Issuu on Google+

Saúde »Por: Janaína Quitério janaina@revistapescabrasil.com.br

A pesca embarcada em alto-mar pode oferecer emoções surpreendentes, desde que o pescador não padeça do “mal do movimento” — um problema de saúde associado às viagens. Nesta reportagem, a equipe da Revista Pesca Brasil ouviu especialistas e relatos de pescadores e tripulantes sobre procedimentos adequados e indicações relevantes para a pescaria tornar-se agradável — ou menos antipática — àqueles que sofrem de enjôo no mar

Pesca Brasil l 80

69-80.indd 1

17/09/2008 18:07:17


Foto: Flรกvio Ferrรฃo

Pesca Brasil l 81

68-81.indd 2

17/09/2008 18:07:42


Ilustração:Manoela Vieira

Saúde

Para não ficar enjoado “A alimentação copiosa no dia anterior determina uma digestão mais difícil e demorada, o que poderia facilitar o enjôo. O álcool é sabidamente um dos irritantes labirínticos, deixando o labirinto mais sensível ao conflito sensorial provocado pelo mar. Não se sabe muito bem o mecanismo fisiopatológico, mas a privação de sono no dia anterior à viagem também deixaria o labirinto mais sensível aos estímulos provocados pelo mar” — explica o médicoprofessor da Unifesp Fernando Ganança

Pesca Brasil l 82

67-82.indd 1

17/09/2008 17:52:18


S

idney Martini Ricco tem mais de meio século de histórias para contar sobre o desconforto que o mar é capaz de causar. Descendente de uma família de mergulhadores, desde pequeno procurava acompanhá-los, mas as tentativas eram dramáticas. Bastava entrar no mar para ser acometido inicialmente por dores de cabeça, seguidas de náuseas e vômitos. Sidney não conseguia cavalgar com o mar. Nem sobre ele, nem submerso. Desistiu. Durante a juventude, o esportista pescava na praia. Ele amava o mar. Tanto, que entrou para a Marinha, e não agüentou. Ainda assim, persistiu: tentou voltar a mergulhar, mas vomitava no snorkel, despedaçando as imagens de um ambiente permeado de cardumes, peixes diversos e mergulhadores ávidos por fotos. Em Cananéia (litoral sul de São Paulo), Sidney pescava nos canais, pois, em águas protegidas, é mais fácil encontrar um mar de rosas — tranqüilo e com menos balanço. Durante muitos anos pescou dessa forma, mesmo sabendo que o mar está para peixe, sobretudo em águas desabrigadas. Ele tinha consciência de que era ele quem não estava para o mar. Mal comum

Foto:Flávio Ferrão

A cinetose — também chamada de enjôo do movimento — é o problema de saúde mais comum associado às viagens em diferentes meios de transporte (aéreo, terrestre e aquático), além de ser provocado por brinquedos que incitem conflitos sensoriais como gira-gira e balança, e em atrações de parques de diversão, como o carrossel, roda-gigante, montanha-russa etc. Em embarcações marítimas, o desconforto não é nada extraordinário. O tréc pra lá e tréc pra cá provocado pela inclinação do barco chega a estragar a pescaria de todos os companheiros. O barqueiro Reginaldo, do barco Liberdade III — oferecido em Bertioga - SP para pesca em alto-mar, passeios e mergulhos —, conta que já presenciou situações nas quais o enjoado se propõe a pagar todas as despesas para que a turma toda volte à terra firme ou pelo menos até o canal. Segundo ele, essa situação costuma ser mais comum no inverno, quando o mar está mais balançado, em comparação com o período de verão, no qual é possível se deparar com o “marde-almirante” — bem calmo. O professor-adjunto e chefe do Ambulatório

de Otoneurologia da Unifesp, Dr. Fernando Ganança, explica que há famílias nas quais todos podem apresentar pré-disposição para enjoar no barco e outras em que apenas alguns membros enjoam. Ou seja, a cinetose não é uma doença de caráter genético. E quais seriam os motivos para que algumas pessoas enjoem e outras não? “Existe uma suscetibilidade que varia de indivíduo para indivíduo. Ou seja, algumas pessoas são mais sensíveis que outras aos estímulos provocados pelo mar”, responde o professor. Em geral, o desconforto torna-se mais perceptível quando o barco fica à deriva. Além disso, o enjôo pode ser mais forte dependendo do balanço do mar e do tipo de embarcação: num barco alto, o balanço é mais lento e constante. Já num barco baixo, o balanço é mais repicado, o que pode provocar um desconforto menor. Muitas pessoas também enjoam com o cheiro do diesel da embarcação. É o caso do pescador Antônio Carlos de Deus Melo — Totó —, que tampa o nariz e começa a respirar pela boca quando o barco fica em marcha lenta. Em algumas ocasiões, ele leva uma máscara para evitar o odor do combustível. Se você ou seu companheiro de pesca começar a mudar de cor, alguns dos seguintes sintomas já se instalaram no organismo: mal-estar, sudorese, palidez, desconforto físico, prostração, cefaléia, tontura e vômitos. Em casos mais intensos, o Dr. Fernando Ganança relata que podem surgir complicações mais graves como desequilíbrio, incoordenação, hipotensão arterial, desidratação, inação, depressão e até enfraquecimento severo.

