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´ do Brasil Raizes » Por: Janaína Quitério l Fotos: Luiz Tavares janaina@revistapescabrasil.com.br

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Os indígenas não se caracterizam como habitantes de um passado remoto, mas são nossos contemporâneos. Habitam o mesmo país, usam roupas, falam também a nossa língua, têm reivindicações e desfrutam da tecnologia. A Revista Pesca Brasil visitou duas aldeias indígenas — guarani e tupi-guarani —, no litoral sul de São Paulo, para mostrar que o universo cultural das comunidades indígenas e a sua relação com a natureza devem ser redescobertos, sem preconceitos ou idealizações

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A

notícia da construção do Porto Brasil — megaempreendimento proposto pela empresa LLX — no município de Peruíbe, litoral sul de São Paulo, inicialmente foi veiculada em uma coluna de revista, de forma quase lacônica: “O empresário Eike Batista está à frente de um dos maiores projetos de infra-estrutura do Brasil. Pretende construir uma ilha artificial e transformá-la em um porto remoto. (...) O único problema é que a conexão com a costa seria feita numa área hoje ocupada por índios” — [“O

terra — sem a qual sobreviria o desenraizamento do espaço no qual vivem, onde é encontrada a força de ancestrais e onde se cumpre o mito, efetiva-se o ritual e se estabelece o contato com a natureza e com Nhanderu (Deus). A Terra Indígena Piaçaguera é a última aldeia remanescente da baixada santista com acesso ao mar. São 3,5 quilômetros de praia, entre as cidades de Peruíbe e Itanhaém, onde ainda sobrevive a vegetação nativa de restinga. Está

Durante o ano de 2008, a empresa LLX propôs transferir os índios tupi-guaranis da aldeia Piaçaguera para a Fazenda Bargieri, em Itanhaém, com 400 alqueires de área preservada, rios, cachoeiras e 100 mil pés de palmito. Parte da comunidade, na época composta de 52 famílias, aceitou negociar. Outra parte decidiu resistir ao aliciamento. “Se não lutarmos pela terra, o que nossos filhos vão pensar?”, dizia o pajé daquela época ao veículo Folha Online [em 30/3/2008].

O Ministério Público Federal apurou que a Porto da Funai”, Revista Veja, ediSão reconhecidos aos índios empresa oferecia carros e ção 2013, 20 de julho de 2007]. sua organização social, quantias altas em dinheiro A repercussão foi costumes, línguas, crenças para tentar convencer os imediata e soou à altura nativos. Por isso, a área dos danos que poderia e tradições, e os direitos foi invadida por não-índios causar. O “único probleoriginários sobre as terras interessados na indenizama” era sisudo demais para se portar como um que tradicionalmente ocupam, ção; indígenas deixaram as plantações de lado; só. Tratava-se, em termos competindo à União demarcá- habitantes do litoral sul legais, de transgredir o artigo 231 da Constituição las, proteger e fazer respeitar passaram a lançar olhares oblíquos aos indígenas, Federal, que define: “São todos os seus bens” cujas terras protegidas se reconhecidos aos índios tornavam entraves ao sosua organização social, costumes, línguas, crenças e tradi- protegida por legislação ambiental nho de prosperidade. As especulações para a ções, e os direitos originários so- — por se tratar de área de preser- bre as terras que tradicionalmen- vação da Mata Atlântica — e foi construção do porto terminaram te ocupam, competindo à União identificada como Terra Indígena com o advento da crise econômidemarcá-las, proteger e fazer res- pela Funai (Fundação Nacional do ca, quando a empresa de Eike Bapeitar todos os seus bens”. Terras Índio) em 2002; hoje apenas aguar- tista retirou a proposta de investir que, de acordo com o parágrafo 4 da a homologação do Ministério da no empreendimento. Mas, as condo mesmo artigo, “são inalienáveis Justiça. Segundo Cristiano Hutter, seqüências para os tupi-guaranis e indisponíveis, e os direitos sobre chefe do Posto Indígena da Funai da aldeia Piaçaguera perduram: a em Peruíbe, essa área foi um dos herança deixada pelo rebuliço foi a elas, imprescritíveis”. Do ponto de vista cultural primeiros aldeiamentos indígenas divisão de uma comunidade outroe humano, a construção do Porto reconhecidos no Brasil e abriga um ra enraizada, que ainda hoje tenta Brasil seria uma violência contra valor histórico e antropológico in- juntar os caquinhos para recompor sua história. um recurso caro aos indígenas: a comensurável.

