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lementino meu tataravô, numa certa época ele estava no RJ para guiar uns turistas americanos até as cidades de Ouro Preto e outras cidades conhecidas na época, pois havia muitos aventureiros e bandoleiros, e por isso a necessidade de um guia, o americano se chamava Davy Shimit e suas parentelas queriam conhecer essas cidades históricas, só tinha um problema, os nomes... Tudo estranho, mas isso tudo não tinha importância, pois eles também não acertavam falar o nome dele, ora era Clemeniti... Ora o chamavam de Clinity... E assim foi até Ouro Preto e outras cidades de MG e fizeram uma grande amizade até a volta no RJ. Na hora da despedida, o pagamento e um presente para o senhor Clementino, um colt 45 e um rifle de repetição coisa muito moderna no BR para ano de 1.862 um colt de seis balas inventada pelo senhor Samuel Colt, um pouco antes da guerra da sucessão no EUA. E ainda com coldre e tudo que tinha direito, era muito para um caipira que estava acostumado com uma garrucha de dois tiros. Davy falou da guerra de seu país e por que fugiu para o BR e ele dizia que tinha muitos escravos e teve que fugir, senão seria morto pelos ianques, mas Clementino não entendia nada mesmo, (era por causa da pronuncia do americano), e dali para frente o Clementino ficou mais afamado ainda e passou a ser mais respeitado. Voltou para minas com muita fama, já tinha o nome de caboclo e agora era um pistoleiro, pode uma coisa dessas numa época em que os barões dominavam tudo alem dos coronéis que faziam as leis das fazendas e também nas cidades. Num instante muitos estavam atrás de seus serviços, mas ele era um homem do bem e nunca do mal, por isso mesmo ouve muita separação de quem ou com quem ele iria trabalhar. Aceitou trabalhar numa enorme fazenda do senhor Bento S. Moreno lá pras banda de Sabará (Sabarabussu) que era encostada com uma tribo de índios Tamoios ou tupis, índios ainda selvagens, quando os bois do seu patrão se perdiam nessas matas era ele quem ia resgatar, e diziam que muitos boiadeiros foram mortos por esses índios ao invadir as suas terras. E certo dia Clementino precisou ir até as terras desses índios e foi sem medo, mas foi capturado e levado ate a tribo ou a maloca diante do chefe, como ele foi sem oferecer força os índios nem o... Desarmaram, e tem inicio uma grande batalha de palavras. Ele sabia falar o tupi guarani e foi fácil para ele desafiar o cacique ou o melhor guerreiro para um ato de bravura. Embora eles quisessem matá-lo sem lutar, mas um dos guerreiros disse – O homem branco não esboçou nenhuma reação ou é muito valente ou é muito covarde... Eu mesmo vou lutar com ele, cacique Iure... Não Anhangá (espírito do mal) ele é muito pequeno. Então colocaram o bravo guerreiro Clementino numa árvore e o amarram bem para não fugir, e mandou uma índia pelo nome de Iracema lhe dar comida... E não é que ele se encantou pela índia? E a índia por ele, depois de comer os índios fazia maior algazarra em volta dele e alguns começaram a praticar com flechas, mas sem acertá-lo, só de raspão pra intimidarem as suas vitimas, mas esse nem se abalava. Vendo essas coisas o cacique mandou solta-lo, e chamou o guerreiro Anhangá e disse – você lutar com branco e se vencer pode matar... -37-


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e ele viver, terá a liberdade e a luta vai ser de tacape uma espécie de porrete ou clava. Clementino já lutava capoeira e conhecia esse tipo de luta, só não sabia como o índio lutava, o índio era sujo e usava de toda forma para vencer e podia ser qualquer um, imagina um branco então, nessa hora os índios formaram uma roda em volta dos lutadores e gritava o nome de Anhangá o terrível. E tem inicio o combate, agilidade e técnica eram com Clementino, que desviava dos golpes desferidos por Anhangá, enquanto o índio jogava areias em seus olhos e gritava feito uma fera, e os outros índios riam e gritavam de alegria, de repente Anhangá acerta um golpe de raspão nos ombros de Clementino, que cai... Mas cala diante da dor. A luta dura mais ou menos vinte minutos e eis que Clementino acerta um duro golpe no braço de Anhangá que cai gemendo de dor. Clementino prepara o golpe final... Mas não desfere esse que seria a morte de Anhangá, os índios se calam diante dessa situação. O chefe interfere na briga e diz – O branco tem o direito de matar manga... E porque não o fez. Clementino responde – Foi uma luta justa... Eu não mato inocentes... E todos os índios gritam... Ia o grande guerreiro corisco... E resto do dia só foi festa e quando acaba Clementino negocia os bois que estavam nas terras dos índios com o chefe Iure que aceita, mas somente a metade dos bois que foi aceito pelo Clementino. Durante as festas Clementino procurava com os olhos avistar Iracema à bela índia e que não via desde luta, e de repente o chefe chama todas as suas filhas e apresenta para Clementino e eis a sua grande surpresa? Que ela estava entre elas. Formosa e muito bela, porém muito brava e valente o cacique percebeu o olhar de Clementino sob a sua filha e disse – Clementino você conquistou a minha simpatia e a minha amizade. Agora você será o meu irmão, e futuramente será o meu parente, pois o nosso costume é que as nossas índias só se casem quando completarem dezessete luas, ai então ela será a tua esposa como vocês dizem. Clementino pergunta ao cacique se podia falar com a Iracema, a permissão foi dada, e Clementino fala pela primeira vez com a Iracema e diz gostei muito de você, quer ser a minha esposa... Ela afirma que sim com gestos. E ele diz no momento é será muito difícil pela sua lei, mas daqui uns anos nos casarão segundo os seus costumes. Ela sorri e seus olhos negros brilham de alegria, e ele diz passarei aqui com mais freqüência ate que você cresça e se torne a mais bela das mulheres... O cacique devolve a suas armas e roupas, Clementino e sai aplaudido, faz promessa de voltar. Levando os bois e depois de três dias ele chega à fazenda para o espanto de todos inclusive do fazendeiro que o aplaudiu e disse - Eu ouvia falar da sua fama, mas agora eu acredito e acrescento mais é um homem macho... E Clementino no ano de 1.862 épocas que foi capturado pelos índios tupi. Vestido a caráter segundo os costumes dos índios naturalmente O novo feitor de toda essa fazenda de norte a sul de leste ao oeste e assim tem dito. Alem de resgatar o meu gado ainda voltou vivo, mesmo que fosse a metade da metade eu já estaria agradecido. A quantidade desse gado era de trinta e dois bois e o resto os índios comeram, esse foi o tempo em que meu tataravô namorou Iracema e a sua futura esposa, ficou trabalhando nessa fazenda por quatro anos e depois saiu. Por sentir muito preso ao trabalho que era muito exaustivo. No ano de 1.867. -38-


Voltou novamente a fazer o trabalho de guia de turistas, no ano de 1.870 a saudade fez que voltasse para ver a sua amada Iracema, ficou um ano com os índios, caçando, pescando e até receber um convite de barão. Que se chamava Dr.Clovis W. Silva e estava desesperado com a sua esposa e a morte dos capitães da mata. A princípio ele Clementino não queria, mas depois cedeu aos apelos daquele barão. Mas deixou o casamento marcado para o ano de 1.874 com a bela Iracema, e partiu para a tristeza de sua amada. Voltamos ao tempo de hoje e lembrei que já no ano de 1.863. José de Alencar fazia uma referencia a índia Iracema e o império de Don Pedro II iniciou 1.831 – 1.889. E era o fim do imperialismo no BR. Esses causos eram contados na beira de fogão pelo meu falecido avô, às vezes durava uma semana para serem contado, um pouco antes o pessoal proseava e tomavam um cafezinho. E tudo certo o meu avô pedia que todos fizessem silencio e começava tudo de novo, até parecia uma novela e sempre com um final eletrizante e traumático, e amanhã continua no mesmo horário. Normalmente era uma turma de oito a dez pessoas e nunca o pessoal perdia essas estórias. Essa que conto aqui levou mais de uma semana para ser contada, mas aqui esta muito resumida e deixei de falar muitas coisas. Naqueles tempos esses causos eram contados numa cozinha ou beira de fogueira que normalmente não tinham conforto nenhum, aquele que chegasse primeiro se acomodava no melhor local da cozinha e os piores era de quem chegasse por último. E todos aguardavam com muita ansiedade para que chegasse dia seguinte para ouvir as seqüências desse causo que envolvia os nossos antepassados. E no outro dia as mesmíssimas coisas, um perguntavam – E daí avô... O seu Clementino se casou?... O outro o que aconteceu?... E todos realmente ficavam curiosos para saber. O nosso avô dizia se acalmem e vamos ao que interessa... E no ano de 1.871 chegou à cidade de Sabará e perguntou onde ficava a fazenda Sabarabussu, e logo indicaram a ele direção dessa tal fazenda, cavalgou mais um dia e chegou muito empoeirado e cansado encostou-se a uma bica de água e apeou do seu cavalo e tomou muita água. Depois foi a vez de o seu cavalo saciar a sede, e enquanto passava um lenço no pescoço quando viu um pião que passavas por ali e perguntou – O senhor conhece o Dr. Clovis... O pião estalou os olhos e disse – Oia... Moço eu conheço sim, ele quase foi morto esta noite pelas feras. Clementino estava muito preocupado com esse grande mistério, seu pai sempre falava - Não tenha medo dos mortos, e sim dos vivos. Revolveu falar com o carapina e novo, o procurou nas estalagens, mas não achou, então foi até a casa nova e lá estava ele serrando alguma madeira, ou seja, trabalhando como de costume e pediu se podia conversar um pouco no que foi atendido rapidamente. Antônio disse tudo bem seu Clementino, ele respondeu esta quase tudo bem!

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Se não por esse mistério que ronda a fazenda, as mortes sem soluções. Seu Clementino o senhor acredita em espíritos malignos? Ou pessoas que são incorporadas por demônios? Acredita em sacis, ou mulas sem cabeça, caipora, e mais um montão de demônios. Responde Clementino - Claro que não, mas por que disso agora. Eu vou lhe explicar então meu caro... Mas se o senhor for amigo dele, ele mesmo vai te contar... É muito perigoso ficar falando dessas coisas aqui... Qual é o seu nome pião... É Antônio L. Queiroz, ao seu dispor moço. Obrigado e o meu nome é Clementino ao seu dispor. Bem seu Clementino a casa do doutor é aquela ali, a maior todas e de branca. Então ele caminhou até a casa indicada e tiraram do seu alforje o seu cinturão com o colt e colocou na cintura e bateu palmas até alguém viesse atendê-lo, o próprio Doutor que o atendeu e cumprimentou aquele lendário homem do sertão. Convidou a Clementino a entrar, mas antes ele disse – Tire o seu rifle também da bainha que esta no cavalo, senão eles te furtam. Quem? Perguntou Clementino. Eu sei lá quem, só sei que estou ficando a cada dia mais nervoso ainda... Mistério rondava aquela casa e todos pareciam fugir de alguma coisa. Mas mesmo assim ele ainda teve força para dizer a Clementino que o seu salário seria quando acabasse com esse mistério. E disse o doutor Clovis - Morreu alem dos capatazes, também alguns negros, e vaqueiros e serviçais da casa e o que pode ser? Um relincho de cavalo fez que Clementino saísse da sala o mais rápido possível para ver o que estava acontecendo, seu cavalo dava coice e pulava sem parar. Então ele procurou com seu olhar nos cantos e nas sombras, mas nada vê, senão um vento de dar calafrios. Voltou para dentro casa e proseou mais um pouco com o Doutor e depois disse estar cansado pela longa viagem, naturalmente o doutor ofereceu um de seus quartos, mas Clementino se negou e disse – Estou acostumado a dormir no relento Senhor, espero que o senhor me entenda... É claro senhor Clementino, tenho uma acomodação lá no celeiro, daqui a pouco mando levar o jantar e fique a vontade. Já bem tarde da noite o nosso justiceiro sai à procura de alguma coisa, primeiro vai até a senzala e espia os negros, mas nada vê, senão uma escuridão só e vai até os dormitórios dos piões e também nada vê, a não serem comentários; sobre o novato que tinha chegado à fazenda, que era ele mesmo. Ficou escutando um pouco mais e depois sai de mansinho, para que ninguém o visse e foi para o seu local de dormir ou para o celeiro. E o mistério continua!! Nem os negros nem os piões? Quem será? A misteriosa criatura que anda matando gente por essas bandas? Depois de uma semana de investigação, nada? Nadinha mesmo? Infiltrou-se entre os vaqueiros e nada, depois de três dias só percebeu medo entre eles, então foi fiscalizar entre os negros durante a colheita de café e também só havia terror entre eles. Então o que poderia ser? Foi até a casa do doutor o fazendeiro e começou a prosear com ele e dar o seu parecer já que passava e meses. Doutor então falou – Deve ser algum maníaco... -40-


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ano... O que doutor? Perguntou Clementino – o doutor responde – É maníaco seu Clementino, é ou são pessoas que tem distúrbio mental, normalmente são pessoas inteligentes e atacam por serie ou não, mas o que é estranho em tudo isso que só foram homens, os atacados e sempre os mais fortes. E outra coisa desde que você chegou ninguém foi atacada, e por que será? E outra coisa porque sós homens? O normal são mulheres e não homens. Clementino pergunta – Será... Algum fiscal ou administrador que o senhor dispensou da fazenda e por vingança ele esta matando os seus piões? Eu acho que não seu Clementino, mas vamos dar uma olhada no livro do guarda livro (Contabilidade) e ver se consta algum suspeito. O doutor leu os nomes e não achava nomes e dizia para Clementino – Veja bem todos os nomes que foram embora ou saíram da fazenda, nos pagamos os anos trabalhados e até os meses, esta difícil seu Clementino. Clementino pensa, mas nada diz ao doutor, somente que vai sondar alguns nomes... Doutor pergunta já descobriu alguma coisa seu, seu... Ainda não doutor, mas até esse fim de mês já saberei quem é... Responde-me uma pergunta doutor, que dia que o guarda vem pra levar as notas da fazenda, o doutor responde é pra semana que vem por quê? Vai precisar de dinheiro seu Clementino? Seu Clementino nada responde, mas diz - E a sua senhora, doutor, como ela é ou se comporta durante o dia e a noite? E aquele senhor que se chama Antônio L. Queiroz? Bom esses nomes são impossíveis, o contador só vem aqui de seis em seis meses, minha esposa eu praticamente passo com ela o dia todo e também à noite, quanto ao senhor Antônio ele é o um carpinteiro ou carapinha da fazenda ele não é de muito briga, e nem de sair por ai matando! É medroso então?... Eu não disse isso senhor Clementino, então Clementino pede licença e sai para pensar um pouco e resolve conversar com alguns negros em particular. E logo que passa um por perto ele o chama – Eia, negão venha um pouquinho aqui, qual é o seu nome – GO... Gonzo... Sinhozinho. Vou te chamar só de GO, você tem visto algo estranho nessa fazenda? Sim, sim sinhozinho, É um bicho muito peludo e devora tudo que encontra pela frente... Mas tudo mesmo? Pensei será um lobisomem? Não essas coisas não existem, despedi do negro GO e caminhei até o celeiro e lá estava uma mulher. Que se apresentou como uma mucama da casa e que tinha algo do meu interesse, eu pergunto o que você tem a dizer mulher – Ela respondeu...

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em, sinhozinho o meu nome é Ula. O que eu queria fala... A vos que sempre vejo a patroa saindo bem tarde da noite, noite de lua cheia. Então pedi a Ula que voltasse ao seu trabalho de aia, e fiquei pensando ainda mais no assunto do lobisomem... O mistério continua cada vez mais embaralhado... Antônio entra bem de vagar para não levantar suspeita e fala á Clementino... O Senhor já leu a bíblia? Não... O que é isso? Diz Clementino e o que tem haver com essas mortes. Então o senhor Antônio começa explicar letra por letra até o homem quase entender as questões espirituais. Na noite seguinte fez novas explicações, e assim foi à semana toda, e até que numa semana seguinte ele foi à noite à casa de Antônio para conversar mais um pouco, mas para sua surpresa ele vê ali na sua frente uma criatura toda peluda, mas que andava como a gente mesmo. Ele ficou perplexo com aquela coisa e sem reação alguma, nisso a fera lhe da uma arranhada em seu peito e foge se embrenhando na mata. Mas fugiu por causa de Antônio que gritava o seu nome, e bem alto senhor... Clementino, Senhor... Seu Clementino ainda estava meio tonto, e se levantou meio sem jeito e perguntou que animal foi esse senhor Antônio? É o demônio que te falei seu Clementino. O ataque foi rápido e certeiro, mas falho para uma besta segundo o seu Clementino, se fosse uma onça pintada eu já estaria morto, mas vamos ao que interessa. Vamos preparar uma armadilha para esse animal, ou seja, o que for... Como já era noite, eles arquitetaram um plano e foi dormir, seu Clementino volta para o celeiro e se ajeita para dormir, mas não consegue e fica pensando naquela fera. Nisso ele ouve um barulho na porta, alguém tentava abrir a porta, ele se levanta e fica de alerta para um ataque, já era bem tarde da noite e o que queria alguém há essas horas no celeiro? Assim pensava Clementino, o barulho na porta aumenta e o vento rangia alguma madeira solta pelo tempo, era uma noite de terror e agora o que fazer? Senão aguardar o ataque... Já na segunda feira todos ansiosos como de costume, a noite chega e com ela todos para ouvir os fatos novos de estória do seu Clementino. Segundo o meu avô o causo ocorrido no que já foi falado, levou quase seis meses de estória real. Mas que ele abreviou bastante para fosse possível contála. E sempre tinha um que perguntava que ano que era mesmo, avô? Ele não ouvia bem e dizia – A ele era novo ainda tinha trinta anos e o meu pai o senhor Antônio tinha vinte anos... E ais todos riam gostosos, e ele então chamava atenção de todos ou raiava como dizia o meu pai. E vamos então à estória do Clementino... 1.871 Clementino quando ouviu o barulho na porta ficou alerta, levantou rapidamente e pegou o seu revolver e o engatilhou, pois sabia que alguém ia atacar eis de repente um grande barulho na porta. Dando a impressão de ser alguém a forçando para abrir e forçou tanto que ela se abriu. E com ela vem um corpo todo ensangüentado ou mutilado, estava um horror. Nosso caboclo da um salto para traz e da um grito de terror... Meu Deus o que é isso, mais que depressa ele vai até a porta para ver se tem alguém, mas nada vê, pois a escuridão era intensa, só se ouvia grilos e rãs e mais nada, entrou rapidamente e escorou aporta e acendeu a lamparina para ver melhor quem era o tal. Mas tinha muito sangue e estava irreconhecível, no celeiro já tinha uma vasilha com água, rasga um pedaço de pano da sua própria camisa e começa limpar o rosto da suposta vitima. -42-


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as quem será esse pobre coitado e vai esfregando até ficar com os ferimentos limpos. E vira a vitima para ver quem era, mas não o reconhece, apalpa o seu coração e ouve batida muito leve, e já sabe que resta pouco tempo de vida. Então a vitima balbucia algo em sua voz ainda tremula e dizia assim – Foi ele... O lobo... Eia... Uii... Clementino ainda sacode a vitima, mas já é tarde demais o homem morre. Já passava das onze horas da noite, então Clementino resolve esperar o dia clarear para depois tomar providencia. De manhã ele vai até a casa do doutor e pede que ele o acompanhe até o celeiro e lá ele mostra o corpo pro homem e diz – Esse morreu aqui às dez horas da noite, o doutor olha bem para o rosto do morto. E diz – Esse estava desaparecido da fazenda já faz alguns dias ou há meses, morava no norte da fazenda e lá fiscalizava os cafezais. Fazia ronda até o oeste da nossa propriedade, o seu nome era Getulio da silva... Um suspiro e depois fala com uma voz embargada – o infeliz era um grande trabalhador e sua família é e está no sul da Bahia, como vou justificar mais essa morte, meu Deus, que fardo que estou carregando. Clementino aproveita e comenta de ter sido atacado umas horas antes da morte desse infeliz e foi por um suposto animal, mesmo porque só vi um vulto que de repente me atacou. Deixando essas marcas em meu peito, e a minha camisa rasgada... O que será isso seu Clementino? Eu não sei, mas tenho uma idéia e vamos executar pra esses dias doutor, o pessoal da fazenda providenciou o enterro do pobre coitado, e depois caboclo resolve pescar um pouco para esfriar a cabeça. E fica por lá até a tarde, já quase à noite e leva os peixes para o cozinheiro dos piões, que agradece e convida para jantar com todos. Ele aceita, pois quer conhecer melhor o pessoal das empreitadas e as modas tocadas por alguns deles. Depois que todos jantam se reúnem debaixo de uma árvore bem frondosa que se chama Santa Bárbara, e debaixo dela uma fogueira e uma roda de piões bem grande, dois violeiros começam a tocar algumas canções, enquanto outros contavam causos, ocorridos durante o dia... E o assunto preferido foi sobre a morte do fiscal, naturalmente o temor estava entre eles, pois quem seria o próximo? Clementino só ouvia até o momento que alguém disse – Contrataram um porqueira pra nos defende, mas cadê o valente? De merd... Não deu tempo nem de terminar a frase, levou um soco direto na mandíbula e caiu já desmaiado. Era Clementino mostrando a sua valentia e garra, depois disso ele vai até o meio da roda e diz - Quem souber de alguma coisa é só me dizer, o que eu não aceito são ofensas contra mim, e se tiver alguém que tiver alguma duvida e só levantar e vir até aqui, que medo eu não conheço. Olhou para os lados e ninguém levantou então ele se acalmou e sentou novamente, o cozinheiro era muito experiente e gritou – Vamos à cantoria homens, que a noite é curta. Normalmente depois do banho e da bóia os piões deixavam as suas armas nos galpões e essa foi à salvação, pois nessas brigas quando estão com armas à morte sempre se faz presente. Depois de vinte minutos o homem que caiu com um direto se levanta e diz cadê o cavalo que me atropelou? E todos riam gostosamente, e anda diz – Nenhum homem até esse momento tinha derrubado o grande Pedrão, pois eu digo agora que esse merece o meu respeito. -43-


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lementino só ouvia e nada disse, somente balançou a cabeça concordando com a fala de Pedroso. A pista que Clementino esperava não vem nessa prosa de piões, mas ele estava muito amargurado ainda pela morte do fiscal na noite passada, depois de uma semana ele decide ir até a casa do doutor, mesmo sabendo que já era tarde da noite, mas os lampiões ainda estavam acesos, por isso se arriscou e para sua surpresa a porta estava aberta e bateu palmas na entrada da sala e logo desceu uma bela mulher, com roupas leves e na cor negra, mas que mostrava os seus belos contornos, e com ela desce um guarda costa negro de quase dois metros de altura, então Clementino diz – Boa noite minha senhora, eu vim falar com o doutor e... Ela percebeu o vacilo de Clementino e diz – Ele não se encontra moço, mas pode falar comigo mesmo, ou aguarde aqui na sala, pois ele pode retornar a qualquer momento. Ela falava pausadamente dando a impressão de um convite, Clementino diz, não é melhor eu ir... Ela não... Fique por favor, estou com medo! Medo? Pergunta Clementino? Sim senhor... Ela responde... Então Clementino se apresenta à senhora. Então ela diz – A o meu é Raquel ao seu dispor e eu já ouvi falar do senhor, embora o senhor esteja aqui a mais de seis meses, eu estou sempre viajando para casa de meus pais que moram em SP e quando o senhor chegou, eu estava indo para lá, por isso nós não conhecemos. O senhor é o homem que meu marido contratou? Não foi seu Clementino? Ele mal conseguia dizer sim, pois seu pensamento estava muito longe dali naquele momento, de tão bela que era a mulher. Foi um feitiço que durou por um instante, mas logo ele voltou a si... E diz o que foi mesmo, minha senho... Foi o meu marido quem o contratou seu Clementino. Daí ele responde que sim, e ela ainda diz – Esse meu protetor é surdo e mudo pode ficar tranqüilo, mas logo em seguida se despede e vai para o celeiro onde dormia todas as noites. Seu Clementino era um homem matuto, não estava acostumado a essas delicadezas, e já fazia tempo que não via uma mulher tão bela como ela. Mas seu coração estava para Iracema, não queria quebrar o pacto com o seu amor, mas qual é mesmo o nome dessa mulher pensava Clementino... A deixa pra lá... Chegando ao seu local de descanso, ele pensa onde será que foi o doutor? Dizem que muitos fazendeiros botam um eunuco para vigiar as suas mulheres. Será que esse negro é eunuco da madame? Não fala, não ouve, mas é um gigante o homem, meu Deus? Enquanto ele ficava ali se questionando, Raquel espancava o negrão com um chicote e dizia – você é um imprestável seu nojento, não conseguiu dar um fim nesse nanico de uma figa, vou te dar mais uma chance pra você e será esta noite seu miserável. Sem saber de nada Clementino, já estava deitado sobre as palhas e se preparou para o pior, ele havia jogado uma isca e pensava será que vai dar certo? Preparou o seu colt 45 e deixou bem debaixo de si. E tentou dormir, mas nada de sono, ficou pensando que a mucama disse a respeito da patroa, também no jovem escravo que também chamou a sua atenção alem do morto tentou dizer alguma coisa. Antônio L. Queiroz foi outro que avisou sobre os espíritos malignos, depois de tanto tempo sem morte nenhuma...