Reginaldo — barqueiro do Liberdade III — já presenciou várias situações nas quais quem enjoa pede para voltar à terra

Pesca Brasil l 83

83-98.indd 2

17/09/2008 15:17:17


Saúde Causo de um ex-enjoado O pescador Sidney Martini Ricco já havia tentado de tudo para se livrar do desconforto no mar: “Quando surgiu no Brasil o band-aid que se coloca atrás da orelha, eu tentei. Depois vieram as pulseiras orientais. Tentei também. Usei de outras técnicas, como fitinhas para serem colocadas na cabeça, que pressionam a região frontal, além de diferentes drogas. E nada”, exaspera-se. Ao todo, foram três tentativas de reconciliação com o balanço largo do mar. Até que um gerente de marina lhe garantiu que nunca mais enjoaria. Bastava tomar algumas providências. — Impossível! Eu não vou embarcar para estragar mais uma pescaria de companheiros — duvidou o pescador, para quem a previsão do gerente de marina era por demais otimista, própria de alguém que está sempre brincando e incentivando os pescadores da região. O conselho era simples: no dia anterior, não jante. Ou jante pouco, consumindo coisas leves; Durma o período normal de horas; Tome meio Dramin® à noite e meio Dramin® pela manhã; De forma alguma faça ingestão de leite ou de seus derivados, não tome café, e vá para o barco em jejum; Durante o dia, leve para o barco somente bolacha de água e sal e água. Sidney seguiu as orientações dadas. E pela primeira vez não passou mal. “Pelo contrário, o dia foi perfeito. Para mim, foi uma luz incrível, porque eu podia ter os companheiros de volta, podia ir para o mar, sem desconfortos”, desabafa. Desse dia em diante, o pescador nunca mais passou mal nas embarcações. Quinze anos depois, seu perfil em alto-mar mudou tanto que costuma abusar um pouco mais: flexibilizou as orientações quando já está dentro do barco, mas segue de forma literal os procedimentos antes de embarcar. O caso singular revela questões relevantes,

Sidney Martini Ricco exibe as pescadas fisgadas em alto mar

diante das quais é possível associar alimentação e comportamentos do dia anterior com a cinetose. “A alimentação copiosa no dia anterior determina uma digestão mais difícil e demorada, o que poderia facilitar o enjôo. O álcool é sabidamente um dos irritantes labirínticos, deixando o labirinto mais sensível ao conflito sensorial provocado pelo mar. Não se sabe muito bem o mecanismo fisiopatológico, mas a privação de sono no dia anterior à viagem também deixaria o labirinto mais sensível aos estímulos provocados pelo mar”, defende o médico-professor da Unifesp Fernando Ganança. Coincidência ou não, os dois companheiros de Sidney também não enjoam mais. Antônio Carlos de Deus Melo — Totó — é um deles. Durante anos ele persistiu no mar. Alguma vez pensou em desistir de pescar em alto-mar? “Nunca. Vale a pena continuar. E graças a esse valer a pena é que hoje me sinto melhor”, enfatiza.

Foto:Flávio Ferrão

Equipe da Revista Pesca Brasil acompannha pescaria em mar lago

84-97.indd 1

19/09/2008 10:12:09


Estímulos aos pescadores Quando alguém começa a passar mal dentro do barco o barqueiro Reginaldo — do Liberdade III — orienta a deitar no beliche. Nunca autoriza a pessoa a pular no mar, por questões de segurança. O ideal é tentar agir tão logo os sintomas se instalem, procurando olhar para o horizonte, hidratar-se e, se optar por deitar, não levantar de súbito para voltar à diversão. Os pescadores Sidney e Totó contribuem com mais dicas: “Os pescadores deveriam prestar atenção na postura ao sentarem-se. Muitas vezes, quando se está em barco alto, joga-se a linha no mar e o pescador fica olhando para baixo, o que muda o foco da visão.

