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Índice

1. Introdução e Estabelecendo a Meta Certa..............................................................................05 2. Começando Corretamente......................................................................................................12 3. Continuando Apropriadamente...............................................................................................23 4. Igrejas nos Lares.......................................................................................................................29 5. O Crescimento da Igreja...........................................................................................................45 6. O Ministério de Ensino.............................................................................................................51 7. Interpretação Bíblica................................................................................................................67 8. O Sermão do Monte.................................................................................................................81 9. O Pregador Predileto de Jesus................................................................................................104 10. O Novo Nascimento..............................................................................................................108 11. O Batismo no Espírito Santo..................................................................................................113 12. Mulheres no Ministério.........................................................................................................122 13. Divórcio e Recasamento........................................................................................................131 14. Fundamentos da Fé...............................................................................................................144 15. Cura Divina.............................................................................................................................151 16. O Ministério de Cura de Jesus................................................................................................158 17. Os Dons do Espírito................................................................................................................165 18. Os Dons Ministeriais...............................................................................................................173 19. Realidades em Cristo..............................................................................................................185 20. Louvor e Adoração..................................................................................................................188 21. A Família Cristã........................................................................................................................191 22. Como ser Guiado Pelo Espírito................................................................................................197 23. As Ordenanças.........................................................................................................................201 24. Confrontação, Perdão e Reconciliação....................................................................................204 2


25. A Disciplina do Senhor.............................................................................................................212 26. O Jejum....................................................................................................................................215 27. A Vida Ap贸s a Morte................................................................................................................219 28. O Plano Eterno de Deus...........................................................................................................227 29. O Arrebatamento e o Fim dos Tempos....................................................................................233 30. Mitos Modernos Sobre Batalhas Espirituais: Parte 1...............................................................252 31. Mitos Modernos Sobre Batalhas Espirituais: Parte 2...............................................................276 32. Mordomia.................................................................................................................................301 33. Segredos do Evangelismo.........................................................................................................310

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O Ministro, Fazendo Discípulos Princípios Bíblicos para Frutificação e Multiplicação David S. Servant

Introdução Nos últimos vinte e cinco anos, tenho tido o privilégio de visitar mais de quarenta nações do mundo e a falar a milhares de ministros em conferências que duram de três a cinco dias. Essas conferências tem atraído e reunido líderes cristãos dedicados oriundos de vários ramos e denominações do corpo de Cristo. Contudo, cada viagem tem provado que conferências de três a cinco dias simplesmente não são suficientes para atender e resolver as necessidades existentes no terreno. Tanta coisa precisa ainda ser feita para que líderes cristãos sejam adequadamente equipados e este livro é fruto de esforços feitos na tentativa de preencher um pouco mais esse vazio. e este livro é uma das tentativas de se preencher um pouco esse vazio. Também tive o privilégio de experimentar cerca de vinte anos de pastoreio de igrejas. Mesmo sendo “bem sucedido” por alguns padrões de medida, por muito tempo encontrei- -me em luta por não entender alguns dos princípios fundamentais do ministério bíblico. Por esta razão tenho uma grande preocupação pelos milhões de ministros sinceros que sentem falta do que eu senti e que precisam ser melhores equipados para o desafio que está adiante deles. Alguns dos princípios dos quais me faltavam entendimento são tão significantes que, uma vez compreendidos traçam o curso de ministério para o resto da vida do ministro. Eles se tornam o padrão pelo qual todos os aspectos do ministério são medidos. Esses princípios são encontrados nos capítulos iniciais, para os quais, nenhum leitor deverá fazer vista grossa; todos os outros capítulos servirão para praticamente nada sem a base dos primeiros. Este livro tem uma aplicação especial a para pastores, sendo que eles, com certeza, são os líderes cristãos mais comuns; mas tudo que eu tenho escrito também se aplica a evangelistas, professores, missionários, plantadores de igrejas, profetas, pessoas que trabalham na Escola Dominical e assim por diante. Não há ninguém no corpo de Cristo que não poderá se beneficiar com a leitura deste livro, porque todo membro do corpo de Cristo tem sido agraciado por Deus com uma função. Eu tenho escrito primeiramente a ministros que moram fora dos Estados Unidos, do leste da Europa, Austrália e Nova Zelândia. Mas isso não quer dizer que não tenha aplicação a ministros nessas partes do mundo. Na verdade, o que tenho escrito, penso que pode ajudá-los consideravelmente, mas eles já têm vários professores. De qualquer modo, dependendo do conhecimento, experiência e nação onde atua, você verá que alguns capítulos o ajudarão mais do que outros. Vários pastores chineses, cubanos e vietnamitas de igrejas nos lares, por exemplo, encontrarão no capítulo Igrejas nos Lares muito pouco que não sabiam, enquanto pastores não familiarizados com o modelo de igreja nos lares deverão achar nesse capítulo uma grande ajuda. É muito improvável que todos os leitores irão concordar com tudo que tenho escrito em cada tópico do livro. Há cinco anos, eu também não teria concordado com algumas coisas que acabei de escrever! Portanto, não deixe que pequenos desentendimentos impeçam-no de aprender o máximo de cada capítulo. Como Jesus nos ensinou, ninguém põe vinho novo em odre velho, senão, a vasilha dura e inflexível, arrebentará. Somente os odres novos são flexíveis o suficiente para aguentar a pressão do vinho novo que está fermentando. Apesar de algumas coisas que tenho escrito parecer vinho novo, na verdade, já são vinho bem velho — pelo menos tão velho quanto o Novo Testamento. Portanto, qualquer odre velho que arrebentar não se dará por causa do vinho derramado das páginas a seguir! Jesus alegrou-se por Deus revelar Sua Verdade aos pequeninos e escondê-la “dos sábios e cultos” (Mt. 4


11:25). Da mesma forma, “Deus dá graça ao humilde, mas se opõe ao orgulhoso” (veja Tg. 4:6). Graças a Deus pelas multidões de líderes cristãos humildes por todo o mundo. Que Deus os abençoe enquanto leem. David Servant

Capítulo Um

Estabelecendo a Meta Certa Para ser bem sucedido aos olhos de Deus, é essencial que o ministro conheça de cor a meta que Deus colocou diante de si. Se ele não a conhece não terá como avaliar seu desempenho e saber se a alcançou ou fracassou.[1] Ele pode chegar a pensar que foi bem sucedido enquanto que realidade fracassou. E essa é uma grande tragédia. É como aquele atleta que vinha liderando a prova e que alegremente atravessa a faixa de chegada depois de ter concluído os 800 metros da corrida. Jubilando em sua vitória, levanta as mãos diante da plateia, sem dar conta que a competição tinha como meta final os 1600 metros. Seu entendimento distorcido sobre a meta condenou-o ao fracasso, e pensar que tinha ganhado assegurou sua derrota. Nesse caso, é verdadeiro o ditado popular: “Os primeiros serão os últimos”. A maioria dos ministros tem algum tipo de alvo específico ao qual sempre se referem como sua “visão.” É pelo qual que lutam sem igual para alcançar, baseado especificamente em seu chamado e dons. O dom e o chamado de cada um são particulares, seja para pastorear uma igreja em certa cidade, evangelizar certa região, ou ensinar certas verdades. Mas o alvo dado por Deus ao qual estou me referindo é geral e aplicado a todos os ministros. É a grande visão. Por trás de cada visão específica deveria estar a visão geral, mas na maioria das vezes não está é o que acontece. Muitos ministros têm visões específicas que não estão em harmonia com a visão geral de Deus, e ainda outros têm visões específicas que vão contra a visão de Deus. Eu com certeza já fiz isso uma vez, mesmo pastoreando uma igreja em crescimento. Qual é a visão ou objetivo geral que Deus tem dado a todos os ministros? Nós começamos a encontrar a resposta em Mateus 28:18-20, uma passagem que nos é tão familiar que à vezes deixamos escapar seu significado. Vamos considerar versículo por versículo: Então, Jesus aproximou-se deles e disse: “Foi-me dada toda a autoridade nos céus e na terra” (Mt 28:18). Jesus queria que seus discípulos entendessem que Seu Pai tinha lhe dado autoridade suprema. É claro que a intenção do Pai era (e é) que Jesus fosse obedecido, como acontece sempre que o Pai dá autoridade a alguém. Mas Jesus é único, pois Seu Pai lhe deu toda autoridade nos céus e na terra, e não uma autoridade limitada, como a que às vezes dá a outros. Jesus é Senhor. Desta forma, qualquer pessoa que não se refere a Jesus como Senhor não está se referindo a Ele corretamente. Jesus, mais que qualquer outra coisa, é Senhor. É por esse motivo que é mencionado como “Senhor” mais de 600 vezes no Novo Testamento. (Ele só é mencionado como Salvador 15 vezes.) Jesus morreu e voltou à vida com o propósito de reinar como Senhor sobre a humanidade.

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Verdadeira Fé que conduz a Salvação Quando pastores e evangelistas modernos convidam os descrentes para “aceitarem Jesus como Salvador,” (uma frase e conceito nunca encontrados nas Escrituras), revelam uma falha aguda em seu entendimento do evangelho. Quando o carcereiro de Filipo, por exemplo, perguntou a Paulo o que precisava fazer para ser salvo, Paulo não respondeu “Aceite Jesus como seu Salvador.” Contudo, ele disse, “Creia no Senhor Jesus, e serás salvo” (Atos 16:31, ênfase adicionada). As pessoas são salvas quando crê no Senhor Jesus Cristo. Perceba, não são salvos por crerem em uma doutrina sobre a salvação ou sobre Jesus, mas quando creem em uma pessoa — o Senhor Jesus Cristo. Esse é o tipo de fé que gera salvação. Muitos pensam que por acreditar que a morte de Jesus foi um sacrifício suficiente por seus pecados, ou que salvação é pela fé, ou centenas de outras coisas sobre Jesus ou a salvação, é o suficiente para serem salvos. Isso não basta porque, até o diabo as conhece. Ele acredita em todas essas coisas sobre Jesus e a salvação. A fé salvadora consiste na fé em Jesus. E quem é Ele? Ele é o Senhor. Obviamente, se acredito que Jesus é Senhor, vou agir perante Ele como tal, me submetendo a Ele de coração. Se não me submeto a Ele, não acredito nEle. Se alguém diz: “Eu acredito que há uma serpente mortalmente venenosa em minha bota,” e então, calmamente calça a bota, ele obviamente não acredita realmente no que diz acreditar. Pessoas que dizem acreditar em Jesus, mas não têm se arrependido de seus pecados e se submetido a Ele em seus corações, na realidade, não acreditam em Jesus. Podem acreditar em um Jesus imaginário, mas não no Senhor Jesus, aquele que tem toda a autoridade nos céus e na terra. Tudo isso é para dizer que quando o entendimento do ministro sobre as verdades fundamentais da mensagem cristã estiver distorcida esse ministro ver-se-á metido em problemas logo desde o começo. Não tem jeito de ter sucesso na avaliação de Deus enquanto apresenta erroneamente a mensagem fundamental que Deus quer que todo o mundo ouça. Ele pode ser o pastor de uma igreja em crescimento, mas está fracassando miseravelmente em alcançar a visão geral de Deus para seu ministério.

A Grande Visão Vamos voltar a Mateus 28:18-19. Depois de declarar Sua supremacia como Senhor, Jesus deu um mandamento: Portanto, vão e façam discípulos de todas as nações, batizando-os em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo, ensinando-os a obedecer tudo o que eu lhes ordenei (Mt. 28:19-20a). Perceba que Jesus usa a palavra “portanto.” Ele disse, “Portanto, vão e façam discípulos...” Isso para dizer, “Por causa do que eu acabei de falar... porque Eu tenho toda autoridade... porque Eu sou Senhor... vocês devem, é claro, obedecer-Me... então estou ordenando vocês (e vocês devem Me obedecer) a ir e fazer discípulos, ensinando-lhes a obedecer todos os Meus mandamentos. E isto, colocado do jeito simples, é o objetivo geral, a visão geral de Deus para todos os nossos ministérios: Nossa responsabilidade é fazer discípulos que obedeçam a todos os mandamentos de Cristo. É por isso que Paulo diz que a graça de Deus tinha sido dada a ele como apóstolo para “trazer obediência de fé entre os gentios” (Rm. 1:5, ênfase adicionada). O objetivo era obediência; o meio para levar a obediência era a fé. Pessoas que têm uma fé genuína no Senhor Jesus obedecem a seus mandamentos. É por isso que Pedro pregou no dia de Pentecoste, “Portanto, que todo o Israel fique certo disto: Este Jesus a quem vocês crucificaram, Deus o fez Senhor e Cristo” (At. 2:36). Pedro queria que os crucificadores de Jesus soubessem que Deus tinha feito Jesus Senhor e Cristo. Eles haviam crucificado aquele a quem Deus queria que obedecessem! Sob grande convicção, eles perguntaram, “Que 6


faremos?” e Pedro respondeu antes de qualquer outra coisa, “Arrependam-se”! Quer dizer, passem da desobediência para a obediência. Façam Jesus, Senhor. Depois Pedro disse-lhes para serem batizados, como Cristo ordenou. Pedro estava fazendo discípulos — seguidores obedientes de Cristo — e estava começando da maneira certa com a mensagem certa. Desta forma, todo ministro deve ser capaz de avaliar seu sucesso. Todos nós devemos nos perguntar, “Será que Meu ministério está levando pessoas a se tornarem obedientes a todos os mandamentos de Cristo?” Se estiver, estamos realmente obtendo sucesso. Se não, estamos fracassando. O evangelista que só convence pessoas a “aceitar Jesus,” sem dizer a elas para se arrependerem de seus pecados, está fracassando. O pastor, que está tentando construir uma grande congregação por manter os membros felizes e por organizar muitas atividades sociais, está fracassando. O professor, que só ensina o último “vento de doutrina” carismático, está fracassando. O apóstolo, que planta igrejas que consistem de pessoas que dizem acreditar em Jesus, mas não o obedecem, está fracassando. O profeta, que profetiza só para dizer às pessoas sobre as bênçãos que consequentemente virão, está fracassando.

Meu Fracasso Há alguns anos atrás, quando pastoreava uma igreja em crescimento, o Espírito Santo fez-me uma pergunta que abriu meus olhos para ver o quão longe eu estava de eficientemente desempenhar meu papel no cumprimento da visão geral de Deus. O Espírito Santo fez-me as seguintes perguntas, enquanto eu lia sobre o futuro julgamento das ovelhas e bodes descrito em Mateus 25:31-46: “Se todos na sua congregação morressem hoje e comparecessem ao julgamento de ovelhas e bodes, quantos seriam ovelhas e quantos seriam bodes?” Ou mais especificamente, “No último ano, quantas pessoas da sua congregação têm dado comida aos irmãos em Cristo que têm fome, água aos cristãos que têm sede, abrigo aos viajantes seguidores de Cristo, roupas aos cristãos nus, ou visitado um crente doente ou preso?” Percebi que pouquíssimos tinham feito qualquer uma dessas atividades, ou qualquer outra coisa, mesmo aqueles que vinham a igreja, cantavam musicas de louvor, escutavam aos meus sermões e davam ofertas. Então, eles eram bodes, pelo critério de Cristo, e eu tinha pelo menos parte da culpa, porque não estava lhes ensinando quão importante era para Deus que ajudássemos nossos irmãos em Cristo em suas dificuldades. Eu não lhes estava os ensinando a obedecer todos os mandamentos de Cristo. Aliás, percebi que estava negligenciando o que era extremamente importante para Deus — o segundo maior mandamento, ame a teu próximo como a si mesmo — sem mencionar o novo mandamento que Jesus nos deu de amar uns aos outros como Ele nos amou. Além disso, finalmente percebi que estava, na verdade, ensinando contra o objetivo geral de Deus de fazer discípulos, enquanto ensinava uma modesta visão do popular “Evangelho da Prosperidade” à minha congregação. Mesmo sendo da vontade de Deus que seu povo não acumule tesouros na terra (veja Mt. 6:19-24) e que sejam satisfeitos com o que têm, mesmo que seja só comida e roupas (veja Hb. 13:5 e I Tm. 6:7-8), estava ensinando a minha rica congregação americana que Deus queria que eles possuíssem mais. Eu estava ensinando meu povo a não obedecer a Jesus em um ponto (assim como centenas de outros pastores ao redor do mundo). Uma vez que percebi o que estava fazendo, me arrependi e pedi à minha congregação que me perdoasse. Comecei a tentar fazer discípulos, ensinando-os a obedecer a todos os mandamentos de Cristo. Eu fiz isso com temor e tremor, receando que alguns em minha congregação realmente não quisessem obedecer a todos os mandamentos de Cristo, preferindo um cristianismo que, convenientemente, não requeresse sacrifício algum da parte deles. E estava certo. De fato, vários não ligavam para os crentes que estavam sofrendo pelo mundo. Eles não queriam se incomodar em espalhar o Evangelho àqueles que nunca haviam ouvido. Pelo contrário, só queriam conseguir mais para si mesmos. A respeito da santidade, só evitavam os pecados mais escandalosos, pecados que eram condenados até pelos incrédulos, e viviam comparáveis aos americanos conservadores 7


medianos. Mas, de fato, eles não amavam ao Senhor, pois não queriam guardar os mandamentos de Jesus, exatamente o ponto que Ele disse que iria provar o nosso amor por Ele (veja Jo.14:21). O que eu temia provou ser verdade — alguns cristãos assumidos eram, na verdade, bodes vestidos de ovelhas. Quando os chamei para negarem a si mesmos e levarem sua cruz, alguns ficaram com raiva. Para eles, a igreja era primeiramente uma experiência social acompanhada de boa música, exatamente o que o mundo aproveita em clubes e bares. Toleravam um pouco de pregação desde que afirmasse sua salvação e o amor de Deus por eles. Mas não queriam ouvir sobre o que Deus requeria deles. Não queriam que ninguém questionasse sua salvação e estavam indispostos a ajustar suas vidas para viverem em conformidade com a vontade de Deus se isso lhes custasse alguma coisa. Obviamente, eles estavam dispostos a dar um pouco do seu dinheiro, desde que pudessem ser convencidos que Deus os daria mais em troca e desde que se beneficiassem diretamente do que deram, como quando o dinheiro deles melhorava o ambiente da igreja.

Tempo para Auto - Avaliação Este seria um bom tempo para todos os ministros que estão lendo este livro se perguntarem a mesma coisa que o Espírito Santo me perguntou: “Se as pessoas para as quais ministro morressem agora e comparecessem ao julgamento das ovelhas e bodes, quantas seriam ovelhas e quantas seriam bodes? “Quando ministros asseguram às pessoas de sua congregação que agem como bodes, que elas são salvas, estão falando exatamente o contrário do que Deus quer seja dito. Esse ministro está trabalhando contra Cristo. Está falando o oposto do que Jesus quer que seja dito a essas pessoas de acordo com o que Ele disse em Mateus 25:31-46. Jesus disse isso para avisarmos aos bodes, pois não quer que pensem que estão indo para o céu. Jesus disse que todo homem saberia que somos seus discípulos pelo amor que temos uns pelos outros (veja Jo. 13:35). Com certeza Ele deve ter falado do amor que excede o amor que os incrédulos mostram pelos outros; caso contrário, seus seguidores não poderiam ser distinguidos dos ímpios. O tipo de amor que Jesus falou é um amor que se sacrifica, quando nós nos amamos como Ele nos amou, dando nossa vida pelos outros (veja Jo. 13:34 e 3:16-20). João também escreve que sabemos que passamos da morte para a vida, ou seja, renascemos, quando amamos uns aos outros (1 Jo. 3:14). As pessoas que reclamam, falam mal e odeiam ministros que ensinam os mandamentos de Deus estão mostrando que o amor é a marca dos renascidos? Não, eles são bodes no caminho do inferno.

Discípulos de Todas as Nações Antes de continuarmos, vamos dar mais uma olhada em Mateus 28:19-20, a Grande e Geral Comissão que Jesus deu a seus discípulos, para ver se podemos encontrar mais algumas verdades. Portanto, vão e façam discípulos de todas as nações, batizando-os em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo, ensinando-os a obedecer tudo o que eu lhes ordenei (Mt. 28:19-20a). Note que, Jesus quer que discípulos sejam feitos em todas as nações; ou, colocado mais corretamente de acordo com o grego original, todos os grupos étnicos do mundo. Se Jesus mandou, sou levado a acreditar que é possível. Nós podemos fazer discípulos de Jesus em todos os grupos étnicos do mundo. A tarefa não foi dada somente aos primeiros onze discípulos, mas para cada discípulo depois deles, porque Jesus disse aos onze para ensinar seus discípulos a observar tudo que Ele tinha-lhes ordenado. Portanto, os primeiros onze ensinaram seus discípulos a obedecerem aos mandamentos de Cristo, de fazer discípulos de todas as nações, e esse seria um mandamento perpétuo para todo discípulo subsequente. Todos os discípulos de Jesus precisam estar envolvidos de alguma maneira no discipulado das nações. Isso explica, em parte, porque a “Grande Comissão” ainda não foi cumprida. Mesmo existindo milhões de cristãos assumidos, o número de discípulos dedicados a obedecer a Jesus é muito menor. A 8


maioria dos cristãos assumidos não liga para discípulos sendo feitos em todos os grupos étnicos, porque simplesmente não são dedicados a obedecer aos mandamentos de Cristo. Quando o assunto é levantado, muitas vezes usam desculpas do tipo: “Esse não é o meu ministério,” e “Eu não me sinto direcionado para esse caminho”. Vários pastores mencionam essas frases, assim como os bodes que escolhem quais mandamentos de Cristo valem à pena encaixar em suas agendas. Se cada cristão assumido realmente acreditasse no Senhor Jesus Cristo, em pouco tempo todos no mundo iriam ouvir o Evangelho. O compromisso coletivo dos discípulos de Jesus faria isso acontecer. Eles parariam de gastar todo seu tempo e dinheiro em coisas mundanas e passageiras e começariam a usá-los para cumprir a ordem do Senhor. No entanto, quando pastores anunciam que um missionário estará falando em certo culto, ele pode esperar que, na maioria das vezes, o número de frequentadores do culto irá cair. Muitos bodes ficarão em casa ou irão a outro lugar. Não estão interessados em obedecer ao último mandamento do Senhor Jesus Cristo. As ovelhas, por outro lado, sempre comparecem animadas com a perspectiva de serem envolvidas no ministério de fazer discípulos de todas as nações. Um último destaque em Mateus 28:18-20: Jesus também disse aos Seus discípulos para batizarem seus discípulos, e os apóstolos fielmente obedeceram a esse mandamento. Eles imediatamente batizaram aqueles que se arrependeram e acreditaram no Senhor Jesus. O batismo, é claro, representa a identificação do crente com a morte de Cristo, sepultamento e ressurreição. Novos crentes têm morrido e ressuscitado como novas criaturas em Cristo. Essa verdade Jesus queria dramatizada no batismo de cada novo convertido, imprimindo em sua mente que ele agora é uma nova pessoa, com uma nova natureza. Ele é um em espírito com Cristo, e agora está autorizado por Cristo, que vive nele, a obedecer a Deus. Estava morto em seus pecados, mas agora foi lavado e ressuscitado pelo Espírito Santo. Ele é mais que “somente perdoado.” Ele foi radicalmente transformado. Então, Deus está indicando mais uma vez que verdadeiros crentes são pessoas diferentes que agem muito mais diferente do que agiam quando estavam espiritualmente mortos. Isso também está implícito nas palavras finais de Jesus: “E eu estarei sempre com vocês, até o fim dos tempos” (Mt. 28:20). Não é lógico pensar que a presença contínua de Cristo nas pessoas afetaria seus comportamentos?

Jesus Define o Discipulado Já estabelecemos que o objetivo primordial de Jesus para nós é que façamos discípulos, quer dizer, pessoas que se arrependeram de seus pecados e estão aprendendo a obedecer aos Seus mandamentos. Mais tarde, Jesus definiu em João 8:32 o que é um discípulo: Se vocês permanecerem firmes na minha Palavra, verdadeiramente serão meus discípulos. E conhecerão a verdade e a verdade vos libertará. De acordo com Jesus, verdadeiros discípulos são aqueles que vivem a Sua Palavra e nela fazem morada. Enquanto aprendem a verdade em Sua palavra, são progressivamente “libertos,” e mais tarde o contexto indica que Jesus estava falando sobre ser liberto do pecado (veja Jo. 8:34-36). Então, vemos mais uma vez que, pela definição de Jesus, discípulos estão aprendendo e obedecendo a seus mandamentos. Mais tarde Jesus disse, Meu Pai é glorificado pelo fato de vocês darem muito fruto, então prove para serem Meus discípulos (Jo. 15:8 ênfase adicionada). Portanto, pela definição de Jesus, discípulos glorificam a Deus dando fruto. Aqueles que não dão fruto não provam serem Seus discípulos. Jesus definiu mais especificamente o tipo de fruto que identifica seus verdadeiros discípulos em Lucas 14:25-33. Vamos começar lendo somente o versículo 25: Uma grande multidão ia acompanhando Jesus; este se voltando para ela disse… 9


Jesus estava satisfeito porque uma grande multidão o estava “seguindo”? Ele tinha alcançado seu objetivo agora que teve sucesso em ganhar uma grande congregação? Não, Jesus não estava satisfeito porque uma grande multidão o estivesse seguindo, ouvindo os seus sermões, vendo seus milagres e, às vezes, comendo Sua comida. Jesus procura pessoas que amam a Deus de todo o coração, mente, alma e força. Ele quer pessoas que obedeçam aos Seus mandamentos. Ele quer discípulos. Por isso disse àquela multidão que estava com Ele: Se alguém vem a mim e ama o seu pai, sua mãe, sua mulher, seus filhos, seus irmãos e irmãs, e até sua própria vida mais do que a mim, não pode ser meu discípulo (Lc. 14:26). Não há erro: Jesus apresentou o custo/requisitos para uma pessoa ser Seu discípulo. Mas Seus discípulos precisam mesmo odiar essas pessoas as quem iriam naturalmente amar mais? Isso parece improvável, já que as Escrituras nos mandam honrar nossos pais e amar nossas esposas e filhos. Jesus devia estar usando uma hipérbole, isto é, exagerando para dar ênfase. Mesmo assim, o mínimo que Ele quis dizer é: Se nós quisermos ser Seus discípulos, precisamos amá-Lo acima de tudo, muito mais do que as pessoas a quem naturalmente amamos muito. A expectativa de Jesus com certeza é razoável já que Ele é Deus, a quem nós devemos amar com todo coração, mente, alma e força. Não esqueça — a tarefa dada aos ministros é fazer discípulos, o que significa que precisam produzir pessoas que amem a Jesus como Ser supremo, que O amem muito, muito mais do que amam seus cônjuges, filhos e pais. Seria bom para cada ministro que esteja lendo isso se perguntar, “Estou obtendo sucesso em produzir pessoas assim?” Como sabemos se alguém ama a Jesus? Jesus nos disse em João 14:21: “Quem tem os meus mandamentos e lhes obedece, esse é o que me ama.” Então, com certeza, é razoável concluir que, pessoas que amam Jesus mais do que seus cônjuges, filhos e pais também são pessoas que guardam Seus mandamentos. Discípulos de Jesus obedecem aos Seus mandamentos.

Uma Segunda Condição Naquele mesmo dia, Jesus continuou falando à multidão que estava indo com Ele dizendo: E aquele que não carrega sua cruz e não Me segue não pode ser Meu discípulo (Lc. 14:27). Esta é a segunda condição que Jesus impõe para alguém ser Seu discípulo. O que Ele quis dizer? Os discípulos são literalmente obrigados a carregar grandes pedaços de tora com eles? Não, Jesus estava novamente usando uma figura de linguagem. A maioria, se não todas, as pessoas da plateia judaica de Jesus teria presenciado criminosos condenados morrendo em cruzes. Os romanos crucificavam os criminosos nas estradas do lado de fora dos portões da cidade, para maximizar o efeito da crucificação como meio de desencorajar o crime. Por esse motivo, suspeito que a frase, “carregar sua cruz” era uma expressão comum nos dias de Jesus. Todas as pessoas que eram crucificadas ouviam um soldado romano dizer, “Pegue sua cruz e siga-me.” Essas eram as palavras que os condenados temiam, já que sabiam que marcava o começo de horas e dias de horrível agonia. Então, uma frase como essa pode ter facilmente se tornado uma expressão comum que significava, “Aceite a dificuldade inevitável que está se aproximando.” Imagine pais dizendo aos seus filhos, “Filho, eu sei que você odeia esvaziar a latrina. É um trabalho sujo e fedorento. Mas é a sua responsabilidade uma vez por mês, então pegue a sua cruz. Vá esvaziar a latrina.” Eu imagino esposas dizendo a seus maridos, “Meu bem, eu sei o quanto você odeia pagar impostos aos romanos, mas os nossos impostos vencem hoje e o cobrador de impostos está subindo a nossa rua agora. Então pegue a sua cruz. Vá pagar o homem.” Levar a sua cruz é sinônimo de negação de si mesmo, e Jesus usou isso naquele sentido em Mateus 16:24: “Se alguém quiser acompanhar-me, negue-se a si mesmo, tome a sua cruz e siga-me.” Poderia ser modernizado, “Se alguém quer vir após Mim, ponha de lado sua agenda, abrace a dificuldade inevitável que vem como consequência desta decisão, e siga-Me.” 10


Verdadeiros discípulos estão dispostos a sofrer por seguirem a Jesus. Eles já calcularam quanto vai custar antes de começarem, e sabendo que as dificuldades são inevitáveis, lançaram-se com determinação para terminar a corrida. Essa interpretação tem como suporte o que Jesus disse a seguir sobre calcular o custo de segui-Lo. Duas ilustrações demonstram esse ponto: Qual de vocês, se quiser construir uma torre, primeiro não se assenta e calcula o preço, para ver se tem dinheiro suficiente para completá-la? Pois, se lançar o alicerce e não for capaz de terminá-la, todos os que a virem rirão dele, dizendo: “Este homem começou a construir e não foi capaz de terminar”. Ou, qual é o rei, que pretendendo sair à guerra contra outro rei, primeiro não se assenta e pensa se com dez mil homens é capaz de enfrentar aquele que vem contra ele com vinte mil? Se não for capaz, enviará uma delegação, enquanto o outro ainda está longe, e pedirá um acordo de paz (Lc. 14:28-32). O que Jesus quis falar não pode ficar mais claro: “Se você quer ser Meu discípulo, calcule o preço antes; para que não aconteça que venhas a desistir quando a viajem começar a ficar difícil. Verdadeiros discípulos aceitam as dificuldades que vêm como um resultado de Me seguir.”

Uma Terceira Condição Naquele mesmo dia, Jesus listou mais uma condição de discípulo para a multidão: Da mesma forma, qualquer de vocês que não renunciar a tudo o que possui não poderá ser meu discípulo (Lc. 14:33). Novamente, parece lógico concluir que Jesus está usando outra hipérbole. Não precisamos nos livrar de todas as nossas posses no sentido de ficar sem abrigo, roupas e comida. Contudo, precisamos renunciar todas as nossas posses no sentido de entregá-las a Deus, e de chegar ao ponto em que não estejamos mais servindo às riquezas, mas sim a Deus com nossas riquezas. O resultado certamente poderá ser abrir mão de várias coisas desnecessárias e viver uma vida simples e santificada, quer seja administrando ou compartilhando os bens, assim como os primeiros cristãos sobre quem lemos no livro de Atos. Ser discípulo de Jesus significa obedecer aos Seus mandamentos, e ordenou a Seus seguidores que não acumulassem tesouros na terra, mas os acumulassem no céu. Resumindo, de acordo com Jesus, se eu for ser Seu discípulo, preciso dar fruto. Preciso amá-Lo acima de tudo, muito mais do que a minha própria família. Devo estar disposto a encarar as dificuldades inevitáveis que surgirão como resultado da minha decisão de segui-Lo. É preciso fazer o que Ele ordenar com meu sustento e posses. (Vários de Seus mandamentos falam algo sobre isso; então, não devo me enganar, como muitos fazem, dizendo: “Se o Senhor me mandasse fazer algo com todas as minhas posses, eu o faria.”) E estes são o tipo de os seguidores comprometidos de Cristo que nós, como ministros, precisamos formar! Este é o nosso alvo dado por Deus! Somos chamados para ser ministros formadores de discípulos! Essa é uma verdade fundamental que está faltando por completo a muitos ministros ao redor do mundo. Se avaliarem seus ministérios, como eu fiz, terão que concluir, como eu conclui, que não estão satisfazendo o desejo e expectativas expectações de Deus. Quando levei em consideração o nível de submissão a Cristo demonstrado pelas pessoas de minha congregação, não tive dúvida que muitos não poderiam ser classificados como verdadeiros discípulos. Pastores deem uma olhada em sua congregação. Quantos do seu povo, Jesus considera Seus discípulos de acordo com Seu critério em Lucas 14:26-33? Evangelistas, a mensagem que vocês pregam está produzindo pessoas que se submetem a obedecer a todos os mandamentos de Cristo? Agora é a hora oportuna de avaliar nossos ministérios, antes de nos apresentarmos diante de Jesus na avaliação final. Se eu estiver fracassando em alcançar o objetivo dEle, prefiro descobrir aqui e agora a descobrir lá. Você não?

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Um Último Pensamento Preocupante Obviamente, Jesus quer que pessoas tornem-se Seus discípulos, como revelado em Sua Palavra à multidão em Lucas 14:26-33. Então, qual é a importância de se tornar seu discípulo? E se alguém optar não se tornar Seu discípulo? Jesus respondeu a essas perguntas no fechamento de seu discurso em Lucas 14. Portanto, o sal é bom, mas se ele perder o sabor, como restaurá-lo? Não serve nem para o solo nem para adubo; é jogado fora. “Aquele que tem ouvidos para ouvir ouça” (Lc. 14:34-35 traduzido da versão em inglês New American Standard Bible). Note que essa declaração não está fora do contexto. Ela começa com portanto. O sal deve ser salgado. É isso que o faz sal. Se ele perder o sabor, não serve para nada e é “jogado fora”. O que isso tem a ver com ser discípulo? Da mesma forma como se espera que o sal seja salgado, assim Jesus espera que as pessoas se tornem Seus discípulos. Sendo Ele Deus, a nossa obrigação meramente razoável é amá-Lo acima de tudo e levar nossas cruzes. Se não nos tornarmos seus discípulos, rejeitamos Sua razão para a nossa existência. Nós não somos bons para coisa alguma e somos destinados a sermos “jogados fora.” Esse não parece o céu, parece? Em outro momento, Jesus disse aos Seus discípulos (veja Mt. 5:13): Vocês são o sal da terra. Mas se o sal perder o seu sabor, como restaurá-lo? Não servirá para nada, exceto para ser jogado fora e pisado pelos homens (Mt. 5:13). Estes realmente são avisos preocupantes. Primeiro, somente aqueles que são salgados (uma metáfora óbvia para “submetidos à obediência”) têm algum uso para Deus. O resto “não serve para nada... exceto para ser jogado fora e pisado.” Segundo, deve ser possível para alguém “salgado” tornar-se “sem gosto”, caso contrário, Jesus não teria achado necessidade de avisar aos Seus discípulos. Como estas verdades contradizem o que muitos ensinam hoje, dizendo que alguém pode ser um crente destinado ao céu, mas não ser um discípulo de Cristo, ou que alguém não pode perder sua posição de salvo. Iremos considerar essas ideias errôneas mais detalhadamente nos próximos capítulos.

[1] 1 Neste livro, me refiro a ministros usando o pronome masculino, simplesmente para manter a consistência, e porque a maioria dos ministros vocacionais, como pastores, são homens. Mas fui convencido pelas Escrituras que Deus também chama mulheres para o ministério vocacional, e conheço algumas com ministérios bem efetivos. Este é o tópico do capítulo intitulado, Mulheres no Ministério.

Capítulo Dois

Começando Corretamente Biblicamente falando, um discípulo é um crente sincero no Senhor Jesus Cristo. É alguém que pela Sua Palavra, não mais segue o curso deste mundo como consequência de ter sido liberto do pecado. Discípulo é alguém que vive aprendendo a obedecer a todos os mandamentos de Cristo, alguém que ama a Jesus mais que sua própria família, seu próprio conforto e suas propriedades, e manifesta esse amor através de seu estilo de vida. Os verdadeiros discípulos de Jesus amam uns aos 12


outros e demonstram esse amor de maneiras práticas. Eles dão fruto. [1] Esses são os tipos de pessoas que Jesus quer. Obviamente, aqueles que não são Seus discípulos não podem fazer discípulos para Ele. Portanto, primeiramente precisamos ter certeza em nós mesmos de que somos Seus discípulos antes de tentarmos fazer discípulos para Ele. Muitos ministros, quando medidos pela definição bíblica de discípulo, reprovam. Não há esperança que esses ministros façam discípulos, e de fato, nem tentarão. Eles não se dedicaram suficientemente a Jesus Cristo para suportar as dificuldades que acompanham o processo de fazer verdadeiros discípulos. Deste ponto em diante, vou assumir que os discípulos que continuarem lendo são verdadeiros discípulos do Senhor Jesus Cristo, completamente comprometidos em obedecer aos Seus mandamentos. Se você não é, não faz sentido ler mais adiante até que faça o compromisso necessário para se tornar um verdadeiro discípulo. Não espere mais! Caia de joelhos e arrependa-se! Pela Sua maravilhosa graça, Deus lhe perdoará e lhe fará uma nova criatura em Cristo!

Redefinindo Discipulado Mesmo tendo Jesus deixado bem claro sobre quem é discípulo, muitos têm trocado Sua definição por outras interpretações irrelevantes. Por exemplo, para alguns a palavra discípulo é um termo vago que se aplica a qualquer um que confessa ser cristão. Aqui, a palavra discípulo é separada de todo seu contexto bíblico. Outros consideram discipulado um segundo passo opcional de compromisso para crentes que estão certos que vão para o céu. Eles acreditam que alguém pode ser um crente em Jesus apto para entrar no céu mesmo sem ser discípulo de Jesus! Por ser tão difícil, escolhem simplesmente ignorar os requisitos para o discipulado, que estão gravados nas Escrituras e ordenados por Jesus, ensinando que existem dois níveis de cristãos — os crentes que acreditam em Jesus, e os discípulos. Estes últimos acreditam em Jesus e são comprometidos com Ele. Nessas mesmas linhas, é várias vezes dito que existem muitos cristãos, mas poucos discípulos, mas que todos vão para o céu. Essa doutrina efetivamente neutraliza o mandamento de Cristo de fazer discípulos, que por sua vez neutraliza a formação de discípulos. Já que tornar-se discípulo requer compromisso de renuncia própria e aceitação de desafios e dificuldades, se alguma doutrina sugerir que tornar-se discípulo é opcional, a grande maioria das pessoas votarão em não se tornar discípulos especialmente se pensarem que serão bem-vindas no céu ainda que sejam não-discípulos. Então, aqui estão algumas perguntas muito importantes que devemos fazer: Será que as Escrituras ensinam que alguém pode ser um crente apto para o céu e ao mesmo tempo não ser um discípulo de Jesus Cristo? O discipulado é um passo opcional para crentes? Existem dois níveis de crentes; os crentes descomprometidos e os discípulos comprometidos? A resposta para todas essas perguntas é Não. Em nenhum lugar o Novo Testamento ensina que existem duas categorias de cristãos ou seja, os crentes e os discípulos. Se alguém ler o livro de Atos, lerá repetidas referências ao termo discípulos, e elas obviamente não são referências a um nível mais alto de crentes ou a crentes mais comprometidos. Todos que acreditavam em Jesus eram discípulos.[2] Na verdade, “Em Antioquia, os discípulos foram pela primeira vez chamados cristãos” (At. 11:26). É interessante notar que a palavra grega traduzida discípulo (mathetes) é encontrada 261 vezes no Novo Testamento, enquanto a palavra grega traduzida crente (pistos) só é encontrada nove vezes. A palavra grega traduzida cristão (Christianos) só é encontrada três vezes. Esses fatos são suficientes para convencer a qualquer pesquisador honesto que na igreja primitiva todos aqueles que acreditavam em Jesus eram considerados Seus discípulos.

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O Comentário de Jesus Jesus com certeza não pensava que tornar-se discípulo era passo secundário ou opcional para os crentes. três Os requisitos para embarcar-se em discipulado que lemos em Lucas 14 não foram apresentados só aos crentes como se fosse um convite para um nível mais alto de compromisso. Ao contrário, Suas palavras foram dirigidas a todos na multidão. Discipulado é o primeiro passo para um relacionamento com Deus. Lemos mais adiante, em João 8: Tendo dito essas coisas, muitos creram nele. Disse Jesus aos judeus que haviam crido nele: “Se vós permanecerdes firmes na minha palavra, verdadeiramente sereis meus discípulos. E conhecereis a verdade e a verdade vos libertará” (Jo. 8:30-32). Ninguém pode inteligentemente argumentar contra o fato inegável de que Jesus estava falando com crentes recém-convertidos sobre serem Seus discípulos. Jesus não disse aos crentes recémconvertidos: “Em certa altura no futuro vocês poderão considerar tomar o próximo passo, um passo de compromisso, para então se tornarem Meus discípulos”. Não! Jesus falou àqueles novos crentes tratando-os como que à discípulos, como se as palavras crente e discípulo fossem sinônimas. Ele disse àqueles recém-convertidos que o modo que poderiam provar que eram Seus discípulos era que, pela sua Palavra, não seguiriam mais as coisas desse mundo. O que resultaria em serem libertos do pecado (veja Jo. 8:34-46). Jesus sabia que a profissão de fé das pessoas não era garantia de que elas realmente acreditavam. Ele também sabia que aqueles que verdadeiramente acreditavam ser Ele o Filho de Deus iriam agir como tal — iriam imediatamente se tornar Seus discípulos — ansiando obedecer-Lhe e agradá-Lo. Esperava que tais crentes/discípulos começassem naturalmente a viver de acordo com a Sua palavra, fazendo nela sua morada. E enquanto descobrissem Seu querer e aprender Seus mandamentos, seriam, progressivamente libertos do pecado. É por isso que Jesus desafiou imediatamente aqueles novos crentes para examinarem a si mesmos. Sua declaração, “Se... verdadeiramente sois meus discípulos” indica que Ele acreditava que existia a possibilidade de haver discípulos que não fossem verdadeiros, mas somente de palavra. Estes enganavam-se a si mesmos. Portanto, só se eles passassem no teste de Jesus, teriam convicção que eram Seus verdadeiros discípulos. (E depois de ler o resto do diálogo em João 8:37-59 descobrimos que parece que Jesus com certeza tinha bons motivos para duvidar de sua sinceridade.)[3] Nossa passagem chave, Mateus 28:18-20, dissipa a teoria de que discípulos são crentes em um nível de compromisso mais alto. Jesus mandou, em Sua Grande Comissão, que os discípulos fossem batizados. O livro de Atos indica que os apóstolos não esperaram até que os novos convertidos tomassem um “segundo passo de compromisso radical com Cristo” antes de batizá-los. Ao contrário, os apóstolos batizaram todos os novos convertidos quase imediatamente após suas conversões. Eles acreditavam que todos os crentes verdadeiros eram discípulos. Sendo assim, aqueles que acreditam que discípulos são crentes especialmente comprometidos não são consistentes em sua própria teologia. A maioria deles batiza qualquer um que professa acreditar em Jesus, sem esperar que alcancem o nível de compromisso do “discipulado.” Mesmo assim, se eles realmente acreditam no que pregam, devem batizar somente aqueles que alcançam o nível de discipulado, que serão bem poucos em seu meio. Talvez um último ataque a essa doutrina diabólica será suficiente. Se discípulos são diferentes de crentes, por que é que João escreveu que o amor pelos irmãos é a marca para se identificar os crentes nascidos-de-novo (veja 1 Jo. 3:14), e Jesus disse que o amor pelos irmãos é a marca para identificar Seus verdadeiros discípulos (Jo. 13:35)?

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A Origem dessa Falsa Doutrina Se a ideia de duas classes diferentes de cristãos; os crentes e os discípulos, não é encontrada nas Escrituras, como é que essa doutrina é sustentada e defendida? A resposta é que ela pode unicamente ser sustentada e defendida por outra falsa doutrina sobre a salvação. A referida alega que os requisitos exigidos para o discipulado não são compatíveis com o fato de que a salvação é pela graça. Baseado nessa lógica, a conclusão é que os requisitos para o discipulado não podem ser os mesmos para a salvação. Portanto, ser um discípulo deve ser um passo opcional de compromisso para crentes que são salvos pela graça. O erro fatal dessa teoria é que existem inúmeras passagens que se opõe a ela. O que, por exemplo, pode ser mais claro do que aquilo que Jesus disse perto do fim do Seu Sermão do Monte, depois de ter enumerado vários mandamentos? Nem todo aquele que me diz: “Senhor, Senhor”, entrará no Reino dos céus, mas apenas aquele que faz a vontade de meu Pai que está nos céus (Mt. 7:21). Claramente, Jesus ligou obediência com salvação tanto aqui e em muitas outras declarações. Então, como podemos reconciliar as numerosas passagens como essa com a afirmação da Bíblia que a salvação é pela graça? É bem simples. Deus, em Sua maravilhosa graça, está oferecendo temporariamente uma oportunidade a todos de se arrepender, acreditar e nascer de novo, com o poder dado pelo Espírito Santo de viver obedientemente. Então, a salvação é pela graça. Sem a graça de Deus, ninguém pode ser salvo, porque todos pecaram. Pecadores não podem merecer a salvação. Logo, precisam da graça de Deus para serem salvos. A graça de Deus é revelada de várias maneiras em relação a nossa salvação. É revelada em Jesus morrendo na cruz, Deus nos chamando através do evangelho, nos trazendo mais perto de Cristo, nos convencendo de nossos pecados, dando-nos uma oportunidade de arrependimento, nos regenerando e nos enchendo com Seu Espírito Santo, quebrando o poder do pecado sobre nossas vidas, nos dando poder para viver em santidade, nos disciplinando quando pecamos, e assim por diante. Não merecemos nenhuma dessas bênçãos. Somos salvos pela graça do início ao fim. No entanto, de acordo com as Escrituras, a salvação não é somente “pela graça,” mas “pela fé”: “Porque pela graça sois salvos, mediante a fé” (Ef. 2:8a, ênfase adicionada). Os dois componentes são necessários, e obviamente não são incompatíveis. Para que as pessoas sejam salvas, fé e graça serão necessárias. Deus estende Sua graça e nós respondemos pela fé. Fé genuína, é claro, resulta em obediência aos mandamentos de Deus. Como Tiago escreveu no segundo capítulo de sua epístola, a fé sem obras é morta, sem utilidade e não pode salvar (veja Tg. 2:14-26).[4] O fato é que, a graça de Deus nunca ofereceu a alguém uma licença para pecar. Pelo contrário, ela oferece às pessoas uma oportunidade temporária para se arrependerem e nascer de novo. Depois da morte não há mais oportunidade de arrependimento e renascimento e, portanto, a graça de Deus não estará mais disponível. Sua graça salvadora é portanto temporária.

Uma Mulher a Quem Jesus Salvou pela Graça por meio da Fé Uma imagem perfeita da salvação oferecida pela graça por meio da fé é encontrada na história do encontro de Jesus com a mulher pega em adultério. Jesus disse-lhe: “Eu também não a condeno [isso é graça, pois ela merecia ser condenada]; agora vá e não peques mais” (Jo. 8:11, ênfase adicionada). Quando ela merecia morrer, Jesus a deixou ir. Contudo, Ele a mandou embora com um aviso: De agora em diante não peques mais. Isso é exatamente o que Ele está dizendo a todos os pecadores do mundo — “Eu não estou te condenando agora. Você merece morrer e ser condenado para sempre no inferno, mas estou te dando graça. Contudo, Minha graça é temporária; Portanto, então, arrependa-se. Pare de pecar agora, antes da Minha graça acabar e você se encontrar em pé diante do Meu julgamento como um pecador culpado.”. 15


Vamos imaginar aquela mulher adúltera arrependida como Jesus a instruiu. Se ela se arrependeu, foi salva pela graça por meio da fé. Foi salva pela graça, porque, sendo pecadora, nunca poderia ter sido salva sem a graça de Deus. Ela nunca poderia dizer, com razão, que alcançou sua salvação pelas suas obras. E foi salva por meio da fé, porque acreditou em Jesus e, portanto, acreditou no que Ele disse a ela, prestando atenção em Sua advertência, e voltando-se de seu pecado antes que fosse tarde de mais demais. Qualquer um que tiver uma fé genuína em Jesus irá se arrepender, porque Jesus advertiu: a menos que o povo se arrependa, ele perecerá (veja Lc. 13:3). Jesus também declarou solenemente que somente aqueles que fazem a vontade do Pai entrarão no céu (Mt. 7:21). Se alguém clama crer em Jesus, consequentemente observará e obedecerá seus mandamentos. Suponhamos que a mulher adúltera não se arrependeu de seus pecados. Imagine que ela continuou pecando e, então, morreu e apresentou-se diante de Jesus para julgamento. Imagine-a dizendo a Jesus, “Oh, Jesus! É tão bom Te ver! Eu me lembro de como o Senhor não me condenou pelo meu pecado quando fui levada diante de Ti na terra. Com certeza, o Senhor continua tão gracioso quanto antes. O Senhor não me condenou lá; então, com certeza, não me condenará agora!”. O que você acha? Jesus a aceitaria no céu? A resposta é óbvia. Paulo advertiu: “Não se deixem enganar: nem os imorais... nem os adúlteros... herdarão o Reino de Deus” (1 Co. 6:9-10). Tudo isso é para dizer que os requisitos de Jesus para o discipulado são nada mais nem menos que um requisito de fé genuína nEle, que se resume na fé que conduz a salvação. E todos os que têm a fé salvadora são salvos pela graça por meio da fé. Não há fundamento bíblico para os que dizem que, porque a salvação é pela graça, as exigências de Jesus para o discipulado são incompatíveis com Seus requerimentos para a salvação. Discipulado não é um passo opcional para os crentes comprometidos; pelo contrário, discipulado é a evidência de uma fé genuína que conduz a salvação.[5] Portanto, para ter sucesso aos olhos de Deus, um ministro deve começar corretamente o processo de fazer discípulos, pregando o evangelho verdadeiro e chamando pessoas para uma fé obediente. Quando ministros pregam a falsa doutrina, que o discipulado é um passo opcional para crentes comprometidos, eles estão trabalhando contra o mandamento de Cristo de fazer discípulos e estão proclamando uma graça falsa e um evangelho falso. Somente os discípulos verdadeiros de Cristo possuem a fé salvadora e estão indo para o céu, exatamente como Jesus prometeu: “Nem todo aquele que me diz: ‘Senhor, Senhor’, entrará no Reino dos céus, mas apenas aquele que faz a vontade de meu Pai que está nos céus” (Mt. 7:21).

O Novo Evangelho Falso Devido a falsos conceitos sobre a graça de Deus na salvação, elementos bíblicos que são considerados incompatíveis com a mensagem da graça têm sido arrancados do evangelho moderno. Mas um evangelho falso só produz falsos cristãos, e é por isso que uma porcentagem tão grande dos novos “convertidos” modernos desistem de frequentar a igreja depois de apenas alguns dias de terem “aceitado a Jesus.” Ademais, muitos dos que vão à igreja são indistinguíveis da população não salva, possuindo os mesmos valores e praticando os mesmos pecados que seus vizinhos conservadores. Isso acontece, porque eles não creem realmente no Senhor Jesus Cristo e não nasceram de novo verdadeiramente. Um desses elementos essenciais, que agora é removido do evangelho moderno, é a necessidade de arrependimento. Muitos ministros pensam que se eles falarem às pessoas para parar de pecar (como Jesus disse àquela mulher pega no ato de adultério), será equivalente a dizer que a salvação não é pela graça, mas sim pelas obras. Mas isso não pode ser verdade, porque João Batista, Jesus, Pedro e Paulo proclamaram que o arrependimento é um requisito absoluto para a salvação. Contudo, eles entenderam que a graça de Deus oferece às pessoas uma oportunidade temporária de arrependimento, não uma oportunidade para continuar pecando.

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Por exemplo, quando João Batista proclamou o que Lucas se refere como “o evangelho,” sua mensagem central foi o arrependimento (veja Lc. 3:1-18). Aqueles que não se arrependessem iriam para o inferno (veja Mt. 3:10-12; Lc. 3:17). Jesus pregou arrependimento desde o início de Seu ministério (veja Mt. 4:17). Ele advertiu as pessoas que a menos que se arrependessem, elas iriam perecer (veja Lc. 13:3,5). Quando Jesus enviou Seus doze discípulos para pregar em várias cidades, “Eles saíram e pregaram ao povo que se arrependesse” (Mc. 6:12, ênfase adicionada). Depois de Sua ressurreição, Jesus disse aos doze para levarem a mensagem de arrependimento para o mundo inteiro, pois o arrependimento era a chave que abria a porta para o perdão: E lhes disse: “Está escrito que o Cristo haveria de sofrer e ressuscitar dos mortos no terceiro dia, e que em seu nome seria pregado o arrependimento para o perdão de pecados a todas as nações, começando por Jerusalém” (Lc. 24:46-47, ênfase adicionada). Os apóstolos obedeceram às instruções de Jesus. Quando Pedro estava pregando no dia de Pentecostes, seus ouvintes convictos, depois de perceberem a verdade sobre o Homem a quem tinham crucificado recentemente, perguntaram a Pedro o que deveriam fazer. Sua resposta foi que, antes de tudo, deviam se arrepender (veja At. 2:38). O segundo sermão público de Pedro, no Pórtico de Salomão, continha uma a mensagem idêntica.: Sem arrependimento não há remissão de pecados [6] Arrependam-se pois e voltem-se para Deus, para que seus pecados sejam cancelados (At. 3:19, ênfase adicionada). Quando Paulo testificou ao rei Agripa, declarou que seu evangelho havia sempre contido a mensagem de arrependimento: Assim, rei Agripa, não fui desobediente à visão celestial. Preguei em primeiro lugar aos que estavam em Damasco, depois aos que estavam em Jerusalém e em toda a Judeia, e também aos gentios, persuadindo-os para que se arrependessem e se voltassem para Deus, praticando obras que mostrassem o seu arrependimento (At. 26:19-20, ênfase adicionada). Em Atenas, Paulo avisou sua audiência que todos devem comparecer ao julgamento diante de Cristo, e aqueles que não se arrependerem estarão despreparados para aquele grande dia: No passado Deus não levou em conta essa ignorância, mas agora ordena que todos, em todo lugar, se arrependam. Pois estabeleceu um dia em que há de julgar o mundo com justiça, por meio do homem que designou. E deu prova disso a todos, ressuscitando-o dentre os mortos (At. 17:30-31, ênfase adicionada). Em seu sermão de despedida para os anciãos de Éfeso, Paulo listou arrependimento junto com fé, como uma parte essencial de sua mensagem: Testifiquei, tanto a judeus como a gregos, que eles precisam converter-se a Deus com arrependimento e fé em nosso Senhor Jesus (At. 20:21, ênfase adicionada). Essa lista de provas das Escrituras deve ser o suficiente para convencer qualquer um de que, a menos que a necessidade de arrependimento seja proclamada, o verdadeiro evangelho ainda não foi pregado. Não há perdão dos pecados sem o arrependimento.

Arrependimento Redefinido Mesmo sob a luz de tantas provas que a salvação depende do arrependimento, alguns ministros ainda encontram uma maneira de anular sua necessidade torcendo seu verdadeiro significado para fazê-lo compatível com sua concepção falsa da graça de Deus. Em sua nova interpretação, dizem que, arrependimento nada mais é que uma mudança de pensamento sobre quem é Jesus; trata-se de uma mudança que, surpreendentemente, pode não afetar o comportamento de uma pessoa. Então o que os pregadores do Novo Testamento esperavam quando chamavam as pessoas para o arrependimento? Estavam chamando as pessoas para apenas uma mudança de pensamento sobre quem é Jesus ou para uma mudança comportamental? 17


Paulo acreditava que o arrependimento verdadeiro requeria uma mudança de comportamento. Já lemos seu testemunho sobre décadas de ministério, como ele declarou diante do rei Agripa: Assim, rei Agripa, não fui desobediente à visão celestial. Preguei em primeiro lugar aos que estavam em Damasco, depois aos que estavam em Jerusalém e em toda a Judeia, e também aos gentios, dizendo que se arrependessem e se voltassem para Deus, praticando obras que mostrassem o seu arrependimento (At. 26:19-20, ênfase adicionada). João Batista também acreditava que o arrependimento era mais do que uma mudança de opinião sobre certos fatos teológicos. Quando sua audiência respondeu ao seu chamado ao arrependimento perguntando o que eles deveriam fazer, ele enumerou mudanças específicas de comportamento (veja Lc. 3:3, 10-14). Também ridicularizou os fariseus e saduceus por fazerem apenas os gestos de arrependimento, e os advertiu do fogo do inferno se não se arrependessem verdadeiramente: Raça de víboras! Quem vos ensinou a fugir da ira que se aproxima? Produzi pois, frutos dignos de arrependimento... O machado já está posto à raiz das árvores, e toda árvore que não der bom fruto será cortada e lançada ao fogo (Mt. 3:7-10, ênfase adicionada). Jesus pregou a mesma mensagem de arrependimento que João (veja Mt. 3:2; 4:17). Uma vez Ele disse que Nínive se arrependeu pela pregação de Jonas (veja Lc. 11:32). Qualquer um que já leu o livro de Jonas sabe que o povo de Nínive fez mais que somente mudar de ideia. Eles também mudaram suas ações, voltando-se do pecado. Jesus chamou isso de arrependimento. Arrependimento bíblico é uma mudança intencional de comportamento em reação a uma fé autêntica nascida no coração. Quando um ministro prega o evangelho sem mencionar a necessidade de uma mudança comportamental genuína que autentica o arrependimento, ele está, na verdade, trabalhando contra o desejo de Deus de fazer discípulos. Mais adiante, ele engana sua audiência fazendo-os acreditar que podem ser salvos sem o arrependimento e, assim potencialmente, assegurando suas condenações na medida que nele acreditam.. Esse ministro está trabalhando contra Deus e a favor de Satanás, percebendo ele ou não. Se um ministro for fazer discípulos como Jesus ordenou, ele precisa começar o processo corretamente. Quando não prega o verdadeiro evangelho, que chama as pessoas para o arrependimento e à fé obediente, ele está destinado ao fracasso, mesmo tendo obtido grande sucesso aos olhos do povo. Ele pode ter uma grande congregação, mas está construindo com madeira, feno e palha; e quando seu trabalho passar pelo fogo futuro, a qualidade de seu trabalho será testada. Os elementos serão consumidos (veja 1 Co. 3:12-15).

O Chamado de Jesus para o Compromisso Jesus não chamou os incrédulos somente para se voltarem do pecado, Ele também os chamou para se comprometerem a segui-Lo e obedecê-Lo imediatamente. Ele nunca ofereceu a salvação de modo mais simples, como é feito hoje. Ele nunca convidou pessoas para “aceitá-Lo”, comprometendose a perdoá-los, e sugerindo que, mais tarde eles poderiam querer se comprometer a obedecê-Lo. Não, Jesus requereu que o passo seja o comprometimento de todo o coração. Infelizmente, os chamados de Jesus para um compromisso maior são simplesmente ignorados por crentes professos. Ou, se os chamados são reconhecidos, os crentes dizem que esses chamados para um relacionamento mais profundo são direcionados, não para os não salvos, mas para aqueles que já receberam a graça salvadora de Jesus. Mesmo assim, muitos desses “crentes” que dizem que os chamados de Jesus são direcionados a eles e não aos descrentes não prestam atenção aos Seus chamados enquanto os interpretam. Acham que têm a opção de não responder em obediência, como fazem. Vamos levar em consideração um dos convites de salvação de Jesus, que várias vezes é interpretado como um chamado para uma caminhada mais profunda, supostamente endereçada àqueles que já são salvos: 18


Então Ele *Jesus+ chamou a multidão e os discípulos e disse: “Se alguém quiser vir após mim, negue-se a si mesmo, tome a sua cruz e siga-me. Pois quem quiser salvar a sua vida, perdê-la-á;; mas quem perder a sua vida, por minha causa e pelo evangelho, a salvará. Pois, que adianta ao homem ganhar o mundo inteiro e perder a sua alma? Pois, o que o homem poderia dar em troca de sua alma? Pois, se alguém se envergonhar de mim e das minhas palavras nesta geração adúltera e pecadora, o Filho do homem se envergonhará dele quando vier na glória de seu Pai com os santos anjos” (Mc. 8:3438, traduzido do inglês). Esse é um convite à salvação direcionado aos ímpios ou um convite a um relacionamento mais profundo direcionado aos crentes? Quando refletimos honestamente, a resposta se torna óbvia. Primeiramente, note que o povo a quem Jesus falava consistia de uma “multidão e os discípulos” (v. 34, ênfase adicionada). Portanto, a multidão não consistia de Seus discípulos. De fato, Jesus os “convocou” para ouvir o que Ele iria falar. Jesus queria que todos, seguidores e solicitadores, entendessem a verdade que Ele estava para ensinar. Perceba também que começou dizendo, “Se alguém” (v. 34, ênfase adicionada). Suas palavras se aplicam a qualquer um e a todo mundo. Enquanto continuamos lendo, fica mais claro a quem Jesus estava falando. Especificamente, Suas palavras foram direcionadas a todas as pessoas que desejavam (1) “vir após mim” *Jesus+, (2) “salvar sua vida”, (3) não “perder sua alma” e (4) estar entre aqueles de quem Ele não se envergonhará “quando vier na glória de seu Pai com os santos anjos”. Essas quatro expressões indicam que Jesus estava descrevendo pessoas que queriam ser salvas. Será que devemos imaginar que exista algum crente apto ao céu que não deseja “acompanhar” Jesus e “salvar sua vida”? Devemos imaginar que existam crentes verdadeiros que irão “perder suas vidas,” que têm vergonha de Jesus e Suas palavras, dos quais Jesus terá vergonha quando voltar? Obviamente, nessa passagem das Escrituras, Jesus estava falando sobre ganhar a salvação eterna. Perceba que cada uma das quatro frases nessa passagem de cinco, cada uma, começa com a palavra “pois.” Portanto, cada frase ajuda a explicar e expandir a frase anterior. Nenhuma frase nessa passagem deve ser interpretada sem levar em consideração a iluminação que as outras dão a ela. Vamos considerar as palavras de Jesus frase por frase com essa ideia em mente.

1a Frase Se alguém quiser vir após mim, negue-se a si mesmo, tome a sua cruz e siga-me (Mc. 8:34). Novamente, note que as palavras de Jesus foram dirigidas a qualquer um que desejava segui-Lo, qualquer um que quisesse ser Seu seguidor. Esse é o único relacionamento que Jesus oferece inicialmente — ser Seu seguidor. Muitos desejam ser amigos sem serem seguidores dEle, mas esta opção não existe. Jesus não considerou ninguém Seu amigo a menos que Lhe obedecesse. Certa vez Ele disse, “Vocês serão meus amigos, se fizerem o que eu lhes ordeno” (Jo. 25:14). Muitos gostariam de ser irmãos sem serem seguidores dEle; mas, de novo, Jesus não ofereceu esta opção. Ele não considerou ninguém Seu irmão a menos que Lhe fosse obediente: “Pois quem faz a vontade de meu Pai que está nos céus, este é meu irmão (Mt. 12:50, ênfase adicionada). Muitos desejam se juntar a Jesus no céu sem serem seguidores dEle, mas Jesus expressou a impossibilidade de tal coisa. Somente aqueles que Lhe obedecem são merecedores do céu: “Nem todo aquele que me diz: ‘Senhor, Senhor’, entrará no Reino dos céus, mas apenas aquele que faz a vontade de meu Pai que está nos céus” (Mt. 7:21). Nessa sentença que estamos considerando, Jesus informou àqueles que queriam segui-Lo que não poderiam fazer tal coisa, a menos que negassem a si mesmos. Eles devem estar dispostos a colocar os seus desejos de lado, fazendo-os subordinados a Sua vontade. Negação própria e submissão são a essência de seguir a Jesus. É isso que significa “tomar a sua cruz”.

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2a Frase A segunda sentença de Jesus faz o significado de Sua primeira sentença ainda mais claro: Pois quem quiser salvar a sua vida, a perderá; mas quem perder a sua vida por minha causa e pelo evangelho, a salvará (Mc. 8:35). Novamente, perceba que essa sentença começa com “Pois,” relacionando-a com a primeira, adicionando clarificação. Aqui, Jesus compara duas pessoas, as mesmas duas pessoas que são mencionadas na primeira sentença — uma que iria negar a si mesma e pegar a sua cruz para segui-Lo e outra que não iria. Agora elas são comparadas com alguém que perderia sua vida por Cristo e pelo evangelho e alguém que não faria o mesmo. Se olharmos para o relacionamento entre as duas, devemos concluir que a pessoa na primeira sentença, a que não negaria a si mesma corresponde com a pessoa na segunda sentença que deseja salvar a sua vida, mas a perde. E a pessoa na primeira sentença que estava disposta a negar a si mesma corresponde com aquela na segunda sentença que perde sua vida, mas, na verdade, a salva. Jesus não estava falando sobre alguém perder ou salvar sua vida física. Mais adiante nessa mesma passagem, as frases indicam que Jesus estava pensando em ganhos e perdas eternas. Uma expressão similar de Jesus, gravada em João 12:25 diz: “Aquele que ama a sua vida, a perderá; ao passo que aquele que odeia a sua vida nesse mundo, a conservará para a vida eterna” (ênfase adicionada). A pessoa na primeira sentença que não negaria a si mesma era a mesma pessoa na segunda sentença que queria salvar a sua vida. Portanto, nós podemos concluir, razoavelmente, que “salvar sua vida” significa “salvar a agenda de sua vida.” Isso se torna ainda mais claro quando levamos em conta o contraste do homem que “perde sua vida por Cristo e pelo evangelho.” Ele é o homem que nega a si mesmo, pega a sua cruz e abre mão de sua agenda, agora vivendo pelo propósito de levar adiante a agenda de Cristo de espalhar o evangelho. Ele é o homem que, finalmente, “salvará sua vida.” A pessoa que busca agradar a Cristo ao invés de si mesma um dia se encontrará, feliz, no céu, enquanto a pessoa que continua a agradar a si mesma um dia se encontrará, miserável, no inferno, perdendo toda a liberdade de seguir sua própria agenda.

3a e 4a Frases Agora a terceira e quarta frases: Pois, que adianta ao homem ganhar o mundo inteiro e perder a sua alma? Pois, o que o homem poderia dar em troca de sua alma? (Mc. 8:36-37). Nessas frases, a pessoa ressaltada é aquela que não negará a si mesma. Essa pessoa é o mesmo homem que deseja salvar sua vida, mas no final a perde. Agora ele é mencionado como aquele que busca o que o mundo tem para oferecer e que, finalmente, “perde sua alma.” Obviamente, não existe comparação. Uma pessoa pode teoricamente adquirir tudo que o mundo tem para oferecer, mas se a consequência final de sua vida é passar a eternidade no inferno, ela cometeu os erros mais graves do mundo. Nessas duas frases nós podemos ver o que leva as pessoas à não negarem a si mesmas para se tornarem seguidoras de Cristo. É o seu desejo de gratificação própria, oferecida pelo mundo. Motivados pelo amor próprio, aqueles que se recusam a seguir a Cristo buscam prazeres pecaminosos, os quais os verdadeiros seguidores de Cristo ofuscam pelo amor e obediência a Ele. Aqueles que estão tentando ganhar tudo o que o mundo tem para oferecer buscam riqueza, poder e prestígio, enquanto os verdadeiros seguidores de Cristo buscam em primeiro lugar o Reino de Deus e a Sua justiça. Qualquer riqueza, poder ou prestígio que venham a ganhar é considerado mordomia de Deus para ser usado sem ciúmes para a Sua glória.

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5a Frase Finalmente, nós chegamos à quinta frase da passagem em consideração. Perceba novamente como ela é unida às outras começando pela palavra, pois: Pois, se alguém se envergonhar de mim e das minhas palavras nesta geração adúltera e pecadora, o Filho do homem se envergonhará dele quando vier na glória de seu Pai com os santos anjos (Mc. 8:38). Novamente, esse é o homem que não se negaria, mas que queria seguir sua própria agenda, buscando o que o mundo tem a oferecer, e que finalmente perde sua vida e sua alma. Agora ele é caracterizado como aquele que tem vergonha de Cristo e de Suas palavras. Sua vergonha, é claro, vem de sua falta de crença. Se ele realmente acreditasse que Jesus era o Filho de Deus, certamente não se envergonharia dEle ou de Suas palavras. Mas ele faz parte de uma “geração adultera e pecaminosa,” e Jesus terá vergonha dele quando voltar. Claramente, Jesus não estava descrevendo uma pessoa salva. Qual é a conclusão para tudo isso? A passagem inteira não pode ser considerada um chamado para uma vida mais comprometida direcionada àqueles que já estão indo para o céu. Ela é, obviamente, uma revelação do caminho da salvação pela comparação daqueles que são verdadeiramente salvos e dos perdidos. Os verdadeiramente salvos acreditam no Senhor Jesus Cristo e, portanto, negam a si mesmos por Ele; enquanto os perdidos não demonstram tal obediência e fé.

Outro Chamado para o Compromisso Existem muitos que poderíamos considerar, mas vamos dar uma olhada em apenas mais um chamado de compromisso do Senhor Jesus que é nada menos que um chamado para a salvação: Venham a mim, todos os que estão cansados e sobrecarregados, e eu lhes darei descanso. Tomem sobre vocês o meu jugo e aprendei de mim, pois sou manso e humilde de coração, e vocês encontrarão descanso para as suas almas. Pois o meu jugo é suave e o meu fardo é leve (Mt. 11:28-30). Várias vezes, evangelistas usam essa passagem das Escrituras em seus convites evangelísticos, e com razão. Essas palavras são um claro convite para a salvação. Aqui Jesus está oferecendo descanso para aqueles que estão “cansados e oprimidos.” Ele não está oferecendo descanso físico aos que estão fisicamente sobrecarregados, mas sim, descanso para suas almas, como Ele diz. Os ímpios carregam o peso da culpa, do medo e do pecado, e quando se cansam disso, tornam-se bons candidatos para a salvação. Se tais pessoas querem receber o descanso que Jesus está oferecendo, de acordo com Ele, precisam fazer duas coisas. (1) vir a Ele e (2), levar Seu jugo sobre si. Constantemente, falsos pregadores da graça torcem o significado óbvio da expressão “levar o jugo de Jesus.” Alguns até dizem que Jesus estava falando de um jugo que deve estar em volta de Seu próprio pescoço, e é por isso que Ele chamou de “meu jugo.” Eles ainda dizem que Jesus devia estar falando de um jugo duplo, do qual metade está em volta do Seu pescoço e a outra metade está vazia, esperando para ser colocada nos nossos pescoços. No entanto, devemos entender que Jesus está prometendo puxar o arado, porque disse que o Seu jugo é suave e o Seu fardo é leve. Nosso único trabalho, de acordo com tais mestres, é ter certeza de que, pela fé, continuemos debaixo do jugo com Jesus, permitindo que Ele faça todo o trabalho para a nossa salvação, enquanto aproveitamos os benefícios oferecidos pela Sua graça. Essa interpretação é obviamente, bem forçada! Quando Jesus disse que as pessoas sobrecarregadas devem tomar Seu jugo, Ele quis dizer que devem se submeter a Ele, fazendo dEle seu Mestre, permitindo que Ele dirija suas vidas. É por isso que Jesus disse que devemos tomar Seu jugo e aprender dEle. Os incrédulos são como bois selvagens, indo por seu próprio caminho e ditando as regras em suas próprias vidas. Quando tomam o jugo de Jesus, eles dão o controle a Ele. E o motivo para o jugo de Jesus ser suave e o Seu fardo leve é porque Ele nos capacita pelo seu Espírito que habita em nós a obedecê-Lo. 21


Portanto, vemos novamente que Jesus chamou as pessoas para a salvação; nesse caso, simbolizado como descanso para os sobrecarregados, chamando-os a se submeterem a Ele e fazê-Lo seu Senhor.

Em Resumo Tudo isso é para dizer que um ministro de sucesso verdadeiro é aquele que obedece ao mandamento de Jesus de fazer discípulos, e que sabe que arrependimento, compromisso e discipulado não são passos opcionais para os já convertidos. Ao invés disso, são a única expressão autêntica da fé salvadora. Portanto, o ministro de sucesso prega um evangelho bíblico para os ímpios. Ele chama os incrédulos para se arrependerem e seguirem a Jesus, e não assegura a salvação dos descompromissados.

[1] Esta definição é derivada do que já lemos em Mateus 28:18-20, João 8:31-32, 13:25, 15:8 e Lucas 14:25-33. [2] Discípulos são mencionados em Atos 6:1, 2, 7; 9:1, 10, 19, 25, 26, 36, 38; 11:26, 29; 13:52; 14:20, 21, 22, 28; 15:10; 16:1; 18:23, 27; 19:1, 9, 30; 20:1, 30; 21:4, 16. Crentes são mencionados somente em Atos 5:14; 10:45 e 16:1. Em Atos 14:21, por exemplo, Lucas escreveu, “Eles *Paulo e Barnabé] pregaram as boas novas naquela cidade e fizeram muitos discípulos...” Portanto, Paulo e Barnabé fizeram discípulos pregando as boas novas, os quais tornaram-se discípulos imediatamente após suas conversões, não em uma outra hora opcional. [3] Essa passagem das Escrituras, também expõe as práticas modernas erradas de assegurar aos novos convertidos a sua salvação. Jesus não assegurou a esses recém-convertidos que eles com certeza estavam salvos por terem feito uma pequena oração para aceitá-Lo ou por terem verbalizado sua fé nEle. Ao contrário, Ele os desafiou a considerar se sua profissão era genuína. Devemos seguir Seu exemplo. [4] Mais adiante, contrário àqueles que mantém a ideia de que somos salvos pela fé mesmo sem termos as obras, Tiago diz que não podemos ser salvos somente pela fé: “Vejam que uma pessoa é justificada pelas obras, e não apenas pela fé”. A fé verdadeira nunca está sozinha; está sempre acompanhada pelas obras. [5] É bom lembrar que a razão de muitas vezes Paulo afirmar que a salvação é pela graça e não por obras é porque estava lutando contra os legalistas de seus dias. Paulo não estava tentado corrigir as pessoas que ensinavam que a santidade é essencial para se chegar ao céu, porque ele mesmo cria nisso e várias vezes afirmou esse fato; pelo contrário, escreveu para corrigir os judeus que, não tendo o conceito da graça de Deus na salvação, não viam o motivo pelo qual Jesus teve que morrer. Muitos não criam que os gentios pudessem ser salvos, pois não tinham o conceito da graça de Deus que torna possível a salvação. Alguns criam que a circuncisão, a linhagem ou a obediência à Lei (o que nem mesmo eles cumpriam) levava à salvação, anulando, assim, a graça de Deus e a necessidade da morte de Cristo. [6] Igualmente, quando Deus revelou a Pedro que os gentios poderiam ser salvos simplesmente por acreditar em Jesus, Pedro declarou a casa de Cornélio: “Agora percebo, verdadeiramente, que Deus não trata as pessoas com parcialidade, mas de todas as nações aceita todo aquele que o teme e faz o que é justo” (At 10:34b-35, ênfase adicionada). Pedro também declarou em Atos 5:32 que Deus deu o Espírito Santo “aos que lhe obedecem.” Todos os verdadeiros cristãos são habitados pelo Espírito Santo (veja Rm. 8:9; Gl. 4:6).

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Capítulo Três

Continuando Apropriadamente Por muitos anos e de várias formas, sem perceber segui práticas que eram contra o objetivo que Deus tinha para mim, o objetivo de fazer discípulos. Mas gradualmente, o Espírito Santo abriu meus olhos para ver meus erros. Algo que tenho aprendido é: devo examinar tudo o que tenho visto e acreditado à luz da Palavra de Deus. Nossas tradições, mais que qualquer outra coisa, nos cegam para o que Deus tem falado. Pior, temos muito orgulho de nossas tradições, achando que estamos entre a elite que tem uma maior compreensão da verdade que outros cristãos. Como um professor disse sarcasticamente, “Existem 32,000 denominações no mundo hoje. Você não tem sorte de ser membro da única que é certa?” Como resultado de nosso orgulho, Deus resiste a se aproximar de nós. Ele resiste ao orgulho. Se queremos progredir e estar preparados para ficar diante de Jesus, precisamos nos humilhar. A esses, Deus dá graça.

O Papel do Pastor Levado em Consideração O objetivo do ministro fazedor de discípulos deve moldar tudo o que ele faz no ministério. Ele deve se perguntar continuamente: “Como o que eu estou fazendo irá contribuir com o processo de fazer discípulos que irão obedecer a todos os mandamentos de Jesus?” Essa simples pergunta, se feita honestamente, eliminará muito do que é feito sob a fachada de atividade cristã. Vamos considerar o ministério de pastor/presbítero/bispo, [1] de alguém cuja tarefa foca uma igreja local específica. Se essa pessoa quer fazer discípulos que irão obedecer a todos os mandamentos de Jesus, qual deve ser uma de suas principais responsabilidades? Ensino vem naturalmente à mente. Jesus disse que discípulos são feitos por meio do ensino (veja Mt. 28:19-20). Um dos requisitos para alguém ser presbítero/pastor/ bispo é que ele seja “apto para ensinar” (1 Tm. 3:2). Aqueles “cujo trabalho é a pregação e o ensino” devem ser “dignos de dupla honra” (1 Tm. 5:17). Portanto, um pastor deve avaliar cada sermão se fazendo a seguinte pergunta: “Como esse sermão ajudará a alcançar o objetivo de fazer discípulos?” Contudo, será que a responsabilidade de ensinar do pastor é cumprida somente por seus sermões de domingo e de meio da semana? Se ele acha que sim, está fazendo vista grossa ao fato de que as Escrituras indicam que sua responsabilidade de ensino é cumprida principalmente através de sua vida e do exemplo que dá. O exemplo de ensino de sua vida diária é completado por seu ministério público de ensino. É por isso que as exigências para presbíteros/pastores/bispos têm muito mais a ver com o caráter e estilo de vida de uma pessoa do que com sua habilidade de comunicação verbal. De quinze requisitos para bispos, listados em 1 Timóteo 3:1-7, quatorze são relacionados ao caráter e somente um à habilidade de ensino. De dezoito requisitos para presbíteros, listados em Tito 1:5-9, dezessete são relacionados ao caráter e somente um à habilidade de ensino. Paulo primeiro lembrou a Timóteo, “Seja um exemplo para os fiéis na palavra, no procedimento, no amor, na fé e na pureza” (1 Tm. 4:12b, ênfase adicionada). Depois ele disse, “Até a minha chegada, dedique-se à leitura pública da Escritura, à exortação e ao ensino” (1 Tm. 4:13). Portanto, o exemplo do caráter de Timóteo foi mencionado antes de seu ministério de ensino público, enfatizando assim sua maior importância. Pedro escreveu similarmente: Portanto, apelo para os presbíteros que há entre vocês, e o faço na qualidade de presbítero como eles e testemunha dos sofrimentos de Cristo, como alguém que participará da glória a ser revelada: pastoreiem o rebanho de Deus que está aos seus cuidados. Olhem por ele, não por obrigação, mas de livre vontade, como Deus quer. Não façam isso por ganância, mas com o desejo de servir. Não ajam como dominadores dos que lhes foram confiados, mas como exemplo para o rebanho (1 Pe. 5:1-3, ênfase adicionada). 23


Quem nos inspira a negarmos a nós mesmos e obedecermos a Cristo? São aqueles cujos sermões admiramos ou aqueles cujas vidas admiramos? Pastores sem compromisso e de estilo leve não inspiram ninguém a carregar a cruz. Se tais pastores pregam uma mensagem de compromisso com Cristo de vez em quando, eles pregam com vagas generalidades, caso contrário, seus ouvintes questionariam sua sinceridade. A maioria dos líderes cristãos do passado não é lembrada pelos seus sermões, mas pelos seus sacrifícios. Seus exemplos nos inspiram muito tempo depois que se foram. Se um pastor não dá exemplo de obediência como um verdadeiro discípulo de Jesus Cristo, ele perde tempo pregando qualquer sermão. Pastor, seu exemplo fala dez vezes mais alto do que seus sermões. Você está inspirando as pessoas a negarem a si mesmas e seguirem a Cristo enquanto você nega a si mesmo e segue a Cristo? Mas como pode um pastor, por meio de exemplo e estilo de vida, ensinar pessoas que o conhecem apenas como um orador das manhãs de domingo? O mais perto que podem chegar de vê-lo viver sua vida é por meio de um aperto de mão de cinco segundos enquanto respeitosamente saem da igreja. Talvez exista alguma coisa que não está muito certa no modelo pastoral moderno.

O Sermão Semanal de Domingo de Manhã Se o pastor pensa que sua principal responsabilidade de ensino é dar sermões semanais públicos, assumiu erroneamente de novo. O ministério de ensino de Jesus não consistiu somente de sermões públicos (e a maior parte deles parecia bem curto), mas também de conversas particulares que eram iniciadas por Seus discípulos inquiridores. Mais adiante, essas conversas não eram limitadas a meia hora de um dia da semana no edifício da igreja, mas acontecia nas praias, nas casas e nas caminhadas pelas estradas empoeiradas, enquanto Jesus vivia Sua vida plenamente à vista de Seus discípulos. Esse mesmo modelo de ensino foi seguido pelos apóstolos. Depois do Pentecostes, os doze ensinaram “no templo e de casa em casa” (At. 5:42, ênfase adicionada). Eles tinham interação diária com a comunidade de crentes. Paulo também ensinou “publicamente e de casa em casa” (At. 20:20, ênfase adicionada). A esse ponto, se você é pastor, pode estar comparando seu ministério de ensino com aquele de Jesus e dos primeiros apóstolos. Talvez você esteja até começando a se perguntar se o que tem feito é o que Deus quer que você faça, ou se tem feito o que centenas de anos de tradição da igreja têm te ensinado a fazer? Se estiver se fazendo essa pergunta, isso é bom. É muito bom. Esse é o primeiro passo na direção certa. Talvez você tenha ido ainda mais além. Talvez tenha dito a si mesmo: “Onde eu poderia encontrar o tempo que um ministério como esse requer, ensinando pessoas de casa em casa, ou os envolvendo em minha vida diária para que eu primeiramente os influencie pelo meu exemplo?” Agora, essa é uma pergunta maravilhosa, pois ela pode te levar a continuar se perguntando se há alguma coisa ainda mais errada no conceito do papel de pastor. Talvez você tenha até pensado consigo mesmo, “Eu não tenho certeza de que gostaria de viver tão próximo das pessoas de minha igreja. A faculdade teológica me ensinou que um pastor nunca deve chegar muito perto de sua congregação. Ele deve manter uma distância para conservar o respeito profissional. Ele não pode ser amigo íntimo delas.” Tal pensamento revela que realmente há algo de muito errado com o modo como, muitas vezes, as coisas são feitas na igreja moderna. Jesus era tão próximo dos doze que um deles se sentiu confortável para deitar sua cabeça em Seu peito em uma refeição comum (veja Jo. 13:23-25). Eles literalmente moraram juntos por alguns anos. Quanto trabalho hoje para manter uma distância profissional dos discípulos para ministrar com sucesso a eles!

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Comparação de Métodos Antigos e Modernos Se o objetivo é obedecer a Jesus e fazer discípulos, não seria sábio seguir Seus métodos para fazer discípulos? Eles funcionaram bem para Ele. Também funcionaram bem para os apóstolos que O seguiram. Quão bem os métodos modernos estão funcionando para fazer discípulos que obedecem a todos os mandamentos de Cristo? Quando, por exemplo, estudos feitos com crentes americanos mostram repetidamente que virtualmente não há diferença entre o estilo de vida da maioria de crentes professos e o dos descrentes, talvez seja hora de fazermos algumas perguntas e reexaminarmos as Escrituras. Aqui está uma pergunta reveladora para fazermos a nós mesmos: Como a igreja primitiva teve tanto sucesso fazendo discípulos sem nenhum edifício sede, líderes profissionalmente treinados, faculdades teológicas e seminários, hinários e sistema de multimídia, microfones sem fio e duplicadores de fita, currículos de escola dominical e ministério de jovens, equipe de louvor e corais, computadores e copiadoras, rádios e canais de TV evangélicos, centenas e milhares de livros evangélicos e até Bíblia própria? Eles não precisaram de nenhuma dessas coisas para fazer discípulos e Jesus também não. E porque nenhuma delas era essencial lá, nenhuma é essencial agora. Elas podem ajudar, mas não são essenciais. De fato, muitas delas podem atrapalhar e na verdade nos atrapalham a fazer discípulos. Deixe-me dar dois exemplos. Vamos primeiramente considerar o essencial moderno de ter somente pastores treinados em faculdades teológicas - ou seminários - liderando igrejas. Esse era um conceito desconhecido por Paulo. Em algumas cidades, depois de ter plantado igrejas, ele saia por algumas semanas ou meses, e então retornava para apontar líderes para administrá-las (veja, por exemplo, At. 13:14, 14:23). Isso significa que aquelas igrejas, privadas da presença de Paulo, não tiveram uma liderança formal por algumas semanas ou meses, e que a maioria dos líderes eram novos na fé quando apontados. Eles não tiveram nada parecido com uma educação formal de dois ou três anos para se prepararem para o trabalho. Portanto, a Bíblia ensina que pastores/presbíteros/bispos não precisam de dois ou três anos de educação formal para serem efetivos em seus ministérios. Ninguém pode argumentar inteligentemente contra esse fato. Mesmo assim, o requisito moderno manda continuamente uma mensagem para cada crente: “Se você quer ser um líder na igreja, precisará de anos de educação formal.”[2] Isso faz o processo de formação de líderes mais lento, fazendo, então, mais lenta a formação de discípulos, atrasando assim a expansão da Igreja. Eu me pergunto o quanto as companhias americanas Avon e Amway teriam saturado seu público alvo se tivessem requerido que cada vendedor se mudasse com sua família para outra cidade para receber três anos de treinamento formal antes de poder vender sabão ou perfume? “Mas o pastoreio é uma tarefa tão difícil e complexa!” alguns dizem. “A Bíblia diz que não devemos colocar um novo convertido na posição de bispo” (veja 1 Tm. 3:6). Em primeiro lugar, a nossa definição de novo convertido é claramente diferente do conceito de Paulo, já que ele apontou pessoas para o cargo de presbítero/pastor/bispo que haviam se convertido há apenas alguns meses. Em segundo lugar, um motivo para o pastoreio moderno ser tão difícil e complexo é o fato do nosso sistema inteiro de estrutura e ministério da igreja estar tão longe do modelo bíblico. Nós o fizemos tão complexo que, de fato, somente algumas pessoas super-humanas podem sobreviver as suas demandas! “Deus nos livre de ter a igreja liderada por alguém sem uma faculdade teológica ou seminário!” outros dizem. “Esse líder sem treinamento pode levar seu rebanho a heresias!” Essa aparentemente não era a preocupação de Paulo. O fato é que hoje temos líderes treinados por seminários e faculdades teológicas que não acreditam no nascimento virginal, aprovam a homossexualidade, ensinam que Deus quer que todos dirijam um automóvel de luxo, dizem que Deus 25


predestinou algumas pessoas para serem condenadas, ou dizem sem vacilar que é possível receber a vida eterna sem obedecer a Cristo. As faculdades teológicas e seminários modernos têm várias vezes servido para promover falsas doutrinas, e os líderes profissionais têm servido para levá-las adiante. Os “leigos” da igreja têm medo de contestá-los, porque os profissionais foram para seminários e podem encontrar mais “textos-prova.” Além do mais, esses líderes têm definido e dividido suas igrejas do resto do corpo de Cristo usando suas doutrinas peculiares, a ponto de colocar essas diferenças nos nomes que colocam nas placas na frente dos prédios de suas igrejas, mandando uma mensagem para o mundo: “Nós não somos como aqueles outros cristãos.” Para piorar a situação, eles se referem a qualquer um que discorde de suas doutrinas incontestáveis e divisórias como “causadores de divisão.” A Inquisição ainda está à tona, liderada por homens com diplomas. É esse o exemplo que Jesus quer dar usando aqueles que deviam estar fazendo discípulos que são conhecidos pelo mundo por seu amor uns pelos outros? Os cristãos agora escolhem igrejas baseando-se em doutrinas particulares, e ter a teologia certa se tornou mais importante que ter o estilo de vida certo, tudo porque um modelo bíblico foi abandonado.

Uma Alternativa Bíblica Eu estarei ajudando a causa se der a convertidos de apenas três meses a liderança de uma igreja (a mesma coisa que Paulo fez)? Sim, mas somente se esses convertidos preencherem os requisitos bíblicos para presbíteros/bispos, e só se forem dados como líderes a igrejas que seguem um modelo bíblico. Isso é, a igreja deve ser primeiramente recém-plantada, submetida a um ministrofundador maduro, como um apóstolo, que possa supervisioná-la.[3] Desse modo, líderes recémapontados não estarão completamente sozinhos. Segundo, as congregações devem ser pequenas o suficiente para se reunirem em casas, como a igreja primitiva.[4] Isso torna as igrejas mais manejáveis. É provavelmente por isso que um dos requisitos para presbíteros/bispos é que governem bem suas próprias famílias (veja Tm. 3:4-5). Administrar uma pequena “família da fé” não é muito mais desafiador que administrar uma família. Terceiro, a congregação deve consistir de pessoas que responderam em arrependimento ao evangelho bíblico, e que são, assim, discípulos genuínos do Senhor Jesus Cristo. Isso elimina todos os desafios que surgem ao tentar pastorear ovelhas que são, na verdade, bodes. E quarto, os pastores/presbíteros/bispos devem seguir seus papéis bíblicos ao invés dos papéis culturais. Isso é, eles não devem se posicionar no centro como astros, como fazem na maioria das igrejas modernas.[5]Ao invés disso, eles devem ser somente parte do corpo, servos humildes que ensinam pelo exemplo e preceito, que têm o objetivo de fazer discípulos, não por serem oradores aos domingos de manhã, mas por seguirem os métodos de Jesus. Quando esse padrão é seguido, então alguns convertidos de três meses podem administrar igrejas.

Prédios da Igreja E os prédios da igreja? Eles são outro “essencial” moderno que a Igreja primitiva passou muito bem sem. Eles ajudam o processo de fazer discípulos? Quando eu era pastor, várias vezes me sentia mais como um corretor, banqueiro, contratante geral e um levantador de fundos profissional. Eu já sonhei com prédios, procurei por prédios, remodelei prédios velhos, aluguei prédios, construí prédios novos e os reformei quando Deus mandou chuva pelas rachaduras. Prédios consomem muito tempo e energia. O motivo de eu ter feito tantas coisas que giravam ao redor de prédios é que eu tinha certeza, como a maioria dos pastores, que não havia outra forma de obter sucesso sem um prédio, um lugar para a igreja se reunir. 26


Prédios também consomem dinheiro, muito dinheiro. (Nos Estados Unidos, algumas congregações consomem dezenas de milhões de dólares em seus prédios.) Depois de meus sonhos de ter prédios serem alcançados, eu sonhava várias vezes com o dia em que as hipotecas dos meus prédios seriam pagas, para que pudéssemos usar todo esse dinheiro para o ministério. Uma vez me ocorreu, enquanto eu ensinava minha congregação sobre boa mordomia e sair de dívidas, que eu tinha posto todos nós em dívidas! (Eu com certeza estava ensinando pelo exemplo.) A maioria dos prédios de igrejas é usada por umas duas horas, uma ou duas vezes por semana. Que outra organização no mundo inteiro constrói prédios que serão usados tão pouco? (Resposta: apenas seitas e falsas religiões.) Esse buraco de sugar dinheiro causa muitos problemas. Um pastor com um prédio sempre precisa de um fluxo de dinheiro, e isso afeta o que ele faz. Ele é tentado a atender aos ricos (os quais várias vezes dão sem nenhum sacrifício), a comprometer qualquer ensinamento que possa ofender alguém e a torcer as Escrituras para servir seu propósito. Seus sermões gravitam em assuntos que não prejudiquem o fluxo de dinheiro, mas encorajem seu aumento. Por causa disso, alguns cristãos, às vezes, chegam a pensar que os aspectos mais importantes de ser crente são (1) dar o dízimo (que a propósito, Jesus disse que é um mandamento menor) e (2) ir à igreja (onde os dízimos são recolhidos todos os domingos). Essa dificilmente é uma ilustração da formação de discípulos. Ainda assim, muitos pastores sonham em ter congregações onde todos fizessem somente essas duas coisas. Se um pastor tivesse uma congregação onde só a metade das pessoas fizesse essas coisas, ele poderia escrever livros e vender seus segredos para milhares de outros pastores! Os fatos revelam isto: Não há registro de nenhuma congregação comprando ou construindo um prédio no livro de Atos. A maioria das vezes, os crentes reuniam-se regularmente em casas.[6] Nunca houve uma coleta para a construção de prédios. Não há instruções nas epístolas para a construção de prédios. Além disso, ninguém pensou em construir uma igreja até que o cristianismo atingisse 300 anos, quando a igreja se uniu ao mundo debaixo do decreto de Constantino. Trezentos anos! Pense em quanto tempo isso é! E a igreja floresceu e se multiplicou espontaneamente, mesmo durante tempos de perseguição intensa, tudo isso sem prédios. Tal fenômeno tem se repetido muitas vezes nos séculos que se seguiram. Tem acontecido na China recentemente. Provavelmente existem mais de um milhão de igrejas nos lares na China.

Domingo às Nove Horas é a Hora de maior Segregação É esperado que instalações de igrejas modernas que imitam o modelo americano tenham, no mínimo, espaço dividido o suficiente para prover salas separadas para ministérios e para grupos de todas as idades. Contudo, na igreja primitiva a ideia de ministérios especiais separados para homens, mulheres e crianças de todas as idades era desconhecida. A igreja era unida em todos os sentidos, e não fragmentada em todos os sentidos. A unidade familiar era mantida, e a responsabilidade espiritual dos pais era reforçada pela estrutura da igreja, ao invés de corroída por ela como tem acontecido na estrutura da igreja moderna. Um prédio de igreja contribui ou atrapalha na formação de discípulos? Historicamente, a formação de discípulos pelos séculos obteve maior sucesso sem eles, e por muitos bons motivos. Reunir em lares, como a igreja primitiva fez pelos primeiros três séculos, onde uma refeição cheia de alegria, ensinamentos, músicas e dons espirituais eram compartilhados provavelmente de três a cinco horas, proporcionou um ambiente para o crescimento espiritual genuíno dos crentes. Membros do corpo de Cristo se sentiam participantes, enquanto sentavam-se frente a frente, ao invés de como a audiência nas igrejas modernas se sente — como espectadores em um teatro, sentados olhando para a nuca dos outros, enquanto tentam não perder nada do show no palco. A atmosfera casual de uma refeição comum levou a transparência, a relacionamentos com uma preocupação autêntica e à comunhão verdadeira, que não tem comparação à “comunhão” moderna, que muitas vezes não passa de apertos de mão com os estranhos do próximo banco quando o pastor manda. 27


Os ensinamentos eram mais uma sessão de perguntas e respostas e discussões abertas entre iguais, ao invés de sermões dados por aqueles que usam roupas chiques, falam com vozes teatrais e ficam em um lugar mais alto que a educada (e várias vezes entediada) audiência. Os pastores não “preparavam um sermão semanal.” Qualquer um (com certeza incluindo os presbíteros/pastores/bispos) podia receber um ensinamento dado pelo Espírito Santo. Quando uma casa ficava lotada, os diáconos não pensariam em obter um prédio maior. Ao invés disso, todos sabiam que tinham que se dividir em duas casas, e era só um problema de tempo para encontrar o querer do Espírito em relação a onde a nova reunião deveria acontecer e quem deveria administrá-la. Felizmente, eles não precisavam recolher currículos de estranhos e de teólogos de crescimento de igreja para examinar minuciosamente seu ponto de vista filosófico ou doutrinário. Já havia líderes entre eles, que tinham treinamento no trabalho e já conheciam os membros de seu futuro pequeno rebanho. Aquela nova igreja no lar tinha a oportunidade de lançar o evangelho em uma nova área, e demonstrar para os descrentes o que os cristãos eram — pessoas que se amavam. Eles podiam convidar os incrédulos para as reuniões tão facilmente como para as refeições.

O Pastor Abençoado Nenhum pastor/presbítero/bispo de igreja no lar sofria com o “esgotamento” ministerial por estar sobrecarregado de responsabilidades pastorais, algo que tem se espalhado na igreja moderna. (Um estudo mostrou que 1.800 pastores por mês têm deixado o ministério nos E.U.A.) Ele só tinha um pequeno rebanho para cuidar, e se esse rebanho suprisse suas necessidades financeiras para que o ministério fosse sua vocação, ele até tinha tempo para orar, meditar, pregar para os ímpios, ajudar os pobres, visitar e orar pelos doentes e gastar tempo de qualidade equipando novos discípulos para fazer todas essas coisas com ele. A administração da igreja era simples. Ele trabalhava em uníssono com os outros presbíteros/pastores/bispos de sua região. Não havia disputas para ter “a maior igreja da cidade” ou competição entre pastores para ter “o melhor ministério de jovens” ou o programa “mais animado para crianças.” As pessoas não iam para as reuniões da igreja para julgar como a equipe de louvor tocou ou se o pastor tinha sido engraçado. Eles tinham nascido de novo e amavam Jesus e Seu povo. Eles amavam comer juntos e compartilhar os dons que Deus tinha lhes dado. Seu objetivo era obedecer a Jesus e estar pronto para comparecer ao Seu julgamento. Com certeza, havia problemas nas igrejas nos lares, e estas estão enfocadas nas epístolas. Mas vários dos problemas, que inevitavelmente atormentam as igrejas modernas e atrapalham a formação de discípulos, eram desconhecidos da igreja primitiva, simplesmente porque seu modelo de igreja local era muito diferente do que evoluiu depois do terceiro século e desde a idade das trevas. Novamente, pense nesse fato: Não havia prédios de igrejas até o começo do quarto século. Se você tivesse vivido durante os primeiros três séculos, qual seria a diferença do seu ministério para o de agora? Resumindo, quanto mais nos aproximarmos dos padrões bíblicos, maior será nossa efetividade em alcançar o objetivo de Deus de fazer discípulos. O maior empecilho na formação de discípulos nas igrejas hoje se origina de estruturas e práticas não-bíblicas.

[1] Parece bem claro que um pastor (o substantivo Grego é poimain, que significa pastor de ovelhas) é equivalente a um presbítero (o substantivo Grego presbuteros), e também é equivalente a bispo (o substantivo grego episkopos). Paulo, por exemplo, instruiu os presbíteros efésios (presbuteros), a quem ele disse que Deus tinha feito bispos (episkopos), para pastorear (o verbo grego poimaino) o rebanho de Deus (veja At. 20:28). Ele também usou os termos presbíteros (presbuteros) e bispos (episkopos) como sinônimos em Tt. 1:5-7. Pedro também exortou os presbíteros (presbuteros) a pastorear (poimaino) o rebanho (veja 1 Pd. 5:1-2). A ideia de 28


que um bispo (episkopos) tem um cargo mais alto que o de um pastor ou presbítero, e que ele fiscaliza várias igrejas é invenção humana. [2] A ênfase moderna nos líderes profissionalmente treinados é de várias formas um sintoma de uma doença maior, aquela que iguala o ganho de conhecimento ao crescimento espiritual. Nós pensamos que a pessoa que sabe mais é mais madura espiritualmente, enquanto na verdade pode ser menos, já que tem tanto orgulho do que tem aprendido. Paulo escreveu, “conhecimento traz orgulho” (1 Co. 8:1). E com certeza a pessoa que escuta palestras entediantes todos os dias por dois ou três anos está preparada para dar sermões semanais entediantes! [3] Na primeira carta de Paulo a Timóteo e em sua carta para Tito ele menciona deixá-los para apontar presbíteros/bispos a igrejas. Então, Timóteo e Tito teriam supervisionado esses presbíteros/bispos por algum tempo. Eles teriam, provavelmente, se encontrado periodicamente com os presbíteros/bispos para discipulá-los, como Paulo escreveu: “E as palavras que me ouviu dizer na presença de muitas testemunhas, confie-as a homens fiéis que sejam também capazes de ensinar outros” (2 Tm. 2:2). [4] Veja At. 2:2, 46; 5:42; 8:3; 12:12; 16:40; 20:20; Rm. 16:5; 1 Co. 16:19; Cl. 4:15; Fm. 1:2; 2 Jo. 1:10 [5] É notável que as cartas de Paulo às igrejas são endereçadas para todos nas várias igrejas, e não para os diáconos ou bispos. Em somente duas de suas cartas às igrejas ele menciona os presbíteros/pastores/bispos. Em um momento eles estão incluídos na saudação, adicionados como se Paulo não quisesse que eles se sentissem excluídos (veja Fp. 1:1). Em outro momento Paulo menciona pastores em uma lista de ministros que equipam os santos (veja Ef. 4:11-12). Também é especialmente notável como Paulo não menciona o papel dos presbíteros enquanto dá certas instruções que pensaríamos envolve-los, como a administração da ceia, e a resolução de conflitos entre cristãos. Tudo isso aponta para o fato que presbíteros/pastores não eram centralizados com o papel de importância que eles têm na maioria das igrejas modernas. [6] Veja At. 2:2, 46; 5:42; 8:3; 12:12; 16:40: 20:20; Rm. 16:5; 1 Co. 16:19; Cl. 4:15; Fm. 1:2; 2 Jo. 1:10

Capítulo Quatro

Igrejas nos Lares Várias vezes, quando as pessoas escutam sobre igrejas nos lares pela primeira vez, imaginam erroneamente que as únicas diferenças entre igrejas nos lares e igrejas institucionais são seu tamanho e suas habilidades relativas a cuidar de “ministérios.” Às vezes, acham que a igreja no lar não pode oferecer a qualidade de ministério dada por igrejas com prédios. Mas, se uma pessoa definir ministério como aquilo que contribui na formação de discípulos, ajudando-os a se tornarem mais como Cristo e equipando-os para o serviço, então igrejas institucionais não ganham vantagem, e como mostrei no capítulo anterior, elas podem estar em desvantagem. Com certeza igrejas nos lares não podem oferecer a qualidade de atividades das igrejas institucionais, mas podem se sobressair ao oferecer o ministério verdadeiro. Algumas pessoas rejeitam igrejas nos lares como se não fossem de verdade, simplesmente por não terem prédios. Se essas pessoas tivessem vivido nos primeiros trezentos anos da Igreja, teriam rejeitado todas as igrejas do mundo por não serem de verdade. O fato é que Jesus declarou, “Pois onde se reunirem dois ou três em meu nome, ali eu estou no meio deles” (Mt. 18:20). Jesus não disse onde os crentes deveriam se reunir. E mesmo que, somente dois crentes se reúnam, Ele prometeu estar presente se o fizerem em Seu nome. O que muitas vezes os discípulos de Cristo fazem 29


em restaurantes, compartilhando uma refeição e fazendo um intercâmbio de verdades, ensinando e admoestando uns aos outros, é na verdade mais próximo ao modelo de reuniões da Igreja do Novo Testamento do que acontece em muitos prédios de igrejas aos domingos de manhã. No capítulo anterior, eu enumerei algumas vantagens que igrejas nos lares têm sobre as igrejas institucionais. Gostaria de começar esse capítulo enumerando mais alguns motivos do por quê o modelo de igreja nos lares é uma alternativa bíblica muito válida que pode ser bem efetiva em alcançar o objetivo de fazer discípulos. Contudo, deixe-me afirmar primeiramente que meu objetivo não é atacar igrejas institucionais ou seus pastores. Existem multidões de pastores sinceros de igrejas institucionais que estão fazendo tudo o que podem dentro de suas estruturas para agradar ao Senhor. Eu ministro a milhares de pastores institucionais todos os anos, e os amo e estimo muito. Eles estão entre as pessoas mais admiráveis do mundo. E é porque eu sei quão incrivelmente difícil é o seu trabalho que quero apresentar uma alternativa que irá ajudá-los a sofrerem menos casualidades e a serem mais efetivos e felizes ao mesmo tempo. O modelo de igreja nos lares é bíblico e se empresta à formação efetiva de discípulos e à expansão do Reino de Deus. Tenho quase certeza que a grande maioria de pastores institucionais seria muito mais feliz, eficaz e realizada se ministrasse em igrejas nos lares. Fui pastor institucional por mais de vinte anos e fiz o meu melhor com o que sabia. Mas foi só depois de muitos meses visitando várias igrejas aos domingos de manhã que tive o primeiro vislumbre do que é ir à igreja como um mero “leigo.” Isso abriu meus olhos, e comecei a entender porque tantas pessoas são tão desanimadas para ir à igreja. Como quase todo mundo, menos o pastor, eu ficava lá sentado educadamente esperando o culto acabar. Quando acabava eu podia pelo menos interagir com outros como participante ao invés de como um espectador entediado. Essa experiência foi um entre vários catalisadores que me fizeram pensar em uma alternativa melhor, e comecei minha pesquisa no modelo de igrejas nos lares. Fiquei surpreso ao descobrir que existem milhões de igrejas nos lares por todo o mundo e concluí que elas têm algumas boas vantagens sobre igrejas institucionais. Muitos dos pastores que leem esse livro não estão dirigindo uma igreja no lar, e sim uma igreja institucional. Sei que muito do que escrevi pode ser difícil para aceitarem, já que parece tão radical de início. Mas peço que deem um tempo para contemplar o que tenho a dizer, e não espero que concordem com tudo depois de uma noite. É para pastores que tenho escrito, motivado pelo amor por eles e por suas igrejas.

O Único Tipo de Igreja na Bíblia Antes de qualquer coisa, igrejas institucionais que se reúnem em prédios especiais não são encontradas no Novo Testamento, uma vez que igreja nos lares era claramente a norma da igreja primitiva: Percebendo isso, ele se dirigiu à casa de Maria, mãe de João, também chamado Marcos, onde muita gente se havia reunido e estava orando (At. 12:12, ênfase adicionada). …não deixei de pregar-lhes nada que fosse proveitoso, mas ensinei-lhes tudo publicamente [e não em prédios de igrejas, obviamente] e de casa em casa...(At. 20:20, ênfase adicionada) Saúdem Priscila e Áquila… Saúdem também a igreja que se reúne na casa deles (Rm. 16:3-5, ênfase adicionada; veja também Romanos 16:14-15 para menção de outras duas prováveis igrejas em lares em Roma). As igrejas da província da Ásia enviam-lhe saudações. Áquila e Priscila os saúdam afetuosamente no Senhor, e também a igreja que se reúne na casa deles (1 Co. 16:19, ênfase adicionada). Saúdem os irmãos de Laodiceia, bem como Ninfa e a igreja que se reúne em sua casa (Cl. 4:15, ênfase adicionada). Á irmã Áfia, a Arquipo, nosso companheiro de lutas, e à igreja que se reúne com você em sua casa...(Fm. 1:2, ênfase adicionada). 30


Tem sido argumentado que o único motivo da igreja primitiva não ter construído prédios é porque ainda estava na sua infância. Mas essa infância durou um bom número de décadas de história registrada no Novo Testamento (e mais dois séculos depois disso). Então, se a construção de prédios é sinal de maturidade da igreja, a igreja dos apóstolos, sobre as quais lemos no livro de Atos, nunca amadureceu. Sugiro que a razão pela qual nenhum dos apóstolos construiu prédio é porque tal coisa seria, no mínimo, considerada fora da vontade de Deus, já que Jesus não deixou tal exemplo ou instrução. Ele fez discípulos sem prédios especiais e disse aos Seus discípulos para fazerem discípulos. Eles não viram necessidade alguma de prédios especiais. É simples assim. Quando Jesus disse aos Seus discípulos para irem a todo o mundo e fazer discípulos, eles não pensaram: “O que Jesus quer que façamos é construir prédios, onde pregaremos para as pessoas uma vez por semana.” Além disso, a construção de prédios especiais poderia até ser considerada uma violação direta do mandamento de Cristo de não acumular tesouros na terra, gastando dinheiro em algo completamente desnecessário, e roubando recursos do Reino de Deus que poderiam ter sido usados para o ministério de transformação.

Mordomia Bíblica Isso nos leva à segunda vantagem que igrejas nos lares tem sobre igrejas institucionais: o modelo de igreja no lar promove a mordomia total dos recursos de seus membros, que certamente é um aspecto extremamente importante do discipulado.[1] Nenhum dinheiro é gasto na construção, compra, aluguel, reforma, expansão, reparo, aquecimento ou refrigeração de prédios. Consequentemente, o que seria gasto nos prédios pode ser usado para alimentar e vestir os pobres, espalhar o evangelho e fazer discípulos, assim como no livro de Atos. Pense no bem que poderia ser feito pelo Reino de Deus se os bilhões de dólares gastos em prédios de igrejas tivessem sido usados para espalhar o evangelho e servir aos pobres. É quase inimaginável! Mais adiante, igrejas nos lares que consistem de não mais de vinte pessoas poderiam ser dirigidas por diáconos/pastores/bispos “fazedores de tendas” (ou seja, “não pagos”), uma possibilidade real quando existe um bom número de crentes maduros na igreja no lar. Tais igrejas praticamente não requereriam dinheiro para funcionar. É claro, a Bíblia parece indicar que os diáconos/pastores/bispos devem ser pagos em proporção ao seu trabalho, então aqueles que dedicam todo o seu tempo ao ministério devem receber por tempo integral (veja 1 Tm. 5:17-18). Dez assalariados que dizimam em uma igreja no lar podem sustentar um pastor com um padrão médio. Cinco dizimistas em uma igreja no lar podem custear um pastor para dedicar metade de sua semana de trabalho para o ministério. Seguindo o modelo de igrejas nos lares, o dinheiro que seria usado em prédios é liberado para sustentar pastores, e assim os pastores institucionais não devem pensar que a proliferação de igrejas nos lares ameaça a segurança de seu trabalho. Ao invés disso, significa que muitos outros homens e mulheres podem realizar o desejo que Deus tem colocado em seus corações de servi-Lo no ministério vocacional.[2] Isso, por sua vez, ajudaria a alcançar o alvo de fazer discípulos. Mais adiante, uma igreja no lar com vinte dizimistas poderia, potencialmente, dar metade de seu dinheiro para missões e para os pobres.[3] Se uma igreja institucional se transformasse em uma rede de igrejas nos lares, as pessoas que poderiam perder seus trabalhos pagos seriam o corpo administrativo e a equipe de suporte aos programas e talvez alguns membros de equipes com ministérios especiais (por exemplo o ministério de crianças e o de jovens em igrejas maiores) que não estivessem dispostos a trocar esses ministérios, que têm pouca base bíblica, por ministérios que têm. Igrejas nos lares não precisam de ministérios infantil e jovem, pois a Bíblia dá essa responsabilidade aos pais, e as pessoas em igrejas nos lares geralmente se esforçam para seguir a Bíblia ao invés das normas do cristianismo cultural. Jovens crentes que não tem pais crentes podem ser incorporados a igrejas nos lares e discipulados assim como são incorporados 31


em igrejas institucionais. Será que alguém se pergunta por que o Novo Testamento não menciona “pastores de jovens” ou “pastores de crianças?” Tais ministérios não existiram pelos primeiros 1900 anos de cristianismo. Por que eles são repentinamente essenciais agora, e principalmente em países ocidentais ricos?[4] Finalmente, nas nações mais pobres em particular, os pastores veem que é impossível alugar ou possuir prédios sem serem ajudados por cristãos ocidentais. As consequências não desejáveis dessa dependência são várias. Contudo, o fato é que por 300 anos esse problema não existiu no cristianismo. Se você é pastor de uma congregação que não pode ter um prédio, em uma nação em desenvolvimento, não precisa bajular um visitante americano na esperança de descobrir ouro. Deus já resolveu seu problema. Você não precisa de um prédio para fazer discípulos com sucesso. Siga o modelo bíblico.

O Fim de Famílias Fragmentadas Outra vantagem de igrejas nos lares é esta: elas se sobressaem em discipular crianças e adolescentes. Uma das maiores traições cometidas pelas igrejas institucionais hoje (especialmente as grandes nos Estados Unidos) é que providenciam ministérios maravilhosos para crianças e jovens. Mesmo assim, escondem o fato que a grande maioria das crianças que experimentam anos de diversão indo aos seus programas empolgantes para crianças e jovens, nunca volta à igreja depois de “sair do ninho.” (Pergunte a qualquer pastor de jovens pelas estatísticas — ele deve conhecê-las.) Adicionalmente, igrejas que têm pastores de jovens e pastores de crianças promovem uma artificialidade para os pais, dizendo que não são capazes ou não são responsáveis pelo treinamento espiritual de seus filhos. Novamente, “Nós tomaremos conta do treinamento espiritual de seus filhos. Nós somos os profissionais treinados.” O sistema como está cria o fracasso, pois cria um ciclo cada vez maior de compromisso. Ele começa com pais que estão procurando por igrejas que seus filhos gostem. Se o adolescente “Joãozinho” diz, na ida para casa, que se divertiu na igreja, os pais ficam emocionados, porque igualam o “Joãozinho” se divertir na igreja com o “Joãozinho” estar interessado em coisas espirituais. Muitas vezes estão muito errados. Pastores titulares dirigidos pelo sucesso querem que suas igrejas cresçam; então, pastores de crianças e jovens saem das reuniões sentindo-se pressionados a criarem programas “relevantes” e que as crianças achem divertidos. (“Relevante” é sempre secundário a “divertido,” e “relevante” não significa necessariamente, “leve as crianças a se arrependerem, acreditarem e obedecerem aos mandamentos de Jesus.”) Se as crianças gostarem do programa, pais ingênuos retornarão (com seu dinheiro), e a igreja crescerá. O sucesso dos cultos de jovens em particular, é medido pelo número de comparecimento. Pastores de jovens fazem de tudo para lotar o lugar, e isso também significa muitas vezes comprometer a espiritualidade genuína. Tenha pena do pastor que ouve relatórios de que pais estão reclamando para o pastor titular que seus filhos não estão gostando de seus sermões chatos e condenatórios. Mas que bênção os pastores de jovens poderiam ser no corpo de Cristo se eles se tornassem líderes de igrejas nos lares. Normalmente, eles já têm uma ótima habilidade relacional, possuem zelo jovial e nenhuma falta de energia. Muitos só são pastores de jovens porque esse é o primeiro passo requerido para gradualmente adquirirem as habilidades super-humanas requeridas para a sobrevivência de serem pastores titulares. A maioria é mais que capaz de pastorear uma igreja. O que eles têm feito no culto de jovens pode bem ser mais perto do modelo bíblico da igreja do que o que está acontecendo no santuário principal! O mesmo pode ser dito de pastores de crianças, que podem estar milhas a frente da maioria de pastores titulares em serem capazes de servir em igrejas nos lares, onde todos, incluindo as crianças, se sentam em um pequeno círculo, participando e até comendo juntos. 32


Crianças e adolescentes são naturalmente melhor discipulados em igrejas nos lares, já que experimentam a verdadeira comunidade cristã e têm oportunidades de participar, fazer perguntas e se relacionar com pessoas de outras idades, tudo como parte da família cristã. Em igrejas institucionais eles são continuamente expostos a grandes shows e a aprendizados “divertidos,” experimentam muito pouca da verdadeira comunhão, são várias vezes conscientizados da hipocrisia impregnada, e assim como na escola, só aprendem a se relacionar com seus amigos. Mas em reuniões de todas as idades, o que acontece com os bebês que choram ou criancinhas que não conseguem ficar quietas? Eles sempre devem ser aproveitados, e passos práticos podem ser tomados para cuidar deles quando problemas surgirem. Podem, por exemplo, ser levados para outra sala para serem entretidos, ou desenhar com lápis e giz de cera sentados no chão. Na comunidade de uma igreja no lar, os bebês e crianças não são problemas que devem ser deixados no berçário cuidados por estranhos. Eles são amados por todos em sua grande família. Um bebê que começa a chorar em uma igreja institucional é quase sempre um incomodo para a formalidade do culto e uma vergonha para os pais, que podem sentir os olhares de reprovação de estranhos. Um bebê que começa a chorar em uma igreja no lar está cercado por sua família, e ninguém se importa com isso, pois é um lembrete que um dom de Deus está em seu meio, uma criança que todos seguram no colo. Pais que tem filhos descontrolados podem ser gentilmente ensinados por outros pais sobre o que precisam saber. Novamente, crentes têm relacionamentos bondosos e genuínos. Eles não estão fofocando uns sobre os outros como é tantas vezes o caso em uma igreja institucional. Eles se conhecem e se amam.

Pastores Felizes Depois de ter pastoreado igrejas por duas décadas, falado a dezenas de milhares de pastores ao redor do mundo e ter muitos pastores como amigos pessoais, acho que posso dizer que sei algo sobre as demandas de pastorear uma igreja moderna. Como todo pastor de igreja institucional, experimentei o “lado negro” do ministério. E pode ser bem negro às vezes. De fato, brutal pode ser uma palavra melhor para descrevê-lo. As expectativas que a maioria dos pastores encontra, criam naturalmente estresses horríveis que às vezes arruínam relacionamentos dentro de suas próprias famílias. Pastores são desencorajados por vários motivos. Eles devem ser políticos, juízes, empregadores, psicólogos, diretores de atividades, mestres-de-obras, conselheiros matrimoniais, pregadores públicos, gerentes, leitores de mentes e administradores. Muitas vezes se encontram em competição acirrada com outros pastores para ganhar uma fatia maior do corpo de Cristo. Eles têm pouco tempo para a disciplina espiritual pessoal. Muitos se sentem presos em seus ministérios e são mal pagos. Suas congregações são seus clientes e seus patrões. Algumas vezes esses patrões e clientes podem dificultar bastante a vida. Em comparação, é mais fácil para o pastor da igreja no lar. Primeiro, se ele leva uma vida exemplar de verdadeiro discípulo e ensina obediência inflexível aos mandamentos de Jesus, poucos bodes terão interesse em fazer parte desse grupo. Na verdade, o fato de se reunirem em casas é provavelmente o suficiente para mantê-las longe. Então, ele terá, em sua maioria, ovelhas para pastorear. Segundo, ele pode amar e discipular todas as suas ovelhas em uma base pessoal, pois só tem de doze a vinte adultos para liderar. Ele pode desfrutar de uma proximidade real com eles, já que é como o pai de uma família. Pode dar a eles o tempo que merecem. Lembro de quando era pastor institucional. Sentia-me sozinho frequentemente. Não podia me aproximar de ninguém em minha congregação, para que os outros não ficassem ressentidos por não os incluir em meu círculo fechado de amigos ou não ficassem com inveja daqueles dentro desse círculo. Eu ansiava pela proximidade genuína com outros crentes, mas não arriscava o preço em potencial de ganhar verdadeiros amigos. 33


Na família unida da igreja no lar, os membros naturalmente ajudam a manter o pastor responsável, já que ele é um amigo íntimo e não um ator no palco. O pastor de igrejas nos lares pode gastar tempo formando líderes de futuras igrejas nos lares, para que quando chegue a hora de multiplicar, os líderes estejam prontos. Ele não precisa assistir seus futuros líderes mais promissores levarem seus dons da igreja para uma escola bíblica em outro lugar. Ele também pode ter tempo para desenvolver outro ministério fora de sua congregação local. Talvez possa ministrar em prisões, asilos ou se envolver em evangelismo um a um com refugiados ou empresários. Dependendo de sua experiência, pode dedicar parte de seu tempo para o plantio de mais igrejas nos lares, ou ser mentor de outros jovens pastores de igrejas nos lares que cresceram debaixo de seu ministério. Ele não sente a pressão de ser um artista no domingo de manhã. Nunca precisa preparar um sermão com três pontos em um sábado à noite, se perguntando como é possível que ele satisfaça tantas pessoas que estão em tantos níveis de crescimento espiritual diferentes.[5] Ele pode se encantar vendo o Espírito Santo usar a todos nas reuniões e encorajá-los a usar seus dons. Pode faltar às reuniões e tudo correr bem, mesmo sem ele. Ele não tem um prédio para distraí-lo e nem empregados para gerenciar. Não tem motivo para competir com outros pastores locais. Não existe “liderança da igreja” para fazer sua vida miserável e pela qual discussões políticas se tornam comuns. Resumindo, ele pode ser o que foi chamado por Deus para ser, e não o que foi imposto sobre ele pelo cristianismo cultural. Ele não é o ator principal, o presidente da companhia ou o centro do centro. É um fazedor de discípulos, alguém que equipa os santos.

Ovelhas Felizes Tudo na bíblica e verdadeira igreja nos lares é o que verdadeiros crentes desejam e desfrutam. Todos verdadeiros crentes anseiam por relacionamentos genuínos com outros crentes, porque o amor de Deus foi esparramado em seus corações. Tais relacionamentos são parte da vida da igreja nos lares. É ao que a Bíblia se refere de comunhão, o compartilhamento genuíno de uma vida com outros irmãos e irmãs. Igrejas nos lares criam um ambiente onde crentes podem fazer o que devem fazer, que é encontrado nas muitas passagens “uns aos outros” do Novo Testamento. No ambiente de igrejas nos lares, crentes podem exortar, encorajar, edificar, confortar, ensinar, servir e orar uns pelos outros. Eles podem levar uns aos outros a amar e fazer as boas obras, confessar seus pecados uns aos outros, levar o fardo de outros e admoestar uns aos outros com salmos, hinos e cânticos. Eles podem chorar com aqueles que choram e se alegrar com aqueles que se alegram. Essas coisas não acontecem com muita frequência nos cultos de domingo de manhã nas igrejas institucionais, onde os crentes se sentam e assistem. Como um membro de igreja no lar me disse, “Quando alguém está doente em nosso corpo, eu não levo uma refeição para um estranho porque escolhi o ‘ministério de refeições.’ Naturalmente, levo uma refeição para alguém que conheço e amo.” Verdadeiros crentes gostam de interagir e se envolver uns com os outros. Sentar passivamente e ouvir a sermões irrelevantes ou redundantes ano após ano insulta sua inteligência e espiritualidade. Eles preferem ter a oportunidade de compartilhar seu ponto de vista a respeito de Deus e Sua Palavra, e igrejas nos lares dão essa oportunidade. Seguindo um modelo bíblico ao invés de um cultural, cada pessoa “tem um salmo ou uma palavra de instrução, uma revelação, uma palavra, uma língua ou uma interpretação” (1 Co. 14:26). Em igrejas nos lares ninguém fica perdido na multidão ou excluído por uma panelinha na igreja. Verdadeiros crentes desejam ser usados por Deus em serviço. Em uma igreja no lar, há oportunidade para todos serem usados para abençoar outros, e responsabilidades são divididas entre todos, para que ninguém experimente o esgotamento que é comum entre membros comprometidos 34


de igrejas institucionais. No mínimo, todos podem trazer comida para uma refeição comum, o que as Escrituras se referem como “festas de fraternidade” (Jd. 1:12). Para muitas igrejas nos lares, essa refeição segue o exemplo da ceia original, que era parte da refeição de Páscoa. A ceia não é, como um garotinho a chamou em uma igreja institucional que pastoreei, “o lanche santo de Deus.” A ideia de comer um pãozinho e beber um pouco de suco com estranhos durante alguns segundos em um culto é completamente estranha à Bíblia e às igrejas nos lares. O significado sacramental da ceia é ressaltado durante uma refeição compartilhada entre discípulos que se amam. Em uma igreja no lar, o louvor é simples, sincero e participativo, não uma apresentação. Verdadeiros crentes amam adorar a Deus em espírito e em verdade.

