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ENTREVISTA

CULTURA HIP HOP

Presidente da AGBLT fala do novo plano contra a Aids

Seletiva de basquete criada pela Cufa promove diversos eventos

PROMOVENDO ROMOVENDO

ANO NO 1, NÚMERO ÚMERO 6, ABRIL BRIL DE DE 2008

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A CIDADANIA COM COM A CIDADANIA

www.terceirosetor.jor.br

INFORMAÇÃO INFORMAÇÃO

PARA ONDE ELES FORAM? Conheça o que vem sendo feito para enfrentar o problema das crianças e adolescentes desaparecidos no Brasil


Sumário 3.

ABRE ASPAS

PERFIL

DRAMA DA VIDA REAL

E a luta continua Ministério da Saúde lança plano de ações para conter crescimento da Aids e recebe apoio de organizações

4.

E

PAINEL

Movimento planetário. Guia de sobrevivência. Cultura de rua

6.

C A PA

Queremos nossos filhos de volta Mais de 10 mil crianças e adolescentes estão desaparecidos no Brasil. Enquanto tentam manter a esperança, familiares lutam por mudanças nas políticas de localização

8.

Um dia que dura dois anos e três meses À espera da filha, Marineide tenta reconstruir a vida de sua família

9.

CAIXA DE IDÉIAS

Entre muros e grades: liberdade para pensar HIPERTEXTO CERTOS EXTREMOS DO ORIENTE SOBRE VENCIDOS E VENCEDORES

10.

OTIMISMO DIGITAL A generosidade ainda é o melhor remédio

m 1995, quando estreou na TV Globo, a novela “Explode Coração”, de Glória Perez, chamou a atenção dos brasileiros para um problema que afeta milhares de famílias: o desaparecimento de crianças e adolescentes, tema de capa da edição deste mês. Ao contar a história da personagem Odaísa (vivida pela atriz Isadora Ribeiro), que tinha um filho desaparecido, a novela mostrou a luta, na vida real, das Mães da Cinelândia, no Rio, e das Mães da Sé, em São Paulo, dois dos (agora) mais conhecidos movimentos civis brasileiros voltados ao drama do menor desaparecido. Num dos capítulos, foi exibida a foto de um menino que estava sendo procurado havia 10 anos. Menos de uma semana depois, a mãe reencontrou o garoto, que tinha sido levado pelo próprio pai. Até o seu fim, “Explode Coração” ajudou a localizar outras 64 crianças desaparecidas na vida real. Menores que muito provavelmente não teriam voltado para suas famílias caso não tivessem seus rostinhos exibidos em horário nobre na televisão. ”Explode Coração” foi uma prova do quanto um trabalho intenso de divulgação das fotos dessas crianças é uma ferramenta importante para localizá-las, como vem fazendo no Rio o programa SOS Crianças Desaparecidas. Mas há outras medidas que também merecem a atenção das autoridades, como mostramos na reportagem. A novela também deu um exemplo do quanto a abordagem de problemas sociais nos meios de comunicação, mesmo nos programas considerados de entretenimento (o que, louve-se aqui, se tornou uma marca do trabalho de Glória Perez e uma aplaudida rotina nas novelas da Globo), é uma responsabilidade e um dever desses veículos no sentido de conscientizar as pessoas sobre problemas que exigem a atenção e o envolvimento delas. No Perfil, o assunto é a nova campanha anti-Aids do Ministério da Saúde, destinada a homens que têm relações sexuais com outros homens. A partir desta edição, vamos estimular mais abertamente a partipação dos leitores na escolha de matérias para o jornal, algo que pretendemos ampliar a cada mês daqui em diante. Escreva para leitor@terceirosetor.jor.br dizendo os assuntos que você gostaria de ler em nossas seções. Já em maio vamos tentar dar uma prévia dessas sugestões. Um abraço,

NUNO VIRGÍLIO NETO

PAUSA DO CAFÉ TIRINHA. PALAVRAS CRUZADAS.

Promovendo a cidadania com informação FUNDADO

EM NOVEMBRO DE

2007

EDITORES: Luiz Renato Dantas Coutinho, Maurício Amilton Gomes Teixeira e Nuno Virgílio Neto COLABORARAM NESTA EDIÇÃO: Ana Carollina Leitão, Cid Andrade e Rodrigo de Souza Furtado. PRODUÇÃO E DISTRIBUIÇÃO: Multimeios Editoração e Design IMPRESSÃO: Jornal do Comércio TIRAGEM: 5.000 exemplares (distribuição gratuita)

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ABRIL DE 2008}

FALE COM A GENTE: Sugestão de pautas, críticas ou comentários <jornal@terceirosetor.jor.br> PARA ANUNCIAR: publicidade@terceirosetor.jor.br ou (21) 4104-1421 Site: www.terceirosetor.jor.br I

Esta é uma publicação independente, portanto sem qualquer tipo de vínculo partidário, religioso ou associativo.

I

Os artigos assinados refletem a opinião de seus autores, e não necessariamente o ponto de vista da coordenação do jornal.

I

Somente os editores têm autorização para falar em nome da publicação.


