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Reprodução da Participação de J.R.Daher na Coletânea


Página 118 (da Coletânea)

José Raphael Daher nasceu em 1977 (Campinas-SP), é graduado em física pela UFSCar e professor da mesma área no ensino médio. Participou da Coletânea Komedi nos 3 últimos anos, com crônica e poesias. Recentemente publicou seu primeiro conto de ficção científica, Gêmeos.Virtuais. Atualmente dedica-se à divulgação dessa obra buscando realizar projetos escolares de cunho artístico. ********************************************************************************

Sempre gostei de histórias que, a princípio desconexas, se unem no final. Cinco anos depois de terminar Gêmeos.Virtuais decidi escrever um capítulo sobre a primeira infância de Alef constituindo um elo com um romance que ainda está em produção. No entanto a coletânea estava para sair e achei que este seria um momento mais oportuno, visto que o livro acabou de ser lançado. Então, se você já leu Gêmeos.Virtuais, espero que esse episódio lhe traga alguns esclarecimentos (e outros questionamentos). Se você ainda não leu, espero que essa leitura lhe desperte o interesse para conhecer. O Autor.

Gêmeos.Virtuais – Apêndice 1 – A infância de Alef ● 1980, Bagdá Uma carta é levada às pressas através dos corredores do 1º Palácio para o gabinete do presidente Saddam Hussein. O oficial treme e transpira, por saber que um atraso significaria punição, mesmo que não fosse sua culpa. Durante o caminho ele pensa em sua família, rezando para seu Deus que aqueles não se tornassem seus últimos momentos. Tocou duas vezes na porta e ao ouvir a ordem, entrou. O presidente estava olhando pela janela, falando ao telefone, utilizando um inglês arrastado e mal deu atenção ao oficial, que apenas aguardou, com os olhos fitando o infinito e a carta entre as mãos. O presidente Hussein, ainda muito envolvido com o telefonema apenas abanou a mão direita para que o oficial deixasse a carta e se fosse. Então o


rapaz, aliviado, deixou o envelope sobre a mesa e saiu, prestando continência. Ao terminar o telefonema, abriu a carta com um rasgo e retirou de dentro o documento que trazia no topo o brasão do gabinete do presidente dos Estados Unidos da América. A carta continha as informações que seu governo tanto esperava: um financiamento bilionário para prosseguir com as pesquisas nas áreas de genética, inteligência artificial e outras áreas de interesse, contudo, com a condição já aceita de revogar um acordo feito com o Irã e retomar aproximadamente 500 quilômetros quadrados de terra, cujos recursos pretolíferos seriam de propriedade dos Estados Unidos. Nos anos seguintes, enquanto se desenrolava a Guerra Irã-Iraque, com apoio da União Soviética e Arábia Saudita, outros vinte e um laboratórios subterrâneos estavam sendo construídos, espalhados por todo Iraque e no primeiro deles as pesquisas já estavam sendo desenvolvidas num ritmo vertiginoso. ● 1985, Basra Dr. Ahmed trabalhava no Laboratório 1 quando a guerra ainda estava em ascensão e o exército Iraquiano apenas intensificava as hostilidades, bombardeando uma Usina Nuclear ainda incompleta em Bushehr, no litoral sudoeste do Irã. As pesquisas haviam conseguido seus primeiros sucessos na área da genética, quando há um ano Ahmed finalmente conseguiu recolher material genético compatível com o que eles haviam criado em laboratório. Nascia a primeira criança do projeto, gerada no ventre de uma mãe de aluguel anônima que não pôde tomar a criança no colo nem no dia do parto. Era um menino saudável e não apresentava nenhuma má formação. Uma série de exames foi realizada para constatar que ele era perfeito, no mais puro sentido da palavra. Dias depois o Dr. estava em seu escritório quando recebeu uma ligação misteriosa, uma ameaça:


alguém havia descoberto sua dupla identidade e exigia que ele reunisse resultados e materiais essenciais do projeto e os entregasse em troca de sua vida e de sua família. Ahmed pensou em sua mulher, em sua filha de apenas um ano e no pequeno recém nascido. Gravou todas as informações em um disquete e o guardou no bolso. Completamente tenso e tomado pela dúvida, foi ver o bebê e orar, para que seu Deus lhe enviasse um sinal. Enquanto observava o menino dormir em paz, expandindo aquele pequenino tórax a respirar ouviu uma surda explosão: o Irã realizava um contra ataque. O laboratório entrou em estado de alerta e evacuação. Tudo estaria perdido. Antes que os oficiais pudessem tomar alguma atitude Ahmed pegou o bebê, enrolou em uma manta e foi até o laboratório principal: mais um equipamento precisava ser protegido antes que tudo explodisse ou que o governo Iraniano tomasse como espólio. Guardou o aparato em um baú revestido de couro marrom com fecho e símbolos dourados. Fugiu por uma saída alternativa até seu carro, evitando ser visto, deitou criança com cuidado no banco do passageiro, guardou o baú no porta-malas, mas pouco antes que entrasse no veículo um soldado suspeitou e se aproximou, apontando o rifle para sua cabeça. O soldado era seu amigo, mas não havia amizade que compensasse a fúria do ditador. O bebê resmungou e o soldado pediu que o amigo se afastasse. Ahmed ficou próximo ao capô e a porta aberta ficou entre ele e o soldado. Sabendo que aquela traição significaria sua morte e de sua família, chutou com violência a porta contra o soldado que, depois de esmagado, caiu para trás. Enquanto o soldado se contorcia, tomou seu rifle e apontou para sua cabeça. Pediu que se ajoelhasse de costas, mas não teve coragem de atirar. Deu-lhe uma coronhada e fugiu. Buscou sua mulher e filha e utilizando seu segundo passaporte voou para o Brasil, onde deixou o baú com um amigo e o bebê com uma família pela qual ele tinha muito apreço.


● 1989, Brasil Um dia o menino acordou assustado e chorando desesperadamente. Naquela época tinha pouco mais que três anos, era um garoto saudável que nunca tinha apresentado maiores problemas desde que nasceu, ou melhor, desde que chegou. A mãe correu assustada, como fazem todas as mães, mesmo quando a criança não saiu de seu próprio ventre. Ela o pegou nos braços e abraçou muita força, para dar-lhe segurança e embora ela não tivesse lhe perguntado o motivo, ele disse: “Mamãe, onde tão meus imãos?”, “Regina está nanando”, ela respondeu sem demora. “Não mamãe, meus outros imãos, meus imãos di vedade”, com essa pergunta ela ficou arrepiada até as pontas dos fios de cabelo, mas respondeu trêmula: “Só sei que estão bem, fofo, fique tranqüilo, Alef”, “Não... Não tão bem! Eles vão moê! Ajuda eles, mamãe! Po favo! Eles vão moê!”. Então ela chorou e se deitou ao seu lado, para acalmá-lo até que conseguisse dormir. No dia seguinte e no seguinte nada mais ocorreu. Continuava uma criança feliz e saudável. Brincava e brigava com sua irmã caçula causando todos os problemas que uma família finge não gostar de ter com os filhos. Um dia Dona Maira, a mãe, estava cozinhando e Alef se aproximou para observar. “Qual o nome desse?”, ele perguntava apontando para algo, “Rabanete”, “Po quê?”, e a mãe brincava: “Porque ele parece um rabo!”. Alef gargalhava alto deixando sua mãe feliz. “E ête?”, “Cenoura”, “Po quê?”, “Porque é a mulher do Cenor! Bom dia Cenor, bom dia Cenoura!”. E novamente ele ria de maneira tão agradável. “E ête, mamãe?”, “Pepino”, “Po quê?”, “Pois é um pé em forma de pino!”. Desta vez até a mãe riu muito, mas parou quando percebeu que seu filho já não estava mais rindo. “O que foi, filho?”, “Mamãe, po que eu


