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COMPETITIVIDADE E A INDÚSTRIA BRASILEIRA POR QUE O BRASIL NÃO É COMPETITIVO ?

ANTONIO DIDIER VIANNA editora di g i ta l

JAGUA TIRICA


ANTONIO DIDIER VIANNA

COMPETITIVIDADE E A INDÚSTRIA BRASILEIRA POR QUE O BRASIL NÃO É COMPETITIVO ?

editora di g i ta l

JAGUA TIRICA 2013


Copyright © 2013 Editora Jaguatirica Digital Todos os direitos reservados e protegidos pela Lei 9.610 de 19/02/1998. É proibida a reprodução desta obra, mesmo parcial, por qualquer processo, sem prévia autorização, por escrito, do autor e da Editora. Edição: Paula Cajaty Diagramação e capa: M.F. Machado Lopes

Dados internacionais de Catalogação-na-Publicação (CIP) Vi598 Vianna, Antonio Didier. Competitividade e a indústria brasileira : por que o Brasil não é competitivo? / Antonio Didier Vianna. — 1. Ed. – Rio de Janeiro : Jaguatirica Digital, 2013. 320p. ; 14x21cm.

ISBN 978-85-66605-02-0 (e-book)

1. Produtividade industrial - Brasil. 2. Economia - Brasil. I. Título. CDD 338.06

Bibliotecária Responsável: Amanda Araujo de Souza Carvalho CRB 7/6351

Editora Jaguatirica Digital Edifício Galeria Sul América Rua da Quitanda, 86, 2o andar - Centro Rio de Janeiro - RJ - CEP 20.091-902 Tel.(21) 3942-0222 | (21) 3185-5132 E-mail: jaguatiricadigital@gmail.com site: www.jaguatiricadigital.com


Agradeço ao povo brasileiro por ter, mesmo sem saber, fornecido os recursos para o desenvolvimento de minha cultura e experiência na vida, o que possibilitou escrever esse livro. Antônio Didier Vianna


“Enquanto houver um só homem sem emprego, sem-teto, sem alimento e sem letras, toda prosperidade será falsa.” Do Presidente Tancredo Neves eleito, na sua posse.


Competitividade e a Indústria Brasileira

INTRODUÇÃO A ideia de colocar informações importantes num livro com amplo acesso à sociedade brasileira visa primordialmente contornar o bloqueio da mídia a qualquer crítica que seja censurada pelo marketing do Governo. Quando o dinheiro público entra pela porta dos jornais, a independência crítica é expulsa pela janela. É assim que está funcionando o nosso mercado da informação hoje. E querem também controlar a internet. Antes que isso aconteça, este livro deve estar lá disponível. O conteúdo desse livro registra análises e pensamentos pessoais sobre tópicos da administração desse país, principalmente focalizando aspectos educacionais, científicos, industriais, empresariais e legislativos resultantes da experiência vivida e ativa durante os últimos 60 anos. Retrata as diversas fases da formação acadêmica porque contém experiências e observações que podem ser úteis ao sistema educacional brasileiro e certamente dão uma ideia do perfil das atividades do autor. Essa formação acadêmica nada teve de convencional: de parte do autor, apenas a inscrição e classificação em dois concursos. O restante aconteceu. Em capítulos seguintes foram explicitadas a atuação e experiências industriais em setores chaves de nossa economia de modo que o leitor possa ter uma ideia real do que é possível realizar no país e parar de dar atenção aos economistas palpiteiros ou aos produtores de opiniões contratadas e pagas que procuram transferir para a indústria os desacertos governamentais. Colocam na imprensa que o país não tem tecnologia, por isso não inova e não é competitivo. 9


Antonio Didier Vianna

Quem escreve e publica isso não sabe o que é tecnologia e inovação, nunca pisou num chão de fábrica e também nunca operou industrialmente nada. Puro palpite tentando se autopromover, o que é possível num meio de medíocres. Se o Brasil não dispunha de tecnologia, como conseguiu construir um reator nuclear com 93% de nacionalização para uma vida útil de 40 anos quando o padrão nuclear da época era de 20 anos, está em funcionamento há quase 50 anos e foi construído num padrão de qualidade inexistente no mundo na época, em muitas vezes superior às normas militares americanas reconhecidas no mundo? Se não tem tecnologia, como sua indústria de petróleo conseguiu em 30 anos substituir por nacionais 92% dos equipamentos importados pela Petrobras disputados em concorrência pública? Agora inventaram que não se encontra no Brasil mão de obra qualificada para os cargos nas empresas em formação. Empresa que conhece o mercado brasileiro e aqui opera sabe que a cultura do nosso operariado é precária e a solução é prepará-los para execução das tarefas. Sempre foi assim. Já viram a Vale, a Petrobras, a CBV ou a Embraer reclamar dessa falta? Esse problema também não foi mencionado nas experiências industriais das minhas firmas embora trabalhássemos com muitas tecnologias de ponta no mundo. Deve ter algum “novo” empresário querendo que o Governo prepare os seus operários para ele não ter de gastar tempo e dinheiro próprio nessa preparação. Deve ser empresário com pouco conhecimento técnico, pois com a diversidade e os avanços das tecnologias hoje para solução de problemas, certamente exigirá treinamento específico sobre o que vai executar, e sem ele, não conseguirá realizar quase nada. É uma pena que incompetentes do Governo deem ouvidos a esses incompetentes industriais e aos seus arautos. Este livro detalha as razões porque o Brasil está deixando de ser competitivo, embora muitos setores ainda sejam excepcionais. 10


Competitividade e a Indústria Brasileira

Essa obra é dedicada ao povo brasileiro. Procura ajudálo para que fique conhecendo decisões governamentais econômicas e administrativas, algumas tomadas há muito tempo, que hoje prejudicam o país e precisam ser revogadas, alteradas ou atualizadas. A ideia é suprir o povo com informações que possam ajudar a corrigi-las. O país está passando por um tempo de turbulências financeiras generalizadas, algumas com origens difíceis de diagnosticar, pois são consequências de decisões, algumas poucas, tomadas há várias décadas. Esse livro analisa e identifica as causas e procura informar: a pessoa informada trabalha melhor. A participação ativa na vida nesse país desde a guerra de 1940 até os dias de hoje permitiu ao autor registrar decisões que interferem na economia, e que estão começando a desestabilizá-la. Essa economia atual precisará de correções que, para serem efetivas, precisam regredir às origens. O povo custeou cinco anos de estudos do escritor nos Estados Unidos da América. Ao concluir o doutorado, os norte-americanos queriam que lá ficasse trabalhando. A proposta foi declinada de pronto, pois o autor tinha ciência de seus compromissos com o povo brasileiro: era trabalhando aqui, procurando ajudar esse povo, que conseguiria pagar essa imensa dívida de gratidão que carrega na alma permanentemente. Esse livro é talvez a última ajuda que possa transferir a esse povo e a última parcela do pagamento da dívida. A decisão de publicar um livro foi motivada porque a mídia escrita no Brasil está subordinada ao marketing do Governo, que bloqueia todas as matérias que não lhe agradam. E, sem informações corretas, a administração fica errática. Esse livro foi o meio encontrado para levar informações ao conhecimento da sociedade, do Governo e a esse povo, pois a economia está começando a desestabilizar e pode ser tarde até que se perceba a origem das dificuldades. 11


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Há pronunciamentos recentes de economistas deste país com análises conflitantes da economia. É de se pensar se alguns desses pronunciamentos não fazem parte da encomenda do marketing de proteção do Governo para confundir a sociedade: manter tudo como está pregando que a culpa é sempre dos outros, como a crise externa, a falta de investimentos da sociedade, a baixa produtividade da indústria, o tsunami financeiro, a falta de inovação, a legislação trabalhista arcaica, a falta de tecnologia etc. Acontece na realidade que a culpa é totalmente do Governo e jogar a culpa para os outros nunca resolveu qualquer dificuldade. O comando da Execução de Governo está com o Poder Executivo. O problema está numa evolução que projeta dificuldades sérias e estas afetarão a todos muito breve. Vários países da Europa estão sofrendo hoje a falta de competência e austeridade dos seus Governos durante anos e o povo desses países está tendo de pagar agora os gastos excessivos autorizados por seus políticos, tão medíocres como os nossos. Quem faz o país crescer e se desenvolver é o povo. No Governo não há qualquer geração de riqueza. Quem produz é o povo, daí resultando mais riqueza que, reinvestida, acelera o desenvolvimento. Políticas corretas são aquelas que facilitam o trabalho do povo com isso ajudando-o a produzir mais enquanto o protege das investidas aéticas dos mercados concorrentes. Políticas e programas visando promover os Governos somente aumentam seus custos, que levam ao aumento dos impostos, e que por sua vez reduzem o poder de investimento da sociedade. No Brasil os setores científicos funcionam para si mesmos, sem qualquer retorno para o país do investimento feito pelo povo. Se tais setores dessem uma contribuição mais efetiva ao país, o ajudariam a desenvolver-se mais rapidamente. O Governo ainda vê a indústria como no tempo do Brasil Colônia, isto é, extrair dela tudo que for possível transferir 12


