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REFÚGIO


ELLEN VISITÁRIO JACKSON VASCONCELOS MAURO BALHESSA

REFÚGIO Histórias de refugiados colombianos que escolheram São Paulo como nova casa

F Editora Casa Flutuante L i v r o - r e p o r t ag e m & a c a d ê m i c o s

São Paulo, 2017


Copyright © 2017 Ellen Visitário, Jackson Vasconcelos e Mauro Balhessa - Todos os direitos reservados. Livro-reportagem apresentado como trabalho de conclusão de curso, uma exigência para a obtenção do título de bacharel em Comunicação Social (Jornalismo) do FIAM-FAAM Centro Universitário. Diretora do Núcleo de Ciências Sociais Aplicadas, Humanas e das Artes Prof.ª Ms. Simone Espinosa Coordenador do curso de Jornalismo Prof. Dr. Vicente Darde Orientadora Profª Ms. Carla de Oliveira Tôzo

Dados Internacionais da Catalogação na Publicação (CIP) (Editora Casa Flutuante, SP, Brasil) Refúgio: histórias de refugiados colombianos que escolheram São Paulo como nova casa /Ellen Visitário, Jackson Vasconcelos e Mauro Balhessa. — São Paulo: Editora Casa Flutuante, 2017. ISBN 978-85-5869-041-6 1. Jornalismo 2. Livro-reportagem 3. Refugiados I. Título CDD 325.21

Editor

Editora Casa Flutuante Rua Manuel Ramos Paiva, 429 - São Paulo - SP Fone: (11) 2567-6904 / 95497-4044 www.editoraflutuante.com.br / www.livro-reportagem.com.br Capa e Diagramação Israel Dias de Oliveira


Dedicamos a todos os refugiados que encontraram na cidade de SĂŁo Paulo a nova forma de viver.


Um agradecimento especial aos nossos familiares, amigos e a quem sempre torceu por nรณs, para que este livro-reportagem se tornasse realidade.


SUMÁRIO

Apresentação...........................................................................11 De refugiado a empreendedor na Rua Augusta.................14 O brilho no olhar e o sabor dos quitutes de uma colombiana paulistana..............................................28 Um sopro de acalanto, uma Missão de Paz........................38 Os três amigos colombianos no país do carnaval..............46 Minha casa é onde os meus amigos estão..........................52 A luta e o sorriso colombiano que vieram ao Brasil..........72 O recomeço para Cristiano e sua família............................88 Sobre os autores......................................................................97


APRESENTAÇÃO

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construção deste livro-reportagem se originou do primeiro contato com a América Latina em um projeto de revista acadêmica, desenvolvida no 6º período de jornalismo no Centro Universitário FIAM FAAM, em São Paulo, realizada no segundo semestre de 2016. Neste contato, vimos a necessidade de falarmos sobre os nossos vizinhos latino-americanos de uma forma que a mídia tradicional já não tenha dito ou esclarecido, tampouco observado com atenção o que os países da América do Sul teriam a dizer. A ideia de olharmos com outros olhos àqueles que precisavam aparecer, ter voz, reforçou para que o nosso pré projeto de TCC (Trabalho de Conclusão de Curso), desenvolvido em fevereiro de 2017, contasse histórias de refugiados colombianos que escolheram o Brasil, especificadamente a cidade de São Paulo como nova moradia. Nestas páginas estão personagens que sofreram a repressão e as torturas de guerrilheiros das FARC (Forças Armadas 11


Revolucionárias da Colômbia), considerada pelo governo da Colômbia, dos Estados Unidos e do Canadá como uma organização terrorista. Em contrapartida, há defensores deste grupo que levantam a bandeira de que o movimento, que existe desde 1964, foi criado para lutar pela implantação do socialismo no país colombiano. Assim como fez em 2008 o presidente da Venezuela, Hugo Chavez, que rejeitou este título, publicamente, e apelou ao país e a outros governantes estrangeiros o reconhecimento diplomático das guerrilhas. Além das FARC, existem os paramilitares, que controlam a grande maioria do narcotráfico de cocaína e de outras substâncias em conjunto com os principais cartéis de drogas colombianos. Em “Refúgio – Histórias de refugiados colombianos que escolheram São Paulo como nova casa” o leitor encontrará relatos de pessoas simples, que lutaram – e lutam – para ainda conquistar um espaço próprio, além das experiências de conviver com brasileiros e seus costumes, como conta a personagem Liliana, que saiu da Colômbia para encontrar no Brasil uma paz que não existia em sua cidade natal, e como alternativa para sustentar os filhos, encontrou na Vila Madalena um espaço para vender suas comidas típicas, como arepas. Quem também detalha sua história é o professor Héctor ao retratar o que passou nas mãos de militares à época que sofreu um sequestro; como também o Cristiano, um pai colombiano de duas meninas que ainda não sabem falar a língua portuguesa muito bem, que vê no país tropical a chance da sua família crescer e viver bem. Existem também os relatos de Daniela, de Victória e de Aleksey, que enfrentam o preconceito, as dificuldades e as 12


descobertas do dia a dia, de viver longe da sua pátria morando em São Paulo, a famosa locomotiva do país. A divertida experiência dos três amigos colombianos Miguel, Luis e Juan que nos contaram, sentados em um banco de igreja, como é viver na capital paulista e tentar aprender com suas estratégias o português, também contempla essa pequena obra, assim como o Jair e o padre Ajeandro, personagens que nos deram a chance de ouvir suas respectivas percepções sobre o tratamento do Brasil com refugiados. As trajetórias e os distintos motivos que levaram essas pessoas a morar em São Paulo, o entendimento do que pensam do Brasil como refúgio e os novos lares estão nesse livro criado por nós para dar voz a eles. Contudo, as emoções escritas nestas páginas merecem ser lidas por você também, caro leitor. Boa leitura!

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DE REFUGIADO A EMPREENDEDOR NA RUA AUGUSTA


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o dia dois o termômetro marcava a temperatura de vinte três graus de um fim de tarde ensolarado. A hora? Quatro e quinze da tarde do primeiro sábado do mês de setembro de 2017. O entrevistado marcou o bate papo às 17h30 no endereço mais cosmopolita da capital paulista. O local escolhido foi o Calçadão Urbanoide, localizado no número 1.291, da rua Augusta, situado entre o Espaço Fábrica Augusta e um Burguer King. O ambiente é muito aconchegante e frequentado por apreciadores da culinária de nacionalidades como: Venezuela, Peru, México e Colômbia. Dentro do Calçadão Urbanoide encontra-se o foodtruck Macondo – Raízes Colombianas. O nome do restaurante é uma referência à cidade fictícia do romance 100 Anos de Solidão, de Gabriel García Márquez, e possui como decoração as cores vivas e fortes da bandeira da Colômbia: amarelo, azul e vermelho. Dois chapéus típicos do país e alguns cartazes anunciando: patacon, arepas e patacones complementam a decoração do foodtruck. 17


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O fim de tarde faz uma troca injusta: o sol se vai e com ele chega uma noite de vento cortante que passa a incomodar aqueles que saíram de casa despreparados para o frio. Chegamos ao local marcado e perguntamos pelo Jair Abril Rojas, colombiano, nascido há 38 anos na cidade de Bogotá. Os funcionários dizem que ele ainda não havia chegado. Pouco tempo depois uma mensagem de whatsapp de Jair chega alertando que ele se atrasará um pouco. Em frente ao Macondo existe uma mesa grande com um guarda-sol verde e dois bancos que cabem por volta de seis pessoas. Aguardamos ali e passamos a observar a movimentação local. Às 18h25, quase uma hora depois do horário combinado, Jair Rojas chega. O colombiano possui um estilo básico: calça jeans azul, camisa branca estampada com o logo do Macondo, tênis da marca Adidas esportivo cinza com listras em azul, boné preto bem rente aos olhos, óculos e um cavanhaque fechado. O cozinheiro e dono do foodtruck troca algumas palavras com seus funcionários e rapidamente acomoda-se na mesa em que estamos. Nos apresentamos formalmente, ele pede desculpas pelo atraso, senta, cruza os braços e a entrevista se inicia. Com as mãos sempre em movimento e voz mansa ao falar, Jair Rojas quase sempre olha para cima. Sua vida em Bogotá era marcada por muita insegurança e violência. A família de seu pai trabalhava no ramo de transporte, já de sua mãe atuava no comércio. Ele começa contando sobre a época que era criança na Colômbia. — Tive uma infância normal. Meu pai vendeu parte da empresa [de transportes] para o meu irmão e ele se afastou um pouco. Ele mora a duas horas da capital, já minha mãe faleceu há treze anos. Ao todo somos três irmãos: o mais velho 18


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ficou na Colômbia e o mais novo mora atualmente nos Estados Unidos, ele é engenheiro. Durante toda a vida eu percebi que eles [seus familiares] tinham que pagar um ‘pedágio’ a alguns grupos do governo que controlavam as estradas. Já ocorreram muitos problemas e alguns foram sequestrados. Havia essa pressão diária. [Hoje] as coisas estão mais tranquilas. Esses “pagamentos” a determinados grupos também eram cobrados da família de sua mãe. Diz que faz três meses desde a última vez que visitou seu país e que por enquanto não está em seus planos voltar a morar lá.        A vinda para o Brasil Este livro visa relatar histórias de colombianos que vivem no Brasil, por isso é de extrema importância saber qual motivo ou contexto levaram essas pessoas a abandonarem seu país de origem. No caso de Jair Rojas podemos concluir que os problemas que seus familiares enfrentaram com grupos armados, somados a violência que seu irmão mais velho enfrentou e uma proposta de emprego garantido foram determinantes para que o cozinheiro viesse de vez para o Brasil. — Eu saí da Colômbia em janeiro de 2012 aproveitando uma oportunidade de trabalho como cozinheiro aqui no Brasil e também forçado um pouco pela insegurança que se apresentava nessa época em meu país. Eu tinha uma proposta de trabalho e sabendo onde ia morar, não tinha como dar errado, pelo menos o básico me estava assegurado. Eu vivi de perto os problemas de sequestro por parte das FARC (Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia): membros da minha família, amigos, primos, pessoas chegadas, e sempre, desde criança, eu percebia que a família por parte do meu pai, sendo dona de empresa, tinha que pagar um “pedágio” para eles, 19


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sendo em dinheiro, calças ou botas para usarem. Achei uma boa oportunidade para aprender um pouco mais e aproveitar as duas coisas: fugir do que estava acontecendo no meu país e focar na minha profissão. Acho que esses foram os principais motivos para que eu mudasse da minha pátria e chegasse aqui no Brasil pedindo refúgio. Procurando um pouco de sossego, paz e tranquilidade, coisas que até agora encontrei, apesar de todos os problemas do Brasil, eu achei o que buscava. A minha adaptação foi muito difícil, eu não falava nada de português e morava com um colombiano no mesmo restaurante em que trabalhava na Pompéia, ele era da família da dona e ficava todo dia lá, nunca saía do restaurante. Vivendo em um país novo e sem conhecer ninguém o engenheiro mecânico e cozinheiro usava os finais de semana para conhecer mais sobre os costumes dos brasileiros e a capital paulista. — Aos domingos eu saía e pegava um ônibus. Comprei um mapa grande [da cidade de São Paulo], descia na Barra Funda, pegava o Metrô e ia embora. Uma vez eu cheguei ao Parque do Ibirapuera e fui caminhando e não entendia nada, pensei: “Poxa! Pelo menos nas ruas da Colômbia você consegue entender que as pessoas estavam falando de novela, jornal e de política”, eu não entendia nada, não conhecia ninguém, então foi bastante difícil. Ao ser questionado se sofreu preconceito, ele conta que sim. — O fato de você ser da Colômbia tem aquilo: “Tem cocaína? Cadê o Pablo Escobar?”, esse preconceito estava muito forte nessa época. Acho que de uns dois anos para cá, depois da Copa do Mundo, que passou a mudar essa discriminação com a Colômbia. O pessoal vê muita gente do meu país como 20