chamo Alef?”. Então ela continuou cortando os legumes e tenta se lembrar quando escolheu este nome, mas sua memória falhou então, apenas para não decepcionar o filho, respondeu: “Por que Alef é o nome mais bonito desse mundo, assim como meu filhinho”, mas ele franziu as sobrancelhas e respondeu: “Não... É poque eu sou o pimêio... E o último”. A mãe soltou a faca e suas pernas vacilaram. A faca caiu fazendo um ruído estridente, mas ela só se preocupou em se sentar. “Mamãe, ta tudo bem? Mamãe?”. E ela apenas olhava o filho, com receio no coração. Nas noites seguintes foi a vez da mãe ter sonhos perturbadores, enquanto não teve coragem de contar ao pai. E, quando ela o fez, ele não se surpreendeu: “Tranqüilize-se, querida, ele é apenas uma criança. Mas se algo de estranho acontecer novamente, não deixe de me contar de pronto, para que você não fique tensa”. Mas não demorou até que o pai começasse a presenciar acontecimentos estranhos. Certa feita, numa comemoração, Maira chamou algumas amigas para relembrar a época de escola. Alef estava dormindo e quando acordou veio cambaleando até a sala, ainda perdido pelo sono. Logo buscou mãe que o acolheu no colo com muito carinho, sensibilizando as colegas que soltavam interjeições amáveis. “Oi filho... Dormiu bem?”, ele assentiu, mas continuou com os olhinhos fechados, ainda ressonando. Imaginando que o filho fosse voltar a dormir, continuou a conversa: “Do que falávamos mesmo? Ah! Da professora maluca... Gente, o que tinha aquela mulher? Ela já morreu?”, “Ai, nem sei”, respondeu a amiga “Mas se morreu, foi para o céu, pois ela sofreu horrores com nossa sala”, continuou a outra. Então o pai, Anderson, se aproximou, trazendo a jarra de suco e os copos e perguntou: “Acho que você já me falou dela, como era mesmo seu nome?”, e a mãe respondeu: “Bete”. Alef arregalou os olhos na hora e todos ficaram um pouco assustados, mas começaram a rir, pois ele fez


uma carinha muito engraçadinha. “Agora ele acordou mesmo”, disse uma amiga, mas quase a interrompendo ele disse “Bete é minha imã”, e todos riram novamente. “Não filho, é Regina. Se confundiu?”, “Não... Bete é minha imã. Regina não”, “Não fale assim filho, que falta de respeito”, disse o pai, mas Maira já estava preocupada, lembrando-se da outra noite. “Tudo bem, filho”, disse a mãe, tentando apaziguá-lo em vão. “Eu amo muito a Bete. Ela ta sempe comigo”. Todos ficaram um pouco desconcertados e procuraram não tentar dissuadi-lo, para não prolongar o assunto, pois as amigas perceberam que Maira ficou muito incomodada. Anderson relutou, mas ainda imaginava se tratar apenas de um sonho, ou de uma amiga imaginária. A partir daquele dia, Bete acompanhava Alef em qualquer lugar, pelo menos, era o que ele dizia com freqüência. Bete dormia com ele, almoçava com ele, brincava, corria, assistia televisão, ouvia música e tomava banho com ele. Por vezes os pais o viram conversando, assuntos de criança, como dinossauros, carros, aviões, desenhos, heróis e robôs e isso até os deixava feliz, pois Regina era muito pequena para brincar com ele e onde moravam não havia muitas crianças e ele teria de esperar até começar a escolinha. Até que um dia o pai foi chamá-lo para almoçar e o pegou observando uma bíblia ilustrada. Ele olhava com tanta atenção que o pai não teve coragem de incomodá-lo e ficou apenas espiando pela fresta da porta: “Bete, o que ta esquito aqui?”, ele aguardava um tempo e dizia “Ah... Po que?”, novamente aguardava um tempo e virava algumas páginas. “E ete?”... “Mmm... Eu não lembo disso”... Então virou várias páginas até cair nos salmos, um deles, em especial, é dividido em vinte e duas partes. Ele apontou para o primeiro nome e disse “Alef... Ete sou eu... Bete... Eta é ocê... Gimel... Foi emboia? Dalet... Foi emboia? Het... Teth... Tudo eles?”. Alef começou a choramingar, mas antes que o pai entrasse, ele perguntou a Bete: “Po que só tem eu e ocê agoia?”,