Balanço Doutrinário e Tolerância Em fóruns abertos e casuais de pequenas reuniões de igreja, todos ensinamentos podem ser examinados por qualquer um que possa ler. Irmãos e irmãs que se conhecem e se amam estão inclinados a considerar pontos de vista que diferem dos deles respeitosamente, e mesmo que o grupo não chegue a um consenso, o amor, e não a doutrina, os mantêm unidos. Qualquer ensinamento por qualquer pessoa no grupo, incluindo diáconos/pastores/bispos, está sujeito à examinação amorosa por qualquer outra pessoa, pois o Mestre mora em cada membro (veja 1 Jo. 2:27). As checagens e balanceamento do modelo bíblico ajudam a prevenir o desvio doutrinário. Esse é um bom contraste da norma em igrejas institucionais modernas, onde a doutrina da igreja é estabelecida desde o início e não pode ser desafiada. Consequentemente, más doutrinas permanecem por tempo indeterminado e a doutrina se torna o teste de tornassol de aceitação. Por essa mesma razão, um ponto em um único sermão pode resultar no êxodo imediato de dissidentes que pulam do barco para temporariamente encontrar alguns “crentes com as mesmas ideias.” Eles sabem que não faz sentido em mesmo conversar com o pastor sobre seus desacordos doutrinários. Mesmo que ele seja convencido a mudar seu ponto de vista, ele teria que escondê-lo de muitos na igreja assim como dos maiorais de sua denominação. Diferenças doutrinárias dentro de igrejas institucionais produzem pastores que são alguns dos políticos mais hábeis do mundo, oradores que falam em vagas generalidades e evitam qualquer coisa que resulte em controvérsias, levando todos a crer que ele está do seu lado.

Uma Tendência Moderna É interessante que cada vez mais igrejas institucionais desenvolvem pequenos grupos estruturais dentro de seus modelos institucionais, reconhecendo seu valor no discipulado. Algumas igrejas vão mais além, tendo como base de sua estrutura central, pequenos grupos, considerando-os como o aspecto mais importante de seu ministério. “Reuniões festivas” maiores são de segunda importância para os pequenos grupos (pelo menos em teoria). Esses são passos na direção certa, e Deus os abençoa já que Suas bênçãos sobre nós são proporcionais a nossa obediência a Sua vontade. De fato, “igrejas célula” são melhores estruturadas que igrejas institucionais padrões, para facilitar a formação de discípulos. Elas ficam entre o modelo de igreja institucionais e o modelo de igrejas nos lares, combinando elementos de ambos. Como igrejas institucionais modernas com pequenos grupos se comparam a igrejas nos lares modernas e antigas? Existem algumas diferenças. Por exemplo, infelizmente, às vezes pequenos grupos em igrejas institucionais servem para promover muitas coisas erradas dentro das igrejas, especialmente quando a verdadeira razão no começo de pequenos grupos é construir o reino da igreja do pastor titular. Ele consequentemente usa pessoas a sua própria vontade, e pequenos grupos se encaixam bem nesse plano. Quando isso ocorre, líderes de pequenos grupos são selecionados por sua lealdade à igreja mãe, e não podem ter muitos 35


dons ou ser muito carismáticos, se não o diabo enche suas cabeças de ideias que poderão adotar como sendo deles. Esse tipo de política prejudica a eficiência de pequenos grupos e, assim como qualquer outra igreja institucional, espanta os líderes ascendentes chamados por Deus para escolas bíblicas e seminários, roubando da igreja verdadeiros dons, e levando tais pessoas para lugares onde serão ensinados por palestras ao invés de discipulados no trabalho. Pequenos grupos em igrejas institucionais várias vezes viram pouco mais que simples grupos de comunhão. A formação de discípulos não acontece. Já que supostamente as pessoas estão sendo alimentadas no domingo de manhã, os pequenos grupos às vezes focam em outras coisas além da Palavra de Deus, não querendo uma repetição dos domingos de manhã. Pequenos grupos em igreja institucionais são geralmente organizados por um membro da liderança da igreja, ao invés de nascidos do Espírito. Eles se tornam mais um dentre os muitos programas da igreja. Pessoas são agrupadas baseadas na idade, status social, interesses, estado marital ou localização geográfica. Bodes são misturados à ovelhas. Toda essa organização mundana não ajuda os crentes a se amarem uns aos outros apesar de suas diferenças. Lembre-se que muitas igrejas primitivas eram uma mistura de judeus e gentios. Eles regularmente compartilhavam refeições, uma coisa proibida pela tradição judaica. Que experiência de aprendizado suas reuniões devem ter sido! Que oportunidades para andar em amor! Que testemunhos do poder do evangelho! Então, por que pensamos que precisamos dividir todos em grupos homogêneos para garantir o sucesso de pequenos grupos? Igrejas institucionais com pequenos grupos ainda têm performances de domingo de manhã, onde espectadores assistem à atuação de profissionais. Pequenos grupos não são permitidos se reunir quando cultos “de verdade” estão acontecendo, indicando a todos que os cultos institucionais são mais importantes. Por causa dessa mensagem, muitos, se não a maioria, dos presentes no domingo de manhã não se envolvem com um pequeno grupo mesmo se encorajado a fazê-lo, já que o veem como opcional. Eles estão satisfeitos pelo fato de estarem indo ao culto semanal mais importante. Então, o conceito de pequenos grupos pode ser promovido, sendo um pouco importante, mas não tão importante quanto o culto institucional de domingo. A melhor oportunidade de real comunhão, discipulado e crescimento espiritual é efetivamente subestimada. A mensagem errada é enviada. O culto institucional ainda é rei.

Mais Diferenças Igrejas institucionais com pequenos grupos ainda estão estruturadas como uma pirâmide, onde todos sabem seus lugares na hierarquia. As pessoas no topo podem se chamar “servos líderes,” mas frequentemente estão mais para diretores gerais, pois são responsáveis por fazer decisões executivas. Quanto maior é a igreja, maior é a distância entre o pastor e os membros de seu rebanho. Se ele for um pastor de verdade e você puder fazê-lo admitir a verdade quando baixar a guarda, ele provavelmente te dirá que era mais feliz quando pastoreava um rebanho menor. Similarmente, igrejas institucionais com pequenos grupos ainda promovem a divisão de laicidade sacerdotal. Líderes de pequenos grupos estão sempre em uma classe subordinada aos profissionais pagos. Lições de estudos bíblicos são frequentemente entregues ou aprovadas pelo clero, já que líderes de pequenos grupos não podem ser portadores de muita autoridade. Pequenos grupos não podem realizar ceia ou batismo. Essas tarefas sagradas são reservadas para a elite com os títulos e diplomas. Aqueles que são chamados para o ministério vocacional dentro do corpo devem ir a uma escola bíblica ou seminário para ser qualificado para o ministério “de verdade” e se juntar à elite. Pequenos grupos em igrejas institucionais são às vezes nada mais que mini cultos, que não duram mais que 60 a 90 minutos, onde uma pessoa dotada dirige o louvor e outra dá a lição aprovada. Há pouco espaço para o Espírito usar outros, distribuir dons ou desenvolver ministros.

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Ás vezes, as pessoas não estão seriamente comprometidas com os pequenos grupos em igrejas institucionais, aparecendo esporadicamente, e os grupos são designados para serem temporários, então, a profundidade da comunidade é menor que em igrejas nos lares. Pequenos grupos em igrejas institucionais se reúnem geralmente durante a semana para não encher o fim de semana com mais uma reunião. Consequentemente, um pequeno grupo que se reúne no meio da semana é normalmente limitado quanto ao tempo, tendo não mais que duas horas para aqueles que podem comparecer e “proibido” para aqueles que têm filhos que vão para a escola ou moram longe. Mesmo quando igrejas institucionais promovem o ministério de pequenos grupos, ainda há um prédio para gastar dinheiro. De fato, se o programa de pequenos grupos adiciona pessoas à igreja, ainda mais dinheiro é gasto em programações no prédio. Continuando, pequenos grupos organizados dentro de igrejas institucionais, várias vezes requerem pelo menos um líder pago. Isso significa mais dinheiro para mais um programa de igreja. Talvez, o pior de tudo, seja que pastores de igrejas institucionais com pequenos grupos são muito limitados na formação de discípulos pessoais. Eles ficam tão ocupados com suas muitas responsabilidades que encontram pouco tempo com o discipulado um a um. O mais próximo que podem chegar é discipular um pequeno grupo de líderes, mas mesmo isso é limitado a uma reunião por mês. Tudo isso é para dizer que, na minha opinião, igrejas nos lares são mais bíblicas e efetivas na formação e multiplicação de discípulos e discipuladores. Contudo, eu sei que minha opinião não vai mudar centenas de anos de tradição da igreja muito rápido. Então, eu encorajo pastores institucionais a fazerem algo na direção de mover suas igrejas a um modelo mais bíblico de formação de discípulos.[6] Eles podem considerar discipular pessoalmente futuros líderes ou iniciar o ministério de pequenos grupos. Podem ter um “domingo da igreja primitiva,” onde o prédio da igreja fica fechado, todos compartilham uma refeição nas casas e tentam se reunir como os cristão se reuniam pelos primeiros três séculos. Pastores que têm pequenos grupos em suas igrejas poderiam considerar a liberação de alguns desses grupos para formar igrejas nos lares e ver o que acontece. Se pequenos grupos são saudáveis e liderados por pastores/diáconos/bispos liderados por Deus, eles devem ser capazes de operar sozinhos. Não precisam da igreja mãe mais que qualquer jovem igreja não organizada precisa da igreja mãe. Por que não os liberar?[7] O dinheiro do membro que está indo para a igreja mãe pode manter o pastor da igreja no lar. O meu endosso de igrejas nos lares significa que não há nada bom nas igrejas institucionais? É claro que não! Quando vemos que discípulos que obedecem a Cristo estão sendo formados em igrejas institucionais, elas devem elogiadas. Suas práticas e estrutura, contudo, podem sim, estar prejudicando mais que ajudando a alcançar o alvo que Cristo colocou diante de nós, e são frequentemente assassinos de pastores.

O que Acontece em Reuniões de Igrejas nos Lares? As igrejas nos lares não precisam ser todas estruturadas igualmente, há espaço para bastante variação. Cada igreja no lar deve refletir sua própria cultura e pequenas diferenças sociais — uma razão das igrejas nos lares serem tão efetivas no evangelismo, especialmente em países que não têm uma tradição cultural cristã. Membros de igrejas nos lares não convidam seus vizinhos para irem a um prédio de igreja que lhes é completamente estranho onde seriam envolvidos em rituais totalmente desconhecidos — enormes obstáculos para conversas. Ao invés disso, convidam seus vizinhos para uma refeição com seus amigos. A refeição comum é geralmente um dos componentes mais importantes em uma igreja no lar. Para muitas igrejas essa refeição inclui ou é a ceia, e cada igreja no lar pode decidir como melhor trazer seu significado espiritual. Como previamente mencionado, a ceia original começou como uma refeição 37


da Páscoa que era cheia de significado espiritual. A celebração da ceia como uma refeição ou parte de uma refeição é o padrão aparentemente seguido pelos primeiros crentes. Lemos sobre os primeiros cristãos: Eles se dedicavam ao ensino dos apóstolos e à comunhão, ao partir do pão e às orações...Todos os dias, continuavam a reunir-se no pátio do templo. Partiam o pão em suas casas, e juntos participavam das refeições, com alegria e sinceridade de coração (At. 2:42,46, ênfase adicionada). Os primeiros cristãos estavam literalmente pegando, dividindo e compartilhando os pães, uma coisa que era feita praticamente em todas as refeições em sua cultura. Será que o partir do pão tinha algum significado espiritual para os primeiros cristãos? A Bíblia não diz com clareza. Contudo, William Barclay escreveu em seu livro The Lord´s Supper (A Ceia do Senhor) *, “Não há dúvidas que a ceia começou como uma refeição familiar ou uma refeição de amigos em uma casa...A ideia de um pedacinho de pão e um pequeno gole de vinho não tem relação alguma com a ceia original...A ceia era originalmente uma refeição familiar na casa de amigos.” É incrível que todos os eruditos modernos concordem com Barclay, mesmo assim, a igreja ainda segue a tradição ao invés da Palavra de Deus a esse respeito! Jesus ordenou a Seus discípulos que ensinassem seus discípulos a obedecerem a tudo o que Ele lhes tinha ordenado. Portanto, quando Ele ordenou que Seus discípulos comessem pão e bebessem vinho juntos em memória dEle, eles teriam ensinado seus discípulos a fazerem o mesmo. Isso poderia ser feito em refeições comuns? Com certeza, parece que é assim que era feito quando lemos algumas das palavras de Paulo aos coríntios: Quando vocês se reúnem [e ele não está falando de reuniões em prédios de igrejas, porque estes não existiam] não é para comer a ceia do Senhor, porque cada um come sua própria ceia sem esperar pelos outros. Assim enquanto um fica com fome, outro se embriaga (1 Co. 11:20-21, ênfase adicionada). Como essas palavras fariam sentido se Paulo estivesse falando sobre a ceia como é praticada em igrejas modernas? Você já ouviu do problema de alguém em um culto de igreja moderna que comeu sua própria ceia primeiro e de outro que ficou com fome enquanto outro ficou embriagado durante a ceia do Senhor? Tais palavras só fariam sentido se a ceia fosse realizada juntamente com a refeição. Paulo continua: Será que vocês não têm casa onde comer e beber? Ou desprezam a igreja de Deus [lembrem-se, Paulo não estava falando de um prédio, mas de uma reunião de pessoas, a igreja de Deus] e humilham os que nada têm? Que lhes direi? Eu os elogiarei por isso? Certamente que não (1 Co. 11:22)! Como pessoas que nada têm ficariam envergonhadas se o que fosse feito não estivesse no contexto de uma refeição? Paulo estava apontando para o fato de que alguns coríntios que chegavam mais cedo nas reuniões comiam suas próprias comidas sem esperar pelos outros. Quando alguns chegavam, que talvez fossem tão pobres que não levavam comida para compartilhar na refeição, eles ficavam com fome, como também envergonhados já que era tão óbvio que não tinham levado nada. Imediatamente depois disso, Paulo escreveu sobre a ceia, um sacramento que recebeu “do Senhor” (1 Co. 11:23), e recontou o que aconteceu na primeira ceia (veja 1 Co. 11:24-25). Então ele advertiu os coríntios contra tomar a ceia de maneira indigna, dizendo que se não se examinassem, iriam comer e beber para sua própria condenação em forma de fraqueza, doença e morte prematura (veja 1 Co. 11:26-32). Então, ele concluiu, Portanto, meus irmãos, quando vocês se reunirem para comer, esperem uns pelos outros. Se alguém estiver com fome, come em casa, para que, quando vocês se reunirem, isso não resulte em condenação (1 Co. 11:33-34). No contexto, a ofensa sendo cometida na ceia era em consideração a outros crentes. Paulo novamente advertiu que os que estavam comendo sua própria ceia primeiro ao invés de dividir na refeição, corriam perigo de serem julgados (ou disciplinados) por Deus. A solução era simples. Se alguém estivesse com tanta fome que não pudesse esperar pelos outros, ele deveria comer alguma 38


coisa antes de ir à reunião. E aqueles que chegassem mais cedo deveriam esperar por aqueles que chegassem mais tarde para a refeição, uma refeição que, aparentemente, incluía a ceia. Quando olhamos para a passagem inteira, parece claro que Paulo estava dizendo que se fosse a ceia do Senhor que estivesse sendo comida, ela teria que ser feita de um modo que fosse agradável ao Senhor, mostrando amor e consideração uns para com os outros. De qualquer modo, é claro como cristal que a igreja primitiva praticava a ceia como parte de uma refeição comum em casas sem um clero oficial. Por que nós não?

Pão e Vinho A natureza dos elementos da ceia do Senhor não é a coisa mais importante. Se nós precisamos nos esforçar para imitar a ceia original, teríamos que saber quais eram os ingredientes exatos do pão e o tipo exato de uvas do qual o vinho original era feito. (Durante os primeiros séculos alguns pais da igreja prescreveram estritamente que o vinho tinha que ser diluído em água, caso contrário a comunhão estaria sendo praticada impropriamente.) Pão e vinho eram alguns dos elementos mais comuns das refeições judias antigas. Jesus deu significância a duas coisas que eram incrivelmente comuns, comidas que praticamente todos consumiam todos os dias. Se Ele tivesse visitado outra cultura em outro tempo da história, a primeira ceia poderia ter sido constituída de queijo e leite de cabra, ou bolo de arroz e suco de abacaxi. Então, qualquer comida e bebida poderiam representar Seu corpo e sangue em uma refeição compartilhada entre Seus discípulos. A coisa mais importante é o significado espiritual. Não vamos nos esquecer do espírito da lei enquanto tentamos obedecer suas palavras! Não é necessário que uma refeição comum seja solene. Os primeiros cristãos, como já lemos, “Partiam o pão em suas casas...e juntos participavam das refeições, com alegria e sinceridade de coração” (At. 2:46, ênfase adicionada). Contudo, seriedade com certeza é apropriada durante a parte da refeição em que o sacrifício de Jesus é lembrado e os elementos consumidos. Auto avaliação é sempre apropriada antes de comer a ceia, como indicado pelas solenes palavras de advertência de Paulo à igreja de Corinto em 1 Coríntios 11:17-34. Qualquer transgressão do mandamento de Cristo de amar uns aos outros é um convite à disciplina de Deus. Todo e qualquer conflito e divisão deve ser resolvido antes da refeição. Todos os cristãos devem se examinar e confessar qualquer pecado, que seria o equivalente a “examine-se cada um a si mesmo,” usando as palavras de Paulo.

O Espírito Manifestado pelo Corpo A refeição pode acontecer antes ou depois de uma reunião onde louvor, ensinos e dons espirituais são compartilhados. Cada igreja no lar deve determinar seu formato, e formatos podem variar de reunião para reunião da mesma igreja no lar. As Escrituras deixam bem claro que as reuniões da igreja primitiva eram bem diferentes dos cultos de igrejas institucionais. 1 Coríntios 11-14, em particular, nos dá uma abundância de detalhes sobre o que acontecia quando a igreja primitiva se reunia, e não há razão para pensar que o mesmo formato não pode e não deve ser seguido hoje. Também é claro que o que acontecia nas reuniões da igreja que Paulo descreveu, só poderia acontecer em pequenos grupos. O que Paulo descreveu, logicamente, não podia ter acontecido em uma reunião grande. Eu serei o primeiro a admitir que não entendo tudo o que Paulo escreveu dentro daqueles quatro capítulos de 1 Coríntios. Contudo, parece óbvio que a característica mais saliente das reuniões descritas em 1 Coríntios 11-14 era a presença do Espírito Santo entre eles e Sua manifestação nos membros do corpo. Ele deu dons a indivíduos para a edificação do corpo inteiro. Paulo cita no mínimo nove dons espirituais: revelação, línguas, interpretação de línguas, palavra de instrução, palavra de sabedoria, discernimento de espíritos, dons de cura, fé e milagres. Ele não fala 39


que todos esses dons eram manifestados em todas as reuniões, mas com certeza indica a possibilidade de suas operações e parece resumir algumas das manifestações do Espírito mais comuns em 1 Coríntios 14:26: Portanto, que diremos irmãos? Quando vocês se reúnem, cada um de vocês tem um salmo, ou uma palavra de instrução, uma revelação, uma palavra em uma língua ou uma interpretação. Tudo seja feito para a edificação da igreja. Vamos levar em consideração todas estas cinco manifestações, e em um capítulo mais adiante vamos levar a fundo os nove dons do Espírito listado em 1 Coríntios 12:8-10. O primeiro da lista é o salmo. Salmos dados pelo Espírito são mencionados por Paulo em duas de suas outras cartas às igrejas, enfatizando sua importância nas reuniões cristãs. Não se embriaguem com vinho, que leva à libertinagem, mas deixem-se encher pelo Espírito, falando entre si com salmos, hinos e cânticos espirituais, cantando e louvando de coração ao Senhor (Ef. 5:18-19). Habite ricamente em vocês a palavra de Cristo; ensinem e aconselhem-se uns aos outros com toda a sabedoria, e cantem salmos, hinos e cânticos espirituais com gratidão a Deus em seu coração (Cl. 3:16). A diferença entre salmos, hinos e cânticos espirituais não é clara, mas o importante é que todos são baseados na Palavra de Deus, são inspirados pelo Espírito, e devem ser entoados pelos salvos para ensinar e advertir uns aos outros. Com certeza, muitos dos hinos e refrãos que os salvos têm cantado durante a história da igreja encaixam-se em uma dessas categorias. Infelizmente, muitos hinos e corinhos modernos não têm profundidade bíblica, indicando que não foram dados pelo Espírito, e por serem superficiais, não têm valor real para ensinar e advertir salvos. Mesmo assim, crentes que se reúnem em igrejas nos lares devem esperar que o Espírito vá, não só inspirar membros individuais a conduzir músicas evangélicas conhecidas, novas e velhas, mas também dará músicas especiais para alguns dos membros que poderão ser utilizadas para a edificação de todos. Sem dúvida, quão especial é que igrejas tenham suas próprias músicas dadas pelo Espírito!

Ensino O segundo dom na lista de Paulo é o ensino. Novamente, isso indica que qualquer um pode compartilhar um ensino inspirado pelo Espírito em uma reunião. É claro que todos os ensinos seriam julgados para ver se são coerentes aos ensinos dos apóstolos (já que todos eram devotados a isso; veja Atos 2:42) e devemos fazer o mesmo hoje. Mas perceba que não há indicação em lugar algum do Novo Testamento de que a mesma pessoa pregava todas as semanas quando a igreja local se reunia, dominando a reunião. Havia, em Jerusalém, reuniões maiores no Templo onde os apóstolos ensinavam. Sabemos que os anciãos também tinham a responsabilidade do ensino em igrejas, e que algumas pessoas têm um chamado para o ministério de ensino. Paulo ensinou muito, publicamente e de casa em casa (veja Atos 20:20). Mas em pequenas reuniões de salvos o Espírito Santo pode usar outros para ensinar além dos apóstolos, anciãos ou professores. Quando nos referimos ao ensino, parece que teríamos uma grande vantagem sobre a igreja primitiva, podendo levar cópias pessoais da Bíblia conosco para as nossas reuniões. Por outro lado, talvez o fácil acesso à Bíblia tem nos ajudado a elevar a doutrina acima de amar a Deus com todo o nosso coração e de amar ao nosso próximo como a nós mesmos, nos roubando da vida que a Palavra de Deus devia nos dar. Temos sido doutrinados demais. Muitos pequenos grupos de estudo bíblico têm sido tão irrelevantes e chatos quanto os sermões de domingos de manhã. Uma boa regra para seguirmos a respeito do ensino em igrejas nos lares é esta: Se as crianças maiores não estão escondendo seu tédio, os adultos provavelmente estão escondendo o deles. Crianças são ótimos barômetros da verdade. 40


Revelação Terceiro, Paulo lista “revelação.” Isso poderia significar qualquer coisa revelada por Deus a algum membro do corpo. Por exemplo, Paulo menciona especificamente que um ímpio pode visitar uma reunião cristã e ter “os segredos do seu coração...expostos” por meio de dons de profecia. O resultado é que ele seria “convencido” e “julgado” e “se prostrará, rosto em terra, e adorará a Deus exclamando: ‘Deus realmente está entre vocês’”(1 Co. 14:24-25). Aqui, nós vemos novamente que a presença verdadeira do Espírito Santo era uma característica esperada em reuniões da igreja, e que coisas sobrenaturais aconteceriam por causa de Sua presença. Os primeiros cristãos realmente acreditavam na promessa de Jesus que, “onde se reunirem dois ou três em meu nome, ali estou no meio deles” (Mt. 18:20). Se Jesus em pessoa estava no meio deles, milagres poderiam acontecer. Eles literalmente adoram “pelo Espírito de Deus” (Fp. 3:3). De qualquer modo, profecias, do qual vou falar mais em breve, podem conter revelações sobre os corações das pessoas. Mas revelações podem ser dadas sobre outras coisas e por outros meios, como por visões ou sonhos (veja At. 2:17).

Línguas e Interpretações Quarto, Paulo listou dois dons que trabalham juntos: línguas e interpretações de línguas. Em Corinto, havia um excesso de pessoas falando em línguas. Mais especificamente, pessoas estavam falando em línguas durante as reuniões da igreja e não havia interpretação; então, ninguém sabia o que estava sendo dito. Podemos nos perguntar como os coríntios podem ser culpados, já que a culpa parecia ser do Espírito Santo, pois dava dons de línguas para alguns sem dar a outros o dom de interpretação. Há uma resposta muito satisfatória para essa pergunta à qual me reportarei em um capítulo mais adiante. De qualquer modo, Paulo não proibiu falar em línguas (como muitas igrejas institucionais fazem). Ao invés disso, ele proibiu a proibição de falar em línguas, e declarou que esse era o mandamento de Deus (veja 1 Coríntios 14:37-39)![8] Era um dom que, quando usado de forma correta, podia edificar o corpo e afirmar a presença sobrenatural de Deus no meio deles. Era Deus falando pelas pessoas, lembrando-as da Sua verdade e da Sua vontade. No capítulo 12, Paulo falou sobre a superioridade da profecia sobre o falar em línguas sem interpretação. Ele encorajou os coríntios a desejarem o profetizar, e isso indica que os dons do Espírito são, provavelmente, manifestados entre aqueles que os desejam. Similarmente, Paulo advertiu os salvos de Tessalônica: “Não apaguem o Espírito. Não tratem com desprezo as profecias” (1 Ts. 5:19-20). Isso indica que os salvos podem “apagar” ou “apagar o fogo” do Espírito guardando no coração uma atitude errada em relação ao dom de profecia. É por isso, sem dúvida, que o dom de profecia é manifestado tão raramente entre os crentes de hoje.

Como Começar Igrejas nos lares nascem do Espírito Santo pelo ministério de um plantador de igrejas nos lares ou de um diácono/pastor/bispo a quem Deus deu uma visão de uma igreja no lar. Mantenha em mente que um diácono/pastor/bispo bíblico pode ser aquele a quem a igreja institucional se refere como sendo um leigo maduro. Nenhum pastor de igreja no lar precisa de uma educação formal de ministério. Uma vez que a visão de uma igreja no lar é entregue pelo Espírito Santo ao fundador, ele precisa buscar ao Senhor a respeito de outros que possam se juntar a ele. O Senhor o colocará em contato com pessoas com uma visão similar, confirmando o seu chamado. Ou o levará a pecadores receptivos aos quais ele poderá levar à Deus e discipular em uma igreja no lar. 41


Aqueles que estão começando a aventura da igreja no lar devem antecipar que levará tempo para que os membros se sintam confortáveis uns com os outros e aprendam a se relacionar e fluir com o Espírito. Será um caminho de dificuldades e erros. Os conceitos de participação de todos os membros, liderança bíblica e serva, diáconos ajudantes, liderança e dons do Espírito Santo, a refeição compartilhada e uma atmosfera casual ao mesmo tempo que espiritual é bem estranha para aqueles que só estão familiarizados com cultos institucionais. Portanto, é o sábio uso de graça e paciência quando uma nova igreja no lar nasce. O formato inicial pode ser mais como uma devocional familiar: uma pessoa liderando o louvor, outra compartilhando um ensino preparado e então, encerrando com uma oportunidade de oração em grupos, comunhão e uma refeição. Contudo, enquanto o grupo estuda o formato bíblico de igrejas no lar, o diácono/pastor/ bispo deve encorajar os membros a se esforçarem para se tornarem o melhor para Deus. Então, divirtam-se no passeio! Igrejas no lar podem mudar da casa de um membro para outro cada semana, ou uma pessoa pode abrir sua casa todas as semanas. Algumas igrejas nos lares ficam ao ar livre ocasionalmente quando o tempo está bom. O horário e local da reunião não precisa ser no domingo de manhã, mas a qualquer hora que ficar melhor para os membros. Finalmente, é melhor começar pequeno; com no máximo doze pessoas.

Como mudar de Instituição para Igreja no Lar Provavelmente, muitos dos pastores que estão lendo isto estão trabalhando dentro de estruturas de igrejas institucionais, e talvez você, querido leitor, seja um deles. Se eu toquei em sua ferida e se você anseia pelo tipo de igreja que eu tenho descrito, então já deve estar se perguntando como pode fazer a transição. Deixe-me encorajar a não ficar com pressa. Comece ensinando somente a verdade bíblica e fazendo o que puder dentro da moldura de sua estrutura já existente para fazer discípulos que obedeçam aos mandamentos de Jesus. É muito mais provável que verdadeiros discípulos queiram fazer a transição para uma estrutura bíblica quando eles a entendem. Já os bodes e pessoas religiosas, provavelmente resistirão a tais transições. Segundo, estude o que as Escrituras dizem sobre o assunto e ensine sua congregação sobre estruturas de igrejas nos lares e suas bênçãos herdadas. Você pode, eventualmente, cancelar seu culto de quarta-feira ou de domingo à noite para começar células semanais em casas, lideradas por crentes maduros. Encoraje todos a irem. Cada vez mais, padronize essas reuniões para seguirem o formato do modelo bíblico de igreja nos lares o mais perto possível. Então, dê tempo para que as pessoas comecem a apreciar as bênçãos de seus pequenos grupos. Uma vez que todos gostem das reuniões, você pode anunciar que um certo domingo do mês que vem será um “Domingo da Igreja Primitiva.” Naquele domingo, o prédio da igreja ficará fechado e todos irão para determinadas casas para se reunirem assim como a Igreja primitiva se reunia, apreciando refeições juntos, a ceia do Senhor, comunhão, oração, louvor, compartilhando ensinamentos e dons espirituais. Se for um sucesso, você pode começar a ter reuniões assim um domingo em cada mês; então, eventualmente dois, e então, três domingos. Depois de um tempo, você pode liberar cada grupo para ser uma igreja no lar independente, livre para crescer e multiplicar, e talvez se reunir para reuniões maiores uma vez a cada dois meses. Todo esse processo de transição que estou descrevendo pode levar de um a dois anos. Ou, se você quiser ir com ainda mais cautela, pode começar com somente uma reunião no lar com alguns de seus membros mais interessados liderados por você mesmo. (Novamente, igrejas nos lares não precisam se reunir aos domingos de manhã.) Pode ser apresentado como um experimento e com certeza será uma experiência de aprendizado para todos. Se der certo, então aponte um líder e libere o grupo para se tornar uma igreja independente que só participará do culto na igreja institucional uma vez por mês. Desse modo a nova igreja ainda faria parte da igreja mãe e não seria vista tão negativamente por aqueles que ainda fazem parte da 42


igreja institucional. Isso também pode ajudar a influenciar outros dentro da igreja a considerar fazer parte de outra igreja no lar sendo plantada pela igreja institucional. Se o primeiro grupo crescer, ore e o divida para que os dois grupos tenham bons líderes e dons suficientes entre seus membros. Ambos os grupos poderiam se reunir em uma celebração maior em ocasiões combinadas, talvez uma vez por mês ou uma vez a cada três meses. Independentemente do caminho que você tomar, mantenha seus olhos no alvo, mesmo durante as decepções, o que provavelmente haverá. Igrejas nos lares são formadas por pessoas, e pessoas causam problemas. Não desista. É bem improvável que todos na congregação de sua igreja institucional façam essa transição; então, você terá que decidir em que ponto irá começar a se devotar completamente a uma igreja no lar ou a um grupo de igrejas nos lares, deixando a instituição para trás. Esse será um dia importante para você!

A Igreja Ideal O pastor de uma igreja no lar pode mesmo ter mais sucesso aos olhos de Deus que o pastor de uma mega igreja com um prédio enorme e milhares de atendentes todo domingo? Sim, se ele estiver multiplicando obedientes discípulos e discipuladores, seguindo o modelo de Jesus, ao invés de simplesmente reunindo bodes espirituais uma vez por semana para assistir a um concerto e ouvir um sermão divertido santificado por algumas passagens fora de contexto. Um pastor que decide seguir o modelo de igreja nos lares nunca terá uma congregação grande. Mas em longo prazo, ele terá frutos que permanecerão por um bom tempo, já que seus discípulos fazem discípulos. Muitos pastores de “pequenas” congregações de 40 a 50 pessoas que ainda querem mais podem precisam ajustar suas ideias. Suas igrejas podem já ser muito grande. Talvez eles devam parar de orar por um prédio maior e começar a orar sobre quem será apontado para liderar duas novas igrejas nos lares. (Por favor, quando isso acontecer, não dê um nome à sua nova denominação e o título de “bispo” a si mesmo!) Precisamos erradicar a ideia de que maior é melhor a respeito da igreja. Se nós formos julgar puramente com base bíblica, congregações que consistem de centenas de espectadores não discipulados que se reúnem em prédios especiais seriam consideradas um tanto estranho. Se os primeiros apóstolos visitassem igrejas institucionais modernas, coçariam as cabeças! (Estariam perdidos?)

Uma Objeção Final Várias vezes, ouvimos que no mundo Ocidental, onde o cristianismo já se tornou parte da cultura, as pessoas nunca aceitarão a ideia de igrejas se reunirem em casas. E é então argumentado que devemos permanecer no modelo institucional. Primeiro, isso tem provado não ser verdade, já que igrejas nos lares têm ganhado força rapidamente no mundo Ocidental. Segundo, as pessoas já se reúnem alegremente em casas para festas, refeições, comunhão, estudos bíblicos e grupos de célula. A aceitação da ideia de uma igreja em uma casa só precisa de um pequeno ajustamento de pensamento. Terceiro, é verdade que pessoas religiosas, “bodes espirituais,” nunca aceitarão o conceito de igrejas nos lares. Eles nunca farão alguma coisa que pareça esquisito aos seus vizinhos. Mas verdadeiros discípulos de Jesus Cristo com certeza aceitam o conceito de igrejas nos lares uma vez que entendem a base bíblica. Eles logo percebem como os prédios são desnecessários para o discipulado. Se você quiser construir uma grande igreja com “madeira, feno ou palha” (veja 1 Co. 3:12), você precisará de um prédio, mas tudo será queimado no final. Mas se você quiser multiplicar discípulos e 43


discipuladores, construindo a Igreja de Jesus Cristo com “ouro, prata, *e+ pedras preciosas,” então você não precisa gastar energia e dinheiro em prédios. É interessante que o maior movimento evangelístico natural do mundo hoje, o movimento “de volta à Jerusalém” das igrejas nos lares chinesas, tem adotado uma estratégia específica para evangelizar a janela 10/40. Eles dizem: “Nós não temos o desejo de construir prédios de igrejas em lugar algum! Isso permite que o evangelho se espalhe rapidamente, dificulta sermos localizados pelas autoridades e nos permite canalizar todos os nossos recursos diretamente ao ministério do evangelho.”[9] Certamente um exemplo sábio e bíblico para seguirmos!

[1] Veja “Jesus on Money” (Jesus Sobre o Dinheiro) debaixo de Biblical Topics (Tópicos Bíblicos) no home page de www.shepherdserve.org. [2] Mesmo parecendo radical, o único motivo da necessidade de prédios de igrejas é a falta de líderes que dirijam igrejas nos lares menores, que é o resultado de um discipulado pobre a líderes em potencial dentro de igrejas institucionais. Seria possível que pastores de igrejas institucionais grandes são, na verdade, culpados de roubar pastores chamados por Deus dentro de suas congregações de seus ministérios por direito? Sim. [3] Essa proporção um por dez ou vinte não deve ser considerada um exagero à luz do modelo bíblico de Jesus de discipular doze homens e dos juízes de Moises sobre dez pessoas (veja Ex. 18:25). A maioria dos pastores institucionais administra muito mais pessoas do que pode discipular efetivamente sozinho. [4] Também podemos nos perguntar o por que de “pastores titulares,” “pastores auxiliares,” ou “co-pastores” não serem mencionados nas Escrituras. Novamente, esses títulos, que parecem tão essenciais nas igrejas modernas por causa de suas estruturas, eram desnecessários na igreja primitiva por causa da estrutura dela. Igrejas nos lares com vinte pessoas não precisam de pastores titulares, auxiliares e co-pastores. [5] Muitos pastores nunca se tornam bons oradores, mesmo sendo servos de Cristo chamados por Deus. Na realidade, é ser muito duro dizer que muitos sermões de pastores são chatos, ou pelo menos, às vezes? O que um crítico de igreja se refere com “fitar o horizonte” é muito comum entre os presentes. Mas esses mesmos pastores que são oradores entediantes são frequentemente bons conversadores, e as pessoas raramente ficam entediadas enquanto estão conversando. É por isso que o ensinamento interativo em igrejas nos lares é normalmente sempre interessante. O tempo voa nessas horas, em contraste com os muitos olhares velados aos relógios de pulso durante os sermões de igreja. Pastores de igrejas nos lares não precisam se preocupar se estão sendo chatos. [6] Uma das minhas definições preferidas para a palavra insanidade é: Fazer a mesma coisa repetidamente esperando por resultados diferentes. Pastores podem ensinar por anos sobre a responsabilidade de cada membro de estar envolvido na formação de discípulos, mas a menos que ele faça algo para mudar formas ou estruturas, as pessoas vão continuar indo à igreja para sentar, escutar e ir embora. Pastor, se você continuar fazendo o que não mudou as pessoas no passado, não vai mudar as pessoas no futuro. Mude o que você está fazendo! [7] É claro que o motivo principal de muitos pastores serem contrários a essa ideia é porque estão, na verdade, construindo seus próprios reinos, não o Reino de Deus. * Nota do tradutor: este livro ainda não foi traduzido para o português. [8] Eu sei que existem pessoas que transferem toda manifestação sobrenatural do Espírito ao primeiro século, o tempo que supostamente cessaram. Portanto, nós não temos razão para buscar o que a igreja primitiva vivenciou, e o dom de línguas não é mais válido. Eu tenho pouca simpatia por tais pessoas que são como saduceus modernos. Como alguém que em várias ocasiões louvou a Deus em japonês, de acordo com falantes japoneses que me ouviram, e nunca tendo aprendido japonês, eu sei que esses dons não deixaram de ser dados pelo Espírito Santo. Eu também me pergunto por que esses saduceus acreditam que o Espírito Santo chama, convence e regenera pecadores, mas negam o 44


trabalho do Espírito além desses milagres. Esse tipo de “teologia” é o resultado da descrença e desobediência humana; não tem prova bíblica e na verdade vai contra o objetivo de Cristo. Isso é desobediência direta a Cristo, de acordo com o que Paulo escreveu em 1 Co. 14:37. [9] Brother Yun, Back to Jerusalém* (De Volta á Jerusalém), p. 58. * Nota do tradutor: Esse livro ainda não foi traduzido para o Português.

Capítulo Cinco

O Crescimento da Igreja Então você é um pastor e quer que sua igreja cresça. Esse é um desejo muito comum entre pastores. Mas por que quer que sua igreja cresça? Honestamente, qual é o motivo do seu coração? Você quer que sua igreja cresça para que se sinta bem sucedido? Quer se sentir respeitado e influente? Quer ter poder sobre as pessoas? Espera ficar rico? Todos esses são motivos errados para querer que sua igreja cresça. Agora, se quiser que sua igreja cresça para que Deus seja glorificado enquanto mais e mais vidas são transformadas pelo Espírito Santo, então esse é o motivo certo para desejar o crescimento da igreja. É possível que estejamos enganando a nós mesmos, pensando que nossos motivos são puros quando de fato são na verdade egoístas. Como podemos conhecer nossos motivos verdadeiros? Como podemos saber se queremos construir o reino de Deus o simplesmente o nosso reino? Um modo é pelo monitoramento de nossas reações internas ao sucesso de outros pastores. Se pensarmos que nossos motivos são puros, se achamos que sinceramente queremos que o Reino de Deus e que Sua igreja cresçam, mas descobrimos um pouco de inveja e ciúmes em nosso coração quando ouvimos sobre o crescimento de outra igreja, isso revela que nossos motivos não são tão puros. Mostra que realmente não estamos tão interessados no crescimento da Igreja, e sim no crescimento da nossa igreja. E por que isso? Porque nossos motivos são pelo menos parcialmente egoístas. Também podemos checar nossos motivos monitorando nossa reação interna quando ouvimos sobre outra igreja que está abrindo em nossa área. Se nos sentimos ameaçados, é um sinal que estamos mais preocupados com nosso próprio reino que o Reino de Deus. Mesmo pastores de igrejas grandes ou em crescimento podem checar seus motivos dessa mesma maneira. Tais pastores também podem se fazer perguntas como: “Eu consideraria enviar e abrir de mão líderes e pessoas chave da minha congregação para plantar novas igrejas, resultando na redução da minha igreja?” Um pastor que for muito resistente a essa ideia está provavelmente construindo sua igreja para sua própria glória. (Por outro lado, o pastor de uma igreja grande também poderia plantar igrejas para sua própria glória, só para poder se gabar de quantas igrejas nasceram de sua igreja.) Outra pergunta que poderíamos fazer é: “Eu me associo com pastores de igrejas menores ou tenho me distanciado deles, sentindo-me melhor que eles?” Ou: “Eu estaria disposto a pastorear apenas de doze a vinte pessoas em uma igreja no lar, ou isso seria duro de mais para o meu ego?”[1]

O Movimento de Crescimento da Igreja Em livrarias evangélicas pela América e Canadá, existem às vezes seções inteiras de prateleiras dedicadas a livros sobre o crescimento de igrejas. Esses livros e seus conceitos têm se espalhado pelo 45


mundo. Os pastores estão famintos para aprender como aumentar o número de atendentes de suas igrejas, e muitas vezes são bem rápidos em adotar conselhos de pastores de mega igrejas americanas que são considerados bem sucedidos em virtude do tamanho de seus prédios e do número de pessoas que comparecem aos domingos. Contudo, aqueles que são um pouco mais perspicazes entendem que o número de atendentes e o tamanho do prédio não são necessariamente indicações da qualidade da formação de discípulos. Algumas igrejas americanas têm crescido devido a doutrinas pervertidas da verdade bíblica. Eu tenho falado a pastores ao redor do mundo que ficam chocados ao saber que multidões de pastores americanos acreditam e declaram que uma vez que uma pessoa é salva, nunca poderá perder sua salvação, independentemente do que acredita ou de como vive sua vida. Similarmente, muitos pastores americanos proclamam um evangelho aguado, de graça barata, levando pessoas a crer que podem ir para o céu sem santidade. Vários outros proclamam um evangelho de prosperidade, alimentando o orgulho de pessoas das quais a religião é um meio de acumular ainda mais tesouros na terra. Esses são pastores dos quais as técnicas de crescimento de igrejas não devem ser imitadas. Eu já li minha cota de livros sobre o assunto, e tenho um mistura de sentimentos a respeito deles. Muitos têm estratégias e conselhos que são, até certo ponto, bíblicos, fazendo valer a pena ler o livro. Contudo, a maioria é baseada no modelo da igreja institucional de 1700 anos, ao invés do modelo bíblico. Consequentemente, o foco não é construir o corpo de Cristo através da multiplicação de discípulos e discipuladores, mas construir congregações institucionais individuais, o que sempre requer prédios maiores, liderança de programas mais especializados e uma estrutura que é mais parecida com a de uma corporação de negócios que de uma família. Algumas estratégias modernas de crescimento de igrejas parecem sugerir que, pelo bem de ganhar membros, os cultos sejam mais atraentes às pessoas que não querem seguir a Jesus. Eles aconselham sermões curtos e sempre positivos, louvor sem expressão, muitas atividades sociais, que o dinheiro nunca seja mencionado, e assim por diante. Isso não resulta na formação de discípulos que se neguem e obedeçam a todos os mandamentos de Cristo. Resulta em crentes professos que estão no caminho largo para o inferno. Essa não é a estratégia de Deus para ganhar o mundo, mas a de Satanás para ganhar a Igreja. Não é “crescimento da Igreja” e sim “crescimento do mundo.”

O Modelo Seeker-Sensitive A estratégia americana de crescimento de igrejas mais popular é muitas vezes chamada de modelo “seeker-sensitive”. Nessa estratégia, os cultos das manhãs de domingo são designados para que (1) cristãos se sintam confortáveis para convidar amigos incrédulos e (2) que os mesmos ouçam ao evangelho em termos não-ofensivos, aos quais possam se relacionar e entender. Cultos e pequenos grupos no meio da semana são reservados para discipular os salvos. Desse modo, algumas igrejas individuais têm crescido muito. Entre igrejas institucionais americanas, essas podem ter o maior potencial para evangelizar e discipular pessoas, desde que todos sejam incorporados aos pequenos grupos (o que muitas vezes não acontece) e lá discipulados, e que o evangelho não seja comprometido (o que sempre acontece quando o alvo é não ser ofensivo, pois o evangelho é ofensivo ao orgulho humano). Pelo menos igrejas seeker-sensiteve têm implementado alguma estratégia para alcançar os perdidos, algo que a maioria das igrejas institucionais não têm feito. Mas como o modelo americano seeker-sensitive se compara ao modelo bíblico quanto ao crescimento de igrejas? No livro de Atos, apóstolos e evangelistas chamados por Deus pregavam o evangelho publicamente e de casa em casa, acompanhados de sinais e maravilhas que atraíam a atenção dos pecadores. Aqueles que se arrependiam e acreditavam no Senhor Jesus se dedicavam aos ensinamentos dos apóstolos, e regularmente se reuniam em casas onde aprendiam a Palavra de Deus, exerciam dons espirituais, celebravam a ceia, oravam juntos e assim por diante, tudo de baixo da 46


administração de presbíteros/pastores/bispos. Professores e profetas chamados por Deus circulavam entre as igrejas. Todos compartilhavam o evangelho com amigos e vizinhos. Não havia prédios para construir, atrasar o crescimento das igrejas e roubar o Reino de Deus de recursos que ajudariam a espalhar o evangelho e fazer discípulos. Líderes eram treinados rapidamente no trabalho ao invés de serem mandados para seminários e faculdades teológicas. Tudo isso resultava no crescimento exponencial das igrejas por tempo limitado, até que todas as pessoas receptivas de uma área fossem alcançadas. Em comparação, o modelo seeker-sensitive não tem sinais e maravilhas, portanto não tem o meio divino de propaganda, atração e convicção. Ele depende de meios naturais de marketing e propaganda para atrair pessoas a um prédio onde podem ouvir a mensagem. O talento oratório do pastor e seu poder de persuasão são seus principais meios de convicção. Isso difere tanto dos métodos que Paulo escreveu: “Minha mensagem e minha pregação não consistiram de palavras persuasivas de sabedoria, mas consistiram de demonstração do poder do Espírito, para que a fé que vocês têm não se baseasse na sabedoria humana, mas no poder de Deus” (1 Co. 2:4-5).

Mais Diferenças O modelo seeker-sensitive geralmente não tem apóstolos e evangelistas, porque a figura principal é o pastor. Uma pergunta: A eliminação de apóstolos e evangelistas de seus cargos de evangelização e a doação dessa responsabilidade a pastores é um meio superior de conseguir o crescimento de igrejas?[2] O pastor seeker-sensitive prega uma vez por semana em um culto de domingo, onde cristãos são encorajados a levar pessoas não-salvas. Portanto, falando de modo geral, o evangelho só pode ser ouvido uma vez por semana por associados dos membros da igreja. Estes incrédulos devem estar dispostos a irem à igreja e devem ser convidados por membros da igreja que estão dispostos a convidálos. No modelo bíblico, apóstolos e evangelistas proclamam continuamente o evangelho em lugares públicos e privados, e todos os crentes compartilham o evangelho com seus amigos e vizinhos. Desses dois modelos, por qual mais incrédulos ouviriam o evangelho? O modelo seeker-sensitive requer um prédio aceitável para que os crentes não tenham vergonha de convidar seus associados incrédulos e para que estes não tenham vergonha de visitar. Isso sempre requer uma soma substancial de dinheiro. Antes do evangelho poder ser “espalhado,” um prédio aceitável deve ser obtido ou construído. Na América esse prédio precisa ser bem localizado, normalmente em subúrbios ricos. Em contraste, o modelo bíblico não precisa de prédios, locais especiais ou dinheiro. O espalhar do evangelho não é limitado ao número de pessoas que cabem em prédios especiais aos domingos.

Ainda Mais Diferenças Quando comparamos algumas igrejas seeker-sensitive com o modelo bíblico, existem ainda mais diferenças. Os apóstolos e evangelistas do livro de Atos chamavam pessoas para se arrependerem, acreditarem no Senhor Jesus e serem batizadas imediatamente. Era esperado que na sua conversão, a pessoa se tornasse discípula de Cristo, de acordo com as condições de Jesus para o discipulado, listadas em Lucas 14:26-33 e João 8:31-32. Eles começaram a amar a Jesus acima de tudo, vivendo Sua palavra, levando suas cruzes, abrindo mão de todos os seus direitos de posses e se tornando novos mordomos do que agora pertencia a Deus. O evangelho que é muitas vezes proclamado em igrejas seeker-sensitive é diferente. Dizem aos pecadores o quanto Deus os ama, como Ele pode prover em suas necessidades e como podem ser salvos por “aceitar a Jesus como Salvador.” Depois de fazerem uma pequena “oração de salvação,” 47


nunca sendo avisados a calcular o custo do discipulado, eles são, muitas vezes, assegurados que são genuinamente salvos e são solicitados a se juntarem a uma classe, onde começarão a crescer em Cristo. Se eles se juntarem a essa classe (muitos nunca voltam à igreja), a maioria das vezes, são levados por um processo de aprendizado sistemático que foca em ganhar conhecimento das doutrinas da igreja ao invés de se tornar mais obediente aos mandamentos de Cristo. O auge desse programa de “discipulado” é quando o crente eventualmente começa a dar o dízimo de seu salário à igreja (para pagar principalmente a hipoteca e salários não-bíblicos da equipe de liderança, o que soma a uma mordomia horrível, sustentando muitas coisas que não são ordenadas por Deus e roubando daquelas que Deus quer que sejam sustentadas) e é levado a acreditar que “encontrou seu ministério” quando começa a executar um papel auxiliador na igreja institucional que nunca foi mencionado nas Escrituras. O que aconteceria se o governo de sua nação, preocupado com a falta de homens no exército, decidisse se tornar “seeker-sensitive”? Imagine que eles prometessem ao recrutas em potencial que nada seria esperado deles — seus pagamentos seriam de graça, desmerecidos. Poderiam se levantar de manhã a hora que quisessem. Poderiam participar dos treinamentos se quisessem, mas teriam a opção de assistir TV ao invés disso. Se uma guerra começasse poderiam escolher participar das batalhas ou ir à praia. Qual seria o resultado? Com certeza, o status do exército iria crescer! Mas não seria mais um exército, estando despreparado para seu propósito. E é isso que as igrejas seeker-sensitive se tornam. Baixar os padrões faz o número de atendentes aumentar aos domingos, mas acaba com o discipulado e a obediência. Aquelas igrejas seeker-sensitive que tentam “pregar o evangelho” nos domingos e fazer “discipulado” no meio da semana descobrem que têm um problema se disserem às pessoas que vão aos cultos do meio da semana que somente os discípulos de Jesus vão para o céu. As pessoas vão sentir que foram enganadas nos domingos de manhã. Portanto, tais igrejas devem enganar as pessoas nos cultos do meio da semana também, colocando discipulado e obediência como opções ao invés de requisitos.[3] Eu entendo que algumas igrejas institucionais incorporam aspectos do modelo bíblico que outras não. Independente disso, o modelo bíblico é, com certeza, o mais efetivo em multiplicar discípulos e discipuladores. Por que o modelo bíblico não é seguido hoje? A lista de desculpas parece sem fim, mas na analise final, os motivos são tradição, descrença e desobediência. Muitos dizem que é impossível seguir o modelo bíblico no mundo de hoje. Mas o fato é que ele está sendo seguido em muitos lugares ao redor do mundo. O crescimento explosivo da Igreja na China no meio século passado, por exemplo, é resultado de crentes simplesmente seguirem o modelo bíblico. Deus é diferente na China que em outros lugares? Tudo isso é para dizer que pastores que não são americanos devem tomar cuidado com métodos americanos de crescimento de igrejas que são promovidos ao redor do globo. Eles teriam muito mais sucesso em alcançar o objetivo de Cristo de fazer discípulos, se seguissem o modelo bíblico de crescimento da Igreja.

As Consequências Tenho observado que muitos devotos dos ensinamentos modernos de crescimento de igrejas não entram em contato com pastores de nível médio ao redor do mundo. A grande maioria de pastores pastoreia rebanhos que consistem em menos de cem pessoas. Muitos desses pastores ficam desanimados depois de tentar técnicas de crescimento que não funcionam ou cujo tiro sai pela culatra, não por culpa deles. Parece que ninguém admite que existem vários fatores, além do controle dos pastores que limitam o crescimento de suas igrejas. Vamos levar em consideração alguns deles agora. Primeiramente, o crescimento da igreja é limitado ao tamanho da população local. É óbvio que a maioria das grandes igrejas institucionais são encontradas em grandes áreas metropolitanas. Muitas vezes elas têm milhões de pessoas para se tornarem membros. Contudo, se números são uma determinação verdadeira de sucesso, então a igreja deveria ser julgada, não por tamanho, mas por 48


sua porcentagem da população local. Com essa base, algumas igrejas com dez pessoas têm mais sucesso que outras com dez mil. Uma igreja de dez membros em uma comunidade de cinquenta pessoas tem mais sucesso que uma de dez mil em uma comunidade de 5 milhões. (Mesmo assim, os pastores de dez pessoas nunca serão convidados para falar em convenções de crescimento de igrejas.)

Um Segundo Fator Limitante para o Crescimento de Igrejas Segundo, o crescimento das igrejas é limitado ao nível de saturação entre as pessoas receptivas por todas as igrejas de uma dada região. Em um certo tempo, existe somente um número de pessoas em uma área que têm os corações abertos ao evangelho. Uma vez que os receptivos são alcançados, nenhuma igreja crescerá, amenos que algumas pessoas que já vão à igreja se transfiram a outra (que é como muitas igrejas grandes têm crescido — do custo de outras igrejas dentro de suas regiões). É claro que todo cristão de hoje já foi não-receptivo ao evangelho a um ponto ou outro e se tornou receptivo debaixo da influência do Espírito Santo. Portanto, é muito possível que pessoas que agora não estão abertas ao evangelho se tornem receptivas. Quando isso ocorre, as igrejas podem crescer. O que várias vezes chamamos de “reavivamento” ocorre quando muitas pessoas nãoreceptivas se tornam receptivas de repente. Contudo, não devemos esquecer que uma pessoa se tornar receptiva também é um reavivamento, mas em escala menor. Cada grande reavivamento começa com uma pessoa se tornando receptiva. Portanto, pastores, não desprezem o dia de pequenos começos. Jesus enviou Seus discípulos para pregar o evangelho em cidades que sabia que não seriam receptivas, onde nenhuma pessoa se arrependeria (veja Lc. 9:5). Mesmo assim Ele mandou que pregassem o evangelho lá. Esses discípulos voltaram sem sucesso? Não, mesmo não tendo convertidos (e nenhum crescimento de igreja) eles obtiveram sucesso, porque obedeceram a Jesus. Do mesmo modo, Jesus ainda manda pastores a vilas, cidades e subúrbios onde sabe que somente uma pequena porcentagem das pessoas será receptiva ao evangelho. Esses pastores, que com fé servem a suas pequenas congregações, têm sucesso aos olhos de Deus, mesmo sendo fracassos aos olhos de alguns experts em crescimento de igrejas. Todos os pastores em todas as áreas devem se sentir encorajados pelo fato de, por causa da grande misericórdia de Deus, e em resposta às intercessões de Seu povo, Ele estar trabalhando para tornar receptivas, pessoas não-receptivas. Ele tenta influenciar os incrédulos por meio de suas consciências, Sua criação, as circunstâncias, Seus julgamentos, o testemunho vivo de Sua igreja, a pregação do evangelho e a convicção do Espírito Santo. Portanto, pastores, tenham esperança. Continuem obedecendo, orando e pregando. Antes de cada reavivamento em grande escala existe a necessidade de um reavivamento. E sempre existe alguém que está sonhando com um reavivamento. Continue sonhando!

Um Terceiro Fator Limitantes no Crescimento de Igrejas Um terceiro fator que limita o crescimento de igrejas individuais é a habilidade do pastor. A maioria dos pastores não tem a habilidade necessária para administrar uma grande congregação, e não é culpa deles. Eles simplesmente não possuem o dom de organização, administração ou a habilidade de pregar/ensinar, que são necessárias para uma grande congregação. Claramente, tais pastores não foram chamados por Deus para pastorear grandes congregações, e estariam errados em tentar pastorear outra coisa além de igrejas institucionais médias ou igrejas nos lares. Recentemente li um livro popular sobre liderança, pelo pastor titular de uma das maiores igrejas da América. Enquanto lia as páginas que ele tinha enchido de conselhos experientes a pastores modernos, meu pensamento prioritário era esse: “Ele não está nos dizendo como ser pastor — ele está 49


nos falando como ser o diretor geral de uma organização enorme.” E não há outra escolha para o pastor titular de uma mega igreja institucional americana. Ele precisa de uma equipe de ajudantes, e dirigir esta equipe é um trabalho integral. O autor do livro que li tinha habilidades suficientes para ser diretor geral de uma grande organização secular. (Aliás, em seu livro ele citava, várias vezes, famosos consultores de grandes negócios, aplicando seus conselhos a seus pastores leitores.) Mas muitos, se não a maioria de seus leitores, não têm as habilidades de liderança e administração que ele tem. Naquele mesmo livro, o autor relatou com toda franqueza como, em várias ocasiões enquanto construía sua enorme congregação, cometeu erros quase fatais, coisas que poderiam ter custado sua família ou seu futuro no ministério. Pela graça de Deus ele sobreviveu. Contudo, suas experiências me lembraram de muitos momentos que outros pastores institucionais, em busca do mesmo tipo de sucesso, fizeram erros similares e foram completamente arruinados. Alguns, se devotando às suas igrejas, perderam seus filhos ou arruinaram seus casamentos. Alguns sofreram crises nervosas ou sérias sobrecargas ministeriais. Outros ficaram tão desiludidos que abandonaram o ministério de vez. Muitos outros sobreviveram, mas isto é praticamente tudo que se pode dizer sobre eles. Continuam tendo vidas de quieto desespero, se perguntando se seus sacrifícios sobrenaturais valeram a pena. Enquanto lia aquele livro em particular, ele continuamente reforçava em minha mente a sabedoria da igreja primitiva, onde nada havia que lembrasse as igrejas institucionais modernas, e portanto, nenhum pastor era responsável por um rebanho maior ou de mais ou menos vinte e cinco pessoas. Conforme já falei em um capítulo anterior, muitos pastores que pensam que suas congregações são muito pequenas devem reconsiderar seu ministério à luz das Escrituras. Se eles têm cinquenta pessoas, suas igrejas podem ser, na verdade, grandes de mais. Se existe liderança capaz dentro da igreja, com muita oração podem considerar se dividir em três igrejas nos lares e fechar o templo, com o objetivo de fazer discípulos e construir o Reino de Deus à maneira de Deus. Se isso parecer muito radical, podem pelo menos começar a discipular futuros líderes, ou começar pequenos grupos, ou se já têm alguns pequenos grupos, liberar alguns para serem igrejas nos lares autônomas e ver o que acontece.

Outras Técnicas Modernas para o Crescimento de Igrejas Existem outras técnicas sendo promovidas hoje como essenciais para o crescimento de igrejas, além do modelo de igreja seeker-sensitive. Muitas dessas outras técnicas não são bíblicas e entram na categoria de “campanha espiritual.” Elas são anunciadas com nomes do tipo “destruindo fortalezas”, “campanha de oração” e “mapeamento espiritual.” Vamos falar dessas práticas em um capítulo mais adiante sobre batalhas espirituais. Contudo, sendo breve, podemos nos perguntar por que tais práticas, que eram completamente desconhecidas para os apóstolos são consideradas essenciais para o crescimento de igrejas hoje. Muitos dos novos meios de crescimento de igrejas são resultados de experiências de alguns pastores que dizem: “Eu fiz isso e aquilo e minha igreja cresceu. Então, se você fizer as mesmas coisas sua igreja também vai crescer.” Contudo, a verdade é que não havia conexão real entre o crescimento da igreja deles e as coisas peculiares que fizeram, mesmo que pensem o contrário. Isso é provado repetidamente quando outros pastores seguem esses ensinamentos peculiares, fazem coisas idênticas, e suas igrejas não crescem. É possível ouvir um pastor de crescimento de igrejas dizer: “Aconteceu um reavivamento em nossa igreja quando começamos a gritar com os demônios de nossa cidade. Então, se você quiser um reavivamento na sua igreja vocês precisam gritar com os demônios.” Mas por que têm acontecido tantos reavivamentos maravilhosos ao redor do mundo nos últimos 2000 da história da igreja, onde não havia pessoas gritando com demônios nas cidades? Isso mostra que, mesmo que o pastor tenha pensado que o reavivamento foi um resultado de gritar com demônios, ele estava errado. É mais provável que as pessoas daquela cidade se tornaram receptivas ao evangelho, talvez como resultado das orações da igreja e aconteceu que aquele pastor estava 50


pregando quando eles se tornaram receptivos. A maioria das vezes, o crescimento da igreja é resultado de estar no lugar certo na hora certa. (E o Espírito Santo nos ajuda a estar no lugar certo na hora certa.) Se gritar com demônios pela cidade trouxe um reavivamento à igreja de um certo pastor, por que, depois de um tempo, o reavivamento diminuiu e acabou, como sempre acontece? Se gritar com demônios é a chave, então faz sentido que se continuarmos gritando com os demônios, todos na cidade virão a Cristo. Mas isso não acontece. A verdade é óbvia quando paramos para pensar um pouco. Os únicos meios bíblicos de crescimento de igrejas são oração, pregação, formação de discípulos, ajuda do Espírito Santo e assim por diante. E mesmo esses meios bíblicos não garantem o crescimento da igreja, porque Deus fez as pessoas agentes morais livres. Elas podem escolher se arrepender ou não. Poderia ser dito que, às vezes, até Jesus fracassou no crescimento da igreja, quando as cidades que Ele visitava não se arrependiam. Tudo isso é para dizer que nós só precisamos praticar meios bíblicos para construir a Igreja. Todo o resto é perca de tempo. São trabalhos que consistem de madeira, palha e feno que um dia serão queimados e não serão recompensados (veja 1 Co. 3:12-15). Finalmente, o objetivo não deve ser só o crescimento em número, mas na formação de discípulos. Se a igreja crescer enquanto fazemos discípulos, então glória a Deus!

[1] Esta é outra vantagem do modelo de igreja no lar — os pastores não se esforçam para ter grandes congregações pelos motivos errados, pois o tamanho da congregação é limitado ao tamanho da casa. [2] Esse é um grande motivo de porque temos tantos evangelistas, professores, profetas e até apóstolos pastoreando igrejas. Muitos ministérios dados por Deus não recebem seu lugar de direito ou lugar algum dentro da estrutura da igreja institucional, e então, ministros não pastorais acabam pastoreando igrejas, roubando a igreja da bênção maior que poderiam ser para o grupo maior de crentes dentro da estrutura bíblica. Parece que todos têm se voltado para construir seu próprio reino na forma de igreja institucional, independentemente de seu verdadeiro chamado. Porque supostamente, os pastores têm direito ao dízimo do “seu povo,” e muito dele vai para a construção e manutenção dos prédios, ministros não pastorais recorrem ao pastoreio de igrejas para receber apoio financeiro para o ministério que foram realmente chamados. [3] Lembre-se que os requerimentos que Jesus listou para que fossemos Seus verdadeiros discípulos, em Lucas 14:26-33, não foram ditos a pessoas que já eram salvas, como se estivesse oferecendo a elas um segundo passo em sua jornada espiritual. Pelo contrário, Ele estava falando às multidões. Tornar-se Seu discípulo foi o único passo que Jesus ofereceu, que é nada menos que o passo da salvação. Isso entra em contraste com o que é ensinado na maioria das igrejas seeker-sensitive.

Capítulo Seis

O Ministério de Ensino Neste capítulo vamos levar em consideração vários aspectos do ministério de ensino. O ensino é responsabilidade dos apóstolos, profetas, evangelistas,[1] pastores/presbíteros/bispos, professores (é claro), e até certo ponto, de todos os seguidores de Cristo, já que todos devemos fazer discípulos, ensinando-os a obedecer a todos os mandamentos de Cristo.[2] 51


Como já enfatizei antes, o pastor ou o ministro discipulador ensina primeiramente através de seu exemplo, e depois verbalmente. Ele prega o que pratica. O apóstolo Paulo, um discipulador de muito sucesso, escreveu:

Tornem-se meus imitadores, como eu o sou de Cristo (1 Co. 11:1). Esse deve ser o alvo de cada ministro — ser capaz de dizer honestamente para aqueles a quem lidera: “Ajam com eu ajo. Se quiserem saber como um seguidor de Cristo vive, me observem.” Em comparação, lembro-me de ter dito a uma congregação que pastoreei: “Não sigam a mim... sigam a Cristo!” Mesmo não tendo percebido na hora, eu estava admitindo que não era um bom exemplo a ser seguido. O fato é que eu estava admitindo que não estava seguindo a Cristo como deveria, e ainda estava mandando-os fazer algo que eu não estava! Isso é tão diferente do que Paulo falou. Na verdade, se não pudermos dizer às pessoas para nos imitar porque estamos imitando a Cristo, então, não deveríamos estar no ministério, já que as pessoas usam ministros como seus modelos. A igreja é um reflexo de seus líderes.

Ensinando Unidade Através do Exemplo Vamos aplicar esse conceito de ensino através do exemplo ao ensino de um tópico em particular. Todos pastores/presbíteros/bispos desejam que o rebanho que lideram seja unido. Eles odeiam divisão em seu corpo local. Sabem que facções são desagradáveis ao Senhor. Afinal de contas, Jesus mandou amar uns aos outros assim como Ele nos amou (veja Jo. 13:34-35). Nosso amor uns pelos outros é o que nos marca como Seus discípulos diante do mundo. Tudo isso sendo verdade, a maioria dos líderes de rebanhos adverte suas ovelhas a amar uns aos outros e lutar pela unidade. Mesmo assim, como ministros que devem ensinar principalmente através do exemplo, muitas vezes falhamos em nosso ensino sobre amor e unidade por causa da maneira que vivemos. Por exemplo, quando mostramos falta de amor e unidade com outros pastores, mandamos uma mensagem que contradiz o que pregamos. Esperamos que eles façam o que não fazemos. O fato é que, as palavras mais significantes de Jesus sobre unidade foram dirigidas a líderes com respeito aos seus relacionamentos com outros líderes. Na ultima ceia, por exemplo, depois de ter lavado os pés de Seus discípulos, Jesus falou: Vocês Me chamam “Mestre” e “Senhor”, e com razão, pois eu o sou. Pois bem, se eu, sendo Senhor e Mestre de vocês, lavei-lhes os pés, vocês também devem lavar os pés uns dos outros. Eu lhes dei o exemplo, para que vocês façam como lhes fiz (Jo. 13:13-15). [Note que Jesus ensinou pelo exemplo.] Muitas vezes, pastores usam essa passagem das Escrituras para ensinar seus rebanhos sobre ‘amar uns aos outros’, o que é apropriado. Contudo, as palavras nessa passagem foram dirigidas a líderes, aos doze apóstolos. Jesus sabia que Sua futura Igreja teria pouca chance de sucesso em sua missão se seus líderes estivessem divididos ou se competissem uns com os outros. Portanto, deixou claro que espera que Seus líderes sirvam uns aos outros humildemente. No contexto da cultura de Seus dias, Jesus demonstrou serviço humilde fazendo uma das tarefas mais baixas de um servo doméstico, lavar os pés. Se Ele tivesse visitado uma cultura diferente em um tempo diferente da história, poderia ter limpado latrinas ou lavado as latas de lixo de Seus discípulos. Quantos de Seus líderes modernos estão dispostos a demonstrar esse tipo de amor e humildade a outros? Em menos de uma hora, Jesus enfatizou repetidamente essa importante mensagem. Minutos depois de ter lavado seus pés, Jesus disse aos Seus futuros líderes de igrejas:

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Um novo mandamento lhes dou: Amem-se uns aos outros. Como eu os amei, vocês devem amar-se uns aos outros. Com isso todos saberão que vocês são meus discípulos, se vocês se amarem uns aos outros (Jo. 13:34-35). Com certeza, essas palavras têm aplicação a todos os discípulos de Cristo, mas foram originalmente dirigidas a líderes a respeito de seus relacionamentos com outros líderes. Novamente, minutos mais tarde, Jesus disse: O meu mandamento é este: Amem-se uns aos outros como eu os amei. Ninguém tem mais amor do que aquele que dá a sua vida pelos seus amigos (Jo. 15:12-13). Note que Jesus estava novamente falando com líderes. Segundos mais tarde, Ele disse novamente: Este é o meu mandamento: Amem-se uns aos outros (Jo. 15:17). Então, alguns minutos depois, os discípulos de Jesus o ouviram orar por eles: Não ficarei mais no mundo, mas eles ainda estão no mundo, e eu vou para ti. Pai santo, protege-os em teu nome, o nome que me deste, para que sejam um, assim como somos um (Jo. 17:11, ênfase adicionada). Finalmente, alguns segundos mais tarde, enquanto Jesus terminava Sua oração, Seus discípulos o ouviram falar: Minha oração não é apenas por eles. Rogo também por aqueles que crerão em mim, por meio da mensagem deles, para que todos sejam um, Pai, como tu estás em mim e eu em ti. Que eles também estejam em nós, para que o mundo creia que tu me enviaste. Dei-lhes a glória que me deste, para que eles sejam um, assim como nós somos um: eu neles e tu em mim. Que eles sejam levados à plena unidade, para que o mundo saiba que tu me enviaste, e os amaste como igualmente me amaste (Jo. 17:20-23, ênfase adicionada). Portanto, durante o período de menos de uma hora, Jesus enfatizou seis vezes a Seus futuros líderes a importância de serem unidos e demonstrarem sua unidade; a importância de amar e servir humildemente uns aos outros. Obviamente, isso era muito importante para Jesus. A unidade deles era um fator chave para o mundo crer nEle.

Como Estamos Indo? Infelizmente, enquanto esperamos que nossos rebanhos se unam em amor, muitos de nós competem com outros e usam meios imorais para construir suas igrejas às custas de outras igrejas. Muitos de nós evitam qualquer comunhão com pastores que têm doutrinas diferentes das nossas. Até anunciamos nossa falta de unidade em placas que colocamos na frente de nossas igrejas para o mundo ver, mandando uma mensagem para todos: “Nós não somos como aqueles outros cristãos dos outros prédios.” (E nós fizemos um bom trabalho educando o mundo sobre a nossa falta de união, já que a maioria dos ímpios sabe que o cristianismo é uma instituição muito dividida.) Simplificando, não praticamos o que pregamos, e nosso exemplo ensina nossas congregações muito mais que nossos sermões sobre unidade. É besteira pensar que cristãos normais vão se unir e amar uns aos outros quando seus líderes agem de forma diferente. Obviamente, a única solução é o arrependimento. Devemos nos arrepender por dar o exemplo errado para os crentes e para o mundo. Devemos remover as barreiras que nos dividem e começar a amar uns aos outros como Jesus mandou. Isso significa que, em primeiro lugar, devemos nos encontrar com outros pastores e ministros, incluindo aqueles que estão convencidos de doutrinas diferentes. Não estou falando de estar em comunhão com pastores que não nasceram de novo, que não estão tentando obedecer a Jesus, ou que estão no ministério para ganho próprio. Eles são lobos em peles de ovelhas, e Jesus nos disse exatamente como identificá-los. Eles são conhecidos por seus frutos. Contudo, estou falando de pastores e ministros que estão se esforçando para obedecer aos mandamentos de Jesus, verdadeiros irmãos e irmãs em Cristo. Se você é pastor, deve se comprometer 53


a amar outros pastores, mostrando esse amor de maneira prática ao seu rebanho. Um jeito de começar é ir a outros pastores de sua vizinhança e pedir perdão por não tê-los amado como devia. Isso deve quebrar algumas barreiras. Então, se comprometa em se encontrarem regularmente para uma refeição, encorajar, advertir um ao outro e orar. Quando isso acontecer, finalmente poderá discutir amavelmente as doutrinas que tendem a dividi-los, lutando pela unidade, concordando em tudo que discutirem, ou não. Minha vida e ministério foram enriquecidos significantemente quando finalmente concordei em ouvir ministros que não eram do mesmo campo doutrinário que eu. Perdi muitas bênçãos por ter me isolado por muito tempo. Você também pode demonstrar seu amor e unidade convidando outros pastores para pregar em sua igreja ou reunião de igreja no lar; ou então, sua igreja pode ter reuniões combinadas com outras igrejas ou reuniões de igrejas nos lares. Você pode mudar o nome de sua igreja para que ele não anuncie ao mundo sua desunião com o resto do corpo de Cristo. Pode sair de sua denominação ou associação nomeada e se identificar só como o corpo de Cristo, mandando uma mensagem para todos que você acredita que Jesus está construindo somente uma Igreja, e não muitas igrejas diferentes que não se dão bem umas com as outras. Isso parece radical, eu sei. Mas por que fazer qualquer coisa para sustentar o que claramente Jesus nunca quis? Por que se envolver em coisas que O descontentam? Não existem denominações ou associações especiais mencionadas nas Escrituras. Quando os coríntios se dividiram por causa de mestres favoritos, Paulo os repreendeu firmemente, dizendo que suas divisões revelavam sua carnalidade e criancice espiritual (veja 1 Co. 3:1-7). Nossas divisões revelam alguma outra coisa? Qualquer coisa que nos separa dos outros deve ser evitada. Igrejas nos lares devem evitar se dar nome ou se juntar a qualquer associação que tenha nome. Nas Escrituras, igrejas individuais eram identificadas somente pelas casas em que se reuniam. Grupos de igrejas eram identificados somente pelas cidades em que se encontravam. Todos consideravam fazer parte da única Igreja, o corpo de Cristo. Há somente um Rei e um Reino. Qualquer um que se coloca em uma posição em que crentes ou igrejas se identifiquem com ele está construindo seu próprio reino dentro do Reino de Deus. É melhor se preparar para ficar diante do Rei, que diz: “Não darei minha glória a nenhum outro” (Is. 48:11c). Novamente, tudo isso é para dizer que ministros devem mostrar o exemplo certo de obediência a Cristo diante de todos, porque as pessoas irão seguir seus exemplos. O exemplo que vivem diante de outros é o meio mais influente de ensino que há. Como Paulo escreveu para os crentes de Filipo: Irmãos, sigam unidos o meu exemplo e observem os que vivem de acordo com o padrão que lhes apresentamos (Fp. 3:17, ênfase adicionada).

O Que Ensinar Como Paulo, o ministro que faz discípulos tem um alvo. Esse alvo é apresentar “todo homem perfeito em Cristo” (Cl. 1:28b). Então, ele, assim como Paulo, irá advertir e ensinar “a cada um com toda a sabedoria” (Cl. 1:28a). Note que Paulo não ensinou somente a educar ou entreter pessoas. O discipulador pode dizer como Paulo: “O objetivo desta instrução é o amor que procede de um coração puro, de uma boa consciência e de uma fé sincera” (1 Tm. 1:5). Isto é, ele quer produzir verdadeira imitação e santidade de Cristo nas vidas das pessoas a quem serve, que é a razão de ensinar os crentes a obedecerem a todos os mandamentos de Cristo. Ele ensina a verdade, advertindo seus ouvintes a “viver em paz com todos e para serem santos; sem santidade ninguém verá o Senhor” (Hb. 12:14). O discipulador sabe que Jesus mandou Seus discípulos ensinarem seus discípulos a obedecerem a tudo, e não apenas parte do que Ele mandou (veja Mt. 28:19-20). Ele quer ter a certeza de não negligenciar um único ponto que Cristo mandou; e então, regularmente ensinará versículo por 54


versículo dos evangelhos e epístolas. É aí que os mandamentos de Jesus serão gravados e ré enfatizados. Esse tipo de ensino expositório também garante que sua instrução continuará balanceada. Quando só ensinamos mensagens atuais, tendemos focalizar em tópicos populares e negligenciar aqueles que não são tão populares. Contudo, o professor que ensina versículo por versículo, não ensinará somente sobre o amor de Deus, mas também sobre Sua ira e disciplina. Ele não ensinará somente as bênçãos de ser cristão, mas também as responsabilidades. Será improvável que ele focalize temas superficiais, enfatizando o que é menos importante e negligenciando o mais importante. (De acordo com Jesus, os fariseus faziam isso; veja Mt. 23:23-24.)

Superando Medos de Ensinos Expositórios Muitos pastores têm medo de ensinar versículo por versículo porque existem muitas coisas que não entendem nas Escrituras, e não querem que suas congregações saibam o quanto não sabem. É claro, isso é orgulho! Não existe uma pessoa na terra que entenda tudo nas Escrituras perfeitamente. Até Pedro disse que algumas coisas que Paulo escreveu eram difíceis de serem entendidas (veja 2 Pd. 3:16). Quando um pastor que ensina versículo por versículo chega a um versículo ou passagem que não entende, ele deve simplesmente falar ao seu rebanho que não entende a próxima seção e pulá-la. Ele também pode pedir que orem para que o Espírito Santo o ajude a entender. Sua humildade será um bom exemplo para seu rebanho, um sermão por si só. O pastor/presbítero/bispo de uma igreja no lar tem a vantagem extra de ensinar um pequeno grupo em um ambiente informal, pois perguntas podem ser feitas durante esse tempo. Isso também abre a possibilidade para o Espírito Santo dar entendimento a outros do grupo em relação às escrituras que estão sendo estudadas. O resultado pode ser um aprendizado muito mais efetivo para todos. Um bom lugar para começar a ensinar os mandamentos de Jesus é Seu Sermão do Monte, encontrado em Mateus 5-7. Ali, Jesus deu muitos mandamentos, e ajudou Seus seguidores judeus a entenderem corretamente as leis dadas através de Moises. Um pouco mais adiante neste livro, ensinarei o Sermão do Monte, versículo por versículo para demonstrar como isso pode ser feito.

A Preparação do Sermão Não há evidências no Novo Testamento sobre qualquer pastor/presbítero/bispo que prepara um sermão/discurso semanal completo com pontos claros e preparados e ilustrações escritas em esboços, como é a prática de vários ministros modernos. Com certeza, nenhum de nós pode imaginar Jesus fazendo tal coisa! O ensino na igreja primitiva era muito mais espontâneo e interativo, seguindo o estilo judeu, ao invés de discursado, como era a prática dos gregos e romanos; uma tradição que foi consequentemente adotada pela igreja quando ela se tornou institucionalizada. Se Jesus disse para Seus discípulos não prepararem defesa quando fossem chamados à corte judicial, prometendo que o Espírito Santo lhes daria palavras espontâneas e irrefutáveis, devemos esperar que Deus irá ajudar pastores em reuniões de igreja até certo ponto! Isso não quer dizer que ministros não devem se preparar orando e estudando. Paulo advertiu a Timóteo: Procure apresentar-se a Deus aprovado, como obreiro que não tem do que se envergonhar e que maneja corretamente a palavra da verdade (2 Tm. 2:15). Ministros que seguem a instrução de Paulo de deixar que “habite ricamente em vocês a palavra de Cristo” (Cl. 3:16) ficarão tão cheios da Palavra de Deus que serão capazes de ensinar por sua “abundância.” Então, querido pastor, o importante é que você mergulhe na Bíblia. Se você conhece seu assunto e é apaixonado por ele, pouca preparação é realmente necessária para comunicar a verdade 55


de Deus. Além do mais, se ensinar versículo por versículo, pode simplesmente usar cada versículo consecutivo como esboço. Sua preparação deve então consistir de oração e meditação nos versículos das Escrituras que estará ensinando. Se você pastoreia uma igreja no lar, a natureza interativa do ensino irá diminuir ainda mais a necessidade de esboços. O ministro que tem fé que Deus o irá ajudar enquanto ensina, será recompensado com a ajuda de Deus. Então, confie menos em si mesmo, em sua preparação e anotações e mais no Senhor. Gradualmente, enquanto ganha fé e confiança, prepare menos anotações, até que possa prosseguir com apenas o esqueleto de um esboço ou esboço algum. Aquele que é inibido diante de outros é provável que dependa mais de notas preparadas, pois tem medo de errar em público. Ele precisa perceber que seu medo está enraizado na insegurança que, por sua vez, está enraizada no orgulho. Ele ficaria melhor se parasse de se preocupar com o que as pessoas acham dele e se preocupar mais com o que Deus acha dele e de sua audiência. Nenhum sermão preparado pode tocar as pessoas como um ensino tocante vindo do Espírito. Pense como a comunicação seria atrapalhada se todos usassem anotações preparadas para suas conversas! As conversas morreriam! O estilo de conversas não preparadas é bem mais sincero que um discurso preparado. Ensinar não é atuar. É transmitir a verdade. Todos sabemos quando estamos ouvindo um discurso, e quando percebemos temos a tendência de automaticamente não prestar atenção.

Mais Quatro Pensamentos (1) Alguns ministros são como papagaios, pegam todo o material para seus sermões de livros que outros escreveram. Eles estão perdendo uma benção maravilhosa de serem ensinados pessoalmente pelo Espírito Santo, e também é provável que propaguem os erros dos escritores que copiaram. (2) Muitos pastores imitam o estilo de pregação e ensino de outros pregadores, estilos que são puramente tradicionais. Por exemplo, alguns grupos acreditam que os sermões só são ungidos quando são altos e rápidos. Aqueles que vão à igreja são expostos a sermões gritados do início ao fim. A verdade é que as pessoas normalmente deixam de prestar atenção na gritaria redundante, assim como na pregação monótona. Uma voz variada é muito mais cativante. Mais adiante, a pregação pode ser mais alta por ser exortativa, enquanto o ensino será normalmente feito em um tom de conversa, já que é instrucional. (3) Eu tenho observado ouvintes de sermões em centenas de cultos de igrejas, e me impressiona o fato de tantos pastores e professores não perceberem as muitas indicações de que as pessoas estão entediadas e/ou não ouvindo. Pastor, as pessoas que parecem entediadas estão entediadas! Aqueles que não estão olhando para você enquanto fala provavelmente não estão ouvindo. As pessoas que não estão ouvindo não estão sendo ajudadas. Se pessoas sinceras estão entediadas e/ou não ouvindo, então, você precisa melhorar seus sermões: dê mais exemplos; conte estórias relevantes; invente parábolas; mantenha o sermão simples; ensine a Palavra de coração; seja sincero; seja você mesmo; varie sua voz; faça contato visual com o maior número de ouvintes possível; use alguma expressão facial; use suas mãos; mexa-se; não fale por muito tempo; se o grupo for pequeno, deixe as pessoas fazerem perguntas em qualquer hora razoável. (4) A ideia que cada sermão dever ter três pontos é simplesmente uma invenção humana. O objetivo é fazer discípulos, não seguir teorias modernas sobre pregações. Jesus disse: “Cuide das minhas ovelhas” e não: “Impressione minhas ovelhas.”

A Quem Ensinar Seguindo o modelo de Jesus, o discipulador, até certo ponto, é seletivo a respeito de quem ensina. Isso pode lhe surpreender, mas é verdade. Muitas vezes Jesus falou às multidões 56


em parábolas, e tinha um motivo para fazer isso: Ele não queria que todos entendessem o que estava dizendo. Isso está claro nas Escrituras: Os discípulos aproximaram-se dele e perguntaram: “Por que falas ao povo por parábolas?” Ele respondeu: “A vocês foi dado o conhecimento dos mistérios do Reino dos céus, mas a eles não. A quem tem será dado, e este terá em grande quantidade. De quem não tem, até o que tem lhe será tirado. Por essa razão eu lhes falo por parábolas: Porque vendo, eles não veem e, ouvindo, não ouvem nem entendem” (Mt. 13:10-13). O privilégio de entender as parábolas de Cristo estava reservado somente para aqueles que tinham se arrependido e decidido seguir a Ele. Aqueles que rejeitaram a oportunidade de se arrepender, resistindo à vontade de Deus para suas vidas, também foram rejeitados por Deus. Deus resiste ao orgulhoso, mas dá graça ao humilde (veja 1 Pd. 5:5). Similarmente, Jesus instruiu Seus seguidores: “Não deem o que é sagrado aos cães, nem atirem suas pérolas aos porcos; caso contrário, estes as pisarão e, aqueles, voltando-se contra vocês, os despedaçarão” (Mt. 7:6). Obviamente, Jesus estava falando figurativamente. Ele quis dizer: “Não dê o que é valioso para aqueles que não apreciam seu valor”. Porcos não percebem que pérolas são preciosas, e assim porcos espirituais não dão valor a Palavra de Deus quando a ouvem. Se acreditassem que se tratava mesmo da Palavra de Deus o que estavam ouvindo, dariam sua atenção total e obedeceriam. Como você sabe se alguém é um porco espiritual? Você joga uma pérola para ele e vê o que ele faz com ela. Se for indiferente, então você saberá que é um porco espiritual. Se obedecê-la, então, saberá que não é um porco espiritual. Infelizmente, muitos pastores estão fazendo o que Jesus mandou não fazer: jogando continuamente suas pérolas aos porcos, ensinando pessoas que estão resistindo ou têm rejeitado a Palavra de Deus. Esses ministros estão gastando seu tempo dado por Deus. Eles deviam ter sacudido o pó de seus pés e continuado há muito tempo, assim como Jesus mandou.

As Ovelhas, os Bodes e os Porcos O fato é, você não pode discípula alguém que não quer ser discipulado, alguém que não quer obedecer a Jesus. Muitas igrejas estão cheias de pessoas assim, que são cristãs culturais, muitos que acham que renasceram por terem simplesmente concordado mentalmente com alguns fatos teológicos sobre Jesus e o cristianismo. Elas são bodes e porcos, não ovelhas. Mesmo assim, muitos pastores gastam 90% de seu tempo tentando manter esses porcos e bodes felizes, enquanto negligenciam aqueles que deviam estar ajudando espiritualmente e servindo, as verdadeiras ovelhas! Pastor, Jesus quer que você alimente Suas ovelhas, não os bodes e porcos (veja Jo. 21:17)! Mas como sabemos quem são as ovelhas? Elas são aquelas que chegam na igreja primeiro e saem por último. Elas estão com fome para aprender a verdade, porque Jesus é Senhor delas e querem agradá-Lo. Elas vão à igreja não só aos domingos, mas sempre que tem uma reunião. Envolvem-se em pequenos grupos. Muitas vezes fazem perguntas. Ficam animadas por causa do Senhor. Elas procuram oportunidades para servir. Pastor, dedique a maioria de seu tempo e atenção a essas pessoas. Elas são os discípulos. Para os bodes e porcos que vão à sua igreja, pregue o evangelho pelo tempo que aguentarem. Mas se você pregar o evangelho verdadeiro, não aguentarão muito tempo. Eles sairão da igreja, ou se tiverem o poder, tentarão removê-lo de sua posição. Se conseguirem, abane o pó de seus pés enquanto sai. (Em um ambiente de igreja no lar, tal coisa não pode acontecer, especialmente se a igreja se reunir em sua casa!) Do mesmo modo, evangelistas não devem se sentir na obrigação de pregar o evangelho às mesmas pessoas que o rejeitaram repetidamente. Deixe que os mortos sepultem os mortos (veja Lc. 9:60). Você é um embaixador de Cristo, levando a mensagem mais importante do Rei dos reis! Sua 57


posição é muito alta no Reino de Deus e sua responsabilidade é enorme! Não gaste seu tempo falando para alguém o evangelho duas vezes, até que todos tenham ouvido uma vez. Se você quiser ser um discipulador, deve selecionar quem vai ensinar, sem gastar seu tempo valioso com pessoas que não querem obedecer a Jesus. Paulo escreveu a Timóteo: E as palavras que me ouviu dizer na presença de muitas testemunhas, confie-as a homens fiéis que sejam também capazes de ensinar outros (2 Tm. 2:2, ênfase adicionada).

Alcançando o Alvo Imagine por um momento uma coisa que nunca poderia ter acontecido no ministério de Jesus, mas que acontece o tempo todo em igrejas modernas. Imagine que Jesus, depois de Sua ressurreição, tivesse ficado na terra e começado uma igreja, como a igreja institucional moderna, e então, a tivesse pastoreado por trinta anos. Imagine-O dando sermões todos os domingos na mesma congregação. Imagine Pedro, Tiago e João sentados no primeiro banco durante um dos sermões de Jesus, onde têm se sentado todos os domingos por vinte anos. Imagine Pedro virando para João e sussurrando em seu ouvido com um suspiro: “Já ouvimos esse sermão dez vezes.” Sabemos que essa cena é absurda, porque sabemos que Jesus nunca colocaria a Si mesmo ou Seus discípulos em tal situação. Ele veio para fazer alguns discípulos e fazê-los de uma certa forma dentro de um certo tempo. Em um período de mais ou menos três anos Jesus discipulou Pedro, Tiago, João e alguns outros. Ele não fez isso pregando a eles uma vez por domingo em um prédio de igreja, mas vivendo na frente deles, respondendo às suas perguntas e dando a eles a oportunidade de servir. Ele completou Sua tarefa e foi adiante. Então, por que fazemos coisas que Jesus nunca faria? Por que tentamos alcançar o que Deus quer, pregando às mesmas pessoas por décadas? Quando teremos completado nossa tarefa? Por que depois de alguns anos nossos discípulos ainda não estão preparados para fazer discípulos? Meu ponto é, se estamos fazendo nosso trabalho corretamente, deve haver uma hora em que nossos discípulos estarão maduros o suficiente para não precisarem mais de nossa ministração. Eles devem ser liberados para fazer seus discípulos. Nós devemos alcançar o alvo que Deus colocou diante de nós, e Jesus nos mostrou como. A propósito, em uma igreja no lar em crescimento, existe uma necessidade contínua de discipular pessoas e desenvolver líderes. Uma igreja no lar saudável não cairá no círculo sem fim do mesmo líder pregar para as mesmas pessoas por décadas.

Motivos Certos Para ter sucesso no ensino que leva à formação de discípulos, não há nada mais importante que ter os motivos certos. Quando alguém está no ministério pelos motivos errados, ele fará as coisas erradas. Esta é a razão principal de existirem tantos ensinos falsos e desbalanceados na igreja hoje. Quando o motivo de um ministro é ganhar popularidade, ter sucesso aos olhos dos outros ou ganhar muito dinheiro, está destinado ao fracasso aos olhos de Deus. O mais triste é que ele pode obter sucesso em alcançar seu objetivo de ganhar popularidade, ter sucesso aos olhos dos outros ou ganhar muito dinheiro, mas o dia chegará que seus motivos errados serão expostos diante do trono do julgamento de Cristo, e não receberá recompensa por seu trabalho. Se lhe for permitido entrar no reino dos céus,[3] todos saberão a verdade sobre ele, já que sua falta de recompensa e sua baixa posição no Reino revelarão. Não há dúvida que existem diferentes posições no céu. Jesus avisou: Todo aquele que desobedecer a um desses mandamentos, ainda que dos menores, e ensinar os outros a fazer o mesmo, será chamado menor no Reino dos céus; mas todo aquele que praticar e ensinar estes mandamentos será chamado grande no Reino dos céus (Mt. 5:19). É claro que aqueles ministros que obedecem e ensinam os mandamentos de Cristo sofrerão por isso enquanto na terra. Jesus prometeu sofrimento para aqueles que O obedecem (veja Mt. 5:10-12; 58


Jo. 16:33). Eles são os menos prováveis para ganhar sucesso terreno, popularidade e riqueza. O que ganham são recompensas futuras e louvores de Deus. Qual você prefere? Sobre isso, Paulo escreveu: Afinal de contas, quem é Apolo? Quem é Paulo? Apenas servos por meio dos quais vocês vieram a crer, conforme o ministério que o Senhor atribuiu a cada um. Eu plantei, Apolo regou, mas Deus é quem fez crescer; de modo que nem o que planta nem o que rega são alguma coisa, mas unicamente Deus, que efetua a crescimento. O que planta e o que rega têm um só propósito, e cada um será recompensado de acordo com o seu próprio trabalho. Pois nós somos cooperadores de Deus; vocês são lavoura de Deus e edifício de Deus. Conforme a graça de Deus que me foi concedida, eu, como sábio construtor, lancei o alicerce, e outro está construindo sobre ele. Contudo, veja cada um como constrói. Porque ninguém pode colocar outro alicerce além do que já está posto, que é Jesus Cristo. Se alguém constrói sobre esse alicerce usando ouro, prata, pedras preciosas, madeira, feno ou palha, sua obra será mostrada, porque o Dia a trará à luz; pois será revelada pelo fogo, que provará a qualidade da obra de cada um. Se o que alguém construiu se queimar, esse sofrerá prejuízo; contudo, será salvo como alguém que escapa através do fogo (1 Co. 3:5-15). Paulo se comparou a um mestre de obras que constrói o alicerce. Comparou Apolo, um professor que foi a Corinto depois de Paulo ter estabelecido a igreja lá, a alguém que constrói em cima do alicerce que já foi lançado. Note que Paulo e Apolo iriam, no fim, ser recompensados com base na qualidade, não na quantidade, de seu trabalho (veja 3:13). Simbolicamente falando, Paulo e Apolo poderiam construir o prédio do Senhor com seis tipos diferentes de materiais, dos quais três são comuns, relativamente baratos e inflamáveis, e três são incomuns, muito caros, e não-inflamáveis. Um dia, os respeitáveis materiais de construção deles seriam submetidos ao fogo do julgamento de Deus, e a madeira, feno e palha seriam consumidos pelo fogo, revelando sua inutilidade e qualidade temporária. O ouro, prata e pedras preciosas, representando trabalhos que são preciosos e eternos aos olhos de Deus, resistiriam às chamas provadoras. Podemos ter certeza que ensinos não-bíblicos serão queimados e virarão cinzas no julgamento de Cristo. E também qualquer coisa feita pelo poder, métodos ou sabedoria da carne, assim como qualquer coisa feita pelos motivos errados. Jesus avisou que qualquer coisa que possamos fazer que é motivada pelo desejo de louvores humanos não será recompensada (veja Mt. 6:1-6, 16-18). Esses tipos de trabalhos inúteis podem não ser evidentes aos olhos humanos agora, mas com certeza será revelado a todos no futuro, como Paulo avisou. Pessoalmente, se meus trabalhos fossem da categoria de madeira, feno e palha, preferiria descobrir agora do que mais tarde. Agora, há tempo para o arrependimento; depois, será tarde demais.

Checando Nossos Motivos É muito fácil enganarmos a nós mesmos sobre nossos motivos. Eu, com certeza, já fiz isso. Como podemos descobrir se nossos motivos são puros? O melhor caminho é pedir a Deus para nos revelar se nossos motivos são errados, e então monitorar nossos pensamentos e obras. Jesus nos mandou fazer boas obras como orar e dar esmolas aos pobres em segredo, e esse é um modo de assegurar que estamos indo bem porque desejamos louvar ao Senhor ao invés das pessoas. Se formos obedientes a Deus apenas quando estamos sendo observados, isso indica que algo está muito errado. Ou, se evitamos pecados escandalosos que arruinariam nossa reputação se fossemos pegos, mas nos entregamos a pecados menores que provavelmente ninguém ficaria sabendo, isso mostra que nossas motivações são erradas. Se estivermos verdadeiramente tentando agradar a Deus — que conhece cada um de nossos pensamentos, palavras e obras — então, faremos o possível para obedecê-Lo em todo o tempo, nas coisas grandes e pequenas, conhecidas ou não pelos outros. 59


Similarmente, se nossos motivos são corretos, não seguiremos as manias de crescimento de igrejas, que só servem para aumentar a presença nos cultos, às custas da formação de discípulos que obedecem a todos os mandamentos de Cristo. Ensinaremos toda a Palavra de Deus e não focalizaremos apenas os tópicos populares que apelam a pessoas carnais e ímpias. Não torceremos a Palavra de Deus ou ensinaremos passagens de modo que violem seus contextos dentro da Bíblia. Não buscaremos títulos e lugares de honra a nós mesmos. Não tentaremos nos tornar conhecidos. Não iremos fornecer aos ricos. Não acumularemos tesouros na terra, mas viveremos simplesmente e daremos tudo o que pudermos, dando o exemplo de bons mordomos diante de nossos rebanhos. Preocuparemo-nos mais com o que Deus pensa de nossos sermões do que com o que os outros pensam. Como estão seus motivos?

Uma Doutrina que Destrói a Formação de Discípulos O discipulador nunca ensina algo que vai contra o objetivo de fazer discípulos. Portanto, ele nunca diz algo que deixa as pessoas confortáveis em desobedecer ao Senhor Jesus. Ele nunca apresenta a graça de Deus como um meio de pecar sem temer o julgamento. Pelo contrário, apresenta a graça de Deus como um meio de se arrepender dos pecados e ter uma vida de superação. Como sabemos, as Escrituras dizem que somente os vencedores herdarão o Reino de Deus (veja Ap. 2:11, 3:5, 21:7). Infelizmente, alguns ministros modernos seguram-se a doutrinas não-bíblicas que causam grande dano ao objetivo de fazer discípulos. Uma das doutrinas que tem se tornado muito popular nos Estados Unidos é aquela de segurança eterna incondicional, ou “uma vez salvo, sempre salvo.” Essa doutrina diz que pessoas renascidas nunca podem perder sua salvação, independentemente de como levam suas vidas. Eles dizem que, já que a salvação é pela graça, a mesma graça que no início salva as pessoas que oram para recebê-la, as manterá salvas. Qualquer outro ponto de vista, dizem, é equivalente a dizer que as pessoas são salvas por suas obras. Naturalmente, tal ponto de vista é um grande prejuízo à santidade. Já que obediência a Cristo, supostamente não é essencial para alguém entrar no céu, há pouca motivação para obedecer a Jesus, especialmente quando a obediência é custosa. Como eu já disse antes no livro, a graça que Deus estendeu sobre a humanidade não alivia a responsabilidade das pessoas de obedecê-Lo. As Escrituras dizem que a salvação não vem só pela graça, mas também pela fé (veja Ef. 2:8). Graça e fé são necessárias para a salvação. Fé é a reação própria à graça de Deus, e a verdadeira fé sempre resulta em arrependimento e obediência. A fé sem obras está morta, inútil e não pode salvar, de acordo com Tiago (veja Tg. 2:14-26). É por isso que as Escrituras declaram repetidamente que a salvação depende de contínua fé e obediência. Existem várias passagens nas Escrituras que deixam isso bem claro. Por exemplo, Paulo escreve em sua carta aos colossenses: Antes vocês estavam separados de Deus e, na mente de vocês, eram inimigos por causa do mau procedimento de vocês. Mas agora ele os reconciliou pelo corpo físico de Cristo, mediante a morte, para apresentá-los diante dele santos, inculpáveis e livres de qualquer acusação, desde que continuem alicerçados e firmes na fé, sem se afastarem da esperança do evangelho, que vocês ouviram e que tem sido proclamado a todos os que estão debaixo do céu. Esse é o evangelho do qual eu, Paulo, me tornei ministro (Cl. 1:21-23, ênfase adicionada). Não é possível ser mais claro. Somente um teólogo pode torcer ou não entender o que Paulo quis dizer. Jesus confirmará que somos inculpáveis se continuarmos na fé. Essa mesma verdade é 60


repetida em Romanos 11:13-24, 1 Coríntios 15:1-2 e Hebreus 3:12-14, 10:38-39, onde é dito claramente que a salvação final é possível pela fé contínua. Todos contêm a palavra condicional se.

A Necessidade de Santidade Pode um salvo perder a salvação pecando? A resposta é encontrada em muitas escrituras, como as seguintes, que garantem que aqueles que praticam diversos pecados não herdarão o Reino de Deus. Se um salvo pode voltar à prática dos pecados das seguintes listas juntadas por Paulo, então, um salvo pode perder a salvação: Vocês não sabem que os perversos não herdarão o Reino de Deus? Não se deixem enganar: nem imorais, nem idólatras, nem adúlteros, nem homossexuais passivos ou ativos, nem ladrões, nem avarentos, nem alcoólatras, nem caluniadores, nem trapaceiros herdarão o Reino de Deus (1 Co. 6:9-10, ênfase adicionada). Ora, as obras da carne são manifestas: imoralidade sexual, impureza e libertinagem; idolatria e feitiçaria; ódio, discórdia, ciúmes, ira, egoísmo, dissensões, facções e inveja; embriaguez, orgias e coisas semelhantes. Eu os advirto, como antes já os adverti: Aqueles que praticam essas coisas não herdarão o Reino de Deus (Gl. 5:19-21, ênfase adicionada). Porque vocês podem estar certos disto: nenhum imoral, ou impuro, ou ganancioso, que é idólatra, tem herança no Reino de Cristo e de Deus. Ninguém os engane com palavras tolas, pois é por causa dessas coisas que a ira de Deus vem sobre os que vivem na desobediência (Ef. 5:5-6, ênfase adicionada). Note que em todos os casos, Paulo estava escrevendo para salvos, advertindo-os. Duas vezes ele os avisou para não serem enganados, indicando que estava preocupado que alguns salvos pudessem pensar que podem praticar os pecados listados e ainda assim herdar o Reino de Deus. Jesus avisou Seus discípulos mais próximos, Pedro, Tiago, João e André da possibilidade de serem lançados no inferno por não estarem preparados para Sua volta. Note que as palavras a seguir foram dirigidas a eles (veja Mc. 13:1-4), e não a uma multidão de pecadores: Portanto, vigiem, porque vocês não sabem em que dia virá o seu Senhor. Mas entendam isto: se o dono da casa soubesse a que hora da noite o ladrão viria, ele ficaria de guarda e não deixaria que a sua casa fosse arrombada. Assim, vocês [Pedro, Tiago, João e André] também precisam estar preparados, porque o Filho do homem virá numa hora em que vocês [Pedro, Tiago, João e André] menos esperam. Quem é, pois, o servo fiel e sensato, a quem seu senhor encarrega dos de sua casa para lhes dar alimento no tempo devido? Feliz o servo que seu senhor encontrar fazendo assim quando voltar. Garanto-lhes que ele o encarregará de todos os seus bens. Mas suponham que esse servo seja mau e diga a si mesmo: “Meu senhor está demorando”, e então comece a bater em seus conservos e a comer e a beber com os beberrões. O senhor daquele servo virá num dia em que ele não o espera e numa hora que não sabe. Ele o punirá severamente e lhe dará lugar com os hipócritas, onde haverá choro e ranger de dentes (Mt. 24:42-51, ênfase adicionada). E a moral da história? “Pedro, Tiago, João e André, não sejam como o servo desleal desta parábola.”[4] Para ressaltar o que tinha acabado de dizer aos Seus discípulos mais íntimos, Jesus continuou imediatamente com a parábola das Dez Virgens. Inicialmente, todas as dez estavam preparadas para a chegada do noivo, mas cinco se tornaram despreparadas e foram excluídas da festa de casamento. Jesus finalizou a parábola com estas palavras: “Portanto, vigiem *Pedro, Tiago, João e André+, porque vocês *Pedro, Tiago, João e André+ não sabem o dia nem a hora” (Mt. 25:13)! Isso é, “Não sejam como as cinco virgens imprudentes, Pedro, Tiago, João e André.” Se não houvesse a possibilidade de Pedro, Tiago, João e André não estarem preparados, não haveria necessidade de Jesus tê-los advertido. 61


E então, imediatamente contou-lhes a Parábola dos Talentos. Era a mesma mensagem novamente. “Não sejam como o escravo que possuía um talento, que não tinha mais nada a entregar ao seu senhor além daquilo que lhe tinha sido entregue.” No fim da parábola o mestre declarou: “E lancem fora o servo inútil, nas trevas, onde haverá choro e ranger de dentes” (Mt. 25:30). Jesus não poderia fazer sua mensagem mais simples. Somente um teólogo poderia torcer seu significado. Havia o perigo de Pedro, Tiago, João e André serem lançados no inferno quando Jesus retornasse se não tivessem sido obedientes. Se essa possibilidade existia para Pedro, Tiago, João e André, ela também existe para todos nós. Como Jesus prometeu, somente aqueles que fazem a vontade de Seu Pai entrarão no Reino dos céus (veja Mt. 7:21).[5] Claramente, aqueles que ensinam a doutrina falsa da segurança eterna incondicional trabalham contra Cristo e a favor de Satanás, ensinando o oposto do que Jesus e Seus apóstolos ensinaram. Eles neutralizam efetivamente o mandamento de Jesus de fazer discípulos que obedecerão a tudo o que Ele mandou, bloqueando a rua estreita para o céu e aumentando a estrada larga para o inferno.[6]

Outra Doutrina Moderna que Destrói a Formação de Discípulos Não é só o ensinamento de segurança eterna incondicional que leva pessoas a pensar que santidade não é essencial para a salvação final. O amor de Deus é muitas vezes apresentado de modo que neutraliza a formação de discípulos. Várias vezes ouvimos pastores dizerem: “Deus te ama incondicionalmente.” As pessoas interpretam dessa forma, “Deus me aceita e me aprova sem levar em conta se eu O obedeço ou não.” Contudo, isso simplesmente não é verdade. Muitos desses mesmos pregadores acreditam que Deus joga as pessoas que não nasceram de novo no inferno, e certamente estão corretos em sua crença. Agora vamos pensar sobre isso. Obviamente, Deus não aprova as pessoas que lança no inferno. Então como podemos dizer que Ele as ama? Ele ama as pessoas que lança no inferno? Você acha que eles iriam dizer que Deus as ama? É claro que não. Deus diria que os ama? Certamente que não! Eles são abomináveis a Ele, que é a razão de os estar punindo no inferno. Ele não os aprova ou os ama. Isso sendo verdade, o amor de Deus por pecadores terrenos é claramente um amor misericordioso que é temporário, e não um amor de aprovação. Ele tem misericórdia deles, evitando Seu julgamento e dando-lhes a oportunidade de se arrependerem. Jesus morreu por eles, providenciando uma maneira de serem salvos. Desse modo, pode ser dito que Deus os ama. Mas Ele nunca os aprova. Ele nunca sente um amor por eles como um pai sente por seu filho. Na verdade, as Escrituras dizem: “Como um pai tem compaixão de seus filhos assim o Senhor tem compaixão dos que o temem” (Sl. 103:13, ênfase adicionada). Portanto, pode ser dito que Deus não tem a mesma compaixão por aqueles que não O temem. O amor de Deus pelos pecadores é parecido com a misericórdia de um juiz por um assassino condenado que recebe prisão perpétua ao invés de pena de morte. Não há um único caso no livro de Atos onde alguém, pregando o evangelho diz à audiência não salva que Deus os ama. Na verdade, muitas vezes os pregadores bíblicos advertiam sua audiência sobre a ira de Deus e os chamavam ao arrependimento, falando que Deus não os aprovava, que estavam em perigo e que precisavam fazer mudanças radicais em suas vidas. Se eles tivessem dito à sua audiência que Deus os amava (como fazem muitos ministros modernos), poderiam tê-los iludido a pensar que não estavam em perigo, que não estavam acumulando ira para si mesmos e que não havia necessidade de se arrependerem.

O Ódio de Deus pelos Pecadores Contrário ao que é muitas vezes proclamado hoje, sobre o amor de Deus pelos pecadores, as Escrituras dizem que Deus odeia pecadores: 62


Os arrogantes não são aceitos na tua presença; odeias todos os que praticam o mal. Destróis os mentirosos; os assassinos e os traiçoeiros o Senhor detesta (Sl. 5:5-6. ênfase adicionada). O Senhor prova o justo, mas o ímpio e a quem ama a injustiça, a sua alma odeia (Sl. 11:5, ênfase adicionada). Abandonei a minha família, deixei a minha propriedade e entreguei aquela a quem amo nas mãos dos seus inimigos. O povo da minha propriedade tornou-se para mim como um leão na floresta. Ele ruge contra mim, por isso eu o detesto (Jr. 12:7-8, ênfase adicionada). Toda a sua impiedade começou em Gigal; de fato, ali os odiei. Por causa dos seus pecados eu os expulsarei da minha terra. Não os amarei mais; todos os seus líderes são rebeldes (Os. 9:15, ênfase adicionada). Note que nenhuma das passagens acima diz que Deus só odeia o que as pessoas fazem — elas dizem que Ele as odeia. Isso brilha uma luz nesta coisa rotineira que Deus ama o pecador mas odeia o pecado. Não podemos separar uma pessoa do que ela faz. O que ele faz revela o que ele é. Portanto, Deus odeia as pessoas que pecam, e não só os pecados que cometem. Se Deus aprova as pessoas que fazem coisas que odeia, Ele é muito inconsistente consigo mesmo. Na corte judicial humana, pessoas são julgadas por seus crimes, e eles recebem a recompensa justa. Nós não odiamos o crime e aprovamos aqueles que os cometem.

Pessoas que Deus Odeia As Escrituras não só afirmam que Deus odeia certos indivíduos, elas também declaram que Ele odeia alguns tipos de pecadores ou que eles são abomináveis a Ele. Note que os versículos seguintes não dizem que o que essas pessoas fazem é abominável a Deus, e sim que elas são. As passagens não dizem que Deus abomina seus pecados, mas que Ele as abomina:[7] A mulher não usará roupas de homem, e o homem e não usará roupas de mulher, pois o Senhor, o seu Deus, tem aversão por todo aquele que assim procede (Dt. 22:5, ênfase adicionada). Pois o Senhor, o seu Deus, detesta quem faz essas coisas, quem negocia desonestamente (Dt. 25:16, ênfase adicionada). Vocês comerão a carne dos seus filhos e das suas filhas. Destruirei os seus altares idólatras, despedaçarei os seus altares de incenso e empilharei os seus cadáveres sobre os seus ídolos mortos, e rejeitarei vocês (Lv. 26:29-30, ênfase adicionada). Os arrogantes não são aceitos na tua presença; odeias todos os que praticam o mal. Destróis os mentirosos; os assassinos e os traiçoeiros o Senhor detesta (Sl 5:5-6, ênfase adicionada). Pois o Senhor detesta o perverso, mas o justo é seu grande amigo (Pv. 3:32, ênfase adicionada). O Senhor detesta os perversos de coração, mas os de conduta irrepreensível dão-lhe prazer (Pv. 11:20, ênfase adicionada). O Senhor detesta os orgulhosos de coração. Sem dúvida serão punidos (Pv. 16:5, ênfase adicionada), Absolver o ímpio e condenar o justo são coisas que o Senhor odeia (Pv. 17:15, ênfase adicionada). Como podemos reconciliar tais passagens com aquelas que afirmam o amor de Deus pelos pecadores? Como é possível dizer que Deus abomina e odeia pecadores, mas que também os ama? Devemos reconhecer que nem todo amor é igual. Existe o amor que não é condicional. Este pode ser chamado de “amor de misericórdia.” É um amor que diz: “Eu te amo apesar de.” Ele ama as pessoas independentemente de suas ações. Esse é o tipo de amor que Deus tem pelos pecadores. Em contraste ao amor de misericórdia existe o amor condicional. Ele pode ser referido como “amor de aprovação.” É um amor que é adquirido ou merecido. É um amor que diz: “Eu te amo por causa disso.” Alguns pensam que se o amor é condicional, não é amor; ou menosprezam tal amor, dizendo que é puramente egoísta e nada parecido com Deus. 63


Contudo, a verdade é que Deus possui o amor condicional, como logo veremos nas Escrituras. Portanto, não se deve desprezar o amor de aprovação. O amor de aprovação é o amor principal que Deus tem por Seus verdadeiros filhos. Devemos desejar o amor de aprovação de Deus muito mais que Seu amor de misericórdia.

O Amor de Aprovação é um Amor Inferior? Pare e faça a si mesmo essa pergunta: “Que tipo de amor eu preferiria que as pessoas tivessem por mim — amor de misericórdia ou amor de aprovação?” Eu tenho certeza que você irá preferir que as pessoas te amem “por causa de,” e não “apesar de.” Você preferiria ouvir seu cônjuge falar: “Eu não tenho razão para te amar, e não há coisa alguma em você que me motive a lhe mostrar meu apoio”; ou, “Eu te amo por tantos motivos, porque existe tanta coisa em você que eu admiro”? É claro que preferiríamos que nossos cônjuges nos amassem com um amor de aprovação, e esse é o motivo principal que une os casais e os mantêm juntos. Quando não existe algo que uma pessoa admira em seu cônjuge, quando todo amor de aprovação deixa de existir, poucos casamentos permanecem. Se eles permanecerem, o crédito vai para o amor de misericórdia, que origina do caráter devoto do doador desse amor. Tudo isso sendo verdade, vemos que amor condicional, ou de aprovação não é inferior. Enquanto amor de misericórdia é o mais louvável para se dar, o amor de aprovação é o mais louvável de se receber. Mais adiante, o fato do amor de aprovação ser o único tipo de amor que o Pai já teve por Jesus o eleva ao seu justo lugar de respeito. Deus o Pai nunca teve uma única gota de amor de misericórdia por Jesus, porque nunca houve algo de desagradável em Cristo. Jesus testificou: Por isso é que meu Pai me ama, porque eu dou a minha vida para retomá-la (Jo. 10:17, ênfase adicionada). Portanto, vemos que o Pai amava Jesus por causa da obediência de Jesus ao morrer. Não deve ter algo de errado com amor de aprovação, e sim tudo de certo. Jesus adquiriu e mereceu o amor de Seu Pai. Jesus também declarou que permanecia no amor de Seu Pai obedecendo aos Seus mandamentos: Como o Pai me amou, assim eu os amei; permaneçam no meu amor. Se vocês obedecerem aos meus mandamentos, permanecerão no meu amor, assim como tenho obedecido aos mandamentos de meu Pai e em seu amor permaneço (Jo. 15:9-10, ênfase adicionada). Mais adiante, como as Escrituras indicam, devemos seguir o exemplo de Jesus, e permanecer em Seu amor obedecendo aos Seus mandamentos. Ele está claramente falando do amor de aprovação nesta passagem, nos dizendo que podemos e devemos adquiri-lo, e que podemos nos retirar dele através da desobediência aos Seus mandamentos. Permanecemos em Seu amor somente se obedecermos aos Seus mandamentos. Tal coisa é raramente ensinada hoje em dia; mas devia ser, porque é o que Jesus disse. Jesus só confirma o amor de aprovação de Deus por aqueles que obedecem Seus mandamentos. Pois o próprio Pai os ama, porquanto vocês me amaram e creram que eu vim de Deus (Jo. 16:27, ênfase adicionada). Quem tem os meus mandamentos e lhes obedece, esse é o que me ama. Aquele que me ama será amado por meu Pai, e eu também o amarei e me revelarei a ele...Se alguém me ama obedecerá à minha palavra. Meu Pai o amará, nós viremos a ele e faremos morada nele (Jo. 14:21,23, ênfase adicionada). Note que na segunda passagem Jesus não estava prometendo aos crentes descomprometidos que se começassem a guardar Suas palavras iria se aproximar deles de maneira especial. Ele estava prometendo que se alguém começasse a amá-Lo e a guardar Suas palavras, então, Seu Pai o amaria e tanto Ele como Seu Pai viveriam nessa pessoa, uma clara referência ao renascimento. Todos que 64


renascem têm o Pai e o Filho vivendo nele pela habitação do Espírito Santo (veja Rm. 8:9). Então podemos ver novamente que aqueles que realmente renasceram são aqueles que se arrependeram e começaram a obedecer a Jesus, e portanto, são os únicos que recebem o amor de aprovação do Pai. É claro que Jesus ainda reserva Seu amor de misericórdia para aqueles que acreditam nEle. Quando desobedecem, Ele os perdoa, se confessarem seus pecados e perdoarem seus devedores.

A Conclusão Tudo isso mostra que Deus não ama Seus filhos obedientes da mesma forma que ama os perdidos. Ele só ama os perdidos com o amor de misericórdia, e tal amor é temporário, durando somente até que morram. Ao mesmo tempo em que os ama com o amor de misericórdia, Ele os odeia com um ódio derivado de Sua desaprovação de seu caráter. É isso que as Escrituras ensinam. Por outro lado, Deus ama muito mais Seus filhos, que aqueles que não renasceram. Primeiro, Ele os ama com o amor de aprovação porque eles têm se arrependido e têm se esforçado para obedecer aos Seus mandamentos. Enquanto crescem em santidade, Ele tem cada vez menos razões para amá-los com o amor de misericórdia, e mais um motivo para amá-los com o amor de aprovação, que é exatamente o que querem. Isso também mostra que muitos retratos do amor de Deus feitos por pregadores modernos e professores são ilusórios e inexatos. Separe um tempo para avaliar, à luz das Escrituras, os seguintes clichês sobre o amor de Deus: 1. Não há nada que possa fazer para Deus te amar mais ou menos do que já ama agora. 2. Não há nada que possa fazer para Deus deixar de te amar. 3. O amor de Deus é incondicional. 4. Deus ama a todos da mesma forma. 5. Deus ama o pecador mas odeia o pecado. 6. Não há nada que possa fazer para merecer o amor de Deus. 7. O amor de Deus por nós não é baseado em nossa performance. Todas as frases acima são potencialmente enganosas ou completamente falsas, já que a maioria nega o amor de aprovação de Deus e muitas adulteram Seu amor de misericórdia. Com respeito ao ponto 1, existe algo que crentes podem fazer para Deus amá-los mais com o amor de aprovação: podem ser mais obedientes. Também há algo que pode fazer Deus amá-los menos com o amor de aprovação: a sua desobediência. Há algo que os perdidos podem fazer para Deus amá-los muito mais: se arrependerem. Então, eles ganhariam o amor de aprovação de Deus. E há algo que poderiam fazer para Deus amá-los menos: morrer. Então, perderiam o único amor que Deus tinha por eles, Seu amor de misericórdia. Com respeito ao ponto 2, um cristão pode perder o amor de aprovação de Deus se voltar a praticar pecados, colocando-se em uma posição para experimentar somente o amor de misericórdia de Deus. E novamente, o ímpio pode morrer, e isso acabaria com o amor de misericórdia de Deus, o único amor que Deus já teve por ele. Com respeito ao ponto 3, o amor de aprovação de Deus com certeza é condicional. Até Seu amor de misericórdia é condicionado à pessoa estar fisicamente viva. Depois da morte, o amor de misericórdia de Deus acaba; portanto, é condicional, já que é temporário. Relativo ao ponto 4, é mais provável que Deus não ame a todos igualmente, pois Ele aprova ou desaprova todos, tanto pecadores como santos, diferentemente. Certamente o amor de Deus não é o mesmo por pecadores e santos. Com respeito ao ponto 5, Deus odeia pecadores e seus pecados. Pode ser melhor expressado como: Ele ama pecadores com um amor de misericórdia e odeia seus pecados. Do ponto de vista de Seu amor de aprovação, Ele os odeia. Com respeito ao ponto 6, todos podem e devem adquirir o amor de aprovação de Deus. Obviamente, ninguém pode merecer Seu amor de misericórdia, já que é incondicional. 65


Finalmente, com respeito ao ponto 7, o amor de misericórdia de Deus não é baseado em nossa performance, mas o amor de aprovação com certeza é. Tudo isso é para dizer que o discipulador dever apresentar o amor de Deus fielmente, como está escrito na Bíblia, pois não quer que pessoas se enganem. Somente as pessoas que Deus ama com o amor de aprovação entrarão no céu, e Deus só tem o amor de aprovação por aqueles que renascem e obedecem a Jesus. O discipulador nunca ensinaria o que pode levar as pessoas para longe da santidade. Seu alvo é o mesmo que o de Deus, fazer discípulos que obedeçam a todos os mandamentos de Cristo.