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narcotraficante e não existe mais nada disso. Eu acho que essa ideia mudou depois desse evento. Perguntam: “Você é da Colômbia? Cadê a Shakira?”. E mudou também após o caso da Chapecoense. Faz um mês e meio, mais ou menos, que saiu uma reportagem do Globo Repórter sobre a Colômbia. Foram 45 minutos bem pontuais e a gente teve três finais de semana de pessoas que vinham aqui procurando comida colombiana, foi muito gratificante isso. “Vocês vendem patacon?”. Um dos grandes problemas que os refugiados relatam em nossas entrevistas é a burocracia que eles encontram em conseguir regularizar sua situação quando chegam ao Brasil. Jair Rojas conta que pelo menos nesse sentido, ele não teve muita dificuldade. — Eu tenho todos [documentos]. Mesmo como título de refugiado, eu consegui tirar o CPF, RNE [Registro Nacional de Estrangeiros] e conta no banco. Tive muita sorte, acho que saíram em nove meses. Na época que vim não existia o Acordo do MERCOSUL com a Colômbia, então eu só podia ficar aqui noventa dias. Fui na federal, expliquei o meu caso e prorrogaram para mais trinta. A Polícia disse: “Você pode se casar com uma brasileira ou pedir refúgio”, pensei: “Vou pedir refúgio, então!”, fui e contei minha história e demorou quase nove meses para a [autorização] sair. Casei com uma brasileira [posteriormente], mas meu documento ainda não estava como brasileiro. Cancelei o refúgio e estou pelo acordo do MERCOSUL. Agora está mais tranquilo. Jair responde às perguntas de forma direta com um sotaque que, às vezes, pode confundir um pouco, mas para uma pessoa que mora no Brasil há cinco anos ele fala bem a língua portuguesa. Nessa altura da entrevista, ele comenta quais são as diferenças entre brasileiros e colombianos. 21


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— Acho que o diferencial é o idioma e os costumes. O fato de você ter que comer massa na quinta-feira e peixe no sábado. Para a gente você pode comer na segunda, terça. Está com vontade vai lá e come, lá [na Colômbia] não tem essa estrutura paulista de que cada dia da semana seja um prato diferente. Esposa brasileira e casamento Ao falar sobre sua vida amorosa Jair parece ser um pouco reservado e conta apenas alguns detalhes de como conheceu sua mulher. — O nome dela é Flávia. Ela foi ao restaurante em que eu trabalhava no dia do jogo Brasil versus Colômbia com uma amiga em comum brasileira e outra menina, as únicas três brasileiras no meio de cento e vinte colombianos. A gente se conheceu, só se cumprimentou no dia, tem mais de três anos isso. Vai fazer um ano que a gente se casou. Os familiares da brasileira não viram problemas da mulher se casar com um refugiado, mas a questão que se instaurou foi como eles viveriam, já que o pai da moça é uma pessoa muito bem estruturada financeiramente. — A princípio não foi muito bem visto por parte do pai dela, não de brigar e nem de conflitos, foi aquele tipo de coisa: “Ele é cozinheiro, qual vai ser o futuro de vocês? A culinária tem futuro? Quais são seus planos? Isso vai dar para você sustentar sua família?”. Como ele é advogado, vice-presidente da OAB, é uma pessoa muito bem estruturada. Mas de resto foi tranquilo, eles vão viajar em novembro para a Colômbia. Negócios & Gastronomia O Calçadão Urbanoide é frequentado por pessoas que procuram diversidade, qualidade e bom atendimento. Aos 22


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finais de semana, principalmente no período da noite, o lugar fica abarrotado de gente que entre um foodtruck e outro procura o melhor custo-benefício. Nessa hora o rumo da entrevista muda e Jair Rojas nos conta um pouco mais sobre o seu negócio. — Eu tenho dois trailers, este [Macondo] e outro que fica itinerante [não fixo]. Tenho uma linha de produção e faço entregas para restaurantes aqui na Oscar Freire e estou fechando uma parceria para colocar serviço de delivery. Não tenho pretensão de abrir mais foodtruck. Eu quero expandir abrindo pontos itinerantes. Pretendo colocar produtos no mercado: a limonada tem saído bastante, conseguimos colocar ela na [avenida] Paulista aos domingos, então quero levar os produtos. Eu trabalho muito com os refugiados, minha equipe é só de colombianos porque eu acho que dá um pouco mais de credibilidade no que a gente está fazendo. Eles conseguem explicar um pouco mais do que queremos oferecer, não é só comida, mas sim a experiência: escutar música em espanhol, ter alguém que pode falar para onde você deve viajar, qual ônibus pegar, esse tipo de coisa. Participo de vários eventos com refugiados aqui em São Paulo. O cozinheiro, que também é engenheiro mecatrônico por formação, trabalhava na Colômbia como subchefe em uma rede tradicional de restaurantes e passou também pelo Astrid & Gastón, considerado no ramo gastronômico como um dos melhores restaurantes do mundo. Para o dono do Macondo a vida de cozinheiro é tudo. — Cozinhar é uma forma de vida e 90% das minhas amizades são de cozinheiros. Acho que da engenharia foram poucas amizades que ficaram, estão aí, mas a gente não conversa muito. A gente tem mais contato com os cozinheiros. 23


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Sempre tem conversa do tipo “Estou fazendo isso; tem esse evento; vou viajar para outro lugar”. Acredito que a cozinha está comigo 24 horas [por dia], acordo pensando na lista de compras, novo cardápio, eventos e vou dormir refletindo na cozinha, na empresa e de como melhorar. Um dos destaques da sua cozinha e/ou de qualquer cozinha colombiana são as arepas — uma espécie de tapioca colombiana. Em São Paulo existem adaptações para deixar o prato mais “acessível” ao paladar dos brasileiros. — Você a encontra em cada esquina. É como uma tapioca mesmo. De manhã você consegue comer. Tem doce, salgada, pequena. Nos restaurantes “chiques” você encontra pequena, já nas ruas [encontra] gigante. Ela está super presente na gastronomia colombiana. A gente tenta oferecer a maior quantidade de produtos. Estamos fazendo agora linguiça colombiana e chouriço. Somos pioneiros em fazer algumas preparações típicas. Por exemplo, pelo fato de ninguém trabalhar com frutas colombianas, corremos o risco de trazer essas frutas e fazer eventos típicos. Para mim, é como um sonho mostrar isso na rua. Eu corri atrás, fiz o forno e deu certo. Não são pratos que você consegue fazer na sua casa ou no dia a dia. Nos eventos colombianos a gente tenta levar essas coisas que não vamos encontrar em qualquer lugar e nem todo mundo quer fazer. Nosso entrevistado ainda se mantém na mesma postura inicial: sentado e com os braços cruzados, porém, agora ao falar, passa a gesticular mais com as mãos. A temperatura cai ainda mais e o espaço que antes estava muito vazio, dá os primeiros sinais de que a noite está apenas começando. É perceptível o aumento de casais bem agasalhados que passam para lá e para cá procurando o melhor lugar para comer. 24


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— Eu acho que além de ser cozinheiro tem que ser pesquisador. Agora estou fazendo parte de um projeto que se chama as Raízes na Cozinha, que trabalha com imigrantes e refugiados. Teve um evento e eu levei um bolo que a gente fala que é três leites e lá tinha uma mexicana que disse: “Mas também temos esse bolo, é típico nosso”. O cubano falou: “A gente também tem, mas colocamos morango”, então tem que pesquisar. No Brasil tem a queijadinha mineira, por exemplo, você procura no Google e aparece como sendo típica do Brasil e a gente tem lá [na Colômbia] e é a mesma coisa. Lá, se você procura é tipicamente colombiano. Toda a América Central tem a mesma sobremesa, só muda o nome, mas todas são típicas de cada região de um país. O novo Acordo de Paz A guerra civil colombiana e, consequentemente a questão dos refugiados, se inicia com problemas estruturais desencadeados desde a colonização espanhola e posteriormente pelos países dominantes. Nos últimos cinquenta anos a Colômbia faz parte do noticiário jornalístico e um dos grandes traumas do país é relacionado às guerrilhas armadas. O conflito, que é o mais duradouro do continente americano, espanta pelo grande número de vítimas. Segundo dados do Centro Nacional da Colômbia para a Memória Histórica, nos últimos 30 anos, 46.383 mil pessoas “desapareceram” e outras 29.682 foram sequestradas. Já o número de vítimas fatais é de 260.00 mil mortes, sendo que a maioria são de civis. Essa é uma cicatriz difícil de fechar pois muitos colombianos se viram forçados a deixar seu país e procurar por abrigo em diversos países pelo mundo. Após tantos anos de conflitos e mortes por conta dessa guerra, parece que a Colômbia começa a enxergar uma luz no fim do túnel. 25


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Em novembro de 2016, após a realização de um referendo, o governo e os líderes das FARC firmaram um acordo de paz. A questão divide opiniões entre os que são a favor e os que são contra. A ONU (Organização das Nações Unidas) enviará mais de 450 observadores para fiscalizar o desarmamento, segundo dados da Missão da ONU na Colômbia. Questionado sobre o que pensa desse acordo de paz, Jair enxerga o tema com cautela. — O acordo de paz tem coisas boas. Tem coisas que ao meu modo de ver estão erradas, mas assim, para mim, eu prefiro as FARC brigando com palavras do que usando armas, é mais vantajoso para todo mundo. Eu não gostaria de ver eles no governo dirigindo o país, pois eu sei que seria mais para o lado do comunismo/socialismo, e esse tipo de política não deu certo em nenhum país, em nenhum lugar, então acho que seria muito triste que a Colômbia chegasse ao ponto de um [governo] comunista/socialista. Não tem futuro. O acordo ajudou um pouco. Os grupos armados ainda continuam, isso é a fonte de renda deles e é muito difícil isso acabar. E para finalizar… Nesse momento sentimos que precisamos nos apressar, afinal, a noite está só começando para os funcionários do Macondo – Raízes Colombianas. Fizemos a pergunta final que pode parecer muito ampla, mas a intenção é que ela seja para não limitar a resposta. O que é a vida para você? — Eu acho que é procurar a felicidade. O eu que mais procuro é ser feliz. Minha cozinha me faz feliz, minha esposa, o grupo que eu trabalho que está comigo, então se não mudar é isso. A vida tem altos e baixos. Tem dias que a gente 26


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fica irritado, acha que não vai dar certo com o negócio, mas sempre vamos em frente. No projeto Raízes da Cozinha tem congoleses, haitianos e sírios que estão começando, então, eu falo para eles: “Eu comecei com um investimento de R$ 6.000 e agora eu não vendo por menos de R$ 90.000, isso em três anos, então tem como dar certo se você fizer as coisas com paixão”. Muita gente fala que é sorte, mas sorte é você acordar às seis horas da manhã. O filho da Liliana Patricia trabalhou comigo e ela está no projeto também. Daniel Sebastián foi meu primeiro funcionário. Ficou comigo por oito meses. Eles começaram aqui embaixo [próximo a rua Augusta] em uma bike, aí deu certo e procuraram por mais eventos. A entrevista chega ao fim. Cumprimentamo-nos e agradecemos. Jair Abril Rojas se levantou em um solavanco e perguntou se não queríamos experimentar nada de seu foodtruck, agradecemos mais uma vez e nos despedimos. O relógio marcava 19h15. O aplicativo de temperatura do celular indicava 16º graus de uma São Paulo predominantemente nublada. O Calçadão Urbanoide começava a encher ainda mais de gente. As lâmpadas, que vistas de longe se assemelham às grandes vagalumes, foram acesas para iluminar a noite que estava só começando em uma das ruas mais badaladas da capital paulista.

