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Duas Sombras, Duas Caixas, Uma Clareira José Henrique Carrari Filho Ana Cecília Mattei de Arruda Campos


Banca Examinadora Ana Paula Giardini Pedro Isabela Sollero Lemos Leandro Rodolfo Schenk


Pontifícia Universidade Católica de Campinas Centro de Ciências Exatas e Tecnologias Faculdade de Arquitetura e Urbanismo

Campinas Dezembro de 2017


À todos vocês, que são parte de mim.


Apresentação . 10 Território . 13 Plano . 17 Pausa e Cotidiano . 20 Espaços de Liberdade . 21 Arquitetura em Rede . 23 Objeto . 24 Projetos Sombra 1 . 28 Sombra 2 . 34 Caixa 1 . 40 Caixa 2 . 46 Clareira . 52 Partes do Todo . 58 Considerações . 60 Agradecimentos . 62 Bibliografia . 64


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Apresentação Da necessidade de habitar a cidade as favelas são, a rigor, solução. Não a solução formal, desenhada pelo poder público e econômico, não a solução ideal, imaginada por urbanistas e arquitetos. Ocupar é a solução primitiva, do instinto e, por isso, tão legítima e original quanto todas as outras. Com a ambição de pensar espaços que sejam lugares, este projeto tem como premissa dar condições mínimas para a promoção do encontro dotando o território de infraestruturas que alimentem o senso de pertencimento e enriqueçam as questões da esfera pública. Como crítica aos planos comumente empregados nas favelas brasileiras, que forçam as convenções da “cidade formal” comunidades adentro, o exercício propositivo toma como caminho o desenho de uma série de intervenções pontuais de pequeno porte que, em conjunto, reforçam o um. Apropriando-se de vazios abertos pelo plano urbano para a favela Vila Nova Jaguaré,

as intervenções se apoiam em linhas de fluxo para estabelecer espaços de pausa. Todos os projetos têm como característica programas de cunho sociocultural/econômico, mas buscam no traço o desejo de serem mais que sua função primordialmente designada. Com as denominações sombras, caixas e clareira, tais arquiteturas lançamse à liberdade do não definido para abranger, assim, o máximo possível das necessidades e demandas locais.


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T

CEAGESP

T

PQ. VILLA LOBOS

USP T T


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Território A favela do Jaguaré, localizada no distrito de mesmo nome, se desenvolveu desde os anos 60 nas encostas de um morro às margens do rio Pinheiros. O parque fabril, instalado na várzea adjacente, e a pujança da produção industrial paulistana do século XX atraíram milhares de pessoas para o que era remanescente de terra de um bairro desenhado nos anos 30. A região, do ponto de vista histórico “além Pinheiros”, se manteve inerente às transformações da metrópole por vários anos. O crescimento da cidade de São Paulo, entretanto, obrigou o desenvolvimento antes confinado ao centro e ao centro expandido a cruzar seus rios. Transformada em periferia central e, portanto, de interesse econômico, a Vila Nova Jaguaré tem sido, desde a década de 90, objeto de planos e estudos urbanos. O entorno consolidado e a abundância de infraestruturas, inclusive de escala metropolitana, fazem deste um território emblemático. A favela, contudo, sofre de carências

nas mais diversas áreas. A distância entre a comunidade e as estruturas da região, ali, deixa de ser algo físico e se torna algo político. O perto e o longe são redefinidos pelo acesso, ou pelo pouco acesso, da população aos bens urbanos. Apesar de ser uma continuação de regiões como Pinheiros e Lapa, o Jaguaré encontra-se mal conectado às áreas de São Paulo tendo, sob diversos aspectos, uma relação mais orgânica com Osasco que com o centro de seu próprio município. Com poucas transposições e as grandes infraestruturas de mobilidade posicionadas do outro lado do rio o distrito encontra-se, de certo modo, isolado da cidade que o cerca. O transporte público sobre rodas, por sua vez, percorre apenas as principais vias locais, geralmente localizadas nas áreas industriais, atendendo de forma falha tanto favela quanto bairro formal. A questão da qualidade ambiental, assim como em toda a cidade de São Paulo, é também