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ao Governo. Essa política fazia sentido para os portugueses que não queriam desenvolvimento industrial aqui no Brasil, e sim em Portugal. O que é inconcebível é que as Fazendas, Federal e Estadual, até hoje mantenham essa mesma diretiva: escorchar o industrial ou o negociante e atuar policialmente sobre eles, esquecendo que são a sua fonte de riqueza e de crescimento. Nos países avançados, a indústria e o comércio são considerados sócios dos Governos, assim são tratados e a legislação é direcionada para ajudar o seu desenvolvimento. Como cada pessoa tem livre arbítrio e cérebro próprio, ao lerem o livro, espero que comentem, critiquem, sugiram alternativas e se possível as publiquem, pois contribuirão muito para a cultura da sociedade brasileira que, de uma forma ou de outra, vai acabar resolvendo os problemas do desenvolvimento do país.

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PARTE I


Competitividade e a Indústria Brasileira

FORMAÇÃO CIENTÍFICA, TECNOLÓGICA E INDUSTRIAL Quando garoto, estive dois anos na escola primária onde mal aprendi a ler e a escrever. A família mudou-se para a praia da Freguesia, na Ilha do Governador e minha mãe matriculou os três filhos mais velhos na escola da Dona Pitizinha, bem em frente à praia. D. Pitizinha coordenava todas as atividades e dividiu todas as turmas em dois partidos – Portugal e Brasil. Tudo era competição e somava pontos. No fim de cada semana ela anunciava como estava o placar. Lembro-me da tabuada. Ao final do recreio uma professora levantava o braço e mandava toda a turma ficar em fila. Começava a fazer a pergunta da tabuada ao primeiro da fila, se não respondesse logo, passava para o seguinte e assim por diante. Quem acertasse passava para o lugar onde ela perguntou. Depois de dois meses, ninguém passava na frente por que ninguém errava mais e o processo foi suspenso. Mas todos nós sabíamos a tabuada na ponta da língua e eu nunca mais perdi essa aptidão. Depois desse único ano de escolaridade real, meus pais se mudaram para o bairro de Botafogo e fui matriculado no Colégio Rezende, na Rua Bambina. Depois de um exame que fizeram, fui posicionado no 5º ano primário, isto é, o ano que se preparava o aluno para o “exame de admissão” ao curso secundário, na época chamado ginasial. No final desse ano, fui impedido pelo Inspetor Federal de Educação de prestar 15


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o exame de admissão por ter somente nove anos, apesar dos protestos da professora. No ano seguinte, minha mãe matriculou todos os meus três irmãos mais velhos no Colégio Santo Inácio. Tive de cursar novamente o admissão. Essa situação foi péssima para mim. Como não tinha dificuldades com o que estava sendo lecionado, fiquei relaxado nos estudos, tanto que um professor sugeriu ao Reitor que eu fizesse o curso de férias, pois certamente não passaria nos exames de admissão. Minha mãe foi chamada ao colégio e perguntou-me se o que diziam era real. Respondi que não e que estava pronto para fazer o exame. Fiz e fui matriculado no 1º ano ginasial. Padeci no primeiro semestre. Havia perdido o hábito de estudar e isso se fez necessário pois as matérias eram todas novas. Depois do meio do ano acostumei com o novo regime e daí até o final do 5º ano ginasial, correu tudo bem. Sempre no Santo Inácio, um excelente colégio. Não fiz o curso primário corrido como as demais crianças. E não senti absolutamente essa falta. Senti ter sido obrigado a repetir o ano da preparação para o exame de admissão. Essa falta de estímulo tornou-me vagabundo cujo hábito é difícil de alterar. Quando retornei dos EUA depois de completar meu Doutorado, meu filho misturava um pouco inglês com português. A professora do colégio onde foi matriculado resolveu colocá-lo na classe do ano anterior ou seu. Outro desastre. Tenho visto o debate quase em nível nacional de passagem automática de ano dos alunos nos primeiros anos da escola. Nesse estágio, uma orientação correta e atuante faz qualquer aluno fazer os três primeiros anos em um, bastando ter idade para isso. Aconteceu comigo. É preferível sujeitar o aluno a dificuldades, fazendo-o enfrentar o desafio, a desestimulá-lo, inclusive fazendo sentir-se deslocado em uma turma de menores. 16


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Não estudava com o objetivo de aprender, mas primeiro atender à condição imposta por minha mãe para que estudássemos como contrapartida do esforço que faziam para nos proporcionar casa, comida, roupa e o pagamento do colégio. Segundo, estudava para passar sem fazer exames finais, pois isso garantia uma antecipação das férias e essas sim, eram o paraíso aqui na Terra. A praia de Copacabana no verão era nossa. Nessa época eu era realmente feliz e não sabia. O curso ginasial teve uma qualidade tão boa que permitiu que fizesse o concurso para entrar na Escola Naval sem ter de passar um ano preparatório nos cursinhos existentes. Fui aprovado no concurso e ingressado na Escola Naval três meses depois de concluído o ginasial. Acabara de completar 16 anos. Alguns colegas de minha turma atenderam aos cursinhos em paralelo com o 5º ano ginasial e entraram para a Escola Naval comigo. Outros deixaram para ano seguinte e perderam um ano de antiguidade na vida naval. Nunca mais na vida tive aulas de química básica, pois o que aprendi no colégio Santo Inácio me foi útil com frequência, a vida toda. Minha mãe nos contou que pressionou meu pai para vender seu negócio no Recife e trazer a família para o Rio de Janeiro por que não encontrou lá um colégio capaz de dar educação adequada a seus filhos. Meu pai vendeu tudo e estabeleceu-se no Rio. Eu tinha somente dois anos de idade. Depois de se estabelecerem completamente na cidade, minha mãe fez uma análise dos colégios do Rio e chegou a conclusão que os melhores eram o São José e o Santo Inácio. Como o São José era no centro da cidade, mudou-se para perto do Santo Inácio, em Botafogo e aí foram matriculados os seus primeiros três filhos homens. O padrão ético, firme, correto e dedicado ao trabalho foi dado por meu pai e devemos muito a minha mãe por sua clarividência em relação à necessidade de estudo de qualidade. E isso de uma filha de Pesqueira, interior de Pernambuco, quando somente um de seus oito irmãos tinha se formado 17


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médico. Só quem tem cultura sabe da necessidade das pessoas também terem. Nunca consegui esclarecer onde minha mãe construiu essa convicção e certamente não foi em Pesqueira. Lá, até hoje, só sedimentou-se o atraso, por absoluta falta de cultura. Minha mãe foi ao Congresso Eucarístico em Recife com minha tia, para aproveitar a oportunidade e visitar seus pais em Pesqueira, PE. Lá pegou tifo e faleceu no Recife em setembro: foi um choque, eu tinha 15 anos. Faltava menos de dois meses para terminar o ginásio e eu tinha de tomar uma decisão do que fazer na vida. Meu irmão mais velho estava cursando a Escola Naval e o segundo estava no Seminário, pois havia decidido ser padre. Notei que a ausência dos dois, reduzia as despesas da casa, o que deixava mais folga para minha tia solteira, irmã de meu pai, que veio do Recife morar conosco, cuidar das outras crianças. Decidi fazer o concurso para a Escola Naval. Estava determinado. Passei a concentrar todo meu tempo estudando para o concurso e até nas férias, adeus total à praia e distância do círculo de amigos da vizinhança. Esqueci o paraíso e daí por diante, viver ficou mais complicado. Com esse impulso do concurso, passei a me preocupar em aprender o que estudava. A guerra na Europa tinha começado e estava se alastrando.