[1] A pregação do evangelho por evangelistas pode ser considerada uma forma de ensino; e evangelistas, com certeza, precisam proclamar um evangelho bíblico preciso. [2] A responsabilidade de ensinar grupos de pessoas publicamente não foi dada a todos os cristãos, mas todos têm a responsabilidade de ensinar um-a-um enquanto fazem discípulos (veja Mt. 5:19; 28:19-20; Cl. 3:16; Hb. 5:12). [3] Eu digo “se” porque aqueles que são lobos em peles de cordeiros são obviamente “ministros” que são motivados egoisticamente e serão lançados no inferno. Suponho que o que os separa de verdadeiros ministros com motivos errados seja o grau de suas motivações erradas. [4] Incrivelmente, alguns professores, que não podem escapar dos fatos sobre os quais Jesus estava advertindo Seus discípulos mais íntimos e que o servo desleal representa claramente alguém que era salvo, dizem que o lugar de choro e ranger de dentes é um lugar à beira do céu. Lá, salvos desleais irão supostamente ficar de luto temporariamente por sua perca de recompensas até que Jesus enxugue as lágrimas de seus olhos e então dê a eles as boas vindas no céu! [5] É claro que salvos que cometem um único pecado não perdem imediatamente sua salvação. Aqueles que pedem perdão por seus pecados são perdoados por Deus (se perdoarem aqueles que pecam contra eles). Aqueles que não pedem o perdão de Deus se colocam em perigo de serem disciplinados por Ele. Somente pelo endurecimento de seus corações às disciplinas do Senhor é que salvos correm o risco de perder a salvação. [6] Aqueles que ainda não estão convencidos que um crente em Jesus pode perder sua salvação devem considerar todas as seguintes passagens do Novo Testamento: Mt. 18:21-35; 24:4-5, 11-13, 2326, 42-51; 25:1-30; Lc. 8:11-15; 11:24-28; 12:42-46; Jo. 6:66-71; 8:31-32, 51; 15:1-6; At. 11:21-23; 14:21-22; Rm. 6:11-23; 8:12-14, 17; 11:20-22; 1 Co. 9:23-27; 10:1-21; 11:29-32; 15:1-2; 2 Co. 1:24; 11:2-4; 12:21-13:5; Gl. 5:1-4; 6:7-9; Fp. 2:12-16; 3:17-4:1; Cl. 1:21-23; 2:4-8, 18-19; 1 Ts. 3:1-8; 1 Tm. 1:3-7, 18-20; 4:1-16; 5:5-6, 11-15, 6:9-12, 17-19, 20-21; 2 Tim. 2:11-18; 3:13-15; Heb. 2:1-3; 3:6-19; 4:116: 5:8-9; 6:4-9, 10-20; 10:19-39; 12:1-17, 25-29; Tg. 1:12-16; 4:4-10; 5:19-20; 2 Pd. 1:5-11; 2:1-22; 3:16-17; 1 Jo. 2:15-2:28; 5:16; 2 Jo. 6-9; Jd. 20-21; Ap. 2:7, 10-11, 17-26; 3:4-5, 8-12, 14-22; 21:7-8; 22:18-19. Os textos-provas apresentados por aqueles que ensinam a doutrina de segurança eterna incondicional são passagens que enfatizam a fidelidade de Deus na salvação, e não mencionam a responsabilidade humana. Portanto, elas precisam ser interpretadas para ficar em harmonia com as outras passagens que acabei de listar. O fato de Deus prometer Sua fidelidade não garante a fidelidade dos outros. O fato de eu prometer à minha esposa que nunca a deixarei e manter minha promessa, não garante que ela nunca me deixará. [7] Pode ser argumentado que todas essas passagens que mostram o ódio e abominação do Senhor pelos pecadores são do Velho Testamento. Contudo, a atitude de Deus para com os pecadores não mudou do Velho para o Novo Testamento. O encontro de Jesus com a mulher cananeia em Mateus 15:22-28 é um ótimo exemplo no Novo Testamento da atitude de Deus para com pecadores. No início, Jesus nem mesmo respondeu às suas súplicas; Ele até se referiu a ela como um cachorro. Sua fé persistente resultou que ela recebeu misericórdia dEle. A atitude de Jesus para com os escribas e fariseus não pode ser considerada de aprovação e amor (veja Mt. 23). 66


Capítulo Sete

Interpretação Bíblica Paulo escreveu a Timóteo: Atente bem para a sua própria vida e para a doutrina, perseverando nesses deveres, pois, agindo assim, você salvará tanto a si mesmo quanto aos que o ouvem (1 Tm. 4:16, ênfase adicionada). Cada ministro deve levar essa admoestação ao coração, prestando muita atenção, primeiramente em si mesmo, para ter certeza que está deixando um exemplo de santidade. Segundo, ele dever prestar atenção aos seus ensinamentos, porque sua salvação eterna e daqueles que o ouvem depende daquilo que ensina, assim como Paulo escreveu no versículo citado acima.[1] Se um ministro adota uma doutrina falsa ou negligencia falar a verdade às pessoas, o resultado poderá ser eternamente desastroso para ele e outros. Contudo, não há desculpas para o ministro fazedor de discípulos ensinar falsas doutrinas, já que Deus o deu o Espírito Santo e Sua Palavra para guiá-lo na verdade. Em contraste, muitos ministros com motivos errados simplesmente repetem os ensinos populares de outros, não estudam a Palavra por si só, e estão aptos a errar em suas doutrinas e ensinos. Um meio de proteção contra isso é o ministro purificar seu coração, para ter certeza que seus motivos são (1) agradar a Deus e (2) ajudar as pessoas a se prepararem para ficar diante de Jesus, ao invés de se tornarem ricas, poderosas ou populares. Adicionalmente, ele deve estudar a Palavra de Deus diligentemente para que tenha um entendimento total e balanceado. Paulo também escreveu a Timóteo: Procure apresentar-se a Deus aprovado, como obreiro que não tem do que se envergonhar e que maneja corretamente a palavra da verdade (2 Tm. 2:15). Ler, estudar e meditar na Palavra de Deus deveria ser uma disciplina que um ministro pratica continuamente. O Espírito Santo o ajudará a entender melhor a Palavra de Deus enquanto estuda diligentemente, assegurando assim que irá “lidar fielmente com a palavra da verdade.” Um dos maiores problemas na igreja hoje é que ministros interpretam incorretamente a Palavra de Deus e consequentemente iludem as pessoas que ensinam. Isso pode ser bem sério. Tiago advertiu: Meus irmãos, não sejam muitos de vocês mestres, pois vocês sabem que nós, os que ensinamos, seremos julgados com maior rigor (Tg. 3:1). Por esse motivo, é necessário que o ministro fazedor de discípulos saiba como interpretar corretamente a Palavra de Deus, com o alvo de entender perfeitamente e comunicar o significado planejado de qualquer texto. Interpretar corretamente a Palavra de Deus é feito do mesmo modo que interpretar corretamente as palavras de qualquer um. Se quisermos entender corretamente o significado planejado de qualquer autor ou pregador, precisamos aplicar certas regras de interpretação, regras que são baseadas em senso comum. Nesse capítulo, vamos considerar as três regras mais importantes de interpretação bíblica honesta. Elas são, (1) Ler inteligentemente, (2) Ler pelo contexto e (3) Ler honestamente. Regra no1: Leia inteligentemente. Interprete o que você lê literalmente a não ser que o entendimento figurado ou simbólico seja obviamente intencional. As Escrituras, como toda literatura, é cheia de figuras de linguagem, como metáforas, hipérboles e antropomorfismos. Elas devem ser interpretadas como tais. Uma metáfora é uma comparação de similaridades entre duas coisas diferentes. As Escrituras contém muitas metáforas. Uma pode ser encontrada nas palavras de Cristo durante a última ceia. Enquanto comiam, Jesus tomou o pão, deu graças, partiu-o, e o deu aos seus discípulos, dizendo: “Tomem e comam; isto é o meu corpo”. Em seguida tomou o cálice, deu graças e o ofereceu aos discípulos, dizendo: “Bebam dele todos vocês. Isto é o meu sangue da aliança, que é derramado em favor de muitos, para perdão de pecados” (Mt. 26:26-28). Jesus quis dizer que o pão que deu aos Seus discípulos era literalmente Seu corpo e que o vinho que beberam era literalmente Seu sangue? O senso comum nos diz Não. As Escrituras nos dizem 67


claramente que era pão e vinho que Jesus os deu, e não diz nada deles terem transformado literalmente, em carne e sangue em algum ponto. Nem Pedro nem João, presentes na última ceia, reportaram tal coisa em suas epístolas, e é muito improvável que os discípulos tenham brincado de representar os papéis de canibais! Alguns argumentam: “Mas Jesus disse que o pão e o vinho eram Seu corpo e sangue, então eu vou acreditar no que Jesus disse!” Jesus disse uma vez que Ele era a porta (veja João 10:9). Ele literalmente se transformou em uma porta com dobradiças e uma maçaneta? Jesus disse que era uma videira e que nós éramos os ramos (veja João 15:5). Ele literalmente se transformou em uma videira? Nós nos tornamos literalmente em ramos de videira? Jesus disse que era a luz do mundo e o pão que veio do céu (veja João 9:5; 6:41). Jesus também é a luz do sol e um pão de forma? Claramente, todas essas expressões são figuras de linguagem chamadas metáforas, uma comparação entre duas coisas diferentes mas que compartilham algumas similaridades. De alguns modos, Jesus era como uma porta e uma videira. As frases de Jesus na última ceia eram obviamente metáforas também. O vinho era como Seu sangue (em alguns pontos). O pão era como Seu corpo (em alguns pontos).

As Parábolas de Cristo As parábolas de Cristo são símiles, que são como metáforas; símiles, entretanto, sempre têm a palavra como. Elas também ensinam lições espirituais através das semelhanças entre duas ideias. Esse é um ponto importante para se lembrar enquanto as interpretamos; caso contrário podemos cometer o erro de procurar significado em cada pequeno detalhe de cada parábola. Metáforas e símiles sempre chegam ao ponto onde as similaridades acabam e as diferenças começam. Por exemplo, se eu disser à minha esposa: “Seus olhos são como lagos,” eu quero dizer que seus olhos são azuis, profundos e convidativos. Eu não quero dizer que peixes nadam neles, que pássaros pousam neles e que eles congelam durante o inverno. Vamos levar em consideração três das parábolas de Jesus, todas símiles, a primeira sendo a Parábola da Rede: O Reino dos céus é ainda como uma rede que é lançada ao mar e apanha toda sorte de peixes. Quando está cheia, os pescadores a puxam para a praia. Então se assentam e juntam os peixes bons em cestos, mas jogam fora os ruins. Assim acontecerá no fim desta era. Os anjos virão, separarão os perversos dos justos e lançarão aqueles na fornalha ardente, onde haverá choro e ranger de dentes (Mt. 13:47-50). O céu e uma rede são basicamente a mesma coisa? Absolutamente não! Eles são muito diferentes, mas existem algumas similaridades. Assim como os peixes são separados em duas categorias, bons e ruins, quando puxados da rede, assim será no reino de Deus. Um dia o perverso e o justo, que agora estão vivendo juntos, serão separados. Mas é aí que as similaridades acabam. Peixes nadam, pessoas andam. Pescadores separam peixes. Anjos separarão os perversos dos justos. Peixes são julgados por quão gostosos eles são depois de preparados. Pessoas são julgadas por sua obediência ou desobediência a Deus. Peixes bons são colocados em recipientes e peixes ruins são jogados fora. Os justos herdam o reino de Deus e os perversos são lançados no inferno. Essa parábola é um exemplo perfeito de como cada metáfora e símile é uma comparação imperfeita porque as coisas que estão sendo comparadas são diferentes. Não queremos ir além da intenção do orador, assumindo que as diferenças são na verdade similaridades. Por exemplo, nós sabemos que “peixes bons” acabam sendo preparados no fogo, e “peixes ruins” voltam para a água para nadar por mais um dia. Jesus não mencionou isso! Teria ido contra Seu propósito. Essa parábola em particular não ensina (independente do que dizem) uma estratégia de “evangelismo de rede,” onde tentamos arrastar todos para dentro da igreja, bons ou ruins, queiram eles vim ou não! Essa parábola não ensina que a praia é o melhor lugar para evangelizar. Essa parábola não prova que o arrebatamento da igreja acontecerá no fim do tempo de tribulações. Ela não ensina 68


que nossa salvação é uma escolha puramente divina de Deus porque os peixes escolhidos na parábola nada tinham a ver com o motivo de sua seleção. Não force significados sem garantia às parábolas de Jesus!

Permanecendo Preparado Aqui temos outra parábola familiar de Jesus, a Parábola das Dez Virgens: O Reino dos céus será, pois, semelhante a dez virgens que pegaram suas candeias e saíram para encontrar-se com o noivo. Cinco delas eram insensatas, e cinco eram prudentes. As insensatas pegaram suas candeias, mas não levaram óleo. As prudentes, porém, levaram óleo em vasilhas, junto com suas candeias. O noivo demorou a chegar, e todas ficaram com sono e adormeceram. À meia noite, ouviu-se um grito: “O noivo se aproxima! Saiam para encontrá-lo!” Então todas as virgens acordaram e prepararam suas candeias. As insensatas disseram às prudentes: “Deem-nos um pouco do seu óleo, pois as nossas candeias estão se apagando”. Elas responderam: “Não, pois pode ser que não haja o suficiente para nós e para vocês. Vão comprar óleo para vocês”. E saindo elas para comprar o óleo, chegou o noivo. As virgens que estavam preparadas entraram com ele para o banquete nupcial. E a porta foi fechada. Mais tarde vieram também as outras e disseram: “Senhor! Senhor! Abra a porta para nós!” Mas ele respondeu: “A verdade é que não as conheço!” Portanto, vigiem, porque vocês não sabem o dia nem a hora (Mt. 25:1-13)! Qual é a lição principal dessa parábola? É encontrada na última sentença: Fiquem preparados para o retorno do Senhor, pois Ele pode demorar mais do que vocês esperam. É só isso. Como já mencionei em um capítulo anterior, Jesus contou essa parábola para alguns de Seus discípulos mais íntimos (veja Mt. 24:3; Mc. 13:3), que estavam obviamente seguindo-o aquela hora. Então, está claramente indicado nessa parábola o fato que era possível que Pedro, Tiago, João e André não estivessem preparados quando Jesus voltasse. É por isso que Jesus estava os avisando. Portanto, essa parábola ensina que há uma possibilidade que aqueles que estão atualmente preparados para a volta de Cristo podem não estar preparados quando Ele realmente voltar. Todas dez virgens estavam inicialmente prontas, mas cinco se tornaram despreparadas. Se o noivo tivesse voltado mais cedo, todas dez teriam entrado na festa nupcial. Mas qual é o significado de existirem cinco virgens tolas e cinco sábias? Isso significa que somente metade dos crentes professos estarão prontos quando Cristo retornar? Não. Qual é o significado do óleo? Ele representa o Espírito Santo? Não. Ele revela que somente aqueles que foram batizados no Espírito Santo entrarão no céu? Não. O noivo ter chegado à meia-noite revela que Jesus voltará na mesma hora? Não. Porque o noivo não pediu para que as noivas sábias identificassem suas amigas tolas na porta? Se tivesse pedido para que as sábias identificassem as tolas, teria arruinado o propósito da parábola, já que as tolas teriam entrado. Talvez possa ser dito que assim como as noivas tolas não tinham mais luz e foram dormir, assim os salvos tolos começarão a andar na escuridão espiritual e irão dormir espiritualmente, levando-os no final, à sua condenação. Talvez uma similaridade possa ser encontrada na festa nupcial da parábola e a futura festa nupcial do Cordeiro, mas isso é o mais longe que alguém pode ir sem forçar significado a essa parábola ou a seus vários detalhes.

Dando Fruto Talvez a pior interpretação que já ouvi de uma das parábolas de Cristo foi a explicação de um pregador da Parábola do Joio. Primeiramente, vamos ler essa parábola: Jesus lhes contou outra parábola, dizendo: “O Reino dos céus é como um homem que semeou boa semente em seu campo. Mas enquanto todos dormiam, veio seu inimigo e semeou o joio no meio do trigo e se foi. Quando o trigo brotou e formou espigas, o joio também apareceu. Os servos do dono 69


do campo dirigiram-se a ele e disseram: ‘O senhor não semeou boa semente em seu campo? Então, de onde veio o joio?’ ‘Um inimigo fez isso’, respondeu ele. Os servos lhe perguntaram: ‘O senhor quer que o tiremos?’ Ele respondeu: ‘Não, porque, ao tirar o joio, vocês poderão arrancar com ele o trigo. Deixem que cresçam juntos até a hora da colheita. Então direi aos encarregados da colheita: ‘Juntem primeiro o joio e amarrem-no em feixes para ser queimado; depois juntem o trigo e guardem-no no meu celeiro’” (Mt.13:24-30). Aqui está aquela explicação do certo pregador: É um fato que quando o trigo e o joio brotam, são idênticos. Ninguém pode dizer se são trigo ou joio. É exatamente assim no mundo e na igreja. Ninguém pode dizer quem são os verdadeiros cristãos e quem são os ímpios. Eles não podem ser identificados por suas vidas, porque muitos cristãos não estão obedecendo a Cristo, assim como os perdidos. Somente Deus conhece seus corações, e Ele os selecionará no final. É claro que esse não é o propósito da Parábola do Joio! Na realidade, ela ensina que os salvos são muito distinguíveis de não salvos. Note que os servos percebem que joio foi plantado quando trigo deu fruto (veja v. 26).O joio não dá fruto, e assim é facilmente identificado como tal. Eu acho significante que Jesus tenha escolhido joio estéril para representar os perversos que irão ser selecionados no final e lançados no inferno. As ideias principais dessa parábola são claras: Os verdadeiramente salvos dão fruto; os não salvos, não. Mesmo que Deus ainda não esteja julgando os perversos enquanto vivem entre os salvos, um dia Ele os separará dos santos o os lançará no inferno. Na verdade, Jesus deu explicações dessa parábola em particular, então não há necessidade de procurarem mais significados além do que Ele explicou: Então ele deixou a multidão e foi para casa. Seus discípulos aproximaram-se dele e o pediram: “Explica-nos a parábola do joio no campo”. Ele respondeu: “Aquele que semeou a boa semente é o Filho do homem. O campo é o mundo, e a boa semente são os filhos do Reino. O joio são os filhos do Maligno, e o inimigo que semeia é o Diabo. A colheita é o fim desta era, e os encarregados da colheita são os anjos. Assim como o joio é colhido e queimado no fogo, assim também acontecerá no fim desta era. O Filho do homem enviará os seus anjos, e eles tirarão do seu Reino tudo o que faz tropeçar e todos os que praticam o mal. Eles os lançarão na fornalha ardente, onde haverá choro e ranger de dentes. Então os justos brilharão como o sol no Reino de seu Pai. Aquele que tem ouvidos, ouça (Mt. 13:37-43)

Hipérbole Uma Segunda figura de linguagem encontrada na Bíblia é a hipérbole. Uma hipérbole é um exagero intencional feito para ênfase. Quando uma mãe diz a um filho: “Eu te chamei mil vezes para jantar,” isso é uma hipérbole. Um exemplo de hipérbole na Bíblia seria a frase de Jesus sobre cortar sua mão direita: E se a sua mão direita o fizer pecar, corte-a e lance-a fora. É melhor perder uma parte de seu corpo do que ir todo ele para o inferno (Mt. 5:30). Se Jesus quis dizer literalmente que todos que pecassem com sua mão direita devessem cortála fora, então todos estaríamos sem a mão direita! É claro que o problema com o pecado não está em nossas mãos. É mais provável que Jesus estava nos ensinando que o pecado pode nos mandar para o inferno, e a forma de evitar o pecado é removendo tentações e coisas que nos causam a tropeçar.

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Antropomorfismo Uma terceira figura de linguagem que encontramos nas Escrituras é o antropomorfismo. Tratase de uma expressão metafórica onde características humanas são atribuídas a Deus para nos ajudar a entendê-Lo. Por exemplo, lemos em Gênesis 11:5: O Senhor desceu para ver a cidade e a torre que os homens estavam construindo (Gn. 11:5). Isso é provavelmente um antropocentrismo porque não parece provável que o Deus onisciente teria que literalmente viajar do céu à Babel para investigar o que as pessoas estavam construindo! Muitos acadêmicos bíblicos consideram todas menções bíblicas sobre partes do corpo de Deus, como Seus braços, mãos, nariz, olhos e cabelo, como antropocentrismos. Com certeza eles dizem, o Deus todo-poderoso não tem tais partes como os humanos. Contudo, eu descordaria por vários motivos. Primeiro, porque as Escrituras dizem claramente que nós fomos feitos a imagem e semelhança de Deus: Então disse Deus: “Façamos o homem à nossa imagem , conforme a nossa semelhança” (Gn. 1:26a, ênfase adicionada). Alguns dizem que fomos criados à imagem e semelhança de Deus só a respeito de nosso autoconhecimento, responsabilidade moral, capacidade de pensar e assim por diante. Contudo, vamos ler uma frase que é muito parecida com Gêneses 1:26, que está apenas alguns capítulos à frente: Aos 130 anos, Adão gerou um filho à sua semelhança, conforme a sua imagem; e deu-lhe o nome de Sete (Gn. 5:3, ênfase adicionada). Com certeza isso significa que Sete era muito parecido com seu pai fisicamente. Se for isso que Gênesis 5:3 quer dizer, certamente a expressão idêntica significa a mesma coisa em Gênesis 1:26. Senso comum e interpretação honesta dizem que sim. Mais adiante, temos algumas descrições de Deus por autores bíblicos que O viram. Moisés, por exemplo, juntamente com outros setenta e três israelitas, viram a Deus: Moisés, Arão, Nadabe, Abiu e setenta autoridades de Israel subiram e viram o Deus de Israel, sob cujos pés havia algo semelhante a um pavimento de safira, como o céu em seu esplendor. Deus, porém, não estendeu a mão para punir esses líderes do povo de Israel; eles viram a Deus, e depois comeram e beberam (Ex. 24:9-11, ênfase adicionada). Se você tivesse perguntado a Moisés se Deus tivesse pés, o que ele teria dito?[2] O profeta Daniel também teve uma visão de Deus Pai e Deus Filho: Enquanto eu olhava, tronos foram colocados, e um ancião [Deus Pai] se assentou. Sua veste era branca como a neve; o cabelo era branco como a lã. Seu trono era envolto em fogo, e as rodas do trono estavam em chamas. De diante dele, saía um rio de fogo. Milhares de milhares o serviam; milhões e milhões estavam diante dele. O tribunal iniciou o julgamento, e os livros foram abertos... Em minha visão à noite, vi alguém semelhante a um filho de homem [Deus Filho], vindo com as nuvens dos céus. Ele se aproximou do ancião e foi conduzido à sua presença. Ele recebeu autoridade, glória e o reino; todos os povos, nações e homens de todas as línguas o adoraram. Seu domínio é um domínio eterno que não acabará, e seu reino jamais será destruído (Dn. 7:9-10. 13-14, ênfase adicionada). Se você tivesse perguntado a Daniel se Deus tinha cabelo branco e uma forma, pela qual Ele pode sentar em um trono, o que ele teria dito? Tudo isso sendo verdade, eu estou convencido que Deus Pai tem uma forma gloriosa que é de certa forma similar a forma de um ser humano, mesmo Ele não sendo de carne e sangue, e sim espírito (veja Jo 4:24). Como você pode discernir quais partes das Escrituras devem ser interpretadas literalmente e quais devem ser interpretadas figurativamente ou simbolicamente? Isso deve ser fácil para qualquer um que possa raciocinar logicamente. Interprete tudo literalmente a menos que não haja outra alternativa inteligente a não ser interpretar figurativamente ou simbolicamente. Os profetas do Velho Testamento e o livro de Apocalipse, por exemplo estão claramente, cheios de simbolismo, alguns dos quais são explicados e outros não. Mas não é difícil identificar os simbolismos. 71


Regra no2: Leia pelo contexto. Cada passagem deve ser interpretada na luz das passagens ao seu redor e da Bíblia inteira. O contexto cultural e histórico também deve ser considerado sempre que possível. Ler as escrituras sem levar em consideração seu contexto imediato e bíblico é talvez a causa principal de má interpretação. É possível fazer com que a Bíblia fale qualquer coisa que você quiser se isolar versículos de seus contextos. Por exemplo, você sabia que a Bíblia diz que Deus não existe? Em Salmos 14 podemos ler: “Deus não existe” (Sl. 14:1). Contudo, se quisermos interpretar essas palavras fielmente, devemos lê-la dentro do contexto: “Diz o tolo em seu coração: ‘Deus não existe’” (Sl. 14:1, ênfase adicionada). Agora esse versículo tem um significado completamente novo! Outro exemplo: uma vez eu ouvi um pregador fazer um sermão na necessidade dos cristãos serem “batizados no fogo.” Ele começou ser sermão lendo as palavras de João Batista de Mateus 3:11: “Eu os batizo com água para arrependimento. Mas depois de mim vem alguém mais poderoso do que eu, tanto que não sou digno nem de lavar as suas sandálias. Ele os batizará com o Espírito Santo e com fogo.” Ele preparou um sermão baseado nesse único versículo. Eu lembro dele dizer: “O fato de você ter sido batizado no Espírito Santo não é suficiente! Jesus também quer te batizar no fogo, assim como João Batista proclamou!” E ele continuou, explicando que uma vez fossemos “batizados no fogo,” ficaríamos cheios de zelo pelo trabalho do Senhor. Finalmente ele fez um apelo para aqueles que quisessem ser “batizados no fogo.” Infelizmente, aquele pregador em particular cometeu o erro clássico de tirar um versículo de seu contexto. O que João Batista quis dizer quando disse que Jesus os batizaria com fogo? Para encontrar a resposta, tudo que temos a fazer é ler dois versículos antes daquele e um depois. Vamos começar com os dois anteriores. João disse: Não pensem que vocês podem dizer a si mesmos: “Abraão é nosso pai”. Pois eu lhes digo que destas pedras Deus pode fazer surgir filhos de Abraão. O machado já está posto à raiz das árvores, e toda árvore que não der bom fruto será cortada e lançada ao fogo (Mt. 3:9-10, ênfase adicionada). Primeiro, nós aprendemos que, naquele dia, parte da audiência de João consistia de judeus que achavam que sua salvação era baseada em sua linhagem. Portanto, o sermão de João era evangelístico. Depois, também descobrimos que João os estava advertindo que pessoas não-salvas corriam perigo de ser lançadas no fogo. Parece razoável concluir que “o fogo” do qual João falava no versículo 10 é o mesmo do versículo 11. Esse fato se torna ainda mais claro quando lemos o versículo 12: Ele traz a pá em sua mão e limpará sua eira, juntando seu trigo no celeiro, mas queimará a palha com o fogo que nunca se apaga (Mt. 3:12, ênfase adicionada). Em ambos versículos 10 e 12, o fogo ao qual João se referia era o fogo do inferno. No versículo 12, ele fala metaforicamente que Jesus dividirá as pessoas em dois grupos — trigo, que Ele juntará “no celeiro,” e palha, que queimará “com o fogo que nunca se apaga.” À luz dos versículos ao redor, João devia querer dizer no versículo 11 que Jesus iria batizar as pessoas com o Espírito Santo, se fosse salvos, ou com fogo, se não fosse. Já que esse é o caso, ninguém deve pregar a cristãos dizendo que devem ser batizados no fogo! Indo além do contexto imediato desses versículos, também devemos olhar para o resto do Novo Testamento. Podemos encontrar um versículo em Atos que diz que cristãos estavam sendo “batizados no fogo”? Não. O mais perto é a descrição de Lucas do dia do Pentecostes quando os discípulos foram batizados no Espírito Santo e línguas de fogo apareceram temporariamente sobre suas cabeças. Mas Lucas nunca disse que esse era um “batismo no fogo.” Mais adiante, podemos encontrar alguma exortação ou instrução nas epístolas para os cristãos serem “batizados no fogo”? Não. Portanto, é seguro concluir que nenhum cristão deve buscar um batismo no fogo.

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Um Evangelho Falso Derivado das Escrituras Muitas vezes, o próprio evangelho é mal interpretado por pregadores e professores que, por não considerarem o contexto, interpretam as Escrituras erroneamente. Falsos ensinos a respeito da graça de Deus são abundantes por esse motivo. Por exemplo, o relato de Paulo sobre a salvação ser o produto da graça e não de obras, encontrado em Efésios 2:8, tem sido abusado para promover um falso evangelho, tudo porque o contexto foi ignorado. Paulo escreveu: Pois vocês são salvos pela graça, por meio da fé, e isto não vem de vocês, é dom de Deus; não por obras para que ninguém se glorie (Ef. 2:8-9). Muitos focam exclusivamente no relato de Paulo sobre a salvação ser pela graça, um presente e não um resultado de obras. Disso, contrário ao testemunho de centenas de passagens, eles dizem que não há conexão entre salvação e santidade. Alguns vão tão longe a ponto de dizer que o arrependimento não é necessário para a salvação. Esse é um exemplo clássico de como as Escrituras são má interpretadas pelo contexto ser ignorado. Primeiramente, vamos considerar o que a passagem em si diz inteiramente. Paulo, não diz que fomos salvos pela graça, mas que fomos salvos pela graça por meio da fé. A fé faz tanto parte da equação da salvação quanto a graça. As Escrituras declaram que a fé sem obras é inútil, morta e não pode salvar (veja Tg. 2:14-26). Portanto, Paulo não está ensinando que a santidade é irrelevante na salvação. Ele está dizendo que não somos salvos por nossas próprias forças; a base de nossa salvação é a graça de Deus. Nunca poderíamos ser salvos sem a graça de Deus, mas é somente quando respondemos com fé à graça de Deus é que a salvação acontece em nossas vidas. O resultado da salvação é sempre obediência, o fruto da fé genuína. Isso é provado se olharmos o contexto, que está no versículo seguinte. Paulo diz: Porque somos criação de Deus realizada em Cristo Jesus para fazermos boas obras, as quais Deus preparou antes para nós as praticarmos (Ef. 2:10). O único motivo de termos sido regenerados pelo Espírito Santo e agora sermos novas criaturas em Cristo era para que pudéssemos andar em boas obras e obediência. Portanto, a equação de salvação de Paulo é assim:

Graça + Fé = Salvação + Obediência Isto é, graça mais fé é igual (ou resulta em) salvação mais obediência. Quando a graça de Deus é respondida com a fé, o resultado é sempre a salvação e boas obras. Mesmo assim, aqueles que arrancaram as palavras de Paulo de seu contexto fizeram uma fórmula assim:

Graça + Fé – Obediência = Salvação Isto é, graça mais fé sem (ou menos) obediência é igual (ou resulta em) salvação. Isso é heresia de acordo com a Bíblia. Se lermos um pouco mais do contexto das palavras de Paulo, também descobriremos que a situação em Éfeso era a mesma que em todos os lugares que Paulo pregava. Isto é, judeus estavam ensinado aos novos convertidos gentios de Paulo, que precisavam ser circuncidados e tinham que praticar algumas cerimonias da Lei Mosaica se quisessem ser salvos. Era dentro do contexto de circuncisão e trabalhos cerimoniais que Paulo tinha em mente quando escreveu sobre as “obras” que não nos salvam (veja Ef. 2:11-22). 73


Se lermos um pouco mais adiante, entendendo mais do contexto da carta de Paulo aos Efésios, vemos claramente que Paulo acreditava que santidade era essencial para a salvação. Entre vocês não deve haver nem sequer menção de imoralidade sexual como também de nenhuma espécie de impureza e de cobiça; pois essas coisas não são próprias para os santos. Não haja obscenidade, nem conversas tolas, nem gracejos imorais, que são inconvenientes, mas, ao invés disso, ações de graças. Porque vocês podem estar certos disto: nenhum imoral, ou imputo, ou ganancioso , que é idólatra, tem herança no Reino de Cristo e de Deus. Ninguém os engane com palavras tolas, pois é por causa dessas coisas que a ira de Deus vem sobre os que vivem na desobediência (Ef. 5:3-6, ênfase adicionada). Se Paulo acreditasse que a graça de Deus salvaria no final qualquer pessoa não-arrependida que fosse imoral, impura ou gananciosa, ele nunca teria escrito essas palavras. O significado intencionado das palavras de Paulo gravadas em Efésios 2:8-9, só pode ser entendido corretamente dentro do contexto da carta inteira aos Efésios.

O Fiasco da Galácia As palavras de Paulo em sua carta aos gálatas têm sido interpretadas similarmente fora de seu contexto. O resultado tem sido a distorção do evangelho, exatamente o que Paulo tentava corrigir em sua carta aos gálatas. O tema completo da carta de Paulo aos gálatas é “Salvação por meio da fé e não por obras da Lei.” Mas Paulo planejava que seus leitores concluíssem que santidade não era necessária para entrar no reino de Deus? Certamente não. Primeiramente, notamos que Paulo estava mais uma vez combatendo judeus que foram à Galácia e estavam ensinando os novos convertidos que não poderiam ser salvos, a menos que fossem circuncidados e obedecessem a Lei de Moisés. Paulo menciona o assunto da circuncisão repetidamente em sua carta, já que essa parece ter sido a ênfase principal dos judeus legalistas (veja Gl. 2:3, 7-9, 12; 5:2-3, 6, 11; 6:12-13, 15). Paulo não estava preocupado que os convertidos de Galácia estavam muito obedientes aos mandamentos de Cristo, ele estava preocupado porque eles não estavam colocando sua fé em Cristo para sua salvação, e sim em circuncisão e seus próprios fracos esforços em manter a Lei Mosaica. Quando consideramos todo o contexto da carta de Paulo aos gálatas, percebemos que ele escreve no capítulo 5: Mas, se vocês são guiados pelo Espírito, não estão debaixo da Lei. Ora, as obras da carne são manifestas: imoralidade sexual, impureza e libertinagem; idolatria e feitiçaria; ódio, discórdia, ciúmes, ira, egoísmo, dissensões, facções e inveja; embriaguez, orgias e coisas semelhantes. Eu os advirto, como antes já adverti: Aqueles que praticam essas coisas não herdarão o Reino de Deus (Gl. 5:18-21, ênfase adicionada). Se Paulo quisesse dizer aos gálatas que poderiam não ser santos e entrar no céu, ele não teria escrito essas palavras. Sua mensagem não é que pessoas não-santas poderiam ir para o céu, mas que aqueles que anulam a graça de Deus e o sacrifício de Cristo tentando adqurir a salvação pela circuncisão e pela Lei de Moisés não podem ser salvos. Não é a circuncisão que trás a salvação. É a fé em Jesus que resulta na salvação que muda salvos em novas criações santas. De nada vala ser circuncidado ou não. O que importa é ser uma nova criação (Gl. 6:15). Novamente, tudo isso mostra quão vital é que consideremos o contexto quando interpretamos as Escrituras. A única forma que o evangelho pode ser distorcido por meio da Palavra de Deus é ignorando o contexto. Só podemos nos espantar com os corações de “ministros” que fazem isso de forma tão rude que não pode ser outra coisa se não intencionado. Por exemplo, uma vez eu ouvi um pregador dizer que nunca devemos mencionar a ira de Deus quando estivermos pregando o evangelho, porque a Bíblia diz que “a bondade de Deus leva ao arrependimento” (Rm. 2:4). Portanto, de acordo com ele, a maneira certa de pregar o evangelho era 74


falar somente do amor e da bondade de Deus. Isso, supostamente, levaria as pessoas a se arrependerem. Mas quando lemos o contexto do versículo solitário que o pastor mencionou do segundo capítulo de Romanos, descobrimos que ele está envolvido de passagens sobre o julgamento e a ira santa de Deus! O contexto imediato revela que não há possibilidade alguma que a intenção de Paulo era o que o pastor disse que é: Sabemos que o juízo de Deus contra os que praticam tais coisas é conforme a verdade. Assim, quando você, um simples homem, os julga, mas pratica as mesmas coisas, pensa que escapará do juízo de Deus? Ou será que você despreza as riquezas da sua bondade, tolerância e paciência, não reconhecendo que a bondade de Deus o leva ao arrependimento? Contudo, por causa da sua teimosia e do seu coração obstinado, você está acumulando ira contra si mesmo, para o dia da ira de Deus, quando se revelará o seu justo julgamento; Deus “retribuirá a cada um conforme o seu procedimento”. Ele dará vida eterna aos que, persistindo em fazer o bem, buscam glória, honra e imortalidade. Mas haverá ira e indignação para os que são egoístas, que rejeitam a verdade e seguem a injustiça. Haverá tribulação e angústia para todo ser humano que pratica o mal: primeiro para o judeu, depois para o grego (Rm. 2:22-9, ênfase adicionada). A referência de Paulo a bondade de Deus é a bondade que Deus mostra ao adiar Sua ira! Só podemos nos perguntar como um ministro pode falar uma coisa tão absurda à luz do contexto maior da Bíblia, que está cheia de exemplos de pregadores que advertiram publicamente os pecadores se arrependerem.

A Consistência das Escrituras Porque a Bíblia é inspirada por apenas uma (só) Pessoa, sua mensagem é consistente. É por isso que podemos confiar no contexto para nos ajudar a interpretar o significado planejado por Deus em qualquer passagem. Deus não diria uma coisa em um versículo que contradiria outro, e se parece dessa forma, devemos continuar estudando até que nossa interpretação dos dois versículos fique em harmonia. Por exemplo, em vários lugares no Sermão do Monte de Jesus, pode parecer que Ele estava contradizendo, e até corrigindo uma lei moral do Velho Testamento. Por exemplo: Vocês ouviram o que foi dito: “Olho por olho e dente por dente.” Mas eu lhes digo: Não resistam ao perverso. Se alguém o ferir na face esquerda, ofereça-lhe também a outra (Mt. 5:38-39). Jesus citou diretamente da Lei de Moisés e então disse uma coisa que parecia contradizer a lei que acabara de citar. Como devemos interpretar o que Ele disse? Deus mudou de ideia em um assunto de moralidade básica? Buscar vingança era uma coisa aceitável no Velho Testamento mas não no Novo? É o contexto que irá nos ajudar. Jesus estava falando principalmente com Seus discípulos (veja Mt. 5:12), pessoas a quem a única exposição a Palavra de Deus foi através dos escribas e fariseus que ensinavam nas sinagogas. Ali, eles haviam ouvido a lei de Deus citada, “Olho por olho e dente por dente,” um mandamento que os escribas e fariseus tinham torcido ignorando seu contexto. Deus não tinha a intenção de que esse mandamento fosse interpretado como um requerimento para Seu povo sempre se vingar por pequenos erros. Aliás, Ele disse na Lei de Moisés que a vingança pertencia a Ele (veja Dt. 32:35), e que Seu povo devia fazer o bem aos seus inimigos (veja Ex. 23:4-5). Mas os escribas e fariseus ignoraram esses mandamentos e inventaram sua própria interpretação da lei de Deus de “olho por olho,” uma que os dava o direito à vingança pessoal.[3] Eles ignoraram o contexto. O mandamento de Deus de “olho por olho e dente por dente” é encontrado dentro do contexto dos mandamentos que prescrevia a justiça do tribunal de Israel (veja Ex. 21:22-24; Dt. 19:15-21). Promover um sistema de corte judicial é em si mesmo uma revelação da desaprovação de Deus quanto a vingança pessoal. Juízes imparciais que examinam provas são muito mais capazes de administrar a justiça que pessoas envolvidas e ofendidas. Deus espera que juízes vão dar o punimento que o crime merece. Portanto, “olho por olho e dente por dente.” 75


Portanto, podemos entender o que a primeira vista parece contraditório. Jesus estava simplesmente ajudando Seu público, pessoas que tinham recebido ensinamentos errados por toda vida, a entender a verdadeira vontade de Deus a respeito da vingança pessoal, uma coisa que já tinha sido revelada na Lei de Moisés, mas tinha sido distorcida pelos fariseus. Jesus não estava contradizendo a lei que Ele tinha dado a Moisés. Ele só estava revelando seu significado original. Isso também nos ajuda a entender corretamente que Jesus espera de nós a respeito de disputas maiores, o tipo que pode levar ao tribunal. Deus não esperava que os israelitas se vingassem de cada ofensa sofrida, caso contrário ele não teria estabelecido um sistema de corte. Da mesma forma, Deus não espera que cristãos queiram se vingar de qualquer ofensa sofrida de seus irmãos (ou próximos). O Novo Testamento diz que cristãos que não se reconciliam devem buscar ajuda mediadora de outros companheiros (veja 1 Co. 6:1-6). E não há nada de errado com um crente levar um ímpio a cortes judiciais a respeito de disputas de ofensas maiores. Ofensas maiores são coisas do tipo ter seu olho ou dente arrancado! Ofensas menores são os tipos de coisa que Jesus falou, com levar um tapa no rosto, ou ser processado por uma coisa pequena (tipo uma camisa), ou ser forçado a andar uma milha. Deus quer que Seu povo O imite e mostre graça extraordinária a pecadores imprudentes e pessoas más. Nessas mesmas linhas, existem alguns crentes bem intencionados que, pensando estar obedecendo a Jesus, se recusam a denunciar aqueles que foram pegos roubando deles. Eles acham que estão “oferecendo a outra face,” quando na verdade estão permitindo que o ladrão roube mais uma vez, ensinando-o que não há consequências pelo crime. Tais cristãos não estão mostrando amor pelas pessoas que serão roubadas por esse mesmo ladrão! Deus quer que ladrões sofram a justiça e que se arrependam. Mas quando alguém lhe ofender por algo sem importância, como lhe dar um tapa no rosto, não o leve para o tribunal ou bata no rosto dele. Mostre misericórdia e amor.

Interpretando o Velho à Luz do Novo Não devemos somente interpretar o Novo Testamento à luz do Velho Testamento, mas também o Velho à luz do Novo. Por exemplo, alguns cristãos sinceros leram as leis de Moisés referentes as restrições alimentares e concluíram que cristãos devem restringir suas dietas de acordo com aquelas leis. Contudo, se eles lessem apenas duas passagens do Novo Testamento, descobririam que essas leis de Moisés não se aplicam àqueles que estão debaixo da Nova Aliança. “Será que vocês também não conseguem entender?”, perguntou-lhes Jesus. “ Não percebem qua nada que entre no homem pode torná-lo ‘impuro’? Porque não entra em seu coração, mas em seu estômago, sendo depois eliminado.” Ao dizer isso, Jesus declarou “puros” todos os alimentos (Mc. 7:18-19). O Espírito diz claramente que nos últimos tempos alguns abandonarão a fé e seguirão espíritos enganadores e doutrinas de demônios. Tais ensinamentos vêm de homens hipócritas e mentirosos, que têm a consciência cauterizada e proíbem o casamento e o consumo de alimentos que Deus criou para serem recebidos com ação de graças pelos que creem e conhecem a verdade. Pois tudo o que Deus criou é bom, e nada deve ser rejeitado, se for recebido com ação de graças, pois é santificado pela palavra de Deus e pela oração (1 Tm. 4:1-5). Debaixo da Nova Aliança, não somos sujeitos a Lei de Moisés, mas a Lei de Cristo (veja 1 Co. 9:20-21). Mesmo que Jesus tenha confirmado os aspectos morais da Lei de Moisés (incorporando-as a Lei de Cristo), nem Ele nem os apóstolos ensinaram que os cristãos eram obrigados a manter as leis alimentares de Moisés. Contudo, é bem claro que os primeiros cristãos, todos judeus convertidos, continuaram a manter a dieta do Velho Testamento por causa de convicções culturais (veja At. 10:9-14). E quando os gentis começaram a acreditar em Jesus, os primeiros cristãos judeus os pediram para seguir as leis de Moisés referentes as restrições alimentares simplesmente por consideração aos vizinhos judeus, que caso contrário pudessem se ofender (veja At. 15:1-21). Portanto, não há nada de errado em cristãos manterem essas leis de Moisés, desde que não confiem que manter essas leis é que os salva. 76


Alguns dos primeiros cristãos também estavam convencidos que era errado comer carnes que haviam sido sacrificadas a ídolos. Paulo instruiu os crentes que pensavam de outra forma (como ele) a andarem em amor com seus irmãos “fracos na fé” (veja Rm. 14:1), fazendo nada que os cause a violar suas consciências. Se alguém se abstém de comer certas coisas por convicção diante de Deus (mesmo que essas convicções não tenham base), essa pessoa deve ser elogiada por sua devoção, não condenada por sua falta de entendimento. Do mesmo modo, aqueles que se abstém de certas comidas por convicção própria não devem julgar aqueles que não se abstém. Ambos os grupos devem andar em amor um para com o outro, já que Deus ordenou que isso fosse feito (veja Rm. 14:1-23). De qualquer modo, porque a Bíblia é uma revelação progressiva, devemos sempre interpretar a revelação mais velha (o Velho Testamento) sob a luz da revelação mais nova (o Novo Testamento). Nenhuma das revelações que Deus dá é contraditória, é sempre complementar.

Contexto Histórico e Cultural Sempre que possível, devemos considerar o contexto histórico e cultural da passagem que estamos estudando. Ter alguma coisa em mente sobre aspectos únicos da cultura, geografia e história de um ambiente bíblico pode nos ajudar a ter um ponto de vista que caso contrário teríamos perdido. É claro que isso requer ajuda de outros livros além da Bíblia. Uma boa Bíblia de estudos normalmente terá informações dessa área. Aqui estão alguns exemplos de como informações históricas e culturais podem nos ajudar a não nos confundir quando estivermos lendo a Bíblia: 1. Às vezes, lemos nas Escrituras de pessoas subindo em telhados (veja At. 10:9) ou fazendo buracos no telhado (veja Mc. 2:4). Ajuda a entender saber que os telhados eram normalmente planos em Israel nos tempos da Bíblia e havia escadas do lado de fora da maioria das casas que levavam a esses telhados planos. Se não soubermos disso podemos imaginar um personagem bíblico se arrastando pelo telhado e se agarrando a uma chaminé! 2. Lemos em Marcos 11:12-14 que Jesus amaldiçoou uma figueira por ela não ter figos, mesmo assim “não era tempo de figos.” Ajuda saber que figueiras normalmente têm alguns figos mesmo fora de época, portanto, Jesus não estava sendo irracional em suas expectações. 3. Lemos em Lucas 7:37-48 sobre uma mulher que entrou na casa de um fariseu onde Jesus estava jantando. As Escrituras dizem que ela ficou atrás de Jesus chorando e começou a molhar Seus pés com suas lágrimas, limpá-las com seus cabelos, beijar e ungir Seus pés com perfume. Nos perguntamos como tal coisa pode acontecer enquanto Jesus estava sentado em uma mesa comendo. Ela engatinhou por baixo da mesa? Como ela conseguiu passar pelas pernas de todos os outros convidados? A resposta é encontrada na frase de Lucas que Jesus “reclinou-se à mesa” (Lc. 7:36). O modo costumeiro de se comer naqueles dias era se deitar de lado no chão ao redor de uma mesa baixa, se levantando com um dos braços e se alimentando com a outra mão. Nessa posição Jesus foi adorado pela mulher.

Uma Pergunta Comum Sobre Roupas Uma pergunta que pastores ao redor do mundo sempre me fazem é: “É aceitável que mulheres cristãs usem calças, considerando que a Bíblia proíbe que mulheres usem roupas de homens?” Essa é uma boa pergunta que podemos responder aplicando algumas regras de interpretação e um pouco de contexto cultural. Primeiramente, vamos examinar a proibição da Bíblia contra mulheres usarem roupas de homens (e vice-versa): 77


A mulher não usará roupas de homem, e o homem não usará roupas de mulher, pois o Senhor, o seu Deus, tem aversão por todo aquele que assim procede (Dt. 22:5). Devemos começar perguntando: “Qual foi a intenção de Deus ao dar esse mandamento?” O objetivo dEle era de não deixar mulheres usarem calças? Não, essa não poderia ter sido Sua intenção, porque nenhum homem em Israel usava calças quando Deus disse isso originalmente. Calças não eram consideradas roupas de homem ou de qualquer um. Aliás, o que os homens usavam nos tempos bíblicos pareceria mais roupas de mulheres para a maioria de nós hoje! Isso é um pouco de informação histórica e cultural que nos ajuda a interpretar corretamente o que Deus estava tentando dizer. Então qual era a intenção de Deus? Lemos que qualquer um que usasse roupas do sexo oposto era uma abominação ao Senhor. Isso parece bem sério. Se um homem pegar o véu de uma mulher e colocá-lo na cabeça por três segundos ele vira uma abominação ao Senhor? Parece muito duvidável. Seria mais provável que a oposição de Deus era para com pessoas que se vestiam para parecer propositalmente do sexo oposto. Por que alguém faria tal coisa? Só porque ele ou ela estaria esperando seduzir alguém do mesmo sexo, uma perversão sexual chamada travestismo. Acho que podemos como isso pode ser considerado uma abominação para Deus. Portanto, ninguém pode concluir que mulheres não podem usar calças se baseando de Deuteronômio 22:5, a menos que ela esteja fazendo isso como travesti. Ela não estará pecando por usar calças, desde que ela ainda pareça mulher. É claro que as Escrituras ensinam que mulheres devem se vestir modestamente (veja 1 Tm. 2:9), portanto, calças justas e reveladoras não são apropriadas (assim como vestidos e saias justas) pois podem levar homens à cobiça. Muitas das roupas que mulheres usam publicamente em países ocidentais são completamente inapropriadas e são roupas que somente prostitutas usam em países em desenvolvimento. Nenhuma mulher cristã deve usar roupas publicamente com o intuito de parecer “sexy.”

Algumas Outras Ideias É interessante que nenhum pastor da China tenha me perguntado sobre mulheres usando calças. É provável que seja porque a maioria das mulheres chinesas tem usado calças por um longo tempo. Somente pastores de países em que a maioria das mulheres não usa calça me fazem essa pergunta. Isso mostra o preconceito pessoal com relação as suas culturas. Também me parece interessante que nenhuma pastora de Mianmar me tenha feito pergunta semelhante. Mianmar é um lugar onde homens tradicionalmente usam o que chamamos de saia, mas o que eles chamam de longgi. Novamente, o que constitui roupas de homens e mulheres varia de cultura para cultura, então precisamos tomar cuidado para não forçar nossa cultura no entendimento da Bíblia. Finalmente, eu me pergunto por que tantos homes que esperam que mulheres não usem calças baseando-se em Deuteronômio 22:5 não se sentem obrigados a aplicar em si mesmos Levítico 19:27, que diz: Não cortem o cabelo dos lados da cabeça, nem aparem as pontas da barba (Lv. 19:27). Como homens que desobedecem Levítico 19:27, e raspam completamente suas barbas dadas por Deus, barbas que os distinguem claramente de mulheres, podem acusar mulheres que usam calças de tentar parecer homens? Parece meio hipócrita! A propósito, um pouco de informação histórica nos ajuda a entender a intenção de Deus em Levítico 19:27. Arredondar o cabelo dos lados da cabeça era parte de um ritual idólatra pagão. Deus não queria que Seu povo parecesse devoto a ídolos pagãos.

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Quem está Falando? Sempre devemos notar quem está falando em qualquer passagem bíblica, já que essa pequena informação contextual nos ajudará a interpretá-la corretamente. Mesmo que tudo na Bíblia tenha sido inspirado para estar na Bíblia, nem tudo da Bíblia é a inspirada Palavra de Deus. O que eu quero dizer? As palavras não-inspiradas de pessoas estão gravadas em muitas passagens das Escrituras. Portanto, não devemos pensar que tudo dito por pessoas na Bíblia é inspirado por Deus. Por exemplo, alguns cometem o erro de citar as palavras de Jó e seus amigos como se fossem inspiradas por Deus. Existem dois motivos de porque isso é um erro. Primeiro, Jó e seus amigos discutiram por trinta e quatro capítulos. Eles não concordaram. Obviamente, nem tudo que disseram pode ser a Palavra inspirada de Deus porque Deus não se contradiz. Segundo, no fim do livro de Jó, Deus fala e repreende tanto a Jó quanto seus amigos por dizerem coisas incorretas (veja Jó 38-42). Devemos tomar as mesmas precauções quando lermos o Novo Testamento. Em vários casos, Paulo diz claramente que certas partes de suas cartas eram somente suas opiniões (veja 1 Co. 7:12, 2526, 40).

Quem está Sendo Endereçado? Não devemos nos perguntar somente quem está falando em qualquer passagem bíblica, também devemos notar quem está sendo endereçado. Se não, podemos interpretar mal alguma coisa pensando que é aplicável a nós quando não é. Ou podemos interpretar alguma coisa como não sendo aplicável a nós quando é. Por exemplo, reivindicam a promessa encontrada em Salmo 37, acreditando que se aplica a eles: Ele atenderá os desejos do seu coração (Salmo 37:4). Mas essa promessa se aplica a todos que a leem ou a conhecem? Não, se lermos o contexto, descobrimos que ela só se aplica a certas pessoas que encontram cinco condições. Confie no Senhor e faça o bem; assim você habitará na terra e desfrutará segurança. Deleite-se no Senhor, e ele atenderá aos desejos do seu coração (Sl. 37:3-4). Então vemos quão importante que notemos quem está sendo endereçado. Aqui está outro exemplo: Então Pedro começou a dizer-lhe: “Nós deixamos tudo para seguir-te”. Respondeu Jesus: “Digolhes a verdade: Ninguém que tenha deixado casa, irmãos, irmãs, mãe, pai, filhos, ou campos, por causa de mim e do evangelho, deixará de receber cem vezes mais, já no tempo presente, casas, irmãos, irmãs, mães, filhos, e campos, e com eles perseguição; e, na era futura, a vida eterna. Contudo, muitos primeiros serão últimos, e os últimos serão primeiros” (Mc. 10: 28-30). É bem popular em alguns círculos reivindicar o “cem vezes mais” quando dão dinheito para sustentar alguém que está pregando o evangelho. Mas essa promessa se aplica a tais pessoas? Não, ela é endereçada a pessoas que realmente deixam suas famílias, terrenos ou casas para pregar o evangelho, assim como Pedro, que perguntou a Jesus qual seria sua recompensa e dos outros discípulos. Interessantemente, aqueles que sempre pregam sobre a recompensa de cem vezes mais tendem a focalizar principalmente nas casas e terrenos, e nunca nos filhos e perseguições que também foram prometidos! É claro que Jesus não estava falando que aqueles que deixam suas casa receberão escrituras de cem casas em troca. Ele estava prometendo que quando eles deixarem suas famílias e casas, os membros de suas novas famílias espirituais abrirão suas casas para alojamento. Verdadeiros discípulos não se importam com propriedades porque sabem que não têm posse de nada — são somente mordomos daquilo que é de Deus. 79


Um Exemplo Final Quando pessoas leem o que é conhecido como o “Sermão das Oliveiras” de Jesus, encontrado em Mateus 24-25, alguns acham erroneamente que Ele estava falando com ímpios, e portanto concluem que o que Ele diz não tem aplicação a elas. Elas leem as parábolas do Servo Mau e a parábola das Dez Virgens como se fossem endereçadas a ímpios. Mas como já disse antes, ambas foram endereçadas aos discípulos mais íntimos de Jesus (veja Mt. 24:3; Mc. 13:3). Portanto, se Pedro, Tiago, João e André precisavam ser advertidos da possibilidade de não estarem preparados para a volta de Jesus, nós também precisamos. O aviso do Sermão das Oliveiras de Jesus também pode ser aplicado a todos os crentes, mesmo aqueles que não pensam assim por não perceberem a quem Jesus estava falando. Regra no3 Leia Honestamente. Não force sua teologia dentro do texto. Se você ler alguma coisa que contradiz o que acredita, não tente mudar a Bíblia; mude o que você acredita. Todos abordamos as Escrituras com algumas inclinações. Por esse motivo, muitas vezes é difícil lermos a Bíblia honestamente. Nós acabamos forçando nossas crenças nas Escrituras, ao invés de deixá-la moldar nossa teologia. Ás vezes até procuramos passagens que sustentem nossas doutrinas, ignorando aquelas que contradizem nossas crenças. Isso é conhecido como “texto-prova.” Aqui está um exemplo que encontrei recentemente de teologia forçada em um texto. Um professor em particular leu primeiro Mateus 11:28-29, uma frase bem conhecida de Jesus: Venham a mim, todos os que estão cansados e sobrecarregados, e eu lhes darei descanso. Tomem sobre vocês o meu julgo e aprendam de mim, pois sou manso e humilde de coração, e vocês encontrarão descanso para as suas almas (Mt. 11:28-29). O professor explicou que Jesus estava oferecendo dois tipos de descanso. O primeiro (supostamente) é o resto da salvação no 11:28, e o segundo é o descanso do discipulado no 11:29. O primeiro é recebido vindo a Jesus; o segundo é recebido se submetendo a Ele como Senhor, ou tomando Seu jugo. Mas era essa a intenção de Jesus? Não isso é forçar um significado no texto que não foi declarado ou indicado. Jesus não disse que estava oferecendo dois descansos. Ele estava oferecendo um descanso para aqueles que estão cansados e sobrecarregados, e o único modo de receber esse único descanso é tomando o jugo de Jesus, que é submetendo-se a Ele. Esse é a intenção óbvia de Jesus. Porque aquele professor propôs tal interpretação? Porque o significado óbvio da passagem não encaixa em sua crença de que existem dois tipos de crentes merecedores do céu — os crentes e os discípulos. Portanto, ele não interpretou essa passagem honestamente. É claro, como vimos várias passagens nesse livro enquanto considerávamos essa teologia em particular, a interpretação daquele professor não encaixa no contexto das outras coisas que Jesus ensinou. Em lugar algum o Novo Testamento ensina que existam dois tipos de cristãos merecidos do céu, os crentes e os discípulos. Todos verdadeiros crentes são discípulos. Aqueles que não são discípulos não são cristãos. Discipulado é o fruto da fé genuína. Vamos fazer o possível para ler a Bíblia honestamente, com corações puros. Se fizermos isso, o resultado será mais devoção e obediência a Cristo. [1] Obviamente, Paulo não acreditava em segurança eterna incondicional, caso contrário ele não teria dita a Timóteo, uma pessoa salva, que precisava fazer algo para que assegurasse sua salvação. [2] Moisés também viu as costas de Deus enquanto Ele passava. Deus posicionou Sua mão de forma que Moisés não pode ver Sua face; veja Êxodo 33:18-23. [3] Também deve ser notado que Jesus disse mais cedo em Seu sermão que a menos que a santidade de Sua audiência ultrapassasse a dos escribas e fariseus, eles não entrariam no céu (veja Mt. 80


5:20). Então Jesus continuou mostrando várias coisas específicas que os escribas e fariseus estavam fazendo de forma errada.

Capítulo Oito

O Sermão do Monte Por causa de seu desejo de fazer discípulos, ensinando-os a obedecer a todos os mandamentos de Cristo, o ministro fazedor discípulos estará muito interessado no Sermão do Monte de Jesus. Não há sermão de Jesus registrado que seja mais longo, e está cheio de Seus mandamentos. O discipulador vai querer não somente obedecer ao que foi mandado naquele sermão, como também ensinar tudo a seus discípulos. Sendo assim, compartilharei o que entendo do sermão que está registrado em Mateus do capítulo 5 ao 7. Também encorajo ministros a ensinarem o Sermão do Monte, versículo por versículo, a seus discípulos. Espero que tudo o que escrevi seja útil a esse propósito. Abaixo está um esboço do Sermão do Monte, para nos dar uma visão geral e enfatizar os temas principais. I.) Jesus reúne Sua audiência (5:1-2) II.) Introdução (5:3-20) A) As características e bênçãos dos abençoados (5:3-12) B.) Advertência para continuarem a ser sal e luz (5:13-16) C.) A relação da Lei com os seguidores de Cristo (5:17-20) III.) O Sermão: Sejam mais santos que os escribas e fariseus (5:21-7:12) A.) Amem uns aos outros, diferentemente dos escribas e fariseus (5:21-26) B.) Sejam sexualmente puros, ao contrário dos escribas e fariseus (5:27-32) C.) Sejam honestos, diferentemente dos escribas e fariseus (5:33-37) D.) Não se vinguem, como os escribas e fariseus (5:38-42) E.) Não odeiem seus inimigos, como os escribas e fariseus (5:43-48) F.) Façam o bem pelos motivos certos, ao contrário dos escribas e fariseus (6:1-18) 1.) Deem ao pobre pelos motivos certos (6:2-4) 2.) Orem pelos motivos certos (6:5-6) 3.) Uma digressão a respeito da oração e perdão (6:7-15) a.) Instruções a respeito da oração (6:7-13) b.) A necessidade de perdoar uns aos outros (6:14-15) 4.) Jejuem pelos motivos certos (6:16-18) G.) Não sirvam ao dinheiro como os escribas e fariseus (6:19-34) H.) Não procurem defeitos em seus irmãos (7:1-5) I.) Não gastem seu tempo dando a verdade aos que não apreciam (7:6) J.) Encorajamento à oração (7:7-11) IV.) Conclusão: Um resumo do Sermão A.) Uma frase de resumo (7:12) B.) Uma advertência para obedecer (7:13-14) C.) Como reconhecer falsos profetas e falsos cristãos (7:15-23) D.) Um aviso final contra a desobediência e um resumo (7:24-27) Jesus Reúne Sua Audiência (Jesus Gathers His Audience) Vendo as multidões, Jesus subiu ao monte e se assentou. Seus discípulos aproximaram-se dele, e ele começou a ensiná-los, dizendo (Mt. 5:1-2). 81


Parece que Jesus reduziu propositalmente o tamanho de Sua audiência quando saiu do meio da “multidão” e subiu o monte. É nos dito que “Seus discípulos aproximaram-se dele,” como se estivesse indicando que somente aqueles que estavam famintos para ouvi-Lo estavam dispostos a suar para subir o monte onde Ele finalmente descansou. Aparentemente, eles eram muitos, pois são chamados de “multidões” em 7:28. Então Jesus começou Seu sermão, falando aos Seus discípulos, e desde o início temos uma dica de qual seria Seu tema predominante. Ele lhes diz que são bem-aventurados se possuírem certas características, pois as mesmas pertencem aos merecedores do céu. Esse será o tema geral desse sermão — Somente os santos herdarão o reino de Deus. As bem-aventuranças, como são chamadas, encontradas em 5:3-12, abundam nesse tema. Jesus enumera várias características diferentes dos bem-aventurados, e prometeu várias bênçãos específicas a elas. Leitores casuais muitas vezes assumem que cada cristão deve ter uma, e somente uma bem-aventurança. Contudo, leitores cuidadosos percebem que Jesus não estava listando tipos diferentes de crentes que receberão bênçãos variadas, mas todos os verdadeiros cristãos que receberão uma bênção futura universal: a herança do reino dos céus. Não há outro modo inteligível de interpretarmos Suas palavras: Bem-aventurados os pobres de espírito, pois deles é o reino dos céus. Bem-aventurados os que choram, pois serão consolados (Mt. 5:3-4). Bem-aventurados os mansos, porque herdarão a terra (Mt. 5:5; JFA). Bem-aventurados os que têm fome e sede de justiça, pois serão saciados. Bem-aventurados os misericordiosos, pois obterão misericórdia. Bem-aventurados os puros de coração, pois verão a Deus. Bem-aventurados os pacificadores, pois serão chamados filhos de Deus. Bem-aventurados os perseguidos por causa da justiça, pois deles é o reino dos céus. Bem-aventurados serão vocês quando, por minha causa, os insultarem, os perseguirem e levantarem todo tipo de calúnia contra vocês. Alegrem-se e regozijem-se, porque grande é a sua recompensa nos céus, pois da mesma forma perseguiram os profetas que viveram antes de vocês (Mt. 5:6-12).

As Bem-aventuranças e os Traços de Caráter Primeiro, vamos considerar todas as bênçãos prometidas. Jesus disse que os bem-aventurados devem (1) herdar o reino dos céus, (2) receber conforto, (3) herdar a terra, (4) ser saciados, (5) receber misericórdia, (6) ver a Deus, (7) ser chamados filhos de Deus e (8) herdar o reino dos céus (uma repetição do no 1). Jesus quer que pensemos que somente os pobres de espírito e aqueles que foram perseguidos por causa da justiça herdarão o reino de Deus? Somente os puros de coração verão a Deus e somente os pacificadores serão chamados filhos de Deus, porém nenhum deles herdará o reino de Deus? Os pacificadores não receberão misericórdia e os misericordiosos não serão chamados filhos de Deus? Obviamente todas essas conclusões estariam erradas. Portanto, só é seguro concluir que as várias bênçãos prometidas são pedaços de uma grande bênção — a herança do Reino de Deus. Agora vamos considerar as diferentes qualidades que Jesus descreveu: (1) os pobres de espírito, (2) os que choram, (3) os humildes, (4) os que têm fome e sede de justiça, (5) os misericordiosos, (6) os puros de coração, (7) os pacificadores e (8) os perseguidos. Jesus quer que pensemos que alguém pode ser puro de coração e não misericordioso? Alguém pode ser perseguido por causa da justiça, mas não ter fome e sede de justiça? Mais uma vez, obviamente não. Os vários traços de caráter dos bem-aventurados são os traços multiplicados, até certo ponto, por todos os bem-aventurados. Claramente, as bem-aventuranças descrevem os traços de caráter dos verdadeiros seguidores de Jesus. Numerando essas características a Seus discípulos, Jesus lhes assegurou que esses seriam os 82


bem-aventurados que eram salvos e que entrariam no céu um dia. Atualmente, eles podem não se sentir tão abençoados por causa de seus sofrimentos, e o mundo a sua volta pode não considerá-los abençoados, mas aos olhos de Deus, eles são. As pessoas que não se encaixam na descrição de Jesus não são bem-aventuradas e não herdarão o reino dos céus. Cada discipulador deve sentir a obrigação de se assegurar que as pessoas de seu rebanho saibam disso.

As Características dos Bem-aventurados As oito características dos bem-aventurados estão sujeitas até certo ponto à interpretação. Por exemplo, qual é a virtude em ser “pobre de espírito”? Eu tendo a pensar que Jesus estava descrevendo a primeira característica necessária que uma pessoa deve ter para ser salva — ela deve perceber sua própria pobreza de espírito. Uma pessoa precisa primeiramente enxergar a necessidade de um Salvador antes de poder ser salva, e havia esse tipo de pessoa na audiência de Jesus que tinha acabado de perceber sua própria miséria. Como eles eram bem-aventurados comparados aos orgulhosos de Israel que eram tão cegos por não enxergarem seus pecados! Essa primeira característica elimina toda independência e qualquer pensamento de salvação por mérito. Um verdadeiro bem-aventurado é aquele que percebe que nada tem para oferecer a Deus e que sua própria retidão é como “trapo imundo” (Is. 64:6). Jesus não queria que as pessoas pensassem que poderiam ter as características dos bemaventurados por esforço próprio. Não, as pessoas são bem-aventuradas, isto é, bem-aventuradas por Deus se tiverem as características dos bem-aventurados. Tudo vem da graça de Deus. Os bemaventurados de quem Jesus falava eram abençoados, não só por causa do que os aguardava no céu, mas por causa do trabalho que Jesus tinha feito em suas vidas na terra. Quando vejo as características dos bem-aventurados em minha vida, elas não devem me lembrar do que eu fiz, mas do que Deus fez em mim por Sua graça.

Os que Choram Se a primeira característica foi listada no início porque é a primeira necessidade de merecedores do céu, talvez a segunda também foi listada de forma significativa: “Bem-aventurados os que choram” (Mt. 5:4). Será que Jesus estava descrevendo arrependimento sincero e remorso? Eu acho que sim, especialmente porque as Escrituras são claras quando dizem que tristeza que vem de Deus resulta em um arrependimento que é necessário para a salvação (veja 2 Co. 7:10). O triste coletor de impostos sobre quem Jesus falou certa vez é um exemplo desse tipo de pessoa bem-aventurada. Ele baixou sua cabeça humildemente no templo, batendo no peito e clamando a Deus por misericórdia; o oposto do fariseu ao seu lado que enquanto orava, lembrava a Deus orgulhosamente que tinha dizimado e jejuado duas vezes por semana; o coletor de impostos deixou aquele lugar perdoado de seus pecados. Naquela história, o coletor de impostos foi abençoado; o fariseu não (veja Lc. 18:9-14). Acredito que havia aqueles na audiência de Jesus que, pela convicção do Espírito Santo, estavam chorando. O conforto do Espírito Santo logo seria deles! Se Jesus não estava falando da lamentação inicial das pessoas arrependidas que estão vindo a Jesus, então talvez Ele estava descrevendo a tristeza que todos os verdadeiros crentes sentem enquanto continuam a encarar um mundo que está em rebelião contra o Deus que os ama. Paulo expressou isso como “grande tristeza e constante angústia em meu coração” (Rm. 9:2).

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O Humilde A terceira característica, mansidão, também está listada nas Escrituras como um dos frutos do Espírito (veja Gl. 5:22-23). Mansidão não é um atributo gerado por si só. Aqueles que receberam a graça de Deus e morada do Espírito também são abençoados para se tornarem mansos. Um dia eles herdarão a terra, já que somente os justos irão morar na terra que Deus vai criar. Cristãos professos que são rudes e violentos devem tomar cuidado. Eles não estão entre os bem-aventurados.

Os Famintos por Justiça A quarta característica, fome e sede de justiça, descreve o desejo interior dado por Deus, que todos os que renasceram possuem. Deus sofre por toda a injustiça praticada no mundo e contra aquele que permanece nEle. Ele odeia o pecado (veja Sl. 97:10; 119:128, 163) e ama a justiça. Muitas vezes, quando lemos a palavra justiça nas Escrituras, imediatamente a traduzimos para: “a posição legal de justiça imputada a nós por Cristo,” mas não é sempre isso que a palavra significa. Várias vezes ela significa: “a qualidade de viver corretamente pelo padrão de Deus.” É óbvio que esse era o significado que Jesus tinha em mente nessa passagem, porque não há razão para um cristão ter fome do que já tem. Aqueles que nasceram do Espírito buscam viver corretamente, e eles têm a garantia de que “serão satisfeitos” (Mt. 5:6), certos de que Deus, por Sua graça, completará o trabalho que começou neles (veja Fp. 1:6). As palavras de Jesus aqui também preveem o tempo da nova terra, uma terra “onde habita a justiça” (2 Pd. 3:13). Então não haverá pecado. Todos amarão a Deus de todo o coração e o próximo como a si mesmo. Então, nós que não estaremos mais com fome e sede de justiça seremos satisfeitos. Finalmente, nossa oração do fundo do coração será respondida: “seja feita a tua vontade, assim na terra como no céu” (Mt. 6:10).

Os Misericordiosos A quinta característica, misericórdia, também é outra que todos os renascidos possuem por natureza como resultado de ter o misericordioso Deus morando neles. Aqueles que não possuem misericórdia não são bem-aventurados de Deus e revelam que não participam de Sua graça. O apóstolo Tiago concorda: “será exercido juízo sem misericórdia sobre quem não foi misericordioso” (Tg. 2:13). Se alguém ficar diante de Deus e receber um julgamento sem misericórdia, você acha que ele vai para o céu ou para o inferno? [1] A resposta é óbvia. Uma vez, Jesus contou uma história de um servo que tinha recebido grande misericórdia de seu mestre, mas que não estava disposto a estender essa graça a seu servo. Quando seu mestre descobriu o que tinha acontecido, “entregou-o aos torturadores, até que pagasse tudo o que devia” (Mt. 18:34). Toda sua dívida que havia sido perdoada foi restabelecida. Então, Jesus advertiu Seus discípulos: “Assim também lhes fará meu Pai celestial, se cada um de vocês não perdoar de coração a seu irmão” (Mt. 18:35). Portanto, recusar a perdoar um irmão ou irmã em Cristo que pede por perdão resulta na restituição de pecados que já haviam sido perdoados. Isso resulta em nós sermos entregues aos torturadores até pagarmos o que nunca poderemos pagar. Isso com certeza não parece com o céu para mim. Novamente, as pessoas que não são misericordiosas não receberão misericórdia de Deus. Elas não estão entre os bem-aventurados.

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Os Puros de Coração A sexta característica dos merecedores do céu é pureza do coração. Ao contrário de tantos cristãos professos, verdadeiros cristãos não são santos somente do lado de fora. Pela graça de Deus, seus corações se tornaram puros. Eles realmente amam a Deus de coração e isso afeta suas meditações e motivos. Jesus prometeu que eles verão a Deus. Deixe-me perguntar novamente, devemos acreditar que existam verdadeiros cristãos que não são puros de coração e que portanto não verão a Deus? Será que Deus irá falar para eles: “Vocês podem entrar no céu, mas nunca poderão me ver”? Não, obviamente, todos verdadeiros merecedores do céu têm um coração puro.

Os Pacificadores Os pacificadores são os próximos da lista. Eles serão chamados filhos de Deus. Novamente, Jesus devia estar descrevendo todos os verdadeiros seguidores de Cristo, pois todos os crentes em Cristo são filhos de Deus (veja Gl. 3:26). Aqueles que nascem do Espírito são pacificadores pelo menos de três maneiras: Primeira, eles fizeram paz com Deus, que anteriormente era seu inimigo (veja Rm. 5:10). Segunda, eles vivem em paz, o máximo possível, com outras pessoas. Não são caracterizados por dissensões e rixas. Paulo escreveu que aqueles que praticam discórdia, ciúmes, ira, dissensões e facções não herdarão o reino de Deus (veja Gl 5:19-21). Verdadeiros cristãos andarão a milha extra para evitar uma briga e manter a paz em seus relacionamentos. Eles não afirmam estar em paz com Deus enquanto não amarem seus irmãos (veja Mt. 5:23-24. 1 Jo. 4:20). Terceira, eles compartilham o evangelho. Os verdadeiros seguidores de Cristo também ajudam outros a fazerem paz com Deus e seus companheiros. Talvez, lembrando-se desse versículo do Sermão do Monte, Tiago tenha escrito: “O fruto da justiça semeia-se em paz para os pacificadores” (Tg. 3:18).

Os Perseguidos Finalmente, Jesus chamou bem-aventurados aqueles que são perseguidos por causa da justiça. Obviamente, Ele estava falando de pessoas que vivem corretamente, não dos que acham que a justiça de Deus foi imposta a eles. As pessoas que obedecem os mandamentos de Cristo são as que são perseguidas pelos incrédulos. Elas herdarão o Reino de Deus. A que tipo de perseguição Jesus estava Se referindo? Tortura? Martírio? Não. Ele listou especificamente, ser insultado e receber calúnias por causa dEle. Isso indica novamente que quando alguém é verdadeiramente cristão, o fato se torna óbvio aos ímpios, caso contrário, não o insultariam. Quantas pessoas que se dizem cristãs são tão indistinguíveis dos ímpios que nenhum perdido as insulta? Na verdade elas não são cristãs. Como Jesus disse: “Ai de vocês quando todos falarem bem de vocês, pois assim os antepassados deles trataram os falsos profetas” (Lc. 6:26). Quando todos falarem bem de você é um sinal que você é um falso profeta. O mundo odeia verdadeiros cristãos (veja Jo. 15:18-21; Gl. 4:29; 2 Tm. 3:12; 1 Jo. 3:13-14).

Sal e Luz Uma vez que Jesus havia assegurado a Seus obedientes discípulos que eles realmente estavam entre os transformados e bem-aventurados que estavam destinados a herdar o reino dos céus, Ele levantou uma palavra de precaução; diferente de muitos pregadores modernos que continuam a afirmar a bodes espirituais que nunca perderão a salvação que supostamente têm. Jesus amava Seus 85


verdadeiros discípulos o suficiente para os advertir de que poderiam se retirar da categoria dos bemaventurados. Vocês são o sal da terra. Mas se o sal perder o seu sabor, como restaurá-lo? Não servirá para nada, exceto para ser jogado fora e pisado pelos homens. Vocês são a luz do mundo. Não se pode esconder uma cidade construída sobre um monte. E, também, ninguém acende uma candeia e a coloca debaixo de uma vasilha. Ao contrário, coloca-a no lugar apropriado, e assim ilumina a todos os que estão na casa. Assim brilhe a luz de vocês diante dos homens, para que vejam as suas boas obras e glorifiquem ao Pai de vocês, que está nos céus (Mt. 5:13-16). Note que Jesus não exortou Seus discípulos a se tornarem sal ou se tornarem luz. Ele disse (metaforicamente) que eles já eram sal, e os exortou a continuarem salgados. Ele disse (metaforicamente) que já eram luz, e os exortou a não deixarem sua luz ficar escondida, mas a continuarem brilhando. Que contraste aos muitos sermões dados por crentes professos sobre a necessidade de se tornarem sal e luz. Se as pessoas não são sal e luz, não são discípulas de Cristo. Elas não estão entre os bem-aventurados. Elas não irão para o céu. Nos tempos de Jesus, o sal era usado principalmente como um conservador de carnes. Como obedientes seguidores de Cristo, devemos conservar este mundo pecaminoso de se tornar completamente podre e corrupto. Mas se nosso comportamento se tornar como o do mundo, nós realmente não serviremos “para nada” (v. 13). Jesus advertiu os bem-aventurados a continuarem salgados, conservando suas características únicas. Eles devem continuar distintos do mundo ao seu redor, para não se tornarem “não-salgados,” merecendo ser “jogado fora e pisado pelos homens.” Esse é um dos muitos avisos claros do Novo Testamento direcionados aos verdadeiros crentes contra a recaída. Se o sal realmente for sal, ele é salgado. Da mesma forma, seguidores de Jesus agem como seguidores de Jesus; caso contrário, não são, mesmo que um dia tenham sido. Os verdadeiros seguidores de Jesus também são a luz do mundo. A luz sempre brilha. Se não brilhar, não é luz. Nessa analogia, a luz representa nossas boas obras (veja Mt. 5:16). Jesus não estava exortando aqueles que não tinham obras para realizarem algumas, mas exortando aqueles que têm obras para não esconderem sua bondade dos outros. Aqui, vemos um lindo equilíbrio do trabalho gracioso de Deus e nossa cooperação com Ele; ambos são necessários para sermos santos.

A Relação da Lei com os Seguidores de Cristo Agora começamos um novo parágrafo (na NVI). É uma seção essencial de grande importância, uma introdução ao muito que Cristo dirá no restante de Seu sermão. Não pensem que vim abolir a Lei ou os Profetas; não vim abolir, mas cumprir. Digo-lhes a verdade: Enquanto existirem céus e terra, de forma alguma desaparecerá da Lei a menor letra ou o menor traço, até que tudo se cumpra. Todo aquele que desobedecer a um desses mandamentos, ainda que dos menores, e ensinar os outros a fazerem o mesmo, será chamado menor no Reino dos céus; mas todo aquele que praticar e ensinar estes mandamentos será chamado grande no Reino dos céus. Pois eu lhes digo que se a justiça de vocês não for muito superior à dos fariseus e mestres da lei, de modo nenhum entrarão no Reino dos céus (Mt. 5:17-20). Se Jesus advertiu Sua audiência a não pensar que estava abolindo a Lei ou os profetas, podemos concluir seguramente que pelo menos alguns de Sua audiência estavam assumindo isso. Só podemos imaginar a razão de tal suposição. Talvez tenha sido por causa da severa censura de Jesus aos escribas e fariseus legalistas que tentavam alguns a pensar que Ele estava abolindo a Lei e os Profetas. Sem levar isso em consideração, ficou claro que Jesus queria que seus discípulos percebessem o erro de tal suposição. Ele foi o inspirador divino do Velho Testamento inteiro, então com certeza não aboliria tudo o que havia dito através de Moisés e dos Profetas. Pelo contrário, Ele iria, como disse, cumprir as Leis e os Profetas. 86


Como exatamente Ele cumpriria a Lei e os Profetas? Alguns acham que Jesus estava falando somente sobre as profecias messiânicas. Mesmo que Jesus tenha cumprido (ou ainda irá cumprir) todas as profecias messiânicas, não era só isso que Ele tinha em mente. O contexto indica claramente que Ele também estava falando a cerca de tudo o que estava escrito na Lei e nos Profetas, até “a menor letra ou o menor traço” (v. 18) da Lei, e até os “menores” (v. 19) dos mandamentos. Outros acham que Jesus quis dizer que iria cumprir a Lei cumprindo suas exigências em nosso favor usando Sua vida de obediência e morte de sacrifício (veja Rm. 8:4). Mas isso, como o contexto também revela, não é o que Ele tinha em mente. Nos versículos que se seguem, Jesus não mencionou Sua vida ou morte como ponto de referência para o cumprimento da Lei. Ao invés disso, na próxima frase Ele disse que a Lei seria relevante pelo menos “enquanto existirem céus e terra” e até “que tudo se cumpra,” as referências apontam para muito depois de Sua morte na cruz (v. 19), e que o povo deveria obedecer a Lei ainda melhor que o escribas ou fariseus, caso contrário não entrariam no céu (v. 20). Obviamente, além de somente cumprir as professas messiânicas, tipos e sombras da Lei, assim como cumprir as exigências da Lei em nosso favor, Jesus também estava pensando em Sua audiência que devia guardar os mandamentos da Lei e fazer o que os Profetas disseram. Por um lado, Jesus cumpriria a Lei revelando a intenção original e verdadeira de Deus nela; confirmando-a, explicando-a e completando o que faltava ao entendimento de Sua audiência. [2] A palavra grega traduzida cumprir no versículo 17 também é traduzida no Novo Testamento como completar, terminar, saciar, e levar adiante completamente. Era exatamente isso que Jesus estava pronto a fazer, começando apenas quatro frases depois. Não, Jesus não veio abolir e sim cumprir a Lei e os Profetas, isso é “completá-los inteiramente.” Quando ensino essa porção do Sermão do Monte, normalmente mostro a todos um copo de água pela metade como exemplo da revelação que Deus deu na Lei e nos Profetas. Jesus não veio abolir a Lei e os Profetas (enquanto digo isso, finjo que vou jogar o meio copo de água fora); pelo contrário, ele veio completar a Lei e os Profetas (nesse ponto eu pego uma garrafa de água e encho o copo até a borda). Isso ajuda as pessoas a entenderem o que Jesus quis dizer.

A Importância de Manter a Lei Quanto à obediência aos mandamentos encontrados na Lei e nos Profetas, Jesus não poderia ter mostrado Seu propósito de forma mais rigorosa. Ele esperava que Seus discípulos lhes obedecessem. Eles eram tão importantes como sempre. Aliás, a forma como eles respeitassem os mandamentos determinaria seu status no céu: “Todo aquele que desobedecer a um desses mandamentos, ainda que dos menores, e ensinar os outros a fazer o mesmo, será chamado menor no Reino dos céus; mas todo aquele que praticar e ensinar esses mandamentos, será chamado grande no Reino dos céus” (5:19). Então chegamos ao versículo 20: “Pois eu lhes digo que se a justiça de vocês não for muito superior à dos fariseus e mestres da lei, de modo nenhum entrarão no Reino dos céus.” Note que essa não é uma ideia nova, mas uma frase conclusiva que está conectada aos versículos anteriores pela conjunção pois. Qual é a importância de guardarmos os mandamentos? Devemos cumpri-los, melhor ainda que os escribas e fariseus para entrarmos no reino dos céus. Vemos novamente que Jesus estava mantendo Seu tema — Somente os santos herdarão o Reino de Deus. A fim de não contradizer a Cristo, o discipulador nunca garantirá a salvação de alguém que não seja mais santo que os escribas e fariseus.

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Que Tipo de Santidade Jesus estava Falando? Quando Jesus disse que nossa santidade deve ser maior que a dos escribas e fariseus, será que não estava se referindo à posição legal de santidade que seria imposta a nós como um dom grátis? Não, Ele não estava; e por um bom motivo. Primeiro, o contexto não se encaixa nessa interpretação. Antes e depois dessa instrução (e durante todo o Sermão do Monte), Jesus estava falando sobre manter os mandamentos, isto é, viver corretamente. A interpretação mais natural de Suas palavras é que precisamos viver mais corretamente que os escribas e fariseus. E que absurdo seria pensar que Jesus estava colocando os fariseus em um nível que Seus próprios discípulos não estavam. Que besteira pensar que Jesus condenaria os escribas e fariseus por cometer pecados que não condenariam também Seus discípulos simplesmente porque eles haviam feito a “oração da salvação.” [3] Nosso problema é que não queremos aceitar o significado óbvio do versículo, porque parece legalismo. Mas nosso verdadeiro problema é que não entendemos a correlação inseparável entre santidade imposta e santidade prática. Mas o apóstolo João entendia. Ele escreveu: “Filhinhos, não deixem que ninguém os engane. Aquele que pratica a justiça é justo” (1 Jo. 3:7). Também não entendemos a correlação entre o renascimento e a santidade prática como João também entendia: “Se vocês sabem que ele é justo, saibam também que todo aquele que pratica a justiça é nascido dele” (1 Jo. 2:29). Jesus poderia ter adicionado a Sua frase de 5:20: “E se vocês se arrependerem, renascerem verdadeiramente e receberem Meu dom gratuito de santidade através da fé viva, a santidade prática de vocês com certeza excederá a dos escribas e fariseus enquanto cooperam com Meu Espírito que habita nos corações de vocês.”

Como ser mais Santo que os Escribas e Fariseus A pergunta que naturalmente viria à mente em resposta à frase de Jesus em 5:20 é essa: Quanto exatamente os escribas e fariseus eram santos? A resposta é: Não muito. Em outro momento, Jesus se referiu a eles como “sepulcros caiados: bonitos por fora, mas por dentro estão cheios de ossos e de todo tipo de imundície” (Mt. 23:27). Isto é, pareciam santos por fora, mas eram corruptos por dentro. Eles faziam um bom trabalho mantendo as palavras da Lei, mas ignoravam o espírito dela, torcendo ou até alterando por várias vezes os mandamentos de Deus para se justificarem. Essa falha essencial dos escribas e fariseus era, de fato, o foco principal de Jesus na maioria do restante do Sermão do Monte. Percebemos que Ele citou vários mandamentos conhecidos, e após cada citação revelava a diferença entre manter apenas as palavras e o espírito de cada lei. Fazendo isso, Ele expôs repetidamente os falsos ensinos e a hipocrisia dos escribas e fariseus, e revelou Suas verdadeiras expectativas para Seus discípulos. Jesus começou cada exemplo com as palavras: “Vocês ouviram o que foi dito.” Ele estava provavelmente falando a pessoas que nunca haviam lido, somente ouvido os rolos do Velho Testamento sendo lidos pelos escribas e fariseus nas sinagogas. Pode ser dito que Sua audiência havia recebido falsos ensinamentos a vida inteira, já que ouviam os comentários torcidos dos escribas e fariseus a respeito da Palavra de Deus e observavam seus estilos de vida não sagrados.

Amem uns aos Outros, Diferentemente dos Escribas e Fariseus Usando o sexto mandamento como Seu primeiro ponto de referência, Jesus começou a ensinar aos Seus discípulos as expectativas de Deus para eles, ao mesmo tempo em que revelava a hipocrisia dos escribas e fariseus. 88


Vocês ouviram o que foi dito aos seus antepassados: “Não matarás,” e “quem matar estará sujeito a julgamento.” Mas eu lhes digo que qualquer que se irar contra seu irmão estará sujeito a julgamento. Também, qualquer que disser a seu irmão: “Racá,” será levado ao tribunal. E qualquer que disser: “Louco!” corre o risco de ir para o fogo do inferno (Mt. 5:21-22). Primeiro, note que Jesus estava advertindo sobre algo que poderia resultar em alguém ir para o inferno. Esse era seu tema principal — Somente os santos herdarão o Reino de Deus. Os escribas e fariseus pregavam contra assassinato, citando o sexto mandamento; aparentemente avisando que assassinato poderia levar alguém ao tribunal. Contudo, Jesus queria que Seus discípulos soubessem o que os escribas e fariseus pareciam não saber — havia infrações “menores” que poderiam levar pessoas ao tribunal, aparentemente o tribunal de Deus. Amar uns aos outros (o segundo maior mandamento) é tão importante que, quando ficamos com raiva de um irmão devemos nos considerar culpados no tribunal de Deus. Se verbalizarmos nossa raiva falando de forma cruel com ele, nossa infração será ainda mais séria, e devemos nos considerar culpados no tribunal supremo de Deus. E se formos além disso, emitindo ódio por um irmão com calúnia, somos culpados o suficiente diante de Deus para sermos lançados no inferno! Isso é sério! [4] Nosso relacionamento com Deus é medido por nosso relacionamento com nossos irmãos. Se odiamos um irmão, isso revela que não temos a vida eterna. João escreveu: Quem odeia seu irmão é assassino, e vocês sabem que nenhum assassino tem a vida eterna em si mesmo (1 Jo. 3:15). Se alguém afirmar: “Eu amo a Deus”, mas odiar seu irmão, é mentiroso, pois quem não ama seu irmão, a quem vê, não pode amar a Deus, a quem não vê (1 Jo. 4:20). Realmente, é muito importante que amemos uns aos outros e, como Jesus mandou, trabalhemos pela reconciliação quando formos ofendidos pelos outros (veja Mt. 18:15-17). Jesus continuou: Portanto, se vocês estiver apresentando sua oferta diante do altar e ali se lembrar de que seu irmão tem algo contra você, deixe sua oferta ali, diante do altar, e vá primeiro reconciliar-se com seu irmão; depois volte e apresente sua oferta (Mt. 5:23-24). Isso mostra que se nosso relacionamento com nosso irmão não estiver certo, então nosso relacionamento com Deus não está certo. Os fariseus eram culpados de aumentar o que era de menor importância e minimizar o que era de maior importância. “Vocês coam um mosquito e engolem um camelo,” como Jesus disse (Mt. 23:23-24). Eles enfatizavam a importância do dízimo e das ofertas, mas negligenciavam o que era muito mais importante, o segundo maior mandamento: amar uns aos outros. Que hipocrisia, levar uma oferta para mostrar supostamente o amor da pessoa por Deus, enquanto viola Seu segundo mandamento mais importante! Era sobre isso que Jesus estava advertindo. Ainda no assunto da rigidez da corte de Deus, Jesus continuou: Entre em acordo depressa com seu adversário que pretende levá-lo ao tribunal. Faça isso enquanto ainda estiver com ele a caminho, pois, caso contrário, ele poderá entregá-lo ao juiz, e o juiz ao guarda, e você poderá ser jogado na prisão. Eu lhe garanto que você não sairá de lá enquanto não pagar o último centavo (Mt. 5:25-26). É melhor ficar longe do tribunal de Deus de uma vez por todas vivendo em paz com nossos irmãos o quanto for possível. Se um irmão ou irmã estiver com raiva de nós e nos recusarmos a tentar a reconciliação “a caminho” do tribunal, ou seja, em nossa jornada pela vida para ficarmos diante de Deus, com certeza poderemos nos arrepender. O que Jesus disse aqui é muito parecido com Sua advertência contra qualquer imitação do servo inflexível em Mateus 18:23-25. O servo que foi perdoado, mas se recusou a perdoar teve sua dívida reintegrada, e foi entregue aos torturadores “até que pagasse tudo o que devia” (Mt. 18:34). Aqui, Jesus também está avisando sobre as horríveis consequências eternas de não amarmos nosso irmão como Deus espera.

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Sejam Sexualmente Puros, não como os Escribas e Fariseus O sétimo mandamento foi o assunto do segundo exemplo de Jesus de como os escribas e fariseus obedeciam as palavras enquanto negligenciavam o espírito da Lei. Jesus esperava que Seus discípulos fossem mais puros sexualmente que os escribas e fariseus. Vocês ouviram o que foi dito: “Não adulterarás.” Mas eu lhes digo: Qualquer que olhar para uma mulher para desejá-la, já cometeu adultério com ela no seu coração. Se o seu olho direito o fizer pecar, arranque-o e lance-o fora. É melhor perder uma parte do seu corpo do que ser todo ele lançado no inferno. E se a sua mão direita o fizer pecar, corte-a e lance-a fora. É melhor perder uma parte do seu corpo do que ir todo ele para o inferno (Mt. 5:27-30). Note novamente que Jesus estava mantendo Seu tema principal — Somente os santos herdarão o Reino de Deus. Ele avisou sobre o inferno e o que devemos fazer para ficarmos fora dele. Os escribas e fariseus não podiam ignorar o sétimo mandamento; então, eles obedeciam-no por fora, permanecendo fiéis as suas esposas. Mesmo assim, eles fantasiavam fazer amor com outras mulheres. Eles despiam mentalmente as mulheres que viam no mercado. Eram adúlteros de coração e, portanto, estavam transgredindo o espírito do sétimo mandamento. Quantos na igreja não são diferentes? É claro que Deus queria que todos fossem completamente puros sexualmente. Obviamente, se é errado ter um relacionamento sexual com a mulher do seu próximo, também é errado ficar pensando em um relacionamento sexual com ela. Jesus não estava adicionando uma lei mais restrita ao que já era requerido pela Lei de Moisés. O décimo mandamento continha uma clara proibição contra a cobiça: “Não cobiçarás a mulher do teu próximo” (Ex. 20:17). Será que havia alguns culpados na audiência de Jesus? Provavelmente sim. O que eles deveriam fazer? Deveriam se arrepender imediatamente, como Jesus instruiu. Não importa o quanto custe, aqueles que cobiçavam deveriam parar, pois aqueles que cobiçam vão para o inferno. É claro que nenhuma pessoa lógica acha que Jesus quis dizer que as pessoas que cobiçam devem literalmente arrancar um olho ou cortar uma mão. Alguém que cobiça e arranca um olho se torna simplesmente um cobiçador de um olho! Jesus estava enfatizando dramática e solenemente a importância de obedecer ao espírito do sétimo mandamento. Sujeite-se a isso eternamente. Seguindo o exemplo de Cristo, o discipulador irá alertar seus discípulos a “cortar” qualquer coisa que os esteja fazendo tropeçar. Se for uma TV a cabo, o cabo precisa ser desconectado. Se for uma TV comum, ela precisa ser removida. Se for a assinatura de uma revista, ela deve ser cancelada. Se for a internet, ela deve ser desconectada. Se for uma janela aberta, as cortinas devem ser fechadas. Não vale a pena passar a eternidade no inferno por causa de nenhuma dessas coisas, e porque o discipulador realmente ama o rebanho dEle, ele lhes dirá a verdade e lhes avisará, assim como Jesus o fez.

Outro Modo de Cometer Adultério O próximo exemplo de Jesus tem muito a ver com o que acabamos de analisar, e é provavelmente por isso que é mencionado em seguida. Deve ser considerado uma continuação ao invés de um novo assunto. O assunto é: “Outra coisa que os fariseus fazem que é equivalente ao adultério.” Foi dito: “Aquele que se divorciar de sua mulher deverá dar-lhe certidão de divórcio.” Mas se eu lhes digo que todo aquele que se divorciar de sua mulher, exceto por imoralidade sexual, faz que ela se torne adúltera, e quem se casar com a mulher divorciada estará cometendo adultério (Mt. 5:31-32). Aqui está um exemplo de como os escribas e fariseus torciam a lei de Deus para acomodaremna a seus estilos de vida pecaminosos. Vamos criar um fariseu imaginário nos dias de Jesus. Atravessando a rua de sua casa, mora uma mulher atraente que ele tem cobiçado. Ele a paquera todos os dias que a vê. Ela parece atraída por ele, 90


e seu desejo por ela cresce. Ele adoraria vê-la despida, e a imagina regularmente em suas fantasias sexuais. Ah, se ele pudesse tê-la! Mas ele tem um problema. É casado e sua religião proíbe o adultério. Ele não quer quebrar o sétimo mandamento (mesmo já o tendo quebrado todas as vezes em que cobiçou). O que pode fazer? Há uma solução! Se fosse divorciado de sua esposa atual, poderia se casar com a amante de sua mente! Mas a lei permite o divórcio? Um amigo fariseu diz, Sim! Há um versículo para isso! Deuteronômio 24:1 fala sobre dar o certificado de divórcio a sua esposa quando se divorciar dela. O divórcio deve estar dentro de certas circunstâncias para estar dentro da lei! Mas quais são essas circunstâncias? Ele lê cautelosamente o que Deus diz: Se um homem casar-se com uma mulher e depois não a quiser mais por encontrar nela algo que ele reprova, dará certidão de divórcio à mulher e a mandará embora (Dt. 24:1). Aháh! Ele pode se divorciar de sua mulher se encontrar alguma indecência nela! E ele encontra! Ela não é tão atraente como a mulher do outro lado da rua! (Esse não é um exemplo forçado. De acordo com o Rabbi Hillel, que nos tempos de Jesus tinha o ensino mais popular a respeito do divórcio, um homem poderia se divorciar de sua mulher dentro da lei se encontrasse alguém que fosse mais atraente, pois isso faria sua esposa atual parecer “indecente” aos seus olhos. Rabbi Hillel também ensinou que um homem poderia se divorciar de sua esposa se ela pusesse muito sal em sua comida ou falasse com outro homem ou não lhe desse um filho). Então, nosso fariseu cobiçoso e dentro da lei se divorcia de sua mulher dando-lhe o certificado de divórcio rapidamente e casa-se com a mulher de suas fantasias. E tudo sem um pouco de culpa, pois a Lei de Deus foi obedecida!

Um Ponto de Vista Diferente É claro que Deus vê as coisas de forma diferente. Ele nunca estipulou o que realmente era o “algo que ele reprova” mencionado em Deuteronômio 24:1, ou mesmo se isso era um motivo legítimo para o divórcio. Aliás, essa passagem não diz quando o divórcio está dentro da lei ou não. Ela só contém uma proibição contra a mulher divorciada duas vezes ou divorciada uma vez e viúva recasar com seu primeiro marido. Dizer que há algum tipo de “indecência” aos olhos de Deus que faça o divórcio legítimo baseando-se nessa passagem é forçar o significado no texto. De qualquer modo, para Deus, o homem imaginário que acabei de descrever não é diferente de qualquer adúltero. Ele quebrou o sétimo mandamento. Na verdade, ele é até mais culpado que o adúltero, pois é culpado de “adultério duplo.” Como isso pode acontecer? Primeiro, ele mesmo cometeu adultério. Jesus disse mais adiante: “Eu lhes digo que todo aquele que se divorciar de sua mulher, exceto por imoralidade sexual, e se casar com outra mulher, estará cometendo adultério” (Mt. 19:9). Segundo, porque sua esposa divorciada precisa procurar outro marido para sobreviver, aos olhos de Deus o fariseu fez o equivalente a forçar sua esposa a ter sexo com outro homem. Portanto, ele contrai a culpa por seu “adultério”. [5] Jesus disse: “Mas eu lhes digo que todo aquele que se divorciar de sua mulher, exceto por imoralidade sexual, faz que ela se torne adúltera” (Mt. 5:32, ênfase adicionada). Jesus poderia até estar acusando nosso fariseu cobiçoso de “adultério triplo” se Sua frase: “e quem se casar com a mulher divorciada estará cometendo adultério” (Mt. 5:32), significar que Deus culpa o fariseu pelo “adultério” do novo marido de sua ex-esposa. [6] Esse era um tema popular nos dias de Jesus, como lemos em outro lugar onde os fariseus O questionaram: “É permitido ao homem se divorciar de sua mulher por qualquer motivo?” (Mt. 19:3). Sua pergunta revela seus corações. Obviamente, pelo menos alguns deles queriam acreditar que o divórcio estava dentro da lei seja qual fosse o motivo. Também preciso dizer que vergonha é quando cristãos pegam essas mesmas passagens sobre o divórcio, as interpretam mal e colocam correntes pesadas nos filhos de Deus. Jesus não estava falando 91


sobre o cristão que se divorciou antes de ser salvo, e que quando encontra uma maravilhosa esposa em potencial que também ama a Cristo, se casa com ela. Isso não é equivalente a adultério. Se for isso que Jesus quis dizer, teremos que mudar o evangelho, pois ele não mais oferece perdão por todos os pecados dos pecadores. De agora em diante teremos que pregar: “Jesus morreu por você, e se você se arrepender e acreditar nEle, terá todos seus pecados perdoados. Contudo, se você foi divorciado nunca se recase, pois estará vivendo em adultério, e a Bíblia diz que adúlteros irão para o inferno. Também, se você foi divorciado e recasou, antes de vir para Cristo precisa cometer mais um pecado e se divorciar de sua esposa atual. Caso contrário continuará vivendo em adultério e adúlteros não são salvos.” [7] É esse o evangelho? [8]

Sejam Honestos, Diferentemente dos Escribas e Fariseus O terceiro exemplo de Jesus sobre má conduta e uso incorreto das Escrituras pelos escribas e fariseus está relacionado ao mandamento de Deus sobre dizer a verdade. Aprendemos em Mateus 23:16-22 que eles não se sentiam obrigados a manter seus votos se jurassem pelo templo, pelo altar ou pelo céu. Contudo, se jurassem pelo ouro do templo, pela oferta no altar ou por Deus no céu, eles eram obrigados a manter seus votos! Um adulto era equivalente a uma criança que pensa estar isenta de dizer a verdade desde que seus dedos estejam cruzados atrás de suas costas. Jesus espera que Seus discípulos digam a verdade. Vocês também ouviram o que foi dito aos seus antepassados: “Não jure falsamente, mas cumpra os juramentos que você fez diante do Senhor”. Mas eu lhe digo: Não jurem de forma alguma: nem pelos céus, porque é o trono de Deus; nem pela terra, porque é o estrado de seus pés; nem por Jerusalém, porque é a cidade do grande Rei. E não jure pela sua cabeça, pois você não pode tornar branco ou preto nem um fio de cabelo. Seja o seu “sim”, “sim”, e o seu “não”, “não”; o que passar disso vem do Maligno (Mt. 5:33-37). O mandamento original de Deus a respeito de juramentos nada dizia sobre fazer votos jurando por outras coisas. Deus queria que Seu povo falasse a verdade o tempo todo, então nunca haveria necessidade de jurar. Não há nada de errado em fazer um voto, pois isso nada mais é que uma promessa. Na verdade, votos para obedecer a Deus são muito bons. A salvação começa com o voto de seguir a Jesus. Mas quando as pessoas precisam jurar por algo para convencer outros a acreditarem nelas, isso mostra claramente que elas normalmente mentem. Pessoas que sempre dizem a verdade nunca precisam jurar. Ainda assim, muitas igrejas, hoje, estão cheias de mentirosos e os ministros são, muitas vezes, os líderes em fraudes e trapaças. O discipulador deixa um exemplo de honestidade e ensina seus discípulos a sempre dizerem a verdade. Ele sabe que João nos advertiu dizendo que todos os mentirosos serão lançados no inferno dentro do lago de fogo que arde com enxofre (Ap. 21:8).

Não se Vingue, como os Escribas e Fariseus O próximo item na lista de desgosto de Jesus era a perversão farisaica de um versículo bem conhecido do Velho Testamento. Já consideramos essa passagem no capítulo sobre interpretação bíblica. Vocês ouviram o que foi dito: “Olho por olho e dente por dente”. Mas eu lhes digo: Não resistam ao perverso. Se alguém o ferir na face direita, ofereça-lhe também a outra. E se alguém quiser processá-lo e tirar-lhe a túnica, deixe que leve também a capa. Se alguém o forçar a caminhar com ele uma milha, vá com ele duas. Dê a quem lhe pede, e não volte as costas àquele que deseja pedir-lhe algo emprestado (Mt. 5:38-42). A Lei de Moisés declara que quando uma pessoa é julgada culpada no tribunal por prejudicar outra pessoa, sua punição deve ser equivalente ao mal que causou. Se ele arrancasse o dente de 92


alguém, em lealdade e justiça, seu dente deveria ser arrancado. Esse mandamento foi dado para garantir que a justiça por ofensas maiores fosse feita no tribunal. Deus instituiu um sistema de cortes e juízes debaixo da Lei para dissuadir o crime, garantir a justiça, e frear a vingança. E mandou que os juízes fossem imparciais e justos em seus julgamentos. Eles deveriam exigir “olho por olho e dente por dente.” Mas essa frase e mandamento são sempre encontrados em passagens sobre a justiça em tribunais. Contudo, mais uma vez, os escribas e fariseus torceram o mandamento, tornando-o um mandamento que fazia a vingança pessoal uma obrigação santa. Aparentemente, eles adotaram uma política de “tolerância zero”, buscando vingança pelas menores ofensas. Mas Deus sempre esperou mais de Seu povo. A vingança é algo que Ele proibiu estritamente (veja Dt. 32:35). O Velho Testamento ensinou que o povo de Deus deve mostrar bondade aos seus inimigos (veja Ex. 23:4-5; Pv. 25:21-22). Jesus confirmou essa verdade dizendo aos Seus discípulos para oferecerem a outra face e andar mais uma milha quando se tratasse de pessoas más. Quando somos injustiçados, Deus quer que sejamos misericordiosos, pagando o mal com o bem. Mas Jesus espera que permitamos que pessoas tirem muita vantagem de nós, deixando-os arruinar nossas vidas se desejarem? É errado levar um ímpio a um tribunal buscando justiça por um ato ilegal cometido contra nós? Não. Jesus não estava falando sobre obter justiça por ofensas maiores em cortes, mas sobre vingança pessoal por pequenas infrações. Note que Jesus não disse que devemos oferecer nosso pescoço para ser estrangulado a alguém que acabou de nos esfaquear pelas costas. Ele não disse que devemos dar a alguém nossa casa quando pedem nosso carro. Jesus estava simplesmente dizendo para mostrarmos misericórdia e tolerância em alto nível quando encontrarmos diariamente pequenas ofensas e desafios normais ao lidar com pessoas egoístas. Ele quer que sejamos mais bondosos do que elas esperam que sejamos. Os escribas e fariseus nem chegaram perto desse padrão. Por que tantos cristãos professos são ofendidos tão facilmente? Por que se angustiam tão rapidamente por ofensas que são dez vezes menores que receber um tapa no rosto? Essas pessoas são salvas? O discipulador deixa um exemplo oferecendo a outra face e ensina seus discípulos a fazerem o mesmo.

Não Odeiem Seus Inimigos, como os Escribas e Fariseus Finalmente, Jesus listou mais um mandamento dado por Deus que os escribas e fariseus alteraram para acomodar seus corações cheios de ódio. Vocês ouviram o que foi dito: “Ame seu próximo e odeie seu inimigo”. Mas eu lhes digo: Amem os seus inimigos e orem por aqueles que os perseguem, para que vocês venham a ser filhos de seu Pai que está nos céus. Porque ele faz raiar o seu sol sobre os maus e bons e derrama chuva sobre os justos e injustos. Se vocês amarem aqueles que os amam, que recompensa vocês receberão? Até os publicanos fazem isso! E se saudarem apenas os seus irmãos, o que estarão fazendo de mais? Até os pagãos fazem isso! Portanto, sejam perfeitos como perfeito é o Pai celestial de vocês (Mt. 5:43-48). No Velho Testamento, Deus disse: “ame cada um o seu próximo assim como a si mesmo” (Lv. 19:18), mas os escribas e fariseus definiram convenientemente que o próximo era somente as pessoas que os amavam. Todos os outros eram inimigos, e já que Deus só disse para amarmos nosso próximo, deve ser apropriado odiar nossos inimigos. Contudo, de acordo com Jesus isso não chega perto do que Deus quis dizer. Mais tarde Jesus ensinaria na história do Bom Samaritano que devemos considerar todas as pessoas como nosso próximo. [9] Deus quer que amemos a todos, incluindo nossos inimigos. Esse é o padrão de Deus para Seus filhos, um padrão pelo qual Ele mesmo vive. Ele manda sol e chuva para a plantação tanto das pessoas boas, como das más. Devemos seguir Seu exemplo, mostrando bondade às pessoas que não merecem. Quando fazemos isso mostramos que somos “filhos de *nosso+ Pai que está nos céus” (Mt. 5:45). Pessoas autenticamente renascidas agem como seu Pai. 93


O amor que Deus espera que mostremos a nossos inimigos não é uma emoção ou aprovação de sua maldade. Deus não espera que cultivemos sentimentos por aqueles que se opõem a nós. Ele não está nos mandando falar coisas que não são verdade, que nossos inimigos são pessoas maravilhosas. Mas Ele espera que sejamos misericordiosos com eles e trabalhemos para esse fim, pelo menos cumprimentando-os e orando por eles. Note que mais uma vez Jesus reforçou Seu tema principal — somente os santos herdarão o Reino de Deus. Ele disse a Seus discípulos que se amassem somente aqueles que os amavam, não eram melhores que os gentios pagãos e coletores de impostos, dois tipos de pessoas que todos judeus teriam concordado que iriam para o inferno. Era outra maneira de dizer que pessoas que amam somente aqueles que os amam vão para o inferno.

Faça o Bem pelos Motivos Certos, ao Contrário dos Escribas e Fariseus Jesus não só espera que Seus seguidores sejam santos, mas que sejam santos pelos motivos corretos. É bem possível obedecer aos mandamentos de Jesus e ainda assim não agradá-lo, se a obediência se originar de um motivo errado. Jesus condenou os escribas e fariseus porque faziam todas as boas obras para simplesmente impressionar os outros (veja Mt. 23:5). Ele espera que Seus discípulos sejam diferentes. Tenham o cuidado de não praticar suas “obras de justiça” diante dos outros para serem vistos por eles. Se fizerem isso, vocês não terão nenhuma recompensa do Pai celestial. Portanto, quando você der esmola, não anuncie isso com trombetas, como fazem os hipócritas das sinagogas e nas ruas, a fim de serem honrados pelos outros. Eu lhes garanto que eles já receberam sua plena recompensa. Mas quando você der esmola, que a sua mão esquerda não saiba o que está fazendo sua mão direita, de forma que você preste a sua ajuda em segredo. E seu Pai, que vê o que é feito em segredo, o recompensará (Mt. 6:1-4). Jesus esperava que Seus seguidores dessem esmolas aos pobres. A Lei mandava (veja Ex. 23:11; Lv. 19:10; 23:22; 25:35; Dt. 15:7-11), mas os escribas e fariseus tocavam trombetas ostensivamente para chamar os pobres às suas generosas distribuições públicas. Mesmo assim, quantos cristãos professos nada dão aos pobres? Eles nem chegaram ao ponto de precisar examinar seus motivos de dar esmolas. Se egocentrismo motivou os escribas e fariseus a anunciar publicamente suas doações, o que motiva cristãos professos a ignorar o apuro dos pobres? Com respeito a isso, a santidade deles supera a dos escribas e fariseus? Como Paulo repetiria em 1 Coríntios 3:10-15, podemos fazer coisas boas pelos motivos errados. Se nossos motivos não forem puros, nossas boas obras não serão recompensadas. Paulo disse que é possível até pregar o evangelho pelos motivos errados (veja Fp. 1:15-17). Como Jesus aconselhou, um bom modo de termos certeza que estamos dando esmolas por motivos puros é dar secretamente, sem deixar nossa mão esquerda saber o que a direita está fazendo. O discipulador ensina seus discípulos a dar aos pobres (provendo que eles tenham recursos), e pratica em silêncio o que prega.

Oração e Jejum pelos Motivos Certos Jesus também esperava que Seus seguidores orassem e jejuassem, e que fizessem tais coisas, não para serem vistos por outras pessoas, mas para agradarem a Seu Pai. Caso contrário, elas não seriam diferentes dos escribas e fariseus que iam em direção ao inferno, que oravam e jejuavam para receber o louvor do povo, uma recompensa bem temporária. Jesus advertiu Seus seguidores: E quando vocês orarem, não sejam como os hipócritas. Eles gostam de ficar orando em pé nas sinagogas e nas esquinas, a fim de serem vistos pelos outros. Eu lhes asseguro que eles já receberam sua plena recompensa. Mas quando você orar, vá para seu quarto, feche a porta e ore a seu Pai, que está em secreto. Então seu Pai, que vê em secreto, o recompensará. 94


Quando jejuarem, não mostrem uma aparência triste como os hipócritas, pois eles mudam a aparência do rosto a fim de que os outros vejam que eles estão jejuando. Eu lhes digo verdadeiramente que eles já receberam sua plena recompensa. Ao jejuar, arrume o cabelo e lave o rosto para que não pareça aos outros que você está jejuando, mas apenas a seu Pai, que vê em secreto. E seu Pai, que vê em secreto, o recompensará (Mt. 6:5-6, 16-18). Quantos cristãos professos nunca tiveram uma vida de oração e nunca jejuaram? [10] Com respeito a isso, como a santidade deles se compara à dos escribas e fariseus, que praticam ambas (apesar de pelos motivos errados)?

Uma Digressão à Respeito da Oração e Perdão Enquanto estamos no assunto da oração, Jesus deu algumas instruções mais específicas a Seus discípulos à respeito de como deveriam orar. Ele quer que oremos de tal forma que não insultemos Seu Pai, negando, através das orações, o que Ele tem nos revelado sobre Si mesmo. Por exemplo, já que Deus sabe do que precisamos antes de pedirmos (Ele sabe tudo), não há razão para usarmos repetições insignificantes quando oramos: E quando orarem, não fiquem sempre repetindo a mesma coisa, como fazem os pagãos. Eles pensam que por muito falarem serão ouvidos. Não sejam iguais a eles, porque o seu Pai sabe do que vocês precisam, antes mesmo de o pedirem (Mt. 6:7-8). Na verdade, nossas orações revelam o quanto conhecemos a Deus. Aqueles que O conhecem como é revelado em Sua Palavra oram para que a Sua vontade seja feita e que Ele seja glorificado. O maior desejo de seus corações é ser santo, agradando a Ele completamente. Isso é refletido no modelo de oração de Jesus, o que chamamos de Oração do Pai Nosso, que é o próximo ponto incluído nas instruções de Jesus aos Seus discípulos. Ela revela o que Ele espera de nossas prioridades e devoção: [11] Vocês orem assim: Pai nosso, que estás nos céus! Santificado seja o teu nome. Venha o teu Reino; seja feita a tua vontade, assim na terra como no céu. Dá-nos hoje o nosso pão de cada dia (Mt. 6:9-11). A preocupação principal dos discípulos de Jesus deve ser que o nome de Deus seja glorificado, respeitado, reverenciado e tratado como santo. É claro que aqueles que oram para que o nome de Deus seja glorificado devem ser santos, glorificando o nome de Deus. Caso contrário, seria hipocrisia. Portanto, essa oração reflete o nosso desejo de que outros se submetam a Deus, assim como nós temos feito. O segundo pedido da oração modelo é similar: “Venha o teu Reino.” A ideia de um reino implica que há um rei reinando em seu reino. O discípulo cristão deseja ver seu Rei, aquele que reina sobre sua vida, reinar sobre toda a terra. Que todos os joelhos se dobrem ao Rei Jesus em obediência e fé! O terceiro pedido repete o primeiro e o segundo: “seja feita a tua vontade, assim na terra como no céu.” Novamente, como podemos fazer essa oração sinceramente sem nos submetermos à vontade de Deus em nossas vidas? O verdadeiro discípulo deseja que a vontade de Deus seja feita na terra assim como no céu — perfeita e completa. Que o nome de Deus seja glorificado, que Sua vontade seja feita e que o Reino dEle venha devem ser mais importantes a nós que ter o alimento que sustenta, nosso “pão de cada dia.” Esse quarto pedido foi colocado em quarto por um motivo. A oração em si mesma reflete uma ordem correta de nossas prioridades, e nenhum sinal de orgulho é encontrado aqui. Os discípulos de Cristo servem a Deus e não às riquezas. O foco deles não é acumular tesouros terrenos. Deixe-me adicionar que esse quarto pedido parece indicar que esse modelo de oração deve ser feito diariamente, no início de cada dia.

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A Oração Modelo Continua Os discípulos de Cristo pecam? Aparentemente, às vezes sim, já que Jesus os ensinou a pedir perdão por seus pecados. Perdoa nossas dívidas, assim como perdoamos aos nossos devedores. E não nos deixes cair em tentação, mas livra-nos do mal porque teu é o Reino, o poder e a glória para sempre. Amém. Pois se perdoarem as ofensas uns dos outros, o Pai celestial também lhes perdoará. Mas se não perdoarem uns aos outros, o Pai celestial não lhes perdoará as ofensas (Mt. 6:12-15). Os discípulos de Jesus percebem que sua desobediência ofende a Deus, e quando pecam, se sentem envergonhados. Eles querem que a mancha seja removida, e felizmente seu Pai celestial gracioso está disposto a perdoá-los. Mas eles devem pedir perdão, o quinto pedido encontrado no Pai Nosso. Contudo, o perdão deles é condicional a eles perdoarem aos outros. Porque foram perdoados de tantas coisas, têm a obrigação de perdoar a todos os que lhes pedirem perdão (e amar e trabalhar pela reconciliação com aqueles que não pedirem). Se eles se recusarem a perdoar, Deus não os perdoará. O sexto e último pedido, sem dúvida também reflete o desejo do verdadeiro discípulo de ser santo: “E não nos deixes cair em tentação, mas livra-nos do mal *ou do ‘maligno’+.” O verdadeiro discípulo deseja tanto a santidade que pede a Deus para não deixá-lo entrar em uma situação em que possa ser tentado, para que não caia. Mais adiante, ele pede que Deus o livre de qualquer mal que possa capturá-lo. Com certeza essa é uma ótima oração para ser feita no início de cada dia, antes de irmos a um mundo de maldades e tentações. E com certeza podemos esperar que Deus responda a essa oração que nos mandou fazer. Aqueles que conhecem a Deus entendem porque todos os seis pedidos dessa oração são tão apropriados. A razão é revelada na última linha: “Porque teu é o Reino, o poder e a glória para sempre” (Mt. 6:13). Deus é um grande Rei que reina sobre seu Reino, no qual somos Seus servos. Ele é todopoderoso e ninguém deve ousar resistir a Sua vontade. Toda a glória pertence a Ele para sempre. Ele é digno de ser obedecido. Qual é o tema dominante na oração do Pai Nosso? Santidade. Os discípulos de Cristo desejam que o nome de Deus seja glorificado, que Seu Reino seja estabelecido na terra e que Sua vontade seja feita perfeitamente em todos os lugares. Isso é até mais importante para eles que o pão de cada dia. Eles querem ser agradáveis aos olhos de Deus e quando fracassam, querem o perdão dEle. Como pessoas perdoadas, estendem perdão aos outros. Desejam ser perfeitamente santos, a ponto de desejarem evitar a tentação, porque a tentação aumenta suas chances de pecar.

O Discípulo e Suas Posses Materiais O próximo tópico do Sermão do Monte é potencialmente muito perturbador para crentes professos que têm como motivação principal da vida a acumulação sempre maior de bens materiais: Não acumulem para vocês tesouros na terra, onde a traça e a ferrugem destroem, e onde os ladrões arrombam e furtam. Mas acumulem para vocês tesouros nos céus, onde a traça e a ferrugem não destroem, e onde os ladrões não arrombam nem furtam. Pois onde estiver o seu tesouro, aí também estará o seu coração. Os olhos são a candeia do corpo. Se os seus olhos forem bons, todo o seu corpo será cheio de luz. Mas se os seus olhos forem maus, todo o seu corpo será cheio de trevas. Portanto, se a luz que está dentro de vocês são trevas, que tremendas trevas são! Ninguém pode servir a dois senhores; pois odiará um e amará o outro, ou se dedicará a um e desprezará o outro. Vocês não podem servir a Deus e ao Dinheiro (Mt. 6:19-24). Jesus mandou que não acumulássemos tesouros na terra. Então, o que constitui um “tesouro”? Tesouros, no sentido literal, são guardados em baús, escondidos em algum lugar e nunca usados para coisas práticas. Jesus os definiu como coisas que atraem traças, ferrugens e ladrões. Outro modo de 96


dizer isso seria: “não essenciais.” Traças comem o que está no fundo de nossos guarda-roupas, não o que usamos com frequência. A ferrugem destrói as coisas que quase não usamos. Em países mais desenvolvidos, na maioria das vezes, os ladrões roubam coisas que as pessoas não precisam verdadeiramente: quadros, joias, objetos caros, e o que pode ser penhorado. Um verdadeiro discípulo precisa “renunciar a tudo o que possui” (veja Lc. 14:33). Ele é somente um mordomo do dinheiro de Deus; por isso, cada decisão de gastar dinheiro é uma decisão espiritual. O que fazemos com nosso dinheiro reflete quem está controlando nossas vidas. Quando acumulamos “tesouros,” amontoando dinheiro e comprando o que não é essencial, revelamos que Jesus não está no controle pois se estivesse, estaríamos fazendo melhor uso do dinheiro que confiou a nós. O que são essas coisas melhores? Jesus nos mandou acumular tesouros no céu. Como isso é possível? Ele nos diz no evangelho de Lucas: “Vendam o que têm e deem esmolas. Façam para vocês bolsas que não se gastem com o tempo, um tesouro nos céus que não se acabe, onde ladrão algum chega perto e nenhuma traça destrói” (Lc. 12:33). Quando damos dinheiro para ajudar os pobres e espalhamos o evangelho, estamos acumulando tesouros no céu. Jesus está nos dizendo para pegar o que, com certeza, irá deteriorar a ponto de ficar sem valor algum e investir em algo que nunca deteriorará. É isso que o discipulador faz, e consequentemente, ensina seus discípulos a fazerem.

O Olho Mau O que Jesus quis dizer quando falou sobre as pessoas com olhos bons e corpos cheios de luz, e pessoas com olhos maus e corpos cheios de trevas? Suas palavras devem ter alguma coisa a ver com dinheiro e bens materiais, porque era sobre isso que Ele estava falando antes e depois. A palavra grega traduzida “mau” em 6:23 é a mesma palavra traduzida em Mateus 20:15 como “inveja.” Lá, lemos sobre um senhor que diz a seu trabalhador: “O seu olho está com inveja porque eu sou generoso?*” Obviamente um olho não pode ficar literalmente com inveja. Portanto, a expressão “um olho invejoso (ou mau)” fala sobre alguém com desejos ávidos. Isso nos ajuda a entender melhor o que Cristo quis dizer em Mateus 6:22-23. A pessoa com o olho bom simboliza alguém puro de coração, que permite que a luz da verdade entre nela. Portanto, ele serve a Deus e acumula tesouros, não na terra, mas no céu onde está o seu coração. A pessoa com o olho mau não permite que a luz da verdade entre, pois acha que já tem a verdade, e portanto, está cheio de trevas, acreditando em mentiras. Ele acumula tesouros na terra, onde está seu coração. Ele acredita que o propósito de sua vida seja a gratificação própria. O dinheiro é seu deus. Ele não está destinado ao céu. O que significa ter o dinheiro como seu deus? Significa que ele tem um lugar em sua vida que somente Deus deveria ter por direito; ele dirige sua vida; ele consome sua energia, pensamentos e tempo; é a fonte principal de sua alegria; você o ama. [12] É por isso que Paulo igualou a ganância à idolatria, dizendo que nenhum ganancioso herdará o Reino de Deus (veja Ef. 5:5; Cl. 3:5-6). Ambos, Deus e o dinheiro querem ser mestres de nossas vidas, e Jesus disse que não podemos servir aos dois. Novamente, vemos que Jesus ficou com Seu tema principal — Somente os santos herdarão o Reino de Deus. Ele deixou bem claro que as pessoas que estão cheias de trevas, que têm o dinheiro como deus, têm o coração na terra e acumulam tesouros terrenos, não estão na estrada estreita que leva à vida.

Os Pobres Invejosos Preocupação com bens materiais não são erradas somente quando eles forem luxuosos. Uma pessoa pode estar se preocupando de forma errada com bens materiais até mesmo quando essas necessidades são básicas. Jesus continuou: 97


Portanto eu lhes digo: Não se preocupem com sua própria vida, quanto ao que comer ou beber; nem com seu próprio corpo, quanto ao que vestir. Não é a vida mais importante que a comida, e o corpo mais importante que a roupa? Observem as aves do céu: não semeiam nem colhem nem armazenam em celeiros; contudo, o Pai celestial as alimenta. Não têm vocês muito mais valor do que elas? Quem de vocês, por mais que se preocupe, pode acrescentar uma hora que seja à sua vida? Por que vocês se preocupam com roupas? Vejam como crescem os lírios do campo. Eles não trabalham nem tecem. Contudo, eu lhes digo que nem Salomão, em todo o seu esplendor, vestiu-se como um deles. Se Deus veste assim a erva do campo, que hoje existe e amanhã é lançada ao fogo, não vestirá muito mais a vocês, homens de pequena fé? Portanto, não se preocupem, dizendo: “Que vamos comer?” ou “Que vamos beber?” ou “Que vamos vestir?” Pois os pagãos é que correm atrás dessas coisas; mas o Pai celestial sabe que vocês precisam delas. Busquem, pois, em primeiro lugar o Reino de Deus e a sua justiça, e todas essas coisas lhes serão acrescentadas. Portanto, não se preocupem com o amanhã, pois o amanhã trará suas próprias preocupações. Basta a cada dia o seu próprio mal (Mt. 6:25-35). Muitos leitores desse livro podem não se relacionar com pessoas na mesma situação que as que Jesus estava se dirigindo. Quando foi a última vez que você se preocupou em ter comida, bebida ou roupas? Contudo, as palavras de Jesus têm aplicação a todos nós. Se for errado se preocupar com os essenciais da vida, quanto mais se preocupar com os não essenciais? Jesus espera que Seus discípulos focalizem principalmente em buscar duas coisas: Seu Reino e Sua justiça. Quando um cristão professo não pode dizimar (um mandamento da antiga aliança, devo adicionar), mas pode comprar coisas materiais não essenciais, ele está alcançando o padrão de Cristo de buscar Seu Reino e justiça? A resposta é óbvia.