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aqui uma pauta relevante. Devido a sua ocupação desordenada e alta densidade construtiva, espaços livres públicos são praticamente inexistentes na Vila Nova Jaguaré. Grandes áreas verdes livres como o Parque Villa-Lobos e a USP, do ponto de vista cartográfico, amenizam a ausência desses espaços dispersos no território. Contudo, o acesso limitado a tais equipamentos os mantém, neste sentido, um tanto inexpressivos na dinâmica cotidiana dos moradores. A favela, reurbanizada desde 2006, é dotada de infraestruturas como pavimentação e saneamento básico, com água e energia contemplando quase cem por cento da população. A reocupação pósregularização fundiária, principalmente sobre áreas de risco ou públicas, têm, entretanto, revelado casos de residências sem acesso a tais serviços. Os equipamentos de saúde e educação existentes no distrito suprem parte das necessidades também da comunidade. Ali se encontram creches, escolas da rede pública e privada de ensino médio e fundamental e uma unidade básica de saúde. É possível encontrar comércio ativo em vias de maior fluxo, assim como em todo o tecido da Vila Nova Jaguaré. A favela conta também com a forte presença do programa Jaguaré Caminhos, mantido pela Congregação de Santa Cruz, que tem ali implantados diversos projetos educativos como o CCP (Centro Cultural Profissionalizante), CEI (Centro de Educação Infantil), CCA (Centro da Criança e do Adolescente) e o CIE (Centro de Inclusão Educacional), que oferece cursos às mais diversas faixas etárias. As deficiências do distrito e o desmantelamento em curso de seu parque industrial fazem do Jaguaré uma área passível de exploração imobiliária. A crescente oferta de grandes lotes têm atraído investidores a substituírem a horizontalidade das fábricas pela verticalização das torres de

apartamentos - processo reconhecido em outras regiões da cidade de passado industrial, como a Lapa. A favela também tem sofrido do mal mercadológico, muitas das áreas reocupadas pós-reurbanização são fruto do processo exploratório. A localização do distrito na metrópole e as boas condições como água, luz e esgoto têm trazido pessoas e levado ao aumento de construções de aluguel, muitas delas empreendidas, inclusive, pelo tráfico. Por fim, o distrito pode ser entendido como um território sobre o qual tangenciam as mais diversas infraestruturas urbanas. Sua função industrial trouxe para a região o suporte necessário às finalidades de produção e escoamento de mercadorias e, com isso, afastou dali equipamentos necessários ao bem viver de seus moradores. A Vila Nova Jaguaré, com as mesmas dificuldades de se conectar ao tecido de seu distrito sofre, portanto, duplamente este efeito de encastelamento. A iminente transformação das funções industriais traz a possibilidade de conferir a esta região hoje instável condições de acolher suas características locais e abrir-se para a cidade. A mudança, à cargo do Capital, contudo, deve ser acompanhada e regulada pelo Poder Público a fim de promover uma transição com qualidade e justiça para todos.


