Page 1

Fanzine bimensal da Academia Cabense de Letras

EDIÇÃO DE LANÇAMENTO - Abril de 2012

Editorial

“A

poesia não se entrega a quem a define”. Com essa afirmação o poeta Mário Quintana nos salva do racionalismo anti-humano que insiste em nos enquadrar em uma objetividade que fragmenta e aprisiona o ser humano em conceitos inquestionáveis. Felizmente a poesia nunca abandona as mãos calejadas de quem lapida o cotidiano para fazer seguir a jornada que alimenta a própria existência da humanidade. O que pode a poesia diante de uma realidade social tão complexa e muitas vezes tão difícil de ser vivida? Basta dizer que a poesia faz valer o que há de mais humano em cada um de nós e resgata as emoções e sentimentos mais próprios da condição de ser pessoa, ou ainda é pouco? Basta afirmar que a poesia é uma via possível na realização da necessária parceria entre ética e estética para o embelezamento do mundo, ou ainda é insuficiente? É necessário dizer que a poesia coloca o humano dentro de um mundo que sofre pela ausência do humano? Precisamos recorrer ao poeta Fernando Pessoa quando, ao mesmo tempo, interroga e questiona: “Onde é que há gente no mundo?”, em seu “Poema em Linha Reta”? É preciso lembrar que a poesia faz valer a nossa subjetividade e grita aos quatro cantos: “Nós não somos pedras”? Pois é, caros leitores, está em suas mãos a edição de lançamento do fanzine da Academia Cabense de Letras, o primeiro de muitos que virão. Esperamos que a leitura desse “Café com Letras” alimente a alma e a subjetividade de cada pessoa e faça valer o que há de mais humano em cada um de nós. Nelino Azevedo Presidente da Academia Cabense de Letras

A IDENTIDADE QUE SE VAI Douglas Menezes

Q

uando Tune saiu de casa pela última vez para se tornar estrela, lá longe no infinito, não ia embora ali, apenas um pedaço de mim, mas uma parte de humano do Cabo de Santo Agostinho se despedia. Mesmo na dor, observei as janelas das casas antigas acenando lenços brancos, no coro triste do adeus. Era meu pai partindo e os humildes, esses que fazem a verdadeira história do mundo, homenageando-o, como fazendo justiça a quem contribuiu, no dia-a-dia, com a cidade que o acolheu. Lembro de um bêbado no velório, chorando muito, pedindo para meu pai não ir embora.

ELEGIA ÀS COISAS QUE FAÇO Natanael Lima Jr (sobre tema de Mário Quintana) no poema que me traço ameaço e abraço torturo e afago às vezes me faço místico e às vezes me faço louco às vezes me faço coisas restos migalhas lembranças às vezes as coisas fazem renascem brotam ressurgem no poema que me traço eternamente me busco passo a passo frente a frente lentamente no poema que me traço todas as coisas um dia existirão

A PEDRA Celina de Holanda Nesta mesa

ENCONTRO NA PRIMAVERA* Jairo Lima

REALIDADE Vera Rocha

Deu-nos o destino a primavera Banhando-nos com flores perfumadas Quando o ninho do pássaro se fizera E copulam as espécies apaixonadas

Na esquina do pensamento, Parei na tua rua. E era uma encruzilhada de ideias.

Deu-nos a primavera nosso encontro Em dia festivo dos infantes Tudo até parece estava pronto Éramos sem saber já bons amantes Dar-nos-á esse encontro a certeza Das quatro estações por toda vida No verão teu suor, tua beleza No outono tua alma mais sentida Do inverno, aquecidos com proezas Retornamos à primavera tão querida

O edifício das recordações Povoado de andares emocionais Mostrava o funeral dos sonhos sonhados. O véu das ilusões despencou, O quociente despiu-se E o universo da realidade Se me apresentou de forma espantosa. O brilho quase opaco parecia As brasas quase em cinzas se tornavam, E uma rajada de tristeza me atingiu Deixando-me perplexa, muda e fria.

* Do livro ANTÍDOTO – Poemas em defesa da autoestima e outras prescrições

o povo está sentado. Não divaga. Tudo o de que necessita é perto e urgente. Frio e direto, toma a pedra que sou e quebra. Vai construir o mundo.

Recordo, então, que ali, naquele momento, há vinte anos, começava a morrer uma identidade humana da cidade de Santo Agostinho. E o tempo encarregou-se de confirmar que a partir daquele instante, aos meus olhos, a cidade mudava. Uma geração notável de cabenses desaparecia, lentamente. Eram figuras importantes, não somente por razões econômicas ou culturais, mas por serem o cheiro do Cabo, o próprio ar da cidade, confundiam-se com a flora e a fauna e as casas desta terra, fossem ricos ou pobres. E se foram como Tune do cartório. Onde estão agora? Como disse o poeta Manuel Bandeira: “dormem profundamente, profundamente”. Talvez habitem fantasmas, as ruas velhas da cidade, zelando por elas.

Celina de Holanda é patrona da ACL

Caminho no domingo chuvoso pelas artérias centenárias, o silêncio da manhã preguiçosa diz tudo. Eu ando ao lado deles. Em mim, a identidade que se foi permanece. Já o sol a pino de um dia comum. Sou exilado em minha terra. Não conheço ninguém e ninguém me conhece. O Cabo é de todos, que vêm de todos os lugares. Hoje, na cidade de Santo Agostinho, com certeza, a maioria me olha e não me vê.