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gora nessa semana aparecem mortes, será possível meu Deus, eu que nunca temi nada agora já me do calafrio. Nesse instante um barulho, depois um silencio, Clementino segura a arma e se levanta e fica atrás de umas selas, um ranger na taramela, ele estava numa total escuridão, já tinha armado um falso corpo onde ele dormia. Então a porta se abre e bem lentamente, do lado de dentro Clementino só vê um vulto, que também era escura e alta. Clementino pensa assombrações não existem e atirou como seu colt, e um gemido que sai numa carreira só, então Clementino volta a deitar, pois sabe que não adianta ir atrás por causa da escuridão. No dia seguinte Clementino levanta bem cedo, e mesmo antes de tomar o seu cafezinho, sai e procura no chão e acha rastros de sangue, olha para os lados e nada vê, então sai bem lento para que ninguém note o que ele esta fazendo e sai seguindo os rastros. E a quantidade de sangue era muito forte, não teve dificuldade de seguir. E vai... Vai... Até uma casa que fica bem atrás da casa do doutor, mais ou menos uns cem metros. E para na porta que esta semi-aberta bem devagar ele acaba de abri-la e entra bem de mansinho, e vai procurando nos cômodos e logo no quarto ele vê o guarda costa da madame, contorcendo da dor provocado pelo tiro e vestido com uma pele diferente. Que dava impressão de um gorila ou macaco, com garras nas mãos para ferir alguma coisa que poderia ser qualquer humano. Fui chamar o doutor, mas ele ainda não se encontrava, voltei depressa para casa do ferido e ao chegar lá vi que estava com uma faca clavada em seu coração e já morta. Fiquei agoniado, pois ele era a única esperança de encontrar o mandante dos crimes acontecido na fazenda nos últimos anos. Alguns empregados se acumularam ali e todos ficaram atônicos e muitos espantados, e diziam que era o capanga da madame Raquel e se chamava garra do diabo, porque era muito forte e poderoso. Mas aquelas vestes eram para imitar o lobisomem, assim diziam os empregados da fazenda, os escravos quando viram gritavam de pavor, pois ele causou muitas mortes entre eles... O causo parou aqui, pois o meu avô disse; a semana que vem acaba... Passa, sábado, passa domingo, já na segunda feira meu avô diz – Vanceis esperaram... Uai o que custa esperar a noite. Isso era na roça que o pessoal tentava ele para adiantar algum trecho do causo. Chegado a tão esperada noite, as mesmas coisas, a janta era às quatro horas e às seis horas na boca da noite um pedaço de queijo ou senão um pedaço de bolo de fubá e depois um cafezinho, enrolavam um cigarro de palha e depois vem à estória... om... Como eu dizia pro ceis... Todos ficaram abobados de ver aquela coisa que apavorou a todos por muito tempo na fazenda, mas antes de tudo uma semana atrás. O seu Clementino tinha combinado como senhor Antônio L.Queiroz pra que ele fosse até a guarda real de Sabará e contasse o caso das suspeita de todos na fazenda pela dama Raquel já que o seu doutor não ia aceitar de forma nenhuma essa suspeita. Outra coisa é o desaparecimento do doutor que esta intrigando a todos! Então Clementino resolve investigar o sumiço do doutor, primeiro vai até a casa do doutor e pede que chamem a dona Raquel, aguarda e aguarda até se cansar.

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epois de quase 20 minutos vem à mucama e diz assim – olha sinhozinho ela não pode atendê-lo no momento... Clementino num ato raiva invadiu a casa do doutor e foi subindo os degraus quando surge de repente a Raquel armada com uma espingarda e fala – desça senão eu atiro... Ele olha para ela e... Eu só que falar com o doutor e... Cale-se seu idiota caipira... Nisso a casa vai enchendo de empregados e escravos, que vão avançando em direção as escadarias e gritam – Queremos justiça, senhora, cade o doutor, quando menos se espera eles já estão em cima dela, ainda assim ela consegue dar um tiro que não fere ninguém. Arrastam a mulher para fora e faz justiças com a própria mão, nessa Clementino não esta, mesmo porque nesse momento ele vasculha os quartos e num desse ele acha o doutor todo amarrado e coberto com cobertas. Mas que depressa ele desamarra o homem, e tira um pano ou mordaça para que ele não pudesse gritar então o homem mal podia falar tamanho era a sua fraqueza, desceu o homem até na sala principal e pediu que a mucama lhe colocasse água em sua boca bem devagar. Enquanto o doutor se recupera ela sai para ver a situação de Raquel, mas foi difícil reconhecer, pois seu estado era deplorável. Eis que nesse instante chega da cidade de Sabará o senhor Antônio com dois policiais da guarda real, e causa um grande tumulto e muitos correram, mais a maioria ficou no mesmo local. O gerente da fazenda recebe os policias e explica a situação e diz que quem pode colocar a par de tudo é Clementino, e aponta ele para os policias, e estes vão ate ele e se apresentam como os policias da guarda e diz que o senhor Antonio já tinha falado muito dele durante a viagem. E alem disso nos já sabemos muito do Senhor lá de Sabará, para nós é um prazer em conhecê-lo pessoalmente mineiro. O doutor esta lá no sofá é melhor ele saber o que aconteceu com a sua senhora primeiro, vai entrar senhores. Mas um deles ficou no lado de fora para pegar informações, para preencher as suas documentações. Já lá dentro o pessoal se ajeita perto do doutor que já sabia da morte da sua mulher e ainda estava muito nervoso. Mas cadê o mistério?

O triangulo da morte... Primeiro a falar ou a se explicar é o doutor, eu casei com a Raquel já se passaram mais de dez anos, no principio era tudo uma maravilha, viagens para Europa foram realizado vários sonhos dela, mesmo porque ela vem de uma família pobre e eram muitos humildes. Pois bem, ela foi crescendo com tudo isso, e também a sua cobiça por ouro, poder, grandeza e a sua vontade por homens também, e a cada dia tinha uma novidade. Era muito má com os escravos, nela geravam demônio que se chamava pomba gira e deus zebu, tranca rua e outros nomes satânicos. Eu fui ficando impotente diante de tantas luxurias e esses deuses que já citei, deixei o tempo correr, eu não sabia, mas com o tempo a descobri ela começou participar de um centro de candomblé, esse tal de guarda costa, que era mais um capacho ou um assassino de pessoas inocentes. E ainda fez uma aliança com o guarda livro, tudo isso no meu nariz e nós não queríamos ver, fez mais outra aliança, que esse ainda não se sabe quem é. -46-


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as eles queriam me enfraquecer, matando os meus principais homens que eram de confiança tanto os capitães da mata, quanto ficais e gerentes. Ate os negros que eram meus amigos, ela fez questão de matálos, um a um e os outros a temiam. Enfim era uma mulher diabólica e capaz de tudo para me destruir, na verdade o que ela queria era dominar a fazenda sozinha, dessa forma era me matando e sem levar suspeita, o guarda livro fazia as falsificações necessárias nas compras e vendas. Alem de alterar as quantidades de saída de café o nosso ouro verde, e a sua participação seria de cinco por cento e no final de cada ano. O que era um valor razoável. Eu sou um doutor e não um detetive, por isso mesmo contratei o senhor Clementino que conhece as malandragens dessa época e também pela sua valentia. O tenente pergunta – É só isso seu doutor... Sim responde o doutor. Então é sua vez Clementino, fale o que sabe... Pois não tenente... Quando se trata de bandidos, assaltes ou malfeitor em geral é comigo mesmo, e vamos lá ao que descobri. Quanto à dona Raquel o doutor acertou é isso mesmo, e também com o guarda livro se condiz com essa realidade e o terceiro era mais um assassino de aluguel, assassino de aluguel? Perguntaram espantados quase ao mesmo tempo... E quem é? Seu Clementino... Um momento eu lhes direi. Quanto à dona Raquel eu pedia que o senhor Antônio L. Queiroz fosse à cidade de Sabará e mandasse um telegrama para as policias SP, BA e RJ e assim também fizessem com o guarda livro e os suspeitos e verem as suas formações e de onde eram as suas origens, e para minha surpresa o terceiro foi o senhor... Um suspense no ar e todos queria saber o nome, mas Clementino disse um cafezinho antes. Vamos tomar um ar mesmo porque foi muita surpresa para um dia só... Depois do cafezinho o senhor Clementino fez questão de dar importância na participação no trabalho do senhor Antônio L. Queiroz nas questões já citada. Ele mostrou bravura, pois a sua vida corria perigo era só alguém descobrir a sua participação nessa investigação e pronto... Era morte certa, nem mesmo o doutor sabia para sua proteção. Então Clementino mostra as documentações da senhora Raquel e a fortuna que tinha num banco de SP e do guarda livro que deu entrada no banco com milhares de coroas e réis. Dinheiro incompatível com o seu ganho e final o terceiro participante da quadrilha ou bando é o senhor Getulio da Silva o fiscal... O que? Esse homem era de minha confiança? Diz o doutor. Pois é nem tudo que parece é seu doutor... Foi por isso que mandamos uma carta pedindo informações desse sujeito. A resposta foi que era um pistoleiro que se fazia passar por uma pessoa pacata e que apresentava uma falsa família. Naturalmente foi pra Salvador a carta, mas lá disseram que ele era de um vilarejo ou patrimônio de Feira de Santana. Eis aqui a carta com mais detalhes, eu mesmo não tenho muita intimidade com a leitura, é melhor vocês lerem com mais atenção. Eu só digo duas coisas doutor não podemos confiar em ninguém, e outra coisa é a morte dele foi queima de arquivo a dona Raquel mandou liquidar com ele com medo dele abrir o bico. O doutor pergunta pra Clementino como ele descobriu sobre as sua esposa... -47-


Clementino diz – Algumas pessoas já desconfiavam dela, e outro fator importante foram que todas as vezes que eu perguntava dela pro senhor, o senhor desconversava e ai aumentou a minha desconfiança. Um dos soldados pediu as provas para ler e aproveitou e disse antes de ler perguntou - Vocês estão sabendo da nossa grande heroína? Mas o que o tenente esta falando? Daí ele se explicou – É que agente vê umas mulheres tentando matar esposo e empregados, que é caso da dona Raquel, enquanto uma Brasileira da à vida de seu filho lá no Paraguaio, para salvar outros milhares. Tanto de brasileiros quanto de paraguaios e foi condecorada como um ato de bravuras, esta é Ana Néri a mãe dos brasileiros, isso aconteceu há quase sete anos atrás 1.865. Perdão pelos comentários senhores, bem a gente vai colocar esses documentos no nosso relatório e mandar para capital RJ e na seqüência vamos liberar o vosso dinheiro do banco doutor. O doutor concordou, e como a volta para a cidade era muito longa, ficaram para o enterro e aproveitaram e dormiram na fazenda e logo de manhã seguiram de volta pra cidade de Sabará. Clementino foi convidado a ficar até o domingo onde haveria um grande baile de fandango e catira alem de algumas musicas clássica. O que não fazia muito o gênero do seu Clementino, o que ele gostava mesmo era de fandango ou catira o resto pra ele não tinha valor, mas calou se. E nesses dias o doutor foi pescar com Clementino e o senhor Antônio L.Queiroz e num dia desses Clementino expressou o seu desejo de ir embora, o doutor disse – Não fale essas coisas seu Clementino, pois tudo que tenho também é teu... Não meu amigo, eu tenho a minha vida e tu tens a tua, além do mais tenho que ver o meu amor. Amor? Pergunta o doutor... Sim responde Clementino, e olha que é pedaço de mulher, por essa índia dou a minha vida. A conversa acabou ali e os três voltaram para fazenda e lá o doutor pediu que ele ficasse até fim do ano já que faltavam apenas alguns dias. Clementino aceitou nesse tempo ele ficou analisando o andamento da fazenda e galopar nos pastos e também nos cafezais, a noite ouvia moda de viola, e o dia se ia como a semana e o mês. E no dia 02/01/ 1.872 foi o dia da despedida... Antes acertaram a conta e tudo certo, o doutor falou ainda ti devo a minha vida e essa não tenho como pagar senão a minha amizade, e vou ti dar uma surpresa... Surpresa? Perguntou Clementino. Sim diz o doutor e gritou para os piões tragam a surpresa pessoal. Eis que surge um garanhão árabe puro sangue e todo negro, um belo animal que só faltava falar, o nome é Valente, Clementino amou o tal... Clementino agradece e se despede de Antônio L.Queiroz e diz que espera encontrá-lo novamente, pois gostou dele como um irmão. Pega as suas tralhas e partem para sua cidade natal que fica no sul de MG e a viagem é longa e cansativa. Quando chega à cidade de São João Del Rey, para numa estalagem Apresenta-se a todos e diz que ia se banhar para tirar a poeira da estrada, todos riram mesmo porque naquela época banho era uma coisa rara. Ele estava tão cansado que nem ligou, foi tomar banho e depois jantou e foi logo dormir. Já no outro dia ele levanta e vai tomar o seu café, durante o café sentou mais viajantes na mesa e lá vêm os comentários – um diz assim; É lá pras bandas de Sabará um sujeito acabou com uma quadrilha que roubava o próprio marido...

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Parece-me que o sujeito que ajudou acabar com essa quadrilha é tal de Clementino. O outro hospede comenta sobre um gigante que viu no sul de MG e pelo nome de Cic... A... Mas esqueci oce já ouviu falar dos índios Tamoios... Sim responde o outro. Então esses índios foram os que fugiram do rio de RJ no ano de 1.563, pois os mesmo apoiavam os franceses na época, e muitos se emigraram para estas bandas e vivem até hoje nessa região de MG embora ninguém saiba onde fica exatamente e dizem que quem aparecer lá os índios mata... Clementino só ri, mas nada comenta. Um terceiro comenta – É eu moro numa pequena vila daqui dessa região e lá apareceu um sujeito que se diz inspetor de quarteirão... E colocou uma lei... Que lei? O Mineiro! A lei do casório uai... Eu explico melhor diz o Mineiro – Quem se casar aqui nessa região tem que deixar a noiva passar a primeira noite comigo. O que? Responde indignado Clementino. É isso mesmo seu moço, a lei lá tem que ser assim, senão adeus viola. Esse assunto interessou a Clementino, pois sempre gostou das coisas certas e não tinha porque negar ajuda a esse pobre Mineiro. Depois do café o mineiro é chamado ao lado de Clementino já que não havia mais ninguém por perto e perguntou – Porque esta aflição meu rapaz? Mineiro responde – É que eu vou casar na semana que vem seu moço, e eu amo muito a minha futura mué seu, seu... Clementino meu rapaz ao seu dispor, agora me diga por que você não se defende? Eu não posso seu Clementino, nem arma eu tenho e mesmo se tivesse sou muito pacato e... Ta bem responde Clementino, posso te ajudar então... É claro que pode senhor, eu agradeço muita a sua colaboração, mesmo por eu vim aqui na policia e eles disseram que só depois de consumado o fato que eu poderia dar queixa, pode uma coisa assim, senhor? Não, é claro que não Mineiro. (01 de Abril de 1.872.) Depois que acertaram o pagamento da pousada, partiu rumo a essa nova aventura que não seria moleza assim como as outras. Como o fato era nessa mesma cidade não foi difícil de chegarem lá, antes de qualquer coisa o seu Clementino já planejou como seria a sua apresentação, para que ninguém desconfiasse pediu a Mineiro que o apresentasse com um suposto parente e que era um convidado para o casamento. E assim foi feito, desceram de seus cavalos e mineiro apresentou aos parentes e amigos esse novo parente. E a uma distância de cem metros dali, um homem á cavalo nos olhava atentamente, e mineiro disse ao Clementino – É aquele o homem que nos observa, é o tal que quer aproveitar da minha noiva... Há é o safado né mineiro, assim respondeu Clementino. Como o nosso herói desceu desarmado, o sujeito nem desconfiou, mas vem de mansinho cumprimenta o pessoal e pergunta quem é o sujeito que tinha acabado de chegar, o pessoal diz - É um parente nosso que vem de longe e o papo acabou por ali mesmo... Mas o sujeito não se conformou apeou do seu cavalo e foi até o noivo e disse – É seu parente mineiro? Uai é sim responde o noivo e por quê? É por causa do cavalo, eu já vi desse mais nunca por essas bandas, será que ele vende?

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Ai é só com ele seu Dorival... Hum... Ta... Bem Mineiro, olha lá o nosso acordo heim. Era uma quarta-feira e tinha certo tempo ainda para o outro final de semana, Clementino foi conhecer aquele patrimônio e o pessoal que vivia nele. Fez boa e varias amizades e todos eram pessoas de boa índole, mas todos falavam desse que se dizia ser inspetor de quarteirão, e o que falavam não era bom, diziam que ele já tinha tirado proveito de muitos noivos dali e de outra região que vinha também, mas fugiu por ameaça de morte. Mas sempre tem um espertinho, e isso é em todo o mundo, mas essa estória não termina aqui, pois meu avô deu boa noite e foi dormir e o jeito foi aguardar para outro dia, (essa nova aventura de Clementino.) Tudo certo meu avô retorna do seu trabalho e depois de tudo, ou seja, domingo, segunda depois do trabalho, depois do jantar, depois do café um cigarro de palha e lá o vai começar o causo e nos todos ansiosos pra ouvir o resto da estória. Depois de visitar e conhecer todo o patrimônio Clementino foi até acidade que era bem perto dali, só dezoito quilômetros e lá perguntou onde era a pousada dos tropeiros. A pessoa deu a informação e ele esticou até a pousada chegando lá sentou numa mesa e pediu um arroz com pequi e um churrasco de carne do sol. No que foram atendidos esses alimentos eram servidos em prato de barro, mas que dava pra alimentar uma família inteira. Depois de se alimentar foi até o ferreiro e pediu para examinar as ferraduras do seu cavalo enquanto aproveitou para perguntar ao ferreiro se o conhecia o senhor Dorival o ferreiro dizia; Conheço mais ou menos, é só como cliente e como tal conversou muito com ele, e que sempre dizia ser cabra valente, e que com ele não tinha prosa não. E também falava muito que era chefe de comitiva lá pras bandas de Ouro Fino uma pequena, mas próspera cidade do sertão mineiro. Clementino ouviu o comentário e analisou assim, ou este cabra não sabe de nada, ou... Ou Dorival é um homem de duas palavras ou... Na vila disse uma coisa e agora aqui tenho outra informação desse tal. Agradeci o homem pela informação e ia montar no meu cavalo quando o ferreiro perguntou sobre o cavalo. Fez alguns elogios e perguntou o nome do cavalo e lhe respondi que o nome dele era Valente, pois isso lembra um príncipe lá das Europa. Mesmo porque o nosso rei é um corrupto e nem posso botar o nome dele no meu cavalo. Tomara que um dia agente consiga colocar um rei ou fazer como no EUA um presidente como Abraão Lincoln, que infelizmente morreu á sete anos assassinados por um covarde num teatro. Mas que também tenha um grande poder de decisão. Nessa hora ele já estava trotando com o seu garanhão lá pras banda do patrimônio para ver o que ia fazer com safado e planejar se liquidava o tal ou... E ao chegar à casa de Mineiro perguntou se podia posar ali por perto do seu sitio, responde o Mineiro todo apavorado... Não, seu Clementino durma aqui com nois sio, mas ele se negou mesmo porque gostava do relento e também gostava de ficar perto do seu cavalo, mineiro entendeu a sua preocupação, mas disse a minha casa esta as suas ordens seu Clementino.