A MARINHA - UMA GRANDE ESCOLA Passei quatro anos na Escola Naval, de 1940 a 1944. Ao terminar o primeiro ano letivo, o Diretor da Escola Naval embarcou todo o corpo de alunos no navio D. Pedro II do Lloyd Brasileiro, por dois meses, cobrindo todos os portos brasileiros do Rio de Janeiro até Manaus e retornando até a cidade de Rio Grande (RS) e daí de volta ao Rio de Janeiro. 18


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Em todos os portos tínhamos uma palestra de um ilustre historiador local sobre as razões dos portugueses terem construído aquelas fortalezas e as diversas operações contra ataques ao país. Também houve a visita do corpo de alunos aos principais estabelecimentos industriais existentes nas proximidades dos portos. Paramos nas principais cidades do Rio Amazonas. Só Manaus tinha o porto flutuante e nunca mais esqueci que o nível do Rio Amazonas chegava a subir 30 metros, isto é, ou alguém se estabelecia num barranco onde a água não atingisse ou teria de viver de 20 a 200 km da margem do Rio, pois este alagava tudo. Em Santarém, Parintins, Óbidos e Itacoatiara, o navio embicava no barranco e descíamos numa ponte de tábuas sobre barris de óleo vazios. Em Rio Grande (RS) passamos o dia na fábrica da Swift onde tinham matadouro próprio e processavam 1000 cabeças de gado por dia, já naquela época. Regressamos ao Rio de Janeiro para reiniciar imediatamente as aulas. A guerra tinha se ampliado e já estavam condensando os currículos e acabando totalmente com as férias para ganhar tempo na formação dos oficiais, necessários para as operações de guerra. O curso de cinco anos foi reduzido para quatro. Acabou-se a viagem de instrução de Guardas Marinha ao término do curso. Minha turma que entrou para Escola Naval em março de 1940, celebrou a graduação e entrega das espadas no dia 7 de janeiro de 1944 e no dia 21 eu já estava embarcado na Corveta Cananéia, como Guarda Marinha, comboiando navios mercantes do esforço de guerra aliado, que seguia para os EUA. Nossa escolta seria substituída no Recife. Desembarquei no Recife e fui designado para cursar a Escola de Sonar da Marinha dos EUA, na Base do Recife, para treinamento antissubmarino durante três semanas e em seguida designado para o Caça Submarino Jaguarão, onde permaneci até o final da guerra e o regresso da Força Naval do Nordeste ao Rio de Janeiro. Seis meses de Guarda Marinha e fui promovido a Segundo Tenente. Um ano depois

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promovido a Primeiro Tenente. Promoções rápidas motivadas pela demanda da guerra. A Marinha propriamente dita foi também uma grande escola. Não estou considerando aqui os cinco anos de serviço que passei nos EUA estudando engenharia, nem os dois anos de serviços de guerra. Na Escola Naval comecei a jogar polo aquático e fui escalado para a equipe que representava a Escola nas competições. Aprendi a ser atleta. Não era profissional, mas adotara a disciplina rígida com alimentação e exercícios. Paralelamente, sempre morei perto da praia e o mar também era meu meio ambiente. O Diretor da Escola Naval criou o Grêmio de Vela ao qual deu todo o apoio. Inscrevia os barcos da Escola nas competições do Iate Clube do Rio de Janeiro, para induzir os aspirantes a se familiarizarem com as coisas do mar. As guarnições eram como que designadas para competir. Só o aspirante, filho do Almirante Álvaro Alberto, gostava de velejar e competia com satisfação. A Escola Naval inscrevia três barcos que chegavam sempre nos três últimos lugares. Era um vexame. Encontrava-se na biblioteca da Escola um livro técnico em francês do suíço Manfred Cury com tudo sobre barcos, velas e técnicas de regata. Foram traduzidos vários capítulos do livro e fomos tomando nota do que seria necessário fazer para realmente poder competir. Os barcos ficavam ancorados permanentemente dentro d’água e repletos de cracas. A craca, como chamam, e o limo na parte inferior do barco, criavam um forte atrito com a água reduzindo a velocidade dos barcos e nessas condições era impossível competir. Primeira condição: era preciso ter os barcos com as partes em contato com a água inteiramente limpas. A garagem de barcos tinha berços sem rodas. Duas vigas longitudinais deslizavam sobre vigas horizontais embutidas no concreto 20


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da carreira. Não havia guincho para içar os carros e somente um grupo de quatro ou mais homens poderia içar um barco na carreira. Cada barco pesava 1700 kg e o atrito do berço era muito grande. Seria necessário colocar rodas nos berços e nivelar as madeiras da carreira com o concreto do piso. Pedi ao Imediato da Escola Naval para autorizar a lancha nos levar ao AMRJ para ver se conseguíamos as rodas numa pirâmide enorme de sucata lá existente. Encontramos dois truques de trem, carregamos para a lancha e voltamos. Havia um ferreiro na oficina da Escola que nos dava aulas de forjaria e caldeamento. Pedimos e ele para forjar os mancais para suporte do berço sobre os eixos. Tudo instalado estava disponível um carro com rodas que dois homens puxavam com o barco para a garagem. A partir daí o tratamento do fundo dos barcos ficou por conta das suas guarnições de aspirantes. A segunda etapa era preparar o fundo do barco para o melhor deslizamento na água. O livro recomendava misturar plombagina, isto é, grafite em pó com óleo de linhaça, passar no fundo dos barcos, deixar secar e depois polir com um pano seco. Ficava brilhando e deslizando na água. Terceira etapa: trocar as velas dos barcos. O livro mostrava como deveriam ser construídas para dar pequena curvatura como as asas das gaivotas. O Diretor da Escola encomendou velas novas que foram enfunadas um mês para tomar a forma correta. Agora a Escola Naval estava em condições de competir. Só faltava treinar as técnicas de regata descritas no livro. O campeonato era cansativo. Cada um durava quatro domingos seguidos. A Escola passou a inscrever cinco barcos e classificar os cinco primeiros lugares. O resultado foi melhor do que o esperado. Aprendi que tecnologia e dedicação produzem a diferença. Aprendi também a estudar e quando necessário, dedicar-me e concentrar-me no estudo. Isso foi fundamental quando a Marinha me liberou durante quatro meses para me preparar para o concurso da 21


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engenharia naval. Com determinação consegui ir aumentando as horas de estudo diárias até conseguir em um mês, dedicar 16 horas por dia ao estudo. Não foi fácil. O organismo reage contra. É necessário persistência e determinação para lentamente ir alcançando a meta. É como treinamento intensivo. Valeu o esforço: fui classificado no concurso e designado para cursar engenharia elétrica e eletrônica no Rensselaer Politechnic Institute, no Estado de New York. Outra vantagem proporcionada pela Marinha: no RPI, não tive dificuldade de inserir e ajustar meu currículo da Escola Naval aos requisitos dessa escola de engenharia, uma das melhores dos EUA, de acordo com a avaliação da marinha americana. Foram anos de muito estudo com dedicação total do tempo disponível, mas nunca com risco de fracasso nos cursos.

MEMÓRIAS DA GUERRA Algumas lembranças meu cérebro fixou bem, pois eram evidentes e contundentes as dificuldades resultantes da obrigatoriedade de conduzir um país vinculado a uma operação de guerra real. As situações que tiveram de ser enfrentadas explicitavam a precariedade da infraestrutura do país, dos seus meios de transporte, da sua autossuficiência de matérias primas e insumos, principalmente combustíveis. Tal questão se tornou aflitiva pela dificuldade de circulação de mercadorias entre os Estados devido a ameaça real e constante dos submarinos alemães e italianos operando ao longo da costa brasileira, do porto de Santos até o extremo norte. Não existia estrada ligando a capital do país no Rio de Janeiro com os Estados ao norte. Tudo tinha que ser transportado por navio e esse precisava ser escoltado por navios de guerra para proteção contra submarinos inimigos. O parque industrial brasileiro era incipiente. Só tinha cerveja para ser consumida em Salvador e Recife quando os navios destinados àqueles portos eram liberados dos comboios, o que só acontecia de 10 em 10 dias. 22


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Foram afundados 40 navios mercantes brasileiros durante a guerra. O Brasil não produzia petróleo nem tinha refinarias. Todos os automóveis das cidades ficaram guardados nas garagens, suportados por cavaletes de madeira para não estragar os pneus. Não havia gasolina nem óleo diesel em qualquer praça do país. Quem realmente precisava de automóvel tinha de instalar um forno a carvão no para-choque traseiro e encher a mala de carvão vegetal. Com pá se carregava o forno pelo topo. Acendia-se em baixo. Um tubo ligava o gás carbônico (CO) produzido no forno ao carburador. O (CO) queimava produzindo CO2 e a energia dessa queima acionava o veículo. O Rio chegou a ter 10 mil táxis com gasogênio, como era chamado. No interior do país, a solução simples foi utilizar o álcool anidro, único existente na época e disponível em todos os engenhos de açúcar. O álcool anidro tinha um desempenho melhor que a gasolina. Fiquei surpreso quando cerca de 20 anos depois da guerra, “inventaram” que o álcool também servia para movimentar automóveis e criaram o Proálcool. Certamente resolveram adotar essa política quando descobriram que não havia recursos suficientes em dólares para comprar petróleo ou gasolina. A fábrica de cimento Mauá em Guaxindiba (município de Alcântara, RJ) só podia funcionar quando um petroleiro vindo dos EUA aportava no Rio de Janeiro com o comboio trazendo óleo combustível para movimentar a fábrica. Quando acabava o óleo, parava tudo. Meu caça submarino vinha ao Rio de Janeiro a cada dois meses escoltando navios e retornava seis dias após levando outro comboio.