Não Seja uma Pessoa que Procura por Defeitos Os próximos mandamentos de Jesus aos Seus seguidores são a respeito dos pecados de julgar e encontrar defeitos: Não julguem, para que vocês não sejam julgados. Pois da mesma forma que julgarem, vocês serão julgados; e a medida que usarem, também será usada para medir vocês. Por que você repara no cisco que está no olho do seu irmão, e não se dá conta da viga que está em seu próprio olho? Como você pode dizer ao seu irmão: “Deixe-me tirar o cisco do seu olho”, quando há uma viga no seu? Hipócrita, tire primeiro a viga do seu olho, e então você verá claramente para tirar o cisco do olho do seu irmão (Mt. 7:1-5). Mesmo que Jesus não tenha acusado os escribas e fariseus nessa passagem, eles com certeza eram culpados desse pecado sob consideração: eles encontraram defeito nEle! O que exatamente Jesus quis dizer nessa advertência contra julgar os outros? Primeiro, vamos levar em consideração o que Ele não quis dizer. Ele não quis dizer que não devemos discernir e determinar essenciais sobre o caráter das pessoas ao observarmos suas ações. Isso é bem claro. Diretamente após essa seção, Jesus instruiu Seus discípulos a não lançarem pérolas aos porcos ou dar aos cães o que é sagrado (veja 7:6). Obviamente, Ele estava falando figurativamente de certos tipos de pessoas, referindo-Se a elas como porcos e cães, pessoas que não apreciam o valor das coisas sagradas, “pérolas,” que lhes estão sendo dadas. Elas são, obviamente, pessoas perdidas; e com certeza, devemos julgar se as pessoas são porcos e cães se formos obedecer a esse mandamento. Mais adiante, Jesus logo disse aos Seus discípulos como julgar falsos profetas que estão “vestidos de peles de ovelhas, mas por dentro são lobos” (veja 7:15): inspecionando seus frutos. Claramente, para obedecer as instruções de Jesus devemos observar o estilo de vida das pessoas e fazer julgamentos. Similarmente, Paulo disse aos crentes de Coríntios: 98


Mas agora estou lhes escrevendo que não devem associar-se com qualquer que, dizendo-se irmão, seja imoral, avarento, idólatra, caluniador, alcoólatra ou ladrão. Com tais pessoas vocês nem devem comer (1 Co. 5:11). Obedecer a essa instrução requer que examinemos os estilos de vida das pessoas e façamos julgamentos sobre elas, nos baseando no que observamos. O apóstolo João também nos disse que podemos discernir facilmente quem pertence a Deus e quem pertence ao Diabo. Olhando para os estilos de vida das pessoas, é fácil identificar os salvos e os perdidos (veja Jo. 3:10). Tudo isso sendo verdade, discernir o caráter das pessoas examinando suas ações e julgando se pertencem a Deus ou ao Diabo não é o pecado sobre o qual Cristo nos advertiu. Então, o que Jesus quis dizer? Jesus estava falando sobre encontrar pequenos defeitos, ciscos, em um irmão (note que Jesus usa a palavra irmão três vezes nessa passagem). Ele não estava nos advertindo sobre julgar pessoas dizendo que não são crentes por observarmos defeitos evidentes (como logo nos instruirá a fazer neste mesmo sermão); pelo contrário, essas são instruções de como cristãos devem tratar cristãos. Eles não devem procurar pequenos defeitos uns nos outros, especialmente quando eles mesmos são cegos aos seus próprios defeitos, que são ainda maiores. Em tais casos eles são hipócritas. Como Jesus disse certa vez a uma multidão de juízes hipócritas: “Se algum de vocês estiver sem pecado, seja o primeiro a atirar a pedra nela” (Jo. 8:7). O apóstolo Tiago, autor da epístola que é quase paralela ao Sermão do Monte, escreveu similarmente: “Irmãos, não se queixem uns dos outros, para que não sejam julgados. O Juíz já está às portas!” (Tg. 5:9). Talvez isso também nos ajude a entender algo sobre o que Jesus estava nos advertindo — encontrar defeitos em outros companheiros cristãos e, então, espalhar o que encontramos, reclamando uns dos outros. Esse é um dos pecados mais predominantes na Igreja, e aqueles que são culpados se colocam em uma perigosa posição: a de serem julgados. Quando falamos contra um companheiro cristão, mostrando seus defeitos aos outros, estamos violando a lei de ouro, porque não queremos que os outros falem mal de nós em nossa ausência. Podemos falar amavelmente a um companheiro cristão sobre seu defeito, mas somente quando for possível fazê-lo sem hipocrisia, certos de que não somos culpados (ou mais culpados) do mesmo pecado que é a pessoa que estamos confrontando. Contudo, é uma completa perca de tempo fazer isso com um ímpio, o que parece ser o assunto do próximo versículo. Jesus disse: Não deem o que é sagrado aos cães, nem atirem suas pérolas aos porcos; caso contrário, estes as pisarão e, aqueles, voltando-se contra vocês, os despedaçarão (Mt. 7:6). Similarmente, um provérbio diz: “Não repreendas o escarnecedor, para que não te odeie; repreenda o sábio, e ele te amará” (Pv. 9:8). Outra vez, Jesus disse aos Seus discípulos para baterem o pó de suas sandálias contra aqueles que rejeitaram o evangelho. Uma vez que os “cães” tenham sido identificados por sua falta de apreciação pela verdade, Deus não quer que Seus servos percam tempo tentando alcançá-los enquanto outros não tiveram a mesma oportunidade.

Encorajamento para Orar Finalmente chegamos à última seção do corpo do sermão de Jesus. Ela começa com algumas promessas de oração encorajadoras: Peçam, e lhes será dado; busquem, e encontrarão; batam, e a porta lhes será aberta. Pois todo o que pede, recebe; o que busca, encontra; e àquele que bate, a porta será aberta. Qual de vocês, se seu filho pedir pão, lhe dará uma pedra? Ou se pedir peixe, lhe dará uma cobra? Se vocês, apesar de serem maus, sabem dar boas coisas aos seus filhos, quanto mais o Pai de vocês, que está nos céus, dará coisas boas aos que lhe pedirem! (Mt. 7:7-11). “Ahá!” um leitor em algum lugar pode estar dizendo. “Aqui está uma parte do Sermão do Monte que nada tem a ver com santidade.” 99


Tudo isso depende do que estamos pedindo, onde estamos batendo e o que buscamos em oração. Como aqueles que “têm fome e sede de justiça,” desejamos obedecer a todos os mandamentos que Jesus deu em Seu sermão, e esse desejo é com certeza refletido em nossas orações. Aliás, o modelo de oração que Jesus compartilhou mais cedo nesse mesmo sermão foi a expressão de desejo para que a vontade de Deus seja feita e para que haja santidade em nós. Mais adiante, (levando em consideração) a versão de Lucas dessas mesmas promessas de oração termina assim: “Se vocês, apesar de serem maus, sabem dar boas coisas aos seus filhos, quanto mais o Pai que está nos céus dará o Espírito Santo a quem o pedir!” (Lc. 11:13). Jesus não estava pensando em coisas luxuosas quando nos prometeu “boas coisas.” Em Sua mente, o Espírito Santo é uma “boa coisa,” porque Ele nos faz mais santos e nos ajuda a espalhar o evangelho, o que faz com que outras pessoas se tornem santas. E pessoas santas vão para o céu. Outras boas coisas são aquelas que estão dentro da vontade de Deus. Obviamente, a prioridade de Deus é a Sua vontade e Seu Reino; portanto, devemos esperar que nossas orações por algo que aumentará nossa utilidade no Reino de Deus sempre serão respondidas.

Uma Frase Conclusiva Agora chegamos a um versículo que deveria ser considerado um resumo de praticamente tudo o que Jesus disse até esse ponto. Muitos comentaristas não percebem isso, mas é importante que percebamos. Esse versículo em particular é obviamente um resumo, já que começa com a palavra assim. Portanto, ele está ligado às instruções anteriores, e a pergunta é: Ele resume quanto daquilo que Jesus falou? Vamos ler e pensar: Assim, em tudo, façam aos outros o que vocês querem que eles lhes façam; pois esta é a Lei e os Profetas (Mt. 7:12). Essa frase não pode ser um resumo somente dos poucos versículos antes dela; a respeito da oração, caso contrário, não faria sentido. Lembre-se que no início de Seu sermão, Jesus advertiu contra o erro de pensarmos que veio para abolir a Lei ou os Profetas (veja Mt. 5:17). Daquele ponto em Seu sermão até o versículo em que chegamos, Ele falou praticamente nada a não ser confirmar e explicar os mandamentos de Deus no Velho Testamento. Portanto, agora Ele resume tudo o que mandou, tudo o que explicou da Lei e dos Profetas: “Assim, em tudo, façam aos outros o que vocês querem que eles lhes façam; pois esta é a Lei e os Profetas” (7:12, ênfase adicionada). A frase “a Lei e os Profetas,” conecta tudo o que Jesus disse entre Mateus 5:17 e 7:12. Agora, enquanto Jesus começa a conclusão de Seu sermão, Ele volta ao Seu tema principal mais uma vez — Somente os santos herdarão o Reino de Deus: Entrem pela porta estreita, pois larga é a porta e amplo o caminho que leva à perdição, e são muitos os que entram por ela. Como é estreita a porta, e apertado o caminho que leva à vida! São poucos os que a encontram (Mt. 7:13-14). Obviamente, a porta e o caminho estreitos que levam à vida, que poucos encontram, são uma simbologias da salvação. A porta e o caminho largos que levam à destruição, o caminho da maioria, simbolizam a perdição. Se tudo o que Jesus disse anteriormente a essa frase significa alguma coisa, se esse sermão tem uma lógica progressiva, se Jesus tinha qualquer perspicácia como comunicador, então a interpretação mais natural seria que o caminho estreito é o caminho seguindo a Jesus, obedecendo aos Seus mandamentos. O caminho largo seria o oposto. Quantos cristãos professos estão no caminho estreito descrito nesse sermão? O discipulador, com certeza, está no caminho estreito, e guia seus discípulos no mesmo caminho. É incompreensível a alguns cristãos professos que Jesus nada tenha dito sobre fé ou crença nEle nesse sermão em que disse tanto sobre salvação e perdição. Contudo, para aqueles que entendem a correlação inseparável entre crença e comportamento, esse sermão não apresenta problema algum. Pessoas que obedecem a Jesus mostram sua fé pelas obras. Aqueles que não O obedecem, não 100


acreditam que Ele é o Filho de Deus. Nossa salvação não é só uma amostra da graça de Deus para nós, é também a transformação de nossas vidas. Nossa santidade é na verdade Sua santidade.

Como Reconhecer Falsos Líderes Religiosos Enquanto Jesus continuava Suas observações finais, avisou Seus discípulos sobre falsos profetas que levam os desatentos ao caminho da destruição. Os falsos profetas são aqueles que não pertencem realmente a Deus, mas se disfarçam como tais. Todos os falsos líderes e profetas entram nessa categoria. Como podem ser identificados? Cuidado com os falsos profetas. Eles vêm a vocês vestidos de peles de ovelhas, mas por dentro são lobos devoradores. Vocês os reconhecerão por seus frutos. Pode alguém colher uvas de um espinheiro ou figos de ervas daninhas? Semelhantemente, toda árvore boa dá frutos bons, mas a árvore ruim dá frutos ruins. A árvore boa não pode dar frutos ruins, nem a árvore ruim pode dar frutos bons. Toda árvore que não produz bons frutos é cortada e lançada ao fogo. Assim, pelos seus frutos vocês os reconhecerão! Nem todo aquele que me diz: “Senhor, Senhor”, entrará no Reino dos céus, mas apenas aquele que faz a vontade de meu Pai que está nos céus. Muitos me dirão naquele dia: “Senhor, Senhor, não profetizamos em teu nome? Em teu nome não expulsamos demônios e não realizamos muitos milagres?” Então eu lhes direi claramente: Nunca os conheci. Afastem-se de mim vocês, que praticam o mal! (Mt. 7:15-23). Jesus indicou claramente que falsos profetas são muito enganosos. Eles têm algumas indicações exteriores de serem genuínos; podem dizer que Jesus é seu Senhor, profetizar, expulsar demônios e fazer milagres. Mas as “peles de ovelhas” só escondem os “lobos devoradores.” Eles não são ovelhas de verdade. Como podemos saber se são verdadeiros ou falsos? Examinando seus “frutos” podemos identificar o verdadeiro caráter deles. Quais são os frutos dos quais Jesus falava? Obviamente, não são frutos de milagres. São frutos de obediência a tudo o que Jesus ensinou. Aqueles que são verdadeiras ovelhas fazem a vontade do Pai. Aqueles que são falsas ovelhas “praticam o mal” (7:23). Então, nossa responsabilidade é comparar suas vidas com o que Jesus ensinou e mandou. As igrejas hoje estão cheias de falsos profetas, e isso não deve nos surpreender, porque tanto Jesus como Paulo nos avisaram que devemos esperar nada menos que isso quando o fim estiver se aproximando (veja Mt. 24:11; 2 Tm. 4:3-4). Os falsos profetas mais predominantes de nossos dias são aqueles que ensinam que o céu aguarda os não-santos. Eles são responsáveis pela perdição eterna de milhões de pessoas. A respeito delas, John Wesley escreveu: Como isso é horrível! — quando os embaixadores de Deus se tornam agentes do Diabo! — Quando aqueles que são comissionados a ensinar aos homens o caminho para o céu ensinam, na verdade, o caminho para o inferno....Se perguntarem: “Por que? Quem fez isso?”...Eu respondo: dez mil homens sábios e honrados; até mesmo aqueles, de qualquer denominação, que incentivam o orgulhoso, o leviano, o exaltado, o amante do mundo, o homem de prazeres, o injusto ou mau, o cômodo, o inocente, o imprestável, o homem que não é repreendido a segurança da retidão, para imaginar que ele está no caminho para o céu. Esses são falsos profetas de maior juízo do mundo. Eles são traidores tanto de Deus como do homem....Eles estão constantemente povoando o domínio das trevas; e quando seguem as pobres almas que destruíram, “o inferno sairá das profundezas para encontrá-los em sua chegada!” [13] Interessantemente, Wesley estava comentando especificamente sobre os falsos profetas sobre quem Jesus falava em Mateus 7:15-23. Note que Jesus disse claramente, mais uma vez, o contrário do que muitos falsos profetas dizem hoje: que aqueles que não derem bons frutos serão lançados no inferno (veja 7:19). Mais adiante, isso se aplica não só a falsos mestres e profetas, mas a todos. Jesus disse: “Nem todo aquele que me diz: “Senhor, Senhor”, entrará no Reino dos céus, mas apenas aquele que faz a vontade de meu Pai que está nos céus” (Mt. 7:21). O que se aplica aos profetas se aplica a todos. Esse é o tema 101


principal de Jesus — Somente os santos herdarão o Reino de Deus. As pessoas que não estão obedecendo a Deus estão destinadas ao inferno. Note também a conexão que Jesus fez entre o que uma pessoa é por dentro e por fora. “Boas” árvores produzem bons frutos. Árvores “ruins” não podem produzir frutos bons. A fonte do bom fruto que se mostra pelo lado de fora é a natureza da pessoa. Por Sua graça, Deus tem mudado a natureza daqueles que têm verdadeiramente crido em Jesus.[14]

Um Aviso e Resumo Final Jesus concluiu Seu sermão com um aviso final e exemplo resumidor. Como é de se esperar, é uma ilustração de Seu tema — Somente os santos herdarão o Reino de Deus. Portanto, quem ouve estas minhas palavras e as pratica é como um homem prudente que construiu a sua casa sobre a rocha. Caiu a chuva, transbordaram os rios, sopraram os ventos e deram contra aquela casa, e ela não caiu, porque tinha seus alicerces na rocha. Mas quem ouve estas minhas palavras e não as pratica é como um insensato que construiu a sua casa sobre a areia. Caiu a chuva, transbordaram os rios, sopraram os ventos e deram contra aquela casa, e ela caiu. E foi grande a sua queda (Mt. 7:24-27). A ilustração final de Jesus não é uma fórmula para termos “sucesso na vida” como alguns a usam. O contexto mostra que Ele não estava dando conselhos práticos financeiros para os tempos difíceis tendo fé em Suas promessas. Esse é o resumo de tudo o que Jesus disse em Seu Sermão do Monte. Aqueles que fazem o que Ele manda são sábios e permanecerão; eles não precisam temer a ira de Deus quando ela descer. Aqueles que não O obedecem são insensatos e sofrerão grandemente, pagando “a pena de destruição eterna” (2 Ts. 1:9).

Resposta para uma Pergunta Não é possível, que o Sermão do Monte de Jesus só se aplicava àqueles seguidores que viveram antes de Sua morte sacrificial e ressurreição? Eles não estavam debaixo da Lei, como meio temporário de salvação, mas depois que Jesus morreu por seus pecados, foram salvos pela fé, invalidando, portanto, o tema exposto nesse sermão? Essa teoria é ruim. Ninguém foi salvo por suas obras. Sempre tem sido pela fé, antes e durante a antiga aliança. Paulo argumenta em Romanos 4 que Abraão (antes da antiga aliança) e Davi (durante a antiga aliança) foram justificados pela fé e não por obras. Além do mais, é impossível que qualquer um na audiência de Jesus pudesse ser salvo pelas obras, porque todos tinham pecado e sido destituídos da glória de Deus (veja Rm. 3:23). Somente a graça de Deus poderia salvá-los, e somente a fé poderia receber Sua graça. Infelizmente, muitos na igreja, hoje, veem os mandamentos de Jesus sem um propósito maior que nos fazer sentir culpados para que vejamos a impossibilidade de receber a salvação pelas obras. Agora que “entendemos a mensagem” e fomos salvos pela fé, podemos ignorar a maioria de Seus mandamentos. A menos, é claro, que queiramos “salvar” os outros. Então, podemos usar todos os mandamentos novamente para mostrar aos outros como eles são pecaminosos para que sejam salvos pela “fé” que invalida as obras. No entanto, Jesus não disse aos Seus discípulos: “Vão a todo o mundo e façam discípulos, e uma vez que eles se sintam culpados e sejam salvos pela fé, Meus mandamentos terão cumprido seus propósitos em suas vidas.” Ao invés disso, ele disse: “Portanto, vão e façam discípulos de todas as nações...ensinando-os a obedecer a tudo o que eu lhes ordenei” (Mt. 19:20-21, ênfase adicionada). Discipuladores estão fazendo somente isso.

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[1] É interessante notar que o próximo versículo no livro de Tiago é: “De que adianta, meus irmãos, alguém dizer que tem fé, se não tem obras? Acaso a fé pode salvá-lo?” (Tg. 2:14). [2] Isso seria verdade sobre os “aspectos cerimoniais da Lei” assim como os “aspectos morais da Lei,” como são muitas vezes chamados; contudo, explicações a respeito do Seu cumprimento das leis cerimoniais seriam dadas pelo Espírito Santo aos apóstolos depois de Sua ressurreição. Agora entendemos porque não há necessidade de sacrificarmos animais debaixo da nova aliança, porque Jesus era o Cordeiro de Deus. Também não seguimos as leis a respeito das refeições porque Jesus declarou que todos os alimentos são puros (veja Mc. 7:19). Não precisamos da intermediação de um sacerdote terreno, porque agora Jesus é nosso Sumo Sacerdote, e assim por diante. Contudo, diferentemente da lei cerimonial, nenhuma parte da lei moral foi alterada por qualquer coisa que Jesus tenha dito ou feito, antes ou depois de Sua morte e ressurreição. Pelo contrário, Jesus esclareceu e confirmou a lei moral de Deus, assim como os apóstolos fizeram pela inspiração do Espírito após Sua ressurreição. Os aspectos morais da Lei Mosaica estão todos incluídos na lei de Cristo, a lei da nova aliança. Também mantenha em mente que, naquele dia, Jesus estava a judeus debaixo da Lei Mosaica. Portanto, Suas palavras em Mateus 5:17-20 devem ser interpretadas à luz de Sua revelação constante encontrada no Novo Testamento. [3] Além disso, se Jesus estivesse falando sobre a santidade legal imposta que recebemos como dom por acreditar nEle, por que, então não nos deu pelo menos uma dica? Por que Ele diria alguma coisa que poderia ser mal interpretada pelas pessoas iletradas a quem Ele falava, que nunca adivinhariam que Ele estava falando sobre santidade imposta? [4] Isso se aplica a nosso relacionamento com nossos irmãos e irmãs em Cristo. Jesus chamou certos líderes religiosos de insensatos (veja Mt. 23:17), assim como as Escrituras em geral (veja Pv. 1:7; 13:20). [5] É claro que Jesus não a culpa pelo adultério quando se recasar; ela foi apenas a vítima do pecado de seu marido. Obviamente, as palavras de Jesus não fazem sentido, a menos que ela se recase. Caso contrário, não faz sentido que seja considerada adúltera. [6] Novamente, Deus não culparia o novo marido de adultério. Ao se casar e se tornar o provedor para uma mulher divorciada, ele está fazendo algo virtuoso. Contudo, se um homem encorajasse uma mulher a se divorciar de seu esposo para que se casasse com ela, então ele seria culpado de adultério, e talvez seja este o pecado que Jesus tinha em mente aqui. [7] Existem, é claro, outras situações que podem ser endereçadas. Por exemplo, a mulher cristã cujo esposo incrédulo pede o divórcio, certamente não é culpada de adultério se recasar-se com um homem cristão. [8] Endereçarei-me a esse assunto mais detalhadamente no capítulo sobre divórcio e recasamento. [9] Foi um judeu, professor da Lei, que, querendo se justificar, perguntou a Jesus: “Quem é o meu próximo?” Pode ter certeza que ele achava que já tinha a resposta certa. Jesus lhe respondeu com a parábola do samaritano, membro de uma raça que era odiada pelos judeus, que provou ser o próximo do judeu mal tratado (veja Lc. 10:25-37). [10] Mais adiante nesse livro, incluí um capítulo inteiro dedicado ao jejum. [11] Infelizmente, alguns alegam que essa não é uma oração que cristãos devam fazer , pois não é realizada “no nome de Jesus.” Contudo, se aplicarmos essa lógica, teremos que concluir que muitas das orações dos apóstolos registradas nas epístolas e no livro de Atos não eram “orações cristãs.” * Nota do tradutor: versículo traduzido do inglês. [12] Em outra ocasião, Jesus disse a mesma coisa sobre a impossibilidade de servir a Deus e as riquezas, e Lucas nos diz: “Os fariseus, que amavam o dinheiro, ouviam tudo isso e zombavam de Jesus” (Lc. 16:14). Então, novamente, aqui no Sermão do Monte, Jesus estava expondo claramente as práticas e ensinamentos dos fariseus. [13] The Works od John Wesley (As Obras de John Wesley) (Baker: Grand Rapids, 1996), de John Wesley, reimpressão da edição de 1872 lançada pela Wesleyan Methodist Book Room, Londres, pag. 441, 416 [Trecho traduzido do ingles]. 103


[14] Não posso deixar passar a oportunidade de comentar também sobre uma expressão comum que pessoas usam quando tentam justificar os pecados dos outros: “Não sabemos o que está em seu coração.” Contrário a isso, Jesus disse que o exterior revela o interior. Em outro lugar Ele disse: “Pois a boca fala do que está cheio o coração” (Mt. 7:34). Quando pessoas falam palavras de ódio, isso indica que o coração delas está cheio de ódio. Jesus também nos disse que “do interior do coração dos homens vêm os maus pensamentos, as imoralidades sexuais, os roubos, os homicídios, os adultérios, as cobiças, as maldades, o engano, a devassidão, a inveja, a calúnia, a arrogância e a insensatez” (Mc. 7:21-22). Quando uma pessoa comete adultério, sabemos o que está em seu coração: adultério.

Capítulo Nove

O Pregador Predileto de Jesus Você pode se surpreender ao saber que Jesus tinha um pregador predileto. Pode se surpreender ainda mais em saber que não era luterano, metodista, pentecostal, anglicano ou presbiteriano. Pelo contrário, era Batista! Nós o conhecemos como João Batista, é claro! Jesus disse a respeito dele: Digo-lhes a verdade: Entre os nascidos de mulher não surgiu ninguém maior do que João Batista (Mt. 11:11a). Já que todos são “nascidos de mulher,” essa era outra forma de dizer que, na estima de Jesus, João Batista era a maior pessoa que já havia existido. Porque Jesus sentia isso é questão de conjectura. Contudo, parece razoável pensar que Jesus estimava João por suas qualidades espirituais. Se for verdade, com certeza seria sábio estudar e imitar tais qualidades. Encontrei pelo menos sete qualidades espirituais em João Batista que são dignas de louvor. Mesmo que o ministério de João represente melhor o ministério de um evangelista, todas as sete qualidades são apropriadas para qualquer ministro do evangelho. Vamos considerar a primeira das sete.

A Primeira Qualidade de João Este foi o testemunho de João, quando os judeus de Jerusalém enviaram sacerdotes e levitas para lhe perguntarem quem ele era. Ele confessou e não negou; declarou abertamente: “Não sou o Cristo”. Perguntaram-lhe: “E então, quem é você? É Elias?” Ele disse: “Não sou”. “É o Profeta?” Ele respondeu: “Não”. Finalmente perguntaram: “quem é você? Dê-nos uma resposta, para que a levemos àqueles que nos enviaram. Que diz você acerca de si próprio?” João respondeu com as palavras do profeta Isaías: “Eu sou a voz do que clama no deserto: ‘Façam um caminho reto para o Senhor’” (Jo. 1:19-23). João sabia seu chamado e o seguiu. É tão importante que ministros saibam seus chamados e os sigam. Se você for um evangelista, não deve tentar ser um pastor. Se for um professor, não tente ser um profeta. Caso contrário, só encontrará frustração. Como saber seu chamado? Primeiro, buscando a Deus, aquele que o chamou. Segundo, examinando seus dons. Se Deus o chamou para ser um evangelista, Ele lhe equipará para a tarefa. E terceiro, pela confirmação de outros que com certeza notarão seus dons. Uma vez que tenha certeza de seu chamado, deve segui-lo de todo coração, sem deixar que obstáculos o atrapalhem. Muitos estão esperando que Deus faça o que Ele espera que eles façam. Noé não esperou que Deus construísse a arca! 104


Tem sido dito que a palavra ministério se escreve TRABALHO. Sem dúvida, Satanás tentará detêlo para não cumprir seu chamado, mas deve resisti-lo e continuar em frente. Mesmo que as Escrituras não digam, podemos ter certeza que houve um dia em que João pregou pela primeira vez na região do Jordão. Com certeza suas primeiras audiências eram bem menores que as de mais tarde. Pode ter certeza que as pessoas riram dele e que ele passou por perseguições. Mas não seria detido. Seu único objetivo era agradar seu Deus, que o tinha chamado para o ministério. No fim das contas, ele conseguiu. A primeira qualidade espiritual de João que é digna de louvor é esta: João sabia seu chamado e o seguiu.

A Segunda Qualidade de João Naqueles dias surgiu João Batista, pregando no deserto da Judéia. Ele dizia: “Arrependam-se, pois o Reino dos céus está próximo” (Mt. 3:1-2). Jesus, com certeza aprovava a mensagem simples de João, já que era a mesma mensagem que pregava onde quer que fosse (veja Mt. 4:17). João chamava as pessoas ao arrependimento — para se voltarem de uma vida de pecado para uma vida de justiça. Ele sabia que uma vida com Deus começa com o arrependimento e que aqueles que não se arrependem serão lançados no inferno. Diferente de tantos evangelistas modernos, João nunca mencionou o amor de Deus. Nem falou sobre as “necessidades” das pessoas para fazê-las proferir orações insignificantes para “aceitar a Jesus” para que pudessem começar a desfrutar de “vida abundante.” Ele não levou pessoas a acreditarem que eram basicamente boas e que Deus queria levá-las para o céu se percebessem que a salvação não vem por meio de obras. Pelo contrário, ele as via como Deus as via — rebeldes em perigo de encarar consequências eternas por seus pecados. Ele os avisou solenemente da ira que estava por vir. Queria ter certeza que entendiam que estavam condenados se não mudassem seus corações e ações. Então, a segunda qualidade de João que é digna da imitação de cada ministro discipulador é esta: João proclamava que o arrependimento era o primeiro passo em um relacionamento com Deus.

A Terceira Qualidade de João As roupas de João eram feitas de pelos de camelo, e ele usava um cinto de couro na cintura. O seu alimento era gafanhotos e mel silvestre (Mt. 3:4). Com certeza, João não se encaixa na figura do moderno “pregador da prosperidade.” Aliás, eles nunca permitiriam um homem como João na plataforma de suas igrejas porque ele não enfeitava a parte do sucesso. Contudo, João era um verdadeiro homem de Deus que não tinha interesse em buscar tesouros terrenos ou impressionar pessoas com sua aparência exterior, sabendo que Deus olha para o coração. Ele viveu simplesmente e seu estilo de vida não causou tropeço a ninguém, já que podiam ver que seu motivo não era dinheiro. Como isso contrasta com o viver de muitos ministros modernos ao redor do mundo, que usam o evangelho principalmente para ganho pessoal. E quando interpretam a Jesus mal, causam grande dano à causa de Cristo. A terceira qualidade de João que contribuiu a ser o pregador predileto de Jesus é esta: João viveu simplesmente.

A Quarta Qualidade de João João dizia às multidões que saiam para serem batizadas por ele: “Raça de víboras! Quem lhes deu a ideia de fugir da ira que se aproxima? Deem frutos que mostrem arrependimento. E não comecem a dizer a si mesmos: ‘Abraão é nosso pai’. Pois eu lhes digo que destas pedras Deus pode fazer surgir filhos a Abraão.” (Lc. 3:7-8). 105


Quando o ministério de João começou a tocar mais pessoas, ele, obviamente, não comprometeu sua mensagem. Pôde até ter suspeitado dos motivos das pessoas quando notou que o batismo estava ficando popular. Até escribas e fariseus estavam fazendo o trajeto ao Jordão (veja Mt. 3:7). Ele temia que muitas pessoas estivessem simplesmente seguindo a multidão. Então, fez tudo o que pôde para preveni-los de enganar a si mesmos, derrubando qualquer coisa que sustentasse sua decepção. Ele não queria que pensassem que o simples ato do batismo os salvaria, ou que uma simples profissão de arrependimento os livraria do inferno. Ele os avisou que o verdadeiro arrependimento traz o fruto da obediência. Mais adiante, porque muitos judeus se consideravam salvos por causa de sua linhagem física de Abraão, João expôs a ilusão de tal esperança. A quarta qualidade de João digna de louvor é esta: Ele amava o povo o suficiente para dizer-lhes a verdade. Ele nunca asseguraria um pecador não arrependido, que iria para o céu.

A Quinta Qualidade de João João não batizaria pessoas que não pareciam arrependidas, não querendo sustentar a ilusão das pessoas. Ele as batizava quando confessavam “seus pecados” (Mt. 3:6). Ele avisou aqueles que iam: O machado já está posto à raiz das árvores, e toda árvore que não der bom fruto será cortada e lançada ao fogo...Ele traz a pá em sua mão e limpará sua eira, juntando seu trigo no celeiro, mas queimará a palha com fogo que nunca se apaga (Mt. 3:10, 12). João não estava com medo de falar a verdade sobre o inferno, um assunto que é muitas vezes evitado por pregadores que tentam ganhar um concurso de popularidade ao invés de almas para o Reino de Deus. E também não falhou, proclamando o mesmo tema, que descobrimos, do ‘Sermão do Monte’ de Cristo — somente os santos herdarão o Reino de Deus. Aqueles que não dão bons frutos serão lançados no fogo. Se João estivesse vivo hoje, com certeza seria punido por muitos crentes professos como “pregador do fogo do inferno e enxofre,” um “profeta de trevas e perdição,” “não seeker-sensitive,” ou pior, “negativo,” “condenador,” “legalista” ou “farisaico.” Mesmo assim, João era o pregador favorito de Jesus. Sua quinta qualidade: João pregava sobre o inferno e deixava claro que tipos de pessoas estavam a caminho de lá. É interessante notar que Lucas se referiu à mensagem de João como “as boas novas” (Lc. 3:18).

A Sexta Qualidade de João Mesmo sendo usado grandemente por Deus e ter se tornado muito popular entre as multidões, João sabia que não era nada comparado a Jesus, e então, sempre exaltava seu Senhor: Eu os batizo com água para arrependimento. Mas depois de mim vem alguém mais poderoso do que eu, tanto que não sou digno nem de levar suas sandálias. Ele os batizará com o Espírito Santo e com fogo (Mt. 3:11). A auto avaliação de João se contrasta tanto com a arrogância que é muitas vezes encontrada em “ministros” em nossos dias. Suas revistas coloridas de ministério têm fotos deles em todas a páginas, enquanto Jesus é poucas vezes mencionado. Eles desfilam como pavões pelas plataformas da igreja, exaltando a si mesmos aos olhos de seus seguidores. São intocáveis e inalcançáveis, cheios de presunção. Alguns até dão ordens aos anjos e a Deus! Ainda assim, João não se considerava indigno de tirar as sandálias de Jesus, o que seria considerado um ato de baixa escravidão. Ele se opôs quando Jesus foi a ele para ser batizado e uma vez que percebeu se tratava de Cristo, imediatamente disse a todos, declarando que Ele era “o Cordeiro de Deus, que tira o pecado do mundo” (Jo. 1:29). “É necessário que ele cresça e que eu diminua” (Jo. 3:30), este se tornou o humilde lema de João. Esta é a sexta qualidade de João que o ajudou a ser o pregador predileto de Jesus: João se humilhou e exaltou a Jesus. Não desejava exaltar a si mesmo. 106


A Sétima Qualidade de João Pregadores modernos falam muitas vezes em generalidades vagas a fim de não ofender a quem quer que seja. É tão fácil pregar: “Deus quer que façamos o que é certo!” Verdadeiros e falsos cristãos dirão: “Amém” a tal pregação. Muitos pastores também acham fácil continuar falando sobre os pecados escandalosos do mundo, evitando mencionar qualquer pecado similar que esteja dentro da igreja. Por exemplo, eles podem se enfurecer contra a pornografia, mas não ousam mencionar os vídeos e DVDs imorais recomendados para maiores de 18 anos que muitos paroquianos assistem e até colecionam. O medo do homem os capturou. Contudo, João não hesitou em pregar especificamente. Lucas diz: “O que devemos fazer então?”, perguntavam as multidões. João respondia: “Quem tem duas túnicas dê uma a quem não tem nenhuma; e quem tem comida faça o mesmo”. Alguns publicanos também vieram para serem batizados. Eles perguntaram: “Mestre, o que devemos fazer?” Ele respondeu? “Não cobrem nada além do que lhes foi estipulado”. Então alguns soldados lhe perguntaram: “E nós. O que devemos fazer?” Ele respondeu: “Não pratiquem extorsão nem acusem ninguém falsamente; contentem-se com o seu salário” (Lc. 3:10-14). É interessante que cinco das seis diretrizes específicas que João deu tinham alguma coisa a ver com dinheiro ou coisas materiais. João não tinha medo de pregar sobre como a mordomia se relaciona com a regra de ouro e segundo maior mandamento. Ele também não esperou vários dias até que os novos “crentes” estivessem prontos para conceitos tão “pesados.” Ele acreditava que era impossível servir a Deus e às riquezas, e portanto, mordomia era de importância principal desde o começo. Isso levanta outro ponto. João não aumentou a importância de coisas menores, insistindo em usos e costumes e outros assuntos de santidade relacionados à aparência exterior. Ele focou nos “preceitos mais importantes da lei” (Mt. 23:23). Ele sabia que o mais importante é amar nosso próximo como a nós mesmos e tratar os outros da mesma forma como queremos ser tratados. O que significa compartilhar alimentos e roupas com aqueles que necessitam, tratar os outros com honestidade e ficar satisfeitos com o que temos. Esta é a sétima qualidade que fez Jesus gostar de João: Ele não pregava generalidades vagas, mas citava coisas específicas que as pessoas deveriam fazer para agradar a Deus, mesmo as relacionadas à mordomia. E focava o que era mais importante.

Concluindo O ministério de um pastor ou professor seria, é claro, caracterizado por um alcance de assuntos maior que o de João. João pregava para os incrédulos. Pastores e professores devem ensinar principalmente aqueles que já se arrependeram. Seus ensinos são baseados naqueles pontos que Jesus disse a Seus discípulos e que estão gravados nas epístolas do Novo Testamento. Contudo, muitas vezes não conseguimos identificar corretamente nossas audiências, e hoje parece que pregam aos perdidos como se fossem santos. O simples fato de as pessoas estarem sentadas dentro de um prédio de igreja não significa que nosso trabalho é assegurá-las de sua salvação, especialmente se suas vidas são essencialmente indistinguíveis daquelas do mundo. Existe hoje, uma necessidade desesperadora de milhões de “Joãos Batistas” para pregarem nos púlpitos das igrejas. Você se mostra à altura do desafio? Você se tornará um dos pregadores prediletos de Jesus?

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Capítulo Dez

O Novo Nascimento Quando pessoas se arrependem e passam a crer no Senhor Jesus Cristo, elas “renascem.” O que exatamente significa renascer? Esse capítulo é sobre isso. Para entender o que significa renascer, é necessário entender a natureza dos seres humanos. As Escrituras nos dizem que não somos somente seres físicos, mas também espirituais. Por exemplo, Paulo escreveu: Que o próprio Deus da paz os santifique inteiramente. Que todo o espírito, a alma e o corpo de vocês sejam preservados irrepreensíveis na vinda de nosso Senhor Jesus Cristo (1 Ts. 5:23, ênfase adicionada). Como Paulo indicou, podemos nos considerar seres de três partes, sendo: espírito, alma e corpo. As Escrituras não definem essas três partes precisamente; então, fazemos nosso melhor para diferenciar entre elas pelo nosso entendimento das próprias palavras. Normalmente, concluímos que nosso corpo é nossa parte física — carne, ossos, sangue e assim por diante. Nossa alma é nossa parte intelectual e emocional — nossa mente. Nosso espírito é obviamente nossa parte espiritual, ou como o apóstolo Pedro descreveu: o “homem encoberto no coração” (1 Pd. 3:4 ARC). Porque o espírito é invisível aos olhos físicos, pecadores tendem a duvidar de sua existência. Contudo, a Bíblia é bem clara quando diz que todos nós somos seres espirituais. As escrituras nos dizem que quando alguém morre, seu corpo simplesmente deixa de funcionar, enquanto seu espírito e alma continuarão funcionando como sempre. Na morte, o espírito e a alma deixam o corpo (como um) para encarar o julgamento diante de Deus (veja Hb. 9:27). Depois do julgamento, eles vão para o céu ou para o inferno. Eventualmente, o espírito e alma de cada pessoa serão reunidos com seu corpo na ressurreição.

O Espírito Humano Mais Definido Em 1 Pedro 3:4, Pedro se refere ao espírito como o “homem encoberto no coração,” indicando que o espírito é uma pessoa. Paulo também se referiu ao espírito como o “homem interior,” indicando sua crença que o espírito humano não é somente um conceito ou força, e sim uma pessoa: Por isso não desfalecemos; mas, ainda que o nosso homem exterior se corrompa, o interior, contudo, se renova de dia em dia (2 Co. 4:16 ARC, ênfase adicionada). Obviamente, o “homem exterior” descreve o corpo físico, enquanto o “interior” define o espírito. Enquanto o corpo envelhece, o espírito é renovado diariamente. Note mais uma vez que Paulo se refere tanto ao corpo quanto ao espírito como homem. Então, quando você imaginar seu espírito, não imagine uma nuvem espiritual. É melhor imaginar uma pessoa que se pareça com você. Contudo, se seu corpo for velho, não pense que seu espírito também é. Imagine-o como você era na flor da sua juventude, porque seu espírito nunca envelhece! Ele é renovado dia a dia. Seu espírito é a parte de você que renasce (se você acredita no Senhor Jesus Cristo). Seu espírito se une ao Espírito de Deus (veja 1 Co. 6:17), e Ele o guia enquanto você segue a Jesus (veja Rm. 10:14). A Bíblia ensina que Deus também é um espírito (veja Jo. 4:24), assim como os anjos e os demônios. Todos eles têm forma e existem no reino espiritual. Contudo, o reino espiritual não pode ser sentido por nossos sentidos físicos. Tentar entrar em contato com o mundo espiritual usando nossos sentidos físicos seria comparável a tentar sentir sinais de rádio com nossas mãos. Não podemos perceber que sinais de rádio estão passando por uma sala com nossos sentidos físicos, mas isso não prova que os sinais de rádio não estão presentes. O único modo de sintonizar a frequência do rádio é ligando um. 108


Isso também é verdade sobre o mundo espiritual. O fato do mundo espiritual não poder ser entendido pelos sentidos físicos não prova sua não existência. Ele existe, e as pessoas percebendo ou não, fazem parte desse mundo, pois são seres espirituais. Eles são espiritualmente relacionados a Satanás (se não se arrependeram) ou espiritualmente relacionados a Deus (se nasceram de novo). Alguns espiritualistas têm aprendido a se relacionar com o mundo espiritual através de seus espíritos, mas estão entrando em contato com o reino de Satanás — o reino das trevas.

Corpos Eternos Já que estamos no assunto, deixe-me mencionar algo sobre nossos corpos. Mesmo que eles venham a morrer, nossas mortes físicas não serão permanentes. O dia virá em que Deus em pessoa ressuscitará cada corpo humano morto. Jesus disse: Não fiquem admirados com isto, pois está chegando a hora em que todos os que estiverem nos túmulos ouvirão a sua voz e sairão; os que fizeram o bem ressuscitarão para a vida, e os que fizeram o mal ressuscitarão para serem condenados (Jo. 5:28-29). O apóstolo João escreveu no livro de Apocalipse que a ressurreição dos corpos dos maus acontecerá, no mínimo, depois de mil anos da ressurreição dos corpos dos justos: Eles [os santos que foram martirizados durante a tribulação] ressuscitaram e reinaram com Cristo durante mil anos. (O restante dos mortos não voltou a viver até se completarem os mil anos.) Esta é a primeira ressurreição.[1] Felizes e santos os que participam da primeira ressurreição! A segunda morte não tem poder sobre eles; serão sacerdotes de Deus e de Cristo, e reinarão com ele durante mil anos (Ap. 20:4b-6). A Bíblia também nos informa que quando Jesus retornar para levar a igreja, os corpos de todos os justos serão ressuscitados e unificados a seus espíritos enquanto eles voltam do céu com Jesus para a atmosfera da Terra. Se cremos que Jesus morreu e ressurgiu, cremos também que Deus trará, mediante Jesus e com ele, aqueles que nele dormiram. Dizemos a vocês, pela palavra do Senhor, que nós, os que estivermos vivos, os que ficarmos até a vinda do Senhor, certamente não precederemos os que dormem. Pois, dada a ordem, com a voz do arcanjo e o ressoar da trombeta de Deus, o próprio Senhor descerá dos céus, e os mortos em Cristo ressuscitarão primeiro. Depois nós, os que estivermos vivos seremos arrebatados com eles nas nuvens, para o encontro com o Senhor nos ares. E assim estaremos com o Senhor para sempre (1 Ts. 4:14-17). Deus formou o homem original do pó da terra, e não será difícil para Ele pegar os elementos do corpo de cada pessoa e reformá-los. Fazendo novos corpos dos mesmos materiais. A respeito da ressurreição de nossos corpos, Paulo escreveu: Assim será com a ressurreição dos mortos. O corpo que é semeado é perecível e ressuscita imperecível; é semeado em desonra e ressuscita em glória; é semeado em fraqueza e ressuscita em poder; é semeado em corpo natural e ressuscita em corpo espiritual... Irmãos, eu lhes declaro que carne e sangue não podem herdar o Reino de Deus, nem o que é perecível pode herdar o imperecível. Eis que eu lhes digo um mistério: Nem todos dormiremos [morreremos], mas todos seremos transformados, num momento, num abrir e fechar de olhos, ao som da última trombeta. Pois a trombeta soará, os mortos ressuscitarão incorruptíveis e nós seremos transformados. Pois é necessário que aquilo que é corruptível se revista de incorruptibilidade, e aquilo que é mortal, de imortalidade (1 Co. 15:42-44a, 50-53). Note que a característica ressaltada de nossos novos corpos é que serão imortais e não perecíveis. Nunca irão envelhecer, adoecer ou morrer! Nossos corpos serão assim como o novo corpo que Jesus recebeu depois de ser ressuscitado: A nossa cidadania, porém, está nos céus, de onde esperamos ansiosamente o Salvador, o Senhor Jesus Cristo. Pelo poder que o capacita a colocar todas as coisas debaixo do seu domínio, ele 109


transformará os nossos corpos humilhados, tornando-os semelhantes ao seu corpo glorioso (Fp. 3:2021, ênfase adicionada). O apóstolo João também afirmou essa verdade maravilhosa: Amados, agora somos filhos de Deus, e ainda não se manifestou o que havemos de ser, mas sabemos que, quando ele se manifestar, seremos semelhantes a ele, pois o veremos como ele é (1 Jo. 3:2, ênfase adicionada). Mesmo sendo impossível para nossas mentes entenderem completamente, podemos acreditar e regozijar com o que está à frente![2]

Jesus no Novo Nascimento Jesus falou uma vez a um homem chamado Nicodemos sobre a necessidade do espírito humano nascer novamente pela ação do Espírito Santo: Em resposta, Jesus declarou: “Digo-lhe a verdade: Ninguém pode ver o Reino de Deus, se não nascer de novo”. Perguntou Nicodemos: “Como alguém pode nascer, sendo velho? É claro que não pode entrar pela segunda vez no ventre de sua mãe e renascer!” Respondeu Jesus: “Digo-lhe a verdade: Ninguém pode entrar no Reino de Deus, se não nascer da água e do Espírito. O que nasce da carne é carne, mas o que nasce do Espírito é espírito. Não se surpreenda pelo fato de eu ter dito: É necessário que vocês nasçam de novo” (Jo. 3:3-7). Primeiro, Nicodemos pensou que Jesus estava falando sobre o renascimento físico quando disse que alguém precisa nascer de novo para entrar no céu. Contudo, Jesus deixou claro que estava falando do renascimento espiritual. Isto é, o espírito da pessoa precisa nascer de novo. A razão de precisarmos de um renascimento espiritual é que nossos espíritos foram infectados com um mal, uma natureza pecaminosa. Muitas vezes a Bíblia se refere a essa natureza pecaminosa como morte. Pelo bem do entendimento, vamos nos referir a tal natureza como morte espiritual para que possamos diferenciar entre ela e a morte física (que acontece quando o corpo físico deixa de funcionar).

Definição de Morte Espiritual Paulo descreve o que significa estar espiritualmente morto em Efésios 2:1-3: Vocês estavam mortos em suas transgressões e pecados, nos quais costumavam viver, quando seguiam a presente ordem deste mundo e o príncipe do poder do ar, o espírito que agora está atuando nos que vivem na desobediência. Anteriormente, todos nós também vivíamos entre eles, satisfazendo as vontades da nossa carne, seguindo os seus desejos e pensamentos. Como os outros, éramos por natureza merecedores da ira (ênfase adicionada). Obviamente, Paulo não estava se referindo à morte física porque estava escrevendo a pessoas fisicamente vivas. Mesmo assim, ele disse que estavam uma vez “mortos em suas transgressões e pecados.” É o pecado que abre as portas para a morte espiritual (veja Rm. 5:12). Estar espiritualmente morto significa ter uma natureza pecaminosa em seu espírito. Note que Paulo disse que eram “por natureza merecedores da ira.” Além disso, estar espiritualmente morto significa ter, até certo ponto, a própria natureza de Satanás em seu espírito. Paulo disse que os que são espiritualmente mortos têm o espírito do “príncipe do poder do ar” trabalhando dentro deles. Com certeza o “príncipe do poder do ar” é o demônio (veja Ef. 6:12), e seus espírito está trabalhando em todos os incrédulos. Jesus, falando a judeus pecadores, disse: Vocês pertencem ao pai de vocês, o Diabo, e querem realizar o desejo dele. Ele foi homicida desde o princípio e não se apegou à verdade, pois não há verdade nele. Quando mente, fala a sua própria língua, pois é mentiroso e pai da mentira (Jo. 8:44). 110


De um ponto de vista espiritual, aqueles que não nasceram de novo não só têm a natureza de Satanás em seus espíritos, mas também Satanás é seu pai espiritual. Eles agem naturalmente como o demônio. São homicidas e mentirosos. Nem todos os ímpios cometeram assassinatos, mas são motivados pelo mesmo ódio que assassinos e matariam se pudessem sair impunes. A legalização do aborto em muitos países é prova disso. Pessoas descrentes matando até seus próprios bebês ainda no ventre. É por isso que uma pessoa precisa renascer espiritualmente. Quando isso acontece, aquela natureza satânica e pecaminosa é removida de seu espírito e no lugar dela a natureza santa de Deus é colocada. O Espírito Santo de Deus vem morar em seu espírito. Ela não está mais “espiritualmente morta”, mas foi feita “espiritualmente viva.” Seu espírito não está mais morto e sim vivo em Deus. Ao invés de ser uma criança espiritual de Satanás, se torna uma criança espiritual de Deus.

Transformação não Substitui Regeneração Porque os ímpios estão espiritualmente mortos, eles nunca poderão ser salvos por transformação própria, não importando o quanto tentem. Os incrédulos precisam de uma nova natureza e não de novas ações. Você pode pegar um porco, lavá-lo, perfumá-lo e amarrar tirinhas rosas em seu pescoço, mas tudo o que vai ter é um porco limpo! Sua natureza continuará sendo a mesma. E não levará muito tempo para ele feder e rolar na lama de novo. O mesmo se aplica a pessoas religiosas que nunca renasceram. Elas podem estar um pouco limpas por fora, mas por dentro são tão sujas como antes. Jesus disse a algumas pessoas muito religiosas de Seu tempo: Ai de vocês, mestres da lei e fariseus, hipócritas! Vocês limpam o exterior do copo e do prato, mas por dentro eles estão cheios de ganância e cobiça. Fariseu cego! Limpe primeiro o interior do copo e do prato, para que o exterior também fique limpo. Ai de vocês, mestres da lei e fariseus, hipócritas! Vocês são como sepulcros caiados: bonitos por fora, mas por dentro estão cheios de ossos e de todo tipo de imundície. Assim são vocês: por fora parecem justos ao povo, mas por dentro estão cheios de hipocrisia e maldade (Mt. 23:25-28). As palavras de Jesus são uma descrição apta de todos aqueles que são religiosos, mas que nunca passaram pelo renascimento do Espírito Santo. O novo nascimento limpa as pessoas por dentro e não apenas por fora.

O que Acontece à Alma Quando o Espírito Renasce? Quando o espírito de alguém renasce, no início sua alma continua essencialmente a mesma (exceto pelo fato de que ele tomou uma decisão de seguir a Jesus). Contudo, Deus espera que nós façamos algo com nossas almas, uma vez que nos tornamos um de Seus filhos. Nossas almas (mentes) devem ser renovadas com a Palavra de Deus para que pensemos como Deus quer que pensemos. É pela renovação de nossas mentes que uma transformação contínua acontece em nossas vidas, fazendo com que nos tornemos cada vez mais como Jesus: Não se amoldem ao padrão deste mundo, mas transformem-se pela renovação da sua mente, para que sejam capazes de experimentar e comprovar a boa, agradável e perfeita vontade de Deus (Rm. 12:2, ênfase adicionada). Tiago também escreveu sobre o mesmo processo na vida do crente: Aceitem humildemente a palavra implantada em vocês, a qual é poderosa para salvá-los (Tg. 1:21b) Note que Tiago estava escrevendo a cristãos — pessoas que já haviam renascido. Mas eles precisavam ter suas almas salvas, e isso só aconteceria quando, humildemente, recebessem a “palavra implantada.” É por isso que a Palavra de Deus deve ser ensinada a novos convertidos. 111


O Resíduo da Velha Natureza Depois de seu novo nascimento, os cristãos logo descobrem que são pessoas de natureza dupla, experimentando o que Paulo chama de guerra entre “o Espírito e a carne”: Pois a carne deseja o que é contrário ao Espírito; e o Espírito, o que é contrário à carne. Eles estão em conflito um com o outro, de modo que vocês não fazem o que desejam (Gl. 5:17). Paulo se refere ao remanescente da velha natureza como “a carne.” Essas duas naturezas dentro de nós produzem desejos diferentes, que se renderem frutos, produzem diferentes ações e estilos de vida. Note o contraste que Paulo faz entre as “obras da carne” e “o fruto do Espírito”: Ora, as obras da carne são manifestas: imoralidade sexual, impureza e libertinagem; idolatria e feitiçaria; ódio, discórdia, ciúmes, ira, egoísmo, dissensões, facções e inveja; embriaguez, orgias e coisas semelhantes. Eu os advirto, como antes já os adverti: Aqueles que praticam essas coisas não herdarão o Reino de Deus. Mas o fruto do Espírito é amor, alegria, paz, paciência, amabilidade, bondade, fidelidade, mansidão e domínio próprio. Contra essas coisas não há lei (Gl. 5:19-23). Obviamente, é possível aos crentes ceder à carne; caso contrário, Paulo não teria advertido que se praticassem as obras da carne, não herdariam o Reino de Deus. Em sua carta aos Romanos, Paulo também escreveu sobre as duas naturezas de cada cristão e advertiu sobre as mesmas consequências de ceder à carne: Mas se Cristo está em vocês, o corpo está morto por causa do pecado, mas o espírito está vivo por causa da justiça... Portanto, irmãos, estamos em dívida, não para com a carne, para vivermos sujeitos a ela. Pois se vocês viverem de acordo com a carne, morrerão; mas, se pelo Espírito fizerem morrer os atos do corpo, viverão, porque todos os que são guiados pelo Espírito de Deus são filhos de Deus (Rm. 8:10, 12-14, ênfase adicionada). Este é claramente um aviso aos cristãos. Viver (o que indica uma prática regular) de acordo com a carne resulta em morte. Paulo devia estar falando sobre a morte espiritual, porque todos eventualmente morrem fisicamente, mesmo os cristãos que estão fazendo “morrer os atos do corpo”. Um cristão pode cair temporariamente em um dos pecados que Paulo listou; mas, quando um crente pecar, ele se sentirá culpado e se arrependerá. Todos que confessarem seus pecados e pedirem perdão a Deus, obviamente serão perdoados (veja 1 Jo. 1:9). Quando um cristão peca, não significa que quebrou seu relacionamento com Deus — significa que quebrou sua comunhão. Ele ainda é filho de Deus, mas agora é o filho desobediente de Deus. Se o crente não confessar seu pecado, se coloca em uma posição a ser disciplinado pelo Senhor.

A Guerra Se você tem tido vontade de fazer coisas que sabe que são erradas, tem sentido o “desejo da carne”. Sem dúvida também descobriu que quando é tentado pela carne a fazer coisas erradas, alguma coisa dentro de você resiste a essa tentação. Esse é o “desejo do Espírito”. E se conhece o sentimento de culpa que tem dentro de você quando cede à tentação, então reconhece a voz de seu espírito, que chamamos de “consciência”. Deus sabia bem que nossos desejos carnais nos tentariam a fazer coisas erradas. Contudo, isso não é desculpa para cedermos ao desejo da carne. Deus ainda espera que ajamos em obediência e santidade e que superemos a natureza da carne: Por isso digo: Vivam pelo Espírito, e de modo nenhum satisfarão os desejos da carne (Gl. 5:16). Não há fórmula mágica para superarmos a carne. Paulo simplesmente disse: “Vivam pelo Espírito e de modo nenhum satisfarão o desejo da carne” (Gl. 5:16). Nesta área, nenhum cristão tem vantagem sobre outro. Viver pelo Espírito é simplesmente uma decisão que cada um de nós deve fazer, e nossa devoção ao nosso Senhor pode ser medida por quanto não cedemos aos desejos da carne. Paulo escreveu similarmente: 112


Os que pertencem a Cristo Jesus crucificaram a carne, com as sua paixões e os seus desejos (Gl. 5:24). Note que Paulo diz que aqueles que pertencem a Cristo crucificaram a carne (passado). Isso aconteceu quando nos arrependemos e acreditamos no Senhor Jesus Cristo. Crucificamos a natureza pecaminosa, decidindo obedecer a Deus e resistir aos pecados. Então, agora não é uma questão de crucificar a carne, mas de mantê-la crucificada. Não é sempre fácil manter a carne crucificada, mas é possível. Se agirmos conforme a liderança da pessoa interior ao invés de ceder aos impulsos da carne, então, manifestaremos a vida de Cristo e andaremos em santidade diante dEle.

A Natureza de nossos Espíritos Ressuscitados Existe uma palavra que descreve bem a natureza de nossos espíritos ressuscitados, e essa palavra é Cristo. Através do Espírito Santo, que tem a natureza idêntica a Jesus, na verdade temos a natureza de Jesus vivendo dentro de nós. Paulo escreveu: “Assim, já não sou eu quem vive, mas Cristo vive em mim”(Gl. 2:20). Por termos Sua habilidade e natureza em nós, temos o maravilhoso potencial de viver como Cristo. Na verdade não precisamos de mais amor, paciência ou domínio próprio — temos a Pessoa mais amorosa, paciente e controlada morando em nós! Tudo o que temos a fazer é deixar que Ele viva através de nós. Contudo, todos temos um grande adversário que luta contra a natureza de Jesus, impedindo-a de se manifestar através de nós; e esse adversário é a nossa carne. É por isso que Paulo disse que devemos crucificar nossa carne. É responsabilidade nossa fazer algo com ela, e é uma perca de tempo pedir a Deus para fazer qualquer coisa a respeito. Paulo também teve problemas com sua natureza carnal, mas ele se responsabilizou por eles e os superou: Mas esmurro o meu corpo e faço dele meu escravo, para que, depois de ter pregado aos outros, eu mesmo não venha a ser reprovado (1 Co. 9:27). Você também terá que fazer com que seu corpo seja escravo do seu espírito se quiser andar em santidade diante do Senhor. Você consegue!

[1] O fato de João dizer que essa é a “primeira ressurreição” nos leva a crer que não havia ocorrido outras antes dessa. Como acontecerá no final da tribulação mundial, quando Jesus vier dos céus, contradiz a ideia dos pré-tribulacionistas, já que sabemos que haverá uma ressurreição em massa quando Ele vier arrebatar a Igreja, de acordo com 1 Tessalonicenses 4:13-17. Estudaremos isso mais detalhadamente em um capítulo chamado O Arrebatamento e o Fim dos Tempos. [2] Para mais estudos sobre a ressurreição, veja Daniel 12:1-2; João 11:23-26; Atos 24:14-15 e 1 Coríntios 15:1-57).

Capítulo Onze

O Batismo no Espírito Santo Quando alguém lê o livro de Atos, o trabalho do Espírito Santo na igreja primitiva é evidente em cada página. Se remover a obra do Espírito Santo do livro de Atos você não terá mais nada. 113


Verdadeiramente, Ele deu poder para os primeiros discípulos para transtornarem o mundo (veja At. 17:6 João Ferreira de Almeida) Hoje, os lugares do mundo que a igreja está crescendo mais rápido são os lugares onde os seguidores de Jesus se rendem ao Espírito Santo e dEle recebem poder. Isso não deve nos surpreender. O Espírito Santo pode realizar mais em dez segundos do que nós podemos em dez mil anos por nossas próprias forças. Portanto, é de vital importância que o ministro discipulador entenda o que as Escrituras ensinam sobre o trabalho do Espírito Santo nas vidas e ministérios dos crentes. Frequentemente encontramos exemplos no livro de Atos, de crentes sendo batizados no Espírito Santo e recebendo poder para o ministério. Seria sábio estudar o assunto para que possamos, se possível, vivenciar o que eles experimentaram e desfrutar da ajuda miraculosa do Espírito Santo que eles desfrutaram. Mesmo que alguns afirmem que a obra do Espírito Santo foi confinada à era dos primeiros apóstolos, não encontro prova bíblica, histórica ou lógica para tal opinião. É uma teoria nascida da descrença. Aqueles que acreditam nas promessas da Palavra de Deus experimentarão as bênçãos prometidas. Assim como os israelitas infiéis que não entraram na Terra Prometida, aqueles que não acreditam nas promessas de Deus hoje, não entrarão no que Deus tem preparado para eles. Em que categoria você se encontra? Pessoalmente, eu estou entre os fiéis.

Duas Obras pelo Espírito Santo Qualquer pessoa que realmente acreditou no Senhor Jesus Cristo experimentou uma obra do Espírito Santo em sua vida. Seu espírito, ou pessoa interior, foi regenerado pelo Espírito Santo (veja Tt. 3:5), e agora Ele vive dentro dela (veja Rm. 8:9; 1 Co. 6:19). Ela nasceu do Espírito (veja Jo. 3:5). Não entendendo isso, muitos cristãos carismáticos e pentecostais têm cometido o erro de dizer a alguns crentes que estes não terão o Espírito Santo, a menos que sejam batizados no Espírito e falem em línguas. Mas esse é obviamente um erro confirmado pelas Escrituras e pela experiência. Muitos cristãos não-carismáticos/pentecostais têm muito mais evidências da morada do Espírito que alguns crentes carismáticos/pentecostais! Manifestam bem mais os frutos do Espírito listados por Paulo em Gálatas 5:22-23, o que seria impossível, a não ser que tivessem o Espírito Santo. Contudo, o fato de a pessoa ter nascido do Espírito não garante que ela também foi batizada no Espírito. De acordo com a Bíblia, nascer do Espírito Santo e ser batizado no Espírito Santo são duas experiências distintas. Enquanto começamos a explorar esse assunto, vamos primeiramente, considerar o que Jesus disse sobre o Espírito Santo perto de um poço em Samaria a uma pecadora: Se você conhecesse o dom de Deus e quem lhe está pedindo água, você lhe teria pedido e ele lhe teria dado água viva...Quem beber desta água [do poço] terá sede outra vez, mas quem beber da água que eu lhe der nunca mais terá sede. Ao contrário, a água que eu lhe der se tornará nele uma fonte de água a jorrar para a vida eterna (Jo. 4:10, 13-14). Parece razoável concluir que a água viva morando dentro de nós que Jesus falou, representa o Espírito Santo que mora naqueles que creem. Mais adiante no capítulo de João, Jesus usou a mesma frase novamente: “água viva” e sem dúvida estava falando sobre o Espírito Santo: No último e mais importante dia da festa, Jesus levantou-se e disse em alta voz: “Se alguém tem sede, venha a mim e beba. Quem crer em mim, como diz a Escritura, do seu interior fluirão rios de água viva”. Ele estava se referindo ao Espírito, que mais tarde receberiam os que nele cressem. Até então o Espírito ainda não tinha sido dado, pois Jesus ainda não fora glorificado (Jo. 7:37-39). Nesse instante, Jesus não falou sobre a água viva se tornar “uma fonte de água a jorrar para a vida eterna”. Ao invés disso, dessa vez a água viva se torna rios que fluem da parte mais profunda do receptor. Essas duas passagens do Evangelho de João ilustram lindamente a diferença entre nascer do Espírito e ser batizado no Espírito Santo. Nascer do Espírito é principalmente para o benefício daquele 114


que está renascendo, para que possa aproveitar a vida eterna. Quando alguém renasce pelo Espírito, tem um reservatório de Espírito dentro dele que lhe dá a vida eterna. Contudo, ser batizado no Espírito Santo é principalmente benefício aos outros, já que equipa crentes a ministrar a outras pessoas pelo poder do Espírito. “Rios de água viva” fluirão de seus seres interiores, trazendo a benção de Deus para outros pelo poder do Espírito.

Por que o Batismo no Espírito Santo é Necessário Precisamos desesperadamente da ajuda do Espírito Santo para ministrar aos outros! Sem sua ajuda, nunca poderemos esperar fazer discípulos de todas as nações. Este é, na verdade, o motivo de Jesus ter prometido batizar crentes no Espírito Santo — para que o mundo ouvisse o evangelho. Ele disse aos Seus discípulos: Eu lhes envio a promessa de meu Pai; mas fiquem na cidade até serem revestidos do poder do alto (Lc. 24:49, ênfase adicionada). Lucas também registrou Jesus dizendo: Não lhes compete saber os tempos ou as datas que o Pai estabeleceu pela sua própria autoridade. Mas receberão poder quando o Espírito Santo descer sobre vocês, e serão minhas testemunhas em Jerusalém, em toda a Judéia e Samaria, e até os confins da terra (At. 1:7-8, ênfase adicionada). Jesus disse aos Seus discípulos para não deixarem Jerusalém até que fossem “revestidos do poder do alto”. Ele sabia que caso isso não ocorresse, não teriam poder e, com certeza, fracassariam na missão que lhes dera. Contudo, notamos que, uma vez que foram batizados no Espírito Santo, Deus começou a usá-los de forma sobrenatural para espalhar o evangelho. Muitos milhões de cristãos ao redor do mundo, depois de serem batizados pelo Espírito Santo, têm experimentado uma nova dimensão de poder, principalmente quando testemunhando a perdidos. Eles perceberam que suas palavras eram mais convincentes e às vezes, citavam versículos que não decoraram. Alguns se viram chamados e com dons para certo ministério, como o evangelismo. Outros descobriram que Deus os usou quando quis com vários dons sobrenaturais do Espírito. Suas experiências são completamente bíblicas. Aqueles que se opõem às suas experiências não têm base bíblica para sua oposição. Estão, na verdade, lutando contra Deus. Não devemos nos surpreender que nós, que somos chamados para imitar a Cristo, somos chamados para imitar Sua experiência com o Espírito Santo. Jesus foi, é claro, nascido do Espírito quando foi concebido no ventre de Maria (veja Mt. 1:20). Ele, que foi nascido do Espírito, foi então batizado no Espírito inaugurando Seu ministério (veja Mt. 3:16). Se Jesus precisou ser batizado no Espírito Santo para ser equipado para o ministério, o que dizer de nós!

A Evidência Inicial do Batismo no Espírito Quando um crente é batizado no Espírito Santo, a evidência inicial de sua experiência é que ele falará uma nova língua, o que as Escrituras chamam de “novas línguas” ou “outras línguas”. Várias passagens embasam esse fato. Vamos considerá-las. Primeiro, durante os momentos finais antes de Sua ascensão, Jesus disse que um dos sinais que seguiria os crentes é que falariam em novas línguas: Vão pelo mundo todo e preguem o evangelho a todas as pessoas. Quem crer e for batizado será salvo, mas quem não crer será condenado. Estes sinais acompanharão os que crerem: em meu nome expulsarão demônios; falarão novas línguas (Mt. 16:15-17, ênfase adicionada). Alguns comentaristas afirmam que esses versículos não deviam estar em nossa Bíblia, já que alguns manuscritos antigos do Novo Testamento não os têm. Contudo, muitos dos manuscritos antigos os incluem, e nenhuma, das muitas traduções que li em inglês, os omitem. Além disso, o que Jesus 115


disse nesses três versículos se encaixa perfeitamente com a experiência da igreja primitiva, registrado no livro de Atos. Existem cinco exemplos no livro de Atos, de crentes serem inicialmente batizados pelo Espírito Santo. Vamos levar todos em consideração, e enquanto fazemos isso, perguntaremos, continuamente, duas questões: (1) O batismo no Espírito Santo era uma experiência após a salvação? e (2) Os receptores falavam em novas línguas? Isso nos ajudará a entender a vontade de Deus para os crentes hoje.

Jerusalém O primeiro exemplo é encontrado em Atos 2, quando os cento e vinte discípulos foram batizados no Espírito Santo no dia de Pentecostes: Chegando o dia de Pentecoste, estavam todos reunidos num só lugar. De repente veio do céu um som, como de um vento muito forte, e encheu toda a casa na qual estavam assentados. E viram o que parecia línguas de fogo, que se separaram e pousaram sobre cada um deles. Todos ficaram cheios do Espírito Santo e começaram a falar noutras línguas, conforme o Espírito os capacitava (At. 1:1-4, ênfase adicionada). Sem dúvida, os cento e vinte crentes já haviam sido salvos e renascidos antes disso; portanto, com certeza, experimentaram o batismo no Espírito Santo depois da salvação. Contudo, seria impossível receberem o batismo no Espírito Santo antes desse tempo porque Ele não havia sido entregue à igreja antes desse dia. É óbvio que o sinal que acompanhava era falar em línguas.

Samaria O segundo exemplo de crentes sendo batizados no Espírito Santo é encontrado em Atos 8, quando Filipe desce à cidade de Samaria e prega o evangelho: No entanto, quando Filipe lhes pregou as boas novas do Reino de Deus e do nome de Jesus Cristo, creram [os samaritanos] nele, e foram batizados, tanto homens como mulheres....Os apóstolos em Jerusalém, ouvindo que Samaria havia aceitado a palavra de Deus, enviaram para lá Pedro e João. Estes, ao chegarem, oraram para que eles recebessem o Espírito Santo, pois o Espírito ainda não havia descido sobre nenhum deles; tinham apenas sido batizados em nome do Senhor Jesus (At. 8:12-16). Os cristãos samaritanos experimentaram o batismo no Espírito Santo como uma segunda experiência após a salvação. A Bíblia diz claramente, que antes de Pedro e João chegarem, os samaritanos já haviam “aceitado a Palavra de Deus”, acreditado no evangelho e sido batizados na água. Mesmo assim, quando Pedro e João desceram para orar por eles, as Escrituras dizem que foi para que “recebessem o Espírito Santo”. Dá para ser mais claro? Os crentes samaritanos falaram em novas línguas quando foram batizados no Espírito Santo? A Bíblia não diz, mas diz que algo extraordinário aconteceu a eles. Um homem chamado Simão testemunhava o que acontecia quando Pedro e João punham as mãos nos cristãos samaritanos e tentou comprar deles a mesma habilidade para dar o Espírito Santo a outros. Então Pedro e João lhes impuseram as mãos, e eles receberam o Espírito Santo. Vendo Simão que o Espírito era dado com a imposição das mãos dos apóstolos, ofereceu-lhes dinheiro e disse: Deem-me também este poder, para que a pessoa sobre quem eu puser as mãos receba o Espírito Santo (At. 8:17-19). O que Simão viu que o impressionou tanto? Ele já tinha visto muitos outros milagres, como pessoas sendo libertas de demônios e paralíticos e mancos sendo curados milagrosamente (veja At. 8:6-7). Previamente, ele mesmo havia se envolvido com feitiçaria, impressionando todo o povo de Samaria (veja At. 8:9-10). Portanto, o que testemunhou quando Pedro e João oraram deve ter sido espetacular. Mesmo não podendo dizer com toda certeza, parece bem razoável que tenha 116


testemunhado o mesmo fenômeno que acontecia todas as vezes que cristãos recebiam o Espírito Santo no livro de Atos — ele os viu e ouviu falar em línguas.

Saulo em Damasco A terceira menção no livro de Atos de alguém recebendo o Espírito Santo é o caso de Saulo de Tarso, mais tarde conhecido como o apóstolo Paulo. Ele havia sido salvo na estrada para Damasco, onde também ficou temporariamente cego. Três dias depois de sua conversão, um homem chamado Ananias foi divinamente enviado a ele: Então Ananias foi, entrou na casa, pôs as mãos sobre Saulo e disse: “Irmão Saulo, o Senhor Jesus, que lhe apareceu no caminho por onde você vinha, enviou-me para que você volte a ver e seja cheio do Espírito Santo”. Imediatamente, algo como escamas caiu dos olhos de Saulo e ele passou a ver novamente. Levantando-se, foi batizado e, depois de comer, recuperou as forças (At. 9:17-18). Não há dúvida que Saulo renasceu antes de Ananias chegar para orar por ele. Ele acreditou no Senhor Jesus quando estava na estrada para Damasco, e imediatamente obedeceu as instruções de seu novo Senhor. Adicionalmente, quando Ananias encontrou Saulo pela primeira vez, chamou-o de “irmão Saulo”. Note que Ananias disse a Saulo que havia ido para que Saulo voltasse a ver e para fosse cheio do Espírito Santo. Portanto, somente três dias após sua salvação, Saulo foi cheio ou batizado no Espírito Santo. As Escrituras não registram o acontecimento real do batismo de Saulo no Espírito Santo, mas deve ter acontecido logo após a chegada de Ananias aonde Saulo estava. Com certeza, Saulo falou em línguas em algum ponto, porque disse mais tarde em 1 Coríntios 14:18: “Dou graças a Deus por falar em línguas mais do que todos vocês.”

Cesárea A quarta menção de crentes sendo batizados no Espírito Santo é encontrada em Atos 10. O apóstolo Pedro havia sido enviado para pregar o evangelho na Cesárea, à casa de Cornélio. Logo que Pedro revelou que a salvação é recebida através da fé em Jesus, toda sua audiência de gentios respondeu imediatamente, e o Espírito Santo desceu sobre todos eles: Enquanto Pedro ainda estava falando estas palavras, o Espírito Santo desceu sobre todos os que ouviam a mensagem. Os judeus convertidos que vieram com Pedro ficaram admirados de que o dom do Espírito Santo fosse derramado até sobre os gentios, pois os ouviam falando em línguas e exaltando a Deus. A seguir Pedro disse: “Pode alguém negar a água, impedindo que estes sejam batizados? Eles receberam o Espírito Santo como nós!” Então ordenou que fossem batizados em nome de Jesus Cristo (At. 10:44-48a). Neste caso, parece que os membros da casa de Cornélio, que foram os primeiros gentios crentes em Jesus, renasceram e foram batizados no Espírito Santo simultaneamente. Se examinarmos as passagens ao redor e estudarmos o contexto histórico, é óbvio o motivo de Deus não ter esperado que Pedro e seus companheiros colocassem as mãos sobre os crentes gentios para que recebessem o Espírito Santo. Pedro e os outros crentes judeus tinham grande dificuldade de acreditar que gentios pudessem ser salvos, muito mais receber o Espírito Santo! Provavelmente, nunca orariam para que a casa de Cornélio recebesse o batismo no Espírito Santo; portanto, Deus agiu soberanamente. Ele estava ensinando a Pedro e seus companheiros algo sobre Sua maravilhosa graça aos gentios. O que convenceu Pedro e os outros crentes judeus que a casa de Cornélio havia realmente recebido o Espírito Santo? Lucas escreveu: “pois os ouviam falando em línguas e exaltando a Deus” (At. 10:46). Pedro declarou que os gentios tinham recebido o Espírito Santo assim como as cento e vinte pessoas no dia de Pentecoste (veja 10:47). 117


Éfeso A quinta menção de crentes sendo batizados no Espírito Santo é encontrada em Atos 19. Enquanto viajava por Éfeso, o apóstolo Paulo encontrou alguns discípulos e os fez a seguinte pergunta: “Vocês receberam o Espírito Santo quando creram?” (At. 19:2). Paulo, o homem que escreveu a maioria das epístolas do Novo Testamento, acreditava claramente que é possível acreditar em Jesus e não receber o Espírito Santo, até certo ponto. Caso contrário, não teria feito tal pergunta. Os homens disseram que nunca ouviram falar no Espírito Santo. Aliás, só haviam ouvido da vinda do Messias através de João Batista, que os batizou. Imediatamente, Paulo os batizou novamente em água e dessa vez, experimentaram o verdadeiro batismo cristão. Finalmente, Paulo pôs suas mãos sobre eles para que recebessem o Espírito Santo: Ouvindo isso, eles foram batizados no nome do Senhor Jesus. Quando Paulo lhes impôs as mãos, veio sobre eles o Espírito Santo, e começaram a falar em línguas e a profetizar. Eram ao todo uns doze homens (At. 19:5-7). Novamente, é óbvio que o batismo no Espírito Santo foi subsequente à salvação, independente desses doze homens terem renascido ou não antes de encontrarem Paulo. Mais uma vez, o sinal que acompanhou seus batismos no Espírito Santo foi falar em línguas (e neste caso também, a profecia).

O Veredito Vamos rever os cinco exemplos. Em pelo menos quatro deles, o batismo no Espírito Santo foi uma experiência que ocorreu depois da salvação. Em três deles, as Escrituras dizem claramente que os batizados falaram em línguas. Mais adiante, no encontro de Paulo com Ananias, sua experiência de ser batizado no Espírito Santo não foi descrita, mas sabemos que ele eventualmente falou em línguas. Esse representa o quarto caso. No último caso, algo sobrenatural aconteceu quando os crentes de Samaria receberam o Espírito Santo porque Simão tentou comprar o poder de dá-lo aos outros. Portanto, a evidência é bem clara. Na igreja primitiva, crentes renascidos recebiam uma segunda experiência com o Espírito Santo, e quando isso acontecia, falavam em outras línguas. Isso não deve nos surpreender, pois Jesus disse que aqueles que acreditassem nEle falariam em línguas. Então temos evidência conclusiva que cada um que renasce, também deve experimentar outra obra do Espírito — aquela de ser batizado no Espírito Santo. Além do mais, cada crente deve ter a expectativa de falar em outras línguas quando receber o batismo no Espírito Santo.

Como Receber o Batismo no Espírito Santo Como todos os dons de Deus, o Espírito Santo é recebido pela fé (veja Gl. 3:5). Para ter fé para receber o Espírito Santo, um crente deve primeiramente ter convicção que é da vontade de Deus que ele seja batizado com o Espírito Santo. Se duvidar, não receberá (veja Tg. 1:6-7). Nenhum crente tem bom motivo para crer que não seja da vontade de Deus que ele receba o Espírito Santo, pois Jesus disse claramente qual era a vontade de Deus: Se vocês, apesar de serem maus, sabem dar boas coisas aos seus filhos, quanto mais o Pai que está nos céus dará o Espírito Santo a quem o pedir! (Lc. 11:13). Essa promessa dos lábios de Jesus deve convencer cada filho de Deus que é da vontade dEle que ele ou ela receba o Espírito Santo. Esse mesmo versículo também suporta a verdade que, ser batizado no Espírito Santo acontece depois da salvação, porque aqui, Jesus prometeu aos filhos de Deus (as únicas pessoas que têm Deus como “Pai celestial”) que Deus lhes daria o Espírito Santo se lhe pedissem. Obviamente, se a única 118


experiência que alguém pudesse ter com o Espírito Santo era renascer no momento da salvação, a promessa de Jesus não faria sentido. Diferente de certos tipos de teólogos modernos, Jesus acredita que é muito apropriado que pessoas já salvas peçam a Deus pelo Espírito Santo. De acordo com Jesus, existem duas condições que devem ser preenchidas para que alguém receba o Espírito Santo. Primeiro, ele deve ter Deus como Pai, o que acontece quando renasce. Segundo, dever pedir a Deus pelo Espírito Santo. Receber o Espírito Santo através de mãos impostas, apesar de ser bíblico (veja At. 8:17; 19:6), não é absolutamente necessário. Qualquer cristão pode receber o Espírito sozinho em seu próprio lugar de oração. Ele precisa simplesmente pedir, receber pela fé e começar a falar em línguas enquanto o Espírito lhe dá capacitação.

Medos Comuns Algumas pessoas têm medo de orar para receber o Espírito Santo, pois podem, ao invés, estar se abrindo a um espírito demoníaco. Contudo, não há fundação para tal preocupação. Jesus prometeu: Qual pai, entre vocês, se o filho lhe pedir um peixe, em lugar disso lhe dará uma cobra? Ou se pedir um ovo, lhe dará um escorpião? Se vocês, apesar de serem maus, sabem dar boas coisas aos seus filhos, quanto mais o Pai que está nos céus dará o Espírito Santo a quem o pedir! (Lc. 11:11-13). Se pedirmos o Espírito Santo, Deus nos dará o Espírito Santo, e não devemos ter medo de receber qualquer outra coisa. Alguns têm medo de, quando falarem em línguas, eles mesmos estarão inventando uma língua sem sentido, ao invés de uma língua sobrenatural dada pelo Espírito Santo. Entretanto, se tentar inventar uma língua convencível antes de ser batizado no Espírito Santo, verá que é impossível. Por outro lado, deve entender que se for falar em outras línguas terá que, conscientemente, usar seus lábios, língua e cordas vocais. O Espírito Santo não fala por você — Ele só lhe dá a capacitação. Ele é nosso ajudante, não nosso faz-tudo. Você deve falar, assim como a Bíblia ensina: Todos ficaram cheios do Espírito Santo e começaram a falar noutras línguas, conforme o Espírito os capacitava (At. 2:4, ênfase adicionada). Quando Paulo lhes impôs as mãos, veio sobre eles o Espírito Santo, e começaram [eles] a falar em línguas e a profetizar (At. 19:6, ênfase adicionada). Depois de um crente pedir o dom do Espírito Santo, deve acreditar e esperar falar em línguas. Porque o Espírito Santo é recebido pela fé; o recebedor não deve esperar sensações físicas ou sentimentais. Ele deve simplesmente abrir sua boca e começar a falar os novos sons e sílabas que formarão a nova língua que o Espírito Santo lhe dará. A menos que o crente comece a falar pela fé, nada sairá de sua boca. Ele deve falar e o Espírito Santo o capacitará.

A Fonte da Capacitação De acordo com Paulo, quando um crente ora em línguas, não é sua mente que ora, mas sim seu espírito: Pois, se oro em uma língua, meu espírito ora, mas a minha mente fica infrutífera. Então, que farei? Orarei com o espírito, mas também orarei com o entendimento; cantarei com o espírito, mas também cantarei com o entendimento (1 Co. 14:14-15). Paulo disse que quando orava em uma língua, sua mente ficava infrutífera. Isso significa que sua mente não fazia nada, e ele não entendia o que estava orando. Então, ao invés de orar sempre em línguas sem entender o que dizia, Paulo também gastava tempo orando com sua mente em sua própria língua. Ele cantava em línguas e também em sua própria língua. Há lugar para os dois tipos de orações e canções e seríamos sábios se seguíssemos seu exemplo balanceado. Note que para Paulo, falar em línguas estava sujeito a sua própria vontade, assim como falar em sua própria língua. Ele disse: “*Eu] Orarei com o espírito, mas também [eu] orarei com o 119


entendimento.” Muitas vezes, críticos dizem que se falar em línguas modernas fosse realmente um dom do Espírito, ninguém seria capaz de controlá-lo, caso contrário, seria culpado de controlar a Deus. Mas tal ideia não tem fundamentação. Falar em línguas modernas e antigas está debaixo do controle do indivíduo, assim como Deus planejou. Críticos também podem dizer que pessoas que têm mãos realmente feitas por Deus não têm controle sobre elas, e que se tomarem decisões conscientes de usá-las, estão tentando controlar a Deus. Uma vez que tenha sido batizado no Espírito Santo, pode provar a si mesmo que sua capacitação em línguas vem de seu espírito ao invés de sua mente. Primeiro, tente conversar com alguém ao mesmo tempo em que lê este livro. Verá que não pode fazer os dois ao mesmo tempo. Contudo, descobrirá que pode continuar falando em línguas enquanto lê este livro. A razão é que você não está usando sua mente para falar em línguas — essa expressão vem de seu espírito. Portanto, enquanto usa seu espírito para orar, pode usar sua mente para ler e entender.

Agora que é Batizado no Espírito Santo Mantenha em mente a razão principal de Deus ter lhe dado o batismo no Espírito Santo — para lhe dar poder com o propósito de ser Sua testemunha, por meio da manifestação do fruto e dos dons do Espírito (veja 1 Co. 12:4-11; Gl. 5:22-23). Vivendo uma vida como a de Cristo e demonstrando Seu amor, alegria e paz ao mundo, assim como manifestando dons sobrenaturais do Espírito, Deus o usará para levar outros a Ele. A habilidade de falar em línguas é somente um dos “rios de água viva” que deve fluir de seu ser mais profundo. Lembre-se também que Deus nos deu o Espírito Santo para sermos capazes de alcançar todas as pessoas da terra com o evangelho (veja At. 1:8). Quando falamos em outras línguas, devemos pensar que a língua que estamos falando pode muito bem, ser a língua nativa de alguma tribo remota ou nação estrangeira. Cada vez que oramos em línguas, devemos lembrar que Deus quer que pessoas de todas as línguas ouçam sobre Jesus. Devemos perguntar ao Senhor como Ele quer que nos envolvamos para cumprir a Grande Comissão de Jesus. Falar em línguas é algo que devemos fazer sempre que possível. Paulo, um poço de energia espiritual, escreveu: “Dou graças a Deus por falar em línguas mais do que todos vocês” (1 Co. 14:18). Ele escreveu essas palavras a uma igreja que falava muito em línguas (embora normalmente nas horas erradas). Portanto, Paulo deve ter falado muito em línguas para ter falado mais que eles. Orar em línguas nos ajuda a ficar conscientes do Espírito Santo que vive dentro de nós, e nos ajudará a “orar sem cessar” como Paulo ensinou em 1 Tessalonicenses 5:17. Paulo também ensinou que falar em outras línguas edifica o crente (veja 1 Co. 14:4). Isso significa que nos forma espiritualmente. Orando em línguas, podemos, apesar de não entender completamente, fortalecer nosso homem interior. Falar em outras línguas deve fornecer enriquecimento diário na vida espiritual de cada crente e não ser uma experiência única do enchimento inicial do Espírito Santo. Uma vez que foi batizado no Espírito Santo, eu o encorajo a gastar tempo todos os dias orando a Deus em sua nova língua. Isso realçará grandemente seu crescimento e vida espiritual.

Resposta a Algumas Perguntas Comuns Podemos dizer com certeza que todos aqueles que nunca falaram em línguas nunca foram batizados no Espírito Santo? Pessoalmente, eu acho que não. Sempre encorajei pessoas a esperar falar em línguas quando orava por elas para que fossem batizadas no Espírito Santo, e provavelmente 95% delas falaram após alguns segundos de minha oração. Isso somaria milhares de pessoas durante todos esses anos. Contudo, nunca diria que um crente que orou para ser batizado no Espírito e que não falou em línguas não é batizado no Espírito Santo, porque o batismo no Espírito é recebido pela fé e falar em 120


línguas é voluntário. Contudo, se tiver a oportunidade de compartilhar com um crente que orou para ser batizado no Espírito, mas que nunca falou em línguas, primeiramente mostraria a ele todas as passagens no livro de Atos sobre o assunto. Então, também mostraria a esse crente como Paulo escreveu que tinha controle de quando falava ou não em línguas. Como Paulo, posso falar em línguas sempre que quiser e, portanto, posso decidir, se desejasse, nunca falar em línguas novamente. Deste modo, posso ter sido batizado no Espírito Santo e nunca ter falado em línguas pelo fato de não cooperar com a capacitação do Espírito. Então, novamente, quando tenho a oportunidade de compartilhar com um cristão que orou com fé pelo batismo no Espírito Santo, mas que nunca orou em línguas, não o digo (nem acredito) que não tenha sido batizado no Espírito Santo. Eu simplesmente explico a ele que falar em línguas não é algo que o Espírito Santo faz sem nossa vontade. Eu explico que Ele nos capacita, mas que nós devemos falar, assim como falamos em nossa própria língua. Então encorajo aquela pessoa a cooperar com o Espírito Santo e começar a falar em línguas. Quase sem exceção, todas elas falam rapidamente.

Paulo não Escreveu que nem Todos falam em Línguas? A pergunta retórica de Paulo, “Falam todos em línguas?” (1 Co. 12:30), cuja resposta é óbvia: “Não”, deve ser harmonizada com o resto do Novo Testamento. Sua pergunta é encontrada dentro do contexto de suas instruções sobre os dons espirituais, que são todos manifestados somente quando o Espírito deseja (veja 1 Co. 12:11). Paulo estava escrevendo especificamente sobre o dom espiritual da “variedade de línguas” (1 Co. 12:10) que, de acordo com Paulo, deve sempre ser acompanhado do dom espiritual da interpretação de línguas. Esse dom em particular não pode ser o que os coríntios estavam sempre manifestando em sua igreja, já que estavam falando em línguas publicamente sem haver interpretação. Devemos perguntar: Por que em uma assembleia pública o Espírito Santo daria o dom de línguas a alguém sem dar a outrem o dom da interpretação? A resposta é que Ele não daria. Caso contrário, o Espírito Santo estaria promovendo algo que não é da vontade de Deus. Os coríntios devem ter orado em línguas em voz alta durante seus cultos, sem haver interpretação alguma. Portanto, aprendemos que falar em línguas tem dois usos diferentes. Um é orar em línguas, o que Paulo disse que deveria ser feito em particular. Esse uso de falar em línguas não é acompanhado de interpretação, como Paulo escreveu: “Meu espírito ora, mas a minha mente fica infrutífera” (1 Co. 14:14). Obviamente, Paulo nem sempre sabia o que estava falando quando falava em línguas. Não havia entendimento de sua parte; nem interpretação. Há também o uso de falar em línguas que é para a assembleia pública da igreja, que é sempre acompanhado do dom de interpretação de línguas. Uma pessoa fala publicamente e uma interpretação é dada. Contudo, Deus não usa a todos dessa maneira. É por isso que Paulo disse que nem todos falam em línguas. Nem todos são usados por Deus com o dom de línguas de modo repentino e espontâneo, assim como Deus não usa a todos com o dom de interpretação de línguas. Esse é o único modo de reconciliar a pergunta retórica de Paulo, “Falam todos em línguas?”, com o resto do que as Escrituras ensinam. Eu posso falar em línguas sempre que quiser, assim como Paulo podia. Então, obviamente, nem Paulo nem eu diria que falamos em línguas “somente quando o Espírito deseja”. Acontece quando nós queremos. Então, o que fazemos quando nós queremos não pode ser o dom de falar em línguas que ocorre “quando o Espírito deseja”. Além do mais, Paulo, assim como eu, falava em línguas reservadamente sem entender o que falava; então, isso não pode ser o dom de línguas sobre o qual falou em 1 Coríntios, quando disse que seria sempre acompanhado do dom da interpretação de línguas. Houve raras ocasiões em que falei em línguas em assembleias públicas. Isso só aconteceu quando senti o Espírito Santo mover em mim para que assim o fizesse, mesmo que pudesse (assim como os coríntios estavam fazendo) orar em línguas em voz alta a qualquer hora que desejasse na 121


igreja sem haver interpretação. Sempre que senti o Espírito Santo mover em mim com tal dom, houve uma interpretação que edificou o corpo. Concluindo, devemos interpretar a Bíblia harmoniosamente. Aqueles que acham, por causa da pergunta retórica de Paulo encontrada em 1 Coríntios 12:30, que nem todos os crentes devem falar em outras línguas, estão ignorando as muitas outras passagens que estão em harmonia com essa interpretação. E por causa de seus erros, perdem uma grande bênção do Senhor.

Capítulo Doze

Mulheres no Ministério Já que é do conhecimento geral que as mulheres formam mais da metade da Igreja do Senhor Jesus Cristo, é importante entender suas funções ordenadas por Deus dentro do corpo. Na maioria das igrejas e ministérios, elas são vistas como trabalhadoras valiosas, já que fazem a maior parte do ministério geral. Mesmo assim, nem todos concordam sobre as funções das mulheres. Muitas vezes, elas não são aceitas em certos ministérios ligados a falar e liderar na igreja. Algumas igrejas permitem pastoras; muitas outras não. Algumas permitem que mulheres ensinem, enquanto outras não. Algumas proíbem que mulheres falem durante os cultos. A maioria desses desacordos surgiu de variadas interpretações das palavras de Paulo a respeito das funções das mulheres. Encontradas em 1 Coríntios 14:34-35 e 1 Timóteo 2:11-3:7, essas passagens serão o foco de nosso estudo, principalmente no fim desse capítulo.

Do Início Enquanto começamos, vamos considerar o que as Escrituras revelam sobre as mulheres desde suas primeiras páginas. Elas, assim como os homens, são criadas à imagem de Deus: Criou Deus o homem à sua imagem, à imagem de Deus o criou; homem e mulher os criou (Gn. 1:27). Sabemos, é claro, que Deus criou Adão antes de Eva, e este é, com certeza, um fato espiritual significante de acordo com Paulo (veja 1 Tm. 2:3). Mais tarde levaremos em consideração o significado dessa ordem da criação como é explicada por Paulo, mas agora basta dizer que isso não prova a superioridade do homem sobre a mulher. Sabemos que Deus criou os animais antes dos seres humanos (veja Gn. 1:24-28), e ninguém argumentaria que animais são superiores a pessoas.[1] A mulher foi criada para ser a ajudante de seu marido (veja Gn. 2:18). Mais uma vez, isso não prova sua inferioridade, somente revela seu papel no casamento. O Espírito Santo é dado como nosso ajudante, mas com certeza não é inferior a nós; pelo contrário: é superior a nós! E pode ser dito que a criação da mulher para ser ajudante de seu marido prova que os homens precisam de ajuda! Foi Deus quem disse que não era bom que o homem ficasse só (veja Gn. 2:18). Essa verdade tem sido provada incontáveis vezes na história quando homens ficam sem esposas para ajudá-los. Finalmente, notamos na primeira página de Gênesis que a primeira mulher foi formada da carne do primeiro homem. Ela foi tirada dele, mostrando o fato que sem ela, ele é incompleto e que os dois eram originalmente um. Mais adiante, o que Deus separou foi planejado por Ele que se tornasse um novamente através da união sexual, um meio não só de procriação, mas de expressão de amor e apreciação, de prazer mútuo, do qual ambos dependem um do outro. 122


Tudo nessas lições de criação se opõe à ideia de um sexo ser superior ao outro ou um ter o direito de domínio sobre o outro. E o fato de Deus ter designado funções diferentes para mulheres no casamento ou ministério nada tem a ver com sua igualdade aos homens, em Cristo, em quem “não há...homem nem mulher” (Gl. 3:28).

Mulheres no Ministério no Velho Testamento Com essa fundação feita, vamos considerar algumas das mulheres que Deus usou para alcançar Seus propósitos divinos no Velho Testamento. É óbvio, que Deus chamou principalmente homens para o ministério vocacional durante o tempo do Velho Testamento, assim como fez no tempo do Novo Testamento. As histórias de homens como Moisés, Arão, Josué, Samuel e Davi enchem as páginas do Velho Testamento. Contudo, muitas mulheres são provas de que Deus pode chamar e usar quem quiser, e mulheres equipadas por Deus são suficientes para qualquer tarefa para a qual Ele as chamar. Antes de considerarmos qualquer dessas mulheres em particular, note que cada grande homem de Deus do Velho Testamento nasceu e foi criado por uma mulher. Não haveria Moisés sem uma mulher chamada Joquebede (veja Ex. 6:20). Também não existiria nenhum outro grande homem de Deus se não fosse pelas mães daqueles homens. Deus entregou às mulheres a pesada responsabilidade e o ministério louvável de criar filhos no Senhor (veja 2 Tm. 1:5). Joquebede não foi somente mãe de dois homens chamados por Deus, chamados Moisés e Arão, mas também de uma mulher chamada por Deus, irmã deles, uma profetisa e líder de louvor chamada Miriã (veja Ex. 15:20). Em Miqueias 6:4, Deus classificou Miriã, juntamente com Moisés e Arão, como uma entre os líderes de Israel: Eu o tirei do Egito, e o redimi da terra da escravidão; enviei Moisés, Arão e Miriã para conduzi-lo (ênfase adicionada). É claro, o papel de liderança de Miriã em Israel não era tão dominante quanto o de Moisés. Mesmo assim, como profetisa, ela falou por parte de Deus, e acho seguro assumir que as mensagens de Deus através dela não eram destinadas apenas às mulheres, mas também aos homens de Israel.

Uma Juíza Sobre Israel Outra mulher que Deus levantou como líder em Israel foi Débora, que viveu nos tempos dos juízes de Israel. Ela também era profetiza, e era juíza tanto quanto Gideão, Jefté e Samuel que foram juízes durante suas vidas. Somos informados que “os israelitas a procuravam, para que ela decidisse as suas questões” (Jz. 4:5). Portanto, ela fazia decisões para homens, e não somente mulheres. Não pode haver dúvidas sobre isso: Uma mulher dizia aos homens o que fazer, e Deus a ungiu para que assim o fizesse. Como a maioria das mulheres que são chamadas por Deus para a liderança, Débora, aparentemente, encontrou pelo menos um homem que tinha dificuldade para receber a palavra de Deus através de uma mulher. Seu nome era Baraque, e por causa de sua incredulidade às instruções proféticas de Débora para que fosse à guerra contra o general cananita Sísera, ela lhe disse que a honra de matar Sísera seria de uma mulher. Ela estava certa, e uma mulher chamada Jael é lembrada nas Escrituras como a mulher que enfiou uma estaca de tenda na cabeça de Sísera enquanto este dormia (veja Jz. 4). A história termina com Baraque cantando um dueto com Débora! Algumas das frases estão cheias de louvor a ambas, Débora e Jael (veja Jz. 5); portanto, creio que Baraque tenha começado a acreditar no “ministério feminino” depois de tudo.

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Uma Terceira Profetisa Uma terceira mulher que é mencionada no Velho Testamento como uma respeitada profetisa é Hulda. Deus a usou para dar discernimento e instrução profética a um homem, o aflito rei de Judá, Josias (veja 2 Rs. 22). Vemos novamente um exemplo de Deus usando uma mulher para instruir um homem. É bem provável que Hulda era usada por Deus em tal ministério com certa frequência, caso contrário, Josias não teria tanta fé no que ela lhe disse. Mas, por que Deus chamou Miriã, Débora e Hulda como profetisas? Ele não poderia ter escolhido homens ao invés? Com certeza Deus poderia ter chamado homens para fazer exatamente o que aquelas três mulheres fizeram. Mas não chamou. E ninguém sabe a razão. O que devemos aprender com isso é que é melhor termos cuidado para não colocarmos Deus em uma caixa quando falamos sobre quem Ele chama para o ministério. Mesmo que, normalmente Deus tenha chamado homens no Velho Testamento, Ele algumas vezes escolheu mulheres. Finalmente, deve ser notado que os três preeminentes exemplos de ministras no Velho Testamento foram profetisas. Existem alguns ministérios no Velho Testamento para os quais nenhuma mulher foi chamada. Por exemplo, nenhuma mulher foi chamada para ser sacerdotisa. Portanto, Deus pode reservar alguns ministérios exclusivamente para homens.

Mulheres no Ministério no Novo Testamento É interessante que também encontramos uma mulher sendo chamada por Deus como profetisa no Novo Testamento. Quando Jesus tinha somente alguns dias de nascido, Ana O reconheceu e começou a proclamar sobre o Messias: Estava ali a profetisa Ana, filha de Fanuel, da tribo de Aser. Era muito idosa; tinha vivido com seu marido sete anos depois de se casar e então permanecera viúva até a idade de oitenta e quatro anos. Nunca deixava o templo: adorava a Deus jejuando e orando dia e noite. Tendo chegado ali naquele exato momento, deu graças a Deus e falava a respeito do menino a todos os que esperavam a redenção de Jerusalém (Lc. 2:36-38, ênfase adicionada). Note que Ana falou sobre Jesus “a todos os que esperavam a redenção de Jerusalém.” Isso incluiria, é claro, homens. Portanto, pode ser dito que Ana estava ensinando a homens sobre Cristo. Há outras mulheres no Novo Testamento a quem Deus usou com o dom de profecia. Maria, a mãe de Jesus, estava, com certeza, nesse grupo (veja Lc. 1:46-55). Todas as vezes que as palavras proféticas de Maria são lidas no culto, pode ser dito que uma mulher está ensinando à igreja. (E sem dúvida, Deus honrou as mulheres mandando Seu Filho ao mundo através de uma mulher, algo que poderia ter feito de muitas outras formas.) A lista continua. Deus revelou através da boca do profeta Joel que quando derramasse Seu Espírito, os filhos e as filhas em Israel profetizariam (veja Jl. 2:28). Pedro confirmou que a profecia de Joel era, certamente, aplicável à distribuição da nova aliança (veja At. 2:17). Vemos em Atos 21:8-9 que Filipe, o evangelista, tinha quatro filhas que eram profetisas. Paulo escreveu sobre mulheres profetizando nas reuniões da igreja (veja 1 Co. 11:5). Pelo contexto fica claro que homens estavam presentes. Com todos os exemplos bíblicos de mulheres sendo usadas por Deus como profetisas e para profetizar, com certeza não temos um bom motivo para nos fechar à ideia de que Deus pode usar mulheres em tais ministérios! Mais adiante, nada existe que nos leve a pensar que mulheres não possam profetizar a homens por parte de Deus.

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Mulheres Como Pastoras? E mulheres servindo como pastoras? Parece claro que Deus quis que o papel de pastor/presbítero/bispo fosse destinado a homens: Esta afirmação é digna de confiança: Se alguém deseja ser bispo, deseja uma nobre função. É necessário, pois, que o bispo seja irrepreensível, marido de uma só mulher, moderado, sensato, respeitável, hospitaleiro e apto para ensinar (1 Tm. 3:1-2, ênfase adicionada). A razão de tê-lo deixado em Creta foi para que você pusesse em ordem o que ainda faltava e constituísse presbíteros em cada cidade, como eu o instruí. É preciso que o presbítero seja irrepreensível, marido de uma só mulher (Tt. 1:5-6, ênfase adicionada). Paulo não diz expressamente que mulheres são proibidas de atuar no posto de pastor, e portanto, devemos tomar cuidado ao chegarmos a uma conclusão absoluta. Parece que existem várias pastoras/presbíteras/bispas ao redor do mundo que são muito eficientes, especialmente em nações em desenvolvimento; ainda assim, são minoria. Talvez, Deus chame ocasionalmente, mulheres para esse papel quando isso serve aos Seus sábios propósitos para o Reino ou quando há falta de liderança masculina qualificada. Também é possível que muitas pastoras no corpo de Cristo hoje são, na verdade, chamadas a outros ministérios que são biblicamente válidos para mulheres, como o de profetisa, mas a estrutura atual da igreja só permite que trabalhem no papel pastoral. Por que o posto de pastor/presbítero/bispo é reservado para homens? Conhecer a função desse posto pode nos ajudar a descobrir. Um dos requisitos bíblicos para pastor/presbítero/bispo é: Ele deve governar bem sua própria família, tendo os filhos sujeitos a ele, com toda a dignidade. Pois, se alguém não sabe governar sua própria família, como poderá cuidar da igreja de Deus? (1 Tm. 3:4-5). Esse requisito faz muito sentido quando percebemos que o líder do Novo Testamento administrava uma pequena igreja no lar. Esse papel era parecido com o de um pai administrando sua casa. Isso nos ajuda a entender por que o posto pastoral deve ser ocupado por um homem — porque é muito parecido com a estrutura familiar que, se estiver de acordo com o projeto de Deus, deve ser liderada pelo marido, não pela esposa. Falaremos sobre esse ponto mais tarde.

Mulheres Como Apóstolos? Estabelecemos conclusivamente que mulheres podem servir no posto de profetisas (se chamadas por Deus). E a respeito de outros ministérios? É esclarecedor ler a saudação de Paulo em Romanos 16, onde ele louva várias mulheres que serviram no ministério pelo bem do Reino de Deus. Uma pode até ter sido listada como apóstolo. Nas três citações consecutivas que se seguem, eu coloquei em itálico todos os nomes femininos: Recomendo-lhes nossa irmã Febe, serva da igreja em Cencréia. Peço que a recebam no Senhor, de maneira digna dos santos, e lhe prestem a ajuda de que venha a necessitar; pois tem sido de grande auxílio para muita gente, inclusive para mim (Rm. 16:1-2, ênfase adicionada). Mas que endosso! Não sabemos com exatidão que ministério Febe exerceu, mas Paulo a chamou de “serva da igreja em Cencréia” e “grande auxílio para muita gente”, incluindo ele próprio. Seja lá o que for que ela fazia para o Senhor, deve ter sido bem significante para garantir-lhe o endosso de Paulo ante toda a igreja de Roma. Agora leremos sobre Priscila (Prisca), que juntamente com seu marido, Áquila, tinha um ministério tão significante que todas as igrejas dos gentios os estimavam: Saúdem Priscila (Prisca) e Áqüila, meus colaboradores em Cristo Jesus. Arriscaram a vida por mim. Sou grato a eles; não apenas eu, mas todas as igrejas dos gentios. Saúdem também a igreja que se reúne na casa deles. Saúdem meu amado irmão Epêneto, que foi o primeiro convertido a Cristo na província da Ásia. Saúdem Maria, que trabalhou arduamente por vocês. Saúdem Andrônico e Júnias 125


[ou Júnia, como a versão RC traduz, que é feminino], meus parentes que estiveram na prisão comigo. São notáveis entre os apóstolos, e estavam em Cristo antes de mim (Rm. 16:3-7, ênfase adicionada). A respeito de Júnias, parece lógico pensar que uma pessoa que é notável “entre os apóstolos” só poderia ser um apóstolo. Se a correção correta for Júnia, então ela era uma apóstolo. Priscila e Maria trabalhavam para o Senhor. Saúdem Amplíato, meu amado irmão no Senhor. Saúdem Urbano, nosso cooperador em Cristo, meu amado irmão Estáquis. Saúdem Apeles, aprovado em Cristo. Saúdem os que pertencem à casa de Aristóbulo. Saúdem Herodião, meu parente. Saúdem os da casa de Narciso, que estão no Senhor. Saúdem Trifena e Trifosa, mulheres que trabalham arduamente no Senhor. Saúdem a amada Pérside, outra que trabalhou arduamente no Senhor. Saúdem Rufo, eleito no Senhor, esua mãe, que tem sido mãe também para mim. Saúdem Asíncrito, Flegonte, Hermes, Pátrobas, Hermas e os irmãos que estão com eles. Saúdem Filólogo, Júlia, Nereu e sua irmã, e também Olimpas e todos os santos que estão com eles (Rm. 16:8-15, ênfase adicionada). Claramente, mulheres podem ser “trabalhadoras” no ministério.

Mulheres Como Professoras? E professoras? O Novo Testamento não menciona nenhuma. É claro que a Bíblia também não menciona nenhum homem chamado para ser professor. Priscila (mencionada acima e também conhecida de Prisca), esposa de Áquila, estava envolvida no ensino pelo menos em pequena escala. Por exemplo, quando ela e Áquila ouviram Apolo pregando um evangelho deficiente em Éfeso, “convidaram-no para ir à sua casa e explicaram com mais exatidão o caminho de Deus” (At. 18:26). Ninguém pode argumentar que Priscila não ajudou seu esposo a ensinar Apolo, um homem. Mais adiante, Paulo menciona ambos Priscila e Áquila duas vezes nas Escrituras quando escreve sobre “a igreja que se reúne na casa deles” (veja Rm. 16:3-5; 1 Co. 16:19), e chama ambos de “colaboradores em Cristo Jesus” em Romanos 16:3. Há pouca dúvida que Priscila teve um papel ativo no ministério ao lado de seu marido.

Quando Jesus Mandou Mulheres Ensinarem Homens Antes de falarmos sobre as palavras de Paulo sobre mulheres ficarem em silêncio na igreja e sua proibição a mulheres ensinarem a homens, vamos considerar uma outra passagem que nos ajudará a balancear essas. Quando Jesus ressuscitou, um anjo mandou pelo menos três mulheres ensinarem aos discípulos de Jesus. Essas mulheres foram instruídas a falar aos discípulos que Jesus tinha ressuscitado e que apareceria a eles na Galileia. Mas isso não é tudo. Pouco tempo depois, Jesus em pessoa apareceu às mesmas mulheres e as mandou instruir os discípulos a irem para a Galileia (veja Mt. 28:1-10; Mc. 16:17). Em primeiro lugar, acho significante que Jesus escolheu aparecer primeiramente a mulheres e depois a homens. Segundo, se houvesse algo fundamentalmente ou moralmente errado com mulheres ensinando homens, Jesus não teria mandado mulheres ensinarem aos homens sobre Sua ressurreição, uma informação essencial, e que Ele mesmo poderia ter entregue (o que fez mais tarde). Ninguém pode argumentar esse fato: o Senhor Jesus instruiu mulheres a ensinarem a verdade vital e dar algumas instruções espirituais a alguns homens.

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As Passagens Problemáticas Agora que temos algum entendimento do que a maioria da Bíblia nos diz sobre o papel da mulher no ministério, somos mais capazes de interpretar as “passagens problemáticas” nas escritas de Paulo. Vamos primeiro considerar suas palavras sobre mulheres manterem o silêncio nas igrejas: Permaneçam as mulheres em silêncio nas igrejas, pois não lhes é permitido falar; antes permaneçam em submissão, como diz a Lei. Se quiserem aprender alguma coisa que perguntem a seus maridos em casa; pois é vergonhoso uma mulher falar na igreja (1 Co. 14:34-35). Alguns questionam, por vários motivos, se essas são realmente as instruções de Paulo ou somente uma citação do que os coríntios haviam lhe escrito. Está claro que na segunda metade de sua carta, Paulo estava respondendo as questões que os coríntios lhe perguntaram na carta que lhe enviaram (veja 1 Co. 7:1, 25; 8:1; 12:1; 16:1, 12). Em seguida, no próximo versículo, Paulo escreve o que pode ser considerado sua reação à política dos coríntios de silenciar as mulheres nas igrejas: Acaso a palavra de Deus originou-se entre vocês? São vocês o único povo que ela alcançou? (1 Co. 14:36). A Versão King James traduz esse versículo de modo que Paulo parece ainda mais atônito com a atitude dos coríntios: O quê? A Palavra de Deus veio de vocês? Ou somente para vocês? (1 Co. 14:36).* De qualquer modo, Paulo está obviamente fazendo duas perguntas retóricas. A resposta para ambas é: Não. Os coríntios não foram os criadores da Palavra de Deus e ela não foi dada somente a eles. As perguntas de Paulo são óbvias censuras ao orgulho deles. Se elas são sua reação aos dois versículos que as precedem, elas parecem dizer: “Quem vocês pensam que são? Desde quando vocês fazem os decretos a respeito de quem Deus pode usar para ensinar Sua Palavra? Deus pode usar mulheres se quiser, e vocês são tolos por silenciá-las”. Essa interpretação parece lógica quando levamos em consideração que Paulo já havia, na mesma carta, escrito sobre a maneira própria para mulheres profetizarem nas igrejas (veja 1 Co. 11:5), algo que requer que não fiquem em silêncio. Mais adiante, apenas alguns versículos após aqueles em consideração, Paulo exorta todos os coríntios, [2] incluindo as mulheres, a buscar “com dedicação o profetizar” (1 Co. 14:39). Portanto, ele se contradiria se realmente mandasse as mulheres manterem silêncio nas reuniões das igrejas em 1 Coríntios 14:34-35.

Outras Possibilidades Vamos assumir por um momento que as palavras em 1 Coríntios 14:34-35 são originalmente de Paulo e que ele está instruindo mulheres as a manterem silêncio. Como então devemos interpretar o que ele diz? Mais uma vez, devemos nos perguntar por que Paulo estava mandando que mulheres ficassem completamente caladas nas reuniões quando disse na mesma carta que podiam orar e profetizar publicamente, aparentemente em reuniões da igreja. Mais adiante, com certeza Paulo estava ciente das muitas passagens bíblicas que já consideramos de Deus usando mulheres para falar Sua Palavra publicamente, até mesmo a homens. Por que ele silenciaria aquelas a quem Deus tem ungido para falar? Certamente, o senso comum diz que Paulo não pretendia dizer que mulheres deveriam ficar completamente caladas quando a igreja se reunisse. Mantenha em mente que a igreja primitiva se reunia em lares e compartilhava refeições. Devemos pensar, então, que as mulheres não falavam desde a hora em que entravam na casa até a hora em que saíam? Que não falavam enquanto preparavam ou comiam a refeição? Que não falavam com seus filhos o tempo inteiro? Tal pensamento parece absurdo. 127


Se “onde se reunirem dois ou três” no nome de Jesus, Ele está entre eles (veja Mt. 18:20), dessa forma, certamente, constituindo uma reunião de igreja, quando duas mulheres se reúnem no nome de Jesus, elas, então, não devem falar uma com a outra? Não. Se 1 Coríntios 14:34-35 realmente for instrução de Paulo, ele estava simplesmente se dirigindo a um pequeno problema de ordem nas igrejas. Algumas mulheres estavam de alguma forma interrompendo a ordem fazendo perguntas. Paulo não quis dizer que mulheres devem ficar quietas durante as reuniões, do mesmo modo que, quando dava instruções aos profetas alguns versículos atrás, não quis dizer que devessem ficar em silêncio durante toda a reunião. Se vier uma revelação a alguém [profeta] que está sentado, cale-se o primeiro (1 Co. 14:30, ênfase adicionada). Nesse caso, a palavra “cale-se” significa “conter-se temporariamente de falar”. Paulo também instruiu aqueles que falavam em línguas que permanecessem quietos se não houvesse intérprete na reunião: Se não houver intérprete, fique calado na igreja, falando consigo mesmo e com Deus (1 Co. 14:28, ênfase adicionada). Paulo estava instruindo tais pessoas a ficarem completamente caladas durante toda a reunião? Não, ele estava simplesmente dizendo a elas para ficarem em silêncio a respeito de falarem em línguas quando não houvesse intérprete. Note que Paulo disse “fique calado na igreja”, a mesma instrução que deu a mulheres em 1 Coríntios 14:34-35. Então, por que devemos interpretar as palavras de Paulo às mulheres para ficarem quietas na reunião, significando “ficarem caladas durante toda a reunião” e interpretar suas palavras aos que falam em línguas e interrompem a ordem como “conter-se de falar durante momentos específicos da reunião”? Finalmente, note que Paulo não estava falando a todas as mulheres na passagem sob consideração. Suas palavras só têm aplicação a mulheres casadas, pois são instruídas a perguntarem a “seus maridos em casa”, se tivessem dúvidas.[3] Talvez parte ou todo o problema era que mulheres casadas estavam fazendo perguntas a outros homens além de seus próprios maridos. Tal cenário seria certamente considerado inapropriado e poderia revelar desrespeito e falta de submissão a seus maridos. Se esse fosse o problema ao qual Paulo se dirigia, talvez seja por isso que baseou seu argumento no fato que mulheres devem ser submissas (obviamente a seus maridos), como a Lei revelou de muitas formas desde as primeiras passagens de Gênesis (veja 1 Co. 14:34). Resumindo, se Paulo está realmente instruindo mulheres a manterem silêncio em 1 Coríntios 14:34-35, ele está dizendo que apenas mulheres casadas devem manter silêncio a respeito de fazer perguntas em momentos inoportunos ou de modo que seja desrespeitoso a seus maridos. Caso contrário, podem profetizar, orar e falar.

A Outra Passagem Problemática Finalmente, chegamos à segunda “passagem problemática”, encontrada na primeira carta de Paulo a Timóteo: A mulher deve aprender em silêncio, com toda a sujeição. Não permito que a mulher ensine, nem que tenha autoridade sobre o homem. Esteja, porém, em silêncio. Porque primeiro foi formado Adão, e depois Eva. E Adão não foi enganado, mas sim a mulher que, tendo sido enganada, tornou-se transgressora (1 Tm. 2:11-14). Com certeza Paulo sabia sobre Miriã, Débora, Hulda e Ana, quatro profetisas que falavam por parte de Deus a homens e mulheres, ensinando-os efetivamente sobre a Sua vontade. Certamente, ele sabia que Débora, uma juíza sobre Israel, tinha autoridade sobre homens e mulheres. Com certeza sabia que Deus tinha derramado Seu Espírito no dia de Pentecoste, cumprindo parte da profecia de Joel sobre os últimos dias, quando Deus derramaria Seu Espírito sobre toda a carne para que Seus filhos e filhas profetizassem a Sua Palavra. Ele, com certeza, sabia que Jesus enviou algumas mulheres para levarem uma mensagem dEle para Seus discípulos. Ele se lembrava, com toda a certeza, de suas 128


próprias palavras de aprovação, escritas à igreja de Corinto, a respeito de mulheres orando e profetizando durante as reuniões da igreja. Certamente se lembrava que havia dito aos coríntios que qualquer um deles poderia receber um ensino do Espírito Santo para compartilhar com o corpo de Cristo (veja 1 Co. 14:26). Então, o que ele queria expressar quando escreveu essas palavras a Timóteo? Note que Paulo recorre a dois fatos relacionados em Gênesis como base de suas instruções: (1) Adão foi criado antes de Eva e (2) Eva; foi enganada e não Adão, e tornou-se transgressora. O primeiro fato estabelece o relacionamento próprio entre marido e mulher. Como ensinado pela ordem da criação, o marido deve ser o cabeça, algo que Paulo ensina em outro lugar (veja 1 Co. 11:3; Ef. 5:2324). O segundo fato que Paulo menciona não significa que mulheres são enganadas mais facilmente que homens, pois não são. Aliás, já que existem mais mulheres que homens no corpo de Cristo, pode ser argumentado que homens são mais facilmente enganados que mulheres. Ao invés disso, o segundo fato mostra que quando a ordem familiar que Deus planejou foi negligenciada, Satanás pôde entrar. Todo o problema da humanidade começou no jardim quando o relacionamento entre o homem e sua mulher ficou fora de ordem — a esposa de Adão não era submissa a ele. Adão deve ter dito a sua mulher as instruções de Deus a respeito da fruta proibida (veja Gn. 2:16-17; 3:2-3). Contudo, ela não seguiu suas instruções. De certo modo, até exerceu autoridade sobre ele quando lhe deu a fruta proibida (veja Gn. 3:6). Neste caso, Adão não estava conduzindo Eva, e sim Eva conduzindo Adão. O resultado foi desastroso.

A Igreja — Um Modelo da Família A ordem familiar planejada por Deus deve, certamente, ser demonstrada na igreja. Como disse antes, é importante lembrar que, pelos primeiros trezentos anos da história da igreja, as congregações eram pequenas. Elas se encontravam em casas. O pastor/presbítero/bispo era como o pai de uma família. Essa estrutura da igreja ordenada por Deus se parecia tanto com uma família, e era, na verdade, uma família espiritual; portanto, que uma liderança feminina teria enviado uma mensagem errada às famílias dentro e fora da igreja. Imagine uma pastora/presbítera/bispa ensinando regularmente em uma igreja no lar, enquanto seu marido se senta passivamente, ouvindo os seus ensinos e se submetendo a sua autoridade. Isso iria contra a ordem familiar de Deus, e o exemplo errado seria proposto. É isso que as palavras de Paulo querem dizer. Note que elas são encontradas próximas ao texto sobre as exigências de Paulo aos presbíteros (veja 1 Tm. 3:1-7), um dos quais é que a pessoa seja homem. Também deve ser notado que presbíteros devem ensinar regularmente na igreja (veja 1 Tm. 5:17). As palavras de Paulo a respeito de mulheres receberem instruções em silêncio e não receberem permissão para ensinar ou exercer autoridade sobre homens estão, obviamente, relacionadas à ordem apropriada na igreja. O que ele descreve como impróprio é uma mulher cumprir, parcialmente ou completamente, o papel de presbítero/pastor/bispo. Isso não quer dizer que uma mulher/esposa não possa, em submissão ao seu marido, orar, profetizar, receber um breve ensino para compartilhar com o corpo, ou falar em geral durante uma reunião de igreja. Ela poderia fazer tudo isso na igreja sem violar a ordem divina de Deus, assim como poderia fazer tudo isso em casa sem violação a essa ordem. O que ela era proibida de fazer na igreja não era nada mais ou menos do que era proibida de fazer em casa — exercer autoridade sobre seu esposo. Também notamos alguns versículos mais adiante que mulheres podiam servir como diaconisas, assim como homens (veja 1 Tm. 3:12). Servir uma igreja como diaconisa, ou serva, que é o que a palavra significa, não requer violação da ordem divina de Deus entre marido e mulher. Este é o único modo que vejo de harmonizar as palavras de Paulo em 1 Timóteo 2:11-14 com o que o resto do que as Escrituras ensinam. Nenhum dos outros exemplos bíblicos que consideramos de Deus usando mulheres, serve de modelo para a família como a igreja e, portanto, nenhum viola a 129


ordem dada por Deus. Em nenhum encontramos um modelo impróprio de esposas exercendo autoridade sobre seus maridos em um ambiente familiar. Visualize novamente uma pequena reunião de várias famílias em uma casa e a esposa estando no controle, ensinando e administrando enquanto seu marido senta-se passivamente e se submete a sua liderança. Isso não é o que Deus deseja, já que é contra Sua ordem para a família. Mesmo Débora tendo sido juíza em Israel, Ana ter falado a homens sobre Cristo, Maria e suas amigas terem contado aos apóstolos sobre a ressurreição de Cristo, nenhuma delas envia uma mensagem errada ou modelo impróprio da ordem de Deus na unidade familiar. A reunião regular da igreja é um ambiente único, onde existe o perigo da mensagem errada ser enviada se mulheres/esposas exercerem autoridade e ensinarem a homens/maridos regularmente.

Concluindo Se perguntarmos a nós mesmos: “O que pode ser fundamentalmente errado em mulheres trabalhando no ministério, servindo a outros de coração compassivo e usando seus dons dados por Deus? Que principio moral ou ético isso pode violar?” Então, logo devemos perceber que a única violação possível seria se o ministério de uma mulher violasse a ordem de Deus para relacionamentos entre homens e mulheres, maridos e esposas. Nas duas “passagens problemáticas” que consideramos, Paulo recorre à ordem divina no casamento como base de sua preocupação. Portanto, percebemos que mulheres são restritas no ministério somente em um pequeno sentido. Deus quer usar mulheres para Sua glória de várias outras formas, e Ele tem feito isso a milhares de anos. As Escrituras falam de muitas contribuições positivas que mulheres fizeram para o Reino de Deus, algumas das quais já consideramos. Não vamos esquecer que alguns dos amigos mais íntimos de Jesus eram mulheres (veja Jo. 11:5), e que mulheres apoiavam Seu ministério financeiramente (veja Lc. 8:1-3), algo que não é dito sobre homem algum. A mulher do poço de Samaria compartilhou sobre Cristo com os homens de sua vila, e muitos creram nEle (veja Jo. 4:28-30, 39). É dito que uma discípula chamada Tabita “se dedicava a praticar boas obras e dar esmolas” (At. 9:36). Foi uma mulher que ungiu Jesus para o enterro, e Ele a louvou por isso quando alguns homens reclamaram (veja Mc. 14:3-9). Finalmente, a Bíblia diz que foram mulheres que choraram por Jesus enquanto carregava Sua cruz pelas ruas de Jerusalém, algo que não foi dito de nenhum homem sequer. Tais exemplos e muitos outros como estes devem encorajar mulheres a se levantarem para cumprir seus ministérios ordenados por Deus. Precisamos de todas elas!

[1] Também deve ser notado que após ter criado Adão, Deus criou todos os outros homens através das mulheres que deram à luz a eles. Todos os homens depois de Adão vieram de mulheres, como Paulo nos lembra em 1 Coríntios 11:11-12. Com certeza, ninguém argumentaria que essa divina ordem prova que homens são inferiores a suas mães. * Nota do tradutor: Versículo traduzido da Versão King James. [2] A exortação de Paulo é endereçada aos “irmãos”, um termo que usa 27 vezes nessa carta, e que se refere claramente a todo o corpo de cristãos em Corinto e não somente aos homens. [3] Deve ser notado que não havia, no grego original, palavras diferentes para mulher e esposa, ou homem e marido. Portanto, devemos determinar pelo contexto se o escritor se refere a homens e mulheres ou maridos e esposas. Na passagem sob consideração, Paulo está falando a esposas, já que somente estas poderiam perguntar qualquer coisa a seus maridos em casa.