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lementino agradeceu e saiu nas orlas para conhecer melhor o sitio de seu recente amigo, viu os riachos e as matas e pensava – aqui deve ter muitas onças, há rastro das danadas aqui e por toda parte. Depois de vinte minutos ele ouve urro da danada e também um latido de cão, e aperta o passo do seu cavalo e avista uma onça pintada lutando com um bravo cão que se desvencilhava das garras da fera. Ele puxa o seu rifle e decide pelo cão e mata a onça a bichana media quase dois metros e meio. Desceu rapidamente do cavalo e notou que o cão estava bastante ferido, rapidamente socorreu colocando uma coberta sobre ele e foi lavando os seus ferimentos e botando ervas. O cão mal tinha fôlego para latir e a seguir dormiu, o nosso justiceiro faz uma fogueira e deixa o cão se aquecendo mesmo porque já escurece, foi ajeitando as tralhas para também dormir. O cão permanece quieto e o silencio da noite só restava uma coisa e foi o que ele fez, dormiu, enquanto o seu cavalo pastava por ali... O dia amanhece e com ele os pássaros, nosso justiceiro também e assim como o cavalo e o cão que ferido, mas já mostrava uma leve melhora. Então foi fazer um café enquanto a água esquentava, procurava algo para comer e viu uma lebre que pulava as gramas e que talvez procurasse algo para também comer. Clementino só apontou o rifle e atirou esse foi o café dele e do cão, enquanto dava um pedaço de carne e agradava o cão passando a mão sobre a sua cabeça. Uma nova amizade se formava ali e pela bravura do cão ele deu um nome Lobo, o cão latiu parecendo gostar do nome. Era hora de voltar até a casa de Mineiro que nessa altura já estava muito preocupado com o Clementino, que ao chegar á casa do noivo vinha devagar e carregando o cão na garupa do seu cavalo Valente. Mineiro vem rápido e pergunta que cão é esse ai seu Clementino? Esse se chama Fera e eu o vi quando ele lutava com uma onça, e esta ferida, vê se tem algum remédio ai e passe nele para adiantar a sua cura. Mineiro correu e procurou algum remédio de animal e depois tentou passar no cão, mas este reagiu rosnando e não permitiu que mineiro se aproximasse, então o próprio Clementino passou e o cão aceitou, mostrando certa confiança. Passado três dias o cão já esta bem melhor e onde Clementino fosse lá estava ele atrás, parecendo se conhecer a muitos anos. Como faltavam ainda alguns dias para o casório Clementino começou a ensinar o Lobo a seguir o seu comando, reação do animal foi tremenda, adestrar animais o homem necessita de ter dom o que parece ter, e muito o seu Clementino. E já na seqüência fez as mesmas coisas com o seu cavalo Valente, aqueles dias foi uma felicidade só, era um assobio lá vinha o lobo, dois assobios eram vez do cavalo e realmente esses dias foi muito útil aos três. Bem agora só faltava combinar com o Mineiro como eles iam fazer para dar um fim no valentão da vila, já estamos na véspera do casamento e o povo vem chegando e cada um diferente do outro. Acomodação era difícil mesmo porque a casa era um pouco acanhada, e só restava agente combinar o assunto do valentão do pedaço, chamei o Mineiro num particular e pegamos uma trilha e lá traçamos o plano. O casório será amanhã que é no sábado, nois vamos ao cartório e depois na igreja.

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a volta almoçamos e a seguir o povão vai fazer um arraste pé, à noite quando for à meia noite oce vai entregar a noiva pro sujeito então nois... E assim foi bolado o plano, só restava esta noite pro sujeito se arrepender. Ninguém mais sabia dessa trama, já no sábado todos levantaram e foram se alimentar no café da manhã e depois alguns acompanhou os noivos a até o cartório e outros foram preparar os bolos e as carnes para o churrasco. No cartório o oficial Flávio Mendes chama os noivos e tem inicio a cerimônia matrimonial, e assim também foi na igreja o padre Manoel fazia o enlace de ambos. Exatamente às duas horas eles retornam à casa de Mineiro, e lá fiquei sabendo do verdadeiro nome do Mineiro (Sebastião Dias da Luz) e da noiva Cleonice das Rosas e todos saciam a fome, as quatro têm inicio o arrasta pé com direito de sanfona e tudo mais. À noite o lampião funcionava ate certo momento, mais ninguém queria saber de nada o negocio era tirar as caboclas pra dançar e vamos que vamos. Quando deram dez horas chega o Dorival o safado já vem rindo, não se importando com ninguém, naquela hora ele portava uma arma que fazia questão que todos a vissem... E chamou o noivo do lado e disse – É hoje Mineiro, e que horas que vai ser aquilo que foi combinamos? Você já sabe né? Mineiro diz – depois da meia noite e quando agente apagar os lampiões! Eu vou deixar a porta do quarto aberto e somente a minha esposa estará lá dentro seu Dorival... Olha lá Mineiro! O seu túmulo, esta aberto viu... Certo seu Dorival. Faltando quinze minutos para a meia noite, Mineiro anuncia o fim do baile e chama a sua esposa do lado e diz – Vá ate o quarto e faça um monte de pano e travesseiros para dar impressão de ser uma pessoa dormindo. E depois cubra bem, para que ninguém desconfie, oce troca de roupa e amarra um lenço na cabeça e saia junto as suas primas, não de nenhum alarme, pois hoje será uma noite com cheiro de morte. Todos saem da casa menos dois; Mineiro que após apagar o lampião da porta da sala, aguarda na entrada para recepcionar o tal, e dentro do quarto se escondeu o Clementino, só esperando o sujeito entrar e para nada dar errado ele escondeu o seu cavalo e cão no outro sitio que pertencia a um parente de Mineiro. Já passava da meia noite quando o seu Dorival aparece na entrada da porteira e grita – O de casa... Mineiro diz – pode entrar... Esta tudo, ajeitado seu Dorival... O homem entra meio cismado, olhando pros lados e já na porta olha pro Mineiro e diz – Não tem tramóia ai não né Mineiro e este balança a cabeça como querendo dizer não, então vá homem, suma daqui e só volte amanhã depois das dez horas. Mineiro corre e desaparece na escuridão e some nas geladas matas do local. O homem ascende um lampião e vai à direção do quarto, a porta estava meio aberta, e ele a empurra ate que ela se abra completamente e diz – Se prepare Rosinha que agora chegou um verdadeiro homem pra dormir com você, e vai à direção à cama já tirando as armas e roupas e levanta a coberta, e cade? Nisso ele ouve uma risada até que meio debochada, ele se vira para ver quem era o tal e leva um susto e diz – É você Clementino? Num salto tenta pegar a sua arma.

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as ela e chutada para um canto do quarto pelo seu Clementino. Que diz – Então oce é o machão por estas bandas... É ou não é seu cafajeste... Não, não seu Clementino... Clementino pergunta – O que você vai querer... Pegar a sua arma ou vai tentar me bater, ou que você vai quer. O homem olhava pra ele e olhava a sua arma. Clementino estava com o seu colt apontado pra sua cabeça e não restava muita alternativa. Então Dorival diz – Mas o senhor esta armado, ai é covardia né... Nisso Dorival pula pra tentar pegar a sua arma, mas um tiro certeiro é desarmado, então num ato de desespero ele pega uma foice que estava num canto e vem pra cima de Clementino. Este apaga o lampião com um tiro e fica tudo no escuro, como Clementino já estava no escuro se prevalece desse fator, e com soco certeiro ele desarma o valentão, guarda a sua arma no coldre e devagar pega a foice e diz – Pessoas como você não merece viver nesse mundo seu porco, e desfere um golpe na cabeça do Dorival. A força foi tanta que partiu a cabeça do sujeito que seus miolos voaram longe. E foi só vazando sangue do morto e ali mesmo o seu Clementino disse – Agora chegou a minha hora de dormir e afastou o cadáver mais para o canto quarto e dormiu como um anjinho... O galo cantou, mas cade Clementino? Cade Dorival? Mas todos estavam preocupados mesmo era com o seu Clementino. E ele só abriu a porta depois das oito horas e deparou com alguns parentes de Mineiro que já sabia do causo. Mas Mineiro só chegou depois das dez por garantia, tinha sido combinado que Mineiro que ia assumir o crime. Então trouxeram o cavalo e o cão de Clementino e ele disse para o Mineiro – A partir de hoje você é mais um valente, vou passar na delegacia e informar sobre o sujeito e a tentativa de estupro e a sua defesa de honra e pode ficar tranqüilo que não vai dar em nada. E assim fez Clementino passou na promotoria e deu a queixa em nome do povo e do heróico rapaz que livrou o povoado daquela praga. E essa estória é contada até nos dias de hoje, que um rapaz humilde se livrou de um pilantra que fazia o uso de uma arma para intimidar o povo. Depois disso o nosso justiceiro resolve voltar para a sua amada Iracema e a viajem era longa e o destino agora era o sul de MG, mas a trilha era perigosa e por isso mesmo foi se abastecer na cidade. E no empório comprou carne seca, fumo, sal grosso, balas de calibre 45 e nessa viajem iam três e não mais dois, a viagem talvez leve uns cinco ou seis dias isso era na macha lenta para não forçar o cavalo Rei e lá se foi Clementino. A cada dia de viagem o cavaleiro da de três a cinco paradas, ou para se alimentar, ou para o cavalo saciar a sua sede ou mesmo para o cão.

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O Caipora No terceiro dia de viagem já bem à tardezinha o nosso justiceiro resolve parar e descansar os ossos numa beira de mata. Tira as celas do Rei e vai à beira da mata e começa a catar um pouco de lenha para fazer uma fogueira e aproveitar e fazer o seu grude, enquanto o cavalo vai pastando por ali mesmo. Seu cão o acompanha e vai correndo atrás de alguma caça para o seu jantar e late quando vê uma lebre bem gordinha, Clementino ri, pois se lembra da primeira vez que deu alimento para o cão. Já passava das seis quando jantava e o seu cão late como prevendo alguma coisa no ar, nisso um barulho na mata dando a impressão de algum animal ferido, ai o cão late mais forte, então Clementino fica em estado de alerta e saca a sua arma do coldre e espera. E o barulho aumenta, galhos quebrando o cão rosca querendo avançar, mas o nosso justiceiro segurao, pois pode ser uma onça o algo assim, nisso para o espanto do nosso herói surge um homem? Gritava bem baixinho so... So... Corro se, seu moço. Clementino corre e segura o homem que já estava caindo e pergunta o que esta se havendo senhor? O homem diz – ele vai me pegar seu moço... O gigante de um olho só... Por favor, me ajude ele vai me matar. O que esta falando homem de Deus... Gigante, mas que gigante é esse... Então Clementino deita o homem quase morto perto da fogueira e se embrenha na mata atrás de alguma pista, mas nada vê. Nisso ele ouve latidos do seu cão que tinha ficado de guarda no acampamento junto ao ferido, e corre como um desesperado, mas quando chega lá o homem já desapareceu, cade o homem? Vê uns rastros no chão, era como algo o tivesse arrastado pelos pés, já que no chão estava a marca de seus dedos. Como já estava quase anoitecendo e já estava difícil ver qualquer coisa deixa para amanhã e ver se consegue seguir os rastros. Naquele ponto a selva era intensa e muito perigosa. Já deitado Clementino pensa, como pode o homem estava na minha barba e desapareceu assim do nada... No outro dia de manhã levantou meio encabulado, olhou os rastros que ainda se fazia presente e decidiu seguir se embreando na mata. Seu cavalo e o cão também foram com ele, todos alertas e sempre olhando os lados e nas moitas, percorreram mais de três horas, até o cansaço e a fome o forçaram a parar para comer alguma coisa. Colocou a lenha sobre o tripé e pendurou ali o caldeirão com água e a carne seca, e mais embaixo um vasilhame para frituras, a carne cozinhou por quase uma hora e depois a fritou e com um pouco de farinha fez o seu almoço. E o cão se virou nas matas a procura de uma caça que seria também o seu sustento. O mais difícil foi para o cavalo, mas nas matas também tem os capim gorduras e foi ali que tirou o seu alimento. -54-


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e vez enquanto um urro de onça, às vezes de suçuarana, e até de das onças negras (pantera negra), mas nada disso temia Clementino. Acabou o almoço e agora vem novamente à perseguição ao trem do bicho, sempre nesses locais, tinha que abrir a mata no facão e puxava o cavalo pelas rédeas e o cão sempre na frente para maior proteção. Naquela região ainda tinha índios canibais e esse era o maior perigo. Mas a empreitada haveria de acontecer mesmo com esses riscos, tem que ter uma explicação diacho, pensava o nosso justiceiro. Mais três horas na mata e nada de mostro ou algo aparecido. Ele pensa Eu acho que estamos perdidos, mesmo por que já passamos por aqui antes e nesse momento ele para e fala - É a fome chegou tenho que parar para comer e alimentar os animais. Às vezes ele ouvia um assobio e a seguir risadas, diacho... Estamos sendo seguido por alguém, mas só pensava. Depois de se alimentar se ajeitou e dormiu por ali mesmo, no outro dia bem cedo se levanta coloca os arreios no Rei e procura uma brecha ou uma clareira para ver o sol, e olha as sombras das árvores e diz. É temos que segui para o oeste e, portanto vamos seguir nessa direção que era o contrario que estamos fazendo. Dois dias na mata e nada de... Sei lá o que, depois de algumas horas ele avista uma casa e vai ate lá pra pegar alguma informação. Bate palmas e vem uma menina que se dizia chamar de Aurora Isidoro, menina muito faladeira e já falou também o nome da sua mãe... Maria é nome dela seu moço... Pare de falar menina e me diga se seu pai esta? Não seu moço ele foi lá ao patrimônio de Alfenas e vai demorar dois dias para chegar, nisso sai casa à dona Maria e diz – Bom dia seu moço... Quem é o senhor... Ele diz – É Clementino senhora ao seu dispor. Ela pergunta o que faz nesse fim de mundo senhor. Mas antes de responder vamos entrar, e não repare não porque a agente é muito humilde... Enquanto dona Maria prepara o café os meninos brincam com Valente e o Lobo, e as meninas conversam com Clementino e perguntavam de onde ele vinha e quem era ele e ele diz - Calma eu digo tudo para vocês, nisso dona Maria raia com as meninas pedindo para elas irem brincar. Clementino diz – Pode deixar dona Maria eu gosto muito de crianças e começou a perguntar os nomes delas – Primeiro o seu... Aurora, mas todos me chamam de fia, e o teu – Hilda... E o teu neném não respondeu, mas a menina Aurora diz – Ela não fala ainda, mas o nome dela é Maria Rosa ou nina... E o nome dos meninos vocês sabem, sim respondeu Aurora é... Jesualdo, José e João Isidoro... A muita bem menina, nisso dona Maria chama a visita para tomar café e lhe oferece um pedaço de queijo, que aceita sem fazer rodeio, daí entre um gole de café ele diz para todo quem é e de onde vem. E aproveita para perguntar se ela tem escutado falar de algum mostro naquela região, dona Maria então fala – A lenda dos índios diz que existe um que é protetor das caças e das matas. Mas nos estamos com muito medo e é por causa desse bicho que vive por aqui. É uma vasta região, e tem mais o gigante se alimenta de pessoas... O que dona Maria? Pergunta Clementino abobado com a resposta da dona, mais ela o corta e ainda diz.

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– Ele anda nessas matas e ninguém consegue capturar, já que ele faz as pessoas se perderam nessas selvas, e com ele anda vários sacis para ajudar a despistar a quem se embrenha nas matas atrás dele. E todos que o seguiram nunca mais voltaram, eu mesmo já ouvi berros e choro de gente nessas matas virgem, e muitos já sabem onde ele mora... E a senhora sabe? Mais menos seu Clementino, o senhor vai por essa trilha no sentido oeste por um dia e meio e depois o senhor vai avistar um monte no lado esquerdo da trilha e nesse ponto é um serrado, não é difícil, depois o senhor calcula ou olha onde o sol nasce e desse lado monte é a entrada da caverna do mostro. Segundo alguns fazendeiros e viajantes que o viram e depois desaparecia nesse local, mais teve coragem de seguir até a essa entrada. Então seu Clementino... Desde viemos pra estas bandas perdemos a nossa liberdade, mesmo porque se o meu marido sai... Nós não podemos trabalhar na roça, pois o perigo é constante além desse mostro tem ainda as onças e cobras que engole qualquer criança dessa aqui, e isso é um fato mesmo porque qualquer sucuri; com mais de oito metros realmente engole e até os porcos como as cabras e de vez enquanto uma desaparece. Clementino ouvindo àquela senhora falando e quase chorando por temer a vida de seus filhos perguntou se poderia dormir ali no lado de fora da casa, ela de jeito nenhum seu Clementino é muito perigoso, ele diz nunca dormi dentro de uma casa senhora, ai ela concorda e ele pensa. Não é certo, mesmo que seu marido estivesse em casa eu não seria capaz de dormir, para mim é sufocante dormir num ambiente fechado. Ela o convida para jantar e ele aceita e ela diz não repare não que não muito o temos para comer, acabou a farinha e o arroz está quase no fim, então Clementino num ato de misericórdia pega o seu rifle e vai até a mata e em meia hora ele volta com um porco do mato abatido. Dona Maria ficou muito feliz e pediu mais uma hora pra preparar o jantar no que todos concordaram e até o cão... Logo após o jantar todos foram dormir inclusive Clementino, que deitado ao lado do seu cavalo e também do cão preparava um cigarrinho de palha enquanto a fogueira os aquecia se ele se lembra do acorrido e pensa hoje foi um dia produtivo, mesmo porque a minha empreitada é pegar esse mostro. 22/04 1.872. Bem cedo Clementino acorda e pensa é chegado à hora de pegar as trilhas do oeste, mas antes se levanta e coloca o arreio no Valente e quando se preparava para sair à dona Maria o chama para tomar um cafezinho com uma fatia de bolo de fubá. Ele aceita e depois disso, deixa com ela algum dinheiro e dizia que era para os meninos comprarem umas balinhas. E lá vai o nosso justiceiro trotando pelas trilhas do oeste, enquanto isso a mulher vai conferir o dinheiro dado por ele e leva um susto, meu Deus ele deve ter se enganado, pois é muito dinheiro para os doces das crianças, mas já era tarde demais Clementino estava muito longe dali. Depois de um dia e meio ele chega nesse serrado que a dona Maria tinha falado e olha a posição das sombras e também do sol e diz. É a entrada fica nesse lado esquerdo do monte, examina o seu rifle...

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... E olha se este tudo certo e assim faz com o seu colt também olha a faca que pode haver necessidade dela também. E caminha bem lentamente em volta do monte e nada vê, outra volta bem mais pertinho e perto de umas pedras ele vê uma enorme pedra que tapava a entrada da caverna. O cheiro é horrível, pura carniça, então pede que o cavalo fique em silencio e também o cão, esta bem na entrada da caverna, escuta um ronco alto e forte. E vê o moço, que o tinha sido seqüestrado na beira da mata e estava todo amarrado, pronto pra ser abatido. Mas cadê o mostro? Até o ronco já tinha parado, era sinal que o bicho já estava na espreita, Clementino engatilha a sua arma e nisso leva um safanão que joga ele a mais de cinco metros de distância e desmaia. Quando acorda meio tonto começa a observar o ambiente e vê o gigante e alguns anãozinhos negros que pulavam em volta do outro prisioneiro dando a entender que seria sacrificado, numa fogueira se faziam presente. Vejo vários crânios de gente amontoado num canto da caverna e fico pasmado com tudo aquilo, procuro com os meus olhos o rifle e o localizo a uns dois metros de mim. Penso esses anãozinhos só tem uma perna e não seria ágil o suficiente para me impedir de chegar até a minha arma, mas continuo a fingir que estou desmaiado até uma boa oportunidade. A pancada ainda doía muito e não sei quanto tempo que estou aqui. Quando todos vão até o outro prisioneiro e o levantam, depois o trazem até perto do fogo, o gigante só fica observando e eu não resolvi agir e num salto arrojado pulo sobre a minha arma, e a seguir faço disparo sobre o gigante. Que grita e urra de dor, na sua cabeça só tinha um olho e nele dou mais dois disparos. E quando aquele brutamonte cai, todos os negrinhos correm dando impressão de estar fugindo de satanás, ainda assim disparo mais uns tiros sobre os diabinhos, que sumiram no mundo. Vou até perto do mostro que jazia ali inerte e apalpo o seu coração e noto que ainda batia e pego uma madeira e acabo de matar aquele monstro. Esse gigante devia pesar mais de quinhentos quilos... Depois disso solto as amarras do ferido que não sabia como me agradecer e falo - Onde mora seu moço... O moço me respondeu me chamo – Renato Balhe, eu moro no RJ e estou por aqui porque me perdi nas matas do leste de MG seu moço. Clementino se apresentou e depois disse me ajude a interrar essa coisa seu Renato, e daí enterraram o mostro numa vala ali perto com ajuda do seu cavalo arrastaram o cadáver até aquele ponto e pronto acabou essa lenda de gigante. Renato durante á viajem perguntou o que era aquilo, Clementino respondia, mas preferia ficar calado durante a árdua viagem, depois de quatro dias viajando eles avistam um vilarejo. -57-


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ssa viagem normalmente era para dois dias, mas como fizeram a pé então aumentou o tempo... Quando chegamos numa encruzilhada vimos um cartaz com essa cara e que parecia o gigante que matamos há quatro dias, arranquei o cartaz e dei a Renato e disse vai até lá e fale com as autoridades e veja se consegue receber o premio. Mas senhor Clementino o prêmio tem que ser do senhor por direito, foi que mataste o miserável, não, não eu não preciso desse dinheiro seu Renato. Daí eles se despedem e Clementino vai ao rumo ao nordeste de MG e assobia para o cão e lá se vai Clementino para uma nova aventura... Nisso que termina a estória todos riu e um diz – A essas coisas não existem, ta parecendo uma estória de pescador avô. O outro como pode um gigante viver aqui no BR e ainda comendo gente? Oia oceis fiquem quietos, senão eu não conto mais esse causos pro ceis, esse foi o meu avô... Uai raiando com o pessoal. Na próxima semana ele diz que vai falar do encontro com a sua amada e já era o ano de 1.873 e também os amigos índios tamoios. Ou o seu encontro com alguns rebeldes e fugitivos da guerra no Paraguai. É oceis quem vai dicidir uai... Depois de quase um século, muitos mineiros dessa região ainda comentam esse fato, e diz que ajuntou uma turma e foram até o local. Mas ao chegarem lá o mostro já tinha fugido. Nos dias de hoje essa cidade se chama Alfena que se situa no sul de MG. Esse caso foi contado por uma Mineira e ela que jura de pés junto que foi verdadeiro.