Prestar atenção no local onde se coloca a tralha também pode ajudar. O ideal é já levar tudo preparado para o barco para evitar fazer tricotagem durante a embarcação. Outra dica importante é com o asseio, pois as iscas naturais, como sardinha e camarão, exalam um cheiro forte. Levar balde de água e pano para limpar as mãos pode diminuir os desconfortos”. Dicas e exemplos são importantes, sobretudo para o pescador perseverar na pesca embarcada em alto-mar. Ainda mais porque o enjôo de movimento tem tratamento. O especialista é quem está apto a avaliar a melhor opção terapêutica e indicar outras formas, inclusive “nem tanto ao mar, nem tanto à terra”.

Opções da Medicina Oriental A medicina tradicional chinesa há milênios utiliza o ponto Nei-kuan — associado a uma área do cérebro relacionada com enjôo, náusea, vômitos e dores de cabeça. De acordo com Carlos Maurício Prado, é prática comum no oriente a própria pessoa pressionar esse ponto até obter alívio. Aqui no Brasil, é a pulsei-

ra antienjôo que pressiona o ponto Nei-kuan. Usada em par — um no braço direito (Yin) e outra no braço esquerdo (Yang), de acordo com o Tai-chi —, a pulseira leva dez minutos para fazer efeito, correspondendo ao caminho que os sinais nervosos fazem por meio da linha do meridiano até atingir a área do cérebro com a qual está interligado.

Foto:Isaias Baptista

Totó em mar largo, quando ainda enjoava

Pesca Brasil l 85

85-96.indd 2

17/09/2008 15:09:25


Saúde ENTREVISTA

O prof. Dr. Fernando Ganança, chefe do Ambulatório de Otoneurologia da Unifesp e professor colaborador do Programa de Reabilitação Vestibular e Inclusão Social da Uniban, explica as causas da cinetose e os tratamentos disponíveis para evitar o enjôo no mar

Pescadores relatam que é fatal para enjoarem mexer em suas tralhas, trançar anzol ou em outras atividades nas quais fixam o olhar em determinados pontos. Qual seria a explicação para isso? Dr. Fernando: Isso acontece porque, enquanto o labirinto está detectando toda a movimentação do mar, os olhos estão atentos na atividade realizada, sem acompanhar os movimentos sentidos pelo labirinto. Isto gera um conflito sensorial visuo-vestibular. Corresponde ao mesmo conflito sensorial que ocorre quando lemos algum livro durante um passeio ou viagem de carro numa estrada cheia de curvas. Seria aconselhável indicar para os pescadores movimentarem-se no barco a fim de não enjoarem? Dr. Fernando: Não, isso não adiantaria muito. O melhor é posicionar-se na parte central da embarcação, onde balança menos, e olhar para fora dela, na direção do horizonte, acompanhando os movimentos do barco. Muitos pescadores não tomam a medicação Dramin® porque, segundo eles, ficam com muito sono. Entretanto, procuram outras drogas (existem várias no mercado). Qual o risco da automedicação? Dr. Fernando: Todos os medicamentos antivertiginosos e/ou antieméticos podem apresentar eventos adversos e contra-indicações, devendo ser prescritos pelo médico.

Qual o melhor momento para procurar um especialista? Dr. Fernando: Quando o paciente já sabe que tem cinetose e vai realizar uma viagem ou se expor a alguma situação que envolva estes conflitos visuovestibulares. O “enjôo do mar” tem tratamento específico, além de prevenção (medicamentosa ou não)? Dr. Fernando: Sim, enjôo do mar tem tratamento específico, além de prevenção, que funcionam muito bem e podem “salvar” uma viagem ou passeio. Por exemplo, os exercícios de reabilitação vestibular (aprendidos no consultório médico e realizados em casa) são constituídos pos exercícios específicos de olhos, cabeça e corpo, realizados como um treinamento para estimularem a capacidade de adaptação dos sistemas envolvidos com o equilíbrio corporal em manter esta função, especialmente quando submetidos a situações de conflito sensorial visuo-vestibular. É verdade que uma pessoa pode melhorar do malestar se pular na água em alto-mar? Dr. Fernando: Desconheço esta informação e acho perigoso estimular tal atitude, pois, se o paciente já está tonto, com enjôo e mal-estar e, ainda, pular na água, poderá se afogar.

SERVIÇOS •Barco para pescaria em alto-mar Liberdade III Saídas de Bertioga – SP Tel.: (13) 3317-7000 (13) 9779-1709 – com Milton E-mail: fretes@liberdade3.com.br Site: www.liberdade3.com.br

Pulseira antienjôo O par custa R$ 49 Tel.: 0800 701 8858 Site: www.energiazen.com.br

Pesca Brasil l 86

86-95.indd 1

17/09/2008 15:15:21


"Enjoados"