PERFIL

E A LUTA CONTINUA Cortesia: AGBLT/Grupo Dignidade

Ministério da Saúde lança plano de ações para conter crescimento da Aids e recebe apoio de organizações TONI REIS: O Plano Nacional de Enfrentamento da Epidemia s números voltam a preocupar. Em entrede Aids e das DST envista ao jornal O Globo , no final de março, o tre Gays, HSH e Trainfectologista David Uip mostrou-se desavestis terá ações prinnimado. Para ele, a geração que não presenciou a cipalmente relacionadevastação provocada pela Aids, na fase anterior das à ampliação do ao estabelecimento do coquetel anti-HIV, em 1996, acesso aos insumos está se descuidando. Naquele ano, dos jovens de de prevenção. Ou 13 a 24 anos com Aids, 24% eram homossexuais e seja, a distribuição de bissexuais masculinos. Em 2006, o percentual supreservativos para a biu para assustadores 41%, entre os 32 mil novos população GLBT decasos registrados. Segundo pesquisas oficiais, a verá ocorrer de forma população gay e HSH (homens que também fazem regular. Isto é imporsexo com homens) sofre risco 11 vezes maior de ser tante porque atualcontaminada pelo HIV do que os heterossexuais. mente é comum inTambém pelas mesmas fontes, homossexuais terrupções no fornee bissexuais masculinos na faixa entre 15 e 49 anos cimento. correspondem a 3,2% dos brasileiros (1,5 milhão U Toni Reis: presidente Também se prede pessoas). Contemplando essa parcela da poda AGBLT tende colocar em prápulação, o Ministério da Saúde lançou um plano tica estratégias de de ações para conter a incidência de Aids e outras doenças sexualmente transmissíveis. O plano pre- combate ao estigma e à discriminação, tendo em vê metas até 2011, entre as quais treinar profissio- vista que estes são fatores que aumentam a vulnenais de saúde, apoiar projetos de combate à rabilidade à infecção. Uma quarta ação é o fortalecimento das parcerias institucionais, em homofobia, garantir acesoutras palavras, parcerias entre as orso dos homossexuais ao A pessoa que é ganizações não-governamentais, secreSistema Único de Saúde tarias municipais e estaduais de saúde, (SUS) e denunciar agresdiscriminada tende de acordo com os princípios do SUS, sões contra os gays. O Terceiro Setor em a ter uma auto-estima além de atuação intersetorial, envolvendo outras secretarias e instituições, e Ação entrevistou o presimais baixa e a se daquelas vinculadas à saúde. dente da Associação BraOutra ação é a produção de conhecisileira de Gays, Lésbicas, expor mais a riscos. mento, significando estudar mais as Bissexuais, Travestis e Combater a homofobia ações que estamos fazendo hoje, bem Transexuais (ABGLT), como aumentar as pesquisas para saToni Reis, um nome seme aumentar a autober como trabalhar melhor com populapre lembrado e respeitações mais específicas, por exemplo, os do quando se trata da luta estima contribui gays e travestis jovens, os idosos, para contra a homofobia e pela para diminuir a que se previnam de modo a conter a conscientização dos hoepidemia do HIV em nossa comunidamossexuais. vulnerabilidade. de. A ABGLT, junto com suas organizações afiliadas, participará deste trabaO plano prevê ações até É uma forma lho nos respectivos municípios e esta2011. Poderia falar um de prevenção dos, monitorando, e cobrando, se necespouco sobre elas e como sário, o repasse dos recursos do Proserá a participação da grama Nacional de DST e Aids, do MiABGLT? POR LUIZ RENATO DANTAS COUTINHO

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Cartaz da nova campanha, inspirado em cena do filme “Beleza Americana”

nistério da Saúde, para os estados e municípios, e sua efetiva aplicação na prevenção. O senhor considera o recrudescimento da Aids entre homossexuais como, de fato, uma diminuição da conscientização desta parcela da população? O que eu vejo é que, com todo o trabalho que fizemos até hoje, conseguimos manter a epidemia da Aids estabilizada. Desde o final da década de 1990, há em torno de 4 mil casos novos de Aids todo ano na categoria de transmissão homo e bissexual. Assim, não está havendo um aumento de modo geral. Está havendo um aumento em alguns segmentos, como, por exemplo, entre os adolescentes gays, e também entre os gays mais idosos. Portanto, teremos que fazer uma intervenção mais direta nesses dois segmentos. A imprensa vem divulgando dados segundo os quais a probabilidade de um gay ser infectado pelo HIV é onze vezes maior que entre heterossexuais. Concorda com tal informação? Sim, concordo que a probabilidade de ser infectado é onze vezes maior. É um cálculo feito ±

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MOVIMENTO PLANETÁRIO

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s armas matam, em média, mais de meio A milhão de homens, mulheres e crianças. Outras milhares de pessoas são assassinadas,

mutiladas, torturadas, estupradas ou forçadas a fugir de suas casas como resultado do comércio irregular desse engenho. Politicamente, a proliferação sem controle de armas fomenta violações dos direitos humanos, incentiva estados repressivos, aumenta o número de conflitos e intensifica a miséria. Existem estatísticas ainda mais impressionantes: há cerca de 639 milhões de armas de pequeno porte no mundo e a cada ano mais oito milhões são fabricadas. Acredita-se que, por volta de 2020, o balanço anual de mortos e feridos por guerra e violência armada ultrapassará o número de vítimas fatais de doenças como malária e sarampo. A campanha mundial Controle de Armas (Control Arms), uma ação conjunta da Anistia Internacional, a Oxfam e a Iansa (International Action Network on Small Arms), está conclamando os governos nacionais para um tratado de regulamentação desse tipo comércio. A campanha pretende:  Em nível internacional: que os governos assinem um tratado internacional para barrar a

Petição contra as armas

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O que o senhor espera da I Conferência Nacional GLBT, a acontecer em maio, em Brasília? Já estão acontecendo no Brasil, em todos os estados, as conferências GLBT estaduais, bem como mais de 100 conferências municipais ou regionais. A intenção é que nessas conferências seja discutido o “texto base” contendo propostas de políticas públicas afirmativas para a nossa comunidade. A idéia predominante é de diminuir o estigma, o preconceito e a discriminação contra GLBT. O HIV/ Aids também é um dos temas que será discutido, mas não será o único. A expectativa é que seja dado um grande passo na definição e implementação de 3S políticas públicas para GLBT.