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Capítulo Treze

Divórcio e Recasamento Os temas de divórcio e recasamento são sempre debatidos entre cristãos sinceros. Duas perguntas fundamentais formam a base deste debate: (1) Quando o divórcio é permitido aos olhos de Deus? e (2) Quando o recasamento é permitido aos olhos de Deus? A maioria das denominações e igrejas independentes tem posições doutrinarias oficiais sobre o que é permitido e o que não é, baseadas em suas interpretações particulares das Escrituras. Devemos respeitar a todas por terem convicções e viverem por elas — se suas convicções forem baseadas em seu amor por Deus. Contudo, com certeza seria melhor se todos nós tivéssemos convicções 100% bíblicas. O ministro discipulador não quer ensinar o que não alcança o propósito de Deus. Ele também não quer colocar cargas sobre as pessoas que Deus nunca quis que carregassem. Com esse objetivo em mente, farei o melhor para interpretar as Escrituras neste tópico polêmico e deixá-lo decidir se concorda ou não. Deixe-me começar dizendo-lhe que estou, assim como você, aflito pelo divórcio estar tão implacável no mundo hoje. Pior ainda, é o fato de muitos cristãos professos estarem se divorciando, incluindo aqueles no ministério. Esta é uma grande tragédia. Devemos fazer todo o possível para impedir que isto aconteça mais ainda, e a melhor solução para o problema do divórcio é pregar o evangelho e chamar pessoas ao arrependimento. Quando duas pessoas casadas são genuinamente renascidas e ambas seguem ao Senhor, nunca se divorciarão. O ministro discipulador fará todo o possível para que seu próprio casamento seja forte, sabendo que seu exemplo é seu meio mais influente de ensinar. Deixe-me também adicionar que sou casado e feliz há mais de vinte e cinco anos, e que antes disso nunca fui casado. Não posso me imaginar divorciado. Portanto, não tenho motivo para amaciar passagens difíceis sobre o divórcio pelo meu próprio bem. Contudo, tenho grande simpatia por pessoas divorciadas, sabendo que eu mesmo poderia ter feito uma má decisão quando jovem, casando-me com alguém que, mais tarde, seria tentado a pedir o divórcio, ou com alguém menos tolerante comigo que a maravilhosa mulher com quem me casei. Em outras palavras, poderia ter me divorciado, mas isso não aconteceu pela graça de Deus. Acho que a maioria das pessoas casadas pode se identificar com o que estou dizendo; portanto, devemos nos refrear de jogar pedras em pessoas divorciadas. Quem somos nós, que temos casamentos desgastados, para acusar pessoas divorciadas, sem termos ideia do que possam ter passado? Deus pode considerá-los muito mais santos que nós, já que sabe que nós, debaixo das mesmas circunstâncias, poderíamos ter nos divorciado muito antes. Ninguém se casa esperando se divorciar, e acho que ninguém odeia mais o divórcio que aqueles que sofreram por causa dele. Portanto, devemos ajudar pessoas casadas a continuarem casadas, e pessoas divorciadas a encontrarem a graça que Deus estiver oferecendo. É neste espírito que escrevo. Farei o possível para permitir que passagens interpretem passagens. Percebi que versículos sobre esse assunto são muitas vezes interpretados de tal modo, que contradizem outras passagens, que é uma indicação certa que tais versículos foram mal interpretados, pelo menos em parte.

Uma Base Vamos começar com uma verdade fundamental que todos possamos concordar. A mais fundamental é que as Escrituras afirmam que Deus é contra o divórcio em geral. Durante um tempo em que homens israelitas estavam se divorciando de suas esposas, Ele declarou através do profeta Malaquias: “Eu odeio o divórcio... e também odeio homem que se cobre de violência como se cobre de roupas... Por isso, tenham bom senso; não sejam infiéis” (Ml. 2:16). Isso não deve surpreender alguém que conheça algo sobre o caráter amoroso e justo de Deus, ou alguém que saiba algo sobre como o divórcio danifica maridos, esposas e crianças. Teríamos que 131


questionar o caráter moral de qualquer um que fosse a favor do divórcio de modo geral. Deus é amor (veja 1 Jo. 4:8) e, portanto, odeia o divórcio. Uma vez, alguns fariseus fizeram uma pergunta a Jesus sobre a legalidade do divórcio “por qualquer motivo”. Sua resposta revela Sua reprovação ao divórcio. Aliás, o divórcio nunca foi Sua intenção para alguém: Alguns fariseus aproximaram-se dele para pô-lo à prova. E perguntaram-lhe: “É permitido ao homem divorciar-se de sua mulher por qualquer motivo?” Ele respondeu: “Vocês não leram que, no princípio, o Criador ‘os fez homem e mulher’ e disse: ‘Por essa razão, o homem deixará pai e mãe e se unirá à sua mulher, e os dois se tornarão uma só carne’? Assim, eles já não são dois, mas sim uma só carne. Portanto, o que Deus uniu, ninguém separe” (Mt. 19:3-6). Historicamente, sabemos que existiam duas linhas de pensamento entre os líderes religiosos judeus nos dias de Jesus. Examinaremos estas duas linhas mais detalhadamente mais tarde; mas é suficiente dizer, por enquanto, que uma era conservadora e a outra liberal. Os conservadores acreditavam que era permitido que um homem se divorciasse de sua esposa somente por sérias razões morais. Já os liberais acreditavam que um homem podia se divorciar por qualquer motivo, incluindo encontrar uma mulher mais atraente. Essas convicções contraditórias foram a base para a pergunta dos fariseus a Jesus. Jesus recorreu aos versículos das Escrituras, às primeiras passagens de Gênesis que mostram que o plano original de Deus era unir homem e mulher permanentemente, e não temporariamente. Moisés declarou que Deus criou os dois sexos tendo o casamento em mente, e que este é um relacionamento tão significante que se torna o mais importante de todos. Uma vez que é oficializado, é mais importante até que o relacionamento de alguém com seus pais. Os homens deixam seus pais para se unirem a suas esposas. E depois, então, a união sexual entre homem e mulher mostra sua unidade ordenada por Deus. Obviamente, tal relacionamento, que resulta em filhos, não foi intencionado por Deus para durar temporariamente, e sim permanentemente. Eu acho que o tom da resposta de Jesus aos fariseus indicava Sua grande decepção por tal pergunta ter sido feita. Com certeza, Deus não queria que homens se divorciassem de suas esposas “por qualquer motivo”. É claro que Deus queria que ninguém pecasse, de modo algum; mas todos pecamos. Com grande misericórdia, Deus tomou providências para nos resgatar da escravidão do pecado. Além do mais, Ele tem coisas para nos dizer depois de termos feito o que Ele não queria que fizéssemos. Da mesma maneira, Deus nunca quis que alguém se divorciasse, mas o divórcio era inevitável entre humanos não submissos a Deus. Ele não ficou surpreso com o primeiro divórcio ou com os milhões subsequentes. E, portanto, Ele não só declara Seu ódio pelo divórcio, mas também tem algo a dizer às pessoas depois de terem se divorciado.

No Princípio Com este alicerce posto, podemos começar a explorar mais especificamente o que Deus declarou sobre divórcio e recasamento. Já que as afirmações mais polêmicas sobre o divórcio e recasamento são ditas por Jesus aos israelitas, nos ajudará estudarmos primeiro o que Deus disse há centenas de anos antes sobre o mesmo assunto aos israelitas. Se acharmos que o que Deus disse através de Moisés e o que disse através de Jesus são contraditórios, podemos ter certeza que ou a Lei de Deus mudou, ou estamos interpretando mal algo dito por Moisés ou Jesus. Então, vamos começar com o que Deus revelou primeiro a respeito do divórcio e recasamento. Já mencionei a passagem em Gênesis 2 que, de acordo com Jesus, tem alguma relevância ao assunto do divórcio. Desta vez, vamos lê-la diretamente da descrição de Gênesis: Com a costela que havia tirado do homem, o Senhor Deus fez uma mulher e a levou até ele. Disse então o homem: “Esta, sim, é osso dos meus ossos e carne da minha carne! Ela será chamada 132


mulher, porque do homem foi tirada”. Por essa razão, o homem deixará pai e mãe e se unirá à sua mulher, e eles se tornarão uma só carne (Gn. 2:22-24). Então, esta é a origem do casamento. Deus fez a primeira mulher do primeiro homem e para o primeiro homem, e a levou a ele pessoalmente. Nas palavras de Jesus, “Deus *os+ uniu” (Mt. 19:6, ênfase adicionada). Este primeiro casamento ordenado por Deus estabeleceu o modelo para todos os casamentos subsequentes. Deus cria, mais ou menos, o mesmo número de mulheres que homens, e os cria para que se sintam atraídos ao sexo oposto. Assim, pode ser dito que Deus ainda providencia casamentos em grande escala (mesmo que existam muitos mais possíveis companheiros para cada indivíduo que existia para Adão e Eva). Portanto, como Jesus disse, nenhum humano deve separar o que Deus uniu. Não era a intenção de Deus que o casal original tivesse vidas separadas, mas que encontrassem bênçãos vivendo juntos em dependência mútua. A violação da vontade tão claramente revelada de Deus, constituiria pecado. Dessa maneira, desde o segundo capítulo da Bíblia, é estabelecido o fato que o divórcio não era a intenção de Deus para casamento algum.

A Lei de Deus Escrita em Corações Também gostaria de sugerir que, mesmo aqueles que nunca leram o segundo capítulo de Gênesis, sabem instintivamente que o divórcio é errado, já que a aliança de casamento para a vida toda é praticada em muitas culturas pagãs, onde o povo não tem conhecimento bíblico. Como Paulo escreveu em sua carta aos Romanos: De fato, quando os gentios, que não têm a Lei, praticam naturalmente o que ela ordena, tornam-se lei para si mesmos, embora não possuam a Lei; pois mostram que as exigências da Lei estão gravadas em seu coração. Disso dão testemunho também a sua consciência e os pensamentos deles, ora acusando-os, ora defendendo-os (Rm. 2:14-15). O código de ética de Deus está escrito em cada coração humano. Aliás, este código de ética que fala através da consciência, é toda a lei que Deus deu a qualquer um (exceto ao povo de Israel) de Adão até os tempos de Jesus. Qualquer um que esteja mesmo considerando um divórcio verá que precisa lidar com sua consciência, e o único modo de poder superá-la é encontrando uma boa justificativa para o divórcio. Se continuar com o divórcio sem uma boa justificativa, sua consciência o condenará, mesmo que possa reprimi-la. Desde que sabemos, durante vinte e sete gerações, de Adão até a entrega da Lei de Moisés a Israel, por volta de 1440 d.c., a lei da consciência era toda a revelação que Deus havia dado a qualquer um, incluindo aos israelitas, a respeito do divórcio e recasamento; Deus considerou isso suficiente. (Lembre-se que Moisés não escreveu o registro da criação de Gênesis 2 até o tempo do Êxodo.) Com certeza, parece razoável pensar que durante estas vinte e sete gerações antes da Lei Mosaica, que inclui o tempo do dilúvio de Noé, alguns dos milhões de casamentos durante aquelas centenas de anos acabaram em divórcio. Também parece razoável concluir que Deus, que nunca muda, estava disposto a perdoar aqueles que eram culpados pelo divórcio se confessassem seus pecados e se arrependessem. Estamos certos de que pessoas podiam ser salvas ou declaradas santas por Deus, antes da Lei de Moisés ser entregue, assim como foi com Abraão, através de sua fé (veja Rm. 4:1-12). Se pessoas podiam ser declaradas santas através de sua fé desde Adão até Moisés, isso significa que podiam ser perdoadas por qualquer coisa, incluindo pecado referente ao divórcio. Portanto, enquanto começamos a sondar o assunto de divórcio e recasamento, eu me pergunto: Pessoas culpadas de divórcio antes da Lei Mosaica e que receberam perdão de Deus eram exortadas por suas consciências (já que não havia lei escrita) que se recasassem seriam culpadas? Estou somente propondo uma pergunta. E as vítimas do divórcio que não cometeram pecado, aqueles que se divorciaram sem culpa, somente por causa de cônjuges egoístas? A consciência deles os proibiria de recasar? Isso me parece improvável. Se um marido abandonasse sua esposa por outra mulher, o que a levaria a pensar que não teria direito a um recasamento? O divórcio não foi culpa dela. 133


A Lei de Moisés É somente no terceiro livro da Bíblia que encontramos divórcio e recasamento mencionados especificamente. Está contido na Lei de Moisés como uma proibição contra sacerdotes casarem-se com mulheres divorciadas: Não poderão tomar por mulher uma prostituta, uma moça que tenha perdido a virgindade, ou uma mulher divorciada do seu marido, porque o sacerdote é santo ao seu Deus (Lv. 21:7). Em lugar algum da Lei de Moisés há tal proibição dirigida à população geral de homens israelitas. Mais adiante, o versículo citado indica que (1) havia mulheres israelitas divorciadas e (2) não há nada de errado com homens israelitas não-sacerdotais casando-se com mulheres que foram previamente casadas. A lei citada acima se aplica somente a sacerdotes e mulheres divorciadas que possam se casar com sacerdotes. Nada havia de errado, de acordo com a Lei de Moisés, com qualquer mulher divorciada recasando-se, desde que não se casasse com um sacerdote. Nada havia de errado com qualquer homem, com exceção sacerdotes, casando-se com uma mulher divorciada. Era requerido que o sumo sacerdote (talvez um tipo supremo de Cristo) vivesse em padrões ainda mais altos que os sacerdotes normais; não lhe era permitido nem que se casasse com uma viúva. Lemos alguns versículos mais adiante em Levítico: Não poderá ser viúva, nem divorciada, nem moça que perdeu a virgindade, nem prostituta, mas terá que ser uma virgem, do seu próprio povo (Lv. 21:14). Esse versículo prova que era pecado que todas as viúvas israelitas se recasassem ou que era pecado para qualquer e todo homem israelita se casar com uma viúva? Não, com certeza não. Na verdade, esse versículo indica fortemente que não seria errado que qualquer viúva se casasse com qualquer homem, desde que não fosse o sumo sacerdote, e indica fortemente que qualquer homem, além do sumo sacerdote poderia se casar com uma viúva. Outras passagens afirmam a legitimação completa de viúvas recasando-se (veja Rm. 7:2-3; 1 Tm. 5:14). Esse versículo também indica, juntamente com o que consideramos anteriormente (Lv. 21:7), que não seria errado que qualquer homem israelita (além do sacerdote ou sumo sacerdote) se casar com uma mulher divorciada ou mesmo uma mulher que não fosse virgem, “prostituta”. Do mesmo modo, implica que debaixo da Lei de Moisés, não havia nada de errado com uma mulher divorciada recasar-se ou com uma “prostituta” casar-se, desde que não se casasse com um sacerdote. Deus deu, graciosamente, a adúlteros e divorciados outra chance, mesmo sendo contra ambos, fornicação e divórcio.

Uma Segunda Proibição Específica Contra Recasamento Quantas “segunda chances” Deus deu a mulheres divorciadas? Devemos concluir que Ele deu a mulheres divorciadas somente mais uma chance debaixo da Lei de Moisés, permitindo somente um recasamento? Essa seria uma conclusão errada. Lemos mais tarde na Lei de Moisés: Se um homem casar-se com uma mulher e depois não a quiser mais por encontrar nela algo que ele reprova, dará certidão de divórcio à mulher e a mandará embora. Se, depois de sair da casa, ela se tornar mulher de outro homem, e este não gostar mais dela, lhe dará certidão de divórcio, e a mandará embora. Ou se o segundo marido morrer, o primeiro, que se divorciou dela, não poderá casar-se com ela de novo, visto que ela foi contaminada. Seria detestável para o Senhor. Não tragam pecado sobre a terra que o Senhor, o seu Deus, lhes dá por herança (Dt. 24:1-4). Note que nestes versículos, a única proibição era contra mulheres divorciadas duas vezes (ou divorciadas e viúvas) recasando-se com seus primeiros maridos. Nada é dito sobre o pecado cair sobre ela por casar-se a segunda vez, e uma vez que foi divorciada a segunda vez (ou viúva de seu segundo marido), só era proibida de voltar ao seu primeiro marido. A indicação óbvia é que ela seria livre para recasar com qualquer outro homem (que estivesse disposto a dar a ela outra chance). Se fosse pecado que ela casasse novamente com outro homem, não haveria necessidade de Deus dar esse tipo de instrução específica. Tudo o que Ele teria que dizer é: “Divorciados são proibidos de se recasar”. 134


Mais adiante, se Deus permitisse que essa mulher se casasse uma segunda vez, o homem que se casasse com ela depois de seu primeiro divórcio também não teria culpa. E se fosse permitido que ela se casasse uma terceira vez, o homem que se casasse com ela depois de ser divorciada duas vezes não estaria pecando (a menos que fosse seu primeiro marido). Portanto, o Deus que odiava o divórcio, amava divorciados e graciosamente, ofereceu a eles outra chance.

Um Resumo Deixe-me resumir o que descobrimos até agora: Mesmo que Deus tenha declarado Seu ódio pelo divórcio, Ele não deu indicação antes ou durante a velha aliança que recasamento era pecado, com duas exceções: (1) a mulher divorciada duas vezes ou divorciada e viúva recasando-se com seu primeiro marido e (2) o caso de uma mulher divorciada casando-se com um sacerdote. Mais adiante, Deus não deu indicação que casar-se com uma pessoa divorciada era pecado, exceto para sacerdotes. Aparentemente, isto vai contra o que Jesus disse sobre pessoas divorciadas que recasam e aqueles que se casam com pessoas divorciadas. Jesus disse que tais pessoas cometem adultério (veja Mt. 5:32). Portanto, estamos interpretando mal a Jesus, a Moisés ou Deus mudou Sua lei. Minha suspeita é que possamos estar interpretando mal o que Jesus ensinou, pois me parece estranho que Deus dissesse que algo que é moralmente aceitável durante mil e quinhentos anos debaixo da Lei que Ele deu a Israel fosse pecado. Antes de enfrentarmos esta contradição aparente, deixe-me ressaltar que a permissão de Deus ao recasamento debaixo da velha aliança não carregava condições que eram baseadas nos motivos do divórcio ou no grau de culpa da pessoa no divórcio. Deus nunca disse que certos divorciados estavam desqualificados para o recasamento, pois seus divórcios não tinham motivos legítimos. Ele nunca disse que algumas pessoas eram dignas de se recasarem por causa da legitimidade de seus divórcios. Mesmo assim, ministros modernos tentam fazer tais julgamentos baseando-se num lado da história. Por exemplo, uma mulher divorciada tenta convencer seu pastor que é digna de poder recasar, pois foi somente a vítima do divórcio. Seu ex-marido divorciou-se dela — e não o contrário. Mas se aquele pastor tivesse a oportunidade de ouvir o lado do marido, poderia vir a ser solidário a ele. Talvez ela tenha sido um monstro tendo, portanto, parte da culpa. Conheci um casal que ambos tentaram provocar o outro a pedir o divórcio para que pudessem se livrar da culpa de ser a pessoa que pediu o divórcio. Ambos queriam dizer que foi o cônjuge, não eles, que pediu o divórcio, permitindo, assim, seu casamento subsequente. Podemos enganar as pessoas, mas não a Deus. Por exemplo, qual é a avaliação dEle da mulher, que, em desobediência à Palavra de Deus, nega continuamente o sexo ao seu marido e, então, se divorcia por ele não ter-lhe sido fiel? Ela não é, pelo menos em parte, responsável pelo divórcio? O caso da mulher divorciada duas vezes que acabamos de ler em Deuteronômio 24 nada diz sobre a legitimidade de seus dois divórcios. O primeiro marido encontrou nela “algo que ele reprova”. Se isto tivesse sido adultério, ela seria digna de morte de acordo com a Lei de Moisés, que prescrevia que adúlteros deveriam ser apedrejados (veja Lv. 20:10). Portanto, se adultério for o único motivo legítimo para o divórcio, talvez seu primeiro marido não tinha um bom motivo para se divorciar dela. Por outro lado, talvez ela tenha cometido adultério, e ele, sendo um homem santo como José de Maria, “pretendia anular o casamento secretamente” (Mt. 1:19). Existem muitos cenários possíveis. É dito que seu segundo marido se divorciou por “não gostar mais dela”. Mais uma vez, não sabemos se alguém é culpado ou se dividem a culpa. Mas não faz diferença. A graça de Deus foi estendida sobre ela para se casar com qualquer um que desse uma chance a uma mulher divorciada duas vezes, com exceção de seu primeiro marido.

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Uma Objeção É muitas vezes dito que “se disserem que é permitido que pessoas recasem depois de se divorciarem por qualquer motivo, isso as encorajará a divorciarem-se por motivos ilegítimos”. Acho que isso pode ser verdade em alguns casos de pessoas meramente religiosas que não estão tentando verdadeiramente agradar a Deus, mas reprimir pessoas que não são submetidas a Deus de pecar é um exercício inútil. Contudo, pessoas que são realmente submetidas a Deus em seus corações não estão procurando formas de pecar. Estão tentando agradar a Deus, e esse tipo de pessoas normalmente tem casamentos fortes. Mais adiante, Deus, aparentemente, não estava muito preocupado com pessoas debaixo da velha aliança se divorciando por motivos ilegítimos devido a uma lei liberal de recasamento porque Ele deu a Israel uma lei liberal de recasamento. Devemos evitar dizer às pessoas que Deus está disposto a perdoá-las de qualquer pecado, pois serão encorajadas a pecar, porque sabem que o perdão está disponível? Se a resposta for sim, teremos que parar de pregar o evangelho. Novamente, tudo se resume à condição dos corações das pessoas. Aquelas que amam a Deus querem obedecê-Lo. Eu sei muito bem que o perdão de Deus estaria disponível se eu o pedisse, sem importar que pecado eu possa cometido. Mas isso não me motiva a pecar nem um pouco, porque amo a Deus e renasci; fui transformado por Sua graça e quero agradá-Lo. Deus sabe que não há necessidade de adicionar mais uma consequência negativa às muitas outras inevitáveis do divórcio com esperança de motivar as pessoas a continuarem casadas. Dizer às pessoas com problemas no casamento que é melhor não se divorciem, pois nunca serão permitidas casarem-se novamente proporciona pouca motivação para que permaneçam casadas. Mesmo que acreditem em você, a perspectiva de uma vida solteira comparada a uma vida de pobreza marital contínua parece o céu à pessoa casada miseravelmente.

Paulo no Recasamento Antes de atacarmos o problema de harmonizar as palavras de Jesus sobre o recasamento com as de Moisés, precisamos perceber que há mais um autor bíblico que concorda com Moisés, e seu nome é Paulo, o apóstolo. Paulo escreveu claramente que o recasamento para divorciados não é pecado, concordando com o que o Velho Testamento diz: Quanto às pessoas virgens, não tenho mandamento do Senhor, mas dou meu parecer como alguém que, pela misericórdia de Deus, é digno de confiança. Por causa dos problemas atuais, penso que é melhor o homem permanecer como está. Você está casado? Não procure separar-se. Está solteiro? Não procure esposa. Mas, se vier a casar-se, não comete pecado; e, se uma virgem se casar, também não comete pecado. Mas aqueles que se casarem enfrentarão muitas dificuldades na vida, e eu gostaria de poupá-los disso (1 Co. 7:25-28, ênfase adicionada). Não há dúvida que Paulo estava falando a pessoas divorciadas nesta passagem. Ele aconselhou os casados, os solteiros e os divorciados a continuarem em seu estado atual por causa da perseguição que os cristãos estavam sofrendo na época. Contudo, Paulo deixou claro que pessoas divorciadas e virgens não pecariam se recasassem. Note que Paulo não qualificou a legalidade do recasamento de pessoas divorciadas. Ele não disse que recasamentos só eram permitidos se a pessoa divorciada não tivesse parcela de culpa em seu divórcio anterior. (E que outra pessoa além de Deus está qualificada a julgar tal coisa?) Ele não disse que recasamento só era permitido àqueles que tinham sido divorciados antes de sua salvação. Não, ele disse simplesmente que recasamento não é pecado para pessoas divorciadas. Paulo era Flexível Sobre o Divórcio? (Was Paul Soft on Divorce?) Por Paulo ter endossado uma política generosa sobre recasamento, isso quer dizer que ele também era flexível sobre o divórcio? Não, Paulo era claramente contra o divórcio em geral. Mais cedo no mesmo capítulo de sua carta aos coríntios, ele deixou uma lei sobre o divórcio que está em harmonia com o ódio de Deus pelo divórcio: 136


Aos casados, dou este mandamento, não eu, mas o Senhor: Que a esposa não se separe do seu marido. Mas se o fizer, que permaneça sem se casar ou, então, reconcilie-se com o seu marido. E o marido não se divorcie da sua mulher. Aos outros, eu mesmo digo isto, não o Senhor: Se um irmão tem mulher descrente, e ela se dispõe a viver com ele, não se divorcie dela. E, se uma mulher tem marido descrente, e ele se dispõe a viver com ela, não se divorcie dele. Pois o marido descrente é santificado por meio da mulher, e a mulher descrente é santificada por meio do marido. Se assim não fosse, seus filhos seriam impuros, mas agora são santos. Todavia, se o descrente separar-se, que se separe. Em tais casos, o irmão ou irmã não fica debaixo de servidão; Deus nos chamou para vivermos em paz. Você, mulher, como sabe se salvará seu marido? Ou você, marido, como sabe se salvará sua mulher? Entretanto, cada um continue vivendo na condição que o Senhor lhe designou e de acordo com o chamado de Deus. Está é a minha ordem para todas as igrejas (1 Co. 7:10-17). Note que Paulo se dirige primeiramente a crentes casados com crentes. Eles não devem se divorciar é claro, e Paulo diz que essa não é sua instrução, mas do Senhor. E com certeza, isto concorda com tudo o que consideramos na Bíblia até agora. É aqui que fica interessante. Paulo era, obviamente, realístico o suficiente para perceber que mesmo crentes podem se divorciar em casos raros. Se isso ocorre, Paulo diz que a pessoa que se divorciou de seu esposo ou sua esposa deve continuar descasado ou se reconciliar com ele/ela. (Mesmo que Paulo dê estas instruções específicas às esposas, eu assumo que as mesmas regas se apliquem aos esposos.) Novamente, o que Paulo escreve não nos surpreende. Primeiro, ele deixou a lei de Deus a respeito do divórcio, mas é inteligente o suficiente para saber que a lei de Deus pode não ser sempre obedecida. Portanto, quando o pecado do divórcio ocorre entre dois crentes, ele dá mais instruções. A pessoa que se divorciou de seu cônjuge deve continuar descasada ou se reconciliar com seu cônjuge. Com certeza, esta seria a melhor coisa no evento de divórcio entre crentes. Desde que ambos continuem descasados, há chance de reconciliação. (E obviamente, se tivessem cometido um pecado imperdoável pelo divórcio, haveria pouco motivo para Paulo dizer-lhes para continuarem descasados ou para se reconciliarem.) Você acha que Paulo era inteligente o suficiente para saber que sua segunda diretriz a crentes divorciados poderia não ser sempre obedecida? Eu acho que sim. Talvez não tenha dado mais diretrizes para crentes divorciados por esperar que os verdadeiros crentes seguissem sua primeira diretriz de não se divorciarem e, portanto, somente para casos raros sua segunda diretriz seria necessária. Com certeza, verdadeiros seguidores de Cristo, se tivessem problemas conjugais, fariam todo o possível para preservar seus casamentos. E certamente, um crente que, depois de todas as tentativas para preservar o casamento, sentisse que não tinha outra alternativa além do divórcio, este crente por pura vergonha pessoal e desejo de honrar a Cristo, não consideraria se recasar com qualquer outra pessoa, e ainda esperaria a reconciliação. Parece-me que o real problema na igreja moderna a respeito do divórcio é que há um percentual muito alto de falsos crentes, pessoas que nunca realmente creram e, portanto, se submeteram ao Senhor Jesus Cristo. É bem claro, pelo que Paulo escreveu em 1 Coríntios 7, que Deus tem maiores expectativas para crentes, pessoas que são habitadas pelo Espírito Santo, que para incrédulos. Paulo escreveu, como lemos, que crentes não devem se divorciar de seus cônjuges incrédulos desde que tais cônjuges estejam dispostos a viver com eles. Mais uma vez, esta diretriz não nos surpreende, já que está em perfeita harmonia com tudo mais que lemos sobre o assunto nas Escrituras. Deus é contra o divórcio. Contudo, Paulo continua dizendo que se o ímpio quer o divórcio, o crente deve permiti-lo. Ele sabe que o incrédulo não é submetido a Deus, e assim não espera que aja como tal. Deixe-me acrescentar que o fato de um ímpio concordar em morar com um crente é uma boa indicação de que está potencialmente aberto para o evangelho, ou que o crente está deteriorando ou é um falso cristão. Agora, quem diria que um crente divorciado de um incrédulo não é livre para se recasar? Paulo nunca disse tal coisa, como disse no caso de dois crentes divorciados. Teríamos que nos perguntar por que Deus seria contra o recasamento de um crente divorciado de um ímpio. A qual propósito isso serviria? Mesmo assim, tal permissão parece ir contra o que Jesus disse sobre o 137


recasamento: “Mas eu lhes digo que todo aquele que se divorciar de sua mulher, exceto por imoralidade sexual, faz que ela se torne adúltera, e quem se casar com a mulher divorciada estará cometendo adultério” (Mt. 5:32). Novamente, isso me faz suspeitar que estamos interpretando mal o que Jesus estava tentando comunicar.

O Problema Jesus, Moisés e Paulo concordam claramente que divorcio é uma indicação de pecado por parte de um ou ambos os lados do divórcio. Todos são consistentemente contra o divórcio em geral. Mas eis o nosso problema: Como podemos reconciliar o que Moisés e Paulo disseram sobre o recasamento com o que Jesus disse? Certamente, devemos esperar que devam harmonizar, já que foram todos inspirados por Deus para dizerem o que disseram. Vamos examinar exatamente o que Jesus disse e considerar com quem estava falando. Duas vezes no evangelho de Mateus encontramos Jesus discursando sobre divórcio e recasamento, uma vez no Sermão no Monte e outra quando foi questionado por alguns fariseus. Vamos começar com a conversa de Jesus com estes fariseus: Alguns fariseus aproximaram-se dele para pô-lo à prova. E perguntaram-lhe: “É permitido ao homem divorciar-se de sua mulher por qualquer motivo?” Ele respondeu: “Vocês não leram que, no princípio, o Criador ‘os fez homem e mulher’ e disse: ‘Por essa razão, o homem deixará pai e mãe e se unirá a sua mulher, e os dois se tornarão uma só carne’? Assim, eles já não são dois, mas sim uma só carne. Portanto, o que Deus uniu, ninguém separe”. Perguntaram eles: “Então, por que Moisés mandou dar uma certidão de divórcio à mulher e mandá-la embora?” Jesus respondeu: “Moisés permitiu que vocês se divorciassem de suas mulheres por causa da dureza de coração de vocês. Mas não foi assim desde o princípio. Eu lhes digo que todo aquele que se divorciar de sua mulher, exceto por imoralidade sexual, e se casar com outra mulher, estará cometendo adultério” (Mt. 19:3-9). Durante esta conversa com Jesus, os fariseus se referiram a uma porção da Lei Mosaica que mencionei mais cedo, Deuteronômio 24:1-4. Lá estava escrito: Se um homem casar-se com uma mulher e depois não a quiser mais por encontrar nela algo que ele reprova, dará certidão de divórcio à mulher e a mandará embora... (Dt. 24:1, ênfase adicionada). Nos dias de Jesus, havia duas escolas de pensamento a respeito do que constituía indecência, ou “algo que ele reprova.” Cerca de vinte anos antes, um rabbi chamado Hillel ensinou que uma indecência era uma diferença irreconciliável. No tempo que Jesus teve Seu debate com os fariseus, a interpretação “Hillel” havia se tornado ainda mais liberal, permitindo o divórcio por quase “qualquer motivo”, como indica a pergunta dos fariseus a Jesus. Um homem podia divorciar-se de sua mulher se ela queimasse seu jantar, colocasse muito sal na comida, expusesse seu joelho em público, soltasse o cabelo, falasse com outro homem, dissesse algo indelicado sobre sua sogra ou fosse infértil. Um homem podia se divorciar de sua mulher até se visse alguém mais atraente que ela, vendo assim nela “algo que ele reprova”. Outro rabbi famoso, Shammai, que viveu antes de Hillel, ensinou que “algo que ele reprova” era somente algo muito imoral, como adultério. Como você deve suspeitar, a interpretação liberal de Hillel era muito mais popular que a de Shammai entre os fariseus dos dias de Jesus. Os fariseus viviam e ensinavam que o divórcio era legal por qualquer motivo e, portanto, o divórcio era desenfreado. Os fariseus, em seus jeitos típicos farisaicos, enfatizavam a importância de dar a sua mulher a carta de divórcio quando a mandasse embora, para “não quebrar a Lei de Moisés”.

Não se Esqueça que Jesus Estava Falando com Fariseus Com este histórico em mente, podemos entender melhor o que Jesus estava enfrentando. Diante dEle estava um grupo de professores religiosos hipócritas, muitos dos quais, se não todos, 138


tinham se divorciado uma ou mais vezes e, provavelmente, por terem encontrado companheiras mais atraentes. (Não acho que seja coincidência que as palavras de Jesus sobre divórcio no Sermão do Monte sigam Suas exortações a respeito da cobiça, também a chamando de forma de adultério.) Mesmo assim, estavam se justificando, dizendo que obedeceram à Lei de Moisés. A própria pergunta revela sua inclinação. Eles acreditavam claramente que um homem podia se divorciar de sua mulher por qualquer motivo. Jesus expôs a falta de entendimento dos fariseus a respeito da intenção de Deus no casamento apelando para as palavras de Moisés sobre o casamento no capítulo 2 de Gênesis. Deus nunca quis que existisse nenhum divórcio, muito menos por “qualquer motivo”, mesmo assim, os líderes de Israel estavam se divorciando de suas mulheres assim como adolescentes terminam suas “paqueras”! Imagino que os fariseus já sabiam a posição de Jesus sobre o divórcio, já que Ele havia afirmado publicamente antes e, portanto, estavam prontos com sua refutação: “Então, por que Moisés mandou dar uma certidão de divórcio à mulher e mandá-la embora?” (Mt. 19:7). Novamente, essa pergunta revela a inclinação deles. Ela foi formulada de forma a deixar transparecer que Moisés estava mandando os homens se divorciarem se suas esposas quando descobrissem “algo que ele não aprova”, e requerendo um certificado de divórcio próprio. Mas como sabemos, depois ler de Deuteronômio 24:1-4, não é isso que Moisés quis dizer. Ele só estava regulamentando o terceiro casamento de uma mulher, proibindo-a de recasar com seu primeiro marido. Já que Moisés mencionou divórcio, ele deve ter sido permitido por algum motivo. Mas note como o verbo que Jesus usa em Sua resposta, permitiu, contrasta com a escolha do verbo dos fariseus, mandou. Moisés permitiu o divórcio; nunca mandou. A razão de Moisés ter permitido o divórcio foi por causa da dureza dos corações dos israelitas. Isto é, Deus permitiu o divórcio como concessão misericordiosa à iniquidade das pessoas. Ele sabia que as pessoas seriam infiéis para com seus cônjuges. Sabia que haveria imoralidades. Ele sabia que os corações das pessoas seriam quebrados. Portanto, permitiu o divórcio. Não era a intenção dEle, mas o pecado o fez necessário. Depois, Jesus expôs a Lei de Deus aos fariseus, talvez até definindo o que era o “algo que ele reprova” de Moisés: “Eu lhes digo que todo aquele que se divorciar de sua mulher, exceto por imoralidade sexual, e se casar com outra mulher, estará cometendo adultério” (Mt. 19:9, ênfase adicionada). Aos olhos de Deus, imoralidade sexual é o único motivo válido para um homem se divorciar de sua esposa, e posso entender isto. O que um homem ou mulher pode fazer que seja mais ofensivo ao seu cônjuge? Quando alguém comete adultério ou tem um caso, ele/ela envia uma mensagem brutal. Com certeza, Jesus não estava se referindo somente a adultério quando disse “imoralidade sexual”. Certamente, beijos apaixonados e carícias no cônjuge de outra pessoa seria uma imoralidade ofensiva, assim como a prática de ver pornografia e outras perversões sexuais. Lembre-se que Jesus igualou cobiça ao adultério durante Seu Sermão no Monte. Não vamos nos esquecer com quem Jesus estava falando — fariseus que estavam se divorciando de suas mulheres por qualquer motivo e recasando rapidamente, mas que nunca cometiam adultério, a menos que quebrassem o sétimo mandamento. Jesus estava dizendo a eles que estavam somente enganando a si mesmos. O que estavam fazendo não era diferente de adultério, e isso faz sentido. Qualquer pessoa honesta pode ver que um homem que se divorcia de sua mulher para poder casar com outra está fazendo o que um adúltero faz, mas debaixo do pretexto da legalidade.

A Solução Esta é a chave para harmonizar Jesus com Moisés e Paulo. Jesus estava simplesmente expondo a hipocrisia dos fariseus. Ele não estava dando uma lei que proíbe qualquer recasamento. Se estivesse, estaria contradizendo Moisés e Paulo e criando uma confusão para milhões de divorciados e milhões de pessoas recasadas. Se Jesus estivesse dando uma lei de recasamento, o que diríamos àqueles que se 139


divorciaram e recasaram antes de terem ouvido sobre a Lei de Jesus? Devemos dizer-lhes que estão vivendo em relacionamentos adúlteros e sabendo que a Bíblia exorta que nenhum adúltero herdará o Reino de Deus (veja 1 Co. 6:9-10), instrui-los a se divorciarem novamente? Mas Deus não odeia o divórcio? Devemos dizer-lhes para parar de ter sexo com seus cônjuges até que seus ex-cônjuges morram para evitar que cometam adultério regularmente? Mas Paulo não proíbe que casais evitem sexo um ao outro? Tal recomendação não levaria a tentações sexuais e até a estimular desejos para que seus excônjuges morram? Devemos dizer a tais pessoas que se divorciem de seus atuais cônjuges e recasem com seus cônjuges originais (como defendido por alguns), algo que foi proibido pela Lei Moisaica em Deuteronômio 24:1-4? E as pessoas divorciadas que nunca recasaram? Se só forem permitidas recasar com seus antigos cônjuges que cometeram adultério ou alguma imoralidade, quem determinará se uma imoralidade realmente foi cometida? Para poder recasar, uma pessoa terá que provar que seu antigo cônjuge era culpado de cobiça, enquanto outra precisará trazer testemunhas do caso de seu cônjuge? Como perguntei mais cedo, e sobre os casos onde o primeiro cônjuge cometeu adultério, em parte por estar casado com uma pessoa que lhe negou o sexo? É justo que a pessoa que negou o sexo possa recasar enquanto a outra que cometeu o adultério não? E sobre a pessoa que cometeu fornicação antes do casamento? O seu ato de fornicação não é um ato de infidelidade para com seu futuro cônjuge? O pecado dessa pessoa não seria considerado equivalente ao adultério se ela ou seu parceiro sexual estivessem casados no período desse pecado? Por que essa pessoa pode casar? E duas pessoas que moram juntas, não casadas, e então “se separam”? Por que é permitido que se casem com outra pessoa depois dessa separação; só por não terem se casado oficialmente? Qual é a diferença entre eles e aqueles que se divorciam e recasam? E sobre o fato que “as coisas antigas já passaram” e que “surgiram coisas novas” quando uma pessoa se torna cristã (veja 2 Co. 5:17)? Isso realmente significa todos os pecados exceto o pecado de divórcio ilegítimo? Todas essas perguntas[1] podem ser feitas e muitas outras que são fortes motivos para pensarmos que Jesus não estava deixando um novo mandamento a respeito do recasamento. Com certeza, Jesus era inteligente o suficiente para se dar conta das ramificações de Sua nova lei de recasamento, se era isso mesmo. Isto por si só é suficiente para nos dizer que Ele estava somente expondo a hipocrisia dos fariseus — homens cobiçosos, religiosos e hipócritas que estavam se divorciando de suas esposas “por qualquer motivo” e se recasando. Certamente, a razão de Jesus ter dito que estavam “cometendo adultério” ao invés de simplesmente dizer que o que estavam fazendo era errado é que queria que vissem que divórcio por qualquer motivo e recasamento subsequente não é diferente de adultério, algo que diziam nunca fazer. Devemos concluir, então, que a única coisa com a qual Jesus estava preocupado era o aspecto sexual de um recasamento e que aprovaria o recasamento desde que houvesse abstinência sexual? Obviamente não. Portanto, não vamos fazê-lo dizer o que nunca pretendeu.

Uma Comparação Cuidadosa Vamos imaginar duas pessoas. Uma é um homem casado, religioso, que diz amar a Deus com todo o seu coração e que começa a cobiçar uma mulher mais jovem da casa ao lado. Logo, ele se divorcia de sua esposa e rapidamente se casa com a moça de suas fantasias. O outro homem não é religioso. Ele nunca ouviu o evangelho e tem um estilo de vida pecaminoso, que finalmente lhe custa seu casamento. Alguns anos mais tarde, como solteiro, ouve o evangelho, se arrepende e começa a seguir a Jesus de todo o seu coração. Três anos mais tarde, se apaixona por uma mulher cristã muito compromissada que conhece em sua igreja. Ambos buscam ao 140


Senhor diligentemente e o conselho de outros e por fim decidem se casar. Eles se casam e servem fielmente ao Senhor e um ao outro até a morte. Agora, vamos assumir que ambos os homens pecaram ao se recasar. Qual dos dois tem o maior pecado? Obviamente o primeiro homem. Ele é como um adúltero. E quanto ao segundo homem? Realmente parece que ele pecou? Pode ser dito que ele não é diferente de um adúltero, como pode ser dito do primeiro homem? Eu acho que não. Devemos dizer a ele o que Jesus disse sobre aqueles que se divorciam e depois recasam, informando-lhe que está vivendo com uma mulher com quem Deus não uniu, porque Deus ainda o considera casado com sua primeira esposa? Devemos dizer a ele que está vivendo em adultério? As respostas são óbvias. Adultério é cometido por pessoas casadas que colocam seus olhos sobre alguém além de seus cônjuges. Portanto, se divorciar de seu cônjuge por encontrar alguém mais atraente é o mesmo que adultério. Mas uma pessoa não casada e uma divorciada não podem cometer adultério, já que não têm cônjuges para com quem ser infiéis. Uma vez que entendemos o contexto bíblico e histórico do que Jesus disse, não inventemos conclusões que não fazem sentido e que contradizem o resto da Bíblia. Casualmente, quando os discípulos ouviram a resposta de Jesus à pergunta dos fariseus, responderam dizendo: “Se esta é a situação entre o homem e sua mulher, é melhor não casar”(Mt. 19:10). Perceba que eles haviam crescido debaixo do ensinamento e influência dos fariseus e dentro de uma cultura que era grandemente influenciada pelos fariseus. Eles nunca haviam considerado o casamento permanente. Aliás, até alguns minutos atrás, eles também, provavelmente acreditavam que era legal que um homem se divorciasse de sua esposa por qualquer motivo. Portanto, eles concluíram rapidamente que deveria ser melhor evitar o casamento e não arriscar cometer divórcio e adultério. Jesus respondeu, Nem todos têm condições de aceitar esta palavra; somente aqueles a quem isso é dado. Alguns são eunucos porque nasceram assim; outros foram feitos assim pelos homens; outros ainda se fizeram eunucos por causa do Reino dos céus. Quem puder aceitar isso, aceite (Mt. 19:11-12). Isto é, o impulso sexual de alguém e/ou a habilidade de controle é o maior fator determinante. Até Paulo disse: “é melhor casar-se do que ficar ardendo de desejo” (1 Co. 7:9). Aqueles que são eunucos, ou são feitos eunucos pelos homens (como era feito por homens que precisavam de outros homens em quem podiam confiar para guardar seus haréns) não têm desejos sexuais. Aqueles que se fazem “eunucos por causa do Reino dos céus” parecem ser aqueles que são agraciados por Deus com controle próprio extra, pois “nem todos têm condições de aceitar esta palavra; somente aqueles a quem isso é dado” (Mt. 19:11).

O Sermão do Monte Devemos nos lembrar que a multidão a quem Jesus falou durante Seu Sermão do Monte também era de pessoas que haviam passado suas vidas debaixo da influência hipócrita dos fariseus, governantes e professores de Israel. Como aprendemos mais cedo em nosso estudo do Sermão do Monte, é óbvio que muito do que Jesus disse era nada menos que uma correção dos falsos ensinos dos fariseus. Jesus até disse à multidão que não entrariam no céu, a menos que sua retidão excedesse a dos escribas e fariseus (veja Mt. 5:20), que era outro jeito de dizer que todos os escribas e fariseus estavam indo para o inferno. No fim de Seu sermão, as multidões estavam impressionadas, em parte, porque Jesus estava ensinando “não como os mestres da lei” (Mt. 7:29). Cedo em Seu sermão, Jesus expôs a hipocrisia daqueles que dizem nunca cometer adultério, mas que cobiçam ou se divorciam e recasam. Ele expandiu o significado de adultério além do ato físico pecaminoso entre duas pessoas que são casadas com outras. O que Ele disse seria óbvio para qualquer pessoa honesta que pensasse um pouco. Mantenha em mente que até o sermão de Jesus, a maioria das pessoas na multidão teria pensado que era legal o divórcio “por qualquer motivo”. Jesus queria 141


que Seus seguidores e todos os outros soubessem que desde o início a intenção de Deus era um padrão muito mais alto. Vocês ouviram o que foi dito: “Não adulterarás”. Mas eu lhes digo: Qualquer que olhar para uma mulher para desejá-la, já cometeu adultério com ela no seu coração. Se o seu olho direito o fizer pecar, arranque-o e lance-o fora. É melhor perder uma parte do seu corpo do que ser todo ele lançado no inferno. E se a sua mão direita o fizer pecar, corte-a e lance-a fora. É melhor perder uma parte do seu corpo do que ir todo ele para o inferno. Foi dito: “Aquele que se divorciar de sua mulher deverá dar-lhe certidão de divórcio”. Mas eu lhes digo que todo aquele que se divorciar de sua mulher, exceto por imoralidade sexual, faz que ela se torne adúltera, e quem se casar com a mulher divorciada estará cometendo adultério (Mt. 5:27-32). Primeiramente, como mostrei mais cedo, note que as palavras de Jesus sobre o divórcio e recasamento não somente segue diretamente Suas palavras sobre cobiça, ligando-as, mas que Jesus iguala ambas ao adultério, ligando-as ainda mais. Portanto, vemos o fio em comum que percorre essa porção inteira das Escrituras. Jesus estava ajudando Seus seguidores a entender o que realmente significa obedecer ao sétimo mandamento. Significa não cobiçar e não se divorciar e se recasar. Todos em Sua audiência israelita tinham ouvido o sétimo mandamento lido na sinagoga (as pessoas não possuíam Bíblias), e também ouvido a exposição, assim como observado sua aplicação nas vidas de seus professores, os escribas e fariseus. Em seguida, Jesus disse: “mas eu lhes digo”, porém Ele não estava adicionando novas leis. Estava somente revelando o propósito original de Deus. Em primeiro lugar, a cobiça era claramente proibida pelo décimo mandamento, e mesmo sem o décimo mandamento, qualquer um que pensasse no assunto perceberia que é errado desejar o que Deus condena. Segundo, desde os primeiros capítulos de Gênesis, Deus deixou claro que o casamento deveria ser um compromisso para a vida inteira. Mais adiante, qualquer um que pensasse sobre isso teria concluído que divórcio e recasamento é bem parecido com o adultério, especialmente quando alguém se divorcia com o propósito de recasar. Mas novamente, nesse sermão é óbvio que Jesus estava somente ajudando as pessoas a verem a verdade sobre a cobiça e sobre o divórcio, por qualquer motivo, e recasamento. Ele não estava dando uma nova lei de recasamento que até agora não estava “nos livros”. É interessante que poucos na igreja têm interpretado literalmente as palavras de Jesus sobre arrancar seus olhos ou cortar suas mãos, já que tais ideias são contra o resto das Escrituras, e podem servir somente para fortalecer a ideia de evitar tentações sexuais. Mesmo assim, tantos na igreja tentam interpretar literalmente as palavras de Jesus sobre a pessoa recasada cometendo adultério, mesmo quando uma interpretação tão literal contradiz muito do resto das Escrituras. O alvo de Jesus era que Sua audiência enfrentasse a verdade, com a esperança que houvesse menos divórcios. Se Seus seguidores guardassem de coração o que disse sobre a cobiça, não haveria imoralidade entre eles. Se não houvesse imoralidade, não haveria legitimidade para o divórcio, e não haveria divórcio, assim como Deus quis desde o começo.

Como um Homem faz Sua Esposa Cometer Adultério? Note que Jesus disse: “todo aquele que se divorciar de sua mulher, excepto por imoralidade sexual, faz que ela se torne adúltera”. Novamente, isso nos leva a concluir que Ele não estava dando uma nova lei de recasamento, somente revelando a verdade sobre o pecado de um homem que se divorcia de sua mulher sem um bom motivo. Ele “faz que ela se torne adúltera”. Alguns dizem que Jesus estava, portanto, proibindo seu recasamento, porque faz disso um adultério. Mas isso é absurdo. A ênfase está no pecado do homem que está se divorciando. Por causa do que ele faz, sua esposa não terá outra escolha, a não ser a de recasar, o que não é pecado por parte dela, já que foi somente vítima do egoísmo de seu marido. Contudo, aos olhos de Deus, porque o homem deixou sua mulher necessitada sem escolha, mas a de recasar, é como se ele tivesse forçado sua esposa a ir para a cama 142


com outro homem. Portanto, o que pensa que não cometeu adultério é culpado de adultério duplo, seu e de sua esposa. Jesus não podia estar dizendo que Deus culpa a mulher vitimizada de adultério, já que seria completamente injusto e, aliás, seria completamente sem sentido se a esposa vitimizada nunca se casasse novamente. Como Deus poderia dizer que ela era adúltera a não ser que ela tivesse recasado? Não faz o menor sentido. Portanto, é simples ver que Deus culpa o homem pelo seu próprio adultério e pelo “adultério” de sua esposa, que na verdade não é adultério para ela. É recasamento legal. E sobre a próxima fala de Jesus: “quem se casar com a mulher divorciada estará cometendo adultério”? Existem somente duas possibilidades que fazem sentido. Jesus estava adicionando um terceiro caso de divórcio contra o homem que pensa que nunca cometeu adultério (por um motivo semelhante ao adicionado no segundo caso), ou estava falando do homem que encoraja uma mulher a divorciar-se de seu marido para se casar com ela e não cometer adultério. Se Jesus estivesse falando que qualquer homem na terra que se casa com uma mulher divorciada está cometendo adultério, todos os homens israelitas haviam cometido adultério durante os cem anos anteriores, em completa obediência à Lei de Moisés, casando-se com mulheres divorciadas. Aliás, naquele dia, todos os homens na audiência de Jesus que estavam, no momento, casados com uma mulher divorciada em conformidade à Lei de Moisés, repentinamente se tornaram culpados do que não eram há um minuto atrás, e Jesus deve ter mudado a lei de Deus naquela hora. Mais adiante, todas as pessoas, no futuro, que se casariam com uma pessoa divorciada, confiando nas palavras de Paulo em sua carta aos Coríntios, dizendo que isso não era pecado, estariam na verdade, pecando, cometendo adultério. O espírito da Bíblia me levaria a admirar o homem que se casou com uma mulher divorciada. Se ela tivesse sido uma vítima sem culpa do egoísmo de seu marido, eu admiraria aquele homem, assim como admiro o homem que se casa com uma viúva, protegendo-a. Se ela tivesse parte da culpa em seu divórcio, eu o admiraria por sua semelhança com Cristo em acreditar no melhor dela, e por sua graça em querer esquecer o passado e assumir o risco. Por que, alguém que leu a Bíblia e que tem o Espírito Santo concluiria que Jesus estava proibindo a todos de se casarem com qualquer divorciado? Como esta visão se encaixa na justiça de Deus, uma justiça que nunca puniria alguém por ser vítima, como o caso da mulher que é divorciada sem culpa? Como tal visão se encaixa na mensagem do evangelho, que oferece perdão e outra chance a pecadores arrependidos?

Resumindo A Bíblia diz consistentemente que o divórcio sempre envolve pecado de uma ou ambas as partes. Deus nunca quis que alguém se divorciasse, mas misericordiosamente, abriu uma cláusula para o divórcio quando a imoralidade acontecesse. Ele também, misericordiosamente, abriu uma cláusula para que pessoas divorciadas se casassem novamente. Se não fosse pelas palavras de Jesus sobre o recasamento, ninguém que lê a Bíblia pensaria que o recasamento é pecado (a não ser por dois casos bem raros debaixo da velha aliança e um caso raro debaixo da nova, ou seja, o recasamento de um cristão divorciado de outro cristão). Contudo, encontramos uma maneira lógica de harmonizar o que Jesus disse sobre o recasamento com o que o resto da Bíblia ensina. Jesus não estava substituindo a lei de recasamento de Deus por uma mais severa que proíbe todos os recasamentos em todos os casos, uma lei impossível para pessoas que já são divorciadas e recasadas obedecerem (é como tentar juntar o ovo depois de tê-lo mexido), e uma lei que criaria confusão ilimitada e levaria pessoas a quebrar outros mandamentos de Deus. Pelo contrário, Ele estava ajudando as pessoas a verem sua hipocrisia. Estava ajudando aqueles que acreditavam que nunca cometeriam adultério a ver que já estavam cometendo de outras maneiras, por sua cobiça e atitude liberal a respeito do divórcio. Como a Bíblia inteira ensina, o perdão é oferecido para pecadores arrependidos, sem levar em consideração seus pecados, e segundas e terceiras chances são dadas para pecadores, incluindo 143


pessoas divorciadas. Não há pecado algum em qualquer recasamento debaixo da nova aliança, com exceção do crente que se divorciou de outro crente, o que nunca deve ocorrer já que verdadeiros crentes não cometem imoralidades e não há, portanto, motivo válido para o divórcio. Caso aconteça tão raro evento, ambos devem continuar solteiros ou se reconciliar.

[1] Por exemplo, considere os comentários de um pastor divorciado que se encontrou excluído do corpo de Cristo quando recasou. Ele disse: “Teria sido melhor se tivesse assassinado minha esposa que me divorciado. Se tivesse cometido assassinato, poderia me arrepender, receber perdão, recasar legalmente e continuado meu ministério.”

Capítulo Quatorze

Fundamentos da Fé Sem fé é impossível agradar a Deus, pois quem dele se aproxima precisa crer que ele existe e que recompensa aqueles que o buscam (Hb. 11:6). Como crentes, nossa fé é construída sobre o fundamento de que Deus existe, e que trata os que O buscam de forma diferente dos que não O buscam. Desde que realmente acreditemos nessas duas coisas, começamos a agradar a Deus, pois começamos a buscá-Lo imediatamente. Buscar a Deus implica (1) aprender a Sua vontade, (2) obedecer a Ele e (3) crer em Suas promessas. Todos os três devem ser componentes de nossa caminhada diária. Esse capítulo focaliza nossa caminhada de fé. Infelizmente, muitos têm enfatizado a fé com pontos extremos não-bíblicos, focando em particular a área da prosperidade material. Por esse motivo, alguns têm receio de abordar o assunto. Mas o fato de alguém se afogar no rio não é motivo para pararmos de beber água. Podemos continuar balanceados e bíblicos. A Bíblia tem muito a ensinar sobre o assunto e Deus quer que exercitemos nossa fé em Suas muitas promessas. Jesus deixou o exemplo de sua fé em Deus e esperou que Seus discípulos seguissem Seu exemplo. Da mesma forma, o ministro discipulador se esforça para deixar o exemplo de confiança em Deus e ensina seus discípulos a crerem nas promessas de Deus. Isto é de vital importância. Sem fé, não somente é impossível agradar a Deus, como também é impossível receber respostas de oração (veja Mt. 21:22; Tg. 1:5-8). As Escrituras ensinam claramente que os que duvidam estão destituídos das bênçãos que os salvos recebem. Jesus disse: “Tudo é possível àquele que crê” (Mc. 9:23).

Definição de Fé A definição bíblica de fé é encontrada em Hebreus 11:1: Ora, a fé é a certeza daquilo que esperamos e a prova das coisas que não vemos. Dessa definição, aprendemos várias características de fé. Primeiro, alguém que tem fé tem certeza, ou confiança. Isso é diferente de esperança, porque a fé é “a certeza daquilo que esperamos”. Esperança sempre deixa espaço para dúvida. A esperança sempre diz “talvez”. Por exemplo, posso dizer: “Espero que chova hoje para que meu jardim seja regado”. Eu desejo a chuva, mas não tenho certeza de que choverá. Por outro lado, a fé é sempre certa, “a certeza daquilo que esperamos”. 144


Muitas vezes, o que as pessoas chamam fé ou crença, não é fé pela definição bíblica. Elas podem olhar para as nuvens escuras no céu, por exemplo, e dizer: “Acredito que choverá”. Contudo, não estão certas de que irá chover — elas acham que há uma boa possibilidade que possa chover. Isso não é fé bíblica. Nela não há dúvida. Ela não deixa espaço para qualquer outro resultado a não ser o que Deus prometeu.

Fé é a Certeza das Coisas que não Vemos A definição encontrada em Hebreus 11:1 também diz que fé é “a certeza...das coisas que não vemos”. Portanto, se podemos ver ou perceber algo com um de nossos cinco sentidos físicos, a fé não é necessária. Suponha que alguém lhe dissesse agora: “Por algum motivo que não posso explicar, tenho fé que há um livro em suas mãos”. É claro que você acharia que há algo errado com essa pessoa. Você diria: “Ora, você não precisa crer que tenho um livro em minhas mãos, pois pode ver que estou segurando um livro”. A fé pertence ao reino invisível. Por exemplo, enquanto estou escrevendo estas palavras, acredito que há um anjo ao meu lado. Na verdade, tenho certeza disso. Como posso ter tanta certeza? Eu vi um anjo? Não. Eu o ouvi ou senti voando por perto? Não. Se tivesse, visto, ouvido ou sentido um, não teria que acreditar que há um anjo ao meu lado — eu saberia. Então, o que me dá tanta certeza da presença de um anjo? Minha certeza vem de uma das promessas de Deus. Em Salmos 34:7, Ele prometeu: “O anjo do Senhor é sentinela ao redor daqueles que o temem, e os livra”. Não tenho prova, além da Palavra de Deus, para o que creio. Essa é a verdadeira fé bíblica — a “certeza... das coisas que não vemos”. Muitas vezes, as pessoas do mundo usam a expressão: “Ver é crer”. Mas no reino de Deus, a verdade é o oposto: “Crer é ver”. Quando exercitamos fé em uma das promessas de Deus, às vezes encontramos circunstâncias que nos tentam a duvidar, ou passamos por um tempo em que parece que Deus não está mantendo Sua promessa, pois nossas circunstâncias não estão mudando. Nesses casos, precisamos simplesmente resistir às dúvidas, perseverar na fé e continuar convencidos em nossos corações de que Deus sempre cumpre Sua palavra; é impossível que Ele minta (veja Tt. 1:2).

Como Obtemos Fé? Porque a fé é baseada somente nas promessas de Deus, só existe uma fonte de fé bíblica — a Palavra de Deus. Romanos 10:17 diz: “a fé vem por se ouvir a mensagem, e a mensagem é ouvida mediante a palavra de Cristo” (Rm. 10:17, ênfase adicionada). A Palavra de Deus revela Sua vontade. Somente quando conhecemos a vontade de Deus podemos crer nela. Portanto, se quiser ter fé, você deve ouvir (ou ler) as promessas de Deus. Fé não vem através da oração, jejum ou imposição de mãos sobre você. Ela só vem pelo ouvir da Palavra de Deus, e uma vez que a tiver ouvido, deve fazer a decisão de crer nela. Além da aquisição de fé, nossa fé também pode crescer. A Bíblia menciona vários tipos de fé — desde a pequena até a que move montanhas. A fé cresce à medida que é alimentada e exercitada, assim como um músculo humano. Devemos continuar a alimentar nossa fé meditando na Palavra de Deus. Isso inclui aquelas vezes que temos problemas e preocupações. Deus não quer que Seus filhos se preocupem sobre coisa alguma, mas que confiem nEle em todas as situações (veja Mt. 6:25-34, Fp. 4:68; 1 Pd. 5:7). Recusarmos a nos preocuparmos é somente uma das maneiras de exercitarmos nossa fé. Se realmente cremos no que Deus disse, falaremos e agiremos como se fosse verdade. Se você acredita que Jesus é o Filho de Deus, irá falar e agir como alguém que crê nisso. Se você acredita que Deus suprirá todas as suas necessidades, falará e agirá de acordo. Se acredita que Deus quer que você seja saudável, falará e agirá nos conformes. A Bíblia está cheia de exemplos de pessoas que, em meio a 145


circunstâncias adversas, agiram na fé em Deus e receberam milagres como resultado. Consideraremos alguns mais tarde nesse capítulo e em outro sobre cura divina. (Para alguns outros bons exemplos, veja 2 Rs. 4:1-7; Mc. 5:25-36; Lc. 19:1-10 e At. 14:7-10).

A Fé é do Coração A fé bíblica não opera em nossas mentes, mas em nossos corações. Paulo escreveu: “Pois com o coração se crê” (Rm. 10:10a). Jesus disse: Eu lhes asseguro que se alguém disser a este monte: “Levante-se e atire-se ao mar”, e não duvidar em seu coração, mas crer que acontecerá o que diz, assim lhe será feito (Mc. 11:23, ênfase adicionada). É bem possível ter dúvidas em sua mente, mas ter fé em seu coração e receber o que Deus prometeu. Na verdade, a maioria das vezes que nos esforçamos para crer nas promessas de Deus, nossas mentes, influenciadas por nossos sentidos físicos e pelas mentiras de Satanás, serão atacadas com dúvidas. Durante esses tempos, devemos substituir os pensamentos duvidosos pelas promessas de Deus e nos apegarmos a fé sem exitação.

Erros Comuns da Fé Às vezes, quando tentamos exercitar nossa fé em Deus, não recebemos o que desejamos porque não estamos agindo de acordo com a Palavra de Deus. Um dos erros mais comuns ocorre quando tentamos crer em algo que Deus não nos prometeu. Por exemplo, é bíblico que casais creiam em Deus para ter filhos, pois a Palavra de Deus contém uma promessa em que podem permanecer. Conheço casais que ouviram de médicos que nunca poderiam ter filhos. Contudo, escolheram acreditar em Deus, permanecendo nas duas promessas listadas abaixo, e hoje, são pais de crianças saudáveis: Prestem culto ao Senhor, o Deus de vocês, e ele os abençoará, dando-lhes alimento e água. Tirarei a doença do meio de vocês. Em sua terra nenhuma grávida perderá o filho, nem haverá mulher estéril. Farei completar-se o tempo de duração da vida de vocês (Ex. 23:25-26). Vocês serão mais abençoados do que qualquer outro povo! Nenhum dos seus homens ou mulheres será estéril, nem mesmo os animais do seu rebanho (Dt. 7:14). Essas promessas devem incentivar casais sem filhos! Contudo, tentar crer especificamente em um menino ou menina é outra história. Não há promessas específicas na Bíblia que dizem que podemos escolher o sexo de nossos futuros filhos. Devemos permanecer dentro dos limites das Escrituras para que nossa fé tenha efeito. Só podemos confiar em Deus para o que Ele nos prometeu. Vamos considerar uma promessa da Palavra de Deus e determinar o que podemos acreditar baseando-nos nessa promessa: Pois, dada a ordem, com a voz do arcanjo e o ressoar da trombeta de Deus, o próprio Senhor descerá dos céus, e os mortos em Cristo ressuscitarão primeiro (1 Ts. 4:16). Baseando-nos nessa passagem, podemos crer com toda a certeza que Jesus voltará. Contudo, podemos orar crendo que Jesus voltará amanhã? Não, porque nem essa, nem qualquer outra passagem nos promete isso. Aliás, Jesus disse que ninguém sabe o dia ou a hora de Sua volta. Podemos orar, é claro, esperando que Jesus volte amanhã, mas não teríamos a garantia de que isso aconteceria. Quando oramos com fé, temos certeza de que, o que estamos orando, vai acontecer, pois temos a promessa de Deus. Baseados nessa mesma passagem, podemos crer que os corpos dos crentes que morreram serão ressuscitados na volta de Jesus. Mas será que podemos ter fé de que os que estiverem vivos na volta de Cristo receberão corpos ressurretos na mesma hora ou talvez ainda antes que “os mortos em Cristo”? Não, porque as Escrituras nos prometem o contrário: Os “mortos em Cristo ressuscitarão 146


primeiro”. Aliás, o próximo versículo diz: “Depois, nós os que estivemos vivos seremos arrebatados com eles nas nuvens (1 Ts. 4:17). Portanto, não há possibilidade de que os “mortos em Cristo” não sejam os primeiros a receber corpos ressurretos quando Jesus voltar. É isso que a Palavra de Deus promete. Se formos confiar em Deus para algo, devemos ter certeza que é a vontade dEle que recebamos o que desejamos. A vontade de Deus só pode ser determinada com segurança examinando Suas promessas registradas na Bíblia. A fé funciona da mesma maneira no reino natural. Seria tolice sua acreditar que eu te visitaria amanhã ao meio-dia a não ser que eu lhe prometesse estar lá a essa hora. Fé, sem promessa em que se firmar, não é fé — é tolice. Então, antes de pedir a Deus por qualquer coisa, faça a si mesmo a seguinte pergunta — que passagem da Bíblia me promete o que quero? A menos que tenha uma promessa, você não tem base para sua fé.

Um Segundo Erro Comum Muitas vezes, cristãos esperam que uma das promessas de Deus aconteça em suas vidas sem que preencham todos os requisitos que acompanham a promessa. Por exemplo, já ouvi cristãos citarem Salmo 37 e dizer: “A Bíblia diz que Deus me dará os desejos do meu coração. É nisso que creio”. Contudo, a Bíblia não diz apenas que Deus nos dará os desejos de nossos corações. Na verdade, é isso o que ela diz: Não se aborreça por causa dos homens maus e não tenha inveja dos perversos; pois como o capim logo secarão, como a relva verde logo murcharão. Confie no Senhor e faça o bem; assim você habitará na terra e desfrutará segurança. Deleite-se no Senhor, e ele atenderá aos desejos do seu coração. Entregue o seu caminho ao Senhor; confie nele, e ele agirá (Sl. 37:1-5). Existem várias condições para crermos que Deus nos dará os desejos dos nossos corações. Contei pelo menos oito na promessa acima. A menos que preenchamos os requisitos, não temos direito de receber a bênção prometida. Nossa fé não tem base. Cristãos também gostam de citar a promessa encontrada em Filipenses 4:19: “O meu Deus suprirá todas as necessidades de vocês, de acordo com as suas gloriosas riquezas em Cristo Jesus”. Contudo, existem requisitos a essa promessa? Com certeza, sim. Se examinar o contexto da promessa encontrada em Filipenses 4:19, verá que não é uma promessa a todos os cristãos, mas aos cristãos doadores. Paulo sabia que Deus supriria todas as necessidades dos filipenses porque eles tinham enviado uma oferta a ele. Por estarem buscando em primeiro lugar o reino de Deus, como Jesus mandou, Deus supriria todas as suas necessidades, como Jesus prometeu (veja Mt. 6:33). Muitas das promessas na Bíblia que são relacionadas a Deus suprir nossas necessidades matérias tem a condição de sermos doadores. Não temos o direito de pensar que podemos confiar em Deus para suprir nossas necessidades se não estamos obedecendo aos Seus mandamentos a respeito de dinheiro. Debaixo da velha aliança, Deus disse ao Seu povo que foram amaldiçoados por não estarem dizimando, mas prometeu abençoálos se entregassem os dízimos e dessem ofertas obedientemente. Muitas das bênçãos prometidas a nós na Bíblia estão condicionadas a nossa obediência a Deus. Portanto, antes de nos esforçarmos para acreditar que Deus nos dará alguma bênção, devemos primeiro perguntar a nós mesmo: “Estou preenchendo todos os requisitos que acompanham essa promessa?”

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Um Terceiro Erro Comum No Novo Testamento, Jesus deixou uma condição que se aplica a todas as vezes que orarmos e pedirmos por algo: Tenham fé em Deus. Eu lhes asseguro que se alguém disser a este monte: “Levante-se e atire-se ao mar”, e não duvidar em seu coração, mas crer que acontecerá o que diz, assim lhe será feito. Portanto, eu lhes digo: Tudo o que vocês pedirem em oração, creiam que já o receberam, e assim lhes sucederá (Mc. 11:22-24, ênfase adicionada). A condição que Jesus deixou é acreditar que recebemos quando oramos. Muitos cristãos tentam exercitar a fé erroneamente, crendo que estão recebendo quando veem a resposta de suas orações. Eles acreditam que vão receber e não que já receberam. Quando pedimos a Deus por algo que nos prometeu, devemos crer que recebemos a resposta quando oramos e começar a agradecer a Deus pela resposta imediatamente. Devemos crer que temos a resposta antes de vê-la e não depois. Devemos fazer nossos pedidos a Deus com ação de graças, como Paulo escreveu: Não andem ansiosos por coisa alguma, mas em tudo, pela oração e súplicas, e com ação de graças, apresentem seus pedidos a Deus (Fp. 4:6). Como já disse antes, se temos fé em nossos corações, naturalmente, nossas palavras e ações corresponderão com o que acreditamos. Jesus disse: “a boca fala do que está cheio o coração” (Mt. 12:34). Alguns cristãos cometem o erro de pedir repetidamente pela mesma coisa, o que revela que ainda não creram que já receberam. Se cremos que recebemos quando oramos, não há razão de repetirmos o mesmo pedido. Pedir repetidamente pela mesma coisa é duvidar que Deus nos ouviu na primeira vez que pedimos.

Jesus não Fez o Mesmo Pedido Mais de Uma Vez? É claro, Jesus fez o mesmo pedido três vezes em seguida quando orou no jardim do Getsêmani (veja Mt. 26:39-44). Mas lembre-se de que ele não estava orando em fé de acordo com a vontade revelada de Deus. Na verdade, enquanto orava três vezes por algum escape da cruz, Ele sabia que Seu pedido era contrário à vontade de Deus. É por isso que se submeteu à vontade de Seu Pai três vezes na mesma oração. Essa mesma oração de Jesus é muitas vezes usada de forma errada como modelo para todas as orações, como alguns ensinam que sempre devemos terminar nossas orações com as palavras: “Seja feita a Tua vontade” ou “Contudo, não seja como eu quero, mas sim como tu queres”, seguindo o exemplo de Jesus. Novamente, devemos nos lembrar que Jesus estava pedindo algo que sabia não ser a vontade de Deus. Seguir Seu exemplo, quando oramos de acordo com a vontade de Deus, seria um erro e uma mostra de falta de fé. Por exemplo, orar: “Senhor, eu confesso meu pecado a Ti e lhe peço que me perdoes se for da Tua vontade”, seria inferir que pode não ser a vontade de Deus perdoar meu pecado. Sabemos, é claro, que a Bíblia promete que Deus nos perdoará se confessarmos nossos pecados (veja 1 Jo. 1:9). Portanto, tal oração revelaria a falta de fé na vontade revelada de Deus. Jesus não terminou todas as Suas orações com as palavras: “Contudo, não seja como eu quero, mas sim como tu queres”. Só há um exemplo em que ora dessa maneira, e foi quando orava para se entregar à vontade de Seu Pai, conhecendo o sofrimento que passaria por causa disso. Por outro lado, se não conhecemos a vontade de Deus a respeito de certa situação, por Ele ainda não ter revelado, então, é apropriado terminar nossas orações com as palavras “se for da Tua vontade”. Tiago escreveu: 148


Ouçam agora, vocês que dizem: “Hoje ou amanhã iremos para esta ou aquela cidade, passaremos um ano ali, faremos negócios e ganharemos dinheiro”. Vocês nem sabem o que lhes acontecera amanhã! Que é a sua vida? Vocês são como a neblina que aparece por um pouco de tempo e depois se dissipa. Ao invés disso, deveriam dizer: “Se o Senhor quiser, viveremos e faremos isto ou aquilo”. Agora, porém, vocês se vangloriam das suas pretensões. Toda vanglória como essa é maligna (Tg. 4:13-16). O que devemos fazer, uma vez que pedimos baseando-nos em uma promessa de Deus e preenchemos todas as qualificações? Devemos agradecer a Deus continuamente pela resposta que cremos já tê-la recebido, até que possamos vê-la. É através de fé e paciência que herdamos as promessas de Deus (Hb. 6:12). Com certeza, Satanás tentará nos derrotar colocando dúvidas em nossas mentes, e devemos perceber que nossas mentes são o campo de batalha. Quando pensamentos duvidosos invadem nossas mentes, devemos substituí-los por pensamentos baseados nas promessas de Deus e declarar a Palavra de Deus em fé. Quando assim o fizermos, Satanás fugirá (veja Tg. 4:7; 1 Pd. 5:8-9).

Um Exemplo de Fé em Ação Um dos exemplos bíblicos clássicos de fé em ação é a história de Pedro andando sobre as águas. Vamos ler sua história e ver o que podemos aprender com ela. Logo em seguida, Jesus insistiu com os discípulos para que entrassem no barco e fossem adiante dele para o outro lado, enquanto ele despedia a multidão. Tendo despedido a multidão, subiu sozinho a um monte para orar. Ao anoitecer, ele estava ali sozinho, mas o barco já estava a considerável distância da terra, fustigado pelas ondas, porque o vento soprava contra ele. Alta madrugada, Jesus dirigiu-se a eles, andando sobre o mar. Quando o viram andando sobre o mar, ficaram aterrorizados e disseram: “É um fantasma!” E gritaram de medo. Mas Jesus imediatamente lhes disse: “Coragem! Sou eu. Não tenham medo!” “Senhor”, disse Pedro, “se és tu, manda-me ir ao teu encontro por sobre as águas”. “Venha”, respondeu ele. Então Pedro saiu do barco, andou sobre as águas e foi na direção de Jesus. Mas, quando reparou no vento, ficou com medo e, começando a afundar, gritou: “Senhor, salva-me!” Imediatamente Jesus estendeu a mão e o segurou. E disse: “Homem de pequena fé, por que você duvidou?” Quando entraram no barco, o vento cessou. Então os que estavam no barco o adoraram, dizendo: “Verdadeiramente tu és o Filho de Deus” (Mt. 14:22-33). É significante o fato que os discípulos de Jesus tinham estado em outra tempestade violenta em um barco no Mar da Galileia algum tempo antes (veja Mt. 8:23-27). Durante esse incidente, Jesus estava com eles e depois de ter repreendido a tempestade, repreendeu Seus discípulos pela falta de fé deles. Antes de começarem aquela jornada, Ele lhes disse que era a Sua vontade que fossem para o outro lado do lago (veja Mt. 14:35). Contudo, quando a tempestade começou eles foram mais influenciados pelas circunstâncias e chegaram a acreditar que iriam morrer. Jesus esperava que pelo menos não tivessem medo. Contudo, dessa vez Jesus mandou que atravessassem o Mar da Galileia sozinhos. Com certeza, Ele foi levado pelo Espírito a fazer isso, e certamente, Deus sabia que um vento contrário surgiria à noite. Portanto, o Senhor permitiu que a fé deles enfrentasse um pequeno desafio. Por causa daqueles ventos contrários, o que normalmente levaria somente algumas horas levou a noite inteira. Temos que dar crédito aos discípulos por sua persistência, mas não podemos deixar de nos perguntar se algum deles tentou ter fé de que os ventos se acalmariam, algo que tinham visto Jesus fazer apenas alguns dias atrás. É interessante que o evangelho de Marcos registra que quando Jesus andava sobre as águas, “estava já a ponto de passar por eles” (Mc. 6:48). Ele ia deixá-los para enfrentar o problema sozinhos, enquanto caminhava por eles! Isso parece indicar que não estavam orando ou olhando para Deus. Pergunto-me quantas vezes o Fazedor de Milagres passa por nós enquanto nos esforçamos com os remos da vida contra os ventos dos problemas. 149


Princípios de Fé Jesus respondeu ao desafio de Pedro com uma única palavra: “Venha”. Se Pedro tivesse tentado andar na água antes dessa palavra, teria afundado instantaneamente, já que não teria promessa em que basear sua fé. Ele teria pisado por presunção ao invés de por fé. Mesmo depois de Jesus ter dito aquela palavra, se qualquer um dos outros discípulos tivesse tentado andar na água, também teria afundado instantaneamente, já que Jesus deu Sua promessa somente a Pedro. Nenhum deles poderia ter preenchido os requisitos da promessa, já que nenhum era Pedro. Da mesma forma, antes de qualquer de nós tentar confiar em uma das promessas de Deus, devemos ter certeza de que ela se aplica a nós e que preenchemos os requisitos da promessa. Pedro pisou na água. Essa foi a hora em que confiou, mesmo que não haja dúvidas de que ele, que estava gritando de medo de um fantasma alguns segundo antes, também tinha dúvidas quando tomou o primeiro passo. Mas para receber o milagre, teve que agir em fé. Se tivesse se segurado no mastro do barco e colocado o dedão para fora do barco para ver se a água suportaria seu peso, nunca teria experimentado o milagre. Da mesma forma, antes de recebermos milagres, devemos nos comprometer em confiar na promessa de Deus e então agir no que acreditamos. Sempre há uma hora em que nossa fé é testada. Às vezes, esse tempo é curto; às vezes não. Mas haverá um período de tempo que teremos de negligenciar nossos sentidos e agir pela Palavra de Deus. Pedro iniciou bem. Mas quando considerou a impossibilidade do que estava fazendo, levando em conta o vento e as ondas, teve medo. Talvez tenha parado de andar, com medo de dar o outro passo. E ele, que estava experimentando um milagre, se encontrou afundando. Devemos continuar em fé uma vez que começamos agindo em fé. Continue persistindo. Pedro afundou porque duvidou. Normalmente, as pessoas não gostam de se culpar por sua falta de fé. Preferem passar a culpa para Deus. Mas como você acha que Jesus teria reagido se ouvisse Pedro dizendo aos outros discípulos, uma vez que estava a salvo no barco: “Era a vontade de Deus que eu só andasse parte do caminho até Jesus”? Pedro fracassou porque teve medo e perdeu a fé. São esses os fatos. Jesus não o condenou, mas esticou a mão imediatamente para que Pedro tivesse algo firme em que se apegar. E em seguida questionou Pedro por ter duvidado. Ele não teve razão para duvidar, porque a palavra do Filho de Deus é mais certa do que qualquer coisa. Nenhum de nós tem bons motivos para duvidar da Palavra de Deus, ter medo ou se preocupar. As Escrituras estão cheias de vitórias que foram resultado de fé, e fracassos que foram resultado de dúvidas. Josué e Calebe tomaram posse da terra prometida por causa de sua fé, quando a maioria de seus colegas morreu no deserto por causa de suas dúvidas (veja Nm. 14:26-30). Os discípulos de Jesus tiveram suas necessidades supridas quando viajaram de dois em dois para pregar o evangelho (veja Lc. 22:35), mas uma vez não conseguiram expulsar um demônio porque duvidaram (veja Mt. 17:19-20). Muitos receberam milagres debaixo no ministério de Cristo, enquanto a maioria dos doentes de Sua cidade natal, Nazaré, continuaram doentes por causa de sua descrença (veja Mc. 6:5-6). Como todos eles, já experimentei sucessos e fracassos de acordo com minha fé ou dúvidas. Mas não vou ficar chateado por causa de minhas dúvidas ou culpar a Deus. Não vou me justificar culpando a Ele. Não procurarei um explicação teológica complicada que reinventa a vontade revelada de Deus. Sei que é impossível que Deus minta. Então, quando fracassei, simplesmente me arrependi de minha descrença e comecei a andar na água mais uma vez. Notei que Jesus sempre me perdoa e me salva do afogamento! O veredito foi selado: crentes são abençoados; os duvidosos não! O ministro discipulador segue o exemplo de Jesus. Ele está cheio de fé e adverte seus discípulos: “Tenham fé em Deus” (Mc. 11:22).

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Capítulo Quinze

Cura Divina Mesmo sendo esse assunto um tanto polêmico, com certeza não é obscuro às Escrituras. Na verdade, um décimo de tudo o que foi escrito nos quatro evangelhos é a respeito do ministério de cura de Jesus. Há promessas de cura divina no Velho Testamento, nos evangelhos e nas epístolas do Novo Testamento. Aqueles que estão doentes podem encontrar encorajamento em uma variedade de passagens construtoras de fé. Minha observação geral ao redor do mundo tem sido que onde igrejas são cheias de crentes altamente comprometidos (verdadeiros discípulos), a cura divina é bem mais comum. Onde a igreja é morna e sofisticada, a cura divina ocorre com raridade. [1] Tudo isso não deve nos surpreender, já que Jesus disse que um dos sinais que seguirá futuros crentes é que colocarão as mãos sobre os doentes e eles serão curados (veja Mc. 16:18). Se fôssemos julgar igrejas pelos sinais que Jesus declarou que seguiriam os cristãos, teríamos que concluir que muitas igrejas consistem de descrentes: E disse-lhes *Jesus+: “Vão pelo mundo todo e preguem o evangelho a todas as pessoas. Quem crer e for batizado será salvo, mas quem não crer será condenado. Estes sinais acompanharão os que crerem: em meu nome expulsarão demônios; falarão novas línguas; pegarão em serpentes; e, se beberem algum veneno mortal, não lhes fará mal nenhum; imporão as mãos sobre os doentes, e estes ficarão curados” (Mc. 16:15-18). O ministro discipulador, imitando o ministério perfeito de Cristo, certamente usará seus dons para promover o ministério de cura divina dentro de sua esfera de influência. Ele sabe que cura divina aumenta o Reino de Deus em pelo menos duas formas: primeiro, curas milagrosas são uma boa propaganda ao evangelho, já que qualquer criança que lesse os evangelhos ou o livro de Atos entenderia (mas que muitos ministros com cursos superiores não conseguem compreender). Segundo, discípulos saudáveis não são impedidos de trabalhar no ministério por suas doenças. O discipulador também precisa ser sensível aos membros do corpo de Cristo que desejam cura, mas que têm dificuldade de recebê-la. Muitas vezes precisam de instruções mais cuidadosas e encorajamento gentil, especialmente se ficaram adversos a qualquer mensagem de cura. O discipulador se depara com uma escolha: pode evitar ensinar sobre o assunto de cura divina, e no caso ninguém ficará ofendido nem será curado, ou pode amorosamente ensinar sobre o assunto e arriscar ofender alguns enquanto ajuda outros a experimentar a cura. Pessoalmente, eu escolhi a segunda opção, crendo que segue o exemplo de Jesus.

Cura na Cruz Um bom lugar para começar o estudo de cura divina é o quinquagésimo terceiro capítulo de Isaías, universalmente considerado uma promessa messiânica. Através do Espírito Santo, Isaías descreveu com detalhes a morte de sacrificial de Jesus e o trabalho que realizaria na cruz: Certamente ele tomou sobre si as nossas enfermidades e sobre si levou as nossas doenças; contudo nós o consideramos castigado por Deus, por Deus atingido e afligido. Mas ele foi transpassado por causa das nossas transgressões, foi esmagado por causa de nossas iniquidades; o castigo que nos trouxe paz estava sobre ele, e pelas suas feridas fomos curados. Todos nós, tal qual ovelhas, nos desviamos, cada um de nós se voltou para o seu próprio caminho; e o Senhor fez cair sobre ele a iniquidade de nós todos (Is. 53:4-6). Pela inspiração do Espírito Santo, Isaías declarou que Jesus levou nossas enfermidades e doenças. Uma melhor tradução do grego original indica que Jesus carregou nossas doenças e dores, como muitas traduções confiáveis indicam em suas notas referenciais.

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A palavra hebraica traduzida por enfermidades em Isaías 53:4 é a palavra choli, que também é encontrada em Deuteronômio 7:15; 28:61; 1 Reis 17:17; 2 Reis 1:2; 8:8, e 2 Crônicas 16:12; 21:25. Em todos estes casos ela é traduzida como doença ou enfermidade. A palavra traduzida doenças é a palavra hebraica makob, que pode ser encontrada em Jó 14:22 e Jó 33:19. Em ambos os casos ela é traduzida como dor. Tudo isso sendo verdade, Isaías 53:4 é melhor traduzido assim: “Certamente ele tomou sobre si as nossas doenças e sobre si levou as nossas dores”. Este fato é confirmado pela citação direta de Mateus a Isaías 53:4 em seu evangelho: “Ele tomou sobre si as nossas enfermidades e sobre si levou as nossas doenças” (Mt. 8:17). Incapaz de escapar destes fatos, alguns tentam nos convencer de que Isaías estava se referindo as nossas supostas “doenças espirituais” e “enfermidades espirituais”. Contudo, a citação de Mateus a Isaías 53:4 não deixa dúvida de que Isaías estava se referindo ao sentido literal físico de doenças e enfermidades. Vamos lê-la dentro do contexto: Ao anoitecer foram trazidos a ele muitos endemoninhados, ele expulsou os espíritos com uma palavra e curou todos os doentes. E assim se cumpriu o que fora dito pelo profeta Isaías: “Ele tomou sobre si as nossas enfermidades e sobre si levou as nossas doenças” (Mt. 8:16-17, ênfase adicionada). Mateus disse claramente que as curas físicas executadas por Jesus eram um cumprimento de Isaías 53:4. Portanto, não há dúvida de que Isaías 53:4 é uma referência a Cristo levar nossas enfermidades físicas e doenças. [2] Assim como as Escrituras dizem que Jesus levou nossas iniquidades (veja Is. 53:11), também dizem que Ele levou nossas enfermidades e doenças. Estas são notícias que devem fazer qualquer pessoa doente feliz! Através de Seu sacrifício expiado, Jesus providenciou nossa salvação e cura.

Uma Pergunta Feita Mas se isso for verdade, alguns perguntam, então por que não somos todos curados? Esta pergunta é melhor respondida fazendo-se outra pergunta: Por que nem todas as pessoas nascem de novo? Nem todos renascem porque ou não ouviram o evangelho ou não creram nele. Da mesma forma, cada indivíduo deve tomar posse de sua cura através de sua própria fé. Muitos ainda não ouviram a maravilhosa verdade que Jesus levou suas enfermidades; outros ouviram, mas rejeitaram. A atitude de Deus Pai para com doenças tem sido claramente revelada pelo ministério de Seu Filho amado, que testificou a respeito dEle: Eu lhes digo verdadeiramente que o Filho não pode fazer nada de si mesmo; só pode fazer o que vê o Pai fazer, porque o que o Pai faz o Filho também faz (Jo. 5:19). Lemos no livro de Hebreus que Jesus era “a expressão exata do seu *Pai+ ser” (Hb. 1:3). Não há dúvida de que a atitude de Jesus para com enfermidades era idêntica a de Seu pai. Qual era a atitude de Jesus? Nem uma vez Ele mandou qualquer pessoa embora, que foi a Ele pedindo cura. Nem uma vez Ele disse a uma pessoa doente que desejava ser curada: “Não, não é da vontade de Deus que você seja curada; portanto, deverá continuar doente”. Jesus sempre curou os doentes que iam a Ele, e uma vez que eram curados, muitas vezes dizia a eles que a sua fé os curou. Mais adiante, a Bíblia declara que Deus nunca muda (veja Ml. 3:6) e que “Jesus Cristo é o mesmo, ontem, hoje e para sempre” (Hb. 13:8).

A Cura Proclamada Infelizmente, hoje a salvação tem sido reduzida a pouco mais do que perdão pelos pecados. Mas as palavras gregas que, na maioria das vezes, são traduzidas por “salvo” ou “salvação” implicam nos conceitos não só de perdão, mas de entrega e cura.[3] Vamos considerar um homem na Bíblia que experimentou a salvação em seu sentido mais completo. Ele foi salvo por sua fé enquanto ouvia Paulo pregar o evangelho em sua cidade. 152


Quando eles souberam disso, fugiram para as cidades licaônicas de Listra e Derbe, e seus arredores. Onde continuaram a pregar as boas novas. Em Listra havia um homem paralítico dos pés, aleijado desde o nascimento, que ouvira Paulo falar. Quando Paulo olhou diretamente para ele e viu que o homem tinha fé para ser curado, disse em alta voz: “Levante-se! Fique em pé!” Com isso, o homem deu um salto e começou a andar (At. 14:6-10). Note que, embora Paulo estivesse pregando “as boas novas”, o homem ouviu algo que produziu fé em seu coração para receber cura física. No mínimo, ele deve ter ouvido Paulo dizer algo sobre o ministério de cura de Jesus e como curou a todos os que Lhe pediram com fé. Talvez Paulo também tenha mencionado a profecia de Isaías sobre Jesus carregando nossas enfermidades e doenças. Não sabemos, mas já que a “fé vem por se ouvir” (Rm. 10:17), o paralítico deve ter ouvido algo que estimulou a fé em seu coração para ser curado. Algo que Paulo disse o convenceu de que Deus não queria que continuasse paralítico. Paulo deve ter acreditado que Deus queria que o homem fosse curado, ou suas palavras nunca teriam convencido o homem a ter fé para a cura, e não teria dito ao homem para ficar em pé. E se Paulo tivesse dito o que tantos pregadores modernos dizem? E se tivesse pregado: “Não é da vontade de Deus que todos sejam curados”? O homem não teria tido fé para ser curado. Talvez isto explique por que tantos não são curados hoje em dia. Os mesmos pregadores que deveriam inspirar as pessoas a terem fé para a cura estão destruindo sua fé. Note novamente que esse homem foi curado por sua fé. Se ele não tivesse acreditado, teria continuado paralítico, mesmo que fosse óbvio que era a vontade de Deus que fosse curado. Além disso, provavelmente havia outras pessoas doentes entre a multidão naquele dia, mas não temos registro de mais ninguém que tenha sido curado. Se isto for verdade, por que não foram curados? Pelo mesmo motivo de muitos incrédulos na multidão não terem renascido — porque não creram na mensagem de Paulo. Nunca devemos concluir que não é da vontade de Deus curar a todos baseando-nos no fato de que algumas pessoas nunca foram curadas. Isto seria o mesmo que concluir que não é da vontade de Deus que todos nasçam de novo simplesmente porque algumas pessoas nunca renasceram. Cada pessoa deve crer no evangelho por si mesma para ser salva, e cada pessoa deve crer por si só para que seja salva.

Mais Provas da Vontade de Deus de Curar Debaixo da antiga aliança, cura física estava inclusa na aliança de Israel com Deus. Apenas alguns dias depois do Êxodo, Deus fez a Israel esta promessa: Se vocês derem atenção ao Senhor, o seu Deus, e fizerem o que ele aprova, se derem ouvidos aos seus mandamentos e obedecerem a todos os seus decretos, não trarei sobre vocês nenhuma das doenças que eu trouxe sobre os egípcios, pois eu sou o Senhor que os cura (Êx. 15:26). Qualquer pessoa honesta terá que concordar que a cura estava inclusa na aliança de Israel com Deus e que dependia da obediência do povo. (Casualmente, Paulo deixa claro em 1 Coríntios 11:27-31 que a cura física debaixo na nova aliança também depende de nossa obediência.) Deus também prometeu aos israelitas: Prestem culto ao Senhor, o Deus de vocês, e ele os abençoará, dando-lhes alimento e água. Tirarei a doença do meio de vocês. Em sua terra nenhuma grávida perderá o filho, nem haverá mulher estéril. Farei completar-se o tempo de duração da vida de vocês (Êx. 23:25-26, ênfase adicionada). Vocês serão mais abençoados do que qualquer outro povo! Nenhum dos seus homens ou mulheres será estéril, nem mesmo os animais do seu rebanho. O Senhor os guardará de todas as doenças. Não infligirá a vocês as doenças terríveis que, como sabem, atingiram o Egito, mas as infligirá a todos os seus inimigos (Dt. 7:14-15, ênfase adicionada). Se cura física estava inclusa na antiga aliança, me pergunto como ela pode não estar inclusa na nova aliança, se de fato a nova aliança é melhor que a antiga, como as Escrituras dizem: 153


Agora, porém, o ministério que Jesus recebeu é superior ao deles, assim como também a aliança da qual ele é mediador é superior à antiga, sendo baseada em promessas superiores(Hb. 8:6, ênfase adicionada).

Ainda Mais Provas A Bíblia contém muitas passagens que oferecem provas indiscutíveis que é a vontade de Deus curar a todos. Deixe-me listar três das melhores: Bendiga o Senhor a minha alma! Bendiga o Senhor todo o meu ser! Bendiga o Senhor a minha alma! Não esqueça nenhuma de suas bênçãos! É ele que perdoa todos os seus pecados e cura todas as suas doenças (Sl. 103:1-3, ênfase adicionada). Que cristão se oporia à declaração de Davi que Deus deseja perdoar todas as nossas iniquidades? Contudo, Davi cria que Deus também deseja curar o mesmo número de nossas doenças — todas elas. Meu filho, escute o que lhe digo; preste atenção às minhas palavras. Nunca as perca de vista; guarde-as no fundo do coração, pois são vida para quem as encontra e saúde para todo o seu ser (Pv. 4:20-22, ênfase adicionada). Entre vocês há alguém que está doente? Que ele mande chamar os presbíteros da igreja, para que estes orem sobre ele e o unjam com óleo, em nome do Senhor. A oração feita com fé curará o doente; o Senhor o levantará. E se houver cometido pecados, ele será perdoado (Tg. 5:14-15, ênfase adicionada) Note que esta última promessa pertence a qualquer um que esteja doente. E note que não é o presbítero ou o óleo que traz a cura, mas a “oração feita com fé”. Mas é a fé dos presbíteros ou da pessoa doente? De ambos. A fé da pessoa doente é expressa, pelo menos em parte, quando chama os presbíteros da igreja. A descrença da pessoa doente pode anular os efeitos das orações dos presbíteros. O tipo de oração sobre a qual Tiago escreveu é um bom exemplo de oração de concordância que Jesus menciona em Mateus 18:19. Ambas as partes envolvidas neste tipo de oração devem “concordar”. Se uma pessoa concordar e a outra não, não estão em concordância. Também sabemos que, em várias passagens, a Bíblia dá crédito a Satanás pelas doenças (veja Jó 2:7; Lc. 13:16; At. 10:38; 1 Co. 5:5). Desta maneira, seria lógico que Deus se opusesse ao trabalho de Satanás nos corpos de Seus filhos. Nosso Pai nos ama muito mais que qualquer pai terreno já amou seu filho (veja Mt. 7:11), e nunca conheci um pai que desejasse que seu filho ficasse doente. Todas as curas executadas por Jesus durante Seu ministério terreno, e todas as curas registradas no livro de Atos, devem nos encorajar a acreditar que Deus quer que sejamos saudáveis. Frequentemente, Jesus curou pessoas que iam a Ele buscando cura, e deu crédito à fé delas pelo milagre. Isto prova que Jesus não escolheu pessoas exclusivas a quem queria curar. Ele queria curar a todas, mas pedia fé da parte delas.

Respostas a Algumas Objeções Comuns Talvez a objeção mais comum a tudo isso é a que não é baseada na Palavra de Deus, mas nas experiências das pessoas. Normalmente, é algo assim: “Eu conheci uma mulher cristã maravilhosa que orou para ser curada de câncer; mesmo assim, ela morreu. Isto prova que não é da vontade de Deus curar a todos”. Nunca devemos tentar determinar a vontade de Deus por qualquer outra coisa além da Sua Palavra. Por exemplo, se viajasse de volta no tempo e assistisse aos israelitas vagando pelo deserto por quarenta anos enquanto a terra que fluía leite e mel esperava por eles do outro lado do Rio Jordão, você poderia ter concluído que não era da vontade de Deus que Israel entrasse na terra prometida. 154


Mas se conhece a Bíblia, sabe que este não era o caso. Com certeza, era da vontade de Deus que entrassem na terra prometida, mas não entraram por causa de sua descrença (veja Hb. 3:19). E todas as pessoas que estão agora no inferno? Era a vontade de Deus que todas estivessem no céu, mas não preencheram os requisitos de arrependimento e fé no Senhor Jesus. Da mesma forma, não podemos determinar a vontade de Deus a respeito de cura só olhando para pessoas doentes. O fato de um cristão orar por cura e não ser curado, não prova que não é a vontade de Deus curá-lo. Se aquele cristão tivesse preenchido os requisitos de Deus, teria sido curado, ou então, Deus é um mentiroso. Quando não recebemos cura e culpamos a Deus com a desculpa de que a cura não era da vontade dEle, não somos diferentes dos israelitas descrentes que morreram no deserto dizendo que não era da vontade de Deus que entrassem na terra prometida. Seria melhor se simplesmente engolíssemos nosso orgulho e admitíssemos que somos culpados. Como disse no capítulo anterior sobre fé, muitos cristãos sinceros têm terminado suas orações de cura de forma errada com a frase destruidora de fé: “Se for da Tua vontade”. Isso revela claramente que não estão orando com fé, pois não têm certeza da vontade de Deus. A respeito da cura, a vontade de Deus é bem clara, como já vimos. Se você sabe que Deus quer te curar, não há razão de dizer “se for da Tua vontade” em sua oração de cura. Seria o equivalente a dizer: “Senhor, eu sei que prometeu me curar, mas caso estivesse mentindo, eu peço que me cure somente se for da Tua vontade”. Com certeza, também é verdade que Deus pode disciplinar crentes desobedientes permitindo que doenças os aflijam, até chegar ao ponto de permitir sua morte prematura em alguns casos. Obviamente, tais crentes devem se arrepender antes de receberem cura (veja 1 Co. 11:27-32). Existem outros que, negligenciando cuidar de seus corpos, se abrem a doenças. Crentes devem ser inteligentes o suficiente para manter uma dieta saudável, comer moderadamente, exercitar-se regularmente e descansar o necessário.

Uma Segunda Objeção Comum É muitas vezes dito: “Paulo tinha um espinho na carne e Deus não o curou”. Contudo, a ideia de que o espinho de Paulo era uma doença é simplesmente uma má teoria teológica sob a luz do fato de que Paulo nos disse exatamente o que era seu espinho — um anjo de Satanás. Para impedir que eu me exaltasse por causa da grandeza dessas revelações, foi-me dado um espinho na carne, um mensageiro de Satanás, para me atormentar. Três vezes roguei ao Senhor que o tirasse de mim. Mas ele me disse: Minha graça é suficiente para você, pois o meu poder se aperfeiçoa na fraqueza. Portanto, eu me gloriarei ainda mais alegremente em minhas fraquezas, para que o poder de Cristo repouse em mim (2 Co. 12:7-9, ênfase adicionada). A palavra traduzida mensageiro é a palavra grega “aggelos”, traduzida por anjo ou anjos em mais de 160 lugares, onde é encontrada no Novo Testamento. O espinho na carne de Paulo era um anjo de Satanás enviado para lutar com ele; não era uma doença ou enfermidade. Note também que não há registro de que Paulo tenha orado para ser curado e nem há indicação de que Deus se recusou a curá-lo. Em três ocasiões, Paulo simplesmente pediu a Deus se poderia remover o anjo, e Deus disse que Sua graça era suficiente. Quem deu a Paulo seu espinho? Alguns acreditam que foi Satanás, já que o espinho foi chamado um “anjo de Satanás”. Outros creem que foi Deus, porque o espinho foi aparentemente dado para que Paulo não se orgulhasse. Paulo mesmo disse: “Para impedir que eu me exaltasse”. A versão King James traduz esses versículos um pouco diferente. Ao invés de dizer: “para impedir que eu me exaltasse”, ela diz: “a fim de que não seja exaltado sobremaneira”. Esta é uma diferença importante, porque Deus não se opõe a sermos exaltados. Portanto, é bem possível que Deus estava exaltando e Satanás tentando parar a exaltação de Paulo, designando um anjo específico de luta para provocar confusão por onde Paulo viajasse. Mesmo assim, Deus disse que usaria as 155


circunstâncias para Sua glória, porque Seu poder poderia ser melhor manifestado na vida de Paulo como resultado de sua fraqueza. Independente disso, dizer que Paulo estava doente e que Deus Se recusou a curá-lo é uma distorção bruta do que a Bíblia realmente diz. Na passagem sobre seu espinho na carne, Paulo nunca menciona doença alguma, e não há nada parecido com uma recusa da parte de Deus para curá-lo de sua suposta doença. Se uma pessoa honesta ler a lista de todas as provas pelas quais Paulo passou em 2 Coríntios 11:23-30, não encontrará enfermidades ou doenças mencionadas uma única vez.

Uma Elaboração do Mesmo Tema Alguns se opõem a minha explicação do espinho de Paulo, dizendo: “Mas Paulo não disse aos Gálatas que estava doente da primeira vez que pregou o evangelho a eles? Ele não estava falando de seu espinho na carne?” Isto é o que Paulo realmente escreveu em sua carta aos Gálatas: Como sabem, foi por causa de uma doença que lhes preguei o evangelho pela primeira vez. Embora a minha doença lhes tenha sido uma provação, vocês não me trataram com desprezo ou desdém; ao contrário, receberam-me como se eu fosse um anjo de Deus, como o próprio Cristo Jesus (Gl. 4:13-14). A palavra grega traduzida doença aqui em Gálatas 4:13 é asthenia, que literalmente significa “fraqueza”. Ela pode significar fraqueza por causa de doença, mas não necessariamente. Por exemplo, Paulo escreveu: “a fraqueza de Deus é mais forte que a força do homem” (1 Co. 1:25, ênfase adicionada). A palavra que é traduzida fraqueza neste versículo também é a palavra asthenia. Não faria sentido se os tradutores tivessem deixado “a doença de Deus é mais forte que a força do homem”. (Veja também Mt. 26:41 e 1 Pd. 3:7, onde a palavra asthenia é traduzida como fraqueza e não pode ser traduzida por doença). Quando Paulo visitou a Galácia pela primeira vez no livro de Atos, não há menção dele estar doente. Contudo, há menção de ter sido apedrejado e abandonado à morte, e foi ressuscitado ou miraculosamente reavivado (veja At. 14:5-7, 19-20). Com certeza, o corpo de Paulo, depois de ter sido apedrejado e considerado morto, estava em péssima condição com cortes e hematomas em todos os lugares. Paulo não tinha uma doença na Galácia que foi uma provação a seus ouvintes. Seu corpo estava cansado de seu recente apedrejamento. Provavelmente, ainda tinha lembranças de suas perseguições na Galácia quando escreveu sua carta aos Gálatas, pois terminou sua epístola com estas palavras: Sem mais, que ninguém me perturbe, pois trago em meu corpo as marcas de Jesus (Gl. 6:17).

Outra Contestação: “Estou Sofrendo para a Glória de Deus” Esta réplica é usada por alguns que pegaram um versículo da história da ressurreição de Lázaro como base para dizer que estão sofrendo com doenças para a glória de Deus. Jesus disse a respeito de Lázaro: Essa doença não acabará em morte; é para a glória de Deus, para que o Filho de Deus seja glorificado por meio dela (Jo. 11:4). Jesus não estava dizendo que Deus estava sendo glorificado como resultado da doença de Lázaro, mas que Deus seria glorificado quando Lázaro fosse curado e ressuscitado dos mortos. Em outras palavras, o resultado final da doença não seria a morte, pelo contrário, Deus seria glorificado. Deus não é glorificado em doenças; Ele é glorificado na cura. (Veja Mt. 9:8; 15:31; Lc. 7:16; 13:13 e 17:15, onde a cura trouxe glória a Deus.)

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Outra Objeção: “Paulo Disse que Deixou Trófimo Doente em Mileto” Por acaso, estou escrevendo esta frase em uma cidade da Alemanha. Quando saí de minha cidade natal nos Estados Unidos na semana passada, deixei várias pessoas doentes para trás. Deixei hospitais cheios de doentes. Mas isto não significa que não era da vontade de Deus que todos eles fossem curados. O fato de Paulo ter deixado um homem doente em uma cidade que visitou não é prova de que não era da vontade de Deus que aquele homem fosse curado. E o monte de incrédulos que Paulo também deixou para trás? Isto prova que não era da vontade de Deus que fossem salvos? Absolutamente não.

Outra Objeção: “Eu Sou como Jó!” Glória ao Senhor! Se você leu o fim da história de Jó, sabe que foi ele curado. Não era a vontade de Deus que ele continuasse doente, e também não é a vontade de Deus que você continue doente. A história de Jó reafirma que a vontade de Deus é sempre de curar.

Outra Objeção: “O conselho de Paulo a Timóteo Sobre Seu Estômago” Sabemos que Paulo disse a Timóteo para beber um pouco de vinho por causa do seu estômago e frequentes dores (veja 1 Tm. 5:23). Na verdade, Paulo disse a Timóteo para parar de beber água e beber um pouco mais de vinho para seu estômago e frequentes dores. Isto parece indicar que algo estava errado com a água. Obviamente, se estiver bebendo água contaminada, deve parar de bebê-la e começar a beber outra coisa, ou provavelmente terá problemas de estômago, como Timóteo.

Outra Objeção: “Jesus só Curou para Provar Sua Divindade” Algumas pessoas querem que acreditemos que a única razão de Jesus ter curado foi para provar Sua divindade. Agora que ela está bem estabelecida, Ele supostamente não cura mais. Isso está completamente incorreto. É verdade que os milagres de Jesus autenticaram Sua divindade, mas este não é o único motivo de ter curado pessoas durante Seu ministério terreno. Ele, muitas vezes, proibiu as pessoas a quem curou de dizer a qualquer um o que aconteceu com elas (veja Mt. 8:4; 9:6, 30; 12:13-16; Mc. 5:43; 7:36; 8:26). Se Jesus curasse pessoas pelo propósito único de provar sua divindade, teria que dizer àquelas pessoas para dizerem a todos o que tinha feito por elas. Qual era a motivação por trás das curas de Jesus? Muitas vezes, as Escrituras dizem que curava por “ter compaixão” (veja Mt. 9:35-36; 14:14; 20:34; Mc. 1:41; 5:19; Lc. 7:13). A razão de Jesus ter curado é porque amava as pessoas e estava cheio de compaixão. A compaixão de Jesus foi reduzida desde Seu ministério terreno? Seu amor diminuiu? Absolutamente não!

Outra Objeção: “Deus Quer que Eu Fique Doente por Algum Motivo” Isto é impossível, à luz das Escrituras que consideramos. Se você tem persistido na desobediência, pode ser verdade que Deus permitiu sua doença para que ela o traga ao arrependimento. Mas não é da vontade dEle que você continue doente. Ele quer que se arrependa e seja curado. Além do mais, se Deus quer que você continue doente, por que está indo a um médico e tomando remédios, esperando ser curado? Está tentando sair da “vontade de Deus”? 157


Uma Objeção Final: “Se Nunca Ficarmos Doentes, Como Morreremos?” Sabemos que a Bíblia ensina que nossos corpos físicos estão decaindo (veja 2 Co. 4:16). Não há nada que possamos fazer que pare nossos cabelos de ficarem brancos e nossos corpos de envelhecerem. Finalmente, nossa visão e audição não são tão boas como eram quando éramos mais jovens. Não podemos correr tão rápido como antes. Nossos corações não são tão fortes. Estamos lentamente nos desgastando. Mas isto não significa que temos que morrer de doenças ou enfermidades. Nossos corpos podem simplesmente se desgastar completamente, e quando isto acontecer, nossos espíritos deixarão nossos corpos quando Deus nos chamar para casa, no céu. Muitos cristãos morreram assim. Por que não você?

[1] Em algumas igrejas na América do Norte, um ministro se arriscaria muito para ensinar esse assunto devido à grande resistência que encontraria dos supostos crentes. Jesus também encontrou resistência e, às vezes, descrença que prejudicaram Seu ministério de cura (veja Mc. 6:1-6). [2] Agarrando-se a qualquer coisa em que possam se segurar, alguns tentam nos convencer de que Jesus realizou Isaías 53:4 completamente quando curou as pessoas naquela noite em Cafarnaum. Mas Isaías disse que Jesus levou nossas enfermidades, assim como também disse que Jesus foi esmagado por nossas iniquidades (compare Is. 53:4 e 5). Jesus levou as enfermidades das mesmas pessoas de quem levou aquelas iniquidades. Ele foi esmagado; portanto, Mateus estava somente indicando que o ministério de cura de Jesus em Cafarnaum validou que Ele era o Messias a quem Isaías 53 se referia, aquele que levaria nossas iniquidades e enfermidades. [3] Por exemplo, Jesus disse a uma mulher a quem tinha curado de hemorragia interna: “Filha, a sua fé a curou” (Mc. 5:34). A palavra grega traduzida por “curou” neste versículo (sozo) e em outras dez vezes no Novo Testamento é traduzida por “salvar” ou “salva” mais de oitenta vezes no Novo Testamento. É, por exemplo, a mesma palavra que é traduzida por “salvos” em Efésios 2:5, “pela graça vocês são salvos”. Portanto, vemos que cura física está embutida no significado da palavra grega que é traduzida, na maioria das vezes como “salvo”.

Capítulo Dezesseis

O Ministério de Cura de Jesus Muitos pensam que porque Jesus era o Filho divino de Deus, podia fazer milagres sempre que quisesse. Mas quando examinamos as Escrituras de perto, descobrimos que mesmo sendo divino, Ele era aparentemente limitado durante Seu ministério terreno. Uma vez, Ele disse: “O Filho não poder fazer nada de si mesmo; só pode fazer o que vê o Pai fazer” (Jo. 5:19). Isto mostra claramente que Jesus era limitado e dependente de Seu Pai. De acordo com Paulo, quando Jesus se tornou um ser humano, Ele “esvaziou-se a si mesmo” de certas coisas que tinha anteriormente como Deus: Seja a atitude de vocês a mesma de Cristo Jesus, que, embora sendo Deus, não considerou que o ser igual a Deus era algo a que devia apegar-se; mas esvaziou-se a si mesmo. Vindo a ser servo, tornando-se semelhante aos homens (Fp. 2:5-7, ênfase adicionada). 158


Jesus “esvaziou-se a si mesmo” de quê? Não foi de Sua divindade. Não foi de Sua santidade. Não foi de Seu amor. Deve ter sido de seu poder sobrenatural. Obviamente Ele não era mais onipresente (presente em todos os lugares). Da mesma forma, Ele não era onisciente (conhecedor de todas as coisas), ou onipotente (todo-poderoso). Jesus se tornou homem. Em Seu ministério, operou como um homem ungido pelo Espírito Santo. Isso se torna abundantemente claro quando olhamos de perto os quatro evangelhos. Por exemplo, podemos perguntar: Se Jesus era o divino Filho de Deus, por que foi necessário que Ele fosse batizado no Espírito Santo quando começou Seu ministério aos trinta anos? Por que Deus precisaria ser batizado com Deus? Claramente, Jesus precisou do batismo do Espírito Santo para que fosse ungido para o ministério. É por isso que, logo depois de Seu batismo, lemos que Ele prega com estas palavras: “O Espírito do Senhor está obre mim, porque ele me ungiu para pregar...para proclamar...para libertar...” (Lc. 4:18, ênfase adicionada). Também é por este motivo que Pedro pregou: “Como Deus ungiu a Jesus de Nazaré com o Espírito Santo e poder, e como ele andou por toda parte fazendo o bem e curando todos os oprimidos pelo Diabo, porque Deus estava com ele” (At. 10:38). Também é por este motivo que Jesus não fez milagres até ser batizado no Espírito Santo aos trinta anos. Ele era o Filho de Deus aos vinte e cinco anos? Com certeza. Então, por que não fez milagres até a idade de trinta anos? Simplesmente, porque Jesus “esvaziou-se a si mesmo” do poder sobrenatural que Deus tem, e teve que esperar pelo tempo em que iria ser ungido pelo Espírito.

Mais Provas que Jesus Ministrou como um Homem Ungido pelo Espírito Quando lemos os evangelhos, notamos que algumas vezes Jesus tinha uma sabedoria sobrenatural e outras não. Na verdade, muitas vezes Jesus fez perguntas para obter informação. Por exemplo, Ele disse à mulher no poço de Samaria que ela tinha cinco maridos e o homem com quem morava não era seu marido (veja Jo. 4:17-18). Como Jesus sabia disso? Será que é porque Ele era Deus e Deus sabe todas as coisas? Não, se este fosse o caso, Jesus teria demonstrado essa habilidade consistentemente. Mesmo Ele sendo Deus e Deus sabendo todas as coisas, Jesus se esvaziou de Sua onisciência quando se tornou homem. Jesus sabia a história marital da mulher no poço porque o Espírito Santo deu a Ele naquele momento o dom de “palavra de conhecimento” (1 Co. 12:8), que é a habilidade sobrenatural de saber algo sobre o presente ou o passado. (Estudaremos mais detalhadamente o assunto de dons do Espírito no próximo capítulo.) Jesus sabia todas as coisas o tempo inteiro? Não, quando a mulher com o problema de hemorragia tocou a borda do manto de Jesus e Ele sentiu poder sair dEle, perguntou: “Quem tocou em meu manto?” (Mc. 5:30b). Quando Jesus viu uma figueira à distância em Mc. 11:13, “foi ver se encontraria nela algum fruto”. Por que Jesus não sabia quem O tinha tocado? Por que não sabia se havia figos na figueira? Porque Jesus estava operando como um homem ungido pelo Espírito Santo com os dons do Espírito. Os dons do Espírito operam como o Espírito deseja (veja 1 Co. 12:11; Hb. 2:4). Jesus não sabia as coisas sobrenaturais, a menos que o Espírito Santo quisesse dar a Ele o dom da “palavra de conhecimento”. A mesma coisa se aplica ao ministério de cura de Jesus. As Escrituras deixam claro que Jesus não podia curar todo o tempo. Por exemplo, lemos no evangelho de Marcos que quando Jesus visitou Sua cidade natal de Nazaré, não foi capaz de completar tudo o que queria fazer. Jesus saiu dali e foi para a sua cidade, acompanhado dos seus discípulos. Quando chegou o sábado, começou a ensinar na sinagoga, e muitos dos que o ouviam ficavam admirados. “De onde lhe vêm estas coisas?”, perguntavam eles. Que sabedoria é esta que lhe foi dada? E estes milagres que ele faz? Não é este o carpinteiro, filho de Maria e irmão de Tiago, José, Judas e Simão? Não estão aqui conosco as suas irmãs?” E ficavam escandalizados por causa dele. Jesus lhes disse: “Só em sua própria terra, entre os seus parentes e em sua própria casa, é que um profeta não tem honra”. E não pôde 159


fazer ali nenhum milagre, exceto impor as mãos sobre alguns doentes e curá-los. E ficou admirado com a incredulidade deles (Mc. 6:1-6, ênfase adicionada). Note que Marcos não disse que Jesus não quis fazer nenhum milagre ali, mas que não pôde. Por quê? Porque as pessoas de Nazaré eram descrentes. Elas não receberam Jesus como o ungido Filho de Deus, mas somente como o filho de um carpinteiro local. Assim como Jesus mesmo advertiu: “Só em sua própria terra, entre os seus parentes e em sua própria casa, é que um profeta não tem honra” (Mc. 6:4). Como resultado, o máximo que pôde fazer foi curar algumas pessoas de “pequenas dores” (como diz uma tradução). Com certeza, se houvesse um lugar em que Jesus quisesse fazer milagres e curar muitas pessoas, seria na cidade em que viveu a maior parte de Sua vida. Contudo, a Bíblia diz que não pôde.

Mais Vislumbres de Lucas Jesus curou principalmente por dois métodos diferentes: (1) ensinando a palavra de Deus para encorajar pessoas doentes a terem fé para serem curadas e (2) operando com “dom de cura” como o Espírito Santo escolhesse. Portanto, Jesus era limitado por dois fatores em Seu ministério de cura: (1) a descrença dos doentes e (2) a vontade do Espírito Santo de Se manifestar através do “dom de cura”. Obviamente, a maioria das pessoas na cidade natal de Jesus não tinha fé nEle. Mesmo que já tivessem ouvido de Seus milagres em outras cidades, não acreditaram que Ele tivesse poder para curar, e consequentemente, Ele não pôde curá-los. Além do mais, aparentemente, o Espírito Santo não quis dar a Jesus nenhum “dom de cura” em Nazaré — por um motivo que ninguém conhece. Lucas registra com ainda mais detalhes que Marcos exatamente o que aconteceu quando Jesus visitou Nazaré: Ele [Jesus] foi a Nazaré, onde havia sido criado, e no dia de sábado entrou na sinagoga, como era seu costume. E levantou-se para ler. Foi-lhe entregue o livro do profeta Isaías. Abriu-o e encontrou o lugar onde está escrito: “O Espírito do Senhor está sobre mim, porque ele me ungiu para pregar boas novas aos pobres. Ele me enviou para proclamar liberdade aos presos e recuperação da vista aos cegos, para libertar os oprimidos e proclamar o ano da graça do Senhor”. Então ele fechou o livro... *e+ começou a dizer-lhes: “Hoje se cumpriu a Escritura que vocês acabaram de ouvir”. Todos falavam bem dele, e estavam admirados com as palavras de graça que saíam de seus lábios. Mas perguntavam: “Não é este o filho de José?” (Lc. 4:16-22). Jesus queria que Sua audiência acreditasse que Ele era o prometido e ungido da profecia de Isaías, esperando que cressem e recebessem todos os benefícios de Sua unção, que de acordo com Isaías, incluía libertar cativos e oprimidos assim como dar visão aos cegos. [1] Mas eles não acreditaram, e mesmo que estivessem impressionados por Sua habilidade de falar, não acreditavam que o filho de José fosse alguém especial. Reconhecendo seu cepticismo, Jesus respondeu: É claro que vocês me citarão este provérbio: “Médico, cura-te a ti mesmo! Faze aqui em tua terra o que ouvimos que fizeste em Cafarnaum”... Digo-lhes a verdade: Nenhum profeta é aceito em sua terra (Lc. 4:23-24). As pessoas na cidade natal de Jesus estavam esperando para ver se Ele faria o que ouviram que tinha feito em Cafarnaum. Sua atitude não era de expectativa de fé, mas de cepticismo. Por sua falta de fé, eles O impediram de executar milagres e curas maiores.

Outra Limitação de Jesus em Nazaré As próximas palavras de Jesus à multidão de Nazaré revela que também foi limitado pelo querer do Espírito Santo de Se manifestar através dos “dons de cura”: Asseguro-lhes que havia muitas viúvas em Israel no tempo de Elias, quando o céu foi fechado por três anos e meio, e houve uma grande fome em toda a terra. Contudo, Elias não foi enviado a 160


nenhuma delas, senão a uma viúva de Sarepta, na região de Sidom. Também havia muitos leprosos em Israel no tempo de Eliseu, o profeta; todavia, nenhum deles foi purificado — somente Naamã, o sírio (Lc. 4:25-27). O propósito de Jesus era mostrar que Elias não podia multiplicar óleo e farinha para sustentar qualquer viúva que ele quisesse durante os três anos e meio de fome de Israel (veja 1 Rs. 17:9-16). Mesmo havendo muitas viúvas sofrendo em Israel naquele tempo, o Espírito ungiu a Elias para ajudar uma única viúva que nem era israelita. Da mesma forma, Eliseu não pôde purificar qualquer leproso que ele quisesse. Isto é provado pelo fato de que existiam muitos leprosos em Israel quando Naamã foi curado. Se tivesse sido sua escolha, Eliseu provavelmente tentaria curar seus companheiros israelitas que eram leprosos antes de curar a Naamã, um adorador de ídolos. Ambos Elias e Eliseu eram profetas — homens ungidos por Deus que eram usados em vários dons como o Espírito Santo desejava. Por que Deus não mandou Elias a algumas outras viúvas? Eu não sei. Por que Deus não usou Eliseu para curar alguns outros leprosos? Eu não sei. Ninguém sabe, exceto Deus. Contudo, essas duas histórias familiares do Velho Testamento não provam que não era a vontade de Deus suprir as necessidade de todas as viúvas ou curar todos os leprosos. O povo de Israel poderia ter trazido um fim a sua fome durante o tempo de Eliseu se eles e seu rei perverso Acabe tivessem se arrependido de seus pecados. A fome era uma forma de julgamento de Deus. E todos os leprosos em Israel poderiam ter sido curados se obedecessem e acreditassem nas palavras da aliança dada por Deus, que, como vimos, incluía cura física. Jesus revelou a sua audiência em Nazaré que estava debaixo das mesmas limitações que Elias e Eliseu estavam. Por algum motivo, o Espírito Santo não deu a Jesus nenhum dos “dons de cura” em Nazaré. Este fato, unido à descrença do povo de Nazaré, resultou no não desempenho de maiores milagres através de Jesus em Sua terra natal.

Uma Olhada em Um “Dom de Cura” Através de Jesus Se estudarmos os relatos dos evangelhos das várias curas executadas por Jesus, veremos que a maioria das pessoas foram curadas, não através de “dons de cura”, mas através de sua fé. Vamos considerar as diferenças entre esses dois tipos de cura olhando para exemplos de ambos. Primeiro, estudaremos a história do homem aleijado no tanque de Betesda, curado não por sua fé, mas por um “dom de cura” através de Jesus. Há em Jerusalém, perto da porto das Ovelhas, um tanque que, em aramaico, é chamado Betesda, tendo cinco entradas em volta. Ali costumava ficar grande número de pessoas doentes e inválidas: cegos, mancos e paralíticos. Eles esperavam um movimento nas águas. De vez em quando descia um anjo do Senhor e agitava as águas. O primeiro que entrasse no tanque, depois de agitada as águas, era curado de qualquer doença que tivesse. Um dos que estavam ali era paralítico fazia trinta e oito anos. Quando o viu deitado e soube que ele vivia naquele estado durante tanto tempo, Jesus lhe perguntou: “Você quer ser curado?” Disse o paralítico: “Senhor, não tenho ninguém que me ajude a entrar no tanque quando a água é agitada. Enquanto estou tentando entrar, outro chega antes de mim”. Então Jesus lhe disse: “Levante-se! Pegue a sua maca e ande”. Imediatamente o homem ficou curado, pegou a maca e começou a andar (Jo. 5:2-9). Como sabemos que esse homem foi curado, não por sua fé, mas através de um “dom de cura”? Existem várias indicações. Primeiro, note que este homem não estava buscando a Jesus. Pelo contrário, Jesus o encontrou sentado perto do tanque. Se o homem estivesse buscando a Jesus, seria uma indicação de fé por parte dele. Segundo, Jesus não disse ao homem que a fé dele o tinha curado, como fazia quando curava outras pessoas. 161


Terceiro, quando o homem curado foi questionado mais tarde pelos judeus sobre quem lhe disse para “levantar e andar”, ele respondeu que nem sabia quem era o Homem. Portanto, com certeza, não foi sua fé em Jesus que o curou. Este foi um caso claro de que alguém foi curado através de um “dom de cura”, manifestado pelo querer do Espírito. Note também que mesmo que houvesse uma multidão de pessoas doentes esperando pelo mover das águas, Jesus só curou um indivíduo e deixou os outros da multidão doentes. Por que? Novamente, eu não sei. Contudo, este incidente não prova que é a vontade de Deus que alguns continuem doentes. Qualquer uma e todas aquelas pessoas doentes poderiam ter sido curadas através da fé em Jesus. Aliás, esta pode ter sido a razão deste homem ter sido curado de modo sobrenatural — para chamar a atenção de todas aquelas pessoas doentes para Jesus, que poderia e iria curá-los se somente cressem. Muitas vezes, os “dons de cura” ficam na categoria de “sinais e maravilhas”, isto é, milagres designados para chamar a atenção para Jesus. É por isto que os evangelistas do Novo Testamento, como Filipe, eram equipados com vários “dons de cura”, porque os milagres que executavam chamavam atenção ao evangelho que estavam pregando (veja At. 8:5-8). Crentes doentes não devem esperar que alguém com “dons de cura” apareça e os cure, porque esta pessoa e dom podem nunca vir. A cura está disponível através da fé em Jesus e, mesmo que nem todos sejam curados através de dons de cura, todos podem ser curados através de sua fé. Dons de cura são colocados na igreja principalmente para que incrédulos possam ser curados e suas atenções sejam chamadas ao evangelho. Isto não quer dizer que cristãos nunca serão curados através de dons de cura. Contudo, Deus espera que Seus filhos recebam cura através da fé.