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O BRILHO NO OLHAR E O SABOR DOS QUITUTES DE UMA COLOMBIANA PAULISTANA


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mbiente alegre: dança, música ao vivo, tendas com peças artesanais e comidas para todos os gostos. O horário: 16h. O espaço: Armazém da Cidade - Vila Madalena, bairro da Zona Oeste de São Paulo. Lá estava ela, trabalhando, na correria. E uma fila imensa, só para degustar das suas arepas - comida típica colombiana feita de milho moído. Seu nome, Liliana Patricia Pataquiva Barriga, trinta e oito anos, cozinheira e colombiana de Bogotá. Uma baixinha, parruda, com a cara de esforço (ao produzir seus quitutes) e com um sorriso nos olhos. Sem tempo para dar atenção, quem recebia os clientes era seu marido, Cesar Giovanny, de trinta e seis anos, também colombiano. O trabalho era ininterrupto e provavelmente a nossa conversa com eles seria tarde da noite. Mas o acaso ajudou: acabou a energia elétrica. E assim se deu a entrevista, à luz do celular. O paradoxal das luzes e escuridão, então, passou a dimensionar outra realidade, a de Bogotá, da incandescente infância de Liliana e do apagão que a fez vir ao Brasil. 31


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A terra natal Liliana morava com os seus pais, no bairro tranquilo de Tunál, na capital colombiana. Sempre brincava pela rua, de amarelinha e esconde-esconde. Na escola, lembra como era feliz com suas amigas, em tempos em que não havia smartphones. — Minha infância foi muito boa. Eu morava com o meu pai e com minha mãe e irmão. A gente tinha comodidade, não era muito luxuosa, mas era muito boa. Tinha meu quarto, minha televisão. Estudei na escola do governo. Ainda era inocente e não tinha o que tem agora, com a internet. Eu era muito feliz com as minhas amigas, brincando, conversando. Muito mais tranquilo que os jovens de agora. A época encantada foi embora bem cedo para ela. Aos 15 anos engravidou de Daniel Sebastián. Logo teve que trabalhar. Começou fazendo faxina em apartamentos e as pessoas até a deixavam levar o filho para o local de trabalho. Depois foi para o shopping em uma loja de roupas. Chegou a trabalhar por dez anos no mesmo lugar. Durante esse período começou a juntar dinheiro para o próprio negócio e conheceu seu marido Cesar. Logo decidiram montar um pequeno restaurante de arepas em Bogotá. De olho na concorrência, Liliana inovava no seu cardápio com cachorro-quente, frango assado e até uma máquina de vídeo game que alugavam por hora. Em anos de trabalho, a família conquistou certas regalias. Tinham até um carro Corsa compacto. Os negócios iam muito bem, porém por um alto custo. Mesmo sem revelar nomes, Liliana se lembra do “problema”. Grupos armados começaram a pedir uma “multa” mensalmente para o casal trabalhar no local. Não sabiam que o território era dominado pelo grupo. Depois de anos ali, ameaçaram sua família. Isso era o ano de 2013. 32


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— Depois disso, começou o nosso problema. Pediam propinas para nós. No começo, cinco, seis anos, você paga 50, depois já estava pagando 2 mil. Aí não, aí ninguém trabalha. Falamos que não íamos pagar mais. Quando a gente começou, não sabíamos nada disso. Foram doze anos trabalhando assim. Você desanima. Falei para o meu esposo que não era justo. Trabalhávamos à noite, acabava três, quatro horas da manhã, com toda a família trabalhando. A partir disso, começaram a ameaçar meus filhos, minha família e tive que sair. Um dia chegou um livro em sua casa chamado de sufrá1 gio com a imagem de Cristo e nomes, que na prática são de pessoas que morreram. Era o nome dos seus filhos. Então, o casal pegou os meninos às três da manhã e fugiram só com as roupas do corpo e com a cadelinha que tinham. Foram procurar abrigo nas casas de familiares, distantes do perigo. Mas eles os ajudaram por pouco tempo. Cesar, depois, conseguiu um trabalho de manobrista. Mas sempre ficava com receio que o reconhecessem na rua. Foi quando um amigo indicou o Brasil para morarem e deu as passagens. Liliana veio primeira, depois a família. — Então teve um amigo que falou “por que não vai para o Brasil?” Eu não sabia se aqui falava português, se falava francês, só falei: eu vou. Aí ele disse: “A única coisa que eu posso fazer é te dar a passagem para você ir”. Falei para a minha família ‘eu vou primeiro para ver e depois a gente resolve”. A igreja anfitriã Ela foi recebida por um projeto da Igreja Nossa Senhora da Paz chamado Missão de Paz, que fica na rua Glicério, Liberdade. 1  Livro que uma pessoa recebe anonimamente como uma ameaça de morte

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Lembra-se da ajuda do padre Luiz, também colombiano, que dava cesta básica e sempre auxiliava a procurar emprego. Começou a trabalhar sem documentos. Dois meses depois veio Giovanny, que conseguiu trabalho em um restaurante colombiano. Não conheciam nenhuma instituição que pudesse ajuda-los, além da igreja. A adaptação no começo foi difícil. — Tinha gente que falava: ‘traz alguma coisa’. E eu não entendia. Pensava: “Hã!? Só um minutinho”. E perguntava para o meu chefe. Era difícil porque as pessoas falam rápido. Uma coisa que ajudou muito também foi ver televisão. Nos acostumamos. Não falo direitinho, mas entendo bem. Ficamos no centro, perto do Glicério, que tem uma colônia de colombianos por lá. Tinha uma senhora que não me pediu para deixar adiantado o aluguel (tem lugares que tem que deixar até um ano para alugar). Ela me deu cama, televisão, geladeira, mobília. A maioria me recebeu muito bem aqui no Brasil. Acho que uns 98%. Noutro momento trouxeram o filho maior que também deu uma força em casa. Chegou a trabalhar no foodtruck Macondo, dirigido pelo conterrâneo Jair. Daniel trabalhou por oito meses lá. A família se uniu e passou a ter um objetivo: empreender aqui no Brasil. Inicialmente, claro, com um aparato mais humilde. Pensaram, então, em fazer uma foodbike com comidas colombianas. Deu certo durante um período, mas chegou um momento que não estava compensando. Resolveram encostar a bike. O preço que se pagava para ir aos eventos era muito caro. — Em dezembro eu fiquei pensando: a gente deve, tem dívidas, não comprou nada, não tem colchão, não compramos roupas. Vamos mudar. Parar com a bike e trabalhar de verdade. Então, a menina do Armazém deu uma oportunida34


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de para a gente. Desde janeiro estou trabalhando aqui. Aqui está melhor e é fixo. É um espaço bom. Em 2016 passaram a ter um espaço no Armazém da Cidade para vender suas arepas. Começaram com a frequência tímida, uma vez por mês. Agora tem arepas por lá toda semana — sexta, sábado, domingo e feriado. Mesmo com a lojinha, Cesar tem o emprego de chapeiro durante a semana, em um restaurante na Sé. Liliana produz arepas e chips de banana todos os dias e seu filho maior também trabalha para auxiliar nas despesas. As arepas são populares na Colômbia e consumidas no café da manhã, almoço e jantar. O prato é composto, basicamente, por farinha de trigo, sal e água. O quitute pode ter recheios como carne e queijo. Trabalho, trabalho e trabalho! Atualmente, Liliana permanece no país pelo chamado Acordo do MERCOSUL, menos burocrático que o pedido de refúgio. Sua documentação permanente custa mais de R$ 400 e ela não tem como pagar. Independente disso se reconhece brasileira e vive bem por aqui. Ela almeja objetivos e conquistas no país e critica quem não vai atrás de emprego. — Se eu fico chorando e falando que eu não consigo, eu não tenho como sobreviver no Brasil. Eu morro de fome. Se eu corro atrás, acontece. Claro que eu tive muita ajuda de brasileiros. Mas se tiver gente que fala que no Brasil não tem emprego é mentiroso. É encostado. Aqui tem muito benefício. Meu esposo se inscreveu num site na terça, no dia seguinte já estava trabalhando. Meu sonho agora é comprar minha casa, ter minha loja, ver meus filhos bem. Apesar da ajuda que o casal teve, alguns brasileiros chegaram a ser maldosos, fizeram “brincadeiras” pejorativas. 35


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Liliana, por exemplo, chegou a ser questionada se pertencia à família do conhecido traficante colombiano Pablo Escobar ou se na arepa tinha cocaína. Liliana, geralmente, levava na brincadeira, mas tinha dias que ficava chateada. Questionada sobre Acordo de Paz realizado em 2016, feito entre o governo colombiano e as FARC, Liliana vê que é só engano para a população. Que se trata de uma brincadeira. Afirma que o presidente Juan Manuel Santos acabou com a Colômbia e vendeu empresas estatais. Apenas pessoas que são muito ricas estão satisfeitas com o governo. Liliana não tem saudade do seu país e não quer voltar. Cogitou, quando as coisas estavam ruins, em ir para a Argentina. Mas para ela o “clima” aqui é bom. — Saio à noite, vejo gente na rua. Na Colômbia é diferente, às sete, oito horas da noite todos já estão em casa, com medo. Apenas sinto falta da minha mãe, para mim dói muito não vê-la. Você lembra e dói. Mas mesmo assim eu não voltaria para Colômbia. O que voltou mesmo foram as luzes no Armazém da Cidade. Todos já tinham ido embora. Mas, para Liliana ainda havia muito trabalho. Após esse dia, a colombiana conquistou um espaço maior no Armazém da Cidade e conseguiu uma parceria com o Uber Eats — aplicativo delivery de comida.