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O Rio de Janeiro funcionava com eletricidade proveniente de usinas hidráulicas e não houve racionamento. Entretanto na Bahia, Recife, e Belém, a produção das hidroelétricas era insuficiente para alimentar o consumo e o mais comum era o desligamento da energia à noite por falta de combustível para operar as usinas térmicas. No Rio de Janeiro, toda a orla ficou às escuras com a iluminação pública desligada, devido à presença submarina. Inclusive as casas ou apartamentos da orla não podiam acender qualquer luz sem colocar cortinas pretas isolando tudo. Caso aparecesse algum facho de luz, a patrulha no mar se comunicava via rádio com a radiopatrulha da polícia em terra para imediatamente levar os moradores a se explicarem na polícia se não eram espiões a serviço dos países inimigos. Os comboios transportavam principalmente gêneros alimentícios básicos: arroz, feijão, milho, café, açúcar. Os navios partiam lotados. Começaram a faltar alguns desses gêneros básicos. Pela primeira vez na história do Rio, instituíram fila para compra de mantimentos. Foi impressionante a logística americana para poder operar no Brasil em conjunto com as forças brasileiras e a velocidade da conclusão das instalações para suporte dessa logística. Foram construídos aeroportos em Salvador, Recife e Natal. Certamente também em Fortaleza e Belém, mas estes não cheguei a conhecer. Criaram um Comando Aéreo de Transporte com aviões DC3 que mantinha o deslocamento de pessoal necessário às operações, bem como o suprimento de muitos materiais e insumos. Construíram bases aéreas em todo o percurso do Rio de Janeiro aos EUA, que permitiam o reabastecimento das aeronaves, a garantia da segurança dos voos e o abastecimento logístico urgente a todas as operações. Montaram base naval operacional em Salvador e Recife para atender aos navios americanos e brasileiros que operavam no nordeste. No Rio e em Natal utilizavam as bases da Marinha 24


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brasileira. Em Val de Cães, Belém do Pará, instalaram uma base de reabastecimento de combustíveis e era onde o Caça Submarino abastecia de óleo diesel antes de iniciar sua viagem de volta comboiando. É hoje o local onde a Marinha construiu sua Base Naval. Em Salvador a base naval foi transferida para instalações mais completas em Aratú. Tinham ainda bases de aviões Catalina anfíbios, que utilizavam na varredura oceânica de auxílio às escoltas dos comboios e bases para os dirigíveis Blimps tipo zepelim, utilizados para o mesmo fim. Esses aeroportos e bases tinham toda a infraestrutura logística para movimentação de cargas e pessoal, além de alojamento para as respectivas guarnições. Ao término da guerra, os militares americanos que operavam no Brasil entregaram tudo às forças militares brasileiras. Algumas dessas instalações foram muito bem planejadas e serviram como núcleo de estabelecimento dos principais aeroportos do Nordeste e de bases para nossa Força Aérea. Outras foram abandonadas por terem sido instalações de emergência exclusivamente para suporte da guerra. Com o término da guerra, em Novembro de 1945, a Força Naval do Nordeste regressou ao Rio de Janeiro. Houve um desfile da vitória de todas as guarnições da Força pela Avenida Rio Branco. Os navios ficaram atracados. Para quem estava acostumado a trabalhar dezesseis horas, dormindo oito, todos os dias, inclusive sábados, domingos e feriados, aquela situação de não ter quase nada a fazer era inquietante. Em apenas duas horas pela manhã o navio já ficava limpo, com os metais brilhantes. Às 10 horas não havia mais nada a fazer e liberávamos o pessoal para banho de mar ou fazer exercícios físicos. Não havia atividade depois do almoço. A Marinha foi substituindo aos poucos o pessoal das guarnições dos navios que estiveram em operações de guerra, sem férias, sem descanso, sem poder dormir fora dos navios, mesmo quando atracados. Só se podia dormir em casa quando o navio passava seis dias no Rio de Janeiro 25


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enquanto organizavam outro comboio, embora se continuasse trabalhando todos os dias até sair comboiando novamente. O navio regressava comboiando dois meses depois. Nos demais portos, só havia permissão para ausência do navio das 18 às 23 horas, confirmada pelo Comandante todos os dias. Fora desse período, o navio tinha de estar pronto para receber ordens de operações. E estas normalmente eram recebidas às 23 horas por rádio cifrado para suspender às 24 horas. Ao começar a substituir as guarnições, a Marinha se deu conta de que o pessoal que não tinha participado da guerra, não tinha adquirido competência, experiência ou treinamento para operar os navios. Aproveitaram a experiência americana de treinamento intensivo de pessoal que lhes permitiu em cinco anos de guerra aumentar o seu efetivo de pessoal de 200 mil para 3 milhões de homens. Fui designado para ministrar “Eletricidade para armamento”, um dos cursos de uma semana, a 6 horas por dia, fechando no sábado pela manhã. O curso se repetia toda semana com nova turma e fazia parte de um conjunto de cursos semelhantes cobrindo os armamentos da esquadra. As outras especialidades tinham organização de cursos semelhantes. Antes de iniciar essas aulas fui designado para o curso de Instrutores. Também somente durante uma semana, uma tradução do curso idêntico da Marinha Americana. Muitas ideias básicas de como ensinar, então adquiridas, foram por mim utilizadas durante toda a vida. Como não existia na época um livro didático de Eletricidade Básica no Brasil, traduzi o livro utilizado na Marinha Americana, tradução essa que foi impressa e distribuída a todos os meus alunos. Enquanto se ministravam esses cursos, a Marinha providenciava a instalação de escolas específicas para cada uma das especialidades na Ilha das Enxadas, no Centro de Instrução Almirante Wandenkolk. No ano seguinte fui designado

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instrutor da Escola de Direção de Tiro desse Centro, já agora para cursos de especialização regulares.

ESCOLA DE DIREÇÃO DE TIRO Passei quatro anos na Escola de Direção de Tiro, de 1947 a 1950. A complexidade aumentou, pois a Escola recebia turmas de marinheiros, sargentos e oficiais. Os cursos eram de um ano para qualquer das graduações, mas de conteúdo bem diferente. Novamente traduzi o livro básico de eletrônica para direção de tiro da marinha americana que foi distribuído a todos os alunos. Ao me apresentar na Escola, o edifício tinha acabado de ser construído e não tinha qualquer instalação. A Marinha Brasileira tinha adquirido da Marinha Americana para a Escola de Direção de Tiro: uma Diretora de Tiro MK33 utilizada nos contratorpedeiros da época, um quadro de manobra de Direção de Tiro e um canhão de 40 mm duplo automático com alça diretora MK57. A Fábrica de Artilharia da Marinha forneceu um canhão de 127 mm automático, idêntico aos que estavam sendo instalados nos contratorpedeiros em produção no AMRJ. O AMRJ forneceu os cabos elétricos e toda a instalação foi feita pela escassa equipe da Escola. Valeu a experiência adquirida e foi proporcionada aos alunos a operação real dos equipamentos iguais aos existentes na Esquadra. Os alvos eram os aviões sempre presentes. Como o estabilizador da Diretora ficava inoperante numa instalação terrestre por não existir o balanço do navio, o mesmo foi removido da Diretora de Tiro e instalado num painel de demonstração na sala de aula. Tais cursos elevaram substancialmente o nível de escolaridade do pessoal da Marinha, com reflexos diretos na qualidade operacional dos navios. Cinco anos depois, um 27


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Almirante resolveu fazer média com o aumento da produção de especialistas e decidiu reduzir os cursos para seis meses. Deixaram de adicionar especialistas. Passaram a enviar para a Esquadra homens sem qualidade técnica suficiente para exercer as suas funções. Foi um retrocesso. Visão convergente, era como o Almirante e Engenheiro Naval Carlos Natividade definia esse tipo de decisão. Em 1950 inscrevi-me para o concurso de ingresso na Engenharia Naval. Ao ser aprovado no concurso, fui designado durante três anos para o curso de Engenharia Elétrica e Eletrônica no Rensselaer Polytechnic Institute - RPI, em Troy, New York, EUA.