Um Exemplo de uma Pessoa Curada por Sua Fé Bartimeu era um homem cego que foi curado por sua fé em Jesus. Vamos ler sua história no evangelho de Marcos. Então chegaram a Jericó. Quando Jesus e seus discípulos, juntamente com uma grande multidão, estavam saindo da cidade, o filho de Timeu, Bartimeu, que era cego, estava sentado à beira do caminho pedindo esmolas. Quando ouviu que era Jesus de Nazaré, começou a gritar: “Jesus, Filho de Davi, tem misericórdia de mim!” Muitos o repreendiam para que ficasse quieto, mas ele gritava ainda mais: “Filho de Davi, tem misericórdia de mim!” Jesus parou e disse: “Chamem-no”. E chamaram o cego: “Ânimo! Levante-se! Ele o está chamando”. Lançando sua capa para o lado de um salto pôs-se em pé e dirigiu-se a Jesus. “O que você quer que eu lhe faça?”, perguntou-lhe Jesus. O cego respondeu: “Mestre, eu quero ver!” “Vá”, disse Jesus, “a sua fé o curou”. Imediatamente ele recuperou a visão e seguiu Jesus pelo caminho (Mc. 10:46-52). Primeiro, note que Jesus não foi até Bartimeu. (Isto é exatamente o oposto do que aconteceu com o homem no tanque de Betesda). Na verdade, Jesus estava passando por ele, e se Bartimeu não O tivesse chamado, Jesus continuaria andando. Isto significa que Bartimeu não teria sido curado. Agora pense sobre isso. E se Bartimeu tivesse ficado sentado e dito a si mesmo: “Bom, se for da vontade de Jesus que eu seja curado, Ele virá e me curará”. O que teria acontecido? Bartimeu nunca teria sido curado, mesmo que esta história revele claramente que era a vontade de Jesus que ele fosse curado. O primeiro sinal da fé de Bartimeu é que ele chamou Jesus. Segundo, note que Bartimeu não se desencorajou pelas pessoas que o mandaram ficar quieto. Quando tentaram silenciá-lo, ele gritou “ainda mais” (Mc. 10:48). Isto mostra sua fé. Terceiro, note que Jesus não respondeu aos primeiros chamados de Bartimeu. É claro que é possível que Ele não tivesse ouvido, mas se ouviu, não respondeu. Em outras palavras, Jesus deixou que a fé do homem fosse testada. Se Bartimeu tivesse desistido de gritar depois de um tempo, não seria curado. Às vezes, nós também precisamos perseverar na fé, porque muitas vezes parece que nossa oração não será 162


atendida. É aí que nossa fé é testada; portanto, precisamos continuar em pé, recusando-nos a sermos desencorajados pelas circunstâncias adversas.

Mais Indicações da Fé de Bartimeu Quando Jesus finalmente o chamou para se aproximar, a Bíblia diz que Bartimeu lançou “sua capa para o lado”. É do meu conhecimento que os cegos nos tempos de Jesus usavam certo tipo de capa que os identificava como cego ao público. Se isto for verdade, talvez Bartimeu tenha lançado sua capa para o lado quando Jesus o chamou porque acreditava que não precisaria mais ser identificado como tal. Portanto, sua fé é evidente novamente. Além do mais, quando Bartimeu lançou sua capa, a Bíblia diz que “de um salto pôs-se em pé”, uma indicação de animação antecipada que algo de bom estava para acontecer a ele. Pessoas que têm fé para a cura ficam animadas quando oram para que Deus os cure porque esperam receber cura. Note que Jesus testou a fé de Bartimeu mais uma vez enquanto este estava na Sua frente. Ele perguntou a Bartimeu o que desejava, e por sua resposta, fica claro que acreditava que Jesus poderia curá-lo de sua cegueira. Finalmente, Jesus lhe disse que sua fé o curou. Se Bartimeu pôde ser curado pela fé, qualquer pessoa pode, porque Deus “não trata as pessoas com imparcialidade”.

Para Mais Estudo Listei abaixo vinte e um casos específicos de curas executadas por Jesus como registradas nos quatro evangelhos. Jesus, é claro, curou muito mais que vinte e uma pessoas, mas em todos estes casos sabemos alguns detalhes sobre o indivíduo doente e como ela ou ele foi curado. Dividi a lista em duas categorias principais — aqueles que foram curados por fé e aqueles que foram curados através dos dons de cura. Notei que em vários casos quando as pessoas foram curadas por fé, Jesus lhes disse para não falarem sobre suas curas. Isto indica ainda mais que estes não eram “dons de cura” porque os doentes não eram curados para anunciar a Jesus ou ao evangelho.

Casos Onde Fé ou Crença é Mencionada como Causa de Cura 1. O servo do centurião: Mateus 5-13; Lucas 7:2-10 “Como você creu, assim lhe acontecerá!” 2. O paralítico baixado pelo telhado: Mateus 9:2-8; Marcos 2:3-11; Lucas 5:18-26 “Vendo a fé que eles tinham...ele disse...vá para casa”. 3. A filha de Jairo: Mateus 9:18-26; Marcos 5:22-43; Lucas 8:41-56 “Não tenha medo; tão somente creia...Ele deu ordens expressas para que não dissessem nada a ninguém”. 4. A mulher com problema de hemorragia: Mateus 9:20-22; Marcos 5:25-34; Lucas 8:43-48 “A sua fé a curou”. 5. Dois homens cegos: Mateus 9:27-31 “Que seja feito de acordo com a fé que vocês têm!...Cuidem para que ninguém saiba disso”. 6. O cego Bartimeu: Marcos 10:46-52; Lucas 18:35-43 “A sua fé o curou”. 7. Os dez leprosos: Lucas 17:12-19 “A sua fé o salvou”. 8. O filho do oficial: João 4:46-53 “O homem confiou na palavra de Jesus”. Nos próximos quatro casos, a fé das pessoas doentes não é mencionada especificamente, mas está implícita por suas palavras e ações. Por exemplo, os dois homens cegos (no número 10) chamaram a Jesus enquanto Ele passava, assim como fez Bartimeu. Todos os doentes nestes quatro exemplos buscaram a Jesus, uma indicação clara de sua fé. Em três dos quatro casos, Jesus disse aos que curou 163


para não contarem a ninguém sobre o que aconteceu, indicando que nestes casos não havia “dons de cura”. 9. O leproso que não conhecia a vontade de Deus: Mateus 8:2-4; Marcos 1:40-45; Lucas 5:1214 “Olhe, não conte isso a ninguém”. 10. Os dois homens cegos (um deles era provavelmente Bartimeu): Mateus 20:30-34 “*Eles+ puseram-se a gritar: ‘Senhor, Filho de Davi, tem misericórdia de nós!” 11. O homem surdo e mudo: Marcos 7:32-36 “Jesus ordenou-lhe que não o contassem a ninguém”. 12. Um homem cego: Marcos 8:22-26 “Não entre no povoado”. Estes dois últimos casos de pessoas que foram curadas através da fé, não foram na verdade curadas — foram libertas de demônios. Mas Jesus deu crédito à fé deles por sua libertação. 13. O menino endemoninhado: Mateus 17:14-18; Marcos 9:17-27; Lucas 9:38-42 “Disse Jesus...‘Tudo é possível àquele que crê’. Imediatamente o pai do menino exclamou: ‘Creio, ajuda-me a vencer a minha incredulidade!’” 14. A filha da mulher siro-fenícia: Mateus 15:22-28; Marcos 7:25-30 “Mulher, grande é a sua fé! Seja conforme você deseja.”

O Caso de Pessoas Curadas Através dos “Dons de Cura” Estes últimos sete casos são de pessoas que, aparentemente, foram curadas através de dons de cura. Contudo, nos primeiros três casos, obediência a um comando específico de Jesus foi exigida antes de a pessoa doente poder ser curada. Em nenhum destes casos Jesus disse à pessoa curada para não contar a ninguém sobre sua cura. E em nenhum desses casos a pessoa doente buscou a Jesus. 15. O homem com a mão atrofiada: Mateus 12:9- 13; Marcos 3:1-5; Lucas 6:6-10 “Levante-se e venha para o meio...Estenda a mão”. 16. O homem no tanque de Betesda: João 5:2-9 “Levante-se! Pegue a sua maca e ande”. 17. O homem cego de nascença: João 9:1-38 “Vá lavar-se no tanque de Siloé”. 18. A sogra de Pedro: Mateus 8:14-15; Marcos 1:30-31; Lucas 4:38-39. 19. A mulher que ficou encurvada por 18 anos: Lucas 13:11-16. 20. O homem curado de edema: Lucas 14:2-4. 21. O servo do sumo sacerdote: Lucas 22:50-51. Note que em todos os vinte e um exemplos acima, não há casos de um adulto ser curado somente pela fé de outro adulto. Em todos os casos quando alguém era curado pela fé de outra pessoa, era sempre uma criança sendo curada pela fé de seus pais (veja exemplo 1, 3, 8, 13 e 14). As únicas exceções possíveis seriam os exemplos 1 e 2, o servo do centurião e o paralítico baixado pelo telhado. No caso do servo do centurião, a palavra grega traduzida servo é a palavra pais, que também pode ser traduzida menino como em Mateus 17:18: “Jesus repreendeu o demônio; este saiu do menino que, daquele momento em diante, ficou curado” (ênfase adicionada). Se realmente foi o servo do centurião e não seu filho, seu servo devia ser um menino. Portanto, o centurião era responsável pelo menino como guardião legal e podia exercer fé em seu nome, assim como qualquer pai por seu filho. No caso do paralítico baixado pelo telhado, note que o paralítico teve que ter fé, caso contrário, nunca teria permitido que seus amigos o baixassem pelo telhado. Portanto, não foi salvo somente pela fé de seus amigos. Tudo isso indica que é improvável que a fé de um adulto possa resultar na cura de outro que esteja doente se este adulto não tem fé por si mesmo. Sim, um adulto pode orar em concordância com outro que precise de cura, mas a falta de fé da pessoa doente pode anular os efeitos da fé do outro adulto. Contudo, nossos próprios filhos podem ser curados através de nossa fé até certa idade. Eventualmente chegarão à idade onde Deus espera que recebam dEle, baseados em sua própria fé. 164


Eu os encorajo a estudarem de perto cada exemplo listado acima em sua própria Bíblia para fortalecer sua fé na provisão de cura de nosso Senhor.

A Unção de Cura Finalmente, é importante saber que Jesus foi ungido com poder real de cura durante Seu ministério terreno. Isto é, Ele realmente podia sentir aquela unção de cura sair de Seu corpo, e em alguns casos a pessoa doente que estava sendo curada pôde sentir esta unção quando entrava em seu corpo. Por exemplo, Lucas 6:19 diz: “e todos procuravam tocar nele, porque dele saía poder que curava todos”. Aparentemente, esta unção de cura até saturava as roupas de Jesus para que, se uma pessoa doente tocasse em Suas vestes com fé, a unção de cura fluiria em seu corpo. Lemos em Marcos 6:56: E aonde quer que ele fosse, povoados, cidades ou campos, levavam os doentes para as praças. Suplicavam-lhe que pudessem pelo menos tocar na orla de suas vestes; e todos os que nele tocavam era curados. A mulher com problema de hemorragia (veja Mc. 5:25-34) foi curada por simplesmente tocar a borda da veste de Jesus e esperar com fé que fosse curada. Não só Jesus foi ungido com unção real de cura, mas também Paulo, durante os últimos anos de seu ministério: Deus fazia milagres extraordinários por meio de Paulo, de modo que até lenços e aventais que Paulo usava eram levados e colocados sobre os enfermos. Estes eram curados de suas doenças, e os espíritos malignos saíam deles (At. 19:11-12). A unção real de cura saturava quaisquer panos que fossem presos ao corpo de Paulo, indicando evidentemente que pano é um bom condutor de poder de cura! Deus não mudou desde os dias de Jesus ou Paulo; portanto, não devemos nos surpreender se Deus ungir a alguns de Seus servos hoje com tal unção de cura, como fez com Jesus e Paulo. Contudo, esses dons não são normalmente dados a ministros novos, mas somente para aqueles que provam ser fiéis e generosos em sua motivação por certo período de tempo.

[1] Tudo isso pode se referir à cura física. Doenças definitivamente podem ser consideradas opressões, como as Escrituras dizem que “Deus ungiu a Jesus de Nazaré com o Espírito Santo e poder, e...ele andou por toda a parte fazendo o bem e curando todos os oprimidos pelo Diabo” (At. 10:38).

Capítulo Dezessete

Os Dons do Espírito A Bíblia está cheia de momentos em que homens e mulheres receberam habilidades sobrenaturais do Espírito Santo. No Novo Testamento, essas habilidades são chamadas de “dons do Espírito”. São dons, no sentido de que não podem ser merecidos. Contudo, não devemos esquecer de que Deus promove aqueles em quem pode confiar. Jesus disse: “Quem é fiel no pouco, também é fiel no muito, e quem é desonesto no pouco, também é desonesto no muito” (Lc. 16:10). Portanto, esperaríamos que os dons do Espírito fossem mais provavelmente entregues àqueles que têm provado sua fidelidade diante de Deus. Ser inteiramente consagrado e rendido ao Espírito Santo é importante, 165


já que é mais provável que Deus use este tipo de pessoa de forma sobrenatural. Por outro lado, Deus usou um burro para profetizar; portanto, pode usar a quem quiser. Se tivesse que esperar até que estivéssemos perfeitos para usar-nos, não poderia contar com nenhum de nós! No Novo Testamento, os dons do Espírito estão listados em 1 Coríntios 12 e existem nove ao todo: Pelo Espírito, a um é dada a palavra de sabedoria; a outro, pelo mesmo Espírito, a palavra de conhecimento; a outro, fé, pelo mesmo Espírito; a outro, dons de curar, pelo único Espírito; a outro, poder para operar milagres; a outro, profecia; a outro, discernimento de espíritos; a outro, variedade de línguas; e ainda a outro, interpretação de línguas (1 Co. 12:8-10). Saber definir cada dom individualmente não é crucial para ser usado por Deus com dons espirituais. Todos os profetas, sacerdotes e reis do Velho Testamento, assim como os ministros da igreja primitiva do Velho Testamento, operaram os dons do Espírito sem conhecimento de como categorizá-los ou defini-los. No entanto, porque os dons do Espírito estão categorizados para nós no Novo Testamento, deve ser algo que Deus quer que entendamos. De fato, Paulo escreveu: “Irmãos, quanto aos dons espirituais, não quero que vocês sejam ignorantes” (1 Co. 12:1).

Os Nove Dons Categorizados Os nove dons do Espírito têm sido categorizados nos tempos modernos em três grupos: (1) dons de discurso, que são: vários tipos de línguas, interpretação de línguas e profecia; (2) dons de revelações, que são: palavras de sabedoria, palavras de conhecimento, e discernimento de espíritos; e (3) dons de poder, que são: milagres, fé especial e dons de cura. Três desses dons dizem algo; três deles revelam algo; e três deles fazem algo. Todos esses dons foram manifestados debaixo da antiga aliança com a exceção de vários tipos de línguas e a interpretação de línguas. Esses dois dons são distintos da nova aliança. O Novo Testamento não dá instruções a respeito do uso próprio de qualquer dos “dons de poder” e poucas sobre o uso dos “dons de revelação”. Contudo, uma quantidade significante de instrução é dada por Paulo a respeito do uso correto dos “dons de discurso”, e a razão disto é provavelmente dupla. Primeiro, os dons de discurso são manifestados na maioria das vezes em reuniões de igrejas, enquanto dos dons de revelação se manifestam com menos regularidade e os dons de poder, menos ainda. Portanto, precisaríamos de mais instruções sobre os dons que se manifestam com mais frequência em reuniões de igrejas. Segundo, os dons de discurso parecem requerer maior cooperação humana e são, portanto, os mais prováveis de serem usados de forma errada. É bem mais fácil aumentar e arruinar uma profecia que destruir um dom de cura.

Como o Espírito Quer É importante entender que os dons do Espírito são dados como o Espírito deseja e não como a pessoa quer. A Bíblia deixa bem claro: Todas essas coisas, porém, são realizadas pelo mesmo e único Espírito, e ele as distribui individualmente, a cada um, como quer (1 Co. 12:11, ênfase adicionada). Deus também deu testemunho dela por meio de sinais, maravilhas, diversos milagres e dons do Espírito Santo distribuídos de acordo com a sua vontade (Hb. 2:4, ênfase adicionada). Certa pessoa pode ser usada frequentemente com alguns dons, mas não possuir nenhum deles. O fato de você ser ungido uma vez para fazer um milagre não significa que pode fazer milagres sempre que quiser; e também não garante que possa ser usado novamente para fazer outro milagre. Vamos estudar e considerar alguns exemplos bíblicos de cada dom. Contudo, lembre-se de que Deus pode manifestar Sua graça e poder de infinitas maneiras; portanto, é impossível definir exatamente como cada dom será operado todas as vezes. Além do mais, não há definições dos nove 166


dons nas Escrituras — tudo o que temos são suas classificações. Assim sendo, tudo o que podemos fazer é olhar exemplos na Bíblia e tentar determinar a que categoria cada dom pertence, definindo-os, por fim, por suas diferenças aparentes. Por existirem tantas maneiras pelas quais o Espírito Santo pode Se manifestar através dos dons sobrenaturais, pode ser insensatez tentar ser restrito demais em nossas definições. Na verdade, alguns dons podem ser combinações de vários outros. Sobre o mesmo assunto, Paulo escreveu: Há diferentes tipos de dons, mas o Espírito é o mesmo. Há diferentes tipos de ministérios, mas o Senhor é o mesmo. Há diferentes formas de atuação [ou operação], mas é o mesmo Deus quem efetua tudo em todos. A cada um, porém, é dada a manifestação do Espírito, visando ao bem comum (1 Co. 12:4-7, ênfase adicionada).

Os Dons de Poder 1) Os dons de cura: Obviamente, os dons de cura têm algo a ver com pessoas doentes sendo curadas. Muitas vezes, são definidos como dons sobrenaturais repentinos para curar fisicamente pessoas doentes, e não vejo razão de questionar isso. No capítulo anterior vimos um exemplo de um dom de cura sendo manifestado através de Jesus quando este curava o homem aleijado no tanque de Betesda (veja Jo. 5:2-17). Deus usou Eliseu para curar Naamã, o leproso sírio, que era um adorador de ídolos (veja 2 Rs. 5:1-14). Como aprendemos quando examinamos as palavras de Jesus a respeito da cura de Naamã em Lucas 4:27, Eliseu não podia curar qualquer leproso quando quisesse. De repente, ele foi inspirado de forma sobrenatural a instruir Naamã a mergulhar no Rio Jordão sete vezes, e quando este finalmente obedeceu, foi limpo de sua lepra. Deus usou Pedro para curar o homem paralitico na porta do templo chamada Formosa através de um dom de cura (At. 3:1-10). Além de curar o homem, o ato sobrenatural atraiu muitas pessoas para ouvir o evangelho através de Pedro, e mais ou menos cinco mil pessoas se juntaram à Igreja naquele dia. Muitas vezes, dons de cura têm o propósito duplo de curar pessoas doentes e atrair incrédulos a Cristo. Quando Pedro estava pregando para aqueles que se reuniram naquele dia, ele disse: Israelitas, por que isto os surpreende? Por que vocês estão olhando para nós, como se tivéssemos feito este homem andar por nosso próprio poder ou piedade? (At. 3:12). Pedro reconheceu que não foi por poder algum que possuía ou por sua grande santidade que Deus o usou para curar o aleijado. Lembre-se de que apenas dois meses antes desse milagre, Pedro negou que conhecia a Jesus. O fato de Deus ter usado Pedro milagrosamente nas primeiras páginas de Atos deve reforçar nossa convicção de que Deus também nos usará como desejar. Quando Pedro tentou explicar como o homem havia sido curado, é bem improvável que tenha categorizado o dom como “dom de cura”. Tudo o que sabia é que ele e João estavam passando por um homem aleijado e de repente se viu ungido com fé para que o homem fosse curado. Então, mandou que o homem andasse no nome de Jesus; segurou-o pela mão direita e o levantou. O aleijado os seguiu “andando, saltando e louvando a Deus”. Pedro explicou desta forma: Pela fé no nome de Jesus, o Nome curou este homem que vocês vêem e conhecem. A fé que vem por meio dele lhe deu esta saúde perfeita, como todos podem ver (At. 3:16). Pegar um homem aleijado pela mão, levantá-lo e esperar que ande requer uma fé especial! Juntamente com este dom de cura em particular, o fornecimento de fé também seria necessário para que ele acontecesse. Alguns sugeriram que a razão desse dom estar no plural (isto é, “dons” de cura) é porque existem diferentes dons que curam diferentes tipos de doenças. As pessoas que têm sido usadas frequentemente com dons de cura, às vezes, descobrem que, através de seus ministérios, algumas doenças em particular são curadas com mais frequência que outras. Por exemplo, o evangelista Filipe 167


parecia ter mais sucesso em curar paralíticos e mancos (At. 8:7). Alguns evangelistas do século passado, por exemplo, eram melhores com cegueira, surdez, problemas de coração e assim por diante, dependendo de quais dons de cura eram manifestados através deles mais frequentemente. 2) O dom de fé e o dom de fazer de milagres: O dom de fé e o de fazer milagres parecem bem próximos. O indivíduo que é ungido com ambos os dons, de repente recebe fé para o impossível. Várias vezes, a diferença entre os dois é descrita da seguinte forma: com o dom de fé, o ungido recebe fé para receber um milagre para si mesmo; enquanto com o dom de fazer milagres, o indivíduo recebe fé para fazer um milagre para outros. Às vezes, o dom de fé é mencionado como “fé especial” porque é uma concessão repentina de fé que vai além da fé habitual. Normalmente a fé vem ao ouvir uma promessa de Deus, enquanto a fé especial é uma concessão repentina pelo Espírito Santo. Os que já experimentaram esse dom de fé especial dizem que coisas que antes consideravam impossíveis se tornam possíveis de repente, e na verdade, eles acham impossível duvidar. O mesmo se aplica ao dom de fazer milagres. A história dos três amigos de Daniel, Sadraque, Mesaque e Abede-Nego nos dá um ótimo exemplo de como a “fé especial” faz com que duvidar se torne impossível. Quando foram lançados na fornalha em chamas por se recusarem a se ajoelhar diante do ídolo do rei, todos os três receberam o dom de fé especial. Seria necessário mais que fé normal para sobreviver às chamas ardentes! Vamos dar uma olhada nesses três jovens apresentados diante do rei: Sadraque, Mesaque e Abede-Nego responderam assim: Ó rei nós não vamos nos defender. Pois, se o nosso Deus, a quem adoramos, quiser, ele poderá nos salvar da fornalha e nos livrar do seu poder, ó rei. E mesmo que o nosso Deus não nos salve, o senhor pode ficar sabendo que não prestaremos culto ao seu deus. Nem adoraremos a estátua de ouro que o senhor mandou fazer (Dn. 3:16-18, ênfase adicionada). Note que o dom estava operando mesmo antes de serem lançados na fornalha. Não havia dúvida em suas mentes de que Deus os salvaria. Elias operou o dom de fé especial quando foi alimentado diariamente por corvos durante os três anos e meio de fome do reinado do malvado rei Acabe (veja 1 Rs. 17:1-6). É necessário mais que fé normal para confiar que Deus usará pássaros para lhe trazer comida todas as manhãs e noites. Mesmo que Deus não nos tenha prometido em Sua Palavra que corvos nos trarão comida todos os dias, podemos usar nossa fé normal para confiar que Deus suprirá nossas necessidades — pois essa é uma promessa (veja Mt. 6:25-34). A operação de milagres foi bem frequente durante o ministério de Moisés. Ele operou com esse dom quando abriu o Mar Vermelho (veja Ex. 14:13-31) e quando as várias pragas sobrevieram no Egito. Jesus operou milagres quando alimentou os 5.000 multiplicando alguns pães e peixes (veja Mt. 14:15-21). Outro exemplo da operação de milagres seria quando Paulo fez com que Elimas, o mago, ficasse cego durante certo tempo por estar atrapalhando seu ministério na ilha de Chipre (veja At. 13:4-12).

Os Dons de Revelação 1) A palavra de conhecimento e a palavra de sabedoria: O dom da palavra de conhecimento é, muitas vezes, definido como uma concessão sobrenatural de alguma informação, passada ou presente. Deus, que possui todo o conhecimento, às vezes concede uma pequena porção dele, e talvez por isso, seja chamada de palavra de conhecimento. Uma palavra é uma porção fragmentada de uma frase , e uma palavra de conhecimento seria uma porção fragmentada do conhecimento de Deus. A palavra de sabedoria é bem parecida com a palavra de conhecimento, mas às vezes, é definida como uma concessão sobrenatural repentina de conhecimento de eventos futuros. O conceito de sabedoria normalmente envolve algo a respeito do futuro. Novamente, essas definições são um tanto especulativas. 168


Vamos dar uma olhada em um exemplo do Velho Testamento sobre a palavra de conhecimento. Depois de Eliseu ter limpado Naamã, o leproso sírio, este ofereceu a Eliseu uma grande quantia de dinheiro em gratidão pela sua cura. Eliseu recusou o presente, para que ninguém pensasse que a cura de Naamã tivesse sido comprada, ao invés de dada graciosamente por Deus. Contudo, Geazi, servo de Eliseu, viu uma oportunidade para ganhar riqueza pessoal e recebeu secretamente parte do pagamento de Naamã. Depois de Geazi ter escondido seu ganho fraudulento, ele apareceu diante de Eliseu. Então, lemos: Este *Eliseu+ perguntou: “Onde é que você foi?” “Eu não fui a lugar nenhum!”, respondeu Geazi. Mas Eliseu disse: “O meu espírito estava com você quando aquele homem desceu do carro para falar com você.” (2 Rs. 5:25b-26a). Deus, que conhecia bem a obra suja de Geazi, a revelou de forma sobrenatural a Eliseu. Contudo, essa história deixa claro que Eliseu não “possuía” o dom da palavra de conhecimento; isto é, ele não sabia tudo sobre todos, o tempo inteiro. Se esse fosse o caso, Geazi nunca teria imaginado que poderia esconder seu pecado. Eliseu só sabia das coisas de forma sobrenatural quando Deus as revelava a ele ocasionalmente. O dom operava como o Espírito desejava. Jesus operou o dom da palavra de conhecimento quando disse à mulher no poço de Samaria que ela havia tido cinco maridos (veja Jo. 4:17-18). Pedro foi usado com esse dom quando soube de forma sobrenatural que Ananias e Safira estavam mentindo para a congregação sobre dar à igreja todo o dinheiro que tinham recebido pela terra recém-vendida (veja At. 5:1-11). Quanto ao dom da palavra de sabedoria, vemos frequentes manifestações desse dom através de todos os profetas do Velho Testamento. Sempre que prediziam um evento futuro, a palavra de sabedoria estava sendo operada. Jesus também recebia esse dom com bastante frequência. Ele predisse a destruição de Jerusalém, Sua própria crucificação e eventos que aconteceriam ao mundo antes de Sua segunda vinda (veja Lc. 17:22-36; 21:6-18). O apóstolo João foi usado com esse dom quando os julgamentos do período de Tribulação foram revelados a ele. Esses, ele registrou para nós no livro de Apocalipse. 2) O dom de discernimento de espíritos: O dom de discernir espíritos é muitas vezes definido como uma repentina habilidade sobrenatural de ver ou discernir o que está acontecendo no reino espiritual. Uma visão recebida através dos olhos ou mente de um crente pode ser classificada como discernimento de espíritos. Esse dom pode permitir que um crente veja anjos, demônios ou até mesmo Jesus, como aconteceu com Paulo em várias ocasiões (veja At. 18:9-10; 22:17-21; 23:11). Quando Eliseu e seu servo estavam sendo perseguidos pelo exército sírio, se encontraram em uma armadilha na cidade de Dotã. Nesse momento, o servo de Eliseu olhou por cima do muro da cidade e, vendo a quantidade de soldados reunidos, ficou preocupado: O profeta respondeu: “Não tenha medo. Aqueles que estão conosco são mais numerosos do que eles”. E Eliseu orou: “Senhor, abre os olhos dele para que veja”. Então o Senhor abriu os olhos do rapaz, que olhou e viu as colinas cheias de cavalos e carros de fogo ao redor de Eliseu (2 Rs. 6:16-27). Você sabia que anjos podem andar em cavalos e carruagens espirituais? Um dia você os verá no céu, mas o servo de Eliseu recebeu a habilidade de vê-los na terra. Através desse dom, um crente pode discernir um espírito maligno oprimindo alguém e ter a habilidade de identificar qual é o tipo de espírito. Esse dom incluiria mais que somente ver o reino espiritual, mas também discernir coisas dentro dele. Por exemplo, pode envolver ouvir algo do reino espiritual, como a própria voz de Deus. Por ultimo, não é, como muitos pensam, “o dom de discernimento”. Muitas vezes, as pessoas que dizem tê-lo pensam que podem discernir o motivo dos outros, mas isso poderia ser descrito como o “dom de criticismo e julgamento de outros”. A verdade é que você provavelmente teve esse dom antes de ser salvo e, agora que é, Deus quer te libertar dele permanentemente!

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Os Dons de Discurso 1) O dom de profecia: O dom de profecia é a habilidade sobrenatural repentina de falar por inspiração divina na própria língua. Pode começar assim: “Assim diz o Senhor”. Este dom não é de pregação ou ensino. Pregação e ensino inspirados têm um pouco de profecia por serem ungidos pelo Espírito, mas não são profecia em seu sentido mais estrito. Muitas vezes, um pregador ou professor ungido dirá coisas por repentina inspiração que não planejou dizer; mas mesmo sendo profético, não é profecia. O dom de profecia por si só serve para edificar, encorajar e consolar: Mas quem profetiza o faz para edificação, encorajamento e consolação dos homens (1 Co. 14:3). Assim sendo, o dom de profecia não contém revelação. Isto é, ele não revela algo sobre o passado, presente ou futuro como a palavra de sabedoria e a palavra de conhecimento. Contudo, como afirmei anteriormente, os dons do Espírito podem trabalhar em combinação com um outro dom e, portanto, a palavra de sabedoria ou a palavra de conhecimento podem ser expressadas por meio de profecia. Quando ouvimos em uma reunião alguém profetizar sobre coisas futuras, não ouvimos somente a profecia; ouvimos uma palavra de sabedoria sendo expressada através do dom de profecia. O simples dom de profecia será muito parecido com alguém lendo exortações da Bíblia, como: “Sejam fortes no Senhor e na força de Seu poder” e “Eu nunca o deixarei ou abandonarei”. Alguns acreditam que a profecia do Novo Testamento nunca deve conter algo de negativo, caso contrário ela supostamente não preenche os parâmetros de “edificação, encorajamento e consolação”. Contudo, isto não é verdade. Limitar o que Deus pode dizer ao Seu povo, permitindo que Ele só diga coisas que consideram “positivas” mesmo que mereçam alguma repreensão, é exaltar-se acima de Deus. Definitivamente, exortação se encaixa em ambas as categorias de edificação e encorajamento. Percebi que as mensagens do Senhor às sete igrejas da Ásia, registradas no Apocalipse de João, com certeza têm exortação. Devemos descartá-las? Acho que não. 2) O dom de variedade de línguas e a interpretação de línguas: O dom de vários tipos de línguas é a repentina habilidade sobrenatural de falar uma língua desconhecida ao falante. Esse dom seria normalmente acompanhado do dom de interpretação de línguas, que é uma habilidade sobrenatural de interpretar o que foi dito em uma língua desconhecida. Ele é chamado de interpretação de línguas e não a tradução de línguas. Portanto, não devemos esperar traduções de palavra por palavra das mensagens em línguas. Por este motivo, é possível ter uma “mensagem em línguas” curta e uma interpretação maior e vice-versa. O dom de interpretação de línguas é muito parecido com a profecia, pois também não contém revelação e normalmente serve ao propósito de edificação, encorajamento e consolação. Quase podemos dizer que de acordo com 1 Coríntios 14:5, línguas mais interpretação é igual a profecia: Gostaria que todos vocês falassem em línguas, mas prefiro que profetizem. Quem profetiza é maior do que aquele que fala em línguas, a não ser que as interprete, para que a igreja seja edificada. Como disse anteriormente, não há instruções na Bíblia a respeito de como usar os dons de poder; poucas, sobre como usar os dons de revelação, mas muitas instruções sobre como usar os dons de discurso. Por causa da confusão na igreja de Corinto a respeito do uso dos dons de discurso, Paulo dedicou quase todo o capítulo quatorze de 1 Coríntios ao assunto. O maior problema era sobre o uso próprio das línguas, porque como já aprendemos no capítulo sobre batismo no Espírito Santo, todos os crentes que são batizados no Espírito Santo têm a habilidade de orar em línguas na hora que desejar. Os coríntios estavam falando muito em línguas durante seus cultos, mas, muitas vezes, fora de ordem.

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Os diferentes Usos de Outras Línguas É de importância vital que entendamos a diferença entre o uso público de línguas desconhecidas e o uso privado. Mesmo que todos os crentes batizados no Espírito possam falar em línguas a qualquer hora, não significa que Deus os usará com o dom de línguas em público. O objetivo principal de se falar em línguas é a vida devocional privada de cada crente. Contudo, os coríntios estavam se reunindo e falando em línguas simultaneamente sem qualquer interpretação, e, é claro, ninguém era edificado com isto (veja 1 Co. 14:6-12, 16-19, 23, 26-28). Uma maneira de diferenciar entre o uso de línguas em público e privado é classificar o privado como orar em línguas e o público como falar em línguas. Paulo menciona ambos os usos no capítulo quatorze de sua primeira carta aos coríntios. Quais são as diferenças? Quando oramos em línguas, nossos espíritos estão orando a Deus (1 Co. 14:2, 14). Contudo, quando alguém é repentinamente ungido com o dom de vários tipos de línguas, é uma mensagem de Deus para a congregação (veja 1 Co. 14:5) e é entendida, uma vez que a interpretação é entregue. De acordo com as Escrituras, podemos orar em línguas quando nós quisermos (veja 1 Co. 14:15), mas o dom de vários tipos de línguas só opera quando o Espírito Santo deseja (veja 1 Co. 12:11). O dom de vários tipos de línguas seria normalmente acompanhado pelo dom de interpretação de línguas. Contudo, o uso privado de orar em línguas não seria normalmente interpretado. Paulo disse que quando orava em línguas sua mente ficava infrutífera (veja 1 Co. 14:14). Quando alguém ora em línguas, somente ele é edificado (veja 1 Co. 14:4), mas toda a congregação é edificada quando o dom de vários tipos de línguas é manifestado acompanhado do dom de interpretação de línguas (veja 1 Co. 14:4b-5). Cada crente deve orar em línguas todos os dias como parte de sua comunhão com o Senhor. Uma das maravilhas de orar em línguas é que não requer o uso de sua mente. Isto significa que você pode orar em línguas mesmo quando sua mente tem que estar ocupada com trabalho ou outras coisas. Paulo disse aos coríntios: “Dou graças a Deus por falar em línguas mais do que todos vocês” (1 Co. 14:18, ênfase adicionada). Ele devia passar bastante tempo falando em línguas para falar mais que toda a igreja de Corinto! Paulo também disse que quando oramos em línguas podemos, às vezes, “louvar a Deus” (1 Co. 14:16-17). Tive minha língua de oração entendida três vezes por alguém presente que conhecia a língua em que eu estava orando. Todas as três vezes eu estava falando em japonês. Uma vez eu disse ao Senhor em japonês: “O Senhor é tão bom”. Outra vez, disse: “Muito obrigado”. Em outra ocasião, disse: “Venha depressa, venha depressa; estou esperando”. Isto não é maravilhoso? Nunca aprendi se quer uma palavra em japonês, mas pelo menos três vezes “louvei ao Senhor” em japonês.

As Instruções de Paulo sobre o Falar em Línguas As instruções de Paulo para a igreja de Corinto foram bem específicas. Em qualquer reunião, o número de pessoas que poderiam falar em línguas em público era limitado a dois ou três. Eles não deveriam falar todos ao mesmo tempo, mas deveriam esperar por sua vez (veja 1 Co. 14:27). Paulo não quis dizer necessariamente que somente três “mensagens em línguas” eram permitidas, mas que somente três pessoas deveriam falar em línguas em qualquer culto. Alguns acham que se mais de três pessoas fossem usadas frequentemente pelo dom de vários tipos de línguas, qualquer um poderia render-se ao Espírito e receber uma “mensagem em línguas” que o Espírito desejasse que fosse manifestada na igreja. Se isto for verdade, a instrução de Paulo estaria, na verdade, limitando o Espírito Santo por limitar o número de mensagens em línguas que poderiam ser manifestadas nas reuniões. Se o Espírito Santo não desse mais de três dons de vários tipos de línguas em uma reunião, não haveria necessidade de Paulo ter dado tal instrução. 171


O mesmo pode ser verdade para a interpretação de línguas. Pensam que talvez, mais de uma pessoa na assembleia pode ceder ao Espírito e dar a interpretação de uma “mensagem em línguas”. Tais pessoas seriam consideradas “intérpretes” (veja 1 Co. 14:28), já que seriam usadas com frequência com o dom de interpretação de línguas. Se isto for verdade, talvez seja a isto que Paulo se referia quando instruiu: “alguém deve interpretar” (1 Co. 14:27). Talvez não estivesse dizendo que somente uma pessoa deve interpretar todas as mensagens em línguas, mas estava exortando contra “interpretações competitivas” da mesma mensagem. Se alguém interpretasse uma mensagem em línguas, não era permitido que outro interpretasse a mesma mensagem, mesmo que pensasse que poderia dar uma interpretação melhor. Em geral, tudo deve ser feito “com decência e ordem” em reuniões de igrejas — elas não devem ser uma bagunça com declarações simultâneas e confusas ou até mesmo com intenções competitivas. Além do mais, crentes devem ser sensíveis a quaisquer incrédulos que possam estar presentes em suas reuniões, assim como Paulo escreveu: Assim, se toda a igreja se reunir e todos falarem em línguas, e entrarem alguns não instruídos ou descrentes, não dirão que vocês estão loucos? (1 Co. 14:23). Era exatamente este o problema em Corinto — todos falavam em línguas simultaneamente, e muitas vezes não havia interpretações.

Algumas Instruções a Respeito de Dons de Revelação Paulo deixou algumas instruções a respeito das manifestações dos “dons de revelação” através dos profetas: Tratando-se de profetas, falem dois ou três, e os outros julguem cuidadosamente o que foi dito. Se vier uma revelação a alguém que está sentado, cale-se o primeiro. Pois vocês todos podem profetizar, cada um por sua vez, de forma que todos sejam instruídos e encorajados. O espírito dos profetas está sujeito aos profetas. Pois Deus não é Deus de desordem, mas de paz. Como em todas as congregações dos santos (1 Co. 14:29-33). Assim como havia membros do corpo em Corinto que aparentemente eram usados frequentemente com o dom de interpretação de línguas e eram conhecidos como “intérpretes”, assim também havia aqueles que eram usados com frequência com os dons de profecia e revelação e eram considerados “profetas”. Estes não eram profetas na mesma classe que os do Velho Testamento ou mesmo alguém como Ágabo no Novo Testamento (veja At. 11:28; 21:10). Seus ministérios eram limitados ao corpo de suas igrejas locais. Mesmo podendo haver mais de três profetas presentes em uma reunião de igreja, Paulo novamente colocou restrições, limitando o ministério profético a “dois ou três” profetas. Novamente, isto sugere que quando o Espírito estava dando dons espirituais em uma reunião, mais de uma pessoa poderia render-se ao Espírito para receber esses dons. Se não for desta maneira, as instruções de Paulo poderiam resultar em que o Espírito estaria dando dons que nunca seriam aproveitados pelo corpo, já que Paulo limitou quantos profetas poderiam falar. Se houvesse mais de três profetas presentes, os outros, mesmo restringidos de falar, poderiam ajudar julgando o que foi dito. Isto também mostraria suas habilidades em discernir o que o Espírito estava falando e possivelmente indicar que poderiam ter se rendido ao Espírito para serem usados com os mesmos dons que estavam sendo manifestados por outros profetas. Caso contrário, só poderiam julgar profecias e revelações de modo geral, vendo se concordavam com as revelações que Deus já havia dado (como as Escrituras), algo que qualquer cristão maduro pode fazer. Paulo também disse que esses profetas poderiam profetizar sequencialmente (veja 1 Co. 14:31) e que “o espírito dos profetas está sujeito aos profetas” (1 Co. 14:32), indicando que cada profeta poderia se conter de interromper outro, mesmo quando recebe uma profecia ou revelação do Espírito para compartilhar com a congregação. Isto mostra que o Espírito pode dar dons ao mesmo tempo a 172


vários profetas presentes em uma reunião, mas cada profeta pode e deve controlar quando suas revelações ou profecias devem ser compartilhadas com o corpo. Isso também se aplica a qualquer dom de discurso que possa ser manifestado através de qualquer cristão. Se uma pessoa recebe uma mensagem em línguas ou profecia do Senhor, ele pode guardá-la até a hora oportuna em uma reunião. Seria errado interromper a profecia ou o ensino de outra pessoa para dar a sua profecia. Quando Paulo disse: “todos podem profetizar, cada um por sua vez” (1 Co. 14:31), lembre-se que ele estava falando no contexto de profetas que tinham recebido profecias. Infelizmente, alguns tiram as palavras de Paulo do contexto, dizendo que todos os crentes podem profetizar em todas as reuniões do corpo. O dom de profecia é dado como o Espírito quer. Hoje, assim como sempre, a Igreja precisa da ajuda, poder, presença e dons do Espírito Santo. Paulo instruiu os crentes de Corinto: “busquem com dedicação os dons espirituais, principalmente o dom de profecia” (1 Co. 14:1). Isto mostra que nosso nível de busca tem algo a ver com a manifestação dos dons do Espírito, caso contrário, Paulo não teria dado tal instrução. O discipulador, desejando ser usado por Deus para a Sua glória, buscará com dedicação os dons espirituais e ensinará seus discípulos a fazerem o mesmo.

Capítulo Dezoito

Os Dons Ministeriais E a cada um de nós foi concedida a graça, conforme a medida repartida por Cristo... E ele designou alguns para apóstolos, outros para profetas, outros para evangelistas, e outros para pastores e mestres, com o fim de preparar os santos para a obra do ministério, para que o corpo de Cristo seja edificado, até que todos alcancemos a unidade da fé e do conhecimento do Filho de Deus, e cheguemos à plenitude de Cristo (Ef. 4:7, 11-13, ênfase adicionada). Assim, na igreja, Deus estabeleceu primeiramente apóstolos; em segundo lugar, profetas; em terceiro lugar, mestres; depois os que realizam milagres, os que têm dons de curar, os que têm dom de prestar ajuda, os que têm dons de administração e os que falam diversas línguas (1 Co. 12:28, ênfase adicionada) Os dons ministeriais, como são muitas vezes chamados, são os chamados e várias habilidades dadas a certos cristãos, que os capacita a permanecer no posto de apóstolos, profetas, evangelistas, pastores ou mestres. Ninguém pode se colocar em um desses postos; a pessoa deve ser chamada e presenteada por Deus. É possível que a mesma pessoa possa ocupar mais de um desses cinco postos, mas somente certas combinações são possíveis. Por exemplo, é possível que um crente possa ser chamado para ocupar a posição de pastor e mestre ou de profeta e mestre. Contudo, é pouco provável que alguém possa ocupar a posição de pastor e evangelista simplesmente porque o ministério do pastor requer que ele permaneça em um lugar servindo ao rebanho local e, portanto, não poderia cumprir o chamado de um evangelista que deve viajar com frequência. Mesmo que essas cinco posições recebam dons diferentes para propósitos diferentes, todas foram dadas à igreja para um propósito geral — o “de preparar os santos para a obra do ministério” (Ef. 4:12).[1] O objetivo de cada ministro deve ser preparar os santos para a obra do ministério. Contudo, muitas vezes aqueles no ministério agem, não para preparar os santos para o ministério, mas para entreter pessoas do mundo que vão aos cultos — cultos da igreja. Cada pessoa chamada para um desses ministérios deve avaliar constantemente sua contribuição ao preparo “dos 173


santos para a obra do ministério”. Se todos os ministros se avaliassem, muitos eliminariam várias atividades erroneamente consideradas “ministério”.

Alguns Dons Ministeriais eram só para a Igreja Primitiva? Por quanto tempo esses dons ministeriais serão dados à Igreja? Jesus os dará enquanto Seus santos precisarem de preparação para a obra, que é, pelo menos, até Ele voltar. A igreja está sempre recebendo novos cristãos que precisam crescer, e o resto de nós sempre tem necessidade de amadurecer espiritualmente um pouco mais. Infelizmente, alguns chegaram a conclusão que somente dois tipos de ministério existem hoje — pastoral e evangelista — como se Deus tivesse mudado de ideia. Não. Ainda precisamos de apóstolos, profetas e mestres assim como a igreja primitiva precisava. A razão de não vermos exemplos desses dons entre a maioria das igrejas pelo mundo é simplesmente porque Jesus os dá somente à Sua Igreja, não à igreja falsa e profana. Na falsa igreja só podem ser encontrados aqueles que fazem uma fraca tentativa de preencher os papéis de alguns dos dons ministeriais (a maioria pastores e talvez alguns evangelistas), mas mal se lembram dos dons ministeriais ungidos e chamados por Deus que Jesus dá à Sua Igreja. Com certeza não estão preparando os santos para as obras do ministério, porque o próprio evangelho que proclamam não resulta em santidade; somente engana as pessoas a pensarem que são perdoadas. E essas pessoas não têm desejo de serem preparadas para o ministério. Elas não têm a intenção de se negarem e levarem a sua cruz.

Como Saber se Você Foi Chamado? Como alguém sabe se foi chamado para um desses cargos na igreja? Primeiro e mais importante, ele sentirá um chamado divino de Deus. Ver-se-á encarregado a cumprir certa tarefa. Isto é muito mais que simplesmente ver uma necessidade que pode ser preenchida. É uma fome dada por Deus que compele uma pessoa a certo ministério. Se realmente for chamado por Deus, não poderá se satisfazer até começar a cumprir seu chamado. Isto nada tem a ver com ser apontado por um homem ou comitê de pessoas. Deus é quem faz o chamado. Segundo, a pessoa que realmente for chamada se verá preparada por Deus para cumprir sua tarefa. Cada um dos cinco cargos carrega uma unção sobrenatural que permite que o indivíduo faça o que Deus o chamou para fazer. Com o chamado, vem a unção. Se não há unção, não há chamado. Uma pessoa pode aspirar certo ministério, fazer faculdade teológica por quatro anos se educando e se preparando para esse ministério; mas sem a unção de Deus, não há chance de sucesso verdadeiro. Terceiro, ele verá que Deus abriu uma porta a uma oportunidade para que exercite seus dons em particular. Desse modo, poderá provar ser fiel e, eventualmente, será encarregado com maiores oportunidades, responsabilidades e dons. Se uma pessoa não sentiu uma compulsão e chamado interior para um dos cinco dons ministeriais, ou se não está ciente de qualquer unção especial para cumprir uma tarefa dada por Deus, ou se nenhuma oportunidade apareceu para que exercite os dons que acha que tem, ela não deve tentar algo que Deus não a chamou para fazer. Ela deve tentar ser bênção no corpo de sua igreja local, sua vizinhança e lugar de trabalho. Mesmo não sendo chamada ao ministério “quíntuplo”, ela é chamada para servir usando os dons que recebeu de Deus e deve tentar se mostrar fiel. O fato das Escrituras mencionarem cinco dons ministeriais, não significa que todas as pessoas que ocupam o mesmo cargo terão ministérios idênticos. Paulo escreveu que “há diferentes tipos de ministérios” (1 Co. 12:5), fazendo diferenciações entre ministros que ocupam o mesmo cargo. Além do mais, parece haver vários níveis de unção sobre os que ocupam tais cargos; portanto, podemos categorizar cada cargo por grau de unção. Por exemplo, existem alguns mestres que parecem ser mais ungidos que outros. O mesmo se aplica aos outros dons ministeriais. Pessoalmente, acredito que 174


qualquer ministro possa fazer coisas que resultarão no aumento da unção sobre seu ministério, como se mostrar fiel por certo tempo e se consagrar profundamente ao Senhor.

Uma Olhada Mais Profunda no Cargo de Apostolo A palavra grega traduzida como apóstolo é apóstolos e significa literalmente “o que é enviado”. Um verdadeiro apóstolo do Novo Testamento é um cristão enviado divinamente a um ou mais lugares para plantar igrejas. Ele lança o alicerce espiritual do “edifício” de Deus e pode ser comparado a um “mestre de obras”, como Paulo mesmo escreveu: Pois nós somos cooperadores de Deus; vocês são lavoura de Deus e edifício de Deus. Conforme a graça de Deus que me foi concedida, eu, como sábio construtor, lancei o alicerce, e outro está construindo sobre ele (1 Co. 3:9-10a, ênfase adicionada). Um “construtor”, ou mestre de obras supervisiona todo o processo de construção — ele vê o produto terminado. Não é um especialista como o carpinteiro ou o pedreiro. Ele pode fazer o trabalho do carpinteiro ou pedreiro, mas provavelmente não tão bem quanto eles. Da mesma forma, o apóstolo tem a habilidade de fazer o trabalho de um evangelista ou pastor, mas somente por tempo limitado, já que planta igrejas. (O apóstolo Paulo normalmente ficava no mesmo lugar de seis meses a três anos). O apóstolo é melhor no plantar e supervisionar de igrejas com o fim de mantê-las no curso de Deus. Ele é responsável por apontar líderes/pastores/presbíteros para pastorear cada congregação que planta (veja At. 14:21-23; Tt. 1:5).

Verdadeiros e Falsos Apóstolos Parece que alguns ministros hoje, sedentos por autoridade sobre igrejas, rapidamente declaram seus supostos chamados para serem apóstolos, mas a maioria tem um grande problema. Como não plantaram igrejas (ou talvez uma ou duas) e não têm os dons e unção de um apóstolo bíblico, precisam encontrar pastores ingênuos que lhes permitirão ter autoridade sobre suas igrejas. Se você for pastor, não se deixe enganar por apóstolos falsos, egocêntricos e famintos por poder. Normalmente, são lobos em peles de ovelhas e a maioria das vezes, querem dinheiro. As Escrituras nos exortam sobre falsos apóstolos (veja 2 Co. 11:13; Ap. 2:2). Se alguém lhe disser que é apóstolo, esta é uma provável indicação de que não é. Seu fruto deve falar por si só. Um pastor que planta sua própria igreja e a pastoreia por anos não é apóstolo. Talvez, tais pastores possam ser chamados de “pastores apostólicos”, já que foram pioneiros e plantaram suas próprias igrejas. Mesmo assim, não são apóstolos, pois apóstolos plantam igrejas continuamente. Um verdadeiro “missionário” (como são muitas vezes chamados hoje), chamado e ungido por Deus, que tem como chamado plantar igrejas, seria um apóstolo. Por outro lado, missionários que fundam faculdades teológicas ou treinam pastores não seriam apóstolos, mas mestres. O verdadeiro ministério de um apóstolo é caracterizado por sinais e maravilhas sobrenaturais, que são instrumentos para ajudá-lo a plantar igrejas. Paulo escreveu: Em nada sou inferior aos “super-apóstolos”, embora eu nada seja. As marcas de um apóstolo — sinais, maravilhas e milagres — foram demonstradas entres vocês, com grande perseverança (2 Co. 12:11b-12). Se alguém não tem sinais e maravilhas acompanhando seu ministério, não é apóstolo. Obviamente, verdadeiros apóstolos são raros e não existem na igreja falsa e profana. Eu os encontro principalmente nos lugares do mundo que ainda tem território virgem para o evangelho.

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A Alta Posição do Apóstolo Em ambas as listas de dons ministeriais do Novo Testamento, o posto de apóstolo é listado primeiro, indicando que é o maior chamado (veja Ef. 4:11; 1 Co. 12:28). Ninguém começa o ministério como apóstolo. Alguém pode ser chamado para ser apóstolo, mas não começará neste posto. Ele deve primeiramente, se mostrar fiel por alguns anos no pregar e ensinar, e, eventualmente, ocupará a posição que Deus preparou para ele. Paulo foi chamado desde o ventre de sua mãe para ser apóstolo, mas gastou muitos anos no ministério em tempo integral antes de finalmente ocupar esse cargo (veja Gl. 1:15-2:1). Na verdade, ele começou como mestre e profeta (veja At. 13:1-2), e mais tarde foi promovido a apóstolo quando foi enviado pelo Espírito Santo (veja At. 14:14). Encontramos menções de outros apóstolos além de Paulo e dos primeiros doze em Atos 1:1526; 14:14; Romanos 16:7; 2 Coríntios 8:23; Gálatas 1:17-19; Filipenses 2:25 e 1 Tessalonicenses 1:1 juntamente com 2:6. (A palavra traduzida mensageiro em 2 Coríntios e Filipenses 2:25 é a palavra grega apostolos.) Isto cancela a teoria de que o posto apostólico era limitado a somente doze homens. Contudo, somente doze apóstolos podem ser classificados como “Apóstolos do Cordeiro”, e somente aqueles doze terão um lugar especial no reinado milenar de Cristo (veja Mt. 19:28; Ap. 21:14). Não precisamos mais de apóstolos como Pedro, Tiago e João que foram especialmente inspirados para escrever as Escrituras, pois a revelação da Bíblia está completa. Contudo, hoje ainda precisamos de apóstolos que plantem igrejas pelo poder do Espírito Santo, assim como Paulo e outros apóstolos fizeram, como está escrito no livro de Atos.

O Cargo de Profeta Um profeta é alguém que recebe revelações sobrenaturais e fala por inspiração divina. Ele é usado frequentemente com o dom espiritual da profecia assim como os de revelação: a palavra de sabedoria, a palavra de conhecimento e o discernimento de espíritos. Qualquer crente pode ser usado por Deus com o dom de profecia como o Espírito deseja, mas isto não faz dele um profeta. Em primeiro lugar, um profeta é um ministro que pode pregar ou ensinar com unção. Por parecer ser o segundo maior chamado (veja a ordem em que está listado em 1 Coríntios 12:28), mesmo um ministro de tempo integral não seria colocado no posto de profeta até que estivesse no ministério por alguns anos. Se ocupar o cargo, terá a unção sobrenatural que o acompanhará. Dois homens que são chamados profetas no Novo Testamento são Judas e Silas. Lemos em Atos 15:32 que entregaram uma longa profecia à igreja de Antioquia: Judas e Silas, que eram profetas, encorajaram e fortaleceram os irmãos com muitas palavras. Outro exemplo de profeta no Novo Testamento seria Ágabo. Lemos em Atos 11:27-28: Naqueles dias alguns profetas desceram de Jerusalém para Antioquia. E um deles, Ágabo, levantou-se e pelo Espírito predisse que uma grande fome sobreviria a todo o mundo romano, o que aconteceu durante o reinado de Cláudio. Note que Ágabo recebeu uma palavra de conhecimento — algo sobre o futuro que foi revelado a ele. É claro, que Ágabo não sabia tudo o que aconteceria no futuro, somente o que o Espírito Santo escolheu revelar a ele. Em Atos 21:10-11, há outro exemplo da palavra de conhecimento operando através do ministério de Ágabo. Desta vez, era para uma pessoa, Paulo: Depois de passarmos ali vários dias, desceu da Judéia um profeta chamado Ágabo. Vindo ao nosso encontro, tomou o cinto de Paulo e, amarrando as suas próprias mãos e pés, disse: “Assim diz o Espírito Santo: ‘Desta maneira os judeus amarrarão o dono deste cinto em Jerusalém e o entregarão aos gentios’”. 176


É bíblico debaixo da nova aliança buscar a direção dos profetas? Não. O motivo é que todos os cristãos têm o Espírito Santo para guiá-los. Um profeta deve somente confirmar a um crente o que este já sabe em seu próprio espírito que é a direção de Deus. Por exemplo, quando Ágabo profetizou a Paulo, não deu direção sobre o que devia fazer; somente confirmou o que Paulo já sabia havia algum tempo. Como dito anteriormente, Paulo ocupava o cargo de profeta (e mestre) antes de ser chamado para o ministério de apóstolo (veja At. 13:1). Sabemos que Paulo recebia revelações do Senhor, de acordo com Gálatas 1:11-12, e que também tinha várias visões (veja At. 9:1-9; 18:9-10; 22:17-21; 23:11; 2 Co. 12:1-4). Assim como não encontramos verdadeiros apóstolos, também não encontramos verdadeiros profetas na falsa igreja. Ela afastaria (e afasta) verdadeiros profetas como Silas, Judas e Ágabo. Isto, porque verdadeiros profetas trariam revelação do descontentamento de Deus por sua desobediência (assim como fez João à maioria das igrejas da Ásia Menor nos primeiros dois capítulos de Apocalipse). A falsa igreja não está aberta a isto.

O Cargo de Mestre De acordo com a ordem listada em 1 Coríntios 12:28, o cargo de mestre é o terceiro maior chamado. Um mestre é alguém ungido de forma sobrenatural para ensinar a Palavra de Deus. O fato de alguém ensinar a Bíblia não significa que é um mestre do Novo Testamento. Muitos ensinam simplesmente por se sentirem obrigados, mas alguém que ocupa o cargo de mestre é ungido para ensinar. Muitas vezes, recebe revelações sobrenaturais a respeito da Palavra de Deus e pode explicar a Bíblia de forma que a faz compreensível e aplicável. Apolo é um exemplo no Novo Testamento de alguém que ocupou esse cargo. Paulo comparou seu ministério apostólico e o de ensino de Apolo em 1 Coríntios dizendo: Eu plantei, Apolo regou, mas Deus é quem fez crescer... lancei o alicerce, e outro está construindo sobre ele (1 Co. 3:6, 10b, ênfase adicionada). Apolo, o mestre, não plantou ou lançou o alicerce do edifício. Ao invés disso, ele regou as novas mudas com a Palavra de Deus e construiu muros no alicerce já existente. Apolo também é mencionado em Atos 18:27-28: Querendo ele [Apolo] ir para a Acaia, os irmãos o encorajaram e escreveram aos discípulos que o recebessem. Ao chegar, ele auxiliou muitos dos que pela graça haviam crido, pois refutava vigorosamente os judeus em debate público, provando pelas Escrituras que Jesus é o Cristo. Note que Apolo “auxiliou” a muitos que já eram cristãos e que seu ensino era vigoroso. Ensino ungido é sempre poderoso. Para a igreja, o ministério de ensino é ainda mais importante que milagres ou dons de cura. Por isto é que ele está listado antes desses dons em 1 Coríntios 12:28: Assim, na igreja, Deus estabeleceu primeiramente apóstolos; em segundo lugar, profetas; em terceiro lugar, mestres; depois os que realizam milagres, os que têm dons de curar (ênfase adicionada). Infelizmente, às vezes, cristãos são mais atraídos a curas do que a ouvir o claro ensino da Palavra, que produzirá crescimento espiritual e santidade em suas vidas. A Bíblia fala de ambos, pregação e ensino. Ensino é mais lógico e instrucional, enquanto pregação tende a inspirar e motivar mais. Normalmente, evangelistas pregam; mestres e pastores ensinam; apóstolos pregam e ensinam. É uma pena que alguns crentes não reconhecem o valor do ensino. Alguns até pensam que os palestrantes só estão ungidos se pregarem alto e rápido! Não é assim que funciona. Jesus é o melhor exemplo de um mestre ungido. Seu ensino era uma parte tão predominante de Seu ministério que muitos se referiam a Ele como “Mestre” (Mt. 8:19; Mc. 5:35; Jo. 1:28). Para maior estudo sobre mestres e ensino, veja Atos 2:42; 5:21, 25, 28, 42; 11:22-26; 13:1; 15:35; 18:11; 20:18-20; 28:30-31; Romanos 12:6-7; 1 Coríntios. 4:17; Gálatas 6:6; Colossenses 1:28; 1 177


Timóteo 4:11-16; 5:17; 6:2; 2 Timóteo 1:11; 2:2 e Tiago 3:1. A última passagem listada nos diz que mestres serão julgados de forma mais rígida; portanto, devem tomar muito cuidado com o que ensinam. Devem ensinar somente a Palavra.

A Função de Evangelista O evangelista é aquele que é ungido para pregar o evangelho. Suas mensagens têm por objetivo levar pessoas ao arrependimento e fé no Senhor Jesus Cristo. São acompanhadas por milagres que atraem a atenção dos ímpios e os convence da verdade de sua mensagem. Sem dúvida, havia muitos evangelistas na igreja primitiva, mas somente um homem está no livro de Atos como evangelista. Seu nome era Filipe: “ficamos na casa de Filipe, o evangelista, um dos sete” (At. 21:8, ênfase adicionada). Filipe começou seu ministério como um servo (ou talvez “diácono”) que servia às mesas (veja At. 6:1-6). Foi promovido à função de evangelista por volta do tempo da perseguição da Igreja que se levantou com o martírio de Estevão; e pregou o evangelho primeiramente em Samaria: Indo Filipe para uma cidade de Samaria, ali lhes anunciava o Cristo. Quando a multidão ouviu Filipe e viu os sinais maravilhosos que ele realizava, deu unânime atenção ao que ele dizia. Os espíritos imundos saíam de muitos, dando gritos, e muitos paralíticos e mancos foram curados. Assim, houve grande alegria naquela cidade (At. 8:5-8). Note que Filipe tinha uma mensagem — Cristo. Seu objetivo era começar a fazer discípulos, isto é, seguidores obedientes de Cristo. Ele proclamava Cristo como um fazedor de milagres, Filho de Deus, Senhor, Salvador e Juiz. Ele chamava as pessoas a se arrependerem e seguirem ao seu Senhor. Note também que Filipe foi equipado com sinais e maravilhas sobrenaturais que autenticavam sua mensagem. Alguém que ocupa o cargo de evangelista será ungido com dons de cura e outros dons espirituais. A falsa igreja só tem falsos evangelistas que proclamam um falso evangelho. O mundo está cheio de evangelistas assim hoje, e é óbvio que Deus não está confirmando suas mensagens com milagres e curas. A simples razão é que não estão pregando Seu evangelho. Não pregam realmente a Cristo. Normalmente pregam sobre as necessidades das pessoas e como Cristo pode dar-lhes vida abundante, ou pregam uma fórmula de salvação que não inclui arrependimento. Levam pessoas a uma falsa conversão que as livra de culpa, mas não as salva. O resultado de sua pregação é que pessoas têm menos chance de renascer, pois não veem necessidade de receber o que acham que já têm. Na verdade, tais evangelistas ajudam a construir o reino de Satanás. O cargo de evangelista não está listado com os outros dons ministeriais em 1 Coríntios 12:28 como está em Efésios 4:11. Contudo, estou assumindo que a referência aos que “realizam milagre, os que têm dons de curar” se aplica ao cargo de evangelista, já que caracterizavam o ministério evangelístico de Filipe e dariam autenticação sobrenatural ao ministério de qualquer evangelista. Muitos que viajam de igreja em igreja nomeando-se evangelistas não o são realmente, pois só pregam a cristãos em prédios de igrejas, e não estão equipados com os dons de cura ou milagres. (Alguns fingem ter tais dons, mas só podem enganar aos ingênuos. Seus maiores milagres são fazer pessoas cair por certo tempo quando os empurram.) Esses ministros podem ser mestres, pregadores ou exortadores (veja Rm. 12:8), mas não ocupam o cargo de evangelista. No entanto, é possível que Deus possa começar o ministério de alguém como exortador ou pregador e, mais tarde, promovê-lo ao cargo de evangelista. Para maior estudo a respeito do cargo de evangelista, leia Atos 8:4-40, um registro do ministério de Filipe. Note a importância da interdependência dos dons ministeriais (veja os versículos 14-25 em particular) e como Filipe não só pregou o evangelho às multidões, mas foi levado por Deus para ministrar a indivíduos também (veja At. 8:25-39). Parece que evangelistas são comissionados a batizar seus convertidos, mas não são necessariamente comissionados a ministrar o batismo no Espírito Santo a novos crentes. Isto seria de responsabilidade principal dos apóstolos ou pastores/presbíteros/bispos. 178


A Função de Pastor Dois capítulos atrás, comparei o papel bíblico do pastor com aquele do pastor institucional normal. Contudo, há ainda mais a dizer sobre o ministério do pastor. Para entender completamente o que as Escrituras ensinam sobre o cargo de pastor, precisamos entender três palavras gregas. No grego elas são (1) poimen, (2) presbuteros e (3) episkopos. São consecutivamente traduzidas (1) pastor, (2) presbítero e (3) bispo. A palavra poimen é encontrada dezoito vezes no Novo Testamento e é traduzida por pastor (de ovelhas) dezessete vezes e pastor (de igreja) uma vez. O verbo poimaino, é encontrado onze vezes e a maioria das vezes é traduzida como pastorear (ovelhas). A palavra grega prebuteros é encontrada sessenta e seis vezes no Novo Testamento, sendo sessenta dessas vezes traduzida por presbítero ou presbíteros. Por último, a palavra grega episkopos é encontrada cinco vezes no Novo Testamento, e é traduzida por bispo quatro vezes. Todas essas palavras se referem ao mesmo cargo na igreja, e são usadas de forma alternada. Sempre que o apóstolo Paulo plantava igrejas, apontava presbíteros (presbuteros) que eram encarregados das congregações locais (veja Ac. 14:23, Tt. 1:5). A responsabilidade deles era de agir como bispos (episkopos) e pastorear (poimaino) seus rebanhos. Por exemplo, lemos em Atos 20:17: De Mileto, Paulo mandou chamar os presbíteros [presbuteros] da igreja de Éfeso (ênfase adicionada). E o que Paulo disse a esses presbíteros? Cuidem de vocês mesmos e de todo o rebanho sobre o qual o Espírito Santo os colocou como bispos [episkopos], para pastorearem [poimaino] a igreja de Deus, que ele comprou com o seu próprio sangue (At. 20:28, ênfase adicionada). Note o uso alternado das três palavras gregas. Não são cargos diferentes. Paulo disse aos presbíteros que eles eram os bispos que deveriam agir como pastores (de ovelhas). Pedro escreveu em sua primeira epístola: Portanto, apelo para os presbíteros [presbuteros] que há entre vocês, e o faço na qualidade de presbítero como eles e testemunha dos sofrimentos de Cristo, como alguém que participará da glória a ser revelada: pastoreiem [poimaino] o rebanho de Deus que está aos seus cuidados. Olhem por ele, não por obrigação, mas de livre vontade, como Deus quer. Não façam isso por ganância, mas com o desejo de servir. Não ajam como dominadores dos que lhes foram confiados, mas como exemplos para o rebanho. Quando se manifestar o Supremo Pastor, vocês receberão a imperecível coroa da glória (1 Pd. 5:1-4, ênfase adicionada). Pedro disse aos presbíteros que pastoreassem seu rebanho. O verbo que foi traduzido aqui como pastorear, foi traduzido (como substantivo) por pastor em Efésios 4:11: E Ele [Jesus] designou alguns para apóstolos, outros para profetas, outros para evangelistas, e outros para pastores e mestres (ênfase adicionada). Isso também nos leva a acreditar que presbíteros e pastores são a mesma coisa. Paulo também usou as palavras presbítero (presbuteros) e bispo (episkopos) alternadamente em Tito 1:5-7: A razão de tê-lo deixado em Creta foi para que você pusesse em ordem o que ainda faltava e constituísse presbíteros em cada cidade, como eu o instruí... é necessário que o bispo seja irrepreensível (ênfase adicionada). Portanto, não pode ser debatido de modo lógico que o cargo de pastor, presbítero e bispo não sejam o mesmo cargo. Qualquer coisa escrita sobre bispos e presbíteros nas epístolas do Novo Testamento é, portanto, aplicável a pastores.

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Controle da Igreja As Escrituras citadas acima deixam bem claro que os presbíteros/pastores/bispos recebem poder para supervisionar a igreja, assim como autoridade de liderança. Deixando bem simples, os presbíteros/pastores/bispos estão no controle e os membros das igrejas devem se submeter a eles: Obedeçam aos seus líderes e submetam-se à autoridade deles. Eles cuidam de vocês como quem deve prestar contas (Hb. 13:17). É claro que nenhum cristão deve se submeter a um pastor que não é submetido a Deus, mas ele deve reconhecer que nenhum pastor é perfeito. Os pastores/presbíteros/bispos têm autoridade sobres suas igrejas assim como um pai tem autoridade sobre sua família: É necessário, pois, que o bispo [pastor/presbítero] seja irrepreensível... Ele deve governar bem sua própria família, tendo os filhos sujeitos a ele, com toda a dignidade. Pois, se alguém não sabe governar sua própria família, como poderá cuidar da igreja de Deus? (1 Tm. 3:2-5, ênfase adicionada). Paulo continuou dizendo: Os presbíteros [pastores/bispos] que lideram bem a igreja são dignos de dupla honra, especialmente aqueles cujo trabalho é a pregação e o ensino (1 Tm. 5:17, ênfase adicionada) Está claro que presbíteros devem governar a igreja.

Presbíteros Não-Bíblicos Muitas igrejas acreditam que suas estruturas governamentais são bíblicas porque têm um grupo de presbíteros que lideram, mas o problema é que seu conceito de presbíteros está errado. Normalmente os presbíteros são eleitos e rotativos dentro das congregações. São muitas vezes chamados de “Corpo de Presbíteros”. Mas tais pessoas não são presbíteros por definição bíblica. Se simplesmente examinarmos os requisitos que Paulo enumerou para que um homem seja presbítero, isso se torna bem claro. Paulo escreveu que um presbítero ocupa um cargo integral e, portanto, pago, de ensino/pregação e governo na igreja (veja 1 Tm. 3:4-5; 5:17-18; Tt. 1:9). Poucas pessoas, se há alguma no “corpo de presbíteros”, se encaixam nessas qualificações. Elas não são pagas; não pregam ou ensinam; não trabalham em tempo integral na igreja; e mal sabem como liderar uma igreja. O governo não-bíblico de uma igreja pode muito bem ser a causa de mais problemas na igreja local do que qualquer outra coisa. Quando as pessoas erradas estão liderando uma igreja, problemas aparecem. Isso pode abrir a porta para disputas, desacordos e completo extermínio de uma igreja. Uma estrutura governamental de igreja não-bíblica é como dar as boas vidas à Satanás. Sei que estou escrevendo a pastores de igrejas institucionais assim como de igrejas nos lares. Alguns pastores de igrejas institucionais podem estar pastoreando igrejas que têm estruturas governamentais não-bíblicas onde presbíteros são escolhidos pela congregação. Normalmente, essas estruturas governamentais não-bíblicas não podem ser alteradas sem brigas se desenvolverem. Meu conselho a tais pastores é que façam o melhor com a ajuda de Deus para mudar a estrutura governamental da igreja e encarar o possível conflito temporário inevitável, já que conflitos regulares serão inevitáveis se ele nada fizer. Se obtiver sucesso encarando disputas temporárias, terá evitado todas as futuras disputas. Se fracassar, sempre poderá começar uma nova igreja e fazê-la de acordo com as Escrituras desde o início. Mesmo doloroso, no final, provavelmente terá dado mais frutos para o Reino de Deus. Se aqueles que estão atualmente governando suas igrejas são verdadeiros discípulos de Cristo, eles têm chance de convencer os membros a mudarem a estrutura, se puder convencê-los respeitosamente através das Escrituras a fazer as mudanças necessárias.

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Presbíteros no Plural? Alguns gostam de enfatizar que a Bíblia sempre se refere a presbíteros no plural, mostrando, aparentemente, que não é bíblico ter somente um presbítero/pastor/bispo liderando o rebanho. Contudo, em minha opinião, isto não é prova conclusiva. Realmente, a Bíblia menciona que, em algumas cidades, mais de um presbítero liderava a igreja, mas não diz que esses presbíteros atuavam como iguais sobre uma única congregação. Por exemplo, quando Paulo reuniu os presbíteros de Éfeso (veja At. 20:17), é bem óbvio que aqueles presbíteros eram de uma cidade em que o corpo total consistia de milhares e talvez dezenas de milhares de pessoas (veja At. 19:19). Portanto, devia haver vários rebanhos em Éfeso e é bem possível que cada presbítero liderasse uma igreja no lar. Não há exemplo nas Escrituras de que Deus tenha chamado um comitê para cumprir uma tarefa. Quando quis libertar Israel do Egito, chamou um homem, Moisés, para ser o líder. Outros foram chamados para ajudá-lo, mas eram-lhe todos inferiores; como ele, cada um tinha responsabilidade sobre um subgrupo de pessoas. Esse padrão é encontrado repetidamente nas Escrituras. Quando Deus tem uma tarefa, chama uma pessoa para ter a responsabilidade e chama outros para ajudar essa pessoa. Portanto, parece improvável que Deus chamasse um comitê de presbíteros de igual autoridade para liderar uma pequena igreja no lar de vinte pessoas. Parece um convite a discussões. Isso não quer dizer que todas as igrejas nos lares devem ser lideradas por somente um presbítero. Contudo, significa que se há mais de um presbítero, o mais novo e menos maduro espiritualmente deve se submeter ao mais velho e espiritualmente mais maduro. Espiritualmente, são as igrejas, não as faculdades teológicas, que devem treinar novos pastores/presbíteros/bispos e, portanto, é bem possível e até desejável que hajam vários presbíteros/pastores/bispos em uma igreja no lar, com os espiritualmente mais novos sendo discipulados pelos espiritualmente mais maduros. Tenho observado esse fenômeno até em igrejas que são supostamente lideradas por líderes que atuam como “iguais”. Sempre há um que é admirado pelos outros. Ou há alguém que é dominante enquanto os outros são mais passivos. Caso contrário, eventualmente haverá divisões. É fato que até comitês elegem um líder. Quando um grupo de iguais decide realizar uma tarefa, reconhecem que deve haver um líder. E assim é na igreja. Além do mais, a responsabilidade dos presbíteros é comparada à responsabilidade dos pais por Paulo em 1 Timóteo 3:4-5. Presbíteros devem cuidar de suas próprias casas, caso contrário não são qualificados para cuidar da igreja. Mas será que uma família com dois pais seria bem administrada? Acho que haveria problemas. Presbíteros/pastores/bispos devem estar interligados em um corpo local maior para que possam prestar conta de suas ações entre companheiros que possam ajudar, caso problemas surjam. Paulo escreveu sobre um “presbitério” (veja 1 Tm. 4:14), que deve ter sido uma reunião de presbuteros (presbíteros) e possivelmente outros homens com dons ministeriais. Se houver um apóstolo fundador, ele também pode ajudar, se houver problemas em um corpo local gerados pelo erro de um presbítero. Quando pastores institucionais se desviam, o resultado é sempre grandes problemas por causa da estrutura da igreja. Há um prédio e programas a serem mantidos. Mas igrejas nos lares podem ser instantaneamente desfeitas quando um pastor se desvia. Os membros podem simplesmente se juntar a outro corpo.

Autoridade para Servir O fato de Deus dar ao pastor autoridade espiritual e governamental em sua igreja, não dá a ele o direito de dominar Seu rebanho. Ele não é Senhor deles — Jesus é. Eles não são seu rebanho — são rebanho do Senhor. Pastoreiem o rebanho de Deus que está aos seus cuidados. Olhem por ele, não por obrigação, mas de livre vontade, como Deus quer. Não façam isso por ganância, mas com o desejo de servir. Não 181


ajam como dominadores dos que lhes foram confiados, mas como exemplos para o rebanho. Quando se manifestar o Supremo Pastor, vocês receberão a imperecível coroa da glória (1 Pd. 5:2-4, ênfase adicionada). Cada pastor terá que dar contas de seu ministério algum dia diante do trono de julgamento de Cristo. Além do mais, sobre a questão financeira, um único pastor/presbítero/bispo não deve agir sozinho. Se houver dinheiro sendo coletado regularmente ou esporadicamente por qualquer motivo, outros dentro do corpo devem ajudar para que não haja falta de confiança a respeito do manejo dos fundos (veja 2 Co. 8:18-23). Esse pode ser um grupo apontado ou eleito.

Pagando os Presbíteros As Escrituras deixam claro que pastores/presbíteros/bispos devem ser pagos, já que trabalham na igreja por tempo integral. Paulo escreveu: Os presbíteros que lideram bem a igreja são dignos de dupla honra, especialmente aqueles cujo trabalho é a pregação e o ensino, pois a Escritura diz: “Não amordace o boi enquanto está debulhando o cereal”, e “o trabalhador merece o seu salário” (1 Tm. 5:17-18) O assunto é claro — Paulo até usa a palavra salário. Sua frase mais vaga sobre dar dupla honra aos presbíteros que lideram bem é facilmente entendida quando o contexto é considerado. Nos versículos anteriores, Paulo inequivocamente escreveu sobre a responsabilidade da igreja de sustentar financeiramente viúvas que, caso contrário, não seriam sustentadas, e começou usando a mesma expressão: “Honre as viúvas que são realmente necessitadas” * (1 Tm. 5:3-16). Portanto, nesse contexto, “honrar” significa sustentar financeiramente. Presbíteros que lideram bem devem ser duplamente honrados, recebendo pelo menos duas vezes mais do que é dado às viúvas e ainda mais se tiverem filhos. A igreja institucional ao redor do mundo sustenta a maioria de seus pastores (até mesmo em nações pobres), mas parece que muitas igrejas nos lares, especialmente aquelas do Ocidente, não. Acredito que isso é parte por causa do fato de que os motivos de muitas pessoas do mundo ocidental para se unirem a igrejas nos lares é que são na verdade rebeldes de coração e estão procurando, e encontraram, a forma de cristianismo menos exigente existente no planeta. Dizem que se juntaram a uma igreja no lar porque queriam fugir da escravidão da igreja institucional, mas na verdade, queriam fugir de qualquer compromisso com Cristo. Encontraram igrejas que não pedem por compromisso financeiro, igrejas muito diferentes do que Cristo espera de Seus discípulos. Aqueles que têm o dinheiro como deus e provam isso acumulando seus tesouros na terra ao invés de no céu não são verdadeiros discípulos de Cristo (veja Mt. 6:19-24; Lc. 14:33). Se o cristianismo de alguém não afeta o que faz com seu dinheiro, ele não é um verdadeiro cristão. Igrejas nos lares que dizem ser bíblicas devem sustentar seus pastores, assim como cuidar dos pobres e contribuir com missões. No dar e em todos os assuntos financeiros, eles devem ser bem melhores que igrejas institucionais, já que não têm prédios ou equipe para pagar. Não é preciso mais que dez pessoas que dizimam para sustentar um pastor. Dez pessoas que dão 20% de seus salários podem sustentar integralmente um pastor e um missionário que tenha o mesmo padrão que seu pastor.

O que os Pastores Fazem? Imagine-se perguntando a um membro de igreja, “De quem é o trabalho de fazer as seguintes coisas?” Quem deve compartilhar o evangelho com os incrédulos? Ter uma vida santa? Orar? Exortar, encorajar e ajudar outros crentes? Visitar os doentes? Impor as mãos sobre os doentes e curá-los ? 182


Levar os fardos dos outros? Exercitar seus dons pelo bem do corpo? Negar a si mesmo sacrificando-se pelo bem do Reino de Deus? Fazer e batizar discípulos, ensinando-os a obedecer os mandamentos de Cristo? Muitos crentes responderão sem hesitação: “Todas essas são responsabilidades do pastor”. Mas são mesmo? De acordo com as Escrituras, todos os crentes devem compartilhar o evangelho com os ímpios: Antes, santifiquem Cristo como Senhor em seu coração. Estejam sempre preparados para responder a qualquer pessoa que lhe pedir a razão da esperança que há em vocês (1 Pd. 3:15). Todos os salvos devem ter uma vida santa: Mas, assim como é santo aquele que os chamou, sejam santos vocês também em tudo o que fizerem. Pois está escrito: “Sejam santos, porque eu sou santo” (1 Pd. 1:15-16). Todos os salvos devem orar: Alegrem-se sempre. Orem continuamente (1 Ts. 5:16-17). Todos os salvos devem exortar, encorajam e ajudar outros crentes: Exortamos vocês, irmãos, a que advirtam os ociosos, confortem os desanimados, auxiliem os fracos, sejam pacientes para com todos (1 Ts. 5:14, ênfase adicionada). Todos os salvos devem visitar os doentes: Necessitei de roupas, e vocês me vestiram; estive enfermo, e vocês cuidaram de mim; estive preso e vocês me visitaram (Mt. 25:36).

Mais Responsabilidades Mas isso não é tudo. Todos os salvos devem impor as mãos e curar os doentes: Estes sinais acompanharão os que crerem: em meu nome expulsarão demônios; falarão novas línguas; pegarão em serpentes; e, se beberem algum veneno mortal, não lhes fará mal nenhum; imporão as mãos sobre os doentes, e estes ficarão curados (Mc. 16:17-18, ênfase adicionada). Todos os crentes devem carregar os fardos de seus companheiros cristãos: Levem os fardos pesados uns dos outros e, assim, cumpram a lei de Cristo (Gl. 6:2) É esperado que todos os salvos exerçam seus dons em favor de outros: Temos diferentes dons, de acordo com a graça que nos foi dada. Se alguém tem o dom de profetizar, use-o na proporção da sua fé. Se o seu dom é servir, sirva; se é ensinar, ensine; se é dar ânimo, que assim faça; se é contribuir, que contribua generosamente se é exercer liderança, que a exerça com zelo; se é mostrar misericórdia, que o faça com alegria (Rm. 12:6-8). Todos os crentes devem negar a si mesmos, sacrificando-se pelo evangelho: Então ele chamou a multidão e os discípulos e disse: “Se alguém quiser acompanhar-me, neguese a si mesmo, tome a sua cruz e siga-me. Pois quem quiser salvar a sua vida, a perderá; mas quem perder a sua vida por minha causa e pelo evangelho, a salvará (Mc. 8:34-35, ênfase adicionada). E é esperado que todos os salvos façam e batizem discípulos, ensinando-os a obedecer os mandamentos de Cristo: Todo aquele que desobedecer a um desses mandamentos, ainda que dos menores, e ensinar os outros a fazerem o mesmo, será chamado menor no Reino dos céus; mas todo aquele que praticar e ensinar estes mandamentos será chamado grande no Reino dos céus (Mt. 5:19, ênfase adicionada). Embora a esta altura já devessem ser mestres, vocês precisam de alguém que lhes ensine novamente os princípios elementares da palavra de Deus. Estão precisando de leite, e não de alimento sólido (Hb. 5:12, ênfase adicionada)! Portanto, vão e façam discípulos de todas as nações, batizando-os em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo, ensinando-os a obedecer a tudo o que eu lhes ordenei. E eu estarem sempre com vocês, até o fim dos tempos (Mt. 28:18-20, ênfase adicionada).[2]

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Todas essas responsabilidades são entregues a todos os salvos, mesmo assim, a maioria dos que frequentam igrejas acham que essas tarefas pertencem somente aos pastores. O motivo é provavelmente porque os próprios pastores acham que essas são responsabilidades somente deles.

Então, o que os Pastores Devem Fazer Se todas essas responsabilidades são entregues a todos os crentes, o que os pastores devem fazer? Eles são simplesmente chamados para equipar os santos para fazerem todas essas coisas (veja Ef. 4:11-12). São chamados para ensinar os santos a obedecerem todos os mandamento de Cristo (veja Mt. 28:18-20) por instrução e exemplo (veja 1 Tm. 3:2; 4:12-13; 5:17; 2 Tm. 2:2; 3:16-4:4; 1 Pd. 5:1-4). É impossível que as Escrituras deixem isso mais claro. O papel bíblico do pastor não é reunir o maior número possível de pessoas para o culto de domingo de manhã, mas apresentar “todo homem perfeito em Cristo” (Cl. 1:28). Pastores bíblicos não causam coceira nos ouvidos das pessoas (veja 2 Tm. 4:3); eles ensinam, treinam, exortam, admoestam, corrigem, censuram e repreendem, tudo de acordo com a Palavra de Deus (veja 2 Tm. 3:16-4:4). Em sua primeira carta a Timóteo, Paulo listou algumas qualificações para que um homem ocupe o cargo de pastor. Das quinze qualificações, quatorze são a respeito de seu caráter, mostrando que o exemplo de vida é o mais importante: Esta afirmação é digna de confiança: Se alguém deseja ser bispo, deseja uma nobre função. É necessário, pois, que o bispo seja irrepreensível, marido de uma só mulher, moderado, sensato, respeitável, hospitaleiro e apto para ensinar; não deve ser apegado ao vinho, nem violento, mas sim amável, pacífico e não apegado ao dinheiro. Ele deve governar bem sua própria família, tendo os filhos sujeitos a ele, com toda a dignidade. Pois, se alguém não sabe governar sua própria família, como poderá cuidar da igreja de Deus? Não pode ser recém-convertido, para que não se ensoberbeça e caia na mesma condenação em que caiu o Diabo. Também deve ter boa reputação perante os de fora, para que não caia em descrédito nem na cilada do Diabo (1 Tm. 3:1-7). Quando comparamos essas qualificações com aquelas listadas por muitas igrejas institucionais que buscam um novo pastor descobrimos o principal problema de tantas igrejas. Elas estão procurando um gerenciador/humorista/pregador de sermões curtos/administrador/psicologista/diretor de programas e atividades/arrecadador de recursos/amigo de todos/uma máquina de trabalho. Elas querem alguém que “leve adiante o ministério da igreja”. Contudo, o administrador bíblico deve ser, acima de tudo, um homem de grande caráter e completamente comprometido com Cristo, um verdadeiro servo, porque seu objetivo é reproduzir a si mesmo. Ele deve ser capaz de dizer ao seu rebanho: “Tornem-se meus imitadores, como eu o sou do Cristo” (1 Co. 11:1). Para um estudo mais detalhado a respeito da função do pastor, veja também Atos 20:28-31; 1 Timóteo 5:17-20 e Tito 1:5-9.

O Cargo de Diácono Concluindo, deixe-me mencionar algo a respeito dos diáconos. O cargo de diácono é o único outro cargo na igreja local e não faz parte dos cinco dons ministeriais. Diferente dos anciãos, os diáconos não têm autoridade administrativa na igreja. A palavra grega traduzida como diácono é diakonos, que literalmente significa “servo”. Os sete homens escolhidos para a tarefa diária de alimentar as viúvas da igreja de Jerusalém são considerados os primeiros diáconos (veja At. 6:1-6). Eles foram escolhidos pela congregação e comissionados pelos apóstolos. Mais tarde, pelo menos dois deles, Filipe e Estevão, foram promovidos por Deus para serem poderosos evangelistas. Diáconos também são mencionados em 1 Timóteo 3:8-13 e Filipenses 1:1. Aparentemente, esse cargo pode ser preenchido tanto por homens quanto por mulheres (veja 1 Tm. 3:11). 184


[1] Esta é somente uma maneira de dizer: “De fazer discípulos para Jesus Cristo”. * Nota do tradutor: versículo traduzido do inglês. [2] Se era esperado que os discípulos de Jesus ensinassem seus discípulos a fazer tudo o que Ele havia mandado, eles consequentemente teriam ensinados seus discípulos a fazerem discípulos, batizando-os e ensinando-os a obedecer a tudo o que Cristo ensinou. Portanto, o fazer, batizar e ensinar discípulos teria sido um mandamento perpétuo obrigatório a todos os discípulos subsequentes.

Capítulo Dezenove

Realidades em Cristo Ao longo das epístolas do Novo Testamento, encontramos frases como: “em Cristo”, “com Cristo”, “através de Cristo” e “nEle”. Normalmente, elas revelam algum benefício que nós, como crentes, temos por causa do que Jesus fez por nós. Quando vemos a nós mesmos como Deus nos vê, “em Cristo”, isso nos ajuda a viver como Deus quer que vivamos. O discipulador desejará ensinar aos seus discípulos quem são em Cristo para ajudá-los a crescer até a maturidade espiritual. Primeiro, o que significa estar “em Cristo”? Quando renascemos, somos enxertados no corpo de Cristo e nos tornamos um com Ele em espírito. Vamos dar uma olhada em alguns versículos das epístolas do Novo Testamento que afirmam isso: Assim também em Cristo nós, que somos muitos, formamos um corpo (Rm. 12:5, ênfase adicionada). Mas aquele que se une ao Senhor é um espírito com ele (1 Co. 6:17, ênfase adicionada). Ora, vocês são o corpo de Cristo, e cada um de vocês individualmente, é membro desse corpo(1 Co. 12:27, ênfase adicionada). Nós que temos crido no Senhor Jesus Cristo devemos nos ver unidos a Ele, membros de Seu corpo e um em espírito com Ele. Ele está em nós e nós nEle. Aqui está um versículo que nos diz alguns dos benefícios que temos em virtude de estarmos em Cristo: É, porém, por iniciativa dele que vocês estão em Cristo Jesus, o qual se tornou sabedoria de Deus para nós, isto é, justiça, santidade e redenção (1 Co. 1:30, ênfase adicionada). Em Cristo fomos justificados (declarados “inocentes” e agora fazemos o que é certo), santificados (separados para o uso santo de Deus), e redimidos (comprados da escravidão). Não estamos esperando para sermos justificados, santificados ou redimidos no futuro. Muito pelo contrário, temos todas essas bênçãos agora, pois estamos em Cristo. Em Cristo, tivemos nossos pecados do passado perdoados: Pois ele nos resgatou do domínio das trevas e nos transportou para o Reino do seu Filho amado, em quem temos a redenção, a saber, o perdão dos pecados (Cl. 1:13-14, ênfase adicionada). Note que essa passagem também nos diz que não estamos mais no reino de Satanás, o domínio das trevas, mas estamos agora em um reino de luz, no Reino de Jesus. Portanto, se alguém está em Cristo, é nova criação. As coisas antigas já passaram; eis que surgiram coisas novas (2 Co. 5:17, ênfase adicionada). 185


Louve a Deus por agora ser seguidor de Cristo, você é “nova criação”, como uma lagarta transformada em borboleta! Seu espírito recebeu uma nova natureza. Anteriormente, você possuía a natureza egoísta de Satanás em seu espírito, mas agora, todas as coisas de sua vida antiga “já passaram”.

Mais Bênçãos em Cristo Todos vocês são filhos de Deus mediante a fé em Cristo Jesus (Gl. 3:26, ênfase adicionada). Não é maravilhoso saber que somos na verdade filhos de Deus, nascidos de Seu Espírito? Quando oramos, nos aproximamos dEle não só como nosso Deus, mas também como nosso Pai! Porque somos criação de Deus realizada em Cristo Jesus para fazermos boas obras, as quais Deus preparou antes para nós as praticarmos (Ef. 2:10, ênfase adicionada). Deus não só nos criou, mas nos criou em Cristo. Além do mais, Deus predestinou cada um de nós para cumprir um ministério, “boas obras, as quais Deus preparou antes”. Cada um de nós tem um destino individual divino. Deus tornou pecado por nós aquele que não tinha pecado, para que nele nos tornássemos justiça de Deus (2 Co. 5:21, ênfase adicionada). A justiça que temos por estarmos em Cristo é na verdade, a própria justiça de Deus. Isso é porque Deus habita em nós e nos transformou através do Espírito Santo. Nossas boas obras são na verdade, as boas obras de Deus através de nós. Mas, em todas estas coisas somos mais que vencedores, por meio daquele que nos amou (Rm. 8:37, ênfase adicionada). O que são “todas estas coisas” de que Paulo escreveu? Os versículos em Romanos que precedem esse versículo revelam que são tribulações e angústias pelas quais os crentes passam. Até no martírio somos vitoriosos, mesmo que o mundo nos considere vítimas. Somos mais que vencedores por meio de Cristo, pois quando morrermos iremos para o céu! Tudo posso naquele que me fortalece (Fp. 4:13, ênfase adicionada). Nada é impossível a nós por meio de Cristo porque Deus nos dá habilidade e força. Podemos realizar qualquer tarefa que Ele nos der. O meu Deus suprirá todas as necessidades de vocês, de acordo com as suas gloriosas riqueza sem Cristo Jesus (Fp. 4:19, ênfase adicionada). Podemos esperar que Deus irá suprir nossas verdadeiras necessidades se buscarmos Seu Reino em primeiro lugar. O Senhor é o nosso pastor e Ele cuida de Suas ovelhas!

Concordando com o que Deus Diz Infelizmente, alguns de nós não acreditam no que a Palavra de Deus diz a respeito de nós mesmos, o que é provado quando falam coisas que contradizem a Bíblia. Ao invés de dizerem “tudo posso naquele que me fortalece” dizem: “Acho que não consigo”. Afirmações dessa espécie são o que a Bíblia chama de “relatório negativo”, pois discordam do que Deus diz (veja Nm. 13:32). Contudo, se nossos corações estão cheios da Palavra de Deus, ficamos cheios de fé, cremos e dizemos somente o que está de acordo com as Escrituras.

Algumas Declarações Bíblicas Devemos acreditar e dizer que somos quem Deus diz que somos. Devemos acreditar e dizer que podemos fazer o que Deus diz que podemos. Devemos acreditar e dizer que Deus é quem diz ser. 186


Devemos acreditar e dizer que Deus fará o que disse que fará. Abaixo estão algumas frases bíblicas que todos os cristãos podem declarar com ousadia. Nem todas são realidades “em Cristo”, mas são todas verdadeiras de acordo com as Escrituras. Sou redimido, santificado e justificado em Cristo (veja 1 Co. 1:30). Fui transferido do reino de trevas para o Reino do Filho de Deus, o Reino de Luz (veja Cl. 1:13). Todos os meus pecados foram perdoados em Cristo (Ef. 1:7). Sou nova criatura em Cristo — minha vida antiga já se passou (veja 2 Co. 5:17). Deus predestinou boas obras para que eu as realize (veja 2 Co. 5:17). Tornei-me justiça de Deus em Cristo (veja 2 Co. 5:21). Sou mais que vencedor em todas as coisas por meio de Cristo que me amou (veja Rm. 8:37). Tudo posso naquele que me fortalece (Fp. 4:13). Meu Deus supre todas as minhas necessidades de acordo com Suas gloriosas riquezas em Cristo (Fp. 4:19). Sou chamado para ser santo (veja 1 Co. 1:2). Sou filho de Deus (veja Jo. 1:12, 1 Jo. 3:1-2). Meu corpo é templo do Espírito Santo (veja 1 Co. 6:19). Não sou mais eu quem vive, mas Cristo vive em mim (veja Gl. 2:20). Fui tirado da autoridade de Satanás (veja At. 26:18). O amor de Deus foi espalhado em meu coração pelo Espírito Santo (veja Rm. 5:5). Maior é o que está em mim do que o que está no mundo (Satanás) (veja 1 Jo. 4:4). Sou abençoado com todas as bênçãos espirituais nos lugares celestiais em Cristo (veja Ef. 1:3). Estou sentado nos lugares celestiais com Cristo, muito acima das forças espirituais de Satanás (veja Ef. 2:4-6). Por amar a Deus e ser chamado de acordo com Seu propósito, Ele faz com que todas as coisas cooperem para o bem (veja Rm. 8:28). Se Deus é por mim, quem poderá ser contra mim? (veja Rm. 8:31). Nada pode me separar do amor de Cristo (veja Rm. 8:35-39). Tudo é possível para mim, pois eu creio (veja Mc. 9:23). Sou sacerdote de Deus (veja Ap. 1:6). Por ser Seu filho, Deus me guia através de Seu Espírito (veja Rm. 8:14). Enquanto sigo ao Senhor, o caminho de minha vida brilha cada vez mais (veja Pv. 4:18). Deus me deu dons especiais para usar no Seu serviço (veja 1 Pd. 4:10-11). Posso expulsar demônios e impor as mãos sobre doentes para que sejam curados (veja Mc. 16:17-18). Deus me conduz vitoriosamente em Cristo (veja 2 Co. 2:14). Sou embaixador de Cristo (veja 2 Co. 5:20). Tenho a vida eterna (veja Jo. 3:16). Recebo tudo o que peço em oração, crendo (veja Mt. 21:22). Sou curado pelas feridas de Jesus (veja 1 Pd. 2:24). Sou o sal da terra e a luz do mundo (veja Mt. 5:13-14). Sou herdeiro de Deus e co-herdeiro com Jesus Cristo (veja Rm. 8:27). Sou parte de uma geração eleita, sacerdócio real, nação santa e povo exclusivo de Deus (veja 1 Pd. 2:9). Sou membro do corpo de Cristo (veja 1 Co. 12:27). O Senhor é meu pastor; de nada terei falta (veja Sl. 23:1). O Senhor é meu refúgio forte; a quem temerei? (veja Sl. 27:1) O Senhor me dará vida longa (veja Sl. 91:16). Cristo tomou sobre si minhas enfermidades e sobre si levou minhas doenças (veja Is. 53:4-5). O Senhor é meu ajudador, não temerei (veja Hb. 13:6). Lancei minhas ansiedades no Senhor porque Ele cuida de mim (veja 1 Pd. 5:7). Eu resisto ao Diabo e ele foge de mim (veja Tg. 4:7). 187


Estou encontrando minha vida perdendo-a por causa de Jesus (veja Mt. 16:25). Sou escravo de Cristo (veja 1 Co. 7:2). Para mim, viver é Cristo e morrer é lucro (veja Fp. 1:21). Minha cidadania está no céu (veja Fp. 3:20). Deus completará a obra que começou em mim (veja Fp. 1:6). Deus está trabalhando em mim para fazer Sua boa vontade (veja Fp. 2:13). Fui redimido da maldição da Lei (veja Gl. 3:13). Este é um simples exemplo de declarações positivas que podemos fazer baseando-nos na Palavra de Deus. Seria uma boa ideia criar o hábito de recitar essas declarações até que as verdades que afirmam fiquem enraizadas em nossos corações. E devemos monitorar cada palavra que sai de nossas bocas para termos certeza de que não estamos falando algo contrário ao que Deus disse.

Capítulo Vinte

Louvor e Adoração Disse a mulher: “Senhor, vejo que é profeta. Nossos antepassados adoraram neste monte, mas vocês, judeus, dizem que Jerusalém é o lugar onde se deve adorar”. Jesus declarou: “Creia em mim, mulher: está próxima a hora em que vocês não adorarão o Pai nem neste monte, nem em Jerusalém. Vocês, samaritanos, adoram o que não conhecem; nós adoramos o que conhecemos, pois a salvação vem dos judeus. No entanto, está chegando a hora, e de fato já chegou, em que os verdadeiros adoradores adorarão o Pai em espírito e em verdade. São estes os adoradores que o Pai procura. Deus é espírito, e é necessário que os seus adoradores o adorem em espírito e em verdade”. (Jo. 4:19-24). Essas palavras dos lábios de Jesus lançaram o alicerce para o nosso entendimento dos aspectos mais importantes da adoração. Ele falou de “verdadeiros adoradores” e descreveu suas qualificações. Isso indica que há adoradores, que não são verdadeiros. Eles podem pensar que estão adorando a Deus, mas na verdade não estão, pois não preenchem Seus requisitos. Jesus declarou o que caracteriza verdadeiros adoradores — eles adoram “em espírito e em verdade”. Portanto, pode ser dito que falsos adoradores são aqueles que adoram “em carne e insinceridade”. Adoradores falsos e carnais podem parecer verdadeiros, mas é tudo mentira, já que não têm um coração que ama a Deus. A verdadeira adoração só pode vir de um coração que ama a Deus. Portanto, a adoração não é somente algo que fazemos quando a igreja se reúne, mas algo que fazemos a cada momento de nossas vidas enquanto obedecemos aos mandamentos de Cristo. O que é interessante é que a mulher com quem Jesus estava falando tinha sido casada cinco vezes, estava vivendo com um homem e queria debater sobre o local próprio para adorar a Deus! Ela é um perfeito exemplo de muitas pessoas religiosas que vão aos cultos enquanto em seu viver diário se rebelam contra Deus. Elas não são adoradores verdadeiros. Uma vez, Jesus repreendeu os escribas e fariseus por sua falsa adoração: Hipócritas! Bem profetizou Isaías acerca de vocês, dizendo: “Este povo me honra com os lábios, mas o seu coração está longe de mim. Em, vão me adoram. Seus ensinamentos não passam de regras ensinadas por homens” (Mt. 15:7-9, ênfase adicionada). Os judeus e samaritanos nos dias de Jesus enfatizavam muito o local onde o povo adorava, mas Jesus disse que o local não é importante. O que importa é a condição dos corações das pessoas para com o Senhor; isso sim, determina a qualidade de sua adoração. Muito do que é chamado “adoração” nas igrejas de hoje não passa de um ritual morto encenado por adoradores mortos. As pessoas repetem, sem pensar, as palavras de outras pessoas 188


sobre Deus quando cantam “canções de adoração”, e seu louvor é em vão, pois seus estilos de vida mostram o que realmente está em seus corações. Deus prefere ouvir um simples “eu te amo” de coração de um de Seus filhos obedientes e verdadeiros a aguentar a monotonia de mil crentes em um domingo de manhã cantando “Quão Grande És Tu”.

Adorando em Espírito Alguns dizem que adorar “em espírito” significa orar e cantar em outras línguas, mas essa interpretação parece forçada, se vista à luz das palavras de Jesus. Ele disse que “está chegando a hora, e de fato já chegou, em que os verdadeiros adoradores adorarão o Pai em espírito e em verdade”, indicando que já havia pessoas que O adoravam “em espírito” quando disse isso. É claro que ninguém falou em línguas até o dia de Pentecoste. Portanto, qualquer crente, podendo falar em línguas ou não, pode adorar a Deus em espírito e em verdade. Certamente, orar e falar em línguas pode ajudar um cristão em sua adoração, mas até orar em línguas, pode se tornar um ritual superficial. Temos uma perspectiva interessante do louvor da igreja primitiva em Atos 13:1-2: Na igreja de Antioquia havia profetas e mestres: Barnabé, Simeão, chamado Níger, Lúcio de Cirene, Manaém, que fora criado com Herodes, o tetrarca, e Saulo. Enquanto adoravam o Senhor e jejuavam, disse o Espírito Santo: “Separem-me Barnabé e Saulo para a obra a que os tenho chamado” (ênfase adicionada). Note que esta passagem diz que “adoravam o Senhor”. Parece razoável pensar que estavam ministrando a Ele; e portanto, aprendemos que a verdadeira adoração ministra ao Senhor. Contudo, isso só é real quando o Senhor é o objeto de nosso louvor e afeição.

Formas de Adorar O livro de Salmo, que pode ser chamado de hinário de Israel, nos encoraja a adorar ao Senhor de várias formas diferentes. Por exemplo, lemos em Salmos 32: Cantem de alegria, todos vocês que são retos de coração (Sl. 32:11b, ênfase adicionada). Mesmo que a adoração quieta e reverente tenha a sua hora, cantar de alegria também tem. Cantem de alegria ao Senhor, vocês que são justos; aos que são retos fica bem louvá-lo. Louvem o Senhor com harpa; ofereçam-lhe música com lira de dez cordas. Cantem-lhe uma nova canção; toquem com habilidade ao aclamá-lo (Sl. 33:1-3, ênfase adicionada). Devemos, é claro, cantar ao Senhor em adoração, mas nossa canção deve ser de alegria, que é outra indicação da condição do coração de alguém. Também podemos acompanhar nossa canção de alegria com vários instrumentos musicais. Contudo, devo mencionar que em muitas reuniões nas igrejas, os instrumentos musicais elétricos são tão altos que abafam as canções por completo. Eles devem ser abaixados ou desligados. O salmista nunca teve esse problema! Enquanto eu viver te bendirei, e em teu nome levantarei as minhas mãos (Sl. 63:4, ênfase adicionada). Como sinal de rendição e reverência, podemos levantar nossas mãos a Deus. Aclamem a Deus, povos de toda terra! Cantem louvores ao seu glorioso nome; louvem-no gloriosamente! Digam a Deus: “Quão temíveis são os teus feitos! Tão grande é o teu poder que os teus inimigos rastejam diante de ti! Toda a terra te adora e canta louvores ao teu nome (Sl. 66:1-4, ênfase adicionada). Devemos dizer ao Senhor quão magnífico Ele é e adorá-Lo por Seus maravilhosos atributos. O livro de Salmos é um ótimo lugar para encontrarmos palavras apropriadas com as quais possamos adorar a Deus. Precisamos ir além da repetição contínua de “Eu te louvo Senhor!” Há tantas outras coisas para dizermos a Ele. 189


Venham! Adoremos prostrados e ajoelhados diante do Senhor, o nosso Criador (Sl. 95:6, ênfase adicionada). Até nossa postura pode ser uma expressão de adoração, seja de pé, de joelhos ou prostrados. Regozijem-se os seus fiéis nessa glória e em seus leitos cantem alegremente (Sl. 149:5, ênfase adicionada)! Não precisamos estar em pé ou ajoelhados para adorar — podemos estar deitados, na cama. Entrem por suas portas com ações de graças, e em seus átrios, com louvor; deem-lhe graça e bendigam o seu nome (Sl. 100:4, ênfase adicionada). Com certeza, dar graças deve ser parte de nossa adoração. Louvem eles o seu nome com danças (Sl. 149:3a, ênfase adicionada). Podemos adorar a Deus até com danças. Mas não devem ser danças carnais, sensuais ou por simples diversão. Louvem-no ao som de trombeta, louvem-no com lira e a harpa, louvem-no com tamborins e danças, louvem-no com instrumentos de cordas e com flautas, louvem-no com címbalos sonoros, louvem-no com címbalos ressonantes. Tudo o que tem vida louve ao Senhor! Aleluia (Sl. 150:3-6, ênfase adicionada)! Graças a Deus por aqueles que têm dons musicais. Seus dons podem ser usados para glorificar a Deus se tocarem seus instrumentos com os corações cheios de amor.

Canções Espirituais Cantem ao Senhor um novo cântico, pois ele fez coisas maravilhosas (Sl. 98:1a, ênfase adicionada). Não há nada de errado em cantar músicas antigas, a menos que isso se torne um ritual. Então precisamos de um novo cântico que vem de nossos corações. Aprendemos no Novo Testamento que o Espírito Santo nos ajuda a compor novas músicas: Habite em vocês a palavra de Cristo; ensinem e aconselhem-se uns aos outros com toda a sabedoria, e cantem salmos, hinos e cânticos espirituais com gratidão a Deus em seu coração (Cl. 3:16). Não se embriaguem com vinho, que leva à libertinagem, mas deixem-se encher pelo Espírito, falando entre si com salmos, hinos e cânticos espirituais, cantando e louvando de coração ao Senhor, dando graças constantemente a Deus Pai por todas as coisas, em nome de nosso Senhor Jesus Cristo (Ef. 5:18-20). Paulo escreveu que devemos falar uns com os outros com “salmos, hinos e cânticos espirituais”, portanto, deve haver uma diferença entre os três. Um estudo das palavras gregas originais acrescenta pouco, mas talvez, “salmos” significasse cantar os salmos da Bíblia acompanhados de instrumentos musicais. “Hinos”, por outro lado, podem ter sido músicas de ação de graças em geral compostas por vários cristãos das igrejas. “Cânticos espirituais” eram provavelmente, canções espontâneas dadas pelo Espírito Santo e parecidas ao simples dom de profecia, com a diferença de que as palavras seriam cantadas. Louvor e adoração devem ser parte de nossa vida diária — não somente algo que fazemos quando a igreja se reúne. Durante os dias, podemos ministrar ao Senhor e experimentar uma comunhão muito próxima com Ele.

Louvor — Fé em Ação Louvor e adoração são expressões normais de nossa fé em Deus. Se realmente acreditamos nas promessas da Palavra de Deus, seremos pessoas alegres, cheias de louvor a Deus. Josué e o povo de Israel tiveram que gritar primeiro, e então os muros caíram. A Bíblia nos adverte a nos alegrarmos “sempre no Senhor” e a dar “graças em todas as circunstâncias” (1 Ts. 5:18a). 190


Um dos maiores exemplos do poder da adoração é encontrado em 2 Crônicas 20, quando a nação de Judá estava sendo invadida pelos exércitos moabitas e amonitas. Em resposta às orações do rei Josafá, Deus instruiu Israel: Não tenham medo nem fiquem desanimados por causa desse exército enorme. Pois a batalha não é de vocês, mas de Deus. Amanhã, desçam contra eles...Vocês não precisarão lutar nessa batalha. Tomem suas posições, permaneçam firmes e vejam o livramento que o Senhor lhes dará, ó Judá, ó Jerusalém (2 Cr. 20:15b-17a). A narrativa continua: De madrugada partiram para o deserto de Tacoa. Quando estavam saindo, Josafá lhes disse: “Escutem-me, Judá e povo de Jerusalém! Tenham fé no Senhor, o seu Deus, e vocês serão sustentados; tenham fé nos profetas do Senhor, e terão a vitória”. Depois de consultar o povo, Josafá nomeou alguns homens para cantarem ao Senhor e louvarem pelo esplendor de sua santidade, indo à frente do exército, cantando: “Deem graças ao Senhor, pois o seu amor dura para sempre”. Quando começaram a cantar e a entoar louvores, o Senhor preparou emboscadas contra os homens de Amom, de Moabe e dos montes e Seir, que estavam invadindo Judá, e eles foram derrotados. Os amonitas e os moabitas atacaram os dos montes de Seir para destruí-los e aniquilá-los. Depois de massacrarem os homens de Seir, destruíram-se uns aos outros. Quando os homens de Judá foram para o lugar onde se avista o deserto e olharam para o imenso exército, viram somente cadáveres no chão; ninguém havia escapado. Então Josafá e os seus soldados foram saquear os cadáveres e encontraram entre eles grande quantidade de equipamentos e roupas, e também objetos de valor; passaram três dias saqueando, mas havia mais do que eram capazes de levar (2 Cr. 20:20-25, ênfase adicionada). Louvor cheio de fé traz proteção e provisão! Para maior aprofundamento no estudo sobre o poder do louvor, veja Filipenses 4:6-7 (o louvor traz paz), 2 Crônicas 5:1-14 (o louvor traz a presença de Deus), Atos 13:1-2 (o louvor traz os propósitos e planos de Deus à luz) e Atos 16:22-26 (o louvor traz a preservação de Deus e libertação de prisões).

Capítulo Vinte e Um

A Família Cristã Deus é claro, foi quem teve a ideia de famílias. Portanto, parece lógico que Ele possa nos oferecer uma visão interna a respeito de como as famílias devem funcionar e possa nos avisar das dificuldades que destroem famílias. O Senhor realmente tem nos dado muitos princípios em Sua Palavra a respeito da estrutura familiar e a parte que cabe a cada membro realizar individualmente. Quando essas instruções bíblicas são seguidas, as famílias experimentam todas as bênçãos que Deus preparou a elas. Quando são violadas, o resultado é caos e aflição.

O Papel de Marido e Mulher Deus planejou que a família cristã se encaixasse em certa estrutura. Por essa estrutura prover a estabilidade para a vida familiar, Satanás tenta perverter o plano de Deus. Primeiro, Deus ordenou que o marido fosse o cabeça da unidade familiar. Isso não dá ao marido o direito de dominar egoisticamente sobre sua esposa e filhos. Deus chamou os maridos para amarem, protegerem, proverem e liderarem suas famílias como cabeças. Deus também planejou que as esposas fossem submissas à liderança de seus maridos. Isso fica bem claro nas Escrituras: 191


Mulheres, sujeite-se cada uma a seu marido, como ao Senhor, pois o marido é o cabeça da mulher, como também Cristo é o cabeça da igreja, que é o seu corpo, do qual ele é o Salvador. Assim como a igreja está sujeita a Cristo, também as mulheres estejam em tudo sujeitas a seus maridos (Ef. 5:22-24). O marido não é o cabeça espiritual de sua esposa — é Jesus quem faz essa parte. Jesus é o cabeça espiritual da Igreja e a esposa cristã é membro da Igreja, assim como seu esposo cristão. Contudo, na família, o marido cristão é o cabeça de sua esposa e filhos, e eles devem se submeter a sua autoridade dada por Cristo. Até que ponto a esposa deve se submeter ao seu esposo? Ela deve se submeter a ele em tudo, assim como Paulo disse. A única exceção a essa regra seria se o esposo esperasse que ela desobedecesse a Palavra de Deus ou fizesse algo que violasse sua consciência. É claro que nenhum esposo cristão esperaria que sua esposa fizesse algo que violasse a Palavra de Deus ou sua consciência. O esposo não é o senhor de sua esposa — somente Jesus ocupa esse lugar em sua vida. Se ela deve escolher a quem obedecer, deve escolher a Jesus. Os esposos devem se lembrar de que Deus não está necessariamente sempre “do lado do marido”. Uma vez, Deus disse a Abraão para fazer o que sua esposa Sara lhe disse (veja Gn. 21:10-13). As Escrituras também dizem que Abigail desobedeceu a Nabal, seu tolo marido, e preveniu uma catástrofe (veja 1 Sm. 25:2-38).

A Palavra de Deus aos Esposos Aos maridos, Deus diz: Maridos, ame cada um a sua mulher, assim como Cristo amou a igreja e entregou-se por ela... Da mesma forma, os maridos devem amar cada um a sua mulher como a seu próprio corpo. Quem ama a sua mulher, ama a si mesmo. Além do mais, ninguém jamais odiou o seu próprio corpo, antes o alimenta e dele cuida, como também Cristo faz com a igreja, pois somos membros do seu corpo... Portanto, cada um de vocês também ame a sua mulher como a si mesmo, e a mulher trate o marido com todo o respeito (Ef. 5:25, 28-30, 33). Os maridos devem amar suas esposas como Cristo ama a Igreja. Essa responsabilidade não é pequena! Qualquer mulher se submeterá alegremente a alguém que a ama assim como Cristo — que entregou sua própria vida, se sacrificando por amor. Assim como Cristo ama seu próprio corpo, a Igreja, da mesma forma um marido deve amar a mulher com quem é “uma só carne” (Ef. 5:31). Se um marido ama a sua esposa como deve, ele proverá para ela, cuidará dela, a honrará, a ajudará, a encorajará e gastará tempo com ela. Se ele falhar em sua responsabilidade de amá-la, o marido corre perigo de prejudicar a resposta de suas próprias orações: Do mesmo modo vocês, maridos, sejam sábios no convívio com suas mulheres e tratem-nas com honra, como parte mais frágil e coerdeiras do dom da graça da vida, de forma que não sejam interrompidas as suas orações (1 Pd. 3:7, ênfase adicionada). É claro que nunca houve um casamento que fosse completamente sem conflitos e desentendimentos. Contudo, através do comprometimento e desenvolvimento dos frutos do Espírito em nossas vidas, maridos e esposas podem aprender a viver em harmonia e experimentar a bênção crescente do casamento cristão. Através dos problemas inevitáveis que aparecem em todos os casamentos, cada cônjuge pode aprender a crescer em maturidade para ser cada vez mais como Cristo. Para estudos mais abrangentes sobre os deveres dos maridos e mulheres, veja Gênesis 2:15-25; Provérbios 19:13; 21:9, 19; 27:15-16; 31:10-31; 1 Coríntios 11:3; 13:1-8; Colossenses 3:18-19; 1 Timóteo 3:4-5; Tito 2:3-5; 1 Pedro 3:1-7.

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Sexo no Casamento Foi Deus quem criou o sexo, e Ele obviamente o criou com o propósito de prazer assim como o de procriação. Contudo, a Bíblia deixa claro que relações sexuais devem ser praticadas somente por aqueles que se uniram em uma aliança de casamento para a vida toda. Relações sexuais que acontecem fora dos laços matrimoniais são consideradas fornicação ou adultério. O apóstolo Paulo disse que aqueles que praticam tais coisas não herdarão o Reino de Deus (veja 1 Co. 6:9-11). Mesmo que um cristão possa ser tentado e possivelmente venha a cometer um ato de fornicação ou adultério, ele sentirá grande condenação em seu espírito que o levará ao arrependimento. Paulo também deu algumas instruções específicas a respeito das responsabilidades sexuais de maridos e mulheres: Mas, por causa da imoralidade, cada um deve ter sua esposa, e cada mulher o seu próprio marido. O marido deve cumprir os seus deveres conjugais para com a sua mulher, e da mesma forma a mulher para com o seu marido. A mulher não tem autoridade sobre o seu próprio corpo, mas sim o marido. Da mesma forma, o marido não tem autoridade sobre o seu próprio corpo, mas sim a mulher. Não se recusem um ao outro, exceto por mútuo consentimento e durante certo tempo, para se dedicarem à oração. Depois, unam-se de novo, para que Satanás não os tente por não terem domínio próprio (1 Co. 7:2-5). Esse versículo mostra que o sexo não deve ser usado como “recompensa” pelo marido ou esposa, pois nenhum tem autoridade sobre seu próprio corpo. Além do mais, sexo é um presente dado por Deus e não é profano ou pecaminoso desde que seja restrito ao casamento. Paulo encorajou casais cristãos a se unirem em relações sexuais. Além do mais, encontramos esse conselho aos maridos no livro de Provérbios: Seja bendita a sua fonte! Alegre-se com a esposa da sua juventude. Gazela amorosa, corça graciosa; que os seios de sua esposa sempre o fartem de prazer, e sempre o embriaguem os carinhos dela (Pv. 5:18-19).[1] Se casais cristãos devem desfrutar de relações sexuais mutuamente gratificantes, maridos e esposas devem entender que há uma grande diferença entre a natureza sexual masculina e a feminina. Em comparação, a natureza sexual masculina é mais física, enquanto a feminina é ligada às suas emoções. Homens se excitam por estimulação visual (veja Mt. 5:28), enquanto mulheres se excitam pelo relacionamento e toque (veja 1 Co. 7:1). Homens são sexualmente atraídos a mulheres que atraem seus olhos; e mulheres, a homens que admiram por motivos além da atração física. Portanto, esposas sábias fazem o melhor para parecerem agradáveis aos seus maridos em todo o tempo. E maridos sábios mostram sua afeição por suas esposas todo o tempo com abraços e atos de bondade, ao invés de esperarem que se excitem em um instante no final do dia. O grau de desejo sexual de um homem tende a aumentar com a acumulação de sêmen em seu corpo, enquanto o desejo sexual de uma mulher aumenta ou diminui dependendo de seu ciclo menstrual. Homens têm a capacidade de ficar excitados e experimentar o clímax sexual em questão de segundos ou minutos; as mulheres demoram muito mais. Ele pode se preparar fisicamente para o ato sexual em segundos, mas o corpo dela pode não ficar pronto por meia hora. Portanto, maridos sábios empregam tempo em jogos sexuais com carinhos, beijos e estimulação manual das áreas do corpo dela que resultarão em sua preparação para a relação sexual. Se ele não sabe onde ficam essas partes do corpo dela, deve perguntar. Além do mais, ele deve saber que, mesmo que tenha a capacidade de alcançar somente um clímax sexual, sua esposa tem capacidade de alcançar mais. Ele deve lhe dar o que ela deseja. É vital que maridos e esposas cristãos discutam suas necessidades com honestidade um com o outro e aprendam o quanto possível sobre o funcionalismo do sexo oposto. Com meses e anos de comunicação, descoberta e prática, relações sexuais entre maridos e esposas podem resultar em bênçãos crescentes. 193


Filhos de uma Família Cristã As crianças devem ser ensinadas a se submeterem e a serem completamente obedientes a seus pais cristãos. E se assim o fizerem, têm como promessa longa vida e outras bênçãos. Filhos, obedeçam a seus pais no Senhor, pois isso é justo. “Honra teu pai e tua mãe” — este é o primeiro mandamento com promessa — “para que tudo te corra bem e tenhas longa vida sobre a terra” (Ef. 6:1-3). Pais cristãos, como cabeças de suas famílias, recebem a responsabilidade principal de treinar seus filhos: Pais, não irritem seus filhos; antes criem-nos segundo a instrução e o conselho do Senhor (Ef. 6:4). Note que a responsabilidade do pai é dupla: criar seus filhos segundo a instrução e conselho do Senhor. Vamos primeiro considerar a necessidade de disciplinar as crianças.