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UM SOPRO DE ACALANTO, UMA MISSÃO DE PAZ


Nós acreditamos, falando religiosamente, que é o rosto de cristo que nos visita. Na tradição bíblica dizia-se que os mais vulneráveis eram: os estrangeiros, as viúvas e os órfãos. O grupo dos três mais fracos que existem na sociedade. Nosso trabalho aqui é que possam se integrar na nova terra, conservando um pouco a identidade, mas também entrando em diálogo com o novo lugar. Aqui em São Paulo existem mais de trinta igrejas católicas com línguas diferentes. Na época foi o Padre Luiz que ajudou Liliana Patricia Pataquiva Barriga, atualmente quem está à frente do trabalho com os imigrantes é o mexicano Alejandro Cifuentes. Oriundo de Guadalajara, a figura atenciosa e paciente explica o trabalho exercido na igreja Nossa Senhora da Paz — situada na Rua Glicério, 225, bairro da Liberdade, em São Paulo. A missão da igreja é oferecer apoio aos imigrantes com diferentes serviços. Primeiro há um atendimento especial para as pessoas que chegam à chamada Casa do Imigrante — são 110 vagas 41


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principalmente para pessoas que estão em situação de rua – a maioria é de africanos. Depois tem o Centro Pastoral e de Mediação dos Imigrantes com diferentes eixos, que trata a questão de emprego, cursos de capacitação, documentação, jurídico, assistência social e atenção médica. Outro departamento é o Centro de Estudos Migratórios que funciona na parte de cima da igreja e trabalha em parceria com a USP (Universidade de São Paulo), PUC (Pontifícia Universidade Católica), UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro) e UFMG (Universidade Federal de Minas Gerais). O espaço funciona como um laboratório para pesquisadores, juntamente com uma biblioteca especializada em migração. — Entre os latino-americanos há muitos bolivianos, paraguaios, peruanos, colombianos, chilenos e haitianos que vêm pela documentação, então há uma variedade grande de países e nacionalidades. Geralmente procuram emprego, de terças e quintas. São cerca de 300, 400 pessoas atrás de emprego, são dois dias na semana que tem muitas pessoas. Rede Internacional O Padre Alejandro explica que a congregação em que a igreja atua funciona como uma rede internacional. Ela está integrada com mais de trinta e cinco países e outras regiões do Brasil que fazem o mesmo serviço. Muitos escolhem a cidade de São Paulo porque é um lugar grande e com oportunidades de trabalho e estudos. — Com as outras igrejas existe a comunicação que facilita muito o nosso trabalho, por exemplo, muitos colombianos vêm por Manaus e descem para São Paulo, por isso temos uma casa em Cuiabá, mas geralmente eles vêm com o destino direto para São Paulo, Porto Alegre e Curitiba que tem outros 42


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centros. O pessoal vem para cá porque vai se dar mais fácil, se quer estudar alguma coisa ou encontrar um trabalho. Em relação aos refugiados colombianos, Alejandro explica que podem ser divididos em dois grupos grandes. Um antigo que veio com o status de refugiado antes de o país criar o documento intitulado de “Acordo do MERCOSUL”. Estas são pessoas muito desconfiadas entre elas mesmas. E, agora, este sistema é um processo de documentação mais simples, sem muitas exigências. Imigrantes de forma geral utilizam-na. O documento com o status de refugiado é burocrático, demora muito tempo para sair e pode ser aceito ou rejeitado. Atualmente a maioria vai diretamente para o MERCOSUL. Doações A igreja é ajudada apenas pela sociedade civil e por fiéis. Não há nenhuma entidade que auxilia os trabalhos. O padre afirma que dez anos atrás tinham uma parceria com a Prefeitura de São Paulo, entretanto o debate sobre migração era diferente. Recebia-se o imigrante como se fosse um morador de rua, que precisava de um lugar para ficar. — Tivemos mais de duas mil contratações de emprego. Apesar da crise neste ano, nós temos tido alguns encaminhamentos, em média setenta por mês, uma luz para nós. O pessoal confia, são os mesmos empresários. Existe a confiança daqueles que vêm aqui para que sejamos os mediadores nesse processo. É um trabalho muito sério para não expor ninguém. União da Comunidade A comunidade colombiana realiza anualmente duas festas na igreja: uma é da independência, em 20 de julho, e outra em 07 de dezembro, quando é feita uma celebração única no 43


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mundo que é a “Noite das Velitas”, uma vigília. Com cada país são realizadas diferentes festas e momentos. Como são muitas nacionalidades que aparecem, aqui é um lugar de festa. De acordo com Alejandro, essa é uma forma de conservar a identidade.

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OS TRÊS AMIGOS COLOMBIANOS NO PAÍS DO CARNAVAL


É aqui na igreja do Glicério que encontro minhas raízes. Estou ao lado de gente que fala o meu idioma e isso me dá a chance de matar a saudade do

meu país! No auge dos vinte e seis anos, o jovem Miguel Angel Menezes, sentado entre dois amigos em um banco de madeira de igreja que fica ao fundo de becos e vielas do bairro Liberdade, conta que são nas festividades da Paróquia Nossa Senhora da Paz que ele tem a oportunidade de voltar a falar a língua espanhola para se sentir mais próximo de onde nasceu. Criado pelos pais e na companhia de cinco irmãos na cidade mais popular do Norte de Santander, na Colômbia, Miguel guardou para si a vontade de morar no Brasil ainda na infância. — Desde criança via aqui a chance de crescer e sonhava com o dia que conheceria a capital paulista. Mas meus pais eram contra a essa minha decisão. Achavam o Brasil um lugar perigoso. Acreditavam somente naquilo que viam na TV! 49


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Para o alto e vaidoso rapaz que ignorava os estereótipos construídos para desestimular a sua ideia de morar em um país tropical não o abateu. Nem quando se viu, em meio ao último verão quente e abafado, dormindo num sofá de uma sala estreita na zona norte de São Paulo. — Juntei dinheiro suficientemente para viajar ao Brasil pela fronteira. Naveguei de barco pelo Rio Amazonas e do aeroporto de lá peguei um avião com destino a São Paulo. Foi uma viagem cansativa e longa, duraram horas desde que saí de Letícia, na Colômbia. Mas cheguei! E estou aqui desde março de 2017! Embora o entusiasmo esteja estampado nas falas de Miguel, as dificuldades apareceram quando ele percebeu que a língua portuguesa era um empecilho para se identificar. Porém, notou que teria que agir para saber como recomeçar em um país diferente do seu, então decidiu aprender o segundo idioma em aplicativos de celular. — Escrever a língua daqui é bem melhor do que falar. Vocês tem muito “ão” nas pronúncias. Difícil seguir o ritmo de vocês, brasileiros! Sentado ao seu lado esquerdo, concordando com a mesma dificuldade de Miguel, estava o tímido Luis Alfredo Valencia. Nascido em Pereira, cidade que mais produz café na Colômbia, o menino de vinte três anos tenta acertar cada palavra em português. — Tenho que concordar com o meu amigo Miguel sobre o idioma português. É complicado! Complicado porque fazia menos de uma semana que Luis pisava em solo brasileiro, assim como o seu primo Juan Sebastian Castaño, sentado ao lado direito de Miguel. Ambos conheceram o “veterano” pela internet. E ali trocavam mensagens para combinar como seria a vinda ao país do carnaval. 50


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— Vim ao Brasil na intenção de estudar português — conta Luis, atento para errar o menos possível do que sabe sobre o idioma. Os familiares de Luis e Juan também não apoiaram a decisão de vir ao Brasil porque para eles não passaria de uma loucura juvenil. — O Rio de Janeiro é o Brasil completo para minha mãe. Quando contei que iria morar em uma capital brasileira, o medo dela não diminuiu — desabafa Juan. Os três amigos, que vieram ao Brasil com registro temporário em Acordo do MERCOSUL, sentem saudades da Colômbia. Juan até destacou como se impressionou com os nomes das ruas do Centro de São Paulo. — É engraçado tentar ler os nomes extensos das ruas daqui. Na cidade que eu e Luis morávamos, na Colômbia, as ruas tinham nomes de números. Eram mais fáceis para identificar o trajeto. Tanto Pereira quanto Cúcuta são cidades mansas no sentido de não presenciarem as guerrilhas das FARC. Os jovens colombianos disseram que, diretamente, não sofriam a repressão gerada pelos grupos armados, mas também não sentem saudade do parlamentarismo que presenciaram enquanto habitavam o país colombiano. — Eu perdi amigos para as FARC. É um caminho que, basicamente, não tem volta para quem trafega por ele! — finaliza Miguel, que em seguida, olha para os amigos com a certeza do que estava falando.

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MINHA CASA É ONDE OS MEUS AMIGOS ESTÃO


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oi através do vídeo: “Daniela, a colombiana que fugiu dos paramilitares”, postado no canal CartaPlay, no Youtube, que tivemos conhecimento de uma mulher refugiada no Brasil há quinze anos. O contato com Daniela Hernandez Solano, 28 anos, foi realizado inicialmente através de WhatsApp. Após explicarmos sobre que o livro-reportagem trataria, ela disse que nos ajudaria e marcou um encontro às 18h00 do dia 24 de agosto de 2017. Para nossa surpresa, ela passou o endereço de sua residência que fica a dois quarteirões do Metrô Vila Mariana. Chegando ao apartamento de Daniela sentimos que ela é uma pessoa muito receptiva. Muitos dizem que existe certa “irmandade” entre os países da América Latina e que isso não se aplica muito ao Brasil, e por alguns momentos tivemos a chance de sentir um pouco desse sentimento. A atriz e professora de espanhol usava um visual que combinava com sua personalidade descolada: calça moletom preta, 55


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blusa capuz preta escrito: New York Jazz Ska+Jazz assemble, tênis Adidas cinza com cadarços e listras em azul. A decoração do local onde foi realizada a entrevista é muito simples: paredes brancas, sofá com capa marrom, uma mesa preta no meio da sala com duas conchas e um vaso de flores em cima, dois colchões no chão, cobertos com um lençol com a estampa de Ganesha (Deus Hindu) e o chão de tacos de madeira. Daniela sentou-se no sofá cruzando uma de suas pernas enquanto a outra tocava o chão. Ao lado, uma amiga a acompanhava na entrevista. Como não poderia ser diferente, a refugiada começa a falar como foi ser criança na Colômbia. Infância na Colômbia — Nasci em Ibagué, região que fica a quatro horas de Bogotá. A minha infância e pré-adolescência, que é o período mais marcante que lembro na minha memória, é onde morei, um povoado que se chama Silvia, no departamento de Cauca, perto de Cali. Minha infância foi muito gostosa, mas as coisas que nós fizemos geraram um amadurecimento fora da idade, e que hoje tem suas consequências. Tive que ser uma adulta, [mesmo sendo] totalmente criança. Meus pais tinham uma questão espiritual porque eles trabalhavam com indígenas, por isso, a ligação com a natureza era muito forte. Por parte da minha família, a gente é protestante. Eu não me considero, mas crescemos num meio Protestante Anabatista — que rejeita o batismo nas crianças —, mas meus pais apesar de viverem disso, seguiam muito a teologia da libertação, uma coisa mais à esquerda. Tem, hoje em dia, muito a ver com o pensamento do Paulo Freire. Eles sempre foram muito abertos para a questão energética e da natureza. Não crescemos numa família “quadradinha”. 56


