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Especial Ilhabela - Comunidades »Por: Janaina Quitério l Foto: Fernando de Santis janaina@revistapescabrasil.com.br

A praia onde o tempo parou Para chegar à praia do Bonete — no extremo sul de Ilhabela — são 15 quilômetros de trilha a partir da Ponta da Sepituba. Ou então, só por mar. Hoje, com cerca de 300 habitantes, a praia ainda abriga a descendência de histórias e lendas, formando uma maquete harmonicamente contornada por rusticidade, isolamento e ambiente preservado

S

entando numa cadeira de plástico encostada na janela de sua casa com reboco, o senhor mais velho da praia do Bonete descreve a vida da comunidade com um sotaque arrastado. A lembrança contínua faz os anos pararem no tempo, e o que revela a idade avançada de seu Gessi de Sousa é a pele curtida — pela maresia e por borrachudos. São 92 anos olhando para o mar, seja da janela de sua casa, seja pescando. — Agora eu sou a planta velha do lugar — sorri conformado, enquanto o cachimbo apagado sobre a estante fica à espera de um pito. É só bater palmas na frente do casinholo, fincado na pequena orla, que a simpatia de seu Gessi convida-o para escutar as histórias de piratas desbravadores. Há mais de 300 anos, três piratas lá chegaram e, hipnotizados pela beleza, levaram familiares e índios para construírem a comunidade. O bisavô de seu Gessi era o pirata português, Sebastião de Sousa. Com ele vieram um pirata dinamarquês, Rodrigues, e um polonês — o Lolô. Árvores chapéu-de-sol, jaqueiras, moinho, nome dos pesqueiros, tudo ainda sobrevive ao tempo. É herança dos piratas. — Bonete tem esse nome por causa dos bonés deles, minha avó é que me contava. Eles

levavam o mapa para a praia, e pegavam a estudá-lo. Aí, o capitão-pirata Sebastião de Sousa tirava seu chapéu, botava-o sobre o mapa e perguntava aos outros: ‘Como é o nome desse chapéu em português?’. ‘É boné’. Olhando para o morro, meu bisavô repetia: ‘É bonete’. Assim os piratas escreviam, assim ficou. Gessi de Sousa toda a vida foi pescador. Se colheita no mar não havia, colhia-se na plantação. O senhor mais velho do lugar reclama que hoje o peixe está se acabando. É pesca de toda qualidade, ele explica: — Naquele tempo se pegava peixe com redinha. Depois inventaram uma tal de traineira, inventaram o cerco e uma sonda para sair atrás do peixe — tudo

inventado pelos japoneses. Já tem até barco caçador de manjuba, que é comida de peixe. Seu Gessi não pesca mais, não porque não queira, mas porque um pino cravado na rótula do joelho esquerdo o faz ficar sentado. Quando a praia lota de veranistas, o coração dele se abre: — Pouca gente deixa a gente medroso, e o povo alegra a gente. Bonete tem muito mais histórias. É vila de pescadores. Tem a “Praça da Conversa Mole”, tem canoas construídas por moradores, tem rio que desemboca mais gracejo no mar, tem aconchego. Agora tem até gerador de energia elétrica. Está tudo lá, emoldurado pelo tempo. Pesca Brasil l 75

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"A praia onde o tempo parou"  

Matéria publicada na Revista Pesca Brasil 16, em fevereiro de 2009. (Txt sem aplicação da Nova Ortografia) Para chegar à praia do Bonete —...

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