Disciplinando os Filhos A criança que nunca é disciplinada crescerá sendo egoísta e rebelde para com autoridades. As crianças devem ser disciplinadas a qualquer hora que desobedecerem desafiadoramente regras lógicas que foram colocadas de antemão por seus pais. Crianças não devem ser punidas por irresponsabilidade ou erros infantis. Contudo, deve ser requerido que enfrentem as consequências de seus erros e irresponsabilidades, ajudando assim a prepará-las para a realidade da vida adulta. Crianças pequenas devem ser disciplinadas com a vara, como a Palavra de Deus instrui. É claro que bebês não devem apanhar com a vara, mas isso não significa que devam ter tudo do jeito que quiserem. Na verdade, desde o nascimento deve ficar claro que a mãe e o pai estão no controle. Eles podem aprender, desde muito cedo, o que a palavra “não” significa por simplesmente restringi-los de fazer o que estão fazendo ou vão fazer. Uma vez que começam a entender o que o “não” significa, um leve tapa no bumbum os ajudará a entender melhor durante as vezes que não obedecerem. Se isso for feito consistentemente, a criança aprenderá a ser obediente desde cedo. Os pais também podem estabelecer suas autoridades não reforçando comportamentos indesejáveis em seus filhos, como dar a eles o que querem toda vez que choram. Ceder é ensinar a criança a chorar para ter suas vontades feitas. Ou, se os pais cedem às demandas de seus filhos todas as vezes que ficam de mal humor ou manhosos, tais pais estão encorajando esse comportamento indesejável. Pais sábios só recompensam comportamentos desejáveis em seus filhos. A disciplina não deve fazer mal fisicamente, mas certamente deve doer o suficiente para fazer com que a criança desobediente chore por certo tempo. Deste modo, a criança aprenderá a associar desobediência à dor. A Bíblia afirma isso: Quem se nega a castigar seu filho não o ama; quem o ama não hesita em discipliná-lo... A insensatez está ligada ao coração da criança, mas a vara da disciplina a livrará dela... Não evite disciplinar a criança; se você a castigar com a vara, ela não morrerá. Castigue-a, você mesmo, com a vara, e assim a livrará da sepultura... A vara da correção dá sabedoria, mas a criança entregue a si mesma envergonha a sua mãe (Pv. 13:24; 22:15; 23:13-14; 29:15). Quando os pais impõem suas regras, não precisam ameaçar as crianças para fazê-las obedecerlhes. Se uma criança desobedecer desafiadoramente, deve ser disciplinada. Se um pai só ameaça disciplinar seu filho desobediente, ele só está reforçando a desobediência contínua de seu filho. Como resultado, a criança aprende a não se preocupar em ser obediente até que as ameaças verbais de seus pais alcancem certo ponto. Depois da disciplina ser administrada, a criança deve ser abraçada e os pais devem reafirmar seu amor por ela. 194


Instruindo a Criança Pais cristãos devem perceber que têm a responsabilidade de instruir seus filhos, assim como lemos em Provérbios 22:6: “Instrua a criança segundo os objetivos que você tem para ela, e mesmo com o passar dos anos não se desviará deles” (ênfase adicionada). Instruir envolve não só punição pela desobediência, mas recompensa por bom comportamento. Crianças devem ser constantemente elogiadas por seus pais para reforçar seu bom comportamento e características desejáveis. As crianças devem ser reasseguradas várias vezes de que são amadas, aceitas e apreciadas por seus pais. E estes podem mostrar seu amor através de elogios, abraços e beijos, como também do tempo que passam com seus filhos. “Instruir” significa “fazer obedecer”. Portanto, pais cristãos não devem dar aos seus filhos a opção de ir ou não a igreja ou orar todos os dias e assim por diante. Crianças não são responsáveis o suficiente para saberem o que é melhor para elas — e é por isso que Deus deu pais a elas. Aos pais que investem esforço e energia para verem que seus filhos estão sendo instruídos corretamente, Deus promete que seus filhos não se desviarão do caminho certo quando forem mais velhos, como lemos em Provérbios 22:6. Crianças devem receber cada vez mais responsabilidades enquanto crescem. O objetivo de criar filhos da maneira correta é preparar a criança gradualmente para as responsabilidades da vida adulta. Enquanto a criança cresce, deve receber cada vez mais liberdade para tomar suas próprias decisões. Além do mais, o adolescente deve entender que assumirá a responsabilidade pelas consequências de suas decisões e que seus pais não estarão sempre lá para tirá-lo dos problemas.

A Responsabilidade dos Pais de Instruir Como lemos em Efésios 6:4, os pais não são responsáveis somente pela disciplina de seus filhos, mas também pela instrução deles no Senhor. Não é responsabilidade da igreja dar à criança instrução sobre moralidade bíblica, caráter cristão ou teologia — esse é o trabalho do pai. Os pais que passam toda a responsabilidade para o professor da Escola Dominical ensinar a seus filhos sobre Deus estão cometendo um erro muito sério. Deus deu uma ordem a Israel através de Moisés: Que todas estas palavras que hoje lhe ordeno estejam em seu coração. Ensine-as com persistência a seus filhos. Converse sobre elas quando estiver sentado em casa, quando estiver andando pelo caminho, quando se deitar e quando se levantar (Dt. 6:6-7, ênfase adicionada). Pais cristãos devem apresentar Deus a seus filhos desde cedo, dizendo-lhes quem Ele é e o quanto Ele os ama. As crianças devem aprender a história do nascimento, vida, morte e ressurreição de Jesus. Muitas podem entender a mensagem do Evangelho aos cinco ou seis anos e podem fazer a decisão de servir ao Senhor. Logo depois (aos seis ou sete anos, e às vezes mais cedo), podem receber o batismo no Espírito Santo com a evidência de falar em línguas. É claro que nenhuma regra sobre isso pode ser feita, pois cada criança é diferente. O que quero dizer é que pais cristãos devem fazer do treinamento espiritual de seus filhos sua maior prioridade.

Dez Regras Para Amar Seus Filhos 1) Não irrite seu filhos (veja Ef. 6:4). Não podemos esperar que as crianças ajam como adultos. Se esperar muito delas, desistirão de tentar agradá-lo, sabendo que é impossível. 2) Não compare seus filhos com outras crianças. Diga a eles o quanto aprecia suas características únicas e dons de Deus. 3) Dê a eles responsabilidades em casa para que saibam que são uma parte importante da unidade familiar. Elogios são os tijolos de uma autoestima saudável. 195


4) Gaste tempo com seus filhos. Isso lhes mostra que são importantes para você. Dar presentes a eles não substitui dar você mesmo. Além do mais, as crianças são mais influenciadas por aqueles que passam mais tempo com elas. 5) Se precisar falar algo negativo, tente falar de uma forma positiva. Nunca disse aos meus filhos que eram “maus” quando me desobedeciam. Ao invés disso, dizia ao meu filho: “Você é um bom menino, e bons meninos não fazem o que você fez!” (Então, eu o disciplinava). 6) Perceba que a palavra “não” significa “eu me importo com você”. Quando as crianças sempre têm o que querem, sabem instintivamente que você não se importa o suficiente para restringilas. 7) Espere que seus filhos o imitem. As crianças aprendem com o exemplo de seus pais. Um pai sábio nunca dirá ao seu filho: “Faça o que eu mando, não faça o que eu faço”. 8). Não tire seus filhos de todos os problemas deles. Só remova as pedras de tropeço; deixe as outras em seu caminho. 9) Sirva a Deus de todo o coração. Notei que filhos de pais espiritualmente mornos raramente continuam a servir ao Senhor quando adultos. Filhos cristãos de pais incrédulos e filhos de pais cristãos completamente comprometidos normalmente continuam a servir a Deus uma vez que estão “fora do ninho”. 10) Ensine aos seus filhos a Palavra de Deus. Muitas vezes, os pais priorizam a educação de seus filhos, mas fracassam em dar a eles a educação mais importante que podiam ter, uma educação na Bíblia.

As Prioridades do Ministério, Casamento e Família Talvez, o erro mais comum cometido por líderes cristãos é o de negligenciar seus casamentos e famílias por devoção aos seus ministérios. Eles se justificam dizendo que seu sacrifício é “para o trabalho do Senhor”. Esse erro é remediado quando o ministro discipulador percebe que sua verdadeira obediência e devoção a Deus é refletida por seu relacionamento com sua esposa e filhos. Um ministro não pode dizer ser devoto a Deus se não ama a sua esposa como Cristo ama a Igreja, ou se negligencia passar o tempo necessário com seus filhos para criá-los na educação e admoestação do Senhor. Além do mais, alguém negligenciar sua esposa e filhos “pelo bem do ministério” é normalmente um sinal certo de ministério carnal que está sendo feito pelas forças da própria pessoa. Muitos pastores que carregam pesadas cargas de trabalho exemplificam isso quando se esgotam para manter todos os programas da igreja funcionando. Jesus prometeu que Seu jugo é suave e Seu fardo é leve (veja Mt. 11:30). Ele não está chamando ministros para mostrarem sua devoção pelo mundo ou pela igreja ao custo de amar sua família. Na verdade, um requisito para presbítero é que “ele deve governar bem sua própria família” (1 Tm. 3:4). Seu relacionamento com sua família é um teste de encaixe ao ministério. Aqueles que são chamados para ministérios em que precisam viajar e precisam ficar algumas vezes longe de casa, devem passar mais tempo focando em suas famílias quando estão em casa. Companheiros, membros do corpo de Cristo, devem fazer o que está ao seu alcance para fazer essa combinação possível. O discipulador percebe que seus próprios filhos são seus principais discípulos. Se fracassar nessa tarefa, não tem direito de tentar fazer discípulos fora de casa.

[1] Para mais provas de que Deus não é puritano, veja Cânticos de Salomão 7:1-9 e Levítico 18:1-23.

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Capítulo Vinte e Dois

Como ser Guiado Pelo Espírito O evangelho de João contém várias promessas de Jesus a respeito do papel do Espírito Santo na vida dos crentes. Vamos ler algumas delas: E eu pedirei ao Pai, e ele lhes dará outro Conselheiro para estar com vocês para sempre, o Espírito da verdade. O mundo não pode recebê-lo, porque não o vê nem o conhece. Mas vocês o conhecem, pois ele vive com vocês e estará em vocês (Jo. 14:16-17). Mas o Conselheiro, o Espírito Santo, que o Pai enviará em meu nome, lhes ensinará todas as coisas e lhes fará lembrar tudo o eu lhes disse (Jo. 14:26). Mas eu lhes afirmo que é para o bem de vocês que eu vou. Se eu não for, o Conselheiro não virá para vocês; mas se eu for, eu o enviarei... Tenho ainda muito que lhes dizer, mas vocês não o podem suportar agora. Mas quando o Espírito da verdade vier, ele os guiará a toda a verdade. Não falará de si mesmo; falará apenas o que ouvir, e lhes anunciará o que está por vir. Ele me glorificará, porque receberá do que é meu e o tornará conhecido a vocês. Tudo o que pertence ao Pai é meu. Por isso eu disse que o Espírito receberá do que é meu e o tornará conhecido a vocês (Jo. 16:7, 12-15). Jesus prometeu aos Seus discípulos que o Espírito Santo habitaria neles. Ele também os ajudaria, ensinaria, guiaria e lhes mostraria algumas coisas que estavam por vir. Como discípulos de Cristo hoje, não temos razão para pensarmos que o Espírito Santo fará menos por nós. O interessante é que Jesus disse aos Seus discípulos que era para o bem deles que Ele iria embora, caso contrário, o Espírito Santo não viria! Isso indicou a eles que a comunhão deles com o Espírito Santo seria tão íntima quanto se Jesus estivesse fisicamente presente com eles o tempo todo. Caso contrário, não seria para o bem deles ter o Espírito Santo ao invés de Jesus. Jesus está sempre conosco e dentro de nós através do Espírito Santo. De quais maneiras podemos esperar que o Espírito Santo nos guie? O Seu nome, Espírito Santo, indica que Seu papel principal em guiar-nos é nos levar a ser santos e obedientes a Deus. Portanto, tudo o que tem a ver com santidade e em cumprir a vontade de Deus na terra está dentro da liderança do Espírito Santo. Ele nos levará a obedecer a todos os mandamentos gerais de Cristo, assim como Seus mandamentos específicos que são pertinentes ao ministério único que Deus nos chamou para fazer. Portanto, se quiser ser guiado pelo Espírito a respeito de seu ministério específico, também deve ser guiado pelo Espírito em santidade em geral. Não dá para ter um sem o outro. Muitos ministros querem que o Espírito Santo os leve a grandes façanhas e milagres no ministério, mas não querem se preocupar com os aspectos menores da santidade em geral. Esse é um grande erro. Como Jesus guiou Seus discípulos? Principalmente, dando-lhes instruções gerais sobre santidade. Suas direções específicas para suas responsabilidades ministeriais eram raras, se comparadas. E assim é com o Espírito Santo que mora em nós. Portanto, se quiser ser guiado pelo Espírito, deve primeiramente, seguir Suas direções para ser santo. O apóstolo Paulo escreveu: “porque todos os que são guiados pelo Espírito de Deus são filhos de Deus” (Rm. 8:14). O que nos marca como filhos de Deus é sermos guiados pelo Espírito. Portanto, todos os filhos de Deus estão sendo guiados por Ele. É claro que depende de nós, como agentes morais livres, obedecer às Suas direções. Tudo isso sendo verdade, nenhum cristão precisa ser ensinado como ser guiado pelo Espírito Santo, pois o Espírito Santo já guia cada cristão. Por outro lado, Satanás está tentando desviar os filhos de Deus, e ainda temos a velha natureza da carne dentro de nós tentando nos desviar da vontade de Deus. Então, crentes precisam aprender a discernir as direções do Espírito dessas outras direções. Este é um processo no caminho da maturidade. Mas o fato principal é: O Espírito sempre nos guiará de acordo com a Palavra escrita de Deus, e sempre nos levará a fazer o que é certo e agradável a Deus, o que Lhe trará glória (veja Jo. 16:14).

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A Voz do Espírito Santo Mesmo que as Escrituras nos digam que, às vezes, o Espírito Santo pode nos guiar de formas espetaculares, como por visões, profecia, ou a voz audível de Deus, a maneira mais comum do Espírito Santo se comunicar conosco por nossos espíritos é por “impressões”. Isto é, se o Espírito quer que façamos algo, Ele nos “cutucará” — em nossos espíritos — e sentiremos um forte desejo de seguir em certa direção. Podemos chamar a voz do nosso espírito de “consciência”. Todos os cristãos sabem como ouvir sua consciência. Quando somos tentados a pecar, não ouvimos uma voz audível dentro de nós dizendo: “Não ceda a essa tentação”. Simplesmente sentimos algo dentro de nós resistindo a ela. E quando cedemos a uma tentação, depois de um pecado ser cometido, não ouvimos uma voz audível dizendo: “Você pecou! Você pecou!” Simplesmente sentimos uma convicção por dentro, agora nos levando a nos arrepender e confessar nosso pecado. Da mesma forma, o Espírito nos ensinará e nos guiará à verdade absoluta e ao entendimento. Ele nos ensinará transmitindo uma revelação repentina (sempre de acordo com a Bíblia) dentro de nós. Essas revelações podem levar dez minutos para descrevê-la a outra pessoa, mas podem vir pelo Espírito Santo em questão de segundos. Da mesma forma, o Espírito Santo nos guiará nas questões ministeriais. Precisamos somente nos esforçar de forma consciente para sermos sensíveis a essas direções e impressões, e lentamente aprenderemos (por tentativas e erros) a seguir o Espírito a respeito das questões ministeriais. Mas quando permitimos que nossas cabeças (nosso pensamento racional ou não) entrem no caminho dos nossos corações (onde o Espírito está nos guiando), nos desviaremos da vontade de Deus.

Como o Espírito Guiou Jesus Jesus era guiado pelo Espírito Santo por impressões interiores. Por exemplo, o evangelho de Marcos descreve o que aconteceu logo depois de Jesus ter sido batizado no Espírito Santo seguido de Seu batismo por João Batista: Logo após, o Espírito o impeliu para o deserto (Mc. 1:12, ênfase adicionada). Jesus não ouviu uma voz audível ou teve uma visão que O levou ao deserto — Ele foi simplesmente impelido à ir. Normalmente é assim que o Espírito Santo nos guia. Sentiremos uma direção, uma convicção dentro de nós de fazer algo. Quando Jesus disse ao paralítico que tinha sido baixado pelo telhado que seus pecados foram perdoados, Ele sabia que os escribas que estavam presentes pensaram que Ele estava blasfemando. Como Ele sabia o que eles estavam pensando? Lemos no evangelho de Marcos: Jesus percebeu logo em seu espírito que era isso que eles estavam pensando e lhes disse: “Por que vocês estão remoendo essas coisas em seu coração?” (Mc. 2:8, ênfase adicionada). Jesus percebeu em Seu espírito o que eles estavam pensando. Se formos sensíveis aos nossos espíritos, também saberemos como responder àqueles que se opõe ao trabalho de Deus.

O Espírito Guiando o Ministério de Paulo Depois de pelo menos vinte anos de servir no ministério, o apóstolo Paulo tinha aprendido bem como seguir à liderança do Espírito Santo. Até certo ponto, o Espírito mostrou a ele “coisas por vir” relativas ao seu futuro ministério. Por exemplo, enquanto Paulo concluía seu ministério em Éfeso, teve alguma ideia do curso que sua vida e ministério seguiriam pelos três próximos anos: Depois dessas coisas, Paulo decidiu no espírito ir a Jerusalém, passando pela Macedônia e pela Acaia. Ele dizia: “Depois de haver estado ali, é necessário também que eu vá visitar Roma” (At. 19:21). 198


Note que Paulo não decidiu sua direção em sua mente, mas em seu espírito. Isso indica que o Espírito Santo o estava guiando em seu espírito para ir primeiro para a Macedônia e Acaia (ambas localizadas na Grécia moderna), então para Jerusalém e finalmente para Roma. E este foi precisamente o caminho que seguiu. Se tiver um mapa em sua Bíblia mostrando a terceira viajem missionária de Paulo e sua viajem a Roma, pode seguir seu caminho de Éfeso (onde decidiu sua rota em seu espírito) através da Macedônia e Acaia, por Jerusalém e alguns anos mais tarde, a Roma. Mais precisamente, Paulo viajou através da Macedônia e Acaia, então voltou pela Macedônia novamente, contornando a costa do Mar Egeu e, então, viajou descendo a costa do Egeu da Ásia Menor. Durante essa jornada, ele parou na cidade de Mileto, chamou os presbíteros da igreja para perto de Éfeso e lhes deu um discurso de adeus em que dizia: Agora, compelido pelo Espírito, estou indo para Jerusalém, sem saber o que me acontecerá ali. Só sei que, em todas as cidades, o Espírito Santo me avisa que prisões e sofrimento me esperam (At. 20:22-23, ênfase adicionada). Paulo disse que foi “compelido pelo Espírito”, significando que tinha uma convicção em seu espírito que o estava guiando a Jerusalém. Ele não tinha a imagem completa a respeito do que ia acontecer quando chegasse lá, mas disse que em toda cidade em que parava em sua viajem, o Espírito Santo o avisava que prisões e sofrimento esperavam por ele. Como o Espírito Santo lhe avisou das prisões e sofrimento que esperavam por ele em Jerusalém?

Dois Exemplos No 21o capítulo de Atos, encontramos dois incidentes que respondem a essa pergunta. O primeiro exemplo é quando Paulo aportou na cidade porto mediterrânea de Tiro: Encontrando os discípulos dali, ficamos com eles sete dias. Eles, pelo Espírito, recomendavam a Paulo que não fosse a Jerusalém (At. 21:4). Por causa desse versículo, alguns comentaristas concluíram que Paulo desobedeceu a Deus quando continuou seu caminho para Jerusalém. Contudo, sob a luz do resto das informações dadas a nós no livro de Atos, não podemos chegar a essa conclusão. Isso se tornará claro enquanto progredimos na história. Aparentemente, os discípulos em Tiro eram sensíveis espiritualmente e discerniram que problemas esperavam por Paulo em Jerusalém. Consequentemente, tentaram convencê-lo a não ir. A tradução de William do Novo Testamento confirma isso, quando traduz esse mesmo versículo: “Pelas impressões feitas pelo Espírito, eles continuaram recomendando a Paulo que não fosse para Jerusalém”.* Contudo, os discípulos em Tiro não obtiveram sucesso, pois Paulo continuou sua viajem a Jerusalém à despeito de suas recomendações. Isso nos ensina que devemos ter muito cuidado para não colocarmos nossa própria interpretação a revelações que recebemos em nossos espíritos. Paulo sabia bem que problemas aguardavam por ele em Jerusalém, mas também sabia que era a vontade de Deus que fosse para lá, apesar disso. Se Deus revela algo a nós através do Espírito Santo, não significa necessariamente que devemos contar, como também devemos ter cuidado para não colocarmos nossa própria interpretação ao que o Espírito revelou.

Parada em Cesárea A próxima parada na viajem de Paulo a Jerusalém foi na cidade porto de Cesárea: Depois de passarmos ali vários dias, desceu da Judéia um profeta chamado Ágabo. Vindo ao nosso encontro, tomou o cinto de Paulo e, amarrando as suas próprias mãos e pés, disse: “Assim diz o Espírito Santo: ‘Desta maneira os judeus amarrarão o dono deste cinto em Jerusalém e o entregarão aos gentios’” (At. 21:10-11). 199


Aqui está outro exemplo do Espírito Santo avisando a Paulo que “prisões e sofrimento” esperavam por ele em Jerusalém. Mas note que Ágabo não disse: “Assim diz o Senhor: ‘Não vá a Jerusalém!’”. Não, Deus estava levando Paulo a Jerusalém e simplesmente preparando-o através da profecia de Ágado para os problemas que esperavam por ele. Note também que a profecia de Ágabo só confirmou o que Paulo já sabia em seu espírito meses antes. Nunca devemos ser guiados por profecias. Se profecias não confirmam o que já sabemos, não devemos segui-las. A profecia de Ágabo é o que podemos considerar de “direção impressionante”, pois foi além de uma impressão interior no espírito de Paulo. Quando Deus dá “direção impressionante”, como uma visão ou a voz audível de Deus, é porque sabe que nosso caminho não será fácil. Precisaremos dessa segurança extra que a direção impressionante trás. No caso de Paulo, ele quase seria morto por uma multidão e passaria anos na prisão antes de sua ida a Roma como prisioneiro. Contudo, por causa da direção impressionante que recebeu, pôde manter a perfeita paz, sabendo que o fim seria favorável. Se não receber direção impressionante não deve se preocupar, pois se precisar, Deus lhe dará. Contudo, devemos sempre tentar ser sensíveis e guiados pelo homem interior.

Acorrentados e na Vontade de Deus Quando Paulo chegou a Jerusalém, foi amarrado e encarcerado. Mais uma vez ele recebeu uma direção impressionante na forma de uma visão de Jesus: Na noite seguinte o Senhor, pondo-se ao lado dele *Paulo+, disse: “Coragem! Assim como você testemunhou a meu respeito em Jerusalém, deverá testemunhar também em Roma” (At. 23:11). Note que Jesus não disse: “Paulo, o que você está fazendo aqui? Tentei te avisar para não vir a Jerusalém!” Não, na verdade, Jesus confirmou a direção que Paulo tinha sentido em seu espírito meses antes. Paulo estava no centro da vontade de Deus em Jerusalém para testificar a favor de Jesus. E eventualmente, proclamaria sobre Cristo em Roma também. Devemos lembrar de que o chamado original de Paulo foi para testificar não só a judeus e gentios, mas também a reis (veja At. 9:15). Durante a prisão de Paulo em Jerusalém e mais tarde na Cesárea, recebeu a oportunidade de testificar ao governador Félix, Pórcio Festo e ao rei Agripa, que foi quase convencido a crer em Jesus (veja At. 26:28). Finalmente, Paulo foi enviado a Roma para testificar a Nero, imperador romano, em pessoa.

No Caminho para Ver Nero A bordo do navio que o levava a Itália, Paulo, sendo sensível ao seu espírito, recebeu outra direção de Deus. Enquanto o capitão e o piloto do navio tentavam escolher em que porto deviam passar o inverno na ilha de Creta, Paulo recebeu uma revelação: Tínhamos perdido muito tempo, e agora a navegação se tornara perigosa, pois já havia passado o Jejum. Por isso, Paulo os advertiu: “Senhores, vejo que a nossa viagem será desastrosa e acarretará grande prejuízo para o navio, para a carga e também para a nossa vida” (At. 27:9-10, ênfase adicionada). Paulo viu o que ia acontecer. Obviamente, sua visão foi como uma impressão dada pelo Espírito. Infelizmente, o capitão não ouviu a Paulo e tentou alcançar outro porto. Como resultado, o navio foi pego em uma violenta tempestade por duas semanas. A situação estava tão perigosa que a tripulação lançou fora toda a carga no segundo dia e no terceiro, jogaram até a armação do navio. Algum tempo depois, Paulo recebeu outra direção: Não aparecendo nem sol nem estrelas por muitos dias, e continuando a abater-se sobre nós grande tempestade, finalmente perdemos toda a esperança de salvamento. Visto que os homens tinham passado muito tempo sem comer, Paulo levantou-se diante deles e disse: “Os senhores deviam ter aceitado o meu conselho de não partir de Creta, pois assim teriam evitado este dano e prejuízo. 200


Mas agora recomendo-lhes que tenham coragem, pois nenhum de vocês perderá a vida; apenas o navio será destruído. Pois ontem à noite apareceu-me um anjo do Deus a quem pertenço e a quem adoro, dizendo-me: ‘Paulo, não tenha medo. É preciso que você compareça perante César; Deus, por sua graça, deu-lhe a vida de todos os que estão navegando com você’. Assim, tenham ânimo, senhores! Creio em Deus que acontecerá do modo como me foi dito. Devemos ser arrastados para alguma ilha” (At. 27:20-26). Acho que é óbvio porque Deus deu a Paulo mais uma “direção impressionante” à luz dos apuros presentes. Além dessa experiência penosa, Paulo logo teria que encarar o apuro do naufrágio. Pouco depois, seria picado por uma cobra venenosa (veja At. 27:41-28:5). É bom ter um anjo que te diga com antecedência que tudo vai ficar bem!

Alguns Conselhos Práticos Comece a olhar para seu espírito por essas percepções e impressões que são as direções do Espírito Santo. Provavelmente cometerá alguns erros no início pensando que o Espírito Santo está te guiando quando não está, mas isso é normal. Não fique desencorajado; continue. Passar tempo em um lugar quieto, orando em línguas e lendo a Bíblia também ajuda. Quando oramos em outras línguas, é nosso espírito que ora, e naturalmente, somos mais sensíveis a ele quando isso acontece. Ler e meditar na Palavra de Deus também nos torna mais sensíveis aos nossos espíritos, pois a Palavra de Deus é alimento espiritual. Quando Deus te leva em certa direção, ela não diminui. Isso significa que deve continuar orando por decisões maiores por certo tempo para ter certeza de que é Deus quem está te guiando e não suas próprias ideias ou emoções. Se não tiver paz em seu coração quando orar sobre certa direção, não a siga até que tenha paz. Se receber direção impressionante, tudo bem, mas não tente “acreditar” para ter uma visão ou ouvir uma voz audível. Deus não prometeu nos guiar dessa forma (mesmo que às vezes o faça de acordo com Sua soberana vontade). Contudo, podemos sempre confiar que Ele nos guiará através do homem interior. Por último, não adicione nada ao que Deus te falou. Ele pode te revelar algum ministério que preparou para você no futuro, mas você pode assumir que isso se cumprirá em algumas semanas, quando pode levar anos para acontecer. Sei disso por experiência. Não assuma nada. Paulo sabia algumas coisas sobre o que aconteceria no seu futuro, mas não sabia tudo, pois Deus não revelou tudo a ele. Deus quer que continuemos a andar pela fé, sempre.

* * Nota do tradutor: versículo traduzido do inglês.

Capítulo Vinte e Três

As Ordenanças Jesus só deu à Igreja duas ordenanças: batismo nas águas (veja Mt. 28:19) e a Santa Ceia (veja 1 Co. 11:23-26). Estudaremos primeiro o batismo nas águas. Debaixo na nova aliança, todo crente deve experimentar três batismos diferentes. Eles são: o batismo no corpo de Cristo, batismo nas águas e batismo no Espírito Santo. 201


Quando uma pessoa renasce, ela é automaticamente batizada no corpo de Cristo. Isto é, se torna membro do corpo de Cristo, a Igreja: Pois em um só corpo todos nós fomos batizados em um único Espírito (1 Co. 12:13; veja também Rm. 6:3; Ef. 1:22-23; Cl. 1:18, 24). Ser batizado no Espírito Santo é uma experiência subsequente à salvação, e esse batismo pode e deve ser recebido por todos o crentes. Todo crente deve ser batizado nas águas o mais cedo possível depois de se arrepender e crer no Senhor Jesus. O batismo deve ser o primeiro ato de obediência do novo crente: E [Jesus] disse-lhes: “Vão pelo mundo todo e preguem o evangelho a todas as pessoas. Quem crer e for batizado será salvo, mas quem não crer será condenado (Mc. 16:15-16, ênfase adicionada). A igreja primitiva considerava o mandamento do batismo de Jesus muito importante. Quase sem exceção, novos convertidos eram batizados quase imediatamente depois de suas conversões (veja At. 2:37-41; 8:12-16, 36-39; 9:17-19; 10:44-48; 16:31-33; 18:5-8; 19:1-5).

Algumas Ideias Não-Bíblicas Sobre o Batismo Alguns batizam aspergindo algumas gotas de água sobre o novo convertido. Isso está correto? O verbo traduzido batizar no Novo Testamento é a palavra grega baptizo, que significa literalmente “imergir”. Portanto, os que são batizados na água devem ser imersos e não simplesmente aspergidos com algumas gotas. O simbolismo do batismo cristão, que estudaremos logo mais, também sustenta a ideia de imersão. Alguns batizam bebês, mas não há exemplos bíblicos de bebês sendo batizados. Tal prática tem origem na falsa doutrina de “regeneração batismal” — a ideia de que uma pessoa renasce no momento em que é batizada. As Escrituras deixam bem claro que as pessoas devem primeiramente crer em Jesus antes de serem batizadas. Portanto, crianças que são crescidas o suficiente para se arrependerem e seguirem a Jesus se qualificam ao batismo, mas não bebês e crianças pequenas. Alguns ensinam que, mesmo que alguém creia em Jesus, não é salvo até que seja batizado nas águas. Isso não é verdade de acordo com as Escrituras. Lemos em Atos 10:44-48 e 11:17 que a casa de Cornélio foi salva e batizada no Espírito Santo antes de qualquer um deles ter sido batizado nas águas. É impossível que alguém seja batizado no Espírito Santo sem antes ser salvo (veja Jo. 14:17). Outros ensinam que, a menos que alguém seja batizado de acordo com o seu método em particular, não é salvo. As Escrituras não dão rituais específicos a serem seguidos para batismos corretos. Por exemplo, alguns dizem que um crente não é salvo se for batizado “no nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo” (Mt. 28:19) ao invés de “no nome do Senhor Jesus” (At. 8:16). Essas pessoas demonstram o mesmo espírito que dominava os escribas e fariseus, coando as moscas e engolindo os camelos. É uma tragédia que cristãos discutam por causa das palavras corretas a se dizer durante o batismo enquanto o mundo espera para ouvir o evangelho.

O Simbolismo Bíblico do Batismo O batismo na água simboliza várias coisas que já acontecerem na vida do novo convertido. Ele representa o simples fato de termos nossos pecados lavados e agora estamos limpos diante de Deus. Quando Ananias foi enviado a Saulo (Paulo) logo depois de sua conversão, Saulo disse a ele: E agora, que está esperando? Levante-se, seja batizado e lave os seus pecados, invocando o nome dele (At. 22:16, ênfase adicionada). Segundo, o batismo nas águas simboliza nossa identificação com Cristo em Sua morte, enterro e ressurreição. Uma vez que renascemos e somos colocados no corpo de Cristo, Deus nos considera “em Cristo” deste ponto em diante. Por Jesus ter sido nosso substituto, Deus atribui a nós tudo o que Ele fez. Portanto, “em Cristo” morremos, fomos enterrados e ressuscitamos para vivermos como novas pessoas: 202


Ou vocês não sabem que todos nós, que fomos batizados em Cristo Jesus, fomos batizados em sua morte? Portanto, fomos sepultados com ele na morte por meio do batismo, a fim de que, assim como Cristo foi ressuscitado dos mortos mediante a glória do Pai, também nós vivamos uma vida nova (Rm. 6:3-4). Isso aconteceu quando vocês foram sepultados com ele no batismo, e com ele foram ressuscitados mediante a fé no poder de Deus que o ressuscitou dentre os mortos (Cl. 2:12). Cada novo crente deve aprender essa verdades importantes quando é batizado nas águas, e deve ser batizado o mais cedo possível depois de crer em Jesus.

A Santa Ceia A Santa Ceia tem origem na Páscoa do Velho Testamento. Na noite em que Deus libertou Israel da escravidão do Egito, instruiu que cada casa matasse uma ovelha de um ano e passasse o sangue no batente das portas de suas casas. Quando o “anjo da morte” passasse pela nação naquela noite, matando todos os primogênitos do Egito, veria o sangue nas casas dos israelitas e passaria adiante. Além do mais, os israelitas iam celebrar a festa naquela noite comendo o cordeiro da Páscoa e pães sem fermento por sete dias. Esta deveria ser uma ordenança permanente a Israel, celebrado no mesmo tempo cada ano (veja Ex. 12:1-28). Obviamente, o cordeiro da Páscoa representava a Cristo, que é chamado de “nosso Cordeiro pascoal” em 1 Coríntios 5:7. Quando Jesus instituiu a Santa Ceia, Ele e Seus discípulos estavam celebrando a Páscoa. Jesus foi crucificado durante a Páscoa, verdadeiramente cumprindo Seu chamado como “o Cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo” (Jo. 1:29). O pão que comemos e o vinho que tomamos são simbólicos ao corpo de Jesus, que foi partido por nós, e Seu sangue, que foi derramado pela remissão de nossos pecados: Enquanto comiam, Jesus tomou o pão, deu graças, partiu-o, e o deu aos seus discípulos, dizendo: “Tomem e comam; isto é o meu corpo”. Em seguida tomou o cálice, deu graças e o ofereceu aos discípulos, dizendo: “Bebam dele todos vocês. Isto é o meu sangue da aliança, que é derramado em favor de muitos, para perdão de pecados. Eu lhes digo que, de agora em diante, não beberei deste fruto da videira até aquele dia em que beberei o vinho novo com vocês no Reino de meu Pai” (Mt. 26:26-29). O apóstolo Paulo contou a história desta maneira: Pois recebi do Senhor o que também lhes entreguei: Que o Senhor Jesus, na noite em que foi traído, tomou o pão e, tendo dado graças, partiu-o e disse: “Isto é o meu corpo, que é dado em favor de vocês; façam isto em memória de mim”. Da mesma forma, depois da ceia ele tomou o cálice e disse: “Este cálice é a nova aliança no meu sangue; façam isso sempre que o beberem em memória de mim”. Porque, sempre que comerem deste pão e beberem deste cálice, vocês anunciam a morte do Senhor até que ele venha (1 Co. 11:23-26).

Quando e Como As Escrituras não nos dizem de quanto em quanto tempo devemos tomar a Santa Ceia, mas deixam claro que na igreja primitiva era feito com regularidade em reuniões nas casas, como refeição (veja 1 Co. 11:20-34). Por causa da Santa Ceia ter origem na refeição de Páscoa, era parte de uma refeição completa quando instituída por Jesus, e era comida como refeição pela igreja primitiva, e é assim que deve ser praticada hoje. Mesmo assim, uma grande parte da igreja segue “as tradições dos homens”. Devemos nos aproximar da Santa Ceia com reverencia. O apóstolo Paulo ensinou que era uma ofensa séria tomar da Santa Ceia de maneira indigna: Portanto, todo aquele que comer o pão ou beber o cálice do Senhor indignamente será culpado de pecar contra o corpo e o sangue do Senhor. Examine-se cada um a si mesmo, e então coma do pão 203


e beba do cálice. Pois quem come e bebe sem discernir o corpo do Senhor, come e bebe para sua própria condenação. Por isso há entre vocês muitos fracos e doentes, e vários já dormiram. Mas, se nós tivéssemos o cuidado de examinar a nós mesmo, não receberíamos juízo. Quando, porém, somos julgados pelo Senhor, estamos sendo disciplinados para que não sejamos condenados com o mundo (1 Co. 11:27-32). Somos encorajados a examinar e julgar a nós mesmos antes de tomarmos da Ceia do Senhor, e se descobrirmos algum pecado, devemos nos arrepender e confessá-lo. Caso contrário, seremos culpados “de pecar contra o corpo e o sangue do Senhor”. Por Jesus ter morrido e derramado Seu sangue para nos libertar do pecado, certamente não iremos querer tomar dos elementos que representam Seu corpo e sangue se estivermos com algum pecado não confessado. Se quisermos, podemos comer e beber trazendo julgamento sobre nós mesmos em forma de doenças e morte prematura, como os cristãos de Corinto. A maneira de evitarmos a disciplina de Deus é “examinar a nós mesmos”, isto é, reconhecer e nos arrepender de nossos pecados. O principal pecado dos cristãos de Corinto era a falta de amor; eles argumentavam e brigavam uns com os outros. Aliás, sua falta de consideração até se manifestava durante a Santa Ceia quando alguns comiam enquanto outros ficavam com fome e alguns até se embebedavam (veja 1 Co. 11:2022). O pão que comemos representa o corpo de Cristo, que agora é a Igreja. Partimos um pão, representando nossa unidade como um corpo (veja 1 Co. 10:17). É um crime tomar o que representa o corpo de Cristo enquanto estamos envolvidos em brigas e desarmonia com outros membros daquele corpo! Antes de tomarmos a Santa Ceia, precisamos ter certeza de que nossos relacionamentos com nossos irmãos e irmãs em Cristo estão corretos.

Capítulo Vinte e Quatro

Confrontação, Perdão e Reconciliação Quando estudamos o Sermão do Monte de Jesus em um capítulo anterior, aprendemos como é importante que perdoemos os que pecam contra nós. Se não os perdoarmos, Jesus promete solenemente que Deus não nos perdoará (veja Mt. 6:14-15). O que significa perdoar alguém? Vamos considerar o que as Escrituras ensinam. Jesus comparou perdão com apagar as dívidas de alguém (veja Mt. 18:23-35). Imagine que alguém lhe deva dinheiro e, então, que você libera essa pessoa de sua obrigação de lhe pagar. Você destrói o documento que registra essa dívida. Você não espera mais pelo pagamento e não tem raiva de seu devedor. Agora, você o vê de forma diferente de quando ele lhe devia. Também podemos entender melhor o que significa perdoar se considerarmos o que significa ser perdoado por Deus. Quando Ele nos perdoa de um pecado, não nos considera responsáveis pelo que fizemos para desagradá-Lo. Ele não tem mais raiva de nós por causa daquele pecado. Não nos disciplinará ou punirá pelo que fizemos. Somos reconciliados com Ele. Da mesma forma, se realmente perdoo alguém, eu libero a pessoa em meu coração, superando o desejo de justiça ou vingança e mostro misericórdia. Não estou mais chateado com a pessoa que pecou contra mim. Estamos reconciliados. Se estiver nutrindo raiva ou ressentimento contra alguém, não o perdoei verdadeiramente. Muitas vezes, os cristãos se enganam sobre isso. Dizem que perdoaram alguém, sabendo que é isso que devem fazer, mas ainda nutrem ressentimento contra o ofensor. Eles evitam o ofensor, pois isso traz a raiva suprimida de volta à superfície. Eu sei do que estou falando, pois já fiz isso. Não vamos 204


nos enganar. Lembre-se de que Jesus não quer que tenhamos raiva de um companheiro cristão (veja Mt. 5:22). Agora, deixe-me fazer uma pergunta: a quem é mais fácil perdoar, um ofensor que pede perdão ou um ofensor que não pede perdão? É claro que todos concordamos que é muito mais fácil perdoar alguém que admite seu erro e nos pede perdão. Aliás, parece bem mais fácil perdoar alguém que pede por perdão do que alguém que não pede. Parece impossível perdoar alguém que não pede perdão. Vamos considerar isso por outro ângulo. Se, recusar-se a perdoar um ofensor que se arrepende e recusar-se a perdoar outro que não se arrepende forem ambos errados, qual é o maior pecado? Acho que, todos concordamos que se ambos estão errados, recusar-se a perdoar o ofensor que se arrepende é um mal maior.

Uma Surpresa das Escrituras Tudo isso me leva a outra questão: Deus espera que perdoemos a todos os que pecam contra nós, mesmo aqueles que não se humilham, admitem seu pecado e pedem perdão? Quando estudamos as Escrituras de perto, descobrimos que a resposta é “Não”. Para a surpresa de muitos cristãos, as Escrituras deixam claro que, mesmo que seja um mandamento amar a todos, incluindo nossos inimigos, não precisamos perdoar a todos. Por exemplo, Jesus espera que simplesmente perdoemos um companheiro cristão que peca contra nós? Não, não espera. Caso contrário, não nos teria dito para seguirmos os quatro passos para a reconciliação listados em Mateus 18:15-17, passos que terminam com a exclusão do ofensor, se este não se arrepender: Se o seu irmão pecar contra você, vá e, a sós com ele, mostre-lhe o erro. Se ele o ouvir, você ganhou seu irmão. Mas se ele não o ouvir, leve consigo mais um ou dois outros, de modo que “qualquer acusação seja confirmada pelo depoimento de duas ou três testemunhas”. Se ele se recusar a ouvi-los, conte à igreja; e se ele se recusar a ouvir também a igreja, trate-o como pagão ou publicano. Obviamente, se chegar ao quarto passo (exclusão), o perdão não é garantido ao ofensor, já que o perdão e a exclusão são ações incompatíveis. Pareceria estranho ouvir alguém dizer: “Nós o perdoamos quando o excomungamos”, pois o perdão resulta em reconciliação e não punição. (O que você pensaria se Deus dissesse: “Eu te perdoo, mas de agora em diante não tenho mais nada com você”?) Jesus nos instruiu a tratar o indivíduo excomungado como “pagão ou publicano”, dois tipos de pessoas com os quais o povo judeu não se relacionava, e na verdade detestava. Nos quatro passos que Jesus listou, o perdão não está no primeiro, segundo ou terceiro passo, a menos que o ofensor se arrependa. Se ele não se arrepender depois dos três passos, ele é levado ao próximo, ainda tratado como um ofensor não-arrependido. Somente quando o ofensor “o ouvir” (isto é, se arrepender), é que pode ser dito que “você ganhou seu irmão” (isto é, que foram reconciliados). O objetivo da confrontação é para que o perdão possa ser liberado. Contudo, o perdão depende do arrependimento do ofensor. Portanto, nós (1) o confrontaremos com a esperança de que o ofensor (2) se arrependa para que possamos (3) perdoá-lo. Tudo isso sendo verdade, podemos dizer com toda firmeza que Deus não espera que simplesmente perdoemos companheiros cristãos que pecam contra nós e que não se arrependem depois da confrontação. É claro que isto não nos dá o direito de odiar um ofensor cristão. Pelo contrário, confrontamos porque amamos o ofensor e queremos perdoá-lo e nos reconciliar com ele. Mesmo assim, depois de todo esforço para a reconciliação através dos três passos que Jesus listou, o quarto passo extermina o relacionamento, em obediência a Cristo.[1] Assim como não devemos ter comunhão com cristãos professos que são adúlteros, alcoólatras, homossexuais e assim por diante (veja 1 Co. 5:11), não devemos ter comunhão com cristãos professos que se recusam a se arrepender quando o corpo inteiro entra em consenso. Tais pessoas provam que não são verdadeiras seguidoras de Cristo e trazem reprovação a Sua igreja. 205


O Exemplo de Deus Quando consideramos nossa responsabilidade de perdoar outros, também podemos nos perguntar por que Deus esperaria que fizéssemos algo que Ele mesmo não faz. Com certeza, Deus ama pessoas culpadas e estende Suas mãos de misericórdia como oferta de perdão. Ele contém Sua ira e lhes dá tempo para que se arrependam. Mas isso vai depender de seu arrependimento. Deus não perdoa culpados, a menos que se arrependam. Então, por que pensaríamos que Ele espera mais de nós? Tudo isso sendo verdade, não é possível que o pecado de não perdoar, que é tão sério aos olhos de Deus, seja especificamente o pecado de não perdoar os que pedem nosso perdão? É interessante que logo depois de Jesus ter dado os quatro passos de disciplina da igreja, Pedro perguntou: “Senhor, quantas vezes deverei perdoar a meu irmão quando ele pecar contra mim? Até sete vezes?” Jesus respondeu: “Eu lhe digo: Não até sete, mas até setenta vezes sete (Mt. 18:21-22). Pedro achava que Jesus esperava que ele perdoasse um irmão não-arrependido centenas de vezes por centenas de pecados quando Ele lhe disse, momentos atrás para tratar um irmão nãoarrependido como gentio ou publicano por causa de um pecado? Parece pouco provável. Novamente, se você perdoa uma pessoa, não a trata como detestável. Outra questão que nos deve fazer pensar é esta: Se Jesus esperava que perdoássemos um cristão centenas de vezes por centenas de pecados dos quais ele nunca se arrepende, mantendo assim nosso relacionamento, por que nos permite terminar um casamento por causa de apenas um pecado cometido contra nós, o de adultério, se nosso cônjuge não se arrepender (veja Mt. 5:32)?[2] Isso pareceria bem inconsistente.

Uma Elaboração Logo após Jesus ter dito a Pedro para perdoar um irmão quatrocentas e noventa vezes, Ele contou uma parábola para ajudar Pedro a entender o que Ele quis dizer: Por isso, o Reino dos céus é como um rei que desejava acertar contas com seus servos. Quando começou o acerto, foi trazido à sua presença um que lhe devia uma enorme quantidade de prata. Como não tinha condições de pagar, o senhor ordenou que ele, sua mulher, seus filhos e tudo o que ele possuía fossem vendidos para pagar a dívida. O servo prostrou-se diante dele e lhe implorou: “Tem paciência comigo, e eu te pagarei tudo”. O senhor daquele servo teve compaixão dele, cancelou a dívida e o deixou ir. Mas quando aquele servo saiu, encontrou um de seus conservos, que lhe devia cem denários. Agarrou-o e começou a sufocá-lo, dizendo: “Pague-me o que deve!” Então o seu conservo caiu de joelhos e implorou-lhe: “Tenha paciência comigo, e eu lhe pagarei”. Mas ele não quis. Antes, saiu e mandou lançá-lo na prisão, até que pagasse a dívida. Quando os outros servos, companheiros dele, viram o que havia acontecido, ficaram muito tristes e foram contar ao seu senhor tudo o que havia acontecido. Então o senhor chamou o servo e disse: “Servo mau, cancelei toda a sua dívida porque você me implorou. Você não devia ter tido misericórdia do seu conservo como eu tive de você?” Irado, seu senhor entregou-o aos torturadores, até que pagasse tudo o que devia. Assim também lhes fará meu Pai celestial, se cada um de vocês não perdoar de coração a seu irmão (Mt. 18:23-35). Note que o primeiro servo foi perdoado porque pediu ao seu mestre. Note também, que o segundo servo também pediu humildemente por perdão ao primeiro servo. O primeiro servo não deu ao segundo o que tinha recebido, e foi isso que irou seu mestre. Portanto, Pedro pensaria que Jesus esperava que ele perdoasse um irmão não-arrependido que nunca pediu por perdão, algo que não foi ilustrado na parábola de Jesus? Parece pouco provável, ainda mais quando Jesus tinha acabado de lhe dizer para tratar um irmão não-arrependido, depois de ser propriamente confrontado, como gentio e publicano. 206


Parece ainda mais improvável que Pedro pensasse que era esperado que perdoasse um irmão não-arrependido em vista do castigo que Jesus nos prometeu se não perdoarmos nossos irmãos de coração. Jesus prometeu restituir todos os nossos pecados previamente perdoados e nos entregar aos torturadores até que paguemos o que nunca poderemos pagar. Isto seria um castigo justo a um crente que não perdoa um irmão, um irmão a quem Deus também não perdoa? Se um irmão peca contra mim, ele peca contra Deus, e Deus não o perdoa a menos que se arrependa. Deus pode nos castigar justamente por não perdoar alguém a quem também não perdoa?

Uma Sinopse As expectativas de Jesus de perdoarmos nossos companheiros cristãos estão sucintamente estabelecidas em Suas palavras registradas em Lucas 17:3-4: Se o seu irmão pecar, repreenda-o e, se ele se arrepender, perdoe-lhe. Se pecar contra você sete vezes no dia, e sete vezes voltar a você e disser: “Estou arrependido”, perdoe-lhe (ênfase adicionada). Dá para ficar mais claro? Jesus espera que perdoemos companheiros cristãos quando se arrependem. Quando oramos: “Perdoe nossas dívidas assim como perdoamos os nossos devedores”, estamos pedindo a Deus para fazer conosco o que fazemos aos outros. Não podemos esperar que Ele nos perdoe se não pedirmos. Então, por que pensaríamos que Ele espera que perdoemos os que não pedem? Novamente, isso não nos dá o direito de nutrir ressentimentos contra um irmão ou irmã em Cristo que pecou contra nós. Devemos amar uns aos outros. É por isso que fomos mandados confrontar um companheiro cristão que peca contra nós, para que possa haver reconciliação com ele e que ele possa se reconciliar com Deus, contra quem também pecou. É isso que o amor faria. Mesmo assim, muitas vezes, cristãos dizem que perdoam um ofensor cristão, mas é só uma desculpa para evitar a confrontação. Na verdade, eles não perdoam e isso fica claro por suas ações. Evitam o ofensor a qualquer custo e falam de suas feridas. Não há reconciliação. Quando pecamos, Deus nos confronta com Seu Espírito Santo em nós porque nos ama e quer nos perdoar. Devemos imitá-lo, confrontando com amor companheiros cristãos que pecam contra nós para que haja arrependimento, perdão e reconciliação. Deus sempre esperou que Seu povo amasse um ao outro com amor genuíno, um amor que permite a repreensão, mas que não permite ressentimentos. Dentro da Lei de Moisés está o mandamento: Não guardem ódio contra o seu irmão no coração; antes repreendam com franqueza o seu próximo para que, por causa dele, não sofram as consequências de um pecado. Não procurem vingança, nem guardem rancor contra alguém do seu povo, mas ame cada um o seu próximo como a si mesmo. Eu sou o Senhor (Lv. 19:17-18, ênfase adicionada).

Uma Objeção Mas e as palavras de Jesus em Marcos 11:25-26?Elas não indicam que devemos perdoar a todos por tudo sem levar em conta se pedem ou não perdão? E quando estiverem orando, se tiverem alguma coisa contra alguém, perdoem-no, para que também o Pai celestial lhes perdoe os seu pecados. Mas se vocês não perdoarem, também o seu Pai que está nos céus não perdoará os seus pecados. Esse versículo não invalida todos os versículos que já consideramos no assunto. Já sabemos que algo grave para Deus é nossa recusa em perdoar quando alguém nos pede perdão. Portanto, podemos interpretar esse versículo sob a luz desse fato bem estabelecido. Jesus só está enfatizando aqui que devemos perdoar se quisermos o perdão de Deus. Ele não está nos ditando detalhes específicos sobre o perdão e o que alguém deve fazer para recebê-lo de outrem. 207


Note que Jesus também não diz aqui que devemos pedir a Deus por perdão para recebê-lo. Devemos, então, ignorar tudo o que as Escrituras ensinam sobre o perdão de Deus ser baseado em pedirmos por ele (veja Mt. 6:12; 1 Jo. 1:9)? Devemos assumir que não precisamos pedir perdão a Deus quando pecamos porque Jesus não menciona isso logo acima? Isto não seria sábio considerando o que lemos nas Escrituras. É igualmente tolice ignorar tudo o que elas nos ensinam sobre o perdão ser liberado quando pedido.

Outra Objeção Jesus não orou pelos soldados que estavam dividindo Suas vestes: “Pai, perdoa-lhes, pois não sabem o que estão fazendo” (Lc. 23:34)? Isso não indica que Deus perdoa as pessoas mesmo sem que elas peçam? Sim, mas só até certo ponto. Isso indica que Deus mostra misericórdia aos ignorantes, uma medida de perdão. Por Deus ser perfeitamente justo, Ele só culpa as pessoas quando elas sabem que estão pecando. A oração de Jesus pelos soldados não lhes garantiu um lugar no céu — só assegurou que não seriam considerados responsáveis por dividir as vestes do Filho de Deus, e somente por causa de sua ignorância sobre quem Ele era. Eles o consideraram somente mais um criminoso a ser executado. Portanto, Deus estendeu Sua misericórdia a um ato que merecia julgamento, caso soubessem o que realmente estavam fazendo. Mas Jesus orou para que Deus perdoasse a todos os que eram de alguma forma responsáveis por Seu sofrimento? Não, não orou. A respeito de Judas, por exemplo, Ele disse que seria melhor que ele nunca tivesse nascido (veja Mt. 26:24). Com certeza, Jesus não orou para que Seu Pai perdoasse Judas. Na verdade foi o oposto — se considerarmos Salmos 69 e 109 como orações proféticas de Jesus, como Pedro considerou (veja At. 1:15-20). Jesus orou para que o julgamento caísse sobre Judas, alguém que não era um transgressor ignorante. Como pessoas que estão lutando para imitar a Cristo, devemos mostrar misericórdia àqueles que são ignorantes pelo que fazem a nós, como no caso de incrédulos (como os soldados ignorantes que dividiram as vestes de Jesus). Jesus espera que mostremos aos ímpios misericórdia extraordinária, amando nossos inimigos, fazendo o bem para aqueles que nos odeiam, abençoando os que nos amaldiçoam e orando pelos que nos tratam mal (veja Lc. 6:27-28). Devemos tentar derreter o ódio deles com nosso amor, pagando o mal com o bem. Esse preceito foi prescrito até mesmo debaixo da Lei Mosaica: Se você encontrar perdido o boi ou o jumento que pertence ao seu inimigo, leve-o de volta a ele. Se você vir o jumento de alguém que o odeia caído sob o peso de sua carga, não o abandone, procure ajudá-lo (Ex. 23:4-5). Se o seu inimigo tiver fome, dê-lhe de comer; se tiver sede, dê-lhe de beber. Fazendo isso, você amontoará brasas vivas sobre a cabeça dele, e o Senhor recompensará você (Pv. 25:21-22). É interessante que mesmo que Jesus nos tenha mandado amar nossos inimigos, fazer o bem aos que nos odeiam, abençoar os que nos amaldiçoam e orar pelos que nos maltratam (veja Lc. 6:2728), Ele nunca nos mandou perdoá-los. Podemos amar as pessoas sem perdoá-las — assim como Deus as ama sem perdoá-las. Não só podemos como devemos amá-las, já que fomos ordenados por Deus para assim fazê-lo. E nosso amor por elas deve ser manifestado através de nossas ações. O fato de Jesus ter orado para que Seu Pai perdoasse os soldados que estavam dividindo Suas vestes não prova que Deus espera que ignoremos tudo o que estudamos sobre esse assunto nas Escrituras e perdoemos a todos os que pecam contra nós. Só nos ensina que devemos perdoar automaticamente aqueles que são ignorantes de seu pecado contra nós e mostrar misericórdia extraordinária aos incrédulos.

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E José? José, que graciosamente perdoou seus irmãos que o venderam à escravidão, é às vezes usado como exemplo de como devemos perdoar a qualquer um que peque contra nós, sem importar se o perdão foi pedido ou não. Mas é isso que a história de José nos ensina? Não, não é. José pôs seus irmãos a prova por pelo menos um ano de sucessivas provas e testes para levá-los ao arrependimento. Ele até aprisionou um deles por vários meses no Egito (veja Gn. 42:24). Quando finalmente, todos os seus irmãos foram capazes de confessar sua culpa (veja Gn. 42:21; 44:16), e um deles se ofereceu como resgate pelo atual filho favorito de seu pai (veja G. 44:33), José soube que eles não eram mais os mesmos homens invejosos e egoístas que o haviam vendido à escravidão. Somente depois José revelou sua identidade e falou palavras graciosas aos que haviam pecado contra ele. Se José os tivesse “perdoado” imediatamente, eles nunca teriam se arrependido. E esse é um dos erros da mensagem de “perdão instantâneo a todos” que é ensinada hoje. Perdoar nossos irmãos que pecam contra nós sem confrontá-los resulta em duas coisas: (1) Um falso perdão que não traz reconciliação e (2) ofensores que não se arrependem e, portanto, não crescem espiritualmente.

A Prática de Mateus 18:15-17 Mesmo que os quatro passos de reconciliação listados por Jesus sejam bem simples de entender, eles podem se tornar complicados para se praticar. Quando Jesus listou os quatro passos, Ele o fez da perspectiva de quando o irmão A está convencido (e corretamente) de que o irmão B pecou contra ele. Contudo, o irmão A pode estar errado. Então, vamos imaginar uma situação em que todos os cenários possíveis sejam considerados. Se o irmão A está convencido de que o irmão B pecou contra ele, o irmão A deve ter certeza de que não está sendo crítico demais, encontrando um cisco no olho do irmão B. Deveria se fazer vista grossa e estender misericórdia a muitas ofensas pequenas. (veja Mt. 7:3-5). Se, contudo, o irmão A se encontra com ressentimentos contra o irmão B por uma ofensa significante, ele deve confrontá-lo. Ele deve fazê-lo em secreto, obedecendo ao mandamento de Jesus, mostrando seu amor para com o irmão B. Seu motivo deve ser o amor e seu objetivo, a reconciliação. Ele não deve contar a mais ninguém sobre a ofensa. “O amor perdoa muitíssimos pecados” (1 Pd. 4:8). Se amamos alguém, não exporemos seus pecados; iremos escondê-los. Sua confrontação deve ser gentil, mostrando seu amor. Ele deve dizer algo como: “Irmão B, eu valorizo muito nossa amizade, mas algo aconteceu que criou um muro entre nós. Não quero que este muro continue; portanto, devo explicar-lhe a situação para que possamos nos reconciliar. E se eu tiver feito algo que contribuiu para esse problema, quero que me diga”. Então, ele deve dizer gentilmente ao irmão B qual foi a ofensa. Na maioria dos casos, o irmão B não terá percebido que ofendeu o irmão A, e assim que souber pedirá perdão. Se isso acontecer, o irmão A deve perdoá-lo imediatamente. A reconciliação aconteceu. Outro cenário possível é que o irmão B tentará justificar seu pecado contra o irmão A dizendo que estava somente reagindo a uma ofensa cometida pelo irmão A contra ele. Se esse for o caso, o irmão B deveria ter confrontado o irmão A. Mas agora, pelo menos há diálogo e esperança de reconciliação. Em tal caso, as partes ofendidas devem discutir o que aconteceu, admitir sua culpa e oferecer e receber perdão. A reconciliação foi cumprida. Um terceiro cenário é quando A e B não são capazes de se reconciliar. Portanto, precisam de ajuda e é hora de partirem para o segundo passo.

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Segundo Passo Seria melhor se os irmãos A e B concordassem sobre quem deve se juntar a eles para ajudar a chegarem à reconciliação. O ideal seria que os irmão C e D conhecessem e amassem ambos, A e B, para assegurar a imparcialidade. E somente os irmão C e D devem saber sobre o problema, por amor e respeito a A e B. Se o irmão B não cooperar nesse ponto, o irmão A deve encontrar um ou dois outros que possam ajudar. Se os irmãos C e D forem sábios, não darão seu pronunciamento até que tenham ouvido ambos os lados. Uma vez que C e D se pronunciarem, A e B devem se submeter à decisão deles, pedir perdão e fazer as reconciliações que forem recomendadas a um ou ambos. Os irmãos C e D não devem forçar ser imparciais para correr menos riscos pessoais, recomendando que os irmãos A e B se arrependam quando, na verdade, somente um precisa. Eles devem ter em mente que se o irmão A ou B rejeitar seu julgamento, a situação será levada à igreja e seu julgamento covarde se tornará evidente a todos. Essa tentação que C e D têm de tentar manter a amizade com A e B comprometendo a verdade é uma boa razão do porquê dois juízes é melhore do que um, já que podem fortalecer a verdade. Além do mais, a decisão deles vai ter mais peso para A e B.

Terceiro Passo Se A ou B recusar o julgamento de C e D, o problema deve ser levado a toda a igreja. Esse terceiro passo nunca é tomado em igrejas institucionais — e por um bom motivo — pois resultaria em divisões quando as pessoas escolhessem um dos lados. Jesus nunca quis que igrejas locais abarcassem mais pessoas do que poderiam caber em uma casa. É nessa família congregacional menor, onde todos conhecem e se importam com A e B, que está o ambiente bíblico para o terceiro passo. Em uma igreja institucional, o terceiro passo deve ser feito no contexto de um pequeno grupo que consiste de pessoas que conhecem e amam A e B. Se eles forem membros de corpos locais diferentes, vários dos melhores membros de ambos os corpos poderiam servir como corpo de decisão. Uma vez que a igreja der sua decisão, os irmãos A e B devem se submeter a ela, conhecendo as consequências da desobediência. Pedidos de perdão devem ser feitos, o perdão entregue e a reconciliação deve ocorrer. Se A ou B se recusar a pedir perdão, ele deve ser excluído da igreja e ninguém da igreja deve ter comunhão com ele. Na maioria das vezes, a pessoa não-arrependida já terá se retirado voluntariamente e provavelmente já teria feito isso muito antes se não obtivesse o que queria em algum dos passos do processo. Isso revela sua falta de compromisso genuíno de amar sua família espiritual.

Um Problema Comum Em igrejas institucionais, as pessoas normalmente resolvem as disputas deixando uma igreja e indo para outra, onde os pastores, que querem construir seus reinos a qualquer custo e não se relacionam com outros pastores, recebem essas pessoas e ficam do seu lado quando lhes contam o seu lado. Esse padrão neutraliza o mandamento dos quatro passos de Cristo para a reconciliação. E normalmente, é uma questão de meses ou anos para que a pessoa ofendida, a quem o pastor recebeu na igreja, saia e procure outra igreja, por estar mais uma vez ofendida. Jesus esperava que igrejas fossem pequenas o suficiente para caberem em casas e que pastores/presbíteros/bispos locais trabalhassem juntos em um só corpo. Portanto, a exclusão do membro de uma igreja seria uma exclusão de todas as igrejas. É da responsabilidade de cada 210


pastor/presbítero/bispo perguntar aos cristãos que estão se aproximando, sobre sua antiga igreja e contatar a liderança dessa igreja para determinar se tais pessoas devem ser recebidas.

A Intenção de Deus Para uma Igreja Santa Outro problema comum em igrejas institucionais é que muitas vezes consistem de pessoas que comparecem simplesmente pelo show, que não dão conta de suas vidas a alguém porque seus relacionamentos são puramente sociais. Portanto, ninguém, especialmente os pastores, tem ideia de como estão suas vidas, e as pessoas não-santas continuam a manchar as igrejas às quais comparecem. Então, os de fora julgam as pessoas que se dizem cristãs como não sendo diferentes de não-crentes. Isso por si só deve ser prova suficiente para qualquer um de que a estrutura de igrejas institucionais não era a intenção de Deus para Sua santa Igreja. Pessoas não-santas e hipócritas sempre se escondem em grandes igrejas institucionais, trazendo descrédito a Cristo. Como lemos em Mateus 18:15-17, Jesus deixou claro que queria que Sua Igreja fosse composta de pessoas santas que fossem membros comprometidos de um corpo que se mantém puro. O mundo olharia para a igreja e veria sua santa noiva. Contudo, hoje ele vê uma grande meretriz, alguém infiel ao seu Esposo. Esse aspecto divinamente planejado da igreja se manter pura ficou evidente quando Paulo escreveu a respeito de uma situação crítica na igreja de Corinto. Um membro aceito do corpo estava mantendo uma relação adúltera com sua madrasta: Por toda parte se ouve que há imoralidade entre vocês, imoralidade que não ocorre nem entre os pagãos, ao ponto de um de vocês possuir a mulher de seu pai. E vocês estão orgulhosos! Não deviam, porém, estar cheios de tristeza e expulsar da comunhão aquele que fez isso? Apesar de eu não estar presente fisicamente, estou com vocês em espírito. E já condenei aquele que fez isso, como se estivesse presente. Quando vocês estiverem reunidos em nome de nosso Senhor Jesus, estando eu com vocês em espírito, estando presente também o poder de nosso Senhor Jesus Cristo, entreguem esse homem a Satanás, para que o corpo seja destruído, e seu espírito seja salvo no dia do Senhor... Já lhes disse por carta que vocês não devem associar-se com pessoas imorais. Com isso não me refiro aos imorais deste mundo, nem aos avarentos, aos ladrões ou aos idólatras. Se assim fosse, vocês precisariam sair deste mundo. Mas agora estou lhes escrevendo que não devem associar-se com qualquer que, dizendo-se irmão, seja imoral, avarento, idólatra, caluniador, alcoólatra ou ladrão. Com tais pessoas vocês nem devem comer. Pois, como haveria eu de julgar os de fora da igreja? Não devem vocês julgar os que estão dentro? Deus julgará os de fora “Expulsem esse perverso do meio de vocês.” (1 Co. 5:1-5, 9-13). Não havia necessidade de levar esse homem pelos passos de reconciliação porque era óbvio que ele não era um verdadeiro cristão. Paulo se referiu a ele como alguém que se diz irmão e o chamou de “perverso”. Além do mais, alguns versículos mais adiante, Paulo escreveu: Vocês não sabem que os perversos não herdarão o Reino de Deus? Não se deixem enganar: nem imorais, nem idólatras, nem adúlteros, nem homossexuais passivos ou ativos, nem ladrões nem avarentos, nem alcoólatras, nem caluniadores, nem trapaceiros herdarão o Reino de Deus (1 Co. 6:910). Está claro que Paulo acreditava, corretamente, que aqueles que são imorais, como o homem da igreja de Corinto, mostram a falsidade de sua fé. Alguém assim não deve ser tratado como irmão e levado pelos passos da reconciliação. Deve ser excluído, entregue a Satanás, para que a igreja não fortaleça seu próprio engano, e para que tenha esperança de ver que precisa de arrependimento para que “seja salvo no dia do Senhor” (1 Co. 5:5). Em grandes igrejas ao redor do mundo hoje, há centenas de pessoas posando como cristãos, que, por padrão bíblico, são não-crentes e que devem ser excluídos. As Escrituras deixam claro que a igreja tem a responsabilidade de afastar os que não se arrependerem e que forem fornicadores, adúlteros, homossexuais, alcoólatras e assim por diante. Mesmo assim, tais pessoas, debaixo da desculpa da “graça” estão, hoje, muitas vezes em grupos de autoajuda da igreja, onde podem ser 211


encorajadas por outros “crentes” com problemas parecidos. Isso é uma afronta ao poder de transformar vidas do evangelho de Jesus Cristo.

Líderes Caídos Um líder arrependido deve ser imediatamente restaurado a sua posição se tiver caído em um sério pecado (como o adultério)?Mesmo que o Senhor perdoe o líder arrependido imediatamente (assim como a igreja deve), o líder caído terá perdido a confiança daqueles a quem ministra. A confiança é algo que deve ser merecida. Portanto, líderes caídos devem se retirar voluntariamente de suas posições de liderança e se submeter à vigilância espiritual até que possam provar sua fidelidade. Eles devem começar do início. Os que não estiverem dispostos a servir humildemente de maneiras menores para reconquistar confiança, não devem ser tratados como líderes pelas pessoas do corpo.

Resumindo Como ministros discipuladores que são chamados para repreender, corrigir e exortar com toda a paciência e doutrina (veja 2 Tm. 4:2), não nos escondamos de nosso chamado. Ensinemos nossos discípulos a amar realmente uns aos outros por meio de tolerância misericordiosa sempre, confrontação gentil (quando necessário), mais confrontação com a ajuda de outros (quando preciso) e perdão (quando pedido). Isso é muito melhor que o falso perdão que não trás cura verdadeira a relações desfeitas. Vamos lutar para obedecer ao Senhor em todos os aspectos para mantermos Sua igreja pura e santa, um louvor ao Seu nome! Para maiores estudos a respeito de confrontação e disciplina da igreja, veja Romanos 16:17-18; 2 Coríntios 13:1-3; Gálatas 2:11-14; 2 Tessalonicenses 3:6, 14-15; 1 Timóteo 1:19-20, 5:19-20; Tito 3:1011; Tiago 5:19-20; 2 João 10-11.

[1] Parece lógico que se o excluído se arrependesse mais tarde, Jesus esperaria que o perdão fosse dado a ele. [2] Se um cônjuge adúltero é cristão, devemos passar pelos três passos que Jesus listou para a reconciliação antes de continuar com o divórcio. Se o cônjuge adúltero se arrepende, é esperado que perdoemos de acordo com o mandamento de Jesus.

Capítulo Vinte e Cinco

A Disciplina do Senhor Pensem bem naquele que suportou tal oposição dos pecadores contra si mesmo, para que vocês não se cansem nem desanimem. Na luta contra o pecado, vocês ainda não resistiram até o ponto de derramar o próprio sangue. Vocês se esqueceram da palavra de ânimo que ele lhes dirige como a filhos: “Meu filho, não despreze a disciplina do Senhor, nem se magoe com a sua repreensão, pois o Senhor disciplina a quem ama, e castiga todo aquele a quem aceita como filho”. Suportem as dificuldades, recebendo-as como disciplina; Deus os trata como filhos. Ora, qual filho que não é 212


disciplinado por seu pai? Se vocês não são disciplinados, e a disciplina é para todos os filhos, então vocês não são filhos legítimos, mas sim ilegítimos. Além disso, tínhamos pais humanos que nos disciplinavam, e nós os respeitávamos. Quanto mais devemos submeter-nos ao Pai dos espíritos, para assim vivermos! Nossos pais nos disciplinavam por curto período, segundo lhes parecia melhor; mas Deus nos disciplina para o nosso bem, para que participemos da sua santidade. Nenhuma disciplina parece ser motivo de alegria no momento, mas sim de tristeza. Mais tarde, porém, produz fruto de justiça e paz para aqueles que por ela foram exercitados. Portanto, fortaleçam as mãos enfraquecidas e os joelhos vacilantes. “Façam caminhos retos para os seus pés”, para que o manco não se desvie, antes, seja curado (Hb. 12:3-13). De acordo com o inspirado autor do livro de Hebreus, nosso Pai celestial disciplina a todos os Seus filhos. Se nunca somos disciplinados por Ele, isso indica que não somos um de Seus filhos. Portanto, devemos estar atentos e sensíveis à Sua disciplina. Alguns cristãos professos, que têm como foco as bênçãos e a bondade de Deus, interpretam todas as circunstâncias negativas como ataques de demônios sem nenhum propósito divino. Isso pode ser um grande erro se Deus estiver tentando trazêlos ao arrependimento através de Sua disciplina. Bons pais terrenos disciplinam seus filhos com a esperança que aprendam, amadureçam e sejam preparados para a vida adulta. Da mesma forma, Deus nos disciplina para que cresçamos espiritualmente, nos tornemos mais úteis em Seu serviço e sejamos preparados para comparecer diante do Seu trono de julgamento. Ele nos disciplina porque nos ama e porque deseja que compartilhemos de Sua santidade. Nosso amoroso Pai celestial se dedica ao nosso crescimento espiritual. As Escrituras dizem: “Aquele que começou a boa obra em vocês, vai completá-la até o dia de Cristo Jesus” (Fp. 1:6). Nenhuma criança gosta de ser disciplinada pelos pais, e quando somos disciplinados por Deus, a experiência não é “motivo de alegria... mas sim de tristeza”, como acabamos de ler. Contudo, no fim estamos melhores preparados, pois a disciplina “produz fruto de justiça”.

Quando e Como Deus nos Disciplina? Como qualquer bom pai, Deus só disciplina Seus filhos quando são desobedientes. Sempre que O desobedecemos corremos o risco de sermos disciplinados. Contudo, o Senhor é muito misericordioso e nos dá bastante tempo para nos arrependermos. Normalmente, Sua disciplina vem depois de nossos repetidos atos de desobediência e Seus repetidos avisos. Como Deus nos disciplina? Como aprendemos em um capítulo anterior, a disciplina de Deus pode vir em forma de fraqueza, doença ou até mesmo morte prematura: Por isso há entre vocês muitos fracos e doentes, e vários já dormiram. Mas, se nós tivéssemos o cuidado de examinar a nós mesmos, não receberíamos juízo. Quando, porém, somos julgados pelo Senhor, estamos sendo disciplinados para que não sejamos condenados com o mundo (1 Co. 11:3032). Não devemos concluir automaticamente, que todas as doenças são resultado da disciplina de Deus (o caso de Jó vem à mente). Contudo, se doenças aparecerem é bom fazer um check-up espiritual, vermos se abrimos a porta através da desobediência para a disciplina de Deus. Podemos evitar o julgamento de Deus se julgarmos a nós mesmos — isto é, assumir e nos arrepender de nosso pecado. Seria lógico concluir que seríamos candidatos à cura, uma vez que nos arrependemos, se nossa doença for resultado da disciplina de Deus. Por meio do julgamento de Deus, Paulo disse que, na verdade, evitamos ser condenados com o mundo. O que ele quis dizer? A única coisa que poderia significar é que a disciplina de Deus nos leva ao arrependimento para não sermos lançados no inferno com o mundo. Para aqueles que acham que a santidade é opcional para os que vão para o céu, isso é difícil de aceitar. Mas aqueles que leram o Sermão do Monte de Jesus sabem que somente aqueles que obedecem a Deus entrarão em Seu Reino (veja Mt. 7:21). Portanto, se persistirmos no pecado e não nos arrependermos, corremos o risco de 213


perdermos a vida eterna. Graças a Deus por Sua disciplina que nos leva ao arrependimento e nos salva do inferno!

Satanás Como Ferramenta do Julgamento de Deus Várias passagens deixam claro que Deus pode usar a Satanás para Seus propósitos disciplinares. Por exemplo, na parábola do servo impiedoso, encontrada em Mateus 18, Jesus disse que o mestre do servo ficou “irado” quando soube que seu servo perdoado não tinha perdoado seu conservo. Consequentemente, ele entregou seu servo impiedoso “aos torturadores, até que pagasse tudo o que devia” (Mt. 18:34). Jesus terminou essa parábola com as seguintes palavras solenes: Assim também lhes fará meu Pai celestial, se cada um de vocês não perdoar de coração a seu irmão (Mt. 18:35). Quem são os “torturadores”? Parece provável que seja Satanás e seus demônios. Deus pode entregar um de Seus filhos desobedientes a Satanás para levá-lo ao arrependimento. Dificuldades e calamidades tem uma maneira de levar as pessoas ao arrependimento — como o filho pródigo aprendeu (veja Lc. 15:14-19). No Velho Testamento, encontramos exemplos de Deus usando Satanás ou espíritos malignos para trazer Sua disciplina ou julgamento nas vidas das pessoas que merecem Sua ira. Um exemplo é encontrado no nono capítulo de Juízes, onde lemos que “Deus enviou um espírito maligno entre Abimeleque e os cidadãos de Siquém” (Jz. 9:23) para trazer julgamento a eles por suas obras contra os filhos de Gideão. A Bíblia também diz que “um espírito maligno, vindo da parte do Senhor” atormentava o rei Saul para que ele se arrependesse (1 Sm. 16:17). Contudo, Saul nunca se arrependeu e finalmente morreu em uma batalha por causa de sua rebelião. Em ambos esses exemplos do Velho Testamento, as Escrituras dizem que os espíritos malignos foram enviados pelo Senhor. Isso não quer dizer que Deus tenha espíritos malignos no céu que esperam para servi-Lo. O mais provável é que Ele permita que esses espíritos ajam limitadamente com a esperança de que os pecadores se arrependam debaixo da aflição dos espíritos.

Outras Formas de Disciplina de Deus Debaixo da antiga aliança, também vemos que Deus disciplinava Seu povo com frequência permitindo que problemas como falta de alimentos e inimigos estrangeiros que os dominavam, surgissem. Eventualmente, eles se arrependiam e Deus os libertava de seus inimigos. Quando se recusaram a se arrepender, depois de anos de opressão e avisos, Deus permitiu que um poder estrangeiro os conquistasse completamente e os deportasse como exilados. Debaixo da nova aliança, é bem possível que Deus possa simplesmente disciplinar Seus filhos desobedientes permitindo problemas em suas vidas, ou pode permitir que seus inimigos os aflijam. Por exemplo, a passagem citada no início desse capítulo sobre a disciplina de Deus (Hb. 12:3-13) é encontrada no contexto de crentes hebreus que estavam sendo perseguidos por sua fé. Contudo, nem toda perseguição é permitida por causa de desobediência. Cada caso deve ser julgado separadamente.

Reagindo Corretamente à Disciplina de Deus De acordo com a admoestação mencionada no início deste capítulo, podemos reagir de forma errada à disciplina de Deus de duas formas. Podemos desprezar “a disciplina do Senhor” ou nos magoar “com a sua repreensão” (Hb. 12:5). Se desprezarmos a disciplina do Senhor, significa que não a reconhecemos ou que ignoramos seu aviso. Magoar-se com a disciplina do Senhor é desistir de tentar agradá-Lo porque pensamos que Sua disciplina é muito severa. Ambas as reações são erradas. 214


Devemos perceber que Deus nos ama e que a Sua disciplina é para o nosso bem. Quando reconhecemos Sua mão amorosa de disciplina, devemos nos arrepender e receber Seu perdão. Uma vez que nos arrependemos, devemos esperar pelo alívio da disciplina de Deus. Contudo, não devemos necessariamente esperar o alívio das consequências inevitáveis de nosso pecado, mas podemos pedir a misericórdia e ajuda do Senhor. Deus responde “ao humilde e contrito de coração” (Is. 66:2). A Bíblia promete: “Pois a sua ira só dura um instante, mas o seu favor dura a vida toda; o choro pode persistir uma noite, mas de manhã irrompe a alegria” (Sl. 30:5). Depois de Seu julgamento cair sobre os israelitas, Deus prometeu: Por um breve instante eu a abandonarei, mas com profunda compaixão eu a trarei de volta. Num impulso de indignação escondi de você por um instante o meu rosto, mas com bondade eterna terei compaixão de você (Is. 54:7-8). Deus é bom e misericordioso! Para mais estudos a respeito da disciplina de Deus, veja 2 Crônicas 6:24-31, 36-39; 7:13-14; Salmos 73:14; 94:12-13; 106:40-46; 118:18; 119:67, 71; Jeremias 2:29-30; 5:23-25; 14:12; 30:11; Ageu 1:2-13; 2:17; Atos 5:1-11 e Apocalipse 3:19.

Capítulo Vinte e Seis

O Jejum O jejum é o ato voluntário de se abster de alimentos e/ou líquidos por certo tempo. A Bíblia contém muitos exemplos de pessoas que jejuaram. Algumas se abstiveram de todo o tipo de comida e outras, de somente certos tipos durante seu jejum. Um exemplo do último seria o jejum de três semanas de Daniel, quando não comeu “nada saboroso... carne e vinho” (Dn. 10:3). Há alguns exemplos nas Escrituras de pessoas que jejuaram de ambos, comida e água, mas esse tipo de jejum total era raro e deve ser considerado sobrenatural se durar mais de três dias. Por exemplo, quando Moisés ficou quarenta dias sem comer ou beber, ele estava na presença de Deus em pessoa, ao ponto de seu rosto brilhar (veja Ex. 34:28-29). Ele repetiu seu jejum de quarenta dias pouco tempo depois do primeiro (veja Dt. 9:9, 18). Os jejuns dele foram sobrenaturais, e ninguém deve tentar imitá-lo nisso. É impossível, a não ser pela ajuda sobrenatural de Deus, que uma pessoa sobreviva mais que alguns dias sem água. A desidratação leva à morte. A maioria das pessoas saudáveis pode sobreviver sem comida, mas apenas por poucas semanas.

Por que Jejuar? O principal objetivo de jejuar é receber benefícios advindos de gastar tempo extra orando e buscando ao Senhor. Quase não há referência ao jejum na Bíblia sem que contenha uma referência à oração, levando-nos a crer que é inútil jejuar sem orar.[1] Ambas as referências ao jejum no livro de Atos, por exemplo, mencionam oração. No primeiro caso (veja At. 13:1-3), os profetas e mestres de Antioquia simplesmente “adoravam o Senhor e jejuavam”. Enquanto faziam isso, receberam uma revelação profética, e consequentemente enviaram Paulo e Barnabé em sua primeira viagem missionária. No segundo caso, Paulo e Barnabé apontavam presbíteros para as novas igrejas na Galácia. Lemos: 215


Paulo e Barnabé designaram-lhes presbíteros em cada igreja; tendo orado e jejuado, eles os encomendaram ao Senhor, em quem haviam confiado (At. 14:23). Talvez, nesse segundo caso, Paulo e Barnabé estivessem seguindo o exemplo de Jesus, de quando Ele orou a noite inteira antes de escolher os doze (veja Lc. 6:12). Decisões importantes, como designar líderes espirituais, requerem oração até que a pessoa esteja certa de que tem a direção do Senhor, e o jejum tende a reservar mais tempo à oração para esse fim. Se o Novo Testamento recomenda abstinência sexual temporária entre casais para aumentar à devoção a oração (veja 1 Co. 7:5), podemos entender facilmente como a abstinência temporária de alimentos pode servir ao mesmo propósito.[2] Portanto, quando precisamos orar pela direção de Deus sobre importantes decisões espirituais, o jejum vai servir para esse fim. Orações para muitas outras necessidades podem ser feitas em um tempo relativamente curto. Não precisamos jejuar, por exemplo, para fazer a oração do Pai nosso. Orações por direcionamentos levam mais tempo por causa de nossa dificuldade em “discernir a voz de Deus em nossos corações”, já que, muitas vezes, a voz de Deus compete com desejos e motivações erradas, ou a falta de devoção, que podem estar em nós. Receber segurança pode requerer um período mais extenso de oração, e este é um dos momentos em que o jejum é benéfico. É claro que gastar tempo em oração, por qualquer bom motivo, é considerado um benefício espiritual. Por esse motivo, devemos considerar o jejum um ótimo meio para obter força e eficiência espiritual — desde que nosso jejum seja acompanhado de oração. Lemos no livro de Atos que os primeiros apóstolos eram dedicados “à oração e ao ministério da palavra” (At. 6:4). Certamente, isso nos revela pelo menos parte do segredo, do poder e da eficiência espiritual deles.

Motivos Errados para Jejuar Agora que estabelecemos uma razão espiritual para jejuar sob o Novo Testamento, também devemos considerar algumas razões não bíblicas para jejuar. Algumas pessoas jejuam esperando que isso aumente a chance de Deus responder seus pedidos de oração. Contudo, Jesus nos disse que a principal maneira de receber resposta de oração é fé, não jejum (veja Mt. 21:22). O jejum não é um meio de “torcer o braço de Deus”, ou uma maneira de dizer a Ele: “É melhor você responder minha oração ou eu me matarei de fome!” Isso não é jejum bíblico — é greve de fome! Lembre-se de que Davi jejuou por vários dias para que seu filho, o bebê de Bate-Seba, vivesse, mas ele morreu, pois o Senhor estava disciplinando Davi. O jejum não mudou sua situação. Davi não estava orando com fé porque não tinha promessa em que se apoiar. Na verdade, ele estava orando e jejuando contra a vontade de Deus, como provado pelo resultado. O jejum não é um pré-requisito ao reavivamento. Não há exemplo de alguém no Novo Testamento que jejuou por um reavivamento. Os apóstolos simplesmente obedeceram a Jesus pregando o evangelho. Se uma cidade não respondesse, eles obedeciam a Jesus novamente, tirando o pó de seus pés e indo à próxima cidade (veja Lc. 9:5; At. 13:49-51). Eles não ficavam parados jejuando e tentando “quebrar as fortalezas espirituais”, esperando por um reavivamento. Contudo, isso sendo dito, devo adicionar que jejum e oração, com certeza, podem beneficiar os que ministram o evangelho, fazendo-os agentes mais eficientes do reavivamento. Muitos dos gigantes espirituais de quem ouvimos na história da Igreja foram homens e mulheres que tinham o hábito de orar e jejuar. O jejum não é um modo de “desvalorizar a carne”, pois o desejo de comer é legítimo e não é pecado, diferente dos óbvios “desejos da carne” listados em Gálatas 5:19-21. Por outro lado, o jejum é um exercício de domínio próprio, e a mesma virtude é necessária para andarmos após o Espírito e não após a carne. Jejuar pelo propósito de provar sua espiritualidade ou de fazer propaganda de sua devoção a Deus é uma perca de tempo e indicação de hipocrisia. Esse foi o motivo pelo qual os fariseus jejuavam, e Jesus os condenou por isso (veja Mt. 6:16; 23:5). 216


Alguns jejuam para obter vitória sobre Satanás. Mas isso não é bíblico. As Escrituras dizem que se resistirmos a Satanás pela fé na Palavra de Deus, ele fugirá de nós (veja Tg. 4:7; 1 Pd. 5:8-9). Jejum não é necessário. Mas Jesus não disse que alguns demônios só podem ser expulsos por meio de “jejum e oração”? Essa afirmação foi feita em referência a libertar alguém de certo tipo de demônio que o possui, não em referência a um crente que precisa ter vitória sobre os ataques pessoais de Satanás contra ele, algo a que todos os crentes são sujeitos. Mas a afirmação de Jesus não indica que podemos ganhar maior autoridade sobre demônios através do jejum? Lembre-se que quando Jesus ouviu um relatório de que Seus discípulos não conseguiram tirar um demônio de um menino, a primeira coisa que fez foi lamentar a falta de fé deles (veja Mt. 17:17). Quando Seus discípulos Lhe indagaram por que haviam falhado, Ele respondeu que era porque a fé deles era pequena (veja Mt. 17:20). Ele também pode ter comentado à parte: “Mas esta espécie só sai pela oração e pelo jejum” (Mt. 17:21). Digo que Ele pode ter adicionado essas palavra como nota de rodapé porque há evidências de que essa frase pode não estar incluída no evangelho original de Mateus. Um nota na margem da minha Bíblia (a New American Standard Version, uma versão em inglês muito respeitada) indica que muitos dos manuscritos originais do evangelho de Mateus não contém essa frase, o que significa que é possível que Jesus nunca tenha dito: “Mas esta espécie só sai pela oração e pelo jejum”. Falantes do inglês têm o benefício de ter muitos tipos diferentes de traduções bíblicas em sua língua, enquanto muitas traduções da Bíblia em outras línguas foram traduzidas, não dos manuscritos hebraicos e gregos originais, mas da Versão King James da Bíblia, uma tradução que tem mais de quatrocentos anos. No registro de Marcos do mesmo incidente, Jesus diz: “Esta casta não pode sair senão por meio de oração” (Mc. 9:29)*, e está anotado na margem da Bíblia New American Standard que muitos manuscritos adicionam “e jejum” no fim do versículo. Se Jesus realmente disse essas palavras, ainda estaríamos errados se concluíssemos que o jejum é necessário para que alguém expulse demônios com sucesso. Se Jesus dá a alguém autoridade sobre demônios, como fez com os doze discípulos (veja Mt. 10:1), essa pessoa tem autoridade, e o jejum não aumenta a autoridade de ninguém. É claro que ele pode dar a alguém mais tempo para orar, aumentando assim a sensibilidade espiritual e talvez sua fé em sua autoridade dada por Deus. Também tenha em mente que se Jesus realmente tivesse feito a afirmação que estamos considerando, teria sido somente em referencia a um tipo de demônio. Mesmo que os discípulos de Jesus tenham falhado uma vez em expulsar uma espécie de demônio, eles obtiveram sucesso em expulsar muitos outros (veja Lc. 10:17). Tudo isso é para dizer que não precisamos jejuar para ganhar vitória pessoal sobre os ataques de Satanás contra nós.

Ênfase demais a Respeito do Jejum Infelizmente, alguns cristãos fizeram do jejum uma religião, dando a isso o lugar dominante em suas vidas cristãs. Contudo, não há referência alguma ao jejum nas epístolas do Novo Testamento.[3] Nenhuma instrução foi dada a crentes sobre como ou quando jejuar. Não há encorajamento ao jejum. Isso nos mostra que o jejum não é um aspecto de maior importância ao seguir a Jesus. No Velho Testamento, o jejum é mencionado com mais frequência. Ele era associado a tempos de luto, como ligado à morte de alguém ou um tempo de arrependimento, ou com muitas orações durante tempos de crises nacionais ou pessoais (veja Jz. 20:24-28; 1 Sm. 1:7-8; 7:1-6; 31:11-13; 2 Sm. 1:12; 12:15-23; 1 Rs. 21:20-29; 2 Cr. 20:1-3; Ed. 8:21-23; 10:1-6; Ne. 1:1-4; 9:1-2; Et. 4:1-3, 15-17; Sl. 217


35:13-14; 69:10; Is. 58:1-7; Dn. 6:16-18; 9:1-3; Jl. 1:13-14; 2:12-17; Jn. 3:4-10; Zc. 7:4-5). Acredito que as razões desses versículos continuam válidas para o jejum hoje. O Velho Testamento também ensina que a devoção ao jejum associado à negligência à obediência de mandamentos mais importantes, como cuidar dos pobres, é desbalanceada (veja Is. 58:1-12; Zc. 7:1:14). Com certeza, Jesus não pode ser acusado de aumentar a importância do jejum. Ele foi acusado pelos fariseus de não praticá-lo (veja Mt. 9:14-15). Ele os repreendeu por dar mais importância ao jejum de que a coisas espirituais (veja Mt. 23:23; Lc. 18:9-12). Por outro lado, Jesus falou sobre o jejum a Seus seguidores durante Seu Sermão do Monte. Ele os instruiu a jejuar pelos motivos certos, indicando que antecipava que Seus seguidores jejuariam às vezes. Também prometeu que Deus os recompensaria por seu jejum e, até certo ponto, também praticou jejum (veja Mt. 17:21). E disse que o tempo chegaria em que Seus discípulos jejuariam, quando Ele fosse tirado do meio deles (veja Lc. 5:34-35).

Por Quanto Tempo Alguém Deve Jejuar? Como disse anteriormente, todos os jejuns de quarenta dias registrados na Bíblia podem ser classificados como sobrenaturais. Já consideramos os dois jejuns de quarenta dias de Moisés na presença do Senhor. Elias também jejuou por quarenta dias, mas foi alimentado por um anjo antes (veja 1 Rs. 19:5-8). Houve alguns elementos sobrenaturais no jejum de quarenta dias de Jesus: Ele foi levado pelo Espírito ao deserto de forma sobrenatural, passou por tentações sobrenaturais de Satanás e foi visitado por anjos no fim de Seu jejum (veja Mt. 4:1-11). Jejuns de quarenta dias não são a norma bíblica. Se uma pessoa se abstém voluntariamente de fazer uma alimentação com o propósito de passar tempo buscando ao Senhor, ela jejuou. A ideia de que jejuns só podem ser medidos por dias é errônea. Os dois jejuns mencionados no livro de Atos que já consideramos (veja At. 13:1-3; 14:23) não foram, aparentemente, muito longos. Eles podem ter sidos somente jejuns de carne. Como o jejum visa principalmente ao propósito de buscar ao Senhor, minha recomendação é que você jejue pelo tempo necessário, até que ganhe o que está buscando de Deus. Lembre-se, o jejum não força Deus a falar com você. O jejum só pode melhorar sua sensibilidade ao Espírito Santo. Deus fala com você quer você jejue ou não. Nossa dificuldade é distinguir a direção dEle de nossos próprios desejos.

Alguns Conselhos Práticos Normalmente, o jejum afeta o corpo físico de várias formas. Uma pessoa pode sentir fraqueza, cansaço, dores de cabeça, náusea, tontura, cólicas e assim por diante. Se alguém tiver o hábito de tomar café, chá ou outras bebidas cafeinadas, alguns desses sintomas podem ser atribuídos à falta de cafeína. Em tais casos, seria uma boa ideia que esses indivíduos retirassem essas bebidas de suas dietas alguns dias antes de começar o jejum. Se alguém jejua regularmente, verá que seus jejuns se tornam cada vez mais fáceis, mesmo que sinta fraqueza durante as primeiras duas semanas. A pessoa deve ter certeza de que está bebendo bastante água durante seu jejum para que não se desidrate. Jejuns devem ser quebrados cuidadosa e vagarosamente, e quanto maior o tempo de jejum, mais cuidado se deve tomar quando terminá-lo. Se o estômago de alguém não digeriu alimentos sólidos por três dias, seria tolice terminar o jejum comendo alimentos que são difíceis de digerir. Ele deve começar com comidas de fácil digestão e sucos de frutas. Quanto mais longo o jejum, maior o tempo para o sistema digestivo se ajustar a comer novamente, mas perder uma ou duas refeições não requer um período especial. 218


Alguns estão convencidos de que um jejum cuidadoso e moderado é, na verdade, um meio de promover saúde para nossos corpos; e eu sou um deles, tendo ouvido vários testemunhos de pessoas doentes que foram curadas enquanto jejuavam. Alguns acham que jejuar é um meio de descansar e limpar o corpo. Esse pode ser o motivo de o primeiro jejum de alguém ser, normalmente, o mais difícil de todos. Aqueles que nunca jejuaram são, provavelmente, os que mais precisam de limpeza física interna. Na maioria dos casos, a fome vai embora entre dois a quatro dias do jejum. Quando a fome volta (normalmente depois de algumas semanas), isso é um sinal para que termine o jejum com cuidado, já que esse é o início da desnutrição, quando o corpo já usou toda a gordura acumulada e está agora usando células essenciais. As Escrituras dizem que Jesus teve fome depois de quarenta dias, e foi aí que terminou Seu jejum (veja Mt. 4:2).

[1] Já jejuei por sete dias sem receber benefício espiritual algum pelo simples fato de não ter um objetivo espiritual e não passar tempo extra em oração. [2] A versão King James de 1 Coríntios 7:5 recomenda o consentimento entre maridos e esposas de se absterem de relações sexuais para que possam dedicar-se ao “jejum e oração”. A maioria das traduções modernas em inglês não mencionam jejum, somente oração. * * Nota do tradutor: versículo da versão Revista e Atualizada. [3] A única exceção seria a menção de Paulo a respeito do jejum feito pelos casais em 1 Coríntios 7:5, mas entre as traduções da Bíblia em inglês ela só é encontrada na Versão King James. O jejum involuntário é mencionado em Atos 27:21, 33-34, 1 Coríntios 4:11 e 2 Coríntios 6:5; 11:27. Contudo, esses não eram jejuns feitos com propósitos espirituais, mas somente por causa de circunstâncias graves ou por não haver comida.

Capítulo Vinte e Sete

A Vida Após a Morte A maioria dos cristãos sabe que quando as pessoas morrem, vão para o céu ou para o inferno. Contudo, nem todos sabem que o céu não é a habitação final dos santos, e que o Hades não é a habitação final dos perdidos. Quando os seguidores de Jesus Cristo morrem, seus espíritos/almas vão imediatamente para o céu, onde Deus mora (veja 2 Co. 5:6-8; Fp. 1:21-23; 1 Ts. 4:14). Contudo, no futuro, Deus criará um novo céu e uma nova terra, onde a Nova Jerusalém descerá dos céus para a terra (veja 2 Pd. 3:13; Ap. 21:1-2). Lá, os santos viverão para sempre. Quando os ímpios morrem, vão imediatamente para o Hades, mas ele é somente um lugar para onde vão para esperar a ressurreição de seus corpos. Quando esse dia chegar, ficarão diante do trono de julgamento de Deus e serão lançados no lago que queima com fogo e enxofre, que é chamado de Geenna na Bíblia. Consideraremos tudo isso com mais detalhes das Escrituras.

Quando os Ímpios Morrem Para melhor entendermos o que acontece aos ímpios depois da morte, devemos estudar um palavra hebraica do Velho Testamento e três palavras gregas do Novo Testamento. Mesmo que essas 219


palavras hebraica e gregas descrevam três lugares diferentes, na maioria das vezes, são traduzidas como inferno em certas traduções bíblicas, o que pode ser confuso aos leitores. Primeiro, vamos considerar a palavra hebraica do Velho Testamento, Sheol. A palavra Sheol é mencionada mais de sessenta vezes no Velho Testamento. Claramente, ela se refere ao lugar após morte dos incrédulos. Por exemplo, quando Corá e seus seguidores se rebelaram contra Moisés no deserto, Deus os puniu abrindo o chão que os engoliu, bem como todas as suas posses. As Escrituras dizem que eles caíram no Sheol: Desceram vivos à sepultura [Sheol], com tudo o que possuíam; a terra fechou-se sobre eles, e pereceram, desaparecendo do meio da assembléia (Nm. 16:33, ênfase adicionada). Mais tarde na história de Israel, Deus os avisou de que Sua ira acendeu um fogo que queima até o Sheol: Pois um fogo foi aceso pela minha ira, fogo que queimará até as profundezas do Sheol. Ele devorará a terra e as suas colheitas e consumirá os alicerces dos montes (Dt. 32:22, ênfase adicionada). O rei Davi declarou: Voltem os ímpios ao pó [Sheol], todas a nações que se esquecem de Deus (Sl. 9:17, ênfase adicionada). E ele orou contra os ímpios dizendo: Que a morte apanhe os meus inimigos de surpresa! Desçam eles vivos para a sepultura [Sheol], pois entre eles o mal acha guarida (Sl. 55:15, ênfase adicionada). Advertindo jovens homens contra a astúcia das meretrizes, Salomão escreveu: A casa dela é um caminho que desce para a sepultura [Sheol+ para as moradas da morte… Mas eles nem imaginam que ali estão os espíritos dos mortos, que os seus convidados estão nas profundezas da sepultura [Sheol] (Pv.7:27; 9:18, ênfase adicionada). Salomão escreveu outros provérbios que nos levam a crer que certamente não são os santos que acabarão no Sheol: O caminho da vida conduz para cima quem é sensato, para que ele não desça à sepultura [Sheol] (Pv. 15:24, ênfase adicionada). Castigue-a, você mesmo, com a vara, e assim a livrará da sepultura [Sheol] (Pv. 23:14, ênfase adicionada). Finalmente, prevendo a descrição de Jesus do inferno, Isaías falou profeticamente ao rei da Babilônia, que tinha se exaltado, mas que seria lançado no Sheol: Nas profundezas o Sheol está todo agitado para recebê-lo quando chegar. Por sua causa ele desperta os espíritos dos mortos, todos os governantes da terra. Ele os faz levantar-se dos seus tronos, todos os reis dos povos. Todos responderão e lhe dirão: “Você também perdeu as forças como nós, e tornou-se como um de nós”. Sua soberba foi lançada na sepultura *Sheol], junto com o som das suas liras; sua cama é de larvas, sua coberta, de vermes. Como você caiu dos céus, ó estrela da manhã, filho da alvorada! Como foi atirado à terra, você que derrubava as nações! Você, que dizia no seu coração: “Subirei aos céus; erguerei o meu trono acima das estrelas de Deus; eu me assentarei no monte da assembleia, no ponto mais elevado do monte santo. Subirei mais alto que as mais altas nuvens; serei como o Altíssimo”. Mas às profundezas do Sheol você será levado, irá ao fundo do abismo! Os que olham para você admiram-se da sua situação, e a seu respeito ponderam: “É esse o homem que fazia tremer a terra, abalava os reinos, cidades e não deixou que os seu prisioneiros voltassem para casa?” (Pv. 14:9-17, ênfase adicionada). Essas passagens e outras como elas nos levam a crer que o Sheol sempre foi e ainda é um lugar de tormento onde os ímpios são encarcerados depois de suas mortes. E há mais provas.

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Hades Está claro que a palavra grega do Novo Testamento, Hades, se refere ao mesmo lugar que a palavra hebraica do Velho Testamento Sheol. Como prova disso, tudo o que temos que fazer é comparar Salmos 16:10 com Atos 2:27, onde lemos: Porque tu não me abandonarás no sepulcro [Sheol], nem permitirás que o teu santo sofra decomposição (Sl. 16:10, ênfase adicionada)*. Porque tu não me abandonarás no sepulcro [Hades], nem permitirás que o teu Santo sofra decomposição (At. 2:27, ênfase adicionada). É interessante que em todos as dez vezes em que Hades é mencionado no Novo Testamento, é sempre no sentido negativo e muitas vezes como lugar de tormento, onde os maus são encarcerados após a morte. (veja Mt. 11:23; 16:18; Lc. 10:15; 16:23; At. 2:27; 2:31; Ap. 1:18; 6:8; 20:13-14). Novamente, tudo isso indica que o Sheol/Hades foi e é um lugar após morte para os ímpios, um lugar de tormento.[1]

Jesus Foi Para o Sheol/Hades? Vamos considerar mais detalhadamente Salmos 16:10 e sua citação por Pedro registrada em Atos 2:27, dois versículos que indicam que o Sheol e Hades são o mesmo lugar. De acordo com o sermão de Pentecoste de Pedro, Davi não falava de si mesmo em Salmos 16:10, mas falava profeticamente de Cristo, pois o corpo de Davi, diferentemente do corpo de Cristo, sofreu decomposição (veja At. 2:29-31). Portanto, percebemos que, na verdade, era Jesus falando com Seu Pai no salmo 16:10, declarando Sua crença que Seu Pai não abandonaria Sua alma no Sheol ou permitiria que Seu corpo sofresse decomposição. Alguns interpretam essa declaração de Jesus como prova que Sua alma foi ao Sheol/Hades durante os três dias entre Sua morte e ressurreição. Contudo, não é isso que está implícito. Veja novamente o que exatamente Jesus disse ao Seu Pai: Porque tu não me abandonarás ao sepulcro [Sheol], nem permitirás que o teu santo sofra decomposição (Sl. 16:10, ênfase adicionada)*. Jesus não estava dizendo ao Seu Pai: “Eu sei que minha alma ficará alguns dias no Sheol/Hades, mas creio que o Senhor não Me abandonará lá”. Ele estava dizendo: “Acredito que quando morrer não serei tratado como o ímpios, tendo minha alma abandonada no Sheol/Hades. Não ficarei lá nem um minuto. Não! Creio que Seu plano é me ressuscitar em três dias, e não permitirá que Meu corpo sofra decomposição”. Com certeza, essa interpretação é garantida. Quando Jesus disse: “Nem permitirás que o teu Santo sofra decomposição”, não interpretamos que o corpo de Jesus se decompôs progressivamente por três dias até que fosse restaurado em Sua ressurreição. Interpretamos que Seu corpo nunca sofreu qualquer decomposição, desde a hora de Sua morte até Sua ressurreição. Da mesma forma, Sua afirmação de que Sua alma não seria abandonada no Sheol/Hades não precisa ser interpretada de forma que Ele tenha ficado no Sheol/Hades por alguns dias, mas que não foi abandonado lá.[2] Ela deve ser interpretada de forma que signifique que Sua alma não seria tratada como a alma de um injusto que seria abandonada no Sheol/Hades. Sua alma nunca passaria um só minuto lá. Note também que Jesus disse: “Porque tu não me abandonarás ao sepulcro”* e não “Porque tu não me abandonarás no sepulcro”.

Onde Esteve a Alma de Jesus Durante os Três Dias? Lembre-se que Jesus disse aos Seus discípulos que passaria três dias e três noites “no coração da terra” (Mt. 12:40). Essa não parece uma referência provável ao Seu corpo ficar em uma tumba por 221


três dias, já que dificilmente seria considerado que uma tumba ficasse “no coração da terra”. Jesus devia estar falando sobre Seu espírito/alma estar dentro da terra. Portanto, podemos concluir que Seu espírito/alma não estava no céu entre Sua morte e ressurreição. Jesus afirmou isso em Sua ressurreição quando disse a Maria que ainda não tinha voltado ao Seu Pai (veja Jo. 20:17). Tenha em mente que Jesus também disse ao ladrão arrependido na cruz que estaria com ele naquele mesmo dia no paraíso (veja Lc. 23:43). Juntando todos esse fatos, sabemos que o espírito/alma de Jesus passou três dias e três noites no coração da terra. Pelo menos parte desse tempo Ele ficou em um lugar chamado “paraíso”, que certamente não parece um sinônimo aceitável ao lugar de tormento chamado Sheol/Hades! Tudo isso me leva a pensar que deve haver um lugar no coração da terra além do Sheol/Hades, um lugar chamado paraíso. Com certeza, essa ideia é sustentada por uma parábola que Jesus contou de duas pessoas que morrem, um justo e um injusto, Lázaro e o homem rico. Vamos lê-la: Havia um homem rico que se vestia de púrpura e de linho fino e vivia no luxo todos os dias. Diante do seu portão fora deixado um mendigo chamado Lázaro, coberto de chagas; este ansiava comer o que caía da mesa do rico. Até os cães vinham lamber suas feridas. Chegou o dia em que o mendigo morreu, e os anjos o levaram para junto de Abraão. O rico também morreu e foi sepultado. No Hades, onde estava sendo atormentado, ele olhou para cima e viu Abraão de longe, com Lázaro ao seu lado. Então, chamou-o: “Pai Abraão, tem misericórdia de mim e manda que Lázaro molhe a ponta do dedo na água e refresque a minha língua, porque estou sofrendo muito neste fogo”. Mas Abraão respondeu: “Filho, lembre-se de que durante a sua vida você recebeu coisas boas, enquanto que Lázaro recebeu coisas más. Agora, porém, ele está sendo consolado aqui e você está em sofrimento. E além disso, entre vocês e nós há um grande abismo, de forma que os que desejam passar do nosso lado para o seu, ou do seu lado para o nosso, não conseguem” (Lc. 16:19-26, ênfase adicionada). É claro que ambos, Lázaro e o homem rico não estavam mais em seus corpos, uma vez que morreram, mas tinham ido para seus respectivos lugares como espíritos/almas.

Onde Estava Lázaro? Note que o homem rico se encontrou no Hades, mas podia ver Lázaro em outro lugar com Abraão. Aliás, a Bíblia diz que Lázaro estava ao lado de Abraão, não como referência a um lugar, mas, provavelmente, ao conforto que Lázaro recebia quando lá chegou. Qual era a distância entre o homem rico e Lázaro depois de mortos? As Escrituras dizem que o homem rico viu Lázaro “de longe”, e somos informados que havia “um grande abismo” entre eles. Então, a distância entre eles é uma questão de especulação. Contudo, parece lógico concluir que a distância entre eles não era tão grande quanto a distância entre o coração da terra e o céu. Caso contrário, parece que seria impossível que o homem rico fosse capaz de enxergar a Lázaro (sem contarmos a ajuda divina), e dificilmente haveria necessidade de mencionar o “grande abismo” entre os dois lugares especificamente para prevenir que alguém atravessasse de um lugar para o outro. Além do mais, o homem rico chamou Abraão e ele respondeu. Isso nos leva a pensar que estavam bem perto um do outro enquanto falavam em lados opostos do “grande abismo”. Tudo isso me leva a crer que Lázaro não estava no que chamamos de céu, mas em um lugar separado dentro da terra.[3] Deve ser o paraíso do qual Jesus falou ao ladrão arrependido. Foi para esse paraíso, no coração da terra, que os justos do Velho Testamento foram depois de suas mortes. É para onde Lázaro foi e para onde Jesus e o ladrão arrependido foram. Aparentemente, também é para onde o profeta Samuel foi após sua morte. Lemos em 1 Samuel 28 que quando Deus permitiu que o espírito do profeta morto, Samuel, aparecesse e falasse profeticamente a Saul, a feiticeira En-Dor descreveu Samuel como “um ser que sobe do chão” (1 Sm. 28:13, ênfase adicionada). Samuel disse a Saul: “Por que você me perturbou, fazendo-me subir?” (1 Sm. 28:15, ênfase adicionada). Aparentemente, o espírito/alma de Samuel estava no paraíso dentro da terra. 222


As Escrituras parecem sustentar o fato de que na ressurreição de Cristo, o paraíso foi esvaziado e que os justos que morreram durante o tempo do Velho Testamento foram levados ao céu com Jesus. A Bíblia diz que quando Jesus subiu ao céu das profundezas da terra, “levou cativos muitos prisioneiros” (Ef. 4:8-9; Sl. 68:18). Acredito que esses cativos eram os que viviam no paraíso. Com certeza, Jesus não libertou as pessoas do Sheol/Hades![4]

Jesus Pregou aos Espíritos Aprisionados As Escrituras também nos dizem que Jesus proclamou a um grupo de pessoas, espíritos sem corpos, em alguma momento entre Sua morte e ressurreição. Lemos em 1 Pedro 3: Pois também Cristo sofreu pelos pecados uma vez por todas, o justo pelos injustos, para conduzir-nos a Deus. Ele foi morto no corpo, mas vivificado pelo Espírito, no qual também foi e pregou aos espíritos em prisão que há muito tempo desobedeceram, quando Deus esperava pacientemente nos dias de Noé, enquanto a arca era construída. Nela apenas algumas pessoas, a saber, oito, foram salvas por meio da água (1 Pd.3:18-20). Essa passagem das Escrituras, com certeza, levanta algumas perguntas para as quais não tenho respostas. Por que Jesus proclamaria especificamente a algumas pessoas desobedientes que morreram durante o dilúvio de Noé? O que Ele disse a elas? De qualquer forma, essa passagem parece sustentar o fato que Jesus não passou os três dias e três noites inteiras entre Sua morte e ressurreição no paraíso.

Geenna Hoje, quando os corpos do justos morrem, seus espíritos/almas vão imediatamente para o céu (veja 2 Co. 5:6-8; Fp. 1:21-23; Ts. 4:14). Os injustos ainda vão para o Sheol/Hades, onde são atormentados e esperam a ressurreição de seus corpos, o julgamento final, e a hora que serão lançados “no lago de fogo”, um lugar diferente e separado do Sheol/Hades. Esse lago de fogo é descrito por um terceira palavra que às vezes, também é traduzida inferno, a palavra grega Geenna. Essa palavra é derivada do nome de um depósito de lixo fora de Jerusalém no vale de Hinnom, um vale profundo cheio de podridão que era infestado de vermes e bigatos e em uma de suas partes havia fogo e fumaça perpetuamente. Quando Jesus falou de Geenna, Ele falou de um lugar onde as pessoas seriam lançadas em seu corpos. Por exemplo, Ele disse no evangelho de Mateus: E se a sua mão direita o fizer pecar, corte-a e lance-a fora. É melhor perder uma parte do seu corpo do que ir todo ele para o inferno [Geenna]... Não tenham medo dos que matam o corpo, mas não podem matar a alma. Antes, tenham medo daquele que pode destruir tanto a alma como o corpo no inferno [Geenna] (Mt. 5:30, 10:28, ênfase adicionada). Geenna e Hades não podem ser o mesmo lugar, porque as Escrituras dizem que os ímpios são mandados ao Hades como espíritos/almas sem corpos. Somente depois do reinado de mil anos de Cristo quando os corpos dos incrédulos forem ressuscitados e julgados por Deus é que serão lançados no lago de fogo, ou Geenna (veja Ap. 20:5, 11-15). Além do mais, um dia, o Hades será lançado no lago de fogo (veja Ap. 20:14); portanto, deve ser um lugar diferente do lago de fogo.

Tártaro A quarta palavra que é traduzida várias vezes por inferno nas Escrituras é a palavra grega tártaro. Só encontrada uma vez no Novo Testamento: 223


Pois Deus não poupou os anjos que pecaram, mas os lançou no inferno [tártaro], prendendo-os em abismos tenebrosos a fim de serem reservados para o juízo (2 Pd. 2:4). Normalmente, pensam no tártaro como uma prisão especial para certos anjos que pecaram; portanto, não é o Sheol/Hades ou Geenna. Judas também escreveu sobre anjos que foram detidos: E, quanto aos anjos que não conservaram suas posições de autoridade, mas abandonaram sua própria morada, ele os tem guardado em trevas, presos em correntes eternas para o juízo do grande Dia (Jd. 6).

Os Horrores do Inferno Uma vez que uma pessoa não arrependida morre, ela não recebe mais oportunidades de arrependimento. Seu destino está selado. A Bíblia diz: “O homem está destinado a morrer uma só vez e depois disso enfrentar o juízo” (Hb. 9:27). O inferno é eterno, e os que lá estão confinados não têm esperança de escapar. Sobre a condenação futura dos injustos, Jesus disse: “E estes irão para o castigo eterno, mas os justos para a vida eterna” (Mt. 25:46, ênfase adicionada). O castigo para os injustos no inferno é tão eterno quanto a vida eterna para os justos. Paulo escreveu similarmente: É justo da parte de Deus retribuir com tribulação aos que lhes causam tribulação... quando o Senhor Jesus for revelado lá dos céus, com os seus anjos poderosos, em meio a chamas flamejantes. Ele punirá os que não conhecem a Deus e os que não obedecem ao evangelho de nosso Senhor Jesus. Eles sofrerão a pena de destruição eterna, a separação da presença do Senhor e da majestade do seu poder (2 Ts. 1:6-9, ênfase adicionada). O inferno é um lugar de agonia indescritível, pois será um castigo eterno. Presos lá para sempre, os injustos carregarão sua culpa eterna e sofrerão a ira de Deus no fogo indistinguível. Jesus descreveu o inferno como um lugar de “trevas”, onde haverá “choro e ranger de dentes”, e um lugar “onde o seu verme não morre, e o fogo não se apaga” (Mt. 22:13; Mc. 9:44). Oh, precisamos avisar as pessoas sobre esse lugar e dizer-lhes da salvação que só há em Cristo! Uma denominação em particular ensina o conceito de purgatório, um lugar onde os crentes sofrerão por um tempo para serem purgados de seus pecados e, portanto, serem feitos dignos do céu. Contudo, essa ideia não é ensinada na Bíblia.

Os Justos Após a Morte Quando um crente morre, seu espírito vai imediatamente para o céu para estar com o Senhor. Paulo deixou esse fato bem claro quando escreveu sobre sua própria morte: Porque para mim o viver é Cristo e o morrer é lucro. Caso continue vivendo no corpo, terei fruto do meu trabalho. E já não sei o que escolher! Estou pressionado dos dois lados: desejo partir e estar com Cristo, o que é muito melhor (Fp. 1:21-23, ênfase adicionada). Note que Paulo disse que tinha o desejo de partir e que se partisse, estaria com Cristo. Seu espírito não entraria em um estado inconsciente, esperando pela ressurreição (como infelizmente, alguns acham). Note também que Paulo disse que para ele, morrer seria lucro. Isso só seria verdade se fosse para o céu quando morresse. Paulo também declarou em sua segunda carta aos coríntios que se o espírito de um crente deixar seu corpo, ele irá “habitar com o Senhor”: Portanto, temos sempre confiança e sabemos que, enquanto estamos no corpo, estamos longe do Senhor... e preferimos estar ausentes do corpo e habitar com o Senhor (2 Co. 5:6-8). Para maior sustentação, Paulo também escreveu: 224


Irmãos, não queremos que vocês sejam ignorantes quanto aos que dormem, para que não se entristeçam como os outros que não têm esperança. Se cremos que Jesus morreu e ressurgiu, cremos também que Deus trará, mediante Jesus e com ele, aqueles que nele dormiram (1 Ts. 4:13-14). Se Jesus trará do céu com Ele na Sua volta “aqueles que nele dormiram”, eles devem estar no céu com Ele agora.

Antevisão do Céu Como é o céu? Em nossas mentes finitas nunca poderemos entender completamente as glórias que nos aguardam lá, e a Bíblia só nos dá um relance. Para os crentes, o fato mais animador sobre o céu é que veremos nosso Senhor e Salvador, Jesus, e Deus nosso Pai face a face. Viveremos na casa do Pai: Na casa de meu Pai há muitos aposentos; se não fosse assim, eu lhes teria dito. Vou prepararlhes lugar. E se eu for e lhes preparar lugar, voltarei e os levarei para mim, para que vocês estejam onde eu estiver (Jo. 14:2-3). Quando chegarmos ao céu, muitos mistérios que nossas mentes não podem compreender agora serão entendidos. Paulo escreveu: Agora, pois, vemos apenas um reflexo obscuro, como em espelho; mas, então, veremos face a face (1 Co. 13:12). O livro de Apocalipse nos dá a melhor imagem de como é o céu. Descrito como um lugar de muitas atividades, maravilhosa beleza, variação ilimitada e alegria inexpressível, o céu não será um lugar onde as pessoas ficam sentadas em nuvens e tocam harpa o dia todo! João, que recebeu uma visão do céu, notou primeiro o trono de Deus, o centro do universo: Imediatamente me vi tomado pelo Espírito, e diante de mim estava um trono no céu e nele estava assentado alguém. Aquele que estava assentado era de aspecto semelhante a jaspe e sardônio. Um arco-íris, parecendo uma esmeralda, circundava o trono, ao redor do qual estavam outros vinte e quatro tronos, e assentados neles havia vinte e quatro anciãos. Eles estavam vestidos de branco e na cabeça tinham coroas de ouro. Do trono saíam relâmpagos, vozes e trovões. Diante dele estavam acesas sete lâmpadas de fogo, que são os sete espíritos de Deus. E diante do trono havia algo parecido com um mar de vidro, claro como cristal. No centro, ao redor do trono, havia quatro seres viventes cobertos de olhos, tanto na frente como atrás. O primeiro ser parecia um leão, o segundo parecia um boi, o terceiro tinha rosto como de homem, o quarto parecia uma águia em vôo. Cada um deles tinha seis asas e era cheio de olhos, tanto ao redor como por baixo das asas. Dia e noite repetem sem cessar: “Santo, santo, santo é o Senhor, o Deus todo-poderoso, que era, que é e que há de vir”. Toda vez que os seres viventes dão glória, honra e graças àquele que está assentado no trono e que vive para todo o sempre, os vinte e quatro anciãos se prostram diante daquele que está assentado no trono e adoram aquele que vive para todo o sempre. Eles lançam as suas coroas diante do trono, e dizem: “Tu, Senhor, e Deus nosso, és digno de receber a glória, a honra e o poder, porque criaste todas as coisas, e por tua vontade elas existem e foram criadas (Ap. 4:2-11). João fez o melhor possível para descrever em termos terrenos o que dificilmente pode ser comparado a qualquer coisa na terra. Obviamente, não compreenderemos tudo o que ele viu até que vejamos também. Mas, com certeza, a leitura é inspiradora. As passagens mais inspiradoras sobre o céu são encontradas em Apocalipse 21 e 22, onde João descreveu a nova Jerusalém, que no momento está no céu, mas que descerá à terra depois do reinado milenar de Cristo: Ele me levou no Espírito a um grande e alto monte e mostrou-me a Cidade Santa, Jerusalém, que descia dos céus, da parte de Deus. Ela resplandecia com a glória de Deus, e o seu brilho era como o de uma joia muito preciosa, como jaspe, clara como cristal. Tinha um grande e alto muro com doze portas e doze anjos junto às portas... O anjo que falava comigo tinha como medida uma vara feita de ouro, para medir a cidade, suas portas e seu muros. A cidade era quadrangular, de comprimento e 225


largura iguais. Ele mediu a cidade com a vara; tinha dois mil e duzentos quilômetros de comprimento; a largura e a altura eram iguais ao comprimento... O muro era feito de jaspe e a cidade era de ouro puro, semelhante ao vidro puro... As doze portas eram doze pérolas, cada porta feita de uma única pérola. A rua principal da cidade era de outro puro, como vidro transparente. Não vi templo algum na cidade, pois o Senhor Deus todo-poderoso e o Cordeiro são o seu templo. A cidade não precisa de sol nem de lua para brilharem sobre ela, pois a glória de Deus a ilumina, e o Cordeiro é a sua candeia... Então o anjo me mostrou o rio da água da vida que, claro como cristal, fluía do trono de Deus e do Cordeiro, no meio da rua principal da cidade. De cada lado do rio estava a árvore da vida, que frutifica doze vezes por ano, uma por mês. As folhas da árvore servem para a cura das nações. Já não haverá maldição nenhuma. O trono de Deus e do Cordeiro estará na cidade, e os seus servos o servirão. Eles verão a sua face, e o seu nome estará em sua testas. Não haverá mais noite. Eles não precisarão de luz de candeia, nem da luz do sol, pois o Senhor Deus os iluminará; e eles reinarão para todo o sempre (Ap. 21:1022:5) Todos os seguidores de Jesus podem esperar ansiosos por todas essas maravilhas, desde que continuem na fé. Sem dúvida passaremos nossos primeiros dias no céu dizendo um para o outro: “Ah! Então era isso que João tentou descrever no livro de Apocalipse”!

* Nota do tradutor: versículo traduzido diretamente do inglês; também em todo o capítulo. [1] Alguns tentam fazer caso de algumas passagens, como Gênesis 37:35, Jó 14:13, Salmos 89:48, Eclesiastes 9:10 e Isaías 38:9-10, dizendo que o Sheol também era o lugar para onde os santos iam após suas mortes. A prova bíblica para essa ideia não é muito convincente. Se o Sheol era o lugar para onde ambos fossem após a morte, então, ele deve ter dois compartimentos separados: o inferno e o paraíso, o que é normalmente dito pelos que aderiram a essa ideia. * Nota do tradutor: versículo traduzido diretamente do inglês; também em todo o capítulo. [2] Os que aderem a essa interpretação devem aderir a outras duas teorias. Uma delas é que Sheol/Hades era o nome para um lugar após morte para os santos e os incrédulos que era dividido em dois compartimentos: o lugar de tormento e o paraíso, para onde Jesus foi. A outra teoria é que Jesus aguentou os tormentos dos perdidos por três dias e três noites no fogo do Sheol/Hades enquanto sofria a sentença dos pecados como nosso substituto. Ambas essas teorias são difíceis de provar através das Escrituras, e nenhuma é necessária se Jesus nunca passou tempo algum no Sheol/Hades. É isso que Sua declaração significa. A respeito da segunda teoria, Jesus não sofreu os tormentos dos perdidos por três dias e três noites entre Sua morte e ressurreição, pois nossa redenção foi comprada através de Seu sofrimento na cruz (veja Cl. 1:22), não por Seu sofrimento no Sheol/Hades. * Nota do tradutor: versículo traduzido diretamente do inglês; também em todo o capítulo. [3] Note também que ambos, Lázaro e o homem rico, mesmo separados de seus corpos, estavam conscientes e tinham todas a faculdades como visão, tato e audição. Podiam sentir dor e conforto e lembrar experiências passadas. Isso prova que a teoria de “alma dormente”, a ideia de que pessoas ficam em um estado inconsciente quando morrem, esperando recuperar a consciência na ressurreição de seus corpos, é falsa. [4] Alguns acham, e talvez com razão, que os cativos mencionados em Efésios 4:8-9 somos todos nós que éramos prisioneiros do pecado, agora libertos através da ressurreição de Cristo.

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Capítulo Vinte e Oito

O Plano Eterno de Deus Por que Deus nos criou? Ele tinha algum objetivo em mente desde o começo? Não sabia que todos se rebelariam contra Ele? Não previu as consequências de nossa rebelião e todo o sofrimento e tristeza que a humanidade tem enfrentado desde então? Por que, então Ele criou as pessoas? A Bíblia responde essas perguntas para nós. Ela diz que mesmo antes de ter criado Adão e Eva, Ele sabia que eles, e todos depois deles, pecariam. Incrivelmente, Ele já tinha um plano para redimir a humanidade através de Jesus. Paulo escreveu sobre isso: Deus, que nos salvou e nos chamou com uma santa vocação, não em virtude das nossas, obras mas por causa da sua própria determinação e graça. Esta graça nos foi dada em Cristo Jesus desde os tempos eternos (2 Tm. 1:8b-9, ênfase adicionada). A graça de Deus nos foi dada em Cristo desde a eternidade e não somente por toda a eternidade. Isso indica que Deus tinha planejado a morte sacrificial de Jesus eras atrás. Paulo escreveu similarmente em sua carta aos efésios: De acordo com o seu eterno plano que ele realizou em Cristo Jesus, nosso Senhor (Ef. 3:11, ênfase adicionada). A morte de Jesus na cruz não foi uma ideia tardia, um plano elaborado rapidamente para consertar o que Deus não tinha previsto. Deus não só tinha um propósito eterno em nos dar Sua graça desde a eternidade, mas também tinha previsto desde a eternidade passada quem escolheria receber Sua graça, e até escreveu seus nomes em um livro: Todos os habitantes da terra adorarão a besta, a saber, todos aqueles que não tiveram seus nomes escritos no livro da vida do Cordeiro que foi morto desde a criação do mundo (Ap. 13:8, ênfase adicionada). A queda de Adão não pegou Deus de surpresa. Nem a sua ou a minha. Deus sabia que pecaríamos, e também sabia que nos arrependeríamos e acreditaríamos no Senhor Jesus.