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CEI Santa Luzia

Clareira

S. Benfeitora Jaguaré

Caixa 02

Relógio ou Mirante do Jaguaré UBS

Caixa 01

Projeto Abrigar Sombra 02

Sombra 01

Paróquia São José do Jaguaré

Centro do Cidadão

Centro Dia do Idoso

CCP Centro Esportivo

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Alinhavo

EE João Cruz Costa

Projeto Reviva V

Escola Técnica Ambiental


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Plano Desenvolver projetos em favelas exige atenção não apenas às condicionantes topográficas, técnicas ou construtivas, mas também ao espectro social e cultural, à gente que vive ali. Neste sentido o projeto para a Vila Nova Jaguaré foi, na mesma medida, estimulante e desafiador: uma favela na região central da maior metrópole do país, recentemente reurbanizada, onde, cercada por áreas desenvolvidas da cidade ainda persiste a pobreza. A fim de suavizar as bordas dessa dicotomia urbana, o plano, costurado ao longo do primeiro semestre observou não apenas a favela, mas expandiu sua análise e propostas para todo o distrito. Apoiando-se em algumas perguntas (onde estamos, quem somos, como somos, o que temos?) e abrindo diversas frentes de trabalho (viário, mobilidade, ambiente e legislação) o projeto buscou abranger as mais diversas escalas presentes no território. A mobilidade urbana talvez seja a ponto

central a ser discutido tanto em relação ao Jaguaré quanto a sua favela. Observando os problemas de acesso e circulação, o plano criou e requalificou pontes e instalou uma linha de VLT que percorre desde o Terminal Butantã até o metrô Vila Madalena. O projeto urbano também se utiliza de estudos do Grupo Metrópole Fluvial para indicar a implementação de um porto de passageiros junto ao CEAGESP e qualificar as áreas de portos ao longo do rio com superfícies de parque, propondo, com isso, enterrar de forma sistêmica a marginal Pinheiros. Nas escalas do distrito e da favela também foram adicionadas importantes estruturas de mobilidade. Todo o sistema viário foi revisto e remodelado com a distinção funcional sobre vias de maior ou menor fluxo sendo, posteriormente, aplicados projetos de qualificação e ambientação de parques lineares entre avenidas, como a Jaguaré e Politécnica, e arborização com estilo boulevard ou alameda. Com o intuito de conectar o distrito em seu


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meio imediato também foi desenhada uma malha cicloviária que se une à existente e potencializa tal modal. Na comunidade Jaguaré, por sua vez, implantou-se uma linha funicular que vencesse a alta declividade, assim como três pontos de transposição através de elevadores posicionados nas encostas mais acentuadas. As regiões de várzea, hoje ocupadas por indústrias em processo de desocupação é uma área em latente transformação. Partindo dessa característica o plano prevê a substituição do uso local por áreas de serviços, residenciais e culturais. Com a iminente mudança do CEAGESP para a região de Perus, e a consequente saída de um dos maiores mantenedores da empregabilidade local, foi proposta também uma parcela da área do distrito destinada a Indústria Criativa, a fim de qualificar e absorver a possível mão de obra remanescente. Para consolidar esta nova ocupação alguns parâmetros urbanos foram designados como regras de construção. Alguns desses parâmetros são definidor por zonas, de acordo com seu uso, incluindo recuos e gabaritos, outras regras, sem diferenciação são aplicadas por toda área de requalificação, como fachadas ativas, fruição pública, o alargamento das calçadas, dentre outros. Na favela Vila Nova Jaguaré o plano teve como foco, além das já mencionadas estratégias para vencer a declividade do morro, a abertura de espaços livres, a ampliação e qualificação de vielas, drenagem, ordenamento viário e o tratamento da paisagem com arborização. No que diz respeito à abertura de espaços livres, sobre os quais este presente trabalho pretende se debruçar, as áreas escolhidas foram, basicamente, áreas da favela sob a designação de áreas de risco. Toda a comunidade é classificada, segundo dados do Geosampa, como área de risco de escorregamento