Pág. 2 FELICIDADE Nelino Azevedo

UMA CANÇÃO PARA O DEPOIS Tereza Helena Soares

BARROQUILHAS* Ivan Marinho

A felicidade existe É arte Trela de criança Nota solta que voa e faz a dança Fronteira aberta pelo riso da esperança A felicidade sobrevoa as cidades E busca os desvalidos Acalma os ofendidos Ocupa os resignados Conforta os de dor embriagados Deita no colo dos desconfortados Abriga os oprimidos

Queria saber cantar uma canção doce, capaz de fazer cair as capas mais grotescas do ego Como ficaria depois a face desses vaga-mundos, que demoram e não se arrependem? Essa canção precisaria ir nos labirintos escuros do profundo, quanto mais à tona, menos transmutação...

Nas madrugadas insones Sinto o tropel de chegada, Sem ordem, desarrumadas, De palavras, letras, nomes.

Quem ficaria para fazer coro com os anjos dessa canção? Quem seria esse vocal que iria fazer adormecer a ira dos infelizes? Essa canção precisaria de toques suaves de flautas bastantes para elevar almas embriagadas de luxúria... talvez harpas fossem necessárias nessa canção, quem sabe não resgataria a dimensão anjo perdida?

Balançam, saltam, deslocam Sem ritmo ou direção E da inquietação Algo parece que evocam.

A felicidade não se estampa em neon Não se reveste nas fitas palacianas E não se olha nas vitrines da bonança A felicidade está no chão onde caminham os pés E entra pelos poros como o sal na água E se entranha na carne, no coração, na alma E ocupa todos os campos físicos E se exala nos espaços metafísicos E extrapola os limites do onírico E se denuncia real A felicidade nunca bate a porta Pois já ocupa as salas e os porões Precisa apenas que cada um se descortine E se enxergue nessa grande história lida Que é o ato chamado vida.

Então se cruza o ensejo Com o anseio ancestral, Nivelando ao animal O instintivo desejo. E preterindo o futuro, Faz da noite a luz do dia E a esfera, por magia, Amolece o papel duro. Pois o papel do poeta É deixar claro o escuro.

Que canção seria essa com instrumentos suficientes para torná-la perfeita em sua função de redenção? Seria o cântico dos pássaros que agonizam no ar carbonizado? Seria o tilintar solitário dos indianos a tocar cartalas? Seria o som da zampona dos andarilhos cordilheiros?

Todas de tanto maduras Encontram-se a se encaixar, Como que a despertar Do sonho que se inaugura.

Seria o congo dos chineses? Seriam os ventos uivantes das tormentas anunciando a destruição? Seriam os sons mântricos dos monges budistas? Seria a voz interior cantando a bem-aventurança perdida?

MENSAGEIRA DAS VIOLETAS (para Florbela Espanca) Antonino Oliveira Júnior

Seria o uivo do lobo na floresta queimada? Seria a quinta trombeta anunciando o apocalipse? Seria o silvo dos discos voadores que farão o arrebatamento? Seria o próprio silêncio das pedras? Como seria essa canção???

* Este poema venceu o Festival Jaci Bezerra de Poesias do Centro de Estudos Superiores de Maceió em 2007.

Ó construtora de versos e rimas, Flor bela que espalha lirismo E espanca meu ser com poesias, Conquista-me Com a força de tuas palavras, Envolve-me com teus mistérios E desbrava os sertões Dos tempos que me separam de ti. Estendo mãos e coração para além-mar, Na espera inconseqüente De encontrar-te em ventos, em chuva, Em raios que doiram tua imagem, Para alcançar-te, quem sabe, Na esperança vã de te impedir o gesto Que te levou como corpo E te deixou em forma de versos... E não és, sequer, a razão do meu viver... Ó, construtora de versos e rimas, Flor bela que espalha lirismo E espanca meu ser com lirismo!

Eventos literários

     

IX Bienal Internacional do Livro do Ceará (9 a 18 de abril) Bienal do Livro de Minas (18 a 27 de maio) VII Feira Nacional do Livro de Poços de Caldas (28 de abril a 6 de maio) Feira do Livro de Joinville (12 a 22 de abril) Festa Literária Internacional de Paraty – FLIP (4 a 8 de julho) Feira Literária Internacional de Tocantins – FLIT (25 de julho a 3 de agosto)  Festa Literária do Jaboatão dos Guararapes – FLIGUARA (Setembro/2012)

Blogs dos Acadêmicos

Produção Nelino Azevedo

Diagramação Wilson Firmo

Coordenação Jairo Lima

Revisão Douglas Menezes

Tiragem 20 mil exemplares

    

http://www.domingocompoesia.blogspot.com/ - Natanael Júnior http://drjoaosavio.blogspot.com/ - João Sávio http://antoninojr.blogspot.com/ - Antonino Júnior http://fredericomenezes.blogspot.com.br/ - Frederico Menezes http://arte-pos-contemporanea.blogspot.com.br/ - Ivan Marinho

FANZINE DA ACADEMIA CABENSE DE LETRAS  

FANZINE DA ACADEMIA CABENSE DE LETRAS

Read more
Read more
Similar to
Popular now
Just for you