A Próxima Pergunta Se Deus sabia que alguns creriam em Jesus e outros O rejeitariam, por que criou pessoas que, de antemão, sabia que O rejeitariam? Por que não, simplesmente, criar pessoas que sabia que se arrependeriam e creriam em Jesus? A resposta para essa pergunta é um pouco mais difícil de entender, mas não impossível. Primeiro, precisamos entender que Deus nos criou com o livre arbítrio. Isto é, todos temos o privilégio de decidir sozinhos se serviremos ou não a Deus. Nossas decisões de obedecer ou desobedecer, se arrepender ou não, não são pré-determinadas por Deus. São escolhas nossas. Portanto, todos nós devemos ser testados. É claro que Deus já sabia o que faríamos, mas tínhamos que fazer algo em algum momento para que Ele previsse. Por exemplo, Deus sabe o resultado de todos os jogos de futebol antes que sejam jogados, mas devem acontecer jogos de futebol para que Ele saiba qual será o resultado. Deus não pode prever o resultado de jogos de futebol que nunca serão jogados, pois não haveria resultados para prever. Da mesma forma, Deus só pode prever decisões de agentes morais livres se estes receberem a oportunidade de fazer decisões e as fizerem. Eles devem ser testados. E é por isso que Deus não criou, e não pode criar, somente pessoas que saiba que irão se arrepender e crer em Jesus.

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Outra Pergunta Também podemos perguntar: “Se tudo o que Deus quer é pessoas obedientes, por que Ele nos criou com livre arbítrio? Por que não criou um raça de robôs eternamente obedientes? A resposta é porque Deus é um Pai. Ele quer ter um relacionamento de pai e filho conosco, e não há esse relacionamento com robôs. O desejo de Deus é ter um família eterna de filhos que tenham escolhido a amá-Lo por conta própria. De acordo com as Escrituras, este era Seu plano predeterminado: Em amor nos predestinou para sermos adotados como filhos, por meio de Jesus Cristo, conforme o bom propósito da sua vontade (Ef. 1:5, ênfase adicionada). Se quiser ter uma ideia de como Deus se alegraria com robôs, coloque um fantoche em sua mão e faça com que ele diga que te ama. Com certeza, você não sentirá aquela coisa boa no coração! O fantoche só está falando o que você fez que ele falasse. Ele não te ama de verdade. O que faz o amor tão especial é que ele é baseado na escolha de alguém com o livre arbítrio. Fantoches e robôs nada sabem sobre amor porque não podem fazer decisões sozinhos. Porque Deus queria um família de filhos que escolhessem amá-Lo e servi-Lo de coração, Ele teve que criar agentes morais livres; e para essa decisão, teve que correr o risco de que alguns agentes morais livres escolhessem não amá-Lo ou servi-Lo. E esses agentes, depois de uma vida inteira resistindo a Deus (que Se revela e atrai todas as pessoas através de Sua criação, de suas consciências e da proclamação do evangelho) teriam que encarar seus castigos por direito, tendo provado que são dignos da ira de Deus. Nenhuma pessoa no inferno pode apontar um dedo acusador contra Deus, porque Ele providenciou uma forma de cada pessoa escapar do castigo de seus pecados. Deus deseja que todos sejam salvos (veja 1 Tm. 2:4; 2 Pd. 3:9), mas cada um deve decidir sozinho.

Predestinação Bíblica Mas e aquelas passagens do Novo Testamento que falam sobre Deus ter nos predestinado, escolhendo-nos antes da fundação do mundo? Infelizmente, alguns acham que Deus escolheu especificamente alguns para serem salvos e o resto para ser condenado, sem basear Sua decisão nas coisas que esses indivíduos fizeram; isto é, supostamente, Deus escolheu quem seria salvo e quem seria condenado. Obviamente, essa ideia elimina o conceito de livre arbítrio e com certeza não é ensinado nas Escrituras. Vamos considerar o que a Bíblia ensina sobre a predestinação. Realmente, as Escrituras ensinam que Deus nos escolheu, mas esse fato deve ser estudado. Deus escolheu desde a fundação do mundo redimir as pessoas que já sabia que iriam se arrepender e crer no evangelho debaixo da influência do Seu chamado, mas por conta própria. Leia o que o apóstolo Paulo diz sobre as pessoas que Deus escolhe: Deus não rejeitou o seu povo, o qual de antemão conheceu. Ou vocês não sabem como Elias clamou a Deus contra Israel, conforme diz a Escritura? “Senhor, mataram os teus profetas e derrubaram os teu altares; sou o único que sobrou, e agora estão procurando matar-me.” E qual foi a resposta divina? “Reservei para mim sete mil homens que não dobraram os joelhos diante de Baal.” Assim, hoje também há um remanescente escolhido pela graça (Rm. 11:2-5, ênfase adicionada). Note que Deus disse a Elias: “reservei para mim sete mil homens”, mas esses sete mil homens fizeram primeiro a escolha de não dobrar “os joelhos diante de Baal”. Paulo disse que da mesma forma, havia um remanescente de judeus crentes escolhidos pela graça. Então, podemos dizer que sim, Deus nos escolheu, mas escolheu os que primeiro fizeram a escolha certa sozinhos. Deus escolheu salvar todos os que acreditam em Jesus, e esse era Seu plano mesmo antes da criação.

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O Pré-Conhecimento de Deus As Escrituras também ensinam que Deus também conhecia todos os que escolheriam fazer a decisão correta. Por exemplo, Pedro escreveu: Aos eleitos de Deus, peregrinos… escolhidos de acordo com o pré-conhecimento de Deus Pai (1 Pd. 1:1-2a, ênfase adicionada). Somos escolhidos de acordo com o pré-conhecimento de Deus. Paulo também escreveu sobre os eleitos pré-conhecidos: Pois aqueles que de antemão conheceu [nós], também os predestinou para serem conformes à imagem de seu Filho, a fim de que ele [Jesus] seja o primogênito entre muitos irmãos. E aos que predestinou, também chamou; aos que chamou, também justificou; aos que justificou, também glorificou (Rm. 8:29-30). Deus pré-conhecia todos nós, os que escolheriam acreditar em Jesus, e predestinou que nos tornaríamos conforme a imagem de Seu Filho, nos tornando filhos regenerados dEle em Sua grande família. Mantendo Seu plano eterno, nos chamou através do evangelho, nos justificou (nos fez justos) e no fim nos glorificará em Seu futuro reino. Paulo escreveu em outra carta: Bendito seja o Deus e Pai de nosso Senhor Jesus Cristo, que nos abençoou com todas as bênçãos espirituais nas regiões celestiais em Cristo. Porque Deus nos escolheu nele antes da criação do mundo, para sermos santos e irrepreensíveis em sua presença. Em amor nos predestinou para sermos adotados como filhos, por meio de Jesus Cristo, conforme o bom propósito da sua vontade, para o louvor da sua gloriosa graça, a qual nos deu gratuitamente no Amado (Ef. 1:3-6, ênfase adicionada). A mesma verdade é apresentada aqui — Deus nos predestinou (os que pré-conhecia que iriam se arrepender e crer) antes da fundação do mundo para se tornarem Seus santos filhos através de Jesus Cristo. Como já mencionei, alguns torcem o significado de passagens assim quando ignoram todas as outras coisas que a Bíblia ensina, dizendo que não temos escolha sobre nossa salvação — supostamente, a escolha foi toda de Deus. Eles chamam isso de doutrina da “eleição incondicional”. Mas quem já ouviu de tal coisa como “eleição incondicional”, isto é, uma eleição que não esteja baseada em condições? Em países livres, elegemos candidatos políticos baseando-nos nas condições que eles preenchem em nossas mentes. Escolhemos cônjuges baseando-nos nas condições que preenchem, características que possuem que os tornam desejáveis. Mesmo assim, alguns teólogos querem que acreditemos que a suposta escolha de Deus de quem será salvo e quem não será, é por “eleição incondicional”, não baseada em condições! Portanto, a salvação de indivíduos é por pura sorte; caprichos de um monstro cruel, injusto, hipócrita e irracional chamado Deus! A própria frase “eleição incondicional” se contradiz, já que a palavra eleição implica condição. Se for uma “eleição incondicional”, não é eleição; é somente sorte.

O Grande Quadro Agora vemos o grande quadro. Deus sabia que todos pecaríamos, mas fez um plano, antes de qualquer um de nós nascer, para nos redimir. Esse plano revelaria Seu maravilhoso amor e justiça, já que iria requerer que Seu Filho, sem pecado, morresse como substituto pelos nossos pecados. E Deus não somente predestinou que nós, que nos arrependemos e cremos, fôssemos perdoados, como também que nos tornássemos como Seu Filho Jesus, como Paulo disse: “Não sou eu quem vive, mas Cristo vive em mim” (Gl. 2:20). Nós, que somos renascidos filhos de Deus, receberemos, um dia, corpos incorruptíveis e viveremos em uma sociedade perfeita, servindo, amando e tendo comunhão com nosso maravilhoso Pai celestial! Viveremos em uma nova terra e na Nova Jerusalém. Tudo isso será possível por causa da morte sacrificial de Jesus! Glória a Deus por Seu plano predeterminado! 229


A Vida Presente Uma vez que entendemos o plano eterno de Deus, podemos compreender melhor sobre o que é a vida presente. Primeiramente, esta vida serve como um teste para cada pessoa. A escolha de cada pessoa determina se ela aproveitará o privilégio de ser um dos próprios filhos de Deus que viverão com Ele pela eternidade. Aqueles que se humilham e cedem ao chamado de Deus, se arrependendo e crendo, serão exaltados (veja Lc. 18:14). Essa vida é, primeiramente, um teste para a vida futura. Isso também nos ajuda a entender alguns mistérios que rodeiam esta vida presente. Por exemplo, muitos se perguntam: “Por que é permitido que Satanás e seus demônios tentem as pessoas?” ou: “Quando Satanás foi lançado do céu, por que foi permitido que tivesse acesso à terra?” Agora podemos ver que até Satanás serve para um propósito divino no plano de Deus. Primeiramente, Satanás serve como a opção alternativa para a humanidade. Se a única escolha fosse servir a Jesus, todos O serviriam; querendo ou não. Seria parecido com uma eleição em que todos devessem votar, mas só houvesse um candidato. Esse candidato seria eleito por unanimidade, mas nunca teria confiança de que seus eleitores o amam ou mesmo gostem dele! Eles não tiveram escolha, a não ser votar nele! Deus estaria em uma situação parecida se não houvesse alguém competindo com Ele pelos corações das pessoas. Considere deste ângulo: e se Deus tivesse colocado Adão e Eva em um jardim no qual nada fosse proibido? Então, Adão e Eva seriam robôs por causa do ambiente em que estavam. Eles não poderiam dizer: “Escolhemos obedecer a Deus”, porque não teriam oportunidade de desobedecê-Lo. Mais importante ainda, Deus não poderia dizer: “Sei que Adão e Eva Me amam”, porque eles não teriam oportunidade de obedecer para provar seu amor por Deus. Deus deve dar a agentes morais livres a oportunidade de desobedecerem para que Ele determine se querem obedecê-Lo. Deus não tenta as pessoas (veja Tg. 1:13), mas testa a todos (veja Sl. 11:5; Pv. 17:3). Uma maneira que Ele os testa é permitindo que sejam tentados por Satanás, que então, serve a um propósito divino em Seu plano eterno.

Um Exemplo Perfeito Lemos em Deuteronômio 13:1-3: Se aparecer entre vocês um profeta ou alguém que faz predições por meio de sonhos e lhes anunciar um sinal miraculoso ou um prodígio, e se o sinal ou prodígio de que ele falou acontecer, e ele disser: “Vamos seguir os outros deuses que vocês não conhecem e vamos adorá-los”, não deem ouvidos às palavras daquele profeta ou sonhador. O Senhor, o seu Deus, está pondo vocês à prova para ver se o amam de todo o coração e de toda a alma (ênfase adicionada). Parece lógico concluir que, se não foi Deus quem deu ao falso profeta a habilidade sobrenatural de fazer sinais ou maravilhas — deve ter sido Satanás. Mesmo assim, Deus lhe autorizou e usou a tentação de Satanás como Seu próprio teste para descobrir o que estava no coração de Seu povo. Esse mesmo princípio também está ilustrado em Juízes 2:21-3:8 quando Deus permitiu que Israel fosse tentado pelas nações vizinhas para determinar se o povo O obedeceria ou não. Jesus também foi levado pelo Espírito ao deserto com o propósito de ser tentado por Satanás (veja Mt. 4:1) e, portanto, testado por Deus. Precisava ser provado que Ele não tinha pecados, e a única maneira disso acontecer foi através das tentações.

Satanás Não Merece Toda a Culpa Satanás já enganou muitas pessoas no mundo, cegando suas mentes à verdade do evangelho, mas devemos perceber que Satanás não pode cegar a todos. Ele só pode enganar os que se permitem ser enganados, as pessoas que rejeitam a verdade. 230


Paulo declarou que os incrédulos são “obscurecidos no entendimento” (Ef. 4:18) e ignorantes, mas também revelou o motivo principal do entendimento obscurecido e ignorância deles: Não vivam mais como os gentios, que vivem na inutilidade dos seus pensamentos. Eles estão obscurecidos no entendimento e separados da vida de Deus por causa da ignorância em que estão, devido ao endurecimento do seu coração. Tendo perdido toda a sensibilidade, eles se entregaram à depravação, cometendo com avidez toda espécie de impureza (Ef. 4:17b-19, ênfase adicionada). Os incrédulos não são somente pessoas infelizes que foram tristemente enganadas por Satanás. Pelo contrário, são pecadores rebeldes que são ignorantes por vontade própria e que querem continuar sendo enganados por causa de seus corações endurecidos. Ninguém precisa continuar sendo enganado, como a sua própria vida prova! Uma vez que tenha amaciado seu coração a respeito de Deus, Satanás não pode continuar te enganando. Finalmente, Satanás será preso durante o reinado milenar de Cristo, e então não terá mais influência sobre as pessoas: Ele [um anjo] prendeu o dragão, a antiga serpente, que é o Diabo, Satanás, e o acorrentou por mil anos; lançou-o no Abismo, fechou-o e pôs um selo sobre ele, para assim impedi-lo de enganar as nações, até que terminassem os mil anos. Depois disso, é necessário que ele seja solto por um pouco de tempo (Ap. 20:2-3). Note que antes do aprisionamento de Satanás, ele terá enganado as nações, mas quando for acorrentado não poderá mais enganá-las. Contudo, uma vez que for solto, voltará a enganar as nações novamente: Quando terminarem os mil anos, Satanás será solto da sua prisão e sairá para enganar as nações que estão nos quatro cantos da terra... a fim de reuni-las para a batalha... As nações marcharam por toda a superfície da terra e cercaram o acampamento dos santos, a cidade amada; mas um fogo desceu do céu e as devorou (Ap. 20:7-9, ênfase adicionada). Por que Deus soltará Satanás por esse curto período de tempo? Para que todos os que odeiam a Cristo em seus corações, mas que fingiram obediência a Ele durante Seu reinado, sejam manifestos. Então, poderão ser julgados corretamente. Esse será o teste final. Pelo mesmo motivo, é permitido que Satanás opere na terra agora — para que os que odeiam a Cristo em seus corações sejam manifestos e julgados. Uma vez que Satanás não sirva mais para cumprir os propósitos divinos de Deus, ele será lançado no lago de fogo para ser atormentado para sempre (veja Ap. 20:10).

Preparando Para o Mundo Futuro Se você se arrependeu e creu no evangelho, passou no primeiro e mais importante teste desta vida. Contudo, não pense que não continuará sendo testado para que Deus determine sua contínua devoção e fidelidade a Ele. Somente os que continuam “alicerçados e firmes na fé” serão apresentados a Deus como “santos, inculpáveis e livres” (veja Cl. 1:22-23). Além disso, as Escrituras deixam claro que, um dia, todos compareceremos diante do trono de julgamento de Deus, e seremos recompensados individualmente de acordo com nossa obediência na terra. Portanto, ainda estamos sendo testados para determinar o quanto somos dignos de recompensas especiais futuras no Reino de Deus. Paulo escreveu: Portanto, você, por que julga seu irmão? E por que despreza seu irmão? Pois todos compareceremos diante do tribunal de Deus. Porque está escrito: “‘Por mim mesmo jurei’, diz o Senhor, ‘diante de mim todo joelho se dobrará e toda língua confessará que sou Deus’”. Assim, cada um de nós prestará contas de si mesmo a Deus (Rm. 14:10-12, ênfase adicionada). Pois todos nós devemos comparecer perante o tribunal de Cristo, para que cada um receba de acordo com as obras praticadas por meio do corpo, quer sejam boas quer sejam más (2. Co. 5:10). 231


Portanto, não julguem nada antes da hora devida; esperem até que o Senhor venha. Ele trará à luz o que está oculto nas trevas e manifestará as intenções dos corações. Nessa ocasião, cada um receberá de Deus a sua aprovação (1 Co. 4:5, ênfase adicionada).

Quais Serão as Recompensas? Quais, exatamente, serão as recompensas dadas aos que provam seu amor e devoção a Jesus? As Escrituras falam de pelo menos duas recompensas diferentes — a aprovação de Deus e mais oportunidades de servi-lo. Ambas são reveladas na parábola de Jesus sobre o homem nobre: Um homem de nobre nascimento foi para uma terra distante para ser coroado rei e depois voltar. Então, chamou dez dos seus servos e lhes deu dez minas. Disse ele: “Façam esse dinheiro render até a minha volta”. Mas os seus súditos o odiavam e por isso enviaram uma delegação para lhe dizer: “Não queremos que este homem seja nosso rei”. Contudo, ele foi coroado e voltou. Então mandou chamar os servos a quem dera o dinheiro, a fim de saber quanto tinham lucrado. O primeiro veio e disse: “Senhor, a tua mina rendeu outras dez”. “Muito bem, meu bom servo!”, respondeu o seu senhor. “Por ter sido confiável no pouco, governe sobre dez cidades”. O segundo veio e disse: “Senhor, a tua mina rendeu cinco vezes mais”. O seu senhor respondeu: “Também você, encarregue-se de cinco cidades”. Então veio outro servo e disse: “Senhor, aqui está a tua mina; eu a conservei guardada num pedaço de pano. Tive medo, porque és um homem severo. Tiras o que não puseste e colhes o que não semeaste”. O seu senhor respondeu: “Eu o julgarei pelas suas próprias palavras, servo mal! Você sabia que sou homem severo, que tiro o que não pus e colho o que não semeei. Então, por que não confiou o meu dinheiro ao banco? Assim, quando eu voltasse o receberia com os juros”. E disse aos que estavam ali: “Tomem dele a sua mina e deem-na ao que tem dez”. “Senhor”, disseram, “ele já tem dez!” Ele respondeu: “Eu lhes digo que a quem tem, mais será dado, mas a quem não tem, até o que tiver lhe será tirado. E aqueles inimigos meus, que não queriam que eu reinasse sobre eles, tragam-nos aqui e matem-nos na minha frente!” (Lc. 19:12-27). Obviamente, Jesus é o homem nobre que não estava presente, mas que eventualmente retorna. Quando Jesus voltar, teremos que dar contas a Ele do que fizemos com os dons, habilidades, ministérios e oportunidades que Ele nos deu, representados pelas minas dadas a cada servo na parábola. Se formos fiéis, seremos recompensados por Ele com louvor e autoridade para ajudá-lo a reinar sobre a terra (veja 2 Tm. 2:12; Ap. 2:26-27; 5:10; 20:6), que é representado pelas cidades que cada servo fiel foi autorizado a governar na parábola.

A Justiça de Nosso Futuro Julgamento Outra parábola que Jesus contou ilustra a perfeita justiça de nosso julgamento futuro: Pois o Reino dos céus é como um proprietário que saiu de manhã cedo para contratar trabalhadores para a sua vinha. Ele combinou pagar-lhes um denário pelo dia e mandou-os para a sua vinha. Por volta das nove horas da manhã, ele saiu e viu outros que estavam desocupados na praça, e lhes disse: “Vão também trabalhar na vinha, e eu lhes pagarei o que for justo”. E eles foram. Saindo outra vez, por volta do meio-dia e das três horas da tarde, fez a mesma coisa. Saindo por volta das cinco horas da tarde, encontrou ainda outros que estavam desocupados e lhes perguntou: “Por que vocês estiveram aqui desocupados o dia todo?” “Porque ninguém nos contratou”, responderam eles. Ele lhes disse: “Vão vocês também trabalhar na vinha”. Ao cair da tarde, o dono disse a seu administrador: “Chame os trabalhadores e pague-lhes o salário, começando com os últimos contratados e terminando nos primeiros”. Vieram os trabalhadores contratados por volta das cinco horas da tarde, e cada um recebeu um denário. Quando vieram os que tinham sido contratados primeiro, esperavam receber mais. Mas cada um deles também recebeu um denário. Quando o receberam, começaram a se queixar do proprietário da vinha, dizendo-lhe: “Estes homens contratados por último trabalharam apenas uma hora, e o senhor os igualou a nós, que suportamos o peso do 232


trabalho e o calor do dia”. Mas ele respondeu a um deles: “Amigo, não estou sendo injusto com você. Você não concordou em trabalhar por um denário? Receba o que é seu e vá. Eu quero dar ao que foi contratado por último o mesmo que lhe dei. Não tenho o direito de fazer o que quero com o meu dinheiro? Ou você está com inveja porque sou generoso?” Assim, os últimos serão primeiros, e os primeiros serão últimos (Mt. 20:1-16). Nessa parábola, Jesus não estava dizendo que todos os servos de Deus receberão a mesma recompensa no fim, já que isso não só seria injusto, mas também contradiria muitas outras passagens (veja, por exemplo Lc. 19:12-27; 1 Co. 3:8). Jesus estava ensinando que Deus recompensará cada um de seus servos baseando-se, não só no que fizeram por Ele, mas em quanta oportunidade Ele lhes deu. Na parábola de Cristo, os que trabalharam somente por uma hora teriam trabalhado o dia inteiro se o proprietário lhes tivesse dado oportunidade. Portanto, aqueles que fizeram o máximo em sua oportunidade de uma hora foram recompensados da mesma forma que os que receberam a oportunidade de trabalhar o dia inteiro. Da mesma forma, Deus dá oportunidades diferentes a cada um de Seus servos. Para alguns Ele dá grandes oportunidades de servir e abençoar milhares de pessoas usando os maravilhosos dons que Ele lhes concede. Para outros Ele dá menos oportunidades e dons, mesmo assim, podem receber a mesma recompensa no fim se forem igualmente fiéis ao que Ele lhes tem dado.[1]

A Conclusão Não há nada mais importante que obedecer a Deus, e um dia todos saberão disso. Os sábios já sabem e agem de acordo! Agora que já se ouviu tudo, aqui está a conclusão: Tema a Deus e obedeça aos seus mandamentos, porque isso é o essencial para o homem. Pois Deus trará a julgamento tudo o que foi feito, inclusive tudo o que está escondido, seja bom, seja mal (Ec. 12:13-14). O ministro discipulador obedece a Deus de todo o coração e faz todo o possível para motivar seus discípulos a fazerem o mesmo! Para maiores estudos a respeito desse importante tópico de nosso futuro julgamento, veja Mt. 6:1-6, 16-18; 10:41-42; 12:36-37; 19:28-29; 25:14-30; Lc. 12:2-3; 14:12-14; 16:10-13; 1 Co. 3:5-15; 2 Tm. 2:12; 1 Pd. 1:17; Ap. 2:26-27; 5:10; 20:6.

[1] Essa parábola também não ensina que todos os que se arrependem na juventude e trabalham fielmente por muitos anos serão recompensados da mesma forma que os que se arrependeram no último ano de suas vidas e serviram a Deus fielmente somente por um ano. Isso seria injusto, e não seria baseado na oportunidade que Deus deu a cada um, já que Deus deu a cada um a oportunidade de se arrepender durante toda a vida. Portanto, os que trabalham por mais tempo receberão mais recompensas do que os que trabalharam por menos tempo.

Capítulo Vinte e Nove

O Arrebatamento e o Fim dos Tempos Quando Jesus andou sobre a terra em forma humana, disse claramente aos Seus discípulos que partiria e, então voltaria para buscá-los um dia. Quando voltasse, os levaria para o céu com Ele (o que 233


os cristãos modernos chamam de “arrebatamento”). Por exemplo, na noite antes de Sua crucificação, Jesus disse aos Seus onze fiéis apóstolos: Não se perturbe o coração de vocês. Creiam em Deus; creiam também em mim. Na casa de meu Pai há muitos aposentos; se não fosse assim, eu lhes teria dito. Vou preparar-lhes lugar. E se eu for e lhes preparar lugar, voltarei e os levarei para mim, para que vocês estejam onde eu estiver (Jo. 14:1-2, ênfase adicionada). Está claramente implicado nas palavras de Jesus que Sua volta poderia acontecer durante a vida dos onze. Aliás, depois de ouvir o que Jesus disse, eles simplesmente teriam assumido que Ele retornaria durante a vida deles. Jesus também advertiu Seus discípulos a estarem prontos para Sua volta, novamente implicando a possibilidade de Sua volta durante o tempo de vida deles (veja, por exemplo, Mt. 24:4244).

A Volta Iminente de Jesus nas Epístolas Os apóstolos que escreveram as cartas do Novo Testamento certamente afirmavam sua crença em que Jesus poderia voltar durante o tempo de vida de seus leitores do primeiro século. Por exemplo, Tiago escreveu: Portanto, irmãos, sejam pacientes até a vinda do Senhor. Vejam como o agricultor aguarda que a terra produza a preciosa colheita e como espera com paciência até virem as chuvas do outono e da primavera. Sejam também pacientes e fortaleçam o seu coração, pois a vinda do Senhor está próxima (Tg. 5:7-8, ênfase adicionada). Não haveria necessidade de Tiago ter exortado seus leitores a serem pacientes pelo que não poderia acontecer durante suas vidas. Contudo, ele cria que a vinda do Senhor estava próxima. Contextualmente, Tiago escreveu em um tempo em que a Igreja estava sofrendo perseguição (veja Tg. 1:2-4), um tempo em que os crentes, naturalmente, ansiavam pela volta do seu Senhor. Similarmente, Paulo também acreditava que Jesus poderia voltar durante a vida de muitos dos seus contemporâneos: Irmãos, não queremos que vocês sejam ignorantes quanto aos que dormem, para que não se entristeçam como os outros que não têm esperança. Se cremos que Jesus morreu e ressurgiu, cremos também que Deus trará, mediante Jesus e com ele, aqueles que nele dormiram. Dizemos a vocês, pela palavra do Senhor, que nós, os que estivermos vivos, os que ficarmos até a vinda do Senhor, certamente não precederemos os que dormem. Pois, dada a ordem, com a voz do arcanjo e o ressoar da trombeta de Deus, o próprio Senhor descerá dos céus, e os mortos em Cristo ressuscitarão primeiro. Depois nós, os que estivermos vivos seremos arrebatados com eles nas nuvens, para o encontro com o Senhor nos ares. E assim estaremos com o Senhor para sempre. Consolem-se uns aos outros com essas palavras (1 Ts. 4:13-18, ênfase adicionada).[1] Dessa passagem, também aprendemos que quando Jesus voltar do céu, os corpos dos cristãos mortos serão ressuscitados e, juntamente com os crentes que estiverem vivos na Sua volta, serão “arrebatados... para o encontro com o Senhor nos ares” (o arrebatamento). Porque Paulo também disse que Jesus traria com Ele, dos céus, os que “nele dormiram”, só podemos concluir que no arrebatamento, os espíritos dos cristãos celestiais serão unidos aos seu corpos recém ressuscitados. Pedro também acreditava que a vinda de Cristo era iminente quando escreveu sua primeira epístola: Portanto, estejam com a mente preparada, prontos para agir; estejam alertas e coloquem toda a esperança na graça que lhes será dada quando Jesus Cristo for revelado... O fim de todas as coisas está próximo. Portanto, sejam criteriosos e estejam alertas; dediquem-se à oração... Mas alegrem-se à medida que participam dos sofrimentos de Cristo, para que também, quando a sua glória for revelada, vocês exultem com grande alegria (1 Pd. 1:13, 4:7, 13, ênfase adicionada).[2] 234


Finalmente, quando João escreveu sua carta às igrejas, ele também cria que o fim estava próximo e que os leitores de seus dias poderiam ver a volta de Jesus: Filhinhos, esta é a última hora e, assim como vocês ouviram que o anticristo está vindo, já agora muitos anticristos têm surgido. Por isso sabemos que esta é a última hora... Filhinhos, agora permaneçam nele para que, quando ele se manifestar, tenhamos confiança e não sejamos envergonhados diante dele na sua vinda... Amados, agora somos filhos de Deus, e ainda não se manifestou o que havemos de ser, mas sabemos que, quando ele se manifestar, seremos semelhantes a ele, pois o veremos como ele é. Todo aquele que nele tem esta esperança purifica-se a si mesmo, assim como ele é puro (1 Jo. 2:18, 28; 3:2-3, ênfase adicionada).

Seu Atraso Olhando para os últimos 2000 anos, percebemos que Jesus não voltou tão cedo quanto os apóstolos esperavam. Mesmo nos dias deles, haviam os que estavam começando a achar que Jesus nunca voltaria, vendo o quanto já tinha passado desde Sua partida. Quando a vida terrena de Pedro chegava ao fim, por exemplo (veja 2 Pd. 1:13-14), Jesus ainda não havia voltado e então, Pedro se dirigiu aos que tinham pensamentos duvidosos em sua última carta: Antes de tudo saibam que, nos últimos dias, surgirão escarnecedores zombando e seguindo suas próprias paixões. Eles dirão: “O que houve com a promessa da sua vinda: Desde que os antepassados morreram, tudo continua como desde o princípio da criação”. Mas eles deliberadamente se esquecem de que há muito tempo, pela palavra de Deus, existem céus e terra, esta formada da água e pela água. E pela água o mundo daquele tempo foi submerso e destruído. Pela mesma palavra os céus e a terra que agora existem estão reservados para o fogo, guardados para o dia do juízo e para a destruição dos ímpios. Não se esqueçam disto, amados: para o Senhor um dia é como mil anos, e mil anos como um dia. O Senhor não demora em cumprir a sua promessa, como julgam alguns. Ao contrário, ele é paciente com vocês, não querendo que ninguém pereça, mas que todos cheguem ao arrependimento. O dia do Senhor, porém virá como ladrão. Os céus desaparecerão com um grande estrondo, os elementos serão desfeitos pelo calor, e a terra, e tudo o que nela há, será desnudada (2 Pd. 3:3-10). Pedro afirmou que a demora de Jesus foi por causa de Seu amor e misericórdia — Ele quer dar mais tempo para que as pessoas se arrependam. Mas também afirmou que não havia dúvida de que Ele voltaria. E quando voltar, virá com grande ira. Como veremos, as Escrituras deixam bem claro que a volta cheia de ira de Cristo será precedida de anos de tribulação mundial, como nunca antes houve, e o despejo da ira de Deus sobre os perversos. A maior parte do livro de Apocalipse fala sobre esse tempo futuro. Como veremos mais adiante em nosso estudo, as Escrituras indicam que haverá sete anos de tribulação futura. Não há dúvida de que o arrebatamento acontecerá durante ou perto desses sete anos.

Quando Exatamente Acontecerá o arrebatamento? A questão que muitas vezes divide cristãos é o tempo exato do arrebatamento. Alguns dizem que o arrebatamento acontecerá um pouco antes dos sete anos de tribulação e, portanto, pode acontecer a qualquer hora. Outros dizem que acontecerá exatamente no meio dos sete anos de tribulação; outros, que acontecerá algum tempo depois da metade dos sete anos; e ainda outros, que o arrebatamento acontecerá na volta de Cristo, no fim da tribulação. Com certeza, não vale a pena nos dividir por causa desse assunto, e todos os quatro lados devem lembrar que todos concordam que o arrebatamento acontecerá durante ou em um futuro bem próximo aos sete anos. Essa é um janela bem estreita entre milhares de anos de história. Então, ao invés de nos dividirmos por causa de nossos desentendimentos, vamos nos alegrar no que concordamos! Além do mais, o que cada um acredita não mudará o que irá acontecer. 235


Isso sendo dito, devo dizer-lhes que pelos primeiros vinte e cinco anos de minha vida cristã, acreditei que o arrebatamento aconteceria antes dos sete anos de tribulação. Cria nisso porque foi o que me ensinaram, e também não queria rever tudo o que tinha lido no livro de Apocalipse! Contudo, enquanto estudava as Escrituras sozinho, comecei a adotar uma visão diferente. Então, vamos dar uma olhada no que a Bíblia diz e ver que conclusões podem ser tiradas. Mesmo que eu não consiga te persuadir a se juntar ao meu lado, ainda devemos nos amar!

O Sermão do Monte Vamos começar considerando o 24o capítulo de Mateus, uma seção das Escrituras que é fundamental a respeito dos eventos do fim dos tempos e a volta de Jesus. Juntamente com o 25o capítulo, são conhecidos como o Sermão do Monte, porque esses dois capítulos são o registro de um sermão que Jesus deu a alguns de Seus discípulos mais íntimos[3] no Monte das Oliveiras. Enquanto lemos, vamos aprender sobre vários eventos do fim dos tempos, e considerar o que os discípulos de Jesus, a quem Ele endereçou Seu discurso, teriam concluído sobre o tempo do arrebatamento: Jesus saiu do templo e, enquanto caminhava, seus discípulos aproximaram-se dele para lhe mostrar as construções do templo. “Vocês estão vendo tudo isto?”, perguntou ele. “Eu lhes garanto que não ficará aqui pedra sobre pedra; serão todas derrubadas”. Tendo Jesus se assentado no monte das Oliveiras, os discípulos dirigiram-se a ele em particular e disseram: “Dize-nos, quando acontecerão essas coisas: E qual será o sinal da tua vinda e do fim dos tempos?” (Mt. 24:1-3). Os discípulos de Jesus queriam saber sobre o futuro. Queriam saber especificamente quando as construções do templo seriam destruídas (como Jesus tinha dito), e quais seriam os sinais da Sua volta e do fim dos tempos. Olhando em retrospectiva, sabemos que as construções do templo foram completamente destruídas em 70 d.C. pelo general Tito e o exército romano. Também sabemos que Jesus ainda não voltou para reunir a Igreja; portanto, dificilmente esse dois eventos são simultâneos.

Jesus Responde as Perguntas Deles Parece que Mateus não registrou a resposta de Jesus quanto à primeira pergunta sobre a futura destruição do templo, mas Lucas sim (veja Lc. 21:12-24). No evangelho de Mateus, Jesus começou a falar imediatamente sobre os sinais que precederiam Sua volta e o fim dos tempos: Jesus respondeu: “Cuidado, que ninguém os engane. Pois muitos virão em meu nome, dizendo: ‘Eu sou o Cristo!’ e enganarão a muitos. Vocês ouvirão falar de guerras e rumores de guerras, mas [vocês] não tenham medo. É necessário que tais coisas aconteçam, mas ainda não é o fim. Nação se levantará contra nação, e reino contra reino. Haverá fomes e terremotos em vários lugares. Tudo isso será o início das dores (Mt. 24:4-8, ênfase adicionada). Está claro desde o início desse sermão que Jesus acreditava que Seus discípulos, do primeiro século, poderiam estar vivos durante os eventos que levariam à Sua volta. Note quantas vezes ele se referiu aos discípulos com o pronome pessoal vocês. Jesus usou o pronome pessoal vocês pelo menos vinte vezes no capítulo 24, portanto, todos os Seus discípulos acreditaram que veriam as coisas que Jesus estava dizendo. Sabemos, é claro, que todos os discípulos que ouviram Jesus naquele dia, morreram há muito tempo. Contudo, não devemos concluir que Jesus os estava enganando, mas que Ele mesmo não sabia a hora exata de Sua volta (veja Mt. 24:36). Realmente, seria bem possível então, que aqueles que ouviram Seu discurso no Monte das Oliveiras estivessem vivos na Sua volta.

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A maior preocupação de Jesus era que Seus discípulos fossem enganados por falsos cristos, assim como muitos serão durante os últimos dias. Sabemos que o anticristo será um falso cristo, enganando a muitos. Eles o considerarão um maravilhoso salvador. Jesus disse que haverá guerras, fome e terremotos, mas indicou que esses eventos não são sinais de Sua volta, mas somente “o início das dores”. Seria seguro dizer que esses sinais têm acontecido pelos últimos dois mil anos. Contudo, depois disso, Jesus fala de algo que ainda não aconteceu.

Começa a Tribulação Mundial “Então eles os entregarão para serem perseguidos e condenados à morte, e vocês serão odiados por todas as nações por minha causa. Naquele tempo muitos ficarão escandalizados, trairão e odiarão uns aos outros, e numerosos falsos profetas surgirão e enganarão a muitos. Devido ao aumento da maldade, o amor de muitos esfriará, mas aquele que perseverar até o fim será salvo. E este evangelho do Reino será pregado em todo o mundo como testemunho a todas as nações, e então virá o fim” (Mt. 24:9-14, ênfase adicionada). Novamente, se você perguntasse aos que ouviram Jesus naquele dia: “Você acha que estará vivo para ver o cumprimento dessas coisas?”, com certeza, teriam respondido que sim. Jesus continuava usando o pronome pessoal vocês. Como acabamos de ler, depois das “dores” virá um evento que certamente ainda não aconteceu, um tempo como nenhum outro de perseguição mundial aos cristãos. Seremos odiados “por todas as nações” ou literalmente, por “todos os grupos étnicos e tribos”. Jesus estava falando de um tempo específico quando isso acontecerá, não um tempo genérico de mais de cem anos, pois Ele disse na próxima frase: “Naquele tempo muitos ficarão escandalizados, trairão e odiarão uns aos outros”. Obviamente, Sua afirmação é sobre a escandalizarão de cristãos que irão, então, odiar outros crentes, já que os ímpios não podem ficar “escandalizados”, e então odiar uns aos outros. Portanto, quando a perseguição mundial começar, o resultado será uma grande apostasia de muitos que se dizem seguidores de Cristo. Se são crentes genuínos ou falsos, ovelhas ou bodes, muitos ficarão escandalizados e, por sua vez, revelarão as verdadeiras identidades de outros crentes para as autoridades perseguidoras, odiando os que um dia disseram amar. O resultado será a purificação da Igreja por todo o mundo. Também haverá um levantamento de falsos profetas, um dos quais é mencionado no livro de Apocalipse como o cúmplice do anticristo (veja Ap. 13:11-18; 19:20; 20:10). O caos aumentará a ponto de esfriar o pouco amor que restará nos corações das pessoas, e os corações dos pecadores se tornarão completamente duros.

Mártires e Sobreviventes Mesmo que Jesus tenha profetizado que os crentes perderão suas vidas (veja 24:9) aparentemente nem todos irão, pois Ele prometeu que os que continuarem até o fim serão salvos (veja 24:13). Isto é, se não se permitirem serem enganados pelos falsos cristos ou profetas e resistirem à tentação de abandonarem a fé e desistir, serão salvos, ou resgatados por Cristo quando Ele voltar para reuni-los no céu. Esse futuro tempo de tribulação e resgate também foi revelado ao profeta Daniel, que ouviu: Naquela ocasião Miguel, o grande príncipe que protege o seu povo, se levantará. Haverá um tempo de angústia como nunca houve desde o início das nações até então. Mas naquela ocasião o seu povo, todo aquele cujo nome está escrito no livro, será liberto. Multidões que dormem no pó da terra acordarão: uns para a vida eterna, outros para a vergonha, para o desprezo eterno (Dn. 12:1-2). 237


A salvação ainda será graciosamente oferecida mesmo durante esse dias, já que Jesus prometeu que o evangelho seria proclamado a todas as nações (literalmente, “grupos étnicos e tribos”), dando um última oportunidade de arrependimento, e então, o fim viria.[4] É interessante que lemos no livro de Apocalipse o que pode ser o cumprimento da promessa de Jesus: Então vi outro anjo, que voava pelo céu e tinha na mão o evangelho eterno para proclamar aos que habitam na terra, a toda nação, tribo, língua e povo. Ele disse em alta voz: “Temam a Deus e glorifiquem-no, pois chegou a hora do seu juízo. Adorem aquele que fez os céus , a terra, o mar e as fontes das águas” (Ap. 14:6-7, ênfase adicionada). Alguns acham que a razão de um anjo proclamar o evangelho é porque até esse tempo da tribulação de sete anos, o arrebatamento terá acontecido e todos os crentes terão sido levados. Mas é claro que isso é especulação.

O Anticristo O profeta Daniel revelou que o anticristo se assentará no templo reconstruído em Jerusalém no meio dos sete anos de tribulação e se proclamará Deus (veja Dn. 9:27, que estudaremos mais tarde). É esse evento que Jesus tinha em mente quando continuou Seu discurso no Monte das Oliveiras: “Assim, quando vocês virem ‘o sacrilégio terrível’, do qual falou o profeta Daniel, no Lugar Santo — quem lê entenda — então, os que estiverem na Judéia fujam para os montes. Quem estiver no telhado de sua casa não desça para tirar dela coisa alguma. Quem estiver no campo não volte para pegar seu manto. Como serão terríveis aqueles dias para as grávidas e para as que estiverem amamentando! Orem para que a fuga de vocês não aconteça no inverno nem no sábado. Porque haverá então grande tribulação, como nunca houve desde o princípio do mundo até agora, nem jamais haverá.[5] Se aqueles dias não fossem abreviados, ninguém sobreviveria; mas, por causa dos eleitos, aqueles dias serão abreviados” (Mt. 24:15-22). Essa é uma elaboração mais específica a respeito da tribulação que Jesus tinha falado mais cedo (veja 24:9). Quando o anticristo declarar que é Deus do templo de Jerusalém, uma perseguição inimaginável começará contra os que creem em Jesus. Quando se declarar Deus, o anticristo irá esperar que todos reconheçam sua divindade; consequentemente, todos os verdadeiros seguidores de Cristo, imediatamente se tornarão inimigos oficiais do estado e serão caçados e mortos. É por isso que Jesus disse que os crentes na Judeia devem fugir para as montanhas sem demora, orando para que sua fuga não seja atrapalhada por motivo algum. Acho que seria uma boa ideia que todos os crentes ao redor do mundo fugissem para algum lugar remoto quando isso acontecer, já que provavelmente será coberto por equipes de televisão do mundo inteiro. As Escrituras nos dizem que todo o mundo será enganado pelo anticristo, pensarão que ele é o Cristo e serão fiéis a ele. Quando se declarar Deus, acreditarão nele e o adorarão; quando blasfemar contra o verdadeiro Deus — o Deus dos cristãos — influenciará os enganados a odiar todos os que se recusam a adorá-lo (veja Ap. 13:1-8). Jesus prometeu uma eventual libertação para Seu povo ao abreviar esses dias de tribulação; caso contrário “ninguém sobreviveria” (24:22). Sua abreviação desses dias “por causa dos eleitos” deve ser uma referência a libertação que trará quando aparecer e reuni-los no céu. Contudo, Jesus não nos diz aqui quanto tempo depois da declaração de divindade do anticristo, essa libertação acontecerá. De qualquer forma, notamos mais uma vez que Jesus deixou Seus ouvintes daquele dia com a impressão de que viveriam para ver o anticristo declarar sua divindade e travar guerra contra os cristãos. Isso vai contra ao que alguns afirmam: os crentes serão arrebatados antes desse evento. Se você tivesse perguntado a Pedro, Tiago ou João se Jesus voltaria para resgatá-los antes da declaração de divindade do anticristo, eles teriam respondido: “Aparentemente não”.

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Guerra Contra os Santos As Escrituras falam em outras passagens sobre a perseguição que o anticristo infligirá aos cristãos. Por exemplo, foi revelado a João, como ele registrou no livro de Apocalipse: À besta foi dada uma boca para falar palavras arrogantes e blasfemas, e lhe foi dada autoridade para agir durante quarenta e dois meses. Ela abriu a boca para blasfemar contra Deus e amaldiçoar o seu nome e o seu tabernáculo, os que habitam nos céus. Foi-lhe dado poder para guerrear contra os santos e vencê-los. Foi-lhe dada autoridade sobre toda tribo, povo, língua e nação (Ap. 13:5-7, ênfase adicionada). Note que o anticristo receberá “autoridade para agir” por quarenta e dois meses, ou seja, três anos e meio, exatamente a metade da tribulação. Parece lógico pensar que será nos últimos quarenta e dois meses de tribulação que o anticristo receberá “autoridade para agir”, já que sua autoridade será completamente tirada dele quando Cristo retornar para travar guerra contra ele e seus exércitos no fim da tribulação. Obviamente, sua “autoridade para agir” por quarenta e dois meses fala de uma autoridade especial, já que o anticristo receberá autoridade de Deus durante sua ascendência ao poder. Essa “autoridade para agir” especial pode ser uma referência ao tempo que ele receberá para dominar os santos, pois lemos no livro de Daniel: Enquanto eu observava, esse chifre [o anticristo] guerreava contra os santos e os derrotava, até que o ancião [Deus] veio e pronunciou a sentença a favor dos santos do Altíssimo; chegou a hora de eles tomarem posse do reino... Ele [o anticristo] falará contra o Altíssimo, oprimirá os seus santos e tentará mudar os tempos e as leis. Os santos serão entregues nas mãos dele por um tempo, tempos e meio tempo (Dn. 7:21-22, 25, ênfase adicionada). Daniel predisse que os santos serão entregues nas mãos do anticristo por “um tempo, tempos e meio tempo”. Essa frase enigmática deve ser interpretada como três anos e meio, de acordo com uma comparação em Apocalipse 12:6 e 14. Lemos em Apocalipse 12:6 que uma certa mulher simbólica receberá um lugar para se esconder no deserto para que a “sustentassem durante mil duzentos e sessenta dias”, que é três anos e meio (anos de 360 dias). Então, oito versículos adiante, ela é mencionada novamente, e a Bíblia diz que ela receberá um lugar para se esconder no deserto, onde será “sustentada durante um tempo, tempos e meio tempo”. Portanto, “tempo, tempos e meio tempo” é o equivalente a 1.260 dias, ou três anos e meio. Portanto, a palavra “tempo”, nesse contexto, significa ano, “tempos” significa dois anos e “meio tempo”, meio ano. Essa expressão incomum encontrada em Apocalipse 12:14 deve significar a mesma coisa que em Daniel 7:21. Então, sabemos que os santos serão entregues nas mãos do anticristo por três anos e meio, o mesmo tempo que lemos em Apocalipse 13:5 que o anticristo receberia “autoridade para agir”. Acho que não é preciso dizer que ambos os períodos de quarenta e dois meses terão duração idêntica. Se o início do segundo período, no meio dos sete anos de tribulação, começar na declaração de divindade do anticristo, então, os santos serão entregues nas suas mãos pelos próximos três anos e meio, e Jesus os libertará quando aparecer no céu e os reunir para Si no fim ou perto do fim dos sete anos de tribulação. Contudo, se esse período começar em algum outro momento da tribulação, podemos concluir que o arrebatamento acontecerá antes do fim dos sete anos de tribulação. O problema com a segunda possibilidade é que ela requer que os santos sejam entregues nas mãos do anticristo antes de correrem perigo e precisarem fugir para as montanhas na sua declaração de divindade. Isso parece ilógico. O problema com a primeira possibilidade é que parece significar que os santos ainda estarão na terra durante muitos dos julgamentos mundiais cataclísmicos sobre os quais lemos no livro de Apocalipse. Consideraremos esse problema mais tarde. Agora vamos voltar ao discurso no Monte das Oliveiras. 239


Falsos Messias Depois, Jesus falou aos Seus discípulos sobre a importância de não serem enganados por relatos de falsos cristos: “Se, então, alguém lhes disser *a vocês+: ‘Vejam, aqui está o Cristo!’ ou: ‘Ali está ele!’, não acreditem. Pois aparecerão falsos cristos e falsos profetas que realizarão grandes sinais e maravilhas para, se possível, enganar até os eleitos. Vejam que eu os avisei [a vocês] antecipadamente. Assim, se alguém lhes disser *a vocês+: ‘Ele está lá, no deserto!’, não saiam; ou: ‘Ali está ele, dentro da casa!’, não acreditem. Porque assim como o relâmpago sai do Oriente e se mostra no Ocidente, assim será a vinda do Filho do homem. Onde houver um cadáver, aí se ajuntarão os abutres (Mt. 24:23-28). Note mais uma vez quantas vezes Jesus se dirigiu aos discípulos. Seus ouvintes no Monte das Oliveiras teriam esperado viver para ver a ascensão de falsos cristos e falsos profetas que fariam grandes milagres. E teriam esperado ver Jesus voltar no céu como relâmpago. É claro que o perigo que virá durante esse tempo será muito grande, pois a perseguição contra os crentes será horrível e falsos cristos e profetas serão muito convincentes por causa de seus milagres. É por isso que Jesus avisou repetidas vezes aos Seus discípulos sobre o que aconteceria antes de Sua volta. Ele não queria que eles fossem enganados como muitos serão. Cristãos verdadeiros e firmes esperarão pela volta de Jesus no céu, como relâmpago, enquanto os que não são verdadeiros seguidores serão atraídos a falsos cristos como abutres são atraídos a carcaças no deserto.

Sinais no Céu Jesus continuou: “Imediatamente após a tribulação daqueles dias ‘o sol escurecerá, e a lua não dará a sua luz; as estrelas cairão do céu, e os poderes celestes serão abalados’. Então aparecerá no céu o sinal do Filho do homem, e todas as nações da terra se lamentarão e verão o Filho do homem vindo nas nuvens do céu com poder e grande glória. E ele enviará os seus anjos com grande som de trombeta, e estes reunirão os seus eleitos dos quatro ventos, de uma a outra extremidade dos céus” (Mt. 24:29-31). As imagens dessa seção do discurso de Jesus no Monte das Oliveiras eram conhecidas dos judeus de Seus dias, já que usou imagens de Isaías e Joel que falam do julgamento final de Deus e o fim do mundo, o que é muitas vezes chamado de “o dia do Senhor”, quando o sol e a lua escurecerão (veja Is. 13:10-11 e Jl. 2:31). Então, todos os habitantes da terra verão Jesus voltar no céu em Sua glória, e lamentarão. Então, os anjos de Jesus “reunirão os seus eleitos dos quatro ventos, de uma a outra extremidade dos céus”, indicando que os cristãos serão reunidos para se encontrarem com Jesus no ar, e pode acontecer ao “grande som de trombeta”. Novamente, se você tivesse perguntado a Pedro, Tiago ou João, nesse ponto do discurso no Monte das Oliveiras, se Jesus voltaria antes ou depois do anticristo e da grande tribulação, com certeza, teriam dito: “Depois”.

A Volta e o arrebatamento Essa seção do discurso no Monte das Oliveiras é bem parecido com um evento que Paulo descreveu, que é, sem dúvida, o arrebatamento da Igreja, mas um evento que muitos comentaristas dizem que acontecerá antes do período da tribulação começar. Considere a seguinte passagem que examinamos mais cedo nesse capítulo: Irmãos, não queremos que vocês sejam ignorantes quanto aos que dormem, para que não se entristeçam como os outros que não têm esperança. Se cremos que Jesus morreu e ressurgiu, cremos também que Deus trará, mediante Jesus e com ele, aqueles que nele dormiram. Dizemos a vocês, pela palavra do Senhor, que nós, os que estivermos vivos, os que ficarmos até a vinda do Senhor, 240


certamente não precederemos os que dormem. Pois, dada a ordem, com a voz do arcanjo e o ressoar da trombeta de Deus, o próprio Senhor descerá dos céus, e os mortos em Cristo ressuscitarão primeiro. Depois nós, os que estivermos vivos seremos arrebatados com eles nas nuvens, para o encontro com o Senhor nos ares. E assim estaremos com o Senhor para sempre. Consolem-se uns aos outros com essas palavras. Irmãos, quanto aos tempos e épocas, não precisamos escrever-lhes, pois vocês mesmos sabem perfeitamente que o dia do Senhor virá como ladrão à noite. Quando disserem: “Paz e segurança”, a destruição virá sobre eles de repente, como as dores de parto à mulher grávida; e de modo nenhum escaparão (1 Ts. 4:13 – 5:3, ênfase adicionada). Paulo escreveu sobre a vinda de Jesus do céu com a trombeta de Deus e sobre os cristãos sendo arrebatados “para o encontro com o Senhor nos ares”. Parece a mesma coisa que Jesus estava descrevendo em Mateus 24:30-31, o que obviamente acontecerá depois da ascensão do anticristo e da tribulação. Além do mais, Paulo, enquanto continuou escrevendo sobre a volta de Cristo, mencionou o assunto de quando aconteceria “o fim dos tempos” e lembrou seus leitores que eles já sabiam bem que “o dia do Senhor virá como ladrão à noite”. Paulo acreditava que o arrebatamento e a volta de Cristo aconteceriam no “dia do Senhor”, um dia no qual terrível ira e destruição cairiam sobre os que esperavam “paz e segurança”. Quando Cristo voltar para reunir Sua Igreja, Sua ira cairá sobre o mundo. Isso está em perfeita harmonia com o que Paulo escreveu em sua carta aos tessalonicenses a respeito da ira de Cristo na Sua volta: É justo da parte de Deus retribuir com tribulação aos que lhes causam tribulação, e dar alívio a vocês, que estão sendo atribulados, e a nós também. Isso acontecerá quando o Senhor Jesus for revelado lá dos céus, com os seus anjos poderosos, em meio a chamas flamejantes. Ele punirá os que não conhecem a Deus e os que não obedecem ao evangelho de nosso Senhor Jesus. Eles sofrerão a pena de destruição eterna, a separação da presença do Senhor e da majestade do seu poder. Isso acontecerá no dia em que ele vier para ser glorificado em seus santos e admirado em todos os que creram, inclusive vocês que creram em nosso testemunho (2 Ts. 1:6-10, ênfase adicionada). Paulo disse que quando Jesus voltasse para aliviar os cristãos tessalonicenses perseguidos (veja 2 Ts. 1:4-5), Ele apareceria “com os seus anjos poderosos, em meio a chamas flamejantes” para afligir aqueles que tinham afligido, dando retribuição justa. Isso dificilmente parece com a crença dos prétribulacionistas, quando a Igreja é supostamente reunida por Cristo antes que o período de sete anos de tribulação comece, e o que é normalmente chamado de uma secreta aparição de Jesus e uma quieta reunião da Igreja. Não, isso parece exatamente com o que Jesus descreveu em Mateus 24:30-31, Sua volta no fim ou perto do fim do período de tribulação, quando Ele reunirá os cristãos e derramará Sua ira sobre os ímpios.

O Dia do Senhor Mais adiante nessa mesma carta, Paulo escreveu: Irmãos, quanto à vinda de nosso Senhor Jesus Cristo e à nossa reunião com ele, rogamos a vocês que não se deixem abalar nem alarmar tão facilmente, quer por profecia, que por palavra, quer por carta supostamente vinda de nós, como se o dia do Senhor já tivesse chegado (2 Ts. 2:1-2, ênfase adicionada). Primeiramente, note que o assunto de Paulo era a volta de Cristo e o arrebatamento. Ele escreveu sobre a “nossa reunião com ele” usando palavras idênticas às de Jesus em Mateus 24:31, quando Ele falou sobre os anjos que “reunirão” os Seus eleitos “de uma a outra extremidade dos céus”. Em segundo lugar, note que Paulo igualou esses eventos ao “dia do Senhor”, assim como fez em 1 Tessalonicenses 4:13 – 5:2. Isso não pode ficar mais óbvio. Paulo continuou: Não deixem que ninguém os engane de modo algum. Antes daquele dia virá a apostasia e, então, será revelado o homem do pecado, o filho da perdição. Este se opõe e se exalta acima de tudo o 241


que se chama Deus ou é objeto de adoração, chegando até a assentar-se no santuário de Deus, proclamando que ele mesmo é Deus (2 Ts. 2:3-4, ênfase adicionada). De alguma forma, os cristãos tessalonicenses estavam sendo enganados, pensando que o dia do Senhor, que de acordo com Paulo deve começar com o arrebatamento e a volta de Cristo, já tinha começado. Mas Paulo deixou claro que Ele não pode vir antes da apostasia (talvez o grande escândalo do qual Jesus falou em Mateus 24:10) e antes do anticristo declarar sua divindade no templo de Jerusalém. Portanto, Paulo disse claramente aos cristãos tessalonicenses que eles não devem esperar a volta de Cristo, o arrebatamento ou o dia do Senhor antes da declaração de divindade do anticristo.[6] Em seguida, Paulo descreve a volta de Cristo e a destruição do anticristo: Não se lembram de que quando eu ainda estava com vocês costumava lhes falar essas coisas? E agora vocês sabem o que o está detendo, para que ele seja revelado no seu devido tempo. A verdade é que o mistério da iniquidade já está em ação, restando apenas que seja afastado aquele que agora o detém. Então será revelado o perverso, a quem o Senhor Jesus matará com o sopro de sua boca e destruirá pela manifestação de sua vinda. A vinda desse perverso é segundo a ação de Satanás, com todo o poder, com sinais e com maravilhas enganadoras. Ele fará uso de todas as formas de engano da injustiça para os que estão perecendo, porquanto rejeitaram o amor à verdade que os poderia salvar (2 Ts. 2:5-10). Paulo escreveu que o anticristo será “destruído pela manifestação da sua vinda”. Se essa “manifestação” é a mesma que Sua manifestação no arrebatamento, mencionada nove versículos mais cedo (veja 2:1), o anticristo será destruído no mesmo dia que a igreja for reunida para se encontrar com o Senhor nos ares. O registro de Apocalipse 19 e 20 apoia essa interpretação. Nesses capítulos, lemos sobre a volta de Cristo (veja Ap. 19:11-16), a destruição do anticristo e seus exércitos (veja 19:17-21), o aprisionamento de Satanás (veja 20:1-3) e a “primeira ressurreição” (veja 20:4-6), na qual os crentes que forem martirizados durante os sete anos de tribulação voltarão à vida. Se essa realmente for a primeira ressurreição no sentido de ser a primeira ressurreição geral dos santos, então, há menos dúvidas de que o arrebatamento e a volta de Cristo acontecerão na mesma hora em que a destruição do anticristo, já que as Escrituras deixam claro que os que morrerem em Cristo serão ressuscitados corporalmente no arrebatamento (veja 1 Ts. 4:15-17).[7]

Esteja Preparado Vamos voltar mais uma vez ao discurso no Monte das Oliveiras: “Aprendam a lição da figueira: quando seus ramos se renovam e suas folhas começam a brotar, vocês sabem que o verão está próximo. Assim também quando virem todas estas coisas, saibam que ele está próximo, às portas. Eu lhes asseguro que não passará esta geração até que todas estas coisas aconteçam.[8] Os céus e a terra passarão, mas as minhas palavras jamais passarão” (Mt. 24:32-35). Jesus não queria que Seus discípulos fossem pegos desprevenidos, esse era o ponto principal do discurso no Monte das Oliveiras. Eles saberiam que Ele estava “às portas” quando começassem a ver “todas estas coisas” — a tribulação mundial, a apostasia, o levantamento de muitos falsos profetas, a declaração de divindade do anticristo, e ainda mais perto do tempo de Sua volta, o escurecimento do sol e da lua, juntamente com a queda das estrelas. Contudo, logo após lhes dizer os sinais que precederiam a Sua volta por alguns anos, meses ou dias, Ele lhes disse que a hora exata de Sua volta permaneceria um mistério: “Quanto ao dia e à hora ninguém sabe, nem os anjos dos céus, nem o Filho, senão somente o Pai” (Mt. 24:36). Essa passagem é citada fora de contexto tantas vezes! É normalmente citada para sustentar o conceito de que não temos ideia de quando Jesus voltará, pois Ele pode voltar a qualquer hora e levar a Igreja. Contudo, dentro do contexto, não é isso que Jesus quis dizer. Ele tinha acabado de se esforçar para ter certeza de que Seus discípulos estariam preparados para Sua volta quando retornasse. Ele está simplesmente dizendo que o dia e a hora exata não seriam revelados a eles. Além do mais, é óbvio que 242


nessa passagem Jesus não estava se referindo ao Seu suposto primeiro retorno, antes do início dos sete anos de tribulação, quando a Igreja seria supostamente arrebatada em segredo, mas de Sua volta no fim ou perto do fim da tribulação. Se olhado honestamente no contexto, esse assunto não é debatível.

Sua Volta — Uma Completa Surpresa? Um argumento que é normalmente usado contra a ideia do arrebatamento acontecer perto ou no fim da tribulação é que tal retorno não seria uma surpresa como Jesus (supostamente) disse que seria, pois tal retorno poderia ser antecipado pelos eventos da tribulação. Eles dizem que deve haver um arrebatamento antes da tribulação, caso contrário, os crentes não precisariam ficar preparados e alertas como as Escrituras dizem que devem ficar, pois saberiam que ainda haveria sete anos ou mais antes da volta de Jesus. Contudo, contra essa objeção há o fato de que o objetivo do discurso de Jesus no Monte das Oliveiras era garantir que Seus discípulos estivessem prontos para Sua volta perto ou no fim da tribulação, por isso revelou a eles vários sinais que precederiam Sua volta. Por que o Sermão do Monte das Oliveiras tem tantas exortações para ficarmos preparados e alertas, apesar de Jesus saber que Seu retorno teria que acontecer pelo menos após sete anos do tempo em que falou que essas coisas aconteceriam originalmente? Aparentemente, Jesus acreditava que os cristãos precisavam estar preparados e alertas mesmo que Seu retorno ainda estivesse anos adiante. Os apóstolos que exortavam os crentes em suas cartas a ficarem preparados e prontos para a volta de Jesus estavam simplesmente O imitando. Além do mais, aqueles que acreditam que somente o arrebatamento antes da tribulação justifica qualquer exortação para ficarmos preparados têm outro problema. De acordo com eles, a primeira volta de Cristo precede a tribulação de sete anos. Então, o primeiro retorno de Cristo não pode acontecer a qualquer hora — deve acontecer exatamente sete anos antes do fim da tribulação. Na verdade, não há necessidade de esperarmos que Jesus volte até que os eventos mundiais estejam prontos para dar início aos sete anos de tribulação, eventos que podem ser antecipados e verificados. Se a maioria dos pré-tribulacionistas forem honestos dirão que sabem que Jesus não voltará hoje ou amanhã por causa da situação política no mundo. Ainda há eventos profetizados que devem ser cumpridos antes que os sete anos de tribulação possam começar. Por exemplo, no livro de Daniel, como veremos adiante, o anticristo fará uma aliança com Israel por sete anos, e isso marcará o início da tribulação. Portanto, se o arrebatamento acontecer sete anos antes do fim da tribulação, ele deve ocorrer quando o anticristo fizer sua aliança de sete anos com Israel. Até que algo no horizonte político faça o cenário possível, não há necessidade dos pré-tribulacionistas esperarem que Jesus volte. Além do mais, para os devotos do pré-tribulacionismo, que acreditam que Jesus também voltará no fim da tribulação, significa que o dia exato da suposta segunda volta de Jesus pode ser calculada. Uma vez que o arrebatamento aconteça, que Jesus disse que somente o Pai sabe, a data pode ser calculada pela simples soma de sete anos. Novamente, das coisas que Jesus realmente disse, Ele obviamente não queria que Sua volta fosse uma total surpresa. Aliás, Ele queria que ela fosse antecipada por certos eventos da tribulação. Dizendo simplesmente, Jesus não queria que Seus discípulos fossem pegos de surpresa, como o mundo. Ele continuou Seu discurso no Monte das Oliveiras: “Como foi nos dias de Noé, assim também será na vinda do Filho do homem. Pois nos dias anteriores ao Dilúvio, o povo vivia comendo e bebendo, casando-se e dando-se em casamento, até o dia em que Noé entrou na arca; e eles nada perceberam, até que veio o Dilúvio e os levou a todos. Assim acontecerá na vinda do Filho do homem. Dois homens estarão no campo: um será levado e o outro deixado. Duas mulheres estarão trabalhando num moinho: uma será levada e a outra deixada.[9] Portanto, vigiem, porque vocês não sabem em que dia virá o seu Senhor. Mas entendam isto: se o dono da casa soubesse a que hora da noite o ladrão viria, ele ficaria de guarda e não deixaria 243


que a sua casa fosse arrombada. Assim, vocês também precisam estar preparados, porque o Filho do homem virá numa hora em que vocês menos esperam” (Mt. 24:37:44). Novamente, a preocupação óbvia de Jesus era que Seus discípulos permanecessem preparados para a Sua volta. Aliás, esse era o motivo principal de tudo o que Ele disse antes e depois desse ponto no discurso no Monte das Oliveiras. Suas muitas exortações para que permanecessem preparados não era tanto uma indicação que Sua volta seria uma completa surpresa, mas uma indicação de quão difícil será permanecer pronto e alerta debaixo das adversidades do tempo. Portanto, os que estão esperando um arrebatamento antes da tribulação a qualquer hora, achando que estão mais prontos que outros cristãos, podem, na verdade, não estar preparados para o que possam vir a enfrentar. Se não esperam tribulação e se encontram no meio de uma perseguição mundial debaixo do reino do anticristo, a tentação de abandonar a fé pode dominá-los. É melhor ficarmos preparados para o que as Escrituras dizem que deve acontecer. E mais uma vez, se você perguntasse a Pedro, Tiago ou João quando esperavam ver a volta de Jesus, eles teriam lhe dito todos os sinais que Jesus lhes disse que aconteceriam antes de Sua volta. Eles não teriam esperado vê-Lo antes do período da tribulação ou da ascensão do anticristo.

Um Ladrão de Noite Note que até a analogia de Jesus do “ladrão de noite” está dentro do contexto em que Ele revela vários sinais para que Seus discípulos não sejam pegos de surpresa na Sua volta. Portanto, a analogia do “ladrão na noite” pode ser usada para provar que ninguém deve ter ideia alguma de quando Jesus voltará. Ambos Paulo e Pedro usaram a analogia de Jesus do “ladrão na noite” quando escreveram sobre “o dia do Senhor” (veja 1 Ts. 5:2-4; 2 Pd. 3:10). Eles acreditavam que a analogia tinha aplicação à volta cheia de ira de Jesus no fim ou perto do fim dos sete anos de tribulação. O que é interessante, é que Paulo disse aos seus leitores: “Mas vocês, irmãos, não estão nas trevas, para que esse dia os surpreenda como ladrão” (1 Ts. 5:4). Ele interpretou a analogia de Jesus corretamente, percebendo que os que estivessem alertas aos sinais e seguissem obedientemente a Jesus não estariam nas trevas; portanto, a volta de Cristo não os pegaria de surpresa. Para eles, Jesus não viria como um ladrão na noite. Somente os que estivessem nas trevas seriam surpreendidos; exatamente como Jesus ensinou. (Veja também o uso do conceito de Jesus de “ladrão na noite” em Apocalipse 3:3 e em 16:15, ao Se referir a Sua volta na batalha do Armagedom). Desse ponto em diante no discurso no Monte das Oliveiras, Jesus exortou repetidamente Seus discípulos a ficarem preparados para a Sua volta. Ao mesmo tempo, também lhes disse como poderiam ficar prontos, enquanto contava as parábolas do servo infiel, das dez virgens e dos talentos e então, predisse o julgamento das ovelhas e bodes (todas valem a pena ser lidas). Em quase todos os casos, os advertiu que o inferno esperava aqueles que não estivessem prontos para a Sua volta (veja Mt. 24:5051; 25:30, 41-46). A maneira de ficarmos prontos é sermos encontrados fazendo a vontade de Deus quando Ele retornar.[10]

Outra Objeção Alguns são contra a ideia do pós-tribulacionismo com a base bíblica de que os justos nunca são punidos com os injustos, o que é provado por exemplos como Noé, Ló e os israelitas no Egito. Realmente, temos bons motivos para crermos que os justos não sofrerão a ira de Deus durante a tribulação de sete anos, já que seria o equivalente a contradizer muitas promessas e precedentes bíblicos (veja, por exemplo, 1 Ts. 1:9-10; 5:8). Contudo, Jesus falou sobre a grande tribulação que os justos sofrerão durante esse tempo. Não será pelas mãos de Deus, mas pelas dos injustos. Os cristãos não são isentos de perseguições — Jesus prometeu que seriam perseguidos. Durante a tribulação de sete anos, muitos cristãos perderão suas 244


vidas (veja Mt. 24:9; Ap. 6:9-11; 13:15; 16:5-6; 17:6; 18:24; 19:2). Muitos serão decapitados (veja Ap. 20:4). Portanto, se todos os crentes de certa nação forem martirizados, nada poderá prevenir que a ira de Deus caia sobre todos naquela nação. E com certeza, se há crentes em certa nação, Deus é capaz de protegê-los de Seus julgamentos quando os mesmos caírem sobre os perversos. Durante Seus julgamentos no Egito no tempo de Moisés, Ele provou isso. Deus não deixou nem que um cachorro latisse contra os israelitas, enquanto julgamento após julgamento caía sobre os vizinhos egípcios (veja Ex. 11:7). Da mesma forma, lemos no livro de Apocalipse sobre os gafanhotos que serão libertos para picar e atormentar as pessoas da terra por cinco meses, mas não serão permitidos atormentar as 144.000 testemunhas que serão seladas com uma marca especial em suas testas (veja Ap. 9:1-11).

O Arrebatamento no Apocalipse Em nenhum lugar do livro de Apocalipse lemos sobre o arrebatamento da Igreja, ou de outra aparição de Cristo, a não ser a que é mencionada em Apocalipse 19, quando Ele virá para destruir o anticristo na batalha do Armagedom. Até aí, não é mencionado que o arrebatamento tenha acontecido. Contudo, a ressurreição dos mártires da tribulação é mencionada nesse mesmo período de tempo (veja 20:4). Como Paulo escreveu que os mortos em Cristo ressuscitarão na volta de Cristo, que é o mesmo momento em que a Igreja será arrebatada, isso (juntamente com outras passagens que já consideramos) nos leva a crer que o arrebatamento não acontecerá até o fim da tribulação de sete anos, descrito em Apocalipse 19 e 20. Mas existem outros pontos de vista. Alguns veem o arrebatamento em Apocalipse 6 e 7. Lemos em Apocalipse 6:12-13, sobre o sol se tornar “escuro como tecido de crina negra” e sobre as estrelas caírem do céu; dois sinais que Jesus disse que apareceriam logo antes da Sua manifestação e da reunião dos eleitos (veja Mt. 24:29-31). Então, um pouco mais adiante no capítulo 7, lemos sobre uma grande multidão no céu de todas as nações, tribos e línguas que “vieram da grande tribulação” (7:14). Eles não são mencionados como mártires como o outro grupo no capítulo anterior (veja 6:9-11), nos levando a especular que foram arrebatados ao invés de martirizados — crentes que foram resgatados da grande tribulação. Com certeza, é correto assumirmos que o arrebatamento acontecerá em algum tempo depois dos eventos cósmicos descritos em Apocalipse 6:12-13, simplesmente por Jesus ter dito algo semelhante em Mateus 24:29-31. Contudo, não recebemos indicação conclusiva sobre quando os eventos cósmicos de Apocalipse 6:12-13 acontecerão dentro da tribulação. Se os eventos descritos em Apocalipse 6:1-13 forem sequenciais e se o arrebatamento acontecer logo depois de 6:13, isso nos leva a crer que o arrebatamento não acontecerá até depois da manifestação do anticristo (veja 6:1-2), das guerras (veja 6:3-4), da fome (veja 6:5-6), da morte de um quarto da terra por meio de guerras, fome, pragas e animais selvagens (veja 6:7-8), e da morte de vários mártires (veja 6:9-11). Com certeza, todos esses eventos descritos podem acontecer antes do fim dos sete anos de tribulação, mas também podem descrever todo o período de sete anos, colocando o arrebatamento no fim. Dando suporte à ideia do arrebatamento acontecer antes do fim dos sete anos está o fato de que o Apocalipse descreve dois tipos de sete julgamentos depois de Apocalipse 8: o “julgamento das trombetas” e o “julgamento da taças”. É dito que o segundo julgamento completa a ira de Deus (veja 15:1). Contudo, antes dos julgamentos das taças começarem, João vê “em pé, junto ao mar, os que tinham vencido a besta, a sua imagem e o número do seu nome” (15:2). Esses santos vitoriosos podem ter sido arrebatados; por outro lado, podem ter sido martirizados. As Escrituras não nos esclarecem. Além do mais, não sabemos se Apocalipse 15:2 tem alguma ligação cronológica com as cenas descritas ao redor. Outro fato encontrado em Apocalipse que pode sustentar ideia do pré-tribulacionismo é esse: na ocasião do quinto “julgamento da trombeta” registrado em Apocalipse 9:1-12, lemos que os gafanhotos atormentadores só terão permissão para ferir os que “não tinham o selo de Deus na testa” 245


(9:4). Os únicos que sabemos que terão o selo são os 144.000 descendentes de Israel (veja Ap. 7:3-8). Portanto, parece que todos os outros crentes serão arrebatados antes do julgamento da quinta trombeta; caso contrário, não seriam isentos dos tormentos dos gafanhotos. Além do mais, já que os gafanhotos atormentarão as pessoas por cinco meses (9:5, 10), o arrebatamento deve acontecer pelo menos cinco meses antes do fim da tribulação. Existem, é claro, vários caminhos ao redor dessa lógica. Talvez, outros serão selados e simplesmente não são mencionados na sinopse condensada de Apocalipse. De qualquer forma, se isso prova que o arrebatamento acontecerá antes do quinto julgamento da trombeta, também indica que haverá um grupo de crentes que não será arrebatado antes dos gafanhotos serem soltos — os 144.000 descendentes de Israel especialmente selados. Mesmo assim, eles serão graciosamente protegidos de serem feridos pela ira de Deus quando ela se manifestar com os gafanhotos atormentadores. A conclusão disso tudo? Só posso concluir que o arrebatamento acontecerá perto do fim ou no fim da tribulação. Os cristãos não precisam ter medo de sofrer a ira de Deus, mas devem estar preparados para uma grande perseguição e um possível martírio.

O Período da Tribulação Vamos dar uma olhada mais de perto no que as Escrituras nos ensinam sobre a tribulação. Como chegamos à conclusão de que a tribulação terá sete anos? Devemos estudar o livro de Daniel, que, além do livro de Apocalipse, é provavelmente o livro mais revelador da Bíblia a respeito do fim dos tempos. No nono capítulo desse livro, lemos que Daniel é um cativo na Babilônia com seus companheiros judeus. Enquanto estudava o livro de Jeremias, Daniel descobriu que o tempo de cativeiro dos judeus na Babilônia seria de setenta anos (veja Dn. 9:2; Jr. 25:11-12). Percebendo que esse período estava quase completo, Daniel começou a orar, confessando os pecados de seu povo e pedindo misericórdia. Em resposta a sua oração, o anjo Gabriel apareceu e lhe revelou o futuro de Israel desde o tempo da tribulação até a volta de Cristo. A profecia contida em Daniel 9:24-27 é uma das mais maravilhosas das Escrituras. Eu a citei abaixo, juntamente com meus comentários em colchetes: Setenta semanas [obviamente, cada dia dessas semanas simboliza uma ano, como veremos, ou um total de 490 anos] estão decretadas para o seu povo [Israel] e sua santa cidade [Jerusalém] a fim de acabar com a transgressão [possivelmente o ato culminante dos pecados de Israel — a crucificação do seu próprio Messias], dar fim ao pecado, [uma provável referência à obra de redenção de Cristo na cruz] expiar as culpas [sem dúvida uma referência à obra de redenção de Jesus na cruz], trazer justiça eterna [o início do reinado terreno de Jesus em Seu Reino], cumprir a visão e a profecia [talvez, uma referência ao término da compilação das Escrituras ou ao cumprimento de todas as profecias prémilenares], e ungir o santíssimo [uma possível referência à construção do templo milenar]. Saiba e entenda que, a partir da promulgação do decreto que manda restaurar e reconstruir Jerusalém [esse decreto foi feito pelo rei Artaxerxes em 445 a.C.] até que o Ungido, o líder [o Senhor Jesus Cristo], venha, haverá sete semanas, e sessenta e duas semanas [um total de 69 semanas, ou seja, 483 anos]. Ela será reconstruída com ruas e muros, mas em tempos difíceis [essa é a reconstrução de Jerusalém, anteriormente destruída pelos babilônios]. Depois das sessenta e duas semanas [isto é, 483 anos depois do decreto de 445 a.C.], o Ungido será morto, e já não haverá lugar para ele [Jesus foi crucificado em 32 d.C., se calcularmos pelo calendário judaico de 360 dias por ano]. A cidade e o Lugar Santo serão destruídos [uma referência à destruição de Jerusalém em 70 d.C. por Tito e as legiões romanas] pelo povo [os romanos] do governante que virá [o anticristo]. O fim virá como uma inundação: guerras continuarão até o fim, e desolações foram decretadas. Com muitos [Israel] ele [o “governante que virá” — o anticristo] fará uma aliança que durará uma semana [ou sete anos — esse é o período da tribulação]. No meio da semana [depois de mais ou menos três anos e meio] ele dará fim ao sacrifício e à oferta. E numa ala do templo será colocado o sacrilégio terrível [quando o anticristo se 246


sentar no templo judaico em Jerusalém, declarando-se Deus; veja 2 Ts. 2:1-4], até que chegue sobre ele [a volta de Jesus] o fim que lhe está decretado [a derrota do anticristo por Jesus] (Dn. 9:24-27, ênfase adicionada).

490 Anos Especiais Desde o decreto de 445 a.C. do rei Artaxerxes para reconstruir Jerusalém, Deus decretou 490 anos especiais de história futura. Mas esses 490 anos não foram sequenciais; eles foram divididos em dois segmentos: um de 483 anos e outro de sete. Quando os primeiros 483 anos desse tempo determinado foram completados (no ano em que Jesus foi crucificado), o relógio parou. Provavelmente, Daniel nunca teria sonhado que o relógio pararia por, agora, quase 2.000 anos. Algum tempo no futuro, o relógio começará a correr novamente e continuará pelos últimos sete anos. Esse últimos sete anos são chamados, não só de “tribulação”, mas também de “a septuagésima semana de Daniel”. Esses sete anos são divididos em dois períodos de três anos e meio. Como lemos na profecia de Daniel, no meio desse período o anticristo quebrará sua aliança com Israel e “dará fim ao sacrifício e à oferta”. E então, como Paulo escreveu, ele se sentará no templo de Jerusalém e se declarará Deus.[11] Esse é o “sacrilégio terrível” ao qual Jesus se referiu (veja Mt. 24:21). É por isso que os crentes na Judeia devem fugir para “os montes” (Mt. 24:16), já que isso marca o início da pior tribulação que o mundo presenciará (veja Mt. 24:21). É possível que a “fuga judia” tenha sido vista simbolicamente por João em sua visão, registrada no décimo segundo capítulo do livro de Apocalipse. Se tiver, os judeus cristãos encontrarão um lugar especial de segurança preparado para eles no deserto, onde serão sustentados por exatamente três anos e meio, o restante do período dos sete anos de tribulação (veja Ap. 12:6, 13-17). João previu a raiva de Satanás com a fuga deles e a subsequente guerra que começaria com “os que obedecem aos mandamentos de Deus e se mantém fiéis ao testemunho de Jesus” (Ap. 12:17). É por isso que acho que seria uma boa ideia que todos os crentes ao redor do mundo fugissem para lugares remotos quando o anticristo declarar sua divindade em Jerusalém.

A Última Revelação de Daniel Uma das passagens interessantes de Daniel que ainda não consideramos é encontrada nos últimos treze versículos desse maravilhoso livro. São palavras ditas por um anjo a Daniel. Citei a passagem com meus comentários em colchetes: Naquela ocasião Miguel [o anjo], o grande príncipe que protege o seu povo, se levantará. Haverá um tempo de angústia como nunca houve desde o início das nações até então [essa seria a mesma angústia da qual Jesus falou em Mateus 24:21]. Mas naquela ocasião o seu povo, todo aquele cujo nome está escrito no livro, será liberto [essa pode ser uma referência à fuga dos judeus ou ao resgate dos cristãos no arrebatamento]. Multidões que dormem no pó da terra acordarão: uns para a vida eterna, outros para a vergonha, para o desprezo eterno [a ressurreição dos justos e dos perversos]. Aqueles que são sábios reluzirão como o fulgor do céu, e aqueles que conduzem muitos à justiça serão como as estrelas, para todo o sempre. [Depois da ressurreição, os justos receberão novos corpos que brilharão com a glória de Deus]. Mas você, Daniel, feche com um selo as palavras do livro até o tempo do fim. Muitos irão por todo lado em busca de maior conhecimento. [Os avanços extraordinários no transporte e conhecimento no último século parecem estar cumprindo essa profecia] Então eu, Daniel, olhei, e diante de mim estavam dois outros anjos, um na margem de cá do rio e outro na margem de lá. Um deles disse ao homem vestido de linho, que estava acima das águas do rio: “Quanto tempo decorrerá antes que se cumpram essa coisas extraordinárias?” O homem vestido de linho, que estava acima das águas do rio, ergueu para o céu a mão direita e a mão esquerda, e eu o 247


ouvi jurar por aquele que vive para sempre, dizendo: “Haverá um tempo, tempos e meio tempo *três anos e meio de acordo com a revelação decifrada de Apocalipse 12:6 e 12:14]. Quando o poder do povo santo for finalmente quebrado, todas essas coisas se cumprirão”. *Assim como Daniel 7:25 nos diz que os santos serão entregues nas mãos do anticristo por três anos e meio, aqui parece óbvio que esses são os três anos e meio finais dos sete anos de tribulação. O fim de todos os eventos falados pelo anjo será “quando o poder do povo santo for... quebrado”.+ Eu ouvi, mas não compreendi. Por isso perguntei: “Meu senhor, qual será o resultado disso tudo:” Ele respondeu: “Siga o seu caminho, Daniel, pois as palavras estão seladas e lacradas até o tempo do fim. Muitos serão purificados, alvejados e refinados [sem dúvida através da tribulação], mas os ímpios continuarão ímpios. Nenhum dos ímpios levará isto em consideração, mas os sábios sim. Depois de abolido o sacrifício diário e colocado o sacrilégio terrível, haverá mil e duzentos e noventa dias. [Esse tempo não deve ser interpretado como estando entre aqueles dois eventos, pois ambos acontecerão no meio dos sete anos. Ao invés disso devemos interpretar que algo muito significante acontecerá no fim, depois de 1.290 dias que ambos os eventos aconteçam. 1.290 dias são 30 dias a mais que três anos e meio (anos de 360 dias) um período que é repetidamente mencionado nas escrituras proféticas de Daniel e Apocalipse. O porquê desses 30 dias serem adicionados é uma questão de especulação]. Feliz aquele que esperar e alcançar o fim dos mil trezentos e trinta e cinco dias. [Então, agora temos mais quarenta e cinco dias de mistério]. Quanto a você, siga o seu caminho até o fim. Você descansará e, então, no final dos dias, você se levantará [a ressurreição prometida de Daniel+ para receber a herança que lhe cabe” (Dn. 12:1-13). Obviamente, algo muito maravilhoso acontecerá no fim dos 75 dias extras! Teremos que esperar para ver. Depois de lermos os capítulos finais de Apocalipse, percebemos que muitos eventos aparentemente, acontecerão logo após a volta de Cristo, uma delas sendo o banquete do casamento do Cordeiro, a respeito do qual um anjo disse a João: “Felizes os convidados para o banquete do casamento do Cordeiro” (Ap. 19:9). Talvez essa seja a mesma bênção à qual um anjo se referiu quando falava a Daniel. Se for isso, esse banquete glorioso acontecerá depois de dois meses e meio da volta de Jesus. Talvez esses setenta e cinco dias sejam preenchidos com outros eventos que, sabemos, acontecerão de acordo com o que está escrito nos capítulos finais de Apocalipse, como o lançamento do anticristo e do falso profeta no lago de fogo, o aprisionamento de Satanás e a preparação da administração do Reino mundial de Cristo (veja Ap. 19:20 – 20:4).

O Milênio O milênio é um termo que se refere ao tempo que Jesus reinará pessoalmente sobre toda a terra por um período de mil anos (veja Ap. 20:3, 5, 7), que acontecerá depois da tribulação. Há três mil anos Isaías previu o reinado governamental de Cristo sobre a terra: Porque um menino nos nasceu, um filho nos foi dado, e o governo está sobre os seus ombros. E ele será chamado... Príncipe da Paz. Ele estenderá o seu domínio, e haverá paz sem fim sobre o trono de Davi e sobre o seu reino, estabelecido e mantido com justiça e retidão, desde agora e para sempre. O zelo do Senhor dos Exércitos fará isso (Is. 9:6-7, ênfase adicionada). E da mesma forma, o anjo Gabriel anunciou a Maria que seu Filho reinaria sobre um reino sem fim: Mas o anjo lhe disse: “Não tenha medo, Maria; você foi agraciada por Deus! Você ficará grávida e dará à luz um filho, e lhe porá o nome de Jesus. Ele será grande e será chamado Filho do Altíssimo. O Senhor Deus lhe dará o trono de seu pai Davi, e ele reinará para sempre sobre o povo de Jacó; seu Reino jamais terá fim” (Lc. 1:30-33, ênfase adicionada).[12] Durante o milênio, Jesus reinará pessoalmente do Monte Sião em Jerusalém, que será elevado acima de sua atual posição. Seu reinado será de perfeita justiça a todas as nações, e haverá paz sobre toda a terra: 248


Nos últimos dias o monte do templo do Senhor será estabelecido como o principal; será elevado acima das colinas, e todas as nações correrão para ele. Virão muitos povos e dirão: “Venham, subamos ao monte do Senhor, ao templo do Deus de Jacó, para que ele nos ensine os seus caminhos, e assim andemos em suas veredas”. Pois a lei sairá de Sião, de Jerusalém virá a palavra do Senhor. Ele julgará entre as ações e resolverá contendas de muitos povos. Eles farão de suas espadas arados, e de suas lanças, foices. Uma nação não mais pegará em armas para atacar outra nação. Elas jamais tornarão a preparar-se para a guerra (Is. 2:2-4). Zacarias previu a mesma coisa: Assim diz o Senhor dos Exércitos: “Tenho muito ciúme de Sião; estou me consumindo de ciúmes por ela” Assim diz o Senhor: “Estou voltando para Sião e habitarei em Jerusalém. Então Jerusalém será chamada Cidade da Verdade, e o monte do Senhor dos Exércitos será chamado monte Sagrado”. Assim diz o Senhor dos Exércitos: “Povos e habitantes de muitas cidades ainda virão, e os habitantes de uma cidade irão a outra e dirão: ‘Vamos logo suplicar o favor do Senhor e buscar o Senhor dos Exércitos. Eu mesmo já estou indo’. E muitos povos e nações poderosas virão buscar o Senhor dos Exércitos em Jerusalém e suplicar o seu favor”. Assim diz o Senhor dos Exércitos: “Naqueles dias dez homens de todas as línguas e nações agarrarão firmemente a barra das vestes de um judeu e dirão: ‘Nós vamos com você porque ouvimos dizer que Deus está com o seu povo’” (Zc. 8:2-3, 20-23). A Bíblia ensina que os crentes reinarão com Cristo durante os mil anos. O nível de responsabilidade deles no Seu reino dependerá da sua fidelidade agora (veja Dn. 7:27; Lc. 19:12-27; 1 Co. 6:1-3; Ap. 2:26-27; 5:9-10 e 22:3-5). Teremos corpos ressurretos, mas aparentemente, haverá pessoas naturais vivendo em corpos mortais que povoarão a terra naqueles tempos. Além do mais, parece que a longevidade dos patriarcas será restaurada e os animais selvagens perderão a ferocidade: Por Jerusalém me regozijarei e em meu povo terei prazer; nunca mais se ouvirão nela voz de pranto e choro de tristeza. Nunca mais haverá nela uma criança que viva por poucos dias, e um idoso que não complete os seus anos de idade; quem morrer aos cem anos ainda será jovem, e quem não chegar aos cem, será maldito... O lobo e o cordeiro comerão juntos, e o leão comerá feno, como o boi, mas o pó será a comida da serpente. Ninguém fará nem mal nem destruição em todo o meu santo monte (Is. 65:19-20, 25; veja também Is. 11:6-9). Há muitas referências ao futuro milênio na Bíblia, especialmente no Velho Testamento. Para mais estudos, veja Is. 11:6-16; 25:1-12; 35:1-10; Jr. 23:1-5; Jl. 2:30-3:21; Am. 9:11-15; Mq. 4:1-7; Zc. 3:14-20; 14:9-21; e Ap. 20:1-6. Muitos dos salmos também se aplicam profeticamente ao milênio. Por exemplo, leia esta passagem do Salmo 48: Grande é o Senhor, e digno de todo louvor na cidade do nosso Deus. Seu santo monte, belo e majestoso, é a alegria de toda a terra. Como as alturas do Zafrom é o monte Sião, a cidade do grande Rei. Nas suas cidadelas Deus se revela como sua proteção. Vejam! Os reis somam forças, e juntos avançaram contra ela. Quando a viram, ficaram atônitos, fugiram aterrorizados. Ali mesmo o pavor os dominou; contorceram-se como a mulher no parto (Sl. 48:1-6, ênfase adicionada). Aparentemente, quando Jesus estabelecer Sua administração em Jerusalém, muitos dos governantes da terra que sobreviverem à tribulação ouvirão notícias sobre o reinado de Jesus e viajarão para ver por si mesmos. Ficarão tão chocados com o que verão![13] Para outros salmos referentes ao reino milenar de Cristo, veja Salmos 2:1-12; 24:1-10; 47:1-9; 66:1-7; 68:15-17; 99:1-9 e 100:1-5.

O Estado Eterno O fim do milênio marca o início do que a Bíblia chama de “Estado Eterno”, que começa com os novos céus e nova terra. Então, Jesus entregará tudo ao Pai, de acordo com 1 Coríntios 15:24-28: 249


Então virá o fim, quando ele [Jesus] entregar o Reino a Deus, o Pai, depois de ter destruído todo domínio, autoridade e poder. Pois é necessário que ele reine até que todos os seus inimigos sejam postos debaixo de seus pés. O último inimigo a ser destruído é a morte. Porque ele “tudo sujeitou debaixo de seus pés” *Sl. 8:6+. Ora, quando se diz que “tudo” lhe foi sujeito, fica claro que isso não inclui o próprio Deus, que tudo submeteu a Cristo. Quando, porém, tudo lhe [ao Pai] estiver sujeito, então o próprio Filho se sujeitará àquele que todas as coisas lhe sujeitou, a fim de que Deus seja tudo em todos. Satanás, que estava acorrentado durante os mil anos, será liberto no fim do milênio. Então, ele receberá os que, no interior, são rebeldes para com Jesus, mas que fingiram obediência a Ele (veja Sl. 66:3). Deus permitirá que Satanás os engane para que a verdadeira condição de seus corações seja revelada para que possam ser julgados corretamente. Por causa de sua decepção, eles se reunirão para atacar a cidade santa, Jerusalém, para derrubar o governo de Jesus. A batalha não durará muito, pois fogo virá do céu e consumirá os exércitos ao redor, e Satanás será lançado no lago de fogo e enxofre pela eternidade (veja Ap. 20:7-10). Essa reunião futura para a batalha foi prevista no Salmo 2: Por que se amotinam as nações e os povos tramam em vão? Os reis da terra tomam posição e os governantes conspiram unidos contra o Senhor e contra o seu ungido *Cristo+, e dizem: “Façamos em pedaços as suas correntes, lancemos de nós as suas algemas!” Do seu trono nos céus o Senhor põese a rir e caçoa deles. Em sua ira os repreende e em seu furor os aterroriza, dizendo: “Eu mesmo estabeleci o meu rei em Sião, no meu santo monte”. *Jesus fala agora+ Proclamarei o decreto do Senhor: Ele me disse: “Tu és meu filho; eu hoje te gerei. Pede-me, e te darei as nações como herança e os confins da terra como tua propriedade. Tu as quebrarás com vara de ferro e as despedaçarás como a um vaso de barro”. Por isso, ó reis sejam prudentes; aceitem a advertência, autoridades da terra. Adorem o Senhor com temor; exultem com tremor. Beijem o filho, para que ele não se ire e vocês não sejam destruídos de repente, pois num instante acende-se a sua ira. Como são felizes todos os que nele se refugiam!

Um Julgamento Final Precedendo o Estado Eterno, um julgamento final acontecerá. Todos os infiéis de todas as épocas terão seus corpos ressuscitados para irem diante do trono de Deus e serem julgados de acordo com as suas obras (veja Ap. 20:5, 11-15). Todos os que estão agora no Hades serão trazidos para o julgamento, chamado de “Grande Trono Branco de Julgamento”, e então serão lançados no Gehenna, o lago de fogo. A Bíblia chama isso de “segunda morte” (Ap. 20:14). O Estado Eterno começa com o fim do primeiro céu e da primeira terra, cumprindo a promessa de dois mil anos de Jesus: “Os céus e a terra passarão, mas as minhas palavras jamais passarão” (Mt. 24:35). Então, Deus criará novos céus e nova terra, assim como Pedro predisse em sua segunda epístola: O dia do Senhor, porém, virá como ladrão. Os céus desaparecerão com um grande estrondo, os elementos serão desfeitos pelo calor, e a terra, e tudo o que nela há, será desnudada. Visto que tudo será assim desfeito, que tipo de pessoas é necessário que vocês sejam? Vivam de maneira santa e piedosa, esperando o dia de Deus e apressando a sua vinda. Naquele dia os céus serão desfeitos pelo fogo, e os elementos se derreterão pelo calor. Todavia, de acordo com a sua promessa, esperamos novos céus e nova terra, onde habita a justiça. Portanto, amados, enquanto esperam estas coisas, empenhem-se para serem encontrados por ele em paz, imaculados e inculpáveis. (2 Pd. 3:10-14; veja também Is. 65:17-18). Finalmente, a Nova Jerusalém descerá do céu para a terra (veja Ap. 21:1-2). Nossas mentes mal podem começar a entender as glórias daquela cidade, que cobre uma área de aproximadamente 250


metade dos Estados Unidos (veja Ap. 21:16), ou nem maravilhas daquela época sem fim. Viveremos em uma sociedade perfeita para sempre, debaixo do governo de Deus, para a gloria de Jesus Cristo!

[1] Algumas outras passagens mostram a crença de Paulo de que Jesus possivelmente voltaria durante a vida de alguns de seus contemporâneos: Filipenses 3:20; 1 Tessalonicenses 3:13; 5:23; 2 Tessalonicenses 2:1-5; 1 Timóteo 6:14-15; Tito 2:11-13 e Hebreus 9:28. [2] Outras passagens que indicam a convicção de Pedro de que Jesus poderia voltar durante a vida de seus contemporâneos são: 2 Pedro 1:15-19; 3:3-15. [3] Marcos 13:3 menciona quatro nomes que estavam presentes: Pedro, Tiago, João e André. Incidentemente, também encontramos o Sermão do Monte registrado em Marcos 13:1-37 e Lucas 21:5-36. Lucas 17:22-37 também contém informações similares. [4] Muitas vezes, essa promessa é tirada do contexto, e é frequentemente dito que antes de Jesus voltar, devemos completar a tarefa de evangelismo mundial. Mas dentro do contexto, essa promessa fala da proclamação final do evangelho a todo o mundo logo antes do fim. [5] Se o arrebatamento da Igreja fosse ocorrer nesse exato momento da tribulação de sete anos, como alguns dizem, não haveria necessidade que Jesus instruísse os crentes a fugir para salvarem suas vidas, pois todos seriam arrebatados. [6] Isso invalida a teoria que as palavras de Jesus no discurso no Monte das Oliveiras só tinha aplicação aos judeus que se converterem durante a tribulação, pois todos os que renascerem antes da tribulação, já terão supostamente sido arrebatados. Não, Paulo disse aos cristãos gentios tessalonicenses que o arrebatamento e a volta de Cristo não aconteceria antes da declaração de divindade do anticristo, que acontece no meio dos sete anos de tribulação. [7] Alguns dizem que essa ressurreição mencionada em Apocalipse 20:4-6 é, na verdade, a segunda parte da primeira ressurreição, a ressurreição que acontecerá durante a primeira volta de Cristo no arrebatamento. Que garantia há para essa interpretação? Se a ressurreição de Apocalipse 20:4-6 é, na verdade, uma segunda ressurreição, por que não foi chamada de “segunda ressurreição”? [8] Mesmo que os que tenham ouvido a Jesus naquele dia possam ter pensado que a geração deles veria todas essas coisas acontecer, sabemos que não viram. Portanto, devemos interpretar as palavras de Jesus em Mateus 24:34 como significando que todas essas coisas acontecerão em uma geração, ou talvez que araça (como, às vezes, a palavra geração é traduzida) de cristãos (ou judeus) não passará até que todas essas coisas aconteçam. [9] Não faz muita diferença se a pessoa que está sofrendo julgamento nesses exemplos foi a levada ou a deixada, como é muitas vezes debatido. O importante é que alguns estarão prontos para a volta de Cristo e outros não. Sua prontidão determinará seu destino final. [10] Obviamente, para Jesus exortar Seus discípulos mais íntimos a permanecerem prontos para a Sua volta, é porque havia a possibilidade de não estarem prontos. Se Ele os advertiu sobre o castigo eterno por não estarem prontos por causa do pecado, então, é possível que eles perdessem a salvação por causa do pecado. Isso deve nos falar sobre a importância da santidade, e da tolice dos que dizem que é impossível que cristãos percam a salvação. [11] Isso nos indica, é claro, que o templo de Jerusalém deve ser reconstruído, já que não há templo em Jerusalém no momento (no ano de 2005 quando este livro está sendo escrito). [12] Essa passagem mostra que é fácil assumirmos algo erroneamente sobre o tempo dos eventos proféticos por interpretarmos mal o que as Escrituras realmente dizem. Maria poderia ter logicamente assumido que seu Filho especial reinaria no trono de Davi em algumas décadas. Gabriel disse que ela daria à luz um filho que reinaria sobre toda a casa de Jacó, fazendo parecer que o nascimento e reinado de Jesus seriam dois eventos ligados. Maria nunca teria imaginado que passariam pelo menos 2.000 anos entre eles. Também devemos ter cuidado ao assumirmos alguns pontos de vista enquanto tentamos interpretar passagens proféticas. 251


[13] Quando vejo outras passagens, parece que o milênio começará, não só com cristãos povoando a terra, mas com ímpios também (veja Is. 2:1-5; 60:1-5; Dn. 7:13-14).

Capítulo Trinta

Mitos Modernos Sobre Batalhas Espirituais: Parte 1 O assunto de batalha espiritual tem se tornado cada vez mais popular na igreja nos últimos anos. Infelizmente, muito do que está sendo ensinado contradiz o que as Escrituras dizem. Consequentemente, muitos ministros ao redor do mundo estão ensinando e praticando um tipo de batalha espiritual que a Bíblia nunca descreveu. Com certeza existem coisas como batalhas espirituais bíblicas, e é isso que o ministro discipulador deve praticar e ensinar. Nesse capítulo e no próximo me endereçarei a alguns dos mitos mais comuns a respeito de Satanás e batalhas espirituais. Trata-se apenas de um resumo de um livro inteiro que escrevi sobre esse assunto com o título de Modern Myths About Satan and Spiritual Warfare (Mitos Modernos Sobre Satanás e Guerras Espirituais)*. Esse livro pode ser lido por inteiro em inglês em nosso site: www.shepherdserve.org.

Mito No 1: “No passado da eternidade, Deus e Satanás estavam em uma grande batalha. Hoje, essa luta cósmica entre eles continua”. Esse mito em particular contradiz uma das verdades básicas mais bem fundadas sobre Deus que foi revelada nas Escrituras — que Ele é todo-poderoso, ou onipotente. Jesus disse que todas as coisas são possíveis com Deus (veja Mt. 19:26). Jeremias afirmou que nada é difícil demais para Ele (veja Jr. 32:17). Nenhuma pessoa ou força pode impedi-lo de cumprir os Seus planos (veja 2 Cr. 20:6; Jó 41:10; 42:2). Através de Jeremias, Deus pergunta: “Quem é como eu que possa... me resistir?” (Jr. 50:44). A resposta é ninguém, nem mesmo Satanás. Se Deus realmente é o todo-poderoso como as passagens mencionadas acima afirmam, então, dizer que Deus e Satanás estavam ou estão em uma batalha é implicar que Ele não é todo-poderoso. Se Deus tiver perdido um único round, tiver sido levemente superado por Satanás ou mesmo, teve que lutar por pouco tempo, então, Ele não é todo-poderoso como diz ser.

O Comentário de Cristo Sobre o Poder de Satanás Uma vez Jesus disse algo sobre a queda de Satanás do céu que nos ajudará a entender quanto poder Satanás tem em comparação ao nosso Deus onipotente: Os setenta e dois voltaram alegres e disseram: “Senhor, até os demônios se submeteram a nós, em teu nome”. Ele respondeu: “Eu vi Satanás caindo do céu como relâmpago” (Lc. 10:17-18). Quando o Deus todo-poderoso decretou a expulsão de Satanás do céu, Satanás não pôde resistir. Jesus escolheu a metáfora, como relâmpago, para enfatizar a velocidade em que Satanás caiu. Ele não caiu como melado, mas como relâmpago. Em um segundo Satanás estava no céu, no próximo — BOOM! — ele se foi! 252


Se Deus pode expulsar Satanás tão rápida e facilmente, não seria surpresa que Seus servos comissionados também pudessem expulsar demônios da mesma forma. Como os primeiros discípulos de Cristo, muitos cristãos hoje têm um grande respeito pelo poder dos demônios e ainda não entenderam que o poder de Deus é muito, muito, muito maior. Deus é o Criador e Satanás é só uma criação. Satanás não é páreo para Deus.

A Batalha que Nunca Aconteceu Por mais estranho que possa parecer para alguns de nós, precisamos entender que Deus e Satanás não estão, nunca estiveram e nunca estarão em uma batalha. Sim, eles têm objetivos divergentes, e podemos dizer que estão em oposição. Mas quando dois lados se opõe um ao outro e um é imensamente mais poderoso que o outro, seus conflitos não são considerados batalhas. Uma minhoca poderia lutar com um elefante? Satanás, como uma minhoca, fez uma pequena tentativa de se opor a Alguém imensamente mais poderoso. Sua oposição foi rapidamente resolvida, e ele foi expulso do céu “como relâmpago”. Não houve batalha — tudo o que houve foi uma expulsão. Se Deus é todo-poderoso, Satanás não tem a menor chance de prejudicar o que Deus quer fazer. E se Deus permitir que Satanás faça algo, é somente para alcançar Sua própria vontade divina. Essa verdade se tornará abundantemente clara enquanto continuamos a examinar as passagens sobre esse assunto. A autoridade suprema de Deus sobre Satanás não foi somente demonstrada no passado da eternidade, mas também, no futuro. Lemos em Apocalipse que um único anjo acorrentará Satanás e o prenderá por mil anos (veja Ap. 20:1-3). O incidente futuro não pode ser considerado uma batalha entre Deus e Satanás, assim como sua expulsão do céu também não pode. Note também que Satanás não terá o poder de fugir de sua prisão, e só será liberto no tempo de cumprir os propósitos de Deus (veja Ap. 20:7-9).

E Sobre a Futura “Guerra nos Céus”? Se for verdade que Deus e Satanás não estão, nunca estiveram e nunca estarão em uma batalha, por que lemos no livro de Apocalipse sobre uma futura guerra nos céus que envolve Satanás (veja Ap. 12:7-9)?Essa é uma boa pergunta e pode ser facilmente respondida. Note que essa guerra será entre Miguel e seus anjos contra Satanás e seus anjos. A Bíblia não diz que Deus estará envolvido na batalha. Se estivesse, o conflito dificilmente poderia ser chamado de guerra, porque Deus, sendo todo-poderoso, poderia facilmente esmagar qualquer oposição em um instante, como já provou. Anjos, incluindo Miguel, não são todo-poderosos e, portanto, seu conflito com Satanás e seus anjos pode ser chamado de guerra, porque realmente haverá conflito por certo tempo. Mesmo assim, sendo mais poderosos, superarão Satanás e seus demônios. Por que Deus não Se envolveria pessoalmente nessa batalha em particular, deixando-a a Seus anjos? Não tenho ideia. Certamente, Deus, sendo onisciente, sabia que Seus anjos poderiam ganhar a guerra, e talvez achou que não houvesse necessidade de Se envolver pessoalmente. Não tenho dúvida de que Deus poderia ter aniquilado fácil e rapidamente os canaanitas perversos nos dias de Josué, mas escolheu dar a tarefa aos israelitas. O que Deus poderia ter feito sem esforço e em segundos, Ele requereu que eles fizessem, aumentando grandes esforços por alguns meses. Talvez fosse mais agradável a Deus, já que exigia fé da parte dos israelitas. Talvez essa seja a razão dEle não se envolver pessoalmente naquela futura guerra no céu. Contudo, a Bíblia não nos diz. O fato de que haverá uma guerra no céu um dia entre Miguel com seus anjos e Satanás com seus anjos, não é motivo para pensarmos que Deus não é todo-poderoso — assim como as batalhas de Israel contra Canaã também não o são. 253


Satanás não foi Derrotado por Jesus na Cruz? Finalmente, a respeito desse primeiro mito sobre as batalhas entre Deus e Satanás, gostaria de concluir considerando uma frase muito usada: Jesus destruiu Satanás na cruz. As Escrituras nunca disseram que Jesus destruiu Satanás na cruz. Quando dizemos que Jesus destruiu Satanás, parece que Jesus e Satanás estavam em uma batalha, o que implica que Deus não é todo-poderoso e que Satanás já não estava debaixo da completa autoridade de Deus. Existem outras maneiras bíblicas de descrever o que aconteceu a Satanás quando Jesus entregou Sua vida no calvário. Por exemplo, as Escrituras nos dizem que através de Sua morte, Jesus derrotou “aquele que tem o poder da morte” (veja Hb. 2:14-15). Até que ponto Jesus tirou os poderes de Satanás? Obviamente, Satanás não está completamente sem poderes agora, caso contrário, o apóstolo João nunca teria escrito: “o mundo todo está sob o poder do Maligno” (1 Jo. 5:19, ênfase adicionada). De acordo com Hebreus 1:14-15, Satanás ficou sem poder a respeito do “poder da morte”. O que isso significa? As Escrituras falam sobre três tipos de morte: morte espiritual, física e segunda morte. Como aprendemos em um capítulo anterior, a segunda morte (ou morte eterna) é encontrada em Apocalipse 2:22; 20:6, 14 e 21:8, e é quando os ímpios serão lançados no lago de fogo. A morte física acontece quando o espírito de uma pessoa deixa o corpo, que então para de funcionar. A morte espiritual descreve a condição do espírito humano que não renasceu pelo Espírito Santo. Alguém espiritualmente morto está alienado de Deus, um espírito que possui uma natureza pecaminosa, isto é, até certo ponto, unida a Satanás. Efésios 2:1-3 nos dá uma imagem de alguém espiritualmente morto: Vocês estavam mortos em suas transgressões e pecados, nos quais costumavam viver, quando seguiam a presente ordem deste mundo e o príncipe do poder do ar, o espírito que agora está atuando nos que vivem na desobediência. Anteriormente, todos nós também vivíamos entre eles, satisfazendo as vontades da nossa carne, seguindo os seus desejos e pensamentos. Como os outros, éramos por natureza merecedores da ira. Paulo escreveu que os cristãos de Éfeso estavam mortos em suas transgressões e pecados. Obviamente, ele não estava se referindo à morte física, pois estava escrevendo a pessoas fisicamente vivas. Portanto, ele devia estar falando que estavam mortos, espiritualmente. O que os matou espiritualmente? Foram suas “transgressões e pecados”. Lembre-se de que Deus disse a Adão no dia em que pecou, que ele morreria (veja Gn. 2:17). Deus não estava falando da morte física, mas espiritual, porque Adão não morreu fisicamente no dia em que comeu o fruto proibido. Ele morreu espiritualmente naquele dia, e não morreu fisicamente até centenas de anos depois. Paulo continuou dizendo que os efésios, como espiritualmente mortos, tinham andado (ou praticado) naquelas transgressões e pecados, seguindo a “presente ordem deste mundo” (isto é, fazendo o que todos os outros faziam) e seguindo “o príncipe do poder do ar”. Quem é o “príncipe do poder do ar”? É Satanás, que reina seu domínio de trevas como comandante chefe sobre outros espíritos malignos que habitam na atmosfera. Esses espíritos malignos são listados em vários postos em um capítulo mais adiante de Efésios (veja Ef. 6:12). Paulo disse que o príncipe das trevas é um “espírito que agora está atuando nos que vivem na desobediência”. A expressão, “dos que vivem em desobediência”, é somente outra descrição para todos os ímpios, enfatizando que a natureza deles é pecaminosa. Mais tarde, Paulo disse que eles eram “por natureza merecedores da ira” (Ef. 2:3, ênfase adicionada). Adicionalmente, disse que Satanás estava trabalhando neles.

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O Diabo como Pai Percebendo ou não, os ímpios estão seguindo a Satanás e são seus servos no reino das trevas. Eles têm a sua natureza maligna e egoísta vivendo em seu corpos espiritualmente mortos. Na verdade, Satanás é o pai e senhor espiritual deles. É por isso que Jesus disse uma vez a alguns líderes religiosos incrédulos: “Vocês pertencem ao pai de vocês, o Diabo, e querem realizar o desejo dele” (Jo. 8:44). Essa é a imagem sombria da pessoa que ainda não renasceu! Ela está vivendo espiritualmente morta, cheia da natureza de Satanás, indo em direção a uma morte física inevitável que teme; e percebendo ou não, um dia experimentará a pior morte de todas, a morte eterna, quando será lançada no lago de fogo. É extremamente importante que entendamos que mortes espiritual, física e eterna são todas manifestações da ira de Deus na humanidade pecadora e que Satanás tem parte nisso. Deus permitiu que Satanás reinasse sobre as trevas e sobre todos os que “amaram as trevas” (Jo. 3:19). De fato, Deus disse a Satanás: “Você pode aprisionar através de seu poder aqueles que não são comprometidos Comigo”. Satanás se tornou um instrumento da ira de Deus sobre os humanos rebeldes. Porque todos pecaram, todos estão debaixo do poder de Satanás, cheios de sua natureza em seus espíritos e aprisionados para fazerem a sua vontade (veja 2 Tm. 2:26).

O Nosso Resgate do Cativeiro Contudo, podemos agradecer a Deus por sua misericórdia para com a humanidade; por causa dessa misericórdia, ninguém precisa continuar em sua condição miserável. E como a morte de Jesus satisfez as exigências da justiça divina, todos os que creem em Cristo podem escapar da morte espiritual e do cativeiro de Satanás, pois não estão mais debaixo da ira de Deus. Quando cremos no Senhor Jesus, o Espírito Santo entra em nossos espíritos e extingui a natureza de Satanás de lá, fazendo com que nossos espíritos renasçam (veja Jo. 1:1-16) e permitindo que tenhamos a natureza divina de Deus (veja 2 Pd. 1:4). Agora, de volta a nossa pergunta original. Quando o autor de Hebreus disse que Jesus, através de Sua morte, derrotou “aquele que tem o poder da morte, isto é, o Diabo”, ele quis dizer que o poder da morte espiritual, que Satanás exerce sobre todos os ímpios, foi quebrado de sobre aqueles que estão “em Cristo”. Estamos espiritualmente vivos por causa de Cristo, que pagou o preço por nossos pecados. Além do mais, por não estarmos mais espiritualmente mortos e debaixo do domínio de Satanás, não precisamos mais temer a morte física, já que sabemos o que nos aguarda — uma herança gloriosa e eterna. Finalmente, por causa de Jesus, fomos libertos e não sofreremos a segunda morte, sendo lançados no lago de fogo. Jesus destruiu o Diabo na cruz? Não, porque não houve batalha entre Jesus e Satanás. Contudo, Jesus deixou Satanás sem poderes sobre a morte espiritual, pela qual ele mantém os ímpios cativos no pecado. Satanás ainda tem poder de morte espiritual sobre eles, mas não tem poder sobre as que estão em Cristo.

Desarmando os Poderes Isso também nos ajuda a entender a afirmação de Paulo sobre Ele ter “despojado os poderes e as autoridades” encontrada em Colossenses 2:13-15: Quando vocês estavam [espiritualmente] mortos em pecados... Deus os vivificou com Cristo. Ele nos perdoou todas as transgressões, e cancelou a escrita de dívida, que consistia em ordenanças, e que 255


nos era contrária. Ele a removeu, pregando-a na cruz, e, tendo despojado os poderes e as autoridades, fez deles um espetáculo público, triunfando sobre eles na cruz (ênfase adicionada). Paulo usa uma linguagem metafórica óbvia nessa passagem. Na primeira parte, ele compara nossa culpa a uma “escrita de dívida”. O que não podíamos pagar, foi pago por Cristo, que assumiu nossas dívidas de pecado na cruz. Na segunda parte, assim como os antigos reis removiam as armas de seus conquistados e os faziam desfilar nas ruas da cidade, assim a morte de Cristo foi um triunfo sobre os “poderes e autoridades”, isto é, as classes mais baixas de demônios que reinam sobre os humanos rebeldes, mantendo-os cativos. Baseando-nos nessa passagem, não podíamos dizer que Cristo destruiu Satanás? Talvez, mas com algumas especificações. Devemos manter em mente que nessa passagem, Paulo estava escrevendo metaforicamente. Todas as metáforas tem um ponto em que as semelhanças se transformam em diferenças, como aprendemos no capítulo sobre interpretação bíblica. Devemos ter cuidado ao interpretar as metáforas de Paulo em Colossenses 2:13-15. Obviamente, não havia uma “escrita de dívida”, com todos os nossos pecados escritos nela, que foi pregada na cruz. Contudo, isso simboliza o que Jesus alcançou. Da mesma forma, os demônios que reinavam sobre a humanidade incrédula não foram literalmente desarmados de suas espadas e escudos e desfilaram publicamente nas ruas com Jesus. Éramos cativos desses espíritos malignos, mas ao morrer por nossos pecados, Jesus nos libertou do cativeiro. Jesus não lutou literalmente com aqueles espíritos malignos e eles não estavam em guerra com Ele. Eles, pela permissão justa de Deus, nos mantinham debaixo de seus poder por toda a nossa vida. Seus “poderes” estavam apontados para nós, não para Cristo. Contudo, Jesus os “despojou”. Eles não podem mais nos manter cativos. Não pensemos que havia uma briga antiga entre Jesus e os espíritos malignos de Satanás, e finalmente, Jesus venceu a batalha na cruz. Se formos dizer que Jesus destruiu o Diabo, tenhamos a certeza de que entendemos que Ele o destruiu por nós, e não por Si mesmo. Uma vez espantei um cachorrinho do meu quintal que estava aterrorizando minha filha pequena. Posso dizer que eu derrotei aquele cachorrinho, mas espero que entenda que o cachorro nunca foi uma ameaça para mim, somente para minha filha. Foi a mesma coisa com Jesus e Satanás. Jesus espantou um cachorro de nós que nunca O incomodou. Como Ele espantou aquele cachorro-Demônio? Ele o fez aguentando o castigo por nossos pecados, libertando-nos, assim, de nossa culpa diante de Deus e da ira de Deus; portanto, os espíritos malignos que Deus permite justamente que escravizem humanos rebeldes, não tinham mais direito de nos escravizar. Graças a Deus por isso! Isso nos leva a um lugar apropriado para examinarmos um segundo mito relacionado ao primeiro.

Mito No 2: “Existem constantes batalhas no reino espiritual entre os anjos de Deus e os de Satanás. O resultado dessas batalhas é determinado por nossas batalhas espirituais”. Já aprendemos no livro de Apocalipse que uma dia haverá uma guerra entre Miguel e seus anjos, e Satanás e seus anjos. Além disso, só há uma outra guerra angelical que as Escrituras mencionam, encontrada no décimo capítulo de Daniel. [1] Daniel nos diz que havia estado chorando por três semanas durante o terceiro ano do reinado de Ciro, rei da Pérsia, quando um anjo lhe apareceu junto ao rio Tigre. O objetivo da visita do anjo era de lhe dar entendimento a respeito do futuro de Israel, e já estudamos brevemente o que o anjo disse a Daniel em uma capítulo anterior sobre o arrebatamento e o fim dos tempos. Durante a conversa deles, o anjo sem nome disse a Daniel: 256


Não tenha medo, Daniel. Desde o primeiro dia em que você decidiu buscar entendimento e humilhar-se diante do seu Deus, suas palavras foram ouvidas, e eu vim em resposta a elas. Mas o príncipe do reino da Pérsia me resistiu durante vinte e um dias. Então Miguel, um dos príncipes supremos, veio em minha ajuda, pois eu fui impedido de continuar ali com os reis da Pérsia (Dn. 10:1213, ênfase adicionada). Daniel entendeu que suas orações foram ouvidas três semanas antes de seu encontro com esse anjo, mas que o anjo levou três semanas para chegar. A razão do atraso foi que “o príncipe do reino da Pérsia” lhe resistiu. Contudo, ele pôde sair quando Miguel, “um dos príncipes supremos”, veio em sua ajuda. Quando o anjo estava para deixar Daniel, ele lhe disse: Tenho que voltar para lutar contra o príncipe da Pérsia e, logo que eu for, chegará o príncipe da Grécia; mas antes lhe revelarei o que está escrito no Livro da Verdade. E nessa luta ninguém me ajuda contra eles, senão Miguel, o príncipe de vocês (Dn. 10:20-21). Podemos aprender alguns fatos interessantes dessa passagem das Escrituras. Novamente, vemos que os anjos de Deus não são todo-poderosos, e que podem estar envolvidos em lutas contra anjos perversos. Segundo, aprendemos que alguns anjos (tais como Miguel) são mais poderosos que outros (como o que falou com Daniel).

Questões Para as Quais não Temos Respostas Podemos perguntar: “Por que Deus não mandou Miguel com a mensagem para Daniel para que não houvesse um atraso de três semanas?” O fato é que a Bíblia não nos diz porque Deus mandou um anjo que Ele sabia, sem dúvida, que não passaria pelo “príncipe da Pérsia” sem a ajuda de Miguel. Aliás, não temos ideia do porquê Deus usaria qualquer anjo para entregar uma mensagem a alguém! Por que Ele não foi pessoalmente, falou audivelmente a Daniel, ou o levou temporariamente ao céu para lhe dizer? Simplesmente não sabemos. Mas essa passagem prova que há constantes batalhas nos reinos espirituais entre os anjos de Deus e os de Satanás? Não; só prova que há milhares de anos houve uma batalha de três semanas entre um dos anjos mais fracos de Deus e um dos anjos de Satanás chamado de “príncipe da Pérsia”, uma batalha que, se Deus desejasse, poderia nunca ter acontecido. A única outra batalha mencionada em toda a Bíblia é a futura guerra no céu, registrada no livro de Apocalipse; e só. Podem ter havido outras batalhas angelicais, mas seria suposição nossa concluir isso.

Um Mito Baseado em Outro Mito A história de Daniel e o príncipe da Pérsia prova que nossas batalhas espirituais podem determinar o resultado das batalhas angelicais? Novamente, essa ideia assume (baseada em algumas passagens) que há batalhas angelicais regulares. Mas, vamos dar um pulo no escuro e dizer que sim, há batalhas angelicais regulares. Essa história de Daniel prova que nossas batalhas espirituais podem determinar o fim das batalhas espirituais que talvez ocorram? A pergunta é normalmente feita pelos que divulgam esse mito em particular: “E se Daniel tivesse desistido depois de um dia?” A resposta para essa pergunta, é claro, é que ninguém sabe, porque o fato é que Daniel não parou de buscar a Deus em oração até que um anjo sem nome chegou. Contudo, a implicação em fazer a pergunta é nos convencer de que Daniel, através de batalha espiritual contínua, foi a chave para o avanço dos anjos nos lugares celestiais. Se Daniel parasse de lutar espiritualmente, o anjo, supostamente, nunca teria passado pelo príncipe da Pérsia. Eles querem que acreditemos que, como Daniel, devemos continuar lutando espiritualmente, caso contrário um anjo maligno pode triunfar sobre um dos anjos de Deus. 257


Deixe-me primeiramente mencionar que Daniel não estava “em luta espiritual” — estava orando a Deus. Não há menção dele dizendo algo a anjos demoníacos, os repreendendo ou “guerreando” contra eles. Na verdade, Daniel não tinha ideia de que havia um batalha angelical até que três semanas se passaram e o anjo sem nome lhe apareceu. Ele passou aquelas três semanas jejuando e buscando a Deus. Então, vamos refazer a pergunta: Se Daniel tivesse parado de orar e buscar a Deus depois de um ou dois dias, o anjo sem nome teria fracassado em lhe entregar a mensagem de Deus? Não sabemos. Contudo, permita-me mencionar que o anjo sem nome nunca disse a Daniel: “Que bom que você continuou orando, caso contrário, nunca teria conseguido”. Não, o anjo deu crédito a Miguel por seu progresso. Obviamente, foi Deus quem mandou o anjo sem nome e Miguel, e os mandou em resposta à oração de Daniel para que entendesse o que iria acontecer em Israel no futuro. Seria uma suposição achar que se Daniel tivesse parado de jejuar ou buscar a Deus, Ele teria dito: “Bem, Daniel parou de jejuar e orar; portanto, apesar de Eu ter enviado um de vocês para lhe levar uma mensagem no dia em que começou a orar, parece que nunca haverá um décimo primeiro ou décimo segundo capítulo no livro de Daniel”. Obviamente, Daniel perseverou em oração (não “batalha espiritual”), e Deus respondeu lhe enviando anjos. Nós também devemos perseverar em oração a Deus, e, se Ele assim desejar, nossa resposta pode vir por meio de um anjo. Mas não se esqueça que há vários exemplos de anjos entregando importantes mensagens a pessoas bíblicas sem menção de que alguém estivesse fazendo uma oração, muito menos orando por três semanas. [2] Devemos continuar balanceados. Além do mais, há muitas referências sobre anjos que entregaram mensagens a pessoas bíblicas sem mencionar que tiveram que lutar com demônios no caminho