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A jovem explica que sua família vivia em dois lugares diferentes: em sua casa e em uma reserva indígena. Também disse que, quando era criança, não chegou a frequentar uma escola como todo mundo. Ela tinha aulas em sua casa em um estilo de educação alternativo que remete ao filme Capitão Fantástico, de 2016. — Morávamos numa casa que tinha um quintal gigante e era virado para uma montanha. A gente sempre ia para o que chamávamos de “resguardo”, que seria a reserva indígena. Isso da minha infância era o mais legal poder ir e vir, além da conexão com a Pachamama [mãe natureza]. Tínhamos horta em casa e lá nos indígenas também tinha horta, então a gente aprendia a plantar e colher. Não fomos para a escola essa época porque quando a gente morava em Bogotá, eu e minhas irmãs estudávamos em uma escola super alternativa. Quando a gente foi para o povoado só existia escola de freiras e padres, e meus pais nunca gostaram muito desse tipo de educação, então eles não botaram a gente na escola. Teve uma época em que minha mãe ficou responsável pelos estudos e depois uma amiga de uma escola onde a gente estudava na capital veio morar com a gente e nos dava aula. À época que mudamos para o povoado, eu tinha sete anos. Fiquei lá dos sete aos doze. Por isso acho que crescemos antes da idade. Eu com onze, doze anos me achava “supergrande”. Aprendizado com amigos Após um tempo a colombiana passou a andar com pessoas de mais idade e, consequentemente, seu amadurecimento se formou ainda muito precoce. Desde muito cedo ela teve forte contato com a cultura. Em uma de suas estantes na sala é visível a grande quantidade de DVDs e títulos de livros como: Olga, Tristão e Isolda e O Mundo de Sofia. 57


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— A gente começou a deixar de lado o pessoal do bairro e passamos a se enturmar com uma galera de 17, 18 anos e formamos um grupo que se chamava La Calle, homenagem a um cara assassinado, que era um humorista e crítico incrível, Heriberto de la Calle. Fazíamos saraus, cozinhávamos, escrevemos poesia, começamos a ler livros e descobrir Che Guevara, Fidel e nos achávamos mega revolucionários. À época, eu gostava de Pablo Neruda e do Víctor Jara. Depois começamos a discutir política. Tinha uns amigos que queriam lutar, não pelo exército, mas por outras frentes. Foi muito legal, mas o saldo que isso deixou foi um amadurecimento muito de supetão que forma o que eu sou hoje em dia, mas que no psicológico fica: “Não, você não deveria ter feito isso”. Ameaça à vida Daniela diz que sua história é baseada no que ela criou com o decorrer dos anos e as informações que adquiriu durante a sua infância, por isso sua versão pode não ser totalmente fiel aos fatos. Ela deixa claro, rindo, que é a interpretação do que viveu. — Pelo que eu sei meus pais sofreram ameaça das FARC, pois a região que a gente morava era uma “zona vermelha” de conflito armado normalmente dominada pela guerrilha, na Cordilheira Ocidental, mas tinha conflito com os paramilitares AUC [Autodefensas Unidas da Colômbia] que são os latifundiários. Eu vou bipolarizar. A guerrilha nasceu nos anos de 1950 como movimento de camponeses exigindo reforma agrária e representação política que não deu certo, então se levantaram em armas. Ela vem de um cunho mais socialista, de esquerda, mais dos oprimidos. Surge também, não estou defendendo, as AUC que são, ao meu modo de ver, grandes 58


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latifundiários, senhores das terras, capatazes e histéricos para defender as terras. Então tem essas duas frentes e obviamente a AUC, muito apoiada, eu ouso a dizer: faz o trabalho sujo dos militares e do governo. Tanto o narcotráfico é apoiado hora pela AUC, hora pelas FARC. Os dois traficam, só que um é mais de direita e o outro é mais de esquerda e um tem apoio dos governos que se perpetuam no poder. Perguntamos à Dani sobre a existência de outros grupos armados na Colômbia, ela continuou: — Tinha o M19 (que se extinguiu há muito tempo). É a história de um padre que se levanta em armas e é morto covardemente. Tem o ELN [Exército de Libertação Nacional] e as FARC. Essas são as três frentes guerrilheiras mais fortes da Colômbia. Do lado de cá tem as AUC. Não estou defendendo nenhum dos lados, mas pelo que me contam, houve um tipo de negociação com a guerrilha para que não tirassem certas coisas, como a liberdade de ir e vir dos meus pais na região indígena. Meio que se fechou um acordo que eles respeitariam esse trabalho, então a priori a gente não tinha mais problema com a guerrilha. Para andar na região tínhamos carta branca. Nas estradas de terra sempre te param e você pode um dia “sumir”. Depois de um tempo meus pais foram ameaçados pelos paramilitares. O trabalho que eles faziam devia ser muito estranho, provavelmente achavam que meus pais estavam aliados a guerrilha, então uma época eles ameaçaram e a gente teve que sair do povoado. Fui para a cidade onde eu nasci, ficamos na casa da minha vó quase seis meses. Meu pai ficava indo e voltando e as coisas acalmaram e [posteriormente] a gente voltou para o povoadinho. Meu pai se candidatou para a prefeitura do povoado. A diversão cresceu ainda mais. 59


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Fugindo da Colômbia A situação começou a complicar para a família Solano e o medo consumia cada vez mais os pais da colombiana. Daniela tem uma tia casada com um brasileiro e que mora em Alphaville — região nobre pertencente ao município de Barueri situado no Estado de São Paulo — que aproveitou o aniversário da irmã e a convidou para passar férias por quinze dias no Brasil. Elas não se viam há algum tempo e sua mãe — exausta — veio, enquanto eles continuaram na Colômbia. — Nesse meio tempo meu pai sofreu ameaça de novo e a gente teve que ficar viajando. Ele falou: “A gente vai visitar a tia”. Ele adorava viajar de madrugada, e era mais seguro. Eu sabia que tinha gente que estava de olho no meu pai por causa da candidatura dele, muita gente não tinha gostado, muitos indígenas apoiavam. Mandaram uma pessoa dos paramilitares vigiar. O cara sempre ia em casa e era muito gente fina, se chamava Davi, ele tinha um irmão da guerrilha. Esse cara passava em casa e ficava conversando com a gente, até que falaram para o meu pai tomar cuidado: “Esse fulano está proibido, vocês não abrem a porta quando ele vier”. Davi chegava e dizia: “Oi, narizinho! Como você está?”, e em seguida a gente falava: “Minha mãe não tá, meu pai não tá”, fechando a porta. Um tempo depois esse cara foi morto, balearam ele e o irmão. Ele era teoricamente um informante. Na data da minha mãe chegar fizemos um cartaz de boas vindas e ela não veio. No dia seguinte minha tia falou: “Seu pai vai falar com vocês”, e meu pai disse: “Sua mãe está atrasada! Eu vou chegar com ela aí em dois dias”, ele chegou, e minha mãe não: “Se fosse para vocês morarem fora, vocês morariam no Equador ou no Brasil?‘, aí a gente falou: “Na Colômbia!”. Ele disse que as coisas não estavam muito legais e que no Brasil tinha a minha tia, então falamos que se é 60


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para escolher era melhor o Brasil, ele falou: “A tua mãe não vai voltar, vocês vão pra lá, não falem para os seus amigos, vamos voltar para pegar as malas, mas vocês não podem falar nada por questão de segurança”. Nossa interlocutora diz que vai decorar sua própria história, afinal ela já havia discorrido sobre ela com o pessoal da Carta Capital e para uma estudante de outra faculdade. Daniela fala de modo agitado: se expressa movimentando muito seus braços e destacando algumas palavras ao mudar o tom de sua voz. Seria essa uma influência de sua formação como atriz? Ela diz que as coisas aconteceram muito rápido. A primeira quem veio para o Brasil foi Ruanita Hernández, sua irmã do meio, enquanto ela e sua irmã mais nova voltaram para o povoado. — Foi horrível, pois sabíamos que não íamos voltar e não conseguimos falar nada para os nossos amigos. Foi uma época muito ruim. Muito chato esse silêncio, esse adeus na garganta. Lembro que meu pai me deixou trazer alguns brinquedos simbólicos, roupas e só. A gente fez com meus amigos uma cápsula do tempo onde cada um escreveu como se veria em dez anos e enfiou algum pertence nosso, enterramos e sabíamos que era a despedida. Meu pai levou meus amigos para dar uma volta com ele sabendo que a gente ia deixar de se ver por um tempo e não falou que seria definitivamente. Foi bem ruim, muito chato e aí fomos para Bogotá e nos despedimos da família, mas ninguém sabia muito detalhe. Eu viajei com minha irmã mais nova. Chegada ao Brasil Ao chegar ao Brasil, Daniela sentiu um choque de realidade, pois achou tudo muito cinza. Como os tios moram em Alphaville, ela logo percebeu os grandes outdoors e achou a 61


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cidade muito poluída. Nessa época ainda não existia em São Paulo a lei Cidade Limpa que regulamenta e ordena a paisagem no município. Isso aconteceu entre maio e junho de 2001/ 2002. — Nossa vinda para cá foi isso e quando cheguei foi uma alegria muito grande rever minha mãe, que estava acabada, magrinha e tinha cortado o cabelo curtinho. Ficamos quase um mês sem nos ver e ela estava assim, acho que ela envelheceu tudo que podia em um mês, foi um choque e uma alegria. Meus tios e primos que eu não os via fazia anos, foi um reencontro, fomos acolhidos, mas, mesmo assim, foi muito ruim porque eu deixei todos os meus amigos. Eu costumo dizer que minha casa sempre está onde os meus amigos estão, então eu deixei os meus amigos fazerem parte de uma das épocas mais importantes da minha vida, a fase em que criei meu pensamento crítico, e mesmo com meus onze ou doze anos. O recomeço Por intermédio do Cáritas Brasileira (Entidade de atuação social que trabalha na defesa de direitos humanos), Daniela e suas irmãs conseguiram bolsas de estudo nas escolas Pueri Domus e São Pio X, ambas padrão classe média alta. Ela disse que ela e sua irmã mais velha se sentiram como um peixinho fora d’água, mas para Juanita, a caçula da família, a adaptação foi mais fácil. — A chegada foi legal, uma descoberta e um reencontro, mas também um pouco chato por causa do bullying. Hoje eu consigo falar disso. Dar risada é um jeito de proteção que se cria psicologicamente. Entrei na escola na sexta série não sabendo português. Tinha uma menina, filha de uruguaios, que se tornou minha amiga e me ensinava algumas coisas. 62


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Os professores foram muito acolhedores me permitindo escrever provas em espanhol, mas era uma realidade muito gritante e minhas amigas na época já tinham celulares, pensavam na festa quando fizessem 15 anos e no carro que iriam ganhar. Essa realidade era bem distante da nossa. As crianças são cruéis ainda mais de escola particular, mas não posso cuspir no prato que comi. Eu passava pelo corredor e gritavam: “Eeee colombiana!”. Ou então: “Cadê a coca? Cadê o pó? Vai chamar a guerrilha?”. Se você é da Colômbia tem que ter algum parentesco com Pablo Escobar. Mesmo na vida adulta quando você fala que é colombiana soltam uma piada infame. Em quinze anos, a única vez que eu ouço elogio fora do contexto do estereótipo que não seja FARC, foi no caso de Chapecó. Eu fiquei passada. Uma pesquisa de 2015 comprova o que muita gente pensa: o Brasil ignora sua identidade latina. Resultados da edição de 2014/2015 do projeto As Américas e o Mundo: Opinião Pública e Política Externa confirmam que apenas 4% dos brasileiros se definem como latino-americanos contra uma média de 43% de outros seis países (Argentina, Chile, Colômbia, Equador, México e Peru). No Brasil o responsável pela pesquisa é o Instituto de Relações Internacionais da USP (Universidade de São Paulo), que aplicou 1.881 questionários no país. Daniela conta que essa foi uma realidade que sentiu na pele ao desembarcar no Brasil. — Quando eu vejo um argentino ou um peruano sinto que ele é meu irmão sangue do meu sangue, sinto uma conexão e não só por causa da língua. O Brasil se considera totalmente fora da América Latina e isso é muito notável. Aqui você sabe a capital dos Estados Unidos, de países da Europa, e você vem me perguntar se eu sou de Lima? 63