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Uma história de perseverança

no centro da aldeia. Edificado com barro e coberto por sapé, o traçado da casa é retangular, com o desenho da frente apontado para a direção do sol nascente. O chão batido fica aparente com a transposição de luz natural pela porta de acesso e pela apequenada e solitária janela.

Ao entrar na Casa de Reza (Opy — lê-se opã), a cacica tupiguarani, Dora Diná dos Santos Oliveira, faz os visitantes darem três voltas ao redor de seu interior. Por se tratar de um lugar sagrado, os problemas mundanos devem ser abandonados Opy = Casa de Reza fora da casa e, enquanto perfazem o círculo, indígenas e visitantes pedem proteção a Nhanderu (Deus). A Casa de Reza é a primeira construção de uma aldeia indígena. É o alicerce a partir do qual os índios acreditam que tudo vai se costurar: casa, escola, saneamento, projetos auto-sustentáveis etc. Foi justamente com a con — Nós construímos essa casa grande, que é o local onde sagração do local escolhido para a gente pede forças para que as a construção da Opy que os tupicoisas boas aconteçam — narra guaranis — que não concordavam a cacica, que está sentada no as- com a especulação do projeto de sento de tronco firmado de forma construção do Porto Brasil — funperpendicular à porta de entrada. daram uma nova aldeia na Terra A Opy não pode ser cons- Indígena Piaçaguera, em 24 de truída em qualquer lugar, somente agosto de 2008: a aldeia NhamanCrianças tupi-guaranis da aldeia Nhamandu Mirim dançam na Opy

du Mirim. São 15 famílias que ainda remontam a comunidade com a edificação de escola, posto de saúde e organização de projetos para implantação de saneamento e energia elétrica. — Nós mudamos para esse lado [a aldeia Nhamandu Mirim está do outro lado da rodovia Padre Manoel da Nóbre-

ga, que divide a Terra Indígena Piaçaguera]

com o objetivo de fortalecer nossa cultura e nossa tradição — arremata a cacica, que não gosta de se lembrar da divisão da comunidade tupi-guarani. Prefere olhar para frente e convocar os membros da aldeia para mostrar, com orgulho, as danças e as tradições.


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Indígenas da aldeia Nhamandu Mirim cantam. À direita, Cacica Cunhã Dju (Mulher Amarela)

Mulher Amarela

A cacica da recém-fundada aldeia Nhamandu Mirim, Dora Diná dos Santos Oliveira, também é batizada pelo nome indígena Cunhã Dju — ou Mulher Amarela — por ter nascido em 6 de maio, período de Quaresma, no qual a mata se enche de quaresmeiras com flores amarelas. Como ela, todos os membros das etnias guarani e tupi-guarani são batizados pelo pajé com nome indígena e com nome em português. Diz-se que o pajé sonha com qual nome a criança será batizada. Mas, o pajé guarani da aldeia Itaóca [leia em seguida], Camilo da Silva, não sonha: — A criança entra na Casa de Reza, e o Deus fala qual nome será dado. É a mesma coisa que falar no celular, mesma coisa — diz em segredo.

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Educação para a vida Logo após passar o Km 309 da rodovia Padre Manoel da Nóbrega, no município de Mongaguá, é só entrar à direita — sempre mirando a Mata Atlântica, em direção oposta ao mar. No fim da rua, após percorrer um longo caminho de terra, está localizada a aldeia Itaóca — comunidade indígena de 533 hectares onde vivem duas etnias: uma guarani e outra tupiguarani, cada qual com 11 famílias. Bem na entrada, avista-se a Escola Estadual Indígena Kuaray Oêá (Sol Nascente) — fundada em março de 2002. Com o propósito de ser um espaço diferenciado, a escola é voltada à educação bilíngüe e intercultural e busca valorizar o conhecimento tradicional, sem deixar de proporcionar meios para que a criança compreenda a

cultura do não-índio. As crianças de etnia tupiguarani freqüentam as aulas na parte da manhã. As crianças guarani, à tarde. Na manhã de fevereiro em que a equipe da Revista Pesca Brasil visitou a comunidade, os alunos das duas etnias dividiam a sala de aula porque a merendeira se ausentara para levar o filho ao médico. Do lado direito da lousa, a professora tupi-guarani Guacira Lemos da Silva — cujo nome indígena é Cunhã Potu Porã (Mulher Flor Bonita) — passa a tarefa em papel mimeografado para seus oito alunos da etnia tupi-guarani, com idade entre nove e 11 anos: “Eu estou empinando pipa na praia com o Israel. E a gente se diverti muito”, escreve na folha uma das crianças para o exercício de contar história. Do lado esquerdo, 15 crianças da etnia guarani assistem

