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[ mulher ]

ousar

Sem medo de Por: Janaína Quitério l Fotos: ARQUIVO PESSOAL l Arte: Paula bizacho

O que impulsiona uma mulher a se desfazer de protocolos habituais para trilhar o caminho do inexplorado? Loucura? Paixão? Oportunidade? Traçamos o perfil de uma entusiasta de ecoaventuras para entender essa questão

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e cair em suas mãos um guia de autoajuda, você não escapará de pelo menos cinco conselhos básicos para enfrentar as adversidades diárias: arrisque-se; amplie seus conhecimentos com a prática; use a criatividade para quebrar a rotina; livre-se do stress por meio dos esportes e tenha hobbies compartilhados. A receita está dada, mas onde encontrar os instrumentos necessários ao seu preparo? Para as mulheres que gostam de aliar esportes à natureza, a “roda” já está inventada: basta sair para pescar em um caiaque — modalidade que, apesar de recente no Brasil, arrasta grande número de seguidores e simpatizantes, mas ainda com raras praticantes. A estudante de medicina Gabriela da Silveira Moraes é uma delas. Pescadora esportiva faz cinco anos, há três descobriu, junto com o namorado, a pesca com caiaque: “Como ele é fanático

por pescaria, sempre procura algo novo em fóruns na internet. De repente, surgiu com a ideia de comprar dois caiaques. Em seguida, chegaram dois amarelos em sua casa!”, exclama. Nunca haviam se aventurado com isso antes, tampouco sabiam a melhor maneira de usá-los para as fisgadas. Arriscaram-se, portanto. As aventuras iniciais eram exploratórias em alto-mar: remavam para verificar a estabilidade e acertavam os acessórios para ficarem mais confortáveis. Adaptados, resolveram pescar. Nas primeiras incursões não fisgaram nada. Levou um tempo para notarem que os peixes ficavam mais ativos quando próximos de praias e de estruturas, não em mar aberto. Com insistência, pesquisa e curiosidade, foram se aperfeiçoando na modalidade. Aprenderam na prática. “Pelo menos uma vez a cada 15 dias levávamos o caiaque para a praia e, em seis meses, já pegávamos mais peixes”, felicita-se. Do mar para pescar em rios foi apenas um passo.

Foto: josé Salgado filho

Nos primeiros passos com o fly, Gabriela fisga uma Traíra

Acima, a pescadora-remadora em São Vicente, litoral de SP. Abaixo, com o namorado, Arnaldo, no Rio de Janeiro

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Experiência no Araguaia A pesca esportiva era uma espécie de “carta de amor” entre Gabriela e o namorado, pois selava o encontro espaçado pela residência afastada. Assim, a cada aventura juntos, a paixão pelo esporte se aquecia. De acompanhante, a estudante se transformou em entusiasta. Tem o próprio equipamento, monta a sua vara, procura aprender sobre o trabalho das iscas e está aberta a novas modalidades. É a melhor parceira do namorado. A viagem mais especial, para ela, foi ao Araguaia. É que lá pulsa vida, capaz de ser sentida de forma contígua pelo caiaque. “Eu via os peixões passando, além de jacaré e tartaruguinha”, admira-se [na próxima edição, traremos todos os detalhes dessa viagem. Aguarde!]. Nas incursões com caiaque no Araguaia, orgulha-se de fisgar um Palmito [acima] e Tucunaré

Vantagens de pescar com caiaque

“Com certeza é a locomoção, pois ele transita em lugares com apenas 40 centímetros de profundidade”, explica. Além disso, o contato com a natureza é muito maior. Isso porque, diferentemente dos caiaques fabricados para remar com velocidade, o de pesca é feito para rumar devagar, apenas ao som dos pássaros e do fluir das águas. Assim, cada cena pode ser contemplada em seus múltiplos detalhes. Cabe tudo em seu curto espaço? “Levo óculos, protetor, canga, iscas, alicate, kit para anzol e até uma âncora é transportada no caiaque de meu namorado”, enumera. Outro grande diferencial é a estabilidade. Gabriela garante que até já ficou em pé no caiaque, sem que ele virasse nesses três anos. Mas, alerta: “É só tomar cuidado com as ondas”.

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O perfil do desassombro A primeira coisa capaz de nos travar quando avistamos uma perspectiva nova é o medo — sentimento desagradável que cultivamos em relação a situações das mais simples às mais profundas do cotidiano. Mas desafiá-lo é romper as ondas em direção aos mares de oportunidades. É por isso que o temor de Tubarões, sentido pela pescadora-remadora Gabriela desde a infância, fica para segundo plano quando rema sobre a água salgada. A cada viagem era agregada uma inventividade: empolgaram-se em pegar onda com o caiaque, apesar de nunca terem presenciado essa prática, e insistiram com um barqueiro para essa embarcação ser rebocada por uma traineira até o mar alto. Sem rotina, entusiasmam-se sempre a organizar novas jornadas.

Com o namorado, ajuda a pôr o caiaque na água, durante o Encontro de pesca com caiaque, em Caraguatatuba-SP


[ mulher ] No Araguaia, a diversidade de peixes faz a aventura ficar mais especial. Acompanhe as incursões na próxima edição. Na foto, Gabriela exibe uma Corvina

Mini-perfil

Paulistana de 23 anos, Gabriela Moraes é apaixonada por natureza desde pequena. Gosta de pescar espécimes de muita ação, de preferência com isca artificial. Na viagem ao Araguaia, mudou de opinião sobre o “caráter” do peixe Aruanã: “Quando eu via essa espécie em um tanque de uma loja de pesca, não ia com a cara dela, porque parecia meio má. Aí, quando meu namorado a fisgou, percebi que era um peixe bonzinho, diferente da Espada, que já sai mordendo da água loucamente”, compara. O que falta na pesca esportiva para o público feminino? Segundo ela, vara voltada às mulheres e roupas com corte feminino e acinturado. Agora, planeja com o companheiro a viagem dos sonhos: pesca com caiaque nas Ilhas Fiji. “É um ecossistema lindo cheio de peixes enormes. Quando conseguir pescar lá, vou ficar orgulhosa de mim”.

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"Sem medo de ousar"  

Matéria sobre pesca feminina publicada na Revista Ecoaventura 13, em outubro de 2010: O que impulsiona uma mulher a se desfazer de protocolo...

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