MESTRADO EM ENGENHARIA ELÉTRICA Recebi passagens de 1ª classe em navio para toda minha família e vencimentos em dólares que me permitiram independência financeira para viver exclusivamente dedicado aos estudos. Fui designado para estudar. Essa era a minha obrigação para com a Marinha. E nela me concentrei. O ano letivo era de setembro a junho com período e cursos de férias nos meses de julho e agosto. Ao chegar aos EUA, fui matriculado no curso de férias (jul/ago) em duas matérias técnicas com crédito. Seguiram-se três anos com inscrição no máximo de créditos permitido por período. A única pausa nesses três anos foi em junho de 1952, quando viajei de carro com minha família para conhecer os EUA, pelo norte até a Califórnia e retornando pelo sul. Os meses de julho e agosto de 1953 foram dedicados à montagem e outras experiências com minha tese de mestrado, completando os requisitos para esse diploma. No ano de 1954 foram cursadas as matérias e obtidos os créditos requeridos para o doutorado. Julho e agosto de 1954 foram dedicados aos 28


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exames de qualificação para almejar o doutorado. Aprovado em todos os requisitos, ficou faltando a tese de doutorado que, no RPI, naquela época, tinha de versar sobre um assunto pioneiro e trazer uma contribuição adicional à ciência mundial com um mínimo de 30 horas de crédito e um ano de trabalho. Escrevi ao Almirante Adido Naval em Washington perguntando se era de interesse da Marinha que permanecesse mais um ano para completar a tese. Ele respondeu-me que não era do interesse da Marinha que seus engenheiros fizessem o doutorado. Guardo comigo sua carta-resposta até hoje. Mas já previa que seria essa a resposta: ela era a expressão da cultura técnica da Marinha na época. Nessa mesma época, o Almirante Álvaro Alberto na direção do CNPq e o General Dubois, diretor do IME, resolveram enviar os professores e instrutores do IME para cursarem o Mestrado em suas especialidades nas melhores Universidades norteamericanas. O resultado foi extraordinário. Em poucos anos o IME afirmou-se como uma instituição de vanguarda no ensino tecnológico do país, alguns desses engenheiros foram meus colegas no RPI. Recebi meu diploma de Master em Engenharia Elétrica e retornei ao Brasil com minha família. Dez anos depois, a Marinha autorizou a permanência de um oficial para que tirasse o doutorado. Uma evolução, sem dúvida. Retornando e me apresentando à Marinha no Rio de Janeiro, fui transferido para o Quadro de Engenheiros Navais já no posto de Capitão de Corveta e designado para o 2º Distrito Naval em Salvador para recuperar e assumir a Estação Radiogoniométrica em Salinas da Margarida utilizada na localização de submarinos na costa brasileira, abandonada pelos americanos ao regressarem da guerra. Com a estação operacional e sua guarnição brasileira instalada, fui transferido para o setor industrial da Base Naval de Salvador. Fiquei lá por dois anos. 29


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Ao regressar novamente ao Rio de Janeiro, como era considerado engenheiro de armamento, fui designado para a FAM - Fábrica de Artilharia da Marinha, instalada nos edifícios 7 e 7A do AMRJ e nesta fábrica fui encarregado das divisões de reparo e montagem. O reparo cobria todo o armamento da esquadra, inclusive os equipamentos de direção de tiro. O serviço de montagem tinha a incumbência de montar os 24 canhões de 127 mm em construção na FAM, e depois instalá-los nos seis contratorpedeiros Classe A, em construção no AMRJ. Consegui transferir alguns dos meus alunos da Escola de Direção de Tiro e alguns artilheiros que, juntos ao núcleo básico da FAM, completaram oito grupos de trabalho de 4 homens cada, especializados em 8 grupos de equipamentos. Depois de seis meses nossa meta era a inexistência de qualquer ordem de serviço não atendida dentro de 30 dias. Isso exigiu enfrentamento com os oficiais de armamento dos navios: eles tinham o hábito de somente verificar a operacionalidade dos equipamentos cerca de três dias antes da data que o navio deveria zarpar! Ficava impraticável o atendimento nesse prazo. Depois de diálogo inclusive com as chefias na esquadra, os pedidos passaram a ser encaminhados logo que os navios regressavam. A meta foi alcançada e mantida durante os dois anos que estive lá.

CURSO DE ENGENHARIA NUCLEAR NOS EUA No final de 1957 fui surpreendido com a designação para cursar engenharia nuclear nos EUA. Soube depois que o Almirante Álvaro Alberto havia convencido o Ministro da Marinha a enviar seis dos seus engenheiros, dois por ano, para fazer esse curso e o completarem com um ano de estágio nos reatores nucleares do Laboratório Nacional de Argonne1, perto de Chicago, onde atuava o Dr. Eurico Fermi, o descobridor do 1

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Argonne National Laboratory - ANL


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controle da reação em cadeia do urânio e projetista do reator do submarino nuclear da marinha americana. O Almirante Álvaro Alberto era da opinião que a Marinha precisava ter engenheiros nucleares para orientar seus órgãos quando tivessem de tomar as providências para a construção do submarino nuclear brasileiro, que ele considerava imprescindível no futuro. Era um curso de complementação nuclear para engenheiros, organizado dentro do programa “Átomos para a Paz” do Governo dos EUA. A turma de quarenta alunos tinha dois brasileiros e colegas da maioria dos países fora da cortina de ferro. Foi interessante constatar que todos tinham escolaridade semelhante - o que diferenciava era o nível de experiência de cada um. Essa constatação de fato, descartava totalmente a ideia insana de Hitler sobre uma eventual raça ariana superior. Os colegas eram americanos, mexicanos, peruanos, argentinos, brasileiros, ingleses, holandeses, belgas, espanhóis, turcos, iranianos, israelenses, hindus, japoneses, paquistaneses e suíços. Era fácil concluir que os seres humanos são essencialmente iguais, se tiverem a mesma escolaridade e um meio ambiente semelhante. Cor, raça, religião, costumes, não mudam a estrutura do cérebro humano. Outro aspecto interessante desse curso organizado pela Comissão de Energia Atômica Americana2, foi que esta programou no final do curso, uma visita a praticamente todas as instalações nucleares existentes no país. Começando por Chicago, visitamos a Central de Dresden de 600 MWE com reator a água fervente construída pela General Electric: a viagem durou mais 15 dias visitando as instalações a leste de Chicago, como o Reator Rápido ainda em construção em Detroit, as instalações de enriquecimento por difusão de Oak Ridge e o protótipo de reator de 300 MW do submarino nuclear em Shippingport, no Estado da Pensilvânia, EUA. Depois passamos mais 15 dias visitando as instalações no oeste americano, tais como o Centro Experimental de 2

Atomic Energy Comission - AEC

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Reatores da AEC onde o Dr. Eurico Fermi havia construído o primeiro reator de 20 MW para produção de energia elétrica, um reator rápido refrigerado a sódio. Lá havia sido instalada uma planta piloto de reprocessamento de elementos combustíveis queimados. Visitamos a operação da mina de urânio em Idaho e todos desceram às galerias de acesso ao arenito contendo urânio, acompanhando seu processamento externo até obtenção do yellow cake. Em Utah fomos à mina de minério de cobre, conferindo a planta de processo e a produção de cobre eletrolítico. Na Universidade da Califórnia em Berkeley fomos ao Ciclotrom, à fábrica de elementos combustíveis da General Electric em Palo Alto e ao reator experimental refrigerado a material orgânico, em Los Angeles. Essas visitas forneceram uma visão geral dos desenvolvimentos nucleares da época, dos problemas e de várias soluções para resolvê-los. Deu também uma ideia do tamanho e complexidade das instalações e dos investimentos que estavam sendo realizados. Não foi uma visita turística: foi uma visita técnica para engenheiros nucleares.

