pés.

Segunda volta ao mundo, em 891 dias A segunda circunavegação tinha data de retorno: 22 de abril de 2000 — 500 anos de descobrimento do Brasil. Em três anos, a família Schürmann refaria a rota de Magalhães, documentada pelo filho David e levando uma nova tripulante: Kat. A nova marinheira — nascida na Nova Zelândia — fora adotada pelo casal em 1995, quando ela tinha apenas três anos. Trechos da Magalhães Global Adventure foram transmitidos pelo programa Fantástico (Rede Globo) e se transformou no longametragem, produzido por David Schürmann, chamado “O mundo em duas voltas”. Kat agora é um anjo — a marinheira morreu em 29 de maio de 2006, aos 13 anos, vítima de complicações do vírus HIV. Mas deixou plantado mais um sonho: a idéia da próxima expedição planejada pela família Schürmann nasceu da imaginação dela. Até agora somente se sabe que o novo projeto jamais foi feito pelo homem. Ainda é segredo. Mas o que já está revelado é isto: o sonho não acabou.

4º - Guapo – 1982 – presente de Natal. Foi o veleiro que saiu na viagem ao mundo com os Schürmann. Depois de reformado, foi rebatizado: virou o Aysso (em tupi-guarani quer dizer Formoso). Ficha-técnica : 16,75 m de comprimento / 4,68 m de largura / Motor de 110 Hp / Deslocamento (peso): 25 t / Armação: Escuna / Acomoda dez pessoas em quatro cabines.

veleiro

Acima, o capitão estuda a rota. Ao lado, Heloisa com os nativos na 1ª viagem. Abaixo, David com o nativo de Borobodur, na Ásia

Fotos: Divulgação

As embarcações 1º - Batizado de Polvo, era um veleiro da classe lightning — barco de madeira de seis metros, sem motor e sem cabine.

Polvo, o primeiro

“O que mais me fascinava nesse estilo de vida era a liberdade para escolher quando e para onde iríamos navegar” Heloisa Schürmann

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Aprendemos uma coisa com os polinésios: quando avistamos uma ave branca lá em cima no céu, rodeando, é dourado que tem. Quando uma ave vai lá na frente, e as outras vão atrás, é atum que tem. São vários macetes. Revista: O que você acha da pesca esportiva? Vilfredo: A pesca esportiva é espetacular. Gosto de pescar merlin. É preciso devolver o peixe, pois ele está acabando. Temos que fazer como na Nova Zelândia: há períodos para a pesca, como tem com sardinha e camarão. Revista: Que mensagem você deixaria para os pescadores que saem em alto-mar? Vilfredo: Eu gostaria de deixar uma mensagem aos pescadores, no sentido de eles terem um pouco de cuidado ao saírem para o altomar. Quando saírem, mesmo com barco de alumínio, olhem a previsão do tempo. Não saiam se o céu estiver preto; não fiquem esperando com o pensamento: ‘Ah, vou pescar mais um pouquinho’, pois é aí que acontecem os acidentes. Usar salva-vidas, levar um rádio ou pescar até o alcance do celular são recomendações importantes para a segurança no mar. Foto: Divulgação

Entrevista Vilfredo Schürmann recebeu a equipe da Revista Pesca Brasil em seu escritório, numa tarde ensolarada de São Paulo: e haja verdades (genuínas) de pescador — e marinheiro — para contar. Viaje com trechos sobre pesca: Revista Pesca Brasil: Você se orgulha de ter pescado um dourado de 46 quilos. Como era a relação da sua família com o ato de pescar durante as viagens? Vilfredo Schürmann: Meu irmão é pescador nato. Eu comecei a pescar no rio Itajaí, no sul de Blumenau–SC. Saía pelo ribeirão da Velha — hoje é um esgoto — para pegar cará e jundiá. Já ouvisse falar de jundiá? É um tipo de cascudo, é pré-histórico, é como um tubarão. Em alguns lugares ainda é encontrado o jundiá. Com uma canoa de fundo chato íamos remando até chegar ao rio Itajaiaçu — que, para mim, era um grande oceano: 150 metros de largura. Íamos pela beirinha, subindo, até uma ilhinha, e então pegávamos uma vassoura, botávamos um lençol e tínhamos a vela. Em nossa viagem, no ano de 1985, me aconteceu algo muito forte, na ilha de Sant Blás - Panamá. Os meninos saíram comigo para uma caça submarina junto com um índio cuna: eu mergulhei, apanhei uma garoupa, o peixe vibrou, sangrou, e veio um tubarão. Os meninos subiram à superfície, eu já estava largando a arma quando o índio, em cima do tubarão, começou a soltar bolhas. E o tubarão foi embora. Perguntei ao índio: — É assim que a gente espanta o tubarão? Fiquei admirado.

Foto: Marcelo Uchoa

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Superstições de marinheiros — Extraído de: Em busca do sonho – Vinte anos de aventuras da Família Schürmann (Heloisa Schürmann), pg. 136 » Uma moeda colocada debaixo do mastro assegura viagens boas e tranqüilas (sim, nós temos uma moeda debaixo do mastro do Aysso!). » Jamais entre num barco com o pé esquerdo. » Jogar um pouco de vinho no deck antes de uma viagem longa é bom para apaziguar os deuses. O costume de batizar os barcos, quebrando uma garrafa de vinho na sua proa, vem dessa superstição. » Flores a bordo significam má sorte — só vão servir para fazer uma coroa fúnebre para alguém que vai morrer. » Ao contrário do que ocorre em terra, gato preto traz sorte. » Matar um albatroz é ruim. Acredita-se que ele seja a alma de um marinheiro morto no mar. » Mulher nua a bordo acalma o mar. Essa é a razão das estátuas de mulheres com seios à mostra na proa de alguns barcos. » Se você quer vento numa calmaria, assobie. Mas, se assobiar no deck quando já estiver ventando, trará tempestade.


O barco Aysso Compartimento de âncora

Cabine de casal Oficina Banheiro Cabines de tripulantes Mesa de navegação Salão principal Refrigerador Entrada principal Armário Cabine do computador Motor Cozinha Banheiro Beliche da Kat Camarote do capitão Paiol

FICHA TÉCNICA Comprimento: 55 pés Calado: 8 pés Boca: 16 pés Peso: 20 toneladas Área vélica: 160 m² Motor: 110 Hp Água: 2 mil litros Combustível: 850 litros de diesel Gás: 3 botijões Quilha: 5 toneladas de chumbo

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"A família que abraça o mundo"  

Matéria publicada na Revista Pesca Brasil 14, em dezembro de 2008. (Txt sem aplicação da Nova Ortografia) Era uma vez um sonho — o sonho d...