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meu avô achou melhor contar o encontro dele Clementino com os índios e todos concordaram... Clementino vinha de mais uma aventura depois daquela façanha sobre caipora até os índios já achavam que ele era também protegido pelos deuses. 20/05/1. 873 Nas trilhas do sertão sempre houve muitos bandidos e alguns eram muito perigosos, o nosso justiceiro estava muito cansado e se deparou com três assaltantes de estradas e um deles disse - Levante os braços para o alto, se fizer qualquer movimento brusco nós atiramos. Clementino estava exausto e não estava querendo nenhuma brincadeira ou graça. Notaram as suas armas e viu que eram simples garruchas e de um tiro só, e disse é melhor você soltarem as armas e se mandarem... É lógico que todos riram muito e fizeram deboche e um disse – Olha aqui camarada só queremos o seu cavalo e talvez esse cinturão de balas e ai? Vai querer morrer ou entregar essa porcaria... Não deu tempo de falar e levou um tiro no peito, e mais dois disparos e um, caiu ferido nas coxas e o outro se embrenhou nas matas ferido. Clementino desce do valente e diz – O que vocês queriam mesmo? O ferido, fala todo apavorado – Era só uma brincadeira senhora... Perdoa nóis ai... Ai – Vocês não merecem viver seus abutres, pessoas que vivem de roubo, porque não vão trabalhar seus canalhas, se os encontrá-los novamente será executado sem piedade nenhuma. Quem, quem é o senhor... Meu nome é Clementino... E apertou o cavalo e lá se vai o justiceiro ao encontro de Iracema. Mal sabiam eles que Clementino era muito rápido com a sua pistola, nessa época não tinha um mineiro mais rápido do que ele no gatilho. Depois de dois dias de trilha Clementino chega às divisas dos índios, agora é só algumas horas de caminhada e pronto e nisso um pio... Ele sente a presença de estranhas nas matas e lobo late e levanta as orelhas querendo dizer alguma coisa. Desato o meu revolver do cinturão e espero alguma surpresa, mas continuo a galopar e o meu instinto diz que tem olhos nos observando. E assim caminhamos por três quilômetros, o pio aumentou e nisso sai das matas um grupo de quinze índios e todos estavam armados com arco e flecha, alem de tacapes e bordão, pediram que eu descesse do animal, e naturalmente eu desci e nessa hora acalmo o meu cão Lobo. Eles me conduzem até a aldeia, só não fui atacado porque alguns deles me conheceram, e os índios me cercam ate que o chefe chega e diz no dialeto tupi-guarani para que eles se afastassem, pois que eu era um velho amigo da tribo, e me da um abraço e todos cantam e de alegria. E nisso aparece Iracema a mais bela de todas e sorri para mim e vem e me da um abraço bem apertado, naturalmente eu correspondo. Fiquei igual a um bobo, não sabia o que fazer ou falar, então o chefe Iure diz esse ano vocês podem fazer compromisso de casamento, lá vem o pajé soltando fumaça, Iracema ria e dizia que é pra dar sorte e deixar as coisas ruins longe daqui. O chefe Iure faz o acordo com Clementino e fica acertado assim que...

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lementino vai ficar com os índios até o inicio de 1.874 e no mês de abril será o casamento e pode ser 01/04/74 e nesse meio tempo terá tarefas a cumprir e Clementino tenta negociar, mas... Iure diz – cada filha tem um preço e o homem branco terá os mesmo direitos dos índios e os mesmos deveres. E esse tempo será de quase um ano, que assim seja e tenho dito. Clementino sabia que a partir daquela data a empreitada será dura, mesmo por que tem as caças, mas também tem o trabalho. E durante um ano foi assim Clementino caçava e davam todas elas para a mãe da noiva e a noite ele dormia fora da oca, nas épocas do guarupe ele participava como um índio normal. Tanto nas lutas como nas danças ele se sobressaia sobre os demais, e foi conhecendo mais sobre os índios e suas linguagens, costumes e deuses. Nas pescarias a usar o cipó timbó para facilitar a sua captura, caçarem somente o necessário para o alimento. Nesse tempo as suas armas ficaram guardadas na oca do chefe e o seu cavalo ficou descansado como se fosse uma feria, Clementino aprendeu a usar arco e flecha, zarabatana, tacape e outras armas indígenas como armadilhas e seguir pegadas nas matas. Enquanto isso Iracema ficava numa oca de resguardo até o dia do casamento, mas o assunto predominante na aldeia eram as façanhas do Clementino e todas as noites ele tinha que contar as mesmas coisas e era como ele matou o deus da mata e protetor das caças (caipora) isso era na beira de uma fogueira numa oca comunitária. Ele contava, mas ninguém acreditava e riam muito e depois iam dormir rindo. Mas ele não ligava ia dormir e ria também, quando faltava uma semana para grande festa, muitas gentes foram convidadas e a maioria índia de outras tribos. Brancos só foram convidados dois o senhor Antônio L. Queiroz e o doutor Clovis e as suas famílias. De acordo que iam chegando à aldeia os índios se ajuntava na roda de prosa, e como sempre no centro o seu Clementino falando dos seus causos, mas todos pediam para ele contar como ele matou o caipora! E todos já sabiam que ninguém poderia matar um deus, mas lá ia ele contar novamente o causo e como sempre todos riam. Eu não sei se esse meu antepassado era muito engraçado para falar de seus feitos ou a estória era engaçada mesmo. Se bem que até hoje quando se fala nesse caipora o povo não dá importância ou fala você bebeu hoje... O meu! Bem vamos voltar falar no casamento do Clementino, de dia quase todos os índios caçavam e pescavam e pescavam para o dia do casamento, para armazenar eles enegreciam as caças e as pescas e para osso tinha uma oca já preparada. Os brancos falam que é defumar as carnes, mais continuamos com as preparações do bendito casamento, nessas alturas dos acontecimentos vem mais gente que se esperava. Das fazendas chegam os convidados normais e das comunidades negras vem um carroção cheio e das grandes cidades vem vários cochos de pessoas importantes e todos trazem presentes bois, cavalos e até uma faca Bowie americana. Cada família armou as suas barracas nas beiras das ocas e agora só faltava o casamento... Sai ou não sai? Seu Clementino ficou pasmado pela quantidade de gente, nem mesmo ele sabia que era tão querido!

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01/04/ 1.874 O Casamento do século na tribo dos Tamoios do chefe Iure

- CLEMENTINO E IRACEMA -

Na cerimônia todos se calam e só o pajé fala e pede que eles virem os punhos para cima, e faz um pequeno corte em ambos e depois ata com um cipó. E diz abaixem os braços para união do sangue e fala umas palavras indescritíveis até mesmo para os índios e depois dessas belas palavras o cacique Iure diz – Que vivam por longas luas. Mas o doutor tinha vindo com juiz e na mesma hora falou se Clementino tinha o desejo de casar no civil, ele concordou e assim um final feliz e para sempre, o seu Antônio ainda falou por uns minutos com ele e abraçou bem forte aquele velho amigo que ele tanto admirava. Outros convidados; Renato B. e sua esposa Elza Balhe, Flávio M. e ainda o padre Manoel Q. e toda a sua parentela, Joel e Terezinha alem de alguns negros que vieram da fazenda Sabarabussu e depois as figuras locais Peri, Anhangá, Iure, Alex, Nego Bil e etc. Um ano depois nasce á minha bisavó Deolinda – 01/04/ 1.875 Dois anos depois nasce a Laurinda. 21/10/ 1.876 Liberdade dos negros e agora era lei, lei da princesa Isabel segundo as histórias, mas na verdade isso foi conquistado com sangue nas senzalas e nas matas, tanto no nordeste como no sul do Brasil. Uns dias antes o senhor Antônio Lopes de Queiroz foi até a casa de Clementino e olhou para uma menina que brincava ainda com a sua boneca de pano, perguntou o nome dela e a resposta foi Deolinda e tem treze anos. Clementino pergunta a Antônio se ele ia ficar solteiro para sempre, não, não essa foi à resposta de Antônio, então Clementino diz – Pois então você escolhe entre viver na devassidão ou case. Antônio pensa e diz – Mas esse mundo não presta seu Clementino... Então Clementino fala – É o senhor quem faz o mundo senhor Antônio e lembra-se disso... Antônio concorda e resp. – Eu mesmo gosto de ler a Bíblia e não sei por que estou assim seu Clementino, sei que a minha idade avança e tenho que construir uma família. Mas não sei o que dizer para o senhor, mas eu sei que o senhor esta a procura de uma companheira não é... É sim seu Clementino. O senhor vem me visitar, mas esta de olho na minha filha... Ele completa o senhor é meu amigo, mas também gosta de uma farrinha seu Antônio fala serio o senhor quer casar mesmo? Quero sim seu Clementino! Então como o senhor esta de olho na Deolinda eu lhe dou ela pra ti, mas somente depois de se casarem, mesmo porque eu já conheço a vossa fama de mulherengo e daí nem a Iracema vai aceitar se o senhor não se casar com a nossa filha, seu Antônio. Aceitou de imediato e todos foi ao cartório e assim Antônio e Deolinda se casaram e foi no dia da lei Áurea, sem que ninguém soubesse o oficial leu a carta vinda da capital...

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RJ “A princesa Isabel fez a promulgação da lei Áurea no Brasil” nesse momento todos bate palmas de satisfação era 13 de maio de 1.888. Mas Clementino não sabia o que era aquilo ou não conhecia essas palavras e disse – O que é promu... O oficial fala um pouco mais claro e diz – Todos negros escravos ganharam à liberdade seu Clementino... Ele a bom... Então viva á nossa princesa Isabel. O seu Antônio tinha uma mulher, mas não tinha casa, e o que podia fazer? Clementino disse – Eu tenho um rancho lá pra bandas da Serra do Espinhaço, se oce se interessar pode morar lá por uns tempos, há bastante fartura de peixe e caça, o rancho fica perto do rio Araguai entre o patrimônio de Montes Claros. Ou ainda no patrimônio de Conselheiro Lafaiete e lá tenho um amigo que tem um sitio, e ele pode lhe arranjar uma casa. E senão construir aqui mesmo um rancho pra ti, o senhor Antônio preferiu a terceira opção e disse – O seu sitio é bem grande sogro e em três meses eu consigo construir um muito bom. E assim foi feita com ajuda de vizinhos, antes de três meses a casa já estava pronto, nas noites ele colocavam os assuntos atrasados em dia, Clementino queria saber do doutor, e Antônio disse que ele faleceu logo depois que voltou do casamento do Clementino. Logo no inicio de 1.890 a filha mais nova de Clementino também casa e o nome do noivo é Lázaro Marculino da Luz e logo no ano de 1.894 nasce Benedito Lopes de Queiroz filho de Antônio e Deolinda para o espanto de todos. Era o primeiro neto de Clementino, depois vem Jorge, Maria, Argemiro, Joana, Dário, Vastir e etc. Enquanto Lazaro e Laurinda geram entre muitos filhos dois em especial; Lazinho e Bento entre outros. Por que avô? Pergunta um que ouvia o causo. Avô responde – É que Lazinho na verdade era filho de Antônio, e na época foi uma briga pra mais de metro sio, segundo a tia Maria irmã de Argemiro, e o Bento porque geraram os nossos primos José Marcolino e Tereza que ainda estão conosco até nos dias de hoje uai... O contador de causos não gosta muito de ser interropido mais tem hora que é bom né... E outra explicação é a questão genética entre eles, ou seja, Argemiro, tia Maria e tia Vastir todos; filhos de Antônio por esse mesmo motivo, que foi á paralisia progressiva... Eis que depois dessa explicação meu avô vira pros lados, parecendo querer chorar, mas escondia pra ninguém ver, e diz inte segunda pessoar... As aventuras de Clementino não terminam depois de seu casamento, mas vamos dar uma trégua nos seus causos e vamos falar das aventuras do seu Antônio L. Queiroz. Nasceu no ano de 01/04/1. 842. Cidade – patrimônio de Ilha Grande MG. Pai – não conheceu. Mãe – não conheceu Profissão – Carpinteiro ou carapina. Estudo – Aprendeu a ler e a escrever alem de fazer as quatro operações da matemática e conhecia o PI. Morou com suposto os pais até a idade de treze anos e depois sumiu por desgosto. E foi para na cidade de São João Del Rey, e lá foi trabalhar com o senhor João Garanhão Ferrari onde aprendeu a profissão de carpinteiro.

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epois de quatro anos o abandonou e foi trabalhar por conta. Quero ouvir o meu avô falar do pai dele, dizem que os filhos sempre aumentam um pouco os feitos dos pais. E essa estória começou no ano de 1.867 Então vamos ver se é verdade, ouve um tempo que Antônio morou na cidade de São João Del Rey que foi uma das mais famosas cidades de MG era um sujeito que suava a camisa para manter o seu sustento, mas também era muito namorador e por isso; muitos o tentavam matá-lo. Mas por quê? É que numa vila perto da cidade os maridos estavam revoltados e com muita razão, todos os bebês que nasceram naqueles anos tinham a mesma cara de Tonho, parecia uma vila de um pai só, e todos começaram a desconfiar dele, que não estava nem ai com as desconfianças ou suspeitas, e não tinham provas nenhuma contra ele. O seu negocio era trabalhar e qualquer um que quisesse contratar eram só ir ao seu trabalho e prontos era só marcar a data que o combinado não é caro. Mas paralelo a isso estranhamente começou a morrer mulheres, que depois de estuprada eram assassinadas. O inspetor de quarteirão conhecido por José da Luz começou a investigar esses crimes, e a coisa foi ficando séria já era a quinta vitima. Uma carta foi enviada para capital de MG Ouro Preto, que de imediato enviou soldados da realeza, pois assunto se tornou muito sério, a cidade ficou até mais bonita devida o pelotão que á enfeitava... Já no outro dia aparece mais um vitima desse assassino em série, e a cidade que era pacifica se tornou um inferno, mas Tonho continuava a participar dos salões de festas existentes na cidade que eram chamados de bordel, diziam os antigos que esses locais eram antro de prostituições e assassinos. E por causa desses crimes todos eles foram fechados por segurança dos próprios moradores. Mas mesmo assim acontece outro crime, esse já é o sétimo, e nesse também houve certa crueldade, os seus rostos estavam mutilados a faca e segundo os investigadores eram um morador da própria cidade que vinha executado esses crimes, pessoa por pessoa foi sendo chamada à delegacia e sendo interrogadas. Até chegar a vez de Tonho, e lá foram feitas às perguntas – Como o senhor se chama? Antônio Lopes de Queiroz. Onde o senhor mora? No hotel da via principal, sala dois no lado direito. O senhor trabalha a onde? Eu trabalho por conta própria, sou carpinteiro... Onde o senhor passou essa noite? Lá no bordel... O senhor tem testemunha... Disso? Somente o dono, pois eu sou freqüentador assíduo desse local há muito tempo. Entendeu bem senhor; qualquer coisa agente te convoca novamente, mas tem um detalhe, se estiver mentindo será preso imediatamente... Entendeu? Sim senhor. Esse depoimento deve ter sido trigésimo terceiro e foi mais pelas reclamações dos maridos traídos, e a maioria deu queixa por escrito. E passado duas semanas desse fato, o Tonho como sempre saia do bordel às duas horas da madrugada e ia para o seu leito descansar e às vezes levava consigo um rabo de saia. O que era natural para um jovem de vinte e cinco anos, mais com pinta de vinte anos e com o juízo em perfeitas condições. Mas naquele dia aconteceu algo estranho, o luar estava claro e ele avista uma figura se escondendo entre as sombras, Tonho se escondeu rapidamente e começou a seguir aquela figura.

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O problema era a roupa preta que a pessoa usava, mas dava para segui-la e assim mesmo e foi até um ponto que aquela figura de preto, parou dava a impressão de espreitar alguém. Depois de quase uma hora saiu uma senhora de uma casa que sem esperar é atacada, o homem de preto era forte violento, depois de um golpe certeiro com os punhos começa a arrastar a vitima, talvez para um local mais afastado dali. Tonho não sabia se corria ou seguia o homem, valentia não era o seu forte então é melhor fugir, mas se eu fugir vão me acusar eu tenho é que fazer muito barulho e espantar esse bandido. E num ato de coragem Tonho começa a gritar feito doido e o tarado assassino vendo aquele escândalo todo larga a vitima e some na escuridão. Nisso muitas pessoas já tinham acordados e também se aproximam junto com o tonho e ainda vêem a mulher desmaiada no chão. Mais que depressa a sua família á socorre e assim também faz os vizinhos, alguns tentam ainda perseguir o assassino, mas sem sucesso. Na volta Tonho vai até a casa da vitima para ver a sua real condição e nota que ela ainda esta bem grogue e resolve deixar para quando o dia amanhecer. Esta com certeza seriam a oitava vitima desse cruel assassino, mas a forma espalhafatosa do nosso herói com certeza a salvou... Com certeza depois dessa passagem Tonho era um camarada mais preocupado nessa altura dos acontecimentos. Essas coisas tinham que acontecer logo com ele e certamente o assassino iria tentar apagar esse vestígio. O pavor tomou conta do pacifico cidadão, já no amanhecer ele correu até ao inspetor de quarteirão e pediu garantia de vida. Boato correu como rastilho de pólvora, não se falava outra coisa, Tonho teve que voltar a delegacia para fazer esse depoimento, pois a guarda real e o juiz queriam saber com exatidão o que tinha acontecido. Mas eu já expliquei para o inspetor o que aconteceu, sim nos já sabemos, mas a questão de segurança ou proteção ao cidadão é muito complicada seu Antônio, o senhor imagina se todos fizerem as mesmas coisas. Nessa época a cidade de São João Del Rey ainda era um ponto de referencia e passagem de turistas e paradas, de tropeiros e garimpeiros o que complicava ainda mais a situação. A primeira ameaça a Tonho foi uma carta anônima, e estava escrito assim – Você vai morrer Tonho aguarde... Cavaleiro Negro - Essa foi a mais assustadora de todas, pegou a carta e levou até a milícia e lá começaram a analisar com mais atenção à letra. E chegou a conclusão de muitas coisas, a primeira delas é que poderia eliminar mais da metade dos acusados ou suspeitos, já que os mesmos não sabiam nem ler e muito menos escrever.

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Como se fosse algo que tocasse no Tonho ele teve uma idéia genial e disse ao capitão – Senhor, por que não chame aqueles sabem escrever e pedem a todos que escrevam uma frase num caderno e depois que se façam às comparações... O capitão que se chamava Joaquim diz – Brilhante idéia seu Antônio... Para que ninguém desconfiasse ficou combinado que essa investigação ficaria sobre sigilo absoluto. No mesmo dia já foram sendo convocados os suspeitos dos crimes das pobres mulheres; interessante que a maioria das vitimas eram mulheres decentes e de família. Isso quer dizer que o criminoso tinha uma linha e uma conduta. Primeiro foram chamadas as que moravam na periferia e depois as mais do centro. Quando chegou a vez dos moradores do centro foi aquele bafafá danado, uns não podiam ir ao momento solicitado, mas o capitão alterava os horários para aqueles que eram dependentes. Até o ultimo cidadão, dono de hospedaria, farmácia, empórios, dentistas, clínicos, ferreiros, celeiros e etc. Como todos eram residentes não teve muita dificuldade de colher às frases já ditas, o capitão pediu que soldados fossem aos estabelecimento por estabelecimento e colhessem essas frases. Depois de dois dias colheram um monte de frases, e começaram a analisar todas, e umas por uma foram sendo eliminadas, até três delas foram separadas, pois as letras eram quase iguais e sendo uma delas a minha. A minha foi descartada, pois eu tinha prova de vizinhos da vitima e de outras pessoas que viram na estalagem dormindo na hora de outros crimes. Só restavam duas pessoas suspeitas, então o capitão disse seu Antônio a partir de hoje o senhor vai dormir conosco, é mais pela sua segurança, já que sua vida foi ameaçada ou o senhor quem sabe... Pensei muito naquela noite e mesmo que continuasse ali acampado junto à segurança real um dia ou uma hora o assassino iria me pegar, chamei o capitão Joaquim e expliquei a minha situação, sempre gostei de liberdade e da boemia e seria difícil para mim aquela situação. Então o capitão me autorizou que fosse para estalagem, mas que eu assinasse um termo de responsabilidade concordei e fui para os braços de minhas mulheres. E era uma sexta-feira dia de trabalho, mas no dia seguinte era o sábado e a noite a catira ou (cateretê) e o arrasta pé ia se de lasca, era dia de arrebentar as botas, e vou eu trabalhar. Estava construindo uma casa para um conhecido que se chamava Luiz Carlos L. e já estava nas coberturas ou no telhado e o seu casamento era para naquele mês, durante o trabalho eu cantava uma moda que falava de uma moça triste e que quando me viu o seu mundo mudou. Quando de repente um barulho na parede de madeira se faz ouvir fazendo um barulho terrível, é lógico que assustei ainda estava com aquelas mortes na cabeça. Corri para ver quem foi o moleque que tinha jogado a pedra ou algo aparecido, olhei e não vi ninguém, mas olhei na parte superior da porta uma faca cravada e nela tinha um papel. Arranquei o papel e li era outro bilhete do tal Cavaleiro Negro e dizia assim...