à aula da professora tupi-guarani Edna Nunes Gonçalves (ou Cunhã Maragatu — Mulher Antiga), que explica a seus alunos a formação das palavras lha, lhe, lhi, lho, lhu. Os pequenos guaranis somente falam em português quando se dirigem à professora. Entre eles, expressam-se na língua guarani. “Você consegue compreender tudo o que eles dizem em guarani?” — pergunto curiosa. “Às vezes”, Edna confessa. A professora, grávida de oito meses, aguarda o nascimento do txerá’y (filho) Tiago Awa Verá (Homem-Relâmpago): — Meu filho será criado pela avó. Quero que ela só converse com ele em tupi-guarani. O português vem depois, porque a cobrança é grande: ‘você é indígena e não sabe falar a língua?’ é o principal questionamento a nós, índios — preocupa-se.

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Em busca da “Terra sem males” Na aldeia Itaóca, o povo guarani mora de um lado; o tupiguarani, de outro. Para chegar à área guarani, sobe-se um morro com casas de pau-a-pique em seu contorno, cobertas com teto de palha. Ladeando as casas, antenas de celular irradiam o único sinal para a comunicação com o mundo exterior. — Imagina um povo indígena que convive com os não-índios há mais de trezentos anos, que foram catequizados pelos jesuítas, mas ainda vivem de forma tradicional. As comunidades guaranis estão em dois mundos: falam pelo celular, mas na língua guarani; em algumas Casas de Reza há a cruz, como na Igreja Católica, mas está enfeitada com adereços indígenas — explica o chefe do Posto da Funai em Peruíbe, Cristiano Hutter, que acompanhou a equipe da Revista Pesca Brasil durante as visitas às comunidades indígenas. De acordo com Cristiano, os povos da etnia guarani são tradicionais com relação à religião e fundam suas aldeias de acordo com normas míticas que firmam a sua relação com a Mata Atlântica. Para os guaranis, o conceito de terra relaciona-se com a idéia de “Terra sem males” — um lugar que inclui a floresta e no qual haverá caça, pesca e paz para se viver com segurança e para a perpetuação da identidade guarani. Assim, a terra não é por eles concebida em sua acepção material, mas é necessária para que a etnia Pesca Brasil l 66

a fertilize cultural e espiritualmente, como designa Nhanderu (Deus). O pajé é o líder espiritual e orientador da comunidade. Ele ouve a palavra de Nhanderu. Na Casa de Reza, é ele quem cura a doença que o Juruá (em guarani, “boca com cabelo” — denominação dada aos barbudos portugueses na época da colonização, ainda empregada em referência ao não-índio) não remediou. Para o guarani, existem duas doenças: a do branco e a do índio, que é a doença espiritual. — A doença que o branco não está sabendo, o pajé sabe. Na Casa de Reza eu salvo muita gente, só rezando, só pedindo a Deus — explica o pajé Camilo da Silva (ou Karai Mirim = pequeno batizado) em falas concisas. Quando ele não entende uma pergunta feita, esboça um sorriso, dialoga na língua guarani com o cacique da aldeia e tenta tecer em português incipiente a conversa. — Quando precisa de remédio, aí traz do mato. Não precisa plantar. No mato tem. Algum tem pra tomar. Algum só pra lavar. Tem tudo — comunica-se. Na Casa de Reza, são feitas também reuniões. Todo dia à tardezinha o pajé conta histórias para as crianças. “Histórias para se viver”, explica. Como são escolhidos os pajés? “Pajé não vira. Ele nasce. Geralmente é aquele que está lá no canto, só olhando”, define o

Pajé guarani Camilo da Silva

Crianças guaranis


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A pele — como que pintada de brasil — dá espaço para adereços e pinturas geométricas em rituais e festividades. Os cabelos — lisos e soltos — emolduram os olhos desabrochados, escuros e levemente arqueados Pesca Brasil l 67


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Os artesanatos e seus símbolos

[Fonte: História da Aldeia Indígena Itaóca, por Vicente Bonachela e Marlene Cabral Bonachela]