R2, entretanto, existem duas regiões onde o solo tem maior grau de periculosidade. A maior destas áreas de risco, classificada como R4, é onde hoje se encontra o projeto desenvolvido pelo escritório Boldarini Arquitetos Associados – este, inclusive, com grande parte de suas áreas livres já reocupadas. Outra das áreas de risco, nível R3, é território sobre o qual um destes projetos se instala, a Sombra 1. A ampliação da rede de mobilidade por meio das vielas, abertura e conexão entre as já existentes, parte da identificação de caminhos necessários para maior integração da comunidade e dela com as infraestruturas propostas e seu entorno. Para desestigmatizar a presença e uso destas estruturas foram adotados alguns artifícios de projeto que podem estimular seu uso, como a implantação de sistemas de iluminação pública, pequenos jardins verticais, ou qualquer elemento paisagístico de pequeno porte nas fachadas das residências. O problema de drenagem é uma questão considerável no meio urbano, principalmente em áreas de favela. A alta densidade construtiva impede que as águas pluviais sejam absorvidas pelo solo, acarretando diversos problemas. Na Vila Nova Jaguaré o projeto de drenagem consiste em utilizar biovaletas e um dos lados da via para, economizando espaço do leito carroçável, garantir que a água das chuvas seja direcionada às baixadas com menor velocidade. Os equipamentos adicionados à comunidade são voltados sempre às funções do dia a dia dos moradores. Sobre o projeto de espaços livres do escritório Boldarini Arquitetos Associados foram adicionados três centros aos cidadãos, diferenciados por suas atividades direcionadas ao público, como o Centro Dia do Idoso, ou funções. Tais centros tem a intenção de evitar que a reocupação tome por completo essa área de intervenção. Em menor escala estão os vazios criados à partir de remoções,


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terrenos sobre os quais se desenvolvem Sombras, Caixas e Clareia. Tais espaços buscam dar suporte às atividades de cultura e educação e funcionar como possíveis anexos às atividades propostas pelo Programa Jaguaré Caminhos, como o CCP e CEI, além de fornecer áreas livres públicas qualificadas em meio à densidade da favela.


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Pausa e Cotidiano As ações, o corpo em movimento no espaço, são as bases fundamentais sobre as quais se assentam todas as relações humanas e, sobretudo, as relações nas cidades. Sob este aspecto o espaço da convivência, da vivência com o outro, se torna essencial enquanto suporte destas interações. É o andar e o parar, o ir, voltar, estar, ver e ouvir, falar, sentir. Em uma sociedade moldada para servir ao Capital e permeada pela virtualidade das relações, o atrito do encontro com o outro tem se tornado algo intimamente indesejado. Com a novidade das redes sociais e a construção das cidades com o fim de exploração nos mais diversos níveis, o bem-estar social fica em segundo plano. Além da falta latente de equipamentos e de áreas da cidade sem nenhum tipo de infraestrutura os espaços livres públicos, por excelência lugares de pausa e encontro, são cada vez mais escassos. Espaços de pausa e encontro podem ser

entendidos tanto como suporte de atividade do cotidiano quanto espaços da casualidade. Em uma cidade como São Paulo, onde o movimento e o tempo incidem de forma particular sobre as pessoas, tais espaços se fazem necessários pela absorção das possibilidades da alta dinamicidade local – um abrigo onde se pode sentar e ler um livro, uma praça onde os pais acompanham os filhos depois da escola, um jardim no qual pessoas almoçam durante o expediente, dentre outros.


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Espaços de Liberdade Qual seria o projeto fundamentalmente necessário em um território relativamente bem servido da cidade de São Paulo? Qual a demanda, possível de ser suprida pela arquitetura, em uma comunidade recentemente urbanizada e dotada de infraestruturas básicas? Uma possível resposta, sobre a qual este trabalho se apoia, é a construção de espaços sem função definida, de liberdade. Espaços de liberdade também podem ser pensados não apenas onde a vontade do usuário se manifesta sem qualquer restrição por parte programática do edifício, mas também espaços livres. Tal definição, abrindo margem para muitas das discussões terminológicas, neste projeto, aparece como termo que engloba e contrapõe os conceitos relacionados. A necessidade de espaços livres e de liberdades, sobretudo em um tecido denso e consistente como o de uma favela, é obvia. A percepção espacial quase homogênea em toda

a área faz a noção do vazio se tornar plena de significados. As intervenções presentes neste projeto buscam, portanto, fornecer suporte às atividades humanas necessárias, sem, contudo, separar o espaço edificado da ideia de vazio.