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– A sua morte esta próxima seu intrometido... Fiquei apavorado e nessa hora pensei não tenho arma nenhuma, mas se ele me vier tenho o meu martelo e minha serra. Não consegui almoçar, e fui até no empório e perguntei se eles vendiam ou tinham uma arma, ele respondeu temos varias, depende do que o senhor vai fazer Tonho, se é pra caçar ou... Não, não é pra minha defesa mesmo... E o vendedor notou que Tonho ainda estava tremulo e disse – Vai lá à guarda real e denuncie esta tentativa de coação contra tu uai... E lá vai outra vez o Tonho, ate esqueceu-se de comprar a arma, mas foi assim mesmo era logo ali pertinho, chegando lá pediu pra falar com o capitão Joaquim, aguardou um pouco, pois o homem estava almoçando. Cinco minutos esse foi o tempo de espera, o capitão pede a Tonho que entre na outra tenda e disse o que foi homem tu esta branca, até parece que viu satanás... Traz um copo de água pra esse moço aqui soldado. Tonho tomou aquela água e tomou fôlego e depois disse – É o homem de negro... Ele... Mandou-me outro bilhete seu Joaquim... Cade o bilhete homem... Ta aqui seu capitão... Capitão Joaquim pegou e leu o bilhete e diz – Já sabemos mais ou menos quem é seu Antônio... Quer saber. Sim, sim, não, não... O capitão vendo a situação de Tonho pediu que ele ficasse numa barraca por ali mesmo e falou para ele descansar um pouco. Depois disso o capitão teve uma idéia, e a idéia era de usar o Antônio de engodo sem que ele soubesse, mas como seria isso? Pergunta o soldado que falava com o capitão e bem longe do alojamento. Eu vou colocar um soldado hoje noite no pé do seu Antônio, naturalmente ele estará disfarçado de algum viajante ou algo parecido. E vou mandar também um soldado ficar lá dentro com ele e determinada hora ele vai fingir que esta dormindo. Vai deixar o seu chapéu cair sobre rosto, e nesse chapéu tem um furo, e será por esse furo que ele vai vigiar quem repara no seu Antônio. Embora ele vá vigiar mais o nosso maior suspeito e... Enquanto isso, Tonho dormiu talvez de nervoso ou mesmo sono atrasado e isso foi à tarde inteira. Ao acordar Tonho não quis muita conversa e saiu dizendo ao soldado que tinha compromisso e não podia esperar por nenhum capitão. Mas essa era a exata idéia, Tonho chegou à estalagem e tomou o seu banho e na saída da banheira se deparou com o mascarado todo de preto para sua surpresa que ainda tentou estampar um grito, mas foi aconselhado a calar-se. O susto foi tremendo nisso deu uma crise de nervos e abalo que reverteu o quadro e pulou sobre o mascarado e agarrou-se a ele, e a peleja tem inicio, a arma do facínora dispara? O Tonho ainda caído junto ao homem de preto imóvel, e pessoas que ouviram aquele barulho arrebentaram a porta e olharam aquela cena patética, mas triste com sangue escorrendo para um lado. Correram e separam os corpos e um disse – É eu acho que estão mortos. A questão que os dois corpos tinham sangue e nesse instante Tonho diz – Estou morrendo chamem o doutor e ai... Desmaiou e nesse instante chega ao local o capitão Joaquim e examina os corpos e logo chega o doutor. O capitão tira a mascara do bandido e leva um susto! O que? Não pode ser? Nisso o doutor diz - O Antônio não tem feridas capitão...

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Como não ele esta desacordado? O doutor diz – foi o excesso de nervosismo, capitão. Vou receitar um calmante pra ele, e quem é o mascarado mesmo... A resposta foi – É o senhor Pedro Silvério dos reis neto da silva. Mas esse não poderia ser capitão, ele faz parte de uma associação extremamente pacifica, alem de ser o gerente dessa estalagem e por que queria liquidar com um antigo hospede? Enquanto o capitão fazia a investigação o Tonho acorda todo meio esquisito, e perguntando se estava morto ou se a bala já tinha sido extraída, ninguém responde nada, mas o soldado pede que ele se acalme. Mas com as mãos ele procurava algum ferimento, e não achava e nisso entra o capitão e o doutor. O capitão fala Antônio ele era o dono da estalagem e segundo as documentações que encontramos dele, tinha raiva da suas habilidades com as mulheres, e a outra é que você poderia a qualquer momento descobrir quem era o mascarado. Tonho ficou de queixo caído tamanho foi o seu espanto e a seguir pergunta ao doutor o que aconteceu comigo doutor? Com você nada a não ser a sua valentia... Valentia doutor? Eu sempre fui... O capitão corta o que ele ia dizer e fala – O duro Antônio é ver um homem igual ao seu Pedro matar mulheres somente pelos seus fracassos, e a inveja que sentia de ti... Passados alguns dias Tonho resolve mudar daquela cidade, pois o seu passado vem à tona e aqueles que desconfiavam dele agora têm certeza do seu passado. E a qualquer momento, um marido ciumento poderia tentar matá-lo, ajeitou as suas ferramentas na sua carroça e ajuntou sua párea de burros e deu Adeus às mulheres e aquela foi à cidade e a sua casa por alguns anos. O destino era Sabará que era também uma boa cidade e trabalhou nela por uns meses e depois foi trabalhar numa fazenda pelo nome de Sabarabussu e ficou nessa fazenda até ano de 1.876 e depois foi para o sul de MG numa pequena vila pelo nome de Parahybuna do sul... A minha fama de um bom construtor de casas como carpinteiro já tinha corrido quase todo o estado e talvez nessa vila eu viva um pouco mais confortável e longe dos maridos enciumados. Mesmo porque ninguém me conhece e ai estava à vantagem, podia oferecer os meus serviços sem problema nenhum. Tinha muitas plantações de fumo e algodão era perto da serra da Mantiqueira e do rio Paraíbuna que é muito bom para uma pescaria. E outra passei a freqüentar a igreja Metodista e já faz alguns anos atrás, ou seja, lá na cidade de Sabará e nos dias hoje se não tem igreja, no mínimo leio a Bíblia. Depois de quase ser morto eu tinha que fazer um concerto, mesmo porque enfrento um castigo uma doença que me acompanha desde Sabará e que não tem cura. Tudo por causa dessas mulheres, e agora tem que me apegar a alguma coisa senão eu morro mais cedo... 10/06/ do ano 1.877 foi nesse dia que cheguei nessa vila e tenho até umas casas para construir, só que não tem muito material para trabalhar, pregos têm que mandar vir do RJ ou de São João Del Rei ou... Nem lixas, nem arco de Poá, nem as brocas, alguma coisa o ferreiro faz e outras eu mesmo tenho que fazer, mas quando tudo é programado da tudo certo.

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O povo desse vilarejo é diferente em relação ao do norte, aqui quase todos vão a uma pracinha, e lá todos falam de pescaria, caças e comentam muito num homem e este se chamava Clementino o matador de monstros, mais conhecido por caipora. A mim logo pensei no meu amigo que conheci lá pras bandas de Sabará que trabalhou comigo na fazenda do doutor. E no ano de 1.874 fomos ao seu casamento e será o mesmo homem? Pra não atrapalhar o homem eu os deixava contarem esses causos meios macabros e fora da nossa realidade. Mula sem cabeça, saci, caipora e etc. Era muita bobagem pra minha cabeça, só sei que o meu passado eu não contei pra ninguém, depois de alguns meses comecei a sentir aquela vontade de namorar, lá tinha umas velhas viúvas e talvez eu possa namorar uma delas. Mas tem que ficar entre nois e ninguém pode saber, e os meses foram passando e voavam como pássaros. Num descuido de uma delas, vem a gravidez, depois noutra e noutra, e o pior os parentes queriam saber como. No outro ano as mesmas coisas, outras mulheres outros nenéns e todo com o mesmo rosto, um algodoeiro muito rico colocou pessoas para fazer investigações. 1.879 a bomba estoura o inspetor do quarteirão me manda um recado, que eu teria que comparecer na sua casa o mais breve possível. Naquele dia estava nas matas tirando toras de peroba para mais uma casa e passava as correntes sobre elas quando o garoto me deu o bilhete. Eu não estranhei mesmo porque todas elas assumiram que manteriam sigilo absoluto sobre os nossos casos. Eu já conhecia todos naquela comunidade ate as moças solteiras, e não temia nada que pudesse me comprometer. Arrastei as toras no quintal da casa onde morava e tirei as cangas dos animais e depois os alimentei. Depois disso me banhei e jantei e quem cozinha para mim era uma senhora já de idade e muito respeitosa. Naquela casa ela fazia serviço de cozinheira e também da limpeza da casa. E enquanto eu jantava, ela me dizia que o povo me admirava muito, mas achavam que estava envolvido com aquilo! Aquilo o que dona Hermes? Os bebês, e dizia toda sem graça... Fiquei pensando enquanto jantava será que vai acontecer quando chegar à casa do inspetor! Será que alguma mulher deu com as línguas nos dentes? Acabei de jantar e fui á casa do homem era logo ali perto e no portão bati palmas e os cachorros latiam e nisso aparece o homem e diz - Entre seu Antônio... Entrei e me acomodei e logo disse que era sobre o bilhete... Ele riu e disse – É o lobo perde o pelo, mas não perde o vicio né... Eu, o que mesmo seu Milton? Nada, nada não seu Antônio é que o coronel tem me perturbando para falar com o senhor... É a respeito de uma empregada dele... Que ta grávida. E ele ta achando que é tu o pai do guri. Eu? O homem ta louco, daqui a pouco se suas filhas aparecerem grávidas vai dizer que sou eu também... A entrada da dona Elza com a sua filha cortou o nosso assunto e ela diz boa noite pai, boa noite seu Antônio... Respondemos no mesmo tom, e continuamos o nosso assunto. Milton diz - Muitos já se falaram que essa menina tem a sua cara, mas como que vou saber!

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A minha filha jura de pés juntos que não é... E quem é do marido dela quem sou. Eu pra contrariar o que ela diz... Olhei meio espantado pra menina e perguntei – qual é o seu nome bonequinha... Dona Elza diz - Ela ainda não fala seu Antônio, mas o nome dela é Flavinha. Pensei... É realmente é a minha cara. Só pensei né, sou pessoa de boa índole, mas nisso o homem já tinha falado comigo umas duas vezes e confesso não ter ouvido. Sim senhor, desculpe-me lembrei do meu filho que deixei lá na cidade de Sabará, essas palavras cortaram o assunto dele, mas estava chato mesmo não é. E daí seu Milton o que barão quer mesmo? Processar o senhor meu caro Antônio! O que? Isso mesmo que o senhor ouviu seu Antônio... Nessa hora deu um branco em mim, comecei a misturar as encrencas de São João Del Rei e outras... Será que é isso mesmo seu Milton? É o que pelo menos me disse. E já pensa em fazer aqui mesmo um julgamento seu, e será na parte da amanhã, eu pensei – Isso só pode ser um blefe, ninguém avisa alguém quando quer fazer algo contra alguém... Mas nessa hora o eu agradeci o seu Milton e dei uma boa noite para já que as mulheres estavam em outra sala, e fui dormi porque a noite naquelas bandas é cumprida demais sio. Chegando a casa deitei e quem disse que eu dormia, fiquei pensando naquele barão e nas promessas dele fazer um julgamento ali mesmo, não pode ser, até aqui nesse fim de mundo sempre tem um terrorista. Pensei, pensei,... Acordei assustado com gente batendo na porta e uns gritavam - Acorda Antônio acorda... E acordei, levantei bem rápido e nem bem me vesti e fui ver que era, e vi umas dez ou quinze pessoas no lado de fora me esperando. Estava meio tonto ainda pela noite mal dormida pedi que aguardassem, depois de uns quinze minutos sai e logo dois capangas do coronel me seguravam pelos braços e me arrastaram ate a casa do seu Milton. Acomodaram-me numa cadeira separada dos demais ate a chegada do coronel que logo chegou. Eu estava parecendo uma vaquinha de presépio, onde todos me olhavam com admiração, e perguntavam para outro o que será que ele fez?... O coronel entra na sala e pergunta todos de pé e canta um hino, depois ele coloca uma bíblia sobre a mesa e diz podemos começar e a primeira frase dele é essa – (Dura Lex seja Lex.) Eu naturalmente não entendi nada, sentei assim como todo mundo e tem inicio o julgamento do homem levanta um capanga do coronel e falo - Eu sou o promotor desse julgamento e vou colocar o que o réu fez... Era o fim do ano 1.879 e aquilo não podia estar acontecendo... Mas esse tal de promotor leu uma folha quase inteira de onde eu vim quem era eu, o que fiz em outras regiões de MG e depois olhou pra mim e disse – Tudo isso é verdade seu Antônio? Eu, não, não quero dizer sim, mas o que é isso afinal de contas. O coronel responde um julgamento, julgamento seu senhor Antônio, pela lei que me compete nesse município eu sou a lei e a ordem. Sou o juiz e o algoz, e...

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u grito isso não é certo, o senhor não é autorizado pelo rei Don Pedro II a fazer esse tipo de julgamento e outra coisa, como crente da metodista, digo ninguém tem prova contra mim e outra coisa eu tenho direito num advogado... O coronel grita – chega, basta sou eu quem manda aqui. Eu corto outra vez e falo - Eu não aceito o senhor como nosso juiz... Tem que ser um Juiz de Fora. O que?... Juiz de Fora... Digo isso mesmo Juiz de Fora. Um fala daqui outro acolá e o assunto vai crescendo em poucos segundos todo o povoado gritavam as mesmas coisas. Quando o coronel viu que todos gritavam me apoiando, piscou para um de seus capangas e esse se encostou e disse – Cala –te ou morre, esse foi bem nos pés do meu ouvido. Naturalmente eu acatei essas ordens, mas na seqüência ele o coronel disse o senhor tem o prazo ate o fim de semana para se mandar daqui senão responsabilizamos pela sua vida. Século XIX um daquele que estava presente gostou e trocou nome da vila de Parahybuna para Juiz de Fora, para Juiz de Fora, e esse nome esta até nos dias de hoje, quem for desse tempo com certeza vai lembrar-se de seu Antônio Lopes de Queiroz e como ele fez essa mudança de nome. Passados algum tempo depois a cidade chorou pela falta de Antônio, ainda mais os seus filhos. Estima-se que a população já tenha alcançado a marca dos 500.000 mil habitantes e ainda faculdades de direito, farmácia, odontológica e engenharia. Além de manter o tabaco, laticínios, pneumáticas, açúcar, cortiça e o algodão como a sua marca maior da economia. Isso é nos dias de hoje – ano de 2.000 A questão e a jogada do seu Antônio colocando um Juiz de Fora são de fato uma verdade, pois quem nomeava um Juiz era o rei, e tinha que ser formado na Universidade de Coimbra – Portugal.

O lenhador Naqueles tempos era muito complicado o emprego, enquanto guardava as suas ferramentas na sua carroça era nisso que Tonho só pensava, não teve duvida ficou sabendo por um forasteiro que tinha chegado naquela cidade, que na cidade de SP eles estavam contratando lenhadores. Após guardar as suas ferramentas guardou também mantimentos que era sempre uma farinha de milho, jabá, café e levou também alguns pães italianos e pães caseiros, naturalmente cedidos pelas mães que ficaram para traz. Elas choravam longe dali mesmo por que seus maridos e pais não podiam ver. E aquela viagem de tonho partiu muitos corações, mas lá se foi o nosso valente bisavô pra mais uma cidade desconhecida. Depois de muitas semanas ele chega nessa imensa cidade que tinha muitas ruas e muitas casas de três andares coisas nunca vista por ele. Pediu informação onde ficava a... Sorocabana e foi informado e se rumou para lá, e sobe rua desce rua e de repente parou e pensou – Diacho... Estou andando a mais de dois dias e nada de Sorocabano... Nisso passava um cidadão, e não teve duvida gritou – Senhor, senhor... Pois não carroceiro o que tu queres... Que trilhas são essas e vão pra onde? O cidadão diz – Essas trilhas vão pra Iguape. Iguape? Diz Tonho, mas quero ir para o centro de SP e não Iguape... A então o senhor vai que retornar por dois dias e lá no centro o senhor pergunta para umas três pessoas para ter certeza senão eles vão te engana novamente,... Assim, to bom moço e muito obrigado pela informação. 20/05/ 1.880... -70-


Chego ao centro de São Paulo, e já sei que estou perto da Sorocabana, eles estavam ainda fazendo o alicerce de alguns prédios. Pergunto onde é o escritório da firma, eles me apontam e lá vou eu com os meus quatro burros para o escritório dos homens. Mas logo na entrada vejo vários cartazes informativos, mas não os leio e vou direto falar com o homem que me indicaram e o encontro bem no meio de mais três pessoas, peço licença e pergunto quem o senhor Sebastião e ele responde sou eu por quê? É sobre o emprego de lenhador! Lenhador? Sim senhor... E por que o senhor este espanto seu Sebastião! Ele responde – É que o senhor é muito, muito magro seu Antônio os homens daqui são todos altos e fortes, e cada um deles corta uma media de treze metros de madeiras por dia. Agora se o senhor quiser puxar lenha com a sua carroça ai eu tenho certeza da capacidade. Pêra seu Sebastião o meu negocio é cortar as árvores por metro e não puxar madeiras. E nisso chega um sujeito alto forte e bem musculoso e diz pra mim – Quer fazer uma aposta, que não consegue nem dois metros pra fazer uma fogueirinha seu moço... Espera ai seu... Eu nem ti conheço uai. Seu Sebastião entra na conversa e diz para Antônio – Este é o Pedrão também conhecido como devorador de florestas. Então eu aceito a sua aposta seu Pedrão, mas qual vai ser o valor dessa aposta? Se oce perder, perdem a sua carroça coma as juntas de burros... Certo seu Antônio? A... E se eu ganhar de ti Pedrão? O que eu vou ganhar. Bem ai o salário desse semestre será tudo teu... Certo Antônio! Antônio pensou, pensou e respondeu que sim... Tava feita aposta com a concordância de seu Sebastião... Na saída do escritório olhei na parede e avistei essas fotos e fique espantado tamanho eram as coincidências dos meninos, pareciam até gêmeos e outra coisa todos de São João Del Rey, cidade onde morei por uns tempos. Quem será esse canalha e sujo, bem vamos deixar essas coisas pra lá e nesse momento tenho que arranjar um local pra dormir, o que não difícil, pois logo ali perto tinha uma hospedaria. -71-


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fui ver o preço e se era bom pra almoçar e jantar. Outra coisa era a carroça e os animais, tinha que arranjar uma cocheira para deixá-los, coitados a viagem foi longo e eles mereciam descansar um pouco é o mínimo que posso fazer. Mas logo achei e numa região urbana da cidade, conhecida como a praça da luz, daquele local até a hospedaria ficava bem perto, vi varias igrejas no caminho na qual posso participar e uma delas é a Luterana a outra é Presbiteriana alem da Metodista, mas ainda tinha a Católica. Por uma questão de opção fiquei na Metodista mesmo, embora eu fumasse um pito ou cigarrinho de palha eles não nos condenavam, é uma boa igreja, se bem que também gostasse de um golinhos de cachaça. Agora sim estava tudo certo e tenho que pensar na aposta com aquele gorila branco desse tal de Pedrão. No dia seguinte fui direto ao escritório que era perto dali, e ao chegar já tinha uns quarenta peões esperando por essa peleja e de lá fomos pra um local chamado o vale do Ibirapuera que era uma mata quase virgem. Começamos a descer dos carroções e muitos já gritavam Pedrão, Pedrão... Eu timidamente já pensando na derrota, mas os meus animais e a cachorra me davam força, foi quando Sebastião nos chamou e disse - A regra é o seguinte o horário será das oito horas de agora e vai até a meia noite. Pra na ter nenhuma briga um vai ficar no lado direito dos outros lenhadores e o outro ficara no esquerdo. E a medida de cada um será de vinte metros de largura, e será em linha reta e se um avançar na faixa do outro lenhador será desclassificado... Certo... resp.– Certo senhor... E quando eu der tiro podem começar. Então faltava uma hora pra começar a peleja, dava tempo de tomar um cafezinho e afiar o meu machado, o meu machado era uma ferramenta que importada da Alemanha. Tinha um peso ideal para esse tipo de trabalho, alem do equilíbrio era com corte nos dois lados, tipo americano quando um lado perdia o corte no mesmo tempo você virava o trem e continuava a trabalhar. Essa era uma das melhores tecnologias daqueles tempos, o machado desse tal Pedrão era comum o corte de um lado só, essas coisas eu fiquei pensando enquanto tomava o nosso cafezinho. Além disso, ele não me conhecia já estava acostumado a derrubar árvores para construções de casas e olha que eram perobas de mais de trezentos anos e muito duras assim como ferro. Nisso seu Sebastião chamam os lenhadores e diz - Quem vai apostar são sós esses dois mais vocês não me façam passar vergonha senão serão dispensados do serviço... Certo? E todos concordam e fez as formações assim. Uma linha reta no sentido norte sul e depois linhas que iam para o oeste e quem entortasse essa linha seria desclassificado e todos balançaram a cabeça e outra coisa não ficara árvore sobre árvore, todas elas serão cortadas com dois metros e serão lascadas somente as árvores com mais de cinqüenta centímetros de larguras... Talvez essas medidas fossem para facilitar o transporte e também para facilitar os cortes de dormentes para as futuras linhas desse troço que sai fumaça pra todos os lados uai... Nisso o senhor Sebastião grita vou atirar... Blam... Corri pra minha posição e dei inicio naquela que seria a mais árdua das batalhas. Tinha umas árvores que com três ou quatro machadadas ela já caia e outras já tinha que ser com mais umas, ali se encontrava perobas, pinheiros, cedro, cedrinho e outras tantas. -72-


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eu meio dia e ninguém quis parar e só escutava barulho de árvore caindo e deram três horas alguns foram parando, quatros mais outro montão parou as, cinco outros tantos param as, seis. Os setes só estavam nós o Pedrão e eu, oito, nove horas, a meia noite escuta um tiro que era para nois parar, se bem que na verdade só tinha eu e o Pedrão, na minha volta levei quinze minutos e o tal só chegou depois de meia hora, assim mesmo arrastado por dois amigos. Suas mãos estavam toda arrebentada, aliás, de quase todo mundo menos a minha, sentei esgotado e o seu Sebastião falou – Amanhã vamos conferir e ver quem ganhou a aposta. Desmaiei e nem jantei, mas às seis horas da manhã acordei com o corpo dolorido, mas descansado e logo o pessoal já se levantou e olhamos os estragos que fizemos naquele local. Até parecia o deserto do Saara, Sebastião e mais uns homens saíram cm uma vara que dizia ter um metro e saiu conferindo tudo, tinha mais ou menos uns, vinte lenhadores. Enquanto preparo a minha bóia que a fome tava me matando, quando deu meio dia lá vem o homem, e falava assim tamanho não é documento, pensei ta tirando uma casquinha comigo, mesmo por que as maiores árvores estavam do meu lado, inclusive dois ou três pés de pau Brasil. Mas não era nada disso ele foi direto e disse – O mineirinho cortou vinte e cinco metros de madeiras nobres, enquanto o seu Pedro cortou somente quinze metros, Pedro acabava de perder seis salários... E eu ganhei um emprego, mas não de lenhador, e sim de carapinha e seria nas obras desse tal trem. No local que fiz aquela tremenda devassa, ou limpeza nos dias de hoje é conhecida como Avenida Brasil por ter ficado reto, enquanto a do Pedrão começou no Ibirapuera e terminou bem num local que futuramente seria um campo de aviação, portanto ele foi fazendo curva, no corte das árvores na mata. Dois meses depois Pedrão vem me pagar e eu digo a ele você tem família, ele responde que não aqui no Brasil, mas tinha lá nas Europa, eu digo - Me de só a metade e o outro pagamento dele seria somente dali a seis meses. Ele me agradece e diz a partir de hoje ganhou um amigo de verdade. Depois de quase um ano sai desse emprego e fui morar perto do palácio do Ipiranga e perto do rei Dom Pedro II era o ano de 1.881 e lá construí uma casa de pau a pique para não ficar na chuva durante um tempo e fico lá ate o dia 07/09 de 1.882 depois que aquele pessoal gritou lá dizendo “Independência ou morte” eu mesmo não queria morrer, muitas pessoas depois disso desenharam o palácio e também a minha excasinha que olhado de frente para o palácio ela ficava do lado esquerdo, num barranco é mole ou quer mais... E com tristeza arriei os meus burros com as cangas, guardei as minhas ferramentas no carroção e voltei pro centro dessa fria cidade de SP lá tinha umas moças boas e carinhosas, mas de família quem sabe eu possa casar com uma delas. Na verdade o dia da Independência foi no dia 01/09 de 1.822 e não na data de 1.882. Essa foi uma forma de uns brincalhões comemorem os 60 anos de independência do Brasil. Nunca mais fiquei sabendo se aqueles grupos de rebeldes fizeram uma guerra ou não, onde se viu de frente com o palácio gritar Independência ou morte, deviam estar bêbados ou queriam morrer mesmo. Enquanto pensava caminhava com a minha carroça rumo ao centro de SP que era mais ou menos uma hora de viagem, nesse meu retorna a cidade grande lembrei-me do Pedrão e de seus amigos. -73-