PAINEL

GUIA DE SOBREVIVÊNCIA

COMO SE LIVRAR DOS CORRUPTOS

Há duas semanas o senhor esteve em uma conferência. Poderia falar um pouco sobre ela? Tivemos uma conferência GLBT municipal em Curitiba, na qual foram tiradas propostas para formar o programa Curitiba Sem Homofobia, com 55 ações, divididas entre todas as secretarias municipais, para diminuir o estigma, o preconceito e a discriminação contra a população GLBT na cidade.

Dependendo da forma como os dados sejam apresentados ao público, não haveria o risco de se renovar preconceitos? Não parece estar havendo um aumento do preconceito contra homossexuais. Em 1995 uma pesquisa do Datafolha indicou que apenas 7% da população era favorável à união civil entre pessoas do mesmo sexo. Uma pesquisa publicada recentemente mostrou que agora 39% são favoráveis, e que 14% são indiferentes, ou seja, 53% da população nos apóiam.

Esses dados não colocariam, indiretamente, os homossexuais e bissexuais na qualificação de “grupos de risco”, nomenclatura usada nos anos 80 e depois abolida? Não são um grupo de risco, mas sim populações mais vulneráveis por todo um processo de preconceito e discriminação ainda existentes em nosso país.

com base em estudos científicos, comparando a incidência do HIV e estimativas do tamanho da população de gays e outros homens que fazem sexo com homens. É verdade e se deve ao estigma, ao preconceito e à discriminação contra os homossexuais. A pessoa que é discriminada tende a ter uma auto-estima mais baixa e a se expor mais a riscos. É por isso, inclusive, que em todas as estratégias de prevenção, as nossas organizações e o próprio Programa Nacional de DST e Aids expõem que combater a homofobia e aumentar a auto-estima contribui para diminuir a vulnerabilidade. É uma forma de prevenção.

que você tem a ver com a corrupção?” Este “O é o nome do projeto lançado nacionalmente em março, no auditório do Ministério Público do Distrito Federal, em Brasília, pela Associação Nacional dos Membros do Ministério Público, a Conamp. Diante de um auditório lotado, o ator Milton Gonçalves, que foi o mestre de cerimônias, apresentou um plano contra a corrupção que prevê a realização de passeatas, shows, peças de teatro e concursos para alunos de escolas públicas e particulares. Também está prevista a distribuição de uma cartilha explicando que a corrupção existe em vários níveis e, por isso, todos podem combatê-la.

O projeto quer estimular as denúncias populares dos atos de corrupção, não importando o maior ou menor grau de lesão à população. Busca, sobretudo, conscientizar a sociedade, especialmente crianças e adolescentes, e fomentar três tipos de responsabilidades: a responsabilidade para com os próprios atos, ou responsabilidade individual (“estou fazendo a minha parte no meu diaa-dia?”); a responsabilidade social ou coletiva (“estamos cobrando a apuração e a punição de corruptos e corruptores?”); a responsabilidade para com as gerações futuras a partir de um agir consciente. — A corrupção subtrai direitos, tira oportu-

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Cortesia: Cufa

exportação de armas às regiões nas quais elas são utilizadas para cometer graves violações aos direitos humanos e às leis internacionais. Pretende-se ainda punir e tipificar o comércio, a produção e o tráfico ilícitos, estabelecendo mecanismos de troca de informações entre países.  Em nível nacional: que os governos melhorem a capacidade do estado e sua responsabilidade para controlar a circulação de armas de fogo e proteger os cidadãos da violência armada, orientando-se por padrões internacionais. Os governos devem, ainda, fortalecer acordos regionais de controle de armas para efetivar o respeito aos direitos humanos.  Na sociedade civil: Que os cidadãos se engajem na luta, pedindo a redução da demanda e do número de armas disponíveis. Em dezembro de 2006, na ONU, 153 governantes votaram pelo início dos trabalhos de um tratado internacional de armas. Foi apenas um tímido começo. Os cinco membros permanentes do Conselho de Segurança da ONU, França, Rússia, China, Reino Unido e EUA respondem, juntos, por 88% da exportação mundial de armas. Para precionar por ações efetivas em escala planetária, pessoas do mundo todo têm participado do que os organizadores chamam de petição visual: basta cada um deixar nome e foto no site da organização. No Brasil, 6.677 pessoas já se juntaram à causa. Confira e participe entrando no site: < www.controlarms.org >

nidades, fecha as portas dos serviços públicos e, de forma trágica, deixa os ladrões ricos cada vez mais opulentos e os pobres cada vez mais pobres. Mais que se apropriar ilicitamente de bens materiais, o corrupto é o verdadeiro ladrão de sonhos, sonhos de paz, alegria e de um futuro melhor — destacou o presidente da Conamp, José Carlos Cosenzo, para um auditório de 500 pessoas, entre procuradores, magistrados, parlamentares, atores, presidentes de associações, crianças e adolescentes. “O que você tem a ver com a corrupção?” é uma iniciativa que contou ainda com a parceria do Conselho Nacional de Procuradores-Gerais (CNPG). Os atores José Wilker, Murilo Rosa e Armando Babaioff e o atleta Alberto Bial estavam entre os participantes do lançamento. Eles aderiram ao projeto da Conamp e se comprometerem a divulgar a idéia em todo o país.