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Arquitetura em Rede Como estratégia para reestruturar a comunidade Vila Nova Jaguaré, e garantir que, mesmo com o pequeno porte das intervenções seja produzido um efeito considerável sobre o território, utilizou-se a ideia de arquitetura em rede. A eficácia de projetos pontuais que, juntos, atuam sistematicamente sobre as cidades já é comprovada, inclusive com conceitos como o de acupuntura urbana. Na favela do Jaguaré os pontos escolhidos, as já mencionadas áreas de risco e vazios abertos pelo plano urbano, coincidem também com infraestruturas instaladas pelo plano ou partes da comunidade que já apresentam potencialidades, como suas principais vias ou onde a presença do comércio é intensa. Como ilustração das arquiteturas em rede, pode-se pensar, se desejado, na cidade de Roma e em seu Mappa di Nolli, onde exemplos de espaços não necessariamente livres e não necessariamente públicos compõe a esfera pública. Estes espaços,

no mapa identificados como templos, igrejas, pátios, arcadas, praças, ruas e largos compõe a dinamicidade da cidade, muitas vezes até de modo mais intenso que a tipologia do grande parque urbano. As arquiteturas presentes neste projeto, por sua vez, tem a mesma intenção das estruturas presentes no Mappa: de serem espaços do dia a dia, para todos, antes mesmo de se posicionarem enquanto áreas cobertas ou descobertas, fechadas ou abertas, públicas ou privadas.


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Objeto O tipo em arquitetura é um assunto discutido à exaustão por muitos arquitetos e teóricos da arquitetura. Tipo é o ideal, um exemplo abstrato e inalcançável de determinada abordagem arquitetônica. A noção de tipo, neste projeto, é tomada pela cobertura, presente em todos os projetos e matriz das intervenções. Contrapondo a ideia de módulo universal tem-se, por sua vez, a noção do detalhe. Estes, enquanto elementos pontuais que compõe cada intervenção podem ser classificados como texturas, cores ou materiais que caracterizam e diferem aqui de lá. A necessidade de trabalhar no campo do tipo e do detalhe se fez necessária por dois motivos: dar unidade ao conjunto de intervenções e diferencia-las. Se o tipo tem como finalidade ditar a razão do todo o detalhe dá sentido a cada local. Existe, assim, uma relação clara entre ambos que vai além da questão tectônica, mas de síntese condutora dentro do processo intelectual de projeto.

O módulo de cobertura é que fornece a métrica. Utilizando de materiais de baixo custo, optase por elementos de pequenas dimensões com o intuito de facilitar o transporte de peças e tornar a execução possível sem o aparato de equipamentos de grande escala. Justificando as partes, pode-se destacar a utilização dos componentes da seguinte forma: • o pilar de concreto moldado in-loco, suporte para o desenvolvimento da estrutura, como componente que garante a adaptabilidade às diversas topografias presentes na comunidade; • as diversas formas de madeira, viáveis devido ao baixo custo e a possibilidade de cortes e ajustes no canteiro sem maquinário e mão de obra especializada; • o tirante, aqui desejado na medida em que se evita tocar o solo em mais de um ponto, buscando assim manter a leveza e a tenuidade dos espaços livres junto às intervenções.


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1.