O ESTÁGIO NO ANL 1: TESE DE DOUTORADO Após o regresso da viagem, os colegas foram embora e os dois brasileiros ficaram para o estágio no próprio laboratório de Argonne. Como dispúnhamos do prazo de um ano, decidi procurar um assunto que atendesse aos requisitos da tese de doutorado. O Laboratório de Argonne havia recebido uma solicitação da AEC para que estudasse o projeto de um Reator de Pesquisas de 300 MW térmico, com fluxo de nêutrons capaz de produzir Californium por irradiação concentrada, que batizaram de Might Mouse Reactor. Fizeram um estudo bem completo, contido em dois trabalhos publicados pelo ANL, mas nesses relatórios havia alguns pontos que os cálculos não se 32


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confirmaram pela experiência medida, o que estava limitando o prosseguimento do projeto. Conversei com o Físico-Chefe dos Projetos de Reatores e disse-lhe que iria estudar o assunto. Fiquei dois meses nesses estudos preliminares, até arquitetar uma solução e fui discuti-la com ele. Ele salientou que eu estava querendo operar o enorme computador analógico do ANL para simular a operação desse Reator, com suas três variáveis independentes, tempo, espaço e energia dos nêutrons, quando a máquina foi projetada para ter somente uma – o tempo. Como eu insistisse que considerava viável minha formulação, ele liberou-me para fazer o que quisesse, mas avisou-me que não poderia ajudar e advertia que certamente meu trabalho resultaria em nada. Registrei no RPI - Rensselaer Politechnic Institute minha inscrição para tese no ano letivo de 1958/9, paguei do meu bolso a taxa de inscrição de 800 dólares e comecei a trabalhar na tese. O Físico-Chefe da Divisão de Reatores do ANL, Dr C.N. Kelber era o meu adviser à distância e no RPI em New York era o professor C.H.Dunn do Departamento de Energia Elétrica. Todos os meses eu fazia deslocamentos de Chicago para New York para apresentar os progressos do trabalho. Meu adviser no ANL não queria perder tempo com o assunto, mas deu permissão para que usasse o computador sempre que precisasse fora das horas de expediente. À noite o computador estava à minha disposição. Os trabalhos na tese correram paralelos aos trabalhos do estágio no Reator Argonauta. Esse trabalho paralelo não interferia com o desenvolvimento da tese. O que interferia era a pressão sobre meu sistema nervoso, pois ao completar o período do estágio, teria de retornar ao Brasil.

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O Might Mouse seria um reator heterogêneo, com núcleo cilíndrico moderado e resfriado a água pesada, gerando um fluxo de 10 elevados a 15 nêutrons, o que consumiria totalmente um núcleo a cada semana de uso. Para simular a operação real do Reator seria necessário aplicar as equações da geração e difusão de nêutrons e dividindo o reator em seis regiões circulares, sendo três correspondentes ao núcleo cilíndrico do reator. Foi com essa configuração que efetuaram os cálculos preliminares do projeto, o que precisava ser verificado e confirmado. Simulei as equações diferenciais de difusão de nêutrons gerados na reação em cadeia que tinham parâmetros diferentes para cada região do núcleo do reator. Resolvi aplicar equações de diferenças, dividindo o núcleo em seis regiões. Esse recurso matemático era mencionado em alguns livros, mas não existiam aplicações concretas que pudessem ser utilizadas como referência. A dúvida que me assolava era se o resultado final teria precisão suficiente para ser utilizado como uma ferramenta de engenharia de projeto. Para simplificação também dividi os níveis de energia em somente dois: nêutrons rápidos e térmicos, que era uma prática em engenharia de reatores e os parâmetros para essa situação eram disponíveis na literatura. Esses parâmetros tinham de ser aplicados em todas as equações em cada um desses níveis. A ideia era sobrepor as soluções da variável espaço, agora dividida em seis regiões, com saídas inteiramente eletrônicas - isto é, instantâneas - sobrepostas sobre as soluções do tempo que eram 10 vezes mais lentas. Minha experiência já vivida indicava que a solução funcionaria. Só não sabia com qual precisão. Pior: meu adviser achava que não funcionaria. Acontece que ele era físico e eu físico e engenheiro eletricista. A advertência dele não me abalou tanto. O RPI exigia que tese de doutorado fosse uma contribuição inédita ao mundo científico. Para resolver o 34


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problema que se apresentava, seria necessário imaginar possibilidades de utilização do computador analógico como máquina de processo, nunca antes utilizadas e técnicas matemáticas de controle e operação dos reatores nucleares, também inexploradas. Depois de seis meses com o problema já bem definido e o projeto da solução equacionado, fui obrigado por uma hérnia do 5º disco da coluna vertebral, a ficar deitado por dois meses. Esse tempo foi aproveitado para escrever, mesmo deitado, toda a tese. Ao retornar às atividades no laboratório, foram montadas todas as ligações do programa simulador na prancha de entrada no computador, ajustados os parâmetros e dada a partida na máquina. Instantaneamente acenderam todas as luzes de sobrecarga e tocaram todas as campainhas de alarme do computador. O barulho foi tal que a equipe de vigilância noturna foi verificar o que havia ocorrido. Voltei para casa para conferir todos os cálculos, diagramas, parâmetros, ajustes e ao testar, novamente disparou: alarme geral. O tempo estava correndo e restavam somente dois meses para concluir a tese. O stress começou a afetar meu quotidiano. O médico me receitou um tranquilizante e disse-me que quando terminasse a tese, tudo desapareceria. Analisei eletricamente todas as ligações do simulador projetado e cheguei à conclusão de que se algum módulo do computador estivesse com defeito, o sistema ficaria em loop aberto e seria a razão da sobrecarga. Voltei ao ANL para testar todos os módulos que usavam, cerca de 110 chassis eletrônicos. O computador tinha um painel de teste. Depois de 6 horas de trabalho foram identificados três módulos com defeito. Fiz a troca. Nova tentativa e o simulador funcionou como havia sido projetado e previsto. Mais uma semana de simulação de transientes, barras de controle, irradiação de curium para produção de Californium, adição do simulador de criticalidade etc. O simulador podia responder a todas as peculiaridades possíveis de controle do reator. 35


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Seguiram-se duas semanas de avaliação dos resultados obtidos em relação aos dados teóricos. Os resultados se situavam todos dentro de um desvio máximo de 3%. Já era uma excelente ferramenta para projeto ou simulação de reatores e explicava as inconsistências verificadas no pré-projeto realizado pelo ANL. Só então solicitei o uso oficial do Computador Analógico do ANL para apresentar ao meu adviser, Dr. Kelber, durante as horas de expediente, a tese e os resultados alcançados, com as respostas que estavam lhe faltando. Quando ele viu o computador traçando no papel gráfico as curvas de desempenho do Reator para as diversas condições de operação, ficou extasiado. Todo o período da manhã foi despendido nessas demonstrações. A tese foi apresentada à banca do Rensselaer Polytechnic Institute em Troy, New York e aprovada. Na cerimônia de graduação recebi meu diploma de Philosophy Doctor. No ANL insistiram para que ficasse trabalhando lá, mas declinei de pronto. Quem financiou meus estudos nos EUA foi o povo brasileiro e era para esse povo que eu teria de trabalhar como divida de gratidão, procurando ajudá-lo onde fosse possível. Regressei ao Rio de Janeiro para o serviço na Marinha. Missão cumprida. O Laboratório mandou imprimir o trabalho como documento oficial da Atomic Energy Commission dos EUA, com o número ANL-6008. Uma nova e poderosa ferramenta de trabalho havia ficado disponível no mercado para projetar o controle dos reatores nucleares e simular o seu comportamento para todas as simulações operacionais possíveis. Alguns anos depois solicitei ao Departamento de Publicações do Governo Americano que me enviasse uma cópia do trabalho. Recebi cópia da 7ª edição do livro. Fiquei satisfeito por ter se tornado uma contribuição significativa para o mundo nuclear. A emissão de sete edições evidenciava isso. 36