AJUDE A INTERROMPER

CULTURA DE RUA

Campeonato de basquete-arte tem início esse mês de abril está ocorrendo a Seletiva EsN tadual de Basquete de Rua do Rio de Janeiro, a SEBAR RJ, que coloca em disputa o título estadual e as vagas para o campeonato brasileiro. A seletiva está em sua terceira edição e o projeto foi criado pela Cufa (Central Única das Favelas). A abertura da SEBAR se deu no dia 05, no centro esportivo e cultural da ONG, debaixo do viaduto Negrão de Lima, em Madureira, com a rapper Nega Giza fazendo as honras da casa, e reuniu cerca de 2 mil pessoas. Elas ainda puderam apreciar rodas de break, capoeira, o show da banda Batuque de Jah e exibições de grafite e skate. O primeiro jogo do dia ficou por conta das equipes juvenis, atendidas pelo projeto A Cesta da Vez, realizado pela Cufa com patrocínio da Oi Futuro. O projeto abrange as comunidades nas quais a Cufa desenvolve trabalho social, como Madureira, Acari, Cidade de Deus, Pedra do Sapo, Complexo do Alemão. No todo, os jovens contemplados pelas oficinas de basquete de rua formam seis equipes, e vêm mostrando que a modalidade veio para ficar no Brasil.

OPORTUNIDADE PARA DIVERSAS TRIBOS

tro elementos do universo do hip hop: break, dj, grafite e MCs. Tais atrações estão fazendo da SEBAR carioca uma grande celebração da cultura popular urbana, congregando diversas tribos. Além do Rio de Janeiro, outros 20 estados organizam, a partir do próximo mês, suas respectivas seletivas, e cada cidade possui autonomia na organização de sua SEBAR.

Entre os jogos adultos da seletiva carioca, as partidas mostram-se bem equilibradas, sendo que a equipe da Cufa foi a campeã da primeira etapa. O campeonato esportivo em si consite de quatro etapas, sendo a última no dia 26 de abril (a segunda etapa da SEBAR carioca se deu no dia 12, na universidade UniSuam, em Bonsucesso). O acontecimento é uma das principais oportunidades, no Rio de Janeiro, de popularizar o basquete de rua, muito conhecido como basquete-arte, marcado por jogadas de efeito. A modalidade não se prende às regras convencionais, motivo pela qual não é reconhecida oficialmente. Porém, os promotores da seletiva não se restringiram à organização das disputas. A idéia foi promover a inserção social no âmbito esportivo e cultural. Por essa a razão, estão ocorrendo, em paralelo, torneios de skate e intervenções dos qua-

Não tira fotos, não envia e-mail, não manda torpedos, não toca MP3.

A VIOLÊNCIA

DISQUE DENÚNCIA 2 2 5 3 - 1 1 7 7

U A seletiva carioca também se insere no contexto cultural do hip hop

O que é a Cufa?

Central Única das Favelas, ONG capitaA neada pelo rapper MV Bill e pelo produtor Celso Athayde, é hoje uma ONG de projeção nacional. Surgiu nos anos 90 por meio da reuniões de jovens de várias favelas do Rio de Janeiro, geralmente negros, que buscavam espaço na cidade para expressar suas atitudes, questionamentos ou simplesmente sua vontade de viver. Estes jovens, em sua maioria, pertenciam ao movimento hip hop ou por ele eram orientados. Mais informação no site: <www.cufa.org.br> 3S

Mas há momentos em que é dele que você precisa para abrir seu coração.

A linha da vida ww w.c vv. org .br

Ligue: 2233-9191 Centro de Valorização da Vida

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CAPA

Queremos nosso

Mais de 10 mil crianças e adolescentes estão desaparecidos no Brasil. Enquanto tent POR NUNO VIRGÍLIO NETO

Uma referência nacional no serviço de identificação e localização de crianças e adolescentes desaparecidos, em seus 12 anos de história o SOS Crianças Desaparecidas registra 2.682 casos de desaparecimento em todo o estado. Desse total, 2.258 (84% dos casos) tiveram um final feliz, com as crianças encontradas e devolvidas a suas famílias. No dia em que esta reportagem foi escrita, no começo de abril, havia 119 menores desaparecidos no Rio de Janeiro.

M

arineide é incapaz de esquecer a data: 24 de janeiro de 2006, dia em que sua filha Taís, então com 10 anos de idade, saiu para comprar pão num supermercado perto de casa, no centro do Rio, e nunca mais foi vista. “Só vou sossegar quando encontrar minha filha, viva ou morta”, ela diz, ao repassar na memória a angústia diária que colocou sua vida de cabeça para baixo. Infelizmente, a rotina de dor de Marineide tem muitos pares em todo o país. De acordo com o site da Associação Brasileira de Busca e Defesa a Crianças Desaparecidas, grupo que ficou conhecido como as Mães da Sé, por causa dos protestos silenciosos que organiza regularmente em frente à Catedral Metropolitana de São Paulo, 204 mil pessoas desaparecem todos os anos no Brasil. Esse número foi revelado por uma grande pesquisa nacional sobre o assunto, feita em 1999. Um trabalho da organização não-governamental Movimento Nacional de Direitos Humanos, concluído com o apoio do Ministério da Justiça, que resultou no livro “Cadê Você?”. Para se ter uma dimensão da tragédia, isso significa dizer que uma população maior que a de Nova Friburgo, cidade da Região Serrana fluminense que não tem mais de 180 mil habitantes, desaparece de casa todos os anos no Brasil. Desse total de desaparecimentos, estima-se que mais de 10 mil sejam de crianças e adolescentes. A ReDESAP (Rede Nacional de Identificação e Localização de Crianças e Adolescentes Desaparecidos), que é coordenada pela Secretaria de Direitos Humanos da Presidência da República e reúne dezenas de organizações governamentais e não-gover-

É PRECISO TER PRESSA

namentais empenhadas na localização desses menores, afirma que não existem dados oficiais capazes de determinar a quantidade de crianças e adolescentes desaparecidos no país, mas que – do total de casos registrados – um percentual de 10% a 15% permanece sem solução por um longo período de tempo, ou jamais é resolvido. No Rio, a FIA (Fundação para Infância e Adolescência), vinculada

à Secretaria de Assistência Social e Direitos Humanos do governo do estado, mantém o programa SOS Crianças Desaparecidas, responsável pelo trabalho de divulgação das fotos dos menores procurados (aquelas que você já deve visto em cartazes, embalagens e jornais, inclusive aqui no Terceiro Setor em Ação, que disponibiliza, gratuitamente, uma página para o programa em todas as edições).

