Page 1


Copyright © 2012 da Editora Jaguatirica Digital Todos os direitos reservados e protegidos pela Lei 9.610 de 19/02/1998. É proibida a reprodução desta obra, mesmo parcial, por qualquer processo, sem prévia autorização, por escrito, da autora e da Editora. Fale com a autora: cma.ale@gmail.com Capa: Vinicius Amaro Dados internacionais de Catalogação-na-Publicação (CIP) Mot917 Motta, Alê Diário de Obra: um mês na vida de uma arquiteta / Alê Motta. - 1. Ed. - Rio de Janeiro: Jaguatirica Digital, 2012. 1 v. ; 14x21cm. ISBN 978-85-912314-5-4 (broch.) 1. Literatura infanto-juvenil brasileira. I. Título. CDD 808.899282 Bibliotecária Responsável: Amanda Araujo de Souza Carvalho CRB 7/6351

Rua da Quitanda, 86, 2o andar - Centro Rio de Janeiro - RJ - CEP 20.091-902 Tel.(21) 3185-5132 Email: jaguatiricadigital@gmail.com Site: www.jaguatiricadigital.com Twitter: twitter.com/jaguatiricadigital Facebook: facebook.com/jaguatiricadigital


“Para os meninos da minha vida

Alberto, Calebe, Fernando e Marecil�


DIÁRIO DE OBRA OU MANUAL DE AUTOAJUDA PARA AQUELES QUE AS ENFRENTAM

Conheci Alê Motta durante o período em que ela foi responsável por uma obra em meu apartamento no Rio de Janeiro. Os trabalhos atrasaram bem menos do que eu esperava e percebi, ao longo do tempo, que parte do segredo dela era a boa relação que ela estabelecia com seus empregados (os famosos peões). Durante aqueles meses, fui conhecendo um pouco da mulher, por trás da autora que o leitor ora tem em mãos, e constatei que seu bom humor era a chave para seu sucesso. Alê conseguia manter-se bem humorada mesmo no meio da maior catástrofe, quando todos pareciam se desesperar. Os problemas da relação construtor/contratante, como todos sabem, já acontecem há muito mais tempo do que poderíamos supor. Acho mesmo que, na pré-história da humanidade, alguém já brigava com seu construtor sobre a reforma na caverna que não saíra conforme o combinado ou não respeitara o prazo estabelecido. Agora, com Diário de Obra - um mês na vida de uma


arquiteta, o leitor pode finalmente conhecer o outro lado da moeda. Com uma linguagem simples e bem humorada (sua marca registrada) Alê passeia pelas mazelas e agruras de uma arquiteta tentando levar a cabo suas diversas atividades. É uma leitura fácil, rápida e extremamente divertida. Alê mergulha no universo por trás dos panos e nos leva numa visita ao mundo das coxias das obras, do comportamento dos peões a seu linguajar característico, mostrando a dureza da vida de uma mulher que, além de profissional, tem que dar conta de inúmeras tarefas. Ao terminar de ler “Diário de Obra” acho que finalmente entendi a razão e a origem de uma antiga maldição hispânica, usada nos momentos de extrema fúria: Deus te dê uma obra! Mas isso é uma coisa da qual não podemos fugir e que, mais cedo ou mais tarde, acontecerá em nossas existências, então sugiro que o livro de Alê Motta, além de diversão, seja utilizado como um manual de autoajuda para aqueles que acreditam que, no caso das obras, não há luz no fim do túnel. É sempre produtivo olhar para o outro lado da moeda, acreditem! E divirtamse, pois o relato de Alê não pretende outra coisa. Miguel Falabella, ator e diretor


“Arquitetar uma boa história literária é um dom, uma benção, um exercício, uma vocação. Eu vejo esse dom na Alê Motta, que sabe entrar nos canteiros da nossa imaginação. Então, espero que esta seja a primeira de muitas obras da Alê e que os leitores tenham cada vez mais vontade de morar em cada uma das suas páginas.” Márcio Vassallo, jornalista e escritor.


Alê Motta

CAPÍTULO 1

Rio, segunda-feira, dia 02, muito sol e calor O trânsito – um horror O humor – como o trânsito Tarefas do dia – uma lista sem fim Cinquenta e sete minutos. Nenhuma chance do engarrafamento acabar e meu carro entrar no túnel. Tentei prestar atenção às notícias do rádio, mas encarar o engarrafamento interminável e ouvir o locutor detalhar que o trânsito de toda a cidade estava péssimo não ajudou muito. Pensei que começaria a ter algum problema irreversível na minha visão (de tanto olhar para a entrada do túnel) ou uma alteração mental (desespero que me fizesse gritar e pular na pista de asfalto quente). Música. Quem sabe pode ser a solução? 9


