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José António Arruda

Romance & Sátira [edição naïf]


FICHA TÉCNICA EDIÇÃO:

José António Arruda TÍTULO: Ensaio sobre a Surdez AUTOR: José António Arruda REVISÃO, CAPA E PAGINAÇÃO:

Paulo Silva Resende

1.ª EDIÇÃO LISBOA, 2011 IMPRESSÃO E ACABAMENTO: ISBN:

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DEPÓSITO LEGAL:

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Para o Nuno, pela sua inexcedível abnegação. Onun, o bobo


Panem et circenses. Juvenal, o poeta


1 Trinta de Fevereiro. No Hemiciclo aprestam-se para iniciar a votação, após longos e penosos dias, semanas, meses, anos, décadas, gerações de discussão frívola que culmina outra e outra vez e ainda outra no mesmo resultado de sempre, quando os deputados do partido do governo, em absoluta maioria, se levantam como um só, restando ao Presidente da Assembleia da República anunciar o facto para que conste, nada mais, podem sentar-se. Ainda não estavam todos novamente acomodados, quando, subitamente, os numerosos populares que assistem ao plenário começaram a erguer bem alto a voz para manifestar o repúdio contra esta medida de austeridade decretada pelo governo. Em grande alvoroço e já acossados pelos agentes da autoridade, muitos destes cidadãos empunham cartazes com inúmeros dizeres contestatários, outros tantos apressam-se a estender a longa faixa negra com a inscrição em letras colossais BASTA DE INJUSTIÇA!, outros ainda gritam a plenos pulmões para serem bem ouvidos lá em baixo, MENTI11


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ROSOS!, MALANDROS!, TENHAM VERGONHA!, todos eles sem excepção, em uníssono e com os punhos cerrados no ar, reclamam pela reposição da justiça. Que, diga-se em abono da verdade, foi preterida por motivos políticos de força maior, naturalmente jamais explicados por aqueles contra quem os populares se insurgem, muito menos pelo governo em exercício. Em última instância, essa é precisamente uma das funções da maioria absoluta: governar em conluio. Perante tal manifestação de desagrado e ele mesmo desagradado pelo incómodo de suportar tais epítetos populistas, o Presidente da Assembleia da República anunciou a suspensão dos trabalhos para, logo em seguida, ordenar em tom grave e soturno a rápida evacuação dessa gente que, segundo o próprio, não sabendo comportarem-se, não eram dignos de permanecerem neste local. Nada de confusões a este propósito, os únicos merecedores de tal distinção estavam há muito acomodados na plateia, agora cobardes espectadores silenciosos do espectáculo que se desenrola lá por cima, na galeria do primeiro piso. Não obstante os protestantes fazerem parte dos cidadãos que os elegeram para tais lugares, donde se pode concluir serem legítimas as aspirações e mesmo a confiança que porventura tenham criado sobre os eleitos, o que bem vistas as coisas nem é desfasado de todo, bastava apenas que cumprissem com brio o trabalho que prometeram. Não obstante, escrevia-se, não reza a história que alguma vez um deputado tenha aberto a boca para ceder a palavra ao povo indignado, o que, curiosamente, invoca uma certa cumplicidade no acto, como se todos eles estivessem cobertos por um imenso telhado de vidro. E isto é bem verdade. Ora vejamos. Quantas e quantas vezes estes mesmos senhores parafrase-


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aram a gente que se apresta a ser expulsa, se não na forma, pelo menos no conteúdo, v. exa. está a faltar à verdade, v. exa. está a insultar o espírito desta casa, isto é uma infâmia, aquilo é uma calúnia, aqueloutro é injurioso!, ou mais requintado ainda, o que ontem era verdade, hoje é mentira, assim estejam v. exas. na oposição ou no governo, e contra estes finos desaforos não há memória de alguma vez sua excelência, o Presidente da Assembleia da República, ter alterado o timbre vocal, quando muito terá interpelado o orador para lembrar que outros há para falar muito e dizer pouco, tem que terminar, senhor deputado, por isso não convém fazer alarde porque uma só pedra seria suficiente para estilhaçar o telhado desta vã moralidade. Passaram-se três dias desde a aludida manifestação. O povo nunca mais foi o mesmo. Ao contrário das notícias que persistem na mesma tecla, desemprego atinge novo recorde, taxa de juro dispara, petróleo alcança máximos inéditos, transportes vão aumentar, assim como gás, luz, pão e água, cortes orçamentais para a saúde, educação e justiça, cultura, ambiente e outros que tais, nem é bom falar. Negrumes cabeçalhos diária e incessantemente repetidos, incluindo sábados, domingos e feriados, Carnaval, Páscoa e Natal, sem esquecer a disparatada época de veraneio, vinte e quatro horas por dia, sete dias por semana, trezentos e sessenta e cinco dias por ano – mais um para os bissextos – nos jornais, nos portais, nos blogs e outros que tais, mas particularmente nas rádios e televisões, tudo infestado de azedume para alegria dos politiqueiros putativos fazedores de opinião que dão largas à verborreia de autênticos vendedores de sabonetes, verdadeiros profissionais flexíveis e polivalentes, hoje disparatam num canal, amanhã tonteiam noutro, de permeio escrevem mais do mesmo para ser publi-