Dê um presente original para quem você gosta: ofereça uma

história em quadrinhos da sua história E-mail: rodrigo_furtado@hotmail.com

Página: www.rodrigofurtado.da.ru Logotipos

ARTE COM QUALIDADE: Ilustrações

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Cartuns

Setor em Ação

Rodrigo Furtado

Manipulação de imagens

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Design Design gráfico em gráfico geral em geral

Quando uma criança desaparece, a agilidade em se começar as buscas é um fator decisivo. Esse é um ponto em que concordam todas as autoridades mundiais que lidam com o assunto. A experiência mostra que um período aparentemente curto de 24 horas pode fazer toda a diferença. Ainda mais num país gigantesco como o nosso, em que uma criança raptada, por exemplo, pode cruzar diversas cidades e estados entre um dia e uma noite sem passar por nenhuma fiscalização de fronteira. A cada quilômetro avançado, menos pistas vão sendo deixadas para trás. Por isso, na lista de queixas dos familiares de menores desaparecidos, dois itens se repetem:


os filhos de volta

tam manter a esperança, familiares lutam por mudanças nas políticas de localização a demora da polícia em iniciar as buscas depois que são feitos os registros de desaparecimento; e a ainda ineficiente unificação dos cadastros estaduais de desaparecidos. Há três anos, uma mudança importante ajudou a resolver o primeiro problema: a Lei Federal 11259/2005 determina a busca imediata das crianças assim que é feito o registro nas delegacias. Em relação ao segundo ponto, antigas idéias estão mais perto de se concretizar, sinalizando para

U Quando uma criança desaparece, a agilidade em se começar as buscas é um fator decisivo. Esse é um ponto em que concordam todas as autoridades mundiais que lidam com o assunto o aperfeiçoamento de uma política nacional efetiva de enfrentamento da questão, a exemplo do que já vem sendo feito pela ReDESAP. O Projeto de Lei 2648/07, do deputado federal Walter Brito Neto (PRB-PB), cria o sistema de comunicação e cadastro de crianças e adolescentes desaparecidos, justamente com o objetivo de dar agilidade e eficácia às buscas em todo o território nacional. Entre as novidades, o texto estabelece que os estabelecimentos de saú-

de, públicos ou privados, deverão comunicar imediatamente à Secretaria de Segurança Pública do estado ou ao órgão competente dados identificadores das crianças ou adolescentes desacompanhados que neles derem entrada em estado inconsciente, de perturbação mental ou impossibilitados de se comunicar. A proposta também estabelece a criação, pelo poder público, de um número telefônico nacional de ligação gratuita para centralizar as denúncias de crianças e adolescentes desaparecidos. O projeto será analisado no Congresso em caráter conclusivo pelas comissões de Segurança Pública e Combate ao Crime Organizado, de Seguridade Social e Família, de Constituição e Justiça e de Cidadania.

A SITUAÇÃO LÁ FORA

Numa Europa ainda sob o impacto do caso de Madeleine McCann, a menina britânica de quatro anos que desapareceu há quase um ano de um hotel em Portugal, espera-se que o próximo 25 de maio, Dia Internacional da Criança Desaparecida, traga novidades na política de combate ao problema. Medidas de unificação dos serviços de investigação dos países membros da União Européia (cujas fronteiras sumiram com a criação do bloco, facilitando o rapto) vêm sendo cogitadas para esses casos. A implementação de um número telefônico único para receber denúncias integra o pacote de medidas estudadas. Nos EUA, o assunto também tem preocupado a população e as autoridades. Um canal de TV americano está produzindo um grande documentário sobre o desaparecimento de crianças em diversos países, com foco nas soluções que estão sendo testadas por eles.

Violência doméstica na raiz do problema ráfico de menores, crimes sexuais, comércio internacional de órT gãos: na cabeça de muita gente, essas são as principais causas do desaparecimento das crianças e adolescentes no Brasil. Sim, esses casos realmente existem e são considerados nas investigações policiais, mas a maior causa do problema por aqui está mesmo dentro de casa. “Nosso quadro de estatísticas mostra que 76% dos menores desaparecidos na verdade fogem de suas casas. E a maior justificativa é a violência familiar”, afirma o gerente do SOS Crianças Desaparecidas, Luiz Henrique Oliveira. “Quando são localizados, muitos contam que apanhavam dos responsáveis”. Ou seja: para se envolver de verdade com a questão do menor desaparecido e desenhar soluções para isso, o Estado brasileiro vai ter que entrar nessas casas com algumas ações capazes de interferir nesse quadro. “No Brasil, esse fenômeno da violência impera nas famílias”, diz Luiz Henrique. “Os pais têm aquela cultura de que ‘um tapinha não dói’, ou de que ‘a porrada vai educar’. O Estado brasileiro ainda não conseguiu criar um programa que diminua esse quadro de violência doméstica. E não basta só legislação: temos muito mais a fazer”, ele afirma, defendendo a criação de uma campanha preventiva. Desde março, a FIA e o SOS Crianças Desaparecidas vêm distribuindo 40 mil novos cartazes com fotografias das crianças e adolescentes desaparecidos no Rio e, inclusive, em outros estados. Cada cartaz traz 86 fotos e divulga também o Disque 100, número telefônico da central de denúncias. O lançamento do novo cartaz tem as parcerias da Rede Nacional de Identificação de Crianças e Adolescentes, do Proderj (Centro de Tecnologia e Comunicação do Estado), do RioSolidário e do Banco Itaú. O material está disponível para a distribuição em escolas, delegacias, aeroportos, rodoviárias, juizados, hospitais e empresas privadas de todo o país. Os cartazes podem ser solicitados e retirados na sede da FIA, que fica na rua Voluntários da Pátria, 120, em Botafogo.