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[Capital do Peru]. Ninguém é obrigado a saber, não estou dizendo assim: “vá se informar!”, mas por que os brasileiros sabem as capitais da Europa, e não sabem a “porra” das capitais dos vizinhos do seu continente. Uma época eu fui morar no Centro de São Paulo e estudei em uma escola pública bem roots. Foi muito ruim. Como eu tinha estudado em um colégio particular, apesar do [meu] português, eu estava um pouco adiantada, então eu ia muito bem e as pessoas começaram a me odiar. A queridinha dos professores, eu não queria ser ela. Tinha umas meninas muito chatas que ficaram muito putas e começaram a criar ódio por mim. Fui e fiquei com um menino que uma delas gostava, me ameaçaram e tive que sair, fiz B.O e tudo. Essas meninas andavam com canivete. A gente tinha virado amigo de um professor na escola particular e ele disse que ia tentar uma bolsa aqui na unidade de São Paulo. Depois foi todo mundo no Pueri Domus outra vez. Fiz até o colegial lá. A questão do dinheiro era super berrante. Eu não recebi o diploma porque não paguei a colação de grau. Todo mundo da minha sala recebendo o diploma, menos eu, só consegui entrar na cerimônia porque um amigo e uma amiga pagaram para eu poder ir. Na festa também. Após quase duas horas de conversa, nossa entrevistada demonstra os primeiros sinais de cansaço físico e mental. Ela está grávida e falar sobre sua história não é fácil. Antes de nos despedirmos, Daniela nos trás uma série de fotos recuperadas recentemente na Colômbia. Ao mostrar rapidamente as imagens da sua infância, ela abre um sorriso que transborda nostalgia de uma época que nunca vai voltar. Depois a anfitriã nos acompanha até a porta, se despede e volta a ficar a sós com sua amiga. 64


O projeto Visto Permanente e a chance de morar na terra da garoa


O Visto Permanente é um website destinado a reivindicar a presença do imigrante e do refugiado em São Paulo e defender que quem vive e trabalha na cidade, tem direito a trafegar por ela. Como a Daniela Hernandez fez teatro, ela sempre acreditou que a arte é uma forma de se expressar e sensibilizar. Ao conhecer um português e uma Luso-Brasileira, que também queriam trabalhar em algo para descaracterizar o discurso de que os estrangeiros vêm para roubar o trabalho dos nativos, traficar e tantos outros estereótipos que fazem parte da vida dos brasileiros, surgiu ali o embrião do que seria o Visto Permanente. O site surgiu no início de 2015 e, desde então, vem fazendo o trabalho de propagação da cultura de artistas de diversas nacionalidades. Foi através desse projeto que conhecemos dois colombianos que vivem em São Paulo e têm como paixão um interesse em comum: a música. Victoria Saavedra é uma cantora de trinta anos de idade, conhecida nos circuitos relacionados à música latina. Ela é baixinha, de leve sotaque hispânico, pele morena clara e cabelos cacheados um pouco acima do pescoço. A colombiana veio morar no Brasil em 20 de julho de 2010, a fim de aprender o português e conhecer mais da cultura e música brasileira. Ela diz que demorou por volta de três anos para se adaptar no país e como veio intitulada estudante, ela não encontrou grandes problemas relacionados a preconceito. Seu maior entrave foi relacionado à burocracia brasileira em relação a documentos. A primeira banda que ela teve em São Paulo se chama Candombá — que faz releituras de várias músicas da América Latina e mistura com ritmos brasileiros. Ela também faz parte da Orkestra K, tocando músicas autorais e fazendo releituras. 68


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Atualmente, Victoria está em turnê com seu projeto autoral, o Remanso entre Raízes, que conta com composições próprias. Para alguns colombianos estar no Brasil pode ser apenas uma opção, um refúgio pessoal. É o caso de Aleksey Benavides Rodríguez, também de trinta anos. Ele é cantor, professor de espanhol e engenheiro químico. Ao estilo básico, galã, com óculos escuros, sempre atentos ao celular, atarefado. O músico canta em duas bandas com mote latino: Cambamberos e Triptco. A primeira está presente no projeto Visto Permanente. Nascido na capital colombiana, Aleksey conviveu com a música desde o berço. Seu pai veio do departamento de Santander, uma região musical, e cultivou isso em casa. Após terminar os estudos, Aleksey buscava novos ares fora da Colômbia. Surgiram três motivos que guiaram o cantor para vir ao Brasil: contava com a ajuda de um primo em São Paulo, uma Copa do Mundo e o curso musical na Escola de Música do Estado de São Paulo (EMESP). Então, embarcou para cá. Era o ano de 2014. O músico não sofreu preconceitos por ser colombiano. Apenas não gostava de falar o famigerado “portunhol”. Tratou de aprender a língua portuguesa o mais rápido possível e resolveu permanecer no país pelo Acordo do MERCOSUL. Em 2015 apareceu a oportunidade de Aleksey entrar para o Cambamberos — grupo de doze integrantes que desenvolve danças e músicas populares colombianas. Com mais bagagem musical no Brasil criou o Triptico, numa linha de ritmo dançante latina, como salsa e cúmbia. E o jovem Aleksey é um multi instrumentista, pois toca violão, viola caipira colombiana e percussão. 69


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Suas principais influências sempre foram os cantores latinos, de Cuba, da música andina colombiana e bossa nova. Entretanto, seu forte é a música tropical, como a cúmbia. Na lista de grandes cantores de Aleksey estão nomes como Totó la Momposina (Colômbia), Silvio Rodrígues (Cuba), Hector Lavoe (Porto Rico), Juan Gabriel (México), e os brasileiros João Gilberto, Caetano Veloso, Gilberto Gil e Toquinho.

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A LUTA E O SORRISO COLOMBIANO QUE VIERAM AO BRASIL


A fé é o que mais me encanta no povo colombiano. A fé no futuro. Quando mataram todos, mataram todos os líderes sociais. E você continua lutando... Eu chamo isso de fé. É acreditar no que você não vê. É não desistir. Chamaria esperança se você esperasse ver. Mas com todos esses anos de violência, acho que os colombianos não esperavam ver mais nada. Agora, uma das coisas da paz é que não se recupera a tranquilidade, mas se recupera a esperança. Tantos acordos de paz e não tínhamos esperança. Outra coisa é a alegria. A fé produz alegria. Nunca perdemos a alegria. Sempre quando perguntam: “Como você consegue sorrir?” Respondo que consigo porque sou colombiano. Às dez e três da manhã em 14 de setembro de 2017 não marcava apenas a “aula” com Héctor Baez Mondragón, um senhor de sessenta e três anos, pesquisador, ativista dos direitos humanos, escritor e professor da COGEAE (Coordenadoria Geral de Especialização, Aperfeiçoamento e Extensão) 75


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da PUC (Pontifícia Universidade Católica) de São Paulo — onde tem ministrado cursos e o seminário de História dos Movimentos Sociais na América Latina. Neste mesmo dia marcaram, de fato, os 40 anos da tortura enfrentada por Héctor frente aos militares. Entretanto, a data foi mais um dia ensolarado na PUC, situada no bairro de Perdizes da capital paulista. Ao adentrar o novo prédio da entidade podia sentir o cheiro acadêmico. Os departamentos são divididos por assunto e Héctor fica no 9º andar na sala de História. Seu sorriso de acalanto foi a recepção, completado pelos seus cabelos brancos, ou os que restavam deles. Vestia camisa polo bege, fitinha vermelha estilo hippie no pulso direito, sapatos de tom marrom escuro e calça marrom claro. As mãos trêmulas nos convidaram para sentar em uma mesa imensa e bege. E, com olhares marejados presentes na sala, inclusive os seus azuis, lembrou-se do passado. As lutas Nascido na capital colombiana, residente da cidade grande, sua luta, seu amor pela luta para o povo, começa cedo, aos doze anos. A empatia com os movimentos sociais partiu de uma ação que fazia com um grupo católico da sua escola, em Bogotá — lecionavam para uma população carente local. Quando esses cidadãos começaram a enfrentar algumas reintegrações de posse, o grupo também virou partidário às suas causas. — Íamos para favelas e dávamos aulas aos sábados porque todas as crianças perdiam o ano escolar, pois não faziam as lições de casa. Não tinham onde fazer. Porque em um quarto morava toda a família. Aos sábados organizávamos e fazíamos todas as lições de casa da semana com eles. Começamos como professores e terminamos como militantes. 76


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Amávamos essas crianças, amávamos essas pessoas. Éramos crianças também. Mais engajado, Mondragón passou a participar do movimento da Central Nacional Provivienda (Cenaprov). E pouco a pouco foi aprendendo com a perseguição. Na Universidade Nacional de Bogotá estudava economia e Direito ao mesmo tempo. A primeira vez que foi preso estava na marcha dos professores. A Colômbia encontrava-se em estado de sítio — que duraram quarenta e seis anos. Era uma democracia, mas não se podiam fazer manifestações. Quem fosse a um ato, violava a lei. Depois foi a vez da experiência agrária na cidade de Barrancabermeja, presente no departamento1 de Santander. O local era a sede da maior refinaria de petróleo do país. À época, ocorreu uma perseguição à população que é muito consciente e organizada, segundo o professor. Aconteceu uma greve dos petroleiros e, em paralelo, também neste ano de 1977, houve uma greve geral na Colômbia. Em Bogotá, a greve durou três dias, em Barrancabermeja durou um dia. Na cidade pararam até os “pernilongos”, brinca Héctor. Furaram os pneus dos carros do exército e eles ficaram paralisados. Isso dois dias antes da greve. Então tiveram que ir a pé. Os soldados ficaram com fome e às sete da noite o comitê de greve decidiu que todos os bairros deviam dar comida aos soldados. Para evitar algo que poderia ser grave na cidade. — Eu era do comitê da cidade que apoiava a greve. Chamava Comitê Popular da Barrancabermeja. Eu era o delegado do meu 1  Subdivisão do território de para fins administrativos. Algo semelhante como um Estado no Brasil.