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cado com todas as letras, assim se vai construindo o cercado para acolher as cabecinhas ocas que lhes dão ouvidos. E não são poucas, verdade seja dita. Tem-se desenrolado esta divina comédia desde que a anterior geração se lembra de ter nascido. Já os seus avós ouviam os mesmos dizeres, se nunca chegaram a ser notícia é porque nessa época o tempo corria mais devagar, digamos que era ainda uma aldeia pré-global. Em todo o caso, a leitura, audição e visão desta taciturna realidade penetrou nos confins familiares e sorrateiramente fez-se prato principal das refeições diárias, desde o pequeno-almoço ao jantar, sem darem por isso as gentes deixaram de falar por voz própria para passarem a falar de memória, o senhor doutor diz que é assim porque sim, ele lá saberá, que haveremos de fazer, e dito isto encolhiam os ombros. Nesta inusitada cadeia comunicativa, o receptor absorveu por inteiro a rendição incondicional do emissor, a tristeza do olhar passou a ser a do dele, a virose auto-destrutiva violentou a fronteira do seu pensamento e invadiu a corrente sanguínea apanhando de surpresa o sistema imunitário, sem hipótese alguma de defesa partilhou do mesmo sentimento com os mais próximos, de repente e num ápice esta epidemia imiscuiu-se na relação genética de uns para outros e todos promoveram uma novel vaga de genes recessivos e oprimidos, reprimidos, desiludidos, depressivos e outros tantos semelhantes adjectivos que foram sendo sistematicamente transmitidos, uma autêntica herança cultural que foi assumindo uma forma de descendência peculiar, saltitando de pais para filhos, passando de irmãos para irmãs e também o contrário é verdade, contagiando famílias inteiras, sobretudo


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as pós-modernas, padrastos, enteados, madrastas, enteadas, que dizer dos meios-irmãos, sendo metade de uma nunca chegam a ser pleno integrante de outra, extravasando depois para amigos, vizinhos ou tão-somente conhecidos que trocam palavras nos autocarros, nos eléctricos – que ainda os há – no metropolitano, nos cacilheiros, nos táxis, tudo a circular a um ritmo alucinante sob o mesmo desígnio arrepiante, no intervalo para café discute-se mais do mesmo, nas cafetarias, nas pastelarias, nos restaurantes típicos mas também nos de refeições rápidas, vulgo fast-food, nas escolas secundárias e universidades, com a devida ressalva de que não se fala disto nas escolas primárias porque entretanto foram encerradas, mas prosseguindo para não perdermos o fio à meada, nas pequenas, médias e grandes empresas, inclusive as multinacionais que viram a sua própria cultura organizacional infectada por tamanha fatalidade, dos bairros sociais aos condomínios fechados, nas aldeias, vilas e cidades, de todos os concelhos e distritos, de norte a sul, de montante a jusante, do interior para o litoral, um país inteiro a cantar este triste fado enraizado, de cérebro para cérebro, de pensamentos para atitudes, de atitudes para actos, destes para o marasmo. Finalmente, a evolução desta necrofilia social conduziu os cidadãos ao que os agentes políticos tanto ansiavam e bradavam: um modo de vida. Passaram-se trinta anos de pura manipulação. Três décadas que não acabaram com o flagelo de tais fazedores de opinião, algo de inexplicável se tomarmos em consideração que são precisamente estes os incumbidos por qualquer ditadura de enredarem a consequente estupidificação de massas. Porém, a reportagem sobre o acontecimento teve uma reper-