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PROGRAMA SOS CRIANCAS DESAPARECIDAS (21) 2286-8337 ou DISQUE 100

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CAPA

UM DIA QUE JÁ DURA DOIS ANOS E TRÊS MESES

À espera da filha, Marineide tenta reconstruir a vida de sua família arineide BernarM dino dos Santos foi a última pessoa com

morto – a vida parece parar no tempo, consumindo-se lentamente entre o cansaço de lutar e a esperança de vê-lo cruzando a porta de casa outra vez. Para quem espera um filho desaparecido, o único dia do mundo continua sendo aquele: o último em que estiveram juntos. E não haverá nenhum outro até que todos os recursos para encontrálo se esgotem.

quem eu conversei antes de considerar concluída a apuração desta reportagem. Confesso que preferia tê-la encontrado pessoalmente, mas a rotina às vezes inegociável da vida acabou não permitindo, e a conversa saiu mesmo por telefone. Talvez por isso – porque não a pudesse ver com meus próprios olhos – Marineide ilustrou assim, com a “SE EU TIVESSE medida de seu corpo físico, a minha curiosidaDINHEIRO...” de sobre como é conviMãe de mais três filhos ver com a falta da filha, (Taís é a caçula, junto Taís, desaparecida há com Tatiane, sua irmã mais de dois anos: “Não gêmea), Marineide, 45 anos, doméstica, estasei se já consegui passar dos 40 quilos”. va no trabalho quanDepois dos relatos do foi avisada por teleque ouvi e li sobre as fone que a menina hafamílias que vivem à esvia desaparecido. Então com 10 anos, Taís pera da volta de um fi- U Taís Bernardino dos saiu de casa na rua do lho desaparecido, a im- Santos, desaparecida pressão que fica é de que desde 2006 Resende, no centro, o rombo provocado por para comprar pão num essa ausência tem mesmo uma ex- supermercado na rua do Riachuelo, pressão física muito nítida para eles, a poucas quadras dali. Marineide, uma sensação de vazio que parece ser que veio da Paraíba há 10 anos e cria maior até que a da morte. Para al- os filhos sozinha, voltou correndo guém que teve um filho morto, por para casa e liderou as buscas na vipior que isso seja, a condição zinhança. Uma missão, ela lembra, irreversível da morte parece acomo- que mobilizou 60 pessoas durante dar a ausência em algum canto da alguns meses. Eram amigos, vizinhos alma depois de um tempo. A ferida e até parentes dela que vieram de loncicatriza para a maior parte das pes- ge. “Viramos a cidade de cabeça para soas, e, enfim, a vida dos que conti- baixo”, conta. “Mas ninguém viu nuam vivos segue em frente, nem nada, ninguém sabe de nada. Tudo que seja arrastando a saudade pelo que tivemos até hoje foram pistas caminho. falsas”. Na polícia, Marineide brigou Mas no caso de alguém que não muitas vezes, e quase foi presa por sabe onde está seu filho – se vivo ou desacato à autoridade ao reclamar da

lentidão no começo das buscas e questionar a condução das investigações. “Se eu tivesse dinheiro, já teriam achado minha filha”.

O SOS CRIANÇAS DESAPARECIDAS

Durante os três primeiros meses seguintes ao desaparecimento de Taís, Marineide quase não dormiu, e só passava em casa pra trocar de roupa. O resto do tempo era dedicado a procurar a filha em qualquer lugar aonde fosse levada pela intuição ou por qualquer fiapo de pista. Foi logo nessa época que ela conheceu Luiz Henrique Oliveira, gerente do SOS Crianças Desaparecidas, que soube do caso e procurou a família. “No dia seguinte ele apareceu aqui em casa às dez horas da noite carregando um monte de cartazes com a foto da Taís. Na mesma hora saímos juntos colando cartaz em tudo que era canto”.

Marineide ilustrou assim a minha curiosidade sobre como é conviver com a falta da filha, Taís, desaparecida há mais de dois anos: “Não sei se já consegui passar dos 40 quilos”

COMO SE TUDO AINDA ESTIVESSE PARADO

Sem nenhuma notícia da menina, o mutirão montado para encontrá-la começou a se desfazer. Na delegacia, as investigações não apresentavam novidades, e os familiares foram voltando aos poucos para a Paraíba. Aí um dia Marineide finalmente voltou para casa e dormiu. Dormiu e acordou pensando que também precisava seguir sua vida, voltar ao trabalho, sustentar os filhos. Marineide bem que esperava conseguir tudo isso, mas a espera de Taís não deixou, nem deixa, e hoje é como se tudo ainda estivesse parado naquela manhã de 24 de janeiro de 2006. Há dois anos e três meses, Marineide está desempregada porque não consegue mais trabalhar. Ficou doente. A família é sustentada com o salário pequeno dos dois filhos mais velhos, que começaram a trabalhar há pouco tempo, e com o apoio da

FIA, que ajuda a família com uma cesta básica e remédios. Além dos parentes e amigos: “A gente tem vivido assim: um vem aqui e ajuda a pagar a luz, outro paga o telefone...” Mas isso ainda é pouco: com oito meses de aluguel atrasado, na semana em que conversamos Marineide havia recebido a ordem de despejo para entregar o imóvel onde mora. “Minha família desmoronou com o desaparecimento de Taís. Mas eu ainda acredito que Deus vai trazer minha filha de volta pra mim”. Marineide parece estar disposta a perder tudo, se for o caso. Menos a esperança que ainda a faz esperar por 3S Taís. (Nuno Virgílio Neto)

O LEITOR ESCOLHE Voltado às questões que têm mobilizado a sociedade civil no Brasil e no mundo, o Terceiro Setor em Ação é um jornal que depende muito da sua opinião. Escreva para leitor@terceirosetor.jor.br sugerindo os assuntos que você gostaria de ler por aqui.