Pilar de concreto Seção circular d = 35cm, moldado in loco

2. Junção da peça de arranque Chapa metálica, soldada 3. Montante do arranque Peça metálica composta, soldada

7. Viga composta Perfis retangulares em madeira Seção 10 x 24 cm Encaixe central “mão amiga” 8. Vigotas de madeira Seção variável

4. Suporte p/ tirante Perfil aço tubular d = 4cm, soldado

9. Placas OSB 1,20 / 2,40 m h = 3cm

5. Tirante rígido Perfil aço tubular, seção retangular Encaixe em gancho

10. Cantoneira Perfil C

6. Arremate passa-tirante Chapa de aço, soldada

11. Manta impermeabilizante Alwitra Evalon


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Sombra 01 Imaginado em um território hoje denominado área de risco o Mercado se estende de ponta a ponta no terreno entre as ruas Rouxinol e Três Arapongas. Conectando duas cotas distintas da comunidade, e se aproximando mais da definição de estrutura urbana que edifício, o objeto desenvolve-se a partir de uma escadaria que, quando aberta em patamares, pode abrigar atividades como a troca de mantimentos, aulas de jardinagem, plantio e colheita ou festas comunitárias. O acesso e transposição podem ser feitos através das escadas, plataformas elevatórias, e áreas de borda, em rampa. Estas, denominadas “áreas de apropriação local”, tem a intenção de evitar o avanço das construções particulares sobre área pública e criar um desenho que estimule a população a abrir suas residências ao novo espaço livre.


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RUA ROUXINOL / RUA TRÊS ARAPONGAS ÁREA: 1560 M2 COTAS: 739 - 754 (15 M)

IMPLANTAÇÃO


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A

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s

A

s

10.4

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s s C

s

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3cm

Acabamento da cobertura: OSB, manta impermeabilizante Alwitra e cantoneira em perfil C

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CORTE AA

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C 10.80

7.20

.80 .80 .80 .80 .80 .80 .80 .80 .80 .80 .80 .80

2.40

D i: 2%

2.40

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4.80

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Sombra 02 A Casa do Livro, localizada próxima de uma das estações funicular, é um espaço de pausa anexo a uma linha de fluxo. É o lugar para ver, ser visto e, se assim desejar, ler, escrever ou desenhar. O platô, elevado e necessário para planificação da Sombra tem como suporte muros de gabião com materiais de entulho proveniente das remoções realizadas. Desse modo, evita-se a saída e entrada de grandes volumes de material para dentro da favela e, de certo modo, a memória de seus antigos ocupantes se transforma em elemento edificante para os espaços agora comunitários. Com o arranjo e adaptação dos módulos de cobertura a intervenção ganha uma área de 77,7 metros quadrados. Em suas extremidades encontram-se dispostas pequenas bancadas/ estantes com altura de 80 centímetros que, com o intuito de manter o espaço livre e aberto, armazena os materiais necessários às atividades realizadas no espaço.


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ALAMEDA TUCANO / RUA QUATRO DE DEZEMBRO ÁREA: 457 M2 COTAS: 731 - 738 (7 M)

IMPLANTAÇÃO


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LAR ESTAÇÃO FUNICU

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B

s B

A

A 5

1.1

B

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34cm 30cm 9 cm

Acabamento de muro de gabião com “capa” de concreto

A

CORTE AA

B

B

B


i: 2%

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A A

A A

CORTE BB 3.60

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.80 .80 .80 .80 .80 .80 .80 .80 .80 .80 .80 .80

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Caixa 01 Com o intuito de impulsionar a produção local e organizar sua distribuição a Central é o espaço de negociações, armazenagem e exposição de produtos. Tem sua estrutura é dividida em dois pequenos blocos posicionados entre construções remanescentes. Nesta intervenção encontra-se um espaço para reuniões entre produtores e compradores, uma lojinha com mostruário dos produtos, copa, banheiro e um pequeno depósito para facilitar o despacho de mercadorias.


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RUA QUATRO DE DEZEMBRO ÁREA: 335 M2 COTA: 722,5

IMPLANTAÇÃO


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A

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A B

A

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Pilar em concreto com arranque metรกlico e vigas em madeira

A

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B 3.60

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.80 .80 .80 .80 .80 .80 .80 .80 .80 .80 .80 .80

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Caixa 02 Além de lugar de disseminação cultural e representações das artes do movimento o Cineatro configura-se como âncora em um dos pontos de transposição vertical. O objeto se faz desejável tanto pela dinamização do ponto onde se encontra o elevador quanto pelo terreno de declive acentuado. Com qualidades para receber apresentações de filmes, peças de teatro, recitais, palestras, festivais de música e noites de karaokê, o espaço se faz múltiplo e do ato por excelência.