Diário de Obra

Mudei a estação do rádio (quatro vezes) e pude concluir, ou melhor, pude afirmar que Michel Teló me persegue. Não suporto mais o “Ai se eu te pego”. Socorro, alguém tenha piedade dos meus ouvidos e salve-me do que provavelmente virou o hit das manhãs caóticas de segunda-feira. Coloquei o cd, o ambiente mudou, comecei a sorrir como nenhum outro motorista sorria na intragável fila pré-túnel: punk-rock de nível, altura máxima para desanuviar a mente. O sol envolveu meu corpo inteiro e decidi cantar alucinadamente, encarando a música pesada como remédio ideal para esquecer as dificuldades: pernas dormentes e rosto incendiando. O celular tocava, o sol incomodava, o nextel tocava, meu mestre de obras estava atrasado, o engenheiro estava atrasado, os estagiários estavam atrasados, os peões eu nem arriscava perguntar. O Flamengo perdeu, eles vão atrasar muito ou nem vão aparecer na obra. “Posso fazer o solo da guitarra com a voz para acalmar?” O tempo correndo e os problemas se amontoando. Novos problemas apareciam e a vontade de não atender o nextel e o celular era tão intensa quanto a vontade de bater no Michel Teló. 10


Alê Motta

Assim que o mestre de obras, o engenheiro e os estagiários chegarem às obras, vai ser tenso. Quando eu chegar então... Parte 2 (Manhã inteira no engarrafamento, 39 graus e paciência virou um raro/precioso tesouro escondido. Onde ele está, eu não faço ideia). ​ eu mestre de obras foi rápido descrevendo a M matemática do dia: Oito peões faltaram. Amanhã as tristezas serão contadas, vamos olhar com cara de nada* para os oito. *Cara de nada é aquela cara que fazemos quando definitivamente nada pode ser feito, nem pelo Lula, nem pela Dilma ou mesmo pelo poderoso Obama. É aquela cara que fazemos quando entregamos a situação para Deus: o único capaz. ​Problemas por todo lado e a metade do dia se foi. Pergunta que não me responderam Eu e meu mestre de obras ao lado de um barulhento martelete em ação: - Fez besteira? Mas ele não tinha feito este serviço no cliente Q e no cliente W? – Perguntei surpresa - No Q, no W e no K. 11


Diário de Obra

- Pois é, tinha esquecido do K. Ficou tão bom nos três lugares, serviço perfeito. - Hmm (grunhido inexprimível do mestre de obras) - Fez tantas vezes e tão bem, como esse peão foi errar agora? - Hmm (grunhido inexprimível e irritante do mestre de obras) - Como? ​ iálogo encerrado. Talvez o calor afete suas D respostas. Momento lute pelo que é seu Ligação telefônica feita por mim ao financeiro de um dos meus clientes, após o clamor do meu engenheiro que não aguenta mais pedir, solicitar e está prestes a cair no soco com o cara. Não sendo a favor da violência, entrei em ação: - Meu engenheiro conferiu, o depósito não foi feito. Pode priorizar esse pagamento para mim, por favor? - Semana retrasada não é? Dia 23, está a data da parcela aqui sim... “Claro que está, essa é a nona parcela, o valor é igual, 12


Alê Motta

sempre de 15 em 15 dias, nada novo” Resolvi ser educada: - Então, é o que estou falando. O depósito não foi feito. - Ah... (Ah de quem descobriu a fórmula do não– envelhecimento) Pode conferir se não entrou na sua conta? - Então, nós já conferimos, não entrou. “Eu não estaria reclamando se os pagamentos estivessem em dia, estou lotada de tarefas” - Ah... (Ah de quem descobriu o amor da sua vida) Tem certeza? - Sim. Pode acelerar isso? - Claro... (Claro com a mesma entonação do Ah, muito batido para a continuidade do diálogo-apeloao-que-é-meu-de-direito) Me passa seus dados? - É a mesma conta de sempre. - Ah... (voltou o Ah dos descobridores) Mas pode enviar por email? - Envio sim e dito agora para você. 13


Diário de Obra

- Não é preciso ditar, me manda por email. - Ok. (meu Ok de desânimo) “Vou mandar o email agora e ainda assim aposto mais uns três dias de atraso...” ​ dia teve muitas outras emoções, mas vou parar O por aqui.