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Já em 1990, com o extraordinário desenvolvimento dos microcomputadores, enviei um dos engenheiros, PhD pelo MIT que trabalhava comigo, procurar um programa para projeto de reatores nos EUA. Ele comprou os programas. Haviam dividido o conteúdo de minha tese em dois programas – simulador da operação do reator e simulador da criticalidade do mesmo. Qual a minha surpresa ao verificar que os programas basearam-se em premissas semelhantes às da minha tese, convertendo todo o analógico em digital, o que proporcionava muito mais facilidade de programação. Introduzimos os dados do reator que estávamos desenvolvendo e em 35 minutos tínhamos a solução com as respostas. Isso tornou-se uma evidência concreta de que minha tese tinha sido realmente útil ao setor nuclear, uma constatação que deu muita força interior para enfrentar os desafios que ainda enfrentaria. Depois da guerra, a Marinha já havia mandado mais de 20 oficiais fazer os cursos de engenharia nos EUA em diferentes especialidades e todos retornavam com o Mestrado embora não fosse por exigência da Marinha. Sabia que vários eram excepcionais estudantes e procurei saber porque não partiram para o doutorado. Uma das restrições consideradas mais importantes era o risco do fracasso. Caso fossem bem sucedidos, tudo ótimo. No caso de um fracasso, certamente seria relatado oficialmente pela Universidade, e poderia prejudicar a imagem e o prestígio pessoal deles na Marinha. Se não se candidatassem, nada aconteceria. Esse tipo de preocupação nunca me passou pela cabeça. Tempos atrás, havia feito uma consulta técnica do Brasil aos engenheiros americanos que haviam projetado o controle automático dos Canhões de 127 mm em fabricação na FAM e não gostei do tom de menosprezo da resposta. Começou aí a ideia de elevar meu nível cultural para sentar à mesa com 37


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eles, de igual para igual. O diploma de PhD forneceu-me esse trunfo. Nunca precisei usá-lo, mas quando sentavam comigo, logo sentiam com quem estavam lidando. E senteime à mesa constantemente, com todos os tipos de níveis de pessoas inclusive nos principais países do mundo, discutindo problemas técnicos, empresariais e comerciais, sempre de igual para igual. Poderia me sentir inteiramente à vontade trabalhando ao lado de um operário, tendo do outro lado o Presidente da República. O meu diploma de “Master in Electrical Engeneering” levou cinco anos para ser registrado no CREA-RJ. O diploma de Doutor nem foi apresentado ao CREA. Na época, 1959, eles sequer tinham procedimentos para efetuar esse tipo de registro de diploma fornecido por entidade estrangeira.

O ESTÁGIO NO ANL 2: REATOR ARGONAUTA Antes de viajarmos para os EUA para esse curso de engenharia nuclear, fui perguntar ao Presidente da Comissão Nacional de Energia Nuclear, se precisaria de alguma informação que pudesse obter durante a estada lá. Ele sabia que o ANL havia projetado, construído e estava operando no seu campus um Reator de pesquisas tipo Argonauta, liberado para uso universal pela AEC americana e ele pretendia construí-lo no Brasil e instalá-lo na Ilha do Fundão, no campus da Cidade Universitária, pois essa era a trigésima e última meta do Presidente Juscelino Kubisheck e ambos pretendiam vê-la realizada. Na USP e na UFMG haviam sido instalados reatores de pesquisas importados prontos. Recomendaram que obtivéssemos o máximo de informações, pois iriam utilizar a construção desse reator no Brasil para aferir o índice de nacionalização possível, pois a CNEN tinha o planejamento de 38


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construir um reator de potencia de 500 MW para geração de energia elétrica. Mas as incertezas eram muito pronunciadas. No ANL foram copiados todos os desenhos do Reator e feita uma análise detalhada individual de cada módulo. Um ponto chamou logo a atenção: toda a instrumentação fora projetada para operar a 60 ciclos e no Rio de Janeiro, na época, a Light fornecia energia com 50 ciclos. Foi construído um gerador elétrico de 50 ciclos e testados individualmente todos os instrumentos do reator nessa frequência. Não foi possível manter em operação nenhum deles. Depois de meia hora operando, atingiam uma temperatura que alterava as medidas e arriscava queimar os enrolamentos dos transformadores. Todos teriam de ser reprojetados no Brasil para operar em 50 ou 60 ciclos sem aquecer, pois era sabido que o Brasil havia decidido padronizar a energia elétrica em 60 ciclos e dentro de alguns anos essa decisão estaria efetivada. Para realmente se atingir um elevado índice de nacionalização seria necessário reprojetar todo o reator utilizando somente materiais e componentes nacionais. A proposta de construção do reator foi elaborada com essa premissa e apresentada ao Presidente da CNEN.

TRABALHO TEMPORÁRIO NO ARSENAL DE MARINHA DO RIO DE JANEIRO Ao retornar dos EUA em 1959, fui designado para a Diretoria de Eletrônica da Marinha, já com o título de Doutor e fui imediatamente destacado para o AMRJ - Arsenal de Marinha do Rio de Janeiro. O destaque era uma condição muito especial instituída na Marinha para atender a uma eventualidade e normalmente não durava mais de três meses. Teria de substituir o engenheiro eletricista transferido para São Paulo que era o Chefe da Divisão de Oficinas e o instrutor 39


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de eletricidade do curso de especialização de máquinas para oficiais. Faltavam somente dois meses para o término do curso e não havia tempo para preparo das aulas, nem ninguém para explicar a parte do curso que já havia sido ministrada. Não gostei da solução encontrada para resolver o problema: como destacado, não era permitido assumir funções permanentes, mas não havia alternativa e fui designado para a chefia da Divisão de Oficinas do AMRJ e cumpri as ordens recebidas. Aproveitei para fazer uma visita de cortesia à Fábrica de Artilharia da Marinha e sua Divisão de Reparos de onde fui desligado para fazer o curso de engenharia nuclear nos EUA. Essa Divisão não era mais dirigida por um engenheiro. Passando a vista nas Ordens de Serviço em andamento, encontrei algumas abertas por mim, com minha rubrica, isto é, há dois anos antes. E havíamos alcançado, na época, o padrão de atendimento a qualquer Ordem de Serviço em 30 dias! Isso foi marcante e me indignava: a dificuldade da Marinha de manter a continuidade e sobretudo o padrão dos serviços. Evidentemente a troca de pessoal requerida pelos regulamentos contribui muito para isso. Nem todos têm a mesma competência e ou familiaridade com a nova função. Também a Marinha não usava qualquer procedimento para treinar os oficiais para as novas funções. O resultado na época era desanimador. Foi assim que assumi a Divisão de Oficinas, isto é, o comando e a coordenação de todas as oficinas do AMRJ. Cada oficina tinha um engenheiro encarregado. As oficinas com maior responsabilidade em relação ao atendimento aos navios da esquadra eram as divisões de máquinas, eletricidade e reparos. Com a interveniência do Ministério das Relações Exteriores, a Marinha foi encarregada de reconstruir uma corveta do Governo Paraguaio. Essa obra estava entregue à Divisão de Oficinas. Quando assumi, a corveta que se encontrava atracada no cais do AMRJ há mais de um ano, já tinha reconstruído seu casco, mas as instalações internas do navio dependiam de 40


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centenas de ordens de serviço espalhadas por quase todas as oficinas e não havia previsão de entrega. Essa era uma falha no planejamento do Arsenal que precisava ser corrigida, inclusive porque, nesse caso, envolvia agentes externos, fora do círculo da Marinha. O AMRJ tinha a imagem de ser muito lento nos prazos de atendimento das Ordens de Serviço. Não demorou para identificar as causas. A principal era a demora na aquisição dos materiais, matérias primas e componentes, ora por falta de verba, ora pela máquina administrativa lenta no processo de aquisição. A secundária, mas não menos significativa, era o baixo nível de competência de uma grande parte dos operários, estes sofrendo a mais completa falta de estímulo. Nos anos 1930/40 o Presidente Getúlio Vargas transferiu todos os operários do AMRJ registrados pela legislação trabalhista para funcionários públicos. Naquela época o Arsenal era um líder em construção naval inclusive fabricando as máquinas e as caldeiras de seus navios. Tinha os melhores profissionais do Rio de Janeiro. Mas o tempo foi passando, os funcionários foram se aposentando e não havia cursos para evolução dos mais novos - que eram promovidos simplesmente por antiguidade, porém sem competência para os cargos. Encontrei sob coordenação da Divisão de Oficinas a execução dos Serviços Extra-Marinha contratados por outra divisão do Arsenal que recebia os pedidos de empresas comerciais civis. Recebidas as solicitações, eram enviadas para a Divisão de Oficinas fazer o orçamento e, se o cliente aceitasse, o negócio era fechado. O AMRJ tinha de executar o serviço que, uma vez entregue, gerava uma receita fora dos orçamentos da Marinha, receita essa utilizada para aquisição dos materiais necessários à obra e ao pagamento das horas extras dos operários utilizados na sua execução. O lucro ficava no caixa, contabilizado em separado num fundo especial controlado pela tesouraria. 41