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ais confesso que não gostaria de trabalhar lá novamente com aqueles estrangeiros que nem sabiam falar, quando falava diziam assim – Camom bói, duil espiquingro e sei lá o que mais. Logo que cheguei já fui procurando uma pensão ou hospedaria que sempre eram casas de senhoras viúvas e que alugavam um quarto com direito de comida e banho, embora eu só tomasse um banho por mês, para não tirar as defesas do corpo. Isso era ensinamento do meu avô que era Europeu, lá nas terras das neves ou gelo, ou como queiram, mas vamos à hospedaria vi uma logo perto de um mercado que era um tremendo prédio, a senhora disse o preço aceitei e vou procurar um estábulo ou cocheira para deixar os burros e a minha carroça. Acertei o preço e tudo certo agora tenho que arranjar um emprego o foi muito fácil, fui a uma rua toda torta e lá disseram que era a rua direita. Muitas mansões e nas ruas muitas carruagem e também os escravos que caminhavam no meio da rua e nas calçadas os senhores e as senhoras e eu entre elas, nisso um negro quase foi atropelado por uma carruagem e vem cair bem no meio da calçada. Um senhor bem trajado levanta o chicote para bater no pobre coitado, mas Antônio sem querer tromba com o senhor e faz que derrube o chicote, o negro vendo a situação foge e se mistura no meio dos outros negros. Antônio com certeza escutou o que devia e que também não devia, mas ele só disse – Ele sente dor e tem sangue como o senhor seu monstro de duas patas. O homem sai bufando de raiva, e Antônio continua a reparar as casas e os comercio e de repente parou para reparar um carroção cheio de mercadoria fazendo entrega num empório dessa região. Logo mais na frente termina essa rua e logo abaixo um vale com um rio no meio e do outro lado um sitio ou uma chácara com uma grande plantação de chá. Voltei e entrei na primeira rua a esquerda, onde tinha também algumas casas e também varias lojas de variedades, e bem no fim dessa rua tinha uma capela pelo nome de São Bento. Andei muito e nada de emprego então resolvi voltar pra pensão e não é que ao passar numa porta dessas de duas folhas tinha uma placa pedindo um entregador de mercadoria. Entrei e perguntei como era o serviço! O moço respondeu – Olha senhor é um serviço para quem tem uma carroça ou carroção, acho que não é o seu caso moço... Eu respondo que tenho um carroção se esse for o caso. Então se for assim o senhor o empregado é seu. Era o dia 10/09/ de 1.882 e fui conhecendo o centro de SP e até alguma vila... Um local que fiquei chocado foi um pouquinho acima da capela da Sé, numa trilha uma que dava uns duzentos metros e lá uma árvore para enforcar os negros rebeldes e perto uma pequena capela para velar por esses mortos, era de arrepiar, pois no dia em fui lá tinha um pendurado na árvore. Depois de trabalhar por três anos resolvi ir embora de SP... Deixei varias namorada e alguns filhos, eu as convidei para vir comigo, mas nenhuma aceitou então o jeito foi voltar sozinho, assim como vim. 1.885 Iniciamos a caminhada com os meus burros e a minha carroça e todas as minhas ferramentas, esse trabalho de ter que cumprir horário não era comigo não, despedi dos amigos e fui comprar algumas roupas e os mantimentos e segui pela trilhas dos tropeiros até o rio grande, lá existia uma ponte de madeira e atravessamos o rio grande.

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u tinha mandado algumas cartas para Clementino e também tinha recebido alguma, resolvi no meio do caminho passar na sua casa que ficava perto dali eram ou dois dias de viagem só. Eis que ao passar por um matrimônio com um nome esquisito um senhor me chamou e disse – Moço me acuda, tem gente tentando me matar... Eu digo se esconde ai atrás da carroça e fique quieto. O homem se calou e lá vamos nois, no mesmo tempo que socorria o homem eu pensava na minha vida, mesmo porque não sei o quem é e o que ele fez. A gente já tinha andado um bom pedaço quando avisto três cavaleiros com rifle nas mãos, eles me param e perguntam – De onde eu vinha e quem era eu, eu respondi e depois fizeram outras perguntas enquanto dois olhava na traseira da carroça, e um desse faz uma pergunta – O que esta carregando ai atrás? – Eu nada, nada mesmo só ferramentas... Posso ver então... Claro respondo... Nisso ouço os tiros, mataram o pobre rapaz e pior ainda estava por vir, um deles encostou o rifle na minha cabeça disse – Então não tem nada ai atrás seu moço? Eu digo... O safado então se escondeu no meu carroção, falei gritando de uma forma que justificasse a minha inocência e eles acreditaram. E um deles me disse – Jogue esse patife em qualquer barranco, eu repondo sim senhor, ando ate eles desapareceram e depois pulo da carroça e fui ver o corpo do infeliz, ainda balbucia algo – Mi... nha mulher... Eu moro... Lá na bb... E deu o último suspiro, morreu. Resolvi eu mesmo enterrar o pobre coitado, peguei a minha pá na carroça e começo a fazer a cova, já bem funda arrasto o pobre coitado até beira e antes de jogar o corpo na vala. Dei uma revistada no homem e amarrado junto à cintura um barbante que puxei para fora e com ela vem um pacote ou um pequeno bornal, abro e vejo centenas de pedras brancos parecendo diamantes. Enterro o homem e jogo as pedras entre as minhas ferramentas e continuo a minha viagem. Era uma trilha reta que acabava numa vila, depois de uma hora e meia chego cansado e com muita fome, pergunto se tem alguém que serve almoço ou uma janta. O moço que atendeu ma aponta uma casa e diz que a dona se chamava dona Suzana Dias, e vou até o local mencionado e lá bato palmas, e logo uma senhora atende e com ela vem um bebê de uns dois anos e toda graciosa que se chamava Brequinha Dias, pergunto a dona Suzana se ela serve comida e ela responde que sim e diz já é tarde seu... Seu... Antônio ao seu dispor minha senhora, ela continua – Posso fritar torresmo, couve, arroz e fazer umas costelas, de porco só que fritas e um pouco de farinha de milho assim ta bem seu Antônio... Quando ela disse que era tarde no meu relógio roscofe marcava uma hora da tarde, eu já tinha acostumado a almoçar a essa hora, mas lá no interior mineiro o almoço era às nove horas da manhã. O almoço encheu toda a mesa, mas a fome era tenta que estava fui comendo, até que restou um osso da costela e lá tinha um cão que ficou de lho em mim até esse momento, joguei o trem para o bicho, ele saiu feito doido brigando com outros cães do local. Nisso senta ao meu lado um senhor pelo nome de Jaque e dizia ser o esposo da dona Suzana, então eu pergunto se tem pistoleiro por aquela paragem. Ele pensa um pouco e responde –

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lha seu Antônio se fossem uns três anos atrás nós diria que tem, mas agora têm uma assombração desses que morreram que atuam á uns três ou quatro quilômetros, numa encruzilhada vinda para a nossa vila, mas sempre é a mesma estória um suposto ferido corre até um estranho que se aproxima e grita que vai ser morto por três capangas dum coronel ou algo assim... Enquanto a dona Suzana vai tirando os pratos da mesa, ela ouve reforça a estória, dizendo muitos chegam aqui dizendo ser rico. Muito rico, pois é seu Antônio é tudo mentira nem ouro nem tesouro... Antônio fica pálido, vai perdendo a voz e desmaia, o casal o socorre e colocam-no numa cama e aguardam que ele acorde. Acordou somente às cinco horas da tarde, talvez o longo tempo sem uma boa alimentação ou quem sabe as assombrações fizeram que ele se lembrasse algo do passado. Levantou e viu aquelas pessoas todas estranhas e disse - Onde estou quem são vocês... O que é isso... O seu Jaque disse – Fique calmo seu Antônio, o senhor desmaiou, deve ter tido um distúrbio qualquer se acalme. Durma e quando for amanhã nós vamos conversar mais com calma. Já no outro dia era 19/02 de 1.887 o tempo passou rápido até parece que foi ontem que estava em SP só na viagem levei quase cinco meses. Mas a minha preocupação era desvendar aquele mistério, sei que não existem assombrações, mesmo porque leio a bíblia e não acredito nessas coisas, sei que tenho que pegar aqueles diamantes na minha carroça e provar para essa gente que é tudo mentira ou fantasia deles. Logo cedo levanta e o pessoal o convida para tomar café a qual não recusou, e prosa vai prosa vem ele entra no assunto outra vez. Eu tenho prova que não era assombração minha gente e vou buscar uma prova que eram os diamantes, se levantou assim também as pessoas que estavam com ele e foram todos á carroça. Que estava no mesmo local, menos os burros. Levantou a lona e por mais de meia hora procurou e nada achou! Mas cade? Eu mesmo coloquei aqui? Cade? A o pessoal todos riram... Qual é a graça pessoal e já disse que botei aqui... Foi à assombração seu Antônio diz Suzana. Então eu vou voltar e ver a cova que fiz pro defunto, colocou os arreios no seu burro e voltou até onde ele viu os capangas e socorreu a vitima, desceu olhou onde tinha aberto a vala e nada de buraco nem de cruz... O que? Olhou pros lados para ver se era ali mesmo, e o pior que era. Sentou num barranco e ficou desolado e oprimido e ficou falando sozinho e pra si mesmo – Parecia que tudo era real, meu Deus. Nisso alguém grita? Socorro, socorro, Antônio só olha e nada faz a pessoa para nos seus pés e diz – Me ajude moço! Eu, de jeito nenhum; Você já é morto... Então surgem do nada os três capangas e começam atirar no pobre coitado que cai perfurado de balas dos rifles... Os três pistoleiros param perto de mim e diz o que faz por essas bandas o insignificante, do modo que chegaram ficaram bem em cima dos cavalos, eu respondi desçam aqui e vem conversar seus demônios, eis que tenho um presente para os três, venham... Nisso comecei a notar que seus cavalos não eram bem cavalos e sim um bicho igual o cavalo, mas tinha um chifre bem no meio da testa, olhei também nos olhos dos homens e eles não tinham olhos era somente um buraco escuro.

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um deles passou sobre mim como se fosse uma fumaça, mas não temi, e eis que um deles falou - Você não quer um tesouro? Eu gritei vai para inferno o infeliz... O outro falou vem aqui na meia noite nois vai lhe mostrar o nosso tesouro seu tolo. O terceiro disse se tiver coragem certamente vira, mesmo porque enquanto não desenterrar essa fortuna, não deixará ninguém em paz nessa trilha. E outra coisa venha a sois senão a maldição será bem maior que imagina. Nisso o morto se levanta e vem minha direção e eu Grito - Alto lá o satanás e levanto a minha mão, insinuado algo que eu mesmo não tinha, mas tremo de medo. E nisso todos desaparecem assim como vieram, ou seja, do nada, o meu burro nessa hora já tinha chegado à vila e eu corria também para chegar o mais rápido possível. Agora eu creio que existam sombrações, que coisa dos infernos meu Deus, todo suado chego quase morto na vila, e quase todos vem ao meu auxilio e a pergunta era inevitável, o senhor viu a assombração? Sim! E o que elas fizeram com o senhor... Nada, nadinha mesmo, me deixa descansar um pouquinho depois eu conto o resto. O interessante que essas imagens apareceram de dia e não à noite como é de costume e é o natural. Seu Antônio dormiu por umas duas horas e depois levantou ainda com dores no corpo, dona Suzana já estava quase terminando o almoço isso já eram quase onze horas e me pediu desculpa pelo atraso eu respondi que já estava acostumado a almoçar ao meio dia, portanto que não se preocupasse com essas coisas. Pegue a minha bíblia e fui procurar esse negocio de fantasmas ou assombrações, cruiz credo sio, epa achei aqui no livro de Mateus 14:26 e também no capitulo 27:52 e 53 e depois no livro de Marcos 6.49 se bem esse era Cristo quem vinha andando no mar, mas Pedro gritou feito bezerro novo, a isso gritou, mas gritou mesmo. Acabei de almoçar e fui direto conversar com o povo que vivia ali, e cada um contava uma estória diferente, mas no resumo era uma só. Quer dizer eu fui o escolhido por essa maldição, e ainda ter que ir lá à meia noite e sozinho, mas diz que o bom cabrito não berra então eu vou, e seja o que Deus quiser. Nessa época seu Antônio já tinha perdido o medo de fantasmas, mas ainda tinha pavor de armas de fogo, todas essas coisas ele ficava pensando, e o dia encurtou demais e quando viu já eram seis horas da tarde, e disse pro seu Jaque – Se eu não retornar essa noite cuide de meus burros e da carroça alem das minhas ferramentas. Fez o que tinha que fazer, isso é jantou, tomou o seu café das oito, foi até os burros e fez carinhos neles, passando a mão sobre as suas cabeças. Até parecia que estava se despedindo deles e todo mundo olhava para ele com muita, dó, deram nove horas e a noite estava escuro feito breu, somente a lua aparecia e desaparecia entre as nuvens, dando expressão de espiar o seu Antônio... 21/02 de 1.887 as 10H00 Vou, mas com dor no coração ou seria medo mesmo? Não, já sou vivido e tenho visto muita coisa nesse mundão de Deus e lá vou eu com Deus e mais ninguém e fui a pé mesmo, porque eu tinha que estar só, andar e continuar a caminhar e de repente! Chego ao local marcado? Não era bem meia noite, mas faltava muito pouco, sento no barranco novamente até escutar um tropel de cavalos.

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ram os três e mais um na garupa de um cavalo, os cavalos relinchavam e empinam para trás e para frente dando a entender que eram selvagens eu mesmo nem me movo fico como uma estatua. Nisso um deles fala - ES valente e um bravo, agora nos acompanham até o pé daquela montanha, e lá vou eu andando e eles trotando nos seus garanhões. Depois de dez minutos chegamos ao local, e um deles fala uma palavra estranha e se abre uma porta que era invisível aos olhos nus, entraram com seus cavalos e a seguir fui atrás. Paramos num local amplo e nela se via luzes por todos os cantos o sol parecia estar presente e num canto uma grande poltrona com alguém sentado nela. E este falou - O meu nome esta escrita nas injustiças dos homens, nas iras dos homens, no vale dos mortos e nas mentiras e calunias daqueles que nos julgam. Depois disso falou fui morto por causa de um tesouro ou a minha riqueza, ninguém viu e ninguém sabe o nome do criminoso, nesse dia morri eu e a minha família também. Menos dois filhos que escaparam dessa atrocidade e ganância desse miserável. Alem desses que o buscaram no local da minha morte. E também falou – Tenho que indenizar meus filhos que estão passando por necessidades e um deles é aquele que ti acolheu, e o outro você ainda o conhecera, vai estar em seus caminhos a cinqüenta quilometro andado pela trilha em que você vinha. Seu nome você ficara sabendo quando ele disser sou seu escravo senhor, esta será a senha, não se esqueça disso. E será amaldiçoado eternamente senão fizer essas coisas, e se fizer tudo certo a sua geração sofrerão danos até a quarta geração. E por que meus filhos sofreram essas coisas seu... Seu... Eis que te digo Antônio, lembra-te que praticaste o adultério em muitas cidades, e não amparou nenhum deles. Mas se for obediente e cumprir o que combinamos não haverá mais assombrações naquelas trilhas e eis que tenho dito. Venha amanhã bem cedo nesse ponto da montanha você encontrara duas arcas com tesouro e uma ficara com Jaque e a segunda já te falei e sobre a arca cinco moedas de ouro estas serão tuas e vá assim como vem. E lá volta Antônio com todo desgostoso e dorme dentro da sua carroça mesmo, pois já passava das três horas da madrugada. Deitou dormiu tamanho foi o seu esgotamento físico e espiritual. Mas acorda cedo eram oito horas e pede ajuda daqueles que ficaram na vila para pegar os burros e ajudar e a colocar as cangas, o que foi feito de imediato já as nove partia comendo um pedaço de bolo na boleia, ia assobiando uma canção sertaneja ou do local, cheguei ao sopé do monte e vi as caixas de madeiras envelhecidas pelo tempo, também viu as cinco moedas de ouro sobre uma das arcas, guardou em seus bolsos e depois com um pouco de força conseguiu erguer uma arca e depois a outra, devia pesar mais ou menos uns noventa quilos, talvez uma pessoa normal não conseguisse... Quando chegou a vila perguntou pelo Jaque e pela Suzana e a resposta foi que eles tinham saído, mas que o seu almoço estaria pronto na cozinha, então desceu almoçou e depois desceu a arca do tesouro e deixou um bilhete explicado quem eram os seus antepassados e tudo mais. Na saída da vila perguntou que dia que era e a resposta foi – 21/06/ de 1877...

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u o que? Foi o que o senhor escutou sem Antônio! Por quê? Não, não é nada não, começou a analisar como pode ser se ontem era vinte e um do mês de fevereiro, eu acho que o homem ta biruta, andando mais uns dois quilômetros e viu dois viajantes e eu disse – Dia pessoal, eles respondem da mesma forma e dai pergunto novamente - Que dia é hoje moço... A resposta 21/06 de 1.887. Eu digo obrigado e continuo a minha viagem, quatro meses? Resmungo comigo mesmo, será aquela maldita caverna das assombrações, a deixa isso pra lá depois de viajar o dia descansou a noite e no dia seguinte chegou numa outra vila só que menor que a primeira, e perguntou se alguém servia almoço por ali, e indicaram para ele uma casa de pau a pique e ele foi até lá, bateu palmas, uma vez e logo aparece um senhor que diz - Sou seu escravo senhor... Antônio diz o senhor serve almoço? Sim, desça e vamos prosear um pouco, enquanto a muié prepara alguma coisa. Desceu e sentou numa cadeira no lado de fora mais embaixo de pé de abacate, senhor me responda com sinceridade o senhor sabe algo do seu passado, não muito, já que fui adotado ainda muito pequeno e esses pais nada sabiam de meu passado e porque seu moço. Antônio conta mais ou menos à estória e pede que ele ajude a descarregar o outro baú. O moço fica abobado e não sabia o que fazer se pulava ou se gritava, e disse ao seu Antônio que estava passando por miséria, e que ele foi um enviado dos céus... E começa a chorar como uma criança se abraça aos seus filhos e mulher e depois disse - Eu me chamo Justino senhor, e o meu é Antônio e tenho outra novidade pro senhor Justino, daí ele conta sobre o outro irmão que tinha lá pras bandas da vila mm... Esqueci mas fica um dia de carroça por essa trilha. Almoçaram e depois era hora de ir embora e o destino era a casa de Clementino, que ficava ali por perto, uns duzentos quilômetros, deu Adeus para todos e partiu a sua missão tinha se comprido. Agora vem à dor de não ter ninguém lhe esperando, vou ver se arrumo uma esposa e procurar mi aquietar senão a vaca vai para brejo sio. Nessa trajetória pensei em muito principalmente na minha saúde, mesmo porque estou com uma doença que é... Digamos aquela que o homem pega das mulheres, isso foi um castigo para mim onde se viu só pensar em mulheres. E o pior que não posso falar com ninguém a respeito disso, passa um dia e tudo continua na mesma e às vezes cruzávamos com tropeiros que faziam aquela região e eu perguntava se lado nordeste era por ali mesmo e eles confirmavam com um sim, e lá vamos nóis e mais um dia de viagem. E começo a lembrar das assombrações e nas charadas em que disse, mais não pra matar e nem imagino como desvendar esse mistério. Quanto a seus supostos filhos deu pra imaginar as suas situações, na casa de Jaque e Suzana era tudo mais ou menos, mas na casa de Justino era de uma família muito pobre e agora heim? Se ele disse que toda família tinha morrido! Será que eram filhos de outra mulher? É deve ser isso. No terceiro dia chegamos ao sitio do seu Clementino agora era questão de minutos, chegamos à porta e agora era só bater palmas e pronto e assim fiz. Da casa sai uma bela mocinha com cabelos bem negros e outra a seguir com os cabelos ruivos, pergunto quem é a bela ela me diz – Quem és tu o desconhecido... Meu nome é Antônio Lopes de Queiroz senhorita... -79-