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bairro e fui eleito para o Comitê. Tinha vinte e três anos. Todo policial e todo delegado tinha as diretivas do sindicato petroleiro e as diretivas do comitê. Então começaram a procurar os líderes nas casas. Para não ser mortos aprendemos a morar sempre em casas diferentes. Cada noite, nós dormíamos em uma casa. Depois eles começaram a cercar uma quadra inteira. Chegávamos a uma casa e depois fugimos a casa detrás. E íamos para as casas que tinham saídas para os esgotos. Nunca aprendi tanto na vida como aprendi na cidade de Barrancabermeja. Héctor relata a cômica história do pós-greve. Mandaram todo o exército para Barrancabermeja. Fizeram um desfile na avenida principal. Então, as crianças pegaram estilingues e começaram a atirar. E o desfile terminou. No dia seguinte voltaram a desfilar, mas com capacetes. As crianças, então, apareceram com apitos. Estupefato, o prefeito militar fez um decreto no mínimo hilariante: se proíbe o artigo denominado apito. Proibiram os apitos. Todos deram risada. As pessoas liam o decreto e gargalhavam. O pior é que o apito na Colômbia tem também um duplo sentido. A risada cessou e Héctor se lembrou do dia 14 de setembro de 1977. O dia em que foi pego pela polícia. — No dia em que terminou a greve eu fui à aula na universidade, e me pegaram. Fui levado para um lugar desconhecido e torturado por nove dias. Quando cheguei à prisão, fiquei até feliz, porque não me torturavam mais e tinha mais de 400 presos políticos. A gente estava dormindo no pátio, não cabíamos nos quartos. Ajudaram-me muito. Eu não conseguia fazer nada. Deram-me comida, liam poemas para mim, colocavam música para tocar, liam livros. Depois meus pais foram me buscar. Após o fato, Mondragón passou, como ele próprio se refere, “doente por um tempo” porque estava com diversos problemas de saúde. Ao falar sobre a tortura, diz que não 78


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tem medo de morrer e, neste momento da entrevista, como se fosse um deboche, sorri. Mesmo assim, com ou sem medo, nos últimos vinte e cinco anos que esteve presente na Colômbia, trabalhou com os camponeses e indígenas, então conheceu o país rural. Ainda quando era estudante acompanhava o movimento camponês, também em Barrancabermeja. Chegou a dar aulas para os camponeses. Héctor foi professor na Universidade de Barrancabermeja, consultor das Nações Unidas, das organizações camponesas, chegou a ser jornalista ambiental da esquerda (com um centro de pesquisas da esquerda e pesquisas econômicas e sociais). Depois auxiliou no Centro Cinépicas dos jesuítas e também as organizações indígenas. O Trabalho com esta população o levou para o congresso da república colombiana e também à assembleia constituinte. Foi a primeira vez em que lhe pagaram um contrato, até então ele trabalhava voluntariamente. Mondragón fez parte de um projeto de constituição da Colômbia. Propôs algumas partes da constituição destinada aos indígenas. Alguns parágrafos também de artigos, frases de outros. “Lutou” também em projetos de lei relacionados às terras. Estar diariamente com os indígenas e propor leis que os protegiam fez de Héctor um conhecedor das normas legais, constitucionais e regulamentárias sobre terras. Isto também se converteu em perseguição. O militante que sabia demais supõe que grupos de paramilitares2 o ameaçavam e articulavam atentados contra ele. Mondragón, a priori, chegou a levar a família para a Espanha por uma temporada. 2  Forças paramilitares são associações civis, armadas e com estrutura semelhante à militar.

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— A tortura me causou um efeito psicológico que foi eliminar totalmente o medo de morrer. Eu não tenho. Isso me anestesiou as ameaças de morte. Também criaram medo à tortura. Mas quando ameaçaram meus filhos, isso é diferente. Não é com você. Eles ainda eram crianças. Foi muito duro. Todos os anos foram pesados. Fui ameaçado nos anos 1970, 1980, 1990. Especialmente nos anos 1980, várias vezes e muitas mais nos anos 1990. A partir do ano de 1998, sempre! Héctor relata que para “fugir” das ameaças e perseguições não tinha nenhuma rotina. Abandonou qualquer aula, já que muitos professores foram assassinados na Colômbia assim. Centenas, conta. Os professores sempre estavam na sala de aula, em horários precisos. Era só procurar e matar. Quando apareceram os telefones celulares, ele tinha um. Entretanto, teve logo que renunciar ao aparelho porque era uma forma de localizá-lo facilmente, além de estar sujeito a grampos. Dessa forma ele não atendia telefonemas. A Chegada — Quando eu cheguei a São Paulo eu tinha um ramal, e não atendia. Na minha consciência já tinha isso de não atender. Meus amigos ficavam loucos: “Como você não atende?”. Quando eu cheguei, eu não perdi coisas que eu desenvolvi por anos (não atender telefonemas). Mas realmente aqui não tive ameaças. Cheguei aqui no dia 5 de setembro de 2008. Faz nove anos. Vim como refugiado. Conhecia um pessoal aqui do Brasil quando participei da avaliação de um programa do Banco Mundial sobre Reforma Agrária Assistida pelo Mercado — algo como tentando substituir a reforma agrária para àqueles que compravam terras. Mas isso 80


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era um programa internacional que existia na África, Ásia e América Latina. Da América do Sul a sede era em São Paulo, por isso eu tive o contato com os pesquisadores daqui. O professor conhecia geógrafos porque o levaram em eventos para que fizesse uma apresentação sobre os fatores territoriais e econômicos da guerra na Colômbia. Então, carregava mapas que tinha feito e uma série de geógrafos brasileiros começaram a convidá-lo para apresentar o trabalho em várias regiões do país. Conheceu profissionais da USP (Universidade de São Paulo) e da Unesp (Universidade Estadual Paulista). Quando pensou em fugir, o primeiro lugar foi o Brasil. Tinha a opção da Europa, entretanto era muito cara. A Bolívia foi outro destino pelo qual passou pela cabeça. Tinha amigos por lá, mas nesse momento a Bolívia sofria um “golpe de Estado” contra Evo Morales. Os departamentos do Oriente estavam querendo se separar da Bolívia. Héctor não sabia o que ia acontecer, até então, com os bolivianos. O melhor e mais barato era que sua família viesse para o Brasil. Quem custeou a vinda de Mondragón, sua esposa e o filho caçula foi o Comitê Internacional de Imigração. A entidade tinha um programa que “patrocinava” os refugiados para reunificação familiar. Mas antes de pisar no Brasil, Héctor recebeu uma nova ameaça. — No dia em que eu saí da Colômbia, tinha um evento com pesquisadores, ecologistas, camponeses de várias partes da América Latina e do Brasil — pessoas do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST). Almoçamos no mesmo hotel. Do nada chegaram dois caras. Todos estavam falando, mas as pessoas estavam atentas a mim. Certo momento, eu fui ao banheiro e eles foram atrás de mim. Voltei. 81


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Então me falaram: “Há uns caras nessa mesa, não olhe agora, eles estão te observando!”. Meus amigos questionaram por que eles estavam no evento. Depois, simplesmente fugiram. Todos meus amigos falaram que eles iam me pegar: “Você tem que ir embora, você está louco, vão te matar!” Quando chegou de viagem foram os colegas da pesquisa do Banco Mundial que o receberam. Tinha um contrato com a ASC (Aliança Social Continental), criada para lutar contra a Alca (Área de Livre Comércio das Américas) e depois contra os tratados de livre comércio, além de defender também os camponeses. Héctor pôde desenvolver seu trabalho em São Paulo. Então chegou já com um emprego garantido. Ficava na Confederação Nacional das Américas, no Anhagabaú, Centro da cidade. Era simplesmente um consultor da Aliança Social. Chegou a fazer viagens ao Uruguai, Argentina, Peru e Paraguai. Para viajar, bastava notificar ao Conare (Comitê Nacional para os Refugiados)3 e pedir uma autorização. Seu filho conseguiu rapidamente uma escola. No país existem normas para que as escolas recebam crianças refugiadas, incluindo outros imigrantes. Não é obrigatório que estejam legalizadas. Sua esposa, bioquímica formada, conseguiu o primeiro emprego no Brasil como caixa de um restaurante e depois numa fábrica química. Mas como o diploma dela não tem validação no país, ela ainda recebe menos. No entanto, ela pretende utilizar um programa que se chama Compassiva. A associação é uma organização social 3  Órgão responsável por analisar os pedidos e declarar o reconhecimento, em primeira instância, da condição de refugiado, bem como por orientar e coordenar as ações necessárias à eficácia da proteção, assistência e apoio jurídico aos refugiados.

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que atende crianças, adolescentes e pessoas em situação de vulnerabilidade na cidade de São Paulo que, entre outras atividades, revalida diplomas de refugiados, gratuitamente. Assim, deixarão de pagá-la como auxiliar. Héctor chegou a lecionar na USP sobre crises econômicas. Isso no ano de 2009. Era sua especialidade. Além de professor, é escritor e tem livros de sua autoria sobre ciclos econômicos e crises econômicas. Depois abriram cursos livres e a professora Vera, que o conhecia dos tempos que o convidava para palestrar por aqui, o indicou para dar esses cursos até o ano de 2010. Ele ainda estava na Aliança Social e conciliou as duas coisas. Depois foi para a PUC-SP. Ele nos conta que, atualmente, vive muito bem na cidade de São Paulo. — Quando eu cheguei ao Brasil, quem me ajudou foram os colegas da Avaliação do Banco Nacional. Eu sou cristão da igreja Menonita4. A igreja Menonita da região também me ajudou. Quando minha família chegou, eles me ajudaram durante seis meses. Depois prolongaram os meses de cesta básica. Ajudaram-nos com os documentos, por exemplo, pagaram as fotos. Esse programa tem parceria da Caritas 5, Conare e Acnur6. Conseguiu alugar um apartamento com muita dificuldade porque os locadores que ele procurou, exigiram um 4  Os menonitas são um grupo de denominações cristãs que descende diretamente do movimento anabatista, que nasceu na Europa durante o século XVI. 5  A Caritas Internacional é uma confederação de 162 organizações humanitárias da Igreja Católica que atua em mais de duzentos países. 6  Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados, que tem como missão dar apoio e proteção para refugiados no mundo.

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fiador que fosse munícipe de São Paulo. Alguns dos seus colegas, nesse tempo, eram de outras cidades, o que não valeriam nesta hora. Então se lembrou de um professor, Paulo Sandroni, que estava na Colômbia e foi professor de sua irmã. Ele foi seu fiador e finalmente pôde alugar um imóvel. Que, aliás, é uma dificuldade de muitos refugiados, afirma. No Brasil, Héctor expõe que nunca foi maltratado por um vizinho por ser colombiano. Na igreja também não. Curiosamente não sofreu com preconceito da população em geral, mas, sim, das organizações sociais e professores universitários. Achavam que por ser colombiano era guerrilheiro. Então havia um preconceito no sentido político. Sentiu uma discriminação de setores que não esperava. Colômbia, Brasil e América Latina Para Mondragón, o Brasil está ligado à América Latina, mas ainda existe uma resistência de se tornar parte da região. A língua é a menos importante, segundo ele. O professor fazia palestras e todos o entendiam. — Aqui temos os colombos, lá se chama paleques. Você encontra zonas completamente afro na Colômbia. No litoral Pacífico ainda mais. Aqui você encontra zonas muito parecidas. O gaúcho, do campo, do sítio, é igual ao da Argentina, do Uruguai, Paraguai e Sul do Brasil. Encontra-se na Colômbia uma diversidade grande. Os povos do Caribe são diferentes das zonas próximas do Equador. Você acha mais diferenças nas comidas entre Bahia e São Paulo, do que da Bahia com as comidas típicas da Colômbia. Mas é difícil assimilar isso. O feijão é muito comum em muitas partes da Colômbia. Uma forma de ser igual. Falamos espanhol, mas 84


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quando levei meus filhos para a Espanha foi um problema sério. Aqui somos a mesma coisa. Acordo de Paz Para o professor, o acordo de paz para o movimento popular, dos trabalhadores, camponeses e indígenas, foi indispensável e necessário. — Somente esse ano assassinaram 101 líderes sociais de janeiro até agosto. Então não há paz. O pior é quando uma guerrilha acha que faz uma guerra, mas o que está fazendo é facilitar a violência contra o povo. Especialmente no século XX, a guerrilha cometeu um erro, no meu ponto de vista. E pior, no ponto de vista popular, em não negociar a paz em quinze ou dezessete anos. Teve certa oportunidade de negociar a paz em 1998 até 2002. Neste período era o melhor para uma negociação que agora. Mas agora é imprescindível. A guerra vira um lastro para o movimento social. Vira pretexto para justificar a morte de líderes sociais, os massacres, as chacinas. Um conflito armado. A grande maioria não morreu na guerra, nem pela guerra. Morreram aproveitando para matar os líderes sociais. Então o Acordo de Paz com as FARC (Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia) que visavam, serve para que os movimentos sociais se organizem mais e se expressem. A paz é uma forma de construir formas de uma nova mobilização popular. Para que comece a diminuir a violência que continua na Colômbia. Para amolar a legislação regressiva que existe no país. Por fim, Héctor lembra ainda de que há um acordo em processo com o ELN (Exército de Libertação Nacional) 7. 7  Organização guerrilheira, de inspiração comunista, criada em 1965.