e começou a chorar. O pai entrou, abraçou o filho e deixou que ele chorasse bastante, até que disse: “Você tem muita saudade dos seus irmãos?”, o menino assentiu e disse, “Bete também”, “É ela quem lê a bíblia para você?”, “Não... Só as palavas que eu ainda não lembo”. Os pais passaram a ficar mais preocupados, mas acharam muito cedo para procurar ajuda profissional. Anderson não conseguia localizar Ahmed, o amigo que havia lhes doado a criança, nem pelos consulados, nem pelos colegas. Ele havia desaparecido. No entanto, toda aquela estranheza do menino os iluminava e eles não conseguiam acreditar que poderia ser nocivo para ele ou para outrem. ● 1990 Ele estava quase completando quatro anos quando começou a gostar muito que o pai te contasse histórias, menos da bíblia, pois ele já conhecia e achava que tinha coisas muito tristes que ele não gostava de se lembrar. Certo dia o pai, por curiosidade, resolveu buscar o Alcorão, que estava esquecido entre tantos livros em sua biblioteca particular e começou ler a ele alguns suratas, mas Alef não quis, pois disse que já conhecia. O mesmo aconteceu para o Tora e para o Mahabarata, que acrescentou ser muito violento. Era só o pai começar a ler algumas palavras e o garoto já interrompia e pedia que lesse outros contos, os infantis. Adorava “A Branca de Neve”, “Os Três Porquinhos”, “João e Maria”, mas seu preferido era “Peter Pan”, Anderson e Maira contavam e recontavam essa história e muitas vezes já estavam quase dormindo quando ele os acordava para que continuasse. E certo dia, depois de ter ouvido a história uma centena de vezes ele disse: “Papai... Tenho mesmo virar gente gande?”, “Sim filho, todos nós crescemos um dia”, “Eu não quéio quecer. Eu vou machucar as pessoas”.


O pai se assustou, mas tentou manter a calma: “Todo mundo machuca alguém às vezes, é normal”, “Mas eu vou machucar muita gente... Não me deixa quecer papai”. Alef era uma criança muito feliz, mas nesses momentos parecia carregar um fardo tão grande, maior que o de um adulto que já enfrentou muitas dificuldades na vida. Uma melancolia muito grande o atingia e os pais começaram a considerar a possibilidade de procurar um psicólogo. Nessa mesma época, Regina adoeceu. Tão pequena e tossia sem parar. Os médicos diagnosticaram como uma gripe forte e receitaram os remédios. Mas o sofrimento dela atingiu a família e os deixou muito tristes. Num desses dias de repouso da menina, Maira estava sozinha com as crianças e precisou ir até a cozinha cuidar da comida e pediu: “Alef, cuide de sua irmã por alguns instantes, eu já volto”. Dona Maira foi até a cozinha com o coração partido de ouvir a amada filhinha tossir tanto. Felizmente as pequenas obrigações da cozinha a fizeram esquecer por alguns instantes aquela dor. Quando deu por si, já não podia mais ouvir a tosse da filha. O que a devia deixar tranqüila, apenas a alarmou: “Filho, está tudo bem com Regina? Filho?”. Alef não respondia então Maira correu para o quarto e encontrou a filha dormindo sossegada e respirando com facilidade. Alef nem se importava, estava assistindo desenhos animados. A mãe tocou o peito da filha e percebeu que sua respiração não tinha mais aquele ronco típico e ficou perplexa. Olhou para o filho e não hesitou: “Alef, você fez alguma coisa com Regina?”, “Não mamãe, eu tava quetinho”. Maira suspirou fundo e estava de saída quando ouviu: “Foi Bete que fez...”, “O que ela fez?”, respondeu a mãe sem nada entender “Ela curou a Regina”. Aos prantos a mãe lhe disse: “Então diga a Bete que serei eternamente grata e que a amo como se fosse minha filha também”, “Ela sabe mamãe. E disse que é sua filha também”.