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DE IAS É ID

Entre muros e grades: liberdade para pensar

POR ANA CAROLLINA LEITÃO

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m fato inédito: uma conferência livre realizada em um espaço de privação de liberdade. Assim se deu a 1ª Conferência Livre na unidade João Luís Alves, um dos locais de internação do Departamento Geral de Ações Sócio-educativas (Degase). A partir da iniciativa de uma organização não-governamental, 50 adolescentes que cumprem medida sócio-educativa de internação participaram, em 27 de março, de uma discussão comum a jovens de outras regiões da cidade do Rio de Janeiro e de outros estados do país. Em cada um desses encontros, com edições realizadas nos âmbitos municipal e estadual, são elaboradas propostas e soluções para a formulação de políticas públicas para a juventude. O processo está sendo con-

CERTOS EXTREMOS DO ORIENTE uando assistiu, no Festival de Q Cannes, a “O EDIFÍCIO YACOUBIAN” (Egito, 2006, 161min),

Robert De Niro se admirou. Elegeuo um dos melhores trabalhos dos últimos tempos do evento. Lançado agora em DVD, o filme mais caro da história do Egito também é um dos mais polêmicos por lá: 112 políticos pediram ao parlamento que o censurassem. O motivo é que todos os temas tabus na terra dos faraós aparecem; não esqueceram de nenhum. Estão lá: o homossexualismo, a milenar opressão das mulheres, a falta de perspectivas das classes baixas, o fundamentalismo religioso e a corrupção endêmica.

duzido pelo governo federal e, ao final deste mês, haverá a 1ª Conferência Nacional de Juventudes em Brasília, de onde sairão propostas e soluções únicas para a juventude brasileira. Entretanto, a discussão que se faz necessária antecede qualquer solução. A dinâmica das conferências se dá por meio de grupos de trabalho que abordam temas como sexualidade e mídia, alguns dos mesmos temas que figuraram na unidade João Luís Alves. O desafio se coloca quando apresentamos assuntos como participação política e meio ambiente, além de convivência familiar e comunitária para adolescentes que, por força das circunstâncias sociais, encontram-se alheios a esses debates. Participação política de quem sofre com a ausência do Estado? Meio ambiente para quem mora em locais onde não há nem mesmo saneamento básico? Convivência familiar e comunitária quando a estrutura da família está debilitada e a comunidade

U Cartaz do documentário “Juízo”, que estreou em março nos cinemas e acompanha a trajetória dos menores infratores diante da lei

apresenta ameaças à vida, como o tráfico de drogas? Contudo, de onde parecia impossível surgir interesse, houve uma receptividade bastante grande. Apesar das dificuldades encontradas com os conceitos, a participação dos meninos foi intensa. De forma geral, quando questionados se acreditam no poder de mudança da conferência, a maioria dos jovens respondeu que sim. A reposta, provavelmente, reflete ainda um sonho, mais do que uma expectativa bem fundamentada. A realização da conferência também expõe o paradoxo do nosso sistema sócio-educativo. “Excluir para ressocializar”: este é o lema. Evidentemente, não se defende o fim de medidas sócio-educativas mais rígidas, mas a qualidade e a “porta de saída” que deve ser criada pelo Degase ou outra instituição estadual. Os adolescentes podem estar atrás dos muros, mas precisam ter a oportunidade de acreditar que é possível ultrapassar as grades e se integrar à sociedade no 3S momento de sua liberdade.

TO

HIPERTEX Yacoubian é uma alegoria sobre o estado egício. Construído em 1930, o edifício fictício fora um símbolo da ostentação. Depois de servir de LUIZ RENATO residência para a elite, está em D. COUTINHO decadência. O longa acompam 1987, um filme brasileiro era pauta na mídia e geranha a vida de seus atuais moradores, va notoriedade para a então jovem atriz Ana Beatriz um dos quais um playboy sexagenário. Quase falido, ele sonha com Nogueira. Tratava-se da obra “Vera”, que contava a históo passado francês que prometia um ria de uma interna da Febem, homossexual e poeta. Ana Beatriz ganhou o Urso de Prata, no Festival de Berlim, na Egito moderno. categoria de melhor atriz. O filme era inspirado no livro de Sandra Mara Herzer, “A QUEDA PARA O ALTO”, que acaba de receber uma 25ª edição. Poucos meses antes de ser lançado, em 1982, Sandra se suicidou, aos 20 anos, oferecendo para a posteridade um mundo de impressões que assombram pelo talento poético e pela narrativa madura. Em curto tempo, a menina pobre do interior do Paraná perdeu a infância ao enfrentar experiências frustrantes em uma família já desestruturada, e acabou caindo na tenebrosa Febem. Depois, já estagiando, escreveu o livro, reunindo autobiografia e poesias. Costumava assinar Anderson Herzer e deixou-nos versos como: “Esta noite foi a noite em que virei astro/ a multidão estava lá, atenta como eu queria/ suspirei eterna e vitoriosamente/ pois ali o personagem nascia / e eu, ator do mundo, com minha solidão.../ morria!”