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RUA LEALDADE / RUA TRÊS ÁREA: 250 M2 COTAS: 612 - 635 (23 M)

IMPLANTAÇÃO


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A

B B

s

B C

A

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A

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C

B B

CORTE AA

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A

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.80 .80 .80 .80 .80 .80 .80 .80 .80 .80 .80 .80

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3.60

CORTE BB

4.50 .60 4.50 3.60

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Clareira Espaço do imaginário, a Clareira se estabelece como vazio em meio a densidade construtiva da favela, é o espaço de encontro e de estar. Enquanto espaço livre a Clareira tem em si a liberdade de dar suporte às mais diversas atividades, desde pequenas feiras e festas comunitárias, bailes funk, partidas de futebol, rodas de tricô, dentre outras. Localizada em uma pequena baixada, a topografia do terreno permitiu que a água se fizesse presente como elemento da paisagem construída, com pequenas piscinas de chuva nas bordas do vazio. Os animais são o componente lúdico do espaço, com escalas irreais e estruturas de ferro torcido, estes objetos têm por finalidade estimular a imaginação de crianças e incentivar o uso da praça.


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RUA LEALDADE ÁREA: 564 M2 COTAS: 739 - 733 (6 M)

IMPLANTAÇÃO


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B

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s

s

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A B

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CORTE AA

CORTE BB


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Partes do Todo As referências tomadas como parte para o desenvolvimento deste trabalho foram muitas. Inúmeras fotos, encartes, desenhos, mapas, modelos e textos compõe estética e intelectualmente este conjunto. No campo de projeto, contudo, alguns nomes e obras se destacam. Produzido nos anos 80 para um concurso, o projeto do Parc de La Villette de Bernard Tschumi é a primeira referência a claramente inspirar uma abordagem junto ao território. Distribuindo suas Folie (loucuras, em francês) por toda extensão do parque o arquiteto busca dar unidade a uma área de mais de setecentos mil metros quadrados. Estas intervenções também têm como objetivo organizar uma malha que oriente os visitantes em seus percursos e estabelecer a arquitetura como força dominante no espaço. A inspiração de escala intermediária em termos de objeto arquitetônico é o MASP de Lina Bo Bardi. Esta referência, possivelmente contraditória em relação à primeira, traz ao projeto a noção do vazio

como força transformadora. A materialidade dos projetos da arquiteta também pode ser reconhecida aqui. O uso de materiais locais e singelos, aliados à técnica, fazem parte dos esforços de constructo e tectônica. Por fim, o desejo de aproximar a arquitetura da escala do Homem e de criar uma atmosfera onde o usuário é protagonista traz como análogos os projetos de Carlo Scarpa, sobretudo de seu Padiglione delle Sculture. A obsessão pelo detalhe no trabalho do arquiteto, diferenciando parte e tipo e levando a arquitetura à sua máxima potência, foram características desejáveis para as intervenções na Vila Nova Jaguaré.


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Considerações Fazer arquitetura é um ato de coragem, é um movimento otimista, e talvez ingênuo, frente às incertezas de um mundo por construir. Pensando um futuro melhor e digno para a favela do Jaguaré, valores como perseverança, luta e generosidade foram absorvidas à partir das histórias e condições locais e levadas, também, ao desenho de projeto. Ter contato com a realidade fria das exclusões sociais e espaciais trouxe reflexão sobre o tipo de sistema econômico onde estamos inseridos e suas consequências para a população e cidade. Toda trajetória acadêmica de um estudante de arquitetura culmina no trabalho final de graduação. Este presente trabalho, portanto, não é apenas sobre o desenvolvimento de uma proposta de projeto para a Vila Nova Jaguaré, é a cristalização do aprendizado acumulado ao longo da formação. A faculdade de arquitetura ensina mais que apenas o ofício da construção, ela nos faz críticos e, o mais importante, nos da capacidade de imaginar.