Na comunidade tupi-guarani da aldeia Itaóca, Glória da Silva é a índia Tapinjá (Mulher da Tribo), responsável pela confecção do artesanato. Para não deixar perder a identidade cultural, ela começará em breve a realizar oficinas para ensinar às crianças tupiguaranis os segredos de confecção. Já na comunidade guarani — onde a identidade cultural está mais enraizada entre os membros — não é preciso organizar oficinas. As crianças aprendem sozinhas ou são ensinadas logo cedo pelos pais. Sob a sombra de uma palmeira — cujos frutos têm o gosto doce da pupunha —, os homens lapidam tatus em madeira; as mulheres produzem cestarias e colares. O artesanato é uma permanente reconstrução da tradição. É identidade e memória de um povo indígena. Conheça alguns significados existentes nas peças fabricadas por guaranis e tupi-guaranis.

Artesanato tupi-guarani em Itaóca

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Esculturas em madeira caixeta: as peças talhadas em madeira caixeta mantêm o poder sagrado do animal original. Exemplos: - Tatu (Tuguai ratã): transmite força para realizar tarefas diárias. - Tucano (Tukã reko): reforça a amizade, ajuda a pessoa a se aproximar dos verdadeiros amigos. - Papagaio (Parakau reko): ajuda a entender as pessoas. Colar (Mbó y reko): simboliza a pessoa e a relação que ela estabelece com Nhanderu (Deus). Serve para reforçar o espírito — que é memória, tudo que tem dentro de cada um de nós. Ajuda no dia-a-dia contra os malfeitores e também no trabalho. São feitos de semente, como as de lágrimas de Nossa Senhora (tapiá) e olho-de-boi. “É como se fosse o patuá do branco”, compara o agente indígena de saneamento, Marcos da Silva (ou Awá Tenondé = Homem de Frente).

Mulher guarani em Itaóca


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Estatísticas e projeções Na época do Descobrimento, estima-se que havia entre cinco e seis milhões de índios no Brasil. Hoje a Funai calcula a existência de 460 mil índios — ou 0,25% da população brasileira —, distribuídos em 225 sociedades indígenas, que contabilizam cerca de 180 línguas faladas por membros dessas sociedades [em 1500, eram 1300 línguas]. Preservar a língua e costumes de cada etnia remanescente é preservar o patrimônio cultural do país. Por isso, ser índio não é apenas ter características físicas próprias das sociedades pré-colombianas. É uma questão cultural, que exige das comunidades uma permanente defesa de suas tradições, de sua língua, da relação com o meio ambiente. Quando perguntada sobre o que é ser indígena hoje, a cacica da aldeia Nhamandu Mirim, Dora Diná dos Santos Oliveira (Cunhã Dju ou Mulher Amarela), não fica descorada: “Nós, indígenas, somos um povo paciente, levamos a vida à nossa maneira, com união. Tenho muito orgulho de ser índia. Meus filhos também, apesar da mistura com o branco”. Falta reconhecimento? “Sim, nós somos ainda muito

discriminados. As professoras estão fazendo um projeto contra o racismo. Por isso batalhamos por uma escola indígena diferenciada. Foi muita luta para as professoras se formarem. Nós queremos que nossos filhos e netos estudem dentro da aldeia”. Por que existe preconceito em sua opinião? “Isso já vem de muito tempo. Falam que índio só sabe beber e não gosta de trabalhar. Antes, nós vivíamos na mata, trabalhávamos em roça. Hoje alguns até falam que índio só vive pedindo esmola. Por isso estamos batalhando para conseguirmos recursos, para a nossa auto-sustentação”. A Funai é ó órgão responsável por promover a educação, saúde e assistência social às comunidades indígenas. “A função da Funai é proteger os povos indígenas. Proteger e promover coisas boas para que eles possam sobreviver. Mas desde que partam deles os anseios, sem influenciar na questão cultural”, explica Cristiano Hutter, que supervisiona 15 aldeias indígenas no litoral sul de São Paulo. Ele finaliza: “A Funai não é nada sem o índio, e o índio também não é nada sem um órgão que o apóie. E a Funai apoiará os projetos indígenas, desde que as comunidades estejam organizadas”. Indígena guarani gesta criança em seu ventre agasalhado de “Brasil”

"Vozes indígenas ainda ressoam"  

Reportagem publicada na Revista Pesca Brasil 18, em abril de 2009. (Txt sem aplicação da Nova Ortografia): Os indígenas não se caracterizam...