● 1991 Dias e meses passaram e a melancolia de Alef parecia ter diminuído. Ele já não falava tanto de seus irmãos e sua amizade com Bete não atrapalhou sua amizade com Regina, nem com os amiguinhos da escolinha, quando começou a freqüentar. Ele era um garoto muito competitivo, sempre queria ser o primeiro. Não dava muita atenção aos ensinamentos, mas sempre que havia uma lição ele respondia sem pestanejar. A professora e a coordenação ficavam impressionadas com a capacidade dele e atribuíam isso à cultura dos pais, ambos graduados e ainda estudiosos. ● 1993 Os problemas voltaram a aparecer no seu sexto ano de vida quando acordou novamente chorando de madrugada. Dessa vez, mãe e pai foram acudi-lo e ele dizia, aos prantos: “Bete vai embora! Bete vai embora! Não deixem ela ir embora!”. Depois desse dia ele tentava falar com ela que parecia não mais responder. Começou a ficar muito triste. Algumas vezes ele disse que a via, mas era só por alguns instantes, com o canto do olho: ela sorria e sumia quando ele olhava. Quando isso acontecia, sempre chorava e começou a ficar agressivo quando os pais tentaram compensar essa perda, para ele, irreparável. Esse comportamento se estendeu para a escola e ele começou a agredir os coleginhas quando estes o contrariavam. Os pais foram chamados muitas vezes pela coordenação que, decepcionada, acabou convidando-os a tirar o menino da escola e que procurassem tratamento, para ele e para os pais. Chegaram até a alegar que o casal estava se desestruturando e que isso certamente estava atingindo a criança. O que não era verdade: Anderson e Maira tinham seus problemas, mas nunca


deixaram que seus laços afrouxassem a tal ponto. Injuriados, procuraram várias escolas, mas em pouco tempo tinham que tirálo, pois seu comportamento era muito arredio. Deixaram que um tempo ele ficasse apenas em casa e contrataram uma psicopedagoga até que acabasse o ano letivo e ele pudesse voltar à escola. Veio então uma doutora gentil, que aos poucos conseguiu conquistar sua amizade. Ela também criou um profundo afeto pelo menino e passou a freqüentar sua casa quase todos os dias, às vezes, apenas para brincar com ele. Demorou meio ano até que ele conseguisse esquecer Bete e seus irmãos, mas foi muito rápido dada a gravidade da situação. Começou a se relacionar novamente muito bem com os pais, com a irmãzinha e tudo ia muito bem. Parecia que a família teria paz por algum tempo. Alef se tornou mais calmo e paciente, tanto que aceitou muito bem quando a psicóloga disse que passariam a se ver menos e depois, menos ainda e que depois de um tempo talvez não se vissem mais. Ele chorou muito, mas não de mágoa, apenas pela emoção. E mesmo sem que ninguém tivesse lhe avisado, no dia que seria sua última visita ele disse a ela: “Adeus, tia Theodora”.

Gêmeos.Virtuais - Apêndice 1 - A Infância de Alef  

Participação de J.R.Daher na XIII Coletânea Komedi, com um capítulo extra de seu livro, Gêmeos.Virtuais (2008).

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