A resposta vem seca, aguarde o meu pai ai fora seu Antônio. Como ela não me conhecia, essa era o certo mesmo, fiquei aguardando por uma ou duas horas até que seu Clementino chegasse e enquanto isso reparava na menina que brincava com a sua boneca de pano e nisso chega Clementino com uma foice na mão e me abraço como se. Fosse um pai. E me apresentou as duas bugrinhas e disse que eram bravas iguais à mãe. Também disse como morreu a sua esposa Iracema, foi de catapora, essa maldita doença dos brancos, e de vez em quando Antônio dava uma olhadela na menina Deolinda que a reparava de uma forma diferente de outras mulheres e nisso seu Clementino disse – Eis que reparo em ti Antônio e nunca ouvi você falar em casamento? E por quê? Naturalmente ele gagueja e diz – É que nunca achei uma mulher do meu gosto seu Clementino! Então acabou de achar seu Antônio, eis aqui à menina Deolinda, mas, mas seu Clementino... Nada de conversa homem oce já esta na idade de casar e nada de namoro, vai casar direto no cartório da vila mais próxima daqui. Segundo ouvi é um que conheci lá pras bandas de São João Del Rey um oficial de cartório pelo nome de Flávio M. casado com uma cabocla chamada de Ciça um casal muito bom o casal. E marcamos o casório para o dia 13/05 de 1.888 e depois que disso o seu Clementino disse – Agora oceis tem que se purificar por esses tempos, ela vai completar os treze anos e ficara de resguardo até nesse dia, e oce Antônio ficará comigo para aprender alguma coisa de casal e aprender a caçar para o teu sustento. Faltava mais ou menos um ano, pois nesse dia era 22/06/ de 1.887 era muito tempo para mim, mas aceitei e nas horas vagas faziam alguns moveis assim como mesa, cadeiras, bancos, armários, cama e guarda roupa e também aprendi a plantar alguma coisa verduras no quintal, mandiocas, jerimum, milhos, amendoim e etc. Às vezes eu ia até uma mata e escolhia uma árvore e a tombava para ficar secando no tempo, essas eram para fazer moveis e até mesmo casa dependia da qualidade da árvore. Eu tinha um problema, que era aquela doença, eu queria e precisava contar pro seu Clementino, mas cade a coragem, talvez ele conhecesse uma erva ou algo parecido, mas na hora... Contar dava uma vergonha danada, então eu não contava e nunca contei, só pelo medo de perder aquela bugrinha. Como eu não tinha permissão para dormir com eles na casa por causa daquela purificação então eu dormia lá fora mesmo. O carroção era a minha casa e a minha cama, eu já estava acostumado e às vezes seu Clementino comentava comigo que não, dormia na casa de ninguém que era pra evitar esses maus olhados, que era de macho para fêmea, então eu compreendia e sabia que era verdade mesmo. Quanto àquelas assombrações eu nunca mais ouvi alguém dizer mais nada a respeito, acha que realmente foi resolvida essa situação, isso quem falava eram os tropeiros que faziam entregas naquelas regiões. -80-


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e vez enquanto eu encontrava algum que vinha por aquelas trilhas e a gente proseava, eu perguntava de Jaque e Suzana, mas a conversa era sempre as mesmas, sumiram!! E o seu Justino! Também as mesmas e eu pensávamos esses mineiros viram a cor do ouro e agora agüenta Europa. O tempo passou rápido, o dia já estava chegando e a cada dia ficava mais apaixonado pela danada, enquanto ela fazia o nosso enxoval, eu preparava o nosso moveis e só ia guardando num paiol que estavam vazios por aqueles dias, mas fui aumentando para que coubesse tudo lá dentro. Mesmo porque a colheita de milho no mês de maio estava quase boa, era uma questão de dias, Clementino me deu três opções de moradia e eu fiquei pensando qual delas seria a melhor para nois. Naturalmente fizeram uma casa lá no sitio do seu Clementino e depois desse casório moramos até a nossa viagem para SP logo a seguir a filha mais nova de Clementino, Laurinda se casa também. Fica morando com o pai, depois de uns anos o marido foi mordido por uma cobra e não resistiu. Clementino Bonifácio Leite

-Os FalcõesLocal – Rio de Janeiro 1.867 Participação: Tito C. Lopes, Antônio Vilela, Mauro Batista, Alemão, Alex o caiçara, o Nego Bil e outros. Estória de: Antônio Lopes de Queiroz. Dinheiro da época – Réis um ponto de referencia – 4.000 réis igual a uma Libra. Certo dia seu Antônio L.Q resolveu lembrar-se desse causo do seu sogro, e chamou os meninos todos para beira da fogueira e disse – que todos fiquem em silencio mesmo porque eu vou contar um causo do seu avô Clementino. Agente estava no ano de 1.911 e no mundo já tinha acontecido muita coisa, e as crianças foram se ajuntando era Benedito, Jorge, Maria, Argemiro e Vastir e mais alguns meninos da redondeza inclusive Lazinho filho do seu Lázaro da tia Laurinda. Era o ano de 1.867 no mês de Maio e um dia de muita chuva, muitos se escondiam debaixo de pontes e outros nem saiam das pensões ou moradias. E um cavaleiro chegava á Rua do Ouvidor todo ensopado e apeou do seu cavalo. Parou numa estrebaria existente ali, um ex-escravo correu e pegou o seu cavalo e levou para dentro da estrebaria. Clementino reclamava da chuva dessa vez, mesmo porque era sempre calor com um sol escaldante. E disse – Eis Bil... Onde tem uma banheira por aqui? O Nego Bil diz, mas o senhor nunca tomou banho seu Clementino! Quem disse isso? Uma vez por ano eu tomo banho sim o negão... Bil diz – Eu tenho uma troca de roupas lá nos fundos... Vai querer seu Clementino? Ou não? Ta bem... Vai logo com isso...

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as sem banho. E depois de trocar de roupas o nosso homem espera a chuva parar. E como não parava resolveu comer por ali mesmo e perguntou pro Bil se ele tinha visto Tito Lopes, e a resposta foi que não... E perguntou de novo e quando você os viu... Olha Clementino... A última vez que eu vi eles... Foi na adega do português Antônio da Cruz. E vi também o Antônio Vilela o diabo, Mauro Batista o raivoso, Alemão (o barba) e mais alguns encrenqueiros. E todos falavam de Don Pedro II, Também do regime imperial, e dos escravos e de seus direitos. A... Certo Nego Bil, oia oce escova o meu cavalo e de alfafa e água pro trem. E me acorda quando parar a chuva, e Clementino e o cavalo se deitaram por ali mesmo no meio dos capins secos e num canto por casa das passagens pros animais... Passaram-se três dias até que ele vem se acordar, meio tonto e não sabia o dia e nem ás horas... Hei... Gritou – Bil, o Bil... Responde o Nego Bil... Sim sinhô seu Clementino! O Nego Bil vem rápido e todo apavorado. O Clementino pergunta que horas que é... Bil diz não tenho relógio não seu Clementino, só se sabe que passa do meio dia por causa dos sinos da igreja... E que dia que é hoje? --Passou-se três dias, que o senhor esta dormindo... O que? Isso mesmo, o senhor caiu ai e desmaiou... E resmunga Clementino, é acho que perdi o navio da Europa sio, nem armoçei e nem jantei, nesses dias meu Deus. Suas roupas já estavam secas e as vestiu toda amarrotada e saiu para almoçar ali por perto mesmo. Era uma cantina que servia almoço e perguntou pro dono – O que tem hoje pro armoço... Bom, o que temos é feijão preto com pé de porco, couro, orelha, e focinho de porco e arroz com farofa de mandioca... Vai querer? Manda-me três desse daí... Três? Sim... O resto do pessoal já vem vindo! Sem duvida senhor... Era nada, essa comida era pra ele mesmo, a fome tava matando Clementino. Depois do almoço o um cigarrinho de palha e agora sim estava tudo bem. E vem a lembranças de Iracema e depois dos amigos do RJ e lembrou-se do nego Bil e da sua história e como ele conseguiu a sua carta de alforria. Lembraram também dos outros amigos, Mauro, Vilela, Alemão, Alex e Tito. Na volta para estrebaria ajeitou suas coisas e disse pro nego Bil – Oia... Eu vou ate o porto ver se tem algum cliente para mim e se não tiver vou até a nossa sala de reunião. E bem à noite eu retorno para pegar as minhas armas que eram um colt 45 de seis tiros e duas garruchas de dois tiros cada e a sua faca, já que na cidade não podia andar armado. Montou no alazão e assobiando foi até chegar ao porto, e de lá vai até a sala de vistoria (alfândega) e pergunta se tinha chegado algum navio dos estrangeiros a resposta diz que só no final de semana. Sai e vai direto a Rua do Ouvidor e de lá a sala de reunião. Tudo é discreto, pois se um dos dragões o pegarem vai direto pra cadeia. Já dentro da sala viu o Quintino Bocaiúva e Tito conversarem e foi direto no Tito Correia e lhe entrega um caderno cheio de anotações que foram feitas durante a sua trajetória de Ouro Preto até a última cidade de MG todas as anotações eram a respeito de uma suposta revolta ou um golpe contra o reinado de Portugal no Brasil.

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stava incluída nessas pautas a liberdade dos escravos. Depois de uma rápida conversa, vai até o pessoal da base que estava ali representada por Mauro e Antônio Vilela e se falam por um pouco depois vão até um canto onde rola uma boa cachaça. Clementino fala de suas passagens pelas fazendas e diz que muitos fazendeiros não cumprem a lei e nem respeitam as contagens das chicotadas, isso é nos escravos. Ele pergunta – A lei não é a carta alforria depois de dez filhos? Todos dizem que sim... Então, vi mulheres com mais de quinze filhos e continuam sendo escravas. Não é de cinqüenta... Chibatadas nos lombos dos escravos? Todos dizem sim... Como se fosse um coral. Então eles dão mais de oitenta e às vezes passam de cem, isso é nos lombos dos pobres escravos. Enquanto falava essas coisas Alex marcava num papel, e de vez enquanto fazia uma pergunta – Você sabe o nome do fazendeiro? Entre pergunta e respostas vão chegando mais gente, pessoas que nunca tinha visto naturalmente eles me apresentavam um ou outro. Eis que o Mauro Batista diz – Cuidado que aqui dentro tem um espião dos falcões, o que? É isso mesmo diz O Mauro... Estamos desconfiados daquele ali e apontou uma pessoa que ria a todo o momento. E estava do lado de um jornalista que era contra o sistema imperial. Os impostos eram muitos altos, alem disso era uma lei para os portugueses e outra para os nativos e brasileiros. Mas mesmo assim tinha muita gente querendo o poder e um desse grupo eram os falcões que defendiam o arianismo aqui no Brasil e muitos deles já estavam infiltrados em vários segmentos da sociedade. Explicou a Clementino dessa forma e ainda disse - Dentro do palácio tem também esses assassinos, de vez enquanto aparecia um morto com uma cruz no peito ou um xis na testa, esse era o símbolo desse grupo. Era uma verdadeira praga dentro e fora do Brasil e até mesmo alguns grupos fechados no mundo inteiro era contra essa ameaça. E agora chega também aqui essa terrível ameaça, e só resta uma coisa a fazer, ou seja, destruir esse grupo racista e o nosso grupo de apoio era um que tentaria essa façanha. Os falcões para tentar enfraquecer o império têm um inicio de matança de condes e políticos ligados ao atual rei. Em jornais da época era proibido anunciar essas mortes. Embora o nosso futuro sindicato fosse contra o sistema de império, também éramos contra essas mortes e as pretensões dessas que diziam ser puro de raça. E assim explicou o problema para o Clementino e ainda dissemos – Nós contamos contigo. Eu já sabia que todos contavam comigo para acabar com essas pretensões dessa organização e até mesmo o Quintino Bocaiúva que eram da maçonaria e eram contra essa espécie de gente nesse País, só restava nós unirmos as forças e avançar contra esses desordeiros da Europa. No dia 18/05/ do ano de 1.867 marcamos uma reunião secreta para discutir esse assunto em relação a nossa ação entre a população e como a nossa organização iria reagir nas questões das mortes dos condes e etc. O horário era sempre as 10h00, mas nesse dia marcamos para as 11h00 para despistar os falcões e a guarda real. E não é que deu certo, agente tinha um espião bem encostado a uma cantina e quando foi às nove horas começa a chegar pessoas conhecidas e também desconhecidas e entre elas aquele que só ria na última reunião. -83-


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escartado a entrada dessas gentes, ficamos em cinco ou seis, era a minoria defendendo a maioria. Abrimos um discurso em relação às possibilidades de dar um livramento aos negros escravos, não só nas capitais, mas também nas fazendas de todo o País... Outro assunto de interesse geral era sobre os falcões. Assunto vai assunto vem e depois de três horas de falatório a pauta esta feita e resumida; primeiro descobrir quem é o chefe mor dessa organização. Segundo ver em quais os setores de atuação dessa família e qual o grau de profundidade nesses segmentos. Terceiro eliminar todos os que oferecem perigo para o nosso povo do Brasil. Nessa reunião descobrimos que eles atuavam em pares tanto para eliminar uma pessoa como para espionar as ações do império e das entidades e associações. E descobrimos também que ele já estava a par das amantes do nosso rei o Don Pedro II e umas das intenções deles eram as chantagens e o segundo era as mortes de condes. E o primeiro a ser assassinado era o conde Deli de Souza. Botamos a nossa organização para trabalhar e eu teria que evitar ou eliminar esses sem levantar suspeita, nem pra um lado nem pro outro. Ou seja, eu serei o pistoleiro ou um eliminador dessa vasta rede (Falcões) de criminosos. E o meu companheiro foi o Alex, esse já era meio bugre e já estava acostumado a matar e não tinha muito problema. As chantagens ficariam por conta Mauro e o Antônio Vilela e para isso seriam distribuídos vários panfletos de boatos e tentativas de extorsão e subornos de pessoas influentes. E nos Jornais o responsável seria o Tito e o Alemão. Vamos ao que interessa já no outro dia; eu e Alex começamos a investigar todos os bares e cantinas, e assim foi no primeiro dia, no segundo até que encontramos uma pequena pista. Vimos o (risadinha) conversando com um capitão do palácio num bar perto da praia de Copacabana e a conversa estava muito boa e entre um papo e outro ele fazia uma pergunta sobre o Conde e a sua situação perante o rei... A gente pede uma bebida pro rapaz da copa e fazemos um gesto pro moço que só ria e naturalmente ele responde da mesma forma. Já passava das três horas e resolvemos ficar por ali mesmo e se necessário, até passar a noite até que pudéssemos conversar com esse safado. Nisso o capitão sai da cantina e a gente chama (o risadinha) pra sentar em nossa mesa, ele pergunta que já tinha visto a gente lá na rua do Ouvidor e nós balançamos as nossas cabeças concordando com ele. Sentou e perguntou os nossos nomes e respondemos dizendo os nossos nomes e ai ele fala o seu nome que é Frank Sabóia. E aí iniciamos um longo papo, falamos que éramos contra a mistura de raça, ele dizia – A é... que coisa. Falamos também que éramos contra os negros, e ele concordou também. Pedimos um copo de vinho e oferecemos a ele, mas não aceitou. Continuamos a puxar assuntos de seus interesses, e já passava das dez horas quando ele dá uma pista sem querer, e foi assim – A nóis não gostamos nem de homens afeminados e nem de judeus... Eu disse se pudesse, mataria a todos, tanto os nordestino quanto essas que você citou ai... Ele respondeu – há então os senhores é um dos nossos... Nisso ele se levanta e diz que tinha que fazer alguma coisa em sua casa... 1.867 RJ

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Esse assunto incomodou o homem que saiu da cantina sem se despedir de nóis... E logo a seguir saímos também ao encalço desse informante e ver aonde ele ia. A noite estava fria e chovia de vez enquanto, eu tinha uma longa capa de tropeiro para chuva e dava para seguir o danado. Já o meu companheiro estava desprovido dessas coisas. Mas mesmo assim ele me acompanhou e se escondendo entre casas e edifícios. Chegamos até na via do Ouvidor e o nosso suspeito entra num prédio do Jornal que se chamava (A República). Entramos também, mas se escondendo do suspeito. O local não era espaçoso então separamos, fiquei olhando uma pintura ou obra de arte como dizem os conhecedores, e eram negros e brancos... Trabalhando numa mina de ouro. E o meu companheiro voltou para fora e de lá vigiar se ele não escapasse de nossas mãos. Eu o via conversando com o redator e gesticulava muito com as mãos, mas eu tinha certa idéia do que ele falava. E com certeza era das nossas desconfianças das suas funções de informantes dos falcões. Como eu tinha que ficar com um olho no queijo e outro no rato, viram o safado saindo pelos fundos e lá fui eu atrás. Nem deu tempo para avisar o Alex que ficou lá na frente tomando uma chuva nos lombos, mas fui em frente, Frank entrava numa rua, entrava em outra e eu no seu pé até chegar numa rua que dias mais tarde fiquei sabendo ser a Rua Direita uma rua de gente muito rica e muito bonita. Nisso o homem entra numa dessas mansões e fico sem saber o que fazer, mas como homem demorava muito em sair voltei até onde deixei o Alex e lá expliquei pra ele onde o homem entrou e como já era de madrugada resolvemos iniciar mais tarde essa investigação. Um passo agente tinha dado, o outro seria saber de quem era aquela mansão. Alex deu uma idéia! Se todos... Nessa rua tem uma cocheira, tem também um cavalo e se tem cavalo tem um ferreiro... Este correto Alex... Aonde oce quer chegar? O obvio meu caro Clementino... Vamos pedir informação no ferreiro, ora, ele conhece a todos dessa rua... Ou no mínimo sabe quem conhece... Né! É... Diz... Clementino. Chegamos um pouco cansados em nossa pousada e caímos na cama e já fui logo roncando. No outro dia vieram a acordar às quatro da tarde e era o Alex e o Alemão, e disseram vamos jantar o mineiro... Eu o que? Nada não, é que já passou a hora do almoço e o jeito é a gente jantar seu Clementino.

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Na janta a gente falou muito do sujeito, e também damos muita risada os meninos só abusavam do Clementino por causa do seu jeito de falar e pelo fato de ser um mineiro. Eles diziam olhe o matador chegando ai o trem... E caçoavam muito do matuto. Nisso chega outros amigos e dizem fala companheiros... E todos dizem... Tudo bem pessoal e vão sentando ai. Todos sentados então começaram trocar as informações. Fim de semana muito agitado essa era a nossa perspectiva em todo sentido. Nisso chegou alguns figurões da nossa sociedade e eles também temiam essa nova ameaça contra o nosso povo, em particular os barões. As maiorias desse pessoal eram portugueses ou europeus, gente pobre não tinha nenhum somente nós que lutávamos por essas causa. Naqueles tempos o pessoal em geral trabalhava mais de sessenta horas por semana e o salário era combinado. Não vou dizer os nomes dessas figuras, pois eles eram e foram muito importantes nessa reviravolta de império para a nova democracia. Mas com certeza a gente que lutamos na base não será lembrada e isso é com toda certeza... Depois dessa reunião voltaram as nossas luta, aproveitei e fui até a casa do espião Frank Sabóia. E no caminho a gente comentava porque não falamos do safado para aqueles figurões, é que a partir da nossa última reunião todos eram suspeitos, inclusive os outros associados do nosso clube. Iremos chamar assim dessa maneira o nosso salão de encontros. Já na Rua Direita pedimos informação, onde tinha um ferreiro e nos foi indicado um da beira mar, e caminhamos até lá e a vista para o mar perturbava muito o Clementino. Alex pergunta – Tu tens medo do mar o mineiro? O que... O Alex!! O mar te assusta? É eu não gosto muito desse troço não... de vez enquanto passava uma mulher com trajes de praia, que mais parecia uma roupa de dormir... Eta troço esquisito. Chegamos ao ferreiro e lá sentamos um pouco e puxamos conversa com o homem. – Boa tarde... Seu moço... Boa diz o ferreiro, num gesto nada simpático. Levantei-me para não arrumar encrenca e fiquei olhando aquele monstro de rio. A minha veste era de um boiadeiro ou de um caboclo e não combinava nada com aquela praia. E aquela estrada tinha até um nome e placa dizia Avenida Beira Mar. Fique aguardando por mais ou menos uma hora e depois Alex me chama e diz – Clementino, eu estava comentando com ele que você é mineiro... Daí o trem me cumprimentou dizendo ser de Sabará... Eu digo... Conheço há muitos anos aquela cidade seu... Seu... Luiz Sr o meu nome é Luiz Carlos o ferreiro ao seu dispor. Ficamos por mais meia hora e depois voltamos pro nosso clube e no caminho ele informou que a pessoa que morava lá era um alemão muito severo. Que só falava ia, ia e essas coisas de alemão. E o nome dele era Adolf Munik ou algo parecido, e falou também que ele não saia de dia e...