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Diz querer retornar à Colômbia, mas ainda afirma que “não está bom”. Espera que se crie uma situação melhor para que possa voltar. Ele, dono de um sorriso solto, acha importante, entretanto, não ir à Colômbia para regressar novamente ao Brasil. Assim, a nossa entrevista termina. O professor se levanta, agradece com um “obrigado” e volta para seu Desktop onde continua a verificar seus e-mails.

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O RECOMEÇO PARA CRISTIANO E SUA FAMÍLIA


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fim da tarde anunciava que iria chover quando Cristiano, um jovem senhor de quarenta e um anos, abriu o portão para nos receber em sua casa de apenas um cômodo. Passos curtos no corredor estreito e quase escuro. Carismático, mal dava para notar que o dono daqueles trajes simples passara quase trinta dias sequestrado por guerrilheiros das FARC (Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia) em um matagal desconhecido na Colômbia. Ele abriu a porta de sua casa e ali estavam suas duas filhas pequenas, que se distraíam assistindo televisão, mas ouviam, atentamente, o que o pai dizia. — Essas são minhas riquezas: Valentina, de seis anos; e Rafaela, de quatro. As meninas, que nos acenaram sorrindo timidamente tinham traços feitos de rosto de boneca de porcelana. A filha mais nova, Rafaela, puxava conversa misturando os idiomas 91


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espanhol e português. Quem diria que aquela garotinha vivera momentos tão delicados, como retratou Cristiano, emocionado, ao relembrar o que passou durante o sequestro. — Rafaela tinha quarenta e cinco dias de nascida quando eu fui sequestrado. Foi o pior dia da minha vida! Dezembro de 2014 foi um período sem festividades natalinas para a família Botero. Cristiano é casado com Maria Clara há oito anos. Nela, ele vê a fortaleza que sempre admirou. — Minha mulher foi forte enquanto eu estava sendo torturado por homens com uniformes verdes e totalmente armados. Sem entender o que acontecia ao ser desvendado, Cristiano conta que o grupo exigia quinhentos mil dólares para ele, então, ser libertado. — Eles sabiam tudo sobre mim e minha família. Sabiam que eu tinha comércio, mas quando eu dizia ao chefe deles que eu não tinha esse valor, as torturas físicas começavam, com socos, chutes e pontapés. Em Bogotá, na Colômbia, Maria Clara era vigiada por homens das FARC que faziam de sua casa um bordel. As drogas, bebidas e idas e vindas de prostitutas eram frequentes em um lar destruído pela dor e revolta, enquanto o marido implorava para não morrer em um lugar totalmente desconhecido. Na tentativa de nos agradar enquanto estávamos sentados à sua volta para dar voz a ele, Cristiano se levantou da poltrona preta para fazer o típico café colombiano em uma minúscula cozinha improvisada, situada no bairro paulistano da Mooca. Os detalhes nas três xícaras que ele mesmo separava sob a pequena mesa, mostravam o quanto ele queria agradar a quem nunca o visitara. 92


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O Brasil era além de refúgio para ele. Era uma nova chance de recomeçar do zero ao ser capturado por policiais colombianos em um restaurante. A troca de tiros entre o grupo guerrilheiro e a polícia colombiana era interminável. O plano subjetivo deu certo e um aviso a ele foi dado por um policial: “Vá embora do país! Você precisa sair daqui com a sua família! Vá embora!” Assustado, Cristiano retrucava que não sabia como iria fazer isso, pois o que ele tinha de dinheiro guardado em casa, durante o sequestro, os guerrilheiros tomaram. “O governo te entregará um documento que diz que você é vítima de conflito armado! Vá embora!” As palavras daquele homem ecoavam na mente de Cristiano. Quando retornou à Bogotá, conseguiu pegar emprestada uma quantia de cinco mil dólares para sair do país. Em primeiro plano e com a ajuda da ONU (Organização das Nações Unidas), ele e a família partiram para Caracas, na Venezuela, por que estimaram que fosse mais fácil a convivência e lá ficaram durante onze meses. Mas perceberam que o país passava por uma crise e que o governo os fazia retroceder. — Reparei que nós não éramos bem-vindos na Venezuela. A desconfiança que eles tinham conosco, por sermos refugiados, faziam com que nós nos sentíssemos excluídos. — conta Cristiano, ao perceber com um olhar atento em direção à porta do único cômodo, que se abria para Maria Clara entrar. — Mas com o Brasil foi diferente! — exclama. Com a ajuda de dois padres jesuítas, a família cruzou a fronteira até chegar a Manaus. — Ficamos em Manaus durante trinta dias à espera dos nossos documentos ficarem prontos pela Defensoria da União. Sofríamos com o calor intenso do lugar, as crianças, 93


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que ainda eram bebês, tiveram dificuldades de se adaptar ao calor e minha mulher, portadora de lúpus, também. Era tudo muito novo no país acolhedor. — ressaltou o casal, que vigiava as meninas brincando na cama. Rafaela cochichava com a irmã como quem dizia para fazer silêncio enquanto o “papá” conversava. Ela prestava atenção nas palavras de seu pai. Maria Clara ressaltou que, embora sinta dificuldade para entender o novo idioma, a pequena Rafa não quer voltar à Colômbia quando é questionada por qualquer um. — Nossa filha mais velha era muito pequena quando Cristiano foi sequestrado, mas tinha idade o suficiente para entender e carregar um trauma. As crianças têm memórias tão boas quanto os adultos. Ela sentiu o que nós sentimos! — desabafa Maria, sentada em um pufe ao lado do marido. A família Botero sabia que Manaus não seria um lugar propício para morar, pois existiam muitos colombianos e, consequentemente, a paranoia predominava na mente de Cristiano. — É inevitável chegar a um lugar diferente sem estar desconfiando de tudo e de todos. Em Manaus, existiam muitos colombianos por ali e venezuelanos também. Até que decidimos ir para um lugar mais longe, porque quanto mais longe dali, melhor. Então o destino foi São Paulo. A FAB (Força Área Brasileira) estendeu a mão a Cristiano e a suas meninas para chegarem até a capital paulista sem se preocuparem com os custos financeiros. Aconselhado, ele procurou a Cáritas Brasileira, um centro de referência a refugiados. E então ele e sua família foram encaminhados à casa Terra Nova, um espaço dedicado a estrangeiros que buscam refúgio em São Paulo. 94


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— Nesta casa vivemos durante três meses conforme o estabelecido, mas com o passar dos dias, percebíamos o preconceito dos próprios refugiados contra nós. Ali moravam pessoas que vieram da Síria, Angola, África... De várias nacionalidades! Dessa forma, Cristiano percebeu que precisava arrumar um canto para si e sua família. Entre albergues e vizinhos arruaceiros, ele e a família, enfim, encontraram na Mooca a oportunidade de ter o seu próprio canto. O cômodo apertado e mobiliado com móveis e objetos surrados faz crer que um pouco já é o bastante para ele. — Aqui onde eu moro é a prova que o nosso recomeço deu certo. Os vizinhos são gentis e calmos, embora as casas sejam tão próximas. Nesse prédio existimos nós e outra família de estrangeiros. A conversa foi se estendendo, sob a perspectiva de Cristiano, explicando o que a cidade de São Paulo representava para ele. — Concluí recentemente um curso de empreendedor pelo Sebrae (Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas). A minha turma era só de refugiados e isso só prova que aqui, um lugar que eu conhecia só “por alto”, é uma cidade de oportunidades. Por enquanto, eu não tenho trabalho fixo, às vezes dou aula particular de espanhol; mas minha esposa conseguiu um trabalho no Museu da Imigração, que fica próximo de nossa casa e as minhas filhas estão começando a compreender como é morar em uma das maiores capitais do mundo. Embora exista preconceito em qualquer lugar que passa, Cristiano disse que a “cidade grande” foi consideravelmente receptiva, então ele não notou de forma drástica os estereótipos que constroem sobre a sua nacionalidade. 95


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— O que eu tenho a dizer é que eu não vim para esboçar preconceito ou causar algum problema no país que decidi morar, sobretudo a capital paulista. Pelo contrário. Eu vim somar. E eu só posso agradecer por tantas pessoas daqui terem me ajudado. Se eu estivesse ainda na Colômbia, eu não sei como seria a minha vida. Se é que ainda existiria vida.

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SOBRE OS AUTORES


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Ellen Visitário Durante a graduação de jornalismo no Centro Universitário FIAM FAAM, descobri o gênero literário, que me fascina ao contar histórias com mais detalhes e precisão. Por isso que a realização desse livro-reportagem é importante para mim: darei a chance aos leitores a conhecerem os nossos vizinhos latino-americanos de forma diferente. E com um olhar atento e especial.


Jackson Vasconcelos Nordestino de nascimento, paulistano de coração. Adoro cinema música, game, arte, fotografia e literatura. Graças ao contato com livros-reportagens durante a graduação de jornalismo, eu me apaixonei por esse gênero literário. E, para mim, o tema América Latina se faz cada vez mais presente, até mesmo após o surgimento de sites, blogs e tantos meios alternativos que tratam sobre o assunto. Contudo, o contar história me fascina.


Mauro Balhessa Sou estudante de jornalismo do Centro Universitário FIAM FAAM. Sempre fui amante da cultura latino-americana e acredito no potencial da região. Orgulha-me o povo latino, com sua miscigenação, passionalidade e garra. Espero que o livro ajude a desmistificar qualquer olhar pré-determinado ou conceituado sobre os refugiados colombianos e que o tema auxilie uma aproximação dos brasileiros com a América Latina.


Título

Refúgio: histórias de refugiados colombianos que escolheram São Paulo como nova casa

Formato

14x21cm

Tipografia textos

Minion Pro

Tipografia títulos

Oswald Medium

F Editora Casa Flutuante Rua Manuel Ramos Paiva, 429 - Apt. 14 - São Paulo - SP Fone: (11) 2936-1706 / 95497-4044 www.editoraflutuante.com.br


Refúgio - Histórias de refugiados colombianos que escolheram São Paulo como nova casa  

livro-reportagem desenvolvido como Trabalho de Conclusão de Curso (TCC) ao lado de mais dois colegas de curso. No livro retratamos a históri...

Refúgio - Histórias de refugiados colombianos que escolheram São Paulo como nova casa  

livro-reportagem desenvolvido como Trabalho de Conclusão de Curso (TCC) ao lado de mais dois colegas de curso. No livro retratamos a históri...

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