14


Alê Motta

CAPÍTULO 2

Rio, terça-feira, dia 03, quente-demais-da-conta, 35 graus e ainda nem são nove da manhã O trânsito – nada maravilhoso na cidade maravilhosa. O humor – melhor nem comentar, ainda é terça, início de semana, vou tentar não acumular estresse. Tarefas do dia – impossível dar conta

Na primeira obra cheguei antes do mestre de obras, que estava atrasado trocando o pneu furado do carro (décimo terceiro pneu em 10 meses). “Coitado, seu trajeto é recheado de pregos e alfinetes tenebrosos que perseguem os pneus do seu carro. Muito triste.” Quando no Rio de Janeiro não existia o helicóptero 15


Diário de Obra

que fornece a situação real do trânsito, nem a internet mostrando tudo o que acontece na cidade, (o prédio que pega fogo, a piriguete que... Esquece...) o trajeto do meu mestre de obras era cheio de acidentes e engarrafamentos. Agora são os pregos e alfinetes tenebrosos. ​ minha ideia era adiantar com ele um montão A de tarefas, mas quem tem poder contra pregos e alfinetes tenebrosos? Vou embora para a segunda obra e o trânsito continua lindo. ​ a segunda obra o estagiário passa alguns detalhes, N tudo vai bem e na metade do relatório que ele faz (se sentindo o Lula no palanque) eu não ouço nada do que é dito, porque me incomodo com o peão pendurado no telhado, com o cinto desamarrado: - Pescocinho! - Berro para ele (o peão, não o estagiário) - Ele sorri seu sorriso sem muitos dentes e estica seu pescoço nada discreto. - Fala, doutora. - Pescocinho, coloca o cinto. - Eu tô com o cinto. - Está com o cinto na cintura e ele não está preso a lugar algum. O sorriso do Pescocinho transforma-se em 16


Alê Motta

segundos: - Doutora, não dá para trabalhar tão amarrado assim. “Não, realmente, tão amarrado é tudo o que você não está, você está nada amarrado” - Pescocinho, sua vida é o mais importante. Amarra o cinto. Se você morrer como fica sua esposa? - Doutora... O pior não é morrer, o pior é ficar aleijado e virar corno. Com uma frase dessas eu fico sem argumentação. ​ o meio da tarde minha sobrinha de dezoito N anos (um metro e setenta, olhos azuis, cabelos encaracolados loiros e andar de modelo) encontrou comigo trazendo uns documentos do meu irmão. Ela encontrou comigo na terceira obra do dia. A terceira obra estava com os serviços adiantados. Serviços adiantados até minha sobrinha passar por lá e ficar dois minutos. Atenção - Magia das loiras altas: Os peões babam; 17


Diário de Obra

as paredes não sobem; a massa não fica pronta; a pastilha não é colocada; as placas de piso não vão para seu lugar no chão. Nunca achei solução para o caso. Fazer o quê, magia consegue ser pior que pregos e alfinetes tenebrosos!

18


Alê Motta

CAPÍTULO 3

Quarta-feira abafada, dia 04, três reuniões. O trânsito – infernal O humor – abraçando tentativas Tarefas do dia – número interminável

Reuniões ​ primeira reunião do dia é a que termina me A presenteando com: dor de cabeça, mal estar, desconfiança da existência de algum vírus no meu corpo e finalmente, a certeza de que envelheci uns três anos em três horas. Tive de explicar para meu cliente que o valor da obra estava fechado e sim, eu tinha dado um grande desconto (dei desconto três vezes, se desse mais desconto podia virar pipoqueiro, não ia ter lucro 19


Diário de Obra

nem pagaria salário a ninguém). Não pense que isso tudo aconteceu no primeiro dia ou primeira semana da obra. Segundo mês, parcelas definidas, projeto aprovado. Ufa, a vida pode ser complicada em meio a cimento e tijolos. ​ segunda reunião do dia era com o meu mestre A de obras, o meu engenheiro e quatro empreiteiros. Nenhum empreiteiro chegou na hora, metade dos assuntos da reunião ficou para a próxima reunião. A data da próxima reunião não ficou definida, claro. ​ terceira reunião era com um cliente que queria A um orçamento urgentíssimo: Ele queria orçar a mudança de todo o piso da varanda. Ele queria orçar a retirada do jardim. Ele queria orçar um novo e prático portão para a garagem. Ele queria orçar a troca total do telhado da casa. Ele queria orçar a cozinha nova. Ele queria orçar tudo. 20


Alê Motta

Ele queria fazer obra, mas não definiu nada da obra. Ele queria iniciar a obra, mas não decidiu quando iniciar. A reunião durou duas horas e meia e foi feita no fim do mundo. Peguei todos os engarrafamentos da noite e cheguei em casa uma hora da manhã. Com fome, calor, cansaço e nenhuma definição do cliente.

21


Transforme ideias em livros

Impresso pela Singular Digital na primavera de 2012

Diário de obra: um mês na vida de uma arquiteta (sample)  

Amostra com 22 páginas do livro "Diário de obra: um mês na vida de uma arquiteta", da autora Alê Motta.