Tal liberdade pode ser entendida como a mais bonita das habilidades humanas, a imaginação nos permite sonhar, nos dando esperança e nos unindo em prol de algo maior que nós mesmos.


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Agradecimentos Obrigado, Ana Cecília, pelo companheirismo, a paciência e o norte durante toda essa jornada. Oswaldo, pelos conselhos às quartas; Vera e Antônio, por isso e muito mais que isso. Obrigado ao meu time, Ilana, Isadora, Raphael, Thais, Flavia, Carol e Karina. Obrigado Guilherme, Daniel, Giliarde, Matheus e Afonso pelo impulso inicial. Obrigado Tami Naniwa pela parceria de todos os outros anos. Obrigado aos mestres que me formaram, à banca examinadora deste trabalho, aos meus amigos e, principalmente, a minha família.


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Bibliografia CARERI, Francesco. Caminhar e parar. São Paulo: Gustavo Gili, 2017. FRASCARI, Marco. O detalhe narrativo, in: NESBITT, Kate. Uma nova agenda para a arquitetura. São Paulo: Cosac Naify, 2006. FREIRE, L. M. . Encostas e favelas: deficiências, conflitos e potencialidades no espaço urbano da favela Nova Jaguaré. Tese [mestrado]. São Paulo: FAU USP, 2006. GREGOTTI, Vittorio. Território da arquitetura, in: NESBITT, Kate. Uma nova agenda para a arquitetura. São Paulo: Cosac Naify, 2006. PERROTTA-BOSCH, Francesco. A arquitetura dos intervalos. Disponível em: https://www.revistaserrote. com.br/2013/12/a-arquitetura-dos-intervalos-porfrancesco-perrotta-bosch/. Acesso em 18/06/2017.

PIZARRO, E. P. . Interstícios e interfaces urbanos como oportunidades latentes: o caso da favela de Paraisópolis, São Paulo. Tese [mestrado]. São Paulo: FAU USP, 2014. ROSA, Marcos L. . Microplanejamento: práticas urbanas criativas. São Paulo: Editora de Cultura, 2011. SIZA, Álvaro. Imaginar a evidência. São Paulo: Estação Liberdade, 2012. TELLES, Sophia S. . Lina Bo Bardi - Pesquisa: arquitetura moderna em São Paulo. Campinas: PUCCampinas, 1991. ZUQUIM, M. L. . Intervenções contemporâneas em cidades da América do Sul: estudo das transformações territoriais em assentamentos precários. Brasil – Colômbia, in: III ENANPARQ.


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Imagens: 01 e 03 - acervo pessoal; 02 - fotografia aérea (Google) e produção autoral; 04 - Mappa di Nolli, disponível em: http://www.lib. berkeley.edu/EART/maps/nolli; 05 e 06 - acervo pessoal; 07 - Parc la Villette, disponível em: http://www. tschumi.com/projects/3; 08 - Masp. Foto de Hans Gunter Flieg/ acervo IMS, disponível em: https://www.archdaily.com.br/ br/772263/fotografando-a-obra-de-lina-bo-bardiparte-3/55d68a81e58ece5ffc000097-fotografando-aobra-de-lina-bo-bardi-parte-3-foto; 09 - Padiglione delle Sculture. Foto de Orazio Saluci/ Divisare, disponível em: https://divisare.com/ projects/325897-carlo-scarpa-orazio-saluci-giardinodelle-sculture.


Duas Sombras, Duas Caixas, Uma Clareira - Intervenções na Vila Nova Jaguaré  

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