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A primeira providência para agilizar os serviços foi utilizar esse fundo para adquirir materiais e componentes e pagar horas-extras também para serviços da própria Marinha. Para aumentar os recursos, foram incrementados os serviços extra-marinha e em poucos meses o AMRJ estava operando à toda força, dentro de suas possibilidades e limitações. A escolha dos operários que deveriam trabalhar em hora-extra era de indicação direta dos encarregados das oficinas e, na sexta-feira à tarde, eram pagas em dinheiro vivo as horas-extras devidas a cada um. A esse pagamento deram o nome de “jacaré”. Esse pagamento atuava como um incentivo real e fazia os operários trabalharem com dedicação para continuarem a ser escolhidos para os serviços. Isso também se refletiu nos trabalhos diários durante as horas normais. Não melhorava a competência, mas a dedicação para concluir os serviços que eles sabiam que era a fonte desse dinheiro extra. Logo que assumi a Divisão de Oficinas, ocorreu um incidente na Oficina de Forjas e outro na Oficina de Fundição, resultado da paralisação dos trabalhos nessas Oficinas por tempo demasiado e da aposentadoria dos técnicos no período. Para reter tecnologia de produção é imprescindível continuar produzindo continuamente, mesmo em escala reduzida. Tecnologia sem aplicação tende a desaparecer. A falta de atividade provocou um retrocesso na competência e consequentemente na qualidade do AMRJ. Foi necessário monitorar diretamente todas as Ordens de Serviço. Felizmente, com a eficiência aumentada, cresceu também a demanda. Encontrei o “jacaré” no nível de dez mil por semana e em três meses atingia o nível de setenta mil por semana. Não tenho lembrança de qual era a moeda da época. Os serviços da corveta paraguaia entraram no mesmo ritmo e as oficinas de reparos dos navios foram acionadas para colaborar diretamente nessa obra, acelerando todos os pequenos serviços. A essa altura dos trabalhos já se desenhava um cronograma de 42


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entrega que foi cumprido e a Corveta entregue pronta, tendo zarpado com sua própria guarnição para Assunção, Paraguai. Tempos depois, na Divisão de Oficinas foi feito um levantamento do grau de instrução dos mestres das oficinas. A maioria não sabia ler desenhos técnicos, nem sabia utilizar os instrumentos de medição básicos - paquímetros e micrômetros. Acertado com os engenheiros e supervisores, foi emitido um aviso com as datas desse treinamento dentro da própria oficina, e ele seria ministrado pelos próprios engenheiros encarregados. Precisei tirar 15 dias de férias e iniciaríamos os cursos logo que voltasse. Qual minha surpresa quando, ao voltar, encontrei um memorando do Diretor de Produção do AMRJ, meu chefe, dando uma contraordem desmarcando os cursos? Fui a ele para confirmar o que havia encontrado na minha mesa. Confirmado, pedi que solicitasse ao Almirante Diretor do AMRJ que me desligasse do Arsenal por que iria entrar com uma representação contra ele. Não podia aceitar uma decisão sem me consultar, passando por cima de minha responsabilidade funcional. Sugeri que me devolvessem à Diretoria de Eletrônica da Marinha. O treinamento dentro das fábricas é uma instituição industrial mundial e nada tem a ver com cursos regulares. É realizado informalmente dentro das próprias oficinas pelo seu próprio pessoal. Os militares não aceitavam a cultura industrial. Assim que fui designado à Diretoria de Eletrônica, fui encaminhado para o Instituto de Pesquisas da Marinha. O detalhe que me surpreendeu ao ser transferido para o AMRJ foi encontrar funcionando, embora em pequeno volume, o “jacaré”. O AMRJ tinha no comando de várias oficinas oficiais engenheiros novos, com mestrado nos EUA e com determinação para melhorar os atendimentos. Operavam o “jacaré” com a maior dedicação, ética e correção. O “jacaré” era um tipo operação não prevista pelos regulamentos da Marinha. Não era permitido nem proibido. Dependia de o 43


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Diretor assumir ou não a responsabilidade pela sua introdução e condução. Como estava funcionando, segui os procedimentos vigentes. Mas tinha o pressentimento que a qualquer hora, o sistema seria cancelado. De fato, bastou um mês no comando para o novo Almirante Diretor acabar com o “jacaré”. Aprendi uma das características da máquina burocrática do Governo: tentar sempre nivelar todos por baixo. Chegara ao Almirante a reclamação de alguns operários não escalados para o serviço extraordinário, pois queriam também ganhar um dinheiro extra e se consideravam discriminados. Realmente eram, porque nocivos ao sistema: não gostavam de trabalhar. Numa indústria privada já estariam demitidos há muito tempo. Um dia estava com problema urgente a ser realizado na corveta paraguaia e um montador mecânico estava sem tarefa designada. Ao ser designado para trabalhar, veio a mim e disse com toda clareza: “Comandante, marquei meu ponto pela manhã, portanto já ganhei meu dia. Se quiser que eu trabalhe, vai ter de me pagar de novo.” Fui ao Departamento de Pessoal me informar o que poderia ser feito contra tal atitude. A resposta foi: nada. Só poderiam evitar que ele fosse promovido, até se aposentar. Uma legislação trabalhista governamental como essa somente faria o país desenvolver-se muito lentamente além de ter de suportar custos sem qualquer benefício. Outra lição que aprendi: a legislação trabalhista do país deveria se aplicar a todos os brasileiros que trabalham. O Estatuto dos Funcionários Públicos deveria ser cancelado e todos os novos funcionários contratados pela CLT e recolhendo para o INSS, como todo o povo brasileiro. O país é um só. Todos são iguais perante a lei. O Governo proclama esse slogan na televisão todos os dias. É só para enganar? Somente num país de irresponsáveis pode haver uma orgia como essa, que quem paga a conta é o povo. 44


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O AMRJ ficou muitos anos tentando trabalhar dentro do regime de funcionários públicos. Quando teve de realmente encarar trabalho e produção real com a construção das corvetas e dos submarinos, a solução foi contratar pessoal especializado pela CLT e assim é como funciona até hoje, em sistema híbrido.

NO INSTITUTO DE PESQUISAS DA MARINHA Em 1960 ao me apresentar ao Instituto, o prédio estava nos estágios finais de acabamento da construção e instalação interna dos laboratórios. Para lá haviam sido designados cinco engenheiros navais, o mais antigo Diretor, um engenheiro mecânico chefe do departamento de administração e os outros 3 engenheiros eletrônicos para o setor de pesquisas. Todos foram utilizados para detalhamento da instalação e testes das bancadas dos laboratórios e atuação para acabamento de alguns detalhes da construção civil e do mobiliário internos, seguidos por debates sobre os tipos de investigação e projetos que seriam iniciados com o funcionamento do Instituto. Por outro lado, o Chefe do Departamento de Administração dizia que agora ele não era mais engenheiro e sim administrador. E foi contratando gente para formar a equipe de suporte às pesquisas. Depois de seis meses, sem ninguém ainda estar trabalhando na atividade-fim do Instituto, haviam sido contratados 150 pessoas, o que consumia toda a verba anual. Esse fato imobilizou o Instituto. Ficou sem recursos sequer para adquirir componentes. Esse tipo de administrador com título, mas sem experiência, nunca deve ser nomeado para exercer função executiva real.

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O Diretor saiu em campo para conseguir mais verbas, mas perspectivas só no orçamento do ano seguinte. Nesse ínterim, completei 25 anos de serviço e, por lei do Congresso Nacional, por ter estado na guerra por dois anos, teria direito a me transferir para a Reserva da Marinha, com a promoção ao grau hierárquico superior. Pedi transferência para a Reserva tendo sido promovido a Capitão de Mar e Guerra e deixado o serviço ativo da Marinha em agosto de 1961.

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