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cussão verdadeiramente inesperada. Desconhecendo nós se por intervenção divina ou mera causalidade cósmica, como um planeta alinhado com outro, ou a lua em sintonia com o balançar do mar, quem sabe até a simples passagem de um cometa no momento certo à hora certa, ainda por cima em horário nobre, em pleno noticiário, enfim, o que quer que tenha sido ocorre somente de enésimos em enésimos anos, sorte a nossa este ser um deles e estarmos presentes para o relatar. Tal raridade advém, precisamente, da simplicidade com que se iniciou. No caso, alguém estava a jantar quando, pela trigésima terceira vez, irromperam novamente essas imagens. A pequena caixa que mudou o mundo vincava sobremaneira o desespero das gentes, como se o realizador se tivesse entretido a focar os mais sofridos, a carga policial sobre eles e elas, crianças houvessem e levavam outro tanto, a destruição dos cartazes e faixas, a voz sem rosto que exigia a expulsão ecoava-lhe num estéreo interior, senhores agentes, senhores agentes, é favor evacuarem as galerias!, de um ouvido para o outro, atormentando a já de si cabeça em água após um estafante dia de trabalho, horas no trânsito, tanto para lá como para cá, amanhã novo suplício. Apesar da naturalidade com que a atenção decresce à medida que se aproxima a hora do merecido repouso, este alguém reteve uma frase, BASTA DE INJUSTIÇA!, cruzou as mãos sob o queixo e deixou-se ficar a olhar. Findou a notícia, findou o noticiário, findou o interminável espaço publicitário, findou a vontade de terminar o jantar, mas a frase persistia defronte dos seus olhos. Particularmente, a parte final da sentença, devidamente separada do prefixo, ou seja: justiça. Levantou-se e foi consultar o dicionário, quedando-se na


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página que descrevia República, conjugação das palavras gregas res e publica, significado de coisa pública; levantou o olhar e nada fixou, apenas um turbilhão de contradições a invadi-lo – não terminas de jantar, querido? – estou sem fome, desculpa. aproveito para esclarecer aqui uma dúvida. voltou a folhear o dicionário, agora de trás para a frente, até se quedar em Assembleia, reunião de pessoas convocadas para um certo fim, sociedade. Deteve-se uns instantes sem pensar. Sentou-se no sofá e interiorizou o significado das palavras lidas Assembleia, República, uma por uma, novamente e outra vez. Por fim, juntou-as com a preposição em falta e tentou ele mesmo decifrar o significado para Assembleia da República. Com a devida modéstia de quem pensa pela própria cabeça, concluiu que aquela casa é uma coisa pública, logo, qualquer cidadão tem o direito de lá permanecer. Para mais, sendo sua, foi o povo que se dignou chamar os senhores deputados à sua presença, portanto, estes são convidados e aqueles os anfitriões. Ora, não passa pela cabeça de ninguém e muito menos pela deste alguém, que os anfitriões não só sejam forçados a suportar um rol de futilidades como, ainda por cima, sejam expulsos de uma casa que não é pertença de mais ninguém se não sua e que, para cúmulo, recebam ordens de expulsão de um sujeito que não foi eleito pelo povo, tão pouco convidado, em boa verdade foi escolhido à revelia pelos senhores deputados. Em suma, trata-se de uma manifesta falta de cortesia, para não dizer simplesmente má educação, o que este Presidente da Assembleia da República fez, até porque no fundo não passa de um penetra. BASTA DE INJUSTIÇA!, recorda

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uma vez mais. Não é justo, sim, justo não é. Ainda antes de se deitar, ligou o computador e passou trinta minutos a escrever sobre esta conclusão. Uma análise modesta, ressalve-se, mas ainda assim decidiu partilhá-la pela lista de endereços do correio electrónico. No total são trinta pessoas, cada qual com a sua própria lista de endereços, assumimos a mesma média de destinatários, se uns têm menos, outros hão-de ter muitos mais, por sua vez cada qual de cada qual com nova lista de endereços e por aí fora até perdermos o rasto do remetente, depois já se sabe que quem conta um conto acrescenta um ponto, o que acham disto?, arrematou, um abraço, ponto final. Enviar.


EsS_#1  

Primeiro capítulo do Ensaio sobre a Surdez

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