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Sobre vencidos e vencedores

 Por

coincidência, na mesma semana em que a revista Época publicava uma matéria com Daniel, um estudante da Unicamp que sofre da síndrome de Asperger, uma forma leve de autismo, a Larousse lançava o livro “OLHE NOS MEUS OLHOS”, de autoria de um portador do mesmo mal. O autor, John Elder Robinson, também enfrentou muitos reveses, mas, na conta final, ele teve mais chances que Sandra Herzer. Hoje um bem-sucedido negociante, John conta-nos sua trajetória com humor e extrema franqueza. Curiosidade: somente aos 40 anos ele recebeu o diagnóstico correto. 3S

TERCEIRO SETOR EM AÇÃO TAMBÉM NA REDE: No nosso site você encontra outras notícias e serviços, com conteúdo de áudio e fotos sobre as matérias desta edição. www.terceirosetor.jor.br {ABRIL

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OTIMISMO DIGITAL CID ANDRADE

cid.andrade.work@gmail.com

A GENEROSIDADE AINDA

O ano é 2008 e a internet já está em boa parte do Rio de Janeiro: a classe média tem banda larga, os mais humildes freqüentam as lan houses comunitárias no Camelódromo, na Saara, na Feira de São Cristóvão, nas bibliotecas municipais e estaduais, enfim, em tudo que é canto. Isso sem contar que, com computadores a menos de R$ 1.000,00, as classes C e D estão se informatizando a passos largos. E então: quem topa criar a rede Freecycle carioca? < www.freecycle.org > 3S ○

É O MELHOR REMÉDIO

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esta época em que ecologia, aquecimento global e desenvolvimento sustentável são assuntos onipresentes (ainda bem: antes tarde do que nunca), muito se tem falado também sobre desperdício. O que faz todo sentido, pois se no final das contas a produção industrial, juntamente com a agrícola, são os fatores que mais contribuem para a poluição e o aquecimento do planeta, a possibilidade de desperdiçarmos menos para evitarmos ter que (inutilmente) produzir ainda mais torna-se uma questão bastante pertinente e relevante. Só que a cultura do não-desperdício vai muito além do que diz respeito aos nossos hábitos de alimentação e seus reflexos mais imediatos, como não jogar comida no lixo e aproveitar melhor os alimentos, e também dessa estética da reciclagem de materiais, desse conceito de transformálos em coisas completamente diferentes e nem sempre úteis; a famosa cultura do “transformar lixo em arte” que uma vez por mês é tema de alguma reportagem de algum telejornal de início de tarde ou do Fantástico, no domingo à noite. Na verdade, a cultura do não-desperdício só faz sentido quando conseguimos aplicá-la à vida que realmente temos, aos nossos movimentos do dia-a-dia.

U

A idéia é simples: doe tudo que você tem em casa e não precisa mais

É o que prova, por exemplo, a rede Freecycle, fundada nos EUA e hoje ativa em centenas de cidades do mundo atraves da internet. “Tornar o mundo melhor através da generosidade” é a alma do negócio, o que pode soar um tanto utópico, mas que na verdade se mostra uma idéia bastante pragmática: se você tem bens de consumo abandonados na sua casa – de roupas a móveis, passando por sacos de cimento que sobraram de uma obra, ou pela comida cuja validade expira dentro de uma semana, quando você estará saindo de viagem para passar um mês fora – a melhor saída é essa: doe. Mande um email para o grupo Freecycle da sua cidade e ele será redirecionado para todos os membros da rede, e os interessados vão começar a entrar em contato. Daí basta marcar dia e o horário para o felizardo buscar o “presente” com você, seja ele uma doação, um “não-desperdício”, ou o nome que a gente queira dar. Dei uma olhada no site e as pessoas oferecem de tudo: bota de couro, sofá, tijolo, jogo de videogame, violão, bicicleta, coisas do arco da velha. A única premissa é que não haja venda, nem que por valores irrisórios. Tem que ser gratuito, “di grátis”, de presente.

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RODRIGO FURTADO <www.rodrigofurtado.da.ru>


Se você tem informações sobre uma dessas crianças ou se seu filho(a) desapareceu, entre em contato conosco.

Ligue!

(21) 2286-8337 Rua Voluntários da Pátria, nº120 - Botafogo - RJ - CEP 22.270-020 www.fia.rj.gov.br e-mail:soscriancasdesaparecidas@fia.rj.gov.br

NICOLLE MORAES DE ARAUJO IDADE: 3 ANOS DESAPARECIMENTO: 25/12/2007

KEEZE CAETANO DE VASCONCELOS IDADE: 16 ANOS DESAPARECIMENTO: 14/12/2007

CRISTIANY MATOS NASCIMENTO IDADE: 13 ANOS DESAPARECIMENTO: 15/10/2007

CAROLINE MENEZES CARDOSO IDADE ATUAL: 12 ANOS DESAPARECIMENTO: 14/04/2003

DYANNA SOARES CONCEIÇÃO IDADE ATUAL: 13 ANOS DESAPARECIMENTO: 19/06/2005

DOUGLAS TEIXEIRA RAMOS IDADE ATUAL: 16 ANOS DESAPARECIMENTO: 22/05/2006

EWERTON GUSTAVO DA SILVA RODRIGUES IDADE: 10 ANOS DESAPARECIMENTO: 31/07/2005

HERISON RAMON SANCHES FARIAS IDADE: 12 ANOS DESAPARECIMENTO: 10/01/2007

JONAS DE FREITAS LINS IDADE: 16 ANOS DESAPARECIMENTO: 07/09/2007

MICHELE SANTANA DE ARAÚJO IDADE ATUAL: 14 ANOS DESAPARECIMENTO: 21/11/2002

SAMUEL MUNIZ GARCIA DA SILVA IDADE ATUAL: 11 ANOS DESAPARECIMENTO: 30/05/2007

WESLEY DA SILVA HONÓRIO IDADE ATUAL: 3 ANOS DESAPARECIMENTO: 16/02/2007

PROGRAMA

SOS

CRIANÇAS

D E S A PA R E C I D A S DR. EDMILSON SOBRAL FERREIRA DA SILVA OAB-RJ 113.733

Rua do Ouvidor, 130 sala 703 - Centro Rio de Janeiro - RJ

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2242-2191 Cel: (21) 9569-9123 DE 2007Tel: (21) 3º Setor em Ação}


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Edição nº 6 - abril de 2008