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Nisso chegamos ao clube e já passava das nove horas da noite. Alex entrou, mas eu não quis e disse a ele que tinha que ver o meu cavalo lá na estrebaria do Nego Bil, na verdade eu não queria dormir novamente naqueles quartos abafado, e lá na estrebaria eu dormia no relento. Despedi de Alex e fui até o local e ao chegar lá o Nego Bil disse – Oi seu Clementino... O senhor desapareceu? Não eu estava por ai... Na casa de uns amigos. O Nego bil sempre gostou de tratar bem o Clementino, pois ele teve uma grande participação na soltura desse negro. Talvez o tratamento fosse como um filho que o Nego Bil não teve e era mutua a relação, embora com muito respeito. Naquela noite dormi como se estivesse na minha casa e logo cedo aparecem na frente da estrebaria os amigos e logo fazendo bagunça, para me acordar, uma bacia de água e levantei muito nervoso querendo pegar um... Mas o sono não deixou, ainda estava com as pernas bambas... Sentei e fiquei com os braços arrepiados de frio, eis que vem aparecendo um por um e um diz – ainda to nervoso Clementino? O que oceis acham, eu to todo molhado e oceis... Falam se estou nervoso? Foi só uma brincadeira seu Clementino eis aqui um presente! Eram dois pacotes de algo que eu mesmo não sabia e fui abrindo logo o maior e era um terno preto com camisa, lenço e gravata e o outro eram um chapéu de aba curta, uma cinta, uma carteira e um sapato. Eu pergunto pra que essas coisas? Eles dizem é pra segunda fase da investigação Clementino, a partir de hoje vamos entrar nos salões mais famosos da Rua Direita e da Avenida Beira Mar e entrar nos antros desses bandidos. Não que as suas roupas não servem, mas elas estão até dura de sujeira e fedidas. É ta um pouco né... Mas não tanto assim fala Clementino. E o homem mandou também um pouco de Réis para você gastar nas noites de investigações. Nessa época estavam construindo a estrada de ferro RJ até Queimados e tinha muita gente estranha na cidade e nas pensões e esse era o nome dado nas cidades grandes, pois lá em MG a gente chama de posada. Mais voltando no assunto das roupas eu nunca vesti essas roupas estranhas parecendo uma marmota o loco sio. Mas o homem mandou e vesti aquilo e dei uma volta por ali mesmo, o pessoal me chamou e disse você não vai tomar banho não o Clementino... Banho... Eu não, não sou peixe, não seus doidos, mas e a barba você tem que fazer... Ta certa então a barba eu mesmo faço. Depois da barba o pessoal já tinha se mandado então fui aos locais combinado com Alex e esse estava disfarçado de mendigo numa porta de pensão. Entrei e pedi uma janta daquele negocio de feijão preto, mal sabia Clementino que aquilo era sobra de comida, mas vamos lá temos que passar por cima de muitas coisas. E nesse jantar vem com muita fartura então ele separa um pouco e manda o servido entregar pro mendigo na porta de entrada, este não gostou muito, mas foi entregar e depois disso recebo um bilhete de alguém que queria falar comigo e marcou até o horário que era as 21h00 na Avenida Beira Mar como ainda era cedo fiquei por ali mesmo e nisso chega um senhor que dizia se chamar Rui Barbosa e perguntou o meu nome e eu lhe disse. Depois disso ele começou a falar de tal abolição e que era um poliglota e tal. Eu mesmo nem sei o que é isso, portanto eu falei pra ele de caça e mata e também dum duelo a faca que fiz com um assassino. -87-


Ele parece não ter gostado e pediu licença e se mandou não sei por quê? Mas parece que tinha visto ele... Só não me lembro de onde! A deixa pra lá eu mesmo parecia um boneco, todo ajeitado naquelas roupas e desconfortável é prefiro as minhas próprias roupas. Andei para cima e para baixo dessa tal Avenida e perto da hora encostei-se a um prédio com o corpo duro, assim mesmo como eles e vi uma carruagem, nossa que barbaridade, toda negra e o cocheiro vai até a mim e pergunta se eu me chamo Clementino, digo que sim ele então pede que eu vá até a carruagem e entre nela... Com certeza o meu amigo Alex viu e deve estar me vigiando e assim entrei sem medo nenhum, mas quando entrei o que eu vejo? E quem era senão uma linda moça, que diz oi senhor Clementino... Não se assuste vamos até a minha casa e lá eu ti contarei porque eu te chamei. E eu ali duro feito uma pedra, não tinha como me relaxar, a potranca era uma bela loira e eu ali serei que é... Só pensei, mas vi certa dificuldade dela pronunciar as palavras e logo vi que era uma estrangeira. O trem andou por uns dez minutos e depois parou bem na Rua Direita e logo vi que era onde seguimos o (risadinha). O escravo apeou da carruagem e logo abriu a porta da carruagem e pegou na mão da patroa e logo a seguir eu mesmo desci, ouvi risos e um senhor me chamou de grosso, mas nem liguei. Então entramos numa enorme mansão, além disso, era muito bonita eu acho que era a mais bonita daquela avenida. Na porta da sala um senhor branco abriu aquela enorme porta e disse qualquer coisa em estrangeiro eu acho que era dublai... Ou algo parecido. Entramos numa enorme sala que era iluminada por vários lampiões desses na cor de ouro e no centro um enorme candelabro também cheio de velas e a sua cor também era ouro. Pediu que sentasse um pouco que ela ia tomar um banho e eu logo pensei naquilo... Só pensei, mesmo porque eu já tinha um compromisso com uma índia a Iracema. Nisso entra na sala uma pessoa, depois outra, e lá vem mais um e só foi chegando gente e todos engomadinhos e chique no úrtimo. De repente ela volta com seus cabelos loiros e compridos e se apresenta como Renne Ludwig. Tem inicio o falatório do pessoal, um senhor alto de cabelos amarelos se levanta e pergunta para mim... O senhor é de onde seu Clementino... Eu digo. Sou Mineiro uai não tão vendo não... Esta... Bem senhor pode sentar. Outra pergunta – O senhor é contra negros, judeus, nordestinos e gays... Sim senhor... Senhor... É claro eu não me apresentei o meu nome é Heinz Von, mas sou alemão. E me apresentou a todos e todos com nome esquisito que eu mesmo não sei dizer, então ele falaram – Essas noites vão eliminar mais um... Impuros desse mundo têm que purificar a nossa raça e nos livrar desses imundos.

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eram-me uma bebida e eu me apaguei de vez... Enquanto isso na redação da República sai noticias que nossos aliados que escreveram... A República o jornal localizava-se no Ouvidor, entre Gonçalves Dias e Uruguaiana. No mesmo edifício tem sede e o Partido Republicano e da família de Quintino Bocaiúva, grande líder da agremiação. Lamenta e faz um alerta a todos os cidadãos brasileiros um grande motim se faz anunciar nos povos brasileiros. Não pegue carona em carruagem nenhuma, principalmente de estranhos uma grande organização esta operando e acabando com muitos sonhos. Esta era somente uma dica para os integrantes do clube e as demais organizações do RJ a cidade modelo. Naturalmente ela estava no meio de outras noticias como a provável vinda do Rei Emílio Castelar (Espanha) no ano de 1.872 e uma provável manifestação contra esse que era a favor da monarquia... Tito Correia Lopes convoca os aliados da base e pergunta pelo mineiro Clementino, o jornal tinha acabado de sair e nessa noite desapareceu tanto ele como o Alex. Ninguém soube responder, vem à preocupação, pois esses que são os nossos companheiros de base. Mauro, Vilela e Alemão se propuseram a procurar os nossos homens. Primeiro na doca e depois na estação ferroviária que estava quase terminada, ali tinha muito espaço e poderia estar escondido em alguma parte. Mas nada acharam, foram atrás do (risadinha) e nada de achar, nem ele nem os nossos homens. Não podíamos nem avisar o desaparecimento desses, pois seriamos presos de imediato. Enquanto isso num quarto fechado o nosso Clementino acorda zonzo estava com muita dor de cabeça devido à bebida com algum sonífero. Talvez pudesse ser no amanhecer ou quem sabe já tinha se passados dias, procurou remexer o corpo, mas nada conseguia estava muito bem amarrado. Seus olhos foram se acostumando com a escuridão e logo percebeu que era um porão e do seu lado um corpo também amarrado. Suas lembranças tinham fugido quem sou eu? O que faço aqui? São perguntas sem respostas, mas o tempo faz com que se lembre de alguma coisa, a roupa, a casa, a cantina e foi se associando essas coisas e se lembrou da moça. Maldita! Essa foi à expressão usada por Clementino. Naquela hora de agonia e dor, a raiva era pela inocência e talvez a própria ingenuidade. E lembrou-se do alemão Heinz Von, também da safada loira que se dizia chamar Renne Ludwig. Que loucura em que me meti sio e agora? Nisso o outro corpo se mexe e resmunga algo que momice uma grande dor. Clementino percebe que ao virar o corpo era o seu amigo Alex e fica todo animado ele procura animar o seu parceiro... Mas ele demora a responder, o tempo passa e alguém abre a porta e acende um lampião, e para minha surpresa era alguém muito conhecido. Demorei acreditar no que via, mas antes que eu falasse alguma coisa ele disse Porque essa cara de bobo o mineiro. Com mais raiva eu fiquei, mas ele continuou a provocar – Você vai chorar e muito o matuto, bicho do sertão, você ainda tem coragem de dizer que é contra judeu e outros é... Se for assim você tem que se matar seu idiota. Você sabe por que eu sou contra esses negros fedorentos e mendigos.

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u porque sou contra judeus, gay, índios, nordestinos, caboclos e etc. Não? Então você vai morrer sem saber, mesmo porque vamos te matar e será por tortura ou talvez não ainda vamos decidir seu burro. Os seus amigos soltaram uma matéria no jornal de hoje, falando a respeito de nossa organização, mas todos vão morrer, assim como vocês dois, morte sufocante e transformada em alimentos de peixes... O meu bisavô parou de contar a estória e disse olha eu tenho que explicar alguma. Aquele senhor que conversou com o Clementino lá na Avenida Beira Mar era o Famoso Rui Babosa mesmo que queimou todos os arquivos das origens dos escravos. Mas as criançadas também não gostaram dele ter parado com esse causo logo agora que todos iam saber quem é a pessoa que estava falando com o nosso avô Clementino daquela forma. Antônio tentou explicar que aquele homem foi muito importante na história do Brasil. Jorge perguntou – Pai o que é poliglota? Poliglota... É uma pessoa culta que fala várias línguas. Argemiro também faz uma pergunta – Pai o que é mar? Antônio responde – É um rio muito grande... Os outros querem saber o que é alemão. Bom... Alemão é uma raça de gente que nasce na Alemanha. Pai o vovô conheceu o rei... O rei... Eu acho que sim, ou talvez não... Na verdade eu não sei. Bom vamos todos dormir, que amanhã é dia de levantar cedo, e vocês vão dormir até mais tarde. Enquanto os meninos vão entrando eu confesso para mim mesmo que na hora daquela loira com certeza teria feito uma besteira e das bem grandes. O difícil era esperar por uma por um dia, mesmo porque a cada dia era contado somente uma hora dessa estória, e às vezes ele deixava para contar somente no sábado. E foi ou vai acontecer isso mesmo, pois o nosso pai não gostava de contar os causos de pouquinho. Já no outro dia lá vem ele dizendo que estava com sono e por isso mesmo vai deixar o causo para amanhã às seis horas da tarde e depois da bóia. Mas agente já sabia disso, e amanha será a mesma coisa. Nesse tempo ele falava da bugre que seu sogro casou e depois morreu, e todos pediam para ele dizer como era essa índia a sua sogra. Ele disfarçava porque o seu Clementino às vezes passava por ali e não gostava dessas prosas não. E muitas vezes até raiava com os meninos por querer falar o nome de bugre. Ele corria dizendo ela se chama Iracema e era uma bela índia filha de um cacique. Naturalmente todos se calavam, e se a nossa mãe escutasse também era a mesma coisa, ela não admitia que falasse da sua mãe e nem de seu pai o seu Clementino. Os dias foram passando até que chegou o sábado, o normal era trabalhar ate às seis horas, mas como as terras eram deles, então trabalhava até as quatro horas. Vinha pra casa e tomava um café reforçado e banho nem pensar, preparava uma fogueira e às vezes era na beira do fogão e tinha inicio o causo...

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SIFILIS – 1.860 Um raciocínio que, sob feições diferentes, perduraria até meados do século XIX. Dizia ser na escravidão que se devia procurar a origem da devassidão reinante, pois a prostituição seria a "conseqüência indefectível do ócio e da riqueza adquirida sem trabalho e fomentada pelo exemplo familiar dos escravos, que quase não conhecem outra lei que os estímulos da natureza" (idem, ibidem). Já em meados do século XIX, em seu tratado sobre o clima e as moléstias do Brasil, Sigaud afirmava que "a sífilis existiu em todas as épocas no país e é hoje doença predominante". À mesma época, a doença começava também a ser responsabilizada pela "velhice prematura", que, segundo alguns, caracterizavam a mocidade brasileira (Azambuja, 1847, p. 3). Testemunho da crescente preocupação que assumia ao longo da década de 1860, a sífilis começava a figurar em diversos relatórios anuais de inspetores de saúde provinciais como a moléstia que, ao lado da tuberculose, das alterações intestinais e das febres intermitentes, "mais estragos fazem à população menos abastada" do Império - assim dizia então um inspetor de saúde da Bahia (idem). Começava-se também a revelar numericamente o peso de sua contribuição no total de internamentos em diferentes hospitais. Em artigo publicado na Gazeta Médica da Bahia, dizia-se que, para "se conhecer a extensão que desgraçadamente vai ganhando o elemento sifilítico entre nós", bastaria olhar as estatísticas dos hospitais, pois, no período de 1861 a 1866, mais de um terço dos doentes internados nas enfermarias de cirurgia da Santa Casa de Misericórdia do Rio de Janeiro seria de portadores de doenças venéreas (Anônimo, 1871, p. 26). Segundo o mesmo artigo, a partir de tais dados "colige-se evidentemente a expansão que vai tomando a propagação das moléstias venéreas entre nós, e quanto, continuando a expandir-se em proporção equivalente por falta de aplicação de medidas tendentes a neutralizar suas funestas conseqüências, atingirá em breve grandiosas proporções". Sob o impacto da guerra com o Paraguai (1865-70), alarme semelhante se fazia ouvir nos meios militares. A partir da década de 1870, a grande incidência da sífilis e das outras doenças venéreas nas tropas

Antônio Lopes de Queiroz vem revoltado dessa guerra e matança sem necessidade e reclama com Clementino o seu futuro sogro. Embora já estivesse infectada pela sífilis... começava também a ser enfatizada.

AS LOUCURAS DE UM HOMEM A SEGUIR.

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Antônio Lopes de Queiroz era Órfão e trabalhava de ajudante de carapina e foi surpreendido quando um capitão do império o chamou para ir defender o Império contra os Paraguaios. Nessa guerra se aliou com Argentina e Uruguai. Foi conhecida também de tríplice aliança que avassalou com todos os homens paraguaios. Foi um crime essa guerra que teve um inicio nos anos 1.865 a 1.870 tinha também interesse comercial na parada. Era o ano de 1.869 quando recebeu esse convite, mas recusou e disse que era problema dele, mas o capitão retrucou e disse – Quem esta fazendo o convite é o rei Don Pedro e não eu... Nessa cidade são poucos os que sabem escrever e a ler meu caro, portanto só tem duas maneiras, ou você serve o rei ou vai a cana. E ai meu caro Antônio, o que vai ser... Isso foi falado em tom de zombaria. O que desagradava mais ainda Antônio, então ele disse se foi o rei cade a carta ou convocação com selo real... O capitão riu... e depois disse o meu nome é Sebastião e tudo o que falei era brincadeira para ver o seu caráter. Fique sabendo que o senhor é carapina e resolvi lhe trazer um poema para recitar diante de suas amadas ou diante de um publico selecionado e diz assim... Recebi muitas promessas de meus patrões e estou triste até de pensar. De quem planta às vezes não pode comprar... Será que pensasse, direito havia de arrumar um jeito de bem se dar... Alimento? Já houve quem deu um grito que foi até o infinito e não encontrava... Ninguém para escutar. 10. Bandeira Imperial do Brasil. Marca da emancipação política do Brasil. Assim, esforcemo-nos para que à sombra de nossa bandeira só nasçam e se desenrolem belas ações. Que ela pacifique gentes inimigas quer tremule nos mastros sobre as águas inquietas, quer penda nas cidades sobre os telhados abrigadores do homem; que ela, que tem na cor a sugestão da esperança, sorria ao estrangeiro em doce acolhimento, acenando-nos a todos para um futuro bonançoso e amplo. E era o ano de 1.869 e Antônio ainda agoniado pela dor gritava por dentro o seu sofrimento e agonia. Plantou-se e hoje não posso comprar então colhi essa praga de doença que levarei comigo até o fim ou a eternidade. Grito mas ninguém ouve, mesmo se levasse ao rei com certeza ele não saberia o que fazer. Escrevo com dor no peito, pois quem sofrerá se não for o meu futuro ou meus filhos. Que irão sofrer de um mal que fiz, gostaria de morrer por duas vezes e não dar essa sina a eles, mas sou apenas o Antônio e não Deus Javé o eterno Senhor dos mundos. Mesmo se a medicina de hoje fosse adiantada, tenho certeza que esse mal eles não descobririam por mais estudassem... -92-


Agonia de Antônio ainda segue desabafando com Clementino Bonifácio Leite. Entre um trago e outro o desanimo era total, depois vem esse capitão dizer coisas de poetas para mim, até parecendo saber dos meus problemas e a minha agonia. Promessas... Já tive varias, mas nenhuma certeira embora fosse um rapaz fugaz e de nada adiantou as minhas prestezas. Hoje sou portador dessa que destrói o mundo e por que fui escolhido entre milhares de outros. Ainda sentado naquela varanda e numa mesa para quatro pessoas de vez enquanto chegava mais um para nos perturbar. Ou era comigo ou com Clementino o rei das estradas. Aquele capitão até que me deu uma boa idéia, ir a guerra e por que não nessa do Paraguai. Quem sabe é ali o meu destino e o fim dessa maldita doença, Clementino tenta consolar o amigo, mas nada da certo, então ele sugere uma cura com raízes. Entre lamurias e raiva ele diz – Hoje é o dia 01/04/ de 1.869 e já decide a solução é ir mesmo para guerra embora estúpida, mas é lá que vou... Clementino fala outra vez – Pare com isso homem, lá pode ser um caminho sem volta, pense nisso... Meu caro Clementino um homem quando erra o seu destino é a morte e sendo assim eu vou cumprir o meu. Todos vão dormir bem bêbados e cansados de tantas conversas sem fim. Noutro dia preocupado Clementino vai até a estalagem em que Antônio repousava e não o encontra, pediu informações e ninguém sabia do seu paradeiro. O homem desapareceu por completo, então o jeito é fazer o meu trabalho e esquecer. 07/06/ de 1.869, Antônio estava em Assunção numa enfermaria conversando com uma enfermeira chama Ana Néri e o assunto era sobre sífilis. E saiu sem nenhuma esperança. Então vou pro campo de batalha sobre um comando da morte e lá vai Antônio magoado com a sua vida. Ajuntou-se a um pelotão e foi para o combate. Era de dar dó das mulheres que choravam ao redor dos corpos caídos e desfalecidos dos seus amados. Num ato danação nosso herói sai atirando num grupo de soldados paraguaios, suas balas se acabam então pega no cano de sua arma e a usa como um bordão. Pancada para cima para baixo e vai aniquilando aqueles pobres coitados, naquele dia mataram muito. Ele queria morrer de qualquer jeito e logo no dia seguinte e bem cedo é o primeiro a se levantar e logo sai para o combate. O coronel vendo essa atitude pergunta por que aquele soldado era o mais desorganizado e nunca saía junto com o pelotão, mas sim com o cão. Ele era um miliciano que fazia parte da Polícia Militar participou, por desejo insistente de Caxias, da campanha do Paraguai. "Garanto a Vossa Excelência que nenhum dos Corpos de primeira linha existentes na corte lhe será superior". -93-


Com essas palavras o duque convencia o imperador a mandar para a guerra os milicianos que iriam colaborar decididamente na derrota das tropas paraguaias... O povo fazia as manifestações "Por entre ardorosas aclamações populares", ele era um Voluntário, sob o comando do coronel Manuel José Machado da Costa, tendo como mascote da tropa Brutus, um cão que, um dia, com fome, penetrara no quartel à cata do dono e, com a convivência, afeiçoara-se aos soldados. E por que não ao soldado Antônio Lopes de Queiroz, que seguia por todos SOS lados e até mesmo nas suas loucuras. As lembranças das mulheres o faziam sofrer muito, mas qual foi a que me infectou? A malvada que me faz sofrer até nos campos de batalha. Hoje estou descansando e até agora não achei a morte, talvez no dia de amanhã possa achar na batalha de Cerro Cora Onde estão encurralados centenas deles e todos com fome e disposto a morrer pelo seu país e o seu líder era Lopez. Esta é a minha esperança, embora ache uma covardia essa batalha vai bem à frente não me importo se o capitão fique bravo. Vou para morrer e matar, pois a dor em nas minhas entranhas é muito intensa e a cada dia que passa piora. Noutro dia todos sai para a batalha menos Antônio que já estava no local com o cão Brutus e já lutava por meia hora quando os soldados chegaram. A luta se intensifica e depois de uma hora tem fim essa batalha. Muitos morreram até mesmo amigos de Antônio que estavam ao seu lado menos ele, e mais uma vez a morte lhe enganou. Na volta para o acampamento vi muitos soldados estuprando mulheres paraguaias, aquilo me revoltava e dava nojo, não sei se era pela minha situação ou era um expediente muito raro entre homens do bem. Só sei que andei matando alguns desses safados e por isso fui chamado pelo meu comando e foram muito duros comigo. Depois de servir por seis meses fui dispensado por ser um rebelde e querer morrer. Mas o que tem haver essas coisas eu só queria morrer e lutar pelo império se for rebeldia então sou mesmo. 15/08/ de 1.869 Já estava no RJ e depois de um mês chego a São João Del Rei e encontro meus amigos e meu ex-patrão João Miguel. Fico sabendo que Clementino estava com um cliente na cidade de Vila Velha. Quando passei no RJ fui fazer exames no médico do império e falei sobre os meus problemas. Ele analisou e passou uma injeção que estavam ainda sendo analisando e que eu seria a primeira cobaia (Vacina Animal). Aceitei e agora notei que a dor sumiu e não quero mais morrer. Ele disse que eu não poderia gerar filhos, pois ficou seqüela em meu sangue. Mas que mesmo assim teria uma pequena chance, agora vem o remorso das mortes no Paraguaio

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Onde não me lembro direito das pobres vitimas desse mundo cruel em que foi transformado por causa da inveja em seu crescimento do PIB e essas coisas mexiam com o Brasil, Argentina e Uruguai... Enrolei essa Bandeira e prometi a mim mesmo nunca mais defendê-la, pela covardia cometida a esse país. Agora a minha fome era de trabalho e ver a minha namorada. E trazer as boas e novas e tentar arrumar novas empreitadas e ver também se não é ela a infectada. Se for esquecer e procurar outra mulher mais pura e para isso vou falar com o meu amigo Clementino Bonifácio Leite. Mas no momento fico nos cantos lembrando-se das mortes inúteis cometidas por mim mesmo e uma lagrima desce de meus olhos. Como reprovação desse ato de covardia, lembro que me atirei nos braços da morte e só não morri por causa de Deus. Pois as coisas em que eu passaria ninguém jamais passarão por mim. Esta é a minha sina e assim esta escrita nos céus. Este caminho em que percorri já foi predestinado pelo meu Deus Javé. Mesmo porque eu haveria de encontrar um porque da minha passagem por esta terra de Deus e se fui usado, somente ele sabe e mais ninguém. Não sei se terei filhos, mas se tiver somente ele saberá do por que. Minha cabeça esta voltando ao normal talvez seja pelo medicamento passado pelo médico do império e já vejo uma razão de viver. Interesso-me em trabalhar novamente. Se for um sonho eu não sei, se foi uma utopia também não só sabe que acordei com muita dor de cabeça e agora tudo já é passado. Segundo um pastor da igreja Metodista o salário do pecado é a morte. Mas não morri e estou aqui para cumprir o seu desejo, sei que não sou merecedor e por isso agradeço. Recebo uma carta do império me agradecendo pela ajuda prestada e uma gratificação de muitos réis no qual eu desfiz doando as mulheres. As minhas amadas com quem já namorei nos últimos meses, até mesmo as medalhas de honra ao mérito distribui. Resolvi trabalhar para um grande fazendeiro chamado de Dr. Clovis e lá fiquei por muito tempo. Nessa fazenda fiz muitas coisas e uma delas foi ajudar o Doutor indicando o nome de Clementino para desvendar o mistério que havia por lá. Mas antes eu fiz um trato que era para Clementino fingir não me conhecer, por causa do perigo que poderia ocorrer. Trato feito e aceito e fiquei nessa fazenda até o principio de 1.875 e depois parti para novas aventuras. Lembrei que já fazia seis meses atrás eu estava saindo de uma guerra e estava meio louco e agora estou curado, mas ainda assim lembro-me de um conde pelo nome de D´EU e o paraguaio e líder Lopez que caiu em combate com as nossas tropas num local chamado de Cerro Cora e eu estava lá... E só lembro. -95-

segundo misterio  

E o verdadeiro misterioda vida de cada pessoa e isso e o que interessa

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